Revista Dr Plinio 183

revistadp

Junho de 2013

Publicação Mensal Ano XVI - Nº 183 Junho de 2013

Um reflexo do

Sagrado Coração de Jesus


São João Batista -

Catedral de Notre-

Dame, Paris (França)

Gustavo Kralj

Uma das facetas do Imaculado Coração de Maria

U

2

m dos meios bonitos de conhecermos o espírito

e o Imaculado Coração de Maria consiste

em estudar a vida de São João Batista. Por

ter sido ele santificado no seio de Santa Isabel

pela palavra de Nossa Senhora, vê-se que Ela

comunicou-lhe ali, misteriosamente, o espírito

d’Ela. E tudo quanto o Precursor realizou em

sua vida era uma decorrência dessa graça inicial

recebida e constantemente intensificada, pelos

rogos d’Ela.

Podemos, então, ver São João Batista enquanto

asceta austero, pregador do Cordeiro de Deus que

viria, e como herói que enfrenta Herodes e morre

como mártir, sublime de grandeza e de serenidade.

É uma das facetas do espírito de Nossa Senhora.

(Extraído de conferência de 11/7/1967)


Sumário

Publicação Mensal Ano XVI - Nº 183 Junho de 2013

Ano XVI - Nº 183 Junho de 2013

Um reflexo do

Sagrado Coração de Jesus

Na capa, Dona

Lucilia aos 91 anos.

Foto: João S. C. Dias

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

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Serviço de Atendimento

ao Assinante

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Editorial

4 Um reflexo do Sagrado Coração de Jesus

Dona Lucilia

6 A devoção de Dona Lucilia ao

Sagrado Coração de Jesus

Gesta marial de um varão católico

10 Solução para todos os problemas - I

Dr. Plinio comenta...

14 Convívio entre as almas no

Céu empíreo - I

O pensamento filosófico de Dr. Plinio

20 Inocência e admiração desinteressada - II

Calendário dos Santos

24 Santos de Junho

Hagiografia

26 Santa Clotilde, uma admirável flor-de-lis

Luzes da Civilização Cristã

30 Fontainebleau - esplendor, riqueza

e simplicidade - II

Última página

36 Nossa Senhora do Sagrado Coração

3


Editorial

Um reflexo do Sagrado

Coração de Jesus

“M

amãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa

Igreja Católica!”, foi a exclamação proferida por Dr. Plinio, talvez no momento mais

pungente de sua longa existência, junto ao corpo de Dona Lucilia que acabava de falecer.

Não há palavras que exprimam a dor da irremediável separação do filho modelar de sua extremosa

mãe, unidos por um laço de afeto cuja profundidade não podemos medir.

Desde a mais tenra infância de seus filhos, procurou Dona Lucilia inculcar nessas inocentes almas

a devoção ao Sagrado Coração, ensinando-lhes a apontarem onde estava a imagem de Jesus antes

mesmo de saberem dizer “papai” e “mamãe”. Transmitiu-lhes a forma de piedade que mais a atraía,

na consideração da infinita e incondicional bondade simbolizada naquele Coração transpassado pela

lança de Longinos, cercado de espinhos e ardendo de amor pelos homens. Na fisionomia triste e no

olhar bondoso das imagens de Nosso Senhor, Dr. Plinio discernia uma pergunta: “Será que você levará

a sua torpeza e sua maldade a tal ponto que, vendo-Me nessa doçura e nessa atitude de perdão,

você ainda continua endurecido?”

A inocência de alma de Dona Lucilia, que foi uma autêntica personificação do amor materno,

sentia consonância com essa bondade do Homem-Deus levada a extremos inimagináveis. “Vendo-a

rezar junto à imagem do Sagrado Coração de Jesus — comentou Dr. Plinio — eu notava que

a alma dela se abria de um modo pleno. E a ideia que prevalecia era exatamente a de estar n’Ele

o píncaro das perfeições que havia nela, e ser Ele o auge daquilo para o qual ela estava orientada.

Então a minha facilidade muito maior em compreender o que queria dizer o Sagrado Coração.

Quando atinei que a harmonia existente na alma de mamãe vinha do Sagrado Coração de

Jesus, aí compreendi tudo. Entendi que a Religião era o centro, e Nosso Senhor o ponto de partida

de tudo.”

Dr. Plinio, desde muito menino, percebia emanar de sua extremosa mãe uma doçura, uma acolhida,

uma retidão, uma firmeza e tantas outras qualidades morais que faziam dela um todo muito harmônico

de virtudes. E essa harmonia acompanhada de sabedoria, de decisão, de maturidade e de

constância, o deslumbrava.

Enfim, contemplando e admirando a alma de Dona Lucilia, Dr. Plinio mais facilmente

compreendeu e amou Nosso Senhor e a Santa Igreja Católica.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


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Capítulo IV

do casamento

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festa.

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129

Livraria Editrice Vaticana

publica biografia de

Dona Lucilia

A consideração da vida de Dona Lucilia Ribeiro dos Santos

Corrêa de Oliveira, mãe de Dr. Plinio, tem sido de grande

proveito espiritual para todas as almas que tomam contato

com sua bondade exímia e envolvente.

N

o maravilhoso caleidoscópio dos bem-aventurados, inúmeras são as vias da Providência

para as almas. Pessoas há cujas virtudes são reconhecidas e aclamadas em vida, recebendo

elas veneração geral. Outras, porém, trilham o caminho do apagamento nesta terra,

sendo pouco compreendidas até pelos mais próximos. É o que aconteceu com Dona Lucilia, cuja benéfica

ação sobre um grande número de almas começou apenas depois de sua morte.

Com a finalidade de divulgar a vida desta dama de qualidades incomuns, a Livraria Editrice Vaticana

acaba de publicar, em quatro línguas — português, italiano, inglês e espanhol —, a biografia escrita

por Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP.

Profusamente ilustrada por fotografias que refletem sua fisionomia transbordante de doçura e de

benquerença incondicional, os inúmeros fatos narrados nas 670 páginas do volume revelam como

é possível executar as tarefas cotidianas com elevação de alma, reportando tudo ao sobrenatural e a

Deus Nosso Senhor. Como diz São João da Cruz, no final da vida seremos julgados segundo o amor

a Deus, e não de acordo com a exterioridade de nossas obras.

as mãos] trata-se de uma autêntica e

lia, que pode equiparar-se às melhores

hoje, no mundo inteiro. Sobretudo tem

ndência epistolar entre ela e seus filhos

Dona Lucilia diz com freqüência coisas

idade tão elevada que o leitor é tomado

roduz a leitura do inimitável epistolário

vo a formular muito concretamente uma

a e espontânea, da leitura desta maraviergunta

concreta é esta: foi Dona Lucilia

a extensão da palavra? Ou, de outra forçaram

o grau heróico que se requer indisreconhecido

pela Igreja com uma beatifiente

históricos que nos oferece com grande

amos apresentando, atrevo-me a responder

enor vacilação.

rreverente pretensão de adiantar-me ao juíme

cabe como próprio é dar uma opinião

te falível. A Igreja nunca erra, nós podemos

à Santa Igreja Católica, Apostólica e Romada

verdade. Mas a nós nos incumbe o doce

pedir humildemente à Divina Providência

entranhada petição, para a glória de Deus e

ertos do prefácio de Fr. Antonio Royo Marín, OP)

cilia é uma publicação

acional em quatro lína

Editrice Vaticana e do

n Sapientiæ dos Arautos

Mons. João

Scognamiglio

Clá Dias, ep

Dona Lucilia

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, ep

Dona Lucilia

Em pé, Lucilia junto aos irmãos

Gabriel, Antônio e Eponina

Capítulo II

Capítulo II

Mons. João Scognamiglio

Clá Dias, EP, é natural de

São Paulo, Brasil. Nasceu a

15 de agosto de 1939, sendo

filho de Antonio Clá Díaz

e de Annitta Scognamiglio

Clá Díaz.

Cursou Direito na Faculdade

do Largo de São Francisco,

aprofundou seus estudos

teológicos com grandes

catedráticos de Salamanca,

da Ordem Dominicana, e

obteve láureas em Filosofia,

Teologia, Psicologia e

Humanidades em diversas

universidades, sendo doutorado

em Direito Canônico

pela Pontifícia Universidade

São Tomás de Aquino (Angelicum)

de Roma e em Teologia

pela Universidad Pontificia

Bolivariana, de Medellín

(Colômbia).

Mons. João Clá é fundador

e atual Superior-Geral

dos Arautos do Evangelho e

Nascimento e primeira infância;

adolescência no então

longínquo interior

E

No sa Senhora foi sua Madrinha

Aos vinte nove dias do mez de junho de mil

oitocentos e setenta e seis, nesta matriz, baptizei

e puz o santos oleos a Lucilia, nascid a vinte

e dois de Abril ultimo, filha legitima do doutor

Antonio Ribeiro dos Sanctos e de dona Gabriela

dos Sanctos Ribeiro: forão padrinhos, a Virgem

Senhora da Penha e doutor Olympio Pinheiro

de Lemos, todos desta Parochia.

O Vigario: Angelo Alves d’Assumpção.

Capítulo IV

sa é a ata do batismo de Dona Lucilia que se encontra no

livro de registros paroquiais da Matriz da cidade de Pirassununga.

Seguindo piedoso costume, seus pais resolveram

fazê-la afilhada da própria Rainha dos Céus. Dona Lucilia conservou,

durante sua longa vida, uma devoção toda de afeto e respeito a sua

Madrinha, e várias vezes peregrinou ao Santuário de No sa Senhora

da Penha, em São Paulo, a fim de Lhe confiar o segredos de seu terno

coração.

Descendente de Senhores de Engenho

Pertencente a ilustre estirpe de Senhores

de Engenho, Dr. João Paulo recém

chegara de Pernambuco. Hábil advogado,

dotado de grande inteligência

e cultura, suas finas maneiras e agradável

prosa impressionaram de modo

favorável a Dr. Antônio e Dona

Gabriela, que por isso decidiram

conceder-lhe a mão da filha.

Seu tio, o famoso Conselheiro

João Alfredo Corrêa de

Oliveira, fora das mais eminentes

personalidades da última fase do

Império. Após ocupar sucessivamente

os cargos de Presidente das

Províncias 4 do Pará e de São Paulo,

e Ministro da Justiça no gabinete

do Visconde do Rio Branco, chegou a presidir o Conselho de

Ministros do Império. Foi ele quem referendou a Lei Áurea, de libertação

dos escravos. Já no período republicano chefiou, quase sem

interrupções, o Partido Monarquista. Tais circunstâncias indicam que,

assim como os Ribeiro dos Santos, a família do esposo de Dona Lucilia

tinha fortes vínculos com a tradição imperial.

Após um passado de fartura, proporcionada pela exportação de

açúcar, a maior parte das famílias tradicionais de Pernambuco, entre

as quais os Corrêa de Oliveira, viu-se bastant empobrecida. Razão

disso foi a invenção do açúcar de beterraba por técnicos alemães, o

que levou os países europeus, no último quartel do século XIX, a cessarem

quase por completo a importação do produto.

Quando criança, Dr. João Paulo aind alcançara o fausto e a

movimentação algo palaciana da casa dos Corrêa de Oliveira. Para

animar os encontros familiares havia até um “bobo da corte”, chamado

Marcelo, o qual tinha fama de ser bem engraçado.

Esse Pernambuco de alguns luzimentos do passado não ficou

sem conhecer a Dona Lucilia .

Conselheiro João Alfredo

4) Título que co responde atualmente ao de Governador de Estado.

Recordações de Pernambuco

Fundação do lar

Desde os remotos tempos coloniais, Pernambuco desempenhara

no Nordeste, ainda que em menores proporções, papel semelhante ao de

São Paulo no Centro-Sul. Mais no que diz respeito ao modo de encarar a

vida do que do ponto de vista econômico. Seus habitantes e em especial

suas elite sobre saíam por notável senso de governo, pela seriedade do

trato, pelo estilo de relações a um tempo senhorial e ameno, no qual se

podia distinguir uma graciosa nota francesa dentro de um contexto profundamente

brasileiro. A energia e vitalidade características dos grandes

feitos pernambucanos ficaram imortalmente consignadas na epopéia de

Guararapes, momento decisivo no qual o Brasil tomou consciência de

seu futuro como nação formada em torno de uma só Fé e uma só língua.

