Revista ComTempo, edição nº 2 - de novembro de 2018 a janeiro de 2019

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Sua revista digital com jeitinho de impressa.

OPINIÃO

EDIÇÃO Nº 1 - Comtempo

Equipe de idealização e redação

Gabriela Brack, José Piutti, Kimberly Souza e Marcos Pitta

Equipe de criação

Marília Toffoli e Henrique Escher

Diagramação

Marcos Pitta

Quantas colheres de

chá? Ou de sopa...

Edição e monitoramento de rede social

José Piutti

Colaboradores de reportagens

Sérgio Júnior, Bárbara Mariano, Mayra Carvalho da Silva, Bruna

Fachina Cardoso e Gabriel Juliano Fiorezzi

Colaboradores de artigos

Arthur Fachini e Vitor Rodrigues

Produção da capa

José Piutti, Marília Toffolli e Henrique Escher

Foto da capa

Alexandre Brum

Modelo da foto de capa

Carla Ruela

Brasil. País grande, rico, multicolor,

com paisagens de tirar o fôlego,

carregado de lutas, derrotas e conquistas

e, agora, de novo, derrota.

O país vivenciou, em 28 de outubro, o resultado

do segundo turno das eleições presidenciais,

onde alguns estados também

escolheram seus governadores.

O resultado foi amargo, mas inquestionável

do ponto de vista democrático,

afi nal, pouco mais de 55% da população

elegeu Jair Bolsonaro, do PSL. Durante o

período de campanha, foi notório os ataques

de um candidato contra o outro. As

pessoas também foram expostas a propostas

e posições, tanto de Bolsonaro, quanto

de Fernando Haddad, derrotado após receber

pouco mais de 44% dos votos válidos.

O principal argumento dos que votaram

favorável ao presidente eleito era de

que não podíamos mais ter no poder, o Partido

dos Trabalhadores, à frente do Brasil

desde 2002 com a eleição de Luís Inácio

Lula da Silva, agora preso por corrupção

passiva e lavagem de dinheiro. Depois de

Lula, eleito duas vezes, foi a vez de Dilma

Roussef, também do PT, governar o país

até sofrer Impeachment, em 2017.

Mas, afi nal, continuar com o PT seria

tão ruim assim? O país continuaria ladeira

abaixo ou entraria nos eixos? E com a eleição

de Bolsonaro, com todas as ideologias

já expostas pelo presidente eleito, como fi -

cará o Brasil? Retrocesso é a palavra de

ordem, velada por ele, mas é a palavra de

ordem. Retroceder é bom?

Importante dizer que o discurso de

Bolsonaro foi bem pensado. Falar de segurança

pública, num país que em 2017 regis-

trou 63.800 mortes violentas intencionais

(Dados do Atlas da Violência 2018) é comovente,

principalmente quando se diz que

quer acabar com a criminalidade. Outro assunto

bem defendido pelo presidente eleito,

foi a questão do estatuto do armamento,

tema que leva muitos a pensar que poderão

andar armados pelas ruas. Ledo engano.

O grande problema foi a não apresentação

de possibilidades que o presidente

eleito apresentou. Como acabar com a

criminalidade? Dando autonomia para o

policial atirar para matar? Só isso resolverá

todos os problemas de criminalidade do

país? Poderíamos até pensar que o raciocínio

dele, e de seus apoiadores fosse o correto

se isso realmente fosse funcionar, mas

não.

Bolsonaro pouco falou de Educação.

Quando falou, frisou a possibilidade de incluir

nas disciplinas escolares matérias que

só foram vistas no currículo, em épocas ditadoras.

E por falar neste termo, será que

seus apoiadores sabem o real signifi cado

de uma ditadura? Pelo resultado das eleições,

parece que não.

Será que mesmo depois deste resultado,

com tudo que o país está prestes a

viver, os brasileiros merecem uma colher de

chá? Afi nal, será que o Brasil merece mais

uma colher de chá? Mais quantas? Por falar

em colher de chá, vamos torcer para que

nosso próximo editorial, da nossa próxima

edição, a ser veiculada em janeiro, mês

em que o presidente eleito assume o cargo,

não seja repleta de versos explicando

quantas colheres de chá, ou de sopa, serão

necessárias para complementar a receita

do famoso bolo de cenoura.


OPINIÃO

O

último dia 3

de novembro

marcou

os 86 anos desde

a conquista do

voto feminino no

Brasil. Conhecido

como o Dia da Instituição

do Direito

de Voto da Mulher,

a data é de extrema

importância na

história do movimento feminista no Brasil. A

conquista envolveu um grande trabalho de

negociação e luta de sufragistas como Bertha

Lutz, que ficou conhecida como a maior

der na luta pelos direitos políticos das mulheres

no Brasil (SENADO NOTÍCIAS, 2015).

Segundo a socióloga Jacqueline Pitanguy,

em artigo publicado no relatório “O Progresso

das Mulheres no Brasil 2003-2010”, da Cepia

e ONU Mulheres, “o direito ao voto feminino

constituiu uma das principais lutas pelos direitos

humanos das mulheres nas primeiras

décadas do século XX. Esta luta adquiriu

contornos diversos nos diferentes contextos

em que se desenvolveu”. O tempo passou,

direitos e espaços foram conquistados, no

entanto, as mulheres ainda enfrentam desigualdades

e barreiras sociais.

No Brasil, segundo reportagem do jornal

Folha de São Paulo (2018), as mulheres

alcançaram nesta eleição o maior percentual

de candidatas eleitas para a Câmara dos

Deputados, aumentando de 10% para 15%

sua participação – 77 das 513 cadeiras. O

aumento é historicamente significativo, no

entanto ainda está muito longe da representação

real das mulheres em relação ao número

populacional e de eleitorado. Segundo

dados do Tribunal Superior Eleitoral (2018),

as mulheres representam 52% do eleitorado.

Perante o mundo, segundo o ranking do Inter-Parliamentary

Union (2018), o Brasil se

encontra em 157º lugar em participação feminina

no Congresso. A posição deve melhorar

um pouco diante do resultado das eleições

deste ano. Também é importante destacar

que a participação entre as próprias mulheres

O COMPROMISSO

COM A LUTA

DAS MULHERES

ARTHUR FACHINI

não é equitativa. Se analisarmos sob a ótica

interseccional, levando em conta a pluralidade

de identidades e realidades das mulheres,

poderemos perceber que as mulheres negras,

indígenas, lésbicas, trans, deficientes,

dentre outras, estão sub-representadas. Isso

afeta diretamente na representatividade das

pautas dessas mulheres.

A questão da representação das mulheres

é tão importante que esta faz parte de

diversos esforços globais promovidos pela

Organização das Nações Unidas (ONU). Em

setembro de 2015, os 193 Estados-membros

da ONU se uniram e firmaram um compromisso

global para o futuro. Neste compromisso, a

comunidade internacional, incluindo o Brasil,

concordou em juntar esforços para cumprir a

ambiciosa agenda dos Objetivos de Desenvolvimento

Sustentável, que consiste em 17

objetivos e 169 metas, que devem ser alcançadas

por toda a comunidade internacional

até 2030. O Objetivo 5 da agenda estabelece

que o mundo deve alcançar a igualdade

de gênero e empoderar todas as mulheres e

meninas. Questões como discriminação, violência,

casamentos prematuros, mutilações

genitais, igualdade salarial, proteção social,

liderança, participação política, saúde sexual

e direitos reprodutivos, fazem parte das metas

acordadas pela comunidade internacional

(NAÇÕES UNIDAS NO BRASIL, 2018). Outra

grande iniciativa global para a igualdade é

a “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo

decisivo pela igualdade de gênero”. A iniciativa

foi lançada pela ONU Mulheres em apoio à

Agenda 2030, com compromissos concretos

assumidos por mais de 90 países. O Brasil

foi um dos primeiros a

aderir à iniciativa através

da sanção da tipificação

do crime de

feminicídio (ONU MU-

LHERES, 2018). Outro

importante movimento

para a questão da

igualdade de gênero é

o movimento global de

solidariedade “ElesPorElas

– HeForShe” da

ONU Mulheres. Lançado em 2014 com poderoso

discurso da atriz Emma Watson, um

convite formal foi feito a homens e meninos a

se juntarem ao movimento, defendendo a importância

da união para a construção de um

mundo igualitário. O HeForShe busca conscientizar

sobre os impactos do machismo, da

violência e da desigualdade, que impedem

que mulheres e homens, meninas e meninos,

atinjam o seu pleno potencial (ONU MULHE-

RES, 2014). Diversos eventos, parcerias, esforços

e mobilizações surgiram em todo mundo

incentivados por estas iniciativas.

Para que seja possível alcançar estes objetivos

e metas, e honrar os compromissos internacionais

feitos pelo Brasil, é necessário que haja

o engajamento de todas e todos, em todas as áreas.

É preciso cobrar as lideranças para que cumpram

com o seu dever de implementar as políticas

necessárias. É preciso nos educar e nos engajar

em iniciativas de conscientização, que defendam

o respeito, o reconhecimento da pluralidade e a

importância da igualdade de direitos e oportunidades.

É preciso apoiar as mulheres em suas lutas e

pautas. É preciso escutá-las! A acadêmica e professora

estadunidense Bell Hooks (2015) explica

que “simplificando, o feminismo é um movimento

para acabar com o sexismo, a exploração sexista

e a opressão”. Este movimento, que defende a

igualdade e o fim da opressão, beneficia a todos.

Por isso, não é preciso ter medo do feminismo.

Precisamos nos solidarizar! Segundo Bell Hooks,

“feminismo é para todo mundo”.

Colaboração de Arthur Fachini, formado em

Relações Internacionais pela Universidade

de Ribeirão Preto (Unaerp).


OPINIÃO

Como começar a ganhar

dinheiro de dentro de casa?

VITOR RODRIGUES

Você tem um notebook e uma boa conexão

com a internet? Então saiba que

você está elegível para ganhar a vida de

um jeito que seus pais e avós nunca sonharam

em fazer: de dentro de casa e sem ter que

encarar um escritório lotado das 9h às 17h.

Inclusive, nos próximos artigos posso

contar um pouco mais sobre como surgiram os

famosos “nômades digitais”, empreendedores e

freelancers autônomos que colocam o notebook

na mochila e rodam por aí trabalhando em cafés,

lojas de conveniência, apartamentos do Airbnb etc.

Mas antes que eu comece a divagar, vamos

logo ao que interessa: quais são os primeiros

passos para quem quer criar uma carreira (ou

mesmo fazer uma renda extra) trabalhando em

casa?

1 - Aprenda a monetizar seus hobbies

Eu sempre gostei de escrever. Sendo assim,

é natural que hoje em dia a maior parte da

minha fonte de renda seja proveniente dos artigos

e posts que crio para os meus clientes.

Minha pergunta para você é: o que você

gosta de fazer? Como você poderia monetizar

isso?

Alguém apaixonado por fotografia, por

exemplo, poderia vender freelas pela internet, ou

fazer dinheiro editando vídeos e fotos, ou ainda

criar um curso online de fotografia para iniciantes

e vender pela Hotmart.

Alguém apaixonado por educação física

poderia criar um blog sobre hipertrofia e monetizá

-lo através de anúncios. Ou escrever um livro com

os “10 Segredos do ganho de massa muscular” e

vender na Amazon.

Alguém que gosta muito de ler poderia

criar um canal no Youtube para postar as resenhas

de seus livros preferidos. Além de possíveis parcerias

com livrarias e editoras, ainda existe a possibilidade

de vender cursos de terceiros sobre leitura

dinâmica, por exemplo, através de plataformas

como a Hotmart.

deu para notar que as possibilidades

são diversas, não é?!

2 - Quantas fontes de renda você tem

hoje?

Na maioria das vezes, a pergunta acima

soa quase retórica. A cada 100 pessoas, pelo menos

90 responderão: “Ué, uma só, seu retardado!”.

Mas acalme o seu coração e vamos conversar

um pouco mais sobre como criar múltiplas

fontes de renda na internet (este é certamente um

dos assuntos que mais podem aumentar a sua

qualidade de vida nos próximos anos).

Se hoje você faz como a maior parte das

pessoas, a sua renda pode ser resumida em uma

palavra: emprego. O problema é que, se você parar

de trabalhar, o dinheiro para de entrar.

Vamos a um exemplo?

Pense em um professor de matemática e

como ele pode monetizar seus trabalhos em 2018.

Duas formas bastante simples:

1 - Ganhando R$50 por aula de 1 hora em

um cursinho da cidade.

2 - Montando um curso online de “Matemática

para concursos públicos” que custa R$100.

As aulas são gravadas apenas uma vez e podem

ser vendidas para milhares de pessoas na internet.

Se esse professor consegue, em um dia,

dar 6 aulas e faturar R$300, o mesmo pode ser feito

em 1 hora, enquanto vende 3 unidades do seu

curso.

Que tal as coisas dessa perspectiva? O

mais legal de tudo é que a mesma lógica vale para

qualquer outro profissional.

Também vale dizer que os cursos e

e-books são apenas uma opção para renda extra

“automática”... Já conheci gente que tem mais de

80 fontes de renda na internet (um dia eu chego lá

hehe)!

Outras formas de criar renda extra automática:

●Escrever um livro e vender em plataformas como

Amazon e Hotmart

●Gravar uma palestra e disponibilizar online

●Fazer investimentos

●Criar e vender um software

●Criar e vender um aplicativo

●Montar uma loja virtual em sistema drop shipping

●Trabalhar com marketing de afiliados em plataformas

como a Hotmart

À medida que outras fontes de renda são

estabelecidas, você dependerá cada vez menos

do emprego atual. Eu garanto a você que nossa

qualidade de vida aumenta muito quando nos preocupamos

menos se a demissão virá ou não no

mês que vem. Faça o teste!

3 - Siga outras pessoas que já estão

onde você quer chegar

Você quer rodar o mundo trabalhando só

como freelancer? Montar uma loja virtual e ganhar

muito dinheiro? Ou talvez você queira apenas

manter o emprego atual e fazer uma renda extra

com freelas aos finais de semana?

Então acesse agora o seu Instagram e

pesquise por pessoas que já vivem assim.

Além de seguir e trocar ideias com essa

galera, esses perfis certamente servirão de combustível

naqueles dias ruins onde você se pergunta

se está mesmo indo pelo caminho certo.

4 - Nunca pare de aprender

Minha dica final é: nunca pare de aprender.

Esteja sempre envolvido com cursos e workshops,

vá a eventos e inscreva-se em todos os canais que

julgar interessante no Youtube.

É assim que a gente nunca fica desatualizado.

É assim que a gente pode gerar cada vez

mais valor aos nossos clientes.

É assim que a gente finalmente se livra das

antigas verdades do mercado profissional e começa

a levar a vida, cada vez mais, do nosso jeito.

