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Revista Dr. Plinio 233

Agosto de 2017

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Publicação Mensal Ano XX - Nº 233 Agosto de 2017

Ipsa conteret...


Sebastião C.

Venerado

sobre os

ombros do

Imperador

São Bernardo é um dos sóis da Igreja Católica

e da devoção mariana. É o Doctor Mellifluus

– Doutor Melífluo – que como ninguém elogiou

a bondade e a misericórdia de Nossa Senhora.

Ele é, por excelência, o homem da penitência e

da mortificação, como também da polêmica com os

adversários da Igreja do seu tempo.

Este Santo Abade de Claraval era, ao mesmo

tempo, um homem dulcíssimo e uma tocha ardente.

Ninguém sabia falar da Santíssima Virgem com

tanta unção quanto ele. De outro lado, era um polemista

tremendo que alcançou sucessos extraordinários.

Certa vez, estando na Alemanha, São Bernardo

entrou numa cidade onde se encontrava também o

Imperador do Sacro Império Romano Alemão, o

mais alto dignatário temporal da Cristandade. A fama

de santidade do Abade cisterciense era tal que

todo o povo foi correndo de encontro a ele. E São

Bernardo teria sido esmagado pela multidão se o

próprio Imperador não o tivesse tomado nos braços

e feito montar sobre seus ombros. Desta maneira,

foi ele um Santo que se apresentou à veneração pública

montado num imperador! Glória extraordinária

para uma época que possuía, muito mais do que

outras, o sentido do valor simbólico dessas coisas.

(Extraído de conferência de 17/4/1971)

São Bernardo - Catedral

de Colônia, Alemanha


Sumário

Publicação Mensal Ano XX - Nº 233 Agosto de 2017

Ano XX - Nº 233 Agosto de 2017

Ipsa conteret...

Na capa, Nossa Senhora do

Rosário de Lepanto - Igreja

de São Domingos, Espanha.

Ipsa conteret: do latim, Ela

esmagará (Gn 3, 15).

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Gilberto de Oliveira

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Antônio Pereira de Sousa, 194 - Sala 27

02404-060 S. Paulo - SP

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão e acabamento:

Northgraph Gráfica e Editora Ltda.

Rua Enéias Luís Carlos Barbanti, 423

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Tel: (11) 3932-1955

Preços da

assinatura anual

Comum .............. R$ 130,00

Colaborador .......... R$ 180,00

Propulsor ............. R$ 415,00

Grande Propulsor ...... R$ 655,00

Exemplar avulso ....... R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editora_retornarei@yahoo.com.br

Editorial

4 Grandiosa e inevitável guerra

Piedade pliniana

5 Oração da despretensão e

das santas proezas

Dona Lucilia

6 Senso do holocausto

Eco fidelíssimo da Igreja

12 Duas influências

Hagiografia

20 Perfeito guerreiro e

devoto de Nossa Senhora

Calendário dos Santos

24 Santos de Agosto

Dr. Plinio comenta...

26 O maior prazer da vida

Luzes da Civilização Cristã

32 Um hino a Nossa Senhora

Última página

36 Rainha da Contra-Revolução

3


Editorial

Grandiosa e

inevitável guerra

N

ão é deste mundo a concórdia sem jaça, a paz perfeita e eterna entre todos os homens.

Nesta terra de exílio, as carências, as dissensões, as catástrofes são inevitáveis. E uma visão

cristã da vida leva, ao mesmo tempo, a circunscrevê-las quanto possível e a resignar-se

a elas porque inevitáveis.

São Luís Maria Grignion de Montfort 1 nos mostra a vida dos povos como uma grandiosa, trágica e

incessante guerra entre a verdade e o erro, o bem e o mal, o belo e o feio. Batalha sem a qual a existência

terrena, desfalcada do seu significado sobrenatural, perderia sua dignidade.

Comentando as palavras do Gênesis (3,15): “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua posteridade

e a dela. Ela te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar”, observa com profundidade

o grande Santo: “Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável,

que não só há de durar, mas aumentar até o fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e

o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo

que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele Lhe deu tanto ódio a esse

amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrir a malícia dessa velha serpente, tanta

força para vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio

é maior do que o inspirado por todos os Anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus.”

Ao longo da História, os filhos de Nossa Senhora batalharão até o fim do mundo contra os filhos

de Satã. E a vitória final será dos primeiros, pela interferência da Mãe de Deus: “Deus estabeleceu

inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os

filhos e escravos do demônio. Os filhos de Belial, escravos de Satã, amigos do mundo (pois é a mesma

coisa) sempre perseguiram e perseguirão aqueles que pertencem à Santíssima Virgem. Mas a humilde

Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final, que

Ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo o orgulho. Ela descobrirá sempre sua

malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até ao fim

dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo.”

A supressão dessa luta por uma reconciliação ecumênica entre a Virgem com sua posteridade e

a serpente com sua raça, rumo a uma era na qual a cessação utópica do entrechoque acarrete uma

composição entre todos os direitos e interesses, uma interpenetração de todas as línguas sob um governo

universal feito de fartura e despreocupação: eis a grande utopia contra a qual as massas se devem

precaver; eis o regresso (ou antes, o retrocesso) à orgulhosa Torre de Babel, que de todos os modos

o neopaganismo procura reerguer; eis a bandeira toda tecida de ilusão e de mentira com que, em

todas as épocas, os demagogos procuram arrastar as massas insurrectas 2 .

1) Cf. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Ed. Vozes: Petrópolis, 1961. 6ª ed., pp. 54-57.

2) Excertos do artigo Volta à Torre de Babel? Publicado em “Folha de São Paulo”, 12/8/1980.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Oração da

despretensão

e das santas

proezas

Teodoro Reis

Nossa Senhora da Luz - Convento

da Luz, São Paulo, Brasil

Óminha Senhora, Mãe de justiça

e de misericórdia, modelai

a minha alma de tal

maneira que, inteiramente despretensioso,

eu seja capaz das mais santas

proezas. Afastai de mim a consideração

de minhas qualidades naturais

e até das sobrenaturais que

a graça, implorada por Vós, possa

me alcançar. Abri minha alma para

o exame sincero, leal, varonil de

meus defeitos, sem buscar atenuantes

e pretextos para indulgências falsas

para comigo. Dai-me a verdadeira

contrição pelas minhas faltas e o

propósito de nunca reincidir nelas.

Assim, ó minha Mãe, serei verdadeiramente

capaz de realizar todas

as proezas por Vós, porque sei bem

que só aos despretensiosos Vós concedeis

as grandes vitórias.

(Composta em 4/2/1980)

5


Dona Lucilia

Senso

Arquivo Revista

do

holocausto

Dona Lucilia não concebia as alegrias do Céu como um eterno

prolongamento de Hollywood. Mas sabia que os sofrimentos desta

vida terrena, suportados com paz e serenidade, preparam uma

eternidade onde tudo se compensa, se acerta, se arranja e a axiologia

se satisfaz inteiramente. Ela possuía um senso do holocausto levado

ao último grau, e fazia todas as coisas para adorar Nosso Senhor,

compreendendo que sua atitude causava alegria ao Coração d’Ele.

Dona Lucilia possuía um vocabulário

elevado, mas doméstico,

de uma senhora

do seu tempo. Ela não sabia construir

uma bonita frase, entretanto nunca

cometia um erro de gramática.

Muitas vezes eu prestava atenção.

Mesmo certos defeitozinhos,

por exemplo, repetir uma palavra na

mesma frase, não saía. Era tudo proporcionado,

direito, bem arranjado.

E de uma doçura que era preciso ter

conhecido para fazer uma ideia.

A mãe perfeita

Mamãe era muito educada, mas

seu modo de ser não se explicava em

termos de educação. Ela até utilizava

as regras de educação, mas no

modo de usá-las entrava uma bondade

muito grande. Nela não havia

uma só aplicação de regras de educação

em que não entrasse sua alma.

A atitude fria, meramente protocolar,

ela não tinha. Nem sei se era capaz

disso.

Para mim, ela foi a mãe perfeita.

Em geral, quando eu chegava da cidade,

encontrava-a fazendo alguma

coisinha, escrevendo uma carta no

meu escritório, ou então no quarto

dela arranjando as coisas numa gaveta

com objetos que ela mexia e remexia

de todo jeito.

Quando a encontrava no meu escritório,

via que ela passara muito

tempo lá me esperando e me querendo

bem, contente de estar num

ambiente que, para o olhar dela, es-

6


Arquivo Revista

tava marcado por mim. Na realidade,

era assinalado por ela, mas para

seu olhar de mãe era marcado por

mim, porque eu trabalhava muito no

escritório e passava, portanto, bastante

tempo lá.

Assim, ao entrar no escritório eu

o encontrava impregnado de bem-

-querer e de esperar. Mas tenho a

impressão de que se eu, Deus me livre,

tivesse feito alguma coisa má para

mamãe, ela me receberia do mesmo

modo, e talvez com mais afeto

ainda. Esse é o ponto que é preciso

notar. Então, toda a doutrina de

Nosso Senhor no Evangelho sobre o

perdão dos pecados se entende com

esse exemplo mais próximo de nós, e

que ilustra.

Há um corolário disso: ela não

era inimiga de ninguém, primeiro

ponto. Mas o segundo ponto é: não

era indiferente a ninguém. Essa indiferença

que se tem para com um

anônimo, ela não possuía. Qualquer

pessoa era um filho de Deus, um católico,

e ela não queria que sofresse

qualquer coisa ruim. Daí, por exemplo,

embora quase não conhecesse

os rapazes que vinham em casa, se

estivessem lendo um texto qualquer,

no hall, ela, passando ali perto, logo

mandava um recado pela empregada

para não lerem ali porque prejudicaria

as vistas, devido à pouca luz

no ambiente.

Respeito não em pé

de guerra, mas de

coração aberto

Da parte dela, todos os agrados

e cuidados possíveis. Isso era contínuo.

Entretanto – para se ver como

era sua psicologia –, ela sabia que

comigo algumas deliberações tomadas,

não tem conversa, estão tomadas.

Quando eu era mocinho tomei o

hábito de ler deitado. Constava no

tempo dela que ler deitado

fazia mal para a vista.

Não sei se é verdade. E

mamãe, mais de uma vez,

me chamou a atenção com

sua característica afabilidade:

“Filhão, você está lendo

deitado, faz mal para a vista!” Mas eu

reputava ser a posição ideal para ler,

estudar. Portanto, tinha que ser!

