Entrevista Médico pernambucano Enilton Egito ... - Revista Algomais

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Entrevista Médico pernambucano Enilton Egito ... - Revista Algomais

Ano 4 | n o . 45 | Dezembro 2009 R$ 9,00 www.revistaalgomais.com.br

Presídio

Nova unidade em Itaquitinga

sofre questionamentos

Entrevista

Médico pernambucano Enilton Egito

fala do seu sucesso em São Paulo

O Natal pós-crise

dezembro >

> 1


MOTORISTA LEGAL É MOTORISTA CONSCIENTE.

2 > > dezembro


FIQUE ATENTO AOS

MOTOCICLISTAS E

SINALIZE SEMPRE ANTES

DE MUDAR DE FAIXA.

No trânsito é preciso ter sempre em mente o perigo

que você pode causar aos outros e a si mesmo.

Lembre-se que motos e bicicletas são mais frágeis

e a segurança de quem as conduz depende da sua

atenção. Dirija com consciência.

dezembro >

> 3


4 > >

dezembro


dezembro >

>

5


ilhos indicam, mãe pesquisa e pai paga”; “Produtos nata-

“Flinos em alta”; “Lirismo motiva compras”; “Moda agrada

a gregos e troianos” – estes títulos que dividem a reportagem

de Capa desta edição, de Marcella Sampaio, indicam que o consumo,

antes travado pela crise global, está voltando com toda a

força justamente no Natal, a época do ano mais esperada pelo

comércio. Em vez da “marolinha” (Lula tinha ou não razão?) falase,

agora, em perspectivas de vendas – mais, ou menos, dez por

cento de crescimento no movimento geral de compras? Como

fazer essa estimativa? Afinal, apenas o pagamento do 13º salário

injetará R$ 2,5 bilhões na economia pernambucana.

Marcella ouviu os lojistas – de nove shoppings centers e de

fora deles. Todos são otimistas, criaram 15 mil vagas temporárias

de empregos, investiram em prêmios para estimular os consumidores.

Até apartamento será sorteado pelo Papai Noel. E a moda,

um capítulo especial da edição, indica que o modismo fashion

para o Verão, que se estenderá aos primeiros meses de 2010,

será liderado pelas cores neons, mas os acessórios darão um toque

especial à estação, dizem os especialistas consultados.

Depois do Natal e do fim do ano, a política predominará por

todo o ano por causa das eleições de outubro. Ivo Dantas lembra,

na página 26, que o calendário apertado promete definir o futuro

da política em Pernambuco ainda no primeiro semestre. Já a partir

Política

Novo atraso em parque gera

desgaste para os Joões 28

Política

A polêmica sobre a PPP

do presídio de Itaquitinga 30

Desenho

Humor e história

em Cartuns Postais 62

6 > > dezembro

Carta do Editor

Edição 45

Circulação | 4 de dezembro de 2009

Criação | Adrianna Coutinho

Tiragem | 15.000 exemplares

Era marolinha?

Sumário

Seções

Carta do Leitor

Entrevista

Pano Rápido

De Olho

Pensando Bem

João Alberto

Artigo

Gestão Mais

Economia

Memória Pernambucana

Última Página

de 1º de janeiro as pesquisas para intenção de voto estarão liberadas

e os candidatos terão de largar os cargos públicos até 3 de

abril. Consulte o calendário que publicamos na página 27.

Ainda em Política, a discussão sobre a construção de presídio,

na Zona da Mata Norte, através de PPP, para liberar o paraíso turístico

de Itamaracá. Situação e Oposição concordam quanto aos

benefícios, mas divergem sobre os custos do empreendimento e

sua legalidade.

Uma polêmica recorrente, por exemplo, quando se fala do Parque

Dona Lindu, em Boa Viagem. A obra, que seria inaugurada em

dezembro e foi mais uma vez postergada, já custou R$ 31 milhões

graças aos aditivos impostos pela construtora. Um elefantão de

presente de João pra João, confira na matéria da página 28.

E para quem for passear no inacabado Dona Lindu e passar

mal uma dica de consulta: o cardiologista pernambucano (de Timbaúba)

Enilton Egito está à disposição em seu consultório no mais

importante hospital especializado de São Paulo. Leia a entrevista

que Antonio Magalhães fez com ele para esta edição e conheça a

trajetória de sucesso de um profissional simples e extremamente

conceituado cuja competência salvou dezenas de vidas – de pernambucanos

e de gente de todo o Brasil. Uma boa leitura

Roberto Tavares

Editor Geral

Reportagens

Acertando os ponteiros

De João pra João, um elefantão

Entre a cruz e a espada

Sob a proteção da Convenção de Haia

Filhos indicam, mãe pesquisa e pai paga

Artesanato de Pernambuco rompefronteiras

Brasil e Pernambuco no Mundo Pós-crise

Educação 2.0

“Meta é atuar numa Copa”

História e humor de mãos dadas nos cartuns de Humberto

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Rota Premium

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> 7


Cartas do Leitor

Algomais I

Algomais enveredou por um assunto,

que ainda vai gastar muita tinta e papel.

Refiro-me a já muito falada Via Mangue. Tal

obra viária há muito tempo anunciada, mais

uma vez dizem irem começar suas obras.

Esperamos ver finalmente um desafogo do

hoje caótico trânsito de Boa Viagem. As promessas

de manutenção do manguezal e seu

aumento de área, espero não ser uma falácia.

Palafitas dizem finalmente erradicarem.

Temo por um incremento dessas moradias.

Vou ficar mais vigilante-ambiental. Que não

seja o novo “Túnel do Tempo” da Herculano

Bandeira ou o prolongamento da Av. Dantas

Barreto. Abraços,

Carlos Tigre (Cacá)

Algomais II

A revista Algomais última está simplesmente

espetacular. A reportagem sobre

Arquitetura Inteligente (capa) está a exigir

uma complementação: uma reportagem

sobre o trânsito do Recife, cada vez mais

atabalhoado diante de uma muito desbotada

estratégia municipal - Arquitetura Inteligente

X Trânsito Estupidificante.

José Antônio Gonçalves – Recife

Algomais III

Parabéns pela edição 44: redonda, pernambucana.

Luís Otávio Cavalcanti – Recife

Foral

Em 19 de novembro de 1709, o rei D.

João V de Portugal mandou elevar o Recife a

Vila e assinou o foral do Recife. Porque todo

EXPEDIENTE

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Boa Viagem | 51110-050 | Recife/PE

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Diretoria Executiva

Sérgio Moury Fernandes

sergiomoury@revistaalgomais.com.br

Francisco Carneiro da Cunha

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Diretoria Comercial

Luciano Moura

lucianomoura@revistaalgomais.com.br

8 > > dezembro

o Município tinha então seu termo (freguesias

e sítios que constituíam o território em

que o município podia cobrar o foro), o rei

deu ao Recife, e só ele o poderia fazer, os

bairros do Recife, São José e Santo Antonio,

o local de Afogados que era ligado ao

bairro de São José por um aterro ponte, e

as freguesias de Muribeca, Cabo de Santo

Antonio e Ipojuca. Olinda ficou com a cidade,

as suas freguesias até ao canal de Santa

Cruz e à localidade dos Marcos na divisa

com Goiana, mais o bairro da Boa Vista, e

as freguesias de Várzea, São Lourenço (da

Mata), Santo Antão (Vitória), Santo Amaro,

Jaboatão, Nossa Senhora da Luz, Santo Antonio

de Tracunhaem etc, etc. Se é assim

e o prefeito dr. Germano Coelho resolveu

cobrar o foro de todos os primitivos terrenos

do foral de Olinda por que somente escolheu

os locais mais ricos e nobres de Pernambuco?

Por que não mandou cobrar o foro a todos

os outros? Certamente porque sabia ser

esse foro uma cobrança ilegal porque era a

duplicação de um imposto já existe, ele não

iria taxar a sua zona eleitoral onde, ao lançar

mais esse imposto fantasia não teria nem

mais um voto. Por que será que o sr. secretário

da Fazenda de Olinda, que há alguns

dias defendeu o direito de Olinda cobrar o

foro de todos os terrenos do foral de 1537,

não o faz?

Delmar Rosado – Recife

Abelardo da Hora

Parabéns à Algomais pelo valor cultural,

informativo e político do conteúdo da

revista. A de Nº 44 ( novembro/2009 ) seção

Entrevista: Abelardo da Hora, merece

parabéns dobrado. Apesar de não ser artista

e sim assistente social, fiquei emocio-

Conselho Editorial

Francisco Carneiro da Cunha (coordenador)

Antonio Magalhães

Luciano Moura

Ricardo de Almeida

Sérgio Moury Fernandes

REDAÇÃO

Fone: (81) 3327.3944/4348

Fax: (81) 3466.1308

redacao@revistaalgomais.com.br

Editor-geral

Roberto Tavares

robertotavares@revistaalgomais.com.br

Editor-executivo

José Neves Cabral

zeneves@revistaalgomais.com.br

Reportagens

Carolina Bradley

carol@revistaalgomais.com.br

Marcella Sampaio

marcella@revistaalgomais.com.br

Ivo Dantas

ivodantas@revistaalgomais.com.br

Fotografia

Alexandre Albuquerque

(81) 9212.9423

Editoria de Arte

e Editoração Eletrônica

Adrianna Coutinho

adrianna@revistaalgomais.com.br

Rivaldo Neto

rneto@revistaalgomais.com.br

nada com o conteúdo do grande escultor e

cheguei até as lágrimas com sua trajetória

política pois vivenciei os anos difíceis da

ditadura como militante estudantil e profissional.

Maria do Socorro Silva Cajaseiras – Recife

Ortografia

Senhor Redator, à página 25 do nº. 44,

novembro 2009, está escrito abaixo de uma

fotografia: “DESISPERO”. O sentido desta

observação é somente colaborar.

Napoleão Tavares – Recife

Chimbinha x Joelma

Tenho o prazer de ler seu artigo na AL-

GOMAIS , digitalizei e estou repassando

também para os mesmos contatos, na esperança

de que chegue a pelo menos um

dos nossos representantes naquela casa.

Um Estado com a história e a cultura que

tem não poderia de forma alguma homenagear

“aquelas” pessoas com tal comenda. É

realmente lamentável, e por que não dizer

que é falta do que fazer? Mais uma vez, parabéns.

Dirceu Pereira Ramos

Resposta de Paulo Caldas:

Tenho respondido estas manifestações

de apoio citando o nome dos responsáveis

pelos projetos; Ivete Sangalo foi de João

Negromonte e o casal Calypso de autoria de

Nélson Pereira. Assim, sugiro que estes nomes

sejam divulgados entre os nossos contatos

e esquecidos nas próximas eleições, em

2010. Palavra de cidadão pernambucano.

Uma forma de vc concordar comigo, é fazer

o mesmo.

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> 9


Entrevista

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Enilton do Egito

O bom trato do coração

pernambucano

COMPENSAÇÃO | Os médicos formados em universidades públicas

deveriam dar pelo menos dois anos de serviço generalista no Interior

Por Antonio Magalhães

cardiologista Enilton Sérgio Tabosa do

O Egito, 59 anos, casado, cinco filhos,

pode tanto ser encontrado num consultório

do mais importante hospital especializado

de São Paulo como na mais desbragada

festa de Carnaval do Recife envergando

uma fantasia, possivelmente a de Maurício

de Nassau, o guru da confraria dos

pernambucanos na capital paulista.

O Dr. Enilton do Egito fez a travessia

bem sucedida de Timbaúba, na Mata

Norte de Pernambuco, onde foi criado,

embora nascido na Fazenda Balanço em

Macaparana, para o maior centro médico

do País, São Paulo. Formado pela Faculdade

de Ciências Médicas, da UPE, em 1974, ele

foi naquele mesmo ano para Residência no

Hospital da Beneficência Portuguesa com Dr.

Adib Jatene e de lá, com o mesmo Jatene,

para a chefia da emergência do Hospital do

Coração. Lá, construiu uma carreira vitoriosa.

Hoje, Enilton do Egito é referência médica

nacional e, principalmente, entre os

pernambucanos que vão procurá-lo em São

Paulo para tratar dos males do coração.

A metafórica coronária saudosa de outros

pernambucanos que vivem em São Paulo,

como ele, trata com doses exageradas de

cultura pernambucana na Confraria Maurício

de Nassau, onde é presidente. Um bom

remédio para o coração, costuma dizer, é o

bom relacionamento com as pessoas.

E ele pratica. Enilton do Egito veio

Alexandre Albuquerque

comemorar os 35 anos de formatura com

os colegas num resort de Pernambuco. Os

velhos amigos. Lá, concedeu esta entrevista

a Algomais. Durante a conversa, o médico

emocionou-se profundamente duas vezes,

travou a fala quando se referiu ao reencontro

dos companheiros da primeira viagem a

São Paulo e quando enfatizou o orgulho

de exercer a profissão. Enfim, um homem

ajustado e de bem com a vida.

Algomais | Como foi sua trajetória de

Timbaúba para São Paulo?

Enilton do Egito | Aos 22 anos candidateime

a vice-prefeito na chapa de oposição aos

Ferreira Lima, uma oligarquia que dominava a

cidade há 50 anos. Perdemos por 300 votos,

quando na maioria das eleições eles ganhavam

com uma diferença de até 10 mil votos. Depois

da derrota fui fazer a residência médica em São

Paulo e, como o mais velho, proibi meus irmãos

de se meterem em política. No mesmo ano de

formado, 1974, fui trabalhar com Dr. Adib Jatene,

que já fazia pontes de safena. São Paulo

só tinha dois centros de cirurgia cardíaca, o do

Dr. Adib e o do Dr. Zerbini, o maior especialista

da época em transplantes de coração. Fiz um

grande relacionamento com Dr. Adib, o que

me permitiu fazer uma ponte com os colegas

cardiologistas do Recife, tirando dúvidas e resolvendo

as broncas que aconteciam por aqui. O

que não aconteceria hoje: o Recife é o segundo


centro médico do País e um importante centro

da América Latina.

AM | Como foi sua adaptação em São

Paulo?

EE | Foi um choque ver uma cidade tão grande.

Mas morava na residência médica e quase

não saia de lá. Era solteiro e não tinha tempo de

passear. Só um ano depois, quando fui a show

de Luiz Gonzaga, reencontrei velhos companheiros

de viagem num velho fusca do Recife a São

Paulo. Estavam lá Luciano Siqueira e Wilson Pimentel

que não os via desde a chegada. Fiquei

emocionado.

AM | A adaptação foi lenta?

EE | A minha atividade me absorvia muito. Não

tinha lazer. Quando estava terminando a residência

médica foi inaugurado o Hospital do Coração,

o HCOR, e fui chamado por Dr. Adib para

chefiar a emergência desse hospital. A partir daí,

em 1976, fomos subindo juntos. Como o nordestino

leva sua cidade dentro dele dentro, continuei

ligado a minha terra, participando quando

podia de atividades em Timbaúba e mantendo

contato com colegas médicos daqui. O Hospital

do Coração foi o começo de tudo.

AM | São Paulo concentra 60% de todos

os residentes médicos do Brasil. Não é

uma grande concentração?

EE | Esse é o grande problema da área médica

no Brasil. Nosso país tem hoje 300 mil médicos.

Só São Paulo deve abrigar pelo menos 150 mil,

a metade deles. É um problema que as autoridades

estão se voltando. Para fixar o médico

fora dos grandes centros não é só dar um bom

salário. Tem que oferecer também condições de

trabalho. Ninguém quer ser médico em Altamira,

no Pará, onde não há equipamentos fundamentais

para um diagnóstico. As autoridades

pensam em criar residências médicas no Norte

e no Nordeste para fixar os profissionais. Se eles

vão para São Paulo, se dão bem, são grandes as

chances deles não voltarem aos seus estados.

No Recife se sente menos isso, por conta do

Polo Médico, mas no Interior há muita carência

de médico especialista porque não se cria uma

boa estrutura para o ato médico. Muita gente

sai para trabalhar por lá e volta para a capital.

AM | Quer dizer então que a Medicina

está cada vez mais dependente dos

equipamentos de alta tecnologia?

Alexandre Albuquerque

“Sem tecnologia

não há a menor

possibilidade

de fixar o médico

no interior”

EE | Não tenha dúvida. A figura do médico com

um estetoscópio é cada vez mais antiquada. Claro

que a clinica médica continua soberana. O contato

pessoal do médico com o paciente é muito

importante. Mas ele tem que ficar atento, pois

precisa de um diagnóstico. Hoje se cobra muito

dos médicos o apoio tecnológico. E a tecnologia

é cara: um aparelho de ressonância magnética,

por exemplo, custa dois, três milhões de Reais

que têm que se pagar. Há aí o problema crônico

das cidades periféricas: sem a tecnologia não há

possibilidade de fixar o médico no Interior.

AM | A saúde pública então fica jogada

às traças por falta de verbas para equipamentos

de alta tecnologia?

EE | Vou frequentemente a Macaparana, a São

Vicente Ferrer, a Timbaúba, e vejo as dificuldades

da área de saúde. Normalmente para se

fixar no Interior, o médico vai se transformar em

político, fazendeiro, ou marido da filha do líder

político local. Essa é a maneira mais fácil que os

colegas encontram para viver fora dos grandes

centros. Vale mais o amor à camisa, a sua relação

com a cidade, para um profissional trabalhar,

por exemplo, em São Vicente Ferrer com

poucas condições de infraestrutura na área.

AM | A formação dos médicos é defi-

ciente?

EE | Veja bem, a Faculdade de Medicina ensina

o indivíduo a aprender. Hoje para completar

a formação são necessários 11 anos de estudo

e prática – seis na faculdade, dois na residência

médica e três anos de especialização. É uma formação

complexa. O funil hoje não é o vestibular

de Medicina, mas a Residência: são quatro mil

vagas para 10 mil médicos que se formam por

ano no Brasil.

AM | O Brasil tem suficientes Faculdades

de Medicina?

EE | Demais até. São Paulo tem um médico

para 500 habitantes, quando o ideal, segundo

a Organização Mundial de Saúde, OMS, é em

torno de um médico para mil habitantes. Pernambuco

é um dos Estados que mais segurou

a criação de novos cursos. Teve durante muito

tempo duas faculdades de Medicina e agora

chegou uma terceira. Já o Amapá tem quatro

faculdades, vai ver que duas são do (senador)

Sarney. São faculdades sem condições de formar

médicos e que não contam sequer com um

hospital. Uma faculdade de Medicina não é uma

Escola Superior de Direito, onde o cara estuda no

livro. Ela tem que ter a prática e para isso precisa

de um hospital. Dr. Adib Jatene, que comanda

hoje o Conselho Nacional de Residência Médica,

tem brigado muito contra isso e vai fechar muita

faculdade por aí.

AM | Então a maior queixa não é pela

falta de médicos, mas pela centralização

deles em determinada região?

EE | Certamente. Há uma revoada para os

grandes centros. Em São Paulo não cabe mais.

Todo ano vão centenas de médicos nordestinos

e nortistas fazerem a Residência em São Paulo.

O Estado que gastou na formação dos profissionais

vai vê-los trabalhando para outro Estado.

AM | Os formandos das faculdades públicas

não deviam ter compromisso com

o estado que possibilitou sua formação?

EE | É o caminho certo. Não há outra saída.

Deveriam dar pelo menos dois anos de serviço

generalista no Interior. E essa opção está se definindo.

AM | Recife é hoje um centro médico de

excelência. E como era antes?