Colaboração de Vitor Rodrigues, jornalista por

formação, freela por necessidade, vendedor por

decisão e escreve sobre tudo isso no blog oredatorfreelancer.com.br.


SOCIAL

MÃES E FILHOS

DO CÁRCERE

BÁRBARA MARIANO

O

sistema carcerário do Brasil

enfrenta problemas graves.

Segundo levantamento do Infopen

– Levantamento Nacional

de Informações Penitenciárias

– divulgado em 2016, existem no

Brasil, 726.712 pessoas privadas de liberdade.

Dividindo por sexo, 665.482 são homens

e 42.355 mil, mulheres. No entanto,

o aumento no número de mulheres presas

aumentou num período de 10 anos. Em

2000, o Brasil tinha 5.601 mulheres na cadeia,

aumento de 656%.

Com este salto, outro assunto entra

em questão, as situações das mulheres

nas penitenciárias brasileiras é frágil,

principalmente quando elas são grávidas e

lactantes. Ainda de acordo com o Infopen,

durante levantamento realizado em 1.418

unidades prisionais, o número de mulheres

encarceradas no Brasil é superior a

capacidade de vagas (27.029), deixando o

sistema carcerário feminino com déficit de

15.326 vagas. A taxa de ocupação, segundo

o levantamento do Ministério da Segurança

Pública, é de 156,7%. Considerando

os dados populacionais, tem-se taxa de

40,6 mulheres presas no Brasil, para cada

grupo de 100 mil.

Em comparação com outros países

do mundo, o Brasil é o quarto país

que mais prende mulheres. Os Estados

Unidos lidera com 221.870 mulheres presas,

seguido da China (107.131) e Rússia

(48.478).


Quem são

essas mulheres?

Traçando o perfil das mulheres presas, ainda de acordo com estatísticas

do Infopen, quando delimitadas por faixa etária, as que têm entre

18 e 25 anos representam 27%, seguido das mulheres que possuem entre

25 e 29 anos, com 23%, ou seja, 50% da população carcerária feminina, é

formada por mulheres jovens.

Na classificação raça, cor ou etnia, o estudo aponta que 62% das

mulheres presas são negras; 37% brancas. Em números absolutos, as

estatísticas mostram que no sistema prisional brasileiro, existem 25.581

mulheres negras presas, e 15.051 brancas. Num aprofundamento ainda

maior, pode-se afirmar, através do estudo, que para cada 100 mil mulheres

negras, 62 estão presas. Já entre mulheres brancas, para cada 100 mil, 40

estão aprisionadas.

Por escolaridade, 66% da população prisional feminina não tem

ensino médio, tendo concluído, no máximo, o ensino fundamental. Cerca

de 15% chegaram a concluir o ensino médio. Por estado civil, sabe-se que

62% são solteiras, 23% mantem união estável e outras 9% são casadas.

GRUPO DE RISCO

Dentro desta gigante população carcerária

feminina, existe um grupo que sofre

duplamente ao cumprir sua sentença. Grávidas

e lactantes. Está em vigor a Lei

13.257/2016, que alterou o Art. 18 do Código

de Processo Penal, o juiz pode substituir

a prisão preventiva, pela domiciliar, quando

a mulher for gestante ou com filho de até 12

anos. No entanto, esta lei não é respeitada

pelo Legislativo. Segundo o Cadastro Nacional

de Presas Grávidas e Lactantes, criado

em outubro de 2017 pela ministra Carmen

Lúcia, são 283 presas grávidas e 178

lactantes em julho de 2018. O ECA (Estatuto

da Criança e do Adolescente) no seu artigo

7º prevê o direito a proteção à vida e à

saúde do recém-nascido. Contudo, isso não

vem sendo aplicado aos filhos das detentas.

A advogada criminalista Regina Guedes,

em entrevista a Comtempo, afirma que

quando uma população carcerária, “de mais

de 40 mil mulheres, onde as que não estão

grávidas ou amamentando são mães de menores

de 12 anos, e o Legislativo simplesmente

não cumpre a lei, há uma falha do Estado

em relação a essas crianças, privadas

do convívio com suas mães”.

Guedes diz ainda que em relação às

gestantes encarceradas, “constata-se série

de falhas na estrutura das unidades prisionais,

não idealizadas para a mulher, muito

menos para as gestantes”.

Por experiência, a repórter da Comtempo,

que redige esta matéria diz que “as

acomodações da cadeia não são pensadas

para os sexos, mas para os humanos, de

modo que é mais uma forma de penalizar

quem já está cumprindo sua pena. Ninguém

sequer imagina, mas as grávidas detentas,

devido à lotação da cadeia, muitas vezes

dormem no chão, ou precisam subir em beliches

de alvenaria”.

De acordo com as estatísticas do Infopen,

apenas 55 unidades em todo o país

declararam apresentar cela ou dormitório

para gestantes, ou seja, somente 16% dos

presídios mistos ou femininos estão preparados

para atender adequadamente mulheres

grávidas.

A LEP – Lei da Execução Penalacresceu,

em 2009, o artigo 89, dizendo que

as penitenciárias femininas devem ser dotadas

de creches para assistir os maiores de

seis meses e menores de sete anos, com finalidade

de amparar a criança, enquanto a

responsável estiver presa. Isso não ocorre

em praticamente nenhum Estado da Federação.

O CNJ – Conselho Nacional de Justiça-

realizou, entre janeiro e abril de 2018,

visitas em 33 unidades penais que custodiam

presas grávidas e lactantes. A realidade

encontrada reforçou a necessidade de

padronização no atendimento às detentas.

Durante as visitas, apenas quatro penitenciárias

foram destacadas como exemplo de

atendimento à mulher. São elas: Unidade

Materno Infantil (RJ), Penitenciária Feminina

de Cariacica (ES), Presídio Feminino de

Santa Luzia (AL) e Colônia Penal Feminina

do Recife (PE).

Segundo a juíza auxiliar da presidência

do CNJ, Andremara dos Santos,

onde há envolvimento dos juízes com a

gestão, as penitenciárias tendem a ser bem

geridas, provando que mudar a situação

dessas mulheres e das crianças não será

de forma alguma, uma iniciativa solitária,

mas uma comunhão de ideias e atitudes de

várias camadas da sociedade, afinal a violência

ocorre quando somos desassistidos

em todos os âmbitos que um ser humano

pode ter”.

Outros problemas encontrados durante

as visitas do CNJ às penitenciárias,

estão nas consultas do pré-natal, e a deficiência

no atendimento médico aos bebês.

Em uma unidade de São Paulo, por exemplo,

bem equipada e assistida, onde há até

uma brinquedoteca, vivem 14 bebês sem

registro de nascimento. No Distrito Federal

havia cinco bebês sem registro e sem vacinação

(BCG).


POPULAÇÃO

CARCERÁRIA INVISÍVEL

A escolha sobre a permanência do

bebê, durante os primeiros seis meses de vida,

no ambiente carcerário é da mãe. Elas podem

decidir permanecer com os filhos durante o período

de amamentação, ou se entregam de vez

à família, evitando assim que o bebê vivencie a

precariedade do cárcere.

Na maioria dos casos, a escolha das

mães é ficar com os filhos e como na maioria

dos Estados não há uma UMI – Unidade Materno

Infantil - adequada, cria-se, assim, a população

carcerária invisível, onde crianças são

submetidas a todos os intemperes que podem

surgir dentro de uma carceragem.

“Mesmo sabendo que meu filho estaria

seguro, não suportei quando vi minha mãe o

levando, meus seios transbordavam e eu ardia

em febre. Foi o momento onde percebi que

não poderia ser mãe do meu filho”, diz o relato

de Renata Silva, ex-presidiária, que em 2006

teve seu filho enquanto cumpria pena no Talavera

Bruce, no Rio de Janeiro.

(Reprodução/Crivelaro/ Getty Images)

“Não suportei quando vi minha mãe o

levando, meus seios

transbordavam e eu ardia em febre”.

O relato de Silva mostra os danos causados

à família e provam que são muito maiores

do que se pode imaginar. “São vínculos que

não se refazem, sentimentos que dificilmente

se recuperam, e a questão maior que precisase

discutir não é a vitimização dessas mulheres,

mas sim os direitos que são violados ao

extremo, causando danos não somente a elas,

mas a todos que as cercam”. Afinal a finalidade

do encarceramento é de ressocializar o apenado

durante o cumprimento da pena a fim de

reintegrar essa pessoa a sociedade e, principalmente,

que ela não cometa mais crimes, entretanto,

o nota-se um sistema que parece ser um

agravante na sentença de quem está detido.

Enquanto isso, 45% da população carcerária

feminina aguarda julgamento. Desde 8 de março

de 2016, a lei 13.257 assegura direito de

cumprir prisão domiciliar, mulheres grávidas ou

mães de menores de 12 anos.

O Infopen mostra ainda que 75% das

mulheres privadas de liberdade têm filhos.

Exemplo

O acompanhamento das mulheres

grávidas ao médico também não é

respeitado. Em fevereiro de 2018, em

São Paulo, a jovem Jéssica Monteiro, 24,

foi presa ao lado do marido Oziel Gomes,

48, portando 90 gramas de maconha.

Mesmo estando em trabalho de parto, no

momento em que era conduzida para a

audiência de custódia, foi encaminhada

sob escolta ao hospital, onde deu à luz

a um menino e mesmo acompanhada de

seu advogado, que comunicou o ocorrido

ao juiz, com testemunho do policial que

os acompanhavam, teve seu pedido de

prisão mantido, apesar da jovem ser ré

primária.

Jéssica, dois dias após o parto,

voltou à carceragem com o filho nos braços.

Para ajudar a jovem, os policiais da

delegacia revezavam-se, providenciando

água morna para a higiene de ambos, enquanto

a transferência para uma unidade

adequada era providenciada, já que ela

estava em unidade masculina, em cela

improvisada de 2x2m, suja e com colchões

de espuma improvisados, forrados

com cobertores.

Casos como o de Jéssica, provam

que apesar da declaração da ministra do

STF - Superior Tribunal Federal - Carmen

Lúcia, onde disse: “Terminarei meu mandato

sem que nenhum brasileirinho nasça

atrás das grades” ainda tem-se que evoluir

nesta questão, ao contrário, segundo

a fala da ministra “estamos descumprindo

a Lei do Ventre Livre”. É necessário pensar

nessas crianças encarceradas como

inocentes que estão sendo penalizados

sem nem mesmo saber o que significa infringir

a lei.


QUANTO CUSTA

SUA MEMÓRIA?

Quando procurada no dicionário, a palavra

preservação tem, dentre outros, como resultado:

“Estado do que não se altera por infl u-

ência do tempo, das intempéries”. Já a palavra

memória, expõe, como primeira resposta:

“Faculdade de reter ideias, sensações, impressões,

adquiridas anteriormente”.

Com base nessas duas palavras, tão pouco

usadas e por que não, valorizadas pelas pessoas,

a ComTempo traz reportagem sobre

a preservação da memória, pegando como

gancho a destruição do Museu Nacional no

Rio de Janeiro, no primeiro domingo de setembro.

Afi nal, qual o valor de uma memória? Qual o

real custo da preservação? Por que os brasileiros

têm uma cultura que direciona sua preocupação

para diversas coisas, e coloca em

segundo, ou último plano, a cultura, a preservação

da memória, e sua própria história?

Por que as pessoas só dão valor depois que

perdem? Por que pouco ouvia-se falar do

acervo riquíssimo exposto no Museu Nacional?

Por que liberaram verba para a reconstrução

do museu, se poderiam ter liberado

para sua preservação?

O brasileiro que não preserva

Aprender com os erros do passado para não

cometê-los no presente ou futuro. Para o historiador

José Roberto Almeida, este é o valor

que a memória possui.

“O fato dos brasileiros não darem valor começa

pelo tipo de colonização que foi feita,

predatória, de exploração. Da existência dos

índios, pouca coisa sobrou. A memória é

sempre importante porque ela vai dizer quem

você é, vai dar respostas para questões existenciais,

culturais e sociais. Se isso não for

preservado, nossa relação com o passado

vai se perdendo. Vejo que isso não é uma

coisa importante na visão do brasileiro e vejo

isso com tristeza, pois um país que não conhece

sua história, está fadada a repetir os

erros do passado”.

Se de um momento para outro você perdesse tudo,

quanto custaria reconstruir sua história?

GABRIELA BRACK, KIMBERLY SOUZA, MARCOS PITTA, JOSÉ PIUTTI,

MAYRA CARVALHO, ANA CAROLINA JANUÁRIO

Fotos: Divulgação


É política,

é direitos humanos,

é cidadania

A historiadora e coordenadora do grupo

de pesquisa Memórias, Pesquisa e Políticas

Públicas, Sandra Rita Molina concedeu entrevista

a ComTempo sobre a importância da

preservação dos museus brasileiros e como a

ausência deste cuidado é prejudicial ao desenvolvimento

político, social e econômico de uma

sociedade.

ComTempo: Qual a importância da

preservação dos patrimônios históricos

pro Brasil?

Sandra: É a exata medida da preservação da

nossa memória. E por que é importante? Porque

é através da percepção de quem nós somos

que decidimos para onde vamos. O patrimônio

é a visualização da nossa trajetória. Não

apenas o patrimônio arquitetônico, mas também

o imaterial, os saberes, fazeres e as celebrações.

Vamos pensar no dia 20 de novembro.

Por que o dia da abolição não é o dia da

consciência negra? Por que só a abolição não

foi suficiente? A população negra deste país entende

o treze de maio como uma celebração

de brancos. Ele trouxe a libertação, mas para

quem? Liberdade sem pão, sem emprego, sem

qualidade de vida? Onde a população negra vai

buscar seu espaço de luta? Percebe como é

importante saber de onde viemos? Tem a ver

com a construção da nossa cidadania, de como

entendemos quais são os nossos direitos como

exercícios de nossos deveres. Por isso, não temos

tanto investimento para o patrimônio, pois

quanto mais dinheiro investido, mais empodero

a população de baixa renda. E uma população

empoderada cobra por seus direitos.

ComTempo: Como a falta de museus

prejudica uma sociedade?

Sandra: De forma brutal. Podemos observar

isso acontecer quando pessoas começam a

achar que a ditadura não foi tão ruim. Isso é

manipulação da memória. O conhecimento

da história é importante não apenas por retórica

ou cultura, no momento em que estamos

vivendo, em especial no Brasil, ele é estratégico,

porque pode entender quais grupos

políticos estão envolvidos e quais os seus interesses,

é pelo conhecimento histórico que

começamos a entender o porquê da terra ser

tão disputada nesse país, por que o número

de mortes na tão disputado. Eu busco isso lá

atrás, no nosso modelo de colonização, de

coronelismo, onde a lei só entrava pela porteira

se o coronel deixasse, é que vou ver a

troca de votos que se tem hoje e compreender

de onde ela vem - do voto de cabresto do

coronelismo. Se antes a história já era importante

nesse país, hoje, frente ao que estamos

vivendo, ela se torna vital porque consegue

mostrar o quanto já caminhamos e o quanto

corremos o risco de perder direitos adquiridos.

