07.11.2017 Views

Revista Dr. Plinio 236

Novembro de 2017

Novembro de 2017

SHOW MORE
SHOW LESS

Create successful ePaper yourself

Turn your PDF publications into a flip-book with our unique Google optimized e-Paper software.

Dilatando o

Reinado de Cristo


O maravilhoso

realizado na Terra

Gabriel K.

Santa Margarida da Escócia

Basílica de São Patrício, Montreal, Canadá

N

a vida de Santa Margarida da

Escócia nota-se a existência

do maravilhoso na Idade Média.

Não do maravilhoso como uma fábula

ou lenda, mas como algo de realizável.

Para a brumosa Escócia, então terra

de missão, essa princesa vinha trazendo

sangue ilustre, toda a flor da civilização

ocidental, tornando-se uma rainha

magnífica, que deixa vários filhos

ilustres por suas virtudes, e que intercedeu

a favor do povo, deu esmolas,

realizou milagres.

Tudo isso sempre ungido pela coroa

real, além de uma ideia completa

da realeza, apresenta um mundo concreto

onde maravilhas são possíveis e o

extraordinário, o estupendo, a ordem,

mesmo a mais excelente e audaciosa,

são realizáveis na Terra.

Santas como esta de tal maneira difundiam

o bom odor de Jesus Cristo

por toda parte, que acabavam sacralizando

a própria dignidade régia

e criando uma espécie de ambiente

de feeria, de maravilhoso da civilização

medieval, do qual os vitrais são um

reflexo, apresentando os bem-aventurados

em meio a pedacinhos de vidros

dourados, cor de rubi, de esmeraldas,

com uma luz na cabeça, a coroa real

sobre uma mesa, uma santa que derrama

flores em torno de si... Tudo isso é a

imagem do próprio modo como o medieval

concebia a vida, por exemplo, de

uma Santa Margarida, Rainha da Escócia.

(Extraído de conferência de 9/6/1964)


Sumário

Ano XX - Nº 236 Novembro de 2017

Dilatando o

Reinado de Cristo

Na capa, Sagrado Coração de

Jesus, Catedral de Bolzano, Itália.

Foto: Flávio Lourenço

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Gilberto de Oliveira

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Antônio Pereira de Sousa, 194 - Sala 27

02404-060 S. Paulo - SP

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão e acabamento:

Northgraph Gráfica e Editora Ltda.

Rua Enéias Luís Carlos Barbanti, 423

02911-000 - São Paulo - SP

Tel: (11) 3932-1955

Preços da

assinatura anual

Comum .............. R$ 130,00

Colaborador .......... R$ 180,00

Propulsor ............. R$ 415,00

Grande Propulsor ...... R$ 655,00

Exemplar avulso ....... R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editora_retornarei@yahoo.com.br

Editorial

4 Dilatando o Reinado de Cristo

Piedade pliniana

5 Para alcançar a emenda

de meus defeitos

Dona Lucilia

6 Venerável e lindo olhar

De Maria nunquam satis

8 Cantando pelos caminhos

da Judeia

Sagrado Coração de Jesus

12 Grandeza régia de

Nosso Senhor Jesus Cristo

Calendário dos Santos

18 Santos de Novembro

Hagiografia

20 Lindo exemplo para os

governantes eclesiásticos

A sociedade analisada por Dr. Plinio

23 Como se forma o costume - II

Perspectiva pliniana da História

28 Mistérios de uma alma e de um povo - II

Apóstolo do pulchrum

34 A música dos Anjos no Céu

Última página

36 Maria fons, Maria mons, Maria pons

3


Editorial

Dilatando o Reinado

de Cristo

AFé é uma virtude sobrenatural que dá ao homem a capacidade de admitir as verdades reveladas

por Jesus Cristo e Escritores Sagrados, propostas pela Santa Igreja.

Sua origem é divina não somente na Pessoa do Verbo Encarnado, o Mestre por excelência,

mas também nos Profetas e Apóstolos, que nada mais foram do que instrumentos do Espírito

Santo ao nos transmitirem as novidades doutrinárias da parte de Deus. É também divina no

seu princípio, porquanto sem a graça de Deus não é o homem capaz de crer. É finalmente divina

no seu objeto que são as verdades escondidas em Deus, a quais sua Misericórdia se digna comunicar

às criaturas.

Considerados os elementos divinos, a Fé é imutável e em dois sentidos. Primeiro, uma verdade revelada

jamais poderá ter um sentido numa época e outro sentido diverso em outra diferente. Jamais

o que foi crido pela Igreja como verdade de Fé na Idade Média deixará de o ser nos tempos que correm,

ou terá hoje um sentido diverso do sentido que se encontra na profissão de Fé dos fiéis daquela

época. Depois, o campo da Revelação está limitado, de maneira que não haverá mais novas verdades

reveladas. Tudo quanto a Divina Bondade quis manifestar ao homem, o fez até a morte do último

Apóstolo.

Embora a Fé seja sempre a mesma, não obstante pode haver dogmas novos, isto é, verdades que

se achavam implícitas na Revelação Apostólica e que a Santa Igreja explicitou, e impôs à Fé dos fiéis,

como acontece com o Dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Note-se, no entanto, que

neste crescimento na Fé de que é capaz o homem e a humanidade, jamais pode vir o indivíduo a admitir

uma verdade inteiramente nova, que não se encontra de maneira implícita na Revelação Apostólica,

nem chegar à aceitação de uma atitude que contrarie aquilo que foi explicitamente estabelecido

pelo Divino Fundador da Santa Igreja.

Esta exposição nos mostra como se difunde o Reinado de Jesus Cristo não somente angariando

novos membros para a Santa Igreja, mas também intensificando nos fiéis a vida da Fé pelo conhecimento

mais profundo das verdades reveladas, e pela conformação sempre mais perfeita da vontade

com estas verdades.

Não basta o ideal vago de dilatar o Reinado de Jesus Cristo. É preciso que se conheça em que consiste

este Reinado. É pela integridade da Fé e a pureza dos costumes que impera Nosso Senhor Jesus

Cristo e se dilatam os domínios da Santa Igreja, que são os seus domínios. Neste sentido é obra

de apostolado toda atividade dedicada à conservação do Divino Depósito entregue à Santa Igreja íntegro

e sem delapidações, quer na parte doutrinária, quer na jurídica ou moral * .

* Excertos do artigo Ação Católica – problemas, realizações e ideais – Em prol da Ação Católica, publicado em O

Legionário de 12/11/1944.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Flávio Lourenço

Nossa Senhora da Misericórdia

Catedral de Palma de Mallorca, Espanha

Para alcançar a emenda

de meus defeitos

ÓSenhora, Vós sois a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Mãe de todos os homens

e, portanto, também a minha Mãe! Eu serei, talvez, o último dos filhos,

mas Vós sois a mais alta e a mais excelsa de todas as mães. Se meus pecados

são um abismo, a vossa compaixão é uma montanha muito maior do que esse abismo.

Sei que minhas preces, por si mesmas, não valem nada. Mas se o coração da mãe

está sempre aberto a perdoar, amar e afagar, quanto mais o vosso, que sois a Mãe das

mães! Assim, não desprezeis essas súplicas, mas atendei-as favoravelmente, pois Vos

estou pedindo como filho. Alcançai-me a emenda de meus defeitos.

Sei, ó Mãe, que nunca deixareis de olhar com boa vontade para o filho que pede a

vossa assistência. Por isso Vos imploro com insistência: tende pena de mim e arrancai-

-me de meus pecados. Assim seja.

(Composta em 21/9/1991)

5


Dona Lucilia

Arquivo Revista

Venerável e

lindo olhar

Existem inúmeros tipos de olhares, tais como de lince, aveludados,

de madrepérola, chispantes. O olhar de Dona Lucilia era pleno

de venerabilidade, de doçura. Quando ela olhava para Dr. Plinio

no convívio diário, ele tinha a impressão de que o olhar dela o

considerava do alto, de longe; era inexprimível, mas admirável.

6


Oque é a luz de um olhar? Que

há olhares com luz é uma noção

corrente, todos nós sabemos.

Eu conheci muitos olhares com

luz; além do venerável e lindo olhar

de Dona Lucilia, apreciei também

inúmeras pessoas na hora em que a

graça visita a alma. Então, olhava e

pensava: “É claro, Nossa Senhora

neste momento está te ajudando!”

Vê-se uma certa luz. Por exemplo, a

luz da vocação se nota nos olhares.

Há um universo de olhares

O que é propriamente isso? É de

experiência corrente que o melhor

modo de ver o que se passa na alma de

alguém é olhar para os seus olhos. O

estado de alma tem seu efeito no cérebro,

no sistema nervoso, na musculatura

ocular e, ainda que involuntariamente,

os olhos vão mostrando aquilo

que a alma vai sentindo. Assim, os

estados de muito comprazimento ou

de muito entusiasmo da alma produzem

no olhar, por não sei que condutos,

uma luz que é o efeito da luz percebida

pelo espírito. E por causa disso

há diferenças de belezas de olhar.

Há olhares que são como de lince,

veem longe. Olha-se para eles e tem-

-se a impressão de que, nos últimos

confins do horizonte visual ou mental,

aqueles olhares estão pairando.

É uma forma de pulcritude.

Há outros olhares, pelo contrário,

que parecem precaver-se contra as

longas distâncias, e iluminar de um

modo ameno as proximidades, convidando

à intimidade e às grandes

elevações interiores.

Assim, quantos e quantos olhares,

de quantos e quantos jeitos! Pode-se

dizer que há um universo.

Há olhares que representam uma

peculiar forma de alma, por onde eles

são como que aveludados. Outros manifestam

um tipo de alma diferente, e

se poderia dizer que são de madrepérola.

Existem olhares que exprimem

outros estados de espírito, por onde se

poderia afirmar que são chispantes.

E assim por diante,

quase até ao infinito.

O olhar de mamãe era para

mim cheio de venerabilidade,

de doçura, de intimidade e, sobretudo,

o que me agradava mais nesse

olhar era quando ele me olhava

– naquela intimidade, tantas vezes

nos olhávamos –, e eu tinha a impressão

de que ele me considerava

do alto, de longe, uma coisa

que eu não saberia como exprimir,

mas é algo admirável!

Uma transpalavra

que conheceremos

no Céu

A vida inteira eu quis

ter um olhar. Quando li

que Nosso Senhor olhou

para São Pedro e este

se converteu, veio-me

uma vontade enorme

de um dia pôr os meus

olhos nos d’Ele, vê-

-Lo e ser visto por Ele.

E ter essa troca de olhares

por onde se percebe que cada

alma penetra na outra. Com

a ideia de que aquilo traria um florescimento,

uma elevação, e que Ele

me daria misericórdias, condescendências,

bondades… Uma coisa da

qual eu tinha um desejo enorme!

Depois me veio naturalmente a

ideia de ser fitado por Nossa Senhora.

Sobretudo quando li na “Divina

Comédia” – aliás, não li a “Divina

Comédia”, mas trechos dela – que

Dante ao chegar ao Céu – ele se representa

como sendo vivo, então não

pode ver a essência divina – olha para

Nossa Senhora, e no olhar d’Ela

ele percebe um reflexo do olhar de

Deus: aí está o ápice do Paraíso!

Ah! se Ela pudesse olhar para

mim, um momento que fosse, e dissesse

só isto: “Meu filho…”, tenho a

impressão que me desfaria; eu não

quereria outra coisa senão isso!

Na realidade, acontece que um

pouco dessa impressão nós temos às

vezes, quando entramos num lugar

onde está o Santíssimo Sacramento;

para mim, sobretudo quando o local

está vazio: uma capela, uma igreja.

Há qualquer coisa no ambiente inteiramente

diferente do que é fora.

Temos a impressão de que penetramos

num olhar o qual nos envolve,

nos assume e nos diz, quase que

por todos os sentidos, uma coisa a

qual não sabemos o que é; é uma

transpalavra que conheceremos no

Céu.

v

(Extraído de conferência de

21/11/1979)

Teodoro Reis

7


De Maria nunquam satis

Cantando pelos

caminhos da Judeia

Flávio Lourenço

Caminhando em direção ao Templo,

Nossa Senhora cantava hinos de louvor

a Deus. Dos terraços da Jerusalém

celeste, os Anjos se debruçavam para

vê-La e ouvir seus cânticos. Tudo isso é

muito bonito. Contudo, mais belo ainda

deve ter sido o momento em que Maria

Santíssima entrou no Templo.

