Entre uma carta e outra.pmd - Teia Notícias

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Entre uma carta e outra.pmd - Teia Notícias

Caio Derosso

Entre uma carta

e outra

Cinco histórias no mesmo tempo

xx


Entre uma carta

e outra

Cinco histórias no mesmo tempo


Agradecimentos

A

meus pais, João e Suzana, pelo apoio e pela confiança creditada

em mim e aos seus cônjugues, Claudia e Rinaldo com quem eu

percebi que sempre poderei contar. À minha namorada Lediane

e ao meu irmão João Paulo, pelo companheirismo, paciência, ideias e

broncas. Ao Franklin por toda a diagramação do livro. Ao meu orientador

Marcelo Lima e aos meus colegas de sala, em especial a Karla Dudas,

pelas ideias mirabolantes. E, em especial, meu agradecimento a todos

os meus entrevistados que tornaram o livro possível.

Por mais humilde que seja, um bom

trabalho inspira uma sensação de vitória.

Jack Kemp


Caio Derosso

Entre uma carta e outra

Cinco histórias no mesmo tempo

Conheça as histórias alegres, tristes, boas e ruins, os fatos

marcantes e os diversos ataques de cachorros que ocorrem

todos os dias entre uma carta e outra.

Curitiba

2009


Universidade Positivo, 2009

1ª Edição, Entre uma carta e outra

Cinco histórias no mesmo tempo

Produção

CAIO DEROSSO

Revisão

MARCELO LIMA, KARLA

DUDAS, LEDIANE FILUS,

NATASHA SCHIEBEL,

ISADORA HOFSTAETTER

Capa e diagramação

FRANKLIN DE FREITAS

Material fotográfico

CAIO DEROSSO

e arquivo pessoal

SANDRO MICHAILEV

M5 Editora e

Distribuidora Ltda.

Rua Dr. Roberto Barrozo, 22 Centro Cívico

CEP 80530-120 - Curitiba - PR

Telefone (041) 3350 6600

e-mai: m5@m5.com.br

www.m5.com.br


Entre uma carta e outra

Cinco histórias no mesmo tempo


Sumário

Apresentação______________________________________________17

Capítulo I

1. Histórico dos Correios_____________________________________23

Capítulo II

2. Prazer, me chamam de amigo_________________________________30

3. Um título não comemorado_________________________________35

4. Ela vai até o fim___________________________________________43

5. O amor nos tempos de greve__________________________________49

6. Carteiro Futebol Clube_____________________________________51

7. Um homem de sorte e com muitas histórias_______________________58

Capítulo III

8. Diário de bordo__________________________________________64


Caio Derosso

21 anos

Brasileiro

Fale com o autor

caio.derosso@gmail.com


Apresentação

O

livro Entre uma carta e outra – Cinco histórias no mesmo tempo é

o resultado obtido do Trabalho de Conclusão de Curso de

Comunicação Social – Jornalismo, da Universidade Positivo. A ideia

do projeto nasceu em novembro de 2008, quando o autor do livro teve que ir ao

Centro de Distribuição Domiciliar (CDD) mais próximo de sua casa para retirar

uma correspondência, pois o carteiro de sua rua tentou durante três dias seguidos

entregar a carta sem sucesso porque ele necessitava da assinatura do remetente.

Após esses dias o envelope só pode ser retirado no CDD da sua região.

Para conseguir a correspondência, a segunda via da carteira de motorista,

tive que pedir autorização dos meus superiores – leia-se chefes, para ir durante o

horário vespertino do expediente buscar a carta enviada pelo Detran-Pr. Voltando

ao trabalho surgiu a pergunta norteadora que deu origem ao projeto do livro: E se

não existissem carteiros?

Passei o dia inteiro pensando em como seria ruim ter que buscar suas

correspondências em um local que seria o balcão de armazenamento de cartas e

encomendas. À noite, contei minha ideia aos colegas de sala. Sucesso! Motivado,

comecei a pesquisar mais sobre os Correios e os carteiros e como formular um

livro a partir deles.

Entre uma carta e outra – Cinco histórias no mesmo tempo apresenta o

perfil de cinco carteiros que trabalham ou trabalharam entregando cartas na

cidade de Curitiba e em sua Região Metropolitana. O livro é composto por quatro

homens e uma mulher, que por sinal é a única não oriunda da capital paranaense.

A escolha de fazer um livro-reportagem de gênero perfil foi feita pelo fato de que

nesse estilo o texto coloca o personagem como protagonista de sua própria história.

Além de protagonizar o personagem entrevistado, o perfil jornalístico permite

que no texto sejam reproduzidas as entrevistas, opiniões e descrições – dos espaços

físicos, épocas, feições, comportamentos e intimidades – que o personagem revela

sempre de maneira não-verbal. O fato de eu ser curioso e gostar de prestar atenção

em tudo que aconteça em minha volta contribuiu inconscientemente para essa

escolha, que hoje afirmo ter sido correta.

As pesquisas realizadas durante o final de 2008 e começo de 2009 foram feitas

para contabilizar o número de vezes que os carteiros eram citados na mídia,

principalmente imprensa – jornais, revistas, livros e internet – e em quais assuntos

eles são abordados. Em uma pesquisa simples no site “Google”, foram encontradas

187 mil páginas online que continham a palavra “carteiros”.

17


Porém, apenas na décima página, ou seja, mais de noventa links de reportagens

depois, foi encontrada a primeira matéria cujo assunto não era greve. Foi

constatado então que a maioria esmagadora das notícias relacionadas a esses

trabalhadores só surgem quando ocorrem greves. Em uma enquete, realizada

rapidamente com dez pessoas, a palavra “greve” foi associada com unanimidade

quando a pergunta era: Qual a primeira coisa que vem em seu pensamento quando

você ouve a palavra “carteiro”?

No projeto inicial do livro, as greves realizadas e as notícias sobre elas

publicadas não teriam muita importância e nem seriam utilizadas como pauta

na hora de entrevistar os personagens e produzir os textos. Entretanto, durante

as entrevistas com os carteiros, uma greve foi instaurada. No começo eu não

sabia dizer se as paralisações dos trabalhos ajudariam ou atrapalhariam. Hoje,

com todos os personagens entrevistados, perfis escritos e Entre uma carta e outra

– Cinco histórias no mesmo tempo pronto, posso afirmar com toda a certeza que

os protestos feitos pelos carteiros foram positivamente importantes para a

realização deste livro.

Digo que foi positivo, pois antes da greve encontrei uma dificuldade maior

para realizar as entrevistas, uma vez que o horário de trabalho dos personagens é

das 8 horas até as 18 horas. Com a paralisação de quatorze dias, houve tempo

suficiente, durante o dia e a noite, para os nossos encontros. Sendo que uma

entrevista foi realizada antes da greve, em um acompanhamento nas ruas de

Santa Felicidade e as outras quatro durante os protestos.

A Greve

Nos últimos cinco anos, foram pelo menos nove greves praticadas pelos

carteiros. Em média, por ano ocorrem quase duas paralisações no estado do

Paraná. A segunda greve deste ano começou no dia 14 de setembro e se encerrou

duas semanas depois, no dia 28. A ideia inicial dos grevistas era bater o recorde

estabelecido em 2007, onde a greve que durou 21 dias foi considerada a maior em

tempo de paralisações dos carteiros.

Neste ano a greve, mais especificamente a segunda, foi motivada por problemas

salariais. Os carteiros reivindicavam uma reposição salarial de 41,03%, que

segundo o Sindicato dos Trabalhadores nos Correios do Paraná (Sintcom-PR),

corresponde a perdas ocorridas desde agosto de 1994. A Empresa Brasileira de

Correios e Telégrafos ofereceu um reajuste de 4,5%.

Outros aspectos de mudanças foram o reajuste do vale refeição, cuja proposta

da empresa foi de acrescentar R$ 0,90, o aumento linear de R$300 no piso salarial

da categoria, que é de R$ 640, um Plano de Carreiras e Salários que beneficie os

funcionários, segurança armada e portas giratórias nas agências e a redução da

jornada de trabalho.

Acompanhei diariamente e presencialmente todos os dias da greve, mesmo

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que em algumas oportunidades apenas por alguns minutos. O livro-reportagem

começou a ser produzido, leia-se primeira entrevista, na segunda-feira (14),

último dia de trabalho dos carteiros e primeira noite da greve. Nessa entrevista

tive o prazer de andar pelo conhecido bairro italiano de Santa Felicidade, mas

em ruas pouco conhecidas e com muitos buracos.

Na terça-feira pela manhã fui à sede dos Correios acompanhar o primeiro dia

de paralisação. Meio receoso, pois havia muitos carteiros, carro de som e muito

barulho. Confesso que fui lá para desmitificar a ideia de que todo grevista é

vagabundo, comentário que ouvi em sala de aula na segunda-feira à noite. Como

um bom jornalista inspirado no new journalism, apenas observei as

movimentações dos carteiros sem interagir com ninguém.

No outro dia, a segunda entrevista foi realizada. Porém, desta vez fui aos

Correios após o trabalho, no período da noite, com a ideia de passar a noite lá

com os grevistas. A conversa com Jefferson foi inteiramente feita com nós dois de

pé, durante horas, na calçada, local onde estava montada a barraca dos carteiros,

com cobertor, travesseiro, um colchão inflável, banquetas e uma churrasqueira

improvisada. Durante a entrevista diversos automóveis passaram buzinando e

algumas vezes gritando ofensas.

Cheguei em casa quase meia noite, cansado, mas animado. Quando eu não

contava para minha mãe sobre a entrevista que havia feito, estava pensando no

próximo personagem que conheceria na manhã de quinta-feira. Na verdade era

a personagem.

Liguei para ela às 9 horas para confirmar a entrevista que aconteceria uma

hora depois. Entretanto a carteira explicou que durante a noite, no piquete

montado em frente aos Correios, ela não se sentiu muito bem e foi para casa.

Marcamos o encontro para às 16h. Confesso que fiquei um pouco preocupado,

pois havia marcado uma entrevista para às 14h. O maior medo era ficar muito

tempo na primeira conversa e me atrasar para a outra.

Perto do meio dia, o primeiro entrevistado da quinta-feira liga avisando que

não teria tempo de falar comigo, pois havia conseguido o cargo de motorista da

van dos Correios e explicou que, com a greve dos carteiros, tudo fica paralisado,

menos os motoristas de automóveis e motos, que, segundo ele, dobram o número

de serviço de entregas.

À tarde, pedi licença do trabalho e fui rumo à terceira entrevista do livro

Entre uma carta e outra – Cinco histórias no mesmo tempo. Todos os detalhes

dessa conversa bem humorada e extrovertida você confere no capítulo “Ela vai

até o fim!”. A prosa foi tão boa que só terminou a noite e infelizmente não consegui

ir para as aulas.

Enfim sexta-feira! Último dia útil da semana e última entrevista, mas a greve

continuava. O dia começou lindo, sol a pino, noite bem dormida e empolgação

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máxima, pois a cada entrevista realizada a sensação de euforia aumentava. Porém

- sempre há um “porém” - acordei atrasado e uma série de empecilhos começaram

a surgir e o atraso começava a aumentar. Será que a entrevista ocorreu? Será que

foi adiada? Quem sabe cancelada? A resposta, é claro, você encontra no livro.

No final de semana a barraca montada pelos carteiros foi desarmada e todos

os grevistas ferrenhos foram para suas casas descansar, tendo em vista que segundafeira

bem cedinho o piquete deveria estar montado novamente. E foi isso que

ocorreu no início da semana. Antes mesmo de começar o expediente do pessoal

da administração dos Correios, os carteiros já haviam se estabelecido na calçada

em frente ao edifício administrativo.

Durante a semana que passou e essa que se iniciava agora, os trabalhadores

em greve conseguiram companhia de muitas pessoas que não faziam parte do

quadro trabalhista da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. A grande

maioria desses “estrangeiros” era formada por repórteres de rádio e televisão,

jornalistas de jornais impressos e online e repórteres fotográficos e

cinematográficos. Assumo que também ataquei de fotógrafo em alguns

momentos. Humildade à parte, as fotografias ficaram com boa qualidade e podem

ser conferidas no livro.

Apesar de muitos colegas de profissão estarem presentes em alternados dias

de greve, inclusive com telejornais pautando protestos e panelaços para que eles

aconteçam no horário determinado para que possa ser mostrado ao vivo, pouco

foi falado sobre os carteiros, peça chave da greve.

A mídia, de uma maneira geral, acabou realizando uma cobertura jornalística

padrão, utilizando sempre as mesmas fontes, como o secretário geral do Sindicato

dos Carteiros, mesmas imagens - panelaço dentro e fora das agências, caminhada

até o calçadão da Rua XV de Novembro, lavagem da calçada da sede dos Correios,

carro de som com o volume altíssimo entre outras figuras já saturadas.

Entre os dias que ocorreram as greves pude observar bem o vai-e-vem dos

jornalistas encarregados de cobrir as manifestações. A maioria chegou durante o

período do almoço, fez uma entrevista e foi embora. Os fotógrafos tiraram meia

dúzia de retratos e voltaram correndo para a redação para poder passar as fotos

para o computador.

Todos os trabalhadores, inclusive meus colegas de redação do Jornal do Estado,

vivem sempre na correria para fechar a edição do jornal de amanhã ou para

manter o portal de notícias online do veículo sempre atualizado. A falta de tempo

para aprofundar determinados temas caminha junto sempre do estresse cotidiano

causado por tudo que está em nossa volta (ônibus lotado, trânsito, dia chuvoso,

discussões com amigos, etc.), trazendo então um desinteresse forçado do jornalista

por uma reportagem mais aprofundada e dinâmica.

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De nada adianta a imprensa divulgar as greves, manifestações e reivindicações

dos trabalhadores, quando a mesma trata os carteiros apenas como números e

estatísticas. As únicas informações encontradas em reportagens são sobre o salário

ganho e o salário reivindicado, quantos dias dura greve, qual o número percentual

de servidores paralisados e quantas cartas deixaram de ser entregues na última

greve. Que, por sinal, foram muitas.

Em todo o Brasil, durante as duas semanas de greve, foram 53,4 milhões de

cartas que ficaram acumuladas nas agências e centros dos Correios. Segundo a

assessoria da estatal, em uma semana, com horas extras, 23 milhões dessas

correspondências já foram entregues. Foram mais de 500 mil encomendas que

ficaram sem destino. Destas, apenas 77 mil ainda não foram entregues. A

administração dos Correios afirma que em apenas três dias os Correios, ou melhor,

os carteiros, entregaram 265 mil encomendas de carga atrasada.

O fim da greve no Paraná foi decretado mesmo com os trabalhadores não

aceitando a proposta feita pela direção nacional da Empresa Brasileira de Correios

e Telégrafos. Isso ocorreu porque 16 sindicatos aceitaram a proposta e outros 15

rejeitaram, mas concordaram em voltar ao trabalho. Com isso o Sindicato

paranaense avaliou que não poderia manter o movimento sozinho e voltou ao

trabalho.