Eu, sem a mínima brutalidade,

uma vez disse para ela: “Mãezinha,

não insista, porque não vou mudar

esse hábito!” Até ela morrer, nunca

mais insistiu. Ela percebeu que era

uma deliberação que tomei, e não tinha

conversa. E, portanto, não valia

a pena mexer. Resignação.

Dona Lucilia tinha uma forma de

sensibilidade como não conheci em

ninguém. Vou dizer mais: fui muito

beneficiado com isso, porque se eu

não tivesse conhecido nela, teria dificuldade

de compreender como é.

Porque há certas coisas que um livro

não mostra. Essa forma de sensibilidade,

para quem não era um brutamontes,

ou um animal, era tocante.

Inclusive nisso: se ela estivesse

sentada ao meu lado, já estou vendo...

Naturalmente, ela considerava

o adjetivo “animal” altamente depreciativo.

Imediatamente ela bateria

levemente na minha mão, mas

eram três toques com muito afeto

para comigo e muita compaixão para

com o outro: “Não, coitado, afinal

de contas nós o queremos bem, vamos

perdoar!”

Arquivo Revista

Hall de entrada e escritório

na residência de Dr. Plinio

7


Dona Lucilia

Contudo, em matéria de regra,

dever é dever, então tem que cumprir.

Essa é uma outra questão. Mamãe

não era uma pessoa a quem se

faltasse com o respeito. Ela sabia

muito bem fazer-se respeitar. Entretanto,

não era em pé de guerra, um

respeito de lança em riste, mas um

respeito de coração aberto.

Isso se tornou tão raro que nem

sei o que dizer!

Dr. Antônio protege

e defende em juízo

um inimigo...

Para falar do lado natural,

Dona Lucilia contava

episódios da vida de

seu pai que faziam ver

que havia algo de hereditário

nisso.

Naquele tempo, a

campanha eleitoral

de um político se fazia

ao longo de um

percurso de trem,

porque não havia

estrada de rodagem,

mas o político

descia numa estação

ou noutra e conversava

com quinze, vinte

pessoas. Assim, fazia

uma viagem política. No

trajeto entre Pirassununga

e São Paulo meu avô tinha,

em várias cidades, muitas

relações e influência eleitoral.

Havia numa dessas cidades um

opositor, chamado Morais, que disputava

a influência com meu avô, e

cuja senhora se dava muito bem com

a minha avó. Ela dizia, sem rebuços,

à minha avó: “Meu marido não tem

juízo. Ele deveria ser amigo do Dr.

Ribeiro 1 e segui-lo. Eu tenho em Dr.

Ribeiro uma confiança que não possuo

em meu marido.”

Um dia meu avô estava viajando e

o trem parou numa cidade, onde ele

percebeu um reboliço e perguntou

Arquivo Revista

o que era. Contaram-lhe que o Morais

fora acusado de um crime naquela

cidade, fugira para São Paulo,

tinha sido preso pela polícia e levado

de volta para o interior. Então, os

inimigos do Morais, amigos do meu

avô, estavam esperando a chegada

do acusado, que seria julgado lá

no dia seguinte, para recebê-lo com

Dr. Antônio Ribeiro

dos Santos

vaias. Ele não tinha sequer quem lhe

fizesse a defesa, pois os advogados

tinham se esquivado de defendê-lo,

por “respeito humano”, para não serem

mal vistos na cidade. E o Morais

estava no desespero.

Meu avô disse-lhes: “Espanta-me

que vocês, por cima de um inimigo

vencido, estejam fazendo isso. Fi-

quem sabendo que eu vou esperar o

Morais, e lhes peço para não darem

vaias, porque vou dar o braço a ele,

e se vocês o vaiarem estarão vaiando

a mim. Não permito que um inimigo

meu, derrotado, seja esmagado dessa

maneira.”

Chegou o trem trazendo o Morais

com os guardas. Meu avô se aproximou,

cumprimentou-o muito cordialmente

e disse:

– Morais, você quer ir comigo à

prisão? Se for no meu braço, eu

lhe garanto que não haverá ninguém

que o vaie.

– Ribeiro – respondeu

ele –, nesta situação em

que estou, eu aceito.

Foram os dois caminhando

até a prisão,

que ficava perto da

estação de trem, em

meio aos inimigos

do Morais quietos,

por causa da presença

do meu avô.

Chegando à cadeia,

meu avô disse

a ele:

– Você está sem

advogado. Nós não

nos damos, mas se você

quiser, eu interrompo

minha viagem, pouso

aqui e preparo sua defesa.

O Morais aceitou.

Meu avô passou a noite trabalhando.

No dia seguinte, pelo

que contava mamãe, tinha produzido

uma defesa maravilhosa e arranjou

um jeito de o Morais ser solto.

Era compreensível por não se

tratar de um bandido profissional,

mas de um homem de condição que,

de repente, por uma questão eleitoral,

cometeu um crime.

Esse jeito de meu avô tratar o

Morais não impediu que este depois

fizesse canalhadas contra ele, do que

nós aqui estamos certos, porque a

gratidão é muito rara.

8


Arquivo Revista

fazia isso evidentemente com a intenção

de que eu seguisse o bom

exemplo. Isso era patente. Aliás, ela

fazia muito bem, estava em seu papel

de mãe.

Ela me contou o caso do Morais

mais de uma vez, mas nunca manifestou

um azedume contra ele. Mamãe

explicava bem direito como o

Morais era ruim, para eu compreender

a generosidade do pai dela. Se o

Morais estivesse vivo e precisasse de

mamãe, ela ia fazer o que fosse necessário,

àquela hora.

Residência dos Ribeiro dos Santos, em São Paulo, onde

Dr. Plinio passou sua infância e juventude

...e vai levar-lhe socorro

na hora da morte

Anos depois, meu avô mudou-

-se para São Paulo, perdeu o contato

com o Morais, nem pensou mais

nisso. E era uma noite fria, de garoa,

não havia ainda telefone em

São Paulo, batem à porta da casa.

Alguém trazia uma carta da mulher

do Morais para meu avô, dizendo:

Dr. Ribeiro, nós estamos na situação

mais atroz que pode haver. Meu

marido está morrendo de tuberculose.

Nós nos encontramos em péssimas

condições: não temos víveres

nem cama, estamos dormindo num

colchão sobre o solo, e não possuímos

sequer remédios. Mas será que

posso contar ainda com a sua generosidade

para dar um dinheiro para

o Morais se nutrir, etc.?”

Naquela hora da noite, meu avô

mandou vir um tílburi, uma forma

de carrinho que havia antigamente

e, apesar da garoa, etc., ele foi à casa

do Morais, já levando víveres, cobertores

e outras coisas para o Morais

e sua mulher. Chegando lá, perguntou

qual era a receita do médico, foi

a uma farmácia; o farmacêutico dormia,

mas ele fez que abrissem a farmácia

e comprou o remédio.

Logo depois, o Morais morreu

com a cabeça apoiada num travesseiro

nos braços do meu avô, o qual, se

não me engano, havia levado o travesseiro.

E o Morais com uma doença

contagiosa, que naquele tempo

era quase incurável...

Mamãe contava essa história,

com muito entusiasmo pelo pai. E

Uma senhora russa de

alta condição social pede

conselho a Dona Lucilia

Houve também o fato que se deu

num hotel, em Paris. Certo dia, uma

senhora russa de alta condição social

bateu à porta do quarto de mamãe

e disse:

– Madame, a senhora me permite?

Eu percebo na senhora tanta

bondade que, embora eu não possua

nenhum direito de vir expandir

minha dor com a senhora, venho

pedir licença, tenha paciência comigo.

Vou expor à senhora o sofrimento

que eu tenho, e vou perguntar se

Arquivo Revista

9


Dona Lucilia

Arquivo Revista

a senhora tem um conselho para me

dar...

Podem imaginar se o pedido foi

atendido... Ela estava feita para

atender!

– Entre, por favor, sente-se, vamos

conversar.

A senhora contou que tinham detectado

nela um câncer. Era uma doença

incurável, e ela estava apavorada.

Aqui entravam os jeitinhos de

Dona Lucilia. Ela possuía certa experiência

de doença, como tem uma

dona de casa atenta a essas coisas

para o cumprimento do dever, mas

não tinha um senso clínico especial.

Mas ela dava um jeitinho nas coisas.

Ela ouviu tudo e disse:

– Olhe, o médico deu à senhora

certeza de que isso é câncer mesmo

e que é incurável?

– Sim, Madame, o médico deu.

– Mas, olhe aqui, os médicos podem

se enganar. Eu aconselho a senhora

ir ao Dr. Fulano, que é um

grande médico aqui em Paris e po-

de fazer um exame melhor. E quero

muito aconselhar a senhora a ir lá.

E a senhora espere, tenha confiança

em Deus que isso se arranja.

A russa chorou, acabou secando

as lágrimas e foi ao médico. E depois,

no hotel, não se encontraram

mais. Passado algum tempo, mamãe

recebeu uma carta da russa dizendo

que não sabia como agradecer.

Tinha ido consultar o médico, e este

lhe dera um remédio que a curou,

afastando aquele pesadelo.

A ação de mamãe é de natureza a

recompor, e o afeto que ela tinha para

com os outros era desinteressado.

Ela queria o bem dos outros, porque

é bom, em si, que os outros estejam

bem. A ordem criada por Deus pede

isso. E, portanto, é por amor de

Deus que ela o fazia.

Queria o bem das

pessoas, sem esperar

nenhuma retribuição

Por exemplo, esse episodiozinho

dos jovens lendo no hall pouco iluminado,

ela se inquietou

porque

era uma tristeza,

na concepção oculista

dela, que estivessem

comprometendo

a própria vista.

Isso, em si, é um

mal por não ser de

acordo com a ordem

das coisas, mas também

porque vão ficar

sofrendo, com prejuízo,

por perderem algo

que Deus lhes deu,

que é uma boa vista. E

ela queria o bem deles,

sem esperar nenhuma

retribuição. Vê-se que

no fundo estava a ideia

do amor de Deus.

Mamãe possuía uma

noção de ordem muito

clara, acompanhada da

ideia de que nesta Terra essas coisas

não têm recompensa, mas as grandes

tristezas da vida preparam no

Céu alegrias nobres e serenas, como

eram nobres e serenas essas tristezas.

A alegria no Céu ela não concebia

de pandeiro na mão, como um eterno

prolongamento de Hollywood.

