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Catálogo «Retrato(s) da minha casa»

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

Retrato(s)

da minha casa


2

Retrato(s) da minha casa


Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

Exposição

Círculo Sede

sáb 8 setembro

sáb 27 outubro

3


Maqueta do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra — Círculo Sede

realizada por Eduardo Braga, João Pereira, Rita Caniceiro e Valter Faria

escala 1:20


Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

António Belém Lima

António Olaio

Bruno Gil

Carlos Antunes

Gonçalo Canto Moniz

Joana Monteiro

João Bicker

João Mendes Ribeiro

Joaquim Almeida

Jorge Figueira

José António Bandeirinha

José Cabral Dias

José Maçãs de Carvalho

Lizá Defossez Ramalho e Artur Rebelo – R2

Luís Quintais

Maria Gambina

Maria Milano

Paulo Seco

Pedro Maurício Borges

Pedro Pousada

Teresa Pais

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Retrato(s) da minha casa


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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


8

Retrato(s) da minha casa


Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

Sobre os retratos da vossa casa...

que agora também são nossos! 1

A exposição sobre os Retrato(s) da minha casa, que de momento se

encontra patente na velha casa-sede do Círculo de Artes Plásticas de

Coimbra (CAPC), na Rua Castro Matoso, n.º 18, procede de uma proposta

submetida à 20.ª Semana Cultural da Universidade de Coimbra,

que, recorde-se, neste ano de 2018 pretendeu celebrar, de entre

outras, três casas — como sabemos, a casa-património, a casa-corpo

e a casa-mundo. Pressentindo que o programa desta Semana

Cultural da UC (se) ocuparia (de) muitas moradas, o Departamento de

Arqui tectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia (dARQ) e o CAPC

cuidaram assim da possibilidade de lhe oferecer, e também à cidade,

uma diferente perspectiva sobre o retrato dessas três casas. Decerto,

tratava-se de uma grande retrospectiva, vista ao mesmo tempo como

uma oportunidade de as descobrir, as ditas três casas, a uma outra

escala, porventura mais reduzida e detalhada, que no verso e título de

um dos muitos e sugestivos poemas de Ruy Belo a UC desvelou o corpo

de reflexão: Oh as casas as casas as casas 2 . Confiamos que as casas

nascem, vivem e morrem, e, quase sempre, enquanto vivas, se distinguem

umas das outras, por exemplo, até se distinguem designadamente

pelo cheiro... e variam até de sala para sala. À vista deste português

nas cido em 27 de Fevereiro de 1933, em S. João da Ribeira,

no concelho de Rio Maior, igualmente nós, dia-a-dia, nos indagamos

sobre as casas que eu fazia em pequeno e, por isso, onde estarei eu hoje

em pequeno?; Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?. Afinal,

terei eu casa onde reter tudo isto ou serei sempre somente esta instabilidade?

Quem de nós esquece que as casas essas parecem estáveis mas

são tão frágeis as pobres casas: Oh as casas as casas as casas... mudas

testemunhas da vida. Elas morrem não só ao ser demolidas, mas, sobretudo,

elas morrem com a morte das pessoas. Indiferentes, as casas

de fora olham--nos pelas janelas e, como também nós percebemos, não

sabem nada de casas os construtores, os senhorios e os procuradores,

por certo aos quais se poderiam juntar tantos outros actores da vida

das nossas casas. Do mesmo modo, talvez seja visível que os ricos

vivem nos seus palácios, mas a casa dos pobres é todo o mundo. Daí

Ruy Belo nos relembrar que os pobres sim têm o conhecimento das casas,

os pobres esses conhecem tudo. Nós, como ele, ainda confessamos

que amamos as casas, os recantos das casas, que visitamos casas e que

apalpamos casas. Só as casas explicam que exista uma palavra como

intimidade. Nos lugares (em) que habitamos, sem casas não haveria

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Retrato(s) da minha casa

ruas... as ruas onde passamos pelos outros, mas passamos principalmente

por nós.

