Revista Dr. Plinio 212

revistadp

Novembro de 2015

Publicação Mensal Ano XVIII - Nº 212 Novembro de 2015

Excelsa e maternal

Medianeira


Modelo perfeito

de bispo

S

ão Carlos Borromeu não

foi apenas um grande

bispo contrarreformista, mas,

em algum sentido, o Bispo

da Contra-Reforma. Não só

por ser um homem de grande

preparo e cultura, que irradiou

sua sabedoria em seu tempo,

mas por ter realizado o modelo

perfeito de bispo.

Não basta redigir obras

refutando isso ou aquilo.

A pessoa precisa ser a

personificação, o próprio

símbolo, o tipo humano das

obras que escreveu. O trabalho

que ele realizou, sendo o Bispo

da Contra-Reforma e o modelo

de bispo, foi de uma eficácia

para a Igreja certamente

maior do que a dos próprios

escritos dele.

GFreihalter (CC 3.0)

(Extraído de conferência

de 30/10/1963)

São Carlos Borromeu

Basílica de Nossa Senhora

em Tongeren, Bélgica

2


Sumário

Publicação Mensal Ano XVIII - Nº 212 Novembro de 2015

Ano XVIII - Nº 212 Novembro de 2015

Excelsa e maternal

Medianeira

Na capa, Nossa

Senhora das Graças

Igreja dos Jesuítas,

Palência, Espanha

Foto: Timothy Ring

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

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ao Assinante

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Editorial

4 Mãe da Divina Graça e da perseverança

Piedade pliniana

5 Súplica da despretensão e do enlevo

Dona Lucilia

6 Afável, flexível, acolhedora

Perspectiva pliniana da História

10 Considerações sobre o patriarcado

Reflexões teológicas

16 “Tu o dizes, Eu sou Rei”

De Maria nunquam satis

18 A glória excelsa de Maria Santíssima

Calendário dos Santos

26 Santos de Novembro

Hagiografia

28 Santa Catarina de Alexandria,

virgem heroica e grandiosa

Luzes da Civilização Cristã

32 Sacralidade beneditina

Última página

36 Mãe da Igreja e Rainha do mundo

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Editorial

Mãe da Divina Graça

e da perseverança

Estreitamente unido a Maria Santíssima por meio da escravidão de amor, segundo o método de

São Luís Grignion de Montfort, tinha Dr. Plinio grande devoção à invocação Mater Divinæ

Gratiæ — Mãe da Divina Graça —, neste mês comemorada na festa da Medalha Milagrosa.

Sobre a efígie impressa na Medalha, cuja confecção foi pedida pela própria Mãe de Deus, abaixo reproduzimos

um profundo comentário de Dr. Plinio, relacionando-a à Contra-Revolução, à realeza de

Maria e à graça da perseverança que deve ser almejada por cada um dos filhos da Santa Igreja:

Nós temos, numa das faces da medalha, Nossa Senhora pondo os pés sobre o mundo, na afirmação

de sua realeza sobre toda a Terra. É exatamente essa a doutrina da realeza de Nossa Senhora que

vem lembrada em Fátima e afirmada com uma vitória sobre a Revolução.

Ela calca também uma serpente, o que está inteiramente coerente, concludente, porque desse lado

está escrito: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós.”

Quer dizer, é a Imaculada Conceição. Mas não é pura e simplesmente a Imaculada Conceição,

porque há aqui um atributo que não se encontra nas imagens da Imaculada Conceição como tal:

Nossa Senhora está com as mãos abertas em sinal de aquiescência, de atendimento, e de suas mãos

partem fachos luminosos imensos, simbolizando as graças e os favores que pelas mãos d’Ela — quer

dizer, pela ação e por meio d’Ela — descem sobre o mundo.

Essas graças são concedidas para a conversão dos pecadores, dos hereges, mas também para o castigo

dos irredutíveis e proteção daqueles que se mantiveram fiéis até o fim. São graças para a perseverança

dos fiéis. Tudo isso sai das mãos de Nossa Senhora como de um manancial.

Ela está afável, risonha, acolhedora, para todos aqueles que tendo em vista esse conjunto de fatos,

de símbolos, de atributos, de noções, se dirigem confiantes a Ela, pedindo as graças de que precisam.

Vamos pedir a Nossa Senhora que, pelas graças da Medalha Milagrosa, Ela apresse o dia de sua vitória,

de um lado. E de outro lado, também nos ajude a sermos fiéis durante todas as tormentas que

se aproximam. Porque devemos nos lembrar bem disso: a perseverança é uma graça inestimável. Do

que adianta ter virtudes, se depois cair no pecado?

Essa perseverança não é fruto de nossas qualidades pessoais, mas da graça que se trata de pedir

humildemente, de implorar com insistência, e à qual se trata de corresponder. Portanto, precisamos

pedir as graças que nos assegurem a perseverança.

Essa invocação de Nossa Senhora das Graças — ou de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa —

é particularmente eficiente na luta contra o poder das trevas, que tanto e tanto nós devemos conduzir

nos dias de hoje 1 .

1) Conferência de 27/11/1964.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Súplica da despretensão

e do enlevo

Arquivo Revista

ÓMaria, Esposa Imaculada do Espírito Santo, dai-me a graça de ver os

imponderáveis da Criação, de me enlevar por eles, e de ser impelido

por um amor desinteressado à contemplação das perfeições que a alma

humana possui pela natureza e pela graça.

Fazei-me subir dessa consideração à da natureza angélica e puramente

espiritual, e, por fim, à de vosso Divino Filho que, na sua humanidade

santíssima, é o ápice e a síntese de toda a Criação.

Fazei-me, em seguida, por um voo ainda mais possante de despretensão e de

enlevo, fixar a minha mente na consideração da própria essência divina, da

qual toda a Criação é imagem ou semelhança, de maneira que, analisando depois

as criaturas, possa antegozar o Céu, preparando-me desse modo para entrar

nele e Vos louvar por toda a eternidade. Amém 1 .

v

1) Composta por Dr. Plinio em 5/1/1973.

5


Dona Lucilia

Afável, flexível,

acolhedora

O conjunto das qualidades de alma de Dona Lucilia,

as quais não eram antitéticas, mas quase paradoxais,

ela hauriu na devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

N

a capela de Versailles, como em muitas igrejas,

há um espaço entre o altar e a parede. O

rei mandou fazer ali um nicho com uma imagem

do Sagrado Coração de Jesus, e os nobres que tinham

devoção iam lá rezar.

Ornato despretensioso, mas ardoroso

Marcou tanto a família real esta devoção, que Luís

XVI fez uma consagração da França ao Sagrado Coração

de Jesus, quando ele estava preso no Templo, prometendo

reiterá-la, caso fosse posto em liberdade.

A fórmula dessa consagração conserva-se até hoje.

No século XIX, houve Santos e outros fiéis não canonizados

— Sóror Josefa Menendez está neste caso —

que praticaram insignemente a devoção ao Sagrado Coração

de Jesus.

Neste contexto com todas essas glórias, Dona Lucilia

entra como um ornato despretensioso, mas ardoroso.

Ela assistia às Missas dominicais na Igreja do Coração

de Jesus, onde rezava muito concentrada, mas sem

carranca, como certas flores que se fecham — não se

amarram — à noite, e depois se abrem. Assim fazia

ela.

Terminada a Missa, ela se dirigia à imagem do Sagrado

Coração de Jesus, e ali fazia longa oração, com os

olhos fitos na imagem, e numa espécie de diálogo. Não

que mamãe tivesse a ilusão de que Ele estava falando

com ela. Mas ela dizia coisas a Nosso Senhor, e intuía o

que Ele responderia. E assim, diálogo imaginário, mas

suponho que fosse um diálogo dela com a graça que Ele

dava. Sem nada de místico, ao menos nunca notei, nem

fui levado a suspeitar que houvesse.

Eu notava muito como mamãe hauria nessa devoção

as disposições de alma que a caracterizavam, e quão largamente

essa devoção foi ocasião para ela adquirir ou

aperfeiçoar as virtudes que tanto amei nela, e cujo conjunto

eu notava como uma espécie de graça, no ambiente

da Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

Elevação de alma, porém amando

a realidade concreta

Era a conjunção de qualidades, evidentemente não

antitéticas — porque não há antítese entre uma qualidade

e outra —, mas seriam quase paradoxais.

Primeiramente, uma grande elevação de alma, de maneira

que o espírito dela não somente se reportava com

muita facilidade a regiões mais altas, mas morava nessas

regiões.

Contudo, ela era o oposto de uma sonhadora, de uma

mera teórica, de uma pessoa que vive enleada em preocupações

sem base na realidade. Pelo contrário, Dona

Lucilia estava inteira e singelamente dentro da modesta

realidade dela, cuidando de tudo, arranjando tudo,

amando essa realidade concreta e participando da vida

intensamente, embora seu espírito pairasse nessa esfera

mais alta.

6


Por exemplo, ela era uma excelente dona de casa, e

prestava atenção nos últimos pormenores: se uma flor

estava murcha num vaso e a empregada tinha se esquecido

de jogar fora; se embaixo de uma estante não havia

uma poeira acumulada; enfim, de todos os detalhes

nos quais uma dona de casa cuidadosa, esmerada presta

atenção, ela cuidava de modo perfeito.

Solicitude e bondade

Ao mesmo tempo, ela trazia consigo uma atmosfera

de recolhimento, dando a entender que seu espírito habitava

dois planos completamente distintos, porém correlatos.

Nos mais antigos agrados que mamãe me fazia, eu notava

muito isso e me deleitava. Sentia-me muito frágil,

quando criança. Percebia a minha fraqueza, o meu nada,

e como ela se voltava para essa fragilidade com uma doçura

enorme, entrando, por assim dizer, na minha condição,

participando das minhas limitações, e pondo tudo

quanto era dela a meu alcance para atenuar e dar solução

aos efeitos dessas limitações.

Entretanto, eu sentia que essa carícia, penetrando tão

fundo em mim, vinha muito do alto no espírito dela. À

maneira de senhora — não sei se ela seria capaz de descrever,

pois a alma feminina sente muitas vezes essas coisas

sem saber explicitar —, havia toda uma consideração

a respeito da bondade de Deus, infinita, mas condescendente,

que vai até os últimos pormenores: olha a ovelhinha,

presta atenção na galinha, agrada a criancinha e medita

sobre o lírio do campo… E quanto mais desce, mais

doce se torna.

Quando fiquei mais velho, fui capaz de explicitar correlações

dessas. Eu percebia bem que a imagem do Sagrado

Coração, que há na igreja d’Ele — aliás, artisticamente

comum, sulpiciana —, queria dar a entender essa

forma de solicitude e de bondade do Sagrado Coração

de Jesus.

Lendo a mensagem d’Ele a Santa Margarida Maria

Alacoque e vendo a vida cotidiana de Nosso Senhor, descrita

no Evangelho, encontra-se muito isso também. E

na imagem que há no oratório do quarto de mamãe essa

ideia está muito presente.

Aplicação e distensão

Arquivo Revista

Outra harmoniosa antítese, menos saliente do que a

anterior, era um misto de aplicação e de distensão.

Nunca na vida encontrei Dona Lucilia tensa. Posso

tê-la visto muitas vezes aborrecida, aflita, inclusive na

perspectiva de infortúnios, porém tensa propriamente

não.

7


Dona Lucilia

Lembro-me de ter notado muito isto num pequeno

episódio que, aliás, para ela não era tão insignificante.

Eu tinha 21 anos, mais ou menos, quando fui fazer

operação de amígdalas. E combinamos em casa de não

contar a ela, porque ficaria preocupada. Eu mesmo ia

um tanto apreensivo fazer esta cirurgia — que de si é insignificante

—, porque na véspera fora visitar o Arcebispo

D. Duarte, para tratar de um assunto qualquer referente

ao apostolado, e comentei com ele:

— Senhor Arcebispo, vou passar alguns dias fora, porque

farei operação de amígdalas, mas quando voltar telefonarei

ao seu secretário para saber se há algo de novo…

Ele então me disse:

— Vosmecê vai fazer essa operação?

— Vou, Senhor Arcebispo, está marcada para amanhã.

— No seu lugar eu não faria…

— Mas por quê?

— Porque, não se diz por aí, mas essa operação oferece

perigos eminentes…

— Mas qual é o perigo, Senhor Arcebispo?

— Basta simplesmente vosmecê ter uma hemorragia.

Conheço um caso em que esguichou sangue até o teto!

Afinal conseguiram fechar qualquer coisa lá, e parou a

hemorragia. Mas, nem sempre se consegue…

Notei que ele realmente não queria que eu fizesse a

cirurgia. Porém a disciplina eclesiástica não chega até

lá... Eu estava mesmo propenso a fazer, e fiz.