Mas era uma coisa diferente. Toda

a paz, toda a serenidade que ela tinha

aqui, no meio da tristeza, preparava

uma eternidade onde tudo isso

se compensa, se acerta, se arranja, e

onde a axiologia se satisfaz nos seus

últimos postulados. É a Fé católica,

evidentemente.

Entrava muito uma adoração pessoal

a Nosso Senhor e, sabendo que

o Coração d’Ele ficaria alegre com

sua atitude, ela a fazia para adorá-

-Lo. Todas essas razões constituem

um senso harmônico, e um senso do

holocausto levado ao último grau.

Não vi ninguém levar o holocausto

até o ponto onde ela levou.

Eu já a conheci assim, e ela foi

desse modo o tempo inteiro!

10


Só aceitava cartas

manuscritas

Lembram-se daquela história de

eu, quando criança, passar da minha

cama para a dela e sentar-me

em cima do seu peito para acordá-

-la? Abria os olhos dela com as minhas

mãos. Eu percebia que ela passava

de um sono profundo imediatamente

para uma atitude de perdão.

Mal ela notava que era eu quem estava

ali, sentava-se logo de uma vez.

Não era uma atitude ambígua para

ver se começava a dormir dali a pouco,

não. Ela renunciava a retomar o

sono. Abria um parêntese no sono

e brincava comigo, dizia coisas, me

agradava, etc.

Eu me sentia tão invadido por

aquela bondade que as angústias

da noite fugiam. Lembrei-me disso

quando, lendo a vida de Santa Teresinha

do Menino Jesus, vi-a falar

das tentações que tinha de noite. Então

ela diz que não compreendia por

que no Ofício as carmelitas rezavam:

“Para que fujam os sonos maus, e os

fantasmas noturnos...” E isto porque

havia angústias noturnas.

Tenho a impressão de que eu

acordava angustiado. Sentia-me isolado,

inseguro, mal, numa espécie

de naufrágio. Além disso, era doente,

fraco. Então, passava para a cama

dela, mas sem a mínima hesitação.

Eu sabia que ia ser bem recebido

a qualquer hora da noite. E quando

ela me fazia deitar de novo em

minha cama, eu me lembro de que

mais de uma vez me vinha a reflexão:

“Propriamente eu me arranjo

com ela. Com mamãe posso me

arranjar até o fim, porque ela não

me recusa nada!” Acho que isso me

acalmava, então dormia bem.

No dia seguinte, era mais confiança,

mais querer bem, mais respeito,

mais admiração...

Aliás, é preciso dizer, eu a queria

bem até onde me seja possível querer

bem a uma pessoa! Naturalmente,

Nosso Senhor, Nossa Senhora estão

acima de toda comparação. Mas

até onde podia querer bem uma pessoa,

eu a queria totalmente bem.

Mas, vejam bem, ela não tinha essas

bondades relaxadas. As menores

coisinhas, ela insistia comigo. Quando

eu saía de São Paulo, sempre lhe

escrevia cartas, e ela gostava, lia, relia

e as guardava. Mas eu omitia de

pôr data, porque toda a vida tive

preguiça de escrever. E tinha um defeito

qualquer na mão, por onde escrever

me doía um pouco; além disso,

letra muito feia. Tudo isso fazia

com que eu não gostasse de escrever.

E ela só queria carta escrita à

mão, não aceitava batida à máquina.

Dizia que carta à máquina era inexpressiva,

e que ela não me sentia na

carta à máquina. E tinha razão. Eu

era datilógrafo rapidíssimo e em cinco

minutos saía uma carta enorme,

evidentemente transbordante de carinho.

Mas ela não queria. Afirmava

que tomava como não recebida.

Eu cedi porque ela tinha o direito

de querer isso de mim. Mas, por preguiça

de escrever, não punha a data.

Ela, na resposta, lembrava: “Filhão

querido, quando me escreveres, não

esqueças de pôr data em cima...” Eu

na próxima vez esquecia, ela insistia

de novo. Isso era feito com tanta doçura,

que eu ficava literalmente encantado!

v

(Extraído de conferência de

31/8/1985)

1) Dr. Antônio Ribeiro dos Santos, avô

materno de Dr. Plinio.

Arquivo Revista

11


Eco fidelíssimo da Igreja

Arquivo Revista

Duas

influências

Na década de 1920, a sociedade, influenciada

pela Igreja Católica, possuía polidez, distinção,

elegância. Mas tudo isso foi perecendo pela

influência da Revolução. Fala-se da invasão

dos bárbaros que arruinaram o Império

Romano do Ocidente. Porém, a entrada da

Revolução escangalhou a civilização mais do

que a invasão dos bárbaros.

12

Igreja do Sagrado Coração de Jesus,

em São Paulo, no início do século XX


J. P. Ramos

Igreja do Sagrado Coração de Jesus - São Paulo, Brasil

Desde minha mais tenra infância,

fui considerando

a Igreja Católica Apostólica

Romana com enlevo cujo fundo

era a Fé. Como a ideia de uma instituição

divina foi se formando aos

meus olhos?

Semelhante aos

bancos de coral

Eu via as pompas paroquianas.

A Igreja do Sagrado Coração de Jesus

não era propriamente uma Matriz,

mas a capela de um colégio, situado

na Paróquia de Santa Cecília.

Igreja de dimensões modestas para

nosso olhar de hoje em dia, porém

grandes para a São Paulinho daquele

tempo, onde eu entrava cheio de respeito

porque me parecia um grande

monumento. Sempre fui muito atraído

por tudo quanto é monumental,

imponente, grandioso. Eu me adentrava

cheio de respeito pelo edifício

e pelo que lá se passava. Graças

a Deus tinha Fé e sabia ser ali a Igreja

verdadeira do Deus verdadeiro, e

era levado sobretudo pela adoração

a Deus presente no Santíssimo Sacramento.

Eu ia lá para assistir às cerimônias,

à Missa, à bênção do Santíssimo,

de vez em quando um casamento,

mas tinha minha atenção voltada

para um ponto especial, que só consegui

explicitar mais tarde, mas foi

criando densidade no meu espírito.

Realmente, a explicitação não é

senão o último afloramento de uma

verdade. Assim como os bancos de

coral são formados no oceano, a partir

bem do fundo e vão subindo – em

certo momento aquilo aflora e constitui

uma ilha –, isso de modo semelhante

também ocorre na mente humana.

São impressões que vão se sedimentando

e se colocando de modo

harmônico umas junto às outras, e

constituem no subconsciente a enorme

torre “submarina” de uma convicção

ou de uma ideia que vai surgir.

Em certo momento dá-se a explicitação

na qual a ideia acaba de se

formar e nascer. Vou descrever um

pouco como se deu comigo.

Gestos, atitudes, modos

de falar que exprimem

a mentalidade

Desde pequeno, eu era muito

atraído pelas formas e sobretudo pelas

cores. Agradava-me o colorido

da pintura de um mosaico sobre o

tabernáculo, representando o Padre

Eterno, tendo ao peito uma pomba,

símbolo do Espírito Santo, e o Santíssimo

Sacramento, indicando a Segunda

Pessoa da Santíssima Trindade.

Era tudo muito adequado.

O tabernáculo, que me parecia feito

de ouro, era espesso, sólido, bem

trabalhado. Os candelabros, os vitrais,

as pinturas nas paredes – sóbrias,

distintas, tranquilas –, as formas

dos paramentos litúrgicos, os

gestos e as palavras do celebrante –

13


Eco fidelíssimo da Igreja

Divulgação (CC3.0)

J. P. Ramos

Igreja de Santa Cecília

São Paulo, Brasil

Basílica de Santo Antônio do

Embaré - Santos, Brasil

o latim, língua tão nobre que eu não

entendia e ficava acima da intelecção

comum, sendo própria para os doutos,

homens de valor superior –, tudo

isso somado ia me impregnando de

mil impressões afins com a calma que

é um dos aspectos da virtude da temperança.

Aquilo me parecia harmonioso,

sério, coerente, estável, elevado,

com um certo reluzimento sobrenatural

que eu não sabia definir.

Havia muita relação harmônica

também com a música do órgão, com

a atitude dos fiéis enquanto o padre

celebrava. E havia a coerência disso

tudo com a ideia de que o sacerdote

era um ser superior, escolhido dentre

o povo e chamado por Deus para

uma missão de uma intimidade especial

com Ele, fazendo do padre uma

pessoa ungida, separado dos outros

homens, e colocado acima deles para

o bem da humanidade. Uma ponte,

ao pé da letra, entre Deus e os homens.

O sacerdote é o pontífice, palavra

que designa aquele que faz o papel

de ponte. Depois, a ideia de que o

padre não se casa e, portanto, não se

mistura nem sequer com as alegrias

santas do lar, criando em torno dele

um isolamento meio misterioso e sacral

que o reveste de uma respeitabilidade

toda especial.

Aos poucos fui notando como em

todas as igrejas que conhecia, ou

cuja fotografia via ao folhear revistas,

eu tinha a mesma impressão, e

pensava: “Como essas igrejas, tão diferentes

em sua decoração, nas imagens

nelas veneradas, nas pessoas

que as frequentam, entretanto parecem

uma mesma coisa! Seja a Igreja

do Coração de Jesus como a do Imaculado

Coração de Maria, a de Santa

Cecília, em São Paulo, como a de

Embaré, em Santos, em todas elas a

Igreja é sempre a Igreja!”

O que há na Santa Igreja que se

afirma com tanta unidade em circunstâncias

tão diversas?

As cores e as formas que alguém

escolha para exprimir seus sentimentos

variam de pessoa a pessoa. Cada

qual se exprime por uma certa forma,

e comunica uma determinada nota ao

ambiente onde está. O indivíduo tem

certos gestos, atitudes, modos de falar

que exprimem também a mentalidade

dele. Entre todos esses sintomas

de sua mentalidade e a sua própria

mentalidade há coerência.

Convicções, normas, virtudes

Ora, se vou tomar a Liturgia católica,

todos os seus gestos exprimem

uma mesma mentalidade, como se

fosse o gesticular de uma mesma

pessoa. Por detrás desses gestos há

uma mentalidade que vive de algum

modo em todos os padres. É uma

mentalidade que está no padre professor

alemão do Colégio São Luís,

mas também no missionário italiano

J. P. Ramos

Biiib (CC3.0)

Igreja do Sagrado Coração de Jesus - São Paulo, Brasil

Igreja do Imaculado Coração de Maria - São Paulo, Brasil

14


do Coração de Jesus, no missionário

espanhol do Coração de Maria, naquele

outro sacerdote brasileiro nortista,

gaúcho ou paulista. Há dentro

deles a presença de um terceiro que

vale mais do que eles.

