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Revista Dr Plinio 143

Fevereiro de 2010

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Publicação Mensal Ano XIII - Nº 143 Fevereiro de 2010

Ardoroso devoto

da Eucaristia


Apostolado e sacrifício,

ações inseparáveis

Por que razão Nossa Senhora quis a morte

precoce de Jacinta e Francisco, videntes de

Fátima?

Em geral, quando se trata da salvação dos homens, é

necessário haver vítimas que se associem à intervenção

de Deus com o sacrifício de suas vidas.

Isto é especialmente frisante no que diz respeito

às aparições de Fátima: trata-se de uma intervenção

direta da Santíssima Virgem — atestada por milagres

estupendos como, por exemplo, a rotação do Sol — com a

transmissão de uma das mais importantes mensagens de

Nossa Senhora aos homens ao longo de toda a História.

Pois bem, nesta ocasião Maria Santíssima quis

a imolação de duas almas, as quais se ofereceram

na intenção do pleno cumprimento dos planos da

Providência.

Este oferecimento nos atesta como o sofrimento é

insubstituível e como ele abre, verdadeiramente, os

caminhos para a Igreja.

(Extraído de conferência de 19/2/1965)

2


Sumário

Publicação Mensal Ano XIII - Nº 143 Fevereiro de 2010

Ano XIII - Nº 143 Fevereiro de 2010

Ardoroso devoto

da Eucaristia

Na capa, Dr. Plinio

assiste uma procissão

do Santíssimo

Sacramento.

Foto: J.S.Dias.

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Antonio Augusto Lisbôa Miranda

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Santo Egídio, 418

02461-010 S. Paulo - SP

Tel: (11) 2236-1027

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão e acabamento:

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Tel: (11) 2606-2409

Preços da

assinatura anual

Comum . . . . . . . . . . . . . . R$ 90,00

Colaborador . . . . . . . . . . R$ 130,00

Propulsor . . . . . . . . . . . . . R$ 260,00

Grande Propulsor . . . . . . R$ 430,00

Exemplar avulso . . . . . . . R$ 12,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Tel./Fax: (11) 2236-1027

Editorial

4 Ardoroso

devoto da Eucaristia

Datas na vida de um cruzado

5 3 de fevereiro de 1975

Um oferecimento aceito por Deus

Dona Lucilia

6 Sumamente tranquila,

sumamente vigilante

Dr. Plinio comenta...

10 De graça recebestes...

As metáforas de Dr. Plinio

14 Divina visita

Ardoroso devoto da Eucaristia

16 Mane nobiscum Domine

O Santo do mês

20 2 de fevereiro:

Nossa Senhora do Bom Sucesso

A sociedade, analisada por Dr. Plinio

24 Alguns lutam por um ideal.

Outros... por uma vida gostosa.

Apóstolo do pulchrum

30 Lição das flores

Última página

36 Minha mãe, dizei por mim!

3


Editorial

C

Ardoroso

devoto da Eucaristia

omo haveria de se realizar a promessa feita por Nosso Senhor Jesus Cristo: “Estarei convosco

até a consumação dos séculos”?

Explica-nos a Teologia que a continuidade da presença de Jesus entre os homens, após sua partida

para o Pai Eterno, realiza-se também através do Santíssimo Sacramento. Nele encontramos, à nossa

inteira disposição, Aquele mesmo Jesus que andou sobre as águas do lago de Genezaré, que dava vista

aos cegos e curava os leprosos, e que nos trouxe a salvação.

Jesus não poderia conceder-nos, através da Eucaristia, os mesmos dons dispensados outrora em

sua vida terrena? Ou cumular-nos daquelas mesmas consolações que proporcionava aos que estavam

em sua proximidade?

***

A Eucaristia é um dos pilares da piedade pliniana. Ao longo de sua vida, Dr. Plinio sempre manifestou

a profunda devoção que nutria para com Jesus Eucarístico. De suas conferências — ou até das

simples conversas que tivera com seus mais próximos colaboradores — podem-se tirar valiosos princípios,

como também encontrar ricas considerações teológicas acerca de tão elevado tema.

Por esta razão, a revista Dr. Plinio inicia neste mês a seção “Ardoroso devoto da Eucaristia”, na qual

poderá o leitor beneficiar-se deste piedoso acervo de explicitações e obter respostas às questões que,

no decorrer da vida cristã, não poucas vezes surgem à nossa alma:

“Qual deve ser nossa atitude diante da Sagrada Eucaristia?

“Esta é uma pergunta que respondo com outra: Que atitude tomaríamos se, de repente, Nosso Senhor

aparecesse pessoalmente a um de nós? Compreender-se-ia outra reação que não fosse a prostração

diante d’Ele em sinal de adoração?

“Ora, Cristo está tão presente na Eucaristia quanto estava, em sua existência terrena, andando pelas

cidades da Terra Santa.

“Alguém poderia objetar: ‘Não tem dúvida, mas seria uma graça muito maior vê-Lo fisicamente

com os olhos, do que adorá-Lo na Sagrada Hóstia.’ A este eu respondo o seguinte: Por mais espantoso

que possa parecer, eu não concordo! Vê-Lo fisicamente é uma dádiva enorme, mas exprimir nossa

Fé, crendo em sua presença sem O ver, e assim amá-Lo como se O víssemos, é atrair para si a bemaventurança

anunciada a São Tomé: ‘Bem-aventurados os que não viram mas creram.’ 1

“Terminada a Santa Missa, as partículas nela consagradas que não foram consumidas pelos fiéis

são guardadas no sacrário, e Nosso Senhor lá permanece. Todos saem da igreja, ela é fechada, as horas

passam, a noite vai avançada. A lamparina tilinta e o seu estalo faz eco no edifício sagrado. A capela

está na solidão completa, porém, Ele está ali à espera de que alguém vá adorá-Lo.

“Eu sou cristão. E cristão é aquele que reconhece em Jesus Cristo o Homem-Deus, que nos redimiu

e nos salvou e por cujas graças nós podemos chegar até o Céu.

“Mas esse Deus não está apenas no Céu, a uma grande distância de mim. Ele está aqui perto. Como

posso eu não fazer da Sagrada Eucaristia o tema central da minha piedade?”

1) Jo. 20, 29

(Extraído de conferências de 3/4/1969, 28/4/1973 e 21/9/1991)

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Datas na vida de um cruzado

3 de fevereiro de 1975

Um oferecimento

aceito por Deus

As grandes realizações sobrenaturais são

frutos de grandes sofrimentos. Ao longo

da História pululam os fatos que no-lo

demonstram.

Entre muitos, tomemos o exemplo por excelência:

Nosso Senhor Jesus Cristo no cimo do

Calvário, pregado a uma Cruz, escarnecido, mal

tratado, Homem de dores acostumado ao sofrimento.

Porém, com este doloroso ato, comprou

nossa redenção, apagando os efeitos da culpa

original.

É bem verdade que — se o próprio Deus feito

Homem passou pela Paixão e imolou-se na Cruz,

a fim de obter a vitória sobre o pecado e a morte

— também o homem que se ponha a militar nas

fileiras de Jesus Cristo, deve, sem pesar nem tristeza,

cheio de garbo e decisão, preparar-se para os

sofrimentos que lhe hão de vir.

Não foi diverso o que se passou com Doutor

Plinio. Notando ser necessário algum sacrifício

particular, para que seu apostolado desse frutos

agradáveis à Santa Igreja, logo se dispôs espiritualmente

a receber os sofrimentos que fossem da vontade

de Deus. E em 3 de Fevereiro de 1975, dois

dias após haver feito tal oferecimento,foi vítima de

um grave desastre de automóvel:

Para que nosso Movimento fosse adiante, era

necessário um sacrifício que conquistasse graças

diante de Deus. Eu pensei: “Não posso oferecer

minha vida, porque sei que Nossa Senhora não

quereria isto, mas posso oferecer qualquer outra

coisa que Ela queira me fazer sofrer.”

Dois ou três dias depois, eu partia para uma

sede nossa, na cidade de Amparo, interior de

São Paulo. Antes desta viagem, eu atendi a um

membro de nosso Movimento e saí da conversa

com muito mal-estar, não pelo que tínhamos

conversado, mas por um imponderável que

sentia no ar — não me lembrava do oferecimento

que havia feito. Tive a seguinte impressão:

“Se eu viajar no banco da frente, vou acabar

dormindo e assim, caso aconteça um acidente,

vou escangalhar-me num desastre de automóvel

sem dar-me conta. Seria melhor viajar

atrás para vigiar melhor.” Mas concluí: “Não se

deve dar atenção a esses pressentimentos; eu

vou na frente.” E dormi, acordando no hospital

de Jundiaí...

Alguém que estava comigo no carro, no banco

de trás, disse-me que eu acordei na hora do

choque, vi o carro da frente derrapando de um

lado para o outro e perguntei: “O que é isso? É

com nosso carro?”

Eu havia sofrido um desastre de automóvel

gravíssimo, estava com dificuldade de raciocinar

— minha cabeça levara um trauma horroroso

—, não sabia o que tinha me acontecido.

Lembro-me que, estando no hospital, confusamente

eu emergia do subconsciente para

o consciente, e percebia, por momentos, gotas

claras e grandes de realidade, de um lado; mas,

de outro, gotas fugidias que rolavam pelo abismo

das circunstâncias pré-operatórias e pósoperatórias.

Nos momentos de consciência eu percebia —

por todas as condições de meu corpo — que eu

talvez imergisse no subconsciente logo mais, e

que assim seriam as coisas indefinidamente, enquanto

Nossa Senhora dispusesse.

A Providência havia aceito meu oferecimento.

(Extraído de conferências de 29/9/1980,

6/2/1982 e 25/4/1992 )

5


Dona Lucilia

Sumamente tranquila,

sumamente vigilante

Há quem confunda bondade com ingenuidade. Este é um equívoco

não cometido por Dona Lucilia. Extremamente bondosa e afetuosa, ela

formou seus filhos na mais intransigente escola da vigilância.

