Revista Dr Plinio 285

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Dezembro de 2021

Publicação Mensal

Vol. XXIV - Nº 285 Dezembro de 2021

Alegria, confiança e

reparação no Santo Natal


Flávio Aliança

Vítima do ódio ao

Bem e à Verdade

Martírio de Santo Estêvão

Igreja de Santo Estêvão, Nova Jersey

Àmedida que Santo Estêvão mani-

festava as maravilhas que trazia

em seu interior, o ódio contra ele

ia aumentando.

Primeiro, à vista dos milagres que

operava, os inimigos se levantaram para

disputar com ele. Depois, tendo o san-

to diácono discutido maravilhosamente,

reduzindo-os ao silêncio, aumentou-lhes

o ódio a ponto de fazê-los ranger os den-

tes. Ao vê-lo num êxtase, transbordando

de sobrenatural, resolveram matá-lo.

Ódio ao quê? Não pensemos que Santo

Estêvão foi inábil, imprudente, de maneira

a não se fazer entender por aque-

la gente. Entenderam-no com perfeição.

Mas está na essência da iniquidade e

perfídia dos filhos das trevas odiar o bem

e a verdade, que, quanto mais vão se ma-

nifestando, tanto mais são odiados.

Por fim, o ódio culminou na lapidação,

e então se passou esta cena maravilhosa:

Santo Estêvão, qual outro Cor-

deiro de Deus, com os olhos voltados

para o céu, todo ferido, pronunciou es-

ta oração: “Senhor Jesus, recebei o meu

espírito!” Em seguida, vergado pelas pe-

dradas, caiu de joelhos e disse: “Senhor,

não lhes imputeis este pecado!”

Um suspiro... e aquele homem todo

ensanguentado dormiu no Senhor. A

tormenta se tinha transformado num

sono, na morte plácida dos justos; o

martírio estava consumado e sua alma

subia ao Céu.

(Extraído de conferência de 26/12/1966)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXIV - Nº 285 Dezembro de 2021

Vol. XXIV - Nº 285 Dezembro de 2021

Alegria, confiança e

reparação no Santo Natal

Na capa,

Dr. Plinio em

dezembro de 1989.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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INSC. - 115.227.674.110

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Serviço de Atendimento

ao Assinante

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Segunda página

2 Vítima do ódio ao

Bem e à Verdade

Editorial

4 Venti et mare

obœdiunt ei

Piedade pliniana

5 Oração para a noite

de Natal

Dona Lucilia

6 Giro pelas lojas de

brinquedos

Dr. Plinio comenta...

8 Presença régia e vitoriosa

do Divino Infante

Denúncia profética

12 Luta perpétua entre

bons e maus

Hagiografia

15 Um dos primeiros lutadores

contra a heresia

Calendário dos Santos

18 Santos de Dezembro

Perspectiva pliniana da História

20 Revolução tendenciosa e

Revolução sofística

Apóstolo do pulchrum

28 Beleza e praticidade que

conduzem a Deus

Última página

36 Primeiro lance da Contra-Revolução

3


Editorial

Venti et mare obœdiunt ei

Na noite de Natal é normal que, reunidas junto ao Santo Presépio, as famílias pensem nas

graças recebidas ao longo do ano que vai findando e nas perspectivas descortinadas diante

delas para o ano novo que se aproxima.

Cristo Nosso Senhor é o centro da História. N’Ele se encontram o passado, o presente e o futuro.

É, portanto, justo que essas cogitações aflorem, entre tantas outras, ao espírito daqueles que procuram

ser fiéis à Santa Igreja Católica Apostólica Romana nesta nossa sociedade tão conturbada.

De todo lado vemos corrupção, confusão e ruína, no que há matéria abundante para nos sentirmos

carentes da proteção divina e a peçamos com toda devoção ao Menino Jesus, por meio de José e de

Maria Santíssima, cuja intercessão junto a Ele tem um valor tão decisivo.

Contudo, não podemos celebrar esta magna Festa como se fosse um ano qualquer. Nosso Natal

deve ser como numa casa de família onde a mãe encontra-se gravemente enferma e padecendo dores

atrozes. Compreende-se que se monte uma árvore de Natal, e haja um movimento de piedade e de

alegria a propósito de data tão augusta. Mas isso tudo deve ser dominado pela lembrança da mãe doente,

projetando uma espécie de luz violácea sobre as festividades.

É bem essa a atmosfera que deve haver em nossas comemorações natalinas, por razões tão bem

conhecidas por todos nós. Devemos, pois, carregar a dor de nossa Santa Mãe, a Igreja, durante este

Natal, e sabermos ter um espírito de reparação nos atos de piedade oferecidos por nós nesta ocasião.

Nossa Senhora, com certeza, desde o primeiro instante reparava junto ao Menino Jesus todos os

sofrimentos que Ele haveria de padecer. Ao contrário do que se costuma pensar – ou seja, que as tristezas

são inconvenientes para o Natal –, aquela noite sacrossanta teve tristezas.

Ora, nas atuais circunstâncias não ter esse pesar pela situação da Santa Igreja é inconcebível. Então,

o cálice da dor está sendo sorvido até a última gota, e nós, em vez de meditarmos nos cálices com

fel, pensamos apenas nas taças com champanhe? Como uma alma verdadeiramente católica pode ser

assim?!

Porém, uma confiança inabalável deve acompanhar essa tristeza. Não nos deixemos apavorar pelos

vagalhões que sacodem o mundo moderno. Uma palavra do Divino Mestre pode impor limites à

tormenta e salvar os que estão com Ele na barca.

Depois de ter ordenado aos ventos e às águas revoltas do Lago de Genesaré que se aplacassem,

por certo Jesus pôde ouvir de seus discípulos este comentário que terá alegrado o seu Sagrado Coração:

“Qualis est hic, quia et venti et mare obœdiunt ei?” – “Quem é este a quem até os ventos e os mares

obedecem?” (Mt 8, 27).

Não haverá ventos que a Providência Divina não reduza ao silêncio, nem mares que Ela não contenha

nos devidos limites, na medida em que isto seja para a maior glória de Deus e salvação das almas.

De nossa parte, devemos pedir ao Menino Jesus a graça de prestarmos à Causa da Civilização

Cristã todos os serviços necessários para conter os vagalhões da imoralidade e da corrupção contemporânea.

*

* Cf. Conferências de 20/12/1965 e 30/11/1990.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Oração para a noite

de Natal

Arquivo Revista

ÓDivino Infante, eis ajoelhado diante de Vós mais um militante trazido

pela graça obtida por vossa divina e celeste Mãe. Aqui está este

batalhador, antes de tudo, para vos agradecer.

Agradeço-vos a vida que destes ao meu corpo, o momento em que insuflastes

minha alma e o vosso plano eterno a meu respeito, segundo o qual eu

deveria ocupar, por desígnio divino, um determinado lugar, mínimo que fosse,

dentro da coleção dos homens para compor o enorme mosaico de criaturas

humanas destinadas a subir até o Céu.

Agradeço-vos por terdes posto a luta no meu caminho, para que eu pudesse

ser herói; todos os anos de minha vida passados na vossa graça, como também

aqueles vividos fora dela, mas que foram encerrados por Vós num determinado

momento em que abandonei o caminho do pecado.

Agradeço-vos, Menino Jesus, tudo quanto por vosso auxílio fiz de difícil

para combater os meus defeitos, e por não vos terdes impacientado comigo,

conservando-me vivo para que eu ainda tivesse tempo de corrigi-los até a hora

de morrer.

Nesta noite de Natal, dirijo-vos esta prece, adaptando o Salmo que diz:

“Não tireis a minha vida na metade de meus dias!” Não me tireis os dias

na metade da minha obra, que meus olhos

não se cerrem pela morte, meus músculos

não percam seu vigor, minha

alma não perca a sua força e agilidade,

antes que eu tenha, por

vossa graça, vencido todos os

meus defeitos, atingido todas

as alturas interiores que me

destinastes a galgar e, por

feitos heroicos realizados no

vosso campo de batalha, vos

tenha prestado toda a glória

que de mim esperáveis

ao me criardes!

(Composta em

23/12/1988)

Dr. Plinio em

dezembro de 1988

5


Dona Lucilia

Arquivo Revista

Rosée e Plinio

Divulgação

Divulgação

Exterior da Casa Mappin

Salão de chá, localizado no segundo

andar da Casa Mappin

Ao visitar as lojas de brinquedos

por ocasião do Natal, sem

distinguir com clareza desde

o primeiro instante, duas

tendências se colocavam ao

menino Plinio: uma, a de gozar

a vida; outra, a de carregar a

cruz de Nosso Senhor Jesus

Cristo. Com o tempo, os fatos se

impuseram, começou a batalha e

ele passou a desenvolver uma luta

raciocinada contra a Revolução.

Nas proximidades do Natal,

Dona Lucilia levava minha

irmã e eu, juntamente com

a Fräulein Mathilde, para tomar lanche

na Casa Mappin 1 .

Um mistério do Natal...

Era chá no sistema inglês, com bolos,

sorvete – criança gosta de sorvete

superlativamente – e sanduíches com

presunto estrangeiro. Havia também

uma coisa bastante simples da qual gos-

to muito e que era preparada com esmero

no Mappin: pão torrado com

manteiga, feito de maneira ao pão estar

ainda mole e a manteiga derreter-se

toda e penetrar nele, dando um sabor

especial ao conjunto; e música tocando.

Nós nos sentávamos, em geral,

num lugar de onde podíamos contemplar

a vista ao fundo, com as janelas

grandes abertas, pelas quais

entrava uma ventania forte. E eu era

um entusiasta da ventania!

Dias depois desse chá vinha o giro

pelas lojas de brinquedos, para minha

irmã e eu escolhermos os presentes.

Já estávamos grandinhos, sabíamos

que não existia Papai Noel.

Então escolhíamos os nossos presentes,

mas apesar de tudo não sei porque

eles não nos eram dados no momento.

Dona Lucilia mandava comprar

os presentes e ficava acertado

que seriam entregues em nossa casa.

Fazia parte dos mistérios do Natal.

6


É possível que mamãe os levasse

sem eu perceber. Toda a vida fui

muito distraído, sobretudo com as

pessoas em quem confio. E com ela,

oceanos de confiança!

Desenvolvimento de

um veio militarista

Entre as lojas de brinquedos, havia

uma de alemães chamada “Casa

Fuchs” – Fuchs é uma palavra alemã

que quer dizer raposa –, onde expunham

presentes que me deixavam

entusiasmados. Como já ia se desenvolvendo

muito em mim um veio militarista,

os soldadinhos de chumbo

me encantavam.

Mas eles tinham também caixas

com certos materiais para “construir

casas”. Creio que eram brinquedos

norte-americanos. Tratava-

-se de uma massa com várias cores,

com a qual um menino podia imaginar

e construir uma casa. O cheiro

dessa massa e dos galhos de pinheiro,

com que os Fuchs ornamentavam

por dentro a loja, ficaram para mim

dois aromas característicos de Natal.

Essas coisas despertaram em mim

um desejo debandado do gozo pela

vida, de levar uma existência gostosa,

com dinheiro, fazendo o que eu

queria, sem sacrifício nenhum, sem

pecado, mas deliciosa em tudo.

E como exatamente não entrava

ali nenhum consentimento ao

pecado, eu achava que aquilo tudo

era muito bom e podia me entregar

àqueles prazeres como quisesse. De

onde um desejo da vida luxuosa, mas

não de luxinho qualquer; luxo de

grão-duque!

Bem entendido, nos meus projetos

entravam viagens à Europa. Passava-me

também a ideia de viajar aos

Estados Unidos, mas devo confessar

que a estátua da Liberdade me causava

um horror pouco descritível. Ademais,

eu fazia ideia dos Estados Unidos

enquanto uma nação protestante,

não tinha noção da existência de tantos

católicos já naquele tempo, por

causa da imigração italiana, irlandesa

e uma série de outros fatores.

Ora, perto de minha casa havia

uma igreja protestante, e eu sonhava

em dar um tiro de canhão e derrubar

a torre daquele templo herético.