Em 21 de novembro se comemora

a festa da Apresentação

de Nossa Senhora. No

livro do Padre Régamey, Les plus beaux

textes sur la Vierge Marie 1 , encontramos

as seguintes reflexões de São

Francisco de Sales:

Nossa Senhora cantava mil

vezes mais graciosamente

que os Anjos

É um ato de admirável simplicidade

o desta gloriosa criança que, presa

ao regaço de sua mãe, não deixa, entretanto,

de se relacionar com a Divina

Majestade. Ela se absteve de falar

até o momento apropriado e, mesmo

assim, não o fazia senão como as outras

crianças de sua idade, embora falasse

sempre com sabedoria.

Ela permaneceu como um suave

cordeiro junto a Santa Ana pelo espaço

de três anos, após os quais foi conduzida

ao Templo para aí ser ofertada

Santa Ana levando Maria Santíssima ao Templo

Museu de Belas Artes, Rouen, França


como Samuel, que também foi levado

ao Templo por sua mãe e dedicado ao

Senhor na mesma idade.

Ó meu Deus, como desejaria poder

representar vivamente a consolação e

suavidade dessa viagem, desde a casa

de Joaquim até o Templo de Jerusalém!

Que contentamento demonstrava

essa criança, vendo chegar a hora que

Ela tanto desejara!

Os que iam ao Templo para adorar

e oferecer seus presentes à Divina Majestade

cantavam ao longo da viagem.

E para isso o real profeta Davi compusera

expressamente um salmo, que

a Santa Igreja nos faz repetir todos

os dias no Ofício Divino. Ele começa

pelas palavras: “Beati immaculati

in via” – “Bem-aventurados são aqueles,

Senhor, que caminham na tua via

sem mácula” (Sl 118, 1), sem mancha

de pecado, “in via”, ou seja, na observância

dos teus Mandamentos.

Os bem-aventurados São Joaquim

e Santa Ana entoavam então esse cântico

ao logo do caminho, e nossa gloriosa

Senhora e Rainha com eles.

Ó Deus, que melodia! Como Ela entoava

mil vezes mais graciosamente que

os Anjos! Por isso ficaram eles de tal forma

admirados que, aos grupos, vinham

escutar essa celeste harmonia e, os Céus

abertos, inclinavam-se nos alpendres da

Jerusalém celeste para olhar e admirar

essa amabilíssima menina.

Eu quis vos dizer isso, embora rapidamente,

para que tenhais com que

vos entreter o resto desse dia considerando

a suavidade dessa viagem. Também

para que fiqueis comovidos ao ouvir

esse cântico divino que nossa gloriosa

Princesa entoa tão melodicamente.

E isso com os ouvidos de vossa devoção,

porque o muito feliz São Bernardo

diz que a devoção é o ouvido da alma.

Por humildade, Ela vivia

como uma criança comum

O fundamento teológico de tudo

quanto está dito aqui é a Imaculada

Conceição de Nossa Senhora.

Como a Santíssima Virgem, desde

o primeiro instante de seu ser, foi

imaculada, Ela não tinha as limitações

inerentes ao pecado original. E entre

essas limitações está o fato de a pessoa

nascer sem uso da sua inteligência.

A pessoa nasce inteligente, mas sem

o uso da sua inteligência. Esse uso só

vem mais tarde com o desenvolvimento

do corpo. Com Nossa Senhora não.

Ela teve, desde o seu primeiro instante,

o uso da sua inteligência que era,

naturalmente, altíssima.

De maneira que n’Ela se reuniam,

num contraste admirável, o que em

Nosso Senhor toma uma sublimidade

que chega a ser sublimemente desconcertante.

Reuniam-se na infância

d’Ela, como na de Nosso Senhor, aspectos

aparentemente contraditórios.

De um lado, Maria Santíssima possuía

uma contemplação superior à

dos maiores Santos da Igreja, quando

estava ainda nos primeiros passos

de sua vida. Mas, de outro lado,

Ela mantinha toda a atitude de uma

criança. E não fazia uso externo disso,

querendo, por humildade, viver

como uma criança qualquer.

De maneira tal que quem tratasse

com Ela, a não ser por alguma expressão

de olhar ou algo assim, teria

a sensação de estar tratando com

uma verdadeira criança comum, igual

às outras. É como Nosso Senhor Jesus

Cristo, em Menino, que queria

ser nutrido, guardado, pajeado como

uma criança. Embora fosse Deus, soberano

Senhor e Rei do Céu e da Terra,

em todas as suas manifestações

externas era como uma criança.

Samuel Holanda

Já imaginaram como seria, na vida

quotidiana de São José e de Nossa

Senhora, a hora em que era preciso

dar leite ou trocar de roupas a Deus?

Pegá-Lo, colocá-Lo sobre uma mesa

e vesti-Lo com uma roupinha, sabendo,

como sabiam, que ali estava a Segunda

Pessoa da Santíssima Trindade,

com a natureza divina hipostaticamente

unida à natureza humana?

Portanto, naquela criancinha que sorria

estavam reunidos todos os esplendores

das alegrias, da majestade e da

grandeza da divindade! Quer dizer, o

que isso representava era de aturdir!

A meu ver, algo disso se dava também

com São Joaquim e Santa Ana.

Não sei se eles sabiam que Nossa Senhora

seria a Mãe do Verbo Encarnado.

Mas certamente pressentiam que

era uma menina designada a altíssimas

coisas com ordem ao Messias.

Então essa Menina ali presente, levava

toda a vida de uma criancinha, mas

tendo em si a contemplação magnífica

de um grande Doutor da Igreja.

Então, nós compreendemos como

se ajustam esses aspectos da benignidade

extrema, afabilidade, acessibilidade

de Nossa Senhora, com uma grandeza

da qual os maiores homens da Terra

não são senão uma minúscula figura.

Local onde se

manifestavam a glória e

as consolações de Deus

Por que isso? Porque Maria Santíssima

quis que as coisas fossem assim:

Rainha incomparável, era Ela,

ao mesmo tempo, Menina simplicíssi-

9


De Maria nunquam satis

ma; tão simples que a sua vida externa

era a de qualquer criança. O que,

aliás, Santa Teresinha, num trecho a

respeito do modo de fazer sermões

sobre Nossa Senhora, comenta muito

bem dizendo que ela gostaria de realizar

uma pregação à maneira dela,

e mostrar na Santíssima Virgem todo

esse lado de bondade, de simplicidade,

de acessibilidade, a ponto de ser

uma criancinha que os parentes punham

no colo. Possivelmente, logo

que foi capaz de servir um pouco as

pessoas, Ela as servia. Trazia água, fazia

uma pequena atenção, etc., e era a

Rainha do Céu e da Terra.

Esses contrastes harmônicos têm

uma tal beleza em si mesmos, que

até corremos o risco de desdourá-

-los tratando deles por demais longamente.

Há neles qualquer coisa de

insondável, diante do que é melhor

manter silêncio.

Ora, nessas condições e, segundo

uma tradição muito generalizada,

aos três anos de idade, Nossa Senhora

foi levada ao Templo. E no caminho

para Jerusalém, como os judeus

costumavam fazer, Ela ia cantando.

É lindíssimo!

Como sabemos, o único Templo ficava

em Jerusalém, na Judeia. Havia

sinagogas onde o povo se reunia para

rezar determinadas orações, ouvir

as leituras e comentários das Sagradas

Escrituras, mas o Templo onde se

realizavam os sacrifícios era só aquele.

E os judeus de todo o território de

Israel, como também os dispersos pelo

mundo inteiro, vinham periodicamente

a Jerusalém para participar

dos sacrifícios do Templo.

Era uma alegria ir aonde se manifestavam

a glória e as consolações de

Deus, o vínculo entre o Céu e a Terra.

Então, era bonito que eles fossem

cantando. Aliás, como tantas vezes

acontece em romarias, ao menos como

se realizavam antigamente.

É preciso dizer também que os métodos

de locomoção modernos conspiram

contra o canto. Não se pode imaginar,

num subúrbio da Central do

Brasil, um trem partindo para Aparecida

a todo “galope” e as pessoas cantando

dentro dele. Como é mais bonito

ir a pé, pousando de quando em

quando, parando, cantando, tocando

para a frente! Isso tem outra plenitude

humana, outra harmonia natural!

Podemos imaginar que beleza,

quando chegava o mês da visita ao

Templo de Jerusalém, os judeus irem

cantando e a nação judaica se encher,

nos seus caminhos, de cânticos

de todos os lados!

Então, São Francisco de Sales

conjetura a Santíssima Menina Maria

cantando com uma voz inefável,

com São Joaquim e Santa Ana, o

cântico que Davi, por inspiração do

Espírito Santo, compôs para essa circunstância.

Alegria dos Anjos quando a

Santíssima Virgem entrou

no Templo pela primeira vez

Notem como São Francisco de Sales,

com uma finura de tato extraordinária,

não se refere à impressão

que esse canto produziria nas pessoas.

Porque, precisamente como Nossa

Senhora não manifestava a sua

grandeza, era possível que Ela não

entoasse com toda a perfeição com

que sabia cantar. Ora, o cântico da

Santíssima Virgem deveria ser o cântico

por excelência! Nunca, nem antes

nem depois, ninguém cantou como

Ela, exceção feita de Nosso Senhor

Jesus Cristo. O Redentor também

cantou, e depois disso, nenhum

cântico foi cântico.

É bonito imaginar também outra

coisa: Nossa Senhora cantando e os

Anjos ouvindo as harmonias de alma

com que Ela cantava. E essas harmonias

os extasiavam.

Como se costuma comparar o

Céu à cidade de Jerusalém, São

Francisco de Sales diz que dos alpen-

J. Perez

Virgem Maria Menina - Basílica

Velha de Guadalupe, México

10


Apresentação da Santíssima Virgem no Templo

Museu de Belas Artes, Dijon, França

dres ou dos terraços da Jerusalém

celeste os Anjos se debruçavam para

ver Nossa Senhora cantando pelos

caminhos da Judeia, o que para eles

era um gáudio inexprimível, embora

os homens ignorassem aquelas harmonias

de alma.

Confesso que não conheço pensamento

mais bonito nem mais apropriado

para essa circunstância do

que esse. Contudo, mais belo ainda

deve ter sido o momento em que

Maria Santíssima entrou no Templo.

O Templo de Jerusalém na sua

grandeza, na sua majestade sacral,

ainda habitado pela glória do Padre

Eterno, onde se realizavam os sacrifícios,

o lugar mais sagrado da Terra!

Imaginem o estremecimento de

alegria de todos os Anjos que pairavam

no Templo, no momento em

que Nossa Senhora ali entrava pela

primeira vez, como uma Rainha

naquilo que lhe é próprio, como a

joia entra no escrínio onde deve ser

guardada!

Tanto mais se aos Anjos foi dado a

conhecer que a grande glória e a imensa

tragédia do Templo estavam por se

realizar. Qual era a glória? O Messias

iria entrar no Templo. Qual a tragédia?

O Templo iria recusar o Messias.

Tragédia cujo final seria aquilo

que Bossuet chama magnificamente

de “as pompas fúnebres do Filho de

Deus”, quando ele diz que, logo após

Nosso Senhor Jesus Cristo expirar, o

Padre Eterno começou a preparar os

funerais d’Ele: o céu se obscureceu, o

Sol se toldou, a terra tremeu, o véu do

Templo se rasgou. O recinto outrora

sagrado ficou entregue aos demônios

que fizeram ali uma espécie de sabá,

à maneira de cem mil gatos selvagens

soltos ali dentro.

Não obstante, o Templo conheceu

sua plenitude na célebre vinda de

Nossa Senhora e São José, quando

trouxeram o Menino Jesus, e Ana e

Simeão, que representavam a fidelidade,

receberam a Sagrada Família.

Então os fiéis reconheceram o Enviado

e se fechou o elo entre os justos

da Antiga Lei e a promessa que

se cumpria.

Pois bem, a Santíssima Virgem, entrando

no Templo de Jerusalém no

momento de sua Apresentação, realizava

o primeiro passo nessa plenitude

da história desse lugar sagrado.

O que os “Simeãos” e as “Anas”

lá existentes devem ter sentido nessa

hora, que graças, que fulgurações

do Espírito Santo devem ter havido

no Templo nessa ocasião, ninguém

poderá dizê-lo, a não ser no fim do

mundo. Mas sigamos o conselho do

suavíssimo São Francisco de Sales e

fiquemos com todas essas recordações

em nossas almas, pensemos nelas,

suave e alegremente, tanto quanto

possível: Nossa Senhora cantando

pelos caminhos, entrando no Templo

de Jerusalém e, dos alpendres da Jerusalém

celeste, os mais altos Anjos

embevecidos com a alma dessa Menina.