EE | Quando saí do Recife existiam duas faculdades

– a Ciências Médicas e a Federal. u uu

dezembro >

> 11


Entrevista

Mas tinham grande médicos, como Luís Tavares.

que trouxe muita tecnologia para cá. Mas

não tinham pessoas, por exemplo, formadas

para cirurgias cardíacas. Era uma coisa muito

nova. As cirurgias de ponte de safena completaram

50 anos agora. Eu estou em São Paulo há

35 anos. Embora hoje o Recife tenha uma estrutura

muito boa, não dá mais para voltar. Tenho

outras atividades extracurriculares. Sou diretor

da Sociedade Brasileira de Cardiologia e muita

coisa me prende em São Paulo.

AM | Para o jovem médico o Recife é

bom centro formador?

EE | Sem dúvida. Ele pode tranquilamente

escolher o Recife para praticar sua atividade.

Ir para São Paulo só para estágios específicos,

assim como se vai para Inglaterra ou Estados

Unidos. E não, como já foi no passado, o único

centro avançado para exercer a profissão.

AM | Mas sua experiência paulista foi

bem positiva?

EE | De fato. Conheci no Hospital do Coração

minha mulher, que é pernambucana e médica.

Foi uma adaptação bem mais fácil porque tive

logo o reconhecimento profissional e a sobrevivência

garantida pelo emprego no hospital.

O médico que tem que lutar pela sobrevivência

tem mais dificuldades que podem prejudicar

seu desempenho. Por outro lado, para suprir a

carência afetiva ou saudade da nossa terra criamos

há mais de 20 anos a Confraria Maurício de

Nassau, que congrega pernambucanos.

AM | Têm muitos pernambucanos como

você na Confraria Maurício de Nassau

de São Paulo?

EE | Têm muitos médicos. E já houve mais. Alguns

estão voltando. Quando o Banorte existia

tinha mais gente de vários setores profissionais

que participava da confraria. Depois que foi

vendido ficou um grupo grande de médicos. Aí

demos uma diminuída porque tinha virado um

congresso. Não era mais uma confraria.

AM | O que é a confraria?

EE | É um ponto de encontro para conversas,

discussões sobre a cultura pernambucana,

apresentações de artistas, com jantares mensais,

onde se é possível saber o que a nossa

gente está fazendo em São Paulo. Fazemos

festa de Carnaval, São João, mantemos nossas

12 > > dezembro

tradições e hábitos. Temos até um boneco de

Maurício de Nassau feito pelo bonequeiro de

Olinda Sílvio Botelho. Nas comemorações dos

350 anos da vinda de Nassau ao Recife quiseram

trazê-lo, mas ninguém queria se responsabilizar

por ele. Não deixei.

AM | Quer dizer que o pernambucano se

mantém igual fora de casa?

EE | Não perde nem o sotaque. Eu cheguei

em 74 e aonde chego o cabra sabe de onde

sou pelo sotaque. Ser de Pernambuco sempre

foi um estimulo para nós. Cobram de você uma

posição mais ética. E assim deve ser: você traz o

Estado, tem uma obrigação. É uma coisa muito

interessante.

Alexandre Albuquerque

“Quatro remédios

salvam vidas hoje e

mudaram a história

da mortalidade na

área cardíaca”

AM | Os pernambucanos lhe procuram

muito em São Paulo?

EE | Tenho grandes amigos. Cada paciente termina

um amigo. Tem dias que atendo até seis,

sete pernambucanos. Cuido do coração e dou

referências de outras especialidades. Inclusive

para a parte social do Hospital do Coração que

atende os carentes de qualquer parte do País.

AM | Como está o coração do brasileiro?

EE | O coração do brasileiro se compara aos

corações do Primeiro Mundo ocidental. A quantidade

de mortes aqui é igual a dos Estados

Unidos. Perdemos 350 mil, 400 mil pacientes

por ano por doenças cardíacas. Na fase mais

produtiva e na meia idade. Por isso que se gasta

tanto em Cardiologia porque pega o indivíduo

na fase ascendente. Uma das causas que mais

contribuem é o estresse. O que reduz o estresse

é o que estou fazendo em Pernambuco, recarregando

as baterias, revendo os amigos, como a

confraria faz.

AM | O fim do sedentarismo e mais exercícios

ajudam também?

EE | Do ponto de vista médico são corretos.

Em Timbaúba a gente comia fígado, sarapatel,

mas andava muito. Meu avô andava seis quilômetros

para fazer qualquer coisa. As pessoas

se exercitavam muito. Hoje não se mexe nem

na alavanca para baixar o vidro do carro. É tudo

botão, controle remoto. As pessoas estão cada

vez mais sedentárias. A comida é fast food, pizza,

hábitos alimentares errados.

AM | Hoje as cirurgias cardíacas não

preocupam?

EE | Atualmente a mortalidade em cirurgia cardíaca

é menos de um por cento. É uma rotina

com poucos acidentes porque temos um check

list. O cirurgião já sabe o que vai fazer com toda

segurança. O stent, uma molinha que é colocada

por um cateter dentro da coronária, esmaga a

placa de gordura como se fosse um minúsculo

bob de cabelo. A grande noticia é que hoje o

stent é usado em 70% dos pacientes que eu

abriria seu peito há 20 anos. Além do mais, a

parte clinica melhorou muito. Quatro remédios

que salvam vidas hoje: a Estatina contra o colesterol,

a Aspirina, que afina o sangue, os inibidores

de enzimas que protegem as artérias, e o beta

bloqueador. Eles mudaram a história da mortalidade

nessa área. Hoje, com remédio, o fim do

cigarro, exercícios regulares, boa comida e bons

relacionamentos, a história de um possível futuro

enfartado é outra.

AM | Qual o conselho que o senhor daria

para um jovem estudante de Medicina?

EE | Essa é uma profissão de sacrifício. É uma maneira

de ajudar o próximo. Caso não pense assim,

está na profissão errada. Vá ser comerciante, qualquer

coisa. Por aí se diz que não tem médico pobre.

É uma verdade desde que não seja preguiçoso.

Porque, embora existam 300 mil médicos, há um

mercado que necessita de profissionais. Alguns

hoje cumprem uma tripla jornada de trabalho. Há

espaço para os novos. Sinto muito orgulho de ser

médico. Vivo o sonho que sonhei, ajudando as

pessoas. Ser médico é ter que trabalhar e estudar

muito. E também se inteirar com o que existe em

volta, melhorar como ser humano para ser mais

útil a si próprio e aos pacientes. Aconselho sempre

que se mirem nos seus professores. n


dezembro >

>

13


Tá explicado

14 > > dezembro

Pano rápido

Sala de cirurgia do Hospital Português.

Na época, o equipamento que

acionava o bisturi elétrico era uma geringonça

enorme, instalada bem no

meio da sala. Dr. Aluízio Freire acionou

o bisturi. A geringonça pegou fogo. Dr.

Aluízio saiu às pressas da sala. Enquanto

tentava desesperadamente tirar o extintor

da parede, uma freirinha portuguesa

esclarecia:

— Dotoire, não sai. Mandei chumbálo

pros ladrões não levá-lo.

Que tão, tão

Tonho e Bia se casaram em São

José do Belmonte e no mesmo dia pegaram

o pau-de-arara pra São Paulo.

No terceiro dia de viagem, noite fria e

escura quiném breu, o motorista do caminhão

parou na beira da estrada pro

pessoal descansar. Lá pras tantas, estavam

todos (ou quase todos) dormindo.

Bia cochicha pro marido: “Tonho,

tas neu?” “Eu nãão!”

— Então, tão.

Fuga

Aluízio Falcão, Antônio Carvalho e

Orlando Boldrin saíram do Bar Jogral,

na Rua Avanhadava, centro de São

Paulo, o dia já amanhecido. Quando

estavam passando pelo Cemitério da

Consolação, avistaram duas velhinhas,

mas muito velhinhas mesmo, saindo

do cemitério. Carvalho mandou Boldrin

parar o carro. E dirigiu-se às velhinhas:

— Onde vocês pensam que vão? Já

de volta pra dentro!

Bons tempos

Seu Tito, tio de Everardo Maciel, era comerciante

em Pesqueira. Naquele tempo, as

compras da Prefeitura eram feitas na base

de bilhetes assinados pelo prefeito: “Favor

enviar tantas grosas de lápis, tantas resmas

de papel, tanto disso, tanto daquilo.” Era comum

Seu Tito reduzir os pedidos pela metade.

E mandar recados pelo portador:

— Diga ao prefeito que a semana passada

eu despachei o mesmo tanto. A Prefeitura

tá gastando demais.

Saiu Charles, entrou Waldemar.

Carlos e Carlitos

A Prefeitura do Recife desapropriou e

reformou o Cine-Teatro do Parque, na Rua

do Hospício. Na reinauguração, a peça Um

sábado em 30, de Luiz Marinho, dirigida por

Waldemar de Oliveira. Quadrinha do poeta

Carlos Pena Filho:

Desapropriaram o Parque,

Nunca vi tanta besteira,

Substituir Carlitos

Por Waldemar de Oliveira

Lado bom

Joca Souza Leão

jocasouzaleao@gmail.com

Nascimento Brito, presidente do Jornal

do Brasil, teve um derrame cerebral e

ficou com o lado esquerdo paralisado. O

cronista Oto Lara Resende foi visitá-lo no

hospital. Quando voltou à redação do JB,

comentou com os colegas:

— O Nascimento tem um lado bom.

Memórias

O poeta Ascenso Ferreira, modesto

funcionário público, se virava pra ganhar

uns trocados. Vendia aos usineiros sacos de

aniagem para embalar açúcar. E era quem

vendia mais caro. Um concorrente quis saber

qual era a mágica. Ascenso não se fez

de rogado:

— Digo que tô escrevendo um livro

de memórias e que vou contar tudo que

sei dos amigos e inimigos. Nunca pediram

desconto.

Compensação

O bar e lanchonete Pic-nic, no oitão do

Diário de Pernambuco, era frequentado por

jornalistas e intelectuais. O dono, um português

boa praça, enchia as paredes com cartazes,

anunciando as novidades da casa.

“Temos vinho gelado”. O escritor Renato

Carneiro Campos caprichou na caligrafia:

— Em compensação, a cerveja é quente.

Conselho

O senador Vitorino Freire, raposa do

velho PSD maranhense, encontra com o

jovem deputado federal Ney Maranhão,

do PTB pernambucano, nos corredores

do Senado no Rio de Janeiro, a capital

da república de então.

— Ney, meu filho, quando a pessoa é

boa, Deus leva; quando não é, a gente ajuda.

As histórias aqui contadas têm compromisso com os contadores de história que as contaram. E não, necessariamente, com a História.


dezembro >

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dezembro


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18 > > dezembro

De Olho

Som alto

Está chegando ao fim o desaforo dos

promotores de eventos com trios elétricos e

altos decibeis. Nunca mais! Poderão bradar

os moradores da orla e das proximidades do

mar de Boa Viagem – ou de qualquer lugar

de Pernambuco -, infernizados com paradas

gays, caminhadas evangélicas e shows móveis

de bandas de forró. O Ministério Público

de Pernambuco produziu uma cartilha para

o cidadão se defender da poluição sonora. A

publicação explica como deve agir a vítima,

detalhando seu comportamento diante do

infrator e da polícia. A cartilha também enumera

o aparato legal para garantir o bem estar

das pessoas. Anexo à cartilha “Poluição

Sonora” vem o CD ROM com modelos de

ações judiciais.

Destruição

O pesquisador e professor Roberto

Benjamim esteve nas terras da antiga Usina

Jaboatão e notou que a Prefeitura demoliu

as instalações industriais e se prepara para

construir um conjunto habitacional. A antiga

Casa Grande, datada de 1790, antiga sede

do Engenho Suassuna, foi saqueada e está

em ruínas. Foi lá que se reuniram os conspiradores

para dar partida em 1801 a chamada

Revolução dos Suassunas. O movimento

inscreve-se entre os inspiradores da Revolução

Pernambucana de 1817, um dos mais

importantes eventos históricos do Estado.

Literatura

Na conversa paralela à entrevista com

o cardiologista Enilto do Egito, destaque

desta edição da Algomais, falou-se na

importância do médico conhecer obras

literárias que tratam de questões humanistas.

Na Universidade Federal de São

Paulo, profissionais da saúde se reúnem

para discutir obras da literatura universal.

Pegam emprestado sentimentos de Dom

Quixote, Brás Cubas, Macbeth para humanizar

o atendimento. O laboratório de humanidades

da Unifesp já foi reconhecido

como disciplina da pós-graduação.

Sem resposta

Está adormecido numa gaveta do Palácio

do Campo das Princesas o levantamento

que o deputado Pedro Eurico fez sobre a situação

das antigas igrejas do Estado. Estão

caindo aos pedaços sem atenção do poder

público. Eurico, que é da Oposição, entregou

o documento nas mãos do governador Eduardo

Campos.

Nem melhor, nem pior

A retirada das placas comerciais do Recife,

por decisão do prefeito João da Costa,

não melhorou nem piorou o visual da cidade.

Lonas de plástico negras cobrem boa parte

das fachadas de lojas e escritórios de Boa

Viagem. Em alguns casos, existem até denúncias

de arbitrariedades dos fiscais da

Prefeitura. Poucos deles entendem o que

estão fazendo.

Fim de ano

Os comerciantes varejistas do Recife estão

otimistas com o Natal. O presidente da

Câmara de Dirigentes Lojistas, CDL-Recife, Sílvio

Vasconcelos, acredita no crescimento das

vendas em torno de 20%, em relação a 2008,

quando se viveu o Natal da crise mundial. Mas

o momento não é de paz: os comerciantes

estão envolvidos numa disputa braba com as

operadoras de cartão de crédito e com as autoridades

econômicas. Querem dois preços para

os produtos – à vista e no cartão. O dinheiro

de plástico leva 5% de cada operação mais o

custo do aluguel da máquina de registro dos

cartões, que é monopólio de cada operadora.

Vasconcelos garante que com os dois preços

pode repassar a vantagem para o cliente.

Resíduos, bom negócio

O presidente da Federação das Indústrias

de Pernambuco, Fiepe, Jorge Côrte Real, lançou

a Bolsa de Resíduos. O serviço permite que

empresas do Estado comercializem resíduos

industriais pela Internet, aumentando a competividade

dos negócios e contribuindo para a

preservação do meio ambiente.

Antônio Magalhães

ajamagalhaes@yahoo.com.br

Apagão

Em tempos de apagão, o Nordeste

oferece vantagens competitivas para

investimentos em energia elétrica, via

Sudene e Banco do Nordeste. O Fundo

Constitucional, FNE, diz o consultor

Ricardo Di Cavalcanti, oferece recursos

com prazo de carência de 8 anos e

amortização em até 20 anos, com encargo

médio ao ano de 7,6%. Alguns municípios

nordestinos estão correndo atrás

das pequenas geradoras de energia com

benefícios e incentivos interessantes.

Abusado

A saída intempestiva do governo Eduardo

Campos revelou o ex-prefeito João

Paulo como um político audacioso. Não

se sabe o benefício nas urnas pelo gesto.

Mas o fato é que se mostrou abusado. Na

entrevista à Algomais, em julho de 2008,

João Paulo já alertava: “Um político tem

que estar preparado para as exigências do

partido. E pode ser com ou sem mandato.

Conversei com o presidente Lula e ele deseja

que eu dispute o Senado. Mas como

a conjuntura política pode mudar de um

dia para o outro, então poderia disputar

o Senado se a eleição fosse hoje. Daqui

para frente não dá para saber como estará

a conjuntura política, econômica e social.

Portanto, é importante ter paciência,

prudência e saber qual o próximo passo a

ser dado. Não se pode errar em política”.

Despedida

Nas 45 edições mensais de Algomais

pude revelar ao leitor um pouco de

Pernambuco e sua gente. Creio que as

informações e entrevistas foram do gosto

do público. Tive muita satisfação em

desenvolver esse trabalho. Mas agora

é chegada a hora de ir em frente. Hora

também de agradecer aos que estiveram

comigo desde os primeiros dias da revista

e desejar boa sorte aos que virão. Ao

leitor, um grande abraço.


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dezembro >

> 19

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Pensando bem

Prisão temporária veio no Governo

A Sarney. Um atentado ao estado

democrático de direito e sua harmonia

com a matéria penal. Na ditadura,

tentaram transformar em lei a prisão

cautelar. Queriam dar suporte jurídico

ao pecado repetido no cotidiano.

Quantas vezes ouvi de autoridades,

após o sorriso maroto: “Seu cliente

não está preso, apenas detido”. Ficar

sem roupa, algemado e recolhido atrás

das grades parecia ser um detalhe

irrelevante.

Comum a liberação acontecer

antes do Alvará Judicial chegar na

Polícia. O abre alas acontecia no

Pedido de informações do habeas

corpus. E ficava por isso mesmo.

Excepcionalmente, quando a mentira

era fácil de apontar, o juiz condenava

o delegado a pagar as custas

processuais.

A ditadura acabou com Tancredo Neves, em 1985. Tancredo

adoeceu, morreu, todo mundo chorou, o Brasil parou, menos

Sarney, que virou presidente. O pernambucano Fernando Lyra

montou um time de campeões: Cristovam Buarque, Zé Paulinho

Cavalcanti, Joaquim Falcão, no Ministério da Justiça estiveram

no ataque. Lyra resistiu o quanto pode. Oscar Dias Correia e o

consultor geral da República, Saulo Ramos, chegaram depois.

Dizem que a ideia da temporária fora de Saulo. Todo dia a gente

vê gente ser presa. Prisão dá o maior Ibope. E o assunto morre,

sem continuidade da matéria jornalística. É um entra e sai danado.

O processo de Maluf prescreveu depois que ele foi preso.

A temporária permite a prisão do suspeito quando ainda é

mero suspeito. Depois que vira réu e é condenado, o “coitadinho”

recebe prêmios. Um condenado a 30 anos sai do alto muro com

um sexto da pena ou dois quintos, se o crime for hediondo. Trinta

é a pena máxima e, só quem é gente muito “boa”, chega nesse

patamar. Pior ainda é a saída do fim de semana. Grande parte só

volta quando é preso de novo, por outro crime. Tem detento que

sai, faz, volta antes de voltar e ainda cria o álibi – “tava preso”.

O indulto natalino é outra ignomínia sem par. A Carta Magna

Inglesa, em 1215, consagrou o devido processo legal. Depois

20 > > dezembro

Gilberto Marques

advgilbertomarques@hotmail.com

A privacidade da cadeia

e o indulto natalino

de muita luta e da instituição da

ONU, o due process of law venceu.

A Monarquia dava, ao chefe do

Executivo, prerrogativas e poderes

que a história conta. O imperador e o

rei faziam jurisprudência.

No episódio do rei Salomão a mãe

verdadeira cedeu – e pariu a Decisão

Salomônica. Sabia que o poder do rei

era tanto que ele, de fato, cortaria

ao meio, o filho disputado. Ou seja,

Salomão até aí tinha má fama.

Não tem lógica o presidente da

República virar Papai Noel de bandido,

só porque é presidente. É resquício,

puro, da monarquia absolutista. O

réu é culpado quando não houver

mais recurso, após a condenação

tornar-se definitiva. Todo mundo que

cumpre pena, portanto, é culpado aos

olhos da Justiça e da Lei Maior. Aí

vem o Natal e o presidente aplica o

genérico. Escancara as portas da cadeia. O presente do criminoso

é o infortúnio do cidadão. E tudo corre por fora do devido processo

legal. A questão é financeira e orçamentária.