Pode-se imaginar que nada disso aumentava

em mim a vontade de ir aos

Estados Unidos. Exceto duas coisas

que sempre me fascinaram: as Cataratas

do Niágara e os Grandes Lagos.

O resto, muito menos. Dos arranha-céus

eu sentia uma fobia que

não tem palavras!

Diante de dois caminhos

Assim, eu via se abrirem diante de

mim dois caminhos diferentes, fora

do pecado: um, o de gozar a vida; outro,

carregando a cruz de Nosso Senhor

Jesus Cristo, sofrendo perseguição,

sendo detestado, odiado, ignorado,

posto de lado pelos outros.

Essas duas tendências não cheguei

a distingui-las logo. Porém os

fatos se impuseram para mim, porque

começou a batalha dentro

do colégio. Então, passei

a desenvolver uma luta raciocinada,

política, naquele

ambiente para disputar um

À direita, propaganda

da Casa Fuchs.

Abaixo, soldadinhos de

chumbo de Dr. Plinio

lugar ao sol, que o silêncio velhaco e

o abandono me negavam.

Iniciou-se, portanto, uma tática propriamente

de um político, com habilidades

maiores ou menores – não me

tenho em conta de um grande político

–, para, sozinho, virar de perna para o

ar a política que se fazia contra mim.

Entrava até um tanto de guerra

psicológica, a qual eu nem sabia existir,

mas que, apalpando, ia percebendo:

tal coisa se faz assim, tal outra

daquele jeito, etc.

Então, alterei em parte a situação.

Mas nessa ocasião tinha contra

mim toda a Revolução e já formara

o ideal da Contra-Revolução. Torci

o pescoço da bruxa, não pensei mais

na vida de grão-duque e tomei a cruz

de Nosso Senhor Jesus Cristo! v

(Extraído de conferência de

5/6/1991)

1) Situada no centro velho de São Paulo.

Arquivo Revista

Divulgação

7


Dr. Plinio comenta...

Presença régia

e vitoriosa do

Divino Infante

Como o mundo atual é semelhante

àquele no qual viveram os

homens nas vésperas do Natal!

Tudo parecia ruir, porém almas

esparsas pela Terra esperavam por

uma restauração. Não virá para

nós também um acontecimento

que nos liberte de todo o horror

dentro do qual estamos?

Um Menino está para nascer

em Belém! O que dizer desse

acontecimento?

Quando o Verbo se encarnou e habitou

entre nós, qual era a situação da

humanidade? Com certeza, bastante

parecida com a de nossos dias.

Num mundo pagão

algumas almas esperavam

a restauração

Apesar do pecado de Adão e Eva,

havia uma como que inocência patriarcal

das primeiras eras da humanidade,

que foi deixando vestígios

cada vez mais raros ao longo da História.

E uma ou outra pessoa de cá,

de lá ou de acolá, ainda refletia essa

retidão primitiva. Homens esparsos

que não se conheciam, pois não

tinham contato entre si, e, em consequência,

não formavam um todo,

mas saudosos e pensando com nostalgia

num passado tão longínquo

que talvez nem sequer tivessem dele

um conhecimento umbrático; olhavam

o estado da humanidade do seu

tempo representando uma decadência

terrível, confirmada pelo que havia

de poderoso e cheio de vitalidade:

o Império Romano.

Ele era o mais quintessenciado, o

último e mais alto produto do progresso.

Porém, não durou muito tempo,

pois caiu por causa de sua devassidão.

Assim, coube-lhe o fim inglório

de ser calcado aos pés pelos bárbaros,

aqueles a quem os próprios romanos

desprezavam e consideravam feitos

para serem seus escravos. Esses haveriam

de tomar conta deles.

Esse poderoso Império dominara

um mundo podre. E se teve tanta facilidade

para dominá-lo, em grande

parte foi porque ainda era um pouco

sadio. Devorando o mundo, o Império

engoliu a podridão; e deglutindo a

conquista, esta matou o conquistador.

Todos os vícios do Oriente escorreram

como torrentes em Roma e a tomaram.

Assim, transformada numa cloaca,

numa sentina, por sua vez, espalhava

por toda parte – multiplicada e

acrescida – aquela corrupção.

Entretanto, algumas almas opressas

por essa situação sentiam que algo

estava por acontecer e compreendiam

que, ou o mundo acabaria, ou a Providência

de Deus interviria. Essas almas

tinham a sua desventura e a sua angústia

levadas ao máximo na véspera do

dia de Natal. Vivia-se o fim de uma era

8


Adoração dos Reis Magos

Museu Nacional de Arte da

Catalunha, Barcelona

em seus estertores, mas na aparência

da paz, e ninguém tinha ideia de qual

poderia ser a saída.

Eis que, naquela véspera de Natal,

tão terrivelmente opressiva para

todos, em Belém, numa gruta, havia

um casal que possuía uma castidade

ilibada, e a Virgem Esposa, entretanto,

seria Mãe. E, nessa gruta, em

determinado momento, enquanto se

rezava em profundo recolhimento, o

Menino Jesus estava na Terra!

Autêntica adoração

Os pastores, que relembravam

a retidão antiga, vendo aparecer os

Anjos cantando e anunciando-lhes

a primeira notícia: “Glória a Deus

no mais alto dos Céus e paz na Terra

aos homens de boa vontade!”, encantaram-se

e foram em direção

Flávio Lourenço

ao presépio, levando seus presentinhos

ao Menino Jesus. Foi o primeiro

magnífico ato de adoração, o qual

bem poderíamos chamar de “ato de

adoração da tradição”.

Eles representavam a tradição da

retidão pastoril, daquelas condições

de vida puras, perdidas em meio ao

mundo depravado e cuidando de pequenos

animais. Pastores que, levando

uma vida recatada à margem da podridão

daquela civilização, foi-lhes anunciado

em primeiro lugar o grande fato:

“Puer natus est nobis, et filius datus

est nobis” (Is 9, 5) – “Um Menino nasceu

para nós, um Filho nos foi dado!”

Pouco depois, no outro extremo

da escala social, vinha também uma

caravana, era outra maravilha. Uma

estrela peregrina no horizonte... e,

do fundo dos mistérios pútridos do

Oriente, homens sábios, magos, cingindo

a coroa real, deslocam-se de

seus respectivos reinos.

Imaginemos que, em determinado

momento, esses grandes monarcas se

encontraram e se veneraram reciprocamente.

Sem dúvida, cada um contou

para os outros de onde vinha, e os

três se encantaram ao ver que os aliara

a mesma convicção, a mesma esperança

e o chamado para percorrer o

mesmo itinerário. Por fim, chegaram

juntos à gruta levando as três culminâncias

dos respectivos países: ouro,

incenso e mirra, e renderam outra

adoração ao Menino Jesus. Aí já

não era mais a tradição dos mais humildes,

mas sim, a dos mais elevados.

A tradição tem isso de interessante,

de tal maneira ela é feita para todos,

que possui um modo próprio de

residir em todas as camadas sociais.

Na burguesia ela se manifesta simplesmente

na estabilidade. Na nobreza,

pela continuidade na glória;

enquanto no povinho, pela continuidade

na inocência. Ora, esses reis,

ápices da nobreza de seus respectivos

países, traziam junto com a dignidade

real, uma outra elevada honra:

a de serem magos. Eram homens

sábios, tinham estudado com espírito

de sabedoria, pois no momento

em que eles receberam a ordem:

“Ide a Belém, e ali tereis as vossas

esperanças realizadas”, seus espíritos

encontravam-se preparados por

tudo aquilo que conheciam e tinham

estudado do passado.

Logo irrompe a perseguição

De imediato, desencadeou-se a

perseguição. A meu ver, não seria

razoável, nestas circunstâncias, meditarmos

no Natal sem tomarmos

em consideração a matança dos inocentes;

essa tragédia que acompanha

tão de perto a celeste paz, a serenidade

magnífica e toda cheia de sobrenatural,

do “Stille Nacht, Heilige

Nacht”. Essa cruel matança tingiu de

sangue a terra que mais tarde se tornaria

sagrada, porque aquele Menino

ali verteria seu Sangue Sacrossanto.

Apenas Ele se manifestou, a espada

assassina dos poderosos se moveu

contra Ele. No momento em que

essas maravilhas se afirmam, o ódio

dos maus se levanta contra elas como

uma corja.

Com frequência, a matança dos

inocentes é considerada de um modo

humanitário. Não há dúvida de

que essa ponderação tem algum cabimento,

pois eles eram inocentes

e foram mortos, crianças covardemente

trucidadas. Porém, essa apreciação

justa e de compaixão empana,

no espírito moderno e naturalista,

a consideração mais importante:

aquele massacre era o prenúncio do

deicídio, pois tendo recebido a informação

de que ali nasceria o Messias,

o rei dos judeus teve a intenção de

matá-Lo, e para isso mandou assassinar

todos os meninos!

Embora não tivessem plena consciência

de ser o Homem-Deus, de

um modo ou de outro, a intenção era

de atingir, senão Deus, pelo menos

o enviado d’Ele. Daí uma série de

outros fatos, e a História Sagrada se

desenrola diante de nós.

9


Dr. Plinio comenta...

Ontem e hoje o mundo agoniza

Como a nossa vida é parecida com

a dos homens que viveram na véspera

do “Puer natus est nobis, et filius datus

est nobis!” O mundo de hoje agoniza

como agonizava o das vésperas do nascimento

de Nosso Senhor. Tudo é desconcertante,

loucura e delírio. Todos

procuram aquilo que cada vez mais foge

deles, como o bem-estar, a vidinha,

o gozo infame, as trinta moedas com

as quais cada um vende o Divino Mestre,

que implora a defesa e o entusiasmo

daqueles a quem Ele remiu.

É muito provável que nestas condições

haja algum homem, pela vastidão

da Terra, a gemer por presenciar

diante de si o mundo caindo em

pedaços; é o descalabro da Cristandade

ou, hélas, a terrível crise na

Santa Igreja imortal, fundada e assistida

por Nosso Senhor Jesus Cristo,

de tal maneira em declive que se

soubéssemos ser ela mortal, seríamos

levados a dizer que está morta.

Eu me pergunto: não virá para

nós um acontecimento enorme,

talvez dos maiores da História

– embora infinitamente

pequeno em comparação com

o Santo Natal –, que nos liberte

também de todo o horror dentro

do qual estamos?

O que dar e pedir

ao Menino Jesus?

Arquivo Revista

mo a Ele!” Não é verdade! Se Jesus

nos receber em suas mãos divinas,

nos transformará em vinho como a

água nas bodas de Caná e seremos

outros. Digamos a Ele: “Senhor, modificai-nos!

Asperges me hyssopo et

mundabor: lavabis me, et super nivem

dealbabor. Senhor, aspergi-me com

hissope e eu ficarei limpo; lavai-me e

tornar-me-ei mais alvo do que a própria

neve! (Sl 51, 7). Vosso presente,

Senhor, é a criatura que vos pede:

aspergi-me, purificai-me!”

Ora, esse presente devemos oferecê-lo

pela intercessão de Nossa Senhora,

pois, como oferecer algo como

nós, a não ser por meio d’Ela? E se

tudo fazemos por seu intermédio, por

que não pedir um presente a Nosso

Senhor também através de sua Mãe?

Sem dúvida, o dom fundamental que

devemos implorar é o seguinte: “Senhor,

mudai o mundo! Ou, se não há

outro meio, abreviai os dias cumprindo

as promessas e as ameaças de Fátima!

Mas, para perseverar pelo me-

Dr. Plinio em dezembro de 1983

Aos pés do Presépio, se Deus

quiser, vamos celebrar o Santo

Natal, e devemos levar nossos

presentes o Menino-Deus como

fizeram os Reis Magos e os

pastores. Entretanto, o que dar-

-Lhe? O melhor presente que

Ele quer de nós é a nossa própria

alma, o nosso coração! O

Divino Infante não deseja nenhum

outro presente da nossa

parte a não ser este.