É uma meditação muito adequada

para o dia da Apresentação

de Nossa Senhora. v

(Extraído de conferência de

21/11/1965)

1) Do francês: Os mais belos textos sobre

a Virgem Maria. RÉGAMEY,

O.P., Pie-Raymond. Les plus beaux

textes sur la Vierge Marie. Paris: La

Colombe, Éditions du Vieux-Colombier,

1946. p. 229-230.

Flávio Lourenço

11


Sagrado Coração de Jesus

Francisco Barros

Cristo Rei - Igreja Nossa

Senhora da Consolação,

Carey, EUA

Grandeza régia de Nosso

Senhor Jesus Cristo

A grandeza régia de Nosso Senhor Jesus Cristo reluziu em mais

de um episódio de sua vida, e de um modo muito especial na

Transfiguração no Monte Tabor, onde apareceu simultaneamente

toda a sua majestade como Rei e, sobretudo, como Deus. O ódio

despertado por Ele comprova sua grandeza, porque os medíocres

não suscitam ódio. Mesmo depois de morto Cristo foi odiado, o

que indica ser Ele incomparavelmente grande.

Arealeza de Nosso Senhor Jesus

Cristo Lhe vem secundariamente

por Ele descender

de Davi, e muito principalmente pelo

fato de ser Homem-Deus. Quer dizer,

o Homem-Deus, onde quer que

Se encontre, é Rei, e diante d’Ele, co-

mo diz São Paulo (cf. Fl 2, 10), se dobre

todo joelho, no Céu e na Terra!

Rei dos judeus

Contudo, o fato de ser apenas

muito secundariamente Rei da Casa

Real de Davi, não quer dizer que isso

seja indiferente, nem que se deva

excluir ou olhar com pouco caso essa

circunstância. Porque tudo quanto

diz respeito a Ele não é indiferente,

tem um grande alcance, um grande

valor. E, portanto, ainda que não

12


seja o valor máximo, supremo, merece

ser examinado a fundo.

Tudo quanto sucede se insere ou na

providência geral ou na especial com

que Deus rege todo o universo. Mas o

que diz respeito a Nosso Senhor Jesus

Cristo tudo está regulado por uma providência

especialíssima. Por causa disso

merece toda a atenção, toda a análise

a circunstância de Ele ser membro

da Casa Real de Davi. O alcance dessa

circunstância, se precisasse ainda ser

demonstrado, além de ter por base as

razões que acabo de alegar, possui também

outro motivo: o fato de a Providência

ter querido que no letreiro que

encimava a Santa Cruz estivesse escrito

“Jesus Nazareno, Rei dos judeus”; e

isso molestou os judeus, a ponto de pedirem

a Pilatos que tirasse a inscrição,

tendo ele respondido: “O que eu escrevi,

escrevi” (Jo 19, 22). É o senso dominador

dos romanos muito bem aplicado

no caso concreto: “O que eu escrevi,

escrevi, não tiro mais. E se vocês não

gostam, engulam com farinha.”

Sempre interpretei essa resposta de

Pilatos – tão bonacheirão, tão moleirão,

tão indecente no que diz respeito

ao seu dever de proclamar a inocência

de Nosso Senhor – como um agastamento

dele. Tinham-no obrigado, sob

pena de ser denunciado como inimigo

de César, a lavrar uma sentença que

julgava injusta. E quando vieram pedir-lhe

para tirar esse letreiro, ele estava

agastado e, então, disse: “Não, o

que eu fiz, fiz, está acabado! Pelo menos

agora me deixem ser homem.”

Seja como for, ficou o letreiro para

sempre imortal na Cruz imortal:

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Rei

dos judeus. E isso supõe, então, uma

certa análise desse atributo terreno:

Rei dos judeus.

Posse de um presidente dos

Estados Unidos e coroação

da Rainha da Inglaterra

Toda realeza existente na Terra

provém, em última análise, de Deus.

Porque tudo quanto existe no universo

é criado por Ele. Dante, na Divina

Comédia, diz muito bem que

certas criaturas são filhas de Deus,

pois Ele as cria diretamente. Outras,

porém, são suas netas, por serem filhas

dos filhos d’Ele, mas produzidas

segundo seus divinos desígnios. Assim,

Deus está na origem desses seres,

entre os quais se encontram as

formas de governo.

Por outro lado, convém àqueles

que possuem o primado na Terra

e na ordem temporal representar

de modo mais excelente a majestade

de Deus. Por isso, em todos os lugares

onde o poder monárquico tenha

existido, os povos têm se aplicado

em representar de modo mais excelente

a grandeza do rei. Por exemplo,

em nossos dias os Estados Unidos

constituem a maior potência

temporal da Terra; e seu presidente

tem, sem dúvida, um poder sobre os

acontecimentos deste mundo muito

maior do que o do governo inglês e,

portanto, também da Rainha da Inglaterra,

que é a figura simbólica e

ornamental colocada no alto dessa

estrutura venerável chamada governo

inglês.

Mas a simbologia adotada pelo

povo norte-americano para exprimir

o poder do seu chefe, não se reflete

nas manifestações de esplendor que

cercam o chefe de Estado. O presidente

norte-americano deve parecer

poderoso, grande, excelso, superior

a todas as criaturas? Não. Por não se

tratar de um poder hereditário e vitalício,

que não está simbolicamente

acima de todos os poderes, como

o poder real, não se vê nele um reflexo

tão direto e límpido da

majestade divina, quanto na

forma de governo monárquica.

Esta é a razão pela

qual a posse de um

presidente norte-americano

é um espetáculo

jovial, acompanhado de

manifestações de regozijo características

de um magnata bem-sucedido

nos seus negócios. Não próprias

a um homem que está inteiramente

consciente da representação divina,

que de fato todo chefe de Estado

possui.

Notamos muito essa diferença ao

compararmos a tomada de posse de

um presidente da América do Norte

com a coroação da Rainha da Inglaterra.

Esta se dá dentro de uma cerimônia

majestosa, esplendorosa.

Formas de grandeza

próprias aos reis da Terra

Em Nosso Senhor Jesus Cristo,

enquanto Rei, deveria refulgir, portanto,

uma majestade temporal, com

todas as formas de grandeza próprias

aos reis da Terra. Antes de tudo,

uma grandeza de alma, de descortínio

de horizontes, de pontos de vista,

por onde quem está posto no píncaro

da ordem temporal desvenda

coisas muito mais amplas e matizadas

do que aquele que está colocado

Flávio Lourenço

Pilatos lava as mãos - Museu da

Semana Santa, Zamora, Espanha

13


Sagrado Coração de Jesus

em posições inferiores. A

ordem temporal constitui

uma hierarquia riquíssima.

No caso da monarquia, um

simples trabalhador manual

não é obrigado a ter, e

habitualmente não possui,

o descortínio e o horizonte

do rei, a quem as informações

mais graves, os anelos

mais ardentes das várias

populações chegam como

os ventos no alto das montanhas.

Estes não sopram

nos vales com a pureza e

largueza com que sopram

no píncaro das montanhas.

Essa largura de horizontes

traz como corolário

necessário a obrigação de

uma virtude especial. Porque

aqueles a quem a Providência

deu muito, deles

se exige uma retribuição

especial. E, portanto, uma

obrigação de ter em relação

a Deus um amor, um

nexo e uma humildade especiais.

Nessa humildade

perante Ele, poder-se-ia

dizer que a glória de Deus

G.Garitan (CC3.0)

Henrique II toca os escrofulosos após sua

coroação - Biblioteca Nacional, Paris, França

baixa sobre eles e neles refulge.

Uma das manifestações mais tocantes

disso é o fato que encerrava as festas

da coroação de um Rei da França,

no Ancien Régime. Na famosa e histórica

Catedral de Reims, terminada a

cerimônia, do lado de fora alinhava-

-se uma série interminável de doentes

que padeciam de escrófula. Segundo

uma tradição, o monarca recém-coroado

tinha o poder, dado por Deus,

de curar os escrofulosos. Então, quando

havia a coroação de um rei, os escrofulosos

da França inteira – e quero

crer que também de outros países da

Europa – acorriam para serem curados.

O monarca, em traje de coroação,

saía para a praça pública onde estava

essa gente colocada em leitos, em cadeiras,

enfim, como era possível, e tocando

um a um – na coroação de Luís

XVI, se não me engano, chegaram a

mil e quinhentos – dizia: Le roi te touche,

Dieu te guérisse – O rei toca em ti,

que Deus te cure. Segundo uma antiga

praxe, inabalável ao longo dos séculos,

muitos saravam.

Era, portanto, o poder divino que

baixava através de um rei ungido por

Deus e cognominado, na terminologia

da Cristandade, Rex Christianissimus

– o Rei Cristianíssimo – que era

o Rei da França, intitulado “Sua Majestade

Cristianíssima”, assim como

o Rei da Espanha era “Sua Majestade

Católica”, e o de Portugal “Sua

Majestade Fidelíssima”; o Rei da Inglaterra,

antes da heresia abjeta de

Henrique VIII, intitulava-se Defensor

Fidei – “Defensor da Fé”.

A unção recebida na coroação era

verdadeiramente um sacramental,

segundo a Teologia, e o

ungido do Senhor tocava e

sarava, manifestando o nexo

entre Deus e ele.

Essas são as qualidades

espirituais às quais, normalmente,

deveria corresponder

uma aparência física.

O rei não tem obrigação

de ser bonito. Ninguém escolhe

o próprio rosto. Mas,

de qualquer forma, convinha

que o rei tivesse, em

grau eminente, a pulcritude.

Por causa da sua condição,

convém ao monarca

uma indumentária, trajes à

altura daquilo que ele deve

refletir. Isso enquanto à sua

pessoa. Também seu modo

de reinar deve ser esplêndido

como tudo quanto nele

há. Eis o que caracteriza

um grande rei.

Transfiguração no

Tabor e Domingo

de Ramos

Como ver todas essas

qualidades em Nosso Senhor

Jesus Cristo, que não andou pela

Terra como Rei? Mesmo no Domingo

de Ramos, quando Ele foi objeto de

uma grande homenagem da parte do

povo de Jerusalém, era aclamado como

Filho de Davi, mas não houve nenhum

atentado para tirar Herodes do

cargo, nem algo semelhante. Ele foi

aclamado como homem que tinha, entre

suas glórias, a de descender de Davi.

Um homem eminente, um santo,

mas não era por isso que estavam restaurando-O

politicamente na realeza.

Pelo contrário, era filho de um príncipe

pobre como São José, que exercia

a profissão de carpinteiro. Como entrar

em Nosso Senhor essa grandeza e

todos esses requisitos de Rei? Em alguma

coisa deveria ter aparecido porque,

se Ele possuía, havia de aparecer

em certo momento, pois Ele veio pa-

14


a Se manifestar por inteiro a todos os

homens.

Em mais de um episódio da vida

d’Ele, essa grandeza real reluziu.

Mas de um modo muito especial,

intencional, na Transfiguração no

Monte Tabor, onde apareceu simultaneamente

toda a sua majestade como

Rei e, sobretudo, como Deus.

Eu falei dos trajes reais. Quando

Jesus Se transfigurou, sua veste era

alva como a neve (cf. Mt 17, 2). A

respeito dos lírios do campo, Ele disse

que ninguém era capaz de se vestir

como um deles (cf. Mt 6, 28-29).

Ora, a túnica em que Ele estava envolto

deveria ter sido elaborada por

Nossa Senhora; nunca houve tecido

igual. Imaginem como estava ela, refulgindo

como a neve!

Ele estava tão esplendoroso, mostrando-Se

na sua verdadeira glória e

deixando-a transparecer aos Apóstolos

por Ele convocados para o alto

do monte, que eles ficaram não

só maravilhados, mas não queriam ir

embora. São Pedro propõe ficar ali

em cima, arranjarem tendas e não

sair mais (cf. Mt 17, 4).

Em toda a História não se viu

um rei que fosse objeto dessa aclamação:

“Vamos ficar aqui juntos de

vós, não precisamos mais do resto

do mundo, ficaremos olhando para

vós!” Pelo contrário, o rei é muito

admirável, mas as pessoas gostariam

de lhe dizer: “Senhor, dai-me cargo,

dinheiro, honra... Desejo vos servir,

mas quero que também vós me sirvais.

Nada de ficar aqui parado só

para vos olhar. Quero ser fiel, sede

fiel vós também. Aliás, antes mesmo

de vos ter prestado serviço, já tenho

a lista dos benefícios que quero

de vós. E quando os receber, mostrarei

ao povo, nas ruas da capital, para

ser apreciado e admirado eu também.

Isso de viver só para vos admirar

não basta…” Esta é a história de

todas as monarquias terrenas.