A casa é o abrigo, refúgio e último reduto dessa intimidade. Por natureza,

a casa é o lugar que elegemos para guardar as nossas memórias

e projectar os nossos sonhos, por mais pequenos que sejam, onde

garantidamente o espaço e o tempo nos relacionam com o mundo que

nos rodeia, por hoje globalizado, e com aquele outro que pertence à

nossa intimidade. Porque na casa fatalmente vivemos, acomodamos

e acumulamos essas memórias e sonhos; idem na casa, e à luz das

palavras de Ruy Belo, nascemos e havemos de morrer, na casa sofremos,

convivemos e amámos, na casa atravessámos as estações, e, por

fim, sempre respirámos — ó vida simples problema de respiração...

Suspiramos: Oh as casas as casas as casas... Com parte de Ou o Poema

Contínuo 3 , de Herberto Helder, no horizonte, pois falemos de casas

como quem fala da sua alma. Poderemos não o celebrar, segundo revela

o poeta nascido em 23 de Novembro de 1930 no Funchal, entre um

incêndio, junto ao modelo das searas, na aprendizagem da paciência de

vê-las erguer e morrer com um pouco, um pouco de beleza. Conquanto

o quadro seja outro, procurámos que os inconfundíveis espaços da

casa-mãe do CAPC acolhessem a intimidade de certas casas, cujos

singulares retratos nos foram generosamente cedidos pelos seus moradores...

e que agora também são nossos!

Em três dos pisos da mais antiga morada do CAPC, percorreremos

assim algumas casas que invariavelmente todos (re)conhecemos

e habitamos, e não apenas fisicamente como corpo. Os seus retratos,

acreditamos, irão despertar-nos emoções e fazer lembrar de memórias

que, julgar-se-iam, idas e tão-só nossas. Por esta razão, cremos

que tais retratos da intimidade agora também são nossos. Quiçá se

possam, afinal, observar como casas-patrimónios. Naturalmente se

conclui que não as contemplámos como mero corpo material, importou-nos

sobremodo cedê-las como um lugar de apropriação e vivência

pessoais. Em qual lugar cada um dos que as visitem possa encontrar

um espaço seu. Foi neste sentido, instigados pelo desejo de habitar

algumas dessas casas do mundo real ou do mundo sonhado, que, de

forma inadvertida, tomámos a liberdade de desafiar um conjunto

de pessoas pertencentes a diferentes áreas do saber para connosco

partilharem as suas casas, as físicas e as das memórias. Os retratos em

exibição no CAPC são, por conseguinte, uma rara fresta aberta para a

casa de cada um dos nossos convidados, que, reiteramos, em boa altura

tiveram a bondade de nos deixar espreitar e, por vezes, também

entrar. Porque as memórias se guardam, aguardamos que estes retra-

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

to(s) da minha casa possam determinar outros retratos.

São vinte e uma as casas que se expõem na intimidade da casa do

CAPC: OIKOLÓGIO, de António Belém Lima; Polka Dot Brain,

de António Olaio; Whose ‘Head Full of Houses’?, de Bruno Gil;

Autorretrato como Unité d’Habitation e Ídolo de Pregos e Autorretrato

como Casa Jacaré, de Carlos Antunes; As Casas de Lina, de Gonçalo

Canto Moniz; o desafogamento em contagem crescente, de Joana

Monteiro; Stig Dagerman, A nossa Necessidade de Consolo é Impossível

de Satisfazer, edição VS., Lisboa, 2018/Henry Miller, Viragem

aos Oitenta, edição VS., Lisboa, no prelo/T. S. Eliot, Prufrock e Outras

Observações, edição VS., Lisboa, no prelo, de João Bicker; Casa Corpo,

de João Mendes Ribeiro; S/título, de Joaquim Almeida; SP, Copain, de

Jorge Figueira; Homeless Town, de José António Bandeirinha;

Um quarto é o início da arquitectura, de José Cabral Dias; Hotel Lisboa

#1 e #2, de José Maçãs de Carvalho; Arquivo Parcial de Objectos

Correntes em Gestaco, de Lizá Defossez Ramalho & Artur Rebelo

— R2; Ulisses, de Luís Quintais; What’s In My Bag?, de Maria

Gambina; Atmosferas, de Maria Milano; a casa de julho e agosto, de

Paulo Seco; A minha casa nos Açores, de Pedro Maurício Borges;

The Unknown House, de Pedro Pousada; Retratos da minha casa: livro

para pintar, de Teresa Pais.