É a história que vai dizer pra nossa população

o quanto temos que lutar para ampliar

direitos e não suprimi-los em função de

uma eficiência econômica, de uma crise que

estamos vivendo. Então, se aprender história

antes era importante por uma questão cultural

e de sobrevivência de nossa memória, hoje

ela é importante por uma questão estratégica

para a proteção aos direitos sociais que foram

adquiridos nos últimos 30 anos. Saber história

hoje, é política, é direitos humanos, é exercício

de cidadania, é proteger os direitos daqueles

que ainda não nasceram nesse país.

POR QUÊ PRESERVAR E COMO?

O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram)

aponta que existem 3.793 museus no país instalados

em 1.357 dos 5.570 municípios do país. Isso

significa que pouco menos de 25% das cidades brasileiras

possuem pelo menos um espaço dedicado

à preservação histórica.

Já o Sistema Estadual de Museus do Estado

de São Paulo (Sisem), que articula os museus

paulistas em favor da preservação, pesquisa e difusão

do acervo, mapeou, em 2010, a existência de

415 instituições museológicas dentre públicas e privadas,

distribuídas em 190 municípios do Estado.

Rogério Carlos Fábio, representante regional

de Barretos, interior de São Paulo, do Sisem, desenvolve

trabalho de levantamento das cidades de

Altair, Barretos, Bebedouro, Cajobi, Colina, Colômbia,

Embaúba, Guaíra, Guaraci, Jaborandi, Monte

Azul Paulista, Olímpia, Pirangi, Severínia, Taiaçu,

Terra Roxa, Viradouro e Vista Alegre do Alto para

avaliar o grau de preservação.

“Nunca se falou tanto da importância de

preservar a história brasileira e de cada localidade

como nos últimos anos. Claro que isso não é unanimidade,

mas notamos diferenças significativas de

um local para outro. Ainda estamos longe de políticas

públicas eficazes para a valorização do patrimônio

brasileiro, que devem ocupar espaço importante

quanto ao desenvolvimento educacional, turístico,

cultural e econômico de cada lugar”, relata Fábio,

em entrevista a ComTempo.

O historiador diz como deveria ser feita

a preservação: “O primeiro e importante passo

é o projeto museológico que cada museu deve

ter, e que deve ser elaborado por profissionais

Foto: Divulgação

capacitados, como museólogos, historiadores e

arquivistas. É essencial, também, diagnosticar a

situação de cada museu público e garantir sua

preservação e manutenção, avaliando riscos.

Muitos museus carecem de investimentos e legislação

específica para executarem projetos eficazes”,

enfatiza Fábio.


Não é

velharia, é

história viva

Os primeiros registros de um museu

histórico em Bebedouro, interior de São

Paulo, são do final da década de 1980, na

Casa da Cultura, localizada na Avenida Pedro

Paschoal. Tempos depois, o acervo é levado

a um casarão no centro da cidade, na

rua Coronel Conrado Caldeira, lugar onde

cresceu e recebeu curadoria de diversas

autoridades, como a professora Léa Pitelli.

Em 2006, o casarão foi demolido, grande

parte do acervo foi encaixotado e guardado

no porão da Biblioteca Municipal e uma

pequena amostra, ficou exposta na própria

biblioteca.

Depois de 10 anos, o museu ressurge

em outro casarão, à rua Tobias Lima,

centro, como Casa da Cultura “Professor

Waldemar Antônio de Mello” e Museu de

Artes e História “Professora Léa Pitelli”, sob

o comando do recém assumido coordenador

de Museus, Teatro e Bibliotecas, Rogério

Carlos Fábio; que organizou o museu

conforme assunto e época: a primeira sala,

com mobília da década de 20, cadeiras do

legislativo, chapeleiros e telefones antigos.

Ao lado, objetos sacros, bíblias e imagens.

Em outro cômodo, utensílios domésticos

como enceradeiras, máquina de costura,

ferros de passar, objetos de porcelana e um

filtro de água. Uma das salas é dedicada à

música e às rádios: aparelhos de diversas

épocas, amplificadores, microfones, instrumentos

musicais, discos e fitas. Em outra

sala, objetos marcam a era da ferrovia, artigos

da Revolução de 1932 e um rico acervo

da revista Manchete, com edições de 1950

a 1990.

O coordenador afirma que o importante

é sempre buscar novos itens para

compor o acervo, e surpreender o visitante:

“valorizar a história local através do museu

é preservar a identidade do município. Sempre

pensamos como vamos expor o acervo,

mantendo um visual mais limpo e uma mudança

constante com a chegada de objetos

significativos. O museu nunca vai estar

pronto, nunca é o lugar de coisas velhas, o

museu é o lugar da história viva”, finaliza.

Dos reis do café à

preservação da história

Há 100km de Bebedouro, Ribeirão Preto

também possui museus, um deles, referência para

a ComTempo citar nesta reportagem, possui uma

curiosidade: Não é um, mas dois museus dentro

de uma só história.

O Museu Histórico e de Ordem Geral e o

Museu do Café estão localizados onde foi à sede

da antiga Fazenda Monte Alegre, adquirida em

1890 por Francisco Schmidt, barão do café, onde

residiu até 1918.

Em 1952 foram doados à Universidade de

São Paulo (USP) cerca de 240.000 alqueires da

Fazenda Monte Alegre, para a instalação da Faculdade

de Medicina e, desta área, aproximadamente

17.000 m², que correspondem às construções

e arredores da casa-sede, não foram incluídas e

foram concedidas à administração municipal.

Com o objetivo de criar um museu na cidade,

Plínio Travassos dos Santos começou a recolher

objetos para o acervo, sua maioria, doações.

Quando o acervo chegou a um número considerável,

foi transferido para o Bosque Municipal onde

permaneceu de 1948 a 1949. Em 28 de março de

1951, já instalado na Fazenda Monte Alegre, o museu

foi inaugurado com as seções de Artes, Etnologia

Indígena, Zoologia, Geologia, História e, mais

tarde, Biologia. A criação do Museu foi oficializada

através da Lei Municipal n.º 97, de 1 de julho de

1949. Em virtude de seu valor histórico o local foi

tombado junto de seu acervo.

“O Museu Municipal foi por mim organizado

mediante doações de materiais que obtive desde

Janeiro de 1948, e somente em 1951 foi conseguido

o prédio em que está instalado.” Trecho

extraído de carta do Plínio Travassos dos Santos

para o Dep. Dr. Cunha Bueno de 1953.

Para contar a história do Ciclo do Café em

Foto: ComTempo

Ribeirão Preto e no Brasil, Plínio Travassos dos

Santos começou a recolher e colecionar objetos

da cultura cafeeira. Elas foram guardadas no Museu

Histórico e em 1955, foi inaugurado o Museu

do Café de Ribeirão Preto, instalado provisoriamente

em três salas e nas varandas que circundam

o edifício.

O prédio do Museu do Café Cel. Francisco

Schmidt foi construído próximo ao Museu Histórico,

por iniciativa da Prefeitura e contou com apoio

do Instituto Brasileiro do Café (IBC) e do Comendador

Geremia Lunardelli. O espaço inaugurado

oficialmente em 26 de Janeiro de 1957.

Atualmente os museus estão fechados devido

a danos estruturais pela falta de manutenção,

mas segundo o diretor José Venancio de Souza

Junior, o museu passará por obras emergenciais

em breve.

“Fizemos um convênio com o curso de Arquitetura

e Engenharia da Universidade Moura Lacerda,

que fará um estudo geral de todo o complexo,

solo e edificações para nos entregar um estudo

completo e um projeto de restauro” diz o diretor

sobre sua primeira providência à frente do museus.

Com um acervo estimado em mais de seis

mil peças dentre obras de arte e peças históricas, o

patrimônio do Museu do Café Cel. Francisco Schmidt

contém objetos de uso na zona rural como

arados, veículos próprios de fazendas, arreios,

carro de boi, uma coleção de moinhos para o processamento

manual dos grãos de café, pilão e máquinas

destinadas a descascar e ventilar o café.

O acervo também tem obras de arte como

esculturas representando os imigrantes italianos

e alemães e uma série de bustos de personalidades

relacionadas ao café como Dr. Henrique Dumont,

o primeiro rei do café, Francisco Schmidt,

segundo rei do café e Geremia Lunardelli, terceiro

rei do café.


De casa de família do interior

a santuário de afrescos

Nascido no dia trinta de dezembro de mil

novecentos e três, em Brodowski, no interior paulista,

foi responsável pela difusão da cultura brasileira

pelo mundo no século XX. Filho de imigrantes

italianos, Cândido Portinari teve uma infância pobre

em uma fazenda de café, onde seus pais trabalhavam

na colheita - o que contrasta com sua vida

adulta, onde expunha suas obras sobre infância,

mazelas e questões sociais brasileiras em salões

de todo o globo.

Com paixão pela arte descoberta ainda na

infância, Portinari não completou sequer o ensino

primário, e aos 14 anos foi recrutado por pintores

e escultores italianos que trabalhavam na restauração

da igreja de sua cidade. Após isso, mudou-se

para o Rio de Janeiro, onde aprofundou seus estudos

na área. Deu volta ao mundo, expondo suas

mais de cinco mil obras, entre pinturas em tamanhos

padrão - como o Lavrador de Café - a painéis

gigantescos, como Guerra e Paz, exposto na sede

da ONU.

Ironicamente, a tinta que traçou seu caminho

foi a mesma que nele pos fiz. Portinari faleceu

no dia seis de fevereiro de mil novecentos e sessenta

e dois, no Rio de Janeiro, intoxicado pelos

colorantes por ele utilizados. Sua memória, porém,

segue timbrada em diversas partes do mundo,

como na biblioteca do Congresso, em Washington,

e na Capela da Pampulha, em Belo Horizonte.

Porém, é na casa em que cresceu, em Brodowski,

onde suas mais profundas lembranças permanecem.

Localizado na praça que carrega seu

nome, número 298, no centro da cidade, o museu

Casa de Portinari abriga desde objetos de uso pessoal

do artista a pinturas murais, feitas por Candido

e amigos. O local conta com recursos tecnológicos

como maquete de projeção das reformas do imóvel,

uma foto que conta a história da família, linha

do tempo completa sobre o artista em três idiomas

e jogo da memória interativo. Os jardins da casa

também fazem parte da visita.

Todas as lembranças ali abrigadas são

preservadas por contrato entre a Secretaria do Estado

de São Paulo com Organização Social de Cultura

ACAM Portinari (Associação Cultural de Apoio

ao Museu Casa de Portinari), que criada em 1996,

tem como missão gerir as unidades museológicas

por meio de pesquisas, conservação e difusão dos

acervos, com responsabilidade sócioambiental,

contribuindo para o desenvolvimento humano e

comprometendo-se com a justiça social, a democracia

e a cidadania. A instituição também capta

verbas por meio de leis de incentivos, através da

venda de produtos nas lojas físicas e online, por

meio do programa de parceiros e com o ingresso

voluntário.

Segundo Juliana Dias, assessora do museu,

O legado artístico e intelectual de Candido

Portinari é um dos maiores patrimônios culturais

do Brasil. “A atual exposição de longa duração da

instituição “Narrativas de uma vida: um pintor, um

tempo, um lugar...” explica a ligação do artista com

suas origens, a terra natal era sua inspiração e o

seu povo e suas memórias eram por ele frequentemente

retratados em suas telas. O Museu ainda

trabalha com três outras memória locais importantes:

a ferroviária, a cafeeira e a da imigração - principalmente

italiana.”

Segundo ela, manter o museu é um trabalho

complexo e permanente. É preciso pensar

o Museu como um todo. O trabalho realizado

pela instituição é feito por meio de programas que

comtemplam os cuidados e a zeladoria da edificação,

a conservação preventiva de acervo, a

comunicação do acervo, o trabalho educativo, a

sustentabilidade - tanto institucional, quanto ambiental

-, pesquisa, novas possibilidades de captação

e de formação de público e de comunicação

com essas pessoas, É um trabalho complexo

e permanente.” finaliza.

Fotos: Divulgação


Referência de memória e preservação?

O Brasil tem!

A ComTempo chegou ao Amapá, e posteriormente,

ao Museu Sacaca, espaço que, apesar de

contar e guardar a memória de um Estado, pode

ser referência em segurança, organização e valorização

da cultura. Em entrevista à reportagem,

Paulo Anchieta, chefe de museologia do espaço,

falou sobre a criação do museu e as medidas tomadas

para que o acervo esteja sempre seguro e

bem exposto aos visitantes.

“O Museu Sacaca é, antes de tudo, um

museu sobre a história do Amapá, que mesmo

não tendo data específica de criação, sua origem

está relacionada à evolução de dois outros museus

amapaenses: o Museu Histórico e Científico

Joaquim Caetano da Silva e o Museu de História

Natural Ângelo Moreira da Costa Lima. Em 1980,

ambos foram unificados e, tempos depois, com a

criação do IEPA (Instituto de Pesquisas Científicas

e Tecnológicas do Estado do Amapá), tiveram seu

corpo-técnico e acervos ampliados, recebendo pequena

exposição permanente montada. Em 1999

foi acrescentado ‘Sacaca’ ao nome do Museu, passando

então a chamar-se Museu Sacaca do Desenvolvimento

Sustentável”, conta o museólogo.

Sacaca, que no regionalismo amazônico

significa ação ou prática de bruxo, foi como ficou

conhecido Raimundo dos Santos Souza (1926-

1999), que se tornou ícone da história amapaense

por conta do seu conhecimento em relação às

ervas, à mata e às plantas medicinais. Sabedoria

essa que adquiriu ainda na infância, quando teve

contato, e passou a trabalhar como auxiliar de pesquisadores

estrangeiros na época em que o Amapá

ainda pertencia ao estado do Pará.

De acordo com Anchieta, o Museu é composto

por várias ambientações, como a Casa da

Parteira; Casa do Castanheiro; Casa do Ribeirinho;

Totem das Etnias; Maloca Multiuso (espaço

destinado a atividades de contos literários de histórias,

poesia, teatro); Casa de Vidro; Memorial do

Sacaca; Praça do Sacaca; Regatão (barco de comércio

que levava mercadorias básicas e recados

até as comunidades mais distantes); Praça das

Etnias; Casa da Exposição Permanente e o Sítio

Arqueológico.