Com Nosso Senhor não. Ele apareceu

em sua majestade. Reação:

“Fiquemos aqui, não precisamos de

mais nada!”

Além da esplendorosa manifestação

de sua realeza no Tabor, Ele

teve também a do Domingo de Ramos

à qual aludi há pouco. Embora

não tenha sido saudado como Rei,

é evidente que aquele povo aclamava

n’Ele uma majestade pessoal, presente

n’Ele, que se exprime na Ladainha

do Sagrado Coração de Jesus

com esta invocação magnífica: Cor

Iesu, maiestatis infinitæ, miserere nobis

– Coração de Jesus, de majestade

infinita, tende compaixão de nós.

Majestade de Nosso Senhor

na morte, na Ressurreição...

O que quer dizer coração aqui? O

culto incide sobre o Coração de carne

d’Ele, símbolo da alma, do espírito,

da mentalidade, dos desejos, dos

propósitos, os quais eram de uma majestade

infinita. O que isso significa?

Tudo quanto Nosso Senhor Jesus

Cristo queria era de uma grande-

za ilimitada; o que Ele inteligia possuía

um descortínio sem fim; nos desígnios

d’Ele, a bondade era de uma

majestade infinita, como também

sua justiça. Ele deixou claro que a

manifestação dessa justiça, de uma

majestade infinita, estaria reservada

para depois. E foi guardada para sua

morte e o dia em que vier julgar os

vivos e os mortos no fim do mundo,

quando Ele virá na majestade de Rei

e de Deus, acumuladas.

A majestade da morte do Divino

Redentor! Ele morreu sob o desprezo

geral, compensado pela adoração

indizivelmente preciosa de Nossa

Senhora e, num grau respeitável,

mas enormemente menor – porque

tudo quanto existe, exceto Nosso Senhor,

é incomparavelmente menor

do que Maria Santíssima – pela adoração

de São João, das santas mulheres,

do bom ladrão. Iniciam-se, então,

o que Bossuet – o grande Bispo

de Meaux, na França, e pregador sacro

dos mais eminentes – chama de

“os funerais do Filho de Deus”.

Entrada de Nosso Senhor em Jerusalém no Domingo de Ramos

Igreja de Nossa Senhora da Purificação, Almendralejo, Espanha

Flávio Lourenço

15


Sagrado Coração de Jesus

Que rei teve ou terá semelhantes

funerais? A terra treme, o Sol se

obscurece, o véu do Templo se rasga.

Com o tremor da terra, as sepulturas

dos justos do Antigo Testamento

se abrem e eles saem pelas ruas

(cf. Mt 27, 52), exprobrando a todos

os homens maus o pecado de deicídio

que tinham cometido, pois era o pecado

da nação inteira. Quando o povo

disse: “Que o sangue d’Ele caia sobre

nós e sobre nossos filhos” (Mt 27,

25), o pecado da nação foi cometido.

Então, a acusação desses pecadores

se faz com essa majestade suprema.

Porém, a majestade de Jesus, Nosso

Senhor, se mostra também quando

Ele, ressurreto, aparece a Maria

Santíssima. Tenho como certo, embora

não esteja dito na Sagrada Escritura,

que ao ressuscitar, antes de

Se manifestar a qualquer outra criatura,

Ele apareceu a Ela.

Nosso Senhor rompeu a sepultura,

os Anjos atiraram ao chão a pedra

funerária e Ele saiu (cf. Mt 28, 1-3),

e todas as cicatrizes da Paixão refulgiam

como sóis! Depois, todas as aparições

d’Ele se revestiram

dessa nota de majestade.

Por exemplo, Ele entra

no local em que se encontravam

reunidos os discípulos,

ninguém sabe por

onde (cf. Jo 20, 19). Estava

com seu Corpo glorioso,

as portas e janelas fechadas

não adiantavam

de nada, Ele as atravessava.

Que majestade entrar

através de um muro que

ninguém derrubou! Muitos

reis na História derrubaram

muralhas... Transpô-las

sem as ter derrubado,

só o Rei Jesus Cristo!

Ele aparece tão bondoso,

tão amoroso, mas

incute tanto medo que as

palavras d’Ele às santas

mulheres são: “Não temais!”

(Mt 28, 10).

Samuel Holanda

...e na Ascensão

É indescritível o que deve ter aparecido

de grandeza d’Ele na Ascensão!

Enquanto falava, ia Se elevando

lentamente. À medida que Se aproximava

do céu, não levado por Anjos,

mas por sua própria força, ia ficando

mais reluzente, mais majestoso!

Em certo momento, desaparece.

Pode-se imaginar a alegria de Maria

Santíssima por ver glorificado o

Filho que Ela vira tão humilhado!

Mas, de outro lado, o que estava se

passando n’Ela, de tristeza por causa

da separação...

Havia, entretanto, uma consolação.

Tenho a impressão muito forte

e vincada de que Deus não recusou

a Nossa Senhora a graça concedida

por Ele a numerosos Santos:

amaram tanto o Santíssimo Sacramento

que, a partir de determinado

momento de suas vidas, nunca mais

a Sagrada Eucaristia deixou de estar

presente neles. Comungavam, e as

Sagradas Espécies ficavam no Santo

até que ele comungasse novamente.

Foi o caso, por exemplo, de Santo

Ascensão de Jesus - Igreja do Sagrado

Coração de Jesus, Santander, Espanha

Antônio Maria Claret, fundador dos

padres do Coração de Maria, no século

XIX. Ele veio a ser, assim, um

tabernáculo vivo de Nosso Senhor.

Tendo Nossa Senhora sido, no período

de gestação, o Tabernáculo vivo

do Salvador, será que Ele indo para

o Céu não manteve n’Ela esta condição?

Pelo menos a partir da primeira

Missa, creio que jamais Nosso Senhor

deixou de estar presente em sua Mãe

virginal. Após a Ascensão, certamente

Ela pensava: “Ele está no Céu, mas

também aqui!” Os Apóstolos, por sua

vez, com certeza cogitavam em celebrar

já no dia seguinte e recebê-Lo,

por tempo maior ou menor, em seus

corações. A presença eucarística começava,

assim, a consolar a Igreja

dessa longa separação de muitos mil

anos, que cessará quando Ele vier no

dia do Juízo Final.

Grandeza até nas

piores humilhações

Pode-se imaginar grandeza régia

comparável a essa? Pois bem, há mais.

Que Nosso Senhor fosse

adorado no seu esplendor,

está explicado. Mas

não é só isso. Os inimigos

d’Ele, querendo achincalhá-Lo,

sujeitaram-No às

humilhações da Paixão.

De ponta a ponta, Ele bebeu

inteira a taça de todas

as dores e vexações possíveis.

Os algozes não supunham

que ao longo dos séculos

começaria uma adoração

de cada humilhação

sofrida por Ele, e que

diante de imagens representando-O

sentado com a

coroa de espinhos, o manto

de irrisão e a vara de

cretino na mão, os maiores

sábios se ajoelhariam

e chorariam de emoção.

Os reis mais poderosos tomariam

por elogio exage-

16


ado serem comparados,

de longe, a esse Rei sentado

naquele trono dos bobos.

Aquele Homem dignificaria

de tal maneira a

Cruz na qual fora cravado

que, no alto de todas

as coroas das nações católicas,

a cruz seria o sinal

da glória.

Quer dizer, ninguém

foi, nem de longe, tão

grande quanto Ele, considerado

não só nas horas

de glória, mas nas de

pior humilhação. Aliás,

mesmo nessas horas, Ele

deu sinais de poder incríveis

como, por exemplo,

ao bom ladrão, a quem

o Divino Crucificado canonizou

no alto do Calvário,

com esta promessa

pronunciada por quem é

Rei do Céu e da Terra:

“Hoje estarás comigo no

Paraíso” (Lc 23, 43). Notem!

A promessa não é a

seguinte: “Hoje estarás

no Paraíso.” Jesus sabia

que se não dissesse que

estaria com Ele a promessa

não seria completa, pois um

Paraíso onde não estivesse Ele não

seria Paraíso. Que realeza!

O maior ódio da História

até o fim dos séculos

Certa ocasião, um historiador

francês cético fez esse comentário:

Os historiadores costumam passar

por cima da figura de Nosso Senhor

Jesus Cristo. Eu lhes pergunto quem

é o homem que tenha, ao longo da

História, conseguido que tantos outros

se pusessem de joelhos com tanta

humildade, e se considerado honrados

por terem se ajoelhado diante

de sua figura? Se depois disso ele

não é digno de entrar na História, o

que faz a História?

A Coroação de espinhos - Igreja de Santa María

La Blanca - Villalcazar de Sirga, Espanha

Esses compêndios de História

usados nos colégios, mesmo em universidades,

tratam de toda espécie

de coisas, d’Ele não falam. Ora, Nosso

Senhor é o centro da História. E

se Ele não foi grande, quem o foi?

Alguém poderia objetar: “Dr.

Plinio, levado pelo seu entusiasmo,

o senhor está ladeando o problema.

Está provado que César, Carlos

Magno, Napoleão existiram, mas

quem provou que Jesus existiu?”

Ora, é a existência histórica mais

certa que há! Porque todas as razões

pelas quais nós acreditamos que César

existiu, nos levam a crer que Jesus

Cristo existiu.

Um cretino, certa vez, me perguntou:

“Onde estão os originais dos

Evangelhos?”

Flávio Lourenço

A resposta possível

era: A Causa Católica estaria

muito mal servida

se o fosse por você! Porque

se houvesse em algum

lugar uma pilha de

pergaminhos com os originais

dos quatro Evangelhos,

quem nos garantiria

serem, de fato, os

originais? Não provariam

nada! Poderiam ser

um muito bom objeto

de culto, de investigação

histórica, um documento

antigo; prova, não. Seria

preciso provar que aquelas

provas eram provas.

Agora, eu pergunto:

onde estão os originais

das Catilinárias de Cícero?

Não obstante, quem

põe em dúvida que Cícero

existiu e que é o autor

daquelas Catilinárias?

Ninguém, por uma série

de razões históricas.

Estas existem no caso de

Nosso Senhor com superabundância.

Pode ser razão de

grandeza o ódio que alguém

despertou? Sim, porque os medíocres

não despertam ódio. Para ser

odiado como Nosso Senhor o foi, até

depois de morto, há uma forma de

grandeza régia. Até nisso Ele foi e é

incomparavelmente grande. Ele será

odiado com o maior ódio da História

até o fim dos séculos. Quando o Anticristo

vier, será uma espécie de personificação

do ódio contra Ele. Também

a vitória d’Ele sobre o Anticristo será

alcançada de um modo que nunca

nenhum rei teve: com o sopro da boca

Ele o liquida (cf. 2Ts 2, 8). Não é nem

sequer o tato de um peteleco, é um sopro

da boca! Reduzido a pó, acabou a

História, começa o julgamento! v

(Extraído de conferência de

3/9/1986)

17


Flávio Lourenço

C

alendário

dos Santos – ––––––

5. Solenidade de Todos os Santos.

6. São Paulo, bispo e mártir (†350).

Por manter a Fé professada no Concílio

de Niceia, os arianos expulsaram-no

diversas vezes de sua sede

em Constantinopla, à qual retornava

com grande heroísmo. Por fim, o Imperador

Constâncio o exilou à Capadócia,

onde foi cruelmente estrangulado,

segundo a tradição, por insídias

dos arianos.

9. Dedicação da Basílica de Latrão.

São Teodoro, mártir (†s. III).

10. São Leão Magno, Papa e Doutor

da Igreja (†461). Combateu as heresias

do eutiquianismo e do donatismo e enfrentou

sozinho Átila, Rei dos Hunos,

que não invadiu a Cidade Eterna porque

ficou impressionado pela extraordinária

força moral do Pontífice.

11. São Martinho de Tours, bispo

(†397).

Santo Estanislau Kostka

1. São João, bispo, e São Jacob,

presbítero, mártires (†344). Por defenderem

a Fé Católica, foram encarcerados

durante o reinado de Sapor

II, na Pérsia, e consumaram seu martírio

um ano depois, mortos à espada.

2. Comemoração de todos os Fiéis

Defuntos.

3. São Martinho de Porres, religioso

(†1639). Ingressou aos 15 anos como

oblato em um convento dominicano

de Lima, no qual mais tarde professou

como irmão leigo. Exerceu habitualmente

os mais humildes serviços

com despretensão e amor de

Deus. Encarregado da enfermaria,

possuía um verdadeiro dom para tratar

os doentes, curando-os não apenas

fisicamente, mas também fazendo

bem às suas almas.