Coimbra, 22 de Agosto de 2018

Désirée Pedro e Luís Miguel Correia

1

Este texto não segue a grafia do recente Acordo Ortográfico.

2

Belo, Ruy (2000). Todos os Poemas. Lisboa: Assírio & Alvim.

3

Helder, Herberto (2001). Ou o Poema Contínuo. Lisboa: Assírio & Alvim.

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

António Belém Lima, arquiteto

OIKOLÓGIO, 2018

impressão de desenhos digitais (i-pad)

realizados entre 2012 e 2013

118,9 x 84,1 cm

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Retrato(s) da minha casa


Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

António Olaio

Polka Dot Brain, s/d

vídeo, cor, som, 5’33’

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Retrato(s) da minha casa

... as usual, between them, there will be some intervals... one

monumental sculpture...There was going to be a drawing but I’m still

working at it... It is a drawing, as usual, leading to many others... It is

a drawing of a head with horizontal layers of the different families

of houses... that I’ve invented, reinterpreted or copied...

The drawings will lead to paintings and sculptures... These may later

turn into architecture... Perhaps they were already architecture

I didn’t know... I had not been told... Or the drawings may become

portraits of buildings over night... or... or... there is no established

order nor pattern... it is rational relieved, that is the name of the

game... English is a delightful language... it can be heard in a number

of ways... a head full of houses, a head fool... of houses... I behead,

I turn head almost two years ago... I the fool of houses... Fool, because

that’s what architects are: fools... We fool around with space traps,

stage sets, façades, plans, details, drawings, photographs, ideas and

memories, of our most photogenic and foolish constructions...

We make architecture with the help of mirrors, sites and memories,

in black and white... By reproductions, by transplantations, I see

answers that are drawing boards where we are visited by the ghosts

of the illustrious dead... Fools, because we go on longing for some

scientific, absolute conclusion to our concentric meanderings, our

absurd adventures and escapades... My slides and words are about

some of the houses that I’ve copied, reinterpreted or reinvented,

reproductions of other architects’ houses, variations of some of

my own previous houses, partial and total inventions of my own...

to illustrate various ideas, and demonstrate that buildings do not

happen like immaculate conceptions, they do not happen out of their

briefs...

But like people, buildings grow out of each other...

Pancho Guedes, A Head Full of Houses/A Catalogue of Walls,

Conferência, Londres, Junho 1977.

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

Bruno Gil

Whose “Head Full of Houses”?, 2018

vídeo, p/b, som, 2’39’’ voz de Pancho Guedes, 1977

© Architectural Association

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Retrato(s) da minha casa

Carlos Antunes

Autorretrato como Casa Jacaré, s/d

dimensões variáveis

Autorretrato como Unité d'Habitation

e Ídolo, s/d

dimensões variáveis

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Retrato(s) da minha casa

Gonçalo Canto Moniz

A casa de Lina, s/d caneta sobre papel

29,7 x 21 cm

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


Joana Monteiro

Desafogamento em contagem crescente, 2018

testes de impressão chapa de impressão e corte

em galé, caixa e caixotins

Acervo de Rui Damasceno, Tipografia Damasceno

dimensões variáveis

Manual Prático do Tipógrafo

Joana Monteiro e Rúben Dias impresso em tipos

de madeira e de chumbo na Tipografia Damasceno

Coimbra, Março de 2016 Editora dos Tipos,

Clube dos Tipos


João Bicker

Stig Dagerman, A nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, edição VS., Lisboa, 2018, 2018

Díptico. Impressão a jato de tinta, em papel LS Bright White, 270 g, 60 x 42 cm

Henry Miller, Viragem aos Oitenta, edição VS., Lisboa, no prelo, 2018

Díptico. Impressão a jato de tinta, em papel LS Bright White, 270 g, 60 x 42 cm

T. S. Eliot, Prufrock e Outras Observações, edição VS., Lisboa, no prelo, 2018

Díptico. Impressão a jato de tinta, em papel LS Bright White, 270 g, 60 x 42 cm


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Retrato(s) da minha casa


Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

João Mendes Ribeiro

Casa Corpo, 2017

fotografias, mesa de madeira e varão nervurado

dimensões variáveis

fotografias de Fernando Guerra e de Pedro Medeiros

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Retrato(s) da minha casa

Joaquim Almeida

sem título, 2018

caneta sobre papel 29,7 x 21 cm

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


Retrato(s) da minha casa

Jorge Figueira

SP, Copain, 2018

projeção de seis fotografias (i-phone)

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


José António Bandeirinha

Homeless Town, 2018 vídeo, p/b, som, 12’95’’


Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

cidade minha casa

José António Bandeirinha

... was not yet cosmopolitan, to be sure, but it was profoundly

European, and thus it has, with unparalleled

naturalness, offered itself to all homeless people as

a second home...