Combinei com um médico, membro de minha família,

que ele assistiria à operação e, quando esta terminasse,

ele iria para minha casa e avisaria Dona Lucilia. E assim

foi feito.

Quando ela entrou em meu quarto, no hospital, acariciou-me

muito e, depois de se certificar de que eu estava

bem, sentou-se e me contou como tinha sido a comunicação

da minha cirurgia para ela.

Notei que ela estava na pós-aflição e, portanto, ainda

meio traumatizada pelo caso. Tensa, nada! Não tinha tido

tensão alguma. Quer dizer, precisava acontecer, aconteceu,

Nossa Senhora ajudará. Se acontecer o pior, ainda

assim se vive.

A atitude diante do infortúnio marcava nesse ponto a

vida dela, enormemente!

Bela e nobre bruma de melancolia,

mas sempre de bom humor

Ela nunca estava com o espírito dissipado, ocioso,

mas sempre meditando, pensando, considerando, lembrando,

ponderando. Entretanto, jamais a vi tensa, cansada

ou prejudicada por essa contínua aplicação do espírito.

Às vezes, julga-se que pensar cansa. Depende de como

se pensa. Quando isso é feito sem amor-próprio, por

amor a Deus, o pensamento não causa cansaço.

Embora Dona Lucilia pudesse ser considerada um arquétipo

da sofredora, era o contrário da pessoa aflita.

Surgia daí outro paradoxo: ela trazia no fundo do

olhar, em todo o seu modo de ser, uma bela e nobre bruma

de melancolia; porém, estava sempre de bom humor.

Continuamente afável, flexível, disposta a acolher,

a atender, a renunciar a sua própria vontade para fazer

a de outrem, a ouvir o que o outro queria contar, ao invés

de ela falar.

Se analisarmos as promessas do Sagrado Coração de

Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque veremos serem,

evidentemente, de uma seriedade infinita; mas todas

elas visam à distensão. Procuram resolver, aclimatar,

ajudar, e são ditas de modo distensivo e bondoso. Poder-

-se-ia dizer que são as doze promessas da confiança e do

bem-estar de alma, dentro da aflição.

Serenidade majestosa de Nosso Senhor

Dona Lucilia queria muitíssimo bem a sua mãe e era

uma filha muito zelosa e dedicada. Quando minha avó

morreu, cheguei em casa e, depois de rezar um pouco

junto ao corpo, lembrei-me logo de mamãe e fui vê-la.

Encontrei-a no quarto, toda vestida e deitada na cama,

com uma postura na qual eu nunca a tinha visto na

vida: meio largada. Não como uma pessoa esparramada,

que se entregou, mas com a atitude de uma ovelha que

aceita ser morta, se for preciso.

Recordava aquela tranquilidade sublimíssima de Nosso

Senhor Jesus Cristo, representada na iconografia católica,

até na Crucifixão e na Morte.

Na Paixão, Nosso Senhor Jesus Cristo é apresentado

sempre aflito, é claro, mas nunca agitado, inquieto. Mesmo

no Horto das Oliveiras, a calma d’Ele é completa,

dentro de uma tristeza insondável.

O fato de os Apóstolos estarem dormindo, tornava o

isolamento ainda mais dramático, a tragédia mais pungente,

e a aflição mais dilacerante; e, com isso, mais augusta

a calma d’Ele.

Tenho a impressão de que a cada uma das idas de Jesus

em busca dos Apóstolos, Ele estava mais aflito do

que na vez anterior. Não obstante, em todas as três vezes

Ele foi com o passo lento, fazendo a pergunta quase ritualmente,

porque já sabia qual seria a resposta. Ao voltar,

carregava o fardo e a dor de mais uma recusa.

Este ato de Se ter retirado só, para pesar tudo o que

vinha, indica muito esta calma. O tenso, neurótico, fugiria

dessa perspectiva de todos os modos. Ele, entretanto,

a enfrentou!

8


A serenidade d’Ele está indicada também

na conduta com os que O foram

prender. Até com Judas!

É uma serenidade, antes de tudo, majestosa.

Percebe-se — outro paradoxo! —

que é um Deus que está sofrendo.

Calma extraordinária de

Dona Lucilia diante da morte

Além da majestade, nota-se o “absoluto”

da dor, se assim se pudesse dizer. Não

há dor absoluta, mas a dor de Nosso Senhor

era a mais parecida possível com a

ideia de uma dor absoluta. Não faltou nada

para que Ele sofresse inteiramente. O

brado d’Ele no alto da Cruz: “Meu Deus,

meu Deus, por que Me abandonastes?!”,

é um brado carinhoso, não de revolta.

Isso forma um todo em Nosso Senhor

Jesus Cristo, e esse todo parecia refletir-

-se em mamãe de modo muito marcante.

Por fim, a atitude de Dona Lucilia

diante da morte. Ela foi envelhecendo

e, portanto, afundando dentro da morte,

com uma calma extraordinária!

Na véspera de seu falecimento —

quando ela já havia recebido a Extrema-

-Unção, e era impossível que não notasse

estar próxima a morte — eu ainda vi esta

cena.

Aconteceu algo que de vez em quando

se dava com ela, e que a fazia sofrer. Mas

nessas ocasiões ela sempre tinha um gesto

de paciência, como quem diz: “Deus

arranja depois.”

E isso que ocorreu inúmeras vezes ao

longo de sua vida, repetiu-se nas vésperas

de sua morte, e até de um modo particularmente

desagradável.

O gesto, que outrora queria dizer:

“Não agravemos isto por uma reação,

porque ainda se pode arranjar depois...”,

repetido por ela, já encostada na morte,

significava: “Bem, resta-me um quê de vida,

talvez; não quero comprometer por

nada este momento.”

Por fim, ela teve a morte da católica

calma: fez um grande “Nome do Padre” e

morreu!

v

João Dias

(Extraído de conferência de 14/6/1985)

9


Perspectiva pliniana da História

Considerações sobre

o patriarcado

O patriarca: figura tão importante e tão presente ao longo

da História, cujo valor passou a ser menosprezado com o

avanço do processo revolucionário.

Uma pessoa poderia olhar para um cedro do

Líbano sem muita atenção. Ela não perceberia

bem ter aquele vegetal uma arquitetonia,

um desenho que poderia ser comparado quase a um bailado

imóvel de folhas.

O cedro do Líbano, cantado

pela Sagrada Escritura

O cedro possui uma elegância, uma distinção, uma

classe, uma “sabedoria”, uma superioridade em relação

ao chão, eleva-se do solo para o céu e dá quase a impressão

de quem diz:

“Eu, cuja semente germinou nas profundezas obscuras

da terra, elevei-me tão formoso pelos ares que passei

a ser uma beleza integrante do céu. Olhai para meu tronco,

é uma robusta coluna a penetrar corajosamente terra

adentro! Porém, não renego o meu passado. Se é verdade

que enfrento tantas tempestades, tantos vagalhões,

e refuljo de tal maneira aos sóis mais causticantes e, na

minha longevidade clássica e mais do que secular, desafio

os homens — pois posso dizer a quem acaba de me

Francisco Lecaros

10


plantar: ‘Durarei mais do que tu’ —; entretanto, é verdade

também que tudo isso estava contido numa semente

inicial, que encerrava dentro de si toda a minha beleza,

toda a minha longevidade, toda a minha dignidade. Tudo

quanto em mim é feito para a luz germinou nas obscuridades

do chão. E eis-me altaneiro, acima de todas as

construções circunvizinhas, e mais venerável do que muitos

que se abrigam à minha sombra. Quem sou eu? Sou

o cedro do Líbano, cantado pela Escritura, obra de Deus

louvada pelo próprio Deus.”

Se um cedro desses pudesse pensar, e se fosse possível

um agricultor experiente meter a pá na terra e, alcançando

o bulbo originário, separá-lo sem dano para a própria

árvore, e apresentá-lo ao cedro, este a quem nenhuma

tempestade conseguira quebrar, espontaneamente se

inclinaria até o chão diante de sua origem.

Poderíamos imaginar o que diria o cedro ao suposto

bulbo do qual ele nasceu: “Ó patriarca, tu és a minha

causa! Tu continhas em ti mesmo tudo aquilo de que sou

a explicitação!”

Se é bonito o efeito que se desdobra, como ele é belo

enquanto dorme obscuramente na causa! Portanto, se

é pulcro ser cedro do Líbano, que glória ser um pequeno

bulbo cujo cerne contém latente todo esse futuro!

Em vista disso, a pequena semente poderia exclamar:

“Ó Koh-I-Noor, diamante magnífico da coroa dos reis

da Inglaterra, todos os homens te admiram; mas se eles te

comparassem — carbono inerte, realmente transparente e

muito formoso — comigo, bulbo do qual nascerá um cedro,

como compreenderiam que sou superior a ti! Tu refletes

uma luz, que de ti não nasce, e a projeta para longe; eu faço

mais: recebi a vida e a prolongo, estendendo

para os ares uma vitalidade

que está dentro de mim.”

Estas considerações ilustram bem

o que é o Patriarcado. “Patri” vem

do latim, pater: pai; “arca”, do grego,

arkhē: governo, domínio. É a

autoridade recebida pelo fato de

ser pai, e exercida paternalmente.

Os mais antigos patriarcas eram

aqueles pais dos quais procedia

uma numerosa descendência: filhos,

netos, bisnetos, e assim por

diante, fortemente unidos, porque

o velho varão, à maneira do cedro

do Líbano, estava como denominador

comum entre eles todos, afirmando

aquilo que eles tinham de singular, impedindo que

essa característica se dispersasse na pluralidade rica das

personalidades, e fazendo assim com que a família não se

desfizesse, mas continuasse una, nele e por ele, porque cada

membro encontrava no patriarca o ponto comum com

todos os outros. Assim, ele ligava entre si não somente os

filhos de uma mesma geração, mas os descendentes de ramos

distintos e longínquos da família, durante várias gerações,

porque ali estava o patriarca que vivia centenas de

anos até que, afinal, para ele viesse a decadência das forças

físicas e o sinal de que a morte o iria levar.

Ele, então, já teria deixado na alma de cada um de

seus descendentes, a quem ele formara, as suas próprias

memórias, imprimindo nelas algo ao mesmo tempo comum

a todas, mas contendo uma palavra inefável e própria

para cada uma.

Realizava-se, assim, a obra-prima da unidade na variedade,

que consagra o patriarcado verdadeiro. Nada de estandardizações,

nem de pluralidades e diferenças anárquicas

entrechocando-se como bodes e cabritos no pasto; mas

a multiplicidade bem ordenada que vemos brilhar tanto em

determinados cedros do Líbano, ao espalharem em todas

as direções seus galhos, cuja simetria nos recorda que cada

ramo é mais belo pelo fato de haver outro — análogo, mas

não idêntico — simétrico a ele, no sentido oposto.

A família se expandiu de tal forma

que dela nasceu um povo

Assim se multiplica a família patriarcal: a mesma religião,

a mesma língua, os mesmos tipos físicos que lem-

Obra-prima da unidade

na variedade

Aclamação de Dom Pedro I no Campo de Sant’Ana, Rio de Janeiro

Biblioteca do Congresso, Washington, EUA

Limongi (CC. 3.0)

11


Perspectiva pliniana da História

bram a unidade da estirpe dentro da pluralidade dos rostos

individuais; surgem os subpatriarcados, pois de tal

descendente nasceu tal outra estirpe... O patriarca representa

o gênero, enquanto os que nascem dos subpatriarcas

representam as espécies.

Imaginemos, nos tempos em que vigorava o estado de

nomadismo, o amanhecer no acampamento dessa numerosa

descendência. Aos primeiros reflexos do Sol, é o patriarca

quem antes se levanta. Com sua longa barba e cabelos

brancos, vestindo uma alva túnica, deixa sua tenda

e, dentro da penumbra que precede a aurora, faz soar a

trombeta feita de um longo chifre vazado. Saúda assim a

manhã, vê as tendas começarem a se mover, e delas saírem

os filhos, os netos, os bisnetos... Também os animais

despertam, e por todo o acampamento manifesta-se a vitalidade.

O patriarca olha, reza e abençoa.

Deus, que criou o patriarca como um símbolo visível

de Si mesmo, atende sua prece e cobre com sua bênção

toda a estirpe, todos os animais e os campos que se estendem

até os confins por aonde aquela família vai se expandir.

Família? Não é só isso. Cresceu tanto que já é um povo

a nascer.