Conheço, privadamente, alguns

deles. São respeitáveis, distintos,

apresentáveis, eu os estimo. Mas não

valem o que fazem no altar. Essa tal

pessoa que, por assim dizer, habita

neles vale muito mais do que eles.

E não foi composta por eles; já existia

na Igreja antes deles nascerem

e, quando foram ordenados padres,

eles se inseriram nisso. O que é isso?

Vinha-me ao espírito essa pergunta,

sem perplexidade. Era a indagação

de quem sabia haver resposta e a procurava

com a clareza de quem busca

um tesouro. Não era, portanto, uma

pergunta angustiada, mas sim enlevada,

esperançada e maravilhada.

Eu não possuía os conhecimentos

de Catecismo e de Religião que adquiri

com o curso do tempo. A minha

resposta foi a seguinte: a Igreja

é uma instituição. É algo que existe

desde Jesus Cristo até hoje e que

transmite um conjunto de convicções

– as verdades da Fé –, um conjunto

de normas – as normas da Moral

–, um conjunto de virtudes, porque

a Igreja não é apenas um complexo

de livros, mas é um conjunto

de virtudes efetivamente praticadas,

as quais vêm se transmitindo de

geração em geração e são a efetivação,

na vida humana, daquilo que a

Fé propõe, a Moral indica, e vão assim

modelando os homens em todos

os lugares, em todos os tempos. Daí

o admirável da Igreja.

Oh, que instituição divina!

Essa instituição dominada pela

mesma mentalidade, pelo mesmo

espírito, elaborou tudo isso e o

foi completando e aperfeiçoando ao

longo dos séculos. Mas existe algo

que nasceu dela também: a boa edu-

Plinio em Águas da Prata

cação na ordem temporal

e civil.

O cerimonial da sociedade

civil, bem analisado,

é o contrário

da chulice moderna,

do espírito revolucionário.

É o reflexo, nos

hábitos humanos, da

mesma mentalidade

da Igreja.

Oh, que instituição

divina! Há aí qualquer

coisa completamente

superior à crônica

e inevitável estupidez

humana. Se nela

deixassem só homens,

essa instituição

se esfarelava. Há nela

um princípio de unidade,

uma chama sobrenatural

que vale mais

e mantém tudo isso. É

um espírito, uma continuidade,

uma chama

de Deus.

Eu olhava as imagens

de Nosso Senhor

Jesus Cristo, longa e

atentamente, e pensava:

“Se tivesse talento,

considerando a Igreja,

talvez eu fosse capaz

de imaginar a fisionomia

do seu Fundador.

Porque a Igreja está presente

no seu Fundador como em sua própria

Causa. Ora, olho a fisionomia de

Nosso Senhor Jesus Cristo e digo: ‘É

o Fundador da Igreja! Ele é a Causa,

a Igreja é a Filha d’Ele!’” Donde uma

longa atenção posta em Nosso Senhor

para adorá-Lo como a Segunda

Pessoa da Santíssima Trindade encarnada,

mas também para fazer a comparação

entre Ele e a Igreja.

Minha conclusão: Como se parecem!

A filha, como se assemelha com

o Pai! Depois, considerar as regras de

educação, dignidade, distinção, em

vigor ainda no Ocidente, e dizer: “Esta

ordem temporal também é filha

de Nosso Senhor Jesus Cristo.” E eu

adorava a Nosso Senhor Jesus Cristo

refletido também no cerimonial civil.

E exclamava: “Que maravilha! Que

coisa sublime!”

Homem bom é aquele que

abriu sua alma à Igreja

Posteriormente, conhecendo um

pouco mais a Doutrina Católica,

aprendi que a Igreja é o Corpo Místico

de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Que Nosso Senhor Jesus Cristo tem

duas naturezas, humana e divina,

Arquivo Revista

15


Eco fidelíssimo da Igreja

Samuel M.

Altar com o Santíssimo Sacramento - Igreja

de Santa Cecília, São Paulo, Brasil

cias. Eu examinava qual era o lado

que no interior delas resistia: a Santa

Igreja.

Olhava para dentro de mim e via

nascer a tentação. Não só a tentação

vinda do demônio, mas a procedente

de mim, errado e tendente ao mal,

querendo com ênfase coisas não boas,

e tendo que travar uma batalha

em meu interior para conseguir andar

bem. E me perguntava: “Quantos

são os que, ao meu redor, lutaram

como eu combato? Ora, não sou

nem melhor nem pior do que eles. Se

preciso lutar assim para andar bem,

se eles não combatem não prestam.

Porque se eu não lutasse, não prestaria

também. Logo, Plinio, seja desconfiado

e compreenda em que humanidade

você está!”

Conclusão: só é bom quem é verdadeiramente

católico e traz na sua

numa só Pessoa. E enquanto

Homem-Deus

pôde oferecer um sacrifício

que expiasse,

diante do Padre Eterno,

pelos pecados dos

homens, obtendo com

isso o perdão do pecado

original, das outras

faltas pelos Sacramentos,

e a abertura do caminho

rumo ao Céu. E

que daí vem a vida da

graça sobre os homens.

Essa graça é a participação

da própria vida

de Deus em nós.

De onde a existência,

na Igreja, de uma

presença sobrenatural,

que eu julgava entrever

mais ou menos como o

Sol através do vitral. A

comparação é objetável;

toda comparação

tem alguma coisa de

claudicante. Mas o fato

concreto é que a mim

me parecia ver reluzimentos

na Igreja através

dos quais, pela graça de Nosso Senhor

Jesus Cristo, discernia algo que,

em última análise, remontava a Ele.

Brotava, então, de minha alma o ato

de adoração a Deus, Nosso Senhor.

Em certo momento, comecei a

dar-me conta de como, apesar de

Ele ser infinitamente bom e misericordioso,

o ser humano não é digno

de se aproximar d’Ele. Essa ideia

se cravou muito mais no meu espírito

à medida que fui tomando contato

com a Revolução. Os que não são

péssimos, vejo que não o são porque

abriram algo de sua alma à Igreja.

Querem a definição de homem

bom? É aquele que abriu sua alma à

Igreja. A graça de Deus, penetrando

nele, chamou-o para o bem, ele disse

“sim” e começou a ser bom.

Fui vendo o mal efervescer nas

pessoas, os defeitos, as más tendênalma

e na sua fisionomia

o sinal da luta.

Quem não é assim,

quando tem virtude esta

é frágil; e virtude

frágil não é senão uma

virtude em agonia.

Deus detesta

o pecado

Aquele que não vigia

a si próprio, vivendo

com uma cara despreocupada,

e que recusa

tais pontos da

Doutrina ou da Moral

católica, como vou

acreditar, por exemplo,

na amizade dele

por mim? Não contem

comigo para isso,

porque não é sério.

Posso tomar ares amáveis,

não manifestar a

minha desconfiança.

É uma obrigação velar

a desconfiança, não

se pode viver com a interrogação

pendurada

nos olhos. Deve-se ser amável, gentil.

Mas, no fundo, se eu tenho que

desconfiar de mim, e não valho mais

nem menos do que ninguém, por minha

natureza, então desconfio do

outro que não vive tendo nas mãos

as rédeas de sua alma.

Estou com setenta e cinco anos.

Quanta gente tem passado pelo caminho

de minha vida! Nunca vi um desmentido

a essa regra: não confiar em

quem não for católico apostólico romano,

praticante e militante, sobretudo

dentro de si. Militante com os outros,

ótimo! Mas eu quero saber se

você fica indignado com os seus defeitos,

se os combate; porque meter o

relho nos outros quando necessário é

bom, mas muito menos duro do que

metê-lo nas próprias costas. Formar

a ideia de que os outros não prestam

corresponde à realidade. Contudo,

16


muito mais meritório é compreender

que nós mesmos não prestamos.

Mas, ao mesmo tempo em que eu

vinha notando isso, com a graça de

Nossa Senhora, ia percebendo que

Deus detestava o pecado. Nosso Senhor

Jesus Cristo era profundamente

incompatível com o pecado; e com

o pecado em mim também. E que o

amor que Ele me tem é, debaixo de

um certo ponto de vista, incondicional,

e, de outro ponto de vista, condicional.

Incondicional nesse sentido: Nosso

Senhor me chama junto a Ele

e me ama em todos os dias que me

concede viver. Ainda que tenha a

desgraça culposa de O ofender gravemente,

Ele me chama: “Plinio,

vem cá!” Na Igreja de Santa Cecília,

em São Paulo, acima de um altar

com o Santíssimo Sacramento, há

uma frase tirada do Evangelho muito

bonita: Magister adest et vocat te – O

Mestre está aqui e te chama.

Mas Jesus me chama

para que eu me modifique.

Se não me modificar,

vou caminhando não

na graça d’Ele e, em certo

momento, Ele me joga

no Inferno! Nosso Senhor

me dará a graça até o último

instante. Se eu recusar,

terei a rejeição eterna

d’Ele, então carregada de

ódio! Pois bem, vou examinar

esse ódio.

Todo mundo analisa

o amor. É fácil e gaudioso

examinar o amor que

Ele tem para conosco. É

tão gaudioso que aprendemos

depressa. Agora

vamos analisar esse ódio.

Quão pouca gente adora

o ódio d’Ele ao mal!

Quão pouca gente adora

a divina intransigência

com que Ele tem horror

aos nossos pecados, ainda

que pequenos e leves!

Ora, eu adoro essa intransigência

ainda quando O sinto detestando os

meus defeitos. Eu O adoro dizendo:

“Senhor, como sois perfeito a ponto

de detestar em mim isso que é detestável!

Senhor, adoro a vossa justa cólera!

E não compreenderia a vossa

santidade infinita se não tivesse também

o matiz de vossa cólera.”

Mas, como me aproximar? Eu me

enlevei muito, adorei muito, compreendi

como estava próximo; num

segundo lance, comecei a entender

como me encontrava longe. E agora,

como fazer? “Salve Rainha, Mãe

de Misericórdia, vida, doçura e esperança

nossa, salve!”

Ah, agora compreendo! Há Alguém

que é Mãe e Advogada, com

esta missão da parte d’Ele: tocar-me,

comover-me, aproximar-me d’Ele

e conseguir que Ele me perdoe. Alguém

que une a minha imperfeição

irremediável à celeste perfeição

d’Ele! “Salve Rainha, Mãe de misericórdia!”