Dona Lucilia, na viagem de lua-de-mel à te ra natal de seu

esposo, terá d enfrentar uma circunstância penosa, visto não estar

acostumad a longos percursos marítimos com o do Rio a Recife.

Entretanto, de acordo com a tendência em extremo benévola de seu

espírito, sua atenção não deixará passar despercebido nada do que encontrar

de atraente ao longo do caminho.

A penúltima etapa do trajeto era Goiana, pitoresca cidade situada

nos confins de Pernambuco com a Paraíba. Não distante do litoral,

Aspectos de Recife, a “Veneza brasileira”

Capítulo IV

Dona Lucilia pouco antes

Fundação do lar

D

Nas mãos de Deus, a escolha da vocação

Capítulo V

elineava-se no interior de Lucilia, com traços cada vez

mais vincados, durante longas horas de contemplação na

quietude, entremeadas de oração vocal, uma aspiração à

vida religiosa. 1 Entretanto, acima de sua virtuosa propensão ao elevado

e ao sublime, estava a robusta determinação de cumprir a vontade

de Deus, ainda que à custa de refrear seus bons movimentos de alma.

Pronta a seguir a qualquer momento, por mais que lhe custa se, a voz

do Espírito Santo, tinha por certo que esta se manifestava muitas vezes

através dos conselhos ou ordens de seu querido pai.

No entardecer de certo dia, Dr. Antônio, com sua característica

paternalidade, abordou a filha para tratar do delicado tema do matrimônio.

Ponderou-lhe que os anos iam pa sando e ela co ria o risco de

transformar-se em tia solteirona, em torno da qual os sobrinhos fazem

Claro estava que Dr. Antônio, como bom pai, não quereria forçar

uma decisão de Lucilia pelo casamento. Ne sa mesma ocasião,

contou à filha que certo amigo, Dr. João Procópio de Carvalho, lhe

apresentara um jovem advogado, Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira,

descendente de ilustre família de Pernambuco, muito fino e inteligente.

Considerava-o, por tais motivos, o esposo mais conveniente, ressalvando

entretanto caber a última palavra somente a ela.

Com a fisionomia sempre meiga e afetuosa, Dona Lucilia em nada

se alterou diante da sugestão paterna. Era uma nova manifestação

daquela temperança estável que já ia atingindo seu pleno florescer.

1) Lucilia chegou mesmo a cogitar em seu ingre so numa ordem religiosa. Porém a

escolha não incidiu sobre o Mosteiro da Luz, de cuja igreja tanto gostava e onde

havia recebido inúmeras graças. Havia atrás do Palácio dos Campos Elíseos

um convento onde vivia uma freira qu ela conhecia, pertencente à aristocracia

paulista e chegada à família Ribeiro dos Santos. Em sua candura de alma, Lucilia

imaginava a vida religiosa como um requinte da vida de família. Poderia então, às

tardes, cumpridas as obrigações do dia, ficar conversando com aquela irmã sobre

as respectivas famílias e amizad existent entr estas. Assim — como contaria

futuramente a seu filho — tendo optado por e se convento, expôs um dia seus íntimos

anseios a seu venerado pai.

Dona Lucilia

Acima: lembrança oferecida por

Dr. Bier a Dona Lucilia; à direita:

Prof. Adolpho Lindenberg, esposo de Dona Yayá

Havendo-s então difundido

pelo mundo a boa nova do êxito

alcançado na Alemanha pelo Prof.

Dr. August Karl Bier, médico particular

do Kaiser, numa extração

de vesícula biliar, 3 a grande estima

dos parentes de Dona Lucilia por

ela levou-os a não poupar esforços

para fazê-la chegar até e se

famoso especialista.

Entre os que acompanhariam não figuravam apena seu esposo

e filhos, mas também irmãos, cunhados e sobrinhos, e sobretudo

sua mãe, Dona Gabriela.

Uma penosa viagem

Capítulo VI

No Carnaval, dois pequenos marqueses

Quão recatados eram aqueles festejos ca regados de pitoresco

e de alegria, dos idos de 1915, contrariamente aos de hoje, nos quais

imperam o frenesi e a imoralidade!

Uma das principais distrações eram os famosos corsos, tradicionais

desfiles de ca ros nos quais iam pessoas fantasiadas. Eram três os

corsos: o da Avenida Paulista, o

do Centro — “corso do Triângulo”

— e o do Brás. No primeiro

— mais representativo, por percorre

ruas tidas como mais aristocráticas

na São Paulo de então

— os automóveis subiam a Avenida

Angélica, entravam na Paulista

e desciam pela Brigadeiro Luís

Antônio até o Largo de São Francisco,

retornando em sentido inverso

ao ponto de partida. A sim

se formavam duas filas paralelas

de automóvei se deslocando em

direções opostas, o que dava ocasião

a que os conhecido se cumprimenta

sem no percurso.

Ao longo do trajeto, as residências,

seus parques e jardins

eram enfeitados com lâmpadas

multicolores, e, junto aos muros,

montavam-se pequenos palanques

par as famílias verem passar

o corso.

As fantasias procuravam

manifestar mais o bom gosto do

que o desejo de provocar hilaridade

e fazer pilhérias. Imoralidade,

nem pensar! Enfim, era

um carnaval bem paulista, grave,

familiar e aristocrático, no qual a

mentalidade otimista, difundida

pouco depois pelo cinema americano,

ainda não havia entrado.

Um trem os levaria até Santos, de onde iriam de navio ao porto

do Rio de Janeiro, para ali embarca rumo à Europa num confortável

transatlântico alemão, em 11 de junho de 1912. 4

Por um esmerado desejo de perfeição, Dona Lucilia, prevendo

uma longa estadia no exterior, chamou a si os preparativos de viagem,

apesar de seu estado de saúde.

3) Lendo uma revista alemã, o Prof. Adolpho Lindenberg, cunhado de Dona Lucilia, encontrou

o relato de tão grande sucesso, obtido por Dr. Bier. Como constava tratar-se

da primeira tentativa realizada com êxito em matéria tão delicada, o Prof. Lindenberg,

também médico, imediatamente enviou uma carta ao eminente cirurgião germânico,

descrevendo o estado de Dona Lucilia, a fim de encaminhar uma po sível operação.

4) O Hohenstaufen, da companhia Hamburg-Amerika Linie.

Rosée fantasiada de marquesa

Viagem à Europa

Antes mesmo de deixar o lar, no próprio dia da partida, foi tomada

por um ace so de violentas dores, que a obrigaram a permanece

recostada durante boa parte do trajeto de trem até Santos. Embora

sofre se muito, inclusive no percurso até o Rio de Janeiro, não

perdeu, um instante sequer, sua invariável e virtuosa serenidade de

alma, o que lhe proporcionou contemplar o deslumbrante panorama

com o qual Deus brindou aquela cidade.

Hospedaram-se todos no Hotel dos Estrangeiros, um dos primeiros

da então Capital Federal, à espera de partirem para a Alemanha.

Singrand os mares, rumo ao Velho Continente

Chegando ao porto, no dia do embarque, Dona Lucilia sen tiuse

tão mal que, contorcendo-se de dor, teve de subir a bordo do transatlântico

ca regada pelo esposo e por um cunhado, diante dos olhos

penalizados de seus filhos.

O vapor levanta âncoras. Enquanto se vai distanciando da terra

firme, todos os pa sageiro se postam nos bordos do tombadilho ou

se reclinam confortavelmente em chaises longues e assistem ao belo e

emocionante espetáculo da partida.

Dona Lucilia logo começ a sentir, em seu debilitad organismo,

os efeitos de um balouçar marítimo que só poderi agravar seus

males. Deitada em seu camarote, rez ao Sagrado Coração de Jesus,

implorando graças para que, segundo o divino modelo, com paciência

e virtude suporte todos os incômodos de tão longa trave sia.

Quando a embarcação, após rumar em direção à ba ra, está

prestes a ganhar o oceano, alguns parentes descem à cabine de Dona

Educação dos filhos

Para as pessoas daquele tempo,

alegria não era sinônimo de gargalhada,

embora o riso tive se

seu discreto papel na vida.

Dona Lucilia nunca deixava

de mandar fazer fantasias para

os filhos. Ela mesma as planejava,

procurando apresentar personagens

míticos, como os das “Mil e

uma Noites” — marajás, gue reiros

gregos ou romanos, potentados

persas, princesas cobertas de

jóias (falsas é claro) — de preferência

a personagens burlescos,

mas que também não faltavam:

pie rots, arlequins, trovadores e

outros tantos. Às veze se inspirava

em trajes franceses do Ancien

Régime.

Num dos anos ela fantasiou

Rosée e noutro, Plinio, de nobres

do século XV I, procurando, nos

mínimos detalhes, aproximar-se

o mais possível da realidade. Não

s empenhav apenas na confecção

das roupas, feitas de tecidos

importados de boa qualidade,

mas sobretudo em que eles tomassem

atitude condizente com

o traje.

O menino, de cabeleira

empoada, chapéu de dois bicos,

rendas nos punhos, tomava o aspecto

distinto e requintado de um

marquês; a menina, de saia toda rendada e toucado de marquesa, fazia

elegantes reverências.

Certamente, enquanto andavam com aqueles belos trajes, as

criança se lembravam mais particularmente dos personagens daquelas

maravilhosas histórias de Dumas contadas por Dona Lucilia .

A família Ribeiro dos Santos embarcou para a Europa no transatlântico Hohenstaufen

Plinio fantasiado de marquês

Archivfoto Hapag Loyd (Hamburgo, Alemanha)

L.E.V.

LIBRERIA EDITRICE VATICANA

Uma biografia de Dona Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira,

escrita por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, e editada pela Libreria Editrice Vaticana.

Pedidos pelo telefone (11) 2971-9040, ou pelo Fax: (11) 2971-9067

5


Dona Lucilia

A devoção de Dona Lucilia

ao Sagrado Cora

As imagens de Nosso Senhor, junto às quais Dona Lucilia rezava

constantemente, tinham como modelo o Santo Sudário de Turim.

Eram profundamente sérias, tristes, plenas de grandeza e, no olhar,

exprimiam a imensidade do amor do Redentor para com os homens. A

piedade dela se exercia em função de Nosso Senhor visto dessa forma.

Atendendo ao pedido que me fizeram, explicarei

qual era a noção, a ideia, que mamãe tinha a

respeito do Sagrado Coração de Jesus, e o que

Este representou para ela.

O Santo Sudário, padrão perfeito

das imagens do Sagrado Coração de Jesus

No tempo de Pio IX, a Igreja chegou a ter um movimento

bem desenvolvido no que diz respeito à devoção

ao Sagrado Coração de Jesus. Esse movimento continuou

em algo na época de Leão XIII, e depois reviveu

ainda mais no tempo de São Pio X.

Essa devoção era incrementada, sobretudo, pelo

Apostolado da Oração, grande organização dos padres

jesuítas, que abarcava o mundo inteiro. E a ideia que o

Apostolado da Oração apresentava do Sagrado Coração

de Jesus era expressa, até certo ponto, pelas estampas

e imagens daquele tempo, as quais naturalmente tinham

diferenças fisionômicas — porque não há um modelo

oficial, e cada artista concebe a figura de Jesus mais

ou menos como entende. Mas as imagens de Nosso Senhor

do século XVIII e épocas anteriores são menos parecidas

com as do final do século XIX, que tomaram como

modelo o Santo Sudário, o padrão ideal, perfeito, objetivo.

Estas últimas eram inteiramente coerentes com o que

seria Nosso Senhor gladífero 1 . Quer dizer, um homem

em luta contínua contra o mal, nas suas horas de bondade,

seria bondoso sem diminuir o seu espírito combativo;

e um homem verdadeiramente afável, nas horas de

luta seria gladífero. De maneira que, embora não apresentassem

diretamente Jesus enquanto gladífero, as imagens

davam, por assim dizer, uma pista de voo para se

chegar até o gladífero.

Recusa à mentalidade do século XX

Dona Lucilia formou seu espírito segundo essa concepção.

Ela era do tempo de Santa Teresinha do Menino

Jesus, portanto século XIX largamente; e morreu, graças

a Deus, bastante idosa, mas quase não entrou no século

XX. Vamos dizer que o século XX, depois de aproximadamente

1930, ela não acompanhou; e antes disso ela entrou

para recusar. É claro que o fato de ela não ter acompanhado,

após 1930, é uma forma de recusa também.