Manutenção e preservação

O Museu, segundo Achieta, é fechado “todas

as segundas-feiras para manutenção de toda

a área, tanto da parte predial, quanto do Museu

a Céu Aberto. A equipe de conservação e manutenção

do museu trabalha o dia todo verificando,

tanto a limpeza do terreno, quanto a parte elétrica

e hidráulica”, explica o museólogo, que continua,

“Além da manutenção semanal, o museu também

passou por revitalização no início de 2018, onde

Foto: Museu Sacaca

alguns espaços foram reformados e construídos,

como: Memorial do Sacaca, Bosque do Açaí, Orquidário,

Casa das Parteiras, Museu Escola, Regatão,

passarelas e pontes suspensas. O projeto

de revitalização ocorreu com intuito de proporcionar

melhor conforto aos visitantes”.

Há grande representação da cultura amazônica

no museu, algo de extrema importância

para o Amapá, pois as pessoas começam a conhecer

o que realmente tem no Estado. Quem visita

o museu, tem conhecimento ímpar em relação à

cultura e história amapaense.

Apoio à educação

O Museu Sacaca traz ainda, espaço

educacional, com proposta de unir os alunos e o

museu. As ações são operacionalizadas a partir

da iniciativa e da participação dos diversos segmentos

envolvidos, em um processo constante de

construção e reconstrução. Portanto, o referencial

teórico-metodológico apresentado é o ponto de

partida, a base necessária à produção do conhecimento,

que é enriquecido no processo. O espaço

apresenta o Planetário Móvel Mayawaka, projeto

itinerante que propõe o trabalho dos alunos com

astronomia, por meio de simulações relacionadas

ao céu noturno. É possível mostrar aos alunos o

céu em qualquer época (passado, presente e futuro),

além de representar as fases da lua e eclipses,

assim como fenômenos que acontecem ou podem

acontecer.

O Planetário tem dimensões de 6m de diâmetro

na base e cerca de 4,5m e altura, com capacidade

para 30 pessoas por sessão, que duram

aproximadamente meia hora.

Ainda de acordo com o museu, a área

educacional tem o Bloco Pedagógico, construído

com sala de monitoria, vestiário, mini auditório, e

depósito, além de banheiros femininos e masculinos.

Vale ressaltar que todo o espaço são estruturados

com adequações para acessibilidade e

inclusão social.

As ações educativas são coordenadas

pelo setor de Ação Cultural e Educativa do Museu

Sacaca em parceria com pesquisadores(as) do

IEPA de diversas áreas, escolas e organizações

comunitárias com a proposta de fomentar a pesquisa

e o estudo em torno do patrimônio cultural

e do museu enquanto instrumento pedagógico,

através do acesso ao conhecimento científico e

tecnológico e da valorização e preservação do

patrimônio cultural e da cultura amazônica.


A preservação é seu dever

Sem história, somos um amontoado

de matéria biológica vagando pela terra

sem propósitos. É preciso preservar, cuidar

e, principalmente, dar valor. É preciso saber

que seus atos hoje, serão sua história amanhã,

que sua formação é possível hoje, porque

alguém lutou ontem e, entender que se

hoje somos capazes de pensar e refl etir, é

porque alguém historiou e tornou esse fato

possível.


FEMINICÍDIO

a ponta do iceberg

GABRIELA BRACK E KIMBERLY SOUZA

Estudos de gênero, violência e o crime de

ódio que começa a ganhar visibilidade.

Uma mulher é vítima de estupro a cada

9 minutos. Três mulheres são vítimas

de feminicídio a cada um dia. Uma

pessoa trans ou gênero-diversas é assassinada

a cada dois dias. Uma mulher registra

agressão sob a Lei Maria da Penha a cada 2

minutos. Os dados trazidos pela ComTempo

foram retirados de dossiês da Agência Patrícia

Galvão, que produz e divulga notícias,

dados e conteúdos multimídia sobre os direitos

das mulheres brasileiras.

Partindo de alguns dados que já traçam

panorama da intrínseca cultura machista

e misógina de nossa sociedade, trazemos

dados, estudos, análises e até casos do que

pode ser chamada a “ponta do iceberg”, o

feminicídio, crime de ódio por motivação de

gênero cuja lei ( 13.104), que o configura

como hediondo, foi sancionada em 2015

pela então presidente Dilma Rousseff (PT).

Até mesmo respeitando a ordem cronológica

do desenvolvimento do tema, partimos

de entrevista feita em setembro com a psicóloga

Eliane Maio, que ministrou a palestra

‘Gênero e Sexualidade’ em Bebedouro (SP).

Formada há 34 anos na primeira turma da

Universidade Estadual de Maringá (UEM),

Maio também fez cinco especializações, todas

ligadas a sexualidade, família ou escola.

É da máxima de Sócrates, “só sei que sei

muito pouco”, em suas palavras.


Foto: Arquivo Pessoal

ComTempo – Fale um pouco sobre

sua palestra.

Eliane Maio – Trazer esta temática em tempos

atuais, em que a gente anda apanhando

muito, tem que ter vontade de trazer um diálogo

sobre o que é gênero e o que é sexualidade.

Eu trabalho há anos com esse tema

para dizer que as pessoas não nascem masculinas

ou femininas. A gente aprende a ser.

A gente nasce macho ou fêmea porque alguém

decidiu isso ao longo da história, mas

esquecemos que as características culturais

que nos atribuem das quais fazem com que

a masculinidade prevaleça e a feminilidade

seja sempre submissa. Por que as mulheres

sofrem tanto? Por que uma advogada, de

classe média, branca, foi jogada do prédio

pelo marido? Por causa do machismo. Trabalho

estas temáticas para que busquemos

a igualdade, para que a gente compreenda

as amarras do processo cultural, destruindo

essas amarras e construindo as escolhas

próprias, o que é mais difícil.

ComTempo: Como é possível abordar

gênero e sexualidade nas escolas?

Eliane Maio – Em matéria de sexo, tem muita

gente que engole hipocrisia e arrota moral

e bons costumes. Na escola, na época de

festa junina formavam-se os casaizinhos héteros

e, quando faltava, as meninas é que

se vestiam de menino e não o contrário. No

ensino médio, nas festas, as meninas levavam

salgado ou doce e os meninos, a bebida.

Isso tem explicação científica? Então, a

escola é um lugar heterosexista e o que precisamos

fazer é desconstruir isso estudando

muito. Como vamos tratar de violência sexual?

Contando a história da Branca de Neve:

Ela é expulsa de casa e vai morar com sete

anões. Ninguém nunca imaginou que ela

vive com sete pintos? Para ela viver naquela

casa ela tinha que lavar, passar e cozinhar.

Bela, recatada e do lar. Aí aparece uma bruxa

– nós, mulheres feministas – com o símbolo

do pecado, que é a maçã. Ela morde e desmaia.

No final da história, é a pior das violências.

Como que se chama o homem? Príncipe.

Um homem sem nome, que a Branca de

Neve nunca viu, e dá um beijo enquanto ela

está desmaiada. Isso não pode. Então, podemos

contar para as crianças essa história

e abordar vários diálogos, como ensinar a

criança a não deixar ninguém encostar em

seu corpo sem permissão.

Isso é desconstruir. E com igualdade de gênero.

Não precisamos e nem devemos ensinar

sexo nas escolas, mas devemos trabalhar

a igualdade. Qual o apelo científico

para fazer fila de menina e de menino? Por

que fazer dia dos pais ou das mães? A criança

vai ter que entregar um presente pro pai

que a estupra? Ou fazer um cartão para o

pai que nunca viu? Há mais de 5 milhões

de crianças sem pai no país. Temos que trabalhar

aquilo que vai refletir no cotidiano da

criança. A igualdade.

ComTempo: Pelos locais que passou,

já escutou relatos de violência

sexual contra a mulher?

Eliane Maio – Com certeza nesta palestra

de hoje, haverão mulheres que sofreram ou

sofrem com violência. Não existe um lugar

ainda que eu fui, que não me contam um

caso de violência. Mais de 80% das violências

contra mulher são por membros da família,

96% dos que violentam são héteros,

e ficam falando que eu quero transformar o

mundo em gay. Agora eu quero.

ComTempo: Sobre feminicídio: estão

acontecendo mais casos ou

mais casos estão vindo à tona?

Eliane Maio - Minha mãe comentou outro

dia: “quantos casos!”. E eu disse: não, mãe.

Existem desde a sua época. A prima tal, a tia

tal foram mortas pelo marido. Mas tudo era

feito às escondidas. Sobre a advogada, muita

gente criticou porque ela não fugiu, não

colocou fim à relação. E eu digo que isso é

inexplicável. É um envolvimento tão doentio,

que é difícil sair. Teria que empoderar essa

mulher para ela conseguir sair. O feminicídio

se dá pela cultura machista e sexista. Até a

língua portuguesa é sexista. É tudo no masculino.

Em minhas palestras, eu digo “Boa

noite a todas!” e os poucos homens que estão

presentes, reclamam.


Violência e morte de

mulheres em números

O 12º Anuário Brasileiro de Segurança

Pública, divulgado em agosto deste ano, dentre

outros dados relacionados à violência, apresenta

o de crimes cometidos contra mulheres,

incluindo por motivação de gênero, sendo esta

a primeira vez que o estudo inclui registros de

violência doméstica.

De acordo com o Anuário, em 2017 foram registrados

221.238 casos de violência doméstica,

as lesões corporais dolosas enquadras na

Lei Maria da Penha. O número, segundo o próprio

levantamento, equivale 606 casos por dia.

Os crimes de estupro, com base no

estudo, tiveram alta de 8,4% em relação a

2016. Somente no ano passado, 60.018 casos

foram registrados em todo o país.

Na “ponta do iceberg” dos crimes contra

mulheres, as mortes somaram 4.539 casos

registrados em 2017, representando crescimento

de 6,1% se comparado ao ano retrasado.

Deste número, 1.133 casos de morte de

mulheres foram registrados como feminicídio.

As demais, segundo os registros, são contabilizadas

como homicídio.

Vale ressaltar que mesmo se tratando

de números nacionais, eles podem ser maiores,

já que Distrito Federal e os estados do

Espírito Santo, Tocantins, Mato Grosso e Roraima

não informaram dados ao anuário.

Outros dados ainda podem ser analisados,

divulgados neste ano também através da

Agência Patrícia Galvão. Segundo o Atlas

da Violência 2018, feito pelo Ipea (Instituto

de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum

Brasileiro d Segurança Pública, a taxa

de mortes violentas de mulheres é de 13 por

dia, em 2016, num cenário em que 4.645 mulheres

foram assassinadas no país. O número

presenta taxa de 4,5 mil homicídios para

cada 100 mil brasileiras, aumento de 6,4% no

período de 10 anos.

De acordo com o Atlas da Violência

do IPEA (Instituto de Pesquisa Aplicada) entre

2006 e 2016 a taxa de homicídio contra

mulheres negras aumentou 15,4% enquanto

de mulheres não-negras houve queda de 8%.

No período de 2016 a 2017 houve aumento

de 30% nos assassinatos contra pessoas

lgbtq+. Das 445 mortes, 191 eram trans, 43

eram lésbicas e cinco eram bissexuais.

Os estudos ainda não fazem distinção

quanto raça e orientação sexual das vítimas,

mas, levando em consideração que a maioria

das vítimas de homicídios no Brasil são

não-brancos e lgbtq+, não fica difícil concluir

que mulheres negras, pardas e indígenas; e

mulheres trans, são as que mais morrem por

feminicídio.

4.539

+6,1%

MORTES DE MULHERES EM 2017

EM RELAÇÃO A 2015

1.133

REGISTRADOS COMO

FEMINICÍDIO


LEI

Cárcere privado, cinco dias de negociação,

grande repercussão nacional e internacional

e exploração midiática. Assim pode

ser definido um dos casos mais emblemáticos

de repercussão nacional e internacional:

o ‘Caso Eloá’, da então adolescente de

15 anos Eloá Pimentel, assassinada pelo exnamorado

Lindemberg Alves.

O caso, por motivação de gênero e

que poderia ser configurado como feminicídio,

completou uma década em outubro deste

ano, mas anos antes, já era definido como

base para o projeto que resultou no Trabalho

de Conclusão de Curso (TCC) ‘O Feminicídio

no Brasil e as Consequências da Cultura Machista’,

da estudante do 5º ano de Direito no

Imesb, em Bebedouro, Graziela Rodrigues,

24.

“Antes mesmo entrar na faculdade, o

tema violência contra a mulher mexia muito

comigo. E o caso de Eloá, especificamente,

sempre pensei em trazer como tema para minha

conclusão do curso, como uma forma de

homenageá-la e homenagear tantas outras

meninas e mulheres que foram vítimas de crimes

como esse”, diz Graziela, que também

tinha 15 anos quando Eloá foi assassinada,

lembrando-se da repercussão do caso. “A mídia

ganhou muito sobre o caso de Eloá. Todos

sabiam no que poderia resultar, mas ninguém

se importava, pois era a vida de uma menina

que, depois de morta, virou santa. Mas Eloá

não queria ser santa, ela queria viver”, enfatiza

a estudante.

“A Lei do Feminicídio é necessária,

principalmente pela sociedade machista que

vivemos, que nos mata por sermos mulheres

a cada dia mais, e agora tem sido mais

pautado na mídia, o que não ocorria até ano

passado”, fazendo referência a casos como o

da advogada Tatiana Spitzner, assassinada e

jogada da sacada de seu prédio, pelo esposo

Luís Felipe Mainvailer. O crime aconteceu

em julho deste ano, em Guarapuava (PR), e

levantou muitas discussões sobre feminicídio

no Brasil.

A estudante analisa que mesmo com

a Lei sancionada, juízes de muitas comarcas

DO

insistiam em não considerar assassinatos

de mulheres por motivação de gênero como

feminicídio. “A mídia começou a dar muita

visibilidade a casos de feminicídio, principalmente

após a morte da advogada”, explica

Rodrigues.

“Até alguns anos, mortes de mulheres

eram tidas como ‘crime de paixão’ ou ‘crime

passional’, e muitos homens foram absolvidos

desta forma. Um caso muito famoso é de

Doca Street (Raul Fernando do Amaral Street),

que assassinou a socialite Ângela Maria

Fernandes Diniz. Eles tinham um casamento

aberto, mas ele tinham muito ciúme, a matou

e ainda colocou toda a culpa nela e está livre

e solto até hoje.

A estudante ainda analisa a relação

direta entre casos de feminicídio e históricos

de relacionamentos abusivos, ou seja,

quando o companheiro da vítima já dava sinais,

até mesmo “sutis”, de violência: “Muitas

vezes a mulher não consegue sair daquele

relacionamento, por conta dos filhos,

por dependência emocional, financeira... E o

feminicídio é realmente a ponta do iceberg,

porque uma pessoa que começa gritando

com uma mulher também pode ser capaz de

esfaqueá-la”

FE

MI

NI


DIO


EDUCAÇÃO

EDUCAÇÃO

TUDO

COMEÇA

A ComTempo

entrevistou duas

psicopedagogas

que analisaram o

cenário educacional

infantil atual e

opinaram sobre o

que ainda pode ser ser

feito para o Brasil Brasil

torna-se referência

referência

em

em

educação.

educação.