Alguém dirá: “Que pífio

presente, eu dar a mim mesnos

os que ainda perseveram, Senhor,

tende pena deles, abreviai os dias de

aflição e fazei vir o quanto antes o

Reino de vossa Mãe.”

Enquanto estivermos cantando o

“Stille Nacht, Heilige Nacht” e as demais

canções sagradas do Natal, devemos

ter bem presente o seguinte:

tudo é muito bonito e muito bom

na lembrança do fato havido há dois

mil anos, sobretudo porque temos a

convicção de que Nosso Senhor continua

presente na sua Santa Igreja

e na Sagrada Eucaristia, e sua Mãe

nos auxilia desde o Céu

Na Terra, porém, é preciso pedir

uma presença régia e vitoriosa do Divino

Infante! Inclusive, podemos dar

a esse pedido uma outra formulação:

“Ut inimicos Sanctæ Matris Ecclesiæ

humiliare digneris, te rogamos audi

nos!” “Senhor recém-nascido, que repousais

nos braços de vossa Mãe como

no mais esplendoroso trono que

jamais houve e haverá para um rei na

Terra, nós vos suplicamos: dignai-vos

humilhar, abaixar, castigar, tirar

a influência, o prestígio, a quantidade

e a capacidade de fazer

mal, aos inimigos da Santa Igreja

Católica Apostólica Romana,

a começar pelos mais terríveis; e

estes não são os externos, mas os

internos!” Em suma, peçamos

a forma mais requintada da vitória

de Nosso Senhor: o esmagamento

dos seus adversários e

a vitória de sua Mãe Santíssima!

Lembranças das

noites de Natal

As recordações dos natais da

infância fixadas na minha memória

se fundiram num só Natal.

Todos se repetiram com muito

encanto e agrado para mim,

sem que eu os deixasse de achar

sempre novos. Eu poderia tentar

descrever as sucessivas impressões

de como se comemorava

o Natal na igreja e em casa.

10


O Natal na igreja se celebrava com

uma Missa, mas não era a do Galo.

Nela se adorava a Nosso Senhor, enquanto

recém-nascido em Belém, e

em seguida, fazia-se uma consideração

do Presépio. Por último, o sacerdote

pronunciava a bênção.

Eu tinha uma dupla impressão do

Natal. Por um lado, chegava diante

do Presépio e me comovia muito, me

emocionava, pois me parecia que dele,

de fato, emanava paz e tranquilidade.

Vendo o Menino deitado de braços

abertos, tinha a sensação de estarem

abertos para mim e para todos os que

O venerassem. Braços acolhedores,

afáveis, cheios de simpatia e perdão.

Assim, eu me tomava com aquela

alegria do Natal, toda ela intensa e

sobrenatural, mas, ao mesmo tempo,

carregada de tristeza. Por quê? Vejam,

por exemplo, a imagem do Sagrado

Coração de Jesus que se encontra

numa das capelas laterais da igreja

dedicada a Ele, na cidade de São Paulo.

Essa imagem é muito bondosa e vê-

-se Nosso Senhor imerso na felicidade

celeste, mas Ele aponta para o seu

Coração num gesto de tristeza, como

que repetindo as palavras ditas a Santa

Margarida Maria Alacoque: “Eis aqui

o Coração que tanto amou os homens

e por eles foi tão pouco amado.” Por

isso, a devoção ao Sagrado Coração

de Jesus tem essa nota reparadora, em

que nós devemos atenuar o sofrimento

d’Ele pelos pecados dos homens.

Então, essa serenidade da dor, misteriosamente

ligada à alegria natalina,

tinha para mim um sabor especial, que

não sabia explicar, mas me parecia

que a alegria perderia muito sua razão

de ser se a dor ali não estivesse presente.

Era, de fato o júbilo natalino, mas

numa determinada forma que o Natal

não apresenta de imediato, ou seja, a

alegria da resignação para o que viria

no futuro, aceitando-o com bondade e

com abertura de alma para a dor.

Assim como o Divino Redentor

sofreu, todos os homens sofrerão. Então,

aquele menino que estava feste-

Nascimento de Jesus - Paróquia La Merced, Guatemala

jando o Natal sofreria também. Mas,

quando chegasse a hora da dor, ele já

deveria ter conquistado uma certa serenidade

tranquila, augusta, cheia de

paz, a qual faria com que dentro da

própria dor, ele tivesse alegria.

Essa era a mensagem de Natal

que se tornava tão clara, no seu sentido

religioso, na Missa do dia celebrada

na Igreja. Na véspera do Natal

não tinha a mesma intensidade.

O sentido religioso era claro, mas a

festa era feita num ambiente temporal.

Na família, célula da sociedade,

vive-se o prazer lícito das coisas temporais

inocentes, da boa diversão,

das crianças contentes pelos dons recebidos

de Deus; infantes que ainda

não começaram a batalha contra o

J. P. Braido

pecado e se alegram por estarem vivos

e existirem no mundo.

É a alegria que teria uma borboleta

ou um passarinho, se pudessem pensar,

sentindo seu próprio voo de fruta em

fruta ou de flor em flor, debaixo do Sol.

Alegria muito boa, sem dúvida, que faz

sentir à alma todos os prazeres da virtude,

porque o verdadeiro prazer não

provém do pecado. Assim, quando vier

a tentação roncando, resfolegando e

agitando o guizo, a alma humana compreenderá

ser aquilo mentira do demônio,

pois o que parece prazer é tristeza.

Eis algumas lembranças da noite

de Natal.

v

(Extraído de conferência de

23/12/1983)

11


Denúncia profética

Luta perpétua

entre

Flávio Lourenço

bons e maus

Existe um empenhado duelo

pessoal entre Jesus Cristo e

satanás, cujas origens explicam

o estado de luta perpétua e

incompatibilidade irredutível

entre bons e maus em todos

os períodos da História.

Os historiadores nos

dão um quadro do

estado lastimável do

mundo pagão, na ocasião

do advento do Verbo Encarnado.

Em resumo, havia no

mundo romano uma classe

de régulos totalitários, que fazia

trabalhar um povo de escravos,

e uma plebe de mendigos

que não podia trabalhar,

dada a concorrência do

mesmo braço escravo.

Um tal estado de coisas

conduzia naturalmente

ao socialismo, e foi no mais

crasso socialismo do gênero

demagógico que terminou o cesarismo

pagão do Império Romano.

Duas naturezas distintas

se unem para formar

uma única Pessoa

Contra essa escravidão do pecado

clamava a consciência dos homens

que não se deixaram levar pelo pai

da mentira. Em seu longo cativeiro,

os justos suspiravam pelo dia da Redenção.

E se elevavam aos Céus as

suas vozes, bem como a dos profetas,

suplicando e anunciando o advento

do Esperado das nações, do Salvador

que nasceria de uma Virgem,

12

A Virgem com o Menino triunfando

sobre o demônio - Catedral de

São Pedro, Vannes, França


Aquela que haveria de esmagar a cabeça

da serpente infernal.

A presença de Nosso Senhor Jesus

Cristo enche toda a História da

humanidade pelas promessas, pela

união do povo fiel com o seu Criador,

como domina o mundo depois

de sua vinda através da Igreja, seu

Corpo Místico. N’Ele, a Religião é

uma através de todas as idades: “Jesus

Cristo é o mesmo ontem, hoje e

para todo o sempre” (Hb 13, 8).

Nessa união substancial e indissolúvel

das naturezas divina e humana

em unidade de Pessoa divina vemos

o cumprimento da promessa da Redenção.

Eis a distinção bem marcada

entre o infinito e o finito. Há em

Jesus Cristo duas naturezas distintas:

a divina e a humana. Como Filho

de Deus, é consubstancial a Deus,

e é Deus verdadeiro. Como Filho da

Santíssima Virgem, é verdadeiro Homem.

Mas essas duas naturezas distintas

se unem, sem se confundir, para

formar uma única Pessoa, o Verbo

Encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Eis o mistério da Encarnação, segundo

o qual, como natureza, Jesus

Cristo é Deus e Homem, e como Pessoa

é inteira e inseparavelmente Filho

de Deus, inteiramente e inseparavelmente

Filho do homem.

Diz Santo Agostinho que o homem

estava duplamente morto com o pecado

de Adão, pela morte do corpo,

quando a alma o desampara, e pela

morte da alma, quando Deus a

desampara. É esta a “morte segunda”

referida por São João no

Apocalipse, que caberá “aos covardes,

aos incrédulos, aos ímpios,

aos homicidas, aos impuros,

aos idólatras, e a todos os mentirosos”

(cf. Ap 21, 8).

E é dessa morte que nos

veio salvar o “Primogênito

dentre os mortos” (Cl 1, 18),

no dizer de São Paulo, e “libertar

os que, em virtude do

terror à morte, passaram

a vida toda como escra-

vos”. “Convinha, portanto, que em

tudo Se tornasse semelhante aos irmãos,

a fim de ser junto de Deus um

Pontífice misericordioso e fiel para

expiar assim os pecados do povo.

Pois tendo Ele mesmo padecido

com as tentações, está em condições

de valer aos que se acham tentados”

(Hb 2, 15.17-18).

Incompatibilidade

irredutível entre bons e maus

Dir-se-ia, portanto, que com a vinda

do Messias e Redentor do mundo

uma nova era de paz e de concórdia

estaria reservada para a humanidade.

E quem pode negar que na vigência

do Novo Testamento, na Lei da graça,

haja havido uma efusão muito maior

da misericórdia divina, sobretudo pela

ação dos Sacramentos da Nova Lei,

num dos quais o Salvador do mundo

Se oferece pessoalmente para a santificação

das almas?

Jesus sendo despojado de sua

túnica - Museu da Semana Santa,

Medina de Rioseco, Espanha

13

Flávio Lourenço


Denúncia profética

Arquivo Revista

Dr. Plinio na década de 1940

Mas nem por isso deixou de existir

a luta entre as duas cidades. Diz São

Tomás que assim como Jesus Cristo é

o superior e cabeça dos bons, satanás

é o caudilho dos anjos rebeldes. Logo,

acrescenta o Doutor Angélico, é

certo que como consequência desta

oposição existe um empenhado duelo

pessoal entre Jesus Cristo, Chefe dos

bons, e satanás, caudilho dos maus,

cujas origens explicam o estado de luta

perpétua e incompatibilidade irredutível

entre bons e maus em todos

os períodos da História.

Por isso, afirma São João que o

Verbo eterno “veio aos que eram

seus, mas os seus não O receberam”

(Jo 1, 11).

Eis porque os sectários, representantes

do pai da mentira, O perseguiram,

O prenderam, O açoitaram, O

coroaram de espinhos, O crucificaram.

Eis porque a multidão de Jerusalém –

essa mesma no meio da qual havia um

grande número de beneficiados e testemunhas

de seus milagres –, instigada

pelos fariseus, herodianos e saduceus,

prefere Barrabás a Jesus Cristo;

ao Justo, o revolucionário, o sedicioso,

o conspirador, o assassino. Eis porque,

desde os seus primeiros dias de

vida, a Igreja se vê a braços com as heresias

e os cismas. E já São Pedro, em

sua segunda epístola, se refere à abominação

e dureza de coração daqueles

que “melhor lhes fora não terem jamais

conhecido o caminho da justiça,

do que, depois de conhecê-lo, voltar as

costas ao santo Mandamento que receberam”

(2Pd 2, 21).

Deus Se utiliza do mal para

realizar seus desígnios

Longe, porém, desta luta nos acabrunhar,

deve ela servir de estímulo

ao nosso zelo. Já dizia São Paulo

aos Coríntios ser preciso que até haja

heresias, para que os que são de

uma virtude provada se manifestem

(cf. 1Cor 11, 19).

Aliás, ao mostrar como Deus Se utiliza

do próprio mal para realizar seus

desígnios, diz o autor da Cidade de

Deus que muitas coisas pertencentes à

Fé Católica, quando os hereges, com

sua cautelosa e astuta inquietude, as

perturbam, desassossegam, então, para

poder defendê-las diante desses inimigos,

os filhos de Deus as consideram

com mais atenção, percebendo-as com

mais claridade, pregando-as com maior

vigor e constância, e a dúvida ou controvérsia

que excita o contrário serve

de ocasião propícia para aprender.