Já que o assunto é números, você sabia que, em média, 210 carteiros são

atacados todos os anos no Paraná? Esse número representa casos oficiais, ou seja,

que foram registrados nos sindicatos e na Empresa Brasileira de Correios e

Telégrafos (ECT). Os números não-oficiais são muito maiores e não há como

definir um mínimo de ataques.

Porém, aqui no livro você encontra diversas histórias que abordam os ataques

de cachorros e de tantos outros animais de forma mais humanizada. Tem a

chance de conhecer o carteiro que em 2007 recebeu o título nada especial de

“Carteiro mais mordido do ano” e de acompanhar um dia de trabalho de um

servidor que em todos os seus dias de expediente dispõe da companhia de um

cachorro – isso mesmo, do maior inimigo dos carteiros – durante a entrega de

cartas.

No último levantamento do Ministério do Trabalho, o Brasil havia registrado

491.711 acidentes causados no trabalho. O livro-reportagem não fica para trás e

apresenta uma carteira que, por complicações de saúde devido a muito trabalho,

ficou quatro meses parada e, o melhor, diz que só para de trabalhar quando não

conseguir mais andar, porque ama o que faz.

Os dois últimos perfis também são muito especiais, pois abordam assuntos da

vida pessoal e suas curiosidades. Em um, a vida profissional sai de cena, e o

carteiro abre sua casa e sua vida para os leitores, contando suas alegrias, suas

decepções, seus hobbies e o que gosta de fazer nos momentos de lazer. O perfil de

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encerramento apresenta tantas histórias curiosas que poderiam ser feitos capítulos

exclusivos para cada uma delas, tamanha a diversão e complicações de cada

fato.

Entre uma carta e outra – Cinco histórias no mesmo tempo é um sonho que

se realiza. O título do livro foi decidido já na fase final da produção e com o

auxílio dos meus amigos de sala de aula e de trabalho. O livro já havia se chamado

“Os pés mais importantes da cidade”, “Os pés que movimentam a sociedade”,

“Cartas na mesa”, entre tantos outros nomes que com o tempo e com o nervosismo

do autor iam caindo de acordo com as críticas.

No mais, espero que gostem do livro e se identifiquem com algumas histórias

desses carteiros que, acima de tudo, são humanos.

Boa leitura!

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Histórico dos Correios

I

A

Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), popularmente

conhecida como Correios, teve sua essência criada no Brasil,

segundo dados do sítio da instituição, no dia 25 de janeiro de 1663,

quando João Cavalheiro Cardozo foi nomeado para o cargo de Correio de

Capitania do Rio de Janeiro, onde se originaram os correios-mores. Essa é

considerada a data inicial da instituição da atividade postal regular no país e

também é comemorado o dia do Carteiro.

A missão dos Correios, segundo as informações oficiais, é “facilitar as

relações pessoais e empresariais mediante a oferta de serviços de correios com

ética, competitividade, lucratividade e responsabilidade social, tendo como

visão ser reconhecida pela excelência e inovação na prestação de serviços de

correios”.

Na época de criação do serviço, ainda segundo o site, as entregas de cartas

eram realizadas por escravos, tropeiros e maçons. Em 1178 foi instituído o

Correio Marítimo Regular entre Brasil e Portugal. Entre 1877 e 1879, os

Correios passaram a se chamar União Geral dos Correios, cujo nome foi

decidido na Suíça. Foi lançado então o primeiro selo postal em duas cores:

verde e amarelo. No final de 1879, a União Geral dos Correios deu lugar à

União Postal Universal, nome sugerido no Congresso de Paris.

No mesmo ano da Proclamação da República, em 1889, surgiu o primeiro

Museu Postal Brasileiro. Tempos depois, a Nação unia-se a outras do continente

em um Congresso, formando o embrião da futura União Postal Sul Americana.

O primeiro transporte de correspondências via aérea ocorreu em 1º de

fevereiro de 1921 e em 1929 começa a operação “Graff Zeppelin”, na qual um

dirigível sobrevoava os céus do Brasil transportando, entregando e recebendo

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cartas e correspondências.

O decreto lei nº 20.859/31, instituído pelo presidente Getúlio Vargas fez

com que a União Postal passasse a se chamar Departamento de Correios e

Telégrafos (DCT) e o mesmo fosse subordinado ao Ministério de Viação e

Obras Públicas (MVOP). Nesse período, o Departamento de Correios e

Telégrafos ficou caracterizado por empregos vitalícios, funcionários sem

treinamento, instalações precárias, atendimento seletivo, franquias tarifárias,

tarifas aviltadas e arrecadação para o Tesouro Nacional, que não cobria metade

das despesas.

No dia 20 de março de 1969, o DCT foi transformado em uma empresa

pública denominada Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT),

vinculada ao Ministério das Comunicações pelo decreto-lei nº 509/69. O

patrimônio do antigo DCT foi transferido para a ECT. A empresa passou

então a ter maior autonomia econômico-financeira e a buscar uma política de

recursos humanos centrada em um plano de cargos e salários (sem empregos

vitalícios), treinamento e

valorização das funções.

Na década de 1970, os

Correios contrataram uma

empresa de consultoria

francesa que detectou total

precariedade das instalações, o

despreparo absoluto dos

trabalhadores, a obsolescência

do material e uma tarifa alta,

além do descrédito da

população.

A partir daí a empresa

começou a investir em infraestrutura

operacional e

administrativa influenciada

pelo crescimento de 18% ao

ano do tráfego postal.

Nos anos 80, o

crescimento postal foi de

apenas 3,2% devido à

recessão que o país sofreu.

As tarifas foram congeladas

pelo Plano Cruzado e os

investimentos da empresa


caíram de 12% para 3%. Começaram a surgir então ações voltadas para a

diversificação do trabalho dos Correios. A instituição começou a expandir as

suas atividades para além de cartas, telegramas e pequenas encomendas. Os

investimentos começaram a ser distribuídos para a estrutura operacional e

administrativa com o objetivo de que os serviços atingissem todo o território

brasileiro. Fato que se consolidou em 1985 com o início do trabalho dos

Correios nos meios rurais. Os principais concorrentes na época foram a

popularização do aparelho de fax e as empresas particulares de entrega.

No final da década de 1980, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos

obteve o primeiro lugar dentre as “Melhores e Maiores” empresas listadas

pela revista Exame. Esse prêmio incentivou a empresa a reformular a sua

estrutura organizacional para se tornar mais flexível, modernizando e

atualizando os sistemas e adotando uma postura de marketing mais agressiva

e objetiva.

Nessa mesma época, foram criados também diversos projetos, como o

Serviço de Atendimento ao Usuário (SAU), agências-modelo, integração dos

Correios com a comunidade o sistema de franquias.

Em 1990, a ECT passou a ser vinculada ao Ministério de Infra-Estrutura,

situação que durou um curto período, pois dois anos depois a empresa foi

remetida junto ao Ministério dos Transportes e Comunicações e recebeu o

prêmio de melhor organização pública de todas as empresas brasileiras.

Ainda na década de 90, novos serviços foram implantados, tais como

solicitação e entrega de passaporte; venda de fichas de telefone; cadastramento

de CPF; inscrições de vestibulares e concursos, inscrição e pagamento de INSS;

entrega de carteira de habilitação e recebimento da taxa e de solicitação de

licenciamento de veículos; recebimento das solicitações do seguro-desemprego;

recebimento de imposto de importação e de multas do Código Eleitoral;

distribuição de livros; recebimento de formulários de Cadastro Geral de

Empregados e Desempregados e do Programa de Alimentação do Trabalhador

(PAT).

Outra inovação que a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos

desenvolveu foi um plano de ação para as empresas privadas para preparar e

entregar faturas, operacionalizar a coleta e entrega de correspondência e

documentos internos e transportar qualquer objeto. Com isso, o faturamento

saltou de US$ 890 milhões em 1989 para US$1,7 bilhões em 1993.

O faturamento total da ECT em 2007 foi de R$ 10 bilhões. O resultado da

atividade postal gerou à União receitas de impostos e dividendos da ordem de

R$ 1,2 bilhão.

Em linhas gerais, os segmentos de atuação da ECT são transporte postal

(objetos postais, carga industrial) e telemático (correspondências, encomendas,

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malotes, telegramas, fax, produtos filatélicos) e atendimentos especiais

(seguridade social, recebimento de contas, venda para terceiros, emissão de

documentos, inscrição para concursos, telemarketing, fornecimento de talões

de cheques, correio eletrônico).

Os correios ainda possuem um código de ética, em que a empresa valoriza:

Satisfação dos clientes; Respeito aos empregados; Ética nos

relacionamentos; Competência Profissional; Compromisso com as diretrizes

governamentais; Responsabilidade Social; Excelência empresarial.

Sedex

O Sedex (Serviço de Encomenda Expressa Nacional) foi um programa

criado em 1982 pelos Correios. Sua função básica era a de entregar o mais

rápido possível as encomendas. Nos últimos anos, a empresa percebeu que o

programa Sedex estava ficando ultrapassado. Para superar o problema, foram

criados então novos programas voltados a determinados nichos de mercado.

O “e-Sedex”, por exemplo, consiste em o cliente comandar suas entregas via

internet; o “Sedex 10” tem como seu objetivo entregar os produtos até às 10h

da manhã do dia seguinte; com o “Sedex Hoje”, como o próprio nome revela, as

encomendas são entregues no mesmo dia que foram solicitadas; o último

programa é o “Sedex Mundi”, em que as encomendas são entregues em qualquer

lugar do planeta.

Dia Mundial dos Correios

A comemoração do Dia Mundial dos Correios é realizada todo dia 09 de

outubro. A data marca a fundação, no ano de 1874, da União Postal Universal

(UPU), organização intergovernamental ou internacional que agrupa os

serviços postais de 191 países.

A UPU é considerada a segunda entidade internacional criada, ficando

atrás apenas da União Internacional de Telecomunicações. A missão da União

Postal Universal é coordenar os diversos serviços postais dos diferentes países

membros, sem interferir nas políticas próprias dentro dos estados. Dessa

maneira, cada administração postal é livre para definir como distribuir as

correspondências, que serviços efetuar, qual o número de pessoal necessário

para o seu funcionamento e qual o plano de edição de selos.

Universidade dos Correios

Desde sua fundação, em 1969, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos

afirma investir em recursos humanos, visando à formação de pessoal

especializado e a melhoria da qualidade operacional.

Segundo informações do site dos Correios, no final da década de 70, a ECT

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passou a dispor de dois órgãos para treinamento e desenvolvimento de seus

empregados: a Escola Superior de Administração Postal - ESAP, voltada ao

ensino do pessoal de nível superior e o Departamento de Recursos Humanos

- DRH, com representações regionais para treinarem empregados de nível

básico, médio e técnico.

Nos anos seguintes, em virtude de a concorrência ter se tornado mais

agressiva, a ECT aumentou a receita operacional destinada às atividades de

treinamento e amadureceu a ideia de conceber uma orientação única para o

setor de educação empresarial, à qual caberia a função de preencher as lacunas

deixadas pelo então sistema vigente. Em termos práticos, era preciso alinhar

os programas educacionais com as estratégias da Empresa e também ampliar

o público alvo desses programas.

A essas necessidades somou-se o fato de que nos últimos anos tomou lugar

uma verdadeira multiplicação de universidades corporativas, sistema adotado

por grandes empresas estrangeiras e nacionais. É nesse cenário que, em

dezembro de 2001, a Universidade Corporativa dos Correios - UNICO foi

criada, com intuito de unificar as ações educacionais dentro da Empresa e

estendê-las para toda a cadeia de valor.

Baseada no conceito de learning organization - empresa que aprende - a

Universidade pretende firmar-se como referência em termos de formação e

desenvolvimento de profissionais do setor de serviços postais.

Ações Culturais e Esportivas

Os Correios também contribuem para o desenvolvimento da sociedade

brasileira e têm como um de seus valores a responsabilidade pública e a

cidadania, com apoio às ações culturais e ao esporte.

A empresa investe em projetos culturais e realiza diversas atividades que

contribuem para o bem comum. As ações culturais dos Correios são

coordenadas pelo Departamento de Comunicação Estratégica.

Nos esportes, o Correio é patrocinador de algumas modalidades olímpicas

como a Natação, Saltos Ornamentais, Nado Sincronizado, Pólo Aquático,

Maratona Aquática e Tênis. A empresa também patrocina outros esportes

não olímpicos, como o Futsal, cuja parceria iniciou-se em 2004 nas competições

da Seleção Brasileira de Futsal masculina e feminina.

A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos também é patrocinada pelos

Correios desde 1991, e a Natação é o esporte “carro-chefe” da entidade. Os recursos

provenientes da parceria CBDA – Correios foram fundamentais para que o esporte

alcançasse um nível técnico inédito e desse ao país mais pódios mundiais e olímpicos.

A parceria possibilitou que nadadores se tornassem ídolos nacionais e nomes

respeitados internacionalmente, como foi o caso de Gustavo Borges e Fernando

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Scherer. Além de uma geração inteira que cresceu com o patrocínio dos

Correios, que hoje formam a elite do esporte. Atletas como os recordistas

mundiais Kaio Márcio Almeida, Thiago Pereira e César Ciello. A parceria

com os Saltos Ornamentais começou em 1991, patrocinando os atletas César

Castro, Cassius Duran e Juliana Veloso. Os dois últimos foram responsáveis

por conquistar as primeiras medalhas pan-americanas na história da

modalidade no Brasil.

Recentemente a Maratona Aquática recebeu uma brasileira como

vencedora: Poliana Okimoto. A brasileira venceu 9 das 12 etapas disputadas e

conseguiu ganhar um título inédito para o Brasil.

Programa de Qualidade

O Programa Nacional de Qualidade dos Correios – PNQC - consistiu em

uma ampla ação mobilizadora, promovida a partir do termo assinado em

dezembro de 1997 pela diretoria da Empresa, no sentido de adotar uma gestão

empresarial participativa, tendo como estratégia a melhoria contínua do

ambiente de trabalho de seus colaboradores e de seus processos, visando à

máxima satisfação dos clientes.

O Programa constituiu-se em um conjunto de projetos e ações

implementados no âmbito da Empresa, cuja definição levou em consideração

três grandes vertentes: Gestão pela Qualidade Total - GQT, Normas da

International Organization for Standardization - ISO, e Critérios do Prêmio

Nacional da Qualidade - PNQ.

Cabe enfatizar que a responsabilidade pela implementação e manutenção

das iniciativas preconizadas pelo Programa é de todos os órgãos e

colaboradores da Empresa, com o estímulo e apoio permanentes da direção

da Empresa de Correios e Telégrafos.