12 13

12 13

PELA

EDUCAÇÃO

INFANTIL

MARCOS PITTA

MARCOS PITTA


O

número deveria ser zero. Mas, 65,9%

das crianças de 0 a 3 anos estão sem

matrículas na escolas e creches. O

Anuário Brasileiro de Educação 2018,

que tem como referência dados de 2015 e 2016,

revela que apenas 34,1% das crianças desta faixa

etária estão regularmente matriculadas nas

escolas de todo o Brasil.

A meta do Plano Nacional de Educação

era atingir, pelo menos, 50% das crianças, mas

esta realidade está distante. Observa-se no levantamento

que em 17 anos a taxa de alunos

frequentando a escola melhorou 142%, já que

em 2001, o número de alunos nas unidades educacionais

era de 13,8%.

Quando refere-se a Pré-escola, com

crianças de 4 e 5 anos, o Anuário mostra resultados

mais positivos. São 93% das crianças desta

faixa etária com acesso à educação. A adesão

também aumentou, tendo em vista que em 2001,

66,4% destes estudantes estavam dentro das

salas de aula.

No entanto, dar educação às crianças é

um desafio aos municípios brasileiros. O estudo

revela também, a taxa de crianças que estão nas

escolas por cada região do país.

Entre crianças de 0 a 3 anos, a região

Sul é a que mais atende, são 40,9% deste público

dentro das escolas. Em segundo lugar está

o Sudeste com 40,4%. Em terceiro, o Nordeste

com 30,6%. O Centro Oeste vem em seguida,

trazendo dentro das escolas 26,9% das crianças

desta faixa etária. Por último, a região Norte é a

que menos oferece possibilidades para crianças

na educação infantil, são apenas 18,3% que estão

dentro de uma unidade escolar.

Apesar das regiões terem quantidades

de populações diferentes, observa-se que nenhuma,

em sua proporção, consegue dar educação

a pelo menos metade de suas crianças.

Já quando os números rementem-se

aos alunos de 4 e 5 anos, os dados por regiões

são mais satisfatórios, assim como o acumulado

de todo o país já citado anteriormente. Nesta

faixa etária, o último lugar continua com a região

Norte, que oferece educação infantil a 86,9% das

crianças. O Centro Oeste também permanece

como penúltimo, totalizando 88,6%. O terceiro

lugar nesta faixa etária está com o Sul (90,4%),

sendo antecedido pelo Sudeste com 94,5% e, o

primeiro lugar, está com o Nordeste, que coloca

dentro da pré-escola, 95,6% das crianças desta

região.

Ainda assim, é possível analisar que

muitas crianças continuam fora das escolas.

Resultado disso é refletido quando os dados

mostram a adesão de matrículas no ensino

fundamental e médio.

O Anuário revela que em 2017, 75,9%

dos jovens de 16 anos concluíram o ensino fundamental.

Já no ensino médio, quando a idade

está entre 15 e 17 anos, 67,5% estão dentro das

escolas. No entanto, o quadro é grave. Os indicadores

revelam que 2 milhões de jovens entre 15

e 17 anos ainda nem começaram a cursar o ensino

fundamental e outros 903,1 mil não estudam

e não concluíram o ensino médio.

Apesar dos números não serem os esperados

para um país de primeiro mundo, notase

que ano após ano, a taxa de matrícula nas escolas,

em todas as faixa etárias vêm subindo. No

entanto, não há motivos para comemorar, tendo

em vista os déficits apresentados.

Por isso, a ComTempo entrevistou duas

especialistas em educação infantil. Ana Paula

Salazar, psicopedagoga, professora de educação

infantil e de Sala de Recursos (Deficiência Intelectual),

na Secretaria da Educação do Estado

de São Paulo e que atualmente atende crianças,

jovens e adultos com dificuldades escolares em

Jaboticabal-SP. E Mariana Galves, psicopedagoga

clínica, alfabetizadora de turma do 1º ano do

ensino fundamental e tutora em graduação de

Pedagogia, além de realizar atendimentos psicopedagógicos

clínicos em Ribeirão Preto.

Durante a entrevista, as duas profissionais

opinaram sobre o atual cenário educacional

do Brasil, analisaram a importância da participação

da família na vida escolar das crianças, além

de responderem questões que envolvem, de certa

forma, as discussões sobre escola x opinião

e os malefícios da aproximação, cada vez mais

constante das crianças, com a tecnologia.

ComTempo: Qual o principal desafio da educação infantil pública e privada no Brasil?

Ana Paula: Com o trabalho que desenvolvo, vejo que a educação Infantil, tanto no setor público, quanto

no privado, enfrenta desafios. O que preocupa, é o fato da rede pública não ter estrutura necessária para

esta importante etapa da criança. Já na privada, percebo muitos pais, que por pagarem, terceirizam a

educação que deveria acontecer em casa à instituição. Há também o despreparo profissional, mas na

particular tal fato é “mascarado”, o que fica mais explícito na rede pública.

Mariana: Existem dois momentos na educação infantil: Creche (0 a 3 anos) e Pré-escola (4 e 5 anos),

sendo a última, etapa obrigatória.

Infelizmente, o acesso à rede pública é um grande problema no país. Um ponto importante, é

a questão da infraestrutura, nessa fase, as crianças precisam de espaço para explorar e descobrir o

mundo através dos sentidos, sendo assim, é desejável que o espaço físico da escola conte com parques

de areia, brinquedos, laboratórios, quadras esportivas, salas de arte, bibliotecas, entre outros. Materiais

diversificados como: brinquedos apropriados para a faixa etária, materiais artísticos, livros paradidáticos,

materiais pedagógicos, também são essenciais para o ambiente escolar. Além disso, a valorização dos

profissionais da educação, bem como o investimento na formação continuada, são pontos extremamente

relevantes na garantia de uma educação de qualidade.

Tanto na escola pública, como na privada, há desafio latente em compreender as características

e peculiaridades do aluno da Educação Infantil. Este deve ser visto como um ser humano completo e

complexo e não apenas como um adulto em miniatura. É indispensável o entendimento de que a infância

é uma fase primordial no desenvolvimento do sujeito e como tal merece uma atenção especial.

ComTempo: A educação é o principal meio para formar um cidadão. Como implantar

uma educação de qualidade logo no ensino primário? Qual deve ser a prioridade

das escolas?

Ana Paula: O papel da escola é transmitir e socializar conhecimentos que deverão influenciar principalmente

na formação intelectual da criança. Porém, atualmente, não é o que acontece devido à gestão

governamental que não incentiva o ensino de qualidade nas escolas, já que muitas são assistencialistas.

Vale ressaltar que a função de formar cidadão não se delega somente à escola e sim à família, responsável

por educar e transmitir valores éticos e morais para se viver em sociedade. Hoje, acredito que a

prioridade deve ser o desenvolvimento adequado de cada criança, de acordo com sua faixa etária.

Mariana: É importante a existência de Políticas Públicas de qualidade que promovam o debate nas

mais diversas esferas educacionais, proporcionando uma unidade entre Educação Infantil, Ensino Fundamental

e Ensino Médio. Para que isso ocorra, é preciso ter políticos responsáveis e engajados pela

causa da Educação. A qualificação de gestores e professores também é fator relevante nesse processo

de melhoria da qualidade do ensino. Dessa forma, com as devidas mudanças e parcerias estabelecidas

desde o âmbito político até o âmbito educacional, é possível obter avanços nos níveis de ensino e apren-


dizagem.

A prioridade da escola deve ser o pleno desenvolvimento do aluno. Nesse

sentido, faz-se necessário uma educação personalizada, olhar individualizado

para cada discente. Entender as habilidades e as dificuldades de

cada estudante, envolver a família no processo de ensino e aprendizagem,

convidar a comunidade para participar do convívio escolar, atribuir sentido

e relevância social aos conteúdos abordados, são ações que podem fazer

a diferença na formação de cidadãos.

ComTempo: O que deve ser priorizado num curso de pedagogia?

Como as pessoas devem ser preparadas para formar

os futuros cidadãos?

Mariana: A articulação entre a teoria e a prática é um desafio nos cursos

de formação de professores. Abordar a teoria de forma reflexiva é essencial

para uma atuação prática assertiva. Como disse Paulo Freire: “A prática de

pensar a prática é a melhor maneira de pensar certo.” Os cursos de Pedagogia

e as licenciaturas como um todo devem instrumentalizar os futuros

profissionais para as demandas das escolas do século XXI. Ser professor

hoje já não é mais como há 30 anos, enquanto o sistema educacional não

fizer essa leitura, a relação entre professor e aluno ficará cada vez mais

difícil.

ComTempo: O que as escolas com maior vulnerabilidade

podem fazer para oferecer educação de qualidade às crianças?

Ana Paula: É difícil responder no geral porque cada escola tem uma necessidade

de acordo com a demanda da comunidade. Penso que é preciso

existir uma participação ativa da família junto à equipe escolar para que

seja pensada a real necessidade pela qual aquela criança está indo para a

escola. Todos vão à escola para aprender a ler e escrever, mas atualmente

muitas crianças vão porque as pessoas de casa precisa trabalhar, muitos

pais ou responsáveis não entendem a real importância da escola no sentido

de educar para a vida, então formam um conceito errôneo sobre a escola.

ComTempo: Qual a importância da aproximação dos pais com

a escola de seus filhos? O que pode ser feito para realizar este

elo entre família e escola?

Ana Paula: É fundamental não só a aproximação, como a presença e participação

dos pais. A escola tem um papel e a família tem outro, porém ambas

devem dialogar para o bem estar da criança.

Mariana: Quando a família e a escola falam a mesma língua, o aluno sente-se

seguro e reconhece mais facilmente a importância dessas duas instituições.

Claro que existem assuntos que são prioritariamente decididos e abordados

pela família e práticas que a escola tem maior responsabilidade. Todavia, a participação

efetiva dos pais na escola é uma bela receita de sucesso.

ComTempo: Sobre a importância do brincar, como esta ação

pedagógica deve ser inserida nas escolas? Qual é, de fato, a

importância do brincar?

Ana Paula: O brincar é fundamental em todas as fases da infância, especialmente

na educação infantil. Winnicott foi um psicanalista prático, que através

da observação clínica que realizava com as crianças afirmou: “é no brincar,

e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e

utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo

descobre o EU (self)”.

Mariana: O brincar é a maneira mais efetiva de desenvolver os aspectos sociais,

emocionais e cognitivos da criança. Cooperação, experimentação, competências

motoras, relações humanas, autonomia, organização, desenvolvimento

da linguagem, são alguns dos aspectos que são trabalhados através da

brincadeira. Com as crianças pequenas, de até 5 anos de idade, a brincadeira

deve ser o carro chefe do processo de aprendizagem, brincadeiras livres e dirigidas

são essenciais para o desenvolvimento de competências básicas para o

pleno desenvolvimento do sujeito.

ComTempo: Acredita que seja função da escola estimular o

senso crítico, político e social dos alunos ou não?

Ana Paula: Não exatamente. Acredito que a escola tem função de explanar

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fatos e situações e instigar os alunos a ter criticidade e posicionamento, mas

deve deixá-lo livre de acordo com suas convicções e vivências, ou seja, cada

um tem que ter o direito de pensar diferente do outro, mas também saber

escutar, respeitar e sempre ter bom senso: “Aquilo que não me faz bem, não

fará bem ao outro”.

Mariana: Com toda certeza. A escola tem a importante tarefa de auxiliar no

desenvolvimento integral do sujeito. Formar cidadãos críticos, agentes e pensantes

na sociedade é um dos principais objetivos da educação.

ComTempo: É também papel da escola explicar aos alunos

sobre a vida sexual? Qual sua opinião sobre a educação sexual

ainda na infância?

Ana Paula: Acredito que tudo tem o momento certo de acontecer. Como

profissional com dez anos de experiência em sala de aula, muitas vezes foi

preciso dar explicações simples aos pequenos por terem vivenciado abuso

ou até mesmo presenciado outras situações familiares. Então, foi necessário

conversar e encaminhar essas crianças a outros profissionais. Penso que a

escola deve ensinar o que faz parte de conteúdos relacionados à determinada

disciplina, e na adolescência, considero fundamental que os jovens sejam

orientados e escutados por profissionais por conta de muitas vezes os pais

não saberem lidar com isso.

Mariana: Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) trazem a Orientação

Sexual como um dos temas transversais nos currículos. É inegável a

mudança comportamental dos adolescentes nas últimas décadas e essas

novas necessidades refletem na sala de aula. Ignorar, reprimir ou tentar

ocultar as manifestações sexuais dos alunos é um esforço inútil. Canalizar

toda essa energia para produzir conhecimento, empatia e respeito é ótima

solução. A sexualidade nas escolas, além de ser questão educacional, é

também questão de saúde pública. Conversar com as famílias sobre o assunto,

trazer diferentes profissionais para a discussão da temática e respeitar

a faixa etária das crianças pode ser um bom caminho para trabalhar essa

questão tão necessária.

ComTempo: Com o avanço cada vez maior da internet e da

tecnologia, é possível notar a aproximação das crianças em

relação aos aparelhos tecnológicos, como celulares, tablet e

até mesmo a televisão. Até que ponto é saudável esse contato

com as novas mídias e quando começa a ser preocupante?

Ana Paula: Sim, há uma aproximação maior, não só das crianças, mas dos

adultos. É saudável quando o uso acontece de forma controlada e quando

busca-se informações e conhecimentos em determinado assunto. Começa a

ser preocupante a partir do momento que não há controle dos pais em relação

aos filhos e quando estes acabam utilizando como válvula de escape na educação

das crianças, ou mesmo como recompensa. No entanto, a preocupação

aumenta quando o adulto fica o tempo todo utilizando celular ou computador

e esquece de estar presente na vida do filho, participando, conversando

e interagindo. Tudo que acontece em excesso é ruim.

Mariana: Muitas vezes, os conteúdos acessados na internet não são especificamente

educativos, por isso, os responsáveis precisam utilizar bloqueadores

e acompanhar frequentemente os sites que são visitados pelas

crianças e adolescentes. Outro fator que merece atenção é o sedentarismo:

os jogos, vídeos e redes sociais não podem ocupar mais tempo do que as

atividades físicas. A socialização e a interação real não pode ser substituída

pela virtual, é de suma importância que o sujeito estabeleça relações e conviva

com amigos e familiares.

ComTempo: Sobre educação, de modo geral, o Brasil está

longe de ser referência nesta área? Se sim, o que falta para

atingirmos ou nos aproximarmos deste patamar?