Agora, surgiu essa idéia psicodélica: privatizar o presídio. A

empresa privada difere, na origem, da pública. A máquina estatal

é lenta, viciada, enferrujada e cara. Sem falar na população

funcional gigantesca – e o quadro é efetivo! No mundo todo, a

telefonia era privatizada, aqui não. Serjão Motta, o ministro de

FHC, modernizou o sistema e entregou o invento de Graham Bell

à turma da privada. O Brasil é mesmo especial: o maior número

de reclamações do consumidor na Justiça e fora dela, envolve as

empresas de telefonia.

Nos EUA, presídio privado foi uma experiência que não vingou.

A quantidade de empresas desse jaez, no planeta, é diminuta.

Imaginem isso aqui. Diz-se que cada preso vai custar, de cara,

R$ 2.000,00 (dois mil reais). O salário mínimo de Lula passou dos

cem dólares, mas ainda é R$ 465,00. A maioria dos presos jamais

ganhou um salário, mas custará quatro. Isso não vai dar certo. O

criminoso lucra com o crime. O dono do cadeado vai ganhar do

criminoso. O lucro faz parte do negócio e o conceito é jurídico.

Feliz Natal!

*Gilberto Marques é advogado


dezembro >

>

21


22 > > dezembro

João Alberto

Boa ideia

Foi aprovado pela Comissão de Direitos

Humanos do Senado, projeto de lei tornando

obrigatória a instalação em cinemas, teatros,

ginásios, campos de futebol, salas de

aula e até salas de espera, de cadeiras

especiais para pessoas obesas ou portadora

de deficiências. Esqueceram das poltronas

dos ônibus e dos aviões, estas cada vez

menores até para os que têm peso normal.

Cinquentenário

sem brilho

No dia 15 de dezembro transcorre o

cinquentenário da criação da Sudene. Até

agora não se sabe de nenhum evento

programado. O que, aliás, se justifica,

pela total falta de brilho da nova fase da

autarquia, que não consegue nem mesmo

espaço na mídia. Qualquer pesquisa

mostraria que a maioria da população não

sabe que ela foi ressuscitada.

Dose dupla

A TAM já conseguiu autorização

para voar uma vez por semana para

Fernando de Noronha. Espera apenas

a liberação do aeroporto da ilha para

voos noturnos para solicitar uma

segunda ligação, às quartas-feiras.

A empresa ainda não definiu a tarifa

que vai cobrar, mas certamente será

menor do que as absurdas cobradas

atualmente pela Varig e Trip.

Lulu Pinheiro

n Gabriela Zonari e Ana Helena Pinheiro

Dose dupla

Duas jovens e talentosas

fotografas, de grande

atuação especialmente

no segmento dos grandes

eventos sociais da nossa

cidade, resolveram se

unir. Gabriela Zonari

agora é sócia de Ana

Helena Pinheiro na

Agência Portrait e estão

pensando grandes projetos

para o próximo ano.

Sem carona

Alguns deputados andam

lamentando a saída de

José Múcio Monteiro do

ministério. É que ele tinha

direito a um jatinho, para

vir ao Recife nos fins de

semana e tanto na ida

quanto na volta a Brasília

costumava dar carona

a alguns parlamentares.

Democraticamente,

levava parlamentares da

situação e da oposição.

Apoio ao Galo

Eduardo Campos teve uma longa conversa com Rômulo Menezes, presidente do Galo da

Madrugada, sobre o apoio a algumas iniciativas daquele bloco carnavalesco. A começar da

ida da agremiação para mostrar nosso frevo a várias cidades do Estado e o programa de

responsabilidade social que o Galo realiza com as comunidades dos bairros de São José,

Coque. Ilha Joana Bezerra, Coelhos e Pilar.


Luka Santos

n Karla Paes e João Barbosa

O QUE SE COMENTA....

QUE o réveillon da Arcádia do Paço

Alfândega, depois de uma ausência de

dois anos, voltará a ser o mais badalado do

Recife. u QUE Helena Brennand espera

apenas o sinal do pai, Sérgio Guerra, para

começar sua campanha para deputada

federal. u QUE a turma do CQC está

faturando altíssimo com seus shows de

humor pelo país inteiro. u QUE a volta

da boate Over Point está cada vez mais

difícil, depois que os entendimentos com

o Conselheiro não evoluíram. u QUE o

Shopping Recife pretende incrementar a

venda do seu cartão fidelidade, que evita

filas para o pagamento do estacionamento.

joaoalberto@revistaalgomais.com.br

Brilho do Delta

Há quatro anos, o empresário

português João Barbosa deixou

uma concessionária Fiat que

tinha em Aveiro, em Portugal e

veio para o Recife. Em sociedade

com Eduardo Gusmão, criou a

Eurobrasil, para representar no

Brasil o Delta Café, Hoje, com lojas

nos shoppings e no Recife Antigo

e presente em 118 restaurantes,

bares e hotéis do Recife, onde

servirá três milhões de xícaras

este ano, amplia a atuação. Acaba

de lançar a Delta Q, máquina

doméstica de café expresso

e planeja para

2010 chegar a

São Paulo, Rio de

Janeiro, Brasília

e Salvador,

além de Porto

de Galinhas.

Casou-se com

a pernambucana

Karla Paes,

que é a diretora

de marketing

do grupo.

dezembro >

> 23


Divulgação

n Laurentino Gomes

Leitura eletrônica

Gleyson Ramos

24 > > dezembro

João Alberto

Pesquisas

no Recife

Laurentino Gomes, o maior

vendedor de livros do país

neste ano, com seu 1808,

tem vindo constantemente

ao Recife, dentro do seu

programa de pesquisas para

o próximo livro, 1822, que

lançará em setembro do

próximo ano. Conversando

comigo na Fliporto, ele revelou que o tema será a

Independência do Brasil, que ao contrário do que muitos

pensam não foi feita sem a morte de muitos brasileiros.

Obra vai desde a volta da corte portuguesa para Lisboa até

a morte de Dom Pedro I, em Portugal, três anos depois de

abdicar do trono brasileiro.

Antônio Campos está investindo

forte, através da sua Carpe

Diem , em parceria com a

Mix Tecnologia, no Mix Leitor

D, primeiro leitor eletrônico

de livros com tecnologia de

software inteiramente nacional,

um projeto que envolve uma

equipe multidisciplinar de

consultores técnicos, financeiro,

jurídico, jornalistas e editores.

n Antônio Campos

O protótipo foi apresentado na

Fliporto e ele mantém contato com a poderosa Positivo para o

lançamento comercial no próximo ano.

joaoalberto@revistaalgomais.com.br


dezembro >

>

25


Política

Acertando

os ponteiros

ELEIÇÕES 2010 | Calendário apertado promete definir o futuro da política em

Pernambuco ainda no primeiro semestre. Internet será grande arma dos partidos

2009

chega ao fim fervendo. O que

parecia ser o maior trunfo do

governador Eduardo Campos junto à oposição, a

unidade em sua base partidária, demonstra sinais

claros de fraqueza. A entrega do cargo de secretário

por parte do ex-prefeito João Paulo (PT) e

o acirramento da briga no partido do presidente

Lula após as eleições internas no fim de novembro

são apenas o início da acirrada disputa que

movimentará a política pernambucana durante

todo o próximo ano. A corrida começa cedo para

n Espelhados na campanha 2.0 de Obama partidos prometem utilizar todo o potencial das ferramentas da web

26 > > dezembro

os partidos e Justiça Eleitoral. Os ponteiros serão

acertados logo nos primeiros meses do ano,

definindo o que se verá ao longo do segundo semestre.

Muito do jogo político será definido até

julho, com as convenções, o limite dos prazos

para candidatos deixarem cargos públicos e o

fechamento das chapinhas e chapões.

Em de 1º de janeiro será dada a largada

oficial das eleições com a liberação das pesquisas

para intenção de voto. A partir daí o

calendário só tende a acelerar. As principais

decisões, como adiantado por Algomais, devem

ficar mesmo para quando existirem dados

mais concretos sobre o cenário eleitoral. “Jarbas

só parte para a disputa com números favoráveis”,

lembra o cientista político da Fundação

Joaquim Nabuco Túlio Velho Barreto.

Após o encerramento do prazo para a

filiação partidária, no último mês de outubro,

o próximo passo é o afastamento dos

pré-candidatos do serviço público, como os

secretários Humberto Costa (PT) e Fernan-


do Bezerra Coelho (PSB), independente do

cargo que forem disputar. Segundo a legislação,

os políticos devem deixar seus cargos

até seis meses antes do pleito.

Entre 10 e 30 de junho devem acontecer

as convenções partidárias que definirão de

uma vez por todas o futuro dos arranjos políticos,

que devem ser registrados no dia 5 de

julho junto à Justiça Eleitoral. A partir desse

ano os partidos são obrigados a destinar 30%

de suas vagas para mulheres e 5% dos recursos

do Fundo Partidário para a capacitação de

representantes do sexo feminino.

Já o período de propaganda promete ser,

mais uma vez, a maior preocupação por parte

do judiciário nacional. Em tese, só será permitida

a partir de 6 de julho, com restrições quanto ao

uso de outdoors e propaganda de rua – ainda

mais após o processo de limpeza visual da cidade

do Recife – na televisão e no rádio o horário

eleitoral gratuito inicia no dia 17 de agosto só

terminando em 30 de setembro, poucos dias

antes do primeiro turno no dia 3 de outubro.

Nem bem começou o ano e os processos

já aparecem no TRE/PE. “Já tivemos um pedido

do PR para retirar uma publicidade do senador

Jarbas Vasconcelos (PMDB), mas que não foi

aceito. O TSE só considera propaganda fora de

época se disser o cargo e pedir voto. O que

se tem visto pela cidade não é esse tipo de

campanha”, explica o assessor chefe da Corregedoria

do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco,

Orson Lemos.

UM ANO CHEIO DE NOVIDADES

Pernambuco terá pela primeira vez uma

votação por urna biométrica. Quatro municípios

do Estado servirão como piloto para o teste do

novo sistema que prevê o uso da impressão

digital na hora do voto. Segundo explica Orson

Lemos Itapissuma, Itamaracá, Rio Formoso e

Tamandaré foram escolhidos por terem um número

reduzido de eleitores (15 a 17 mil cada),

serem próximas da capital e contarem com uma

parcela significativa de trabalhadores com dificuldade

para colher digitais, atestando a eficiência

das novas urnas. “Muitos trabalham com as

mãos e acabam desgastando a pele, tornando

mais difícil a identificação. Assim, se der certo

com esses eleitores, dará para todos”.

Nas eleições de 2008 o processo foi testado

nos municípios de Fátima do Sul e São João

Batista (SC), além de Colorado do Oeste (RO).

Ao todo, 48 mil eleitores votaram por biometria,

com um índice de 1,8% de erro. “Esses

números são extremamente positivos para

Alexandre Albuquerque

n Orson Lemos: urna biométrica será a grande novidade para o pleito

qualquer lugar do mundo”, comemora Lemos.

Aqueles que falharem no reconhecimento da

impressão digital podem votar com o uso de

um documento com foto.

Outra novidade que pode aparecer para o

eleitor é a tela-resumo, na qual constará todos

os dados da votação. Ou seja, após os votos

para cada cargo será preciso confirmar o conjunto,

caso contrário o votante terá de repetir todos

os passos. “Ainda está sendo analisado pelo

Tribunal Superior Eleitoral, mas, se confirmado,

poderá aumentar o tempo da votação, podendo

até criar filas”, alerta o corregedor.

Com a aprovação da minireforma eleitoral

sancionada pelo presidente Lula em setembro

algumas mudanças serão sentidas a partir dessas

eleições. Dentre elas, a liberação do uso da

internet para campanha é a que promete trazer

as maiores consequências.

O uso de blogs, Orkut, Facebook, Twitter,

site, mensagens instantâneas está liberado,

desde que o autor se identifique e o direito de

resposta seja permitido. A doação eleitoral, símbolo

da Campanha 2.0 de Obama, é permitida

através de cartões de débito e crédito, boleto

bancário e até cobrança na conta de telefone.

Paulo Moura, da Exata Consulting, vencedor

do Reed Awards, considerado o Oscar do

marketing político, vai além. Para ele, essas

eleições deverão ir além do que se viu nos Estados

Unidos. “Já temos condições de realizar

uma Campanha 3.0, com integração total entre

as mídias sociais e demais ferramentas online”.

Mas alerta “É preciso entender o modelo americano

e desenvolver soluções locais. Quem copiar

vai adotar uma estratégia errada”.

Quem não perdeu tempo foi o grupo de

apoio da ministra Dilma Hussef, que tratou logo

de contratar o responsável pelo departamento

técnico das eleições de Obama, Ben Self. Resta

apenas resolver um impasse, já que o marqueteiro

não quer assinar contrato de exclusividade

com o PT, fato que não agrada a cúpula petista.

“Ele é um nome muito bom, mas é importante

frisar que não é o cérebro por detrás da belíssima

campanha do democrata americano, diferentemente

do que vem circulando na imprensa”,

alerta Moura. n

dezembro >

> 27


Política

De João pra João,

um elefantão

POLÊMICA | Previsão da PCR era de que o Parque Dona Lindu seria concluído em

dezembro. Com o prazo estendido novamente, a oposição ganha fôlego para criticar

Iniciado pelo prefeito João Paulo, no ano passado,

o Parque Dona Lindu virou um elefante

sentado no colo de seu sucessor, João da Costa.

O primeiro João enfrentou ações judiciais

em série, que atrasaram as obras da edificação,

mas conseguiu inaugurar parte da construção

no apagar das luzes de seu mandato, tendo

como convidado de honra o presidente Lula. O

segundo João enfrenta os dissabores da pressa

do João I, as dificuldades burocráticas e, mesmo

tendo prometido que a obra seria concluída

neste mês de dezembro, não vai conseguir. Por

isso, a PCR já admitiu publicamente que o término

das obras só ocorrerá em 2010.

Os percalços enfrentados pelos Joões

para concluir o projeto suscitam críticas da

oposição e, naturalmente, desgaste político.

Principal voz da Câmara Municipal contra a

construção do Parque Dona Lindu, a vereadora

Priscila Krause diz que João da Costa é “useiro

e vezeiro” em prometer e não cumprir. “Foi

assim com a Rua Capitão Temudo e com a Via

Mangue. Também está sendo com o parque

que foi feito de uma forma que a população

não queria”, atira Priscila.

O secretário de Planejamento da PCR, Amir

Schwartz, afirmou em entrevistas aos jornais

locais que não existe possibilidade de o parque

ser concluído em dezembro, como havia prometido

João da Costa em julho passado. Schwartz

informou que no final do ano apenas a parte civil

da construção será concluída.

O atraso abre a guarda da prefeitura para

as críticas da oposição. Segundo Priscila Krause,

a PCR vai incluir mais aditivo de verba no

projeto. “A obra já está em R$ 31 milhões, R$

29 milhões da construção e R$ 2 milhões com

28 > > dezembro

o projeto. Não é justo o povo do Recife arcar

com mais este valor”, critica. Ela diz ainda que

vai fazer um pedido de informações à PCR sobre

esse aditivo e que, de posse das explicações,

vai encaminhá-las ao Ministério Público e ao

Tribunal de Contas do Estado. “Aquele parque

é um elefante branco, mas já que eles começaram

então que terminem.”

Schwatz garante, porém, que o contrato

aditivo que será feito para atualizar o equipamento

do teatro não elevará os custos. A obra é

executada pela construtora Concrepoxi/Triunfo.

E o projeto é do arquiteto Oscar Niemayer.

No pique da construção, no ano passado,

cerca de 300 trabalhadores estavam envolvidos.

Atualmente, o número varia entre 150 e 200.

As principais queixas da população em

relação ao Parque Dona Lindu são a falta de

espaço para as crianças brincarem. “No final

da tarde, quando viemos aqui para passear

os brinquedos são poucos para o número de

crianças que frequenta o local. A prefeitura não

teve sensibilidade para entender que isso aqui

era para ter uma área verde maior, e não esses

dois prédios”, explica o comerciante Sebastião

Pereira. n


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nº 760819308 em 08/01/2008. Memorial de incorporação prenotado no 1º RGI sob o nº 311.645. Sea Park: projeto aprovado pela PCR sob o nº 760821308 em 11/02/2008. Memorial de incorporação prenotado no 1º RGI sob o nº 313.778.

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Política

Entre a cruz

e a espada

PPP |Construção de presídio através de Parceria Público-Privada sinaliza melhora

no sistema carcerário em Pernambuco, mas enfrenta críticas sobre custos e legalidade

Por Ivo Dantas

Unidades superlotadas, estrutura precária,

baixo índice de ressocialização,

lentidão nos julgamentos. O cenário é típico

de qualquer sistema penitenciário no Brasil.

A equação é simples. Falta de investimentos

ao longo das últimas décadas, somada ao

aumento da criminalidade, acabaram por sobrecarregar

as cadeias públicas país afora.

Para se ter uma ideia da ineficiência do

sistema brasileiro basta dar uma olhada nos

dados liberados pelo Conselho Nacional de

Justiça (CNJ), que realizou em setembro um

mutirão para atualizar a situação dos processos

criminais. Dos 40 mil analisados, 7,4 mil

estavam encarcerados de forma indevida.

Foram libertados mais de 4,9 mil presos pro-

Alexandre Albuquerque

30 > > dezembro

visórios, que ainda não foram julgados, e 2,5

mil com a pena cumprida em sua totalidade.

Só em Pernambuco foram quase 500 alvarás

de soltura dentro de um sistema carcerário

de 14 estabelecimentos superlotados,

alguns com mais de mil pessoas detidas.

Somente no Aníbal Bruno, segundo maior

em quantidade de presos no Brasil, são

aproximadamente 3.600 detentos, quando a

capacidade é de apenas 1.148.

A promessa de mudar esse cenário surgiu

a partir das Câmaras Técnicas, criadas

como parte do Pacto pela Vida. “Durante as

reuniões foram identificados diversos pontos

a serem melhorados dentro da segurança

pública e um deles foi o sistema penitenciário.

Além da superlotação nas cadeias, boa

parte está localizada na Região Metropoli-

tana do Recife”, diz o líder do Governo na

Assembléia Legislativa, Isaltino Nascimento

(PT).

Próximo ao modelo implantado pelo governador

de Minas Gerais, Aécio Neves, em

Ribeirão das Neves, e do visto em outros

países, como Inglaterra, França e Estados

Unidos, a nova unidade prisional será localizada

no município de Itaquitinga, Zona da

Mata Norte, a 66 km do Recife, e contará

com um sistema de Parceria Público-Privada

(PPP) em sua administração.

O Centro Integrado de Ressocialização

(CIR), como será chamado o novo presídio

pernambucano, será gerido pela SPE Reintegra

Brasil S.A., consórcio vencedor da

licitação, e custaria inicialmente R$ 287

milhões, dos quais R$ 230 milhões eram

n Penitenciária em Itamaracá, destino turístico: 18 meses para ser desativada pelo Governo do Estado. Oposição apoia


n Visita do secretário Roldão Joaquim às obras do Complexo Penitenciário em Itaquitinga, Zona da Mata Norte

provenientes de empréstimo junto ao Banco

do Nordeste do Brasil (BNB). No entanto, os

cálculos teriam sido refeitos e o projeto passou

a custar R$ 350 milhões, sendo R$ 239

milhões conseguidos junto ao BNB.