Aí está a razão pela qual devemos

enfrentar esses erros e evitar que se

propaguem à custa de nossa passividade.

Aí está porque os seus fomentadores

detestam os debates à luz do

dia, preferindo rastejar-se nas sombras.

Aí está porque não nos abalamos

com a exuberante coleção de apodos

com que somos mimoseados. Acusados

de comunistas quando está em

prestígio o fascismo, acusados de fascistas

quando o comunismo é o modelo

do dia. Sejam nosso conforto as

exortações do Apóstolo das gentes aos

coríntios e nos mostremos “com as armas

da justiça ofensivas e defensivas,

entre a glória e a ignomínia, entre a infâmia

e o bom nome; tidos como sedutores,

embora homens de verdade; por

desconhecidos, embora conhecidos;

por moribundos, embora estejamos vivos;

por castigados, mas não amortecidos;

por tristes, estando sempre alegres;

por pobres, mas enriquecendo a

muitos; como não tendo nada, mas tudo

possuindo” (Cf. 2Cor 6, 7-10). v

(Extraído de O Legionário

n. 700, 6/1/1946)

14


Hagiografia

Um dos

primeiros

lutadores

Flávio Lourenço

contra a

heresia

São João Evangelista,

o Apóstolo virgem, que

auscultou o Sagrado

Coração de Jesus e

recebeu Nossa Senhora

como presente, foi

também o precursor de

todos os batalhadores da

Fé até o fim do mundo.

São João Evangelista - Igreja de Santiago, Tournai, Bélgica

Arespeito de São João Evangelista,

cuja festa a Igreja comemora

no dia 27 de dezembro,

temos a comentar uma ficha extraída

de Dom Guéranger 1 .

Águia que se eleva

até ao Divino Sol

Santo Estêvão é reconhecido como

o protótipo dos mártires, mas São

João nos aparece como o príncipe dos

virgens. O martírio valeu a Estêvão a

coroa e a palma; a virgindade mereceu

a João prerrogativas sublimes que,

ao mesmo tempo que demonstram o

valor da castidade, colocam esse discípulo

entre os principais membros da

humanidade.

Descendente de Davi, da família da

Santíssima Virgem, São João era parente

de Nosso Senhor segundo a carne.

Enquanto outros foram Apóstolos

e discípulos, ele foi amigo do Filho de

Deus. Como proclama a Santa Igreja,

essa predileção se deve ao sacrifício da

virgindade oferecido por João ao Homem-Deus.

Convém, pois, ressaltar

no dia de sua festa as graças e prerrogativas

que para ele decorrem dessa

amizade celestial.

Conforme o Evangelho, São João

foi o discípulo que Jesus amava. Es-

15


Hagiografia

Flávio Lourenço

discípulo virgem, cuja castidade o tornou

digno de herdar esse tesouro tão

valioso. Assim, segundo a bela frase

de São Pedro Damião, Pedro recebeu

em depósito a Igreja, a mãe dos homens,

mas João recebeu Maria, a Mãe

de Deus.

A castidade enobrece e

dignifica a criatura humana

Última Ceia - Convento Mãe de Deus, Lisboa, Portugal

sa simples frase basta por si mesma,

mas esse amor deve ter sido para ele

o princípio de dons assinalados, entre

os quais destaca-se o fato de ter sido o

primeiro defensor do Verbo Divino, do

Filho consubstancial ao Pai, que a heresia

já começava a negar. Nessa defesa,

São João eleva-se como águia até

ao Divino Sol em ensinamentos luminosos

e límpidos.

Se Moisés, após ter conversado

com o Senhor, retira-se desse maravilhoso

entretenimento com a fronte ornada

de raios maravilhosos, quão radiosa

deveria ser a face admirável de

João que se apoiava sobre o Coração

de Jesus, onde, como fala o Apóstolo,

estão ocultos todos os tesouros da sabedoria

e da ciência!

Ademais, foi o filho de Maria! Ao

morrer, Jesus deixava sua Mãe. Quem

na Terra mereceria receber um tal legado?

Por certo, o Salvador deveria

enviar os seus Anjos para guardar e

consolar a Santíssima Virgem. Mas,

do alto da Cruz, o Salvador viu o seu

Nesse texto pululam os pensamentos

profundos e as considerações

importantes, de maneira a não

ser possível comentar tudo, mas alguma

coisa pode ser considerada.

Em primeiro lugar é a afirmação,

muito verdadeira, de que o sacrifício

da virgindade, a oblação da castidade,

é tão grata a Deus que vem logo

depois do martírio.

A castidade é, sobretudo, uma

virtude da alma a qual importa num

abandono do que é baixo, sórdido,

numa renúncia a tudo aquilo que

tenderia a estabelecer o domínio da

matéria sobre o espírito. A castidade

enobrece e dignifica a criatura humana,

tornando-a afim com Deus.

Por isso Nosso Senhor Jesus Cristo

amava São João a ponto de ser – como

está lembrado nesta ficha – o discípulo

a quem Jesus amava.

Está muito bem afirmado: se os

outros foram Apóstolos e discípulos

de Nosso Senhor, ele foi o amigo.

Ele era o mais próximo de todos e a

quem o Redentor tributava um sentimento

acima do dado aos outros.

Aquele pequeno episódio que se

deu na Ceia é muito característico a

esse respeito. São Pedro queria saber

quem era a pessoa que iria trair

Nosso Senhor, porque o Divino Salvador

tinha dito que um deles trairia.

Então São Pedro – notem, tratava-se

do primeiro Papa –, querendo

de todos os modos conhecer o nome

dessa pessoa, pediu a São João para

perguntar, e este, pousando a cabeça

sobre o próprio peito de Nosso Senhor,

perguntou.

16


Temos aí uma maravilhosa evocação

da devoção ao Sagrado Coração

de Jesus. São João ficou ouvindo

pulsar o Coração divino. Naquele

momento suas pulsações eram de

amor, mas também de angústia e de

dor porque o abismo de sofrimento

em que iria precipitar-Se estava chegando

perto d’Ele.

Vê-se nesse fato que São João –

uma alma eminentemente virgem,

mas também chegada a Nosso Senhor

e devotíssima do Sagrado Coração

de Jesus – tinha uma proximidade

única em relação ao Redentor.

Grandeza de São

João Evangelista

lo que recebeu Nossa Senhora como

presente, foi também o precursor

de todos os lutadores da Fé até

o fim do mundo, até o momento no

qual o Profeta Elias virá lutar contra

o anticristo.

Nestas considerações temos matéria

ampla para nos recomendarmos

a São João, pedindo que nos

consiga as qualidades de alma que o

fizeram digno deste prêmio de uma

grandeza incomensurável: receber

Nossa Senhora para tomar conta

d’Ela.

v

(Extraído de conferência

de dezembro de 1964)

1) Cf. GUÉRANGER, Prosper. L’année

liturgique. Paris: Librairie Religieuse

H. Oudin. 1900. v. I, p. 326-331.

Rodrigo C. B.

Mas, como diz muito bem Dom

Guéranger, pode-se afirmar que um

dom o qual não ficava abaixo desse

era o de receber Maria como Mãe.

Nosso Senhor, ao morrer, deixou ao

seu amigo, ao seu discípulo predileto

mais do que a todos os outros, um

tesouro de valor inestimável: Nossa

Senhora, a Rainha do Céu e da Terra,

o primeiro ser abaixo de Deus,

tudo o que o Criador pode dar a um

homem. Mais do que isto Deus não

poderia conceder.

Nisso há outra manifestação extraordinária

do amor às almas virgens.

Nossa Senhora, Virgem, foi

dada pelo virginal Filho ao virginal

amigo, ao virginal discípulo, São

João. Eis mais alguns traços para

considerar a grandeza desse Santo.

Porém, o quadro não estaria completo

se não fosse mencionado um

outro aspecto da vida dele. Ele foi

um dos primeiros lutadores contra

a heresia. A primeiríssima heresia

que nascia naquele tempo era a respeito

das relações entre as naturezas

humana e divina de Nosso Senhor, e

São João começou a lutar contra essa

heresia.

Então o Apóstolo virgem, o Apóstolo

do Coração de Jesus, o Apósto-

Maria Santíssima e São João junto à Cruz

Basílica de São João de Latrão, Roma

17


C

alendário

1. Beata Clementina Nengapeta

Anuarite, virgem e mártir (†1964).

Religiosa da Congregação das Irmãs

da Sagrada Família, aprisionada

durante a perseguição

desencadeada na República

Popular do Congo.

Resistiu heroicamente

ao capitão dos

soldados, que a assassinou

por não conseguir

atentar contra a

virgindade dessa esposa

de Cristo.

2. Beato Ivan Slezak,

bispo e mártir

(†1973). Exerceu infatigavelmente

seu ministério

de forma clandestina

na Eparquia de Stanislaviv,

Ucrânia. Foi preso várias

vezes e enviado a campos de trabalho

forçado.

3. São Francisco Xavier, presbítero

(†1552).

Beato Eduardo Coleman, mártir

(†1678). Foi enforcado e esquartejado

em Tyburn, Inglaterra, por ter abraçado

a Fé Católica, falsamente acusado

de conspiração contra o Rei Carlos II.

4. São João Damasceno, presbítero

e Doutor da Igreja (†c. 750).

São João Calábria, presbítero

(†1954). Fundador da Congregação

dos Pobres Servos e Servas da Divina

Providência, cujo carisma consiste na

evangelização e no socorro material

aos pobres.

5. II Domingo do Advento.

São João Almond, presbítero e mártir

(†1612). Exerceu ocultamente a

cura de almas durante dez anos na Inglaterra,

até ser capturado e enforcado

por sua fidelidade à Santa Igreja.

6. São Nicolau, bispo (†s. IV).

São José Nguyen Duy Khang, catequista

e mártir (†1862). Executa-

dos Santos – ––––––

Ralph Hammann (CC3.0)

Santa Adelaide

do por ódio à Fé na cidade de Tonkin,

Vietnã.

7. Santo Ambrósio, bispo e Doutor

da Igreja (†397).

8. Solenidade da Imaculada Conceição

da Bem-Aventurada Virgem

Maria.

9. São João Diego Cuauhtlatoatzin

(†1548). Índio vidente de Nossa Senhora

de Guadalupe.

Beatos Ricardo de los Ríos Fabregat,

Julián Rodríguez Sánchez e José

Giménez López, presbíteros e mártires

(†1936). Salesianos assassinados

durante a perseguição desencadeada

contra a Fé Católica na Espanha.

10. Bem-Aventurada Virgem Maria

de Loreto.

Beato Marcos Antônio Durando,

presbítero (†1880). Fundou a

Congregação das Irmãs de Jesus Nazareno,

para prestar assistência aos

enfermos e aos jovens abandonados.

11. São Dâmaso I, Papa (†384).

Beatos Martinho Lumbreras Peralta

e Melchior Sánchez Pérez,

presbíteros e mártires

(†1632). Missionários agostinianos

que tão logo chegaram

Nagasaki, Japão,

foram aprisionados,

lançados numa cela

obscura e finalmente

queimados vivos.

12. III Domingo

do Advento.

Nossa Senhora de

Guadalupe.

São Simão Phan

Dac Hoa, mártir

(†1840). Médico e pai de

família no Vietnam. Aprisionado

no tempo do Imperador

Minh Mang por ter dado

hospedagem aos missionários, após

sofrer longo cativeiro e frequentes

flagelações, foi degolado.

13. Santa Luzia, virgem e mártir

(†304/305).

São Pedro Cho Hwa-so, pai de família,

e companheiros, mártires

(†1866). Tentados com promessas e

tormentos para abandonar a Religião

Beato Ricardo de los Ríos Fabregat

Divulgação (CC3.0)

18


–––––––––––––– * Dezembro * ––––

Divulgação (CC3.0)

Cristã, resistiram até serem decapitados

em Tjyen-Tiyou, na Coreia.

