Views
4 years ago

O corpo como instrumento de vingança em “Emma Zunz” de Borges ...

O corpo como instrumento de vingança em “Emma Zunz” de Borges ...

A

A vingança pelo ultraje sexual sofrido se sobrepõe à vingança pelo suicídio do pai. A dupla negação (“no podía no matarlo”) indica que ela não tem opção; Loewenthal tem que morrer pelos dois motivos, embora tão separados no tempo: a traição, em 1916, e o que a obriga a fazer para forjar o motivo de seu crime, em 1922. Ela não quer matar Loewenthal apenas para puni-lo pelo mal que ele fez a seu pai, mas deseja, na pessoa de Loewenthal, vingar-se de todos os homens, inclusive de seu pai, pelo que fizeram a ela, a sua mãe e a todas as mulheres supostamente ultrajadas. Assim, o trauma que ela sofre depois de sua relação com o marinheiro faz com que Emma compreenda que o seu sacrifício se consuma naquele momento em que rasga o seu corpo – da mesma forma como ela rasga o dinheiro com o qual é “paga” pelo marinheiro. Sarlo afirma que Emma inicialmente agiu como se seu corpo fosse um mero instrumento de vingança, governado por uma razão superior. Depois, quando sucedeu “la cosa horrible”, o corpo revelou seu potencial de ação e de recordação e mostrou sua independência em relação ao plano que o anulava, convertendo-o num objeto passivo. Assim, o corpo que deveria ser só instrumento, torna- se a causa dos seus atos (SARLO: 2004: 126-7). São típicos de Borges os contos de final aberto, que permitem inúmeras interpretações. O próprio autor declarou textualmente, em “Las versiones homéricas”, que “el concepto de texto definitivo no corresponde sino a la religión o al cansancio” (BORGES 1996: 268 v.I). Dentre as inúmeras interpretações possíveis do conto “Emma Zunz”, o tema de uma filha vingando a morte injusta de seu pai pode remeter ao mito de Electra, perpetuado nas tragédias de Sófocles e Eurípides. Por outro lado, Emma Zunz, ao contrário das heroínas de tragédia, trabalha para que sua vingança seja secreta, conhecida apenas pela vítima na hora da morte e de forma a que não lhe acarrete a punição da justiça: “No por temor, sino por ser um instrumento de la Justicia, ella no quería ser castigada” (BORGES 1996: 567 v.I). Para Sarlo, a vingança secreta, vingança de uma subjetividade moderna, e não de uma heroína de tragédia, exige que sejam criados subterfúgios e falsas evidências para ocultar as provas de sua autoria (SARLO 2004: 125). Subterfúgios e evidências forjadas são elementos próprios de uma crônica policial e não de uma tragédia grega. Assim, além de carregar as provas em seu próprio corpo, Emma prepara cuidadosamente o local para corroborar sua história para a polícia. Embora aparentemente Electra e Emma lutem para que se faça justiça e para que se puna o assassino do pai, em uma segunda leitura mais atenta do conto de Borges verifica-se que a situação se inverte: já não se trata de vingar o pai, mas vingar-se do pai. Emma representa uma personagem feminina forte, o que é pouco comum, na obra de Borges. A despeito da afirmação do próprio Borges de que nunca criou personagens, sua Emma apresenta uma densidade psicológica ausente em outras personagens de seus contos. 4