Dessa forma, sendo Nosso Senhor bem simbolizado,

mamãe tinha uma boa ideia d’Ele. E a imagem que está

no oratório dela exprime adequadamente o que o conjunto

das imagens católicas, no fluxo da devoção ao Sagrado

Coração de Jesus no século XIX, apresentava. Dona

Lucilia tinha grande devoção por aquela imagem; e

também pela que está no salão azul 2 , feita de alabastro,

a qual é inteiramente da escola da imagem que se encontra

no oratório de mamãe. Então a ideia de Nosso Senhor

era representada por essas imagens, muito parecidas

com o Santo Sudário.

Imagens sérias, repletas de doçura

Essas imagens apresentam Nosso Senhor enormemente

sério, enormemente triste e enormemente grande.

A atitude do Redentor é de uma seriedade triste, perto

da qual o pecador se sente pequenino. E Ele imen-

6


ção de Jesus

so, não pela estatura física, mas pelo porte moral, perto

do qual qualquer um se sentiria pequeno. Porte moral

feito de altíssimas cogitações. Realmente Ele era

uma só Pessoa, mas na qual havia União Hipostática

3 , e as imagens representam a humanidade

d’Ele. Quais são as cogitações de uma

natureza humana que está em União Hipostática

com Deus?!

Quer dizer, todos os místicos que houve

— há e haverá — não tiveram uma união

com Deus parecida com a União Hipostática.

Acrescentemos a isso a santidade perfeita

da humanidade d’Ele, e compreendemos que

é insondável a grandeza de sua humanidade; e na

humanidade d’Ele não se vê só humanidade, mas

também a divindade, que transparece por causa da

União Hipostática.

Então a grandeza de Nosso Senhor é uma grandeza

muito triste. Em geral as imagens desse tempo

são sérias, de um olhar doce, mas que envolve

e penetra na pessoa. E há uma pergunta implícita

n’Aquele que olha para o pecador com bondade,

com afeto, para uma criatura, mais ainda para um filho:

“Mas, em troca de tão pouco você fez tudo isto

pelo qual Eu estou sofrendo? Veja bem, você fez e

Eu o amo, até o perdoo, mas quero que você pense!”

Existe uma censura dentro disso. Não uma censura

gladífera e iracunda, mas nobremente interrogativa,

que pergunta, no fundo, o seguinte: “Será

que você levará a sua torpeza e sua maldade a tal

ponto que, vendo-Me nessa doçura e nessa atitude

de perdão, você ainda continua endurecido?”

Imagem do Sagrado Coração de Jesus

venerada por Dona Lucilia no “Salão Azul”

7


Dona Lucilia

Oratório com a imagem do Sagrado Coração

de Jesus, que pertencia a Dona Lucilia

Coração com uma chama ardente e

circundado por uma coroa de espinhos

O Sagrado Coração é apresentado com uma chama ardente,

uma cruz, coroado com espinhos e transpassado

por uma lança. O Sagrado Coração é um símbolo; a Igreja

é muito sóbria e não sobrecarregaria um símbolo com tantos

outros símbolos se não fosse a intenção de fazer sentir

aos homens o amor de Nosso Senhor para conosco, um

amor excepcional, único. Ele abre o peito e mostra o Coração.

Algumas imagens O apresentam com as duas mãos

como se tivessem aberto o peito para fazer ver o Coração,

num ato de bondade extrema: “O que Eu tenho no tabernáculo

do meu peito, abro para que tu vejas!”

De outro lado, o Coração tem uma chama. É o amor

da humanidade d’Ele a Deus Nosso Senhor, mas também

o amor pelos homens. Jesus quer dizer: “Meu filho,

meu Coração arde por ti; e padeceu a cruz por ti e te carrega

com teus defeitos, teus pecados, como uma cruz.”

E está circundado da coroa de espinhos para dizer:

“Lembre te de como a Paixão foi terrível. E meu Coração

foi transpassado por amor a ti.” Depois de tudo quanto foi

feito contra Jesus, restava-Lhe verter as últimas gotas de

Sangue misturadas com linfa. E Ele quis que Seu Sangue

fosse vertido inteiro, embora uma só gota fosse infinitamente

preciosa e pudesse redimir o gênero humano largamente.

Ele quis que o resto de Seu Sangue fosse vertido, em confirmação

daquela palavra do Evangelho, que eu acho muito

bonita: “...cum dilexisset suos, qui erant in mundo, in finem

dilexit eos.” Quer dizer: “...como amasse os seus que esta-

vam no mundo, até o extremo os amou.” 4 Por amor, Nosso

Senhor derramou até a última gota de seu Sangue.

Esse último dom teria que resultar da última brutalidade

feita pelos homens. Para se certificarem de que Ele tinha

morrido, meteram-Lhe uma lança que Lhe abriu o Coração.

Depois de ter feito tudo, era preciso levar a selvageria até lá...

Podemos imaginar o sobressalto de Nossa Senhora, pois

Ela talvez julgasse que estava tudo concluído quando Ele

disse: “Consummatum est — Está tudo acabado” e expirou.

Entretanto, houve mais isso. E, suavemente, aquele Sangue

e água começam a correr, e Maria Santíssima naturalmente

compreendeu: Até isto Nosso Senhor quis sofrer! Quer dizer,

é a bondade levada a um grau inimaginável.

Segundo a tradição católica, o soldado que perfurou

o Coração de Jesus era um homem de vista muito

ruim, quase cego. E com aquele Sangue e água caindo

sobre a face dele, sua visão ficou perfeita e ele se converteu.

Chamava-se Longinus e passou a ser São Longinus.

Quer dizer, ao homem que fazia isto Nosso Senhor deu a

vista, converteu a fim de levá-lo para o Céu.

Bondade que não conduz ao relaxamento

moral, mas à suma compunção

E aqui entra uma coisa que estava profundamente no

espírito de Dona Lucilia, e se encontra no âmago dessa

devoção: mostrar a imensidade do amor de Nosso Senhor

para com o homem, de um lado, dizendo: “Veja como

você tem razões para confiar! Peça porque será atendido!

As portas da misericórdia estão abertas para você.”

8


Mas de outro lado afirmava: “Veja o que representa

todo o pecado, e o abismo de pecados em que a humanidade

está se precipitando! Tu fazes parte da coorte dos

que Me ofendem. E qual é o homem que, ao menos venialmente,

não me ofendeu?”

Então, bater no peito, pedir perdão, humilhar-se e

compreender a gravidade do pecado. É, portanto, uma

bondade que não leva ao relaxamento moral, mas a uma

suma compunção, suma compenetração, e, portanto,

muito reta, santa, direita. O equilíbrio católico, apostólico,

romano está nisso.

Tudo isto envolvia a devoção ao Sagrado Coração

de Jesus, ainda quando eu era menino. Mas notei

que essa devoção foi se retraindo com o tempo, ficando

cada vez mais formal. Em quase todas as igrejas

havia uma imagem do Sagrado Coração de Jesus,

porém a devoção foi perdendo densidade e as pessoas

que rezavam para Ele já não viam bem isso. As

imagens perderam também muito dessa expressão, e

aquela atmosfera de seriedade cheia de tristeza, de

gravidade, de nobreza da Igreja do Coração de Jesus,

em torno das imagens do Coração de Jesus foi se dissipando.

Fazendo perguntas análogas

às do Sagrado Coração de Jesus

Mamãe vivia dentro daquela atmosfera; ela rezava

muito ao Sagrado Coração de Jesus, e toda a devoção,

a piedade dela se exercia em função de Nosso

Senhor visto assim. E, como o bom discípulo em algo

se parece ao mestre, devo dizer que inúmeras vezes

eu a vi interiormente lamentar, deplorar, sofrer e

fazer perguntas análogas às do Sagrado Coração de

Jesus.

O que me tocava na conduta dela e me atraía tanto

era notar essa semelhança. Eu pensava: “Mas a Igreja

Católica é isto! Ela está na linha do espírito da Igreja Católica,

portanto, da verdade certa na qual se pode crer;

este é o modelo, esta é a via.” E isto me fez um bem sem

conta.

Se o que expliquei pode fazer um pouco de bem

aos que estão neste auditório, dou o tempo por muito

bem empregado. Aliás, há uma devoção muito bonita:

“Nossa Senhora do Sagrado Coração”, que é Maria

Santíssima considerada enquanto adorando o Sagrado

Coração de Jesus, e, portanto, toda voltada para

Ele; se nós vemos isso n’Ele, podemos imaginar o que

Ela via!

v

(Extraído de conferência de

18 de junho de 1982)

1) Cf. Ap 1, 16.

2) Sala de visitas do apartamento de Dona Lucilia.

3) Termo utilizado na Teologia para indicar, em Cristo, a união

das duas naturezas – divina e humana – na Pessoa do Verbo.

4) Jo 13, 1.

9


Gesta marial de um varão católico

Solução para todos

os problemas - I

Ao responder a uma pergunta, feita em tom declamatório e na qual

a Igreja é comparada a um maravilhoso castelo, Dr. Plinio discorre

sobre o modo pelo qual, desde menino, compreendia e amava a Santa

Igreja, encontrando nisso o fundamento de sua vida.

A

metáfora foi lindíssima, a declamação muito

bem feita, com o acompanhamento musical muito

belo.

As portas do inferno

não prevalecerão contra a Igreja

Entretanto, a respeito da metáfora, eu teria uma precisão

a introduzir: o castelo é ainda mais belo do que vós

descrevestes; a substância dele não cai em ruína nunca.

Porque, a respeito dele, a voz mais perfeita fez a promessa

incomparável: “As portas do inferno não prevalecerão

contra esse castelo.” 1 E não podemos, portanto, imaginá-

-lo em ruínas porque a promessa perfeita, feita pelos lábios

perfeitos, movidos por um perfeito amor, não pode

senão ter um cumprimento perfeito.

O castelo pode ter partes que se perdem na névoa e, do

fundo da planície, no momento se veem de um modo incompleto;

podem, portanto, dar a uma pessoa que examina

sem toda a atenção necessária a impressão de ruínas,

mas esse castelo desafia o tempo. E, quando não houver

mais História e nem tempo, o castelo estará na glória do

Céu; esse castelo jamais será destruído.

”Ó Santa Igreja Católica Apostólica

e Romana!”

O homem, quando tem a felicidade de estar num ambiente

onde lhe é dada, desde pequeno, uma reta formação,

encontra logo a Santa Igreja Católica Apostólica

e Romana; e também alguns problemas que começam

a desabrochar no fundo da alma. Problemas para

os quais ele dá importância, ou não, que marcam sua infância,

sua adolescência, ou não marcam. Pouco importa,

os problemas existem, se apresentam ao espírito humano

e são cobradores implacáveis. Porque, de vez em

quando, se o homem não lhes dá importância, os problemas

voltam ao longo da vida, diante de situações em que

eles se põem de um modo cada vez mais trágico. São problemas

relacionados com assuntos de foro íntimo, com

a vida externa, com tudo, com o próprio ser do homem,

e que se apresentam, na época de menino, de moço, de

homem maduro, de velho, de modos diferentes. Mas no

fundo são sempre os mesmos problemas, para os quais o

homem não encontra uma solução satisfatória, a não ser

quando os seus olhos dão para o castelo.

Ele olha e pensa: “Mas é curioso. Aqui, ali, acolá, eu

encontro uma solução, uma resposta que desperta em

mim um movimento de alma, uma atitude. O castelo me

fala, me ensina, canta, reza. O polo de minha vida é o

castelo!” O homem se ajoelha e diz: “Ó castelo! Ó Santa

Igreja Católica Apostólica e Romana!”

Problemas internos que ondulam

a alma de uma criança

De que forma, para mim em concreto, esses problemas

nasceram? Não saberia fazer naquele tempo a formulação

que faço hoje a respeito deles, mas os problemas

eram os seguintes:

Eu tinha a minha vida de menino, mas sentia, pelo

bom senso, por um sentir de si próprio que todos nós

possuímos, pela vida externa que via mover-se em torno

de mim, que eu era uma semente, percebia haver em

10


Timothy Ring

Basílica de São Pedro - Vaticano

mim apenas o projeto, os elementos rudimentares de algo

que deveria expandir-se muito mais, e que precisaria

chegar normalmente até a mocidade, a idade madura,

a velhice. Isto significava um desdobrar de aptidões, de

capacidades internas, de modos internos de ser, que eu

sentia existir em mim efetivamente.