14. São João da Cruz, presbítero

(†1591).

São Nimatullah al-Hardini (José

Kassab), presbítero (†1858). Assistente

Geral dos Maronitas, faleceu

tendo nas mãos um ícone de Nossa

Senhora. Suas últimas palavras foram:

“Oh! Maria, eu Vos confio minha

alma.”

São João Calábria

15. Santa Maria Crucificada (Paula

Francisca Di Rosa), virgem (†1855).

Entregou todas as suas riquezas e a si

mesma pela salvação das almas e socorro

dos desvalidos. Fundou o Instituto

das Servas da Caridade.

16. Santa Adelaide (†999). Esposa

de Otão I, Imperador do Sacro Império.

Exerceu o governo durante a minoridade

de Otão III. Em seus últimos

anos de vida recolheu-se no mosteiro

beneditino de Selz, na Alsácia,

que ela mesma fundara.

17. Beata Matilde do Sagrado Coração

de Jesus (Matilde Téllez Robles),

virgem (†1902). Dedicou-se

com grande solicitude à assistência

material e espiritual dos indigentes,

Divulgação (CC3.0)

Beata Clementina

Nengapeta Anuarite

fundando a Congregação das Filhas

de Maria, Mãe da Igreja.

18. São Vinebaldo, abade (†761).

De origem inglesa, com seu irmão

São Vilibaldo, seguiu São Bonifácio e

o ajudou na evangelização dos povos

germânicos.

19. IV Domingo de Advento.

20. Beato Miguel Piaszczynski,

presbítero e mártir (†1940). Natural

da Polônia, foi encarcerado no campo

de concentração de Sachsenhausen,

Alemanha, por causa da Fé, e dali

partiu para a glória celeste depois

de terríveis suplícios.

21. São Pedro Canísio, presbítero e

Doutor da Igreja (†1597).

22. Beato Tomás Holland, presbítero

e mártir (†1642). Por exercer clandestinamente

o ministério pastoral,

no reinado de Carlos I da Inglaterra,

foi condenado à morte na forca.

23. São João de Kenty, presbítero

(†1473).

São João Stone, presbítero e mártir

(†1539). No reinado de Henrique VIII,

defendeu valorosamente a Fé Católica

e consumou o martírio no patíbulo da

forca, em Cantuária, Inglaterra.

24. Santa Paula Isabel (†1865).

Constância Cerióli nasceu em Cremona,

Itália e, ao ficar viúva, fundou

o Instituto dos Irmãos e Irmãs da Sagrada

Família.

25. Natal do Senhor.

26. Sagrada Família.

Santo Estêvão, protomártir.

27. São João, Apóstolo e Evangelista.

28. Santos Inocentes, mártires.

29. São Tomás Becket, bispo e mártir

(†1170).

30. Beata Eugênia Ravasco, virgem

(†1900). Fundou o Instituto das Irmãs

Filhas dos Sagrados Corações de Jesus

e Maria, ao qual confiou a educação

da juventude feminina e a dedicação

às necessidades dos enfermos e

das crianças.

31. São Silvestre I, Papa (†335).

Santa Catarina Labouré, virgem

(†1876). Religiosa das Filhas da Caridade

a quem a Santíssima Virgem

apareceu, no convento da Rue du

Bac, Paris, em 1830, ordenando-lhe a

divulgação da Medalha Milagrosa.

São Nimattullah al-Hardini

Divulgação (CC3.0)

19


Perspectiva pliniana da História

Gabriel K.

Revolução tendenciosa

e Revolução sofística

São Tomás de Aquino

Igreja de Santa Maria

Novella, Florença

Para ilustrar os aspectos tendenciais e sofísticos da

Revolução, Dr. Plinio faz clarividente análise de um

quadro representando um belo salão de conversa do Ancien

Régime. O ambiente é muito bonito, os personagens ali

presentes são rutilantes, bem vestidos, finos, mas todos

faziam parte do séquito enorme da nobreza podre que

apoiava a Revolução Francesa nos seus primórdios.

T

anto a Revolução quanto a

Contra-Revolução avançam

percorrendo simultaneamente

duas pistas – a tendencial e a sofística

–, embora em rumos contrários.

A Revolução tendencial trabalha

as tendências do homem levando-o

para o mal; em sentido opos-

to, a Contra-Revolução o conduz

para o bem. Depois, na linha sofística,

a Revolução atua com base no

raciocínio humano: sobe ao mundo

das ideias, das doutrinas e da teoria.

A Contra-Revolução não é sofística,

ela é a verdade. Se se desse um nome

adequado a essa Contra-Revo-

lução no campo das ideias, da doutrina

e do raciocínio, talvez fosse o

da Contra-Revolução escolástica.

Isto é, segundo o método filosófico

e a Teologia de São Tomás de Aquino,

que dão o arcabouço do sistema

oposto aos sofismas da Revolução

sofística.

20


Aspecto tendencial

da Revolução

Por que insistir no aspecto tendencial

da Revolução?

Em primeiro lugar porque, conforme

afirmo em minha obra Revolução

e Contra-Revolução, uma das partes

mais originais e menos tratadas noutros

livros é a Revolução tendencial.

É natural que conheçamos mais aquilo

que é o produto original da casa.

Em segundo lugar porque a guerra

psicológica revolucionária, quer

dizer, o conjunto de truques usados

por um partido ou por uma nação

para levar o outro partido, nação

ou a outra corrente ideológica a perder

a vontade de lutar e, portanto, a

entregar-se, a produzir a capitulação

do espírito da outra parte, é muito

mais tendencial do que sofística. E

com o passar do tempo, ela vai ficando

mais tendencial e menos sofística

pela imbecilização dos homens.

Temos que aprender, aos poucos,

a ensinar o homem atual para conduzi-lo

à temperança, à fortaleza, à

justiça, à prudência, que ordenam

suas tendências, e à lógica do pensamento.

O homem é completo desde

que tenha tudo isso, não por vaidade

ou egoísmo, mas para servir a Nossa

Senhora, a Causa Católica, a Nosso

Senhor Jesus Cristo.

Por outro lado, uma pessoa percebe

facilmente estar sendo objeto de

uma persuasão por meio de raciocínio.

Mas a manobra psicológica tendencial

poucos indivíduos notam.

Por causa disso é necessário que saibamos

nos defender contra ela. Precisamos,

em consequência, conhecê-

-la bem e saber fazer a manobra tendencial

para o bem a fim de levar as

pessoas para a virtude, conceituada

como a Igreja Católica ensina. Para

isso, vamos conhecer o mundo de

coisas complexas e delicadas situado

no terreno do tendencial. Com este

objetivo, pretendo apresentar alguns

exemplos históricos.

Batalha cujo centro

é a Igreja Católica

A História da humanidade divide-se

em dois grandes períodos: antes

e depois de Cristo, divisão esta ligada

às mais altas razões. Nosso Senhor

Jesus Cristo é o Homem-Deus,

e o acontecimento mais alto da História

é que o Verbo Se tenha encarnando

nas entranhas puríssimas da

Bem-aventurada Virgem Maria e

habitado entre nós. Ademais, Ele

morreu na Cruz para obter o perdão

de nossos pecados.

Nenhum outro fato histórico que

não diga respeito a Ele próprio pode

ser considerado comparável a isso.

Alexandre Magno invadiu a Pérsia;

o Império Romano tomou conta

do Mediterrâneo; os bárbaros invadiram

a Europa… Podemos enumerar

esses acontecimentos, mas o

que é isso em comparação com o fato

de o Filho de Deus ter morrido na

Cruz para nos salvar? E a sua gloriosíssima

Ressurreição e Ascensão aos

Céus! Depois, com um brilho mais

doce, mas quão brilhante, a Assunção

de Nossa Senhora ao Céu! Fica

fundada a Igreja Católica, fonte de

paz que, enquanto Igreja militante,

está permanentemente em guerra

contra o mal.

Começa entre os homens uma batalha

cujo centro é a Igreja Católica,

a qual tende a espraiar-se pelo mundo

inteiro levando esta Boa Nova a

todos os povos.

Os demônios e os homens maus

que dão azo a seus defeitos constituem

um exército contra a Igreja:

são os cismáticos, os hereges,

os ateus, e também os maus católicos

que trabalham dentro da Igreja

contra ela.

A época cristã, portanto depois

do nascimento de Nosso Senhor

Jesus Cristo, divide-se em: Antiguidade,

Idade Média, Tempos

Modernos e Tempos Contemporâneos.

Simplificando muito, o território

europeu era ocupado por dois impérios.

O Romano do Ocidente, com a

capital em Roma, depois em Milão

ou em Ravena, e abrangendo, em linhas

gerais, todo o território da Europa

Ocidental de hoje. E nos Balcãs,

espraiando-se por toda a bacia

do Mediterrâneo, grande parte

do Norte da África rumo ao Oriente

Médio, havia o Império Romano

do Oriente com a capital em Constantinopla.

Durante esse período a civilização,

a língua, as tradições, a cultura

eram a romana, com fortes contribuições

da Grécia. O Mediterrâneo

era o eixo do mundo.

Victoria F. G.

A Virgem e o Menino

(acervo particular)

21


Perspectiva pliniana da História

Flávio Lourenço

Distanciamento e ruptura

dos povos com a Igreja

Começam as invasões nos séculos

IV e V. Os bárbaros invadiram toda

a Europa, destruíram o Império Romano,

encheram o território europeu;

muitos deles eram pagãos, outros,

adeptos de uma heresia chamada

arianismo. Com a conversão profunda

dessa gente, inicia-se a época

de ouro da Igreja: a Idade Média.

A Igreja já tivera uma época de

ouro no tempo dos mártires e das catacumbas,

entretanto era perseguida.

Pelo contrário, na Idade Média ela

não é perseguida, mas a senhora da

situação. O Papa reúne sob seu cajado

todo o Ocidente cristão. Os esla-

vos vivem dormitando lá em suas terras,

quase sem contato com o Ocidente,

o qual fica todo ele unido à Igreja.

Por outro lado, a ordem temporal, civil,

é organizada segundo os ditames

do Evangelho e dos Dez Mandamentos,

revelados por Deus a Moisés, os

quais são a Lei que inspira e norteia

o pensamento de toda a vida e cultura

do Ocidente.

A Europa vai se dilatando e enfrenta

inimigos. Novas invasões dos

bárbaros, ela repele; rechaça também

a invasão dos maometanos. Está

no fastígio de seu poder quando,

no século XV, começa uma Revolução

metafísica e tendencial chamada

Renascença, que abre uma esfera

cultural na qual a admiração fa-

Natal - Museu Nacional de Arte da Catalunha, Barcelona

nática pelos clássicos, pagãos antigos,

impõe padrões alheios à Igreja.

E se forma um campo da cultura e

do pensamento que, mesmo quando

não é contrário à Igreja, se esquece

de sua existência e se desenvolve à

margem dela. É o primeiro passo do

divórcio entre o Ocidente e a Esposa

de Cristo, completado por uma Revolução

religiosa: o Protestantismo.

Com isso, as nações escandinavas,

dois terços da Alemanha ou do mundo

de língua germânica, quase toda

a Holanda, a Inglaterra, a Escócia e

uma parte da Irlanda se separam da

Igreja. A Polônia e a Irlanda continuam

católicas. O Ocidente europeu,

sobretudo o mundo latino, permanece

fiel à Igreja.

Tempos Modernos:

influência da França

Depois do Humanismo, da Renascença

e do Protestantismo, abre-

-se uma nova era histórica chamada

Tempos Modernos. A palavra “moderno”

não tem aqui o sentido corrente,

mas se aplica ao período que,

no seu conjunto, constitui a primeira

Revolução até a Revolução Francesa.

Durante os Tempos Modernos, a

Igreja cresce na América do Sul inteira,

na América Central, em todo

o território do México, graças ao

apoio da Espanha e de Portugal. E

também na Indochina, nas Filipinas

e outros lugares do Oriente, tudo

por obra dos missionários. O que ela

perde de um lado, reconquista largamente

de outro.