Correios no Paraná

Os Correios paranaenses são comandados por uma diretoria que

representa uma das 28 representações regionais. A regional do Paraná conta

com quatro assessorias (Comunicação, Gestão, Jurídica e de Planejamento) e

dezesseis gerências - Contabilidade e Controle Financeiro, Atendimento,

Vendas no Varejo, Recursos Humanos, Saúde, Educação Corporativa, Relações

do Trabalho, Administração, Encaminhamento e Administração da Frota,

Logística, Engenharia e Sistemas e Telemática. A diretoria é composta de

seis regiões de vendas: Curitiba, Região Metropolitana, Ponta Grossa,

Cascavel, Maringá e Londrina. O Brasil conta com aproximadamente 115 mil

funcionários dos Correios, sendo 55 mil carteiros. No Paraná o número de

carteiros é de aproximadamente 5,8 mil trabalhadores. Os 75 bairros que

compõem Curitiba são representados por 77 unidades dos Correios, divididas

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em Centro de Distribuição Domiciliar (CDD) e Agências de Correios

Franqueadas (ACF). O primeiro é o local onde os carteiros se reúnem todos

os dias e batem o cartão-ponto. Todas as encomendas da região abrangente

saem deste local. As Agências Franqueadas são locais que a população pode

despachar a carta que pretende enviar. Os carteiros também podem receber

cartas para entregas durante o trajeto oriundos das ACF.

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II

PRAZER, me chamam

de AMIGO!

Um pouco mais de mil e quatrocentos latidos documentados e

gravados, 4,1km andando pelas ruas do bairro curitibano de Santa

Felicidade e um cachorro vira-lata nos seguindo; assim começa a

história de Oswaldo Rocha Pires. Meu primeiro personagem entrevistado

entrou na história de última hora, graças a meu amigo Thiago Henrique que

descobriu essa pessoa.

Era meio dia de uma segunda-feira, a primeira entrevista prestes a acontecer,

nervosismo correndo solto dentro do carro no aguardo por Oswaldo. Não

sabia se ele viria da parte alta da rua ou da parte baixa. Região desconhecida,

pois Santa Felicidade até então significava para mim apenas a Avenida Manoel

Ribas e seus diversos pontos de gastronomia italiana. No telefone, um dia

antes, o carteiro me informou que sempre entregava cartas entre 12h e 12h30

na emissora de rádio localizada naquela rua, que então se tornou o nosso

ponto de encontro. Passados quinze minutos de apreensão, começo a escutar

latidos distantes que, no ritmo de minha respiração, ainda rápida e pesada, se

intensificam cada vez mais. Eis que Oswaldo passa como uma flecha pela rua

de baixo fazendo seu serviço. Então calculei que no máximo em cinco minutos

ele estaria passando pela Rua Zem Bertapelle, na altura do número 531, onde

eu me localizava. Quando o vi dobrando a esquina foi um misto de alegria,

euforia e medo. Será que ele é legal, se não vai ser esnobe, tudo me passava pela

cabeça. Não sabia se ligava o gravador, tirava fotos ou descrevia a cena em um

papel.

Quando ele se aproxima, logo percebo também a presença do outro ilustre

personagem: o cachorro. Um vira-lata grande, com a pelagem marrom em tons

claros e escuros e muito bonitos, precisando apenas de um banho e de uma

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tosada. Logo me aproximo dele, me apresentando, gravando e anotando, tudo

ao mesmo tempo, de maneira um pouco desajeitada e desorganizada, tentando

não derrubar nada. Oswaldo para por um minuto seu trabalho com o intuito

de se apresentar e para que eu possa pegar suas informações básicas como

nome, idade e estado civil. A profissão todos sabem. Carteiro! E com orgulho.

Começava aí uma caminhada com muitas histórias e cansaço.

Há pouco mais de quatro anos, Wadão, como é conhecido no Centro de

Distribuição Domiciliar (CDD) do São Braz, passou

no concurso público organizado pelos Correios e

começou a trabalhar. Já foi responsável por diversas

rotas e percursos, inclusive no CDD do Bigorrilho,

lugar que o carteiro afirma não ter gostado. “É longe

de casa”, diz o morador de Santa Felicidade. Prestes a

completar seu quinto ano entregando cartas, Oswaldo

foi atacado cinco vezes por cachorros, sendo que

“Nunca dei comida, mas ele continua me seguindo”

/ “Ele se transformou no meu companheiro

de trabalho” / “De vez em quando alguém dá comida

e ele me esquece, mas no outro dia está me

esperando no ponto do ônibus.”

de dois ataques ele se recorda, pois os cães eram de

pessoas conhecidas.

“Nesse braço (o esquerdo) foi o Ping e na perna o

Lobo”, afirma ele mostrando os locais de ataques, mas

sem nenhuma marca aparente.

Passada a primeira quadra, ele mostra um terreno

enorme, com uma casa bem ao centro, cercada por uma

tela com fios de arames e um cachorro da raça Fila que

esbravejava, latia e uivava com a chegada do carteiro.

“E esse já te mordeu?”, pergunto. “Não, não, mas tive que sair correndo umas

duas vezes porque volta e meia ele escapa”, lembra Wadão dando risada. “Seria

cômico, se não fosse trágico”, frase repetida toda vez que uma história de perigo,

mas com final feliz era contada.

Nessas duas primeiras e longas quadras, passamos por 35 casas, na qual 27

tinham cães de guarda e apenas oito avisam a presença deles. Placas como

“Cuidado: cão bravo”, por mais clichês que sejam, ajudam e muito um carteiro

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que está conhecendo sua nova rota. Hoje, Oswaldo já sabe de cor e salteado

todas as residências que abrigam os animais, mas há três meses, quando iniciou

o seu novo roteiro, era uma casa, um perigo. Nesse trimestre inicial não houve

mordidas, só algumas fugas de cachorros que odeiam carteiros e muitas

chuvas. “Nós não podemos parar na chuva, o serviço continua. Eles [Correios]

fornecem uma espécie de capa que não protege, só molha e por dentro sua.

Prefiro não usar”, conta ele enquanto toca o interfone de um sobrado em busca

de uma sonhada assinatura do morador, coisa muito difícil de acontecer,

conforme relata Wadão. Depois dos cachorros e mudanças climáticas durante

o dia, a não entrega de correspondências por falta de alguém assinar um pacote

é outro problema. São três dias de tentativas, ou seja, três dias com peso extra.

Depois desse tempo, a pessoa que receberia a encomenda terá que ir ao CDD

da sua região para retirá-la.

Quadras são andadas, ruas atravessadas e cartas são entregues. A conversa

continua e um novo problema é relatado: as caixinhas. Existem de tudo que é

tipo: de ferro, plástico, coloridas, grandes, pequenas, muito altas ou muito

baixas – facilitando para os cachorros. Apesar de muitos problemas

enfrentados, Wadão leva tudo muito na esportiva, não há tempo ruim com

ele. Para um problema citado, há uma história cômica e trágica a ser contada,

como no dia em que ele estava se dirigindo a uma rua sem saída e quando se

aproximava da última casa percebeu que a caixinha de cartas estava diferente,

parecia maior a cada passo dado. Quando estava a menos de um metro da

suspeita caixa, mais correria, era uma colméia, cheia de abelhas que o

perseguiram por uma interminável quadra.

Depois de milhares de quilômetros já andados e algumas centenas corridos,

Oswaldo finalmente anda sossegado. Uma semana antes do feriado de 7 de

setembro ele teve uma surpresa ao descer do ônibus que o deixa na sua área de

atuação. Havia um cachorro, de porte grande, deitado na calçada, como quem

não quer nada, só observando a sua movimentação na quadra. Quando dobrou

a esquina, ele ouviu uns latidos, olhou para trás e lá estava o cão. Andou um

pouco, o animal foi atrás. Atravessou a rua, mesma coisa. Tentou dar um

“chispa” no cachorro. Não adiantou. Então pensou: uma hora ele cansa. Ainda

não cansou. E desde então, aonde o Wadão vai o cachorro vai atrás.

Numa espécie de Dom Quixote e Sancho Pancho, os dois caminham

diariamente pelas ruas calmas do bairro. Quando chegam à Rua Via Vêneto,

que dispõe de maior tráfego de automóveis, Wadão não espera a primeira

oportunidade e sai correndo para atravessá-la. Com muita calma e paciência,

ele aguarda o momento certo para que ele e seu fiel escudeiro consigam

atravessar a rua sem perigo. Essa não é sua única preocupação com seu novo

companheiro. Oswaldo mostra a pata esquerda dianteira do cachorro, onde

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aparentemente ele parece ter deslocado um dos ossos. “Quando eu tiver um

tempo, quero levar ele para minha irmã dar uma olhada, ela é veterinária, aí

aproveito e já dou um banho e uma aparada nestes pêlos”, diz ele sorridente.

Falando em família, Oswaldo revela que com seus 43 anos continua solteiro e

sem filhos, mas não mora sozinho. Ele relembra que os anos foram se passando,

os irmãos e irmãs casando e ele foi ficando “para titio”. E como o tempo passa

para todos, hoje ele mora com os pais, já bem idosos e com muitas necessidades

que não podem ser enfrentadas sozinhas. A dedicação exclusiva aos patronos

da família não parece tirar a alegria de viver dele, mas ele diz que poderia ter

feito muitas coisas diferentes, mas mesmo assim é feliz.

Nas minhas contas, já havíamos andado por volta de doze quarteirões.

Olhei para o cachorro e não sabia dizer quem estava mais cansado, eu ou ele.

Perguntei então ao Wadão se ele alimentava o cão, a resposta foi negativa: “no

máximo uma água”. Com menos de um mês de bairro, o cachorro já ganha fãs

que dão comida de vez em quando, conta o carteiro. “De vez em quando ele fica

comendo e me esquece, mas no outro dia está me esperando de novo”, conta em

meio a risadas e esperando a melhor hora para atravessar a rua. Desde que o

cachorro começou a segui-lo ele nunca foi mais atacado, mas nem por isso os

barulhos diminuíram. Em cada casa visitada é aquele alvoroço dos animais de

guarda. Se antes tinha apenas o carteiro para se preocuparem, agora os cães

têm que cuidar também do vira-lata que marca seu território, com o seu xixi,

a cada correspondência entregue.

Quando a entrega é feita em algum comércio e Oswaldo é obrigado a entrar

no imóvel, o seu fiel escudeiro é obrigado a ficar do lado de fora. O simples fato

de Wadão ficar um pouco mais de um minuto dentro de algum lugar e fora do

alcance de visão do cão faz com quem ele vá ao desespero. Começa a andar em

círculos, late, arranha a porta do comércio e uiva, deixando o infernal labrador

Marley do best-seller “Marley e Eu” parecer um mero cachorro. Quando o

carteiro reaparece é uma festa só. Quem não acompanha o seu trabalho pode

pensar que fazia anos que ele e o cachorro não se viam, mas não passavam de

meros dois minutos e quinze segundos. “Semana passada eu demorei uns cinco

minutos em uma loja, quando eu saí ele tinha ido embora, mas no outro dia

estava lá pulando em mim quando eu cheguei”, conta Wadão, afirmando que

pelo menos uma vez por dia quase cai devido aos pulos surpresa que o cachorro

dá para cima dele.

Passavam da uma hora da tarde, o sol brilhante e quente, eu pensando no

porquê de estar de calça jeans e procurando algum lugar para comprar uma

água. Já pensava na hipótese de tomar metade da garrafa e a outra metade dar

ao cachorro que já ostentava sua língua para fora da boca. Passamos em frente

a uma loja de ração para animais, que exalava o cheiro de seu produto. O

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cachorro passou reto pelo estabelecimento. Perguntei a Wadão se o cão nunca

havia atacado a loja e ele disse que não, “até porque esses tipos de cachorros

só comem restos de comida”. Ele diz isso com experiência própria, pois é dono

de dois cachorros e na última semana adotou uma gata que andava perdida

na rua de sua casa. Infelizmente o seu companheiro não será adotado. Oswaldo

se justifica argumentado que o cão já tem dono, tem lugar para dormir e que

ele é muito grande, daria trabalho. E concordamos que um cachorro com este

perfil aventureiro não deveria ficar preso, provavelmente ele surtaria e se

transformaria em mais um cachorro louco para atacar e morder um carteiro.

Meu tempo e fôlego já estavam se esgotando, foram um pouco mais de uma

hora e quatro quilômetros caminhados. Oswaldo tem mais duas horas e meia

de serviço na rua e quase cinco quilos de correspondências em sua bolsa.

Passamos pelo terminal de ônibus de Santa Felicidade onde ele afirma que

seria mais fácil para ele pegar sua condução e ir para casa, mas devido ao

cachorro ele anda algumas quadras até um ponto que fica a 100 metros da

residência oficial do cão. Meio perdido de tantas voltas que demos, pergunto

a Wadão como faço para voltar até a emissora de rádio onde parei o carro. Ele

aponta para direção leste, onde atrás das casas estava a antena de transmissão

da empresa. Após a despedida e um pulo surpresa do cachorro em cima de

mim, pergunto se o cão tem nome. Wadão tem a resposta pronta.”Não sei,

mas eu chamo de Amigo!”.

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UM TÍTULO não

comemorado

A

história de Jefferson – com dois “F” enfatiza ele – na Empresa de

Correios e Telégrafos começou há exatos nove anos. Curitibano da

gema, Souza ou Negão, como é conhecido entre os amigos carteiros,

já trabalhou em diversas regiões entregando correspondências. Seu primeiro

bairro como carteiro foi o Alto da Glória, região onde ele morava e local do

estádio do seu time de coração, o Coritiba Foot Ball Club. Ele ostenta com

orgulho a carteira de sócio-torcedor do Coxa, diz que vai em todos os jogos,

uma vez que os horários das partidas sempre são fora do expediente. Souza

lamenta quando o jogo é marcado para as 21h50. “Acaba tarde e atualmente

eu moro em Campo Largo, aí fica ruim de acordar cedo no outro dia”. Mesmo

assim, faça chuva ou faça sol ele está lá uma vez por semana. Se o time ganha

“todo mundo do CDD desaparece”, afirma ele, lamentando que quando o seu

time é derrotado todos os carteiros o esperam chegar para tirar um sarro.

Depois do Alto da Glória, Souza ainda trabalhou no Centro Cívico, lugar

em que segundo ele se encontram as mais diversas autoridades em que ele não

votou e que nunca teve o prazer ou desprazer de conhecer. Entretanto, o bairro

é disputado por muitos carteiros pelo fator imobiliário presente. Nas ruas, ao

contrário da maioria dos 75 bairros curitibanos, o predomínio é de edifícios,

o que facilita a entrega e a deixa mais segura, pois o número de cachorros é

significativamente menor. Cachorros, sempre eles! Jefferson trabalhou ainda

no Campo Comprido, região com muitas residências, muitos cachorros e

muitos sustos. Ele conta que em toda a sua carreira de carteiro já fugiu por

volta de setenta vezes de cães. Já subiu em árvores, muros e entrou em casas,

lojas e garagens fugindo dos cachorros. Hoje, trabalhando no Bigorrilho, ele

conta que está mais tranquilo, sendo que há apenas dois empecilhos. As

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numerosas subidas e descidas do bairro, que, segundo Souza, fazem com que o

peso da bolsa triplique. O outro problema ocorre na única rua de seu trajeto

que tem casas, e adivinhem só qual é o problema? Cachorro! Ele conta que

toda vez que dobra a esquina sentido a essa quadra sem saída ele tem que

pegar uma espécie de bastão, feito com o resto de madeira de uma obra, que

serve como uma espécie de escudo, já que basta ele pisar na calçada que o

cachorro residente da última casa pula o muro e em

uma linha reta traça seu objetivo: a canela do carteiro.