Ana Paula: Sim, está longe, porque há muitas questões envolvidas como: interesses

políticos, econômicos, sociais. Há também certo comodismo por parte

da população que não exige porque não tem competência intelectual para

lutar por seus direitos e cumprir com seus deveres. Creio que para atingirmos

um patamar satisfatório de educação é necessário que as Políticas Públicas

sejam pensadas e aplicadas diante da situação real de nosso país, pois aqui o

modelo de educação é sempre copiado de países de fora. No entanto, o que

funciona no exterior, não funciona aqui. Primeiramente, é preciso que nossos

governantes preocupem-se com o bem estar geral da nação e não somente

bem estar próprio. Há de se exigir responsabilidade familiar sobre crianças e

não assistencialismo barato em troca de interesses próprios.

Mariana: Infelizmente, a educação brasileira está longe de ser uma referência

mundial. É difícil dizer quais são os passos que devemos trilhar para chegar

a uma educação de excelência. Gostaria de ter uma receita que nos fizesse

atingir melhores resultados, no entanto, é uma situação complexa que envolve

os mais diferentes fatores, afinal de contas, a escola é um espelho da

sociedade, uma pequena amostra do que acontece para além dos muros.

Na minha opinião, um bom começo seria maiores e melhores investimentos

financeiros, além da valorização dos profissionais da educação.


UNIVERSIDADE

Accueillant, Adorable, parfait: são as palavras

escolhidas pelo intercambista francês,

Quentin Lassaussois, estudante de Biotecnologia

em Ribeirão Preto, para defi nir sua nova

casa. Porém, para grande porcentagem de

jovens brasileiros, o país não agrada e ‘acolhedor,

adorável e perfeito’, são termos que

não o defi nem.

Ao mesmo tempo em que jovens brasileiros buscam

deixar o país, outros, de cerca de 59 nacionalidades,

vêm ao Brasil em busca de educação.

JOSÉ PIUTTI

É o que aponta pesquisa realizada pelo Datafolha,

em julho de 2018. Segundo dados,

62% dos jovens brasileiros, com idade entre

16 e 24 anos, querem deixar o país. É como

se, num piscar de olhos, 70 milhões de jovens

desaparecessem. O desejo, porém, não

se limita a eles:entre os que têm de 25 a 34

anos, metade demonstra a mesma tendência,

índice que cai à medida em que o entrevistado

envelhece, chegando aos 24% entre

os de 60 anos ou mais.

ROTA DE

MÃO DUPLA


O estudante de química Fábio Ribeiro,

22 anos, se enquadra no levantamento.

Em seu último semestre na faculdade, já

tem em mãos sua passagem para o Canadá.

Ele acredita que o país possui melhores

oportunidades. “Países de primeiro mundo

possuem mais opções para estudo, formação

pessoal e profissional. Sempre quis ir

para outro país e por isso, busquei fluência

em outros idiomas, como o inglês.”

Questionado sobre sua relação com

o Brasil, Fábio relata descontentamento.

“Eu estou descontente com o país porque

acredito que as oportunidades em relação

a empregos e estudos estão sendo

dificultadas. Mesmo que existam

opções de financiamento

estudantil ou bolsas de estudo,

a quantidade segue

baixa. Felizmente tenho

muitas oportunidades, mas

ao olhar pro outro e ver que

eles não as tem, é entristecedor.”

Educação é,

também, o motivo

apontado por Maria

Ellis Favareto

Lopes, 17

anos, para partir

do país. Em

seu último ano

de ensino médio,

a estudante

almeja ingressar em

uma das universidades

do que chama de ‘santíssima

trindade da educação’, Harvard,

Princeton e Yale. “Sempre

ouvi que as universidades

do Brasil são vistas como “inferiores”

pelo olhar internacional.

A gente confirma essa ideia quando

vê a posição das faculdades brasileiras nos

rankings mundiais. A minha vontade de deixar

o país se baseia em procurar uma formação

no ensino superior de significativa

qualidade.”

Experiências

Motivada pelo pai a escrever seu futuro

em língua inglesa, a estudante de Tradução

e Interpretação Adrielly Serra Arena,

19 anos, realizou intercâmbio no Canadá,

onde estudou inglês na UMC High School.

“Foi uma decisão do meu pai. Ele queria

que eu estudasse cinema fora do país ou

que decidisse seguir alguma carreira voltada

ao inglês.” Seu objeto de estudo foi o maior

problema: “Eu fui pra lá sabendo apenas o

inglês básico, o que me fez ter dificuldade

em me comunicar com as pessoas.

Questionada sobre sua visão do Brasil

após o intercâmbio, Adrielly diz ter se sentido

menos protegida. “Nunca pensei que iria

voltar mais crítica e com mais medo de andar

nas ruas, já que no Canadá há mais segurança

e política que zela por todos.” Sensação

que a faz querer voltar. “Eu sinto uma

vontade enorme de voltar, é minha meta de

vida!”

Via de mão dupla

O Brasil retornou a rota de intercambistas

de acordo com

a Associação

Brasileira de

Organizadores

de

Viagens

Educacionais

e

Culturais.

Segundo a

associação,

cerca de 96 mil

estudantes estrangeiros

vieram

ao país em 2014,

no mesmo período

em que 230

mil intercambistas

brasileiros deixaram

o país, segundo Associação

do Setor de Empresas

de Intercâmbio.

A cidade de Ribeirão

Preto, no interior de São Paulo,

carrega o título de cidade

universitária por abrigar uma

das unidades da Universidade

de São Paulo e mais uma dezena

de universidades particulares. No ano

passado, o município recebeu cerca de 230

estrangeiros, de 59 nacionalidades, que ingressaram

nas instituições, em graduações,

pós-graduações, pós-doutorado ou como

pesquisadores, segundo Grupo Coordenador

de Relações Internacionais do campus

da USP de Ribeirão Preto e Centro de Internacionalização

da UNAERP.

Sandra Aguiriano, 22 anos, é natural

de Honduras e está em Ribeirão Preto

há 3 anos. Ela escolheu o cidade para cursar

Relações Internacionais logo após sair

do ensino médio e ao chegar, notou diferenças.

“No início foi um choque cultural muito

grande porque Honduras ainda é um país

muito conservador, e eu vim para um país

que é muito mais liberal e aberto para outras

coisas, mas consegui me adaptar. O pessoal

é tão receptivo, cheio de amizade, e essas

coisas não se tem em Honduras, não temos

relações tão abrangentes.”

Atualmente, Honduras vive os reflexos

do golpe de militar de 2009, que retirou

do governo Manuel Zelaya Rosales, causando

crise política, social e econômica. Sobre

política brasileira, Sandra afirma ter medo.

“Eu tenho acompanhado as eleições e todo

o cenário político tem ajudado a desvendar o

que vem pelo Brasil. O fato dele (Bolsonaro)

ser militar, não me assusta. O que me assusta

é ele ser a favor da tortura, da morte,

discriminação. Ele não tem noção do quanto

suas palavras impactam a sociedade brasileira

e como isso tem colaborado para o aumento

de ondas de violência.”

Além das diferenças culturais e preocupações

com o destino do país, Sandra

diz se sentir segura em seu novo lar. “Aqui

consigo andar tranquilamente nas ruas, com

celular na mão. Vivo em paz, tranquila”.

Quentin, de 21 anos, citado no início

da reportagem, escolheu o Brasil por já ter

visitado várias partes do planeta, mas nunca

a América Latina. A escolha da cidade foi motivada

pela copa do mundo de 2014, quando

Ribeirão Preto acolheu a seleção francesa.

“Escolhi o Brasil, especialmente Ribeirão,

devido os rumores na França sobre o estilo

de vida dos estudantes daqui ser totalmente

diferente dos estudantes franceses”.

Sobre as diferenças entre seu atual

país e a França, Quentin, assim como Sandra,

relata as relações interpessoais. “A principal

diferença está em como as pessoas

são legais uma com as outras e se ajudam.

Na França, você tem que ser realmente

próximo de alguém para pedir ajuda ou se

divertir com ela. Aqui, você pode curtir ou

simplesmente passar o tempo com pessoas

que você acabou de conhecer.”

Em uma visão geral, resume o país

como amigo, com boas especialidades culinárias,

festas e com universidades melhores

que as francesas. Sobre o que mais lhe fará

falta, revela: “Açaí. Não há açaí na França e

eu me apaixonei. Vou tentar descobrir onde

posso comer açaí na França e, se não conseguir,

voltarei apenas para isso.” finaliza.

Fotos: De cima para baixo - Maria Ellis,

Quentin, Fábio, Sandra e Adrielly.


COMTEMPO PELO BRASIL

IMPORTÂNCIA DA

ADOÇÃO E CASTRAÇÃO

DE ANIMAIS

MAYRA CARVALHO DA SILVA

ONG do Amapá realiza trabalho de conscientização e recuperação de animais

em situação de abandono. A castração, mesmo ainda sofrendo grande

preconceito, é a melhor solução para a superpopulação de animais.

Estima-se, de acordo com dados da OMS, Organização Mundial da Saúde, que no

Brasil existam mais de 30 milhões de animais abandonados, sofrendo diariamente de

fome, sede e agressões. No entanto, grupos de apoios aos animais existem, como é

exemplo a ONG Anjos Protetores, localizada no estado do Amapá e que, desde 2013 ajuda

animais do estado a encontrarem um lar.

Responsável pela gestão de mídias e marketing da ONG, Bárbara Katerine, 21, em entrevista

a ComTempo, afirma que a solução para a superpopulação de animais, mesmo enfrentando

grande preconceito, é a castração. Katerine fala ainda sobre a facilidade e satisfação

que é adotar um pet.


ComTempo: O que significa para a Anjos

Protetores defender os direitos dos

animais?

Bárbara Katerine: Para nós, enquanto conjunto,

significa lutar para cuidar e dar voz a quem não

consegue pedir ajuda. É possível ver animais

abandonados por todo canto da cidade, mas para

muitos eles são invisíveis. Eles apanham e passam

fome. Nosso objetivo é mostrar a eles, solidariedade

e o lado bom do ser humano.

ComTempo: Por que há tanta resistência

da população em adotar animais?

Bárbara: No Amapá, ainda existe uma cultura

antiga sobre o que significa um animal de estimação.

Acredita-se que eles sejam “fortes e resistentes”

e podem sobreviver em qualquer lugar.

É raro ver empatia e valorização de um animal

doméstico dentro de uma família. Não se enxerga

a real importância e benefícios em ter um amigo

peludo. Então, no final das contas, a escolha ainda

é estética. Se você doar um animal de raça,

lindo e padrão, sempre terá filas de pessoas interessadas.

Um vira-lata “gente boa” não representa

aquisição de valor para as pessoas. Logo, não

tem relevância.

ComTempo: Procede a informação de

que a castração é a solução para diminuir

o crescente número de animais

abandonados. Se sim, qual a importância?

Bárbara: Sem dúvida para casos de superpopulação

e suas consequências. Apesar de ser um

tema com muito preconceito por parte das pessoas

que acreditam no “sofrimento” para o animal, é

a medida mais responsável e sensata a se fazer,

pois é uma reprodução que não tem fim.

Você pode arrumar outro dono para todos os

filhotes que a sua cadela teve com o cachorro

do vizinho, mas não pode garantir que esses

donos não vão ter mais filhotes e abandoná

-los no futuro.

Animais não esterilizados sempre irão procurar

um(a) companheiro(a) na rua, pois é instinto

animal. Há casos de pessoas que agridem seus

pets julgando esse ato como “falta de vergonha”,

sendo que não é uma escolha deles. Um macho

pode fazer absurdos para cobrir uma fêmea no

cio, mesmo que isso inclua brigar violentamente

com outros cães ou quebrar a cerca de uma casa

machucando-se para chegar até ela. Nenhum

animal faria isso por diversão. O ideal é castrar

seu animal, independente de ser macho ou não,

ou se quiser filhotes, entregar eles castrados - o

que está bem longe da nossa realidade.

Castração é literalmente um ato de amor, dando

qualidade de vida e prevenindo série de doenças

que o animal pode adquirir com as fugas, como

o TVT (Tumor Venéreo Transmissível), DST que

evolui rapidamente.

ComTempo: Depois de serem doados,

os animais recebem algum tipo de

acompanhamento da ONG?

Bárbara: Sim, estamos trabalhando para que

isso melhore ainda mais. Conseguimos empresas

parceiras que se ofereceram para ajudar no

desenvolvimento de softwares de controle digital

das adoções, pois os registros ainda são no papel

e o acompanhamento acaba tornando-se mais

lento, pois fazemos visitas periódicas aos adotantes

ou cobramos notícias via WhatsApp. Temos

casos de adotantes que já mudaram-se de município,

estado e até de país. Com a instalação do

sistema online podemos desburocratizar e dividir

a tarefa de monitoramento entre os voluntários.

No ato da adoção, a pessoa assina documento

comprometendo-se em dar os devidos cuidados

e mandar notícias do animal. Infelizmente ou felizmente

já tivemos casos em que a pessoa passou

a maltratar depois que o animal cresceu e tivemos

que recolhê-lo. São situações que realmente dificultam

nosso trabalho e todo esforço.

ComTempo: Qual procedimento para

abrigar e adotar um animal?

Bárbara: Nossa prioridade são animais abandonados

e desamparados, por isso sempre

dialogamos com aqueles que querem doar

seus animais simplesmente por não querer

mais cuidar, por ter enjoado ou para não ter

gasto com veterinário.

Imagine um animal com casa e comida ocupando

o lugar de outro animal que está sofrendo na

rua com feridas cheias de larvas. Temos que

priorizar os desabrigados, pois a demanda é gigantesca.

Logo, recebemos o pedido de ajuda

do animal abandonado, verificamos se existe

vaga no abrigo, e se não houver, acionamos os

voluntários inscritos na lista de lar temporário.

Se tivermos vagas, resgatamos e levamos direto

para a clínica. Caso contrário, tudo o que nos

resta fazer é divulgar o máximo possível para

que alguém de bom coração faça o resgate.

Se isso acontecer, entramos com o auxílio veterinário.

Por conta de todos esses esforços

para não rejeitar nenhum pedido, estamos

com dívidas nas clínicas veterinárias, pagas

integralmente com doações. Para adotar,

basta ir em uma de nossas feiras de adoção

com identidade e comprovante de residência

ou entrar em contato pelas nossas páginas

do Facebook e Instagram.

ComTempo: Qual os principais motivos

que levam ao abandono do animal?

Bárbara: A falta de dinheiro e a dificuldade

em castrar. Muitos possuem baixa renda e o

processo de economia para castração acaba

tornando-se mais difícil, principalmente em momentos

de crise como vivemos atualmente, pagando-se

tão caro em necessidades básicas.