Patriarca? Sim, mas já não apenas pai. Ele está à testa

daquilo que se encontra na transição entre uma família

e uma nação. Algo da majestade real se faz venerar na

sua velhice. Algo do direito de mandar, tão característico

da realeza, reluz na sua causalidade, ou seja, naquela

propriedade pela qual ele é a causa e por onde esta tem o

domínio sobre o efeito.

Domínio por um direito, porque criou, porque fez,

porque gerou. Domínio também por uma necessidade,

porque quem construir sem tomar em conta essa pedra

de ângulo dispersa, faz o caos, a desordem.

Quando as tribos que descendem de um mesmo chefe

vão se tornando uma nação, e o patriarca recebe de seus

filhos, em determinado momento, um diadema, ou mesmo

uma simples faixa dourada para cingir a sua fronte, a

sensação de todos seus descendentes será de, afinal, ter

chegado algo que já estava demorando.

O patriarca comanda na guerra

e oferece o sacrifício na paz

Do ponto de vista humano, a História é tecida na medida

em que seus agentes — os quais são todos os seres

humanos — estão sôfregos por dar o passo seguinte numa

linha ascensional. Assim, cada grupo humano com vitalidade

quer transpor as diferenças que o separam do

estágio seguinte. A tribo que anseia por ser uma nação

reverencia seu passado, quando ela era uma mera família,

e guarda essas recordações com emoção, tendo encanto

em dizer: “Nós somos uma família.” Mas o seu verdadeiro

entusiasmo é quando ela, tomando as proporções

de uma nação, pode dizer olhando para o seu passado:

“Esta é uma família contente em ser, hoje, uma nação;

mas ela tem a alegria em ter sido, outrora, uma família.”

Uma nação que se desenvolve assim pratica a soma

das idades. Ao passar de família ao estado intermediá-

Monumento à

Independência do Brasil

São Paulo, Brasil

Luiz Coelho(CC 3.0)


Quando se vem de um

longínquo passado,

têm-se elementos para

compreender por onde

correrá o longo futuro.

Igreja de Nossa Senhora

do Carmo e

sepultura dos irmãos Andrada

Santos, Brasil

Reprodução

rio, chamado tribo, ela levou consigo todas as recordações

de sua infância.

O patriarca tem todo o amor paterno e o amor filial,

toda a influência e a capacidade de mando pelo afeto,

pelo amor à ancestralidade, que caracteriza o seu poder

nascente. Ao passar a ser o chefe de uma tribo, ele é também

um guerreiro. Em certos povos pagãos, ele é o grande

sacerdote também. Portanto, é ele quem comanda na

guerra e oferece o sacrifício na paz; é o pontífice único

ou principal daquele estado intermediário.

Reprodução

Dom Pedro I foi o patriarca do Brasil

Normalmente, quando aquele grupo humano torna-

-se uma nação, o sucessor do patriarca será o rei, condensação

de todo o patriarcado e de toda a era familiar

anterior. No corpo do rei bate o coração de um pai, na

sua fronte reluzem os grandes desígnios de um rei. Suas

mãos empunham a espada e a lança em tempo de guerra,

e ele é o primeiro no risco; mas em tempo de paz, na hora

do sacrifício, são as mãos dele que se juntam para rezar,

para oferecer a vítima.

Como tudo isto é belo! Como tudo isto tem uma potencialidade

magnífica! É a soma das idades, praticada

pelas nações.

Quando um povo é atento, em todos os lances de sua

vida, a praticar essa soma das idades, dentro dele nasce

uma série de “patriarcalidades”. Por causa disso, os homens

que fundam uma nação podem não ser, no sentido

genealógico, os patriarcas dela, mas quando vamos ver a

reverência prestada a um fundador, notamos que o país

o constituiu numa espécie de patriarca.

No local onde se proclamou a independência do Brasil,

foi feito um grande monumento representando o entusiasmo,

a união, o devotamento de todos os Estados

brasileiros pelo Imperador D. Pedro I e sua esposa, a Imperatriz

Dona Leopoldina, porque ele, declarando a independência,

foi o patriarca, fundou esta nação.

Em Santos, a sepultura dos irmãos Andrada

Estando certa vez com um grupo de amigos em Santos

— eu era ainda moço —, e tendo ouvido falar que os

restos mortais dos três irmãos Andrada, os quais tiveram

tão importante papel na proclamação da independência

do Brasil, jaziam em Santos, manifestei o desejo de ir visitar

essa sepultura.

Meus companheiros não compreendiam isso, e me

disseram:

— O que você quer fazer lá?

13


Perspectiva pliniana da História

— Quero reverenciá-los — respondi. Sei que foram

homens lúcidos, inteligentes. Embora eu poderia não

concordar com muitas ideias liberais deles, orientaram

tão bem alguns primeiros passos do Brasil, que se tem

quase a impressão de terem espargido sua inteligência

por toda a Nação, comunicando algo da rutilação do espírito

de um José Bonifácio, por exemplo, à inteligência

do povo brasileiro.

A sepultura dos três Andrada está na Igreja do Carmo,

em Santos, numa pracinha, perto do cais. São duas

igrejas geminadas — da Ordem primeira e da Ordem

terceira —, muito pitorescas, com estalas lindas, com um

oratório que data ainda do tempo de Felipe II, quando

ele era Rei do Brasil. Todas essas circunstâncias levavam-

-me a venerar aquilo tudo.

Pedi, então, ao porteiro do convento que me indicasse

a sepultura dos irmãos Andrada.

Considerando o grande papel que desempenharam

na fundação do Brasil, eu supunha encontrar um monumento

magnífico, feito para receber seus restos mortais.

Qual não foi minha estranheza ao ver apenas uma espécie

de sala com a sepultura

dentro.

A noção de patriarcalidade

vai se perdendo...

Aquele que teve a missão

de fundar e, com ela, as graças

ou mesmo os meros favores

e dons naturais concedidos

pela Providência para ter

a criatividade e impulsionar,

merece da parte daquilo por

ele fundado o mesmo respeito

que o cedro do Líbano teria

em relação ao velho bulbo

do qual ele brotou.

Carlos Magno: o

patriarca do qual

nasceu a Europa

As sociedades antigas não

conheciam certas deformações

que as sociedades modernas

experimentam, porque

elas eram atentas a essas unidades.

Assim, por exemplo, as

características regionais em

um país eram muito definidas

antigamente, e nessas regiões

havia um grande número de

famílias, de todas as classes

Relicário de Carlos Magno

Catedral de Aachen, Alemanha

sociais, que podiam dizer ao longo de quantas gerações se

havia exercido tal profissão, e que sabiam mais ou menos

qual era o primeiro da família a ter iniciado aquele ofício.

Na França, por exemplo, havia uma família que, comprovadamente,

descendia de lenhadores do tempo de

Carlos Magno. Era uma estirpe mais antiga, enquanto lenhadores,

do que a linhagem real, como monarcas. Essa

família era organizada à maneira patriarcal: todos os ramos

se conheciam, tinham reuniões e havia um descendente

do ramo primogênito que exercia uma grande influência,

era muito venerado e tinha uma espécie de direção

geral de toda a parentela.

Todos os anos, quando chegava o aniversário dele, o

rei mandava soldados de cavalaria levar-lhe uma mensagem

de felicitações.

Considero esta atitude, antes de tudo, fruto de uma

linda disposição de alma. Mas, se não fosse isso, seria em

todo caso um gesto genial, porque assim a própria monarquia

francesa manifestava, de um modo vivo, que ela

se alegrava por aquela família vir de um tempo anterior

a ela. Embora a família real francesa seja, talvez, a dinastia

mais antiga da Europa,

ela se gloriava em perpetuar,

por uma continuidade efetiva

e verdadeira, um passado

anterior a ela, que vinha dos

desígnios e do heroísmo de

Carlos Magno.

Proceder de Carlos Magno,

a qualquer título, que

maravilha! Aquele é o bulbo,

é o patriarca do qual nasceu

a Europa!

HOWI (CC 3.O)

Um exemplo de

”despatriarcalização”

Havia antigamente, em relação

aos pais, aos fundadores,

uma atmosfera de respeito,

de veneração, uma tendência

à aglutinação em torno

deles, à obediência, que

caracterizava uma ordem

de coisas estável, tranquila

a olhar com serenidade para

o futuro, porque, não tendo

perdido a memória dos

séculos anteriores, as pessoas

conservavam uma espécie

de bússola que lhes indicava

qual era o porvir.

14


Quando se vem de um longínquo

passado, têm-se elementos para compreender

por onde correrá o longo

futuro. Isso é muito importante. Hoje

se fala de futurologia. Tenho vontade

de dar risada: “Fale de tradição!” Se

alguém quiser, por exemplo, ser um

bom brasileiro e prever o futuro do

Brasil, é conveniente fazer estudos,

mas não lhe adiantarão grande coisa

se não entender a Torre de Belém

do velho Portugal, do qual nos gloriamos

de descender. Sem essa noção

das raízes, fracassará.

Com a Revolução Industrial, essa

unidade de origens foi fragmentada.

Por exemplo, no século XIX aldeias

suíças inteiras migravam para os Estados

Unidos; contratavam companhias

de navegação e embarcavam,

tendo à frente o vigário com o estandarte

do Padroeiro da paróquia. A

aldeia ficava fechada e vazia...

Quem não compreende que houve uma “despatriarcalização”

ali? Uma extirpação de raízes, algo que deveria

ter sido diferente.

Barulho que ”blasfemava” contra a natureza

Em menino, eu costumava ir a uma fazenda no interior

de São Paulo, perto da qual passava uma estrada de

ferro. Devido à grande quantidade de montanhas na região

e à dificuldade para túneis, os trens davam muitas

voltas por aquelas paragens, até chegar ao seu destino.

Então, na sede da fazenda onde eu estava, ouvia-se de

longe o silvo do trem que tocava, rasgando o silêncio da

tardinha. Dez, quinze minutos depois, aquele apito se fazia

ouvir de outro lado. Eu ficava desagradado e aflito

com aquilo. “Por que esse barulho? Por que rasgar de um

modo tão indiscreto e estúpido, por assim dizer sem pedir

licença, o augusto silêncio desta noite que vai descendo?”

Em determinado momento, o trem passava em frente

do terraço de minha fazenda. E, mentiroso como é o

progresso moderno, para quem estava do lado de fora, o

veículo dava a impressão de um palácio. Os trens naquele

tempo eram diferentes dos de hoje: muito mais ornados,

com cortininhas nas janelas, tinha-se a impressão de

um palácio feérico que ia levando uns privilegiados, a toda

velocidade, para a cidade onde um futuro também feérico

os aguardava.

Quando o trem acabava de passar, deixava a sensação

de um conto de fadas que, depois de ter feito barulho

Estação ferroviária de General Carneiro, Minas Gerais,

em fins do século XIX

e deitado faíscas, dizia: “Eu te darei um futuro deslumbrante

se romperes com esta calma, com este silêncio,

com esta patriarcalidade, e entrares nas minhas asas de

ferro. Eu te levarei para a cidade, na qual serás um anônimo,

mas onde um torvelinho delicioso te fará esquecer

do teu passado e te embriagará de uma glória que eu te

prometo, se tu fizeres força. Faze força e serás um anônimo

montado em milhões. Não terás um passado, mas

possuirás dinheiro!”

E eu pensava: “Estou vindo da cidade. Conheço esse

trem. Andei dentro dele com horror, detestei suas sacolejadas,

abominei as fagulhas que ele deita, consultei

o relógio inúmeras vezes para ver quando acabava a viagem!

Vim para o campo com vontade de encontrar esta

tranquilidade, e volto à cidade aborrecido por ter que

deixá-la. Abomino a mentira desse trem ‘blasfemando’

contra a natureza. Ele é falsidade com asas de ferro, levando

para uma aventura que é uma loucura. É a morte

da sabedoria. Nesse corre-corre, nesse desvario, não

há continuidade, não há pensamento, não há calma, não

há tradição. E onde não existe nada disso não pode haver

futuro. Há transformações. Mas, cuidado: transformação

não é sempre futuro. Transformação pode ser decadência,

pode levar facilmente para a morte!”

Eram essas as considerações que, no meu tempo de

adolescência, eu fazia para diferenciar-me e defender o

meu direito de não ser conforme à Revolução, de querer

outra coisa e de caminhar para outro rumo. v

(Extraído de conferência de 28/12/1985)

Lecen (CC 3.0)

15


Reflexões teológicas

“Tu o dizes, Eu sou Rei”

Presente em todos os sacrários da Terra,

Nosso Senhor Jesus Cristo exerce uma realeza efetiva

sobre toda a História, por meio da Santa Igreja

Católica Apostólica Romana.

N

osso Senhor Jesus Cristo foi ora aclamado, ora

ridicularizado como Rei, coroado de espinhos

e, por fim, no alto da Cruz onde Ele foi imolado

colocaram a inscrição: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.”