Q

ual foi a impressão causada

por Dona Lucilia, em

meu interior, durante toda

a vida?

O amor materno

Recordando os mais antigos fatos

da infância, momentos onde o

filho começa a deter-se atenciosamente

em sua mãe e tomar consciência

de que ela possui uma relação

especial com ele, lembro-me de

me sentir envolvido pelo trato materno.

Era uma impressão forte, doce,

estável e cheia de luz. Dona Lucilia

era sumamente tranquila, sem, entretanto

deixar de ser íntegra e intransigente.

Embora sofresse muito durante a

vida, mamãe possuía uma paz decorrente

da convicção de que estava vivendo

e sofrendo como devia, e que

o caminho trilhado por ela era o desejado

por Deus. Este estado de alma

proporcionava a ela uma enor-

Fotos: Arquivo revista / S. Miyazaki

6


me tranquilidade de consciência. Isso

explica o fato de ela não se agitar

com coisa alguma.

Por outro lado, Dona Lucilia

não tolerava o menor mal. Em

qualquer circunstância ela exigia

que as coisas fossem inteiramente

bem feitas. Nunca considerando

o mal pelo seu lado mais divertido

ou engraçado, ela não tolerava

de nenhuma forma as coisas ruins.

Isto dava a mamãe um bonito aspecto

de alma pelo qual nunca a vi

mentir, ou procurar fazer um sofisma,

enganando alguém. Dizia a todos

a verdade como era, cumprindo

seu dever até onde necessário.

Isso se dava, sobretudo, em relação

aos filhos.

Nessa eu posso confiar!

Eu nasci muito fraco, e por isso,

quando pequeno, Dona Lucilia

cuidou de minha saúde o quanto

pôde.

Devido a minha frágil saúde, eu

tinha muita dificuldade em dormir à

noite. Então, acordava e via o quar-

Embora sofresse

muito durante

a vida, mamãe

possuía uma paz

decorrente da

convicção de que

estava vivendo

e sofrendo como

devia, e que o

caminho trilhado

por ela era o

desejado por

Deus.

7


Dona Lucilia

to todo escuro. Dava-me uma

sensação de isolamento, de solidão,

não tendo a quem dirigir-me.

Por esta razão, mamãe mandava

colocar minha cama ao

lado da sua. Ao acordar, ficava

um pouco intimidado em despertá-la,

mas, afinal, chegava

um momento em que não era

mais possível ficar sozinho, e,

então, punha a ponta do dedo

em seu braço.

Como toda criança, eu não

pronunciava bem as palavras.

E tendo apenas dois anos de

idade, queria dizer mãezinha,

mas dizia manguinha.

Às vezes, quando acordada,

ela logo percebia tratar-se de

mim, e começava a entreterme,

até notar que estava sossegado.

Então me deitava novamente

na cama e ambos dormíamos.

Porém, em algumas ocasiões —

pelo fato de estar indisposta ou simplesmente

por ter um sono muito

profundo — Dona Lucilia não acordava.

E possuindo um temperamento

categórico desde pequeno, eu passava

para a cama dela — era um verdadeiro

“alpinismo” — e tocava-a

para que despertasse.

Para ter bom êxito em minha “escalada”,

eu tinha de me pôr de pé e

tentar galgar uma grade alta que havia

em minha cama para evitar qualquer

acidente...

Passando para a sua cama, começava

a chamá-la, porém não era

atendido. Então me aproximava e

abria os olhos dela, pois, assim, naturalmente

acordaria.

Nunca aconteceu algo senão isto:

ela acordar, e imediatamente sorrir,

dizendo:

— Meu filhinho. É você?

Imediatamente ela se sentava na

cama, fazia com que eu me sentasse

no travesseiro dela, e iniciava o

conto de uma história. Eu me sentia

penetrando na história através

Quando eu voltei,

Dona Lucilia

estava sentada

numa poltrona,

no hall de entrada

da casa, nós nos

abraçamos e

beijamos de modo

efusivo.

Ela me disse:

“Graças a Deus,

você ainda é o

mesmo.”

dos olhos dela. Ela me queria muito

bem, e eu tinha noção — talvez confusa

pela pouca idade, porém real

— desse afeto do qual era objeto. E

por ser cauto desde pequeno, pensava

comigo mesmo: “Nessa eu posso

confiar, porque ela me quer

bem.”

Meu coração está

à procura de Plinio

e não o encontra

Inúmeros episódios como

esse se repetiram ao longo de

minha vida. Lembro-me também

daqueles momentos nos

quais a severidade dela se manifestava.

Por exemplo, quando

na década de cinquenta

viajei à Europa.

Dona Lucilia ficava muito

apreensiva quando alguém

da família fazia viagens de

avião, pois naquele tempo os

aviões eram ainda muito primitivos.

E atravessar o oceano

de avião tinha seus riscos,

os quais ela não queria que

seu filho passasse. Então, não cheguei

a dizer a ela que ia à Europa.

Disse que ia ao Rio de Janeiro —

naturalmente precisava ir ao Rio

para depois ir para a Europa.

Pedi que Dona Lucilia me preparasse

uma mala com muitas roupas,

pois talvez me demorasse um pouco

mais no Rio. Ela parecia estar tranquila,

e por isso julguei que não desconfiasse

de nada.

Contou-me um parente próximo,

muito ligado a ela, que no dia seguinte

ao da viagem, minha mãe pediu

que ele fosse a minha casa. Este

parente chegou, e Dona Lucilia lhe

disse:

— Diga-me uma coisa: onde está

o Plinio?

— O Plinio?

E deu uma resposta evasiva. Entretanto,

ela disse:

— Meu coração está à procura de

Plinio e não o encontra. Procuro-o

no Rio e ele não está; procuro-o em

Santos — lugares onde costumava ir

— e Plinio não está lá. Você precisa

me dizer onde está o Plinio.

Ele sorriu e disse a ela:

8


— Lucilia, o Plinio está na Europa.

— Como Europa?!

— Sim, ele resolveu ir para a Europa,

passar alguns meses, por motivos

de seu apostolado.

Então, mamãe chorou e rezou por

mim. Pouco tempo depois, chega para

ela uma cesta de flores enorme

que eu tinha encomendado, calculando

a hora aproximada em que ela

saberia da notícia, acompanhada de

uma carta sumamente afetuosa, dirigida

a ela.

Não preciso dizer que ela gostou

muito da cesta. À tardinha, na hora

do crepúsculo, chega outra cesta

de flores com outra carta minha. E

durante toda a viagem escrevi várias

cartas a ela — as quais eram invariavelmente

respondidas.

Quando voltei — Dona Lucilia

sabia que estava chegando —, ela estava

sentada numa poltrona, no hall

de entrada da casa. Abriu-se a porta

e eu a vi sentada no sofá.

Era costume mamãe levantar tarde,

pois rezava muito à noite, indo

dormir às 3h da manhã. Consequentemente,

acordava lá pelo meio-dia

e ainda ficava rezando na cama por

mais algum tempo, pois, como sofria

do fígado, ela devia ficar muito tempo

recostada.

No dia de minha chegada, porém,

ela levantou-se mais cedo e já estava

inteiramente à minha espera. Quando

entrei, abracei-a e beijei-a de modo

efusivo.

Dona Lucilia recuou um pouco

e fixou o olhar no fundo dos meus

olhos. Eu fiquei curioso de perguntar

o que significava aquilo. Ela me

disse:

— Graças a Deus, você ainda é

sempre o mesmo.

Era a vigilância materna: um afeto

cheio de vigilância, uma vigilância

cheia de afeto.

v

(Extraído de conferência de

27/10/1988)

9


Dr. Plinio comenta...

De graça

recebestes...

Na esfera

sobrenatural, há

momentos em que

à vontade resta

apenas dobrar

reverentemente os

joelhos, submetendose

aos desígnios da

Providência. Assim se

passa com as graças

que recebemos de

Deus: nos são dadas

gratuitamente, sem

mérito algum de

nossa parte. Tratando

sobre este tema,

Dr. Plinio nos traz

valiosos princípios.

Fotos: S. Hollmann / R. C. Branco / H. Grados / Arquivo revista

10

Depois da culpa original, a

natureza humana não raras

vezes é levada a atribuir

a si própria as boas obras que

executou.

Imaginemos um exemplo: No alto

de um púlpito está um pregador, o

À esquerda, nossos primeiros

pais ao serem expulsos

do Paraíso - Museu do Prado,

Madri; à direita,

Moisés com as tábuas da Lei.


qual fala para um público que o ouve

contrito e devoto.

O orador está — como Moisés no

alto da montanha — vituperando

contra os pecados, censurando os erros,

increpando as doutrinas falsas,

abatendo as heresias. Evidentemente,

se estabelece uma diferença entre

ele e os ouvintes. Ele faz o papel de

homem puro, santo, imaculado como

a hóstia que vai ser oferecida

no altar; ele censura os outros pela

vida má que levam; ele é um homem

que foi separado dos outros,

por Deus, para ser o sal e a luz do

mundo (Mateus 5,13).

Entretanto, este sacerdote cometerá

um erro se julgar que a sabedoria

de suas palavras nasce dele

mesmo, pensando: “Vejam como

eu sou bom: tirei das

profundezas de minha personalidade,

a energia e a lucidez para pensar

acertadamente e trilhar o bom

caminho. Realmente, minha natureza

pessoal foi dotada por Deus de recursos

admiráveis, mas eu sou o dono

das qualidades naturais que Deus

me deu; usei bem delas e as aumentei.

Fui bom o suficiente para valorizar

meus talentos, e por isso Deus

me premiará.”

Qual é o erro deste raciocínio?

É o de esquecer-se que todo homem

é concebido no pecado original

e, por isso, é débil por natureza. E,

assim sendo, sobrenaturalmente falando,

por suas forças próprias não

pode produzir nada de bom.