Hannah Arendt 1

Parecia não haver dúvidas, todos os dados disponíveis indicavam

que a minha cidade tinha perdido a memória. Não fazia a mínima

ideia da importância dos factores geográficos que a levaram a localizar-se

ali, exactamente ali. Ignorava se tinha sido originada por um

aglomerado castrejo anterior à romanização, por um acampamento

tribal ou por um entreposto mineiro, no início do século XIX. Não

sabia nada sobre a sua aparência, a não ser o que lhe era transmitiado

pelo reflexo, na água do rio. Desconhecia quais os significados que se

podiam retirar da arquitectura dos seus edifícios, do traçado das suas

ruas e praças, da própria composição material das suas pedras e dos

seus inertes.

Do mesmo modo, nada sabia das guerras que a tinham assolado, da

beleza e da violência das acções libertadoras que a tiveram como palco,

nem tampouco das reacções opressivas que se lhes contrapuseram.

De certa maneira, estava agora mais livre.

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Retrato(s) da minha casa

Podia percorrer cada avenida, cada viela ou cada parque, com os olhos

muito vivos, vazios e puros, olhos de quem tenta perscrutar os indícios

mais subtis da sua própria existência.

Num desses périplos, num fim de tarde enevoado de Outono, as ruas

estreitas do centro pareceram-lhe vagamente familiares, sentiu que

estava perto de alcançar uma lembrança fugidia, pareceu-lhe pressentir

um ligeiro vórtice da memória. Ao tentar concentrar-se, porém,

tudo se esvaneceu. Voltou à contemplação primordial, voltou a olhar

tudo como se tivesse acabado de nascer.

Havia algumas janelas abertas, de uma delas, não se percebia qual,

ecoavam acordes de música:

Everybody knows that our cities were built to be destroyed

!… Everybody knows that our cities were built to

be destroyed !…

O som saía, alto, puro e ondulante como numa página de banda

desenhada.

Procurou a janela exacta e penetrou nela em atabalhoada contre-

-plongée. Deparou-se-lhe uma sala grande, mais extensa do que o edifício

parecia poder comportar. Era uma sala vivida, um atelier, mesas

grandes, com desenhos a carvão, paredes forradas a cortiça repletas

de gravuras e de cartazes coloridos. No centro, um homem de cabelho

grisalho amaciava uma peça escultórica, em madeira de teixo, talvez

uma maquete. Num canto, um monitor de televisão passava um filme

mudo: uma personagem hirta, vestida de escuro, estava presa às pás

de uma bateira fluvial, emergindo e submergindo da água, num movimento

circular cómico, mas angustiante.

A música continuava:

Please, send me a letter. I wish to know … things are getting

better … better … better …

Percorreu, um a um, os cartazes e as gravuras da parede. Parte deles

representavam planimetrias urbanas muito próximas do seu próprio

traçado, embora incompletas. Eram fases evolutivas dos seu crescimento,

ao longo do tempo, tal como se fossem fotografias esbatidas

dos momentos mais marcantes da vida, da infância à adolescência,

da juventude à maturidade.

A maquete, que ocupava o centro da sala, era enorme. Não se tratava

da maquete de uma casa, ou de um conjunto de casas, mas de uma

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

cidade inteira e dos espaços circundantes. Reconheceu os bairros do

centro, as zonas de expansão habitacional, mais geométricas e desafogadas,

reconheceu o rio, as praças e os parques, as periferias desfiadas

e os espaços vazios da crise de inteligência, enfim, reconheceu-se a si

própria.

Havia, porém, coisas irreconhecíveis, grandes alinhamentos geometrizados,

espaços ocupados por tiras rectilíneas e ondulantes de

madeira, pontes que não existiam… Percebeu que ali estava também

preconizado o seu futuro.