No século XIX, os missionários,

favorecidos pelos meios de comunicação,

levam o ensino da Igreja a todo

o mundo. Pode-se dizer hoje que

todas as nações já ouviram a voz do

Evangelho. Com isso a Europa entra

no século XX, na aparência, no auge

do seu poder.

Depois, com a implantação do comunismo

na Rússia, começa o perí-

22


odo conhecido como Tempos Contemporâneos.

O Ancien Régime é a época entre

Protestantismo, Humanismo, Renascença,

de um lado, e a Revolução

Francesa, de outro. Esse período

difere muito da Idade Média, mas

também dos Tempos Contemporâneos.

Para esta exposição nos interessa

mais saber no que ele difere

dos Tempos Contemporâneos.

A nação que mais contribuiu para

modelar as mentalidades e os costumes

dos Tempos Modernos foi a

França. No século XVII ou XVIII,

a influência desse país se tornou geral.

O francês tornou-se a língua universal,

os costumes, as modas, os escritores,

a literatura, a diplomacia, o

peso dos exércitos franceses e a riqueza

da França foram o padrão para

todas a outras nações da Europa.

Fineza, distinção, elevação

Nesse tempo se generalizou um

certo modo de ser com uma nota

aristocrática muito forte. Nunca

a fineza, a distinção, a elevação,

a gentileza, a doçura de viver

se tornaram tão gerais e requintadas

quanto na França. Por essa forma

se dilataram por toda a Europa

e atingiram os confins da nossa civilização.

Repercutiram na América do Sul,

na América do Norte, onde a França

foi nação colonizadora de certa importância,

e no Oriente Próximo no

qual ela possuía colônias também.

Acabaram modelando até o mundo

eslavo. Por exemplo, a cidade fundada

nos Tempos Modernos pelo Czar

Pedro, o Grande, como capital da

Rússia. Moscou, por muitos aspectos,

foi configurada pela influência

francesa.

Essa influência se caracterizava

por duas ideias próprias à aristocracia:

uma era a do requinte, do relacionamento

agradável e, por causa

disso, do valor da Literatura e o dom

da conversa; jamais se conversou tão

Crucifixo da Catedral de Aguascalientes, México

bem. Nunca o salão, lugar onde as

pessoas se encontravam para conversar,

teve tanta influência na vida

como naquele tempo.

Outra nota característica da aristocracia:

a guerra. Esta se desenvolveu

enormemente com a descoberta

da pólvora, trazendo como consequên

cia as armas de fogo e novas

técnicas de combate. Se fosse feita

uma história da coragem, ver-se-

-ia que ela pode ter sido grande em

outros séculos, mas nunca foi tão

brilhante e distinta como nessa época.

Para a cultura popular geral, até

há algum tempo, o símbolo do gentil-homem

– de modo concomitante

leão do salão e da guerra – era

D’Artagnan, o herói do romance Os

três mosqueteiros, de Dumas 1 .

O desejo de ser dá

lugar ao de possuir

No que essas manifestações entram

em divergência com as de nossa

época?

Nós temos algo de radicalmente

diverso. Enquanto no século XVIII

o homem queria levar o esplendor

de suas qualidades humanas tanto

quanto podia, desejando brilhar por

se ter realizado – no tocante ao sobrenatural,

já bem menos; por infelicidade

o espírito de Fé decaíra muito

em relação à Idade Média –, no

século XIX, e ainda mais no XX, ele

foi tendo cada vez menos empenho

em ser e mais em possuir.

A conquista de riquezas e, portanto,

o tomar um feitio de espírito ne-

Sebastião C.

23


Perspectiva pliniana da História

cessário para operar e obter dinheiro,

e por meio deste mandar nos outros,

levam lentamente ao poder da

máquina. Ela é o meio pelo qual o

homem produz e ganha muito. Daí

as enormes concentrações industriais,

as cidades que transportam legiões

de operários de um lado para

outro, a fim de produzirem muito e

serem complementos da máquina.

Multidões tristes, vestidas de um

modo melancólico e banal, quando

não feio e pobre, locomovidas

em meios de transporte tristes rumo

àquilo que haveria de se chamar

mais tarde as “cidades dormitórios”.

O indivíduo acorda de manhã e sai

para trabalhar o dia inteiro num outro

lugar; seus filhos vão também para

outras fábricas. O lar se dispersa,

ele não ouve falar mais da mulher

nem dos filhos. Na melhor das hipóteses,

se reúnem à noite para jantar,

conversar um pouco ou assistir à televisão

e depois cair de sono.

Mesmo os ricos e até os riquíssimos

acabam sendo escravos da máquina.

O automóvel, os aparelhos

que tornam a vida doméstica agradável

são os seus ídolos. Eles produzem

nas fábricas, enquanto capitalistas,

diretores, banqueiros. Voltam

para casa e a encontram toda adornada

com os produtos do trabalho

das indústrias. Vivem para o dinheiro,

o número e o cálculo, na produção

e para a produção. As ideias de

elegância, distinção, requinte deixam

de ter o seu sentido.

A vida começa a ser dura. As coisas

se tornam cada vez menos bonitas:

“Isto não é prático! Do que

adianta?” Se o homem fabrica tampas

para garrafas de cerveja, o que

significa para ele o fato de receber

muito amavelmente os seus vizinhos?

Não vai ser apreciado na medida

da amabilidade, mas em que se

tornar rico. Então, ele deixa as boas

maneiras de lado para produzir muitas

tampas de garrafas de cerveja. É

uma modificação do tipo humano, segundo

o qual o homem, mesmo sendo

dos mais ricos, vivendo em função

da máquina, da fábrica e do banco, se

proletariza.

Hoje em dia, até os filhos dos nababos

vestem blue jeans, e as modas,

as maneiras deles decaem, as personalidades

tornam-se obscuras, pobres

e feias. Então, o contraste com aquele

mundo do Ancien Régime é colossal

Leitura de uma tragédia de Voltaire

no salão de Madame Geoffrin

em 1755 - Castelo de Malmaison,

Hauts-de-Seine, Île-de-France

e opera a fundo sobre as tendências

dos homens.

Uma reunião social

no século XVIII

Para ilustrar estas considerações,

analisemos um quadro representando

uma reunião social no século

XVIII.

24


São pessoas pertencentes à alta

nobreza ou ao mundo da elevada

intelectualidade. Os nobres foram

educados para ser os ouvintes

ideais dos grandes intelectuais, porque

a forma de educação recebida

por eles fá-los apreciar no mais alto

grau os produtos da vida intelectual,

no caso concreto sobretudo da

literatura.

Esses intelectuais, por sua vez, foram

preparados para ser os declamadores

da alta nobreza. Desta maneira

intelectualizam os nobres e estes

os nobilitam.

Embora no século XVIII, quase

até à Revolução Francesa, um valo

profundo separasse a nobreza da

plebe, essa sala está cheia de nobres

e plebeus. Mas tão misturados que, à

Anicet Charles Gabriel Lemonnier (CC3.0)

primeira vista, não se percebe quem

é quem. A atitude de todos é aristocrática.

Que impressões uma pessoa pode

ter a respeito disso?

Em primeiro lugar, notem como

ninguém é padronizado, todos irradiam

a própria personalidade. Para

exemplificar, consideremos a primeira

fileira de pessoas sentadas.

Nenhuma delas se encontra numa

atitude igual à das outras. Todos os

modos são de quem está conversando,

reagindo diante de algo que se

passa na sala.

Há uma televisão ligada? Não; e

nem as televisões produzem esse efeito

vivo e elegante. As pessoas quando

vão ver televisão querem afundar

nas poltronas e sumir-se. Não desejam

outra coisa senão isso. Comentam

muito pouco.

Aqui, não. Todos se encontram sentados

em cadeiras que nós reputaríamos

incômodas, mas eles nem prestam

atenção nisso. Estão de tal maneira

tomados pelas ideias e pelo convívio,

que têm a impressão de permanecer

no maior dos confortos.

O que se passa nessa sala?

Bem em frente da primeira fileira

há uma mesa junto à qual está sentado

um homem vestido de vermelho.

O que ele está fazendo? Lendo

em tom declamatório. Naquele tempo

exercia-se a nobre arte da declamação,

e esse homem está declamando

uma obra, da qual ele poderia ser

o autor, e que está sendo lançada para

o público parisiense.

Aquele que se encontra diante dele,

ladeado por duas senhoras, é provavelmente

Sua Alteza Real Sereníssima

o Príncipe de Conti 2 , membro ilustre

de um ramo da Casa Real dos Príncipes

de Condé, donos do famoso Castelo

de Chantilly. Se não me engano, à

sua esquerda está a dona da casa Madame

Geoffrin 3 , famosa pela prosa.

O Príncipe de Conti tem uma segurança,

uma presença e uma irradiação

que fazem dele o homem

25


Perspectiva pliniana da História

Divulgação (CC3.0)

mais importante do salão, e é principalmente

para ele que é feita a declamação.

Antes de se desfazer a roda,

tomam alguma coisa e saem comentando

o livro.

Está feita a fama do livro em Paris

inteira, porque nesse salão se encontra

o creme intelectual dessa cidade.

Não havia rádio, televisão, nem nada.

A propaganda era realizada por

esses cenáculos de intelectuais. Se o

livro ficasse célebre ali, tornar-se-ia

famoso em Paris e, em seguida, no

mundo. Donde o esforço do expositor

para declamar bem.

Nobreza podre que apoiava

a Revolução Francesa

nos seus primórdios

Vale a pena prestar atenção no esplendor

do colorido das roupas. Para

as pessoas muito sensíveis a cores isto

é uma festa!

Considerem também beleza do salão.

Um lambri de madeira muito bonito

reveste as paredes e no chão há um

parquet magnífico, uma espécie de mosaico

de madeiras diversas esplêndidas.

Não é fora de propósito notar o

belo pano colocado com uma elegan-

Jean-Paul Marat

te negligência sobre a mesa. Mas a

negligência elegante era considerada

a mais bela forma de elegância para

o gosto desse século. Assim, na atitude

de todos se nota muita elegância,

mas um tanto négligée 4 , superiormente

bem manuseada, a qual, entretanto,

nos séculos anteriores não se teria

permitido.

É chegado o momento de nos perguntarmos

qual a orientação doutrinária

dessa gente. É um cenáculo

que prepara a resistência à Revolução

Francesa? Num ambiente tão

fino, nobre e elegante, no qual está

presente um Príncipe de Conti, duques,

duquesas, marqueses, marquesas,

um creme de literatos trabalha

para eles, nós devemos concluir que,

onde os mais importantes, poderosos

ou mais ricos ditam aos literatos

a orientação conveniente, só pode se

tratar de uma linda e elegantíssima

reunião contrarrevolucionária…

Contudo, vemos uma “bomba” na

sala: o busto de Voltaire 5 colocado,

quase como uma imagem, entre dois

quadros lindamente emoldurados.

Os intelectuais são todos da escola

de Voltaire, conheceram-no, aplaudiram-no,

admiraram-no. Um dos presentes

é Rousseau 6 . São

os artífices da Revolução

Francesa. Os nobres misturados

com eles, inclusive

esses tão rutilantes, belos,

bem vestidos, finos,

todos eles faziam parte

do séquito enorme da nobreza

podre que apoiava

a Revolução Francesa

nos seus primórdios,

e depois decapitada por

esta mesma Revolução.

Muitas dessas pessoas

morreriam na guilhotina,

tendo sido bastante estúpidas

para contribuir no

começo. Muitos saíram

da França, depois tentaram

invadi-la, reunindo-

-se aos restos da Famí-

lia Real. Outros, pelo contrário, ficaram

em Paris vegetando, foram colhidos

pelo carrasco e tiveram as cabeças

cortadas. Precisa ser dito de passagem

que morreram com uma dignidade incomparável.

Aparências que representam

um esplendoroso passado

Portanto, esse é um quadro de revolucionários.

Visto por contrarrevolucionários,

que efeito ele produz?