O fato de sermos herdeiros de

Adão e Eva põe em nós um “fermento”

que nos leva frequentemente ao

mal, criando assim, em nós, uma tendência

estável e permanente para o

pecado.

11


Dr. Plinio comenta...

Púlpito da Basílica

de São Jorge -

Ferrara, Itália.

Com a

correspondência à

graça, tornamo-nos

verdadeiros heróis

católicos, capazes de

todas as audácias, de

todas as coragens, de

todas os martírios, de

todas as investidas e

de todas as vitórias.

12


À menor ocasião de pecado, o homem

sente-se solicitado. Tal solicitação

é tão forte que, por sua simples

natureza, não é possível à pessoa permanecer

durante um tempo razoável,

fora do estado de pecado mortal.

Sem a graça de Deus

não temos força

para praticar a virtude

Assim também com o nosso pregador:

Se não contasse com a graça

dada por Deus, seria um celerado,

um criminoso.

A graça é uma luz dada ao intelecto

que nos ajuda a ver a verdade,

uma força dada à

A partir da

sacada de seu

escritório (na

sede Nossa

Senhora do

Amparo),

Dr. Plinio

contempla o

panorama.

vontade que nos ajuda

a querer o bem.

Sem a graça, o homem

pode praticar algumas

virtudes isoladamente,

porém, nunca

em sua totalidade.

Sem essa assistência

de Deus, o homem

não terá a capacidade

de cumprir estável e

duravelmente os Dez

Mandamentos.

A graça de Deus é

dada ao homem sem

que ele a mereça; ela

é um espontâneo ato

da misericórdia do

Criador. Foi por livre

e espontânea iniciativa,

que Deus deu a fé

para o pregador crer,

e a força para ele praticar

os Dez Mandamentos.

A graça atual não

entra no homem à

maneira de uma injeção

fortificante que

um médico coloca na

veia do doente. Esta

se incorpora ao doente

e passa a ser uma

propriedade de seu

sangue, de maneira tal que tomada a

injeção, o paciente não precisa mais

do médico. A graça não é assim, ela

é renovada a todo o momento, dando-nos

a capacidade de praticar a

virtude de um modo que nossa natureza,

por si só, não seria capaz.

Em síntese, o homem não é a origem

e o ponto de partida da santidade

que ele possa ter, mas sim, ele

é santificado pela graça que vem de

Deus. Aceitando essa bondade de

Deus, a graça penetra em nós e nos

modifica. Mas, é preciso ter presente

que foi a graça que operou esta modificação.

Para aceitar a graça,

é necessária outra graça

Alguém dirá: “Mas, Doutor

Plinio, essa aceitação não tem certo

mérito?” Eu digo: “Tem, mas a força

para aceitar a graça vem da graça.”

Dou um exemplo:

Imaginemos um doente que se encontra

no último estado de prostração,

de abatimento, devido a uma

doença que lhe faz manter, constantemente,

os lábios cerrados. Um médico

dá-lhe um fortificante e, ao mesmo

tempo, ajuda-lhe a abrir a boca

para que ele possa engolir o remédio.

É evidente que se o paciente não tivesse

colaborado com o médico, não

se beneficiaria do remédio; mas, se

não fosse para tomar o remédio, ele

não teria sequer tentado abri-la.

Isto nos faz compreender qual é o

papel do livre arbítrio e da graça em

nossa vida espiritual.

Deus, na sua infinita bondade,

não nos dá apenas graças suficientes,

mas, nos dá também graças que vão

muito além delas: as graças eficazes.

Esta é um tipo de graça, a bem dizer,

avassaladora, que o homem recebendo,

certamente, não resiste.

Isso não quer dizer que o homem

não tenha mérito em aceitá-la. O mérito

da aceitação da graça não vem só

do sacrifício que o indivíduo fez para

a aceitar, mas também de uma certa

disposição fundamental da alma,

sempre inerente ao convite da graça,

pela qual o indivíduo renuncia-se a si

e dá-se a Deus. E isso sempre constitui

um mérito, porque descolar-se de

si e entregar-se a Deus é sempre doloroso

para qualquer criatura no estado

de prova em que nos encontramos.

Sempre existe a possibilidade

de o homem rechaçar as graças enviadas

por Deus, não há graça que o

homem, absolutamente falando, não

tenha possibilidade de repelir.

A graça nos torna

capazes de todas

as audácias

A trajetória da graça na vida de

alguém é mais ou menos a seguinte:

Na medida em que uma criança

batizada atravessa os vários estágios

da infância, e a luz da razão

nela vai se desenvolvendo, a graça a

vai iluminando e robustecendo, de

modo que, com o passar do tempo,

sua vontade vai se tornando mais

forte.

Esta criança, quando corresponde

à graça, faz-se um herói católico, capaz

de todas as audácias, de todas as

coragens, de todos os martírios, de

todas as investidas e de todas as vitórias.

Há, portanto, uma batalha constante

que é travada em nós: De um

lado, a ação do demônio, que nos

quer levar para baixo de nossa natureza,

ou seja, de mera criatura, a

qual se apropria dos dons dados por

Deus; de outro, a ação de Deus que

quer nos levar para o Céu, e à ordem

sobrenatural.

É o pêndulo de nossa vontade que

está continuamente convidada por

Deus para subir, pelo demônio para

descer. Subir, descer. Subir, descer.

Esta é a situação do homem. v

(Extraído de conferências de

20/3/1970 e 11/5/1994)

13


As metáforas de Dr. Plinio

Fotos: G. Kralj / Otávio M. / Arquivo revista

14


Divina visita

Qual não seria nossa alegria ao saber que à porta de

nossa residência está um personagem ilustre, o qual veio

nos visitar? Como o receberíamos?

Imaginemos que, de repente,

parasse diante de nossa casa

um magnífico Rolls-Royce, e

dele descesse um ajudante de campo,

esplendidamente fardado, tocasse

a campainha e anunciasse a chegada

da Rainha da Inglaterra, dizendo:

— Aqui mora fulano de tal?

A criada que o atendesse diria

surpresa:

— Sim, é aqui que ele mora.

— Então abra as portas porque

Sua Graciosa Majestade, a Rainha

Elisabeth II, veio fazer-lhe uma visita

a fim de demonstrar toda a estima

que tem por ele, e aqui permanecerá

por dez minutos.

Imediatamente se abririam as

portas, e nós não saberíamos o que

fazer para agradecer à rainha que estaria

honrando nossa casa com sua

presença.

Mais ainda do que honrar a casa,

ela nos estaria beneficiando com o

seu convívio: quando se trata de um

visitante tão especial, algo de sua nobreza,

de sua excelência, de seu talento

é transmitido ao visitado.

***

Pois bem, haveria algum propósito,

ao cabo de dez minutos, nós dizermos

à rainha: “Majestade, me

desculpe, mas esta conversa está demasiado

cansativa. Precisaríamos

encerrá-la.”?

Pelo contrário, ficasse a rainha

o tempo que quisesse, multiplicaríamos

nossos esforços para conseguir

que ela permanecesse onze minutos

em vez de dez; e, caso conseguíssemos,

pensaríamos: “Está vendo?

Ela iria ficar aqui por dez minutos,

mas porque eu sou simpático ficou

onze.”

***

Ora, quando na Sagrada Eucaristia,

Jesus penetra em nós, dá-se um

convívio infinitamente mais intenso

do que aquele da visita feita pela

Rainha da Inglaterra.

Na Sagrada Comunhão, Nosso

Senhor Jesus Cristo visita nossa alma

intimamente; não se trata de algo

externo ao nosso ser — como visitar

nossa casa —, mas sim, de algo

interno: Ele entra em nós.

Poderíamos, após esta visita de

Nosso Senhor, estar contando os minutos

para encerrar nossa ação de

graças?

Pelo contrário, devemos fazer

uma compenetrada ação de graças

após a Comunhão; e para isso é indispensável

que para ela nos preparemos

bem, adequadamente, tendo

bem presente o ato maravilhoso e

grandioso que vai se dar. v

(Extraído de conferências de

19/2/1971 e 16/7/1977)

Dr. Plinio durante uma conferência para jovens participantes de seu movimento.

15


Ardoroso devoto da Eucaristia

Mane nobis

A Sagrada Eucaristia constituiu um dos

principais pilares da espiritualidade de Dr.

Plinio. Inaugurando a seção “Ardoroso devoto

da Eucaristia”, procuraremos dar a lume o

amor que transbordava de sua alma: “A boca

fala do que transborda o coração!” No presente

artigo, Dr. Plinio nos ensina a bem nos

prepararmos para a Sagrada Comunhão.

Fotos: H. Mattos; S. Miyazaki; S. Hollmann

Para compreender a variedade

de métodos e modos que há

para realizar a ação de graças

e a preparação para a Comunhão, é

necessário compreender o modo pelo

qual a graça trabalha as almas.

O Apóstolo São Paulo afirma que

stella differt stella 1 — uma estrela é

diferente da outra. Desta forma, não

existem dois santos iguais, pois cada

qual tem sua vida espiritual própria,

com características inconfundíveis.

E, como não pode deixar de

ser, a graça guia cada alma no caminho

da virtude de acordo com seus

desígnios, proporcionando atrativos,

ou também aversões, que modelam

o espírito e indicam o itinerário que

a alma deve seguir.

Portanto, não se pode dizer que

um método de preparação para a

Comunhão é igualmente válido a todas

as almas.

Entretanto, São Luís Maria Grignion

de Montfort possui um ponto

de vista marial para a Comunhão,

onde ele coloca Nossa Senhora como

mediadora entre Deus e quem

recebe a Eucaristia. Isto sim é valido

para todos os católicos, em todos

os tempos e lugares. Sendo a varie-

dade de métodos imensa, descreverei,

então, um que possa ser benéfico

a todos.

Ação de graças por

meio de Maria

Sendo Mãe de Nosso Senhor Jesus

Cristo, Maria Santíssima é perfeita.