4. São Carlos Borromeu, bispo

(†1584). Foi perfeito modelo de pastor

das almas, aplicando em Milão as reformas

ordenadas pelo Concílio de Trento.

Flávio Lourenço

Aparição de São Paulo a

Santo Alberto Magno e

São Tomás de Aquino

7. Beato Francisco Palau, religioso

(†1872). Da Ordem dos Carmelitas

descalços, possuía um particular

discernimento do papel desempenhado

pelo demônio no mundo, e esforçou-se

para que a Igreja ampliasse o

uso do exorcismo como arma espiritual

adequada às necessidades dos fiéis.

8. Cinco Santos Escultores, mártires

(†306). Foram decapitados por se recusarem

a esculpir estátuas de ídolos.

Flávio Lourenço

12. XXXII Domingo do Tempo Comum.

13. Santo Estanislau Kostka, religioso

(†1567). Convidado a ingressar na

Companhia de Jesus pela própria Santíssima

Virgem, encontrou grandes dificuldades

para atender ao chamado,

pois seu pai, embora católico, opôs-se

inabalavelmente à vocação religiosa de

Estanislau. Tendo feito o heroico voto

de peregrinar pela Terra inteira, se necessário

fosse, até encontrar uma casa

São Martinho de Tours

18


–––––––––––––– * Novembro * ––––

da Companhia de Jesus que o quisesse

aceitar sem a licença do pai, caminhou

700 km, de Viena até a Alemanha, à

procura de São Pedro Canísio, que o

acolheu com bondade e o encaminhou

a Roma, com uma carta de recomendação

a São Francisco de Borja. Foi, então,

aceito como noviço da Companhia,

mas permaneceu nessa condição somente

nove meses, pois morreu na Festa

da Assunção de Nossa Senhora. Não

chegou a completar 17 anos de idade.

14. São Serapião, mártir (†s. III).

Foi martirizado no Egito, durante a

perseguição do Imperador Décio.

15. Santo Alberto Magno, bispo e

Doutor da Igreja (†1280).

16. Santa Margarida, Rainha da

Escócia (†1093). Ver página 2

17. Santa Isabel, Rainha da Hungria,

esposa e religiosa (†1231)

Santa Hilda, abadessa (†680).

18. São Romano, diácono e mártir.

Por ter incentivado os cristãos perseguidos

a permanecerem firmes e

constantes em sua Fé, foi aprisionado

e morreu estrangulado.

19. XXXIII Domingo do Tempo

Comum.

20. Santo Edmundo, mártir (†870).

Ver página 20

21. Apresentação de Nossa Senhora.

Ver página 8

São Gelásio, Papa (†496).

22. Santa Cecília, virgem e mártir

(†s. III).

23. São Columbano, abade (†615).

Tendo abraçado a vida monástica, partiu

da Irlanda, sua terra natal, para a

França, onde fundou muitos mosteiros

que governou com austera disciplina.

24. Santos André Dung-Lac, presbítero,

e companheiros, mártires (†s.

XVII-XIX).

São Saturnino quebrando os ídolos diante do prefeito

25. Santa Catarina de Alexandria,

virgem e mártir (†305). Conduzida

diante do Imperador por ser cristã, censurou-o

corajosamente por perseguir a

Religião verdadeira, fez a apologia do

Cristianismo e demonstrou a falsidade

dos cultos idolátricos. O Imperador, encolerizado,

condenou-a à morte.

26. Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei

do Universo. Ver página 12

27. Santa Catarina Labouré, virgem

(†1876).

28. Santa Teodora, abadessa

(†980). Discípula de São Nilo, o Jovem,

mestra na vida monástica.

29. São Saturnino, bispo e mártir

(†s. III). Enviado para a evangelização

das Gálias, fundou a diocese de

Toulouse. Segundo um relato do século

V, incorreu na ira dos sacerdotes

de Júpiter, porque sua simples presença

tornava mudo o ídolo ao qual

eles costumavam sacrificar um touro.

Certo dia, os devotos de Júpiter

prenderam São Saturnino e exigiram

que fosse ele próprio sacrificar o touro.

Diante da recusa do Santo, que

ademais desafiou Júpiter a fulminá-

-lo com um raio se fosse capaz disso,

os pagãos o condenaram a ser arrastado

até à morte pelo mesmo touro. Por

uma piedosa lembrança, os toureiros

o têm, na Espanha, como seu protetor

especial.

30. Santo André, Apóstolo (†s. I).

Flávio Lourenço

19


Hagiografia

Flávio Lourenço

Lindo

exemplo

para os

governantes

eclesiásticos

20

Santo Edmundo - Igreja de São

Marcial, Angoulême, França

O Rei Santo Edmundo foi

martirizado porque não

aceitou fazer negociações

de paz com os pagãos,

pois isto significava a

apostasia de seus súditos.

Seu sangue fez com

que toda a Inglaterra se

cristianizasse e, até a época

do protestantismo, ela foi

uma nação católica que

durante algum tempo se

chamou Ilha dos Santos.


C

omentaremos uma síntese

biográfica sobre Santo Edmundo,

extraída do livro Os

Santos Militares, do General Silveira

de Mello 1 .

Enfrentando o inimigo

por excelência

Edmundo, que fora muito bem

educado na Religião Católica, tornou-

-se modelo de cristão para seu povo.

Justo e bom, era homem de invulgar

energia. Percebeu cedo o perigo que

representavam os escandinavos para

seu país e preparou-se militarmente,

assim como dispôs seu povo para uma

possível guerra.

Os escandinavos eram, naquele

tempo, o grande perigo dos povos civilizados.

Hoje tão pacíficos, entretanto

foram no passado os tiranos

dos mares. Eles ocupavam a Escandinávia

e deitavam aquelas migrações

pelos mares, que iam descendo

pelos vários lugares da Europa e que

representavam, digamos, a última leva

das invasões bárbaras no continente

europeu.

Para se ter uma certa ideia de qual

era o espírito deles, alguns usavam

o título de reis do mar, porque eram

monarcas de povos que viviam em

barcos – juntamente com as mulheres,

os filhos e tudo o mais – fazendo

pirataria de um lado e de outro. Aliás,

eram barcos com umas proas lindas,

de uma audácia e arrogância de

que a Suécia e Dinamarca perderam

completamente o segredo. Com a

queda das proas caiu tudo. Fala-se de

figuras de proa; poder-se-ia dizer que

cada povo tem a proa que merece.

De maneira que preparar o seu

povo contra a invasão desses inimigos

significava enfrentar o inimigo

por excelência.

Não se enganou em suas previsões.

De fato, os dinamarqueses atacaram

o reino inglês. No primeiro combate

foram duramente rechaçados, mas,

unindo esforços num grande número,

venceram a Santo Edmundo e o aprisionaram

em Hoxne.

Ele venceu uma primeira leva de

inimigos que atacou o seu reino. Mas

eles concentraram-se e naturalmente

o esmagaram, pelo grande número

que tinham desembarcado em vários

pontos da Inglaterra.

Nexo entre os assuntos

políticos e os religiosos

O chefe dos adversários fez várias

propostas de paz ao santo rei, que as

recusou por serem contra a Religião

Católica e os direitos de seus súditos.

Foi duramente supliciado e, por fim,

decapitado. Foi martirizado a 20 de

novembro de 870.

Um Concílio nacional reunido em

Oxford, em 1122, tornou obrigatória a

festa do mártir. Suas relíquias, inclusive

um saltério que usava diariamente,

foram veneradas na Abadia de Cluny

até o surto da heresia protestante.

Preso e levado para Hoxne, Santo

Edmundo foi intimado a fazer negociações

de paz pelas quais ele cedia

seu reino aos vencedores. Ora,

ele não queria fazer isso porque seria

entregar seu povo aos pagãos e

favorecer o restabelecimento da religião

pagã naquele local. Ele resistiu

e, então, foi morto.

Vemos a alta consciência que tinha

esse homem do papel de rei, de

suas obrigações e das relações entre

os assuntos políticos e os religiosos.

Ele tinha noção de que a queda

dele e a implantação de uma dinastia

de reis pagãos traria a paganização

do Estado e dos indivíduos. Causaria,

portanto, a apostasia daqueles povos,

a perdição das almas. Ele compreendia

muito bem o nexo entre a vida política,

a forma do Estado e a forma religiosa,

e por isso se manteve fiel até o

fim, sendo martirizado.

Michael Zeno Diemer (CC3.0)

21


Hagiografia

Arquivo Revista

Por que razão queriam que ele renunciasse?

Naturalmente porque Santo Edmundo

continuava a ter prestígio, senão

a sua renúncia não adiantava de

nada. É porque era difícil consolidar a

conquista, enquanto não houvesse uma

prova de que ele tinha renunciado.

Talvez os inimigos quisessem até levá-lo

a seu próprio reino para declarar

aos seus súditos que ele tinha renunciado.

Santo Edmundo entendeu isso e

não quis renunciar, provavelmente na

esperança de que seus súditos organizassem

uma espécie de revolução, de

guerrilha contra o ocupante para salvar

a Fé. E ele regou com seu sangue essa

esperança de uma restauração católica.

Devemos ser fiéis até a

morte à nossa vocação

Que lindo exemplo para os governantes

eclesiásticos! Sem dúvida, o

sangue desse rei valeu porque, de fato,

a Inglaterra acabou se cristianizando

inteira e, até a época do protestantismo,

ela foi uma nação católica

que durante algum tempo se

chamou Ilha dos Santos, tal foi o número

de bem-aventurados que nesse

país floresceram.

Devemos pedir a Nossa Senhora

que nos dê muitos homens de Estado

e muitos homens de Igreja que tenham

esse espírito. Porque enquanto

os povos católicos, no campo temporal

e, sobretudo, no espiritual, não são governados

por homens dispostos a derramar

seu sangue pela Santa Igreja,

eles não são dirigidos por quem preste.

Só governa bem quem está disposto

a levar a fidelidade a seus princípios

e a seu cargo até o martírio; do contrário

não vale de nada.

Assim como um militar que não

está disposto a morrer é igual a zero,

um bispo, um príncipe, um rei, um

alto governante que não esteja decidido

a morrer para o cumprimento

de seu dever é igual a absolutamente

zero. Os altos cargos exigem a alta

coragem. São os cargos pequenos

que podem se acomodar com o valor

moral normal. Os grandes cargos requerem

o grande espírito de dedicação,

o grande sacrifício.

Entretanto, será um cargo o que

Deus concede de mais alto a um homem?

O que vale mais: um cargo ou

uma vocação? Não há situações em

que uma vocação vale mais do que

um cargo?

Nós temos mais do que um alto

cargo, possuímos uma alta vocação.

Pensemos no exemplo desse rei

para termos sempre a deliberação de

sermos fiéis até a morte à nossa vocação.

v

(Extraído de conferência de

20/11/1970)

Dr. Plinio na década de 1970

1) Não dispomos dos dados bibliográficos

desta obra.

22


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Leandro W.

Cochem às margens do

Rio Mosel, Alemanha

Como se forma o

costume - II

O modo de ser de um povo está relacionado com o

cenário da natureza em que ele vive. A graça divina

conserva tudo aquilo que um povo possui de bom,

eleva-o e orienta-o para se tornar cada vez melhor; sua

força geradora de costumes é incomparável.

V

amos pegar o costume no

seu nascedouro: suponham

que houvesse, de repente,

um deslocamento qualquer da Terra

e o clima alemão passasse a ser sensivelmente

diferente. Por exemplo, dado

a quente, um clima mediterrâneo.

O costume ou é regional

ou não existe

Como o povo todo está muito unido

numa mesma mentalidade, cons-

titui neste sentido uma família de almas,

a mudança de clima haveria de

atingir a vida particular dos indivíduos,

mais ou menos do mesmo modo,

mas as reações dos indivíduos a essa

alteração que tivesse se passado seriam

idênticas ou afins, por causa da

grande conaturalidade de uns com

os outros. E seria uma reação, tomada

em nível individual e familiar, que

atenderia todas as percepções da vida

individual e familiar nessa nova

situação.

Se fosse um povo razoável, não

trabalhado pela verminose de mil

preguiças nem pelas descargas nervosas

de mil torcidas, mas de um fluxo

vital normal, sentiria os problemas

e iria ajeitando aos poucos, em

parte se adaptando, em parte adaptando

as coisas a si, e levaria uns vinte

ou trinta anos até se conformar à

situação nova.

Nesse povo, cada indivíduo se

adapta com um conhecimento meticuloso

e profundo da sua situação

23


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Mirabella (CC3.0)

pessoal e de sua família. E isto feito

numa região inteira, com os recursos

que eles vão utilizando para fazer

face àquilo, e surge uma solução

que nenhum instituto oficial poderia

encontrar, nem professor universitário

seria capaz de fazer daquele jeito.