Seu cajado que há mais de um mês o defende

demonstra sinais de mordidas e já está frágil, podendo

não ser mais útil na próxima expedição do carteiro a

esta rua. Então, Jefferson não foi atrás de um novo

“Ganhei o prêmio em 2007: Fui mordido 6 vezes

nesse ano” / “Levei quatro pontos e a empresa

não considera isso acidente de trabalho” / “ A greve

serve para conseguirmos os nossos direitos”.

escudo, mas protocolou nos Correios uma queixa

sobre essa rua, especificamente sobre a última

residência. Desde que tomou este ato administrativo

a quadra do cão saltador de muros está sem receber

correspondências, numa espécie de exílio, onde todos

os moradores foram notificados que devem se dirigir ao posto de distribuição

mais perto do lar para buscar suas correspondências, pois o atendimento só

voltará ao normal quando o proprietário da casa tomar as providências

necessárias para que mais nenhum carteiro seja atacado. Para quem pensou

que essa história pode ser considerada um fato ruim é que ainda não sabe o

que está por vir.

O ano era 2002, e Jefferson havia sido transferido recentemente para a

sucursal de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. Ele tinha duas

opções: trabalhar lá ou aguardar numa fila de espera de um pouco mais de

dois anos, sem ganhar salário, para ter o seu emprego perto de casa. Escolheu

a primeira opção, mesmo morando em Campo Largo. Todos os dias acordava

às 5 horas da manhã, enfrentando 1h30 de viagem e 48 quilômetros de distância.

“Eu levantava no escuro e chegava em casa também no escuro, mas eu precisava

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ganhar dinheiro”, relembra Souza com uma certa mágoa desses primeiros dias

sofridos.

O tempo foi passando e ele foi se acostumando com a rotina, já sabia em

qual quadra corria algum risco de ataque de cães, fato que ele ainda lamenta

muito, pois não tem raiva dos animais e sim dos seus donos. Para ele falta a

conscientização das pessoas de que um cão solto pode ser perigoso para os

outros, pois o dever dele que é cuidar da casa ele sabe fazer, mas que segundo

Souza os ataques podem ser evitados se os cachorros ficassem presos entre

12h e 18h, que é o horário de entrega das correspondências. Outro apelo que

ele faz, caso a pessoa não queira prender seu cachorro durante o dia, é mudar

a localização da caixinha de cartas. Segundo ele, 90% das caixinhas ficam em

uma altura que o cachorro não precisa nem pular, basta apenas se levantar

para efetuar uma mordida.

Voltando a Colombo, Jefferson completava seis meses da sua rota, conhecia

já toda região, havia feito amizade com os moradores e comerciantes locais.

Como todos sabem, o inverno na região Sul do Brasil é rigoroso e intenso e

Souza não escapou de pegar um resfriado. Ficou dois dias de licença médica

descansando em casa. No terceiro dia, já revigorado, ele voltou ao trabalho e a

dura rotina de enfrentar os ônibus lotados. Chegando ao CDD da cidade,

durante o período vespertino, fez os trabalhos de separar as correspondências

por regiões e depois começou a separar o que ele iria levar em sua bolsa na

ordem de entrega que ele havia traçado. Ele lembra muito bem desta quartafeira,

como se fosse ontem. Relembra que, como já estava adaptado à cidade,

tinha no seu mapa cerebral em quais ruas poderia andar tranquilo e em quais

teria que tomar cuidado. Jefferson completava um pouco mais de 75% de

trabalho realizado no dia e caminhava distraído, ouvindo música no seu CD

Player, em uma quadra classificada por ele como “calma”.

A melhor forma de descrever a cena a seguir é com as próprias palavras do

personagem:

“Lá estava eu dobrando a esquina, ouvindo meu reggae, de cabeça baixa

olhando as correspondências que viriam a seguir e seus números, uma vez que

nessa rua não havia cachorros. Eu já havia decorado até altura das caixas de

correio. Colocava as cartas sem olhar. Mas é sempre assim, basta um momento

de distração para que aconteçam os acidentes. Eu estava no meio da quadra e

fui colocar a correspondência na caixa da casa de uma mulher que sempre foi

simpática comigo. Quando estiquei o braço esquerdo em direção à casa, ouvi

um barulho estranho e, quando olhei, tinha um Rottweiler com metade do

corpo para fora do muro agarrando meu braço. Achei que ele iria arrancar

todo meu braço, eu batia nele com a bolsa, gritava e ele não soltava, cada vez

mordia com mais intensidade e eu via todo aquele sangue jorrando e não sabia

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mais o que fazer. Até que sem mais nem menos ele abriu a boca e eu caí no chão

com uma dor jamais sentida. Lembro que rapidamente os vizinhos me

socorreram, enfaixaram meu braço e de carro me levaram para o Posto de

Saúde mais próximo. É por isso que me chamam de azarado, bastou eu ficar

dois dias afastados para que a dona da casa comprasse um cachorro e ele na

primeira ocasião me atacasse. Levei quatro pontos no braço e tenho essa

cicatriz”.

Cicatriz que, passados sete anos, ainda o incomoda. Jefferson lembra que

por causa do acidente ficou quatorze dias parado. Como os Correios só cobrem

quinze dias de licença médica, foi aconselhado a buscar uma nova licença no

INSS, o que ele não fez, pois segundo ele “é muita burocracia até para as coisas

mais simples”, então após o encerramento de sua licença voltou ao trabalho

como o braço ainda inchado, com dor e com uma cicatriz que causava

desconforto. Souza afirma que o fato aconteceu em uma época em que ele não

sabia ao certo os seus direitos, que poderia ter processado a proprietária do

cachorro para que ela cobrisse seus gastos com medicações. Segundo ele, os

Correios pagaram boa parte do tratamento, menos os remédios, que foram

muitos e uma operação estética do antebraço esquerdo de Jefferson. “Os

Correios argumentaram que a cicatriz não alterava em nada meu rendimento,

por isso negaram o pagamento da cirurgia plástica. Mas se quando entrei eu

não tinha nenhuma cicatriz, e agora eu tenho por causa do trabalho, nada

mais justo que eles pagarem. Até para ir à praia eu me sinto meio mal”, afirma

ele, um pouco irritado.

Após esse relato, feito durante a greve realizada em setembro de 2009, mais

precisamente às 21h15, na calçada em frente à Sede Estadual dos Correios no

Paraná na Rua João Negrão, Jefferson respira fundo, vai até a barraca

improvisada, onde ele passaria a noite com mais quatro pessoas, e pega um

cigarro. Esse era seu segundo cigarro da noite. O primeiro foi quando cheguei

ao encontro dele e me apresentei. Num mecanismo automático de defesa, logo

após eu falar a palavra “entrevista” dava para notar seu nervosismo e o alívio

que o fumo dava. Interpretei então o fato de ele acender um novo cigarro como

uma forma de aliviar a tensão e troquei de assunto. Fomos para a família.

Jefferson está namorando há pouco mais de dois anos. Sua namorada

também entrega cartas, mas esta história está descrita no próximo capítulo.

Seu pai foi carteiro durante trinta anos e virou a inspiração para que ele tentasse

o concurso público. Hoje sua maior alegria é seu filho de sete anos. Todos os

momentos em que ele é citado seus olhos brilham. Ele conta que agora o filho

está começando a entrar na fase difícil. Quer tudo para ele, não quer saber de

estudar, só de jogar vídeo-game. “Esses dias aí ele quebrou os dois controles

do PlayStation e eu não tive como jogar”, conta Souza, dando risada. A pior

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parte da noite é quando ele tem que obrigar o filho a desligar o aparelho para

estudar ou dormir. “Dá uma pena, mas se eu não fizer isso é capaz de ele não ir

para a aula”, explica o carteiro antes de emendar: “tudo que eu quero é que ele

seja um grande homem, uma grande pessoa”. Além do futebol, do filho e do

vídeo-game, Jefferson ainda apresenta mais dois hobbies.

“O primeiro é o reggae”, diz ele ostentando seu cabelo com trancinhas.

Relembra dos tempos em que fez um dread lock na cabeça igual ao Bob Marley

e enaltece esse lado bom de ser carteiro dizendo “que aqui nós não precisamos

usar cabelo cortadinho, com gel, topete e também não é necessário apresentar

a barba e o bigode bem cortadinho”. Jefferson diz isso exemplificando com a

história de um primo que foi demitido de uma rede de supermercados por não

ter cortado a barba. Enquanto falava, ele mostrava no celular as fotos do

último show que ele foi, da banda O Rappa. Lamentou ainda a interdição da

Pedreira Paulo Leminski, dizendo que isso só ocorreu porque na região do São

Lourenço moram muitos juízes e promotores. “Pelo menos eu fiz minha parte,

assinei o abaixo assinado. Tem que liberar para show, nem que ele ocorra

durante a tarde”, afirma ele citando o show da banda inglesa Oasis que criticou

em seu site o fato de eles terem se apresentado em um estacionamento de um

centro de eventos na região de Pinhais. “Apesar de considerar os integrantes

da banda uns malas, concordo com eles, para quem tocou no estádio de

Wembley, tocar em um estacionamento deve ser horrível”, comenta ele aos

risos. O outro hobbie que ele ostenta com orgulho é o prazer de preparar um

churrasco quase todo fim de semana. Basta meia hora livre em um domingo

para Souza assar uma carne, regada por cerveja, de preferência Skol, muito

reggae e, é claro, muita diversão. É assim que em pelo menos três finais de

semana por mês ele reúne toda a família.

Passado esse momento de descontração e com o cigarro já totalmente

tragado, resolvo voltar a alguns assuntos mais delicados. O fato de ele afirmar

que o chamam de azarado me chamou a atenção e retomei o assunto do azar.

E não é que os colegas de profissão o apelidaram de azarado com propriedade.

Em nove anos como carteiro, Jefferson já foi mordido em quinze ocasiões, o

que dá uma média de mais de 1,5 mordidas por ano. Em 2007 ele se superou e

conquistou um título que até rendeu reportagens para jornais impressos e

programas de televisão, mas que não foi comemorado e muito menos o deixa

orgulhoso, e sim bastante dolorido. Jefferson foi o carteiro com o maior número

de ataques efetivos sofrido por cães no ano. Ao todo foram seis mordidas que

atingiram o braço, a perna e até mesmo a virilha. Ele conta essas histórias

com o maior espírito esportivo possível, no famoso “seria cômico se não fosse

trágico”.

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Já são quase 22 horas, a fome começa a bater. Os carteiros que estão

acampados em frente à sede dos Correios fazem uma “vaquinha” e compram

alguns pedaços de costela no restaurante do outro lado da rua. Não nos

servimos da carne, mesmo sendo convidados duas vezes, porque o papo está

interessante e Jefferson lembra do último aperto para colocar uma carta em

uma caixinha de Correio. Descreve a cena de uma casa grande com um cachorro

também de grande porte. Explica que, todos os dias ao chegar em frente à

residência, o cão já está pulando tentando agarrar sua mão. Surgiu então a

ideia de distrair o animal com uma pedrinha. Com a mão direita ele ia com a

carta em direção a caixinha e com a mão esquerda ele jogava a pedrinha para

o outro lado causando assim a distração do cachorro. Segundo Souza, essa

tática durou um pouco mais de uma semana e, infelizmente, agora o cão

entendeu a jogada do carteiro. Na última tentativa de tirar a atenção do

cachorro ele atirou quase cinco pedrinhas e o animal ficou estático em seu

lugar, mexendo apenas a boca para latir.

Continuamos conversando e chegam mais dois grevistas para passar a

noite junto ao piquete montado pelo sindicato. Jefferson aponta para um deles

e fala que aquele ali já foi mordido várias vezes, mas menos que ele. Questiono

se em algum dia ele sofreu alguma tentativa de assalto ou se já foi assaltado.

Neste momento, ao contrário das outras perguntas, cujas histórias lembrava

rápido, ele teve que parar para pensar. “Já sim, faz uns anos, é comum tentarem

assaltar, mas comigo foi uma vez só”, conta ele começando a explicação de que

os assaltantes geralmente rendem os carteiros com arma de fogo e levam toda

a bolsa. O objetivo, segundo Souza, é roubar os talões de cheques, mas como

não há tempo de abrir as correspondências, o mais prático é levar toda a

bolsa. “Mas e aí? Vocês têm quem pagar pela bolsa? Como funciona o

procedimento?”, eu questiono. Jefferson explica então que, em todos os casos

que envolvem assalto, o carteiro envolvido deve fazer um boletim de ocorrência

na delegacia mais próxima do ocorrido e então passa por uma sindicância

interna, com perguntas e investigações realizadas por uma comissão

especializada em apurar esses tipos de casos. Tudo isso para provar, ou não,

que o carteiro que sofreu o assalto não estava envolvido com o esquema da

pessoa que praticou o assalto. “Pode levar dias, meses, mas não me recordo

algum caso em que um carteiro tenha sido considerado cúmplice do assalto”,

diz ele citando dois casos que ficaram marcados entre os colegas de trabalho.

Ambos os casos se encaixam no tempo de dois meses de investigações

realizado pela equipe interna dos Correios. A primeira história ele conta que

aconteceu com um conhecido que havia passado em um concurso interno da

empresa e havia “evoluído” para motorista. Essa “evolução”, segundo Jefferson,

está mais regulamentada nos dias atuais, pois segundo ele, antes eram feitos

40


concursos aberto ao público e entravam muitas pessoas que não se encaixavam

no perfil de carteiros, com disposição e gosto pelo trabalho. Outro empecilho

que ele cita é o fato de que os organizadores e participantes ativos das greves,

como é o caso dele, sofrem algumas represálias indiretas por parte da direção,

como não ser aprovado em um exame para dirigir as motos ou as “viaturas”,

modo como eles chamam as vans de entrega e coleta. Retomando a história,

Souza lembra que seu ex-colega de rua havia acabado de assumir o volante,

não chegava a fazer um mês que trabalhava como carteiro-motorista dos

Correios. Em um determinado ponto de entrega parou a viatura em frente a

um edifício no centro de Curitiba. Desceu rapidamente e foi em direção à

portaria colher a assinatura do morador, destinatário da encomenda. Jefferson

lembra que a história correu por todos os CDD’s da cidade, pois o carteiro

ficou menos de três minutos na portaria, tempo mais que suficiente para que

um ladrão efetuasse o roubo do veículo. Esse é o único caso que ele lembra, em

nove anos de Correios de assaltantes levarem um carro da empresa. “É por

essa e outras que prefiro ficar a pé”, diz ele dando risada.

Porém o risco existe de mesma forma ou até com maior intensidade para

quem está no serviço a pé. Um dos casos fatídicos, segundo ele, aconteceu

quando estava trabalhando em Colombo. “Lá tem uns lugares sinistros, se

você não tem que cuidar com os cachorros, tem que estar de olho com os

assaltos”, afirma ele, começando a desenvolver a história de um amigo seu e o

assalto. Jefferson conta que certo dia, em uma rota que ele já havia trabalhado,

o carteiro estava realizando a entrega das correspondências quando foi

abordado por dois homens armados que realizaram um sequestro relâmpago.

