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A BARRAGEM DO XINGÓ: HERANÇA NEFASTA ... - Fazendo Gênero

A BARRAGEM DO XINGÓ: HERANÇA NEFASTA ... - Fazendo Gênero

Fazendo

Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010 A energia hidrelétrica do Nordeste na política desenvolvimentista: um paralelo com o movimento feminista No chamado período desenvolvimentista, que tem inicio na década de 1950, é acionada no Nordeste a construção da barragem de Três Marias, no rio São Francisco, no Estado de Minas Gerais, considerada primeira obra de grande porte, cuja conclusão se deu em 1961, no calor da inauguração de Brasília e de outras ações do então governo Juscelino Kubscheque. Dentre essas ações encontra-se a criação da Eletrobrás no Ministério de Minas e Energia com a atribuição de coordenar o setor elétrico brasileiro, sendo a Chesf transformada, portanto, em sua subsidiária. Naquele período político, o complexo energético de Paulo Afonso é ampliado com a construção da Usina Hidrelétrica Paulo Afonso II. Também por volta dos anos de 1960, o então movimento feminista ganha visibilidade com a ação das mulheres que lutam para ter reconhecimento e respeito na sociedade. Em ato simbólico, queimam sutiãs em praça pública na tentativa de chamar atenção para a condição de subordinação vivenciada pelas mulheres. Espalha-se um movimento mundial pela liberação da mulher com repercussão em várias partes do mundo. No nordeste do Brasil, o movimento se fez presente, mas sem nenhuma repercussão no direcionamento dos orçamentos públicos destinados à construção de fontes energéticas até porque, naquele momento, o movimento feminista nada apontava nessa direção. No Brasil, o movimento feminista de acordo com suas vertentes, se manifestava politicamente reforçando ações dos movimentos políticos que queriam, na época, assumir a direção do país, a saber, o movimento dos militares e do chamado movimento da esquerda. O chamado feminismo liberal fortalecia o movimento dos militares ao participar, por exemplo, da passeata contra a carestia (que refletia um desgoverno) enquanto outro considerável número de mulheres, principalmente aquelas comprometidas com o ideal marxista, aderira ao movimento da esquerda em toda a sua extensão temporal e amplitude. O movimento liderado pelos militares toma o poder, submete o país a uma ditadura e adotam dentre as suas prioridades, a política das grandes obras para geração de energia enquanto as mulheres militantes da academia e da sociedade civil permaneciam indiferentes à temática energética. Os projetos de geração de energia baseados em grandes barragens são intensificados na década de 1970, por todo o país. As indústrias em implantação no Brasil demandavam energia eletrointensiva naquela conjuntura nacional em que se colocava a posto o chamado “Milagre Brasileiro” (CARNEIRO, 1993 - a). 2

Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos 23 a 26 de agosto de 2010 Enquanto o Estado direciona suas ações para geração energia, as mulheres, particularmente, as nordestinas continuam a construir seu mundo a partir de uma militância acadêmica e civil, algumas vezes, baseada em estudos pontuais e reivindicações consideradas por segmentos da academia e a administração do estado, como dotada de caráter romântico, permeado por inocência, inexpressão e de pouca importância no jogo do poder econômico e político. Diante da reduzida valorização do que fazem, como fazem e para quem fazem, as mulheres do Nordeste, vão, passo a passo, consolidando o movimento feminista, à luz do movimento mundial que estudiosos dotados de respeitabilidade reconhecida como Bobbio (1995), Mezaros (2002), Castells (1999) e vários outros passam a apontá-lo como um dos movimento de maior expressão na transformação da sociedade. Desprovidas de prestígio político e econômico, as mulheres dividem suas ações sem causar grandes incômodos à proposta de desenvolvimento representada pelo setor energético. Durante a construção de hidrelétricas, inicialmente, ocorrem aumento de empregos, mas no seu final a redução de empregos é fatal, criando-se, assim, verdadeiros nichos de desempregados que vêm se organizando em movimentos sociais na tentativa de encontrar uma saída política para a problemática do desemprego e do uso dos recursos naturais. A partir desse movimento, as mulheres e a produção de energia tendem a se cruzar. Alguns grupos de mulheres rurais estão inseridos no movimento de barragens que reclamam os prejuízos causados pelas hidrelétricas às famílias rurais e ao meio ambiente. Essa questão, ao contrário da pura geração de energia que lhes era indiferente, hoje lhes diz respeito diretamente. Dessa feita, a luta daquelas mulheres rurais tende a significar um marco na luta das mulheres, ao aderirem publicamente à questão ambiental em prol da preservação da vida no planeta. Os recursos naturais tornam-se cada vez mais escassos e as barragens denotam prejuízos a serem divididos, principalmente, com as mulheres. No quadro de contingenciamento econômico, político, social, somado a experiência vivenciada pelos trabalhadores e a empresa responsável pela construção de usinas hidrelétricas no Nordeste, é construída a Usina Hidrelétrica do Xingó que se coloca como destaque pelo potencial de produção de energia (3000MW) (Chesf, 2006), gerando, atualmente, cerca de um terço da energia elétrica consumida no território nordestino. Xingó apresenta-se perpassada por um jogo de interesses que faz parte da trajetória conjuntural capitalista, sem dúvida, orientada pela concentração e centralização da riqueza mundial a partir da apropriação dos recursos naturais. Como toda obra que envolve grande capital, a barragem de Xingó deixa o rastro da mudança de reprodução social permeada por conflitos gerados pela destruição de meios de produção que se 3

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