Alguns conseguem arranjar um jeito, como o

caso de uma senhora que possuía 10 animais

resgatados e trabalhava como diarista, mas

ainda assim, esforçava-se para recuperá-los.

ComTempo: Há alguma história de

abandono que marcou a ONG?

Bárbara: Somos cheios de histórias, pois o índice

de crueldade humana com os animais é surreal.

São muitos casos delicados que encontram

sua chance de mudança e sempre nos emocionamos.

Mas, os mais fortes são os casos de

adoção sem preconceito, quando alguém adota

um animal especial, adulto ou idoso. Quando um

animal que está em tratamento longo, ou um velhinho,

um cego ou mesmo um adulto ganha um

novo lar, nossos corações enchem-se de alegria,

é uma esperança no ser humano que se renova.

ComTempo: Recebem denúncias de

maus-tratos? Se sim, quantas em média

por semana?

Bárbara: Sim, recebemos no mínimo 3 por dia.

Sempre conscientizando de que nesses casos

a denúncia deve ser feita à Delegacia do Meio

Ambiente, pois são eles que possuem aval para

retirar o animal da posse do dono, e só assim,

encaminhar para nós ou outros grupos de animais.

A maioria dos casos, são donos que deixam

os animais presos na coleira 24h por dia,

sem água, comida e cuidados com a saúde.

ComTempo: Abandono e maus-tratos

aos animais é crime. Qual a importância

de denunciar esses casos.

Bárbara:- Muitas pessoas acham que maltratar

é agredir o animal. Mas, na realidade, perante à

lei, maus tratos significa toda forma de criação

que não forneça o mínimo de bem estar para

o animal. Situações assim não são comuns e

é preciso que as pessoas parem de enxergar

esses atos como “normal”. Denunciar faz parte

do processo de conscientização. Se o animal

é mal cuidado, nós, juntamente à polícia, informaremos

o dono (caso ele seja leigo) e se o

mesmo não apresentar interesse em mudanças,

teremos que recolhê-lo. São exemplos que

mudam o pensamento de uma sociedade.


VOCÊ REPÓRTER

A ARTE NA

EDUCAÇÃO

DOS JOVENS

No mundo de hoje, onde ainda há preconceito étnico

muito grande, conhecer, estudar e aprender são

fatores essenciais para não se deixar levar por problemas

como este.

É papel fundamental da escola apresentar estas diferenças,

já que não são feitas em casa. A arte, mesclada com

o ensino, proporciona visão diferenciada ao aluno sobre o

mundo e a sociedade.

Em entrevista a Comtempo, Ellen Brogna, licenciada em

educação artística e especializada em artes plásticas, falou

sobre a liberdade que a arte proporciona ao ser humano,

a importância de ensinar arte dentro da escola, a

importância desta ferramenta para aguçar o senso crítico,

entre outros assuntos:

BRUNA FACHINA E GABRIEL FIOREZZI

Estudantes da Etec de Bebedouro,

primeiros colaboradores da

retranca ‘Você Repórter’.

ComTempo - Qual a relação entre a

arte de modo geral e a intolerância

religiosa atual e histórica?

Ellen Brogna - A arte é libertadora, então,

não deve concordar com religiões reacionárias

e doutrinárias desde os tempos antigos

até atualmente. A arte não pode ter muros. As

religiões, apesar de terem cultura, travam a

criação do ser humano.

ComTempo - Qual a importância do

ensino da arte?

Ellen - A arte forma um cidadão crítico e revolucionário.

Por isso é importante.

ComTempo - A arte e a vida em sociedade

se misturam, seria a arte

um meio de treinamento para a tolerância

religiosa?

Ellen - Claro que não. A arte, embora em algumas

épocas sejam sacras, ainda não prepara

ninguém para a tolerância religiosa, pelo

contrário, verdadeiros artistas, em sua maioria,

contestam religiões. Até aqueles em que

a igreja foi mecenas.

ComTempo - Como a arte ajuda a desenvolver

o senso crítico?

Ellen– Proporcionando autoconhecimento,

conhecimento teórico e prático de alguns aspectos

artísticos trabalhados no decorrer do

ano. Estimula o senso crítico e abertura da

mente.

ComTempo - A arte precisa da sociedade

para ser representada, mas

a sociedade também precisa da arte

para sobreviver. Você concorda com

essa afirmação? Por que?

Ellen - Sim, a sociedade precisa de arte

para viver, pois deve a expressão artística

a vivência de novas experiências e oportunidades.


A Comtempo também entrevistou o licenciado

em História, José Roberto Almeida.

Para ele, não há vida sem arte e é impossível,

para qualquer ser humano, passar um dia

sem ter qualquer tipo de contato com tal atividade,

independente se estiver praticando ou

apreciando. “Não há maneira de passar um

dia sem música, literatura, filmes, por exemplo.

Creio que a arte influencia em tudo, no

estado de ânimo, num olhar diferente sobre a

vida, ou até mesmo, na percepção da sensibilidade”.

O historiador discorre ainda sobre a

relação entre a arte de modo geral e a intolerância

religiosa atual e histórica: “O Judaísmo

e o Islamismo não têm imagens. O Cristianismo,

para ser aceito na Europa, começou

a usá-las, já que povos como gregos e romanos

tinham hábito de fazer imagens de seus

deuses”, explica.

“Na antiguidade, devido ao fato de viver

da agricultura, os povos do campo sempre

pediam por chuva a deuses como Zeus

ou Thor, era questão de sobrevivência. Esses

habitantes, eram chamados de paganus, (de

onde vem palavra pagão). Essa palavra passou

a designar o que não praticava a religião

cristã. Como o mundo gira, sempre voltando

ao ponto inicial, segundo acreditavam gregos

e nórdicos, o Cristianismo tão perseguido em

seu início ao tornar-se a religião hegemônica,

passa a praticar as mesmas coisas”.

Almeida diz ainda que um bom exemplo

de sua explicação é a perseguição aos judeus,

a destruição da biblioteca de Alexandria,

“a primeira, já que os muçulmanos também a

destruíram, por ela conservar o saber pagão

representado pela filosofia desenvolvida por

Platão e Aristóteles, além de ter a presença de

Hipatia, filósofa que falou sobre o movimento

da Terra em relação ao sol, algo que a Igreja

não aceitava”, conta.

“Depois, veio a perseguição aos cultos

africanos no Brasil colônia, que passaram

a ser considerados demoníacos, quando na

verdade, são apenas formas diferentes de

relacionar-se com a ideia de divindade, não

sendo portanto, melhor ou pior que o Cristianismo.

Os cristãos na Roma antiga eram jogados

aos leões, depois por ordem papal perseguiram

os gatos, o que acabou elevando o

número de ratos e depois de casos de peste

negra na Europa. Em seguida, perseguiram os

judeus como causadores da peste, mas muitos

deles fugiram para a Polônia no século 15.

Ali ficaram, multiplicaram-se e no século 20

todos nós sabemos onde estavam os piores

campos de concentração e extermínio desse

povo. Assim, veja que até hoje existem pessoas

que não gostam de gatos e os que não

gostam de judeus”, exemplifica.

Atualmente há muitos problemas

quando trata-se de religião, pois devido a intolerância,

muitos pensam que suas crenças

são superiores à de outros, logo os problemas

com relação a este tema só aumenta.

“De assassinatos a guerras, há muitas desculpas

para colocar na religião, a culpa por

atos maldosos, que são meramente humanos,

de gente fanática, já que nenhuma religião

prega a intolerância ou a morte de outros

seres humanos.” Diz o historiador.

ComTempo: Arte para o lazer ou

arte para o saber?

José Roberto Almeida: A arte para o lazer

pode ser associada ao saber também.

Afinal, uma obra já traz consigo elementos

de outros saberes, de outras épocas e rompe

a barreira tempo-espaço. Você pode ir

a um museu para se divertir, mas não vai

deixar de aprender algo com as obras ali

expostas. Então, a arte tem esta catarse,

provocando a emoção em quem a aprecia,

mas também despertando o conhecimento

e o saber. Sobra então, a análise de que

a arte, de uma só vez, tem capacidade de

associar tanto o lazer quanto o saber.

ComTempo: Como a arte se relaciona

à filosofia?

José Roberto: A arte tem uma percepção

estética, um dos campos do saber filosófico.

Não há arte sem filosofia nem vice-versa.

Desde Platão e Aristóteles, os saberes

filosóficos e artísticos foram analisados

como coisas que andam juntas, e como tal

se completam.

A primeira forma de saber filosófico foram

os mitos, estes foram pintados, esculpidos

e até cantados. Nos dias de hoje há

muitas adaptações deste tipo de saber nos

diferentes tipos de saber artístico. Poderia

citar brevemente o caso do super-herói

Demolidor. Originalmente surgido nos

quadrinhos, hoje parte de um seriado de

sucesso. Veja que ele, quando jovem, ficou

cego por causa de radiação. Sendo

criado nos anos 60, em plena Guerra Fria,

carregava a preocupação com os efeitos

da radiação sobre o homem. Ao perder a

visão tem seus sentidos ampliados e ganha

uma espécie de radar. Estuda Direito e

torna-se advogado, aí começam as analogias

com a mitologia. Cego como a deusa

da Justiça, Têmis, faz justiça do ponto de

vista legal durante o dia e à noite vestese

para combater o crime com as próprias

mãos. Tendo dois tipos de ações, tem que

aprender a equilibrá-las. Têmis tem olhos

vendados, assim acaba não vendo, pois a

justiça é cega. Ela tem simbologia dupla,

sempre, a balança de dois pratos símbolo

de equilíbrio e do signo de libra, considerado

o signo da justiça, além de usar uma

espada de dois gumes. O Demolidor, que

em inglês chama-se Dare Devil, algo como

Demônio Ousado, é um herói católico, e

luta por justiça de duas formas possíveis.

Há tantos outros exemplos de relação mitológica

que poderíamos passar horas divagando

sobre o tema.

ComTempo: Como a arte é vista pelos

representantes do nosso país e

como ela influencia na tomada de

decisões?

José Roberto: Bom, no que se refere aos

políticos, percebo que há descaso, já que

a arte é uma forma de desenvolver a reflexão,

mas isso não é interessante para a

classe política. Um povo que pensa é uma

ameaça em potencial. Assim, há a propagação

de uma ideia errada, aceita pela

sociedade de que fazer arte é para vagabundo.

Isso faz com que não haja incentivos

mais adequados à produção artística

nacional. E quando há, a população não é

esclarecida ou existe algum tipo de interesse

político, para em algum momento,

receber o favor de volta. Não que o artista

tenha que ser neutro, ninguém é, o

que não pode haver, é a possibilidade de

manipulação política da arte, para que um

grupo político ou sua oposição levem vantagem.

A arte pressupõe liberdade e reflexão.

Se isso fosse levado em consideração,

teríamos um país com mais gente

produzindo arte e refletindo sobre a nossa

condição de nação.”


Sabendo da importância da arte para melhor

formar um cidadão, e tendo consciência de sua

eficaz colaboração dentro da sala de aula, a Comtempo

procurou também, o coordenador de ensino

médio, pós-graduado em gestão escolar e

psicopedagogia da Etec de Bebedouro, no interior

de São Paulo, para explicar como a arte e a

escola precisam caminhar juntos.

ComTempo: Qual a importância do ensino

da arte dentro das escolas?

Lucas Cruz: A arte faz parte do homem moderno,

uma ferramenta para expressar um enorme

potencial que temos de criar e interpretar. Uma

das marcas que a humanidade apresenta depois

de chegar a espécie Homo sapiens sapiens foi o

desenvolvimento da cultura e dentro desta existe

a arte que expressa um pouco do que somos.

Ela mostra que os humanos são mais que animais

selvagens, deixando claro que podemos

“pensar no que pensamos” e sentir através do

pensamento do outro. Trazer tudo isso para a

educação é para conversar um pouco sobre a

constituição da criatura humana.”

ComTempo: No que se fundamenta a

ideia de colocar ensino da educação artística

no currículo escolar?

Lucas: A escola é o espaço onde paramos para

pensar e refletir sobre tudo aquilo que nós humanos

produzimos até os dias atuais, o fato de ensinarmos

nossas novas gerações ajuda o nosso

desenvolvimento, não precisamos começar do

zero toda vez, mas apenas prosseguir em nossas

conquistas e descobertas. Trazer a arte para

esse contexto é ajudar o homem a se enxergar e

se entender, dar sentido a vida e nossa forma de

existir.”

ComTempo: A arte hoje se aplica a todas

as ciências, de que forma um professor

de outra matéria que não seja educação

artística deve estimular esse fator nos

alunos?

Lucas: O conhecimento é uma coisa só, nós dividimos

ele em disciplina, componente, matéria,

ou seja lá qual nome queremos dar na tentativa

de ajudar os alunos a se organizarem. Tudo que

é amplo gera dificuldade para compreender no

todo, pensando nisso fica claro que a arte está

em tudo e precisamos falar dela em vários ângulos

e aspectos para que o aprendizado seja

significativo e útil. Por exemplo, eu leciono ética

e cidadania organizacional e dentro dessa

área consigo linkar vários pontos como cultura,

comportamento humano, diversidade cultural e

social dentre tantos outros campos. Como professor

de biologia consigo explorar a arte dentro

do aspecto do funcionamento do corpo humano,

os sistemas sensorial e nervoso, as células

ligadas a esses sistemas e outras tantas coisas.

Nós educadores precisamos explorar mais esse

todo, o ensino completo, uma tentativa de preparar

melhor nossos alunos para a vida.”

ComTempo: Como a arte pode auxiliar na

educação?

Lucas: Acho que acabei respondendo essa

questão dentro das outras, mas reafirmando,

acredito que entender e aprender sobre como

sentir e expressar a forma como enxergamos o

mundo e os outros humanos é muito importante

para vida em sociedade, um ponto crucial para

nós humanos como criaturas sociais. Muitas vezes

é possível tratar problemas sociais como preconceitos

através da arte e usá-la como porta de

entrada para reflexões sobre um povo e fazê-lo

atingir um novo patamar de maturidade cultural

e social.”

Baseado nas respostas dos entrevistados o ensino

da arte é importante para a vida em sociedade,

já que como vimos a escola prepara seres humanos

melhores que os anteriores e que grandes

problemas que a humanidade enfrentou/enfrenta

foram consequência ou estão relacionados a

arte. Além de que a arte expressa a liberdade de

quem cria. O ensino da arte proporciona aos alunos

uma visão ampla de diversas culturas, também

estimula a criatividade e constrói um senso

crítico para interpretar a própria arte e a sociedade.