O que havia de autêntico na realeza d’Ele, e qual

a relação de sua Paixão com essa realeza?

Realeza incompreensível para os ímpios

Interrogado durante a Paixão, por Pôncio Pilatos, sobre

se Ele era rei, Nosso Senhor Jesus Cristo respondeu:

“Tu o dizes, Eu sou Rei.”

Entretanto, pouco antes Ele afirmara que seu Reino

não é deste mundo. Declaração incompreensível para

aqueles bandidos que O atacavam. Do que adianta ser

rei para não o ser deste mundo? Há fora deste mundo

um reino no qual se possa reinar? Ora, um rei sem reino,

é um ex-rei. Donde é, pois, esse reino?

Para debicar de sua realeza, aqueles algozes Lhe puseram

uma coroa de espinhos, uma túnica escarlate e uma

vara de bobo na mão, à guisa de cetro; e O esbofeteavam,

dizendo: “Ave, Rei dos judeus!”

Uma nação ímpia, um governador romano ímpio também,

insensíveis ou refratários à verdadeira realeza d’Ele

que se irradiava como a luz do Sol, resolveram atender

às vontades da plebe e do Sinédrio que queriam matá-Lo

por torpes ambições, quiçá, por ódio à santidade d’Ele.

E para provar que Ele não tinha poder, nem sabedoria,

nem divindade, nem realeza, colocaram-Lhe uma coroa

de espinhos sobre a cabeça.

Misto de humilhações e vitórias

O seu Corpo verte Sangue abundantemente, e Ele Se

torna purpúreo como se estivesse revestido de um manto

imperial, cujo valor é infinito. Abandonado pelos Após-

tolos, rejeitado pelo povo eleito, sentado sobre um banquinho

ou uma pedra qualquer e levando bofetadas,

mantém Ele a mansidão de um Cordeiro com a altaneria

de um Leão e a dignidade de um Rei em seu trono, num

misto de dor lancinante e de triunfo, que O acompanharão

até o Calvário.

Do alto da Cruz, pouco antes de morrer, como um

Rei que premia um herói, Ele reabilita um ladrão e canoniza-o,

dizendo: “Hoje, tu estarás comigo no Paraíso!”

Assim é a vida do católico, a vida da Igreja: cheia de

humilhações e de vitórias. Humilhações tão profundas

que se diria nunca mais poder reerguer-se delas; vitórias

tão grandes que julgaríamos irreversíveis.

Entretanto, como uma nau que navega levada pelas

ondas a alturas e profundidades vertiginosas, assim a

barca de São Pedro vai percorrendo a História: com todas

as honras, mas também com todas as dores e humilhações

de Cristo coroado.

Três espinhos dessa coroa sagrada foram parar em

mãos de São Luís IX, Rei de França, que para abrigá-los

devidamente mandou construir um dos mais belos monumentos

da arte medieval e, portanto, de toda a História:

a Sainte-Chapelle, verdadeira caixa de cristal com nervuras

de granito, onde se celebra o Santo Sacrifício.

Um Reino que não é deste mundo

Sim, Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiramente

Rei, antes de tudo por ser Ele

Quem é: o Verbo de Deus encarnado.

Deus é Rei, porque é Deus! Logo, Jesus

Cristo é plenamente Rei por sua divindade.

Se houve, portanto, alguém digno

deste título na Terra, este foi, continua

a ser e será Ele, até o fim do

mundo.

Gustavo Kralj

16


Assim, quando Lhe perguntaram se era Rei, Ele tinha

toda a razão em responder: “Verdadeiramente, tu o dizes,

Eu sou Rei!”

Ele fizera inúmeros milagres, convertera os homens, viera

para, por sua Paixão e Morte, resgatar do pecado o gênero

humano. Não Lhe faltavam, pois, títulos para a realeza.

Os milagres, a santidade e a profundidade incomparável

de sua doutrina, o testemunho da Sagrada Escritura,

tudo levava a reconhecê-Lo como o Messias.

O Antigo Testamento falava que o Messias, descendente

de Davi, seria o Rei de Israel cujo Reino eterno se estenderia

sobre o universo inteiro.

Os judeus esperavam, portanto,

a vinda de um príncipe

da Casa de Davi, um conquistador,

um político e um militar

extraordinário que brilhasse como

um potentado terreno e pusesse

longe os romanos conquistadores,

tomando conta de Jerusalém para estabelecer

um reinado de glória, perto

do qual o de Salomão não teria sido

senão um tímido prefácio.

Ora, Jesus veio e não conquistou

nada, reconheceu a autoridade

de César, e disse não pertencer a este

mundo o seu Reino.

Reinando de dentro de todos

os sacrários da Terra

Contudo, sendo Homem-Deus, não só conhecia,

mas dispunha do futuro. O domínio de todos

os acontecimentos da História Lhe pertence.

Ele sabia que o seu Reino chamar-se-ia Igreja

Católica Apostólica Romana.

Não é um reino deste mundo, constituído

para ter exércitos e fazer política. É o reino

estabelecido para difundir o nome e a mensagem

d’Ele a todos os homens, e para

que a Lei d’Ele viesse a vigorar, um dia,

em todo o orbe.

Grande mistério: Ele reinaria

de dentro de todos os sacrários

da Terra! Quem poderia compreender

uma coisa dessas?

Mas Ele tinha razão: “Tu o

dizes, Eu sou Rei!” v

(Extraído de conferência

de 28/4/1984)

Santo Cristo dos Milagres

Toronto, Canadá

17


De Maria nunquam satis

A glória excelsa de

Maria Santíssima

Eric Rolph (CC 3.0)

Por mais grandiosa que seja a Criação, há entre as

meras criaturas e Nosso Senhor Jesus Cristo um

abismo infinito. A Santíssima Virgem é o grampo de

ouro que une toda a Criação ao Divino Redentor.

Nossa Senhora é a Medianeira de todas as graças.

Portanto, através d’Ela sobem a Deus todos

os pedidos feitos pelos homens e vêm todos

os favores concedidos pela Divina Providência.

Princípio da gradatividade

Para entender bem a importância de Maria Santíssima

na Doutrina Católica é preciso compreender, antes

de tudo, o papel de Nossa Senhora nos planos de Deus,

Quem é Ela e qual sua fisionomia espiritual.

Quando observamos a natureza material que nos circunda

— os bonitos panoramas, a mudança de cores e de

luz durante o dia, etc. —, notamos serem frequentes formas

de beleza, as mais excelentes, que se manifestam por

meio de tonalidades intermediárias.

Por exemplo, o arco-íris: ele é composto por uma série

de tonalidades intermediárias que combinam entre si

e se sucedem, não de um modo brusco, mas harmonioso.

Quando contemplamos os dois extremos de um frag-

mento do arco-íris, percebemos que, através de cores intermediárias,

Deus fez a ótica humana passar harmoniosamente

de um extremo de uma cor ao extremo de outra.

Nessa conjugação de dois extremos, através de formas

intermediárias de beleza, está verdadeiramente o encanto

do arco-íris.

Nota-se algo semelhante em certas flores cujas pétalas

vão mudando gradativamente de cor à medida que se

distanciam da corola.

O princípio da gradatividade é um dos mais belos da

natureza, segundo o qual todas as coisas se dispõem em

graus. Há uma harmonia constituída de elementos diversos

que se justapõem, fazendo-nos passar de um extremo

a outro paulatinamente.

Ao avaliar colares, por exemplo, os joalheiros dão

muita importância a este princípio. Há colares compostos

por pérolas de diferentes tamanhos, nos quais as pérolas

bem pequenas ficam junto ao fecho e, à medida

que se aproximam do centro, elas vão aumentando sucessivamente,

até dar numa pérola bem grande. É preci-

18


so que a diferença de uma pérola para outra seja proporcional.

Esses graus sucessivos e harmônicos dão tal beleza

ao colar a ponto de os joalheiros darem, muitas vezes,

mais valor a um colar com pérolas de tamanhos diversos

e gradativos, do que um colar onde todas as pérolas são

grandes e iguais. Aliás, é mais difícil encontrar uma série

de pérolas com tamanhos inteiramente adequados, e

há uma forma de beleza mais artística nessas pérolas que

formam, assim, uma coleção, do que um conjunto de pérolas

grandes circundando o pescoço de uma senhora.

Observa-se este mesmo princípio em toda a natureza

criada.

Minerais, vegetais, animais

Tomemos o brilhante mais estupendo, ou a pérola mais

magnífica, e o comparemos com uma folha de alface, a

mais ordinária que possa haver. Embora o brilhante tenha

uma beleza extraordinária e um preço enorme, a

folha de alface possui um predicado que deixa o

brilhante longe: ela tem vida. Qualquer ervinha

vale, do ponto de vista ontológico, incomparavelmente

mais do que o brilhante.

Subindo a escala dos seres, a superioridade

de um animal em relação a uma planta é simplesmente

fabulosa! Pelo fato de que o

animal tem sensibilidade e a planta não.

Se nos dermos ao trabalho de examinar,

por exemplo, um gato andando

sobre um telhado, veremos o mundo

de finura e sensibilidade empregadas

pelo felino. Cada passo é dado com “critério”; ele

olha em volta de si e, quando percebe que a situação

não é muito segura, não se precipita; examina, move um

pouco a orelha, e quando está muito “preocupado” ele

mia. Um gato só se joga quando percebe que pode jogar-

-se. Então, ele dá o pulo, cai com naturalidade e sai andando

como se não tivesse acontecido nada; e às vezes

são alturas vertiginosas! É uma sensibilidade muito aguda,

muito perfeita, que o gato tem. Para algumas coisas,

é mais perfeita do que a sensibilidade humana.

Comparem isso com uma árvore frondosa que deita galhos

enormes onde pousam os pássaros, e cobre grande extensão

de uma planície. Sem dúvida, é uma glória; mas que

cativeiro! Ela está atada ao chão pelas raízes, incapaz de se

defender. O próprio solo, do qual a árvore suga os elementos

vitais, é a prisão onde ela permanecerá até morrer.

O ser humano, miniatura do universo

Hgrobe (CC 3.0)

Acima dos animais estão os seres humanos, compostos

de espírito e matéria e também dispostos hierarquicamente.

Em seguida vêm os anjos, seres puramente espirituais.

Quando examinamos o universo dos seres intelectuais

— homens e Anjos — notamos existir também uma gradação.

Os Anjos estão distribuídos em nove categorias dentro

das quais não há um igual ao outro. Se fôssemos representar

graficamente o mundo angélico, deveríamos imaginar,

no caso dos Anjos bons, uma fileira fabulosa de espíritos,

cada vez mais lúcidos, mais fortes, mais virtuosos

e mais próximos de Deus, até chegar aos supremos, os

Serafins que têm uma visão mais clara e direta do Altíssimo

do que todos os outros Anjos, e repetem eternamente

o Sanctus: “Sois Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos

Exércitos...”, aquela adoração muda e, ao mesmo tempo,

feita continuamente de exclamações, no mais alto de toda

a série dos Anjos.

Obrer (CC 3.0)

Electron (CC 3.0)

19


De Maria nunquam satis

Vemos, portanto, em todo o universo uma gradação:

os seres sem vida, minerais; os vegetais, seres vivos sem

nenhuma forma de conhecimento; os animais, com conhecimento

meramente instintivo; os homens, dotados

de conhecimento instintivo e intelectivo, mas ainda imersos

na matéria; os Anjos, pairando acima da matéria. Assim,

há uma escala que vai da última pedra, ou da poça

de lama mais ordinária até Deus Nosso Senhor, por meio

de uma gradação magnífica, na qual há uma hierarquia e

uma harmonia extraordinárias.

Outro aspecto deste princípio é a ideia de que em todos

os conjuntos hierarquicamente constituídos deve haver

um elemento máximo, em torno do qual se ordena a

beleza de todos os outros.

Quando nos perguntamos qual é o mais alto desses seres

criados, devemos naturalmente dizer que é um Serafim.

Mas as obras de Deus são cheias de subtilezas, entre

as quais esta:

Sem dúvida, no alto da hierarquia das criaturas temos

os Serafins, mas é verdade também que o homem apresenta

uma qualidade especial: só ele contém em si o universo

inteiro. Nós temos espírito como os Anjos, corpo

como os animais, vida vegetativa como as plantas, e materiais

tirados do mundo mineral. O homem é uma espécie

de miniatura do universo.

Diz a Bíblia que Deus, depois de ter criado todos os

seres, viu que cada um deles era bom, mas o conjunto era

ainda melhor. E se é verdade que o Anjo é superior a nós

por ser puro espírito, poderíamos, forçando um pouco a

nota, dizer a ele, depois de lhe ter feito, evidentemente,

uma profunda reverência à qual ele tem direito: “Vós

sois incomparavelmente mais nobre do que nós, enquanto

puro espírito. Contudo, o conjunto, em nós, está representado

mais adequadamente do que em vós.”