E me perguntava, de um modo mais ou menos vago,

confuso: “Em que rumo e de que maneira devo me desdobrar?

Como preciso fazer? A medida de tal sensação,

tal percepção, tal estado de espírito, até que ponto deve

chegar? Como devo ser agora a esse respeito?”

A medida das coisas me era misteriosa a respeito de

mim mesmo.

Imaginemos dois estados de alma entre os quais a

criança oscila muito — tudo mudou tanto, mas o homem

continua sendo homem; não sei se isto passou pelos espíritos

dos que se encontram neste auditório, mas passava

pelos espíritos das crianças do meu tempo. O problema

é o seguinte: a alegria, a tristeza — e aquilo que eu

chamaria um estado pedestre e comum da vida, que não

é alegria nem tristeza — parecem rotina na existência da

criança e que a deixam às vezes enfastiada de viver; com

tão pouca idade e já imersa na rotina e na banalidade.

Então anunciam para a criança uma festa, e ela se rejubila;

comunicam-lhe um fato triste, ela participa da

tristeza. Mas até a tristeza lhe traz algum alívio, pois ela

pensa: “Saí da rotina.”

De outro lado, em certos dias a percepção de que a rotina

tem seu lado aprazível. E, sobretudo, quando se foge

dela, sente-se umas saudades que não se sentiria estando

dentro da rotina. De maneira que, quando se passa da

alegria para a rotina, tem-se desejo de dizer: “Ó rotina

amiga, como és simpática!” Mais ainda, quando se passa

da dor para a rotina, tem-se vontade de falar: “Olhe, essa

rotina é bem boazinha!” Dali a pouco a pessoa está de

novo à cata da alegria e até da dor, mas é a busca do excepcional

para fugir da rotina.

Isto é um dos mil problemas internos que ondulam na

alma de uma criança, ou ao menos ondulavam na alma

da criança que fui eu.

Alegria e dor: em que consistem?

Então, o que quer dizer alegria? Quando uma pessoa

está alegre? Eu estou alegre quando faço algo que considero

gostoso, mas o que é gostoso?

Por exemplo, uma festa de crianças é gostosa; quase

sempre… Comer uma coisa, folhear um álbum, estar

com tal pessoa de minha família é gostoso. Que gostosos

diferentes são esses? Será que eu, com minha natureza

enfática — tendendo a gostar muito daquilo de que gosto

e a não gostar nada do que não gosto —, estou gostando

em toda a medida? Qual é a proporção exata? Como

se deve gostar das coisas que são gostáveis?

11


Gesta marial de um varão católico

Outro ponto. O que é dor? O desagradável é dor, mas

há uma porção de coisas que são desagradáveis a títulos

muito diferentes.

Por exemplo, ir ao barbeiro e mandar cortar o cabelo.

De vez em quando a governanta ou mamãe mandavam:

“É preciso ir cortar o cabelo.” Aquela meia hora no barbeiro

era uma coisa intérmina! Entrava cabelo pelo pescoço,

me desagradava, eu queria trocar de roupa: “Não

pode, deixa disso! Não pode ser pelintra, aguenta!”

Detesto ir ao barbeiro; isso é sofrimento, é dor? Arrancar

um dente, estudar, brigar com um companheiro,

estar doente, separar-me desta ou daquela pessoa é dor?

Será que em mim essas coisas doem como devem doer?

Qual é a medida?

Depois, a dor e a alegria até que ponto se confundem

em certas situações? Às vezes não se dá uma gargalhada

que é amarga? Ou não se tem um chorinho que é doce?

Até que ponto a dor é dor, a alegria é alegria?

E me vinha o pensamento: “Olhe para os outros e veja

o grande bom senso geral. O que todo mundo sente deve

ser verdade, preste atenção nos outros.”

Depois de algum tempo de atenção, uma impressão

de caos. No vocabulário antes de tudo: essas palavras são

escorregadias e designam as coisas mais variadas. Caos,

de outro lado, na própria natureza das coisas: percebe-

-se que, muito legitimamente, algumas coisas doem a um

e não a outro, alegram a um e não a outro. E nota-se que

Dr. Plinio durante uma palestra

isso está conforme ao modo legítimo de ser dos outros, e

comigo é meio diferente.

Então há algo que é uma medida própria de sentir dor

ou alegria, a propósito de certas coisas. Que medida é?

Desejo de manter a harmonia interna

E por detrás disso há uma outra pergunta: o que fazer

de mim mesmo?

Eu sou eu e preciso me desenvolver. Mas não posso crescer

e desenvolver-me, mais ou menos como — aquilo que

eu soube muito depois, pelas aulas de Física, e me desagradou

— a força de expansão dos gases. Se, por exemplo, uma

pessoa acende nesta sala um objeto qualquer que começa a

deitar fumaça, segundo que regra essa fumaça se espalha?

É uma regra sem regra, ela se espalha como deve.

Ora, eu tinha impressão que algumas pessoas cresciam

como a fumaça se difunde, pela regra da espontaneidade,

sem eira nem beira.

Eu deitava atenção e pensava: “Mas que coisa curiosa, isso

me explica que esse indivíduo tem dentro dele uma coisa

que não quero em meu interior. Quero dentro de mim

uma ideia de minha harmonia interna, de que as coisas estão

bem relacionadas umas com as outras e com a minha

própria natureza, no que eu tenho como homem e como ser

individual, como este homem é, e não um homem em tese.”

Há o homem em tese, mas cada um de nós existe concretamente.

Deve haver alguns elementos

ordenativos que são específicos a mim; e

se isto estiver bem em ordem, eu encontro

minha base, meu fundamento, posso viver.

Se não for isto, percebo as consequências

em torno de mim, aqui, lá, acolá: essas fumaças,

fumaradas, desordens; é o caos.

Isso naturalmente eu não seria capaz

de exprimir com essa precisão. E provavelmente

a maior parte dos que estão aqui na

sala, quando crianças, também não exprimiriam

o que eu estava dizendo. Mas duvido

que uma pessoa, prestando atenção nas

suas impressões daquele tempo, não encontre

traço de problemas como esse.

Às vezes expresso de modo muito elementar,

mas no fundo é este o problema:

“Eu quero ser como esse homem que conheço,

e não desejo ser como aquele outro.

Tal aspecto nessa pessoa me agrada,

e tal outro aspecto em outra não me agrada.”

O que leva as crianças, por mimetismo,

por imitação, a copiarem algumas

pessoas; é um dos elementos da tradição.

E às vezes uma criança copia, procuran-

12


Timothy Ring

zer habitar em mim a totalidade daquelas harmonias

magníficas, e notava, entretanto, que bastava

me maravilhar, dizer sim, dar atenção interior

àquela variedade harmônica e incomparável, que

havia qualquer coisa de unum, o qual deveria corresponder

a uma atitude do fundo de minha alma

em que eu diria: “Isto é perfeito, é de Deus e para

lá eu quero ir.” Agindo assim, sendo eu ainda menino

e em estado de desabrochar, essas perfeições

de algum modo começariam a habitar em mim.

Uma harmonia lindíssima

e uma beleza harmoniosíssima

Igreja do Sagrado Coração de Jesus - São Paulo (Brasil)

do parecer, ou tira uma espécie de contracópia instintiva:

“Assim não serei.”

Ora, como a criança escolhe esses modelos? Escolhe,

no fundo, com cogitações que correspondem mais ou

menos a essas que acabo de enunciar. E creio que seria

até matéria interessante para reflexão, recordação, etc.,

se procurassem refazer o fio condutor de suas infâncias.

Primeiros contatos com a Igreja do

Sagrado Coração de Jesus

Nesta perspectiva, lembro-me bem de que se explicam

completamente os maravilhamentos primeiros que eu tive

com a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Na minha primeiríssima infância, muito notadamente

na Igreja do Coração de Jesus, eu comecei a tomar os

primeiros contatos conscientes de uma alma de criança

com a Igreja Católica. Vendo o templo internamente, a

liturgia, o canto sacro, as imagens, o ambiente, a atitude

moral das pessoas que estavam lá, enfim, aqueles conjuntos

das coisas, ligados com o começo muito elementar

de catecismo que minha mãe me ensinou, e junto com

as imagens de casa, as atitudes dela rezando, isso foi me

dando uma ideia maravilhada de que ali eu encontrava a

solução, a medida e o modelo para tudo.

Com a noção inicial, em germinação, mas, pelo favor

de Nossa Senhora, quão definida de que eu encontrava ali

uma forma de perfeição espiritual, humana — não só religiosa,

mas também sobrenatural — na qual, por mais que

eu tivesse de me desdobrar, nunca chegaria a abarcar aquele

mundo de perfeições harmônicas. Eu jamais poderia fa-

Eu não era capaz de dizer com essas palavras,

eram impressões, ao pé da letra o émerveillement,

um maravilhamento de um menino com

os nervos sumamente plácidos e que via isso,

portanto, sem agitações, buliços, exclamações,

mas analisava, aprofundava, conferia. Nunca

com as conferições da dúvida, mas sempre com

as conferições do pormenor, da minúcia, do entusiasmo

pela linha geral, conferindo e dizendo a mim mesmo alguma

coisa mais ou menos assim:

“Isto que me maravilha tanto tem uma vida que é distinta

da minha. É uma outra vida que entra em mim,

limpa e dá sentido à minha existência. Eu aqui encontro

aquele ponto de equilíbrio, de apoio, aquela medida

de todas as coisas, aquele caminho para todos os meus

movimentos, aquela solução para todos os meus problemas.

Neste unum que está aqui e sei que é a Religião de

Deus, nisto eu quero viver a vida inteira. Meu Deus, eu

Vos adoro acima de todas as coisas!

“Sei não só porque mamãe me ensinou que Vós sois o

único Deus verdadeiro, Criador do Céu e da Terra, mas

nisto que aqui contemplo, eu compreendo existir algo de

mais belo do que a terra e o céu material que vejo. Há algo

que confere com o timbre de voz de mamãe quando

ela pronuncia a palavra santidade; quando eu a vejo rezar,

confere com o órgão que ouço tocar, tudo confere

com tudo. Aqui há uma harmonia lindíssima e uma beleza

harmoniosíssima, uma verdade objetiva, real.”

Com os meus olhos de septuagenário, eu vejo aqui

uma almofada que existe realmente, fora de mim; assim

também, em menino, a minha alma pousava sobre essas

maravilhas e harmonias e dizia: “Eu vejo e creio!” v

(Continua no próximo número)

1) Cf. Mt 16, 18.

(Extraído de conferência de 17/10/1981)

13


Dr. Plinio comenta...

Convívio entre as almas

no Céu empíreo - I

O corpo e a alma formam uma só pessoa. Se alguém vai para o Inferno,

a justiça manda que ele seja castigado no corpo e na alma, porque é

a pessoa inteira que peca e deve ser punida. E quando uma pessoa se

salva, também seu corpo será objeto do prêmio celestial; o Céu empíreo

existe para recompensar os bem-aventurados nos seus corpos.

Já falamos de vários aspectos materiais do Céu empíreo,

e convém ir preparando os nossos espíritos

para aquilo que é a essência da felicidade celeste,

a qual não está no Céu empíreo, mas fundamentalmente

na visão de Deus face a face. Deus, puro espírito, eterno,

perfeitíssimo, inefável, cuja consideração nós teremos

eternamente e que constitui, Ele sim, a nossa felicidade

perfeita.

A felicidade da alma será infinitamente

maior do que a do corpo

Dr. Plinio na década de 1990

Nosso corpo é elemento integrante de nossa pessoa.

A alma não está para o corpo como, por exemplo, o corpo

está para a roupa, a qual pode ser tirada, jogada fora,

trocada por outra, e o corpo continua no estado normal.

O corpo não é a roupa da alma; corpo e alma formam um

só todo, uma só pessoa.

E se alguém vai para o Inferno — que Deus nos livre!

—, a justiça manda que ele seja castigado no corpo e na

alma, porque é a pessoa inteira que peca e deve ser punida.

O corpo é instrumento da alma para a maior parte

dos pecados, e é bom que o instrumento seja punido como

é castigada a alma, autora do pecado. Então, a contrario

sensu, é também conveniente que o corpo seja premiado

quando a pessoa se salva.