Ele A criou com tudo quanto

Ela deveria possuir para ser sua

Mãe. Concebida sem pecado original

desde o primeiro instante de

seu ser; Virgem antes, durante e depois

do parto, de tal forma perfeita,

que em todos os instantes de sua vida

nunca deixou de corresponder inteiramente

à graça de Deus, estava

numa altura inimaginável de virtude

quando chegou o momento bendito

em que Deus resolveu colhê-La

da Terra para o Céu!

Nossa Senhora é também Mãe de

todos nós, e a Mãe tem sempre pena

do filho mais esfarrapado, mais torto

e mais desarranjado. Quanto pior o

filho, mais Ela se compadece.

Devemos, pois, ao receber a Eucaristia,

nos colocar na presença d’Ela

como filhos necessitados, implorando

que Ela tenha pena de nós. Natu-

16


cum Domine

ralmente, Ela sempre se compadecerá

em relação aos seus filhos. E quando

o Divino Filho d’Ela vier a nós na

Comunhão, será por sua intercessão.

Contudo, o pedido feito por Maria

a seu Divino Filho, é que Ele entre

na “cabana” que é a alma de cada

um de nós. Mas essa “cabana” pode

ser ordenada e enfeitada por Nossa

Senhora, para que esteja agradável

a Ele. E, como a intercessora é a

própria Mãe d’Ele, Nosso Senhor se

sentirá comprazido.

Por isso devemos pedir que Nossa

Senhora esteja espiritualmente presente

em nossa comunhão a fim de

que preencha, de algum modo, o infinito

espaço que nos separa de seu

Divino Filho, o qual nos acolherá satisfeito

por havermos recorrido à sua

Mãe. Ele então nos dirá: “Tu és um filho

de Maria, minha Mãe; pede-me o

que queres.” Ao que devemos responder:

“Senhor, antes de pedir, eu Vos

agradeço! Quanta bondade, quanta

misericórdia! Mas, como agradecer-

Vos suficientemente? Suplico, pois,

à Vossa Mãe — que também é minha

— que agradeça por mim.”

Servir-se das moções

espirituais na preparação

para a Comunhão

Ao nos prepararmos para a Sagrada

Comunhão, devemos também rememorar

alguns momentos do dia

que tivemos, como também as perspectivas

do dia que ainda teremos

diante de nós. Não me refiro aos

problemas corriqueiros, mas sim,

aos de nossa vida espiritual.

Supondo que se faça uma Comunhão

vespertina, devo me perguntar

como foi meu dia em matéria de vida

espiritual: o que necessito, o que desejo,

o que mais profundamente tocou

minha alma e o que a atraiu mais

durante o dia. Isto mais facilmente

nos estimulará a um ato de amor, de

louvor e de reparação mais perfeitos.

Caso haja um pensamento que

considere ser mais fecundo para minha

alma, é louvável concentrar nele

minha atenção. Muitas vezes esses

pensamentos correspondem a um

atrativo especial da graça à alma.

Podemos também apanhar uma

invocação de alguma ladainha que

tenha tocado mais especialmente,

por exemplo, a do Sagrado Coração

de Jesus, e meditar sobre ela. Este é

um modo muito vivo — e para muitas

etapas da vida espiritual, excelente

— de nos preparar bem.

Uma das invocações muito bonitas

nesse sentido é: “Coração Eucarístico

de Jesus”. Meditando nesta

jaculatória, adoramos Nosso Senhor

enquanto tendo o desejo de instituir

a Eucaristia, movido por aquele

amor especial que Ele demons-

Devemos pedir que

Nossa Senhora esteja

espiritualmente

presente em nossa

comunhão a fim

de que preencha,

de algum modo, o

infinito espaço que

nos separa de seu

Divino Filho.

Dr. Plinio durante

a Santa Missa.

17


Ardoroso devoto da Eucaristia

Jesus com a Eucaristia.

(Catedral de Dijon, França.)

trou na última ceia: “Desejei ardentemente

comer convosco esta ceia.”

O Coração Eucarístico de Jesus,

transbordante de misericórdia, vem

a nós na Comunhão; peçamos então

que o Imaculado Coração de Maria

nos prepare para bem recebê-Lo, a

fim de que na Sagrada Eucaristia recebamos

especialmente as graças

que dizem respeito ao cumprimento

de nosso chamado individual.

Este é um modo bonito e lícito de

variar as ações de graças e as preparações

para a Comunhão, quase ao

infinito, de acordo com a inclinação

e as aspirações da alma.

Aridez e consolação:

benefícios distintos,

porém, eficazes!

Haverá também ocasiões onde

nossas Comunhões — segundo a linguagem

muito adequada da piedade

católica — serão áridas. Assim como

a terra árida não produz fruto,

temos, muitas vezes, a impressão da

aridez em nossa alma: comungamos

e não sentimos nada.

Muitas vezes, nossa

Ação de Graças é

feita de modo árido.

Nestas ocasiões devemos

ter presente que tais

cirunstâncias podem

trazer mais vantagens

para nossa alma do que

aquelas que nos trazem

consolações inúmeras.

Reza-se e pede-se, mas tem-se a

sensação de que nossas súplicas foram

meros termos piedosos sem nenhuma

profundidade. Nessa situação,

qual o valor de aproximar-se do sacramento

da Eucaristia? A pergunta

que parece ser tão razoável, quando

bem analisada mostra-se infantil.

Seria como a pergunta de uma

pessoa que toma um remédio cientificamente

certo de produzir um

bem incalculável. Após a ingestão, e

nos dez minutos que se seguem, não

se sente melhora alguma. Neste caso,

diríamos que tal medicina é ineficaz?

Claro que não: seus efeitos se

prolongarão no decurso dos dias, e

até dos anos. Só então sentir-se-á a

melhora desejada.

Algo parecido dá-se, sem dúvida,

com a Sagrada Comunhão. Muitas

vezes comungamos, mas a ação de

graças é árida; abrimos um livro de

piedade, mas o livro não nos inspira

nada; temos impressão de que não

adiantou rezar.

Ora, Deus visitou minha alma,

mas a presença d’Ele foi inútil?

Aquele que é Todo-Poderoso, Criador

do Céu e da Terra, de todas as

maravilhas, esteve presente em mim,

e não me fez um bem sequer?

Devemos ter presente que, não raras

vezes, a Comunhão inteiramente

árida traz, em si, mais vantagens para

a alma do que aquela que nos dá

consolações inúmeras. Isto porque

Nossa Senhora e Nosso Senhor querem,

como homenagem, que peçamos

ainda quando não percebemos

como nossa oração Lhes é grata.

Ou seja, Ele não desejou que este

contato fosse sensível, para que minha

Fé crescesse. Pois muitas vezes

Ele nos prova a fim de verificar se

somos daquela espécie de almas que

só creem quando sentem: “Tomé, tu

creste porque viste; bem-aventurados

os que não viram, mas creram!”

São Francisco de Sales, exímio

nas comparações encantadoras, tem

um magnífico exemplo:

Dois cantores apresentam-se sucessivamente

ao rei.

Um deles é normalmente constituído

em sua natureza física, e, enquanto

canta, vê a fisionomia de encantamento

do rei ao ouvi-lo. Ele

ouve sua própria voz, nota como

ela é bela, compreende como o rei

se deleita com seu cântico, e, enfim,

contenta-se em ver o rei

comprazido. Este homem

possui duas alegrias: de ver

o encanto do rei, e de ouvir

a sua própria voz.

O outro cantor, por

sua vez, é cego e surdo!

Ele não vê o rei, contudo

sabe que o rei está lá;

Elevação da óstia após

a Consagração.

18


não ouve sua própria voz, mas diz ao

rei: “Senhor, eu estou aqui por obediência.

Na minha ‘noite’, eu não vejo

onde estais; na minha surdez, não

ouço minha voz; mas para fazer a

vossa vontade eu cantarei, encantado

de saber que minha voz também

vos agradou!”

Qual dos dois músicos dá maior

prova de amor ao rei?

Pois bem, muitas de nossas Comunhões

são as do “cego e do surdo”.

Não vemos, nem sequer sentimos a

presença de Nosso Senhor em nós.

Não percebemos como é bela a nossa

súplica, nem como Ele se encanta

com ela. Mas, pela Fé, cremos que estamos

em estado de graça, e que Ele

se alegra de estar em nós, ao ponto de

dizer: “Minhas delícias consistem em

estar com os filhos dos homens.”

Ele estará realmente presente em

mim, embora na aridez. Nestas horas,

será de grande benefício lembrarmo-nos

disso.

Aproveitando

as perspectivas

angustiosas...

Quando o meu dia não tenha contribuído

para a sensibilidade eucarística,

mas, pelo contrário, tenha

sido um dia de luta, o qual deixa

prever que o dia seguinte

será angustioso, é louvável

fazer que minha Comunhão

centre-se nessa dificuldade,

dizendo: “Senhor,

em vossa agonia

no Horto,

quando suastes sangue, Vós fizestes

a seguinte oração: ‘Pai, se for possível,

afaste-se de mim esse cálice, mas

faça-se a vossa vontade e não a minha’;

Senhor, eu temo o que vai me

suceder, e estremeço de terror diante

de uma hipótese que me gela até

os ossos. Peço-Vos, através de vossa

Mãe Santíssima, que afasteis de mim

essa provação, mas, se essa não for a

vossa vontade, faça-se a vossa e não

a minha. E Vos peço que isso concorra

para o bem de minha alma.”

Podemos rezar repetidas vezes

nesse sentido, no momento em que

Quem recebe uma

manifestação

da bondade de Deus,

deve contemplá-Lo

como Ele se mostra.

Neste caso, devo

adorar especialmente

no Criador,

o amor especial que

Ele me tem

se recebe a Eucaristia: “Senhor,

Vós estais presente em minha alma,

com inteira intimidade. E não

pode haver intimidade maior que

a vossa, quando, através da Sagrada

Comunhão, Vos fazeis presente

numa alma. Neste momento de

dificuldade, Vos peço que ouçais

o brado de angústia vindo de minha

alma. Quantos Salmos inspirados

por Vós foram também brados

de angústia! Aqui está também

o meu: Tende pena de mim, e atendei-me.”