Apesar de não sair diretamente dos cofres

públicos, já que os investimentos para

a construção do complexo são da iniciativa

privada, os custos deverão ser pagos ao

longo dos próximos 30 anos através de uma

mensalidade de R$ 2,2 mil por pessoa, algo

em torno de R$ 74 por dia, custo similar ao

de Minas Gerais, onde o contrato é de 27

anos e o custo para construção de R$ 190

milhões, oferecendo 3.040 vagas.

Com esse valor, equivalente a 4,7 salários

mínimos, daria para comprar mais de

90 cestas básicas, com preço aproximado

de R$ 23 nos principais supermercados da

Região Metropolitana do Recife. “Em uma

lógica orientada pelo lucro, fim máximo da

iniciativa privada, não há como os valores não

serem superiores aos praticados pela gestão

pública”, diz a advogada e pesquisadora

Alessandra Teixeira, presidente da Comissão

sobre Sistema Prisional do Instituto Brasileiro

de Ciências Criminais (IBCCRIM). “No fim das

contas, se somarmos o valor per capita pago

hoje aos custos indiretos, o valor fica equivalente”,

discorda Isaltino Nascimento.

Ao longo do contrato, o Governo aplicará

mais de R$ 1,9 bilhão no CIR, que terá capacidade

para abrigar 3.126 detentos vindos

das penitenciárias Professor Barreto Campelo

e Agroindustrial São João, localizadas na

Ilha de Itamaracá. Com uma área de 98 hectares,

a unidade prisional será distribuída em

cinco pavilhões, sendo dois para o regime

semiaberto, totalizando 1.200 vagas, e três

para o fechado, com 1.926 detentos.

Nem a desativação dos presídios em Ita-

n Isaltino: valor fica equivalente

maracá fica fora das críticas. Para a cientista

social e pesquisadora da Fundação Joaquim

Nabuco Ronidalva Melo, manter as unidades

seria uma forma de reduzir o déficit do

sistema penitenciário no Estado. “Mantendo

as prisões de Itamaracá e racionalizando a

sua ocupação teríamos, ao invés de 3 mil

vagas, 5 mil. O efeito principal é o reconhecimento

da incompetência dos que lidam com

turismo, que só vêem como saída para seus

negócios a destruição do que foi historicamente

produzido”.

Segundo ela, se as prisões estivessem

em uma ilha americana o setor turístico tiraria

proveito disso e ainda ganharia dinheiro com

sua existência. “Isso denuncia o fracasso

do Estado, uma vez que a ligação é que não

existe controle dos presos e suas famílias

em Itamaracá. Anos atrás, ir para a ilha e ter

contato com presos oferecendo o artesanato,

doces e comidas que produziam era um agregado

turístico para que quem frequentava a

ilha”, diz a pesquisadora da Fundaj.

Como recompensa por abrigar a nova

unidade, Itaquitinga ganhará um acréscimo

no repasse do Imposto sobre Circulação

de Mercadorias e Prestação de Serviços

(ICMS) para o município, segundo emenda

de autoria da deputada Terezinha Nunes

(PSDB), aprovada pela Alepe. Além u uu

dezembro >

> 31


Política

de um acréscimo de R$ 475 mil mensais de

Imposto Sobre Serviços (ISS).

Pelo texto da lei 1% dos 3% da arrecadação

do ICMS destinados à segurança pública

devem ir para municípios que abrigam penitenciárias.

Itamaracá, por exemplo, passará

a receber a partir de janeiro de 2010 R$ 7

milhões, ao invés dos atuais R$ 1,6. “Quando

a unidade de Itaquitinga estiver em funcionamento

esse percentual terá novo destino,

dando possibilidades à gestão municipal de

melhorar a infra-estrutura da cidade e compensar

o ônus que é ter uma cadeia em seu

território”, explica a deputada do PSDB.

Outro ponto positivo para a cidade será a

geração de três mil empregos durante a construção

do complexo e, quando da entrega da

obra, mil e duzentos postos de trabalho com

carteira assinada. “A partir da construção da

nova unidade, o município será contemplado

com desenvolvimento econômico, tornandose

destaque entre as demais cidades da Mata

Norte”, comemorou o prefeito de Itaquitinga,

Geovani Melo, durante visita do secretário

Roldão Joaquim às obras do CIR.

COMPLEXO SERIA INCONSTITUCIONAL

Além dos custos envolvidos outro ponto

bastante criticado é a terceirização da segurança

pública por parte do Estado. Segundo

advogados ouvidos por Algomais, a construção

de um presídio baseado no sistema de

n Alessandra Teixeira:

lógica falaciosa

32 > > dezembro

Alexandre Albuquerque

n Terezinha: “vai tudo para o ralo”

Parceria Público-Privada não deveria se concretizar

por enfrentar problemas de legalidade.

“As PPPs perpetuam a privatização de alguma

forma. Pode não ser no modo mais amplo do

termo, mas se você transfere uma atividade

pública para uma entidade privada, ao invés de

ser orientada pelo interesse público, será pelo

lucro, mesmo o processo não sendo feito de

forma integral”, explica Alexandra Teixeira.

No caso do sistema penitenciário haveria

fatores agravantes, como o conflito entre

o interesse da demanda e ressocialização.

“Se você tem uma empresa quer que exista

mais demanda, ou seja, interesse em mais

pessoas presas. O 1º artigo da Lei de Execução

Penal é muito claro sobre o papel do Estado

na reintegração do preso à sociedade.

Como garantir que uma entidade privada vá

conferir esse direito, inclusive com a garantia

da liberdade antecipada. Delegar o papel

da segurança pública é inconstitucional”,

critica a advogada do IBCCRIM.

Já existem casos em que a privatização

foi cancelada. No Ceará, a Justiça determinou

o fim da gestão privada de três presídios,

por ter identificado irregularidades na

forma como o contrato foi realizado. “Existe

a dúvida se entregar para o sistema privado

é legal, então se amanhã for declarado inconstitucional

vai tudo para o ralo”, reclama

a deputada estadual Terezinha Nunes.

Do outro lado, os que defendem o sistema

de gestão privada dos presídios apelam

para a humanização dos presos e ao fato do

Estado não ter condições reais de prover

melhores condições para as penitenciárias.

“É preciso fazer alguma coisa, não dá para

deixar como está. Retirar as penitenciárias

de Itamaracá é algo antigo e necessário, o

Estado não tem condições de administrar

de forma eficiente por causa das distorções

que existem no serviço público. Não resolve,

mas é um avanço importante”, diz o deputado

estadual Augusto Coutinho (DEM).

Para Isaltino Nascimento, não existe

ilegalidade no projeto já que o Estado não

repassará as funções de segurança pública

para a empresa gestora. Segundo o projeto

da PPP, que teve suas obras iniciadas em

outubro passado e devem durar 18 meses,

o Governo será responsável pela diretoria,

chefia de segurança, policiais militares,

além dos supervisores de áreas especializadas.

“Apenas a gestão administrativa é

terceirizada, a polícia vai cumprir as regras

do sistema prisional, cuidar da segurança

na área externa. O Estado não deixará de

fazer o estabelecido pela lei, o que vai haver

é apenas o repasse da gestão”, defende o

líder do governo na Alepe.

Discurso que ainda não convence a advogada

Alessandra Teixeira da constitucionalidade

da Parceria Público-Privada. “Essa

lógica é falaciosa. Todo o aparato está dentro

da execução da pena. O agente privado que

irá fornecer elementos para o juiz de como

é o dia a dia do encarcerado. Além disso, as

experiências que existem são pontuais, não

se estendendo para todo o sistema penitenciário.

O que se acaba criando é apenas um

caso-modelo”. n

n Coutinho: é necessário retirar as

pernitênciárias de Itamaracá


dezembro >

>

33


Geral

Sob a proteção da

Convenção de Haia

SEQUESTRO PARENTAL | Criança de pais alemão e pernambucana

aguarda no Recife decisão da Justiça para voltar a viver na Alemanha

Por Edi Souza

Especial para Algomais

J

.L.K.K nasceu na Alemanha de mãe pernambucana

e pai alemão. Até os três

anos de idade vivia a rotina de uma família

feliz. Na tranquila cidade de Würzburg,

norte daquele país, brincava, passeava e

frequentava a escola, quando em junho de

2007 tudo mudou. Mãe e filho vieram ao

Recife passar férias e não voltaram para

casa. Este é mais um caso de sequestro

parental de crianças que tramita na Justiça

Federal desde a promulgação da Convenção

de Haia. Hoje, são 300 casos semelhantes,

espalhados por todo o Brasil, 10% dos quais

no Nordeste.

Essa Convenção, criada em 1980 na Cidade

de Haia, na Holanda, foi extraída da Conferên-

34 > > dezembro

cia de cooperação jurídica internacional e tem

como objetivo Restituir a criança ao país de sua

residência habitual de forma rápida para que na

jurisdição do país de origem se resolva a guarda.

O Brasil é signatário ao lado de outros 77 países,

e desde o ano 2000 acata a Convenção, que foi

promulgada pelo decreto nº 3.413, com o fim

de julgar os seqüestros internacionais. “Trata-se

de um procedimento de pedido de cooperação

pela via direta para resolver o sequestro parental,

configurado sempre que um parente transfere

ou retem, ilicitamente, um menor, privando-o

da convivência do outro, que detinha unilateral

ou conjuntamente a sua guarda”, explica a sócia

especialista na área de direito de família do

Escritório da Fonte Advogados, Marisa Hardman

Paranhos.

Embasado nessa Convenção, o pai, o advogado

Matthias Kübel, 31, acionou a Justi-

ça brasileira, ainda em 2007, para garantir o

retorno do filho, pois, quando chegou ao Recife

para buscar a família, foi surpreendido

por decisão judicial de concessão de guarda

provisória à mãe, Camila Pinheiro, 28, proferida

pela primeira instância da Justiça Estadual

de Pernambuco, que impedia a saída

do menor do País. “Para ele foi uma grande

surpresa, porque a mãe jamais demonstrou

não ter interesse em retornar à Alemanha,

tanto é que lá deixou roupas, objetos de uso

pessoal e brinquedos da criança. Além disso,

o casal vivia uma rotina de afeto, com

várias demonstrações de amor por ambos”,

revela Paranhos, que defende o caso como

advogada assistente da União Federal, a favor

de Kübel.

Não faltaram tentativas, por parte da Autoridade

Central, que é o órgão responsável


para fazer cumprir os termos da Convenção

de Haia, sendo representada no Brasil pela

Secretaria Especial dos Direitos Humanos –

SEDH, da Presidência da República. Entre

as investidas, a mãe foi notificada para um

acordo amigável de restituição voluntária do

garoto. Tudo com o fim de preservar os interesses

do menor, garantindo o seu regresso

com o mínimo de prejuízo.

Na falta de acordo, o processo seguiu

na Justiça até que em outubro, a 3ª turma

do Tribunal Regional Federal da 5ª Região

decidiu, por unanimidade, o retorno do menor,

hoje com cinco anos. “Essa decisão

foi importante para todo o Brasil, pois, ao

confirmar a aplicabilidade da Convenção de

Haia, o País demonstra respeitar os compromissos

que assume internacionalmente,

reforçando a credibilidade que tem conquistado

nos últimos tempos. Até então, a Justiça

brasileira discutia, no âmbito do processo

de restituição, questões relacionadas à

guarda do menor, o que não é cabível, já que

tal decisão deverá ser proferida pelo Poder

Judiciário do Estado de origem do menor -

Alemanha”, explica Paranhos.

Embora todas as decisões proferidas

pela Justiça Estadual e Federal já tenham

reconhecido a Convenção em primeira e

segunda instâncias, o garoto continua no

Recife, aguardando julgamento de recurso

da mãe. Segundo Paranhos, em outubro,

n Marisa: advogando em favor da

volta de J.L.K.K. à Alemanha

quando Kübel veio ao Recife, acompanhar

o processo, o menino mostrou estar com

muitas saudades.

Além deste caso envolvendo Pernambuco,

outros dois seguem em segredo de

Justiça no Nordeste. Nos últimos seis anos,

292 casos são acompanhados pela Secretaria

Especial dos Direitos Humanos – SEDH,

da Presidência da República. Destes, 76 foram

resolvidos por meio de acordo entre as

partes ou pelo retorno do menor por decisão

da Justiça.

“O objetivo da Convenção é também agilizar

processos. Casos de disputa de guarda

entre pais que vivem em países distintos

podem demorar muito tempo, pois pela via

judicial normal, uma decisão da justiça de um

país deve ser tramitada para o outro país através

de carta rogatória. Pela via da Convenção

de Haia, que é a via da cooperação direta entre

autoridades centrais, um pedido de restituição

de criança é tramitado diretamente de

uma autoridade central a outra em questão

de dias por correio, podendo o pedido ser antecipado

por fax em questão de horas.”, destaca

a coordenadora da Autoridade Central

da Secretaria Especial dos Direitos Humanos,

em Brasília, Patrícia Lamego.

O trâmite para início da ação é simples,

se dá por meio do preenchimento de um formulário

padronizado disponibilizado no site da

SEDH, onde o parente, que está requerendo o

retorno do menor, comprova por meio de documentos

a relação que tem com a criança,

mostrando ainda que ela não residia no país

onde se encontra. “Após a análise de todos

os papéis, em 48 horas é possível enviar o

pedido para a Autoridade Central do outro

País, sendo deflagrado o processo entre os

dois países”, completa Lamego.

Além da celeridade, a Convenção traz

ainda o benefício da isenção de custos. Iniciada

a ação, a Autoridade Central do País

onde a criança se encontra, deverá arcar com

os custos da defesa legal do pedido de cooperação,

se este for aceito. “Contratar um

profissional em outro país exigiria um custo

financeiro alto para a pessoa que requer a

repatriação da criança. Através da via direta

da Convenção o requerente não terá custos

de representação legal no outro país, pois

tal responsabilidade é da Autoridade Central

requerida. No Brasil, a representação legal

é feita pela Advocacia-Geral da União, após

ter sido acionada pela Secretaria Especial

dos Direitos Humanos.”, conclui. n

dezembro >

> 35


Capa

Filhos

indicam, mãe

pesquisa e

pai paga

CONSUMO | Os pernambucanos

começam a mobilização das compras

natalinas atraídos pelas promoções

e impulsionados pela liberação

do 13 o . salário

Por Marcella Sampaio

Os cânticos natalinos começam a soar no Estado,

mas os sinos das caixas registradoras

do comércio já badalam no ritmo das celebrações

e confraternizações. O manifesto dos sentidos

somados a superstição de que ano novo

significa roupa e sapato novo surtem o efeito

desejado pelo comércio. As vendas fortalecidas

pela disponibilidade adicional do 13º salário injetará

na economia pernambucana R$ 2,5 bilhões. u uu

36 > > dezembro


dezembro >

>

37


Capa

“Supondo uma propensão média

a consumir de 70%, isso significaria

um reforço de R$1,5 bilhão

nas vendas”, explica o economista

Jocildo Bezerra.

O apelo do Papai Noel não será

responsável pelo maior índice de vendas.

As Mamães Noel é quem irão liderar

o consumo e contarão com o auxílio da figura

masculina apenas para finalizar o ato

da compra. “As compras de final ano tem

um apelo familiar muito forte, os filhos indicam

a mãe pesquisa e o pai paga”, explica o

presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas

(CDL), Sílvio Vasconcelos.

Após o tormento da crise, o clima realmente

é de animação. Prospecções da CDL

prevêem um crescimento de vendas em torno

de 15% a 18% em relação ao mesmo período

do ano passado. “Não temos dúvidas

que sairemos do Natal da crise para o Natal

do crescimento”, comemora Vasconcelos.

Os hábitos de consumo deverão permanecer

os mesmos, mas o incentivo sobre

a linha branca impulsionam o varejo. O

Depois do turbulento período da crise

e das altas do dólar, os atacarejos do setor

de decoração e construção civil voltam a

respirar aliviados. “O dólar com essa cotação

propicia maior poder de compra para

enfeites natalinos importados. E isso é

ótimo porque possibilita-nos oferecer tudo

para construir, reformar e decorar num

mesmo lugar”, explica o gerente de marketing

da Ferreira Costa, Gilson Medeiros. As

compras de fim de ano soam como uma

orquestra afinada com as máquinas registradoras

voltando a trabalhar a todo vapor.

A expectativa é o acréscimo nas vendas de

15% em relação ao ano passado.

Segundo o diretor comercial da Jurandir

Pires, Fábio Pires, o perfil das compras

acompanhará a tendência do mercado, 25%

à vista e 75% à prazo, graças a queda dos

juros. Nas duas grandes lojas, a árvores de

Natal irá liderar a procura, assim como os

produtos de decoração específicos para o

período. Há espaço também para os tradicionais

cristais.

38 > > dezembro

n Sílvio Vasconcelos, da CDL: compras

de Natal tem apelo familiar muito forte

setor de eletrodoméstico desponta como

o grande beneficiado da vez, a redução do

IPI e a demanda reprimida do ano passado

contribuirão para o desempenho destaque.

Produtos natalinos em alta

n Loja da Ferreira Costa: tudo para construir, reformar e decorar num mesmo lugar

Criatividade e diferenciação é o mote do

Natal da Vila Papel, há um ano no mercado

a empresa planeja aumentar em 20% as

vendas oferecendo itens exclusivos e inova-

Em seguida aparecerão os bens de consumo

clássico, confecções e calçados, e os eletrônicos,

estimulados pelas ofertas de crédito.

O crédito surtirá efeito também na opção

pelo pagamento. De acordo com Jocildo Bezerra,

é provável que cresçam mais as vendas

a prazo, porque os consumidores precisam

guardar parte da receita adicional para enfrentarem

as despesas de início de ano.

Responsável pela sustentação da economia

no período de crise, a ascensão das

classes D e E no Brasil também alimentará o

comércio no final do ano, segundo a pesquisa

Índice de Intenção de Compras na Região

Metropolitana do Recife divulgada pelo Gemepe/Fafire.

EMPREGO

O aumento nas vendas terá reflexo positivo

na oferta de emprego. A previsão da

CDL é que o comércio varejista do Recife

disponibilize uma oferta de 13 mil a 15 mil

vagas temporárias para o período. O aumento

é mais de 20% em relação ao ano passado.

O momento também é propício para garantir

a estabilidade. Segundo Sílvio Vasconcelos,

15% dos funcionários temporários se tornam

efetivos.

dores. “Todos os nossos objetos de Natal são

escolhidos a dedo para serem diferentes do

comum. Não se encontra em qualquer lugar”,

diz a empresária Viviane Mendonça.


Lirismo motiva compras

Manuela Malta

O consumo

deverá crescer

em todos os

lugares, mas

é nos nove

shoppings pern

a m b u c a n o s

que o hábito

terá melhor aproveitamento.

À procura

de bom preço, condições de

pagamento e atendimento, os consumidores

podem elevar em até 20% as vendas dos

malls. “O fantasma da crise que existia no ano

passado foi superado, o crédito voltou para o

consumidor e ainda temos fatores como a antecipação

do pagamento, anunciada pelo Governo

do Estado, do salário de dezembro e do

13o salário, para antes do Natal”, comemora o

superintendente do Tacaruna, Elenio Tolomei.