Foram pra um beco sem saída e começaram a vasculhar a bolsa procurando

os talões de cheques e algumas encomendas que poderiam ter algum valor.

Encontraram um pacote de talões e obrigaram-no a continuar a entrega

normalmente, sem demonstrar que estava sendo seguido. Quando apertou o

interfone da residência, detentora dos cheques, a empregada abriu o portão

para assinar o recibo de entrega e rapidamente foi abordada pelos assaltantes.

O carteiro e a empregada foram obrigados a entrar na casa e ficar trancados

em um banheiro, ele apenas de cueca. “Fizeram uma limpa na casa, levaram

dinheiro, aparelhos eletrônicos e até o uniforme dele”, conta Souza,

demonstrando um pouco de indignação.

Nas ruas, basta passar alguma pessoa com uma camisa de predomínio

amarelo que você pensa: é carteiro. O uniforme amarelo e azul se transformou

em uma marca registrada dos trabalhadores dos Correios. Assim como em

qualquer empresa que adota o uso de uniformes, os carteiros apresentam

algumas reclamações sobre a vestimenta usada por eles. Jefferson explica que

a cada seis meses todos os carteiros deveriam receber três novos conjuntos de

41


sapato, calça, bermuda, camisa e agasalho. Deveria, mas há mais de um ano

isso não ocorre. Aos trabalhadores, foi informado que está ocorrendo um

problema com a licitação das empresas que se candidataram para fabricar as

roupas. Souza sabe que “esse negócio de licitação é complicado”, mas sugere

que sejam feitas mudanças em alguns itens do uniforme.

- Repare na calça, ela é uma calça social, não há nenhuma mobilidade nela.

É ruim de andar muito tempo com ela e desconfortável para correr quando

necessário. Já manifestei a opinião que as calças deveriam ser daquele material

de uniformes esportivos, o poliéster. “A capa de chuva não é impermeável e só

serve para fazer peso extra, já que os nossos sapatos pesam 1 kg e causam

muitos calos.

- Falando em peso, quantos quilos você pode levar na bolsa?

Jefferson responde que o máximo estimulado é 8 kg para as mulheres e 10

kg para os homens, mas que é comum esse peso ser ultrapassado. E quanto

mais pesada estiver a bolsa, menor é agilidade do carteiro. E isso compromete

também a segurança. Bicicleta, moto, ônibus e automóvel. Souza quase foi

atropelado por esses quatro tipos de veículos e com as mãos mostra como

carrega a bolsa para não derrubar nenhuma correspondência na hora que tem

que correr para atravessar a rua.

O meu tempo de entrevista com ele vai se esgotando, quase onze horas da

noite, o frio começa a aumentar, Jefferson explica que ainda vai a um

hipermercado com a mulher comprar alguns alimentos para passar a noite

acampado. Eu olho para a barraca e vejo que não há mais costela na travessa,

essa seria a sua janta. Despeço-me agradecendo a paciência pelas quase duas

horas conversando em pé, no frio, sem comida e com apenas dois cigarros que

logo virarão três, pois em sua mão esquerda o isqueiro já dava sinais de vida.

Antes de ir embora, Souza quer mostrar-me um vídeo que gravou. A entrada

em campo do Coritiba no jogo contra o Corinthians Paulista. Orgulhoso diz:

foi uma festa linda, pena que o time não colaborou.

Trocamos contatos de email e telefone, ele apresenta sua namorada, que

seria a entrevistada do dia seguinte e nos cumprimentamos. Aguardo o sinal

ficar vermelho para atravessar a rua e andar mais três quadras até a Rua

Rockfeller, onde estacionei meu carro, pois lá não havia Estar. Quando estou

no meio da quadra, andando, pergunto meio gritando: E esse ano, já foi

mordido por algum cachorro? Ele dá risada, espera eu terminar a travessia e

responde: Não, esse ano ainda não, mas calma que o ano ainda não terminou!

42


ELA vai

até o FIM

Nasceu em Araruna, a 480 km da capital, aos cinco anos se

mudou para Campo Mourão, passou um tempo em

Prudentópolis e cursou o ensino médio em um colégio integral

de Cruz Machado. Descendente de ucranianos, com sangue forte como

ela se define, e batalhadora, aos 19 anos resolveu mudar de vida e tentar a

sorte na “cidade grande” de Curitiba. Essa é a trajetória de Bernadete,

popularmente conhecida como Dete, seu nome de “guerra”.

Nossa conversa começa em uma lanchonete, na esquina da sede dos

Correios. São quase 16 horas e o carro de som alugado pelos grevistas já

está em funcionamento, diversos dirigentes sindicais passam recados,

protestam e organizam a passeata que está programada para começar às

17 horas até o calçadão Rua XV de Novembro. O barulho é muito grande,

temo pela captação de som do gravador, mas seja o que Deus quiser. Bato

um papo com Dete sobre a greve, suas reivindicações, sobre a entrevista e

qual é a ideia do livro. Enquanto conversarmos, Jefferson nos serve uma

cerveja, enche seu copo e sai para conversar com outros carteiros. Bernadete

completa neste semestre oito anos como carteira e sete Centros de

Distribuições trabalhados. Já caminhou pelo São Braz, Santa Felicidade,

Hauer, Centro Cívico, Araucária, Campo Comprido – onde está

atualmente e Cidade Industrial de Curitiba, que segundo ela foi o pior

lugar onde trabalhou. O porquê ela explica:

- Eu ficava trabalhando apenas na parte interna da sucursal, eram só

trabalhos administrativos. Não gosto disso, ficar parada não é comigo.

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Gosto mesmo é de ser carteira e de andar pelas ruas.

Assim como a maioria dos carteiros e com nenhum privilégio nisso,

Dete já foi mordida por cachorros, mas sem nenhum ferimento grave.

Ela conta que a mordida em si não é o pior, e sim o ataque. “Você leva um

susto na hora, não sabe o que fazer, eu me sinto tão pequena, sem reação.

A gente chora, chora e não quer saber de mais nada”, conta um pouco

alterada lembrando que no último ataque sofrido ela ficou sem defesa e

entrou em estado de choque. Igualmente a Oswaldo, Jefferson e aos outros

carteiros entrevistados, ela também tem um cachorro de estimação, uma

cadela pit bull que nunca mordeu ninguém. “O muro de casa é alto”, justifica

Dete. Também não sente raiva dos animais, mas nervosa e explosiva que

é, odeia seus donos. Ela então descreve uma cena cotidiana que a deixa

com mais raiva.

- Sempre tem uma residência com o portão aberto e invariavelmente

nesse momento o cão de guarda está solto e começa a latir. Dirijo-me até

a caixa de correio com receio de ser atacada. Quando o dono da casa

aparece geralmente diz algo como “calma, ele não é violento, ele não

morde”. Não morde ele, que é seu dono. É só ele virar de costas que o

bicho volta a te ameaçar.

Bernadete conta que, na época em que trabalhava em Araucária e agora

que anda pela periferia de Curitiba, o número de cachorros soltos é muito

grande e que perdeu as contas de quantas vezes teve que bater no animal

com pedaços de pau e pedras para se proteger. Lembra dando risada de

um dia em que o cachorro pulou o muro de uma casa e foi para cima dela.

A dona começou a gritar, mas o cão não obedeceu. O instinto de

sobrevivência falou mais alto e ela pegou a

bolsa com as correspondências e começou

a se defender e agredir o cachorro, que diante

do seu insucesso voltou para a sua casinha.

Quando chegou ao seu CDD e com a história

na ponta da língua para contar aos seus

colegas, ela é solicitada a comparecer a sala

“Preciso repousar por causa da saúde, mas

amo o que faço” / “Fiquei quatro meses parada

e já não sabia mais o que fazer”.

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de um superior, pois a empresa havia recebido uma reclamação de que

uma carteira agrediu um cachorro. “Acredita que a mulher teve a cara de

pau de ligar reclamando?”, comenta Dete, aparentemente irritada.

Como estamos falando de assuntos comuns entre os carteiros, pergunto

se ela já foi assaltada. De imediato responde que não, mas que já sentiu

muito medo em alguns lugares que passou. Explica que conhece algumas

regiões de tráfico de drogas intenso como o Itatiaia e o Caiuá, mas que

trabalhava normalmente. “Os usuários de drogas mexiam de vez em

quando. Falavam que eu era mais bonita que o último carteiro, assobiavam,

passavam cantadas... essas coisas assim. Já os traficantes sempre eram

discretos e me tratavam como uma simples trabalhadora fazendo o seu

serviço, que é o que eu sou”. Segundo ela, o pior lugar para se trabalhar na

região do Campo Comprido é no Jardim Gabineto. Dete explica que nessa

vila muitos carteiros passaram por problemas e foram assaltados com a

“arma na cara”, diz como se tivesse acontecido com ela. O local é tão

complicado que os carteiros não podem trabalhar em determinadas ruas

após as 17 horas. Conforme Dete, os traficantes avisam os novos carteiros

dos riscos de extrapolar esse horário.

Ela nunca foi assaltada, mas não pense que ela é um exemplo de pessoa

precavida, muito pelo contrário. “Sou muito distraída, várias vezes já dei

de cara com um poste ou com uma árvore”, diz Dete se divertindo. A sua

última presepada aconteceu há pouco mais de dois meses. Conta que estava

caminhando apressada, sua marca registrada – afirma que consegue dar

32 passos por minuto, ou seja, em um dia de trabalho ela coloca os pés no

chão 12.160 vezes, e enquanto anda ela vai conferindo os números das

correspondências dentro da bolsa. Eis que surge em sua frente uma lixeira

e a atropela. “Juro que no dia anterior não existia aquele lixo”, diz ela

dando risada.

Infelizmente esta distração já rendeu muitos problemas. Em certo

momento de sua carreira como carteira, Bernadete efetuava suas entregas

em um conjunto habitacional no Itatiaia. Tudo ocorria normalmente,

porém, na hora de ir embora, se distraiu ao se despedir do zelador e

tropeçou em um degrau que segundo ela não passava de cinco centímetros

de altura. Essa pequena elevação causou uma torção muito forte de toda a

região do pé. Felizmente nenhum ligamento foi rompido e nenhum osso

quebrado, mas Dete teve quer ficar quatro meses afastada do emprego.

Para ela, foram intermináveis meses, cujos dias eram preenchidos à base

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de remédios, tratamento fisioterápico e uso de uma bota ortopédica. Não

queria nem mais saber de televisão. “Se ao menos eu tivesse uma televisão

a cabo para ver alguns jogos do campeonato italiano ou espanhol”, lamenta

ela que também é viciada em futebol. Torcedora do Coritiba por influência

do namorado, vai em todos os jogos e diz gritar mais que Jefferson, mas

quem encontra ela toda vestida de verde e branco no estádio não imagina

que na infância, por causa dos pais era santista, quando veio para Curitiba

descobriu que as irmãs eram todas torcedoras do Paraná Clube e até hoje

fazem cara feia pela mudança de time. Dete tem uma explicação na ponta

da língua para isso: “Eu falei para as minhas irmãs que a culpa era delas,

nunca me levaram à Vila Capanema, já o Jefferson na primeira semana

de namoro me levou para o Couto Pereira”.

Passados os quatro meses de descanso forçado, Dete finalmente voltou

a seu trabalho. Estava recuperada daquela lesão, que até hoje ela considera

por um motivo ridículo, mas havia muitos outros problemas físicos

incomodando. Bernadete conta então seu pior pesadelo: as dores na

coluna. Durante os cinco primeiros anos de serviço ela afirma que não

dava atenção para sua saúde. Como era afobada, sempre tentava fazer de

tudo para conseguir terminar de entregar as correspondências antes do

prazo estipulado. Para que seu objetivo fosse alcançado com sucesso ela

começou a trabalhar também durante o horário de almoço. Com o tempo,

as dores começaram a surgir e ela percebeu então que aquela uma hora e

quinze minutos disponibilizadas para o almoço e um descanso eram

essenciais para a saúde. “Só depois da primeira dor mais aguda nas costas

que eu coloquei a mão na consciência e vi que o descanso era necessário.

Acho que percebi tarde demais, mas desde então comecei a me alongar

de maneira mais correta e séria”, conta apontando para o local exato da

dor.

O agravamento dos problemas de coluna de Bernadete foi ficando cada

vez mais evidente e as consultas no médico estavam mais frequentes.

Para Dete, um dos motivos da constante piora de seu quadro é o fato de

que o teto máximo de 8 kg de correspondências na bolsa para mulheres

sempre foi ultrapassado. Outro fator contribuinte é o crescimento

demográfico e imobiliário da Capital. “Na região onde trabalho, mais

precisamente na parte periférica de Curitiba, está ocorrendo um aumento

muito grande e rápido de residências. Imagine uma carta nova entregue

por dia, no fim do ano o peso de correspondências aumentou muito e o

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percurso percorrido também, mas o efetivo não”. A falta de novas

contratações é um dos pontos que ela mais reclama, pois há mais de dois

anos que não é realizado um concurso público aqui no Paraná. Porém,

Dete revela que a situação também é ruim por causa de muitos colegas de

trabalho. Revela que muitos funcionários fazem corpo mole durante o dia

e levam o expediente com a barriga, isso tudo porque há uma lei federal

que protege o trabalhador concursado. “Para que alguém seja demitido

por justa causa ele deve te feito uma besteira muito grande”, diz ela enquanto

eu tiro algumas fotos para a ilustração do perfil.

Uma vez por semana Bernadete faz hidroginástica e toda terça-feira e

quinta-feira é dia de fisioterapia. Todos os tipos de tratamentos de

recuperação, como o RPG, cuja etapa ela concluiu, são pagos pelo Correios,

mas 10% são descontados todo mês do salário dos carteiros. Isso vale

também para os exames, de sangue e ressonância magnética, ambos feitos

por Dete. Você deve estar pensando que o problema dela não tem cura.

Calma, ter tem, mas ela não quer. Para que as dores desapareçam, a médica

que a examina disse que ela tem duas opções: largar o emprego e fazer um

tratamento intensivo ou ir até o limite, complicar cada vez mais a região

lombar e ter que enfrentar uma cirurgia nos discos e parar de entregar

cartas.

- Se eu penso em parar? Nunca, jamais, irei até o meu limite, até onde

meu corpo aguentar. Se for o caso farei a cirurgia e tentarei voltar. Amo o

que faço e não tem sensação melhor do que andar livremente pelas ruas.

Só você e as cartas.