E Deus dispôs o Céu empíreo para que os corpos

tenham ali seu prêmio, junto com as almas. A alma se

reúne ao corpo por ocasião da ressurreição, e o corpo

14


Gustavo Kralj

“Paraíso” - Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque (EUA)

recebe numerosos deleites. Mas, ao mesmo tempo, a

alma tem um deleite ainda muito maior, e convém que

seja maior porque, dos dois elementos que constituem

o homem, o corpo e a alma, esta é muito mais nobre

do que aquele, sem nenhuma comparação.

Basta considerarmos os animais — que têm corpo,

mas não possuem alma — e a superioridade do homem

sobre os animais, para compreendermos até que ponto

a alma, que é espiritual, imortal, é superior ao corpo.

Nesta perspectiva, se entende bem que a felicidade

da alma tem que ser muito maior que a do corpo; não

só muito maior, mas infinitamente maior do que a do

corpo. A alma vê Deus face a face, e nesse convívio com

Deus a alma tem uma felicidade verdadeiramente inexprimível.

Contato de alma intensíssimo e diletíssimo

Para formar uma ideia adequada da felicidade de ver

a Deus, eu me sirvo de alguma coisa do que diz Cornélio

a Lápide 1 , sobre o deleite da convivência das almas

entre si no Paraíso celeste; o contentamento que uma

alma terá no conhecer outra e ser uma com a outra. E, a

partir disso, como um remoto, pálido e insuficiente termo

de comparação, poderemos ter uma noção do que é

a convivência da alma com Deus.

De acordo com Cornélio a Lápide, no Paraíso celeste

os homens terão mansões transparentes, não para que

nelas nada se faça de oculto, nem de vergonhoso, mas a

fim de que todas as almas estejam em condições de tomarem

contato umas com as outras, verem o que estão

fazendo, conhecerem o que estão pensando, cogitando,

15


Dr. Plinio comenta...

Gustavo Kralj

a todo o momento. De maneira que há um contato de alma

intensíssimo e diletíssimo!

Não é como o contato entre nós aqui na Terra,

quer dizer, cada um tem seu corpo que reflete, de algum

modo, alguns estados de alma que se pode observar,

quando se presta atenção. Então, meio hipoteticamente,

meio com certeza — muitas vezes não sabendo

nós distinguir exatamente a hipótese da certeza

—, formamos uma certa noção a respeito da mentalidade,

da psicologia, do estado de espírito de um outro,

como ele está recebendo a nossa conversa e nossa

companhia, e como estamos recebendo a companhia

dele.

Esse contato de alma aqui na Terra dá alguma luz;

mas, sobretudo, tem penumbra. Gostaríamos de conhecer

muito mais. No Céu nós nos conheceremos diretamente,

como se cada alma lesse outra à maneira de um

livro aberto.

Perpétua festa de conhecimento,

de gratidão e de aprofundamento

Como todas estarão no respectivo estado de perfeição,

tendo sido, no Purgatório, purificadas de todos os

defeitos que tinham na Terra, a consideração de uma outra

alma é altamente aprazível. Qualquer que seja a alma.

Não há os inconvenientes que existem na Terra, onde,

sendo ou não bom psicólogo, se estorva de repente,

por defeito nosso ou de outrem, com estados de espírito

incompatíveis com os nossos. E com a incompatibilidade,

surge o desprazer do convívio.

Às vezes aparece, pelo contrário, uma “suma” harmonia.

A palavra “suma” vai aqui sempre entre aspas, porque

sumo só se pode dizer de Deus. Mas uma grande harmonia,

que é fugidia, surge durante alguns instantes e depois

desaparece. E no máximo o que se pode dizer é: “Se

eu conhecesse essa pessoa mais a fundo, em tal veio, provavelmente,

nos entenderíamos muito bem. E nos outros

veios, como nos entenderíamos? Seria igualmente bem?

Isso que nela foi tão fugaz, que profundidade, que substância

tem? O que é essa pessoa?”

No Céu não há nada disso! Todos os estados de alma

são definitivos. Podem uns aparecer com mais realce, outros,

com menos, conforme o que a alma vê em Deus e

vai despertando esses ou aqueles estados de alma. Mas

tudo é perfeito. E nós temos, então, além do conhecimento

total, o conhecimento daquilo que é totalmente

deleitável, harmonioso em si mesmo — não há contradição

no interior daquelas almas — e harmonioso conosco.

Porque como estaremos, mediante a oração e ajuda

de Nossa Senhora, em nosso estado de perfeição, nunca

nos arranharemos uns nos outros. E teremos uma ale-

16


Gustavo Kralj

Nesta página e na anterior, detalhe de um retábulo que representa Jesus Cristo na glória com os santos -

Galeria Nacional de Arte, Londres (Inglaterra)

gria em ver este, aquele, aquele outro, como uma perpétua

festa de conhecimento, de reconhecimento, de aprofundamento

que não termina nunca mais. E esta alegria

— que ainda não é, nem de longe, o gáudio de ver

a Deus face a face — nós podemos imaginá-la, se encontrarmos

no Céu aqueles que foram nossos conhecidos

na Terra e nos ajudaram, ou a quem nós ajudamos, a

praticar o bem.

Por exemplo, que alegria no Céu nós encontrarmos

uma alma em que notamos determinado fulgor, e ela nos

diz: “Notastes tal disposição em mim. Vós vos lembrais de

que foi devido ao vosso ensinamento?” Ou então, se se

tratar de uma pessoa que terá vivido muito depois de nós:

“Sabei que isso eu aprendi de Fulano, que aprendeu de

Beltrano, de Sicrano… — e lá vem a genealogia, não relativa

ao nascimento necessariamente, pode também ser,

mas é a fileira de pessoas até chegar àquele que deu o primeiro

conselho — e a vós eu agradeço!” Os dois se inclinam,

mutuamente se reverenciam e se amam.

A movimentação de eucaliptos soprados

pelo vento, e o minueto de Boccherini

Isto é convívio, em que a inveja, o ódio, o desagrado

pelas desigualdades não existem; onde um maior enche o

menor de contentamento e satisfação!

Algum tempo atrás, viajando por uma rodovia de São

Paulo, tive uma ideia muito passageira disso. Há em certo

trecho uma plantação enorme de eucaliptos, pertencente

a uma companhia que fabrica papel, e num determinado

lugar existe um pequeno alagado, onde corre

um riozinho; a terra é um pouco pantanosa e a plantação

se abre um tanto. Passo com certa assiduidade por

lá, e uma vez ou outra tem acontecido que o vento sopra

de um modo curioso, talvez em redemoinho, causando a

impressão de que aquelas árvores estão fazendo reverências

umas às outras.

Em certa ocasião, tive uma superior impressão de convívio

ameno, respeitoso, inteiramente harmônico. Quando

eu vejo essas árvores assim, a música terrena de que

me lembro é o minueto de Boccherini 2 , no qual o trato

mútuo das figuras que fazem parte da dança é eximiamente

musicalizado.

Muito mais do que isso, penso na harmonia existente

no Céu entre as pessoas que apreciam as mútuas

virtudes, e assim se reverenciam. Inclusive a maior

em relação à menor, porque a criatura, por mais alta

que seja, ama e respeita toda criatura de Deus, pois ali

há uma imagem e semelhança do Criador. Mas também

porque toda criatura é única e todo homem, debaixo

de qualquer ponto de vista, em algum aspecto é único.

E nesse convívio do Céu se conhece aquilo que a pes-

17


Dr. Plinio comenta...

Todos os estados

virtuosos da alma,

desde a indagação

reflexiva mais atenta,

até o enlevo, tudo se

fará notar no Céu, nas

várias almas, sobretudo

naquelas cuja virtude

foi intensíssima.

Gustavo Kralj

São Domingos (por Fra Angelico) -

Museu de São Marcos, Florença (Itália)

soa tem de irrepetível, de único. Portanto, tem-se o deleite

de, no conhecer, fazer uma referência a Deus, entendendo

o que Ele quis realizar ali. E com isso ter um

gáudio especial.

Compreendemos, então, o contínuo conhecimento

de uns e de outros, e como, ao sabor do que Deus vai

mostrando, eles mesmos vão apresentando suas cores.

Tudo isso faz desse convívio de alma a alma um deleite

que não podemos ter bem ideia nesta vida.

O Céu é dulcíssimo, com variedade

deleitável de sabores espirituais

Uma coisa desta vida nos ajuda a compreender um

pouco esse deleite: há pessoas que são expressivas; quer

dizer, elas exprimem o que sentem. Algumas são agradavelmente

expressivas. Outras são desagradavelmente expressivas,

às vezes sem culpa própria; há pessoas que têm

modo de ser desagradáveis.

É muito deleitável entrar em contato com uma pessoa

que exprime bem aquilo que tem a dizer, mas em que se

percebe não só o sentido claro da palavra, mas a harmonia,

a consonância de toda a personalidade com aquilo

que está sendo dito.

Poder-se-ia dizer que aquele que tem esse instrumental

está para quem se exprime de um modo teórico e

sem outras refrações fora de si, como aquele que canta,

ou seja, diz a mesma coisa cantada, e o que simplesmente

fala.

Ora, no contato dos homens entre si no Paraíso — sobretudo

no contato com os Anjos, com Nossa Senhora e

Nosso Senhor — notaremos isso, porque tudo funcionará

perfeitamente e de um modo agradabilíssimo; não haverá,

portanto, um só contato que não seja verdadeiramente

magnífico.

E, nos esplendores do Céu, se nós virmos passar, por

exemplo, São Gregório VII perto de nós, irradiante de

glória — como ele estava quando o Imperador Henrique

IV se ajoelhou diante das portas do castelo onde se

encontrava o Papa, pedindo para entrar e depois, quando

entrou, para pedir perdão —, notaremos todas as

modalidades de santidade que houve nele, inclusive a

cólera santa que o animou naquele momento.

Não podemos imaginar, portanto, um Céu adocicado.

Doce, sim, adocicado, não! Doce, dulcíssimo, mas

com essa variedade deleitável de sabores — sabores espirituais,

bem entendido! —, por onde todos os estados

virtuosos da alma, desde a indagação reflexiva mais

atenta, até o enlevo, desde a cólera mais angélica, até a

serenidade mais diáfana, mais tranquila, tudo isto se fará

notar no Céu, nas várias almas, sobretudo naquelas

cuja virtude foi intensíssima.

18


Há um quadro do Fra Angelico, do qual gosto muito,

que representa São Domingos estudando. E para realçar

a pureza do Santo, Fra Angelico pintou um homem feito,

mas com a inocência de uma criança, sentado, com uma

das mãos no queixo, lendo um livro colocado sobre os joelhos.

No Céu, poderemos contemplar São Domingos.

Alegria de poder encontrar-se com

São Tomás de Aquino

Como seria bonito, por exemplo, ver São Tomás de

Aquino pensando profundamente num tema, e o espírito

possante dele à procura da verdade, pondo os prós e

contras: “Parece tal coisa, porque tem isso, aquilo, aquilo

outro. Porém, há também esse, aquele e aquele outro argumento

contrários. Agora, como concluir?”

Depois de ter levantado cordilheiras magníficas de

prós e de contras, pensar e dizer que não conseguia resolver,

ele se ajoelhava diante do tabernáculo, com uma

genuflexão profunda e, com os olhos postos na mediação

de Nossa Senhora, abria o sacrário e punha sua cabeça

dentro dele, para pensar e encontrar a verdade. Que coisa

magnífica! Como seria sua fronte venerável?

Vendo passar São Tomás no Céu, se nota tudo isso! E

compreendemos o gáudio que essa consideração pode

dar. Sobretudo se São Tomás sorri para nós e diz: “O

senhor estava numa reunião, em São Paulo, onde todos

excogitavam de mim com a cabeça posta dentro do Sacrário,

não é? Eu naquela hora, no Céu, rezei pelo senhor!”

Como será grato para nós, vermos que somos

conhecidos de São Tomás, o qual, estando já no Céu,

nos protegeu quando estávamos na Terra. Podemos

imaginar os primeiros encontros no Céu e a alegria desta

forma de convívio!

v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência

de 9/1/1981)

1) Cornélio a Lápide (* 1567 - † 1637): jesuíta e exegeta flamengo.

2) Luigi Boccherini (* 1743 - † 1805): compositor clássico italiano,

famoso por seus minuetos.

