“OS CORUMBAS” E A ROTINA DO TRABALHO INDUSTRIAL EM ...

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“OS CORUMBAS” E A ROTINA DO TRABALHO INDUSTRIAL EM ...

Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41281“OS CORUMBAS” E A ROTINA DO TRABALHO INDUSTRIAL EMARACAJUMoisés Santos Menezes (FJAV)Gladson de Oliveira Santos (FJAV)INTRODUÇÃOAs primeiras décadas do século XX no Brasil foi um período de consolidaçãode novos padrões políticos, culturais e econômicos. A abolição da escravidão, aproclamação da república, o processo embrionário de insdustrialização foramacontecimentos que determinaram adequações cotidanas ao novo contextosócioeconômico.A implantação das primeiras insdústrias resultou em um processo derecrutamento de mão-de-obra constituída, na maioria das vezes, por indivíduosmigrantes da zona rural. Esse trânsito interregional contribuiu para o crescimento dapopulação urbana, em várias regiões do país, e para a fundação de aglomeradosurbanos destinados à população operária.Esse processo, também vivênciado pela população sergipana, pode serreconstruído através de análises de documentos oficiais de época. Entretanto, taisfontes possibilitam o acesso superficial ao cotidiano da população que vivenciou essaetapa de transição, uma vez que os registros das impressões cotidianas dos operáriosnem sempre foram realizados. Apesar disso, não podemos considerar que tal


Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41282dificuldade constitua uma impossibilidade para a realização de um estudosistemático sobre o tema, basta saber que a literatura desenvolvida por AmandoFontes conseguiu registrar importantes aspectos cotidianos sobre o período.A utilização de textos literários enquanto fonte para a análise do passado éuma metodologia presente na práxis historiográfica, dadas as semelhenças entre aprodução do conhecimento histórico e a elaboração do discurso literário. Oconhecimento histórico faz ressugir, em suas interpretações, facetas do real quepuderam ser recriadas a partir da prática historiográfica, por sua vez calcada elimitada pela realidade histórica-social dos autores, desta forma a articulação entrehistória e literatura possibilita a visualização de elementos que não foram registradospela historiografia tradicional (SANTOS, 2010, p.20). Já literatura promove umareorganização arbitrária da realidade transformando-a em arte (CÂNDIDO, aput:SANTOS, 2010, p.24). Essa transformação acontece no livro “Os Corumbas”,permitindo a elaboração de análises sobre o cotidiano operários das fábricas têxteisde Aracaju das primeiras décadas do século XX.MATÉRIAIS E MÉTODOS


Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41283Para a elaboração desse trabalho foi realizada uma pesquisa bibliográfica decaráter exploratório documental no romance “Os Corumbas” de Amando Fontes,utilizando reflexões autores como Dantas (2004), Fontes (1937), Engels e Marx (2003),Romão (2000) e Santos (2010).RESULTADOS E DISCUSSÃOUm dos Pilares centrais da economia sergipana nas primeiras décadas doséculo XX foi o setor agroexportador açucareiro. Entretanto, a partir de 1913,intensificou-se o processo de implantação de fábricas de tecido. A cidade de Aracaju,em 1934, possuía 49 fábricas, destacando-se as unidades produtoras de tecidos,calçados, bebidas, doces charutos, cigarros e móveis. O desenvolvimento industrialfoi acompanhado pela evolução das cidades de forma desordenada. Em Aracaju, porexemplo, o número de habitantes que em 1890 de 16.336, ampliou-se para 50.564 em1930 (DANTAS 2004, p.55). Essa massa de trabalhadores, em potencial, busc avaemprego nas fábricas que acabavam de serem fundadas.Segundo Romão (2000, p.93) “Entre 1930 e 1935, Sergipe exportouaproximadamente 11.500 toneladas de tecidos de algodão, produzidos em 2.691


Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41284teares, operados por 5.682 operários”. As personagens Albertina, Rozenda, Bela,Caçulinha e Pedro Corumba, filhos de Geraldo e Sá Josefa vivenciam no discursoliterário o cotidiano operário da indústria têxtil. Geraldo e Sá Josefa ao idealizaremuma vida estável nas cidades deixam o ambiente rural para buscar em Aracaju novasoportunidades de crescimento financeiro e familiar. A vida urbana determinou umanova rotina trabalhista para a família dos Corumbas como para diversas outrasvindas de varias localidades diferentes, conforme Fontes:Todos os dias, os seus grandes portões, escancarados, tragavam para maisde três milhares de operários. Mais de três milhares... gente de tôdas ascôres,de vários tipos, lembrando as raças mais diversas. Poucos homensfortes, Mulheres feias, quase todas. Eram praieiros de S. Cristovão eItaporanga; camponeses do Vaza-Barris, da Cotinguiba; sertanejos deItabaiana e das Caatingas - que, num dia ou noutro, tangidos pela maisáspera miséria, haviam desertado de seus lares, na esperança de uma vidamelhor pelas cidades... (FONTES, 1937, p.19).Os operários das diversas fábricas de Aracaju estavam submetidos a condiçõesde trabalho desumanas e exploratórias caracterizadas por doenças relacionadas aoambiente de trabalho e excessiva carga horária de trabalho, como podemos notar notexto a seguir:Se as condições de trabalho, propriamente ditas, eram terríveis, as condiçõessanitárias também não ficavam atrás. As fábricas não possuíam banheiros,sanitários, bebedouros, nem mesmo locais providos de agua e sabão para selavarem as mãos de forma higiênica. Os operários eram obrigados atrabalhar em ambientes quentes, mal ventilados, e não tinham acesso,sequer, a bebedouros para matarem a sede... (ROMÃO, 2000, p. 95).


Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41285Inexistia uma preocupação com a integridade dos funcionários, tal situaçãopode exemplificada pelo caso de Clarinha, uma rapariga de treze anos quetrabalhava doente para sustentar a mãe, ganhando quatrocentos réis por dia. QuandoAlbertina percebe a sua fragilidade e incapacidade para o trabalho, pede para que amesma volte para casa, visando sua melhora. Clarinha responde: “-Não, Não! Ela mebate! Diz que eu tenho é preguiça.” (FONTES, 1937, p22).A cristalização de salários extremamente baixos fazia com que o operárioobtivesse, com seu trabalho, apenas o suficiente para subsistir miseravelmenteenquanto um instrumento voltado apenas para a reprodução de capital industrial(MARX, 2003, p.40). Essa situação é visível em frases da personagem Rozenda que seexpressa de forma revoltosa e triste, em sentir-se explorada e não reconhecida peloseu trabalho na fábrica: “Pois eu tenho é ódio. Trabalhar que nem formiga e viverassim esmolambada...” (FONTES, 1937, p.16).Longos expedientes de trabalho eram constantes, estendendo-se inclusive aoperíodo noturno, sem modificações nas remunerações. “Proveio o desacordo dehaveres as fábricas estabelecido o trabalho noturno, sem, entretanto, aumentar opreço dos salários” (FONTES. 1971.p.60). A indignação com essa situação ficaevidente no discurso de Celestino e Zé Afonso que se sentem injustiçados pela faltada uma diferenciação remuneratória entre os turnos diurno e noturno:


Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41286-Você não avalia, Zé Afonso! O homem está positivamente indignado. Dizque nunca viu uma exploração igual a essa! Querer que se troque a noitepelo dia sem a menor compensação! Estou certo que, se a lei permitisse,mandaria chamar os gerentes na Polícia e os obrigaria a pagar o serviço danoite pelo dôbro, como é justo. Agorinha mesmo mandou me procurar edisse: “Celestino sei que é um amigo e protetor dos operários. Eu tambémsou. Sempre fui. Vamos prestigiá-los de forma decidida nessa questão, atéque êles vençam totalmente.” (FONTES 1971, p.64).O trabalho na fábrica impunha aos operários uma subordinação moral aospatrões e superiores hierárquicos, determinada pelo fantasma do desemprego. Isso épercebido na personagem Albertina que ao chegar em casa revoltada pelosfrequentes assédios de seus contramestre de seção. Ao decidir não retornar ao setorde trabalho foi censurada por sua mãe:-Não diga isto, menina. Pobre não pode sustentar desses caprichos [...]. Se eutivesse recursos, nenhuma de vocês estava lá [...]. Não diga assim [...].Ninguém sabe das voltas deste mundo [....]. Quem não tem dinheiro, nãopode ter soberba; ou se sujeita, ou vai passar misérias maiores (FONTES,1937, p. 26).Muitas das vezes não aceitar as propostas de seus chefes acarretava emretaliações impostas às operárias, conforme o depoimento de Dona Joaninha Exoperáriada Sergipe Industrial: “Eram botadas pra fora. A operária é quem sofre,pegavam a castigar a que não aguentava caia fora e outras que iam para outro contramestre” (ROMÃO, 2000. p, 98).A indignação de Albertina durou pouco, percebendo que sua situaçãoeconômica indicava a necessidade de permanência na fábrica, tendo em vista àsdificuldades financeiras da família que sobrepunha valores econômicos aos morais:


Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41287A gente ficou pensando que tem mesmo uma sorte triste. Contra ela não háremédio que sirva, porque a môça que trabalha numa fábrica pode ser boa edireita como fôr, que não adianta. É sempre tratada de resto, com desprezo...Todos torcem a boca pra um lado e vão dizendo: É uma operária...Como setôdas fossem iguais!... (FONTES 1971, pp140-141.)Segundo Romão os operários das fábricas têxteis em Aracaju trabalhavammuito e sobre condições terríveis como salários muito baixos, moradia insalubres ealimentação inadequada, estando sujeitos a várias doenças como tuberculose entreoutras (ROMÂO, 2000 p102).Esta realidade pode ser ilustrada a partir dapersonagem Bela que ao ser inserida na fábrica acaba agravando ainda mais seuproblema de saúde chegando a óbito:Bela deixou o serviço ás duas horas e dirigiu-se para casa, queixando-se defortes dores pelo corpo, as mãos e as faces escaldantes, uma tosse sêca eimpertinente a tortura-la [...] a doente, porem, não melhorava, Dóiam-lhe ascostas, a cabeça, o peito todo. Põs-se a gemer baixinho. (FONTES, 1971,p.80).Doenças relacionadas a fatores laborais, acidentes de trabalho, falta deindenizações eram comuns. A almejada melhoria de vida buscada na vida urbananão se concretizava. Tal desejo impulsionou Albertina a fugir de casa para morarcom Fontoura deixando seus pais e irmão sem nenhum tipo de explicação:


Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41288Ela havia deixado a casa de seus pais para sair em companhia de um ricaço.Certo, entre eles nunca teria sido levantada a hipótese de algum dia secasarem. O interesse, portanto, apenas o desejo de se vestir melhor, trabalharmenos, tinham-na arremessado aos braços dele...” (FONTES,1971, p 123.).Zé Afonso constitui um contraponto ao comportamento individualista, umavez que desejava “A melhoria geral dos ordenados, a diminuição das horas deserviços, tudo que, enfim pudesse dar ao operário de Sergipe o conforto e o bemestar-estar que o trabalhador do Rio e de S. Paulo já gozava” (FONTES, 1971 pp.56-57). Já Pedro Corumbas ansiava por mudanças nas estruturas capitalistas em buscada dignidade nas condições de trabalho.Segundo Fontes, mesmo com toda indignação da classe operária pela ausênciade cumprimentos de direitos, esta não conseguia exercer grande pressão devido aogrande número de desempregados, exército industrial de reserva, quecorrespondiam a possíveis substitutos de operários demitidos:Não se arrecearam os patrões antes a ameaça. Êles sabiam que havia muitamiséria entre os humildes. As colheitas tinhas sido más por toda a parte. Dointerior, todos os dias, chegavam famílias e famílias, em busca de trabalho.Ganhariam a partida sem esforço. E declararam, então, enèrgicamente, “queiriam trabalhar durante a noite com o mesmo salário que pagavam pelo dia.Os operários escalados que falassem seriam sumàriamente despedidos”.(FONTES, 1971, p.61).


CONSIDERAÇÕES FINAISAnais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-41289A busca por melhorias de vida dos Corumbas foi o motivo principal para suasaída do campo em direção à cidade, porém este objetivo não obteve êxito. A famíliaconviveu com a precarização do trabalho nas fábricas têxtis de Aracaju, adesvalorização da mão de obra, baixos salários, ausência de estruturas nas fábricas eambientes insalubres.Muitos personagens como Rozenda, Albertina buscaram uma saída alternativapara a exploração fabril em que estavam inseridos.Os Corumbas vivenciaramliterariamente dramas cotidianos comuns à população que constantemente saía dazona rural em direção as grandes cidades.A obra “Os Corumbas” possibilita a realização de interpretações sobrequestões sociais envolvendo operários no início do século XX em Aracaju, a partirdas diversas formasadaptativas de indivíduos procedentes de sociedadestradicionais a valores referentes a um sistema capitalista altamente contraditório.


Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e CulturaSão Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-412810REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASDANTAS, Ibarê: História de Sergipe República (1989 -200). Rio de Janeiro: EdTempo Brasileiro, 2004.ENGELS, Friedrich e MARX, Karl: O Manifesto Comunista. São Paulo: 2003.FONTES, Amando: Os Corumbas; Rio de Janeiro: Ed José Olympio. 1937.ROMÃO, Frederico Lisbôa: Na Trama da História o Movimento Operário deSergipe 1871 e 1935. Aracaju: Ed Andrade LTDA.SANTOS, Gladson de Oliveira: José Lins de Rego e a Modernização da economiaAçucareira Nordestina. Aracaju: Universidade Tiradentes, 2010.

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