Trata-se de um aspecto da realidade, cuja enorme importância

no plano da Criação veremos a seguir.

Como explica a Teologia, uma das razões pelas quais

convinha que a união hipostática se desse com a natureza

humana é precisamente o fato de que Deus, unindo-Se a

um homem, honrava de modo especial todos os graus da

Criação. É tão grande a dignidade de sermos um compêndio

de toda a Criação, que motivou essa honra especial a

qual o Verbo de Deus quis nos dar: Ele Se fez carne e habitou

entre nós. Creio que Ele Se teria feito carne e habitado

entre nós ainda que não tivesse havido o pecado original,

para assim, na sua misericórdia, honrar todas as criaturas.

Vemos, por estas considerações, quanto é belo e piedoso

o pensamento expresso por diversos autores segundo

os quais, quando Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu,

houve uma alegria em toda a natureza, e esta se revestiu

de um novo esplendor: os astros brilharam com mais intensidade,

o ar tornou-se mais puro, as águas das fontes

ficaram mais cristalinas, as plantas tomaram maior viço,

os animais se alegraram e se tornaram mais saudáveis; os

homens bons adquiriram mais esperança. Por quê? Porque

vinha ao mundo Aquele que, sendo o próprio Deus,

ligara a Si todo esse conjunto por meio da natureza humana.

Quando olharmos a menor das pedras, a menor das

plantas, o menor dos bichos ou o menor dos homens, devemos

pensar isto: a natureza deles está, de algum mo-

Com a Encarnação do Verbo toda

a Criação uniu-se a Deus

Anjo - Catedral

Notre-Dame,

Paris, França

20


Anunciação - Basílica

Santa Maria Sopra

Minerva, Roma, Itália

Gustavo Kralj

Sérgio Hollmann

do, presente em Nosso Senhor Jesus Cristo e, assim, ligada

a Deus, participando de sua glória no mais alto do

Céu, no oceano de esplendor de santidade da Santíssima

Trindade.

Um abismo preenchido pela

Santíssima Virgem

Contudo, pelo mesmo princípio de gradatividade acima

mencionado, o espírito humano, sequioso de ordem

e de razoabilidade em todas as coisas, busca um ser que

preencha o abismo infinito ainda existente entre Nosso

Senhor Jesus Cristo e a mera Criação: um ser tão próximo

do Homem-Deus, que estivesse acima dos Anjos;

mas que, sendo pura criatura humana, englobasse também

todas as demais naturezas.

Esse ser é precisamente Nossa Senhora. Ela foi colocada

numa altura insondável, e numa plenitude de glória,

de perfeição e de santidade inimagináveis. Acima

d’Ela está somente seu Divino Filho e a Santíssima Trindade.

Por um mistério também insondável, Maria Santíssima

gerou virginalmente Nosso Senhor Jesus Cristo, permanecendo

virgem antes, durante e depois do parto por

ação do Espírito Santo, de Quem se tornou, assim, verdadeira

esposa.

A dignidade de ser Mãe do Verbo encarnado, Esposa

do Espírito Santo e Filha dileta do Pai eterno coloca-

-A, embora sendo uma criatura puramente humana, acima

dos Anjos.

Criada com a missão de obter

a vinda do Messias

Dante, na “Divina Comédia”, depois de ter passado

pelo Inferno e pelo Purgatório, percorre os vários círculos

dos bem-aventurados no Céu. Quando chega aos

mais altos Serafins, vê acima deles Nossa Senhora que

sorri para ele. Então, ele olha para dentro dos olhos de

Nossa Senhora e ali contempla o reflexo da Santíssima

Trindade.

Depois de ter contemplado os olhos celestes e virginais

de Maria Santíssima, resta apenas ver a Deus face

a face, no Céu. O olhar humano chegou tão alto quanto

podia chegar. Fitou o olhar puríssimo, sacratíssimo, sumamente

régio e indizivelmente materno de Nossa Senhora!

A mais alta das cogitações humanas foi feita, a

“Divina Comédia” terminou.

Esta concepção nos faz ver que o princípio da gradatividade

por mim enunciado comporta uma aplicação excelente

em Nossa Senhora. Porque Ela é o grampo de

ouro que liga toda a Criação a Nosso Senhor Jesus Cris-

21


De Maria nunquam satis

Teresita M.

Em certo momento, a Virgem Santíssima recebeu a

revelação da Paixão pela qual passaria seu Divino Filho e

dos sofrimentos atrozes que viriam sobre Ele e sobre Ela.

Nossa Senhora deveria padecer em união com Aquele

que sofreu como nunca nenhum homem tinha sofrido e

nem sofreria até o fim do mundo. À Passio — Paixão —

de Jesus se uniria a compassio — a compaixão, o “co-sofrimento”

— de Maria.

Para que os homens pudessem ser salvos e dar glória a

Deus, Ela consentiu em ser a Mãe do Redentor e suportar

esses tremendos sofrimentos.

É possível conceber o que Nossa Senhora sofreu durante

a Paixão?

Imaginemos o que sentiria qualquer mãe que, andando

pela rua, ouvisse de repente um alarido e, aproximando-se,

visse seu filho sendo chicoteado, deitando sangue

por todos os poros, padecendo dores indizíveis, carregando

uma cruz, objeto da selvageria de um populacho brutal,

vil, dando risada dele, dizendo atrocidades e levando-

-o, junto com essa cruz, para ser crucificado e morrer no

mais horroroso dos martírios, no alto de uma montanha.

Essa mãe desmaiaria, ficaria psicótica, louca, conforme

o caso poderia até morrer.

Ora, Nossa Senhora queria a Nosso Senhor Jesus

Cristo incomparavelmente mais bem do que qualquer

mãe possa querer a seu filho. Em primeiro lugar, porque

Ela é a melhor Mãe que houve e haverá; mas também

porque Ela teve um Filho incomparavelmente melhor do

que qualquer outro.

É difícil imaginar a graça e encanto manifestados por

Nosso Senhor como Filho: todo o respeito, a ternura, a veto,

colocada no alto de todo o universo e contendo em Si

toda a beleza das meras criaturas.

Qual é o papel dessa criatura tão excelsa em relação a

nós? Qual é a missão de Nossa Senhora na história de ca-

“Meu Deus, meu Filho: pela minha

inocência, pela minha virgindade,

pelo amor que Vós sabeis que

Vos tenho, Eu Vos peço por este

filho pecador. Em nome dessa

chaga que Vós sofreis por causa

dele, peço-Vos que o perdoeis.”

Sant’Ana explicando as Escrituras

a Maria Santíssima (acervo particular)

da homem e na História da Santa Igreja Católica Apostólica

Romana, ou seja, no centro da História da humanidade?

Porque o centro da História da humanidade é a

História da Santa Igreja Católica.

A Santíssima Virgem sempre foi representada como

estando em oração, no momento em que recebeu o

anúncio do Arcanjo São Gabriel.

Sem dúvida, Ela pedia a vinda do Salvador que haveria

de resgatar a humanidade e fundar a instituição

a qual dispensaria a graça de Deus em tal abundância,

que os homens afinal se tornassem, mais frequente e facilmente,

virtuosos e, assim, a verdade, a beleza, o bem,

a grandeza, o amor de Deus pudessem constituir-se no

mundo e levar as almas ao Céu.

Nenhuma outra criatura humana tinha valor e virtude

suficientes para impetrar e alcançar tal graça. Assim, Ela

foi criada especialmente com a missão de obter a vinda

do Messias esperado.

Seus sofrimentos durante a Paixão

22


neração, a delicadeza,

a grandeza! Como

terão sido os

trinta anos de intimidade

entre Ele e

Nossa Senhora, durante

os quais Ela O

viu crescer em graça

e santidade diante

de Deus e dos homens

e amou, com

amor perfeito, cada

estágio da perfeição

d’Ele que ia se desenvolvendo?

Qual

era o abismo de adoração

no qual Ela se

desfazia em relação

a Ele?

Pois bem, Ela vê

esse Filho, o próprio

Deus, a própria

Timothy Ring

Santidade, tratado assim por aquele populacho!

Quando Ela teve o encontro com Ele durante a Via

Dolorosa, quando O abraçou, O osculou, e recebeu a

glória enorme de ter o seu rosto virginal e sua túnica tintos

com o Sangue divino; quando Ela recolheu os gemidos

d’Ele, e foi a seu lado subindo até o alto do Calvário;

quando Ela viu seus estertores finais e Ele gritar: “Eli, Eli

lamá sabactâni” — Meu Deus, meu Deus, por que Me

abandonastes? —; e depois dizer: “Está tudo terminado”,

inclinar a cabeça e exalar o espírito: ao contemplar

tudo isso, qual terá sido do sofrimento d’Ela?

Ela pedia o perdão para cada um de nós

Nossa Senhora das Dores - Sevilha, Espanha

Nesses momentos em que Maria Santíssima sofreu

de um modo indizível, Ela manteve uma serenidade tão

perfeita que Se conservou de pé o tempo inteiro junto à

Cruz, com uma resignação e uma força que fazem d’Ela

o modelo da criatura humana posta no sofrimento.

Até o último momento, Ela dizia ao Padre Eterno:

“Eu consinto em que aconteça isso a meu Filho, para que

Ele Vos dê a glória devida, salve as almas para Vós, ó

meu Pai, e para que elas gozem da felicidade eterna junto

a Vós no Céu.”

Dizem os teólogos que do alto da Cruz Nosso Senhor,

cuja inteligência é infinita, conhecia todos os homens pelos

quais Ele haveria de derramar até a última gota de

seu Sangue. Via, individualmente, todos os pecados que

cada um cometeria, sofria por todos esses pecados, e dava

a sua vida para resgatar os pecadores que correspondessem

à graça da

Redenção.

Creio que para a

compaixão de Nossa

Senhora ser completa,

Ela também

nos conheceu individualmente

naquela

ocasião, e rezou

em favor de cada um

de nós. De maneira

que, enquanto o Verbo

de Deus via aquela

multidão de pecados

que se desprenderia

dos homens ao

longo dos séculos,

Ela pedia perdão para

cada um, e Ele ia

perdoando pelo pedido

d’Ela, pois, sendo

inocente, Ela merecia

o perdão que nós não merecíamos.

Foi, portanto, por causa das súplicas de Maria que cada

um de nós obteve o dom de ser batizado, de conhecer

a Igreja Católica, de receber os demais sacramentos,

de ter devoção a Ela, e de manter-se fiel à Igreja nesses

dias tormentosos em que vivemos. Será também pelo favor

d’Ela que alcançará o Céu.

Nossa Mãe e Advogada

Eis o papel de Nossa Senhora como nossa Mãe e Advogada:

Mãe de Cristo, Ela é a Mãe de todos aqueles que nasceram

para a graça pelo Batismo. Mãe do Redentor, tornou-Se

também a Mãe dos pecadores, desempenhando

um papel que, de algum modo, o próprio Deus não poderia

exercer. Porque Deus é juiz, mas Nossa Senhora,

como Mãe, é naturalmente a advogada dos filhos.

É próprio ao papel de mãe defender o filho, por mais

miserável, imundo, asqueroso, por mais crápula que ele

seja. A mãe perdoa e pede a Deus que o perdoe também.

A mãe está solidária com o filho até quando o pai o abomina

completamente.

Nossa Senhora, Mãe supremamente boa, reza por

cada um de nós e, considerando que as chagas de Nosso

Senhor foram causadas, em parte, por nossos pecados,

Ela pediu a Ele: “Meu Deus, meu Filho: pela minha

inocência, pela minha virgindade, pelo amor que

Vós sabeis que Vos tenho, Eu Vos peço por este filho

pecador. Em nome dessa chaga que Vós sofreis por cau-

23


De Maria nunquam satis

sa dele, peço-Vos que o perdoeis.” E assim cada um de

nós foi perdoado.

Foi, então, por meio de Maria Santíssima que Deus

veio a nós na Encarnação e deu-se o Natal do Salvador, e

é por intermédio d’Ela que vamos a Ele e recebemos os

benefícios da Paixão e Cruz, isto é, da Redenção.

Por isso, morto Nosso Senhor, Nossa Senhora continuou

a ser a grande intercessora junto a Ele, a Advogada

que nunca abandonou homem algum, por mais pecador

que fosse. A ponto de ensinar a Teologia que se São Pedro,

depois de ter cometido o pecado horroroso de negar

o Divino Mestre, não desesperou, arrependeu-se e se salvou,

foi pelos rogos de Maria que lhe obteve a graça do

arrependimento e o perdão.