Gustavo Kralj

Apoteose de São Tomás de Aquino (por Zurbarán) - Museu de Belas Artes, Sevilha (Espanha)

19


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

Inocência e admiração

desinteressada - II

Uma pessoa perde sua inocência quando se deixa dominar

pela inveja, a qual produz consequências espirituais que

conduzem à Revolução. A Contra-Revolução, visando preservar

a inocência e combater a inveja, deve ser, sobretudo, de índole

religiosa. A Idade Média foi uma época em que a inveja não

era bafejada, como o demonstram os “gisants”.

Gales foi outrora um principado, que possuía um

nexo feudal com os reis da Inglaterra, mas tinha

seus príncipes próprios, com sua dinastia própria.

Esses príncipes tomavam posse desse pequeno território,

que é Gales, permanecendo num relacionamento

com o rei da Inglaterra parecido com a relação que têm

os bispos com o Papa. O Papa tem plena jurisdição sobre

cada fiel, mas normalmente o governo dos assuntos locais

compete ao bispo.

O rei da Inglaterra tinha plena jurisdição sobre os galeses,

exceto para os assuntos locais nos quais o Príncipe

de Gales era ainda muito mais autônomo do que

um bispo em relação ao Papa.

Considerem Mônaco, que é um rochedo, mas

com duas coisas muito preciosas, que indico na

ordem inversa dos valores: um museu oceanográfico

magnífico e, de outro lado — o que vale mais

do que tudo —, uma pequena população habituada,

desde a Idade Média, a ser um todo autônomo e sentir-

-se nação independente, uma pequena miniatura do universo.

Toda nação é uma miniatura do universo; Mônaco é

uma miniatura das nações que são miniaturas do universo.

Aquela independência de Mônaco, que ninguém jogou

por terra e permanece em pé dentro do totalitarismo

moderno, com seu hino, sua autoridade, seus costumes

locais, suas leis, etc. tem um pitoresco extraordinário.

Os monegascos respeitam o todo do qual fazem parte,

com o respeito com que os membros da Commonwealth

— Irlanda do Norte, Escócia, Canadá e tantos outros

lugares pelo mundo afora — consideram a Rainha

Georges Jansoone

O senso da hierarquia e do

maravilhoso nasce da inocência

Acima, detalhe de um aquário marinho do Museu

Oceanográfico de Mônaco. Na página seguinte, aspectos

do Principado de Mônaco e da República de San Marino

20


da Inglaterra. É uma coisa com a qual sorrimos

encantados. Por quê? Porque, embora seja

um pequeno país, esse estado de espírito leva

todo o mundo a respeitá-lo.

O Príncipe de Mônaco domina uma área

de território incomparavelmente menor do

que Tóquio, por exemplo, que é a cidade —

segundo me disseram — mais populosa do

mundo moderno. Entretanto, se o Prefeito de

Tóquio vier a São Paulo, será recebido pelo

Prefeito desta última. Se chegar o Príncipe de

Mônaco em Brasília, irão recepcioná-lo o Ministro

do Exterior, os representantes de outras

grandes autoridades, executam-se o hino

monegasco, o hino brasileiro, continência da

tropa, etc. Porque ele é o chefe dessa pequena

unidade independente: Mônaco; se ele vier

a São Paulo, será recebido pelo Governador

do Estado.

Então, respeitar a grandeza até nas suas

miniaturas é próprio desse senso de maravilhoso,

que brota da inocência.

Tomemos, por exemplo, a República

de San Marino, encravada na Itália. Ela é

muito menor do que uma série de prefeituras

da Itália; Milão, por exemplo. Mas é independente;

o presidente da República de

San Marino, sendo chefe de Estado, representa

algo que vai ser tratado com respei-

The Emirr Arnaud

21


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

Gustavo Kralj

Às vezes é fácil dizer que sim. Se uma pessoa quer ser,

por exemplo, um grande mecânico e tem um amigo que

é, digamos, um muito bom músico, não é tão difícil para

o mecânico elogiar a música que o amigo toca; mas elogiaria

um mecânico melhor do que ele?

Aqui está a questão: ele ficaria alegre, vendo o mecânico

consertar uma coisa que ele não foi capaz, e diria:

“Sim senhor, então como se é capaz! Ótimo!” E

quando ele fosse, aos olhos de terceiros, aplicar a força

ou o jeito que aprendeu do outro, afirmaria: “Olha,

eu vou fazer uma coisa que aprendi de Fulano.” Esta

é a alma que tem inocência. E a alma invejosa, vendo

a qualidade que o outro tem, diz: “Por que eu não inventei

isso?”

Conclusão: antipatia pelo mais capaz, alegria com alguma

coisa que lhe aconteça, em razão da qual não possa

mais exercer aquele trabalho, filança, ou seja, ele repete

aquele serviço, sem dizer de quem aprendeu ou, pior,

afirmando: “Sabe, surgiu em minha cabeça uma ideia

ótima: inventei tal coisa”. Sendo que foi o outro que inventou...

Sei que isto que estou dizendo dói e arde, desinfeta…

Digo mais: desinfesta! Se alguém é muito atormentado

por tentações do demônio, procure ver se combate a into

enorme, porque ele é o supremo de uma pequena

unidade autônoma.

Eu poderia falar de Luxemburgo, da República de

Andorra, do Principado de Liechtenstein, etc. Havia pelo

mundo afora toda uma galáxia de pequenas entidades

análogas que a Revolução foi absorvendo. Era o senso

da hierarquia e do maravilhoso, dobrando-se até diante

de uma coisa pequena, mas encantadora, e se extasiando,

como um homem diante de um miosótis pode exclamar:

“Ó flor!” Esse senso nasce da inocência e cria esse

estado de alma.

A inveja faz desaparecer a inocência

O oposto a isso é o desejo do gozo, de não atingir o

fim, causando a inveja e tudo quanto sabemos.

Caim e Abel oferecem sacrifícios a Deus - Vaticano

Há um tratado de Moral, de um jesuíta português do

século XIX, que, segundo me contaram, é muito interessante

na parte relativa à inveja. Afirma uma coisa que

eu nunca ouvi dizer por nenhum moralista. Transmito-a,

portanto, com as devidas reservas, mas percebe-se que

algo assim ocorre.

O homem peca por calúnia, não só quando atribui a

alguém um mal que este não fez, mas quando ele se recusa

a elogiar o bem que alguém praticou.

De maneira que se o indivíduo silencia um ato ou uma

qualidade de alguém, merecedores de realce, segundo

esse moralista ele implicitamente calunia, porque faz um

esforço para os outros verem aquele alguém menos excelente

do que é.

E se o homem faz um elogio menor do que alguém

merece, ele também peca, e só estará em dia com o oitavo

Mandamento se tiver elogiado tanto quanto entende

que aquele alguém deve ser elogiado.

Percebemos como isto contraria a inveja, porque se há

uma coisa que o invejoso não quer é realçar alguém que

ele acha ter algo mais do que ele mesmo, mas que ele

quereria que não possuísse. Essa atitude é o contrário da

inocência; o indivíduo não tem inocência na medida em

que é invejoso.

Devemos nos alegrar com as

qualidades dos outros

22


veja. Se não combate, compreenda

que poucas coisas são tão exorcísticas

quanto acabar com a inveja.

E a questão da inveja vai mais longe:

não basta sentir que o outro seja

mais do que nós; é preciso ficar alegre,

dizendo, por exemplo:

— Olhe, que bom mecânico apareceu

em São Paulo!

Alguém lhe informará:

— É verdade, mas em Bruxelas

surgiu um mecânico muito melhor.

— Ah! é? Ainda melhor que esse?

Gostaria de conhecê-lo!

Não tenho esses interesses, entusiasmos

pela mecânica, como todos

sabem. Estou assim exemplificando

porque, do meu remoto tempo de

mocidade, ficou-me a noção de que

muitos, inspirados pelo espírito moderno,

acham uma beleza ser mecânico.

Julgo que isso não passou, mas

só pode se ter agravado. Mas quantas

outras coisas há nesse sentido!

Dr. Plinio durante uma conferência na década de 1990

Idade Média: uma civilização onde

não se sentia o sopro da inveja

Compreendemos, assim, o que vem a ser o fundo da

Contra-Revolução, a qual deve ser, sobretudo, espiritual,

de ordem religiosa.

Então, entendemos como seria um Reino de Maria inteiramente

limpo da inveja. Considerem as figuras com

que, na Idade Média, se esculpiram pessoas santas e de

alta dignidade na Igreja ou na sociedade temporal. Elas

têm uma paz, uma tranquilidade...; e tais figuras se encontram

também nas iluminuras, nos vitrais, nas tapeçarias,

por toda parte. Analisando-as, não se sente o sopro

da inveja naquelas almas; são inteiramente elas mesmas

e não invejam ninguém.

Um exemplo disso são os gisants 1 : esculturas de cavaleiros

e damas como se estivessem dormindo sobre a própria

sepultura, com as mãos postas e os olhos fechados.

E junto à sepultura está escrito, por exemplo: “Aqui jaz o

muito alto e poderoso senhor Fulano de tal, etc…” Pesquisando-se

quem foi “o muito alto e poderoso senhor”,

verifica-se ter sido um monsieur, um Herr qualquer 2 . A

palavra alemã é encantadora — um Fraiherr, senhor livre.

Tratava-se de um dono de uma coisa tão pequenina,

que ele nem tinha sequer o título de barão; era apenas

senhor de um rochedozinho com uma aldeia nas proximidades.

Acima dele havia uma série de autoridades que ele

serviu, reverenciou, amou; e abaixo uma camada: os seus

camponeses no meio dos quais ele, exercendo sua autoridade,

viveu na paz e de quem foi a alegria. Segundo um

autor, a alegria desapareceu do mundo quando os castelos

se esvaziaram, tornaram-se museus. Aquela paz manifestada

nos gisants se tem impressão que se comunica,

por exemplo, até às dobras do vestido de uma senhora,

até ao travesseiro; às vezes, o escultor, para dar mais realidade

ao que faz, esculpe no travesseiro umas dobras para

indicar o peso da cabeça. Aquelas dobras são bem arranjadinhas:

dir-se-ia que pousou ali uma cabeça sem remorsos.

Isso exprime, em larga medida, uma civilização que

não teve inveja.

Encerrando esses comentários, aqui ficamos nós esperando

o Reino de Maria para o brilho de nossa vocação e

para a glória da Igreja.

v

(Extraído de conferência

de 2/10/1981)

1) Gisant, do francês: jacente, estendido, imóvel. Refere-se a

esculturas estendidas sobre túmulos.

2) Monsieur, do francês, e Herr, do alemão: senhor, cavalheiro.

23


C

alendário

1. São Justino, mártir.

Santo Aníbal Maria Di Francia,

presbítero († 1927). Fundou

a Congregação dos Rogacionistas

do Coração de Jesus e as Filhas

do Divino Zelo, para pedir

ao Senhor que dê santos sacerdotes

à sua Igreja.

2. IX Domingo do Tempo Comum.

São Nicolau, peregrino

(† 1094). Levando uma vida de

austera penitência e fervorosa

piedade, percorreu a Itália

portando um Crucifixo na mão

e repetindo incessantemente:

“Senhor, tem piedade!”

3. São Carlos Lwanga e companheiros,

mártires († 1886).

Santa Clotilde, Rainha dos

francos († 545). Ver página 26.

São Morando, monge

(† 1115). Depois de peregrinar

a Santiago de Compostela, entrou

no mosteiro de Cluny, tendo

fundado posteriormente na

Suíça o cenóbio onde veio a falecer.

dos Santos – ––––––

4. Bem-aventurados Antônio Zawistowski (presbítero)

e Stanislao Starowieyski (leigo), mártires († 1942). Entregaram

suas vidas por Nosso Senhor Jesus Cristo no campo

de concentração Dachau, após atrozes tormentos.

Gustavo Kralj

São Paulo Apóstolo

8. Imaculado Coração de Maria.

Beata Maria Teresa Chiramel

Mankidiyan, virgem

(† 1926). Levou vida eremítica

e fundou a Congregação das Irmãs

da Sagrada Família.

9. X Domingo do Tempo Comum.

Beato José Anchieta, presbítero

(† 1597). Foi missionário

jesuíta no Brasil, onde veio a falecer.

10. Beato Eduardo Poppe,

presbítero († 1924). Com seus

escritos e pregação propagou a

formação cristã e a devoção eucarística.

11. São Barnabé, Apóstolo.

Beato Inácio Maloyan, bispo

e mártir († 1915). Foi Bispo

de Mardin, na atual Turquia,

durante o genocídio dos

cristãos daquela região. Seu

último ato, antes de ser fuzilado,

foi celebrar a Santa Missa

para os seus companheiros

de prisão.