Era óbvio que aquele compartimento exalava um problema de memória

inverso e complementar do seu. Cultivava-se uma noção hipermnésica

da forma e das suas razões sociais e históricas. Antecipava-se

o futuro em função desses dados do passado. O presente era omisso.

Assustou-se, e recuou perante tamanha dádiva de complementaridade.

Sempre tinha pensado que a sua memória se reconstituiria pouco

a pouco, passo a passo, como quem evolui lentamente na resolução de

um enigma. Arrepiava-se perante a hipótese de saber tudo num ápice.

Podia ter tido um passado sombrio, tenebroso mesmo. É certo que

podia rejubilar perante as glórias ou orgulhar-se das honrarias, mas

a verdade é que podia igualmente encolher-se e corar perante a vergonha

de alguns períodos mais decadentes ou mais humilhantes. Teve

receio e decidiu fugir, renegou a possibilidade de colher toda a sua

história num só momento, que lhe tinha surgido de bandeja. A ideia

de conhecer as propostas de futuro também não lhe agradava muito.

Temia sempre o pior, de modo que uma prefiguração optimizada do

tempo que estava para vir punha em risco as possibilidades de regozijo

com o menos mau. Enfim, resolveu virar as costas àquela dádiva do

acaso e regressar às divagações erráticas que tinham preenchido

o único quotidiano de que tinha memória. As motivações já não eram,

porém, as mesmas, recusada a possibilidade de obter o conhecimento,

já não fazia sentido voltar a andar à deriva, em busca dos pequenos

indícios do passado.

Ficou deprimida, percebeu que atravessava um mau momento.

Para quê empenhar-se em busca da identidade? Para quê? Se essa identidade

está dependente da história e se o conhecimento da história, em

lugar de um estimulante enigma se arrisca a ser uma grande desilusão.

Entrou em perfeita decadência, deixou de cuidar de si própria

e estagnou. Perdeu toda a auto-estima. Passou a ficar conhecida

pela marginalidade do seu estatuto em relação às cidades vizinhas.

Chamavam-lhe Cidade Clochard, ou Homeless Town, conforme

o estado de espírito.

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Todos os novos-ricos a desprezavam, os pequeno-burgueses em

ascensão lançavam-lhe esgares de reprovação e condenavam-lhe

a conduta, os adolescentes suburbanos faziam dela motivo insistente

de chacota e usavam-na para os mais sádicos apetites de martirização.

Impávida, continuava a sua vida de decadência como se nada fosse.

Sabia que tinha um passado poderoso, embora não o conhecesse

em profundidade. Por vezes, usava a prorrogativa da ideia vã das

presumíveis glórias para se abespinhar e se pôr em bicos de pés.

Ficava, então, ridícula. Despudoradamente ou em surdina, todos se

riam dela.

Passados alguns anos, os brios voltaram a inebriá-la e decidiu voltar

ao atelier onde, ao longo de todo este tempo, pensara estar arquivada

a chave do conhecimento da sua identidade. O local estava,

porém, irreconhecível. Tinha sido vendido e o piso térreo transformado

numa colorida lavandaria, dessas que pertencem a uma cadeia

internacional.

Subiu ao atelier. Estava abandonado, por entre camadas imensas de

pó, vidros partidos, folhas espalhadas, alguns velhos livros espalhados.

Num primeiro momento, não conseguiu distinguir entre uma

sensação de alívio e uma outra de desapontamento. Depois, resolveu

deixar-se envolver pela descoberta daquele novo espaço.

Apanhou um dos livros que se tinha estatelado no chão poeirento.

Folheou ao acaso, deixou que uma página se prendesse:

O cité douloureuse, ô cité quasi morte,

La tête et les deux seins jetés vers l’Avenir

Ouvrant sur ta pâleur ses milliards de portes,

Cité que le Passé sombre pourrait bénir:

Estremeceu uma vez mais perante a cruel exactidão, quase premonitória,

daqueles versos. Seriam dirigidos a si, ou a outra qualquer,

num outro ponto do mundo?

Se conhecesse a história, ocorrer-lhe-ia realmente uma outra cidade,

um outro tempo. Uma cidade que havia atingido um momento tal de

euforia que o poder decidira transformá-la toda por dentro, extrair-

-lhe as entranhas e abrir rasgos infinitos para controlar militarmente

os habitantes insurrectos.