E se Judas Iscariotes, o mercador péssimo que vendeu

Nosso Senhor por trinta moedas, tivesse recorrido a Nossa

Senhora, Ela o teria recebido com toda bondade e misericórdia,

e obtido o perdão também para ele.

Após a morte do Salvador, é a Santíssima Virgem

Quem reúne os Apóstolos em torno de Si, está junto a

eles em Pentecostes, acompanha a Igreja nos primeiros

passos e é a sua grande protetora ao longo de toda

a sua existência, presente nas batalhas onde os guerreiros

católicos venceram os exércitos inimigos da Fé, presente

nos combates contra as heresias, e na luta que noite

e dia cada homem trava contra seus defeitos, para adquirir

maiores virtudes. E ainda que não nos lembremos

de Nossa Senhora, Ela está Se lembrando de nós do alto

dos Céus, pedindo por nós com uma misericórdia que

nenhuma forma de pecado pode esgotar. Basta nos voltarmos

para esta misericordiosa Mãe para que, cheia de

bondade, Ela nos atenda e nos limpe a alma, dando-nos

força para praticarmos a virtude e nos transformarmos

de pecadores em homens bons.

Nunca nos faltarão forças para os sacrifícios necessários

à prática da Lei de Deus, desde que as peçamos

a Nossa Senhora. Aqueles que se voltam a Ela recebem

tudo; aqueles que se afastam d’Ela não recebem

nada.

Rainha do universo

Maria Santíssima é chamada pela Igreja a “Porta do

Céu”. É por esta Porta que todos os homens obtêm as

graças: por Ela nossas orações chegam a Deus, e também

todas as graças descem para os homens. Tudo nos vem

por intermédio de Nossa Senhora.

São Luís Grignion de Montfort utiliza uma bela imagem

para ilustrar essa realidade.

Imagine alguém do povo que quer presentear o rei,

mas não tem outra coisa para oferecer-lhe a não ser uma

maçã. Mas não tem coragem de oferecê-la ao monarca,

por ser um presente muito comum. Então, pede à mãe

do rei que oferte ao rei essa maçã.

A mãe do monarca coloca a fruta numa bandeja de

prata e lhe diz: “Meu filho, essa pessoa é minha filha

também e pede-me para vos oferecer isto.”

O rei sorri e a recebe como se fosse uma esfera de

ouro.

Por vezes, as melhores ações dos homens têm o valor

de uma maçã; mas, oferecidas pelas mãos virginais e

acompanhadas com o sorriso de Maria, Deus as recebe

com encanto, agradece, e as recompensa. Quanto mais

unidos a Nossa Senhora, mais poderemos praticar a virtude

e nos tornarmos agradáveis a seu Divino Filho.

Como ensina a Doutrina Católica, se Nossa Senhora é

de tal maneira a distribuidora de todos os dons, Ela é a

Rainha do universo. E se Ela governa o universo inteiro,

é também verdade que devemos nos consagrar a Ela como

seus servos, deduz São Luís Maria Grignion de Montfort,

para em tudo fazer a vontade d’Ela.

Alguém me dirá: “Mas Dr. Plinio, eu sinto minha fraqueza,

minha imperfeição. Será que Nossa Senhora quererá

uma elevação dessas a mim, tão cheio de pecados?”

Eu respondo: Não tenho dúvida, porque Ela não recua

diante do pecado de nenhum homem.

Símbolo eloquente da misericórdia

de Nossa Senhora

Há na Venezuela um santuário consagrado à padroeira

nacional, Nossa Senhora de Coromoto, onde se encontra,

num ostensório, um pergaminho no qual está

gravada a figura de Nossa Senhora sentada num trono,

com o Menino Jesus nos braços e com um olhar de Rainha

e de Mãe. A história dessa imagem da patrona da

Venezuela é maravilhosa.

No tempo da colonização, havia na Venezuela uma

tribo de índios chamados Coromotos, a alguns dos quais

— entre eles o cacique — Nossa Senhora apareceu.

Os indígenas ficaram deslumbrados com aquela Rainha

gloriosa que perguntou ao cacique se ele queria morar

na cidade onde Ela reinava. Ele respondeu que sim.

Então Nossa Senhora disse-lhe para procurar os homens

que lhe colocariam água sobre a cabeça e lhe ensinariam

o caminho do seu Reino, ou seja, o Céu.

O cacique mudou-se, com outros de sua tribo, para a

região a eles reservada e, durante algum tempo, recebeu

com gosto a catequese. Entretanto, em certo momento

revoltou-se, abandonou tudo, voltou para a sua choça e

deixou a Religião.

A Santíssima Virgem lhe reapareceu na entrada da cabana,

risonha, amável, convidando-o para voltar às graças

d’Ela.

24


Tão péssimo era seu estado de alma que ele tomou o

arco e tentou atingir com uma flecha a celeste visitante.

Não obtendo êxito, procurou agarrá-La, quando subitamente

Ela desapareceu deixando-o com os braços paralisados.

Quando o miserável conseguiu movê-los, encontrou

entre eles a bela estampa que hoje é venerada no

santuário.

Um verdadeiro milagre! Não obstante, ele, com raiva,

escondeu a estampa no teto de sua choça. Mas Nossa Senhora,

ainda assim, o perdoou. Infatigavelmente perseguia

esse homem para convertê-lo.

Em determinado momento, ele não resistiu mais à

graça, pediu perdão, recebeu o Batismo e morreu em

paz, reconciliado com Nossa Senhora.

Quer dizer, depois das maiores ofensas, a Rainha do

Céu o venceu e o perdoou. Este é o símbolo mais eloquente

da misericórdia de Nossa Senhora, mostrando

como nem os piores pecados daqueles a quem Ela ama

são capazes de constituir uma barreira à bondade e à misericórdia

d’Ela.

Em nossa época, a Santíssima Virgem está sofrendo

agressões piores do que as recebidas da parte desse índio.

Os pecados do mundo contemporâneo são muito

mais cheios de malícia do que os desse miserável aborígene.

Nossa Senhora, entretanto, não quer o fim da humanidade,

mas deseja o perdão para ela. E quando, em Fátima,

Ela prenunciou castigos para o mundo, e disse até

que várias nações desaparecerão, ao mesmo tempo

anunciava a misericórdia, pois, diante dos castigos, pelo

menos certo número dos homens contemporâneos

vão se arrepender e ainda irão para o Céu. E muitos

hão de viver perdoados por Ela para entrarem

no Reino de Maria. Assim, Ela afirmou: “Por fim, o

meu Imaculado Coração triunfará!”

Nós devemos pedir a Maria Santíssima que,

em relação a cada um de nós, Ela use da graça

que teve para com o índio Coromoto: vença

nossos obstáculos, aniquile nossas maldades

e que seja verdadeira para o mundo contemporâneo,

como para cada um de nós, a promessa

do triunfo de seu Imaculado Coração,

tornando-nos apóstolos dos últimos tempos,

perfeitos filhos e escravos d’Ela, para que,

por essa forma, o Reino de Maria substitua o

reino do demônio sobre a face da Terra.

É isso que devemos pedir a Nossa Senhora

depois dessa meditação sobre a glória excelsa

d’Ela.

v

(Extraído de conferência de 7/2/1971)

Arquivo Revista

Imagem de Nossa Senhora de

Coromoto (acervo particular)

25


C

alendário

dos Santos – ––––––

1. XXXI Domingo do Tempo Comum. Solenidade de Todos

os Santos.

Beato Rainério de Arezzo, religioso (†1304). Frade

franciscano, admirável por sua humildade, pobreza e paciência.

Faleceu em Sansepolcro.

2. Comemoração de todos os fiéis defuntos.

Santo Ambrósio, abade (†c. 520). Transferido como

abade ao mosteiro de Saint-Maurice-en-Valais, Suíça, por

sua observância à regra. Estabeleceu ali a prática do louvor

perpétuo.

3. São Martinho de Porres, religioso (†1639).

Santa Sílvia (†séc. VII). Mãe do Papa São Gregório

Magno, que segundo o mesmo Pontífice, atingiu o mais alto

grau de oração e penitência.

4. São Carlos Borromeu, bispo (†1584). Ver página 2.

5. Beato Bernardo Lichtenberg, presbítero e mártir

(†1943). Vigário da catedral de Berlim, orava publicamente

pelos judeus torturados e detidos. Por isso foi enviado

ao campo de concentração de Dachau, Alemanha, onde

morreu a caminho, após muito sofrimento.

filosóficas em Cambridge, Oxford, Paris e Colônia, onde

faleceu.

9. Dedicação da Basílica do Latrão.

Beata Elizabeth da Trindade Catez, virgem (†1906).

Religiosa carmelita descalça, que desde criança procurou

no íntimo do coração o conhecimento e a contemplação da

Santíssima Trindade. Faleceu aos 26 anos no Carmelo de

Dijon, França.

10. São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja (†461).

São Justo da Cantuária, bispo (†c. 627). Religioso beneditino

enviado por São Gregório Magno à Inglaterra

para ajudar Santo Agostinho na evangelização deste povo.

11. São Martinho de Tours, bispo (†397).

São Teodoro Estudita,abade (†826). Abade do mosteiro

de Studion, Constantinopla, que foi escola de sábios,

santos e mártires que morreram vítimas das perseguições

dos iconoclastas.

12. São Josafá, bispo e mártir (†1623).

São Margarido Flores, presbítero e mártir (†1927). Por

ser sacerdote foi preso e fuzilado em Tuliman, México.

6. Santo Estêvão, bispo (†1046). Destacou-se por sua

mansidão, organizou duas peregrinações a Jerusalém e reconstruiu

a catedral

de sua diocese,

Apt, França.

13. Beatos Pedro Vicev, Paulo e Josafat Siskov, presbítero

(†1952). Religiosos da Congregação dos Agostinhos

da Assunção, que durante o regime comunista na Bulgária,

foram aprisionados e fuzilados em Sófia, acusados de

espionagem.

Willuconquer (CC 3.0)

Beata Elizabeth da Trindade Catez

7. Beato Antônio

Baldinucci, presbítero

(†1717). Jesuíta

que se dedicou

totalmente à

pregação das missões

populares na

Itália.

8. XXXII Domingo

do Tempo

Comum.

Beato João Duns

Escoto, presbítero

(†1308). Sacerdote

franciscano oriundo

da Escócia. Ensinou

as disciplinas

14. Santo Estêvão Teodoro Cuénot, bispo e mártir (†1861).

Religioso da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris,

que após 25 anos de trabalho apostólico, foi martirizado em

Binh Dinh, Vietnã.

15. XXXIII Domingo do Tempo Comum.

Santo Alberto Magno, bispo e Doutor da Igreja (†1280).

São Rafael de São José Kalinowski, presbítero (†1907).

Participou da insurreição lituano-polonesa contra a Rússia,

sendo capturado e condenado a trabalhos forçados.

Posto em liberdade, ingressou na Ordem Carmelita em

Wadowice, Polônia.

16. Santa Margarida da Escócia, rainha (†1093).

Santa Gertrudes, virgem (†1302).

Santa Inês de Assis, virgem (†1253). Irmã de Santa

Clara, foi viver junto a ela no convento de São Damião e

ajudou-a na fundação da Ordem.

26


–––––––––––––– * Novembro * ––––

17. Santa Isabel da Hungria, religiosa

(†1231).

São Hugo, abade (†séc. XII). Enviado

por São Bernardo de Claraval para

fundar a Ordem Cisterciense na Sicília

e na Calábria, Itália.

18. Dedicação das Basílicas de São

Pedro e São Paulo, Apóstolos.

Beata Carolina Közka, virgem e mártir

(†1914). Por defender sua castidade

ameaçada por um soldado, foi atravessada

por uma espada em Wal-Ruda, Polônia,

morrendo ainda adolescente.

19. Santos Roque González, Afonso

Rodríguez e João del Castillo, presbíteros

e mártires (†1628).

Santo Abdias, profeta. Após o exílio do povo de Israel,

anunciou a ira do Senhor contra os povos inimigos.

20. São Gregório Decapolita, monge (†842). Foi cenobita,

anacoreta e peregrino. Morreu em Constantinopla,

onde lutou pelo culto das imagens sagradas.

21. Apresentação de Nossa Senhora.

São Gelásio I, Papa (†496). Ilustre por sua doutrina e

santidade. Combateu várias heresias. Morreu pobre, devido

à sua caridade para com os indigentes.

22. XXXIV Domingo do Tempo Comum. Solenidade de

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo.

Santa Cecília, virgem e mártir (†séc. inc.).