12. Beata Mercedes Maria de Jesus Molina, virgem

(† 1883). Fundou uma comunidade religiosa para atender

e formar meninas órfãs e pobres.

5. São Bonifácio, bispo e mártir († 754).

São Doroteu, bispo e mártir († s. IV). Padeceu perseguições

de vários imperadores romanos, sendo martirizado

com cento e sete anos.

6. São Rafael Guizar Valencia, bispo († 1938). Prelado

de Vera Cruz, México, exerceu de modo clandestino o seu

ministério episcopal durante a revolução mexicana.

7. Sagrado Coração de Jesus.

Beata Maria Teresa de Soubiran La Louvière, virgem

(† 1889). Fundou a Sociedade de Maria Auxiliadora. Expulsa

da mesma, passou o resto da sua vida na humildade.

13. Santo Antônio de Pádua, presbítero e Doutor da

Igreja († 1231).

Beata Maria Ana Biernacka, mãe de família e mártir

(† 1943). Nascida na Polônia, ofereceu-se para ser fuzilada

no lugar da sua nora que estava grávida.

14. São Metódio, bispo († 847). Foi grande defensor da

veneração às imagens durante a segunda perseguição iconoclasta.

15. Beato Tomás Scryven, mártir († 1537). Monge da

Cartuxa de Londres, morreu de fome na prisão no tempo

do Rei Henrique VIII.

24


–––––––––––––––––– * Junho * ––––

16. XI Domingo do Tempo Comum.

Santos Domingo Nguyen, Domingo Nhi, Domingo Mao,

Vicente e Andrés Tuong,mártires († 1862). Leigos degolados

no Vietnã por causa de sua Fé cristã.

17. Beato Pedro Gambacorta, fundador († 1435). Fundou

a Ordem dos Eremitas de São Jerônimo, cujos primeiros

religiosos eram ladrões que ele mesmo tinha convertido.

18. Beata Osanna Andreasi, virgem († 1505). Tendo recusado

o casamento, vestiu o hábito das Irmãs da Penitência

de São Domingos, cultivando em alto grau as virtudes

cristãs, especialmente a humildade. Alegre e caritativa,

uniu com admirável sabedoria a contemplação dos mistérios

divinos às ocupações do governo e a prática das boas

obras, como atestam suas numerosas cartas.

clérigos, e a reconciliar com Deus os presos e condenados

à morte.

24. Natividade de São João Batista.

São Teodgaro, presbítero († c. 1065). Missionário na Dinamarca.

Atribui-se a ele a construção da primeira igreja

feita de madeira.

25. Beata Doroteia de Montau, viúva († 1394). Tendo-

-se casado com um homem temperamental e violento que

a golpeava sem piedade, logrou, com paciência, humildade

e gentileza, mudar o caráter de seu marido. Após o falecimento

deste, entregou-se a uma vida contemplativa, em

contínua oração e penitência.

26. Beato Andrés Iscak, presbítero e mártir († 1941).

Foi fuzilado, na Ucrânia, por motivo da sua Fé em Cristo.

19. Santos Remigio Isoré e Modesto Andlauer, presbíteros

e mártires († 1900). Foram

assassinados, na China, enquanto

rezavam diante do altar.

20. Beato Dermicio O’Hurley,

bispo e mártir († 1584). Irlandês,

no tempo da Rainha Elizabeth

I sofreu longos interrogatórios

e torturas, acabando por

ser martirizado em Dublin.

21. São Luís Gonzaga, religioso

(† 1591).

São José Isabel Flores, presbítero

e mártir († 1927). Foi

martirizado durante a grande

perseguição aos cristãos, no

México, no início do século XX.

22. São Nicetas, bispo

(† c. 414). Converteu os bárbaros

da região de Remesiana, na Dácia,

atual Sérvia, ensinando-os a

viver segundo o Evangelho.

23. XII Domingo do Tempo

Comum.

São José Cafasso, presbítero

(† 1860). Dedicou-se à formação

espiritual e cientifica dos

Gustavo Kralj

São Pedro Apóstolo

27. São Sansão, presbítero († c. 530). Tendo curado o

Imperador Justiniano de uma

enfermidade, conseguiu que este

instituísse um hospital em favor

dos pobres.

28. Santo Irineu, bispo e mártir

(† c. 202).

Santos Plutarco, Sereno, Heráclides,

Herón, Sereno (outro),

Heraidis, Potamiena e Marcela,

mártires († c. 202). Discípulos

de Orígenes, sofreram o martírio

por meio de diversos suplícios

sob o Imperador Septímio

Severo.

29. Santa Emma, viúva

(† 1045). Condessa na Áustria,

destacou-se pela prática da caridade,

dando muitas esmolas aos

pobres e à Igreja.

30. São Pedro e São Paulo,

Apóstolos.

São Vicente Dô Yên, presbítero

e mártir († 1838). Foi degolado,

por ódio à Fé cristã, na

cidade de Hai Duong, Vietnã,

no tempo do Imperador Minh

Mang.

25


Hagiografia

Santa

Clotilde, uma

admirável

flor-de-lis

Segundo uma poética lenda,

as armas do Rei Clóvis eram

simbolizadas por figuras

de sapos; quando ele e seus

francos foram batizados, tais

símbolos se transformaram em

flores de lis. Bela imagem que

poderia resumir a história de

Santa Clotilde, cujo exemplo de

virtudes fez despontar a aurora

da santidade no Reino franco.

Sérgio Hollmann

Arespeito de Santa Clotilde, Pourrat 1 , no livro

“Saints de France”, diz o seguinte:

Santa Clotilde era princesa burgúndia, tendo visto toda

a sua família assassinada por seu tio Gondebaud, que poupou

somente Clotilde e sua irmã, tendo feito educá-las na

religião católica, embora fosse ele ariano. Clóvis, Rei dos

francos, tendo ouvido falar da beleza e virtudes da princesa,

pediu-a em casamento ao tio. Não a obtendo, dirigiu-se

diretamente a Clotilde, enviando-lhe seu anel real como penhor,

através de um emissário. Clotilde aceitou.

Embora se tratando de um pagão, e temendo então magoá-lo,

Gondebaud permitiu o noivado. Casando-se com

Clóvis, a princesa tudo fez para sua conversão. Nada obteve

de início, pois seus filhos morriam logo após o Batismo

e Clóvis atribuía o fato ao Sacramento. Clotilde rezava

e penitenciava-se, até que raiou o dia da vitória de Tolbiac,

quando o Rei franco, vencedor, fez-se batizar com seus soldados

por São Remígio. Estava fundado o primeiro reino

católico europeu. [...]

Santa Clotilde, sem dúvida, recebeu uma missão especial:

ela tudo transformou. Uma lenda comum em Estrasburgo

26


Batismo de Clóvis - Catedral de Chartres, França.

Em destaque, imagem de Santa Clotilde -

Saint-Germain-l’Auxerrois, Paris (França)

conta que no dia do Batismo dos francos, em Reims, um

Anjo trouxe a Clotilde as armas do novo reino: as de Clóvis

eram três sapos, que se transformaram em três flores de lis.

O valor das lendas maravilhosas

Notamos aqui mais uma manifestação do maravilhoso

medieval. As armas do Rei pagão eram três sapos,

mas, ao receber ele o Batismo, tornaram-se flores de

lis 2 . É a ação da Igreja, tocando o que é natural e decaído

e transformando-o.

Marie-Lan Nguyen

27


Hagiografia

Não encontro imagem mais bonita para o Grand Retour

3 , que deve ter lugar por ocasião dos acontecimentos

previstos em Fátima, do que essa de sapos que se transformam

em flores de lis. A Bíblia fala de transformação

das pedras em filhos de Abraão, que é uma coisa linda,

mas esta é muito poética e bonita.

Pode-se imaginar um sapo — com aquela pele rugosa,

aquele aspecto horrível dos pântanos, aquela suficiência

cafajeste, aquela falta de respiração dando ideia de sua

avidez — que se transforma e se torna um lírio maravilhoso.

Esta é a transformação que as almas, por ocasião

do Reino de Maria, devem sofrer.

Aí está o valor das lendas e do maravilhoso: às vezes,

dizem muito mais do que um acontecimento autenticamente

histórico. Toda a história de Santa Clotilde pode

basear-se nisto: transformação de sapos em flores de lis.

Alto senso católico

Ela era de um meio ariano. Católica, casou-se com um

rei pagão.

Os bárbaros que invadiram a Europa nos séculos

IV e V eram arianos que tinham ódio ao nome católico.

Eles haviam sido pervertidos, na passagem do

paganismo para o arianismo, por um bispo ariano, Úlfilas,

que percorrera as regiões dos bárbaros. Portanto,

a invasão dos bárbaros foi a dos hereges arianos,

que já tinham atormentado de todos os modos o Império

Romano do Oriente e o Império Romano do

Ocidente. Este foi o sentido fundamental dos acontecimentos.

Com a invasão da Europa, um dos antigos reinos, que

decorreu da ocupação realizada na antiga colônia romana

da Gália, foi o borguinhão. O Rei dos borguinhões se

tornara ariano. Era irmão do antigo monarca católico, o

qual ele havia destituído, e se proclamou rei. Tinha uma

sobrinha, filha do Rei católico deposto e morto, mantida

por ele na corte como uma espécie de “Gata Borralheira”.

Tudo leva a crer que existia entre os borguinhões um

partido católico, o qual olhava para essa sobrinha com

esperança.

De outro lado havia Clóvis, que era um pagão, mas

adotou a causa da Igreja em toda a Gália, mesmo antes

de se converter ao Catolicismo. Ele resolveu pedir

essa princesa em casamento, e colocar assim de seu lado

o partido católico dos borguinhões, como também

os católicos de todo o resto da Gália. E assim ele se casou

com ela.

Essa atitude de Santa Clotilde, aceitando um pagão

para sair do domínio dos hereges, revela um alto senso

católico. Ela se casa com Clóvis e começa a praticar a

Religião Católica ao lado dele.

Clóvis viu Deus em Santa Clotilde

Eles discutiam, tinham alguma polêmica, e Clóvis perguntou-lhe

algo sobre a religião dela? Nunca encontrei

notícias a respeito disto, no pouco que tenho lido sobre

o assunto. Mas tudo me leva a crer que não, e tenha sido

apenas a prática constante da Religião que foi causando

impressão no espírito de Clóvis.

Isso sucedeu até que numa batalha, na qual, se não me

engano, ele lutava precisamente contra os borguinhões,

sentiu-se perdido. Resolveu então fazer uma promessa a

Deus, que ele chamava o “Deus de Clotilde”: se ganhasse,

ele se converteria à Religião Católica.

Recordo-me do caso contado por Dom Chautard 4 ,

sobre o advogado que esteve em Ars, no século XIX,

viu o Santo Cura de Ars e voltou para Paris. Perguntado

sobre o que vira, respondeu simplesmente: “Vi Deus

num homem.”

Iluminura do séc. XV representando a entrega da flor de

lis a Clóvis - Livraria Britânica, Londres (Inglaterra)

Romain

28


Com certeza, Clóvis tinha

visto Deus em Santa Clotilde,

e quando fez a promessa

de se converter ao “Deus de

Clotilde”, via que esse Deus

era verdadeiro e vivo.

Santa Clotilde teve filhos

criminosos que se jogaram

uns contra os outros, a par de

um filho santo, que foi o famoso

Saint Cloud. Ela foi de

uma raça de sapos transformada

numa pura flor-de-lis 5 .

Teve junto de si algumas outras

flores-de-lis, mas o resto

era sapo em via de transformação.

Jan Arkesteijn

O sol da santidade

começou a brilhar

para os francos

“A educação dos filhos de Clóvis”, por Lawrence Alma-Tadema

E aí vemos a tragédia de

sua vida. Era tão grande o

peso do paganismo, dos maus costumes antigos, que se

tornava necessária uma virtude heroica para não cair nos

pecados do paganismo, ainda que se tivesse sido batizado

como católico.

Houve um fato curioso de uma índia muito piedosa,

que o Padre Anchieta encontrou em São Paulo, quando

esta não era mais do que o Pátio do Colégio. A índia estava

bastante triste e ele perguntou-lhe o que sentia. Ela:

“Estou, padre, com saudade de comer o braço de uma

criança tapuia…” Ela era batizada, comungava e não comeria

o braço da criança, mas tinha vontade de fazê-lo…

O pessoal que rodeava Santa Clotilde não era antropófago,

mas pouco faltava para que o fossem. Eram batizados,

mas tinham saudades das coisas bárbaras.