Se não fosse isso, eu desesperaria.

Mas Ela é a nossa esperança.

Tradicção e modernidade

Eu passava daí para a sociedade,

para o mundo. Por exemplo, as festas

e outras reuniões sociais das quais

participei, num mundo bastante diferente

do de hoje, muito mais protocolar,

mais cerimonioso, mais elevado.

Entrei e percebi imediatamente o

contraste de duas influências.

Uma era a influência das boas maneiras,

da tradição, da distinção, da

elevação, e outra era a influência da

Revolução, na mesma sala, nas mesmas

pessoas, nas mesmas atitudes. Então

eu percebia – e poderia contar cem

pequenos episódios – que tudo quanto

era bom, elevado e cerimonioso provinha

do passado. O que era porcaria

– porque não há outro modo de dizer

– provinha do presente. E

quando era bem ruim mesmo,

prenunciava o futuro.

Inútil dizer que essas

coisas procuravam envolver

cada um que estava

dentro do ambiente, e

que a contradição marcava

de tal maneira o ambiente,

que exigia de cada

pessoa uma certa cota

de tradicionalidade e outra

cota de modernidade.

Dando a cota da modernidade,

se abria a alma

para uma espécie de vento

impetuoso que ia para

a frente. Oferecendo a

cota da tradição, se descerrava

a alma para uma

espécie de calma, de temperança

– parada e já sem

vida – que ia morrendo a

cada dia mais…

Eu me perguntei: donde

vem essa tradição e essa

marcha para a frente?

E a resposta foi rápida.

Arquivo Revista

17


Eco fidelíssimo da Igreja

Guilherme Gaensly (CC 3.0)

Teatro Municipal de São Paulo no início do século XX

ram na lama embaixo, assim estava a

sociedade civil. A Cristandade, a família

das nações cristãs que a Igreja Católica

modelara, e com isso a polidez,

a distinção, a elegância da sociedade

cristã de outrora, tudo ia desabando.

A vida humana

apresenta graus de

importância desiguais

Mas nesse período ainda se notava

muito a tradição. Lembro-me

das grandes soirées de gala no Teatro

Municipal de São Paulo.

Não sei se os mais jovens alcançam

o significado da palavra “gala”.

O que é um espetáculo, uma cerimônia

de gala?

Por detrás da noção de gala e

de pompa existe o seguinte princípio:

a vida humana apresenta graus

de importância desiguais. E até nisso

o mundo daquele tempo não era

igualitário. Um ato praticado por

uma razão tem um certo significado

e uma certa importância. O mesmo

No tempo em que os homens eram

católicos, nasceram regras de educação

maravilhosas; essa marcha errada,

do desatino e do desvario, não

existia ainda. E os homens iam, cada

dia que passava, inventando novas

fórmulas de polidez, de distinção. A

sociedade toda brilhava em atitudes

em que, cada vez mais, o amor às autoridades

legitimamente constituídas,

o amor ao próximo igual a nós e

o amor ao inferior a nós iam se destilando,

e maneiras requintadas que

aperfeiçoavam o temperamento exprimiam

e formavam a alma.

Houve um certo momento em

que entrou um demônio nisso, e um

rodopio em sentido oposto passou

a se instaurar. A analogia da Liturgia

para a sociedade civil, as regras

da etiqueta do passado, a sociedade

temporal toda marcada pela Igreja,

que estava no alto da montanha, nos

anos 20, tudo isso foi perecendo.

Como um castelo que está ruindo,

cujas pedras vão rolando pela encosta

da montanha, e algumas já afundaato

realizado por outro motivo possui

uma importância menor. Então,

numa família onde há, por exemplo,

uma matriarca, vamos dizer que é

uma senhora que teve quinze filhos,

e cada filho quinze filhos, e ela festeja

– vou imaginar uma hipótese que

muito raramente se verifica, mas pode

acontecer e tem acontecido – cem

anos de idade, o aniversário dela,

se a família possui posses, deve ser

muito festivo. É claro! Porque cem

anos é um aniversário insigne!

E nesse aniversário o que há de insigne

na condição de matriarca brilha

mais. Então, a festa deve ter pompa!

A família põe para a refeição as melhores

toalhas, os melhores serviços

de mesa, os melhores talheres. A casa

está adornada com as mais belas flores.

Servem as comidas, as bebidas, as

melhores que podem apresentar.

Correlatamente, as pessoas se

apresentam com os trajes melhores.

E se tratam nesse dia com uma distinção

e um mútuo respeito maiores

do que nos dias comuns. É um ani-

18


Arquivo Revista

versário de gala, comemorado com

uma pompa jubilosa!

Se a família é católica, essa pompa

começa de manhã, na igreja, com

uma Missa solene, à qual todos se

apresentam com trajes de festa, em

que a família toda comunga, e a matriarca

é cercada com provas de respeito

especiais. Para ela se mandou

fazer, nesta ocasião, um vestido excelente.

Será um dos vestidos mais

ricos de sua vida com o qual, provavelmente,

ela será enterrada.

Mas ela se apresenta naquele dia

adornada com todo o esplendor de

sua condição. Todos a tratam com

respeito muito mais marcado. Ela

mostra muito mais a sua grandeza!

É uma coisa bela, a gala! Não é

sem graça como quem festejasse, por

exemplo, o septuagésimo oitavo aniversário.

A vida não precisa ter umas

ocasiões assim?

Bodas de prata ou de ouro de um

casal, vinte e cinco ou cinquenta anos

de casados. Gala, é claro! Nas ordens

religiosas mais simples, como na franciscana,

quando um religioso completava

vinte e cinco anos – ou cinquenta,

não me lembro bem – de profissão,

ao menos na província brasileira

e na alemã, se comemorava. Eu conheci

frades alemães no Brasil que

festejavam isso, ainda quando era um

simples irmão leigo: Missa de gala,

com pompa litúrgica. E se não me engano,

já durante a Missa, ele era cercado

com uma coroa de flores, a qual

ele usava o dia inteiro dentro do convento!

Eu acho uma beleza!

Conheço o caso de uma família

antiga na qual, remexendo velhos

objetos, se encontrou o vestido

de casamento, finíssimo e muito bonito,

da avó já falecida. Ajustava-se

tanto ao corpo da neta a qual estava

noiva que, pondo-o ao sol, arranjando

alguma coisinha, ela se casou com

o vestido da avó. Isso conferiu a toda

a cerimônia nupcial uma pompa especial!

É natural. São coisas bonitas,

razoáveis, verdadeiras.

Espetáculo de gala no

Teatro Municipal

Havia também espetáculo de gala,

quando vinha uma grande companhia

artística representar no Teatro

Municipal. Artistas de fama mundial

vinham à São Paulinho do café, para

se apresentarem. Por exemplo, as melhores

artistas da Opéra de Paris, cuja

língua se compreendia melhor aqui.

Ou então, no campo da música,

pianistas, violinistas, orquestras célebres.

Eram espetáculos de gala. Resultado:

todos os bilhetes de entrada

eram vendidos muito mais caros. E

obrigatório o uso de traje solene. Os

homens com casacas, condecorações.

As senhoras – no início dos anos 20 –

trajando vestidos com cauda, usando

leques, com plumas, joias coruscantes,

etc. E era bonito estar dentro do

saguão, vendo chegar as famílias.

Os automóveis entravam naquelas

arcadas laterais, o chauffeur descia,

abria a porta, tirava o boné, o marido

ia correndo, dava a volta no carro,

ajudava a mulher a descer. Ela o

fazia com ar amável, entrava, encontrava

conhecidos parados ali, todos

vestidos solenemente, que se cumprimentavam.

Muito esplendor. Entrando

na sala, as frisas, os camarotes, todos

dourados, aveludados, iam se enchendo

de pessoas que se sentavam.

A família não cabia inteira numa

frisa, nem ficava bem um rapaz ocupar

uma frisa. Então, os mais novos

sentavam-se na plateia. Mas como

eram parentes dos outros assistentes,

antes de começar o espetáculo se

cumprimentavam à distância. As senhoras

punham binóculos lindos, preciosos,

para reconhecer melhor. Era a

pompa, a gala. Isso acabou completamente.

Mas de tal maneira que estou

contando isso como se fosse uma história

anterior ao dilúvio!

Como tudo mudou, e mudou para

pior! Foi o mundo da Revolução que

entrou. O neopaganismo foi eliminando

completamente os restos de polidez

da Cristandade, os quais eram filhos

da Igreja e da Liturgia. A tradição

foi morrendo e a modernidade foi pisando

em tudo, como se uma horda de

vândalos entrasse por toda parte. Fala-

-se da invasão dos bárbaros que escangalharam

com o Império Romano do

Ocidente. Foi triste. Porém, a entrada

da Revolução escangalhou mais do

que a invasão dos bárbaros. v

(Extraído de conferência de

7/1/1984)

19


Hagiografia

Perfeito guerreiro

e devoto de

Nossa Senhora

Zairon (CC3.0)

A Igreja, vista na sua totalidade, possui

uma harmonia de aspectos opostos,

mas afins, que mostra toda a sua beleza.

Santo Estêvão foi um exemplo dessa

harmonia: incomparável em toda forma

de misericórdia, mas por isso mesmo

um homem forte, combativo, que lutou

intrepidamente pelo bem.

Estátua

equestre de

Santo Estêvão

Budapeste,

Hungria

As fichas a serem comentadas

hoje versam sobre a vida

de Santo Estêvão, Rei

da Hungria, retiradas do livro Vida

dos Santos, de Rohrbacher 1 .

Particular devoto da

Santíssima Virgem

Santo Estêvão é o grande monarca

a cujo Batismo se deveu a conversão

da nação húngara, até então pagã.

O que Clóvis foi para a França,

ele significou para a Hungria, com

a imensa diferença de que Clóvis

se converteu, mas ficou muito longe

de ser um santo. Enquanto, pelo

contrário, Estêvão foi um verdadeiro

santo. Também os descendentes

imediatos de Clóvis não foram santos,

mas Santo Estêvão teve um filho

canonizado: Santo Américo, sucessor

de seu pai no trono real.

Esta primeira ficha nos traz um

dado especial sobre Santo Estêvão:

sua devoção a Nossa Senhora.