Sabendo que a arte traz consigo estas vantagens

podemos concluir que com ela adquirimos um

conhecimento maior sobre os problemas encontrados

acerca do mundo, sendo que como dito

anteriormente ela é libertadora e muito usada

como uma forma de expressão, então podemos

usa-la para que possamos reverter esses problemas

e assim construir uma convivência melhor

no mundo, pois ela irá desenvolver um ponto

em cada um que é ver além do que o artista quer

representar, a possibilidade de enxergar o que

você quer ver, podendo assim aprecia-la melhor

e também alcançar a solução para o problema

representado.


CRENÇAS

AFINAL, O QUE

É A MORTE?

Cada crença apresenta sua

perspectiva a ComTempo.

KIMBERLY SOUZA E GABRIELA BRACK

“O budismo não vê a morte como o fim de tudo ou

como o caminho para a ressurreição. A morte significa

o momento que a gente para. A morte é importante

para que a gente aprenda a viver hoje e não fique

preocupado com amanhã”

Diana Evaristo, professora, em transição

do Catolicismo para o Budismo.

“A morte é final da missão do indivíduo. A gente a vê

como uma passagem, onde o espírito que já cumpriu

aquela fase vai ser recolhido para, futuramente, voltar

para concluir a vida. No dia 2 de novembro, fazemos

uma louvação a Iansã, o orixá responsável pelo recebimento

dos mortos, e também para Obaluaiê Omolu,

o dono do cemitério”

Adolfo Galione, babalorixá, Candomblé

Talvez este seja o maior mistério da vida, paradoxalmente.

Para o dicionário, é a interrupção

definitiva da vida de um organismo, o fim.

Para a ciência, a morte não é um momento exato,

mas uma série de minimortes em diferentes partes

do corpo que vão se desligando em seu próprio ritmo,

desde o nascimento. Pode-se concluir, então,

que determinar o momento e o seu significado sejam

essencialmente uma tarefa religiosa, filosófica

e até cultural?

Em razão das celebrações de 2 de novembro,

Dia de Finados, a Comtempo propõe uma

reflexão sobre a morte sob ópticas de pessoas

com vivências e religiões diferentes umas das outras,

tendo como objetivo, o diálogo plural sobre as

crenças e tabus, um dos princípios fundamentais

desta revista. Acompanhe:

“Misticamente ou não, a morte só significa que um dia

vivemos, depois acaba e vamos para lugar nenhum.

O que vivemos perde-se e a vida eterna é só enquanto

sua memória durar nos que estão vivos”.

Sulivan Cesar, músico, Ateísmo.

“A morte é uma passagem para o todo. É como se todos

fôssemos extensão da criação e encarnados em

vários planos. Migramos de lugar para lugar e quando

morremos é como se voltássemos à essa essência”.

Rafaela Delamagna, reikiana e doula,

Xamanismo.

“Como acredito em reencarnação, a morte significa

um recomeço para o namadurecimento, a vivenciar

o karma, a evolução”

Jennifer Rodrigues, estudante, Umbanda.

“Todos nós somos criados simples e ignorantes,

e caminhamos para o progresso pleno. Nesse

processo, reencarnamos incontáveis vezes em

busca do nosso aprimoramento moral e intelectual.

Dentro desta perspectiva evolucionista de

espírito, percebemos que o que costumeiramente

chamamos de morte é apenas uma mudança de

plano, ou seja, deixamos o plano encarnado e vamos

habitar temporariamente o plano espiritual,

para depois retornarmos ao plano físico no que

chamamos de reencarnação”

Edmir Garcia, professor, Espiritismo

“Eu não temo a morte. Acredito que a minha vida

está nas mãos de Deus, mas não quer dizer que

devo agir imprudentemente. Aproveito cada dia

como se fosse o último e assim um dia viverei eternamente

com o senhor na glória”.

Guilherme Benevides, 24, auxiliar administrativo,

Cristianismo Evangélico

“O pecado original (cometido por Eva gerando a

expulsão do paraíso) deu à humanidade como

punição a chamada morte corporal. Para os que

morreram seguindo o Deus misericordioso e os ensinamentos

do cristo ressuscitado, a vida eterna se

torna uma possibilidade, do contrário, a morte passa

a ocupar um significado de sofrimento causado pela

inveja do mal”

Victor Hugo, estudante, Catolicismo

Em oito perspectivas diferentes, pode-se

chegar a algumas conclusões e a vários novos

questionamentos. Mas algo que todas as crenças

têm em comum é a certeza de que a morte é um

fato indiscutível e que vai chegar a todos mais cedo

ou mais tarde. O importante, afinal, é saber desfrutar

enquanto há vida, aprendendo, sentindo e reconhecendo

as próprias falhas a fim de melhorar. E, principalmente,

ser empático para viver em equilíbrio

com quem também está vivendo à nossa volta. E

para você, caro leitor: Qual o significado da morte?

E mais: Qual a importância da vida?


PERSONA

Foto: Joel Silva

JOSÉ PIUTTI

O MEDO

É A ÂNCORA

DE TODO MUNDO


Filho de Valmira e José, Joel Silva veio ao

mundo em 23 de novembro de 1965, em

Itaú de Minas, pequena cidade do sul de

Minas Gerais. Com seus três irmãos, dois

meninos e uma menina, teve infância parecida com

a de muitos brasileiros: estudou em escola pública,

enfrentou dificuldades e não se preocupava em

olhar para o futuro. “Quando nasci, tínhamos uma

situação financeira boa. Mas, meu pai passou por

problemas financeiros, o que nos fez abrir mão de

muitas coisas.”

Aos 11 anos teve seu primeiro contato com

a fotografia: Uma foto feita por amigo da família, em

frente à sua casa, em preto e branco. A caminho

da escola, encantava-se com as imagens estampadas

nas capas de jornais nas bancas que passava.

Folheava-os tentando entender como aquelas fotos

haviam chegado ali. “Aos onze anos, era isso.

Olhar, tentar entender, sem almejar nada.”

Suas primeiras tentativas em fotografar foram

feitas em uma Kodak emprestada, daquelas em

que era necessário levar a câmera toda para fazer

a revelação, o que o fez nunca ter visto o resultado.

Devido ao trabalho de seu pai, mecânico, mudou-se

diversas vezes de cidade, Ipatinga e Belo Horizonte

foram alguns de seus destinos. Aos 21 anos, foi a

vez de Franca, e aos 24, Ribeirão Preto (ambas no

interior de São Paulo). Nesta última, iniciou curso de

Fotografia na escola de Artes Bauhaus, quando decidiu

que fotografar seria sua profissão.

Em 1992, decidiu fazer a cobertura do jogo

do Brasil contra a Croácia, em solo ribeirão pretano.

“Havia comprado uma câmera barata, vagabundinha.

E ai, queria fotografar este jogo, mas não consegui

entrar, fui barrado pelo fiscal da CBF, Confederação

Brasileira de Futebol, que me alertou sobre a

necessidade de estar credenciado a algum veículo

de comunicação”, conta.

Isso o encorajou a bater na porta da Folha

de S. Paulo, onde foi convidado a sair em busca

de pautas para vender ao jornal. “Sai à procura de

notícias. A gente resgata fatos da rua, enxergo as

notícias como elemento gratuito. Mas você não chega

na primeira esquina e dá de cara com a notícia”,

explica.

Durante uma semana vagou em busca de

acontecimentos marcantes, sem sucesso. Até que

em 14 de maio de 1994, um vendaval atingiu Ribeirão

Preto, afetando cinco mil imóveis, deixando

60% do município sem energia elétrica e mais de

600 pessoas desabrigadas. Silva fretou um avião e

fotografou o estado de calamidade da cidade, decretado

pelo governo estadual. Entregou as fotos à

editora da Folha que pagou pelo freela e pelo avião.

Depois, uma vaga para fotógrafo surgiu e Joel foi

contratado.

Sua primeira grande cobertura aconteceu

Foto: Joel Silva

Em uma cobertura, você tem sempre o desafio de tentar demonstrar de uma maneira fiel o que foi a ocupação.

Ela serviu para colocar a presença do Estado no morro e tranquilizar a vida dos moradores. O que mais representa

isso? Um soldado hasteando a bandeira do BOPE ou as crianças buscando se divertir na piscina dos traficantes?

em 1998, durante a Copa do Mundo da França. “No

final do Mundial, fiz um registro histórico: Ronaldo

trombando com Valdez. O Goleiro passando por

cima do Ronaldinho e ele caindo. Tenho o negativo

até hoje. É uma imagem histórica.”

Pouco antes do Mundial de 98, no qual a

França venceu em casa, Silva começou a trabalhar

com serviços populares, tendo contatos com a

violência urbana, quando surgiu investigação sobre

drogas. “Aí surgiu a Colômbia, seguimos todo o trajeto

das substâncias e, em 2000, fui ao país acampar

com as FARC, Forças Armadas Revolucionárias

da Colômbia, tendo seu primeiro contato com a

zona de guerra.

Silva relata que uma cobertura deste porte

é limitada: “Não é tudo que pode ser fotografado

num acampamento. Tive acesso aos seus treinamentos,

conheci o comandante das FARC, Raul

Reyes, morto na fronteira com a Bolívia, e durante a

guerrilha, entendemos bem à ideologia dos revolucionários”.

Em 2009 recebeu nova missão: cobrir o

golpe militar em Honduras, onde o exército aprisionou

o presidente Manuel Zelaya e o enviou ao exílio.

“Ao chegar no país, eles estavam em toque de recolher.

A parte que apoiava Zelaya botava fogo em carros,

era um cenário de desastre máximo, como todo

país em revolução. O que marcou foi uma menina

que morreu com gás lacrimogêneo. Fiz seu enterro.”

Em 2010, Silva enfrentou a zona de guerra

em território nacional, sendo escalado para cobertura

da reintegração de posse no Morro do Alemão,

no Rio de Janeiro, onde encontrou novos desafios.

“Trabalhar em geografia com morros, como na favela,

é uma zona altamente perigosa porque você não

sabe de onde vem os tiros. Costumo dizer que as

coberturas nos morros do Rio são as mais perigosas

do mundo, a localização não facilita, e os traficantes

não respeitam a imprensa”, conta Silva, que relata:

“Os bandidos estavam de olho e sabiam onde nós

estávamos. Certa vez, estava perto de um policial

e os bandidos invadiram a frequência dos rádios,

dizendo que iriam nos acertar e eu seria o primeiro

a morrer. O policial pediu para manter a calma, que

eram apenas ameaças. Você não sabe de onde

sendo observado e pode morrer sem saber”.

A carreira do fotojornalista é marcada, também,

por coberturas em zonas de conflitos no oriente

médio. Esteve na Guerra da Síria e na revolta da

primavera Árabe, na Líbia. Cobriu o massacre no

Cairo, capital do Egito, que vitimou mais de 800 pessoas

em um único dia. “Coberturas assim são sempre

tensas pela decisão que você tem que tomar.

Às vezes é a certa, às vezes, errada. A cada dez

minutos você tem que tomar uma decisão e essa

decisão significa sua vida.”

Em 2015, saiu como andarilho pelas rodovias

do Brasil. Foram 35 dias e 8 mil km rodados

- de Chuí, RS, a Piranhas, AL. “O jornalismo passa

por um momento de reavaliação profissional e eu

ofereci ao jornal sair do Chuí para andar de carona

como um desafio para ver a sociedade de uma outra

forma. Isso foi relatado em meu blog, (disponível

em: malucodebr.blogfolha.uol.com.br).

19


Foto: Joel Silva

ComTempo: O que os 35 dias caminhando

pelo Brasil lhe ensinaram?

Joel Silva: Valores. Quando você desprende-se

deles, sua visão muda completamente.

Quando vive apenas de comer e dormir, passa

a olhar para a sociedade de outra maneira.

Não é errado buscar uma casa confortável,

as pessoas estão ficando ansiosas e isso

é uma coisa ruim. É preciso ter o suficiente

para viver de forma confortável. Tudo além

disso é excesso e acaba virando um peso.

Precisamos rever nossos valores, é o que

posso deixar de dica dessa experiência

ComTempo: E sua relação com a morte?

Joel Silva: Comecei a ter contato com a

morte nos serviços populares. Depois, foi tornando-se

algo frequente, como no Massacre

em Cairo. Lá, os manifestantes começaram

protestar e o exército os repeliu com tiros,

matando mais de 800 pessoas. Fomos até

a mesquita onde estavam sendo colocados

os corpos. Cheirava a sangue e os familiares

apontavam para as manchas nos lençóis

que cobriam os corpos. Todas na região da

cabeça.

ComTempo: Já esteve frente a frente com

ela?

Joel Silva: Várias vezes. Uma bomba explodiu

do meu lado; tomei tiro de raspão no Cairo;

tive que fugir da Líbia perseguido pelos

soldados, pois sabíamos que seríamos pegos,

então, fugimos por 17 horas numa van

até a capital do Egito. Foi o maior momento

de tensão que já tive na vida. Houveram

vários momentos onde estive de frente com

a morte, e isso é tenso, mexe com a gente.

Sobre o tiro, na hora não pensei em nada, só

fui refletir depois que voltei do oriente médio.

Encaro isso como acidente da profissão, foi

de raspão e estou vivo.

ComTempo: Como não envolver-se?

Joel Silva: É impossível. Sem envolvimento,

não há participação na história. Quando você

submerge no porão de uma sociedade para

trazer ao mundo aquilo que ela não consegue

ver, você também é contaminado.

ComTempo: Como sua família reagiu ao

saber que iria para zona de guerra?

Joel Silva: Ele são tranquilos. Sabem que tenho

cuidado, tenho muito medo - o que ajuda

na cobertura - e entendem que é minha profissão.

Se acontecesse algo, é porque tinha

que acontecer.

ComTempo: Restam traumas?

Joel Silva: Sim. Quando se vai pra zona de

guerra, não volta o mesmo. O famoso estresse

pós traumático. Não sou a mesma pessoa

de quando iniciei na fotografia. O Joel de

1994 não é o mesmo Joel de 2018. Onde

o que há de mais podre, sujo da sociedade, é

impossível sair ileso.

ComTempo: O que o Joel de 2018 diria pro

Joel de 1994?

Joel Silva: Se hoje eu fizesse uma ligação

pro Joel de 1994, diria para que continue fazendo

aquilo que ele realmente gosta de fazer.

Poderia ter morrido no meio do caminho?

Sim!

Se tivesse acontecido, sei que teria tomado

todas as medidas possíveis para não acontecer.

Agora, estou dando uma entrevista para

a ComTempo, então, que siga em frente. O

medo é a âncora de todo mundo.

Comtempo: É possível ter fé no próximo?

Joel Silva: Sim. A amargura faz parte da vida,

mas não podemos entregar-se a ela e dizer

que a sociedade está perdida. Ainda há gestos

humanos que nos fazem acreditar no próximo.


Rebelde corre proximo

a bomba

lançada por caça

da Força Aérea

da Líbia. Foi a primeira

imagem de

bombardeio do ditador

contra forças

rebeldes na Líbia

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