São Filêmon de Colossos (†séc. I). Junto com ele é venerada

sua esposa Santa Ápia. Na carta a ele destinada,

o Apóstolo das Gentes elogia sua Fé e seu amor a Cristo.

23. São Clemente I, Papa (†séc. I).

São Columbano, abade (†615).

Santa Cecília Yu So-sa, mártir (†1839). Sendo viúva, foi

privada de seus bens, presa e sujeita a interrogatórios doze

Reprodução

São Leonardo de Porto Maurício

vezes. Exausta pelo suplício do espancamento,

morreu em Seul, Coreia.

24. Santo André Dung-Lac, presbítero,

e companheiros, mártires (†1625-

1886).

Santo Alberto de Lovaina, bispo e

mártir (†1192). Bispo de Liège, atual

Bélgica, foi exilado por defender a Igreja

e assassinado em Reims, França, no

mesmo ano em que foi ordenado.

25. Santa Catarina de Alexandria,

virgem e mártir (†séc. inc.). Ver página 28.

26. São Leonardo de Porto Maurício,

presbítero (†1751). Sacerdote franciscano,

empregou sua vida na pregação

e escrita de livros de piedade, e em mais de 300 missões

pregadas em Roma, ilha da Córsega e toda a Itália setentrional.

27. São Virgílio, bispo (†784). Irlandês de grande cultura,

apoiado pelo rei Pepino, foi nomeado para dirigir a

Igreja de Salzburgo, Áustria. Construiu a Catedral de São

Ruperto.

28. Santa Teodora, abadessa (†980). Discípula de São

Nilo, o Jovem e mestra de vida monástica, perto de Rossano,

Itália.

29. I Domingo do Advento.

São Tiago de Edessa, bispo (†521). Bispo de Sarug,

Turquia, é venerado pelos sírios como doutor e coluna da

Igreja, junto com Santo Efrém.

30. Santo André, Apóstolo.

São José Marchand, presbítero e mártir (†1875). Sacerdote

da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris, que

no tempo do Imperador Minh Mang, foi condenado ao suplício

dos 100 açoites em Hué, Vietnã.

Santa Cecília

Jean-noël Lafargue (CC 3.0)

27


Hagiografia

Santa Catarina de Alexandria,

virgem heroica

e grandiosa

Enfrentou a morte com grande

Fé e serenidade. Após seu

martírio, os Anjos levaram

o seu virginal corpo para o

Monte Sinai, a montanha

mais augusta que há na Terra,

depois do Gólgota.

N

o dia 25 de novembro, comemoramos

a festa de Santa Catarina de Alexandria,

virgem e mártir. Sobre sua morte,

o Abbé Darras, em sua obra Vida dos Santos, traz

a seguinte narração:

”Lavai minha alma no sangue

que vou derramar”

ChristianeB (CC3.0)

Maximiliano, Imperador, ordenou a morte de Santa

Catarina. Foi ela conduzida ao lugar do suplício em

meio a uma multidão, sobretudo de mulheres de alta

condição, que choravam a sua sorte. A virgem caminhava

com grande calma. Antes de morrer, fez a seguinte

oração:

“Senhor Jesus Cristo, meu Deus, eu Vos agradeço terdes

firmado meus pés sobre o rochedo da Fé, e terdes dirigido

meus passos na via da salvação. Abri agora vossos braços

feridos sobre a Cruz, para receber minha alma que eu sacrifico

à glória de vosso Nome.

Santa Catarina de Alexandria Museu da Catedral

de Santo Domingo de la Calzada, Espanha

28


Quando surgirem circunstâncias nas

quais tivermos de enfrentar riscos,

ou talvez até perder a vida, na luta

contra os adversários da Santa Igreja,

tenhamos aquela serenidade que

só a graça dá perante a morte.

Disputa entre Santa Catarina e os filósofos

Museu de Salzburg, Áustria

“Lembrai-Vos, Senhor, que somos feitos de carne e sangue.

Perdoai-me as faltas que cometi por ignorância, e lavai

minha alma no sangue que vou derramar por Vós.

“Não deixeis meu corpo, martirizado por vosso amor, em

poder dos que me odeiam.

“Baixai vosso olhar sobre este povo e dai-lhe o conhecimento

da verdade.

“Enfim, Senhor, exaltai, em vossa infinita misericórdia,

aqueles que Vos invocarão por meu intermédio, para que

vosso Nome seja para sempre bendito.”

Em seguida, mandou que os soldados cumprissem as ordens,

e sua cabeça foi decepada de um só golpe.

Era o dia 25 de novembro. Numerosos milagres logo foram

constatados. Os Anjos, como ela o desejara, transportaram

seu corpo para a santa montanha do Sinai, a fim de

que repousasse onde Deus escrevera sobre a pedra sua Lei,

que ela guardara tão fielmente escrita em seu coração.

WolfD59 (CC 3.0)

Contrastes da graça: lágrimas das

companheiras e serenidade da mártir

Este é um trecho de tal elevação, que até lamentamos

ter de comentá-lo. Ficar-se-ia mais satisfeito deixando o

texto assim, brilhando ao céu, no horizonte, suspenso e

emitindo luzes. Mas já que é preciso comentar, vamos

aos pormenores.

Foi ela conduzida ao lugar do suplício em meio a uma

multidão, sobretudo de mulheres de alta condição, que

choravam a sua sorte.

Chama a atenção o fato de se tratar, principalmente,

de senhoras de alta condição as que constituem o séquito

da Santa mártir. Quantas possibilidades de salvação tem

ainda um país onde as senhoras de alta condição acompanham

ao lugar do suplício, solidarizando-se e chorando

junto a ela, uma mártir fulminada pela cólera do Imperador!

Um monarca onipotente, o qual pode mandar

matar todos aqueles que se desagradarem de alguma atitude

dele. Entretanto, todas essas damas seguem Santa

Catarina, e vão chorando.

Vejam a diversidade dos dons do Espírito Santo e dos

efeitos da graça: é bom e belo elas irem chorando. Contudo,

esse dom das lágrimas manifestado nas mulheres

nesse momento contrasta, pela sublimidade, com o fato

de Santa Catarina não chorar. Ela permanecia quieta e

com uma grande calma, caminhando de encontro à morte,

inundada de graças do Espírito Santo, de outra natureza,

por onde a mártir não derramava por si as lágrimas

que a graça queria que as outras vertessem por ela.

Como deveria ser impressionante este cortejo de damas

andando entre os soldados, e ela no meio, a única calma,

a aconselhar todas a manterem a tranquilidade, consolando-as

até chegar o momento em que ela deveria morrer.

29


Hagiografia

Palavras que se projetam como raios de luz

Então, no fim da vida, ela emite uma oração com uma

forma especial de beleza: um conjunto de afirmações e

pedidos que se projetam como raios de luz, e brilham no

horizonte com um encanto próprio.

Senhor Jesus Cristo, meu Deus…

Com isso Catarina afirmava ser Jesus Cristo seu Deus,

e que ela não reconhecia outra divindade senão Ele.

Em seguida, o primeiro pensamento, a primeira palavra,

a primeira graça mencionada por ela, no momento

de morrer, qual é?

…eu Vos agradeço terdes firmado meus pés sobre o rochedo

da Fé, e terdes dirigido meus passos na via da salvação.

Como quem diz: “Eu Vos agradeço por ter pertencido

a Vós, que sois a fonte da minha salvação, o ponto de

partida de todo o bem que possa haver em mim. Eu sou

boa porque Vós sois bom e me destes a bondade. Eu Vos

agradeço a Fé que me doastes e a firmeza que me concedestes

nessa Fé. Eu Vos agradeço o amor à virtude que

me destes e a firmeza que Vós me outorgastes no amor

a essa virtude. É esse o primeiro benefício que Vos agradeço,

reconhecendo que tudo quanto em mim há devo à

vossa iniciativa.”

Sacratíssima e augustíssima familiaridade

com o Divino Redentor

Lembrai-vos, Senhor, que somos feitos de carne e sangue.

Perdoai-me as faltas que cometi por ignorância, e lavai

minha alma no sangue que vou derramar por Vós.

Ela temia ter cometido, por ignorância, algum pecado.

Era isso o que essa alma tinha para acusar contra si própria.

Então suplica a Nosso Senhor o perdão das faltas,

como se dissesse: “Antes de derramar o meu sangue por

Vós e de ir para o Céu, quero que Vós laveis a minha alma

no vosso Sangue.”

Não deixeis meu corpo, martirizado por vosso amor,

em poder dos que me odeiam.

Monjas contemplativas, no alto

do Sinai, velam seu corpo

Tendo pensado em sua alma, suplicando que esta fosse

lavada das faltas e recebida por Nosso Senhor, Santa

Catarina cogita, então, no corpo dela, e pede que ele não

seja deixado em mãos de seus inimigos, daqueles que a

odeiam porque têm ódio a Ele.

Abri agora vossos braços feridos sobre a Cruz, para

receber minha alma que eu sacrifico à glória de vosso

Nome.

Pode haver uma imagem mais bonita do que essa?

O Divino Crucificado que desprende da Cruz

seus braços sangrando para acolher a alma dessa

Santa, que sai também inundada do sangue do

martírio, para ser recebida por Ele.

Que maravilhosa intimidade nesse encontro

do Mártir dos mártires com uma mártir

heroica e grandiosa! Que bela ideia a do

sangue dela misturando-se ao Sangue infinitamente

precioso de Nosso Senhor Jesus

Cristo! Que elevada e profunda noção

do Corpo Místico de Cristo há nisso! Que

sacratíssima e augustíssima familiaridade

com o Divino Redentor!

Santa Catarina possuía de tal maneira a

convicção de estar sua alma unida à d’Ele,

e de que a morte selava essa união, que Lhe

pedia a abraçasse tão logo ela entrasse na

eternidade. Tal era sua certeza de ir para o

Céu!

Depois acrescentava:

AndreasPraefcke (CC 3.0)

Decapitação de Santa Catarina

Igreja de Nossa Senhora em Ravensburg, Alemanha

30


Berthold Werner(CC 3.0)

Mosteiro de Santa Catarina, Sinai, Egito

Geagea (CC 3.0)

Pedir a graça da serenidade

diante dos riscos

Vejam o respeito que devemos ter pela santidade do

próprio corpo, o qual constitui um todo com nossa alma

na prática da virtude.

Também, que atendimento magnífico dessa oração!

Foi só ela morrer, os Anjos vieram e levaram o seu corpo

para a montanha mais augusta que há na Terra, depois

do Gólgota, do Monte Calvário: o Sinai, onde a Lei

de Deus nos foi dada.

Até hoje os restos mortais desta virgem mártir encontram-se

no Monte Sinai, onde há um mosteiro de monjas

contemplativas que guardam esse corpo e meditam sobre

a Lei de Deus, ali concedida aos homens.

Baixai vosso olhar sobre este povo e dai-lhe o conhecimento

da verdade.

Ela já não pensa em si, mas nos circunstantes.

Enfim, Senhor, exaltai, em vossa infinita misericórdia,

aqueles que Vos invocarão por meu intermédio, para que

vosso Nome seja para sempre bendito.

Portanto, ela intercede desde já junto a Deus para

atender todo mundo que por meio dela venha pedir alguma

graça.

Em seguida, mandou que os soldados cumprissem as

ordens, e sua cabeça foi decepada de um só golpe.

A calma e a resolução. Feita a oração, nenhum tremor,

nenhum desejo de contemporizar um pouco. Também

nenhuma precipitação de quem tem medo de enfrentar

a morte, correndo em direção a ela. Não! Ela diz

tudo quanto tem a dizer e, terminado isso, entrega-se às

mãos de Deus. Os soldados a matam e a oração dela é

atendida.

Qual o efeito, de caráter espiritual, que a consideração

dessa grande Santa mártir nos leva a desejar?

Devemos pedir a ela que, quando surgirem circunstâncias

nas quais tivermos de enfrentar riscos, ou talvez

até perder a vida, na luta contra os adversários da Santa

Igreja, tenhamos aquela serenidade que só a graça dá

perante a morte.

A morte, essa dissolução da unidade entre a alma e o

corpo, é uma coisa tão tremenda, que só se compreende

a serenidade diante dela quando o homem está dominado

pela graça divina.

Vamos pedir, então, que em todas as ocasiões da vida

nós tenhamos, diante dos riscos, essa calma levada até o

sacrifício extremo, caso seja esta a vontade de Nossa Senhora.

v

(Extraído de conferência de 24/11/1965)

31


Luzes da Civilização Cristã

Sacralidade beneditina

Ao contrário da agitação existente em certos ambientes

do mundo atual, em Subiaco sentem-se refrigério, luz

e paz. Os monges, que se deixam imbuir pelo espírito

de São Bento, levam ali uma vida despretensiosa,

temperante, pura e cheia de uma alegria cândida.