A narração é feita quase sempre utilizando a terceira pessoa do singular, quando o narrador parece estar ausente do relato; no entanto, às vezes, ele se mostra, se exibe, se introduz no texto. A impressão que se tem é que em determinados momentos da narrativa os fatos estão sendo relatados ou pensados por Emma, uma vez que, na história, ninguém, exceto ela, conhece os acontecimentos. Por outro lado, contraditoriamente, ela não poderia estar narrando, pois na hora da enunciação (hoje), ela não recorda o que fez (“¿cómo recuperar ese breve caos que hoy la memoria de Emma Zunz repudia y confunde?”). Os momentos de horror que se seguem à sua ação são marcados tão profundamente, diz o narrador, que, hoje, sua memória prefere apagá-los. O relato aparece, então, como uma verdade que Emma confessou ao narrador e este, sem estar seguro de que a versão que ela contou é verdadeira, a transmite ao leitor. Quando chama a polícia, e fala pela primeira vez no texto, Emma enfatiza o lado inacreditável da história, que é, ao mesmo tempo, a circunstância atenuante do seu crime: “Ha ocurrido una cosa que es increíble [...] El señor Loewenthal me hizo venir con el pretexto de la huelga... Abuso de mí, lo mate [...]” (BORGES 1996: 567 v.I). O inacreditável não seria tanto o fato de Emma ter matado Loewenthal, mas, sobretudo, o fato de ele ter usado o pretexto da greve para abusar dela, pois Aaron Loewenthal sempre fora considerado um homem sério, retraído e ninguém poderia supô-lo tendo a atitude da qual Emma o acusa. As provas, no entanto, são muito claras e, aceitas as evidências, o crime é compreensível, pois acontece em defesa própria e como resultado do ódio e da dor. Note-se que é comum que uma coisa seja mais facilmente considerada verdadeira quando o próprio agente a reconhece como inacreditável. Por outro lado, é importante registrar que Emma é uma jovem de 19 anos, aparentemente ingênua, solitária, calma e totalmente inexperiente no relacionamento com o sexo oposto. Tais fatos, certamente, conferem credibilidade a sua história, que é parcialmente verdadeira. O ato de violência suportado pelo corpo de Emma é verdadeiro; quem o praticou, entretanto, não foi Loewenthal. Emma mistura fatos e pessoas, como uma alucinação, mas a história que conta a todos se impõe como a “sua verdade” porque ultraje, ódio, pudor têm sempre em comum a aparência de autenticidade com que se expressam. A falsidade, ao contrário, se fundamenta nas circunstâncias, na hora e em um ou dois nomes próprios. E o narrador aparentemente assume a defesa de Emma, ao concluir a narrativa: “La historia era increíble, en efecto, pero se impuso a todos, porque sustancialmente era cierta. Verdadero era el tono de Emma Zunz, verdadero el pudor, verdadero el odio. Verdadero, también era el ultraje que había padecido; sólo eran falsas las circunstancias, la hora y uno o dos nombres propios” (BORGES 1996: 568 v.I). Referências Bibliográficas BORGES, Jorge Luis. “Emma Zunz”. In: Obras completas I. El Aleph. Barcelona: Emecé, 1996. 5

DEVIS 1121237,' - Davis Instruments Corp.
Espao e palavra - ozíris borges
As artimanhas do ser - ozíris borges
Artificial Horizon Manual - Davis Instruments Corp.
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Punição como Instrumento de Melhoramento da Alma no ... - Unimep
os instrumentos musicais como forma de expressão da - Instituto ...
literatura e teologia em Jorge Luís Borges José ... - ALALITE.org
A DANÇA DO VENTRE COMO INSTRUMENTO DE ...
instrumentos contabeis - Portal dos Professores da UNIFENAS
o uso de cadáveres humanos como instrumento na ... - Ucg
CLÁUDIA MARISA OLIVEIRA LEITE Corpo: Vegetação de Ruína ...
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis, de 25 a ...
Marcas do poder: o corpo (do) velho ... - Fazendo Gênero
Resumo dos Instrumentos de Contrato e Termos ... - Contas Públicas
juliana de melo borges cfch/ip/eicos 2004 - Instituto de Psicologia ...
Resumo dos Instrumentos de Contrato e Termos ... - Contas Públicas
A DISCIPLINA DO CORPO FEMININO EM SENHOR ... - Uesc
Resumo dos Instrumentos de Contrato e Termos ... - Contas Públicas
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Corpo, identidade e desejo na literatura para jovens
- 1 - ST 49 – A Construção dos Corpos: Violência ... - Fazendo Gênero
Resumo dos Instrumentos de Contrato e Termos ... - Contas Públicas