Desenvolver a ação de

graças em função das

necessidades diárias

Muitas vezes, para bem nos prepararmos

para o divino encontro

com Jesus na Eucaristia, bastará

nos lembrarmos de algo que lemos

em algum livro de piedade, que nos

marcou profundamente, ou então de

alguma graça que recebemos no decorrer

do dia.

Às vezes, algum aspecto novo de

Nossa Senhora nos impressiona.

Neste caso, nossa preparação poderá

ser: “Nossa Senhora é Mãe de

Nosso Senhor; Ele concedeu a Ela

tal privilégio que eu não conhecia.

Vou pedir a Ela que me obtenha na

Sagrada Eucaristia tal favor que necessito.”

A propósito de qualquer movimento

de piedade durante o dia, pode-se

articular a Comunhão e depois

a ação de graças. Caso tenhamos

um dia de grande alegria, e essa

alegria tenha sido um sinal manifesto

da bondade de Nossa Senhora

e de Deus Nosso Senhor para conosco,

podemos fazer a ação de graças

tomando em consideração esta graça

recebida.

Quem recebe uma manifestação

da bondade de Deus, deve contemplá-Lo

como Ele se mostra:

sorridente, afável, manifestando

afeto e desejo de proteger-me.

Neste caso, quando recebê-Lo, devo

adorar n’Ele a bondade, o amor

especial que Ele me tem, o encorajamento

que Ele quis me dar em

meu apostolado ou em minha vida

interior.

Ubi Spiritus, ibi libertas, onde está

o Espírito Santo, aí sopra a liberdade.

Enfim, há uma tal variedade de

movimentações das almas, que é impossível

descrever todos os métodos

que cabem para alguém fazer a Sagrada

Comunhão. Aqui ficam, entretanto,

algumas sugestões. v

1) I Cor 15, 41.

(Extraído de conferências de

28/3/1967 e 4/2/1984)

19


O Santo do Mês

–– * Fevereiro * ––

1. Santa Brígida da Irlanda. Abadessa

e Fundadora do Mosteiro de

Kildare. (séc. V)

2. Apresentação de Nosso Senhor

no Templo. A fim de cumprir a Lei,

Maria e José, com a oferenda de duas

rolas, foram ao Templo de Jerusalém

onde apresentaram o Menino

Jesus. Nesta ocasião, o profeta Simeão

predisse os sofrimentos futuros

(“uma espada transpassará tua

alma”) da Mãe, e que o Filho seria

“luz para iluminar as nações” (Lc 2,

2-9 ss.).

Nossa Senhora do Bom Sucesso.

3. São Brás, Bispo e Mártir. Martirizado

em Sebaste, na Armênia. (+

323)

4. Santa Joana de Valois, Rainha

da França. (séc. XVI)

5. Santo Avito, Bispo de Vienne,

na Gália (hoje França). Lutou contra

a heresia ariana. (+ 518)

Beata Isabel Canori Mora, Viúva,

sobressaiu-se na caridade,

além de ter sido favorecida com

grandes dons místicos. Terciária

trinitária, venerada em Roma.

(1774-1825)

6. São Paulo Miki, Presbítero, e

seus 25 companheiros, mártires do

Japão. Foram crucificados em Nagasaki,

em 5 de fevereiro de 1597. Do

alto da cruz, Paulo continuava a pregar,

perdoando os verdugos e convidando-os

à conversão.

7. V Domingo do Tempo Comum.

Santo Egídio de Taranto, Religioso

Franciscano italiano, canonizado

por João Paulo II em 1996. (sécs.

XVIII-XIX)

8. São Jerônimo Emiliani, Presbítero,

Fundador da Congregação dos

Clérigos Regulares (padres Somascos).

(1486-1537)

9. Santa Apolônia, Mártir de Alexandria.

(séc. III)

10. Santa Escolástica, Virgem, irmã

gêmea de São Bento, nascida em

Núrsia, Itália. De sua vida se conhecem

só alguns detalhes narrados pelo

Papa São Gregório Magno. (sécs.

V-VI)

11. Nossa Senhora de Lourdes.

12. São Bento de Aniane, Abade.

(sécs. VIII-IX)

13. Santo Estêvão, Bispo de Lyon,

Gália. (+ 515)

14. VI Domingo do Tempo Comum.

Santos Cirilo, Monge; e Metódio,

Bispo. Irmãos, nascidos em

Tessalônica, foram enviados para

a Morávia, onde pregaram aos eslavos.

João Paulo II os proclamou

Padroeiros da Europa junto a São

Bento. (séc. IX)

15. São Cláudio da Colombière,

Presbítero, Jesuíta, apóstolo

na Inglaterra e pregador no convento

de Paray-le-Monial, onde

tomou conhecimento das aparições

do Sagrado Coração de Jesus

a Santa Margarida Maria Alacoque.

Tornou- se eminente propagador

dessa devoção, difundindo-a

até na Inglaterra, onde foi capelão

da futura Rainha Maria de Modena.

(1641- 1682)

16. Santo Onésimo, antigo escravo,

evangelizado por São Paulo

enquanto este se achava prisioneiro

em Roma (cf. Carta a Filemon).

(séc. I)

17. Quarta-feira de Cinzas.

18. Beato Angélico (Giovanni di

Pietro ou da Fiesole). (sécs. XIV-

XV)

19. São Mansueto, Bispo de Milão

e Confessor. (séc. VII)

20. Beatos Francisco e Jacinta

Marto. Pastorinhos aos quais Nossa

Senhora apareceu, em Fátima, no

ano de 1917. (conferir página 2)

21. I Domingo da Quaresma.

22. Cátedra de São Pedro, Apóstolo.

23. Santa Romana de Todi. (+

324)

24. São Modesto, Bispo de Trier

(Tréveris), Alemanha. (+ 486)

25. Santa Jacinta de Marescotti,

Religiosa Clarissa. (1585-1640)

26. São Vitor, Eremita em Arcissur-Aube,

na região de Champagne,

França. (séc. VII)

27. São Gabriel da Virgem Dolorosa.

Seminarista da Ordem Passionista,

reluziu pela excelência de

suas virtudes e profunda devoção a

Nossa Senhora das Dores. (1838-

1862)

28. II Domingo da Quaresma.

Santos Romano e Lupicino, irmãos,

Abades de Condat (Borgonha).

(séc. V)

20


2 de fevereiro:

Nossa

Senhora do

Bom Sucesso

Na pequenina Quito do século XVI um

grande acontecimento se deu: Maria

Santíssima apareceu a uma religiosa

concepcionista e lhe fez revelações sobre o

futuro de seu país. Embora não tendo tomado

tais revelações como infalíveis, Dr. Plinio deu

a elas uma atenção especial.

Fotos: H. Restrepo / S. Miyazaki

Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Poucas vezes ao ano a imagem é

exposta neste altar para veneração

dos fiéis. Normalmente ela

permanece na clausura do convento.

N

o dia 2 de fevereiro, a comunidade

das Irmãs Concepcionistas

celebra em

Quito, Equador, a festa de Nossa Senhora

do Bom Sucesso. Qual é a história

desta devoção?

Madre Mariana

de Jesus Torres e o

triunfo de Maria

Madre Mariana de Jesus Torres,

religiosa concepcionista, foi ao

Equador em 1576, quando ainda

era menina, acompanhando sua tia,

Madre Mariana de Jesus Taboada, a

qual partia com a intenção de lá fundar

um convento.

Com elas viajaram várias outras

religiosas espanholas, as quais se fixaram

em Quito — cidade que naquele

tempo era ponta avançada da

penetração espanhola na América

do Sul. Pelo que se conhece de suas

vidas, essas religiosas fundadoras

morreram em odor de santidade

e eu tenho muita esperança de que

— para a maior glória do Equador e

das Américas em geral — elas sejam

canonizadas.

Na pequenina Quito daqueles

tempos, Madre Mariana de Jesus

Torres, sendo abadessa do convento,

teve extraordinárias visões e revelações

privadas de Nossa Senhora.

Embora não tomemos estas revelações

como dogma — a Revelação

oficial está encerrada com o Novo

Testamento — devemos considerálas

especialmente.

Tais revelações prenunciam um

tempo onde o Equador se torna-

21


O Santo do Mês

ria independente da Espanha e seria

sacudido por uma grande revolução

de caráter religioso-temporal;

no mundo inteiro a Fé se extinguiria

em muitas almas, e haveria inúmeras

calamidades morais. Mas após

esses acontecimentos terríveis

seria instaurado

um tempo de glória

para a

Igreja.

História da imagem

Qual é a história da imagem de

Nossa Senhora que a partir de então

passou a presidir o convento?

Numa das aparições 1 , a Santíssima

Virgem pediu a Madre Mariana

que fizesse uma imagem sua, em tamanho

real. Para isto, a vidente desejou

medi-la a fim de que se cumprisse

esse desejo.

Então, Nossa Senhora

segurou uma das pontas

do cordão franciscano

que trazia em sua cintura,

para auxiliar Madre

Mariana a tomar suas

medidas.

A confecção da imagem foi confiada

a um escultor local 2 .

Certo dia, ao subir ao coro da

igreja do Convento — lugar onde

esculpia a imagem — qual não foi

a surpresa do escultor: encontrou a

imagem pronta! Ela estava magnífica!

Nenhuma mão humana havia terminado

a imagem; durante toda a

noite a igreja havia permanecido fechada.

É uma imagem feita por mão

de anjo 3 .

O que a imagem

nos comunica

O que essa imagem nos inspira no

fundo da alma?

A mensagem que ela contém:

uma grande promessa, um grande

triunfo. Algo posto pela graça se

acrescenta aos recursos da escultura

e anuncia, no fundo de nossas almas,

as alegrias e as certezas da promessa.