Como não conhecia, pensou que o poema lhe era dedicado. Mas

ocorreu-lhe também que, quando as pessoas falam das cidades, sobre

as cidades que conhecem, sobre as que ambicionam, falam como se

falassem da sua casa. Falam, sobretudo, sobre a sua experiência.


Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

Relacionam-nas entre si e juntam a esse relacionamento a memória

das suas vidas, quer como habitantes, quer como visitantes. Depois,

talvez construam uma ideia de futuro, um projecto.

Percebeu, uma vez mais, que nada poderia fazer enquanto não se conhecesse

profundamente a si própria, enquanto não desconstruisse os

mitos da sua própria amnésia. Esta é a cidade que eu vos quis contar,

a minha casa, a casa à qual quis como se fora feita para eu morar nela 2 .

Coimbra, 2 de Março de 2018

1

«Introduction. Walter Benjamin: 1892-1940», in Walter Benjamin, Illuminations, New York, Schocken

Books, 1969, pp. 19–20.

2

Este texto segue de perto um outro, intitulado «Shenandoah» e publicado em Coimbra C — o catálogo de

uma exposição colectiva com o mesmo nome que teve lugar no Círculo de Artes Plásticas em 2003.

As referências nele contidas seguem, por sua vez e por ordem inversa, José Régio, a Paris de Haussmann,

a Paris da Comuna, um poema de Arthur Rimbaud, um filme de Buster Keaton, uma canção de Caetano

Veloso. Quanto à cidade/casa protagonista, trata-se de uma figura de estilo, um lugar-comum sem importância.

Quem nela julgar reconhecer referências reais, saiba que não passam de meras coincidências.

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Retrato(s) da minha casa

José Cabral Dias

Um quarto é o início da arquitectura, 2018

esferográfica Bic, grafite e lápis de cera sobre

papel

32 x 42 cm

Um quarto é o início da arquitectura, 2018

impressão a jato de tinta

32 x 42 cm

38


Retrato(s) da minha casa

José Maçãs de Carvalho

Hotel Lisboa #1, s/d

impressão a jato de tinta, em papel de algodão

50 x 59 cm

Hotel Lisboa #2, s/d

impressão a jato de tinta, em papel de algodão

50 x 59 cm

40


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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


Retrato(s) da minha casa

Ulisses

Amélia desenha.

– O que existe aí, nessa caixa negra que é

A imaginação? –

Dizes o canto das linhas,

Uma percolação de milénios.

Ulisses viaja, fúria sem hiatos

Ou dubitativas falhas. E desenhas.

O mapa é uma guirlanda

De movimentos rápidos, dramáticos.

Sob essas linhas, o mundo,

Com a sua ordem, caos

Ou luminoso desastre,

Regressa. Única provável casa.

Luís Quintais, 17.08.17

Luís Quintais

Ulisses, 2017

vídeo, p/b, som, 34’’

42


Retrato(s) da minha casa

Maria Gambina

What’s In My Bag?, 2018

estampado por serigrafia em quadricromia

tamanho: M

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Retrato(s) da minha casa

Maria Milano

Atmosferas, s/d

impressão a jato de tinta, em papel epson luster

42 x 29,7 cm

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


Retrato(s) da minha casa

Paulo Seco

a casa de julho e agosto, 2018

caixa de madeira, espelho, íman eletromagnético e maqueta

91 x 91 x 37 cm

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Pedro Maurício Borges

A minha casa nos Açores, sobre a Casa da Atalhada, S. Miguel, Açores,

arquiteto Pedro Maurício Borges para a Expo 7 x 7 – Contemporary Iberian

Architecture – Trienal de Arquitectura de Lisboa, 2013,

comissariada pela LAMIPA

vídeo, cor, som, 7’7’’

vídeo de Alice Albergaria Borges


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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