Santo Estêvão sempre manifestou

predileção particular pela Santíssima

Virgem. Por meio de um voto especial,

colocou sua pessoa e seu reino sob a

proteção de Nossa Senhora. Quanto

aos húngaros, ao referirem-se à Mãe

de Deus, não Lhe davam o nome de

Maria, ou qualquer outro; diziam apenas

“A Senhora” ou “Nossa Senhora”.

À simples menção dessas palavras, inclinavam

a cabeça e dobravam o joelho.

20


O santo rei mandou

construir em Alba

Real magnífica

igreja em honra da

Rainha do Céu. Os

muros do coro eram

ornados de esculturas,

o piso de mármore,

possuía várias

mesas de altar de

ouro puro, enriquecidas

de pedrarias, e

um tabernáculo para

a Eucaristia maravilhosamente

trabalhado.

O tesouro

estava repleto de vasos

de ouro e prata,

cristal e de ricos paramentos.

Santo Estêvão sempre desejou, pedindo

mesmo em suas orações, que

sua morte ocorresse no dia 15 de agosto,

Assunção da Santíssima Virgem.

Sua vontade foi satisfeita. Antes de expirar,

erguendo as mãos e os olhos, exclamou:

“Rainha do Céu, Co-Redentora

do mundo, é ao vosso patrocínio

que entrego a Santa Igreja, com os bispos

e o clero, o reino com os grandes

e o povo”; e, tendo recebido a Extrema-Unção

e o Santo Viático, rendeu

a sua alma.

Guerreiro e juiz

A segunda ficha apanha outro aspecto

da personalidade dele: Santo

Estêvão, guerreiro e juiz.

À piedade e ao zelo de um apóstolo,

Santo Estêvão da Hungria juntava

a coragem de um guerreiro e herói.

Nas instruções a seu filho, Santo

Américo, ele próprio observa que passara

quase toda a sua vida na guerra,

repelindo invasões de nações estrangeiras.

Logo que subiu ao trono, ainda

duque – ele foi duque até o momento

de se converter, quando o Papa o elevou

à dignidade de Rei da Hungria –,

procurou manter a paz. Porém, dirigidos

pelos fidalgos, seus súditos, ainda

O Papa São Silvestre coroa Santo Estêvão - Basílica São João de Latrão, Roma, Itália

pagãos, revoltaram-se. Pilhavam cidades

e campos, matavam seus oficiais e

insultavam o próprio Duque.

O Duque Estêvão reuniu suas tropas

e, levando nos seus estandartes a

imagem de São Martinho e São Jorge,

marchou contra os rebeldes que sitiavam

Veszprém. Tendo-os derrotado,

consagrou suas terras a Deus.

Em 1002, tendo seu tio Gyula, Duque

da Transilvânia, atacado a Hungria

por várias vezes, Estêvão marchou

contra ele, fê-lo prisioneiro, assim

como sua família, e juntou seus

Estados à monarquia húngara. Venceu

e matou com as suas próprias

mãos Kean, duque dos búlgaros. Com

o mesmo êxito repeliu os bessos, povo

vizinho da Bulgária. Mas sua justiça

igualava seu valor. Atraídos por

sua fama, sessenta bessos da nobreza

deixaram sua terra, levando com eles

famílias e riquezas, e vieram pedir ao

santo Rei permissão para se estabelecerem

no Reino da Hungria.

Os fâmulos de um comandante de

fronteira, levados pela cobiça dos despojos,

atacaram-nos de improviso matando

alguns, ferindo outros, e arrebatando

os seus bens. Santo Estêvão deu

ordem para que o comandante e suas

tropas se apresentassem na corte.

Ao defrontá-los, recriminou-lhes a desumanidade

e comunicou-lhes que faria

o mesmo com eles. Imediatamente

mandou-os enforcar dois a dois em todas

as avenidas do reino, a fim de que

todos soubessem que a Panônia estava

aberta aos estrangeiros e que nela encontrariam

hospitalidade e proteção.

A Civilização Católica é

a fonte de todo bem e de

toda grandeza temporal

Aqui encontramos essas verdadeiras

maravilhas da Igreja Católica sobre

as quais jamais será suficiente insistir.

Quando nos deparamos com

uma acusação à Igreja, devemos procurar

sua unilateralidade. Porque,

em geral, tratando-se de uma acusação

histórica, entra uma mentira; sendo

uma acusação doutrinária, há uma

unilateralidade. Os adversários da

Igreja não querem tomar em consideração

que ela, vista na sua totalidade,

tem uma harmonia de aspectos opostos,

mas afins, que faz toda a beleza

da Esposa de Cristo. Aliás, também

no universo, os contrários harmônicos

constituem a beleza da ordem

criada por Deus. Não se pode possuir

verdadeiramente o espírito da Igreja

Gabriel K.

21


Hagiografia

Tony Bowden (CC3.0)

se não se têm os olhos voltados

para esta verdade e o espírito

enlevado com ela.

Essas duas fichas nos

dão a fisionomia completa

de Santo Estêvão e, portanto,

da Igreja que o canonizou.

Porque quando a Esposa

de Cristo canoniza alguém,

declara que esse Santo

teve perfeitamente o espírito

dela. De maneira que cada

Santo, a seu modo, é uma

imagem do espírito da Igreja.

Assim, se raciocinarmos com

uma lógica elementar, com

um bom senso primário, encontramos

a plena justificação

de ambos os aspectos na

vida de Santo Estêvão.

Primeiro, o aspecto varonil

e enérgico. Santo Estêvão

está às voltas com inimigos irredutíveis

que o odeiam por

não ser pagão, querem depô-

-lo porque ele deseja trazer a

luz do Evangelho para seu povo,

e por isso se revoltam contra ele,

dentro do reino, ou marcham de fora

para o interior de seus domínios

para exterminá-lo e eliminar a porção

da nação húngara que já aderiu à

verdadeira Fé. Esses homens são esses

invasores, revoltosos, os inimigos

da salvação eterna do povo húngaro.

Ao mesmo tempo, são inimigos da

soberania do povo húngaro, do direito

que tem esse povo de escolher a

verdadeira Fé, de atender ao apelo

de Nosso Senhor Jesus Cristo, dessa

liberdade que o homem tem quando

obedece a Deus.

Portanto, Santo Estêvão via seu povo

atacado nos seus bens espirituais

mais altos, porque a Fé é a fonte de todos

esses bens, e agredido na sua própria

soberania, no que ela tem de mais

importante, porque o distintivo da soberania

de uma nação é a mesma coisa

do que o selo da liberdade de um

homem: consiste em, sem embaraços,

poder obedecer e servir a Deus. Es-

O pequeno Príncipe Américo sendo

instruído pelo Bispo São Gerardo Sagredo

Székesfehérvár (Alba Regia), Hungria

sa é a própria definição de liberdade.

Negar ao povo húngaro essa liberdade

era recusar-lhe a sua soberania no que

ela tem de mais essencial. Significava,

ademais, comprometer o progresso do

povo húngaro, porque a Civilização

Católica, correspondendo inteiramente

aos princípios da ordem natural e

dando ao homem as forças sobrenaturais

para obedecer aos princípios dessa

ordem, é a fonte de todo bem e de

toda grandeza temporal. De maneira

que querer afastar a Fé católica de

um país é desejar mantê-lo num paganismo

abjeto e impedir seu verdadeiro

progresso. Logo, tudo quanto consistia

para a Hungria uma razão de ser

e de viver estava empenhado nessa luta

de Santo Estêvão.

O centro da resistência

de um país era o rei

Naquele tempo a alma e o centro

da resistência do país era o rei.

O modo de desmantelar essa

resistência era matar o monarca.

Se um rei pagão pretendia

eliminar Santo Estevão,

não era belo, simbólico e

nobre que o Rei santo o eliminasse

com sua própria espada

e suas próprias mãos? E

que assim a infâmia cometida

por um sangue régio fosse

reparada pela fidelidade de

outro sangue régio? Isso não

é conveniente e bonito? Santo

Estêvão cumpriu seus deveres

de soberano, defendendo

assim seu povo e a Santa

Igreja Católica.

Por que ele agiu de um

modo tão enérgico com os indivíduos

que mataram e roubaram

essas pessoas que iam

se asilar na Hungria? Elas

pertenciam à própria nação

do rei que ele tinha morto,

ou que ia matar. Eram pessoas

de categoria que, descontentes

com o rei pagão, querendo

se converter, passavam com

seus rebanhos e suas economias para

o território da Hungria. Elas chegam

à fronteira – naturalmente desejavam

se batizar – e pedem: “Nós

queremos ingressar no reino de Estêvão

e no reino de Cristo. Pedimos

licença para entrar impunemente

nós e os nossos.” Consulta-se o Rei,

o qual diz: “Podem entrar, eu dou

garantias para as pessoas e para os

bens.” Abrem a fronteira e elas entram

com toda a confiança, deixando

as armas de lado – naquele tempo

todo homem, sobretudo o chefe de

família, era um guerreiro. Mas aparecem

uns bandidos infames que assaltam,

matam algumas pessoas para

serem donos dos haveres. São assassínios

vulgares, agravados pelo

aspecto da traição. Então, Santo Estêvão,

que punia com pena de morte

um assassinato comum, não haveria

de mandar castigar esses homens?

Alguém dirá: “Mas eles foram mui-

22


tos.” Prova a mais de que se devia

punir com pena de morte. Porque, se

são muitos os criminosos, isso prova

que o povo não está muito distante

da prática desses crimes. E então

é necessário punir para que o crime

não se repita. O fato de serem muitos

é uma prova a mais de que precisava

punir.

Praticou a justiça

e a misericórdia ao

mesmo tempo

Ele cumpriu o dever inerente à

majestade régia. O rei tem os Poderes

Legislativo, Executivo e Judiciário.

É o supremo juiz do país. E os

antigos, aliás muito acertadamente,

consideravam o Poder Judiciário

mais alto do que o Legislativo. Porque

as Leis fundamentais são feitas

por Deus. E o rei é o juiz que julga

de acordo com as Leis fundamentais.

O monarca não possui a plenitude

do Poder Legislativo, enquanto

o Poder Judiciário ele tem no sentido

de que aplica a Lei de Deus. Então,

Santo Estêvão agiu perfeitamente

bem.

Esse homem podia, portanto,

quando rogava para Nossa Senhora,

dirigir-se a Ela com o espírito completamente

tranquilo, com a consciência

inteiramente distendida. E

verdadeiramente chamá-La de Mãe

de Misericórdia, implorar a compaixão

d’Ela porque ele usou de misericórdia.