Esse amor pela sua profissão surgiu quando Bernadete havia recém

chegado a Curitiba. Um belo dia foi à Rua da Cidadania do bairro Portão

procurar emprego. Não encontrou, mas quando voltava para casa no

ônibus biarticulado Santa Cândida – Capão Raso viu um carteiro

aparentando cansaço, mas com um sorriso na cara e disse para ela mesma

que queria ser assim. Começou a estudar para o concurso público e na

primeira tentativa conseguiu a vaga e o emprego. Dete mantém uma

decepção no emprego que é bem visível na suas expressões quando fala

sobre isso. Motoqueira, ela conta com muita frustração que até hoje não

conseguiu passar no teste para ser entregadora motorizada. O teste é

simples, basta o candidato passar entre oito cones duas vezes. Ela tentou

o exame quatro vezes e nunca obteve aprovação. “É a caixinha atrás que

me desconcentra”, diz ela em tom de brincadeira. Motocicletas são uma

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de suas paixões, tanto que tem duas, “mas a vermelha já está bem

ruim, solta muita fumaça. Não sei quem produz mais fumaça, a

moto ou os cigarros do Jefferson”, diz ela enquanto ele nos servia

com mais uma garrafa de cerveja.

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O AMOR nos

tempos de GREVE

A

história do namoro entre Bernadete e Jefferson foi contada por ela

sob os olhares atentos dele, que confirmou toda a versão contada.

Então nada melhor que as palavras de Dete sobre o acontecimento:

- O dia exatamente eu não lembro, era o último dia da greve que durou

vinte dias durante o mês de setembro de 2007. Lembro que ficamos três semanas

parados. Na última noite eu estava sentada ali – aponta para uma mesa ocupada

por outros carteiros à nossa esquerda – quando o Jefferson chegou ao meu

lado, fedendo cachaça e cerveja, completamente bêbado, e começou a me falar

um monte de palavras bonitas, carinhosas, que gostava de mim entre outras

coisas. Como eu nunca tinha visto ele, não tinha a mínima noção de quem ele

era, nem dei bola. Passada quase uma hora estávamos fazendo um churrasco,

improvisando uma churrasqueira na calçada. Sem mais, nem menos ele

apareceu do meu lado com uma garrafa, jogou água e apagou o fogo que

havíamos acabado de acender. Mandei-o embora dali e ele saiu. Não passou

quinze minutos e um colega me chama pedindo que tirasse o Jefferson do

outro lado da rua antes que ele fosse preso. Olhei para o outro lado e lá estava

ele perturbando os policiais militares que estavam

de plantão. Atravessei rápido a rua e exigi que ele

fosse dormir. Ele sempre foi bonzinho e me

obedeceu. Ele deitou-se no chão e eu fui lá cobrilo,

imaginando que ele não se lembraria de nada

“Conheci em uma greve, bêbado, e jurando

que ele não lembraria nada no dia seguinte”

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no dia seguinte. Isso que ainda não tínhamos nada um com o outro.

- Exatamente do lado daquele portão – ela aponta qual – ele ficou com um

amigo cantando e berrando várias músicas a madrugada inteira. Como a

noite estava fria, encostei-me em um amigo e dormi sem me importar com a

barulheira causada por ele. No outro dia fui tomar o café da manhã com os

outros grevistas e ele não foi. Ficou no seu canto com uma cara de poucos

amigos. Quase na hora do almoço ele veio falar comigo, disse que havia ficado

com ciúmes de eu ter dormido ao lado de um amigo e disse “preciso falar com

você, mas tudo aquilo que te falei no bar ontem é verdade”. Fiquei sem saber o

que responder, com uma cara de surpresa. Marcamos um almoço e trocamos

os números dos telefones. Durante uma semana nos falamos todos os dias

por telefone. No outro fim de semana pós greve já estávamos namorado.

Hoje eles ainda não moram juntos, mas isso está no plano futuro, porém se

encontram todos os dias. Bernadete busca e leva Jefferson para a casa dele

todos os dias, tempo pequeno que ficam juntos, mas sempre bem aproveitado.

Pergunto a ela se, fora a casa, há mais algum planejamento. Dete responde que

sim, que ainda sonha em voltar a estudar, mais especificamente em cursar

Educação Física em uma Universidade. Brinca dizendo que para ela seria mais

útil, na verdade. realizar um curso de Fisioterapia ou de Yoga para melhorar

suas dores. O sonho de voltar aos estudos está na pauta, mas ficará em segundo

plano enquanto ela não realizar o seu maior sonho, que, segundo ela, já está

sendo bem tratado, que é ser mãe!

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CARTEIRO Futebol

CLUBE

Sandro Michailev, carteiro curitibano, já pode ser considerado um

velho conhecido e amigo “dos tempos de faculdade”. Já foi

protagonista de um perfil para a revista Entrelinha, produzida pelos

alunos-colegas da Universidade Positivo, onde teve parte de sua vida contada.

Com certeza algumas histórias serão abordadas novamente e algumas

curiosidades ficarão expostas. Na universidade ele é visto como um aluno

exemplar, alguém a ser copiado, segundo seus colegas de classe. Quando

pergunto sobre o Sandro, 90% o definiu com um palavra: batalhador. Elogio

esse que começou a se sustentar em 2007 quando ingressou no curso de

Comunicação Social – Jornalismo. Muitos admiram Sandro pelo fato de

trabalhar durante todo o dia, ir para aula à noite com a maior disposição e

ir bem nas provas bimestrais.

Mas o que mais chama a atenção no carteiro em sala de aula é o bordão:

“Que absurdo”, falado entre risadas durante a aula quando algum colega faz

um comentário maldoso ou quando o assunto é polêmico. Já é até comum

algumas pessoas da turma repetirem o bordão em conversas fora de sala.

Nossa conversa, como entrevista oficial, começa no sábado, após o término

da vitória do Atlético Paranaense – sua paixão – por um a zero contra o Sport

Recife. O jogo foi considerado de baixo nível técnico, torcida vaiando ao apito

final do juiz e, apesar de conquistar os três pontos, muitos torcedores saíram

de cabeça quente da Arena da Baixada. Sandro foi um dos sócios do clube que

deixaram o estádio inconformado com a atuação do time. Durante a carona

que dei a ele o assunto sempre estava ligado ao futebol e, quando não estávamos

falando, é porque nossos ouvidos estavam atentos às entrevistas coletivas

dos jogadores em um programa esportivo pós-jogo.

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No caminho sentido à residência de Sandro, faço um desvio na rota para

pegar seu filho Iadji na casa do seu pai, no fim de Santa Felicidade, quase em

Campo Largo. Esperamos aproximadamente cinco minutos até sua família

chegar a casa. Estavam todos na igreja. Na rápida conversa que tive com o

patriarca da família, o assunto não foi outro a não ser futebol. Sandro, Iadji e

eu entramos no carro, agora sentido sua casa e ele começa a contar como

conheceu sua mulher, mãe do seu filho.

Tudo começou, segundo ele, com seu irmão mais velho que namorava uma

mulher que se mudou para Barbacena, em Minas Gerais. Lá ela começou a

fazer propaganda de Sandro para as amigas. Certo dia sua futura esposa ligou

para ele. A conversa cada dia mais ficava interessante e em março de 2001

começaram a namorar por telefone. A vontade de se ver cada dia crescia mais.

Faziam planos de se conhecer pessoalmente até que um belo dia Cleo apareceu

em Curitiba.

- Lembro que era feriado de Páscoa. Toda a paixão que tinha por ela no

telefone se repetiu quando a vi ao vivo e a cores pela primeira vez. A sintonia

foi tão boa que ela voltou para Minas Gerais grávida.

O ano de 2001 ainda guardava algumas surpresas agradáveis e

desagradáveis. No mês de junho, devido a um câncer, sua mãe morre. “Foi bem

complicada essa fase”, relembra. Ainda no primeiro ano do novo século, o

Atlético se sagrava Campeão Brasileiro pela primeira vez. Título que faz Sandro

sorrir.

“Namorei minha esposa durante um mês, só que

por telefone, sem conhece - lá pessoalmente” / “Hoje

graças a Deus consigo ir a todos os jogos”/ “Não sei

como começou, mas amo minhas camisas”.

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Adentramos em sua nova casa, à beira da Rodovia do Café – BR 277, ao

lado de motéis. “É impressionante como tem movimento aqui durante todo o

dia”, conta ele dando risada. Sentamos na cozinha para continuarmos o papo,

ele pede desculpas devido às compras feitas no mercado não estarem

guardadas e volta a falar de como conheceu sua mulher. Em janeiro de 2002,

nasceu seu filho e menos de um mês depois Sandro conseguiu ser transferido

para Minas Gerais. Não conseguiu emprego em Barbacena, apenas em Juiz de

Fora, cidade a duas horas de viagem. Na cidade mineira era conhecido pelos

seus colegas de ofício apenas como Sandro, como ocorre na universidade.

Para lá levou tudo que tinha, menos o seu apelido: Tatuapu. Segundo ele, o

apelido surgiu enquanto a novela das 7, Uga Uga fazia sucesso na Rede Globo.

Sua semelhança com o índio Tatuapu, personagem central da novela foi o

grande motivo da criação do apelido.

Tatuapu, mas lá ainda é Sandro, se queixou muito de quando foi carteiro

na principal cidade da Zona da Mata Mineira. Conforme explicava suas queixas

de que lá era muito quente e que o relevo era acidentado, causando um desgaste

físico enorme, Sandro observava o que o filho estava fazendo.

- Fiquei na cidade até 2004, não aguentava mais o clima diferente e os

milhares de morros. Quando fui trabalhar lá eu pesava 65 kg. Deixei Juiz de

Fora com 58 kg. E hoje (batendo na barriga), passei um pouco dos 70 kg.

Sandro conta que Cleo se mudou para Curitiba dois anos depois, em 2006.

Ano passado compraram um apartamento, porém tiveram problemas com

os vizinhos e se mudaram para a atual casa. Durante toda a história de como

conheceu sua mulher, fomos interrompidos três vezes por seu filho. Na

primeira interrupção Iadji perguntou se poderia jogar video-game. Ouviu um

“depois” como resposta. Passados quatro minutos, perguntou sobre a

possibilidade de mexer no computador. Obteve a mesma resposta. A última

interrupção foi a que rendeu mais que um “depois” como resposta. Vale a pena

reproduzir o diálogo:

- Pai, quando você era criança tinha televisão?

- Ai ai, ele está com uma mania de achar que eu sou velho. Tinha sim, por

quê?

- Já tinha desenho animado? Qual você assistia?

- Tinha sim meu filho, mas não lembro qual.

- E em 2001, qual desenho assistia?

- Papai não era mais criança em 2001.

- Tá, e em 2002?

- Também não era mais criança, filho.

- Que chato isso, não quero mais ser adulto.

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Após o término dessa conversa, questiono Sandro sobre a sua opção de

cursar Jornalismo. Sua primeira frase é fatídica e autoexplicativa. “Minha vida

sempre foi futebol”, diz ele se lembrando da sua infância. Nos seus cálculos,

com 4 anos de vida, em 1985, ele já se interessava por tudo voltado aos esportes,

principalmente ao futebol. “Desse ano lembro que o time (Atlético) não fez um

bom Campeonato Paranaense e por incrível que pareça e graças a Deus não

me lembro do título de campeão Brasileiro conquistado pelo Coritiba nesse

ano”, conta dando risada e jurando ser verdade a história. Verídica ou não, o

fato é que Tatuapu - gostei deste apelido já pensava em fazer Jornalismo, voltado

à área esportiva. Quando terminou o ensino médio, a vontade ficou mais

evidente, porém ele precisava ajudar financeiramente sua família e trocou os

estudos pelo trabalho. Quando se firmava no emprego e pronto para tentar

um vestibular, acontece a gravidez da sua então namorada. “E assim foi indo”,

justifica, olhando para o teto como se estivesse tentando achar mais algum

empecilho.

Em 2006, quando tudo já estava acomodado, o filho um pouco mais velho

e a esposa morando em Curitiba, Sandro começou a frequentar um curso prévestibular.

No final do ano prestou o Enem e conseguiu uma bolsa para o ano

de 2007. Diz que não tentou a Universidade Federal do Paraná porque

dificilmente conseguiria ajustar os horários das aulas com o do serviço.

Iniciado ano letivo de 2007, Tatuapu estava convicto de ser jornalista

esportivo. Explica que quando criança, assim como a maioria dos brasileiros,

queria ser jogador de futebol. Define-se, no futebol, como um centroavante

com estilo de jogar parecido com Walter Casagrande Jr e Serginho Chulapa.

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Relembra da primeira vez que esteve no estádio Joaquim Américo,

popularmente conhecido como Baixada.

- Foi em meados de 1991. A Baixada estava desativada, lembro que tinha

limo por tudo que era lado. Apenas o campo estava bem cuidado, pois os

jogadores treinavam ali. Fiquei com meu irmão na saída do campo para pegar

os autógrafos, em um caderno, dos jogadores campeões em 1990. Tenho até

hoje esse caderno.

Pergunto se o caderno está guardado em sua casa. Ele para um pouco para

pensar e responde que não. “Está guardado na casa do meu irmão”, diz

demonstrado uma expressão de alegria. Tudo relacionado ao futebol, Atlético

e coleção de camisas – hobby de Sandro – está totalmente ligado ao seu irmão.

“A minha história de vida sempre andou junto com a dele”, afirma Tatuapu. Ele

explica que o sonho de ser um astro do futebol sempre recebeu incentivos do

irmão mais velho, que o acordava todo domingo de manhã para jogar bola no

clube de campo Três Marias. Sua única reclamação era da posição imposta

para jogar: goleiro. Diz que no futebol de salão a bola era muito pesada e que

sempre foi um verdadeiro “frangueiro”.

Recorda dos tempos em que jogava pelo Três Marias e de um jogo específico

contra o temido Pinheiros, time forte e de tradição, que na fusão com o

Colorado fundou o Paraná Clube. No primeiro turno do campeonato, o time

de Sandro havia perdido por 8 a 0. “Eu não era o goleiro”, diz dando muitas

risadas. No dia do confronto, Sandro conta como se tivesse contando um

segredo, até abaixa a cabeça para mais perto da mesa: nos vestiários ele e os

outros jogadores armaram um “cai cai” coletivo na quadra do jogo. “Até hoje

não sei como me deixaram jogar de titular aquele jogo”, afirma. Como seu time

não tinha reservas, todas as vezes que alguém se “machucava” o atendimento

acontecia na hora e o tempo ia passando. Quando chegou a sua vez de simular

uma contusão, Sandro saiu do gol em direção ao atacante que estava com a

bola. Quando preparava o bote em cima do jogador adversário, o atacante

chutou. “Com uma força que eu nunca tinha visto e, pior, pegou bem no

estômago. Acabei me machucando de verdade”, lembra dando mais risada. A

bolada que levou realmente doeu, mas, como prometido, ele fez uma encenação,

rodou no chão e dizia ao massagista que havia machucado vários lugares.

Sandro termina a história feliz e contente: “a partida terminou com um glorioso

0 a 0 e saímos aplaudidos do ginásio do Três Marias”

Brincadeiras e histórias à parte, Sandro rememora o começo dos anos 90,

quando ia aos jogos do Atlético sem pagar, pois possuía a carteira de atleta da

Federação Paranaense de Futebol. Sua cronologia de acompanhamento de

jogos é repleta de altos e baixos. Na reinauguração da Baixada em 1994, contra

o Flamengo, não conseguiu ingresso para o jogo. Depois, pelos jornais, ficou

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sabendo que antes do início da partida os portões estavam abertos a todos.