Aos homens de hoje, vivendo neste

século do metrô e de mil outras

coisas do gênero, ele não pode deixar

de elevar o espírito, de o tornar

mais alado, mais leve e distinto. O

quadro realça algumas qualidades

indiscutíveis presentes na cena, e nos

faz sentir melhor a brutalidade de

nosso século proletarizado.

Contudo, se enquanto contrarrevolucionários

procurarmos saber

quais são as ideias dessa gente, é altamente

instrutivo compreendermos

como a podridão pode esconder-

-se sob sepulcros caiados – lembrando

o que disse Nosso Senhor a respeito

dos fariseus. Do lado de fora,

a belíssima Contra-Revolução; do lado

de dentro, a podridão da Revolução.

Muitas vezes, os aspectos exteriores

não condizem com o interior.

É preciso detestar este e compreender

quanto há de moribundo nessa

aparência, pois quando o interior já

não é bom, as meras aparências nunca

duram muito.

Mas, de outro lado, compreender

serem essas aparências a representação

de um esplendoroso passado.

Então, esse quadro é cheio de ensinamentos,

um dos quais consiste em

nos abrir os olhos para a tática tendencial

da Revolução. Notem que as

ideias expostas naqueles salões eram,

todas no campo sofístico, revolucionárias.

Mas essa gente não se indignava

porque não se tinha tocado nas

aparências contrarrevolucionárias.

As aparências mudando, iriam mexer

26


nas tendências e eles se indignariam.

Não aceitariam a abolição

da seda, do veludo, da peruca,

das joias, da hierarquização social,

da distinção.

Imaginem o Marat 7 entrando

nessa sala; eles mandariam o primeiro

alabardeiro pegá-lo e jogá-lo

nos antros de uma prisão,

e pedir-lhe que explicasse como

ele, malcheiroso, com hálito

de álcool ordinário e proferindo

blasfêmias antiaristocráticas, ousou

entrar ali… Algumas senhoras

desmaiariam… Talvez algum

desses nobres puxasse uma espadinha

de prata com cabo de ouro

e fosse por cima dele.

Então, as ideias sofísticas podem

caminhar, apodrecer o terreno,

desde que não se mexa na

aparência, no tendencial. Depois

é o contrário, feita a Revolução

tendencial, eles, que já estavam

com os sofismas, habituaram-se

de tal maneira que, ou

se começa a Contra-Revolução

pelo tendencial, ou pela mera

escolástica alguns se converterão,

mas a massa dificilmente se

converterá.

Assim, com base num quadro,

fica analisado o conjunto

desses princípios.

Devemos olhar todas

as coisas com senso

revolucionário ou

contrarrevolucionário

Se pudéssemos pôr esse quadro

em algum lugar de nossa casa, faria

bem ou mal?

A julgar pelas aparências, faria

bem, mas seria um bem relativo

porque nos levaria para uma fase

em que o mundo era menos revolucionário.

Mas isso tudo, em comparação

com a Idade Média, já é revolucionário.

Portanto, para quem pudesse

estar na Sainte-Chapelle ou na

Dr. Plinio em 1984

Arquivo Revista

sala da coroação dos imperadores

do Sacro Império Romano-Alemão,

em Frankfurt, seria muito melhor do

que se encontrar nesse salão.

Por estarmos numa época muito

mais decadente, esse quadro nos

aproxima do ápice no qual não havia

Revolução. Mas o nosso olhar deve

estar voltado para a época da História

em que não existia nenhuma Revolução.

Mais ainda, para a época da

História onde não haverá nenhuma

Revolução.

Não sei se consigo exprimir quanto

é preciso ter cuidado para, diante

de um quadro desses, saber manusear-se

a si próprio; porque, do contrário,

o quadro nos manuseia. O

pintor morreu, todos esses personagens

faleceram. Eles continuam

através da tela a remexer

na humanidade.

A pessoa, ou se defende do

quadro, ou manda-o embora.

Não adianta saber se é bonito ou

feio. É preciso ver o efeito dessas

tendências sobre o homem.

Por exemplo, era o caso de ler a

narração de um martírio como o

de São Vicente tendo, ao fundo,

um quadro desses?

Mas, de outro lado, como o

homem se civiliza vendo uma

coisa dessas!

Não sei se, através disso, eu

torno claro com que senso revolucionário

ou contrarrevolucionário

devemos olhar todas as

coisas, e como podemos ser manobrados

sem perceber.

Conclusão: ou aprendemos a

fundo como fazer isto, ou essas

coisas nos enrolam.

Porém, o que mais nos enrola

não é esse passado, mas o aspecto

do mundo contemporâneo,

sobretudo se não o olharmos

com discernimento ainda

maior do que o aplicado nesse

quadro.

v

(Extraído de conferência de

24/10/1984)

1) Alexandre Dumas (*1802 - †1870),

escritor francês.

2) Louis François de Bourbon (*1717 -

†1776), sexto Príncipe de Conti.

3) Marie-Thérèse Rodet Geoffrin (*1699

- †1777).

4) Do francês: negligenciada.

5) François-Marie Arouet (*1694 -

†1778), escritor francês anticatólico.

6) Jean-Jacques Rousseau (*1712 -

†1778), filósofo suíço que propagou

teses contrárias à Doutrina da Igreja.

7) Jean-Paul Marat (*1743 - †1793), jornalista

e político francês virulentamente

revolucionário.

27


Apóstolo do pulchrum

Pedro Morais

Beleza e praticidade

que conduzem a Deus

Sainte-Chapelle, Paris

O entrelaçamento do prático com o belo, tão característico

da obra de Deus, não está presente na arte moderna. A alma

católica, entretanto, soube unir essas duas prerrogativas

até mesmo na arquitetura, e, sem deixar de servir ao corpo,

procurou sobretudo encantar a alma e elevá-la até Deus.

Ao nos depararmos com um conjunto residencial

moderno, poderíamos imaginar ser uma grande

fábrica ou cadeia, enfim, qualquer coisa enorme,

situada em Oslo, São Paulo ou em outro lugar. Ora, tal

construção tem alguma beleza? Ela nos eleva?

O espírito da Revolução e a

prevalência da matéria

Absolutamente não. Só vemos uma série de quadrados,

com umas pequenas janelinhas à maneira de alvéolos,

onde habitam umas “abelhas” humanas. Cada homenzinho,

cada família ocupa um, dois ou três buraquinhos

desses e se perde nessa imensidade. O corpo talvez

esteja bem servido ali, mas a alma humana fica opres-

sa. É o espírito moderno, o espírito da Revolução onde

prevalece a matéria. Ali a alma não se prepara para ir

ao Céu, porque no Paraíso Celeste não há nada parecido

com essa feiura, nem com essa monotonia. É a idolatria

dos quadradinhos, postos uns sobre os outros.

Em determinados edifícios não se mora, trabalha-se.

Se houvesse cozinha, até seria habitável, pois imagino

que um quadrado desses dá para qualquer coisa. Eu não

entendo desse tipo de engenharia, nem quero entender.

Entre ela e eu há uma incompatibilidade completa, radical.

Um observador dirá: “Dr. Plinio, não é bonito o Sol

que reflete pelas janelas?”

Eu diria: “O arquiteto não fez o Sol, mas sim as janelas,

e estas, quem ousará achar bonitas? Basta abrir

28


uma para ficar um buraco. É um

conjunto de vidros e de buracos,

cujo interior está cheio de gente

trabalhando até arrebentar. Tudo

isso é muito prático para o corpo,

mas para a alma, zero.”

Alguém poderia objetar: “Mas,

Dr. Plinio, não são quadrados de

tamanhos iguais. Não há um pouco

de harmonia dentro disso?” Eu

não sei se o engenheiro pensou

nisso. Estou me esforçando para

ser equânime, mas não encontro

uma resposta positiva.

Ora, por que esse teto é inclinado?

“É para a chuva escorrer”

Então, por que esse outro é chato?

É para a chuva não escorrer?

São mistérios que eu não chego a entender.

Em todo caso, para nos divertir um pouco, há aqui

outro conjunto residencial ou de escritórios, com janelinhas,

buracos e quadrados. Olhem para esse teto. Alguém

dirá: “Maravilhoso! O senhor há de reconhecer

que essas riscas de luz são bonitas.”

Eu digo: “É verdade. A luz é bonita até sobre uma superfície

moderna, pois não foi dado ao homem fazer com

que a luz seja feia. A feiura é das trevas.”

O que são esses “bengalões”? São projetos de muletas

para imensos aleijados? Não, são conjuntos residenciais.

Aplicando a vista, podemos perceber os quadradinhos.

O movimento ondulado dessa rampa, é bonito? Um

pouquinho é. Entrou um pouquinho de beleza dentro

disso. Porém, pensem no artificial de tudo isso. Aliás,

não é possível que a sensação frígida de artificialidade

metálica escape à atenção.

Oslo, Noruega

Hostilidade entre a arte moderna e a beleza

Há uma grande hostilidade contra a beleza na arte e

arquitetura modernas.

Vendo determinados prédios temos uma sensação de

interrupção arbitrária e estúpida, dando-nos a impressão

de um queijo enorme cortado, com algumas fatias

tiradas, restando outras. Qual a razão dessas interrupções

repentinas, sem nenhuma moldurazinha que as

anuncie ou justifique? Isso é bonito? Alguém dirá: “É

prático.”

Isso é duvidoso. Entretanto, na arte moderna, o que é

bonito não é prático; e o que é prático não é bonito. O entrelaçamento

do prático com o bonito, tão característico

da obra de Deus, não está presente.

Analisemos um engarrafamento do trânsito. Nas metrópoles

há grandes artérias retilíneas, feitas para da-

Chell Hill (CC3.0)

Ukjent (CC3.0)

Ópera de Oslo, Noruega

29


Apóstolo do pulchrum

Henrique Boney (CC3.0)

Torstein Frogner (CC3.0)

rem vazão a milhares e milhares de carros por hora; mas,

quando se dá uma pequena trombada, talvez entre dois

motociclistas, é necessário esperar a polícia chegar, e por

ser uma grande avenida, quando para o trânsito, paralisa-se

uma enorme quantidade de veículos. É o urbanismo

moderno, muito bem pensado para as coisas funcionarem

bem, mas não planejado para a hipótese de funcionarem

mal. Buzinas, enervamento, gente atrasada; quando, afinal,

os automóveis podem circular, chocam-se uns nos outros

pelo nervosismo, e ainda há novas trombadas.

O espírito da Igreja une o prático ao belo

Em contraste, temos a Abadia de Vézelay, na França,

atualmente conhecida como Basílica de Santa Maria

Madalena. Como é diferente! Percebam como a porta é

muito prática, pois é bastante grande para facilitar a entrada

e saída das multidões. Também é alta, de maneira

a nada esbarrar nela. Por outro lado, a coluna central

Oslo, Noruega

Congestionamento no Vale do Anhagabaú, São Paulo

divide um pouco a multidão e evita, já de início, que ela

caminhe para uma só direção. Há nisso um lindo simbolismo!

O feitio das portas medievais simbolizava Nosso

Senhor Jesus Cristo que veio dividir as vias do homem

em duas: a da direita, a do amor de Deus, e a da esquerda,

a da perdição.

No pórtico podemos contemplar um belo trabalho em

pedra representando um fato da História Sagrada, ou

da História da Igreja, ou de algum Santo; ilustra e ensina

a religião aos que vão entrar. A coluna central da porta

principal da Basílica, que suporta todo esse peso com

profunda nobreza, quão diferente é das colunas chatarronas

existentes hoje em dia. Quanta harmonia e distinção!

A seguir, temos a esplêndida Catedral de Reims, onde

eram coroados os reis da França antes da Revolução

Francesa. Eu não vou elogiar o evidente, mas vejam a

magnífica harmonia e beleza dessa esplêndida neta de

Deus. O gótico é considerado o estilo mais prático que

houve na História. Não há nada, num edifício

medieval, que não tenha uma razão

de ser prática, inclusive poder-se-ia fazer

um estudo comprovando isso. Nele, entretanto,

tudo é bonito.

Na fachada da própria Catedral de

Reims observamos as rosáceas. Pareceria

ter sido o prédio construído para dar

beleza a esses grandes vitrais, mas não é

verdade. As rosáceas existem para facilitar

a entrada de luz dentro do templo.