A Associação Brasileira de Shopping Centers

(Abrasce) espera que no ano de 2009 o

faturamento das vendas nos malls de todo o

país ultrapasse os R$ 70 bilhões. Para atrair a

demanda formada em 56% por mulheres, os

centros lançam mão das mais variadas e tentadoras

promoções, que vão desde sorteios de

apartamento, vale compras de R$ 25 mil aos

kits promocionais.

Espetáculos de luzes, cores e sons dão

lirismo à indústria de shoppings centers, que

possui apenas em Pernambuco mais de 249

mil metros quadrados de área bruta locável.

Sob o mote “Natal que você sempre sonhou”,

o Plaza Shopping investiu R$ 310 mil na decoração

do centro para ampliar o fluxo de clientes

em 15%. De olho no grande filão das compras,

firmou uma parceria com o Hipercard para premiar,

a cada R$ 200 em compras no cartão, o

cliente com um boneco de madeira do Pinóquio.

Além disso, cinco novas lojas incrementam

a oferta do mall.

O Shopping Recife investiu em ação promocional

mais tentadora: sortear um apartamento

da Queiroz Galvão com 3 quartos, em

Boa Viagem, pronto para morar. Para participar,

o cliente precisa juntar R$200,00 em compras

nas lojas do shopping e trocar por um cupom.

Ao todo, o maior mall da América Latina

investirá R$ 2,2 milhões no período, 40% a

mais que no ano passado. Desse montante,

n Decoração natalina: apelo direto ao bolso do consumidor

R$ 600 mil foram aplicados apenas na decoração

interna e externa do empreendimento,

que espera receber mais 3,8 milhões de pessoas.

A estrutura administrativa também será

incrementada. “Estimamos que ocorra a contratação

de mais de 3 mil empregos, contando

com as equipes das lojas e com o nosso quadro

funcional. Para ter uma estrutura adequada

ao movimento do Natal temos que reforçar

vários departamentos internos, como limpeza,

estacionamento e segurança. Deveremos ter

um acréscimo em torno de 35% na equipe do

Shopping”, finaliza o superintendente, Luiz Lacombe.

O mix será fortalecido por mais cinco

lojas e uma ampliação, boa parte voltada para

a classe A, líder em consumo com 76% de

contribuição.

No limite entre Recife e Olinda, o Shopping

Tacaruna aplicou mais de R$ 1,3 milhão no planejamento

de fim de ano. O consolidado empreendimento

não prevê grandes aumentos no

fluxo de clientes, apenas 5%. Vestuário, eletrodomésticos

e artigos de informática deverão

ficar entre os destaques de venda, 70% representada

pela classe A e B. A novidade do mall

fica por conta das oficinas para decoração de

natal e inauguração de novas operações como:

Imaginarium (presentes); Siriguela e Planetário

(gastronomia); My Shoes (calçados).

Já o Shopping Guararapes optou por oferecer

além da decoração especial para o período,

serviços de comodidade. Isso porque o fluxo

diário de consumidores, que normalmente é de

45 mil, pode atingir uma média de 70 mil na

semana do Natal. “No ano passado disponibilizamos

maridódromo, guarda-compras e manobrista

grátis para os nossos clientes. Estamos

planejando os serviços que serão oferecidos

neste Natal”, adianta a gerente de Marketing,

Denielly Halinski. O resultado positivo fecha

um ano marcado por vários investimentos no

empreendimento, incluindo: a inauguração de

um novo mall, com doze novas lojas e outras

24 novas operações, resultantes de reformas,

redução da vacância e fortalecimento do mix.

Um dos destaques é a megaloja da Infobox.

O incremento de 10% das vendas durante

o período considerado mais importante pelo

varejo demandou do Shopping Boa Vista investimento

de R$ 850 mil em ações para o Natal.

O centro de compras, que tem um fluxo médio

de 45 mil pessoas por dia, estima que a quantidade

de freqüentadores aumente em 10% em

relação ao Natal de 2008. A demanda exigirá

a criação de 500 vagas temporárias.

Para aproveitar o momento propício às

vendas, o Shopping Costa Dourada aquece a

oferta do maior distrito industrial do Estado e

mais importante polo turístico da região. Beneficiando

mais de 340 mil pessoas, o empreendimento,

segundo estudo realizado pelo Instituto

de Pesquisa & Desenvolvimento u uu

dezembro >

> 39


Capa

de Mercado (IPDM), possui um potencial de

compras de R$ 34 milhões/mês. O número

corresponde a 67% das pessoas residentes

nas cidades do Cabo de Santo Agostinho, Escada

e Ipojuca que costumam ir a shoppings

centers e fazem compras no Recife e Jaboatão

dos Guararapes. Apenas nesse mês, o mall

espera vender R$ 16 milhões. “Acredito que

alimentação deverá ter um peso expressivo

nas vendas, seguido de vestuário feminino”,

conta o gerente, Wilson Colobiali.

Após um ano e meio “arrumando a casa” do

Paço Alfândega, o grupo carioca Realesis Empreendimentos

S.A. ainda não poderá seguir as receitas

pré-estabelecidas para o período natalino.

“Estamos na fase de adotar ações para manutenção

mínima da imagem do empreendimento,

mas tão logo estejamos prontos, com nosso mix

completo e associado ao novo conceito, vamos

retomar nossas ações dirigidas a incrementar

nosso fluxo, vendas e ofertas de serviços”, garante

o superintendente, Hélio Azevedo.

INTERIOR

Embalados pelo mesmo momento positivo,

os empreendimentos do Agreste e do Sertão

pernambucano vibram com as excelentes

expectativas para o final de ano. A gerente de

marketing do shopping Caruaru, Amélia Dutra,

Franquia investe em

linha especial para

presentes de natal

O Boticário, maior rede de franquia de cosméticos

e perfumaria do mundo, com cerca de

2,7 mil lojas no Brasil, sendo 688 apenas no

Nordeste, investe em linha exclusiva para o fim

do ano. O esforço, que exige uma gerente de

produto especial para lançamentos de datas

comemorativas, é essencial para garantir o

incremento nas vendas de fim de ano.

“O Natal é o período mais significativo

em vendas para o varejo e no Boticário, reconhecido

como uma das principais marcas

para compra de presentes no Brasil, não é

diferente. Por isso, ano a ano, renovamos

nossas opções para atender uma demanda

cada vez mais exigente”, afirma Mirele

Martinez, gerente de produto do Boticário,

40 > > dezembro

n Shopping: prontos para os consumidores do Natal

comemora e adianta que o Natal chegou mais

cedo para o empreendimento. “Estamos com

um crescimento contínuo e acima do varejo

nacional ano após ano. Por isso, apostamos

que o crescimento em 2009 não será diferente,

estará acompanhando o crescimento que

vem acontecendo todos os meses. Para as

responsável pelos lançamentos de datas comemorativas.

Com o mote “Acredite na Be-

vendas natalinas planejamos

um incremento de 17% ante

2008.” O ânimo se estende

ao setor de contratação que

prevê um aumento de 10%

tanto na administração do

shopping, como das lojas.

O Polo Comercial de Caruaru

desfruta do mesmo clima,

apostando até em 30 novas

operações e ampliações.

“Tudo para oferecer ainda mais

conforto e um mix ainda maior

de confecções para nossos

clientes”, conta o gerente de

relacionamento institucional

do Polo, Marco Aurélio Sodré.

Para atrair o público o empreendimento

investiu em torno

de R$ 90 mil em publicidade

para Pernambuco e Alagoas.

Com novas operações

no River Shopping, o Vale do

São Francisco terá mais opções

de compras. A expectativa

é que com o aumento em 6% no fluxo,

o empreendimento nos dois últimos meses

do ano movimente cerca de R$ 20 milhões.

“Os clientes serão motivados pela promoção

que irá sortear um vale compras de R$ 25 mil

em móveis planejados Bentec”, explica o superintendente,

Paulo Modesto.

leza”, a marca lançou mais de 70 opções de

presentes apenas para este Natal. u uu


dezembro >

>

41


Capa

Moda agrada

gregos e troianos

Que roupa usar? No fim de ano essa é

a frase mais recorrente entre os ciclos

sociais. Entra festa e sai festa e lá está a dor

de cabeça de ter no armário uma peça nova

para comemorar as duas celebrações mais

esperadas: Natal e Réveillon. As lojas compõem

suas modas, com looks cada vez mais

variados e que agradam todos os estilos.

O difícil é saber qual composição combina

mais com a ocasião.

Ao que tudo indica o modismo fashion

liderado pelas cores neons, brilhos e paetês

iluminam a estação. Mesmo com a profusão

dos tons vibrantes, os tradicionais branco,

prata, dourado e amarelo sempre são os que

dominam os looks de final de ano. “As cole-

42 > > dezembro

ções da BobStore estão com muito dourado,

azul marinho e cores cítricas – essas últimas

bastante procuradas. Mas para fim de ano

a pedida é o mix dourado, azul marinho e

vermelho”, adianta Cyntya Verçosa, gerente

da BobStore Casa Forte.

O hit feminino da estação serão os vestidos.

“Com modelagens variadas, lisos ou estampados,

eles ganham seu espaço proporcionando

à mulher o desejo de liberdade”, adianta Keila

Benício, da Blu K. O carro chefe aparecerá em

formatos de túnica, fluídos até os bandagem.

“Não há um look determinado, a ideia é que

cada um procure roupas adequadas a seu estilo,

que pode ser moderno, clássico, fashion”,

explica Herácliton Diniz, da Empório HD. “

A saruel aparecerá novamente

nos macacões, bermudas

e calças. Sídia Haiut, da

MOB, defende que a modelagem

seja a pedida coringa

dos presentes junto com os

coletes. Mas, o segredo para

evitar erros, ainda é comprar

peças que tenham o estilo

da pessoa a ser presenteada.

“Uma boa dica seria looks em

algodão que serão bem utilizados

na temporada de férias”,

destaca Tereza Penna, do Grupo

Musa.

As mais clássicas podem

apostar nos bordados com

cores mais fortes como rosa,

mostarda e verde escuro. “São

atemporais e caem bem com

qualquer tipo de festa. Seja

onde você for comemorar, as

peças da nossa coleção são

únicas e diferentes, perfeitas

para qualquer ocasião” recomenda

Fátima Megulhão, diretora

da Fátima Rendas.

O look masculino continua apostando nas

camisas de tecido, polo, tradicional jeans e

bermudas. Nos pés, sandálias ou mocassim.

A recomendação é de escolhas sempre

adequadas ao estilo da festa. “Momentos

em família, composições mais discretas. Se

o ambiente for uma

festa em boate,

por exemplo, o

look pode ser mais

fashion. Para elas, um

discreto decote. Para

eles, camiseta

tipo pólo ou

‘slim fit’, com

modelagem

mais justa

ao corpo.”,

explica Celso

Lieiri,

diretor comercial

da

DonaSanta

| SantoHomem.

Em clubes,

ambientes fechados

ou festas

sociais, as

mulheres devem

optar por vestidos

curtos e fluídos

ou bermudas


com alfaiataria, com blusas e tops elaborados

de tecidos mais especiais, como seda, cetim

ou até um brilho discreto e o famoso salto alto.

Já os homens devem compor o visual com

calça de algodão ou linho, camisas de mangas

curtas ou longas e mocassim.

Acessórios dominam estação

O toque especial do looks de final do

ano ficará por conta dos acessórios. O hit

é extravasar com maxi peças. Atendendo a

todos os estilos, a moda mistura banhos em

ouro, prata e pedrarias.

O diferencial do up grade no Recife fica por

conta do designer das peças da Fabrizio Giannone,

comandada no Recife por Henriqueta

Petribu. A coleção reúne sofisticação com as

cores e formas das pedrarias brasileiras. “Para

o look de fim de ano o nosso colar Vitória Régia,

com pedra howlita, ou um brinco poderoso

de madeira com drusa, com uma carteira de

phyton rosa pink, não podem faltar.”

No cabelo, as tiaras e fivelas continuam

sofisticando o look. E não precisam ser dispensadas

se o visual pedir um brinco mais elaborado.

“Pode-se usar uma tiara mais discreta no

mesmo tom do cabelo”, recomenda Petribu.

Os acessórios são fundamentais, a tendência

pede o uso de muitas peças sobrepostas,

como cintos misturados, muitas pulseiras,

sobreposição de colares. “O segredo

é descombinar os tons, mas com harmonia”

explica Herácliton Diniz, da Empório HD.

Para finalizar o look, as bolsas grandes

para o dia a dia, e as carteiras para as demais

ocasiões. Nos pés, rasteiras, saltos

ou plataformas coloridas. “Para as baladas

e festas de fim de ano, os calçados meia

“pata”, com glíter e acetinados.”, recomenda

Zênia Villarim, da My Shoes. n

dezembro >

> 43


Artigo

Zé Lineu e Raimundo Nonato são

dois nordestinos; por dedução,

são brasileiros. Moram numa capital

nordestina e nasceram em terras

distantes de Estados diferentes.

Vieram para a cidade grande, porque,

segundo eles, “a coisa tava braba”. O

primeiro, mais falante, chegou a dizer

que, se lá permanecesse, morreria

de fome. Ambos são ambulantes. Um

vende produtos ‘genéricos’, também

chamados de piratas. O outro se diz

empresário. Comercializa produtos

fabricados pela ‘patroa’. Gosto de

trocar dois dedos de prosa com eles,

principalmente com o primeiro, que

sempre tem uma tirada para cada

provocação.

Sobrevivem e sustentam as suas famílias com a renda

proporcionada pelos seus ‘negócios’. Um mora numa

‘puxadinha’ erguida em terreno não se sabe de quem,

construída, como afirma, ‘a custo de muito esforço’. Diz que

não dorme quando chove, preocupado com os deslizamentos

que podem ocorrer na área. “Não é pela casa, é pela mulher

e filhos”. O segundo mora noutro ‘puxadinho’ construído

nos fundos de um terreno onde se encontra a casa de um

parente.

Em ocasiões distintas, perguntei se gostariam de voltar

a morar nas terras onde nasceram. O primeiro foi taxativo:

“Não!”. Alegou que os filhos já estavam “grandes”, que não

se acostumaria com a vida que levava antes. O segundo

não disse nem sim nem não. Falou das dificuldades do

recomeço, questionou do que sobreviveria e lamentou não

ter um pedacinho de terra para “erguer um barraco, criar uns

bodes e plantar umas coisas”.

Lineu e Nonato são mais dois exemplos de nordestinos

que abandonaram as origens em busca da sobrevivência.

Não vou entrar no detalhe da legalidade do comércio que

Lineu atua para levar o dinheiro do arroz e feijão para sua

casa. Certa vez, indagado, foi enfático: “O meu trabalho é

honesto. Não tiro de ninguém, não peço esmola e nem vivo

à custa do governo”. É a sua visão, ainda que alguém possa

dizer que se trata de uma visão equivocada ou distorcida.

Lineu e Nonato são nomes fictícios, mas os personagens

são reais numa terra de desigualdades. São nativos do

44 > > dezembro

José Carlos L. Poroca*

jcporoca@uol.com.br

Feliz e Próspero 2011

país que tem o maior número

de horas trabalhadas para pagar

impostos: 2.600 horas. A média, na

América Latina, é de 563 horas. Os

personagens nasceram e vivem num

país que ocupa a 129ª posição numa

lista dos países onde é mais difícil

fazer negócio, onde a burocracia e o

jeitinho prevalecem sobre a técnica e

a lei.

Os ‘prêmios’ conquistados pelo

Brasil refletem a nossa realidade:

temos, de um lado, um dos maiores

PIBs do mundo e, do outro, altos

índices de desemprego, a ampliação

progressiva da produção informal e a

evolução conformista (o “aceite”) do

toma lá dá cá para resolver questões

que a burocracia incentiva e não dá sinais de querer mudar.

Voltemos aos personagens. Não se queixam da vida, estão

sempre alegres, alertas para a gozação em cima de fulano ou

beltrano a cada fato presenciado. Ficam chateados com a

derrota dos seus times (torcem por clubes diferentes), com

a possibilidade de ficar doentes (perda de receita) e com as

notícias quase que diárias sobre as peraltices e travessuras

que passaram a integrar a vida do brasileiro.

Estão otimistas. Alguém - não sei quem - falou para eles

que o Brasil vai se transformar numa potência em 2011 e que

todos os brasileiros vão ficar endinheirados. “Tão dizendo

que, ao invés de água, vai sair dinheiro pelas torneiras”

– disse Lineu em tom de brincadeira. Peguei o gancho e

perguntei o que pretendia fazer, em 2011, se a previsão se

transformasse em realidade. O primeiro ato, segundo ele,

seria sair de onde mora para ir “morar decente”; o segundo,

“pegar a patroa e os meninos para fazer umas compras”.

Perguntei pelo terceiro. Respondeu: “vou comprar um

chapéu bonito, como aqueles americanos da TV...”.

Tomara que o ‘profeta’ esteja certo. Tomara que

2010 passe rápido. Pode ser que, mesmo com excesso

de otimismo, surjam, até lá (2011), homens públicos que

sobreponham os valores da Nação a objetivos individuais

ou a objetivos de grupos ou partidos. Tomara que a palavra

vergonha volte a ter o significado que consta nos dicionários.

Tomara que Lineu consiga realizar os seus sonhos, pelo

menos o terceiro.

*José Carlos L. Poroca é advogado e executivo do segmento shopping centers


dezembro >

>

45


Gestão Mais

“A elegância é a arte de não se fazer notar misturada ao cuidado sutil de se deixar distinguir.”

Paul Valery, 1871-1945, poeta francês

46 > > dezembro

Etiqueta para fim de ano

Poucos terrenos são tão férteis para gerar

gafes, constrangimentos e, algumas vezes,

problemas para a imagem do profissional

quanto as festas de confraternização de final de

ano do trabalho. Estimulados pelo teor alcoólico

e pelo clima de descontração que costumam

embalar eventos dessa natureza, mesmo os

profissionais mais experientes correm o risco

de acordar no dia seguinte com uma dor

de cabeça grande — e não apenas pela

ressaca.

Claro que o momento é de celebração

e de alegria, e ninguém vai exigir a

mesma postura sóbria e responsável dos

outros 364 dias do ano. Porém, é importante

lembrar que tudo dito ou feito na

festa, mesmo em clima de

brincadeira, reflete a imagem

do profissional e será

lembrado por todos — in-

Nunca é demais lembrar:

1. A confraternização de fim de ano

da empresa não é o ambiente mais

propício para, por exemplo, você

acertar as contas com seu chefe,

confidenciando-lhe as mágoas acumuladas

durante o ano.

2. Aliás, como regra, evite qualquer

tipo de confidência após a segunda

dose, a qualquer pessoa.

3. Brinque, divirta-se, dance, mas sem excessos.

4. Não tente, em uma noite, “tornar-se íntimo”

de colegas com quem teve um relacionamento

apenas profissional durante todo o

ano.

5. Segure a língua. Nada de aproveitar o am-

cluindo o chefe — no dia seguinte.

Pelo potencial explosivo, as confraternizações

de fim de ano no trabalho mereceriam

um pequeno manual de etiqueta

próprio, com algumas dicas de como

evitar sair mal na fita. E a bebida não é a

única fonte de dúvidas e problemas. Para

algumas pessoas, a própria festa já é motivo

de angústia: é mesmo obrigatório ir,

mesmo sem vontade? A especialista em

etiqueta Glória Kalil esclarece: a festa de

final de ano do escritório é praticamente

uma obrigação profissional. Tem que

ir. Mas ela dá uma dica para quem não

estiver muito empolgado com a ideia.