Notícia que o frustrou na época. “Fui no segundo jogo, contra o poderoso

Londrina”, diz em tom irônico. Durante todo o ano e o seguinte, Sandro foi

espectador e torcedor ativo dos jogos do Furacão. Entretanto, o ano de 1996

começou trazendo dificuldades financeiras para toda sua família e lamenta o

fato de ter ido a poucos jogos na até então melhor campanha do time em

campeonatos nacionais. Um terceiro lugar muito comemorado com o ataque

formado pelos ídolos Paulo Rink e Oseas.

O tempo foi passando e Tatuapu ficou durante onze anos frequentando

esporadicamente os jogos do seu time do coração. No ano passado conseguiu

enfim se tornar sócio e voltou aos jogos do Atlético. Desde então ele altera seu

calendário semanal. Algumas quartas-feiras vai para as aulas, outras ao

estádio, sempre calculando o número de faltas para não reprovar

automaticamente. Neste ano a mensalidade dos associados aumentou de R$

50 para R$ 70. Ele não deixará de ser sócio, mas reclama que o preço é muito

alto para um elenco que não dá mais alegria.

A última vez que ficou eufórico com o time foi no Campeonato Brasileiro

de 2004, em que o rubro-negro ficou como vice-campeão, mas ele prefere não

comentar sobre esse ano. Quer falar sobre coisas boas e por isso puxa a história

do campeonato de 2001. Logo pergunto se ele foi à final e ele responde que sim,

recordando a história que envolve os jogos finais.

- Em dezembro de 2001 eu trabalhava na região do Centro e Mercês.

Entregava cartas na Rua Visconde de Nácar e fiquei muito amigo dos porteiros

dos prédios. Quando o Atlético passou para a final do campeonato, no dia

seguinte já começaram as filas em frente à Arena para comprar ingressos. As

bilheterias abririam na sexta-feira, mas no domingo, depois da semi-final com

o Fluminense, começaram os acampamentos. A fila começou na Rua Buenos

Aires, dobrou a esquina Rua Getulio Vargas, virou na Rua Coronel Dulcídio

e terminou na Brasílio Itibere, na esquina com a Buenos Aires novamente.

Calma, o Sandro não faltou o trabalho, não dormiu na fila e também não

disse que estava doente para o chefe. Dando risada, conta que um porteiro

tinha esquema para comprar ingressos, pois tinha amigos cambistas que já

estavam na fila. É lógico que Tatuapu não pensou duas vezes e reservou seu

ticket de entrada. O jogo em si não havia o que comentar. Quando o Atlético

marcou o quarto gol, “eu não sabia mais o que fazer, não parava de chorar,

chorava, chorava até não poder mais”, conta dando risada. E seu irmão, como

sempre, estava no jogo ao lado dele.

E o jogo de volta lá em São Caetano, foi? Sandro olha para baixo e diz:

“Não e por um motivo besta. Na época eu era muito mão de vaca e achei que ir

para lá era gastar muito dinheiro”. Atualmente, Sandro não se considera mais

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pão duro, mas acha que é muito mão aberta e está tentando encontrar o meio

termo, que nunca é atingido por causa de um vício: colecionar camisas de

futebol.

Sandro até sente vergonha quando lembra que não sabe quantas camisas

tem ao todo. Justifica-se dizendo que isso ocorreu porque ele está com apenas

30% das mais de 300 camisas. “A maioria está com meu irmão”, explica com um

sorriso sarcástico, pois as mais de trinta camisas do Atlético estão no armário

de Sandro. Na coleção de Tatuapu podem ser encontrados os mais diversos

clubes de todo o mundo. Desde camisas da década de 90, do desconhecido

Dalian Wanda da China, passando pelo uniforme inglês do Aston Villa e

adentrando no Brasil, pelo Maranhão, com a camisa do Sampaio Correa.

A maioria da coleção não está à venda, “mas podemos negociar sempre”,

diz ele mostrando uma camisa do Bangu de 1987. A única relíquia que está

oficialmente sendo anunciada custa R$ 600. “Muitos acham caro o preço, mas

é uma camisa do Flamengo, da época de ouro, de 1982, usada pelo Anselmo”,

justifica sem revelar por quanto comprou a camisa. A fixação por sua coletânea

é tão grande que Sandro já comprou camisas de catadores de papel. Dando

risada, diz que a última foi uma do Coritiba de 1993. “Ofereci R$ 30 e tive que

dar a minha camiseta para ele não ficar apenas de bermuda”. Ele jura que não

vestiu a camisa do Coxa e que foi até em casa com uma jaqueta, mas sem

camiseta por baixo.

Por fim, o carteiro futebolista ainda coleciona álbuns de figurinhas dos

campeonatos brasileiros, recortes de jornais e revistas que citam o Atlético e

fotos do tempo da Baixada antiga, demolida em 1997. Depois das camisas, sua

“menina dos olhos” é a coletânea de exemplares da revista especializada em

futebol Placar. Na contagem de Sandro, faltam apenas dezoito exemplares

para completar todas as edições do magazine iniciado no dia 20 de março de

1970. Onze anos antes do nascimento de Sandro e trinta antes do Tatuapu!

Meu celular começa a vibrar, namorada ligando, são 22 horas. Havia

prometido estar em sua casa às 21 horas. Então era o momento de ir embora,

mas antes precisava saber qual a perspectiva de Sandro para o futuro, que

comenta já estar pensando em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)

que será realizado no ano que vem. Sua ideia inicial é um radiodocumentario

relacionado, é claro, ao futebol. Só que seu ânimo para produzir o pré-projeto

está bem fraco, pois segundo ele as aulas de Metodologia Científica e Pesquisa

são muito complicadas, chatas e desanimadoras. “Os autores rebuscam demais

os textos, complicam o entendimento e escrevem mais que o necessário. Por

isso ser carteiro é melhor, sou sempre exato e preciso no que faço”, diz Sandro,

finalizando o encontro.

57


Um HOMEM de sorte e

com muitas HISTÓRIAS

Muito prazer, eu sou o Jaro, Jaroslau!”, é assim, com um estilo James


Bond brasileiro, que este carteiro curitibano se apresenta quando

nos encontramos no lugar marcado. A entrevista com ele tinha

tudo para dar errado. Na primeira ligação, ele não atendeu. Na segunda, a sua

mulher estava como o celular. Enfim, na terceira, o contato foi feito. Senti a

desconfiança por parte dele no telefone. Marcamos na Praça Tiradentes às 9

horas da segunda-feira.

Confesso que acordei atrasado no dia da entrevista. Saí às pressas de casa

e quando dirigia ao encontro dele, desculpem a onomatopéia, ouviu um

“Powww!!”. Era o pneu traseiro direito que infelizmente conheceu um prego.

Olhei no relógio: 9h15. Não sabia se trocava o pneu furado ou ligava para o

seguro. Nenhum, nem outro. Liguei para Jaro avisando o ocorrido e ele me

informou que estava indo para a sede central dos Correios, onde participaria

do panelaço organizado pelo sindicato.

Em quinze minutos troquei o pneu, com a ajuda do meu avô que estava

voltando a pé para sua casa com um pão fresquinho da panificadora. Mais

sorte que isso impossível. Finalmente cheguei aos Correios, localizada na região

central de Curitiba, onde não se encontram vagas para automóveis, mesmo as

destinadas pelo Estar. Rodei algumas quadras e nada. Resolvi parar no

estacionamento de uma loja de material de construção que se localizava a uma

quadra dos piquetes dos grevistas.

Nos encontramos em frente ao carro de som, que funcionava a todo vapor,

convocando os carteiros a participarem do primeiro panelaço programado

para a hora do almoço. Depois percebi que o horário foi estipulado para que

uma rede de televisão entrasse ao vivo no seu telejornal. Como já tinha

58


experiência em realizar entrevistas com o som “ambiente” alto, pedi para irmos

a algum lugar mais silencioso. Andamos cem metros na Avenida Iguaçu e

adentramos em um bar que se enquadraria na

definição de “boteco”. Essa pequena caminhada

foi o suficiente para Jaro reclamar de uma dor

na perna, fruto de um domingo agitado, em que

passou a tarde inteira na cama elástica com seus

dois filhos e sua esposa.

Sentamos em uma mesa, próxima a porta

de entrada. Ele se dispõe a pagar uma gasosa,

um ato para quebrar o clima ainda estranho.

Começo a falar sobre a greve, a fim de ir se

ambientando e ele vai se soltando. Explica que

está completando sete anos como carteiro e que

participa das greves porque acha o salário

–“Que mané cachorro, já fui atacado por uma cobra!”/ “Protesto

por melhores salários. Andamos muito e ganhamos pouco”/ “Me

considero uma pessoa com sorte”

(R$ 603,00) muito baixo tendo em vista os serviços que realizam, os riscos

que correm e as responsabilidades que têm.

Questiono sobre os tais riscos citados. Foi a deixa para entrarmos nas

histórias. Já foi atacado por cachorros, assim como a maioria dos carteiros,

mas nenhuma mordida foi considerada grave. O maior problema dele está

relacionado a outros animais. Comenta que já trabalhou em ruas praticamente

desabrigadas, onde predominavam terrenos baldios. A cada quadra andada,

um bicho diferente era encontrado. “Eu já vi uns animais coloridos, lagartos,

uma fauna inteira. Até um puma eu vi em uma garagem. Parecia que eu estava

na pré-história”, afirma Jaro, dando sua primeira de muitas risadas.

Você pode pensar que ele estava exagerando quando se referia a uma fauna,

mas não era exagero. Jaro trabalhou entregando correspondências em algumas

chácaras mais afastadas do centro de Curitiba e afirma que lá os problemas

não foram os cachorros, mas os gansos. Nas mãos conta o número de vezes

que teve que fugir deles. “É complicado porque eles correm e voam atrás. E a

bicada é doída”. Das aves, passamos para os mamíferos. Jaroslau, ainda

trabalhando na região das chácaras, conta de uma rua sem saída cuja residência

59


parecia uma Arca de Noé. “Tinha galinha, cachorro, vaca, gato, pato e cabra. E

não é que a bendita cabra decidiu que não ia com a minha cara”, conta se

divertindo. Segundo ele, a cabra pulou um cercado de meio metro de altura,

baixou a cabeça e partiu para cima como se fosse um touro em uma arena

espanhola. Para Jaro, restou a opção de se defender das cabeçadas com a bolsa

e no primeiro intervalo dos ataques subiu em um muro e em cima dele foi

andando até o final da quadra para fugir da cabra.

A cada história que contava ele se lembrava de outras e o tempo foi se

passando. Os contos eram descritos e toda aquela desconfiança inicial foi

deixada para trás. Revelou que sofre de uma ofiofilia – atração por cobras –

inconsciente. Em sua trajetória como carteiro já se encontrou algumas vezes

com serpentes.

A maioria dos encontros foi a uma distância segura. Geralmente as cobras

estavam atravessando a rua em que Jaro estava entregando as cartas. Conta

que certo dia localizou em uma casa uma cobra morta em cima do muro.

Quando foi avisar o dono, descobriu que a cobra estava dentro da caixa de

correio. O proprietário da casa a matou e deixou no muro para que o carteiro

visse o animal que ele poderia ter encontrado. Seu último encontro com

serpentes foi um pouco mais perigoso.

- Estava entregando as cartas na Avenida Manoel Ribas, perto das lojas de

móveis. Quando fui colocar a carta na caixinha ouvi um barulho diferente.

Tipo um chiado. Instintivamente puxei minha mão. Não passou um segundo

e uma jararaca, de um metro e meio, enrolada no portão deu o bote. Sorte que

eu já havia me afastado.

Após o incidente e ainda muito assustado, tocou a campainha da residência

para avisar do perigo que rondava a casa. Preocupando-se com os pedestres e

com os outros trabalhadores que passariam por ali, como os garis. Quando a

dona da casa, já idosa, apareceu, ele mostrou a cobra pendurada no portão. A

mulher olhou, analisou a situação, pegou uma vassoura, tirou a jararaca com

cuidado e jogou no quintal, nos fundos da casa. Olhou para Jaro e disse:

“Coitado do animal, tão inofensivo”.

Se uma jararaca, cujo ataque causa necrose e o veneno é mortal, é inofensiva,

o que então seria mais perigoso? Existem várias opções concorrendo a este

posto. Assaltado ele nunca foi, mas descobriu que entregava correspondências

a um homem procurado pela polícia. “Ele era especialista em falsificação de

documentos. Todas as cartas entregue lá eram para uma pessoa que não existia,

mas o documento existia”, explica Jaro.

Atropelamento é outra episódio perigoso e comum na vida dele. Já perdeu

as contas de quantas vezes ficou no “quase” e os infinitos atropelamentos por

bicicletas, pois, “a gente (carteiros) anda distraído com as cartas e quando

60


levantamos a cabeça já não temos tempo de desviar”. As “magrelas” – como

são denominada as bicicletas – competem com as cobras no número de

incidentes. Segundo Jaroslau, seu incidente mais recente ocorreu três semanas

antes da greve. Ele estava fazendo as entregas com a bicicleta cedida pelos

Correios e pedalava na rua preferencial. Na esquina, um carro vindo da rua

perpendicular não freiou e colidiu com ele. “Até hoje não sei o que aconteceu,

porque eu caí de pé e não me machuquei”, diz ele já na milionésima risada.

Entretanto seu maior acidente aconteceu um mês depois que começou a

trabalhar como carteiro. O incidente o fez pensar em desistir da profissão,

mas essa opção não existia, pois passava por problemas financeiros

trabalhando como profissional autônomo e essa era a chance de ter um

emprego estável. Estabilidade que ele não teve com a bicicleta

- Tinha recém entrado no setor e já usava uma bicicleta, estava animado e

lembro que em uma descida comecei a pegar velocidade e de repente ouvi um

“crack!”. Era o eixo da magrela se soltando. Larguei a bicicleta e me joguei

tentando evitar o pior. Voei parecendo o Super-Homem uns quinze metros e

quando caí fui ralando o peito, perna e braços no chão. Até hoje não entendo

como apareceu um furo nas costas da camiseta.

Acabada a ralação, começou a se levantar, mas logo atrás vinha a bicicleta

sem rumo e o atingiu na cabeça. Novamente foi ao chão. Segundo ele, pior do

que a dor foi a abordagem de uma senhora que viu ele estatelado na rua e a

primeira coisa que ela fez foi perguntar: ‘Machucou,meu filho?’ “Se eu tivesse

forças eu tinha esganado ela”, diz Jaro em tom irônico. Apesar de todos os

incidentes e acidentes sofridos, Jaroslau mantém sempre o bom humor, no

estilo “podia ser pior”. Esse temperamento calmo é explicado quando histórias

de outros colegas são contadas por ele. Entre tantos contos, irei reproduzir o

que considerei melhor.