Pela colaboração de milhares de

pessoas, instintivamente, para resolver

uma determinada dificuldade,

auscultando cada um a si e também

os outros, ninguém querendo romper

para uma solução genial individual,

mas compreendendo que deve

estar no ritmo de uma solução coletiva;

então, o povo vai adaptando,

adaptando, adaptando a ponto de

dar uma obra-prima.

Serve de exemplo para isso um

queijo famoso da Córsega, para cuja

composição são utilizadas duzentas ou

trezentas ervas. Como chegaram a conhecer

essas ervas e obtiveram um tipo

perfeito de queijo? Evidentemente,

diante de uma natureza pobre,

com aquelas montanhas, às apalpadelas,

uma região inteira foi à procura

de uma fórmula. E houve bastante

nobreza de espírito para que cada um,

Rochedos da Ilha da Córsega

inventando uma coisa nova, os outros

soubessem que era melhor ou não, e

fizessem uma seleção. E disto nascesse

um costume a respeito de queijo.

Mas isso que se dá com o queijo,

ocorre com o traje, a construção, o

cântico, os sistemas de educação regionais;

tudo isso nasceu do costume

assim. Trata-se de uma obra-prima

que nenhum gênio humano é capaz

de fazer.

Eles não têm gênios aos borbotões;

seria uma hipertrofia e uma desgraça

para a nação. Eles possuem pessoas

de um bom quilate individual, inteligentes,

as quais esperneiam, sabem

se meter, que é uma coisa

prodigiosa. É um grande

povo tecendo ao longo dos

tempos seus costumes.

O costume não deve

ser, portanto, visto em escala

de nação, e sim de região.

O costume ou é regional

ou não existe.

Se não tivesse nascido a Civilização

Cristã, nós não teríamos

isso, que é do homem cristianizado.

Flávio Lourenço

O cenário da

natureza condiz com o

temperamento do povo

Por outro lado, o cenário da natureza

condiz com o temperamento do

povo e, ao falar do costume, precisamos

considerar esse cenário. O pinheiro,

o Tannenbaum, vai

bem com o prussia-

24

Trajes asturianos


no, e o castanheiro, o marronier, com

o francês. Aquelas montanhas da Espanha

se ajustam com o temperamento

espanhol. Tem-se a impressão

de que andou por ali um gigante

furioso, caprichoso e individualista,

o qual distribuiu taponas e pontapés

naquelas montanhas, onde o espanhol

sente-se em casa. É preciso

ter a grandeza do espanhol para se

compreender onde ele está. Já a doçura

portuguesa é outra coisa.

Então, eu queria fixar bem o princípio:

O nascimento do costume vem

da existência de um pulsar e de um

viver sincrônico, de um unum com

notas biológicas, condicionadas pelo

ambiente, pela paisagem e pela história

daquele povo. E esse unum faz

com que, diante de situações novas,

de interesses socioeconômicos e culturais,

todos se adaptem de um determinado

modo. Mas essas adaptações,

por qualquer coisa de instintivo,

de simultâneo e, neste sentido,

de coletivo, representam a soma das

observações ultrapormenorizadas

que um povo de uma região faz das

suas próprias condições, e da sabedoria

com que ele vai procurando as

acomodações. E isso faz o nascimento

sincrônico do costume.

Qual a relação entre costume e

Religião dentro disso? É que isso supõe

as virtudes cardeais de um povo

bastante vivas. Daí essa possibilidade

de encaixe, de formação desse tipo

de nação; e também de subir da

esfera privada uma evaporação magnífica,

que é o conjunto consuetudinário,

o qual vem a ser mais inteligente

do que qualquer gênio.

A questão das formas de governo

se estuda muito melhor em função

da região do que desse ente vazio de

regiões, que é o Estado, no qual se

costuma pensar quando se considera

em termos comuns o problema. Portanto,

para compreendermos bem as

formas de governo, quando cabem,

quando não, seria preciso pensar em

regiões, pois enquanto não houver

regiões definidas não haverá condições

para assentar nenhuma forma

coletiva de vida verdadeira, e nenhum

Estado digno desse nome. Este

será como construções artificiais

em cimento armado, mas não edificações

fortes de pedras naturais.

Daí, aliás, a sabedoria alemã dos

pequenos Estados confederados que

dão uma estrutura mais alta, um Sacro

Império, com elites de toda ordem.

Interação entre os

princípios e o costume

Entretanto, nunca chegaremos a

entender bem o assunto se não compreendermos

que a virtude antecede,

de certo modo, o conceito, o

princípio. Quer dizer, um princípio

muito elementar está na base da virtude.

Por exemplo, a fidelidade conjugal

é uma virtude. Ela tem na sua

base um princípio muito elementar

ou evidente. Mas logo depois de

concebido, de conhecido esse princípio,

e antes mesmo de ele acabar de

se explicitar inteiramente, num povo

virtuoso ele está gerando costumes.

Ele produz uma grande apetência, a

qual começa a gerar costumes.

À medida que o povo de uma região

vai crescendo – vamos sempre

pensar em regiões –, o princípio vai

se explicitando e gerando novas aplicações

do princípio. E há uma interação

princípio-costume, costume-

-princípio que é diferente de tomar

um aluno, metê-lo numa sala de aula

universitária, e o professor escrever

no quadro negro a teoria e depois

dizer: “A partir disso, comecem

a executar.” Não dá verdadeira frutificação.

Flávio Lourenço

Pirineus, Espanha

25


A sociedade analisada por Dr. Plinio

O indivíduo deve estar num ambiente

onde, antes de receber a aula,

os elementos primeiros do que

lhe foi ensinado ele já possuía, e com

vida. Então há um intercâmbio entre

o intelectual e a vida; o intelectual

traça um princípio, tira uma dedução,

mas a sociedade inteira já está

tendendo a deduzir isso também.

O intelectual não vive sentado numa

mesa e ali lê a realidade, mas ele é

levado a pensar acompanhando essa

produção da região e teorizando

aquilo que a região anda fazendo.

Do que me adianta imaginar um

homem na Provence, região do Sul

da França, sentado junto a uma escrivaninha

e teorizando, mas inteiramente

alheio à sua região? Ele pode

receber prêmios internacionais, o

curso das coisas da região dele não

foi para a frente. Se ele tivesse sua

vida intelectual entrosada com os

problemas da região, quer dizer, se

sua intelectualidade fosse tal que estivesse

viva, agarrada nos problemas

da região, seria um intelectual perfeito.

Do mesmo modo, ai da região

que não tenha vocações sacerdotais!

Ela está fadada a morrer, porque o

clero de uma região é levado a fazer

esta simbiose entre a Religião e a

sua prática nas condições da região.

E com um clero regional. Porque –

falando do Brasil – se numa igreja o

pároco é um padre holandês, em outra

um iugoslavo, mais adiante um

nacional que é pároco em Curitiba,

nascido no Amazonas, não vai.

Quer dizer, nós devemos ser gratos

aos padres de fora que vêm aqui

substituir a lacuna numérica de nosso

clero, seria uma desgraça se não

viessem, mas a solução perfeita – aliás

a Igreja exigiu sempre isso – é a

vocação sacerdotal do lugar, do país.

Mas eu iria um pouco mais longe,

de preferência da região. Isto seria a

coisa perfeita, porque aí a prática da

Religião iria sendo inserida no costume

local.

Ilustrações: Léon-Xavier Girod (CC3.0)

Construções na Indochina,

gravuras do século XIX

A graça conserva o que

um povo tem de bom,

eleva-o e orienta-o

Dois rapazes de nosso Movimento

resolveram fazer uma peregrinação

penitencial. Escolheram um lindo

trajeto, de Roncesvalles, que foi

onde Roland morreu, a Santiago de

Compostela. Foram procurar o abade

e pediram-lhe uma bênção. O

abade, que certamente deve ser da

região, disse: “Isso assim não basta.

Vamos fazer uma coisa séria e inteira.

Vocês vão pôr o traje de peregrinos

como era utilizado na Idade Média.”

Inclusive arranjou para eles os

chapelões, o bastão e as conchas que

caracterizavam os peregrinos medievais.

E começaram a andar a pé. Ao

longo do caminho foi uma ovação!

Gente que parava, tirava fotografia,

queria saber o que era, ajudava, uma

festa! Era a ressurreição de um costume.

Aquelas zonas gemem ainda

por não ter mais o costume.

Aliás, a graça atua dentro da natureza

exatamente na linha do que

estou falando, porque a graça se insere

como um acidente sobrenatural,

uma participação criada na vida de

Deus, e ela embebe todo aquele ser,

conserva, eleva e orienta para o que

ele tem de melhor no seu gênero. Isso

indica como a força da graça, geradora

de costumes, é incomparável.

São coisas lindas!

Poder-se-ia perguntar: Já que a

região é tão condicionante do costume,

como se forma uma região?

Talvez a parte da Terra onde a geografia

mais favorece a formação de

regiões é a Indonésia. Tem milhares

de ilhas. E cada uma daquelas

nações são insulares, são reinos de

uma, dez, cinquenta ilhas, um arquipélago.

Chegou um povo, morou só

ali, todo esse desenvolvimento consuetudinário

se deu nele sozinho e,

portanto, sem enriquecimento de fora,

mas também sem mescla. Portanto,

com uma coerência absoluta com

26


os elementos nativos primeiros. E a

este título privilegiados, de um lado.

Outro lado seria nós considerarmos

povos vários obrigados a se

mesclar. Eu descrevi há pouco a formação

do costume. Com essa boa

presença da graça entre nações católicas,

compreende-se muito bem.

A graça fá-los-ia se entenderem melhor,

conviverem com mais compreensão,

se enriquecerem mutuamente

do que trariam. E viria daí uma coisa

composta com uma beleza própria e

magnífica!

Problemas de uma

beleza extraordinária

Mas aí caberia uma objeção: “Está

bem, mas tome, por exemplo, uma

composição perfeita assim, elaborada

fora do regime da graça, que,

entretanto, é uma das mais bonitas

existentes na História: a Indochina.

A Índia e a China se encontraram

na Indochina, e saiu uma coisa

heterogênea hindu e chinesa, até

certo ponto requinte das duas, e sobretudo

uma terceira coisa, que não

é uma composição mecânica, mas é

algo vivo. E aquilo foi feito por um

povo primitivo que não tinha a graça.

Não estarei exagerando o papel

da graça por pura devoção?”

A resposta é simples: Encontramos

nos primórdios de certos povos

da humanidade a possibilidade de

fazer algumas coisas, como se a graça

o realizasse. Mas é porque eram

povos que ainda estavam meio próximos,

de um modo ou de outro, senão

cronologicamente, pelo menos

psicologicamente, do estado primeiro

da humanidade antes de ter pecado

muito. Eram povos que ainda tinham

uma capacidade extraordinária

de engendrar costumes e de perpetuá-los.

À medida que o rio de pecado

da História foi escorrendo sobre

esses povos, a questão foi mudando.

E eles acabaram só podendo

ir até determinado ponto, paralisando-se

a certa altura. E a ação da

graça concedida ante prævisa merita

1 , foi sendo interrompida, transviada

de tal maneira que os europeus

derrubaram essas culturas milenares

– que não eram uma ninharia, mas

coisas vivas – com uns piparotes.

O que foi feito com a China, o Japão?

O Japão de hoje é o do tempo

dos Xoguns e do Mikado, mas transformado

completamente. É um Japão

americanizado completamente.

Mas, por que deu nisso? Porque rios

de pecado correram em cima disso.

Compreende-se, assim, a formação

desse caldeamento indochinês

magnífico. É muito interessante

aquilo! Como tem critérios, como

está tudo bem composto! É a tal

experiência individual que expliquei

há pouco. Acho esses problemas de

uma beleza extraordinária!

Alguém me deu uma pinturazinha

impressa sobre seda, representando

uma dama típica do século

XVIII. É todo um outro mundo, que

não aquele de Berlim, mas tem algo

que não existiu alhures. É uma simples

dama, numa casa qualquer, com

móveis comuns daquele lugar, uma

senhora quase tomada em abstrato.

Entretanto, quanta delicadeza! Ela

está sentada, mantendo uma boa distância

do dorso da cadeira. Lembro-

-me ainda de mamãe, mais ou menos

com cinquenta anos de idade, almoçando

sem encostar-se no espaldar

da cadeira. É uma coisa especial.