Retrato(s) da minha casa

Pedro Pousada

The Unknown House, 2018

tinta da China preta e acrílicos

dimensões variáveis

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Retrato(s) da minha casa

Lizá Defossez Ramalho & Artur Rebelo — R2

Arquivo Parcial de Objectos Correntes em Gestaçô,

Sala, 2011–2018

impressão a jato de tinta e costura tipo francesa

29,7 x 21 cm

Arquivo Parcial de Objectos Correntes em Gestaçô,

Átrio, 2011–2018

impressão a jato de tinta e costura tipo francesa

29,7 x 21 cm

Arquivo Parcial de Objectos Correntes em Gestaçô,

Garagem, 2011–2018

impressão a jato de tinta e costura tipo francesa

29,7 x 21 cm

Arquivo Parcial de Objectos Correntes em Gestaçô,

Cozinha, 2011–2018

impressão a jato de tinta e costura tipo francesa

29,7 x 21 cm

Arquivo Parcial de Objectos Correntes em Gestaçô,

Casa de banho, 2011–2018

impressão a jato de tinta e costura tipo francesa

29,7 x 21 cm

Arquivo Parcial de Objectos Correntes em Gestaçô,

Quarto, 2011–2018

impressão a jato de tinta e costura tipo francesa

29,7 x 21 cm

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


Retrato(s) da minha casa

Teresa Pais

Retratos da minha casa: livro para pintar, 2018

marcador sobre papel de aguarela

30,5 x 21,5 cm

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra


Retrato(s) da minha casa

Exposição

Retrato(s) da minha casa

António Belém Lima

António Olaio

Bruno Gil

Carlos Antunes

Gonçalo Canto Moniz

Joana Monteiro

João Bicker

João Mendes Ribeiro

Joaquim Almeida

Jorge Figueira

José António Bandeirinha

José Cabral Dias

José Maçãs de Carvalho

Lizá Defossez Ramalho e Artur Rebelo/R2

Luís Quintais

Maria Gambina

Maria Milano

Paulo Seco

Pedro Maurício Borges

Pedro Pousada

Teresa Pais

Círculo Sede

sáb 8 set – sáb 27 out

Organização

CAPC — Circulo de Artes Plásticas

de Coimbra

Departamento de Arquitetura

da Faculdade de Ciências e Tecnologia

da Universidade de Coimbra

Assistência à produção

Jorge das Neves

Ivone Cláudia Antunes

Montagem

Jorge das Neves

Fotografia

Jorge das Neves

Texto

Désirée Pedro

Luís Miguel Correia

Revisão de texto

Carina Correia

Design gráfico

Joana Monteiro

Assessoria de imprensa

Isabel Campante | Ideias Concertadas

Apoios institucionais

Câmara Municipal de Coimbra

Governo de Portugal | Ministério

da Cultura | DGArtes

Universidade de Coimbra

Linhas

Residencial Antunes

Câmara Municipal de Miranda do Corvo

20.ª Semana Cultural da Universidade

de Coimbra 2018

Curadoria

Désirée Pedro

Luís Miguel Correia

Produção

Ana Sousa

Catarina Bota Leal

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Círculo de Artes Plásticas de Coimbra

Catálogo

Coordenação editorial

Catarina Bota Leal | CAPC

Texto

Désirée Pedro

Luís Miguel Correia

Revisão de texto

Carina Correia

Fotografia

Jorge das Neves

Design gráfico

João Bicker

Edição

CAPC/DARQ

Tipografia

Outsiders, desenhada em 2010

por Henrik Kubel, a2-type

Impressão e acabamentos

Nozzle, Lda.

Este catálogo foi impresso em Coimbra,

em outubro de 2018.

ISBN 978-989-54249-0-0

ISBN 978-989-99432-7-8

DEP. LEGAL: XXXXXXXXX

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Círculo de Artes Plásticas

de Coimbra

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Valdemar Santos, António Melo

Ana Felino

Assembleia-Geral

Armando Azevedo, Ivone Cláudia

Antunes, Manuela Azevedo

Conselho Fiscal

João Bicker, Luísa Lopes, Joana Teles

Monteiro

Conselho Artístico

António Olaio, Pedro Pousada

Círculo Sede

Rua Castro Matoso, n.º 18,

3000–104 Coimbra

Círculo Sereia

Casa Municipal da Cultura, Piso -1

Parque de Santa Cruz, Jardim da Sereia,

3001–401 Coimbra

Horário de Funcionamento

ter-sáb, 14 h–18 h

T: 910 787 255

geral@capc.com.pt

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