Ao castigar essa gente, Santo

Estêvão foi misericordioso para

com os que eram ou poderiam vir a

ser vítimas desses homens maus, se

não fossem intimidados; quer dizer,

ele praticou a justiça e a misericórdia

ao mesmo tempo. Então, nós deduzimos

daí que Santo Estêvão agiu

perfeitamente bem.

Temos, então, a imagem do perfeito

guerreiro e devoto de Maria.

Incomparável no perdoar, no estimar,

em toda forma de misericórdia,

mas por isso mesmo homem forte,

valente, que passou o tempo inteiro

na luta.

Fisionomia do combatente

católico por excelência

Lembro-me de que certa vez, conversando

com um senhor de uma lógica

muito estrita, muito clara, com

base em premissas extremamente

pobres e limitadas, abrangendo sempre

uma parte infinitesimal do horizonte,

ele me dizia:

“Eu não gosto do livro Imitação

de Cristo. Li e não compreendo, porque

se eu fosse fazer constantemente

o que está ali – voltar o outro lado

do rosto, não tomar em consideração

o mal que os outros nos fazem,

perdoar sempre, etc. –, eu me deixaria

roubar, saquear! É a conclusão

lógica da Imitação de Cristo.”

Pensei com os meus botões: Para

esse homem não há explicação possível.

Ou lhe faço um simpósio, que de

nenhum modo ele quer ouvir, ou ele

não pode entender isso, porque se

colocou previamente fora das perspectivas

necessárias para essa compreensão.

É preciso exatamente compreender

que a Imitação de Cristo foi escrita

para um ambiente no qual esses

princípios que apresentei eram

claríssimos, e havia até a tendência

a exagerar o lado belicoso. Então,

a Imitação de Cristo constituía uma

nota dentro de um concerto, ou seja,

a insistência em uma das vias que,

conjugada com a outra, dá a perfeição

da Moral Católica.

Sem dúvida, sempre que

possível é preferível

perdoar,

praticar a mansidão

e não a violência. Mas

não sendo possível é preciso

arregaçar as mangas e lutar!

Nisso se vê nossa fidelidade

aos princípios da Igreja Católica,

pelo auxílio e bênção de

Nossa Senhora. Por vezes, as pessoas

não compreendem o desassombro

com que enfrentamos o que imaginam

ser a opinião pública. De outro

lado, não entendem também como

somos corteses, gentis, amáveis e

nunca tomamos a iniciativa do ataque.

Entretanto, quando atacados,

damos uma surra! É a fisionomia do

combatente católico por excelência:

enquanto não me agridem, não agrido.

Porém, ai de quem me agredir,

porque saio “com um quente e dois

fervendo!” 2 É uma pequena aplicação

do que acabamos de ver na vida

de Santo Estêvão.

v

(Extraído de conferência de

10/9/1971)

1) Cf. ROHRBACHER, René François.

Vida dos Santos. São Paulo: Editora

das Américas, 1959. vol.

XV, p. 423, 428-430 e 442.

2) Antiga expressão popular

portuguesa, significando

aqui uma reação imediata e

indignada.

Vicente T.

Santo Estêvão

Budapeste, Hungria

23


C

alendário

1. Santo Afonso Maria de Ligório,

bispo e Doutor da Igreja (†1787).

Beato Pedro Fabro, presbítero

(†1546). Foi o primeiro entre os membros

da Companhia de Jesus a empreender

árduos trabalhos pastorais em

diversas regiões da Europa. Morreu

na cidade de Roma, quando se dirigia

ao Concílio Ecumênico de Trento.

2. São Pedro Julião Eymard, presbítero

e fundador (†1868).

Beata Joana, leiga († s. XII). Mãe

de São Domingos, realizou grandes

obras de misericórdia em favor dos

pobres e necessitados.

3. Beato Agostinho Kazotic, bispo

(†1323). Esteve inicialmente à frente

da Igreja de Zagreb e, mais tarde,

devido à hostilidade do Rei da Dalmácia,

assumiu a sede de Lucera, na

Apúlia, onde desenvolveu uma grande

obra em favor dos pobres.

4. Beato Federico Janssoone, presbítero

(†1916). Pertencia à Ordem

dos Frades Menores, em Montreal,

na província de Quebec, no Canadá.

Promoveu as peregrinações à Terra

Santa para o incremento da Fé.

dos Santos – ––––––

5. Beato Pedro Miguel Noël, presbítero

e mártir (†1794). Durante a

Revolução Francesa, por ser sacerdote,

foi encerrado de modo inumano

em um navio de prisioneiros, onde

acabou sua vida contagiado de peste.

6. Transfiguração do Senhor.

7. Beato Edmundo Bojanowski,

presbítero (†1871). Trabalhou com

afinco na formação dos pobres e analfabetos,

na localidade de Gorka Duchovna,

na Polônia. Fundou a Congregação

das Escravas da Imaculada

Conceição da Mãe de Deus.

8. São Domingos de Gusmão, presbítero

e fundador (†1221).

Santa Maria da Cruz (Maria Elena)

MacKillop, virgem (†1909). Fundou

a Congregação das Irmãs de São

José e do Sagrado Coração, dirigindo-a

em meio a múltiplas fadigas e vexações.

9. Santa Mariana (Bárbara) Cope,

virgem (†1918). Religiosa exemplar e

de um coração extraordinário, dedicou

trinta anos de sua vida ao serviço

dos leprosos de Molokai, entre os

quais faleceu aos 80 anos de idade.

10. São Lourenço, diácono e mártir

(†258).

São Blano, bispo († s. VI). Faleceu

em Dumblane, na Escócia.

11. Beato Maurício Tornay, presbítero

e mártir (†1949). Anunciou com

empenho o Evangelho na China e no

Tibete, e recebeu a morte por mãos

dos inimigos do nome cristão.

12. Santa Joana Francisca Frémiot

de Chantal, religiosa (†1641).

13. XIX Domingo do Tempo Comum.

São Benildo (Pedro) Romançon, religioso

(†1862). Pertencia ao Instituto

dos Irmãos das Escolas Cristãs e dedicou

sua vida à formação dos jovens.

Beata Gertrudis, virgem (†1297).

Abadessa da Ordem Premostratense.

Quando criança, foi oferecida a Deus

por sua mãe, Santa Isabel, Rainha da

Hungria.

14. São Maximiliano Maria Kolbe,

presbítero e mártir (†1941).

Santos Domingo Ibáñez de Erquicia,

presbítero e Francisco Shoyemon,

noviço, mártires (†1633). Dominicanos

mortos por ódio à Fé, em Nagasaki,

Japão.

15. Beato Cláudio (Ricardo) Granzotto,

religioso (†1947). Uniu o exercício

de sua profissão religiosa à arte de

escultor, alcançando em poucos anos a

perfeição na imitação de Cristo.

Flávio Lourenço

16. Santo Estêvão, Rei da Hungria

(†1038). Ver página 20.

Santa Rosa Fan Hui, virgem e mártir

(†1900). Na perseguição dos boxers,

na China, sofreu inúmeras torturas,

sendo lançada a um rio quando

ainda agonizava.

Martírio de São Lourenço

17. Santa Joana Delanoue, virgem

(†1736). Apoiada totalmente na Divina

Providência, acolheu em sua casa

órfãs, anciãs, mulheres enfermas e

24


––––––––––––––––– * Agosto * ––––

Divulgação (CC3.0)

de má vida. Posteriormente, estabeleceu,

com suas companheiras, os fundamentos

do Instituto das Irmãs de

Santa Ana da Divina Providência.

18. Beato Alberto Hurtado Cruchaga,

presbítero (†1952). Fundou

uma obra para amparar os pobres que

carecem de moradia, principalmente

crianças.

Beata Maria Beltrame

Quattrocchi

19. São Luís, bispo (†1297). Sobrinho

do Rei São Luís, da França, preferiu

a pobreza evangélica às honras

do mundo. Ainda jovem, foi elevado à

sede de Tolouse.

20. Solenidade da Assunção de

Maria (Transferida do dia 15).

São Bernardo, abade e Doutor da

Igreja (†1153). Ver página 2.

Santa Maria de Matias, virgem

(†1866). Fundou o Instituto das Irmãs

da Adoração do Preciosíssimo Sangue

do Senhor.

21. São Pio X, Papa (†1914).

Beata Vitória Rasoamanarivo, viúva

(†1894). Socorreu com toda solicitude

os cristãos e defendeu a Igreja

diante dos magistrados públicos da

ilha de Madagascar.

22. Nossa Senhora Rainha.

Beato Simão Lukac, bispo e mártir

(†1964). Durante um governo hostil à

Fé, exerceu clandestinamente seu ministério

em favor da grei de católicos

de rito bizantino, sendo por isso assassinado,

na Ucrânia.

23. Santa Rosa de Lima, virgem

(†1617). Desde criança entregou-se à

penitência e à oração. Ardendo em zelo

pela salvação dos pecadores e dos

indígenas, submetia-se de bom grado

a toda sorte de sofrimentos para conquistá-los

para Cristo. Foi proclamada

padroeira da América Latina.

24. São Bartolomeu, Apóstolo († s. I).

Beata Maria da Encarnação (Maria

Vicenta) Rosal, virgem (†1886).

Fundou as Irmãs de Belém, com a finalidade

de reivindicar a dignidade

da mulher e formar as meninas na Fé

cristã.

25. São Gregório, abade (†775). Sendo

ainda adolescente, seguiu fielmente

a São Bonifácio quando este tentava a

conversão de Hesse e Turíngia.

26. Beata Maria Beltrame Quattrocchi,

leiga (†1965). Mãe de família,

que viveu exemplarmente sua vida matrimonial

e demonstrou sua comunhão

de Fé e amor para com o próximo.

27. XXI Domingo do Tempo Comum.

Santa Mônica, viúva (†387).

Beata Maria do Pilar Izquierdo Albero,

virgem (†1945). Muito provada

pela pobreza e por graves enfermidades,

serviu a Deus demonstrando uma

caridade singular para com os pobres,

em favor dos quais fundou a Obra

Missionária de Jesus e Maria.

28. Santo Agostinho, bispo e Doutor

da Igreja (†430).

Martírio de São João Batista

Beato Junípero (Miguel) Serra,

presbítero (†1784). Catequizou as tribos

ainda pagãs da Califórnia e defendeu

com valentia os direitos dos

pobres.