Fracisco Lecaros

Apropósito de algumas fotografias

tiradas de Subiaco, eu

gostaria de tecer comentários

que não se limitam à análise

dos ambientes e costumes,

mas visam aprofundar impressões

causadas por aqueles

lugares na alma de quem

os contempla.

Subiaco e estação de

metrô: extremos opostos

Nesta primeira foto vemos uma pequena

porta que conduz a uma escadaria estreita.

Em rigor, essa passagem assim apertada poderia

ser a porta de uma masmorra, através da qual passa o

carcereiro para levar pão e água a algum prisioneiro nas

horas estipuladas.

Considerada, por assim dizer, “anatomicamente”, esta

parte do edifício poderia servir para isso. Entretanto,

não é nem um pouco a impressão que nos dá. Ao subirmos

por esta escadinha, não sentiríamos medo ou qualquer

outra sensação própria a quem ingressa em uma

masmorra. Pelo contrário, tem-se a impressão de um

ambiente recolhido, com uma penumbra que sucede à

grande luz do dia, com algo de aconchegado, de cômodo.

Jose Afonso Aguiar

Poder-se-ia bem imaginar um monge

beneditino dos antigos tempos subindo

esses degraus, passo a passo,

enquanto recita um salmo

ou reza uma dezena do Rosário.

Em uma palavra, quanta

bênção há aí! É uma bênção

de paz que se faz sentir por

um jogo de luz e sombra.

Se compararmos isso com

a atmosfera de uma estação de

metrô, perceberemos como o metrô

e Subiaco são extremos opostos,

de um modo até berrante: um está inserido

dentro da civilização industrial e outro na

nascente da Idade Média.

Viver entre pedras e pouca vegetação,

pensando no Céu

Na outra fotografia vemos ruazinhas muito estreitas e,

como tudo está construído em meio a montanhas, há diversos

patamares aos quais se tem acesso, às vezes, por

escadinhas como essa.

Sente-se ter vivido aqui gente habituada a uma vida

despretensiosa, temperante, pura e cheia de uma alegria

cândida.

32


David Domingues

Jose Afonso Aguiar

David Domingues

Notem como a escadinha está toda modelada pelo

passo humano. Séculos e séculos de subir e descer de homens

que consagraram a vida a Deus, renunciando a todas

as alegrias e pompas do mundo para viverem entre

essas pedras, pensando no Céu.

Imaginemos, durante o dia, abrir-se aquela janela com

vitrais elaborados à maneira de fundos de garrafa, e aparecer

por detrás um monge com capuz, braços cruzados

debaixo do escapulário, e olhando...

Nas margens desse caminho nada foi plantando pelo

homem, tudo está como a natureza pôs. No primeiro dia,

quando esse solo saiu das mãos de Deus, era possível que

fosse mais ou menos assim.

Veem-se pedras por toda parte entre as quais nasce

uma vegetação que se agarra como pode a um pouco de

terra, e viceja onde consegue.

Aquele arbusto que aparece ali, com seus galhos contorcidos,

parece ter esgares de fome. Não é o fértil chão

brasileiro com seus jacarandás e jequitibás, nem o solo

norte-americano com suas sequóias; nada disso. Essa é

uma árvore brotada em terra árida e pedregosa.

Há, entretanto, uma intimidade entre quem passa por

esta pequena via e a vegetação que a ladeia, cujo exalar

de vida nada interrompe, dando-nos a impressão de existir

uma íntima amizade com todo esse mundo vegetal rumo

ao céu azul que se entrevê lá no fundo, e faz até pensar

no Céu da eternidade.

Sente-se uma paz nesse ambiente! Uma pessoa que ali

entrasse cheia de torcidas e de preocupações, e seguisse

por essa estradinha, chegaria ao outro lado inteiramente

tranquilizada.

O que isso tem de lindo? Viveu ali um Santo, o Patriarca

dos monges do Ocidente, isto é, o primeiro de toda

a gloriosa coorte de monges, o qual teve como filhos

espirituais, nesse lugar, homens canonizados, além de

David Domingues

quantos outros que, embora não canonizados, também

estão no Céu. É o ambiente próprio do homem à procura

da santidade; eis a bênção que São Bento deixou.

Ambiente simples, mas repleto

de beleza espiritual

Para ingressar na via da qual falávamos, a pessoa

passa por esse arco que aparece nesta outra foto.

É uma ogiva despretensiosa, bonita e séria. Não

tem uma escultura, nem qualquer outro adorno.

É apenas uma ogiva feita de pedra, mas

com toda a beleza das ogivas, como se fossem

duas mãos postas para rezar.

Pode haver coisa que recolha mais

o espírito e favoreça mais a oração,

as grandes reflexões a respeito

dos grandes temas? Assim

a alma de um homem se forma!

Mas, por quê? Porque há uma

33


Luzes da Civilização Cristã

Reprodução

bênção presente no ambiente e que envolve e penetra

quem nele se adentra.

Se alguém me perguntasse: Isto é lindo?

Eu diria: Não, de nenhum modo.

Entretanto, sob outro aspecto, se outrem me indagasse:

Isto é lindíssimo?

Eu responderia: Sim!

No sentido de uma beleza espiritual.

Essa paisagem é agradável de ver, mas não é linda,

materialmente falando. Contudo, a beleza espiritual torna

isso lindíssimo.

Eis uma bonita fotografia bem dentro da linha do que

vínhamos falando. Vemos a vegetação e o alto de uma

construção que parece ser uma capelinha com uma rosácea,

com todo o encanto das rosáceas medievais. Aquilo

é tipicamente medieval. Têm-se esse misto de pedra

e folhagem: reino mineral e reino vegetal juntos, entrando

em harmonia, para que o expectador possa exclamar:

“Como Deus é grande!”

São Bento: olhar

contemplativo, todo

voltado para as

coisas de Deus

Ali contemplamos um

afresco de São Bento. O

pintor representou-o de

uma maneira singular.

Ele está com uma espécie

de capuz sobre a cabeça,

mas este tem um pouco

a forma da parte baixa

de sua face. De maneira

que o desenho da maçã

do rosto até o queixo tem

a forma do capuz pontudo. E dá a impressão de uma face

concebida numa moldura de duas pontas: uma para baixo

e outra para cima. Rosto muito fino, nariz comprido,

barba não muito crescida, na transição do grisalho para o

branco; as sobrancelhas, ainda escuras, representam um

homem que ainda está no vigor de seu pensamento e de

sua ação.

Notem a força moral com que a sua mão segura o báculo,

símbolo do poder do Abade.

Olhar sério, até com alguma coisa de severo, mas no

qual há um mundo, um céu! Se um de nós o encontrasse,

teria vontade de ajoelhar-se diante dele e pedir: “Pai, dizei-me

no que pensais!”

Imagino que ele responderia sem olhar para quem pediu,

desfiando o seu pensamento inteiro, com um tim-

bre de voz partindo do fundo de sua laringe

possante, num pescoço alto, como se fosse

o tocar de um sino.

São Luís Orione achava o olhar de São

Pio X tão puro, que se confessava sempre

antes de falar com este Santo Pontífice.

Não é verdade que teríamos vontade de

nos confessar, antes de falar com São Bento?

Olhar reto, puro, todo voltado para as coisas

de Deus, contemplativo e sério!

Se eu lhe perguntasse no que estava pensando,

e ele me dissesse:

— Agora não posso explicar.

Eu pediria:

— Permiti, então, que eu fique vos olhando!

São Francisco de Assis, grande

admirador e devoto de São Bento

Aqui temos uma pintura representando

São Francisco de Assis, que viveu séculos depois de São

Bento, mas por ser grande admirador e devoto deste Santo

Abade, resolveu ir a Subiaco para venerá-lo. Ali ele viu,

junto à gruta de São Bento, um carrascal de espinhos onde

o Santo Abade tinha rolado para combater uma tentação

contra a pureza, vencendo-a. O demônio fugiu diante da

admirável penitência de São Bento. São Francisco plantou

naquele local uma roseira, e até hoje as rosas e o carrascal

de espinhos vivem juntos, entrelaçados.

Em São Francisco contempla-se um tipo de santidade diferente;

mas que maravilha! Essa pintura representa um homem

muito mais jovem do que é figurado São Bento na outra.

Não sei se calculo mal, mas suponho que esse homem

esteja na casa dos trinta anos.

Sua atitude é muito serena, calma,

mas com uma determinação de

vontade que se vê muito pelo modo

do rosto estar implantado sobre

o pescoço. Todos os traços distendidos,

mas não moles. É alguém que

está, no fundo do olhar azul, pensando

e contemplando algo e querendo

com toda a força da vontade

o objeto de sua contemplação.

É de uma pureza impressionante!

Um homem casto, temperante

por excelência e vigoroso.

São Bento também o era, mas o

pintor de São Francisco deixou

ver essas virtudes mais inteiramente

do que o de São Bento.

Reprodução

34


Carlos Aguirre

David Domingues

Compreende-se que o Poverello de Assis gostasse de

ler para os seus noviços as histórias de Cavalaria, pois

antes de abraçar a vida contemplativa pensou em ser cavaleiro.

Nesta representação, a sua mão direita segura ligeiramente

o braço esquerdo. Vejam a lógica das linhas e a

força dessa mão!

Se a São Bento eu pediria: “Dizei o que pensais!”; a

este eu rogaria: “Não digais, pois eu vejo. Deixai apenas

que eu olhe para vós!”

Tem-se a impressão de que

São Bento está presente

Tendo analisado tudo quanto vimos de Subiaco, nasce

a pergunta: O que há dentro disso?

A resposta que vem ao espírito é esta: a sacralidade beneditina.

É uma paz, não a da modorra de um comodista,

mas uma paz de algo que tem vida intensa dentro de si.

Vida, por sua vez, não agitada, espancada, surrada,

mas com refrigério, luz e paz que se sentem naquele lugar

não se sabe bem no quê, e dá a impressão de estar

São Bento presente ali.

Há lugares sagrados que conservam uma como que

impregnação dos personagens e dos fatos ali ocorridos.

Aquele ambiente fica mais ou menos marcado, fazendo-

-nos sentir algo do que ali se passou.

Por causa disso, a grande alma de um Santo pode se

fazer sentir por séculos e séculos, no lugar onde ele viveu

e praticou a virtude. É, pois, a grande alma de São Bento

que sentimos ali.

Vem-me à memória um episódio encantador da vida

desse Santo:

A governanta de São Bento — termo um pouco anacrônico,

pois não se usava naquele tempo, mas de fato

corresponderia a uma governanta atualmente — deixou

cair uma vasilha emprestada, que se desfez em cacos.

Já é uma coisa aborrecida romper algo que nos pertence,

quanto mais quebrar um objeto emprestado de outra

pessoa; é uma espécie de vexame.

Ela ficou muito aflita e São Bento a viu chorar.

Desejando, então, restabelecer a paz de alma daquela

senhora, São Bento se ajoelhou, rezou e a vasilha se recompôs

miraculosamente. Ele voltou-se com naturalidade

para a mulher, sem excitação nem angústia, e disse:

“Aqui está a vasilha!”

Quem está tão em presença de Deus, e paira tanto acima

dos acontecimentos, sabe que a Providência resolverá

para ele os casos; esse não tem aflição.

São Bento caminha sério, recolhido, severo até — como

ele é representado no afresco que vimos há pouco —,

de uma severidade admirável, e tem rumo para tudo; confia

em Deus, ainda quando ele não saiba qual será a solução

do problema. Deus lhe dará confiança. E por isso os

vendavais torpes da vida não sopram sobre ele. Ele avança

majestoso, bondoso, com a alma firme, e sacralizando tudo

pela sua presença.

v

(Extraído de conferência de 6/7/1985)

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Mãe da Igreja e Rainha do mundo

Francisco Lecaros

Imaculado

Coração de

Maria - Catedral

de Bolzano,

Itália

S

ão Luís Maria Grignion de Montfort diz que os Santos dos últimos tempos estarão para

os das eras anteriores como carvalhos em comparação com graminhas. Isso por causa das

orações extraordinárias que Nossa Senhora fará nessa ocasião.

Ela, como Mãe da Igreja, Rainha dos homens, Rainha do mundo, estará ainda mais associada

ao curso dos acontecimentos. Suas orações também penetrarão como nunca até então, no âmago

da História.

E enquanto o Inferno vomitar os mais horrendos monstros, Maria Santíssima suscitará, pelos

desígnios da Providência sobre a História e a humanidade, esses homens extraordinários diante

dos quais Moisés, Elias e outros Santos ficariam deslumbrados.

(Extraído de conferência de 1/11/1994)

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