O báculo e as chaves, que Nossa

Senhora traz consigo, dão a entender

que é Ela quem abre e fecha

os acontecimentos grandiosos;

mas também as misérias e catástrofes

dos homens; enfim, as vitórias

de Deus dentro da História.

Mais do que as jóias, quem A

adorna realmente é seu Divino

Filho! Ela O traz triunfalmente,

como quem diz: “Estou vencendo,

mas venço para que Ele vença. Eu

sou Rainha, sim, porém o sou porque

Ele é o Rei!”

Nela há também um aspecto sobre

o qual chamo a atenção: Ela

comunica sua virginalidade extraordinariamente.

É impossível

olhar para esta imagem sem ter

a impressão de que, em torno

dela, a pureza se irradia.

Ela está inundada por uma

felicidade de alma que é prêmio

pela virtude da pureza.

22


A pureza concede

isto à alma que a

pratica: segurança,

discernimento, dignidade,

compostura

por onde se calca

aos pés os infortúnios.

Daí provem

a louçania da

vitória e do triunfo

transmitida por essa

imagem.

A luta ainda

vai ser maior

Deste modo Ela

nos prepara para as

agruras da luta, falando-nos

da alegria

e da glória que

virão.

Antigamente,

até meados do século

passado, talvez,

não se conheciam

os anestésicos,

e as operações

se faziam a frio. O

paciente — muitas

vezes acordado —

de vez em quando,

perguntava ao médico

como ia o andamento da cirurgia.

Era compreensível que o cirurgião,

amigo do paciente — ou simplesmente

movido por sentimentos

de compaixão que aquelas dores não

podiam deixar de causar —, durante

a primeira fase da operação lhe dissesse:

“Vai indo bem, eu estou conseguindo

abrir tal zona, já estou em

tal outra, etc.; daqui a pouco vem a

extração.” Este “daqui a pouco vem

a extração” animava o paciente! Ou

seja, as fases mais delicadas do perigo

estão se aproximando e vão terminar.

Depois que a amputação foi realizada,

se a dores persistem ou au-

Dr. Plinio na década de 90.

Mais do que as jóias,

quem A adorna

realmente é seu

Divino Filho! Nossa

Senhora O traz

triunfalmente, como

quem diz: “Estou

vencendo, mas venço

para que Ele vença.

Eu sou Rainha, sim,

porém o sou porque

Ele é o Rei!”

mentam, o que faz

o médico? Ele diz:

“Olhe, o pior já foi,

daqui por diante as

dores vão declinar,

nós já estamos chegando

ao fim.” Ele

começa a apontar

para aquilo que é o

ideal do doente: o

fim da operação.

É o caminho da

normalidade: na

fase ascendente fala-se

que tudo vai

bem e incita-se a

ter coragem; quando

ela atinge um

ponto no qual é

preciso toda a resistência,

compreende-se

que se diga

“agora vai melhorar”.

Nossa Senhora

do Bom Sucesso

dá-nos a impressão

de que está

dizendo no fundo

de nossas almas:

“Meus filhos, a luta

ainda vai ser maior,

mas o meu Reino

já vai começar a luzir no horizonte!”

É a alegre e vitoriosa proclamação

do Reino de Maria! v

(Extraído de conferências de

14/8/1982 e 2/2/1983)

1) No ano de 1610.

2) A própria Virgem Maria escolheu o

escultor, dizendo: “Para esta tarefa,

deves chamar Francisco del Castillo,

o qual é um hábil escultor, e dar-lhe

as descrições de minhas medidas.”

3) De fato, Madre Mariana teve uma visão

dos anjos concluindo a imagem

enquanto o escultor se ausentava para

buscar vernizes e tintas para o acabamento.

23


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Alguns lutam por um

Outros... por uma

Passando pela Europa no ano de 1988, Dr. Plinio teve ocasião

de assistir a uma campanha feita por membros de seu Movimento no

centro de Madri. Muito propenso a analisar mentalidades,

Dr. Plinio fez elucidativos comentários dos diversos tipos humanos

presentes nas ruas dessa cidade.

Para bem analisarmos a opinião

pública, devemos nos

despir dos preconceitos espalhados

por uma espécie de mito

numérico que sempre faz consistir a

vitória na obtenção da maioria.

Distinção entre

povo e massa

Pio XII, num discurso admirável,

faz a distinção entre a massa humana

e o povo. A massa é um aglomerado

de indivíduos que simplesmente

existem juntos e formam uma espécie

de multidão, sem especiais vinculações

de uns com os outros. Pelo

contrário, o povo é um conjunto de

pessoas em que cada uma tem com

Fotos: J.S.Dias / T. Ring

24


T. Ring

ideal.

vida gostosa.

as outras determinadas relações,

certos modos de se impostar, formando

uma espécie de organismo vivo.

Para compreendermos a diferença

entre povo e massa, consideremos

o seguinte:

Nestas três salas conjugadas em

que estou falando, há aproximadamente

cem pessoas. Imaginem

meus ouvintes que não fossem membros

de nosso Movimento e estivessem

num grande ônibus, sem se conhecerem,

não tendo, portanto, entre

si relações individuais e pessoais,

mas apenas as vinculações anônimas

existentes entre os passageiros

de um veículo coletivo.

Quer dizer, eles têm o interesse

comum de que o ônibus ande, pare

nos locais solicitados para o desembarque

de alguns passageiros e

chegue até o ponto terminal. Por isso

não querem briga nem encrenca

dentro do veículo; desejam boa paz e

mais nada. Cada um gosta de ser um

anônimo para o outro.

Se alguém pergunta de repente a

um passageiro “O senhor, quem é?”,

ele fica desagradado e pensa: “Para

que deseja saber quem sou eu? Sou

um passageiro de ônibus como ele,

um anônimo. O que esse indivíduo

está querendo comigo?”

O anonimato é a regra da massa,

a qual vale pelo número de seus

componentes: cinco, dez, cem indivíduos.

Entre os que estão aqui presentes

a situação é bem diferente: não

constituem massa, e sim um organismo,

uma gota

de povo. Quer

dizer, todos se

conhecem individualmente

e, pelo convívio

cotidiano,

cada um acaba

tendo uma

espécie de situação

criada

por ele mesmo,

a qual —

por inabilidade

ou qualquer

outra razão

— pode

não ser a que

desejaria. A

vida se faz com base nessas relações

pessoais; não é um mecanismo que

se reduz a um número, mas algo vivo,

uma interseção de várias personalidades

que, dando graças a Nossa

Senhora, tenho diante de mim e

constituem um conjunto de filhos.

Vejo que são de várias partes da

Espanha e também de outras nações,

formando um conjunto vivo,

orgânico, em que cada um é, não

como uma gotinha de metal fundido,

integrando uma máquina, mas

uma célula viva dentro de um tecido.

Se olharmos pelo microscópio um

tecido celular vivo, discerniremos

grande quantidade de células; cada

uma atua como se fosse uma pequena

personalidade: tem sua dose

de vitalidade e de reatividade sobre

Praça Real - Madri.

as outras, análoga à de um indivíduo

dentro de uma família ou numa organização

como a nossa.

É da vida de cada pessoa encontrando-se

com a das outras que se

forma um tecido, daí resultando um

povo.

Considerado nosso Movimento

como um tecido, um organismo vivo,

qual a repercussão de nossa campanha

na Espanha, que é um tecido,

um organismo incomparavelmente

maior? A campanha está conseguindo

sua finalidade?

O mais baixo grau

onde o ente humano

pode chegar

A vitória sobre a opinião pública

não consiste em obter a maioria,

25


A sociedade analisada por Dr. Plinio

A vitória sobre a

opnião pública não

consiste em obter a

maioria. É preciso,

antes de tudo,

saber que espécie

de pessoas estamos

influenciando, e, que

possibilidades têm elas

de influenciar outras.

como os plebiscitos e as eleições fazem

pensar: quantos espanhóis querem

tal coisa, quantos desejam tal

outra. Trata-se de saber: que espécie

de pessoas estamos influenciando, e,

dentro do tecido vivo que é a Espanha,

que possibilidades têm elas de

influenciar outras?

O público que estava na praça

Puerta del Sol 1 se dividia em três partes

bem claras.

Havia um círculo formado em

torno da nossa fanfarra e do nosso

sistema de propaganda. Em sua

parte externa era impreciso, pois algumas

pessoas chegavam, outras saíam,

mas a parte interna do círculo

apresentava certa precisão de desenho.

Pouco adiante, existiam dois pequenos

círculos de indivíduos, sentados

em volta dos dois chafarizes,

simplesmente porque as bordaduras

dos mesmos, um tanto largas,

forneciam-lhes um assento cômodo.

Constituíam um público contrário

àquele reunido em torno dos nossos.

Alheios uns aos outros e dando

as costas para o que na aparência

os unia — os chafarizes —, eles

estavam todos adormecidos. Alguns

mastigavam alguma coisa, e o faziam

com preguiça, não olhando para nada

de fixo, não pensando em nada

de determinado, mas sentindo que

estão vivendo, e encontrando nisto

certo prazer. É o gosto de respirar,

de digerir, de mexer as pernas, de ter

um corpo, e não o de possuir uma alma.

Têm essas pessoas uma vida vegetativa

a mais parecida possível com a

do animal. Olhando certos animais,

às vezes temos impressão de que

possuem bem-estar. Quer dizer, eles

sentem deleite de estar vivendo, mas

não têm conhecimento desse deleite.

São Tomás de Aquino, com uma

linguagem muito precisa, diz que o

bicho não conhece nada. Ele tem notícia

das coisas, mas não o conhecimento,

que é uma compreensão intelectiva.

A palavra “notícia” é perfeita.

Por exemplo, um pássaro vê

diante dele uma folha que cai. Ele

tem notícia de que caiu alguma coisa,

mas nem sabe que é uma folha;

e não pensa a respeito disso, porque

não tem pensamento.

Aqueles indivíduos são entes humanos;

entretanto têm o menor grau

de pensamento possível: “Que gostoso!