- Um colega de CDD estava no serviço, tudo ocorrendo normalmente. Entro

em uma rua sem saída e deixou sua bolsa ao lado de um poste, pois ela estava

pesada. Começou a entregar as cartas que estavam selecionadas na mão,

enquanto a bolsa “descansava” na sombra. Quando estava no meio da quadra

ouviu um barulho de caminhão. Eram os lixeiros e eles acharam que a bolsa

era lixo e jogaram para dentro da caçamba. Ele só conseguiu recuperar as

correspondências depois de correr três quadras atrás do caminhão.

Quando terminou a história do “furto” feito pelos lixeiros, Jaro se lembrou

do dia em que quase foi atropelado por um Fusca. O detalhe é que o automóvel

estava sem motorista. “Alguém se esqueceu de puxar o freio de mão. Quando

percebi estava segurando um Fusca, em uma descida, gritando pelo dono ou

para alguém trazer uma pedra para travar a roda”, explica, já pensando em

uma nova história.

61


De histórias em histórias, as horas se passaram e o boteco começava a

receber diversas pessoas à medida que o horário do almoço estava chegando.

Jaro contou ainda que fez muitas amizades com moradores e comerciantes.

Existem locais em que ele é bem recebido, convidado a tomar um refresco ou

um café. Há um caso de uma senhora que foi passar a semana na praia e o

convidou para cuidar de sua casa, mas ele negou a proposta. “Ela ofereceu um

dinheiro razoável, mas não tinha como deixar minha mulher e meus filhos

sozinhos em casa”, justifica Jaro.

Também trabalhou na área “nobre” de Santa Felicidade, que é onde se

localizam os restaurantes. Lá encontrou muitos artistas, cantores e jogadores

de futebol. O supra-sumo das suas histórias aconteceu no restaurante Veneza.

- Todo dia eu entregava carta lá. Um dia eu cheguei e tinha um monte de

adolescentes no estacionamento gritando, chorando e se descabelando.

Descobri que o Br’oz – grupo formado em concurso do SBT – estava almoçando

com seus empresários e com uma emissora de rádio local. Entrei no restaurante

para fazer minhas entregas e quando abri a porta pra sair começou uma gritaria

e um monte de flash. Até que uma menina falou: “calma gente, é só o carteiro”.

Só para me vingar eu virei para um grupinho e disse que os cantores estavam

saindo pelo fundo. Foi uma correria gigante e os seguranças ficaram me

olhando tentando entender o que havia acontecido.

Brincadeiras à parte, Jaroslau afirma ter visto a morte de perto quatro

vezes. A primeira vez aconteceu quando estava com uma correspondência de

“Mão própria” – somente a pessoa destinatária poderia receber, destinada ao

Cemitério de Santa Felicidade. Entrou na administração, mas não havia

ninguém. Encontrou um coveiro, que disse conhecer a pessoa procurada.

Entrou no cemitério e foi seguindo o coveiro em meio aos túmulos. Andou

quase dois minutos e quando estava no centro do campo-santo, o coveiro

apontou para uma sepultura e disse: “Está aqui o túmulo que procura”.

A segunda vez também envolve um cemitério. Desta vez o Parque Iguaçu.

Quando entregava cartas lá, conta que andava muitas quadras “de graça”, pois

o cemitério encontra-se localizado em terrenos de possíveis residências. “Para

atravessar toda a quadra, até chegar à próxima rua eu levava em torno de

cinco minutos andando”, diz ele, que ficou amigo do pessoal da administração

e de vez em quando pegava carona até a esquina.

- Teve uma vez que um dos motoristas buzinou e entrei no carro para pegar

carona. Ficamos conversando, ele contava umas piadas e fazia umas

brincadeiras. Tinha alguma coisa estranha acontecendo. Comentei com ele

que havia muito movimente de carro naquele dia. Ele deu uma risada e com a

mão direita apontou para trás. E não é que tinha um caixão aberto com o

defunto dentro. Quando olhei no espelho retrovisor percebi que estava

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participando de uma marcha fúnebre junto com uns doze carros.

Com certeza Jaro pode ser considerado um homem de sorte, mas assegura

ter “visto a luz” do outro mundo. Após um dia de serviço, indo para casa ele

começou a sentir um mal estar e foi ao hospital. Fez exames e ficou três dias de

repouso em casa. O motivo apresentado pelos médicos foi estresse causado

pelo trabalho. Passou-se um ano e ele nunca mais teve queixas de dores no

corpo. Há pouco mais de dez meses, Jaroslau estava trabalhando normalmente,

mas...

- Comecei a sentir meu braço esquerdo formigando, mas achei que era

tendinite. Daqui a pouco a orelha começou amortecer. Fui ao hospital, fizeram

eletrocardiograma, exames de sangue e de enzimas. Eu estava deitado em uma

cama quando do nada entrou uma médica gritando: “Você está infartando!”.

Na hora eu pensei, “agora infartei de vez”. Eu conto no CDD que eu vi a luz!

Jaroslau então se submeteu a mais alguns exames e fez cateterismo.

Descobriu com uma ressonância magnética que seu miocárdio não é

compactado e que por isso ele pode apresentar problemas na hora de o sangue

sair do coração. Hoje os amigos brincam que ele deveria trabalhar com um

desfibrilador na bolsa, mas quando o fato aconteceu e ele ficou quinze dias na

UTI, todos ficaram muito preocupados. “Eles dizem que ficaram apreensivos,

mas as más línguas dizem que eles já estavam sorteando meus uniformes e

meu armário”, conta ele todo risonho.

Passado o susto, Jaro começou a se cuidar. Faz exames frequentes e todos

no hospital já o conhecem. Quando entra na recepção para ir a uma consulta,

diz que as atendentes já têm sua ficha pronta. Quando ele olha para cima é

sinal de que uma nova história vai ser contada, mas são 12h30 e o presidente

do sindicato vem convocar a todos que participem do panelaço.

Após muitos quilômetros caminhados, horas de gravações e duas cervejas,

nada melhor do que terminar um livro participando ativamente em um

protesto a favor dos meus personagens que, acima de tudo, são pessoas!

63


DIÁRIO de

BORDO

Em toda a realização deste livro-reportagem, fui anotando todos os

mínimos detalhes que aconteceram antes, durante e depois das

entrevistas com os personagens. O nome deste último capítulo do

livro foi definido segundo as definições da Marinha brasileira, que explica que

um “Diário de bordo” é um instrumento utilizado na navegação para registro

dos acontecimentos mais importantes.

Então nada melhor de que fazer uma espécie de diário para que algumas

lembranças, gestos e outras linguagens não-verbal passem despercebidas.

Apesar de não gostar muito de números e estatísticas, não consigo imaginar

outra maneira de repassar a você, leitor, algumas informações curiosas.

Os cinco carteiros entrevistados foram responsáveis pela rodagem de

aproximadamente 76 quilômetros de automóvel, que dá uma média de 16

quilômetros por personagem. Além disso, há inúmeros quilômetros não

contabilizados, só que realizados a pé. Na estreia das entrevistas foram um

pouco mais de 4 quilômetros caminhados e muitos registros escritos.

Em média um carteiro atravessa três vezes a mesma rua para poder entregar

todas as correspondências. Os cachorros realmente são chatos, as ruas de

bairros afastados do Centro realmente estão esburacadas e as descidas, que

depois se transformam em subidas, são de matar.

A segunda entrevista ocorreu à noite e Curitiba, como nós curitibanos

estamos cansados de saber, possui as quatro estações no mesmo dia. Acordei

com o dia meio nublado, típico de Outono. Quase no horário de almoço surgem

os primeiros raios solares e a indicação de que a Primavera estava dando as

caras. Durante a tarde então eis que surge um calor, daqueles que pega todos

desprevenidos, que obriga o ar-condicionado da redação a fazer seu expediente.

64


Infelizmente, a noite seguiu a tendência e o inverno se estabeleceu. Lá estava eu

realizando uma entrevista trajando apenas um moletom fino e uma bermuda

curta.

A cada hora que passava o frio aumentava. Naquela noite passei de carro

na junção das ruas Silva Jardim, Tibagi e Viaduto Colorado e o termômetro

instalado nessa conexão constatou que a temperatura estava em 8º centígrados.

Eu, jornalista contestador que sou, não acreditei na informação passada pela

máquina, porque com toda certeza estava bem mais gelada a noite.

Em certo momento da entrevista, como já citado no livro, os carteiros

compraram refeições para os grevistas que iriam dormir no acampamento. A

refeição especificamente falando era um quilo de maionese, quatro quilos de

costela bovina asssada e um prato de salada - tomate e cebola. Só de descrever

já me dá água na boca, imaginem lá, sentindo o cheiro, sendo convidado para

fazer parte do jantar, mas não aceitar o convite porque está trabalhando. Foi

realmente sofrível.

No terceiro dia de entrevistas, após algumas idas e vindas e alguns

empecilhos já citados no livro, o encontro com Bernadete foi bem interessante,

pois ela sempre passava a imagem de uma pessoa sossegada. Apesar de afirmar

que fazia parte do sindicato e protestava em todas as greves, Dete não conseguiu

me convencer de ser uma pessoa explosiva.

Como aprendemos em Jornalismo, as fontes sempre devem ser checadas.

Mesmo duvidando que ela fosse essa pessoa aguerrida, fui tirar a contraprova

e me dei mal. No dia do panelaço em frente à sede dos Correios, Bernadete foi

a primeira a puxar a fila em direção ao interior da agência central. Bateu

panela, utilizou buzinas de ar e tirou muitas fotos. Realmente tive uma

impressão errada dela e afirmo que a “nova” Dete que conheci é bem mais

interessante e combina mais com tudo que ela havia dito.

Nessa entrevista admito que passei vontade mais uma vez. Foram

consumidas duas garrafas grandes de Skol. A cobiça realmente girava em torno

de pedir a terceira cerveja e depois a quarta e aí por diante. Diz um ditado

popular que reunião de jornalista é feita em bar. Porém, a consciência de que

iria para a aula à noite falou mais alto e ficamos por ali mesmo. Detalhe: não

fui eu que paguei a conta!

A quarta entrevista com certeza é a com o maior número de detalhes.

Poderia me aprofundar em alguns itens como o jogo do Atlético Paranaense

no sábado, vitória apertada e muito vaiada. A cara de Sandro ao término da

partida, os olhos não demonstravam muita esperança em relação a uma

recuperação do seu clube de coração, mas sua fala, assim como em todos os

assuntos, sempre é extremamente positiva.

Dentre os cinco entrevistados do livro, Sandro era o único que eu já

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conhecia e, apesar de já ter sido personagem de um perfil, publicado na revista

Entrelinha, que é produzida pelos alunos da Universidade Positivo, achei de

extrema importância contar com ele nesta obra. Tudo foi levado em conta: a

amizade, as histórias e a proximidade com ele. No trajeto da Arena da Baixada

até sua casa, fazendo um intervalo na residência do seu pai, o meu bloco de

notas, conhecido também como diário de bordo, não funcionou pelo motivo

de eu estar dirigindo. A solução era gravar tudo o que ele dizia e o que me

interessava era repetido por mim.

Sandro mora em uma casa humilde, à beira da Rodovia do Café, na já

citada região dos motéis. A residência, que é alugada, tem um quintal, dois

quartos, duas salas e a cozinha. De fato a casa é pouco mobiliada, mas a falta

de mais uma estante ou de uma mesa é compensada quando uma das portas

dos armários é aberta e surgem raridades de centenas de times de futebol.

Hobby levado a sério e que me inspirou a entrar nesse ramo.

A última entrevista, realizada com Jaroslau, também foi rica em detalhes,

mas em quantidades menores. O personagem de encerramento do livro,

quando apresentado, se mostrou um pouco tímido e desconfiado. Essa

máscara, no bom sentido, começou a cair com o passar da entrevista e com as

piadas de Wadão que acompanhou parte da nossa prosa.

Como Jaro contou muitas histórias dentro de um restaurante vazio que

começava a ter movimento, não havia mais nada a observar a não ser os

outros trabalhadores que iniciavam o seu almoço. O ápice de extravagância

dele foi no dia do panelaço, onde Jaroslau participou do protesto munido de

uma colher de sopa e uma panela já amassada. Ele contou tantas histórias que

havia momentos em que confiei mais no gravador digital do que no diário de

bordo.

Agora que o livro está completo com informações adicionais, faço meu

encerramento afirmando que a experiência de escrever um livro é única e

maravilhosa. As noites não dormidas, pois descobri que a minha criatividade

se manifestava depois da meia noite, os doze litros de Matte Leão, as inúmeras

garrafinhas de água mineral, milhares de latidos de cachorros, centenas de

palavras cachorros e, o principal, dezessete horas de conversas gravadas

serviram de barreiras que deveriam ser superadas e foram!

Espero que tenham gostado desse livro que veio para dar mais visibilidade

e voz aos carteiros, não só de Curitiba, mas de todo o Brasil. Porque onde há

carteiro, com certeza há histórias. E onde há história, haverá um jornalista,

pois o Jornalismo é essencial para a sociedade.

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Jornalismo

Para finalizar o livro, utilizarei três trechos retirados da minha

fundamentação teórica, que resumem bem a importância do jornalismo para

toda sociedade e para mim:

Durante todo o projeto, o jornalismo foi essencial para a realização

deste trabalho. Por meio de técnicas de entrevistas, maneiras de abordagem e

produção de textos e reportagens. O jornalismo ainda é responsável por trazer

histórias desconhecidas e interessantes para a sociedade.

O livro-reportagem “Entre uma carta e outra – Cinco histórias no

mesmo tempo” apresenta possibilidades de abordagem e estilos jornalísticos

pouco utilizados no cotidiano. O uso de perfis para a construção de

reportagens mostra que nem só de “lead” e “pirâmide invertida” vive o

jornalismo. O perfil transforma uma reportagem “quadrada” em um texto

solto, onde não apenas a fala do entrevistado é importante, mas tudo o que

está em sua volta também. A aproximação com a literatura torna o livro mais

atraente para o público.

A única constatação com o término do projeto é de que o livro é um

exemplo para que outros jornalistas percebam que não só de fatos cotidianos

o jornalismo é feito. Em qualquer lugar e em qualquer pessoa, seja carteiro,

lixeiro, catador de papel sempre há uma boa história e principalmente uma

pessoa por trás dela. Se o Jornalismo faz parte de uma Comunicação Social,

nada mais justo do que olharmos em nossa volta e constatamos a riqueza de

informações que esse mundo nos oferece.

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C

om histórias contadas diretamente das

ruas de Curitiba, Entre Entre uma uma carta carta e

e

o ooutra,

o apresenta o perfil de cinco carteiros

que descrevem as dificuldades e alegrias do cotidiano.

Cachorros, mordidas, lagartos, assaltos e acidentes

são alguns dos ingredientes que tornam este livro

curioso e interessante, dando voz a esses profissionais

que muitas vezes são tratados apenas como números

e estatísticas.

“Simples e irreverente. Fiquei com vontade de conversar

com o carteiro da minha rua”

Karla Dudas/Editora da Revista Imensidão

Entre uma carta e outra - Cinco histórias no mesmo tempo

Caio Derosso

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