“Pode-se seguir a regra dos quatro S:

Surgir, Saudar, Sorrir e Sumir”. Educadamente,cumprimentando

todos e sempre com

um sorriso nos lábios.

biente festivo para contar ou trazer

à tona fofocas sobre algum colega.

6. Não vá virar o principal assunto

do escritório no dia seguinte. Mantenha

os limites.

7. Se vir algum colega começando a

desrespeitar essas regras, seja um

bom amigo e o alerte.

O conteúdo desta página é de responsabilidade da TGI Consultoria em Gestão. (www.tgi.com.br)


dezembro >

> 47


Arte

Artesanato de

Pernambuco

rompe fronteiras

EXPORTAÇÃO | Empresas de artesanato formam associação com fins

de exportação, mas cobram mais apoio do Governo do Estado.

Por Carol Bradley

Já diz a sabedoria popular: a união faz

a força. Acreditando nesse princípio,

um grupo de empresas de artesanato de

Pernambuco se reuniu, com o apoio do

Sebrae, para criar a Exportarte. A associação

funciona desde 2005 e atualmente

15 empresas fazem parte deste grupo,

que leva o artesanato pernambucano para

diversas regiões do país, além de países

como Estados Unidos, Portugal, Dinamarca,

Itália, Alemanha e Angola. São produtos

diferenciados e de alta qualidade,

que levam em consideração a produção

sustentável; mas apesar do sucesso que

fazem fora do Estado, aqui ainda são pouco

reconhecidos.

Quando se fala em artesanato, logo

vem a ideia daquele artista produzindo manualmente

os objetos - de forma individual,

ou no máximo, familiar – expondo o seu

trabalho nas feirinhas de bairro. Essa, sem

dúvida, é uma forma importante de arte e

deve ser valorizada, porém não é a única.

Em 2004, o Sebrae selecionou 40 empresas,

que receberam visitas dos consultores

para conhecer sua forma de produção.

Dessas, 18 foram selecionadas, porque

tinham condição de se reunir e criar uma

associação com o fim de exportação. Os

48 > > dezembro

requisitos eram ter produtos de qualidade e

capacidade de produção. Com um design

diferenciado, responsabilidade social e

ecológica, o artesanato das empresas

do grupo já aportou nas lojas da Tok Stok,

Daslu e até no cenário da novela global

Cama de Gato, o que demonstra o cuidado

com a qualidade do trabalho.

Tanto que no Prêmio Sebrae Top 100

de Artesanato deste ano, que seleciona

as cem unidades mais competitivas do

país, levando em conta, além do valor artístico

e cultural, a qualidade e adequação

comercial dos produtos, quatro

empresas da Exportarte

foram contempladas, e

fazem parte de um catálogo

com as demais

vencedoras. A Mar e Arte é

uma das ganhadoras do Top

100. Localizada na comunidade

de Brasília Teimosa,

no Recife, utiliza

como matéria-prima

escamas e couro de

peixe: o lixo transforma-se

em arte,

e a empresa atualmente

vende

e produz mais

de 200 itens


que vão desde porta guardanapos e flores

na haste até pulseiras, bolsas, luminárias

e mantas, objetos que surpreendem pela

originalidade e qualidade.

O trabalho é desenvolvido em parceria

com o frigorífico Noronha Pescados. “Como

o frigorífico trabalha em escala industrial,

o lixo produzido, que são as escamas e o

couro do peixe era muito, e prejudicava as

nascentes dos rios, o trabalho da gente começou

para dar uma finalidade mais útil e

melhor para esse lixo,” explica Camila Haeckel,

sócia da Mar e Arte. Além de ecologicamente

correto, a empresa também tem

uma função social, já que as artesãs do

projeto são mulheres da comunidade, que

encontram no trabalho uma alternativa de

renda. A empresa exporta para os Estados

Unidos, França, Alemanha e Portugal; as

peças mais exportadas são as carteiras de

couro de peixe. “É uma febre”, diz Camila.

Com a crise econômica as exportações pararam,

mas o ritmo já está sendo retomado

e agora de 30 a 40% da produção vão para

o exterior.

“Todas as empresas da Exportarte têm

essa filosofia de aproveitar tudo, o importador

exige isso: o cuidado com o meio ambiente,”

explica Mona Holanda, presidente

da associação. Ao contrário do pequeno artesão

que vende seus produtos na cidade,

essas empresas que produzem artesanato

em grande escala, vendem seus produtos

nas feiras internacionais, a principal delas

é a Gift Fair que acontece em São Paulo

duas vezes por ano: em março e agosto.

Alexandre Albuquerque

n Camila transforma

escamas de peixe em arte

“Se você não vai para a feira as pessoas

não te vêem, a feira é o parâmetro, é uma

vitrine. O lojista sabe que quem está na Gift

está credenciado a fornecer. Vem u uu

dezembro >

> 49


Arte

gente do Brasil todo, vários lojistas e importadores,

que compram os nossos produtos,”

explica Holanda, que fica bastante

satisfeita com a repercussão do grupo na

feira. “Todo mundo elogia muito o artesanato

de Pernambuco e a qualidade dos

nossos produtos.”

A Art Laranjeiras, encabeçada pela

assistente social e design Marta Pontes,

faz parte desse grupo. A produção é toda

feita em conjunto com mulheres da Usina

Laranjeiras, em Vicência, na Zona da Mata

pernambucana, que após cursos de capacitação

se transformaram em artesãs.

“Sempre trabalhei nas usinas e vi que as

mulheres não tinham oportunidade de trabalho.

A gente começou a pensar em como

poderia aumentar a renda delas, e decidimos

mexer com alguma coisa da terra,”

ressalta Pontes. Aproveitando a máxima

“vamos tirar da terra o que a terra tem para

nos dar”, a design passou a adotar como

matéria-prima a palha da bananeira, que

tem em abundância naquela região, já que

Vicência é conhecida como a cidade da banana

e do açúcar.

O trabalho começou em 2002. As primeiras

peças foram caixas feitas a partir

do tronco da bananeira, que é tratado e

impermeabilizado; a criação é compartilhada

entre a design e as artesãs. Hoje a

empresa tem uma linha de mais de 400

itens e produz uma média 500 peças por

mês, dentre elas bandejas, panelas, fruteiras,

mesas e luminárias. Em homenagem

a próxima Copa do Mundo, a

empresa lançou a coleção Copa

África 2010 com bonecas

africanas, onde o corpo é de

cerâmica e a saia de palha,

mas também tem mandalas,

jarros e pratos, tudo

estilizado com motivos

tribais, aliando beleza

e qualidade.

Sobre o trabalho,

Marta Pontes

ressalta: “Além de

social é ecológico

porque a gente

tira a palha da bananeira

que já está

morta, e o tronco

50 > > dezembro

“O homem do

campo tem muito

preconceito e isso

é uma forma de

as mulheres se

valorizarem”

Marta Pontes

continua vivo. A bananeira precisa ser

limpa, a gente usa o que ela não vai mais

aproveitar.” Hoje tem mais de 40 pessoas

produzindo, todas mulheres da usina.

“Viver no campo não é fácil,

o homem do campo tem

muito preconceito

e isso é

uma forma

de

as mul

h e r e s

se valorizarem,”

e x p l i c a

a design.

Carla Almeida,

artesã de

18 anos. Ela

diz que o trabalho

mudou a

sua vida. “É um

aprendizado a

mais e também a contribuição financeira

me tornou mais independente, agora eu

tenho como contribuir com a renda familiar,

os meus pais vêem que eu me esforço.”

Atualmente a empresa exporta para os

Estados Unidos. No Brasil vende para todas

as regiões. Quem mais compra é São

Paulo e os Estados do Sul: Santa Catarina

e Rio Grande do Sul, mas lojas como Daslu

e Tok Stok também são clientes. Recentemente

uma boneca da Art Laranjeiras

apareceu no cenário da novela “Cama de

Gato”. “O povo do Sul é enlouquecido pelo

nosso artesanato”, destaca Pontes, e diz

que no Recife não tem muito reconhecimento.

“Nós vendemos mais para fora do

que para Pernambuco. O Recife conhece

muito pouco o nosso trabalho, aqui as

pessoas não valorizam muito o artesanato,”

lamenta a design.

Assim como para as

outras empresas da Exportarte,

a Gift Fair é a

oportunidade de fazer

bons negócios e vender os

produtos. “Se nós fizermos

uma boa feira, nós temos pedido”,

explica Pontes, que, no entanto,

informa que a despesa para

participar dessas feiras é muito alta, já

que tem a compra e a montagem do espaço,

transporte das peças, além de transporte

e hospedagem de quem vai participar

da feira. Neste ano a Art Laranjeiras

gastou cerca de R$ 30 mil para levar seus

produtos para a Gift. “A

gente tem o apoio do

Sebrae, mas o Governo

do Estado poderia

dar mais

apoio,” reivindica

a design.

n Coleção Copa África: boneca africana tem corpo de cerâmica e saia de palha


n Objetos de arte são feitos do tronco da bananeira

Opinião semelhante tem o artista plástico

Alex Mont’Elberto, que fundou em

1996 a empresa Alexander Mont’Elberto

Oficina de Artes, uma das quatro empresas

da Exportarte contempladas com o Prêmio

Sebrae Top 100 de Artesanato. “A Exportarte

é recente como associação, mas as

empresas têm um histórico de muito profissionalismo.

Quando empresas com tanta

qualidade se juntam o resultado só pode ser

bom, e eu acho que o Estado ganha muito

com isso. Eu só sinto que pelo resultado

Alexandre Albuquerque

n Mulheres do campo aprendem uma profissão

que o grupo tem dado requer mais apoio

do Governo do Estado. O Sebrae sempre

mantem esse apoio, nunca deixou de nos

apoiar, já o Estado tem sido esporádico, eu

acho que com um apoio mais permanente,

com certeza o resultado vai ser bom não

só para as empresas, mas principalmente

para o Estado.”

Mont´Elberto propõe que se crie aqui

uma estrutura de exposição permanente.

“O governo poderia abrir uma estrutura

permanente de exposição aqui em Per-

nambuco. A Fenneart traz

um público, por que a Exportarte

não pode receber

um apoio para trazer outro

público de compradores

para cá? A Fenneart já

existe para o artesão simples,

mas poderia se abrir

um mercado para o artesanato

empresarial, isso vai

trazer consequências tanto

de divisa para o Estado

quanto vai ajudar a abrir o

mercado para os produtores

independentes. Se a

Exportarte já faz isso fora,

por que não fazer aqui?,”

questiona o artista.

Formado na Escola de

Belas Artes e também no

curso de design, mesmo

antes do apelo por produtos

ecológicos, Mont´Elberto,

já trabalhava com materiais reciclados,

principalmente o alumínio. Com uma linha

diversificada que inclui esculturas, paineis,

fruteiras, e móveis como mesas e cadeiras,

os produtos pernambucanos hoje chegam

na Dinamarca, Alemanha e Itália. A linha In

Natura que faz muito sucesso no exterior

utiliza madeira dos coqueiros da região. “O

carro chefe são as esculturas de parede,

onde homenageio as praias de Pernambuco,

que é de onde retiramos a madeira do

coqueiro. Só que esse coqueiro é u uu

Alexandre Albuquerque

n Marta Pontes encabeça a Art Laranjeira

dezembro >

> 51


Arte

residual, porque quando ele atinge uma

certa idade, que não produz mais, é descartado

para dar lugar a um coqueiro novo,

então nós o compramos da comunidade,”

explica o artista, que este ano participou da

exposição Design e Natureza em São Paulo,

voltada exclusivamente para produtos

de eco design, e também da Gift Fair onde

vende seus produtos.

Apesar de não ser um trabalho simples,

o resultado compensa. “É uma seleção que

exige muito conhecimento, a gente passou

muito tempo fazendo pesquisa, pois a perda

é grande, mas vale a pena porque é um

material residual. Eu não estou derrubando

árvore e dá um efeito muito bom,” ressalta

Mont´Elberto. Artista plástico desde 1978,

em 1991, fez junto com Jobson Figueiredo

um monumento na Cidade do Porto, em Portugal,

que simboliza a amizade Recife/Porto,

doado pela prefeitura do Recife para a cidade

portuguesa. Porém, como a produção de

escultura é muito cara e exige uma estrutura

grande, Mont´Elberto, decidiu aumentar e diversificar

a produção, que hoje conta com um

mix de quase 1.000 produtos. Como se não

bastasse o trabalho de escultor e de empresário,

é também técnico de restauração de

monumentos da Prefeitura do Recife e consultor

do Sebrae. Sobre o lema da empresa,

ressalta: “A sustentabilidade é o lema principal

da nossa empresa, a gente não descarta

n Elementos

da natureza como o

coco inspiram a criação

do artista plástico Alex

Mont’Elbert

52 > > dezembro

n Madeira do coqueiro é utilizada para produzir esculturas

“A sustentabilidade

é o lema principal

da nossa empresa. A

gente não descarta

praticamente nada,

recicla tudo, o

descarte é mínimo”

Alex Mont’Elberto

praticamente nada, recicla tudo, o descarte

é mínimo.”

Outra empresa de destaque é a Artes

e Ofícios. Formada por cinco mulheres da

mesma família, três irmãs e duas sobrinhas:

Silvia Guerra, Maria Eduarda, Maria de Meira

Lins, Margarida Amaral e Ana Cristina Meira

Lins, começou há 21 anos, com uma loja

embaixo e o ateliê em cima. As peças eram

feitas no ateliê e vendidas na loja. Em 1991

montaram a fábrica. Os produtos são feitos

por artesão na casa deles, com o desenho e

orientação das sócias, e na fábrica é feita

toda a parte de montagem e acabamento


das peças. Atualmente a empresa tem um

mix com 600 itens, que vão desde fruteiras,

castiçais e luminárias a pequenos móveis.

Utilizando materiais reciclados, madeira de

reflorestamento e de coqueiro, a empresa

exporta para países como Venezuela,

Bolívia e Angola e recebeu da Associação

Brasileira da Indústria de Móveis o “Quality

for Export”, selo que certifica a qualidade

os produtos.

Uma das marcas registradas das lojas

de Porto de Galinhas são os peixes coloridos

de vidro. Esse trabalho é desenvolvido

por Iara Tenório, há mais de 15 anos. Com

um ateliê em Piedade e uma loja no Paço

Alfândega, exporta seus objetos para países

como França, Espanha e Alemanha.

Formada pela Escola Pan Americana de

Arte de São Paulo, a designer utiliza materiais

novos e também reciclados. No ateliê

usa um forno de alta temperatura para derreter

as chapas de vidro dentro da forma,

o que resulta em um trabalho que é a cara

do verão pernambucano: colorido e alegre.

Os vidros de Tenório viram flor, mandalas,

folhagens e também os conhecidos peixes.

“A aceitação é muito boa, mas a gente precisa

divulgar mais. É um vidro colorido, uma

releitura da cor natural e tem uma cara bem

brasileira pelo colorido tropical. Na Europa

as cores são mais sóbrias, aqui tem a cor

de praia” ressalta a design.

Além de coqueiros, tronco de bananeira,

couro e escamas de peixe e vidros,

no grupo da Exportarte tubos de PVC também

viram objetos de decoração. Esta

foi uma ideia do arquiteto Isnaldo Reis,

hoje bastante popular em lojas e feiras

de bairro. Em 2000, ele fez a primeira

exposição na Associação Comercial. Em

2002 ganhou o primeiro lugar na feira internacional

The New York Homes Textiles

Show, nos Estados Unidos, na categoria

assessórios para casa. A empresa Isnaldo

Reis Designer foi criada em 2004 e

também foi contemplada com o Prêmio

Sebrae Top 100 de Artesanato deste ano.

Além de luminárias, a empresa produz

outros objetos como mandalas e suplás.

Com uma capacidade de produção de

500 peças mensais, exporta para a França,

Alemanha e Estados Unidos, que, no

entanto, deu uma parada por conta da

crise econômica, mas já está aos poucos

retomando o ritmo normal.

“Nós criamos aqui o primeiro emprego,

Alexandre Albuquerque

n Luminárias de PVC são exportas para Europa e Estados Unidos

todos os nossos funcionários entram com 18

anos, sem qualquer experiência e nós assinamos

a carteira profissional pela primeira vez.

Ele não precisa ter um conhecimento específico,

mas tem que ter jeito com trabalho

manual, que ele goste e se sinta bem com

este tipo de trabalho,” explica Mona Holanda,

sócia de Isnaldo Reis. Além da responsabilidade

social, a empresa busca também não

desperdiçar nada. “A gente trabalha com o

Alexandre Albuquerque

n Mona Holanda cobra mais

apoio do Governo

aproveitamento do lixo, nós tínhamos muito

retraço, então surgiram as peças pequenas

como saboneteira, porta guardanapo, porta

copo, bijuterias. O que iria para o lixo vira obra

de arte,” destaca Holanda.

“Todas as empresas da Exportarte tem

essa filosofia de aproveitar tudo. Nós queremos

chegar mais junto do Governo do Estado

para que tenhamos um apoio maior. O

Governo incentiva muito o artesanato suvenir,

mas ele precisa também incentivar as

micro empresas. A gente está empregando

pessoas, está contribuindo, e pagando imposto.

Nós temos qualidade, produção, mas

nunca conseguimos participar de feiras no

exterior porque as dificuldades são muito

grandes. Nós sabemos que anos atrás, no

governo de Miguel Arraes, ele conseguiu

levar algumas empresa para o exterior com

o apoio do Estado. A gente aqui ainda não

teve isso,” destaca Holanda.

De fato, com tantas empresas multinacionais

vindo para Pernambuco é importante

ter reforçada a identidade local, e sem dúvida

um artesanato forte, que é o resultado

da criatividade e do trabalho destes artistas

contribui para fortalecer essa identidade.

Tanto os pequenos artesãos quanto os que

produzem em grande escala e com isso

levam a arte pernambucana para os mais

distantes lugares merecem todo apoio do

Governo do Estado e da sociedade pernambucana.

Valorizar esses artistas é valorizar a

arte de Pernambuco. n

dezembro >

> 53


Livro

Brasil e Pernambuco

no Mundo Pós-crise

SALA DE AULA | No lançamento da Agenda TGI 2010, o consultor Francisco

Cunha avaliou a conjuntura atual e traçou cenários para os próximos anos

P ouco mais de um ano após o epicentro

da crise econômica que varreu o

mundo, as perspectivas otimistas sobre o

Brasil se confirmaram. O País foi um dos

primeiros a sair da crise, com economia

forte, inflação sob controle e uma nova

classe média em ascensão, resultado da

elevação real da renda da população mais

pobre. Pernambuco também passou ao largo

da turbulência global. Os investimentos

nos projetos estruturadores foram mantidos

e o Estado continua diante de sua

melhor oportunidade de desenvolvimento

dos últimos 50 anos. O grande desafio que

se impõe ao Governo, empresários e gestores

é potencializar o capital intelectual

instalado visando à profissionalização da

gestão empresarial e o desenvolvimento

de uma economia criativa, capaz de enfrentar

a concorrência acirrada que se instala

no Estado.

A avaliação foi feita pelo consultor

Francisco Cunha, diretor da TGI Consultoria

em Gestão, durante o lançamento

da Agenda TGI 2010, realizado no Teatro

Guararapes, no Centro de Convenções de

Pernambuco, no dia 30 de novembro. Ele

falou para cerca de 1.200 empresários,

executivos e profissionais convidados

sobre o tema “Perspectivas do Mundo

Pós-Crise: Oportunidades, Ameaças e

Desafios do Brasil e de Pernambuco”,

avaliando a conjuntura atual e traçando

os cenários mais prováveis para os próximos

anos no mundo, no Brasil e em

Pernambuco.