Eu estou aqui sentindo viver.

Estou mastigando, piscando, olhando,

respirando, batendo as pernas,

mexendo os braços, estou vivo.”

Sob certa perspectiva — mas que

atinge uma realidade muito profun-

Em ambas páginas,

Dr. Plinio analisa a reação

da opnião pública.

26


da — é o mais baixo grau aonde

a criatura humana pode

chegar. Essa é propriamente

a descrição do dormente.

Os dormentes

Para tudo quanto é fenômeno

de pensamento, de ideal,

de ato de vontade, de definição,

de atitude, eles estão

no sono.

Sucede inúmeras vezes

com todo indivíduo que, acordando

de manhã, diz para

consigo: “Que bom sono eu

dormi essa noite!” Estando

dormindo e não tendo consciência

de nada, como sabe ele

que teve um sono bom?

Em parte é porque, quando

despertou e sentou-se

na cama, as últimas névoas

do sono estavam se retirando.

Ele não tinha acabado

de dormir inteiramente e sentiu

o gostoso do sono que ainda

existia. E, por memória, teve

a idéia de que aquele prazer,

cujo último fim estava notando,

ele havia sentido a noite

inteira.

Esses indivíduos têm o gostoso

de estarem acordados e sentados

próximo aos chafarizes. E, de

modo analógico, digo que eles estão

dormentes.

Como se chega a esse estado?

A graça atua no fundo das pessoas,

máxime das batizadas, e proporciona

movimentos de alma elevados,

nobres.

A Revolução explora

o desejo do gostoso

Mas, de outro lado, o corpo age

no sentido de a pessoa se entregar

aos meros prazeres materiais. Quando

criança, ela pensa, por exemplo:

“Como é gostoso correr de bicicleta,

tomar vento!” E, em todas as idades:

“Como é gostoso megalar 2 !” Ela

comparece no colégio com um sorvete

especial que comprou, dizendo

que um sorveteiro perto de sua casa

Nós somos os

arautos do sacrifício,

os que lutam

contra o mero gostoso,

a favor de um ideal.

Assim, estragamos

a festa daqueles

que só procuram

o gozo.

lho deu porque a achou muito

simpática; inventa uma série

de mentiras.

Tais indivíduos querem levar

uma vida gostosa e recusam

os movimentos da graça

que conduzem suas almas para

as coisas mais elevadas. E

se alguém afirma que a vida

não consiste em gozar, mas é

necessário o sacrifício, consideram-no

como louco e não

se interessam por ele.

Cada época revolucionária

que sucede outra acrescenta

um gostoso para a vida.

Por exemplo, a sensualidade.

O pecado contra a castidade,

há trinta anos atrás, tinha

a intensidade X, a frequência

X. Mas as modas tornaram-se

cada vez mais imorais,

o convívio entre as pessoas

de sexo diferente foi ficando

mais frequente, mais livre e

menos controlado. A Revolução

na mentalidade delas caminha

em direção ao cada vez

mais gostoso.

Nós nos opomos a isso, somos

os arautos do sacrifício,

os que lutam contra o mero

gostoso, a favor de um ideal;

assim, estragamos a festa daqueles

que só procuram o gozo. E não pugnamos

por um ideal qualquer, mas

por um ideal de Fé. E a Fé não se refere

a uma crença religiosa qualquer,

mas à Santa Igreja Católica Apostólica

Romana.

Isso os revolucionários rejeitam e

dormem porque já não têm remorsos.

Estão entregues completamente

às suas próprias delícias, lamentando

precisar aguentar dificuldades,

inconvenientes, etc. E por esse

processo vai ficando cada vez mais

fácil adormecer os partidários do

gostoso.

E existia uma terceira categoria:

os que vão e vêm, olham a campanha,

e os que estão sentados, mas

27


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Dr. Plinio toma apontamentos

durante a campanha.

Pouco importa que

grande número de

pessoas recuse cooperar

conosco. Não se trata

de transformar

tudo em fermento,

mas de fermentar a

massa. Assim se

reconquista o país.

não prestam atenção. Esses estão

dormindo também? O que se passa

na alma deles?

Um deles é, digamos, um advogado

que vai ao escritório de um outro

para discutir uma questão, e está

preparando seu raciocínio para derrotar

o colega. Ele passa tão preocupado,

que não presta atenção em

nossa campanha ou a observa muito

por alto.

O mesmo pode acontecer com

um médico que se dirige à casa de

um cliente, o qual ele examinou na

véspera, consultou alguns livros e

colegas, mas está na dúvida quanto

ao diagnóstico. Às vezes, a vida de

um paciente depende do diagnóstico

de seu médico: opera ou não

opera? Se for feita a cirurgia, provavelmente

ele morrerá. O que fazer?

É possível que isso também suceda

a um homem de negócios, o qual

Poder-se-ia perguntar:

como é possível

uma pessoa achar gostoso

enfrentar complicações?

A resposta é simples.

Em vários jornais do

mundo há uma secção

onde se publicam problemas

de xadrez. Viajando

de ônibus ou de

trem, às vezes há passageiros

procurando solucioná-los.

Tomam as

questões existentes somente

no tabuleiro, não

na própria vida, e gostam

de resolver problemas

difíceis porque pertencem a

uma categoria um pouco mais elevada

do que os amantes do gostoso,

sentados em torno dos chafarizes.

Eles usam a inteligência, que é

uma faculdade tão nobre, não para

conhecer a verdade, o bem, o belo,

Deus, mas porque acham gostoso

acionar o intelecto. Assim, são eles

semelhantes aos indivíduos dos chafarizes.

É comum verem-se nas ruas pessoas

correndo a pé, usando traje o

mais sumário possível, achando que

estão fazendo um bonito papel junto

aos outros.

Antes desse desastre de automóvel

que me semi-imobilizou 3 , eu andava

pouco, pois não gostava de fazê-lo.

E pensava o seguinte: “As minhas

pernas foram feitas para me

carregar e não para que eu as carregue.

Um homem que anda pelo gosto

de andar, vai carregando as perse

pergunta: “Telegrafo ou não para

os Estados Unidos ou Canadá a fim

de fechar um negócio?”

Porém, a maior parte dos passantes

está pensando nos seus próprios

interesses, muito menos cogentes.

Um caminha para o seu escritório,

mas não tem nada de muito importante

para tratar; outro é médico

que vai ver um cliente atingido por

um resfriado muito forte, ao qual ele

quer receitar um remedinho; um terceiro

é homem de negócios que, para

fechar um negociozinho em algum

lugar da Espanha, precisa dar

um telefonema. São coisas que não

preocupam.

Entretanto, são da mesma categoria

daqueles que estão em torno

dos chafarizes. Eles fazem andando

o que os outros fazem sentados. Julgam

que os trabalhos e os problemas

da vida são interessantes e a eles se

dedicam para ganhar dinheiro, pois

este proporciona facilidades

gostosas para a

vida.

Alguns acionam

o intelecto

porque acham

gostoso

28


nas pelo caminho. Eu ando apenas

se for necessário.”

Quando eu era menino me diziam:

— Para você ser um homem forte

é preciso fazer esporte.

Eu cogitava: “Não acredito nessa

balela. Sinto em mim mesmo que

serei um homem razoavelmente forte

e não vou fazer esforço físico, pois

não tenho obrigação de tornar-me

um touro. Preciso pensar, ler, lutar,

tenho um ideal para servir.”

Os que somente pensam em jogar

xadrez são esportistas da cabeça:

não procuram um livro para resolver

um alto problema, nem indagam

sobre as elevadas questões da inteligência

e da vida, porque não lhes interessa.

A seu modo, são vegetativos;

vegetam com o espírito.

Compreendo que uma pessoa jogue

xadrez para descansar o espírito.

É legítimo, como beber água.

Qual a diferença entre a mentalidade

dessas pessoas e os membros

de nosso Movimento?

A parábola do fermento

Considerem uma paróquia. Antigamente

a Espanha era uma nação

com muitas vocações sacerdotais.

Mas deve estar havendo uma infeliz

diminuição dessas vocações.

A Igreja espera e nós esperamos

que, se em cada paróquia com quatro

ou cinco mil fiéis houvesse dois

ou três padres completamente da

Santa Igreja Católica, e contrarrevolucionários,

uma cidade mudaria.

Células de uma alta vitalidade,

com uma missão divina — o sacerdócio

—, e por isso favorecidos especialmente

pelas bênçãos de Deus,

eles poderiam levar quatro ou cinco

mil pessoas. É a realidade evidente.

Nosso Senhor estigmatizou essa

adoração das maiorias numéricas

quando empregou aquela parábola

tão bonita da massa e do fermento,

dizendo aos Apóstolos: “Vós sois

A campanha realiza

o fundamental de

sua tarefa: atrai

os maravilháveis, o

que da Espanha é

espanhol. Através

desse aspecto da alma

espanhola, Dom

Pelayo começou sua

epopéia.

nhas palavras para falar-lhes?” De

fato, alguma delas pode logo depois

ser chamada por Deus, como aconteceu

com o nosso Lúcio 4 , cujo nono

mês de morte se celebra hoje. Tendo

agora um bom movimento, um ato

de amor, poderá receber os últimos

sacramentos e salvar sua alma.

Se cada um de nós durante a campanha

se lembrasse disso sumariamente...

São João Batista Vianey, Cura

d’Ars, na França, viveu no século

XIX e praticava milagres. Foi um

grande Santo.

Dom Chautard, em seu livro magnífico

“A Alma de Todo Apostola-

o fermento. A massa são os outros.

Vós deveis fermentar a massa”.

A cena que presenciei hoje na

Puerta del Sol era o fermento agindo...

Pouco importa que grande número

de pessoas recuse. Não se trata de

transformar tudo em fermento, mas

de fermentar a massa. Assim se reconquista

o país.