Isso é um costume. Se não fosse

todo esse caldeamento que descrevi,

não teria saído isso. Essa pintura foi

feita no século XX, e quero conservá-

-la porque, além de ser muito típica, é

um preito de admiração de nosso século

aos tempos que se foram. v

(Extraído de conferência de

29/8/1986)

1) Expressão latina utilizada na Teologia

para significar “na previsão dos méritos

de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

27


Perspectiva pliniana da História

Mistérios de uma alma

e de um povo - II

Flávio Lourenço

A Providência permitiu que os verdadeiros católicos ficassem

num aparente abandono. Quando eles tiverem sofrido com

amor todas as dores que Deus lhes envia, chegará a hora em

que se levantarão para dizer a este mundo todas as verdades,

produzindo as mais inesperadas conversões e prostrando por

terra os homens mais insolentes.

Castelo de

Hohenschwangau

Baviera, Alemanha

28


Os estudos de opinião pública

indicam que todos os fenômenos

que se passam na

alma humana ocorrem, mutatis mutandis,

nas sociedades, e não apenas

numa geração, mas ao longo de várias

gerações, de maneira que um ciclo

de civilização faz em quinhentos

anos o que se passa na alma de um

homem em cinquenta ou em cinco

anos. As civilizações têm grandes ascensões,

grandes estabilidades, grandes

harmonias porque vivem muito

tempo. Em geral, quando morrem,

isso acontece dentro do fracasso e da

catástrofe.

O Ocidente foi dizendo

“não” ou “talvez”

A civilização medieval pode ser

comparada a um homem, e o processo

acima descrito foi precisamente o

que se deu na Idade Média.

A Idade Média, tão bela, nobre,

rutilante, Deus a amou com todo o

amor, era a obra-prima d’Ele. Nem a

Cristandade do tempo dos mártires

tinha sido tão pulcra quanto a Idade

Média em seu apogeu.

Em determinado momento a Idade

Média disse “não” ou “talvez”,

“daqui a pouco”... E então a Providência

passa a se colocar, por assim

dizer, de joelhos diante dela, enviando

sucessivos Santos, Ordens religiosas,

Doutores, dando seguidas graças.

Às vezes, esses Doutores retardavam

o processo, e conseguiam até

paralisá-lo, salvando muitas almas,

mas não lograram absolutamente

evitar que a Revolução fosse corroendo

e abafando a civilização medieval,

como a figueira brava circunda

a árvore e a estrangula, tirando-

-lhe completamente a seiva que lhe

dá a vida.

Compreendemos, assim, a razão

pela qual parece haver um determinismo

de vitória do mal, ao longo

desse processo. É porque o Ocidente

foi dizendo “não” ou “talvez” a todos

os Santos que surgiram e, com

isso, acumulando o castigo e o travo

da hora última. Mais ainda – e é

o mais terrível –, como o “não” não

era completo e dentro da civilização

do Ocidente muita gente tinha uma

certa atitude de alma boa, muitos

movimentos bons apareciam, a Providência

retardava um pouco e permitia

isso para que essa era da História

da Igreja fosse, apesar de tudo,

manifestando toda a sua beleza.

Assim foram sucessivamente aparecendo

os grandes Santos, Doutores,

missionários, estabelecimentos

católicos, as grandes encíclicas, os

notáveis movimentos de reação, belezas

estas que a Igreja foi mostrando

na medida em que ela ia sofrendo

e sendo prostrada, mas tirava de

si energias novas para novos tormentos,

até chegarem as aflições e as

energias extremas.

Santa Mônica e a conversão

de Santo Agostinho

Raciocinando agora no sentido

inverso, poderíamos aplicar a uma

alma o acima dito sobre uma civilização,

e notar como isso é pareci-

Flávio Lourenço

São Bento

Flávio Lourenço

São Bernardo

Flávio Lourenço

São Domingos

de Gusmão

São Francisco

de Assis

Gabriel K.

29


Perspectiva pliniana da História

Gabriel K.

Santa Mônica e Santo Agostinho

Museu Amedeo Lia, La Spezia, Itália

do com a história de Santa Mônica.

À medida que Santo Agostinho

se afastava dela, essa santa mãe ia

se tornando mais ardente, arrebatadora

no suplicar a Deus e no pedir

a seu filho rebelde que se convertesse,

mais irresistível em cada contato

com ele, porque ela aprimorava seus

dotes maternos e recursos para salvar

aquela alma. Agostinho resistia

e ela se julgava derrotada, não compreendendo

que, enquanto ele ia se

infamando, ela ia tirando de dentro

de si recursos e belezas novas, e

dando novas glórias a Deus; e que a

aceitação dela, num ato de conformidade

e resignação a cada derrota,

após cada “não” dele, marcava uma

nova beleza para ela. Enquanto o filho

ia dizendo “não” a Deus Nosso

Senhor, que era, assim, “vencido”

em Agostinho, Ele ia vencendo em

Santa Mônica, a ponto de ela se tornar

tão vencedora que, por assim dizer,

venceu o próprio Deus.

É sabido que algum

tempo antes

de Santo Agostinho

se converter,

ela procurou um

bispo que, vendo-a

chorar pela conversão

do filho, disse:

“Vai-te em paz, mulher,

e continua a

viver assim, que não

é possível que pereça

o filho de tantas

lágrimas.” 1 Algum

tempo depois, Santo

Agostinho começou

seu processo de

conversão. Nota-se

nisso o progresso da

alma dela e as sucessivas

vitórias de

Deus na vencida. Se

considerarmos essa

história como sendo

a de Santo Agostinho,

ele terá sido o

grande vencido. Se,

ao contrário, fizermos dessa história

a de Santa Mônica, oh! glória. Ao cabo

de mais de trinta anos de tribulações

e derrotas, essas lágrimas tiveram

um tal preço que alcançaram de

Deus a conversão do maldito, do inconversível,

o qual, convertido, tornou-se

um luzeiro para a Igreja.

Ela saboreou ainda na Terra a alegria

da conversão do filho, e chegou

a ter com ele aquele famoso colóquio

numa pequena hospedaria na

cidade de Óstia, perto do mar, onde

estavam alojados até um navio partir

para Cartago, onde tinham resolvido

morar. Eles falavam, junto a uma

janela, a respeito das coisas de Deus

e a conversa foi tão alta que tiveram

juntos um êxtase, no qual Santa Mônica

tinha praticamente alcançado

o fim de sua vida; pouco depois, em

Óstia, ela morreu.

Qual é a natureza dessas renúncias?

Ela não teria sido santa se, caso

Deus lhe tivesse perguntado: “Mônica,

aceitas que teu filho ainda prevarique

e continues a rezar por ele,

sem te revoltares?”, ela não tivesse

dito com estas ou outras palavras

ainda mais preciosas: “Estou disposta,

Senhor!”

Quem sabe se na sua agonia isso

não lhe foi perguntado? Era preciso

chegar até lá. Nisso estava a beleza

de Santa Mônica. Se ela ficou santa

foi porque ou disse explicitamente

ou estava disposta a isso, bem entendido,

se recebesse da Providência

as graças excepcionais que os grandes

lances supõem.

Como aconteceu a Jó,

todas as desgraças se

abateram sobre a Igreja

Então compreendemos que se

olharmos a Santa Igreja Católica na

sua essência, ao longo desses tempos,

temos a impressão de que ela é

uma derrotada. Porém, nós podería-

Flávio Lourenço

30

Santo Agostinho - Igreja de São

Jorge, La Coruña, Espanha


Maude Rion (CC3.0)

Flávio Lourenço

Lago Léman, Genebra

São Francisco de

Sales - Igreja de Maria

Auxiliadora, Vigo, Espanha

desse tempo? Foi dado aos seus inimigos

fazerem com ela o que o demônio

fez com Jó.

Narram as Sagradas Escrituras

que o Criador disse ao demônio:

“Reparaste no meu servo Jó? Na

Terra não há outro igual; é um homem

íntegro e reto, que teme a Deus

e se afasta do mal” (Jó 1, 8). E o demônio

retrucou que se o Onipotente

permitisse que ele o atormentasse

de todos os modos, veria como levaria

Jó a pecar. E Deus, então, deu ao

demônio licença para atormentá-lo

em tudo, exceto tirar-lhe a vida (cf.

Jó, 1, 9-11; 2, 3-6).

Do mesmo modo, aos adversários

da Igreja foi permitido tudo, exceto

uma coisa: ela continua a existir,

mantém-se viva. Todas as desgraças

se abateram sobre ela e, ao longo

das gerações, gradualmente, cada

vez mais a Igreja foi afundando,

e com ela também os varões apostólicos,

os verdadeiros homens de

Deus foram perdendo a glória, a celebridade,

a honra, sempre mais perseguidos

e isolados, entretanto, camos

fazer uma história de tudo quanto

de belo tem aparecido na Esposa

de Cristo, desde Lutero até nossos

dias, e chegar à conclusão sublime de

que Deus foi vencedor, pois a Igreja

foi manifestando cada vez mais a sua

pulcritude porque o adversário foi

mostrando cada vez mais a sua infâmia.

Haveria de chegar um momento

extremo em que, tanto a beleza da

Igreja Católica como a infâmia do adversário

se manifestariam na sua plenitude,

dentro da desolação extrema.

A partir do momento em que esses

dois auges estivessem manifestados,

poder-se-ia dizer que essa competição

estaria encerrada, e o relógio

de Deus marcaria meia-noite. Chega

a hora de mandar os Anjos vingadores,

porque a Esposa de Cristo tinha

terminado essa fase histórica mostrando

toda a sua pulcritude; e daí

por diante será varrida a face da Terra,

virá a grande tempestade, o grande

castigo, a grande glorificação da

Santa Igreja.

Qual é a forma de beleza que a

Igreja veio manifestando ao longo

da vez mais dignos e conscientes da

missão que representavam, descendo

de ocaso em ocaso até nossa época.

São Francisco de Sales e o

calvinista Teodoro de Beza

Considerem, por exemplo, o que

era um bispo na Idade Média e comparem

com um no tempo de São

Francisco de Sales. Este representou

uma das primeiras legitimidades exiladas

e calcadas aos pés na quadra

da Revolução. Bispo Príncipe de Genebra,

cidade feita para todas as ortodoxias

e purezas. É preciso ter estado

lá para compreender isso: ar

limpidíssimo, o Lago Léman cristalino

como uma consciência tranquila,

tudo é delicado, nobre, convida à

virtude. Entretanto, foi instalado ali

o calvinismo mais obstinado e repugnante.

Deus suscita um bispo de uma doçura

inefável, um favo de mel dentro

da História, que chega a penetrar em

Genebra, a se dobrar diante de Teo-

31


Perspectiva pliniana da História

doro de Beza e pedir que se converta.

São Francisco de Sales era condenado

à morte se entrasse em Genebra.

Portanto, ele arriscou a própria vida.

Teodoro de Beza contou que, em

determinado momento, ao ver o bispo

legítimo diante dele, palhaço ilegítimo

– porque a ilegitimidade forma

palhaços, quando não criminosos

–, sentiu sua alma vacilar, mas depois

disse “não”, e São Francisco de

Sales teve que sair da cidade.

Vendo ser o sorriso inútil, o Santo

apela para as tropas, mas estas são

derrotadas. Ele, o bispo fracassado,

entretanto morre digno, sereno, tendo

realizado esta atividade típica: já

que os seus não quiseram beneficiar-

-se de sua doçura, ele escreveu obras

exalando a suavidade da Igreja e da

Providência para a Cristandade inteira:

Introdução à vida devota, Tratado

do amor de Deus, e uma série de

outras obras, transformando-se em

Doutor da Igreja; Doutor desprezado,

mas que nem por isso perde a face.

Desce dignamente à sepultura e

sobe até os Céus, sem se incomodar.

Foi rejeitado, mas permaneceu fiel.

Depois de São Francisco de Sales

vieram vários bem-aventurados, até

aparecerem, no século XIX, os grandes

santos das obras de caridade materiais.

Em todas as épocas os santos

fizeram obras de caridade materiais,

mas os do século XIX primaram nesse

assunto de um modo especial, sem

que tivessem com isso relaxado, no

mínimo que fosse, as obras de caridade

espirituais.

Do fundo do vale se

ergue o lírio mais puro

É então Dom Bosco, por exemplo,

o qual faz com que até Cavour,

o homem das perseguições religiosas,

ajudasse a sua obra. Contudo,

Cavour não se converteu, nem a Itália

revolucionária, apesar de tantos

outros Santos. Só em Turim havia

cinco grandes Santos, entre os

quais São José Cottolengo, um homem

inteligentíssimo que fundou a

obra da Divina Providência. Mostra-

-se ainda hoje sua cadeira de escritório

onde Nossa Senhora sentava-Se

para conversar com ele. Entretanto,

São João Bosco foi rejeitado como

tantos outros bem-aventurados. Todos

eles morrem na aparência derrotados,

mas na dignidade e tranquilidade.