De acordo com Francisco, o modelo

econômico que deve emergir desse cená- n Agenda TGI: lançamento com avaliação sobre as perspectivas do mundo pós-crise

54 > > dezembro


io pós turbulência será mais equilibrado. A

crença no mercado autorregulado e em um

sistema financeiro onipotente deve dar lugar

a um modelo mais sustentável de desenvolvimento.

A conta, entretanto, foi alta. Estima-se

que os governos, com o norte-americano

à frente, tenha gasto cerca de US$ 14 trilhões,

bancados pelos contribuintes, nos

pacotes de saneamento do sistema bancário

e de estímulo à economia. A crise

causou impactos significativos no comportamento

da população. Consumidores

contumazes, os norte-americanos estão

gastando menos, cortando despesas e

adotando novos hábitos de consumo desde

que começaram a sentir os efeitos da

crise.

Além dessa “nova ordem econômica”, o

crescimento dos países emergentes é, para

o consultor, outro fator que contribui para

um maior equilíbrio econômico em escala

mundial. Em 2014, segundo projeções do

FMI, o PIB Mundial deve alcançar a marca

de US$ 89 trilhões, sendo 51% dos países

pobres e 49% dos países ricos. Em 2000, a

participação no PIB mundial de US$ 41 trilhões

era de 37% dos países pobres e de

63% dos países ricos.

BRASIL

Há um ano, no lançamento da Agenda

2009, Francisco Cunha afirmava que

o Brasil seria um dos países que menos

sofreria com a crise, por estar em uma

situação privilegiada para enfrentar as

turbulências externas. A ex-

pectativa se concretizou. A “blindagem”

ocorreu por uma combinação de fatores,

com destaque para a manutenção da

base macroeconômica e as reservas que

eliminaram a dívida externa pública. “Outro

fator determinante

para o bom momento da

economia brasileira foi

a inclusão social registrada

nos últimos anos,

com políticas de redistribuição

de renda e

crescimento da classe

média”, destacou.

Para Francisco, há

inúmeras razões para

projetar um cenário

otimista para o País,

neste momento pós

crise. Entre elas: (1)

Reservas de mais de

200 de bilhões de

dólares intocadas

depois de 11 meses

de crise. (2) Bancos

competentes, regulados,

com baixa

exposição a riscos e

provisionados contra

calotes. (3) Ausência

de bolhas de crédito

e imobiliária, com potencial

de crescimento

real dos setores.

(4) Mercado interno

forte, crescendo em

poder de compra e

em proporção da população

e (5) Matriz

energética mais ‘verde’

do mundo, com

independência de

petróleo importado.

“O problema está

no médio e longo

prazos se questões

básicas como poupança

para investimento

em infraestrutura,

educação e

segurança não forem

tratadas como políticas

de desenvolvimento

sustentado e

não apenas conjunturais”,

analisou.

PERNAMBUCO

Pernambuco mantém-se em um cenário

otimista, na melhor oportunidade de desenvolvimento

dos últimos cinquenta anos.

Durante a apresentação, Francisco Cunha

traçou uma avaliação estratégica para o Estado.

“Para aproveitar essa janela de oportunidades,

Pernambuco tem como principal

força sua tradição de empreendedorismo e

acúmulo de know how técnico —capital intelectual

— para condução dos negócios”.

Ele ressaltou, entretanto, que é preciso

estar atento às ameaças: acirramento

da concorrência, em especial a vinda de

fora, e ambiente empresarial adverso —

alta carga tributária, financiamento caro

e raro, infraestrutura deficiente, baixa

capacitação da mão de obra, burocracia.

“Também é importante que empresários

e gestores enfrentem uma grave fraqueza

- o baixo índice de “empresariamento”

e forte conservadorismo na gestão, com

apego às formas tradicionais de administração”,

assinalou. n

dezembro >

> 55


crise econômica da qual o Brasil está- com sucesso- se

A recuperando mais rapidamente do que a média mundial

deixou, com alguma inércia, uma outra, de natureza fiscal, que

ainda está atingindo todos os níveis de governo, especialmente

Estados e Municípios. De fato, a União perdeu arrecadação

de impostos e contribuições por conta da queda no nível da

atividade econômica e em decorrência da renúncia fiscal do IPI.

Essa última foi desenhada para mitigar os efeitos da demanda

cadente e da escassez de crédito sobre o produto e o emprego

da indústria automotiva e de bens duráveis de consumo da

linha branca (fogões, máquinas de lavar, refrigeradores etc.).

Os Estados e Municípios perderam também receita própria por

conta da crise e, adicionalmente, foram adversamente atingidos

pela renúncia fiscal do Governo Federal.

A União, além disso, aumentou os gastos de custeio e de

pessoal, em comportamento típico do estado brasileiro em ano

pré-eleitoral. Queda de arrecadação e aumento dos gastos públicos

tem deteriorado as contas do Governo Federal: o déficit nominal

em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) aumentou de 3,09%

nos doze meses terminados em maio último para 4,29% nos doze

meses findos em setembro passado. Nos mesmos doze meses de

comparação, o dinheiro que o Governo poupa para pagar os juros da

divida - denominado de resultado primário-caiu de 2,29% para 1,17%

do PIB. Por sua vez a trajetória da relação divida interna/PIB elevouse

de 38,8% em 2008, para 45% em outubro de 2009, revertendo

uma tendência de recuperação que começou a partir de 2004.

O incentivo fiscal à indústria automobilística e de bens

duráveis de consumo da linha branca deu-se também à custa

dos Estados e Municípios que tiveram subtraída da base de

recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do

Fundo de Participação dos Municípios (FPM) a renúncia fiscal

do IPI. Ou seja, o nível de emprego no setor automotivo e no

setor produtor de fogões, refrigeradores etc., foi mantido com a


56 > > dezembro

Economia






Crise e Renúncia Fiscal:

impactos regionais





Jorge Jatobá

jorgejatoba@revistaalgomais.com.br

contribuição compulsória de Estados e Municípios que sofreram

queda ainda maior do FPE e do FPM além daquela decorrente

da própria inibição da atividade econômica. Isto é, por cima da

queda, coice. A União fez generosidade fiscal com imposto que

compartilha com os demais entes federados e não com impostos

e contribuições de sua exclusiva titularidade.

Para compensar essas perdas os municípios demandaram

e conseguiram, em parte, obter recursos, a fundo perdido, do

Governo Federal. Todavia, os Estados não tiveram o mesmo

tratamento. A eles foi concedido linha de crédito do BNDES. Isto

é, tiveram que se endividar para compensar parcialmente a perda

de recursos advindas da crise em si e da política de incentivo

fiscal da União. Esses recursos, todavia, estão carimbados

apenas para investimentos. Os gastos com o custeio e com

pessoal terão que ser cobertos com arrecadação própria que

ainda está sofrendo os efeitos da queda da atividade econômica.

Uma das consequências desse desajuste fiscal foi que os

governos tiveram que endurecer com os seus funcionários no

que diz respeito às demandas por reajustes salariais. Tal restrição

intensificou o atrito entre governos estaduais e sindicatos de

servidores por promessas e compromissos assumidos quando

no horizonte fiscal tudo ainda era bonança. As greves recentes e

em curso tem esta gênese.

O resultado da política fiscal anti-crise foi manter o emprego

nos Estados que hospedam os empreendimentos da indústria

automotiva e da linha branca entre os quais não se situa

Pernambuco. Ou seja, ajudamos a manter o emprego dos

outros e aumentamos a nossa divida em uma iniciativa que-bem

sucedida do ponto de vista do país como um todo-foi perversa

para os Estados menos afluentes. Denomina-se esse fenômeno

de efeitos implícitos e regionalmente adversos da política anticiclica

do Governo Federal sobre os Estados não produtores dos

bens premiados pela renúncia fiscal.


dezembro >

>

57


Tecnologia

Educação 2.0

SALA DE AULA | Notebooks para professores e alunos, novas metodologias,

quadros sensíveis ao toque, aulas de robótica. Entenda como a tecnologia está

mudando o ensino nas escolas pernambucanas e o que ainda está por vir

Conversar com Yasmin Campos Arraes,

11 anos, é descobrir uma nova faceta

da juventude pernambucana. Apesar de ser

aluna do 6º ano, fala com desenvoltura de

quem já tem muito tempo de estrada no

mercado profissional. O movimento seguro

das mãos, o vocabulário, a seriedade. Tudo

graças à metodologia inovadora implementada

pelo educador Walewsky Adriano Lima,

diretor do Colégio Neo Planos, no Recife.

Desde o ano passado os alunos passaram

a contar com uma nova rotina na sala de aula.

Notebooks convivendo com cadernos, grupos

ao invés de fileiras, aulas de liderança, tutor

pedagógico. “Não basta colocar a tecnologia no

dia-a-dia dos estudantes, é preciso criar novas

ferramentas para adequar o ensino a essa nova

realidade, muito mais dinâmica”, diz Walewsky.

Alexandre Albuquerque

n Tecnologia e

criatividade: alunos

do Neo Planos aprovam

nova metodologia

58 > > dezembro

A ideia surgiu há cinco anos, quando

ele começou a pesquisar processos educacionais

desenvolvidos por teóricos como

Piaget, Paulo Freire, Rubem Alves para criar

uma nova metodologia. “Percebemos que a

educação do século XXI ainda era a mesma

do passado, onde o aluno é estático. Esta é

a primeira geração que já nasceu com a internet,

mas chega à escola e para por causa

dos métodos tradicionais”, explica.

Ao contrário do que normalmente se

vê nos colégios, os alunos do Neo Planos

contam com um ensino construtivo, onde o

aluno faz a aula junto com o professor. Independente

da matéria, o educador passa

uma explicação geral sobre o assunto para,

então, os alunos acessarem os notebooks –

todos com conexão Wi-Fi – e fazerem uma

apresentação em Power Point com o que

encontraram na web, que ainda deve ter

sugestões de exercícios. Daí pra frente os

grupos repassam seus slides via e-mail para

todos os alunos da turma e explicam o que

encontraram. Tudo acompanhado pela professora

e uma tutora pedagógica.

Já a figura da pedagoga aparece como

uma forma de personalizar o atendimento

aos alunos. Enquanto o professor passa por

diversas turmas para dar o assunto em que

é especialista, o tutor é fixo em cada série.

“Ela conhece os problemas de cada um de

nós e nos ajuda”, conta Yasmin.

Implantada há pouco mais de um ano, a

nova metodologia vem se provando eficiente.

Os professores, normalmente grande

barreira para esse tipo de mudança, relatam


Alexandre Albuquerque

n Walewsky: colégio tem

que evoluir junto com a sociedade

ter mais facilidade para passar o conhecimento

e controlar as turmas. O número de

equipamentos danificados na escola caiu

em mais da metade, os problemas de relacionamento

entre os estudantes também

foram reduzidos. A escola já recebeu até

visitas da diretoria da Microsoft e do senador

Cristovam Buarque, interessados em

conhecer a metodologia. “Tínhamos alunos

indisciplinados que melhoraram de forma

significativa com o uso dos PCs na sala.

Por ser mais dinâmico, próximo com a vida

deles fora da escola, fica mais fácil prender

a atenção”, comemora a professora

Alexandre Albuquerque

n Cláudio de Castro:

R$ 8,9 milhões

só no primeiro ano

de atividade da E-duc

de matemática Vera Gomes.

“Temos que mudar a ideia de

que o computador serve só

para jogar”, complementa a

pedagoga Ana Cavalcanti.

No setor público, o programa

Professor Conectado,

do Governo do Estado, distribuiu

mais de 26 mil notebooks

para os docentes da

rede de ensino, possibilitando

uma maior integração entre

eles e a tecnologia que em

breve deverá estar presente

no dia-a-dia das escolas. Os

computadores com configuração

de ponta contam ainda

com um pacote de softwares

educacionais fornecidos pela

Educandus, a enciclopédia digital UNO e do

dicionário Houaiss.

Bem sucedido, o projeto inspirou a Prefeitura

do Recife a adotar um modelo parecido,

o Professor.com, lançado em outubro

passado. A ideia é beneficiar os 4.750 professores

do Grupo Ocupacional Magistério

da Secretaria de Educação, Esporte e Lazer.

O grande trunfo, porém, está na novidade

da ajuda de custo para que os professores

tenham conexão à internet e a criação do

portal Educar Recife, que servirá como espaço

para troca de experiências e formação

contínua.

A Sala

do Futuro

O encontro entre tecnologia e educação

não deve parar por aí. Quem garante é o empresário

Cláudio de Castro, sócio da pernambucana

E-duc. Especializada em comercializar soluções

de última geração para o setor educacional, a

empresa vem faturando alto durante o pouco

mais de um ano em que está na ativa. Já são

mais de R$ 8,9 milhões em faturamento e a expectativa

de crescer 150% em 2010.

Com produtos desenvolvidos em parceria

com diversas empresas do setor de Tecnologia

da Informação (T.I), descobertas durante mais

de um ano de visitas a feiras de educação, a Educ

já possui em sua carteira clientes de nove

Estados, além do Distrito Federal.

Dentre o mix de soluções oferecidas, a Sala

do Futuro é a que vem chamando mais a atenção

dos gestores por englobar diversas revoluções

no método de ensino. Tudo por conta da

empresa pernambucana, que se responsabiliza

até pelas mesas e cadeiras utilizadas e a capacitação

dos professores para utilizarem as novas

tecnológicas, como lousa digital, prancheta

eletrônica e projetos de robótica. “Com a Sala

do Futuro propomos uma mudança no ensino

como um todo, em seu método e equipamentos.

Os computadores, por exemplo, contam

com um aplicativo que permite os alunos mexer

livremente, sem risco de desconfigurar a máquina,

acabando com um dos grandes problemas

enfrentados pelas escolas. Além disso, temos

um sistema de monitoramento para impedir

roubos e furtos”, explica Castro.

Em Pernambuco, a solução pode ser integrada

nas escolas a partir de 2010, quando

será aberto um processo de licitação por parte

do Governo do Estado. “O difícil é convencer os

gestores porque, ao contrário do que se pensa,

os professores ficam até mais motivados de dar

aula em uma sala dessas”, diz o sócio da E-duc.

O sucesso foi tanto que antes mesmo

de completar o primeiro ano de atividades a

empresa anunciou um plano de expansão ancorado

na paraibana NE Digital, com a qual já

trabalha há seis meses em modelo de sociedade.

Segundo ele, os novos projetos que são

encaminhados para a análise da empresa podem

se tornar uma solução se tiver mercado e

condições de ser produzida. A patente fica com

o inventor e a E-duc assina um contrato de exclusividade

na comercialização da novidade. n

dezembro >

> 59


Futebol

“Meta é atuar numa Copa”

ARBITRAGEM | O pernambucano Nielson Nogueira se firma

entre os melhores do Brasil na temporada e já sonha com

uma vaga no quadro da Fifa e, naturalmente, uma Copa do Mundo

futebol pernambucano passou o

O Campeonato Brasileiro da Série A

agonizando com os pífios resultados de

Sport e Náutico. De positivo, apenas a

atuação dos árbitros pernambucanos na

competição. Nielson Nogueira e Cláudio

Mercante saíram ilesos de um campeonato

em que a arbitragem acabou desgastada

por atuações que influíram em resultados

de jogos e podem até ter mudado o destino

da competição, tanto dos rebaixados

quanto dos classificados à Libertadores.

O capitão da Polícia Militar Nielson

Nogueira foi o que mais se destacou,

dirigindo nove partidas da Série A até

a 34ª rodada, sete na Série B, uma na

Copa do Brasil e uma na D, exatamente

um dos jogos mais complicados em

âmbito local, Central 1x0 Santa Cruz,

em Caruaru. Aos 35 anos, ele já fez

quatro cursos de aperfeiçoamento, um

deles com participação do presidente da

Confederação Sul-Americana de Futebol

e diz que a busca pelo conhecimento e o

estudo das regras vem dando resultados.

Atualmente, espera que surja uma

vaga para entrar no quadro da FIFA. O

próximo posto a ficar vago será o do

gaúcho Carlos Eugênio Simon, indicado

para atuar no Mundial de 2010 na África

do Sul, mas bastante desgastado após

suas péssimas atuações este ano no

Brasileiro.

A segunda vaga que pode surgir é a do

gaúcho Leonardo Gaciba, reprovado em

vários testes da Comissão Nacional de

Arbitragem, mas que continua atuando e

tendo seu trabalho questionado.

“Todo jogador sonha em um dia chegar à

60 > > dezembro

seleção brasileira, e todo árbitro sonha em

trabalhar numa Copa do Mundo e dirigir

uma final, este é o meu objetivo”, conta

Nielson. “No caso de uma final de Copa

seria uma alegria e uma tristeza, porque

neste caso o Brasil teria de estar fora da

decisão”, comenta.

Nielson é filho do ex-árbitro e major

reformado da PMPE Nelson Gonçalves

Dias, que se formou pela Federação

Pernambucana de Futebol na década de

70, não dando continuidade a carreira de

árbitro profissional.

“Às vezes, o árbitro

vê coisas que

a tevê não mostra,

mas também

acontece

o contrário”

Algomais |Como é marcar dois pênaltis

contra o Flamengo, no Maracanã

(jogo Flamengo 1x0 Santos)?

Nielson Nogueira | O Flamengo é mais um

time entre os 20 que participam do Brasileiro

série A, todo árbitro tem que encarar desta

maneira, embora saibamos que é um clube

de muita tradição. Da mesma forma que marquei

os dois pênaltis, marquei três num jogo

Santa Cruz x Vera Cruz, no Arruda, todos a

favor do Santa Cruz. Os dois pênaltis ficaram

visíveis para mim. A imagem dentro de campo

estava muito nítida pra mim. Às vezes, o

árbitro vê coisas em campo que as câmeras,

pelo posicionamento, não conseguem registrar,

como também acontece o contrário.

AM | E o caso Ronaldo, ele pediu para

tomar um cartão amarelo?

NN | Eu não tinha a informação de que Ronaldo

tinha dois cartões amarelos. No intervalo

da partida, ele passou por mim, mas não pediu

para receber um cartão. O que aconteceu

é que o atleta Túlio, do Grêmio, ex-jogador

do Corinthians, estava chateado, talvez porque

não teve tantas oportunidades quando

estava no Corinthians, bem como ter perdido

aquela partida e resolveu falar isso. Ronaldo

me perguntou o que é que ele faria para levar

um cartão, isso com aquele jeito bonachão

dele, o semblante engraçado. Fiquei até sem

resposta para ele e me virei. Poderia até ter

respondido de forma irônica, tipo é só fazer

outro gol (ele já havia marcado um gol no primeiro

tempo), ir lá no alambrado e mostrar a

barriga para a torcida, mas não fiz isso, pois

a ética e o profissionalismo não me permitem

dar uma resposta dessas. Depois é que fiquei

sabendo que ele tinha dois cartões.

AM | Como é a sua preparação?

NN | Sigo uma rotina de treinamentos com

a orientação de um professor de educação

física e faço provas a cada dois meses, as

avaliações são feitas pelo chefe da Comissão

de Arbitragem da Federação Pernambucana

de Futebol, Francisco Domingos. Após

cada partida em que atuo, assisto aos vídeos

junto com os assistentes para verificar os

erros. Isso é mais um aprendizado.