Ela no meio de tudo isto, era uma flor-de-lis das mais

perfeitas e admiráveis, ensinando a virtude, a mansidão

e dando também admiráveis exemplos de senso de sua

própria dignidade.

Santa Clotilde é uma espécie de Chanteclair 6 daquela

época: é a primeira que faz raiar o sol. Nela o sol da

santidade começa a brilhar para os francos, trabalha para

a conversão do Rei e dá exemplos das virtudes que o

reino acabará por praticar. É uma santa admirável, que

está na aurora dessa transformação dos sapos em flores-de-lis.

É muito oportuno que lhe peçamos nos consiga a graça

de vermos a hora da outra transformação de sapos em

flores-de-lis. E, quando houver o Grand Retour e se começar

a trabalhar para a construção do mundo futuro,

sejamos o que ela foi no mundo dela: os precursores de

um admirável progresso. Esse, então, verdadeiro, porque

progresso em Nosso Senhor e em Nossa Senhora. v

(Extraído de conferências

de 3/6/1964 e 5/6/1967)

1) Henri Pourrat (* 1887 - † 1959). Escritor francês.

2) Flor de lis: símbolo heráldico da Casa Real Francesa.

3) “Grande retorno”. No início da década de 1940, houve na

França extraordinário incremento do espírito religioso,

quando das peregrinações de quatro imagens de Nossa Senhora

de Boulogne. Tal movimento espiritual foi denominado

de “grand retour”, para indicar o imenso retorno daquele

país a seu antigo e autêntico fervor, então esmaecido.

Ao tomar conhecimento desses fatos, Dr. Plinio começou

a empregar a expressão “grand retour” no sentido não só de

“grande retorno”, mas de uma torrente avassaladora de graças

que, através da Virgem Santíssima, Deus concederá ao

mundo para a implantação do Reino de Maria.

4) Jean-Baptiste Chautard (* 1858 - † 1935). Cisterciense trapista,

abade do mosteiro de Sept-Fons (França). Entre outras

obras, escreveu “A alma de todo apostolado”, à qual

Dr. Plinio se refere na presente conferência.

5) Flor-de-lis: Açucena-formosa, uma das espécies de lírio.

6) Peça teatral escrita por Edmond Rostand em 1904. Ver

Dr. Plinio”, n. 22, p. 4.

29


Luzes da Civilização Cristã

Leoboudv

Fontainebleau - esplendor,

Tratando dos mais diversos

assuntos, Dr. Plinio procurava

ver o aspecto religioso.

Analisando o castelo de

Fontainebleau, aponta ele para

a tendência de se construir

algo que superasse a natureza e

compensasse um pouco o que

esta Terra tem de exílio. Há

dentro disso um apelo para algo

maior do que as coisas terrenas,

e que é o começo do movimento

rumo ao Céu.

30


iqueza e simplicidade - II

31


Luzes da Civilização Cristã

Omobiliário dessa sala é elegante, leve, também

constituído de tapeçarias, e habilmente disperso

pela sala, de maneira que se tem, ao mesmo

tempo, impressão de muita mobília, mas há vazios importantes.

Um dos segredos de uma sala bonita é ter vazios

importantes. Eu já tenho visto sala empetecada de

móveis, não se pode dar um passo sem esbarrar num cacareco.

Não tem propósito! O vazio bonito faz parte da

boa decoração.

Orquestração fabulosa de riquezas de espírito

Os vazios são indispensáveis para o ornamento de

uma sala. Mas nessa sala do castelo de Fontainebleau,

que estou analisando, tem-se a impressão, ao mesmo

tempo, de muita mobília e de nada de atravancamento;

isso é agradável. A beleza cromática da sala é a seguinte:

os vidros das janelas são transparentes, a luz que entra

por eles é, inteiramente, a luz do dia. Não é aquela

luz leitosa da galeria.

Mas essa luz do dia, no que ela tem de cru, é compensada

por um mundo de cores. Quase se poderia dizer

que todas as cores possíveis estão representadas aqui,

mas para não ficarem sobrecarregadas, todas elas em

estado muito pálido. E um mundo de cores muito pálidas

não dá a ideia de feeria de cores, pois elas quase que

se fundem umas nas outras, mas divertem e descansam

os olhos maravilhosamente.

Creio ser indiscutível que essa sala dá uma ideia de

fausto. A principal noção de fausto que dela se depreende

é da prodigiosa policromia, mas de cores delicadas

que se fundem umas nas outras; é uma orquestra-

ção fabulosa de riquezas de espírito, de riquezas culturais.

No meio de mil coisas empalidecidas, ficaria um

pouco insípido não ter uma nota viva. E, a ter uma nota

viva, o vermelho é o mais bonito. O vermelho-cereja,

dado um pouco para sangue, no meio das cores pálidas,

é um jato. Como um cozinheiro, que entende das

coisas, sabe pôr na elaboração de um prato um pouco

de pimenta, para realçar todo o resto.

A porta é feita com a preocupação de constituir um

elemento decorativo a mais dentro da sala. Então ela

mesma é tratada com uma série de painéis, todos muito

delicados, leves, que contrastam com o sobrecarregado

das laterais. O contraste de sobrecarregados e leves

forma a harmonia da sala, que sem isto ficaria empetecada.

Manifestamente, nota-se aí a tendência a construir

uma coisa que superasse a natureza, e compensasse um

pouquinho o que esta Terra tem de exílio, com a ideia

de que o homem é feito para coisas maiores do que as

coisas terrenas. Há dentro disso um apelo para algo

maior do que esta vida e esta Terra, e que é começo de

movimento rumo ao Céu. Esse é o lado religioso do assunto.

Fotos: Ignis / Nicolas Vigier

Abaixo, Salão da Imperatriz;

à direita, detalhe do Salão da Rainha-Mãe

32


Esplendor do luto com certa

nota de severidade

A sala de estar da Rainha-Mãe, quase não se sabe se

é mais bonita do que a Sala do Conselho. É mais severa

do que a Sala do Conselho, e se explica porque a Rainha-Mãe

— por definição a viúva e tudo quanto acompanhava

a viuvez — tinha uma certa nota de severidade.

Donde o aparecimento dessas portas escuras, que trazem

uma vaga reminiscência de todo o esplendor do luto. É

uma sala de avó, tendo um certo compassado que a alegria

e o esplendor da outra sala não possui.

Isso corresponde à ideia daquele tempo de a viúva usar

até o fim da vida os sinais de viuvez, sobretudo quando

se tratava da rainha. O que a moldura dessa sala tem de

muito sério é compensado por inúmeros arabescos finos.

Então, há aqui um mundo de formas, flores, grinaldas,

guirlandas, de figuras mitológicas, de quadros.

E uma coisa que fica muito bonita é o espelho, certamente

feito em Veneza — onde se fabricavam espelhos

enormes, profundos — e que é como uma janela aberta,

o que também torna alegre o ambiente. Depois, tapeçarias

colossais, que também dão gáudio à sala.

Os quadros sobre as portas dão à passagem quase a

majestade de um arco de triunfo. Fica uma coisa riquíssima,

muito bonita. Porta sempre com duas folhas, por

causa do protocolo da corte. Para os filhos ou netos de

um rei, as duas folhas da porta se abriam, o alabardeiro

dava uma pancada no chão e gritava: “Sua Majestade,

a Rainha, ou Sua Alteza Real...” Quando era para um

príncipe de sangue real, mas não filho ou neto de rei,

abria-se uma só face, como também se fazia para todo

o resto da nobreza.

De maneira que era de grande estilo a pessoa, digamos

a Rainha-Mãe, ser precedida pelos alabardeiros

que abriam a porta, colocavam-se de ambos os lados

e gritavam: “Sa Majesté, la Reine!” Então, reverências,

etc. Quer dizer, a porta era ocasião de um cerimonial,

quase um pano de boca de um palco; daí seu

caráter triunfal.

Nicolas Vigier

Aposentos da Rainha-Mãe

33


Luzes da Civilização Cristã

Isto estava nos hábitos do tempo,

porque entrar e sair eram uma arte.

Não se faziam esses movimentos como

um frango entra ou sai do galinheiro.

A entrada e a saída de uma

pessoa marcavam a sala.

Observem a beleza dessa mesa,

com as pernas trabalhadas e sobre ela

uma taça de porcelana policromada

muito bonita. Tudo em nível mais discreto

do que o jogo de cores feérico.

A Revolução vai se adensando:

melancolia e moleza

Sala de Conselho de Luís XV. O

gênero de beleza evoluiu do tempo de

Luís XIV para Luís XV. Enquanto a

nota do raffiné 1 de Luís XIV era imponente,

em Luís XV, que já marca uma

certa decadência, o raffiné é gracioso.

Então, é um esplêndido de gracioso,

mas o gracioso é um valor menor que o

imponente, e nisto está a decadência.

Os ângulos retos desaparecem, ou

como que desaparecem; o ângulo reto

exprime muito mais a força do que

o arredondado, que representa o jeito,

a conciliação, o sorriso. Por outro lado,

as cores se tornam — sob algum ponto

de vista — mais delicadas, e um certo

ar triunfal, que tinham as salas de Luís

XIV, desapareceu. Não é uma sala

feita para um rei vencedor do mundo,

como Luís XIV pretendia ser e, em

alguma medida, foi; mas é para um rei

que leva uma vida gostosa e, nas horas

vagas, realiza uma reunião do Conselho.

Desta sala não sai a conquista

do universo, nem a prevenção

da Revolução que vai se formando

e adensando. Considerada

sob o aspecto da pulcritude,

ela exprime o maravilhoso

gracioso e, neste sentido,

ela o exprime magnificamente.

E a linha da feeria continua in-

De cima para baixo: Sala do

Conselho, Salão Branco, portal de

entrada para os aposentos da Imperatriz

34


Salão das Tapeçarias

Fotos: Ignis / Jean-Pierre Dalbéra / Tim Schofield

teiramente afirmada. Dir-se-ia que, de algum modo, ela

é até mais raffinée do que as salas de Luís XIV.

E notem uma coisa curiosa: dentro de todo esse gracioso

há qualquer coisa de mais tristonho. Não há aquela

alegria matinal. É um gracioso crepuscular, embora com

todos os encantos do crepúsculo, mas já não é aquela coisa

maravilhosa da aurora.

Essa sala, com todo o seu maravilhoso, poderia ser

de lazer, ou de jogo, num palácio real. Não poderia

ir além disso. E mesmo assim, ela tem qualquer coisa

de perigoso, porque se uma pessoa fica muito tempo

aqui dentro, não tem vontade de passar para as outras

salas. Ela tem qualquer coisa de anestésico, que é

o anestésico do otimismo. Está tudo arranjadinho, redondinho.

As cadeiras já são um pouco dadas ao anatômico, por

incrível que pareça. A civilização que gosta da cadeira

com pernas baixas é decadente. Então, nessa sala as cadeiras

têm perninhas baixinhas.

Poder-se-ia dizer que o melancólico e mole são as notas

dominantes nessa sala.

v

1) Refinado, requintado.

(Extraído de conferência de 31/10/1966)

35


Nossa Senhora do

Sagrado Coração


N

ossa Senhora do Sagrado

Coração” é Maria

Santíssima considerada enquanto

adorando o Sagrado Coração de

Jesus, e, portanto, toda voltada

para Ele.

Invocar Nossa Senhora sob

o título do Sagrado Coração é

fazer uma síntese belíssima de

todas as outras invocações, é

lembrar o reflexo mais puro e mais

belo da Maternidade Divina,

é fazer vibrar a um só tempo,

harmonicamente, todas as cordas

do amor, que tocamos uma a uma

enunciando as várias invocações

da Ladainha Lauretana.

Dizer que Nossa Senhora do

Sagrado Coração é nossa advogada

implica em dizer que temos no

Céu uma advogada onipotente,

em cujas mãos se encontra a

chave de um oceano infinito de

misericórdia.

(Extraído de conferência de 18/6/1982 e

de “O Legionário” de 21/7/1940)

“Nossa Senhora do Sagrado

Coração” - Igreja da Santíssima

Trindade, Osimo (Itália)

Francisco Lecaros

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