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Gênero, memória e narrativas ST. 41 Pedro ... - Fazendo Gênero

Gênero, memória e narrativas ST. 41 Pedro ... - Fazendo Gênero

escola na adolescência

escola na adolescência por seu viés profissionalizante, ingressando na escola de aprendizes e artífices onde aprendeu ofícios como o de ferreiro e o de pintor, notabilizando-se no segundo. Os percursos dos jovens, na escola secundária, são também marcados pelas desistências; inúmeros rapazes destinados pelos pais ao mundo das letras, a uma formatura superior, recusavam esse destino e voltavam ao sertão. Fascinados pela vida no campo, ou considerando-se incapazes, desistiam dos estudos escolares e voltavam à vida das fazendas. A presença do meio sertanejo, o gosto pela vida do campo e do trato com o gado eram muito presentes no universo psicológico dos que iam estudar na cidade. Nas fazendas, tocavam os negócios, administravam o patrimônio familiar, entre eles as propriedades de irmãos, que seguindo outros percursos de vida, abandonavam a vida no campo, e tornavam-se citadinos. A trajetória de Augusto, primo de Raimundo Moura Rego 8 é outra possibilidade de exemplificação para a desistência da vida escolar. Filho de um grande proprietário de terras e gado, se sentindo atraído pela vida no campo desiste de voltar a Teresina e à vida escolar, com o irmão Roberto e o primo Raimundo Moura Rego: A última vaquejada deve ter influenciado Augusto. Na proximidade de nossa volta aos estudos, declarou ao pai que não queria mais estudar. Já sabia ler e escrever alguma coisa além das quatro operações de aritmética, e esse pouco lhe bastava. Não queria ser doutor, nem comerciante, queria ser vaqueiro. O pai lhe desse uma fazenda de gado para dirigir e pronto: poderia economizar o dinheiro do colégio. Não foi conosco desta vez. Senhô, o pai de Augusto, deu de papel passado, a ele e Roberto, a Fazenda Tamanduá. Mais tarde Roberto cedeu sua parte ao irmão, que assim passou a viver como era de seu agrado. 9 Se Augusto preferiu abandonar a vida na cidade e a escola preferindo subjetivar-se como vaqueiro, trabalhando com o gado, participando de vaquejadas, levando a vida no campo, na administração das Fazendas da família, Roberto, seu irmão, parte para Teresina e depois para o Rio de Janeiro, onde incorpora práticas citadinas subjetivando-se como homem urbano. O pensamento dos três meninos: Moura Rego, Roberto e Augusto, mandados estudar em Teresina, no início da juventude, aos 13 anos de idade aproximadamente, parece, a princípio, muito próximo, a fazenda, a vida no campo era o lugar ideal para se viver. A cidade dita como agitada, novidadeira, marcada ainda pela vida escolar não parecia atrair nenhum dos três, no entanto, com o tempo, cada um deles foi se tornando sujeito e assumindo práticas diversas. A diferente inclinação dos rapazes mostra bem que a escola secundária e o posterior curso superior, bem como a vida urbana ainda não se impunham de forma hegemônica. As famílias de origem rural, com vínculos e negócios no campo, precisavam que alguns dos filhos se dedicassem a dar continuidade aos negócios da família, ao criatório do gado, ao engenho. Dessa forma, a decisão de Augusto parece não trazer maiores transtornos e mesmo ser aceita com relativa facilidade pelos pais. Afinal de

contas, Senhô, o pai de Augusto, também já havia em outro momento feito a mesma escolha, pois cuidava das fazendas de outros irmãos, que haviam seguido outros caminhos, deixando a vida no campo e assumindo a vida militar. As trajetórias analisadas mostram que não havia consenso sobre a necessidade da escolarização para a formação dos jovens rapazes em homens adultos, no entanto, mostram também que o acesso à escolarização e a formação secundária e mesmo a superior foram, no período em estudo, ganhando espaço como caminho de subjetivação possível, particularmente dos jovens rapazes dos grupos de elite e médios da sociedade. Caminho, algumas vezes, dificultado pelas resistências impostas pela mentalidade arraigada, que continuava acreditando que um homem se construía na vida prática, no aprendizado direto com os adultos. É dentro desse raciocínio que podemos entender a freqüência com que as práticas familiares de fazer com que os rapazes ingressassem desde cedo na vida adulta, de ensinar-lhes um ofício, de dotar os filhos dos meios necessários para dar início à vida adulta, para poder constituir um novo grupo familiar e conseguir os meios de sustentá-lo condignamente continuassem práticas tão presentes. Essa preocupação está na fala do coronel Regino, pai de Leônidas Melo, quando se propõe a ensinar ao filho o ofício de comerciante, ou ainda quando lhe aconselha a fazer o concurso de telegrafista, a preocupação de Regino era dotar o filho dos meios necessários para se tornar um homem capaz de conseguir os recursos necessários para sustentar dignamente sua família quando adulto. Afinal de contas um homem deve trabalhar, deve ser provedor, é um elemento definidor da masculinidade. O caso de Augusto, o filho de Senhô, que desiste de dar continuidade à formação escolar, também é ilustrativo do nosso raciocínio, nesse caso, a saída encontrada foi dotar o filho das terras e do gado necessário para iniciar o seu criatório. Augusto se subjetivaria como vaqueiro e administrador de fazenda, ofícios que já conhecia, e que aprendera com o pai e com os outros homens adultos nas práticas cotidianas. Aos homens que seguiam o percurso da formação escolar, caberia a tarefa de escriturar esse percurso como um caminho legítimo de subjetivação masculina. Na prática de escriturar novos modelos de masculinidade citadinos, a formação escolar proporcionaria uma forma de projeção social, de subjetivação, para os rapazes, como detentores de conhecimentos especiais, que deveriam lhes assegurar bons postos no mercado de trabalho. Da mesma forma, proporcionariam que se notabilizassem pela relação estreita com o mundo da escrita, pela respeitabilidade social, percebidos como homens cultos, letrados, inteligentes. Homens que estariam aptos e que muitas vezes se dedicavam à política, às letras, aos negócios, em síntese, que se projetavam nos espaços públicos, definindo e delimitando esses espaços como de ação masculina.

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