O participante da campanha deve

se perguntar: “Como está minha

alma quando vou para a rua? Qual

é o meu grau de fervor e de amor à

nossa Causa? Enquanto estou abordando

as pessoas, etc., lembro-me

de que a Providência está seguindo a

cada um de nós e se servindo de mido”,

o qual lhes recomendo muito,

conta este fato:

Um advogado de Paris viajou até

Ars para conhecer o Santo. Tendo regressado,

um amigo perguntou-lhe:

— O que você foi ver em Ars?

— Fui ver Deus num homem.

Devemos ser mais modestos. Não

suponhamos que se vai ver Deus em

nós; nossa dimensão não é essa, pelo

menos por enquanto. Mas se pode

ver em nós nosso Anjo da Guarda,

no qual se pode ver a Deus.

Em termos mais concretos: pode-se

perceber algum reluzimento

da graça também em nós. E esse é o

ponto essencial da campanha.

Atrair os maravilháveis

Aquelas pessoas que estavam em

torno dos nossos, após lhes ser explicada

a campanha, entendiam melhor

e ficavam maravilhadas.

A campanha realiza o fundamental

de sua tarefa: atrai os maravilháveis,

o que da Espanha é espanhol.

Através desse aspecto da alma espanhola,

Dom Pelayo 5 começou sua

epopéia.

v

(Extraído de conferência de

27/10/1988)

1) Situada no centro de Madri.

2) Palavra criada por Dr. Plinio para indicar

a mania de imaginar-se possuidor

de qualidades que não tem, ou

exagerar as que possui.

3) Em 3 de fevereiro de 1975, Dr. Plinio

sofreu grave acidente automobilístico,

na estrada Jundiaí-Amparo, Estado

de São Paulo

4) Lúcio Chao. Membro do Movimento

fundado por Dr. Plinio, o qual morreu

em Madri, vítima de atropelamento.

5) Dom Pelayo (+ 737), chefe dos visigodos

e Rei das Astúrias; em 718 obteve

a vitória de Covadonga, considerada

como o início da Reconquista

espanhola.

29


Apóstolo do pulchrum

Lição das flores

A rosa, a orquídea, a tulipa, três belas flores criadas por

Deus. Que ensinamentos elas nos dão? Acompanhemos

Dr. Plinio na consideração destas maravilhas.

Há três flores que especialmente

me agradam: a tulipa,

a rosa e a orquídea.

A rosa

Fotos: G. Kralj / Arquivo revista

Para meu gosto pessoal, a rosa

ocupa o primeiro lugar entre as flores.

Ela é inteiramente bonita, perfeita

e acabada, é uma glória, uma

beleza, uma maravilha.

A rosa é eminentemente ordenada.

Nela, todas as pétalas estão postas

em ordem e todas as suas formas

de beleza obedecem a um raciocínio.

Eu estaria longe de afirmar que a rosa

é planejada, mas dir-se-ia que, como

que, um poeta a planejou. Sim,

Deus Nosso Senhor a planejou, a

destinou.

Ela tem o perfume próprio à sua

forma de beleza. A rosa tem a beleza

da ordem prevista, racional e explícita,

ela é uma soberba explicitação do

conceito da beleza.

Dr. Plinio no início dos

anos 90. Ao fundo e em

destaque, diversas rosas.

30


31


Apóstolo do pulchrum

A orquídea

Depois da rosa, na escala das flores,

está uma que é abundante no

Brasil e na Colômbia: a orquídea.

Se a rosa traz consigo o esplendor

da ordem, a orquídea é bem o

contrário! Ela é singular, prega surpresas.

Suas pétalas se “movem”

semelhantemente a um ballet. Parece

dançar um ballet vegetal para direções

que ninguém imagina.

Sua parte central possui uma beleza

magnífica, mas imprevista. Algumas

destas flores têm, por exemplo,

uma coloração branco-avermelhada

na orla de suas pétalas que vai

se intensificando e assumindo uma

profunda cor vermelha à medida em

que se aproxima da parte central, de

modo que quanto mais se aproxima

do interior da flor, mais misteriosa fica.

Tem-se a impressão de que há um

vermelhíssimo sublime que não se

mostra, por uma espécie de recato.

Assim, as orquídeas possuem

uma beleza fantasiosa, inesperada,

de uma alta distinção, mas de uma

distinção que parece dizer a quem a

vê: “Confessa que tu não me imaginavas

e que eu sou superior a tudo

quanto pensavas.”

Há um “não me toque” na orquídea,

que faz parte de outra família

de beleza. Não é a beleza da desordem

— porque a desordem não

tem nenhuma forma de beleza —,

mas é uma forma superior da ordem,

que o raciocínio não constrói

e que só a fantasia sabe compor.

Dir-se-ia que a orquídea é semelhante

ao espírito de duas nações latino-americanas

psicologicamente

muito parecidas: Brasil e Colômbia.

O capricho, o inesperado, o entusiasmo;

às vezes, o ressentimento,

a vingança; conforme a ocasião,

a violência, mas sempre seguida

de uma reconciliação afetuosa; todo

este “vai-e-vem temperamental”

muito comum no brasileiro e no colombiano,

estão marcados de alguma

maneira na orquídea.

A orquídea é singular,

prega surpresas. Suas

pétalas se “movem”

semelhantemente a

um ballet : Ela parece

dançar um ballet vegetal

para direções que

ninguém imagina.

Ao fundo, orquídeas de

diversas tonalidades

32


33


Apóstolo do pulchrum

A tulipa

A tulipa, por sua vez, é uma flor

tão bonita que, quando a vemos,

nos perguntamos se algo pode

ser mais belo do que ela. É

grande sua variedade de cores,

mas entre as mais belas

está a bordeaux. Ao contrário

das cores da orquídea,

a tulipa tem uma coloração

leal, estável, definida.

Enquanto a orquídea

é, como que, uma parasita,

o todo da tulipa fala de autossuficiência,

de independência. Ela

se levanta altaneira, e carrega, bem

na ponta, uma espécie de equilíbrio.

É um equilíbrio um pouco altivo,

as próprias folhas cercam a haste e

se desprendem para deixar passar a

haste, a qual vence todos os obstáculos,

se afirma quase como uma lança.

Alguém poderia perguntar: em

síntese, qual é então a beleza da tulipa?

Eu diria que é beleza da harmonia.

Há uma proporção entre a al-

34


Ao analisar um jarro de

tulipas e ver uma de cor

negra entre outras de

diversas cores, vi como

a escura realçava todas

as outras tonalidades,

e compreendi porque

Deus a havia criado.

tura, o diâmetro, o tamanho de cada

pétala, que faz dela uma obra-prima

de coerência. E quando se admira

isto, sente-se alegria de ser um ente

racional, sente-se a beleza da razão.

É uma ordem de belezas no estilo

da maravilhosa Europa: equilibrada,

racional!

Certa vez, ao saber que existiam

tulipas negras, tive certa perplexidade

e me perguntei: “Para que servirá

uma flor preta? Será para cruzes de

Missas de defunto? Eu não compreendo.

Mas haverá uma razão qualquer

para que Deus tenha criado a

tulipa negra.”

Qual não foi minha surpresa

quando, passando de automóvel

por uma rua de Paris,

vi um jarro com tulipas de

várias cores, entre as quais

havia também uma negra,

posto junto à vitrine de

uma loja.

O automóvel passou rápido

— com a rapidez dos

velhos táxis da França —,

e eu arregalei os olhos

com aquilo, mas, sobretudo,

regalei minha inteligência,

compreendendo a razão de ser

daquela maravilha de Deus.

Ao analisar o jarro e ver como a

tulipa negra realçava a beleza de todas

as outras cores, eu compreendi

por que Deus criou as tulipas pretas.

Era tal o contraste produzido por ela

junto às demais cores, que se alguém

quisesse tirá-la de lá eu diria: não tire,

porque é uma das notas mais bonitas

do jarro.

Era uma forma de fantasia racional,

à maneira francesa. Era um teorema

a respeito de cores.

Escala de valores

A análise destas flores nos dá uma

interessante lição:

Para muitos homens, só tem verdadeiro

valor aquilo que for de primeira

ordem; o que for de segunda

não serve para nada, é lixo. Isto não

é verdade, há uma gradação entre as

coisas, a qual nos incita a amar a beleza

própria a cada grau.

Bela como a rosa, para meu gosto,

a tulipa não é. Entretanto, ela não é

de “segunda classe”, no sentido pejorativo

da expressão.

A escala hierárquica não impõe

um achatamento do inferior,

mas sim um

“resplandecimento”

do superior.

Até entre as flores

há uma hierarquia

de valores. Aplicando o

princípio de hierarquia à

análise feita, podemos dizer

que a rosa e a tulipa são

as flores do anti-igualitarismo.

Uma é bela no grau supremo; a

outra, não sendo a primeira, dá a

Deus glória, mostrando a beleza

que há também nos graus intermediários.

v

(Extraído de conferência de

6/3/1971)

35


Minha

mãe, dizei

por mim!

F. Boulay

Minha Mãe, quando Jesus

estava em vosso

claustro, Vós encontrastes

inúmeras coisas para Lhe

dizer; vede, entretanto, que misérias

eu digo no momento

que O recebo na Sagrada

Eucaristia!

Por isso, eu Vos peço:

Falai por mim, minha

Mãe, e dizei a

Ele tudo quanto eu

quereria ser capaz de

dizer, mas não o sou.

Adorai-O como eu quereria

adorá-Lo; dai-Lhe a ação de graças

que eu quereria dar-Lhe; apresentai-Lhe

atos de reparação pelos

meus pecados e pelos do mundo

inteiro com um calor de reparação

que, infelizmente, eu não tenho.

Minha Mãe, pedi por mim e por

todos os homens tudo quanto for

necessário para que realizemos a

vossa glória; porque, minha Mãe,

o que eu peço mais do que tudo é a

vossa glória, o vosso Reino.

Amém.

Nossa

Senhora do

Santíssimo

Sacramento.

(Extraído de conferência

de 24/3/1984)

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