É a longa sucessão de derrotados

a caminhar pela História, como

uma procissão serena de triunfadores,

sem empáfia, sem amor-próprio,

sem gabolice, mas também sem

o menor complexo de inferioridade,

com os olhos postos em Deus e

sabendo que quem está unido a Ele

acaba por triunfar.

Apesar disso, o mundo vai piorando.

Parece que a Providência abandonou

a Contra-Revolução.

Nós não sabemos sondar até o

fim os desígnios de Deus. Na realidade,

Ele estava tornando possível o

advento de uma época em que fosse

feita a increpação última, e a bofetada

derradeira pudesse soar, sonora,

na face impura da Revolução desmascarada.

Por outro lado, não houve nada

em que a Igreja não se revelasse

belíssima. Esta é a mais alta beleza

que se destila desse extremo da luta.

É a epopeia da fidelidade, quando

a infidelidade fez devastações

que nenhum espírito ousaria imaginar;

diante de cuja possibilidade teológica

muitos Santos gemeram, dizendo:

“A misericórdia divina não

permitirá.” Aquela situação tão triste,

que alguns Santos julgaram que a

misericórdia divina não permitiria,

verificou-se. Ficará consignado para

a História que, pela graça de Nossa

Senhora, houve católicos que levaram

a fidelidade a um tal ponto que,

nessa situação, onde muitos santos

pensaram ser tal o horror que a Providência

não permitiria, naqueles

despenhadeiros tão profundos que

se pensaria não haver vida, ali houve

vida, houve fidelidade, porque houve

quem esperasse o auxílio de Nossa

Senhora. Por isso, algo acontecerá

por onde Maria Santíssima vencerá.

Foi quando o filho pródigo estava

comendo as bolotas dos porcos

que ele se lembrou da casa paterna.

Sendo possível dar à Igreja essa forma

de glória que consiste no retorno

da humanidade perdida, não era

preciso que houvesse uma época histórica

na qual alguém lhe desse essa

glória? E se era necessário, bem-

-aventurados os homens que nasceram

para padecer essa tristeza, esse

isolamento, esse desprezo e essas

delongas, para habitar o fundo desse

vale. Porque é do fundo do vale que

haveria de se erguer o lírio mais puro,

elevar o voo a águia que mais alto

voasse, e de onde uma nova era histórica

recomeçasse.

Vozes puras e sem fraude,

capazes de chacoalhar as

colunas da impiedade

Embora se veja que o vale não poderia

ser mais fundo, pode ser que a

intervenção divina demore um pouco

e tenhamos ainda um estertor a dar.

Nosso Senhor, depois de proferido

o “Consummatum est” e tendo

morrido, quando se pensava que Ele

tinha dado tudo, ainda foi necessário

arrancar d’Ele a última gota de Sangue

misturado com água. E depois

de Ele ter sofrido todas as feridas

possíveis, foi preciso que Ele fosse

ferido no Coração (cf. Jo 19, 30.34).

Talvez julguemos que mais nada

tenha de acontecer, mas há ainda

uma ponta no caminho de nossas

aflições para sofrer. Será um último

lance, o mais terrível. Quando será?

Deixando essa incógnita, Nossa Senhora

nos pergunta:

“Meu filho, tu aguentas a possibilidade

de ser tanto tempo que te dê

aflições, arrepios de demorar ainda

mais? Suportas a eventualidade de

ser bem mais do que imaginas?”

32


Nesse momento, se dissermos

com toda a alma: “Minha Mãe, eu

suporto”, talvez a nossa medida esteja

cheia e Deus, afinal, intervenha.

A nós compete admirar toda a sabedoria

que a Providência revelou

nessa luta lenta, deixando-nos nesse

aparente abandono. Tomando consciência

de que fulgores dos mais belos,

de uma suprema beleza da Santa

Igreja Católica, se desprendem dos

que permanecerem fiéis e se desprenderão

ainda mais, quando chegar

a hora desses se levantarem como

increpadores para dizer a este

mundo todas as verdades que ele

não quer ouvir.

Mas esses increpadores só terão

a voz capaz de fender os morros,

fazendo-os saltar como cabritos,

produzindo as mais inesperadas

conversões e prostrando por terra

os homens mais insolentes, audaciosos

e orgulhosos, quando esses fiéis

tiverem bebido toda a taça de fel.

Tais almas poderão increpar porque

se tornaram como São Bartolomeu:

verdadeiros israelitas nos quais não

há fraude. Serão vozes puras e sem

fraude, capazes verdadeiramente de

tomar as colunas da impiedade contemporânea

e chacoalhá-las.

Esperemos mais um pouco, estejamos

prontos a, eventualmente, esperar

muito, dispostos a tudo e digamos:

“Pai meu, se for possível afaste

de mim este cálice. Mas faça-se a

vossa vontade e não a minha” (cf. Lc

22, 42).

Assim, ainda que sejamos um punhado

de almas, teremos vencido a

Revolução, porque o ponto final será

posto quando alguém disser um

“sim” tão íntegro que acabe fechando

os parêntesis, e finalizando a frase

maldita iniciada por aquele que,

em certo momento, disse “talvez” e

começou a Revolução.

Essa última palavra de fidelidade

extrema nós somos chamados a proferi-la

juntos, dizendo a Nossa Senhora

como Ela respondeu ao Anjo:

Ecce ancilla Domini. Fiat mihi secundum

verbum tuum (Lc 1, 38). Assim

nós devemos afirmar: “Minha Mãe,

nós somos vossos escravos. Faça-se

em nós, para a glória ou para o opróbrio,

para as felicidades ou para as

tormentas, segundo a vossa palavra.

Longinus crava a lança em Jesus Cristo

Museu da Semana Santa, Zamora, Espanha

Vamos lutar até o fim contra a Revolução.

Esse é o nosso objetivo”. v

(Extraído de conferência de

24/2/1974)

1) SANTO AGOSTINHO. Confissões.

Livro III, c. XII.

Flávio Lourenço

33


Apóstolo do pulchrum

Gabriel K.

A música

Anjos

Platão imaginava que os corpos celestes eram como esferas

de cristal as quais, girando umas sobre as outras, produziam

uma sinfonia universal. É uma linda ideia, mas ela se torna

pálida quando consideramos os Anjos, espíritos perfeitíssimos,

puríssimos, virtuosíssimos, fidelíssimos, continuamente

contemplando a Deus, exclamando em cânticos o seu sentir.

Quando ouvimos um canto, notamos haver uma

analogia entre o falar humano e esse cântico,

porque cada nota posta ali é como uma inflexão

da voz humana quando o homem afirma alguma coisa.

O cantochão, o polifônico, a música clássica

Por exemplo, ao pronunciar “afirma alguma coisa” involuntariamente

dei ênfase à palavra “afirma” para indicar

o caráter afirmativo do que eu queria dizer, enquanto

fui muito rápido no resto da frase, porque “alguma coisa”,

sendo um termo vago, pronuncia-se rapidamente,

como uma pincelada apenas no pensamento. De maneira

que, no pronunciar a frase, fiz o que todo mundo faz,

ou seja, martelei as sílabas, modulei a voz de acordo com

o que me vai no temperamento e na alma a respeito daquilo

que estou dizendo.

Então é um modo de proferir as frases, por onde a

pronúncia como que discretamente canta o que está sen-

do dito. E esse “cantar” indica o meu estado temperamental

e o sabor por mim encontrado – bom ou mau,

agradável ou repelente – naquilo que estou dizendo.

Em geral, tanto o cantochão quanto o polifônico têm

isso de próprio: cada nota é uma meditação sobre o sentido

da palavra que está sendo dita, é uma tomada de

posição piedosa, ora triste, ora alegre, ora afetuosa, ora

adorativa, ora reparadora, ora eucarística a respeito daquilo

que está sendo afirmado. Por isso é bonito acompanhar

exatamente assim a música, palavra por palavra.

Entretanto, podemos ver na música um outro aspecto.

Se tomarmos a música clássica, por exemplo, veremos

tratar-se de uma magnífica arquitetura de sons. Essas

melodias podem ser comparadas, de algum modo, a

um prédio com as suas massas distribuídas, suas colunas,

seus corpos de edifício, seus desdobramentos, mas

onde entra algo mais abstrato do que a expressão de um

pensamento humano: introduz-se uma pura ideia de

harmonia.

34


dos

no Céu

Poderíamos nos perguntar qual dessas é a verdadeira

concepção da música e, se ambas são verdadeiras, qual a

mais alta.

Diante desse problema, eu me pergunto se não haveria

um estilo de música que reunisse ambas as perfeições,

porque são manifestamente tão nobres e tão altas que

um certo senso da unidade nos faz desconfiar de que haja

a possibilidade de reunir as duas concepções numa visualização

só.

Porém, ainda não encontrei uma fórmula e nem sei se

isso é possível. Indico apenas essa ideia para esboçar um

pouco aquilo que, provavelmente, é a música dos Anjos

no Céu. Que os Anjos têm uma melodia no Céu, embora

não seja a música material, é positivo. Que esta melodia

deve ter uma arquitetura sonora magnífica, expressão do

ser deles, é fora de dúvida.

Haverá no homem, com as limitações para a criatura

humana, a possibilidade de uma música assim? Também

não sei. Mas é uma coisa a respeito da qual se pode

cogitar.

Cogitações que nos incentivam

a pensar no Céu

Exatamente são as cogitações que valem a pena ter

como entretenimento quando, por exemplo, a rotina está

monótona. É um entretenimento inocente que deixa a

alma leve. E um certo cultivo da leveza de alma vai bem

para quebrar esses estados um tanto depressivos a que

possamos estar sujeitos.

Platão imaginava os corpos celestes como esferas de

cristal girando umas sobre as outras eternamente, e ele

tinha a ideia de que cada uma dessas esferas produzia

um som, e que esses sons todos se encontravam no universo,

produzindo uma música universal resultante dos

movimentos dos astros.

Notem quantas noções bonitas estão postas dentro dessa

concepção. Esferas de cristal que giram, já é uma verdadeira

beleza! O som que se desprende dessas esferas, correlato

com a cor, a densidade e a rotação desses cristais, uma policromia

conjugada a uma harmonia, que coisa bonita!

Essa música não exprimiria o sentir humano, seria

uma pura arquitetura universal, quase uma meditação filosófica

sonora, mas que produz no homem um reflexo.

Então se poderia imaginar um ponto de encontro que seria

a expressão da reação humana diante dessa harmonia

universal, e musicar isso.

Cogitações como essa nos ajudam a suportar o peso

da vida e nos incentivam a pensar no Céu. Como ficam

estúpidas essas lindíssimas esferas de cristal quando consideramos

que existem os Anjos, espíritos perfeitíssimos,

puríssimos, virtuosíssimos, fidelíssimos, continuamente

contemplando a Deus, vendo n’Ele belezas sempre as

mesmas e sempre novas, exclamando em cânticos o seu

sentir. É uma coisa maravilhosa!

v

(Extraído de conferência de 23/3/1970)

35


Gabriel K.

Assunção de Maria - Galeria Nacional, Ottawa, Canadá

Maria fons, Maria mons, Maria pons

P

or estar no píncaro da Criação, a Santíssima Virgem é a intercessora necessária para os pedidos

que sobem e para os favores que descem.

Há uma cançãozinha muito bonita que diz: Maria fons, Maria mons, Maria pons... Parece

um jogo de palavras, mas de fato Nossa Senhora é a fonte, a montanha e a ponte.

Se analisarmos, encontraremos uma insinuação de píncaro até nisso, porque Ela é a montanha, a

qual, por sua natureza, é um píncaro em relação a outras coisas. Também se diz d’Ela que é mons super

montes positum – a montanha posta sobre todas as outras montanhas.

Maria fons é outro título à maneira de píncaro, ou seja, em relação a toda a natureza seca, a fonte de

onde jorra a água tem uma espécie de culminância, de importância, pois a terra não subsiste sem a água.

Maria pons. Sem a ponte que une os bordos de um precipício o viandante não tem solução para seu

caminho. A ponte garante sua travessia. É mais uma vez a noção de píncaro, em outro sentido.

A nota de píncaro está presente em tudo quanto é d’Ela, especialmente na virginalidade e na humildade levadas

ao inimaginável, em contraposição à Revolução que visa levar ao extremo o orgulho e a sensualidade.

(Extraído de conferência de 12/7/1991)

Hooray! Your file is uploaded and ready to be published.

Saved successfully!

Ooh no, something went wrong!