AM | Você acha que os árbitros prejudicaram

os clubes pernambucanos

neste Brasileiro?

NN | De acordo com um estudo da International

Board, um árbitro toma de 120 a

180 decisões por partida. A International

Board diz que 5% é o limite tolerável de

erros dessas decisões, mas se dentro des-


ses 5% houver erros que alterem o resultado

da partida isso é inadmissível. Agora, se os

erros foram superiores a este percentual e

influenciaram no resultado da partida, com

certeza, eles prejudicaram.

AM | Vocês sentem que um erro do árbitro

pode abalar uma equipe?

NN | Sim, um erro pode abalar um time.

Mas é bom lembrar que, às vezes, os jogadores

não estão emocionalmente preparados

para atuar numa partida. Mesmo aqueles

que ganham um alto salário mostram

descontrole.

AM | Que exemplos você pode dar a

esse respeito?

NN | O que já me chamou a atenção foi Nildo,

aquele que jogou no Sport, no Náutico e

no Santa Cruz. Em todas as entrevistas, ele

sempre coloca o nome de Cristo, e eu até

acredito que ele é realmente um sujeito religioso,

as entrevistas dele são todas voltadas

para o evangelho, mas dentro de campo ele

toma certas atitudes que nem o Satanás iria

perdoar. Já aquele goleiro do Náutico, Eduardo,

é uma pessoa muito equilibrada, total-

n Nielson chegando à Granja Comary, em Teresópolis-RJ, para curso de aperfeiçoamento

promovido pela Conmebol

mente calma em situações de tensão.

AM | E os treinadores?

NN | Se colocar um microfone na beira do

gramado, é possível ver o que eles fazem, pois

alguns, com seus gritos, acabam desequilibrando

totalmente os jogadores, alguns atletas

ficam até intimidados e com medo de jogar.

AM | Quais são os árbitros que você

escolheu como bons exemplos?

NN | Sempre procuramos extrair dos nossos

companheiros os bons exemplos e dentre

aqueles que se destacam mais, por ser de Pernambuco

e está maior tempo em contato nas

atividades comigo, destacaria: Antônio André,

Jossemmar Diniz, Salmo Valentim, Emerson Sobral,

Cláudio Mercante e Erich Bandeira. Todos

tem muito a repassar não só na parte técnica

dentro de campo, mas também são exemplos

de bom caráter e personalidade forte. No Brasil

destaco o Sálvio Spínola de FIFA/SP. n

dezembro >

> 61


Desenho

História e humor

de mãos dadas

nos cartuns

de Humberto

LIVRO | Cartunista lança álbum luxuoso, pela Edições Bagaço, mostrando de

forma bem-humorada os monumentos históricos pernambucanos

Por José Neves Cabral

traço fino e, equilibradamente, bem humora-

O do que o cartunista Humberto Araújo expõe

nas páginas dos jornais locais há 34 anos (iniciou

a carreira aos 15 no Diário de Pernambuco e atualmente

trabalha no Jornal do Commercio) presta

um serviço aos pernambucanos, ávidos em

conhecer os monumentos históricos do estado,

e também aos turistas. No mês passado, este

craque do desenho, formado em Arquitetura

pela UFPE, lançou o livro Cartuns Postais.

O álbum, da Edições Bagaço, recebeu

um luxuoso tratamento gráfico e editorial,

62 > > dezembro

que justifica o preço cobrado pelo exemplar

R$ 120, e reúne 40 imagens publicadas durante

dois anos na Revista JC. Ao lado dos

desenhos, há as fotos dos monumentos

com texto explicativo de autoria da jornalista

Cleide Alves. O sucesso do lançamento,

no último dia 12, no Paço Alfândega, levou

o autor a pensar numa edição mais simples,

acessível aos estudantes interessados em

conhecer os monumentos pernambucanos.

Com o trabalho, o autor revela seu olhar

atento sobre o estado e o cotidiano das pessoas

que passam diariamente pelos monumentos,

como na imagem da escultura do abolicionista

Joaquim Nabuco, segurando uma corrente quebrada,

nas proximidades da Ponte da Boa Vista

(Ponte de Ferro) ou da moça de saia curtíssima

diante da coluna de cristal feita pelo artista

plástico Francisco Brennand, no Marco Zero,

ao mesmo tempo em que é observada por um

rapaz. Outra cena que estimula e dá margem a

várias interpretações é a de São Pedro jogando

a chave da igreja, fechada, para o padre que

está chegando.

“Já ouvi diversas opiniões a respeito desta

imagem, cada pessoa faz a sua, umas dizem

que é a igreja se fechando para a participação

popular, outras que é São Pedro convidando o

padre para subir... em vez de entrar. A interpretação

é livre. Nada como o humor para seduzir e

conquistar”, comenta.

O carttunista diz que as pessoas passam

pelos monumentos, mas não conhecem. “E

não se gosta do que não se conhece, a partir

do momento que elas conhecem, passam a se

alimentar muito mais deles”, explica.

Como chargista, ilustrador e cartunista,

Humberto já conquistou três prêmios Cristina

Tavares, além de ter participado de diversos

salões de humor pelo Brasil. Cartuns Postais

é o quarto livro de sua carreira. Está à venda

nas livrarias da cidade e também pode ser

adquirido por pedido de entrega em domicílio

pelos números 3205 0133/0134.


“As pessoas só gostam

do que elas conhecem”

Algomais | Como surgiu a ideia de fazer

o livro?

Humberto Araújo | A minha própria formação

de arquiteto me levou a esse tipo

de levantamento. Os desenhos com as situações

de humor complementam a minha

formação de arquiteto e cartunista. Os cartuns

trazem informações históricas abastecidas

pelo humor do cotidiano. Os desenhos

também passaram a ser um levantamento

histórico dos prédios.

AM | Na verdade, em alguns você colocou

o humor do cotidiano, como naquela

imagem da moça com uma saia

curtíssima observando a coluna de

cristal feita por Francisco Brennand,

muito associada a um falo?

HA | É uma situação de humor criada a

partir da história dos lugares. Quando Brennand

fez aquele monumento surgiram vários

questionamentos. E isso alimentou a ideia

para se gerasse uma situação de humor. Então,

através do desenho do monumento, do

prédio, eu crio uma situação de humor que

faz parte da história do lugar.

AM | Além do humor, o livro é também

didático porque contém sempre um texto

de apoio feito pela jornalista Cleide

Alves (uma autoridade em patrimônio

histórico), sobre esses monumentos,

ao mesmo tempo em que pode também

servir como informação turística (Os

textos são traduzidos para o inglês).

HA | A função do jornalista é oferecer a todos

os níveis de leitores numa linguagem precisa as

informações necessárias para que eles conheçam

os monumentos, tanto o leitor que mora

na cidade e às vezes passa por esses lugares

sem prestar atenção, quanto ao turista.

AM | Dessa forma o livro é uma forma

de fazer os próprios pernambucanos

conhecerem a cidade.

HA | A gente não gosta do que não conhece,

a gente não ama quem não conhece. Então,

n São Pedro jogando

a chave da Igreja para

o padre dá margem a várias

interpretações

a partir do momento

em que você passa

a conhecer os lugares,

você se alimenta

muito mais deles.

Cleide fez isso com

muita competência.

E nós somos de

uma geração que

vivenciava muito

mais a rua. Hoje, se

vivencia muito pouco

a rua, o que gera

essa necessidade.

Através da informática,

com a internet,

você pode até conhecer

o fato, mas

conhecer é uma

coisa e vivenciar é

outra.

AM | A arquitetura,

neste aspecto,

assume

seu papel histórico

no livro?

HA | A arquitetura assume o papel de contar

a história. Para mim, fazer esse livro com

os cartuns postais foi fantástico. Fantástico e

prazeroso.

AM | Você também aprendeu nesse

roteiro de monumentos?

HA | Com tanto tempo de freqüência e de

andanças pelo Recife eu não havia percebido

que ali, na Pracinha de Boa Viagem, havia

um obelisco. Eu não tinha observado até

então que ele existia e que é um marco da

construção da Avenida Boa Viagem.

AM | Qual foi a sua orientação para fazer

esse roteiro de monumentos históricos?

HA | A orientação foi emocional. Mas também

me guiei pelo calendário turístico do Estado. É

basicamente o que Pernambuco oferece em

termos de atração aos turistas. n

dezembro >

> 63


Memória Pernambucana

O cangaceiro

das flores

GRANDE MESTRE | Wellington Virgolino semeou vida com a beleza das flores,

das borboletas e de meninos meio alegres meio enigmáticos que povoam suas telas

Uma agência de propaganda recifense

era o ponto de encontro de muitos dos

maiores artistas plásticos da época com o

pintor Wellington Virgolino, um dos sócios da

empresa. Sócio durante pouco tempo, diga-se,

já que o artista resolveu, ainda bem, dedicar-se

integralmente ao seu talento. Melhor para as

artes plásticas, como logo se veria.

O começo foi assim: de infância materialmente

pobre, a riqueza de experiências logo

fez aflorar a criatividade que o acompanharia

vida afora. Sem dinheiro para comprá-los, produzia

os próprios brinquedos, como bicicletas

de madeira, revólveres que atiravam balas

de feijão e milho, espadas que não cortavam

nem furavam, violões a partir de latas de doce,

telefones a partir dos fundos das latas de talco,

projetores de cinema feitos de caixas de

charutos, lentes de aumento a partir de lâmpadas

incandescentes queimadas, carrinhos

de rolimã. Criava um mundo de fantasia que

afloraria também nos cadernos escolares, nas

cartolinas, nos lápis de cor, nas aquarelas, nos

guaches e, definitivamente, na sua pintura tão

bela quanto inconfundível.

Nos anos 1950 juntou-se a vários artistas

e fundou um ateliê coletivo em que trabalhavam,

trocavam experiências, dividiam conhecimentos.

Havia, aliás, uma inter-relação tão

pronunciada, que eram muitos os trabalhos dos

quais não se sabia quem era o verdadeiro autor.

Ninguém assinava as telas, é claro.

Um dia, porém, Wellington Virgolino e

João Câmara, em um ato de ousadia, executaram

um quadro conjunto, concebendo-o de

um modo que as pinturas não se chocavam.

Pelo contrário, se integravam. Na pintura, uma

mulher pintada por João Câmara segurava um

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estandarte pintado por Virgolino, formando no

conjunto uma obra de extrema beleza e originalidade.

Estava ali mais uma materialização do

talento pernambucano.

Wellington Virgolino era recifense de corpo

e alma. De corpo, porque aqui nascido, de

alma pelo amor que devotava à cidade que viveu

amplamente, conhecendo-lhe os recantos,

os tipos e os lugares pitorescos. Os detalhes,

enfim. Cresceu, como homem e como artista,

em um Recife de cultura borbulhante, à frente o

sociólogo Gilberto Freyre, que, graças ao seu reconhecimento

internacional, nos descolonizava

culturalmente do Rio de Janeiro e São Paulo. As

novidades vinham diretamente da França, da

Inglaterra, da Alemanha e dos Estados Unidos.

Pois saiba que Gilberto Freyre tratava Wellington

Virgolino por colega, e costumava escrever

elogiosos comentários sobre a sua obra.

Os anos 1960 marcaram a

grande ascensão virgoliniana.

A aceitação dos seus trabalhos

na VI Bienal de São Paulo,

ecoou, como não poderia

deixar de ser. Todos os seus

quadros, todos, repita-se,

foram comprados e havia uma

alentada relação de pedidos

de novos trabalhos.

A fama cresceu, e Wellington Virgolino já não

era um pintor doméstico. Era um artista nacional.

Foi um passo para a sua primeira mostra individual

em São Paulo, o maior mercado do Brasil.

O tom era de blague, advirta-se, mas os quadros

com a assinatura W. Virgolino, dizia-se, eram

como o cheque ouro do Banco do Brasil, aceitos

em todos os lugares. Foi quase uma centena de

exposições individuais e coletivas no Japão, em

Portugal, na Inglaterra, no Rio de Janeiro, em

São Paulo, em Belo Horizonte, em Porto Alegre,

em Salvador, em Brasília, além do Recife, claro,

dessas, uma dúzia de exposições póstumas.

Virgolino era um supersticioso e se considerava

cabalisticamente ligado ao número nove.

Será que ele vislumbrava alguma coisa diante de

sua crença? Nascera em 19/9/1929, em uma

casa de número 5149, comungou em 1939,

conheceu Marinete, que viria a ser sua esposa,

em um dia 29, ao casar foi morar em uma casa

de número 9, sua filha nasceu no mês 9 (setembro),

calçava 39, o nome Virgolino é feito de 9

letras, sua altura era 1,69m, sua primeira exposição

na Ranulpho Galeria em 1969. Faleceu no

mês 9 (setembro), após realizar 19 exposições


n Reprodução do Guerreiro Mascarado do Cavalo Verde, de 1972

individuais, um marco na vida brasileira.

Farrista convicto, muitas

vezes saía da boêmia para

o trabalho. Uma vez, porém,

para comoção do Brasil, saiu

para a última morada.

Terminara uma triunfante entrevista na

TV Universitária e fora comemorar o sucesso.

Estava eufórico. De madrugada, já em casa,

sentindo-se mal foi levado ao hospital, onde

protagonizou uma cruenta batalha pela vida.

Lamentavelmente, no entanto, no dia 23 de setembro

(mês 9), Virgolino se foi. As palavras do

seu irmão, o artista plástico e escritor Wilton de

Souza, autor do livro Virgolino – O Cangaceiro

das Flores bem retratam a dor: “Durante

sua vida, Wellington criou seu próprio jardim,

um mundo novo com flores feitas à mão por ele

mesmo, onde cada pétala tem a cor de sua preferência

e cavalga em borboletas multicoloridas,

reinventando ilusões. Reinventou inventos de

sua infância, negando sua maneira de ser adulto.

Reinventou objetos e brinquedos que ninguém

tinha igual. Contava estórias em suas telas. Reinventou,

também, em sua pintura a guerra com

espadas de madeira que não feriam, não destruíam,

não matavam... O circo e suas próprias

invenções. A espada que traspassou a sua vida

e o matou feriu o meu coração, cheio de dor e

emoções. Wellington só não conseguiu reinventar

sua própria morte, levando consigo aquelas

mesmas flores e um sorriso indecifrável da vida.

Éramos irmãos. Na infância da vida e nas artes,

pintores e amigos. Tive o privilégio de ter sido

seu irmão, amigo e companheiro ao longo da

vida, testemunhando o carinho como realizava o

* Marcelo Alcoforado é publicitário e jornalista

marceloalcoforado@surfix.com.br

encontro com suas criações. Sempre reconheci

o grande mestre que tinha tão próximo e que,

nessa convivência, acompanhei até o momento

que deixou esta vida de reinvenções. Nas horas

difíceis, sempre estávamos juntos, contando

com uma palavra, uma brincadeira, sobretudo,

ao grande valor e alto conceito que ele me tinha.

Wellington fragilmente ausentou-se nas asas de

uma de suas múltiplas borboletas, tão ricamente

coloridas. Saudades de você, querido Letinho.”

Dois cangaceiros, duas épocas, duas vidas

diferentes. Virgolino Ferreira da Silva, o temido

Lampião, foi o cangaceiro que deixou um rastro

de mortes por onde passou. Outro Virgolino, o

Wellington, semeou vida com a beleza das flores,

das borboletas e de meninos meio alegres meio

enigmáticos que povoam suas telas e imprimem

uma página indelével na memória dos

pernambucanos.

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O s

66 > > dezembro

Última página

A Ferida de Guararapes

Montes Guararapes estão inscritos

na história do país como

berço da nacionalidade e local onde

nasceu o Exército Brasileiro. Foi lá

que, por duas vezes consecutivas

(em 1648 e em 1649) um aglomerado

de brancos, negros e índios, toscamente

armados de paus, pedras e

poucas armas de fogo, comandados

por brasileiros com escassa experiência

militar e um marechal de campo

português, derrotaram um bem

armado exército holandês que, na

primeira batalha, contava com mais de 5.000 soldados profissionais

(contra pouco mais de 2.000 nacionais) e, na segunda, com

3.500 contra 2.600. As duas vitórias heróicas foram decisivas

para a derrota e expulsão dos invasores, cinco anos depois.

Sobre a importância das batalhas para a nação brasileira, disse

Gilberto Freyre em discurso na Câmara dos Deputados no ano de

1948: “Nas duas batalhas dos Guararapes escreveu-se a sangue o

endereço do Brasil: o de ser um Brasil só e não dois ou três.”

Hoje, o sítio (de 363 hectares) está tombado e constitui o Parque

Histórico Nacional do Guararapes, no município de Jaboatão,

protegido pelo Exército. São três os montes: o primeiro, de quem

vai do Recife para Jaboatão, do Telégrafo, o segundo do Oitizeiro

e o terceiro da Ferradura (onde encontra-se a belíssima Igreja de

Nossa Senhora dos Prazeres, monumento nacional da arquitetura

religiosa barroca, cuja primitiva capela foi mandada construir pelo

então capitão-mor de Pernambuco, Francisco Barreto de Menezes,

em ação de graças pelas duas vitórias alcançadas, e onde estão os

restos mortais de João Fernandes Vieira e André Vital de Negreiros,

dois dos comandantes da Guerra da Restauração).

Pois bem, embora o perímetro esteja cercado e o parque

relativamente preservado, o primeiro dos três morros, o do Telégrafo,

está sendo submetido a um intenso processo de erosão da

sua face norte. Tão intenso e extenso que pode ser visto de pra-

Francisco Cunha

franciscocunha@revistaalgomais.com.br

ticamente toda a planície do Recife,

a partir de determinada altura, se a

vista estiver desimpedida na direção

sul. É essa erosão que eu chamo de

“ferida” pela péssima impressão que

causa ao observador, inclusive àqueles

que chegam e partem pelo Aeroporto

Internacional do Guararapes

que fica de frente para o morro erodido.

Pode ser facilmente reconhecida

pela cor de barro avermelhado que

apresenta em contraste com a cor

predominantemente esverdeada da

continuação da elevação na direção oeste e, de um modo geral,

de todo o cinturão de morros que contorna, em forma de anfiteatro,

a planície do Recife.

Esse “anfiteatro”, uma marca natural indelével da paisagem

recifense, começa ao norte na colina histórica de Olinda, segue

na direção oeste, passando por Casa Amarela, fazendo a “curva”

em Dois Irmãos, Camaragibe, Curado e retomando a direção do

mar pelo Jordão até os Montes Guararapes.

Estancar este processo, preservando o morro histórico do

desmonte e a paisagem recifense da visão mutiladora, é urgente,

sobretudo porque a situação piora à medida que o tempo passa.

Apesar da magnitude da obra de engenharia necessária (contenção

de uma escarpa de mais de 60 metros de altura e de cerca

de 1.000 metros de perímetro não é, com certeza, uma tarefa

simples), já existe um precedente bem sucedido (ainda que carente

de manutenção) a poucos metros e área semelhante: uma

contenção em degraus com vegetação apropriada, junto ao aeroporto,

feita, certamente, pelo Infraero e/ou pela Aeronáutica.

No caso do Morro do Telégrafo, dada a dimensão da obra, o

esforço terá que ser conjunto. Exército, Aeronáutica, Prefeitura

do Recife, Prefeitura do Jaboatão, Iphan, Infraero, Governo do Estado,

Governo Federal. Todos em prol da preservação. A História

do Brasil e a Geografia do Recife agradecem.


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