Entretanto, não é a luz clara de todos os

dias, mas um pouco filtrada, convidando

à contemplação e criando um ambiente

místico de recolhimento.

Os medievais aproveitaram os vitrais

para representar cenas da História da

30


Igreja, do Antigo ou do Novo Testamento,

para ensinar aos povos, constituindo

assim, mil símbolos da Doutrina

Católica. Portanto, a rosácea é funcional,

pois através dela entra luz para

o prédio, mas que luz, que ensinamento,

que flores de beleza! Essas igrejas

eram chamadas de “Bíblias dos analfabetos”.

Ora, o que forma mais a alma

humana: a cartilha ou o vitral?

Aliás, é preciso dizer o seguinte: a

Idade Média foi a época na qual mais se

trabalhou – em relação a todas as épocas

anteriores – para a alfabetização do

homem. De tal maneira que quando a

Idade Média terminou, deu-se o aparecimento

da imprensa. Como poderia a

imprensa ter tão grande importância se

ninguém soubesse ler e escrever?

Destas considerações podemos tirar

um ensinamento magnífico e faustoso.

O espírito da Igreja é o mesmo

espírito de Deus que sabe unir o prático

ao belo; de onde o objetivo do prático

é servir o corpo e não atrapalhar

a alma; e o objetivo do belo é encantar

a alma e elevá-la até Deus. Assim,

vendo um objeto, utilizamos o prático

quase sem pensar nele e admiramos o

belo como se só este existisse.

Yannick Pichard. (CC3.0)

Construções que satisfazem

o corpo e elevam a alma

Há uma diversidade inimaginável

de vitrais, alguns representando reis

santos, e outros Nossa Senhora com o Menino Jesus. Contemplem

a variedade de formas e de cores, que esplendor

de luzes! Cada fragmento de um vitral é uma verdadeira

pedra preciosa, e se cada parte é de tal maneira bonita,

o conjunto é tão mais belo, que a alma não tem muita

vontade de pormenorizar. A Bíblia conta que depois de ter

criado o universo, Deus descansou e, contemplando sua

obra, viu como cada coisa era boa, mas o conjunto era ótimo

(cf. Gn 1, 31).

Assim, no conjunto de vitais, que joia e esplendor! Função

prática: iluminação. Função espiritual: apresentar a

beleza, mas nela, a Suma Verdade, a Revelação trazida pelo

Espírito Santo e Nosso Senhor Jesus Cristo à Terra.

Comparem os prédios de quadradinhos e esse teto gótico.

São dois mundos, duas concepções. O que mais prepara

a alma para o Céu?

Abadia de Vézelay, França

A magnífica Catedral de Orvieto, por exemplo, tem

algo de especial, pois é indelevelmente colorida do lado

de fora. Ela ostenta esplêndidos mosaicos refratários à

ação da luz e do tempo. Ademais, o perfeito estado dela

nos faz pensar ter sido construída ontem. No entanto

é, sem dúvida, uma catedral medieval que arrosta os

séculos, não com aquela velhice magnífica e veneranda

das antigas catedrais de granito, mas com a durabilidade

que fala do eterno.

No ponto mais alto da fachada há um mosaico representando

Nosso Senhor Jesus Cristo coroando Nossa Senhora.

Qual é a pintura, com cores tão frescas, representando

um esplendor e uma louçania de alma tão magnífica?

Nessa catedral tudo aponta para o céu, até os triângulos

e as flechas. Edifícios como esse parecem elevar-se

ao céu e nos levam para lá.

31


Apóstolo do pulchrum

Almas insaciáveis de dar glória a Deus

Analisemos agora um castelo, quase de conto de fadas:

Neuschwanstein. Ele foi edificado sobre um monte,

a pedido do Rei Luís II, da Baviera, no século XIX.

A nobreza desses torreõezinhos; quanta distinção, beleza

e altanería! Como isso é diferente daqueles mil alvéolos

que parecem transformar seus habitantes em abelhas

humanas. Contrariamente, este nobre castelo faz

dele um guerreiro, e, por sua vez, a catedral faz do homem

um santo.

Observem a beleza do telhado. Dir-se-ia estar revestido

de pedras preciosas! Como é convidativo morar num lugar

desses! Abrir de manhã a janela e contemplar um dos telhados

laterais refulgindo ao Sol. Olhar para baixo e se deparar

com uma das rampas, com água escorrendo depois

de uma chuvarada e gotejando agradavelmente da gárgula.

Quanta beleza, nobreza e harmonia! Entretanto, isso é prático:

esse declive visa impedir o acúmulo de neve.

Já na cidade de Rouen, onde Santa Joana d’Arc foi

queimada pelos ingleses, temos uma imponente Catedral

que mais parece um enorme élan para o céu. A torre

vai adelgaçando à medida que se eleva, quase se transformando

em firmamento; não se sabe bem se seu píncaro

é mais ar do que terra, ou mais luz do que pedra. Assim,

esse belo monumento convida a alma para subir!

Josep Grin (CC3.0)

Eric Pouhier (CC3.0)

Ludovic Péron (CC3.0)

Detalhes da Catedral de Reims, França

32


jplenio (CC3.0)

Castelo de Neuschwanstein, Alemanha

No prefácio da história de Santa Isabel da Hungria,

Charles Montalembert narra que um maometano, preso

pelos cruzados, recebeu licença de viajar pela Europa e,

conhecendo as catedrais, perguntou quem as construía.

Mostraram-lhe, então, o irmão leigo de um convento:

— Ele é um dos homens que constroem esses monumentos.

Surpreso, indagou:

— Como podem homens tão humildes construir edifícios

tão altivos?

Assim é a alma católica: humilde quanto a si mesma,

mas insaciável para dar glória a Deus. Na Catedral de

Rouen está a glória de Deus cantada por uma flecha que

vai mais alto do que todos os edifícios da Terra. Essa é

a Igreja Católica acima da sociedade temporal. A Santa

Igreja está por cima de tudo.

Ambientes que conduzem a Deus

Em outra foto vemos aquilo que São Francisco de Assis

chamava “a irmã água” caindo e correndo, luminosa

e turbulentamente, em meio a pedras, por certo fazendo

aquele ruído mais parecido a um cântico. Próximas

à margem há algumas moradias plebeias. Notem

a sensação de solidez dos prédios e como dão a impressão

de proteger contra as intempéries. Dentro dessas casas,

as pessoas se sentem na intimidade, a léguas da rua,

afastados dos outros, com a possibilidade de estar a sós,

no aconchego da família ou numa solidão completa aos

olhos de Deus.

Catedral de Orvieto, Itália

É um ambiente agradável, à maneira europeia, pois

quando chega o verão o jardim se enche de gerânios vermelhos

e, do lado de dentro, uma pessoa calma lê um livro,

ou uma senhora faz crochet ou tricot enquanto conversa

com o netinho sentado no chão. É a vida tranquila

e cheia de paz de outrora, mais operosa do que a das

multidões se acotovelando nos ônibus. Cidades peque-

Luca Aless (CC3.0)

33


Apóstolo do pulchrum

A Torre de Belém, localizada na margem do Rio

Tejo, que banha Lisboa, é uma fortificação composta

de um material tão alvo que em noite

de luar mais parece feita de lua. Na sua

parte inferior se encontram os orifícios

para os canhões. Sob certo ponto de vista,

a torre, tão leve com suas ameias e

torreões, parece um brinquedinho;

mas, tão majestosa e forte que dá impressão

de uma verdadeira fortaleza.

Os antigos tinham horror das fachadas

lambidas e do plano sem arte.

Na superfície principal está a sacada

onde podemos imaginar o rei

vendo as naus partirem, por exemplo,

da frota de Pedro Álvares

Cabral, com a imagem de Nossa

Senhora, a qual hoje se venerajaraman

sundaram (CC3.0)

Cataratas do Reno, Suíça

nas, onde as pessoas vão a pé por toda parte, aonde ninguém

tem pressa, ninguém corre, todo mundo vive e respira

em paz. Em cidades como essas se formaram os povos

europeus, saudáveis, que engendraram a maior civilização

de todos os tempos.

Como seria agradável, por exemplo, no entardecer de

um dia fresco, permanecer num terracinho rezando ou

lendo, ou até fazer uma grande coisa quando a pessoa

tem a alma cheia de altos pensamentos e de verdadeira

fé: não fazer nada. Contudo, não significa flanar ou fazer

o papel de bobo, mas é deixar a memória e as recordações

falarem, ir pensando ao sabor do tempo e das associações

de imagens. É mergulhar na contemplação.

Foi conversando agradavelmente desde uma janela

que Santo Agostinho e Santa Mônica tiveram o famoso

êxtase de Óstia. Quem poderia ter um êxtase dentro de

um arranha-céu contemporâneo? Deus pode tudo, inclusive

levar alguém a entrar em estado místico no interior

de um edifício moderno, mas é preciso dizer que um tal

lugar não propicia um êxtase.

34

Maravilha do espírito católico

Pedro Álvares Cabral

Rio de Janeiro


Herbert Frank (CC3.0)

ra na igreja dos Jerônimos, e é chamada Nossa Senhora

do Brasil.

Imaginemos ali uma série de pendões e de tapeçarias

riquíssimas; o rei com a rainha e sua corte, despedindo-

-se dos navios que partiam para descobrir novas terras e

trazer novos povos para a Igreja Católica Apostólica Romana,

levando nos mastros a Cruz de Cristo. É um cenário

magnífico! Tão bonito que parece ter sido construído

só para essa cena épica.

Ali encontramos a beleza conjugada ao prático. O mirante

é estupendo, e sem dúvida, muito funcional. Foi uma

fortaleza tão boa que, para as condições do tempo, metia

medo em qualquer atrevido desejoso de se adentrar no Tejo.

Nobre e distinta, a Torre de Belém é uma verdadeira

maravilha do espírito católico que formou essa civilização.

Quanto respeito para com a criatura humana há numa

construção como essa! O homem se sente inteiramente

atendido, protegido, defendido e conduzido até

Deus!

v

(Extraído de conferência de 10/2/1974)

Benittes (CC3.0)

Catedral de Rouen, França

Torre de Belém,

Lisboa

Vicente D.

35


Primeiro lance da Contra-Revolução

Odemônio tem especial ódio à Imaculada

Conceição pelo fato de esta singular prerrogativa

de Nossa Senhora constituir para

ele uma derrota dolorosíssima e, por assim dizer,

pessoal. Com efeito, tendo satanás conseguido

arrastar nossos primeiros pais ao pecado original,

as vantagens que lhe traria essa queda, caso não

houvesse a Redenção, seriam simplesmente espetaculares.

O homem, criatura nobre de Deus, ficou

desfigurado pelo pecado e sujeito às más tendências.

Com isso tornou-se incalculável o número

de pessoas capazes de cair, ao longo dos séculos,

no Inferno. Imenso foi o êxito imediato obtido pelo

demônio com o pecado de Adão e Eva.

O único modo de anular esse triunfo do mal seria o

Verbo Se encarnar e, enquanto Homem-Deus, oferecer-Se

como vítima pela nossa salvação. Ora, essa vitória

do Bem teve sua primeira realização no nascimento

de uma menina excelsa, imaculada, que, apesar

de todos os embustes do demônio, nascia livre da

trama na qual ele pretendia envolver todo o gênero

humano. Em favor d’Ela, Deus rompeu a urdidura

satânica. E Ela nasceu fora da lei do pecado original.

Portanto, a raiz da salvação do mundo, o ponto de

partida da Redenção da humanidade, foi o fato de

Nossa Senhora ter sido criada isenta do pecado original.

Donde nos ser fácil compreender como o primeiro

lance da Contra-Revolução foi, precisamente, a Imaculada

Conceição de Maria Virgem, prelúdio da Encarnação

do Verbo.

(Extraído de conferência de 3/12/1964)

Imaculada Conceição - Igreja

Matriz de Nossa Senhora da

Conceição, Sabará, Minas Gerais

Luis C.R. Abreu

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