29. Martírio de São João Batista († s. I).

Beato Edmundo Inácio Rice, fundador

(†1844). Entregou-se, com entusiasmo

e perseverança, à formação

de crianças e jovens, fundando para

isso a Congregação dos Irmãos Cristãos

e a dos Irmãos da Apresentação.

30. Beato Alfredo Ildefonso Schuster,

bispo (†1954). Sendo abade de

São Paulo de Roma, foi elevado à sede

episcopal de Milão, onde, com grande

diligência e admirável sabedoria, desempenhou

sua função de pastor.

31. Santo Aidano, bispo e abade

(†651). Varão de suma mansidão, piedade

e reto governo, que estabeleceu

em Northumberland (Inglaterra) sua

sede episcopal e um mosteiro para

dedicar-se com eficácia à evangelização

daquele Reino.

Samuel Holanda

25


Dr. Plinio comenta...

Samuel Holanda

O maior prazer

Vale do Reno,

Alemanha

da vida

A Revolução Industrial vai produzindo o despojamento

gradual de tudo aquilo em que a pessoa pôs o prazer de

sua vida, acarretando uma resignação dentro da qual ela

fica cuidando de levar uma vidinha arranjada. A alegria

desapareceu. A verdadeira e legítima fruição da vida parte do

momento em que o indivíduo aprendeu o deleite da calma.

Qual é a verdadeira calma? A

católica, verdadeiramente.

No que ela consiste?

Há duas calmas distintas para o

homem: a da Terra e a do Céu. Na

Terra, o que se entende habitualmente

por calma?

Calma não é mera distensão

Vou tratar da calma boa para poder

fazer a comparação com a ruim.

Creio que não se pode formular bem

a descrição da calma ruim sem ter

passado pela boa. Há tantas deformações

do sentido da palavra calma,

mesmo quando se quer elogiá-la,

que todo mundo perdeu a noção da

verdadeira calma. Seria preciso uma

verdadeira explicação.

A noção corrente de calma é

que ela se identifica com distensão.

Quando o sujeito se encontra distendido,

está calmo. Esta noção é verdadeira?

Ela traz consigo uma certa

ideia insuficiente, incompleta, porque

mesmo quando o indivíduo se

encontrasse no auge de sua vitalidade,

poderia estar perfeitamente calmo,

e esta é a verdadeira calma.

Imagine que um de nós fosse convidado,

por exemplo, a fazer um passeio

de barco no Reno, subindo o rio

até as suas origens na Suíça adentro,

rumo ao primeiro ponto onde ele

nasce. A pessoa vê aquelas encostas

de montanhas verdejantes, onde estão

plantadas uvas em quantidade,

de vez em quando uma aldeia bonitinha,

um castelinho, às vezes um castelão,

uma cidade, e aquilo vai passando

lentamente.

Durante todo o tempo, a pessoa

observa coisas que podem despertar

nela muitas vitalidades: ficar alegre,

satisfeita, dar risada, tirar uma fotografia,

fazer qualquer coisa. Ela com

o isso perde a calma? Talvez alguns

percam, mas passar por todas essas

impressões legitimamente não implica

em perder a calma.

A calma não é a mera distensão,

o relaxamento. É um estado de alma

pelo qual o temperamento reage de

26


um modo inteiramente proporcionado

àquilo que se tem diante de si.

Esse é o sentido da calma.

Não perder o governo

de si mesmo

A ira, bem como o temor de si, são

sentimentos opostos à calma, porque

é um outro elemento que entra aí. A

calma deve ter por objeto colocar o

homem em presença de coisas que

sejam agradáveis ou, pelo menos,

não desagradáveis, e não introduzam

no homem o temor, porque este,

de si, convida muito facilmente a

perder a calma, é até implicitamente

contrário à calma. Quando o indivíduo

tem um susto, maior ou menor,

devido a algum mal que o ameaça,

próximo ou remoto, provável ou menos

provável, mas de uma coisa que

para ele constitui uma ameaça, aquilo

lhe faz perder a calma.

Portanto, a atitude perfeitamente

proporcionada do homem, diante

de uma grave ameaça, o faz perder a

calma. Mas notem que a linguagem

corrente comporta uma aplicação

contraditória disso que estou dizendo.

Por exemplo, afirmando: “Durante

a maior luta, “X”

não perdeu a calma.”

Então, nesse caso, é

calma ou não?

Tem dois sentidos a

palavra calma. Um é

a calma que não é colocada,

exatamente,

nem diante de objeto

de ira, nem de pavor,

medo, apreensão. Outro

é o modo de ter ira,

apreensão, pelo qual

o indivíduo não perca

em nada o governo de

si. Isto também pode

chamar-se calma, mas

é em um outro sentido

da palavra. Como a

calma é um inteiro governo

de si, o fato de o

indivíduo se encontrar numa situação

que está pondo-o em tensão, se

conserva o governo de si, tem calma.

Esta luta já não é a calma no sentido

pleno da palavra, mas a conservação

da calma dentro da alma. É

até o que a calma tem de mais nobre,

a inteira proporção com a verdade.

Mas já não é propriamente a calma;

é calma por uma acomodação, uma

adequação de linguagem.

Um mártir que

entra na arena

Quer dizer, trata-se da calma de

uma pessoa posta numa situação onde

é quase inevitável que a sensibilidade

efervesça. Mas é uma efervescência

reduzida, pelo império

da vontade, estritamente a seus primeiros

borbulhares. Além disso não

passa. Em outros termos, há alguma

coisa que, conforme a circunstância,

o indivíduo não consegue vencer,

porque não é natural que vença.

Mas, sem embargo, ele conserva

a vitória sobre aquilo em todo o limite

em que é humano mantê-la.

Vou dar um exemplo comum, mas

muito ilustrativo: um mártir que entra

na arena e vê, por exemplo, um

leão ali que vai comê-lo. Salvo uma

ação superior da graça, o instinto de

conservação se apresenta imediatamente

e produz um certo efeito, que

o indivíduo pode nobremente impedir

que tome conta de si, mas um primeiro

trauma de perturbação é inevitável

que ele sinta. O que o indivíduo

pode é manter aquele princípio

de perturbação nos limites necessários,

impossíveis de transpor. Então,

ele tem a calma por excelência que é

esta: até diante do leão está calmo.

No caso do mártir, existe a calma

no esplendor de seu ser, mas não

no seu bem-estar. Essa seria a ideia.

Aqui entra algo que é muito importante:

a calma supõe, portanto, que

o indivíduo tenha a atração ou a repulsa

da coisa exatamente no limite

que a razão indica, e que está na natureza

das coisas. Inclusive que está

na natureza do temperamento dele,

porque certas peculiaridades individuais

se introduzem nisso, legitimamente.

Entra algo de pessoal, não é uma

coisa impessoal. Mas esse elemento

pessoal, no homem normal, é sempre

tal que não impõe que o indiví-

IABI (CC3.0)

27


Dr. Plinio comenta...

duo saia da normalidade. Esse é o

ponto. É a temperança.

O prazer da castidade

A temperança pode ser, por

exemplo, o seguinte: Você está inteiramente

calmo e pensando numa

coisa que quando a tiver lhe poderá

dar muito prazer. Aquilo não lhe tirou

a inteira serenidade, mas deixará

de ser temperança se você pensar

naquilo mais tempo do que deve.

Porque já entrou alguma coisa ali

que ainda não chega a abalar os nervos,

mas que é uma concupiscência

imoderada. O que se poderia sustentar

é que em todo caso de concupiscência

imoderada, por mais remoto

que seja o objeto, há um pouquinho

de vibração que sai da linha.

A isso seria possível objetar: Então,

nessa perspectiva, calma e temperança

se equivaleriam. A calma seria um

sentir interno da própria temperança.

Uma pessoa poderia cometer um

pecado de modo frio, porém não calmo.

A verdadeira calma é inerente à

virtude, nesse sentido estrito da palavra.

Daí decorre que a verdadeira e legítima

fruição da vida parte do momento

em que o indivíduo aprendeu

o deleite da calma. Quando ele compreende

que a calma é o maior prazer

da vida, ele entendeu o que é a vida.

Se ele não compreendeu que a calma

é o maior deleite da existência, não

compreendeu nada, não sabe viver.

Então, eu imagino, por exemplo,

um Doge de Veneza embarcando no

Bucentauro para as núpcias de Veneza

com o mar. O doge é festejadíssimo,

etc.; se não teve calma em fruir aquilo,

ele de fato não fruiu. Porque veio

acompanhado de uma ansiedade que

é o contrário, traz consigo um elemento

de dor. E onde há um elemento de

dor não é tão perfeita a alegria, como

onde a dor não está presente.

É, por exemplo, um lado por onde

se entende bem no que a castida-

de é, a seu modo, o prazer supremo

da vida. Parece uma tese a mais ousada

possível querer imaginar na castidade

o prazer. Mas é o maior prazer

da vida. O homem casto possui aquela

desnecessidade de outrem para encontrar

o seu próprio equilíbrio. E

tem aquele bastar-se a si próprio, sem

torcidas, sem dependências, sem anseios

nem sonhos, por onde lhe é frequente,

na vida de todos os dias, estar

em horas em que pode isolar-se e

fruir do seu próprio ser, independente

de quem quer que seja.

Um agradável terraço

que dava para o jardim

GCI (CC3.0)

A maior parte das pessoas são educadas

no oposto, mas brutalmente no

oposto. Creio que se eu devesse enumerar

as graças recebidas

outrora, esta

era uma que precisaria

incluir com

especial gratidão.

Desde muito cedo,

tinha verdadeira

delicia em sentir

a independência

da minha virtude,

da minha castidade

e, portanto, quanto

era agradável viver

não precisando de

outrem, tendo em

torno de mim quanto

me bastava e o

deleite equilibrado

de todas as coisas,

suficientemente para

ser verdadeiramente

eu.

Eu não comentava

esse assunto

com ninguém porque

sabia que isso

seria abominado,

mas não evitava

que eu gozasse.

Creio que era uma

graça. Eu fruía isso

intensamente. Lembro-me de

que em nossa casa havia um jardim e

uma área desocupada muito grande

em volta. Era um jardim característico

daquele bairro, bastante bem cuidado,

com muitos tico-ticos e outros

passarinhos. O terraço da casa que

dava para o jardim era agradável.

Cada um tem seu temperamento.

Eu levava alguma boa coisa para

comer no terraço – para mim, comer

sempre fez parte do bem-estar.

E comia ali ao ar livre, sentindo, por

exemplo, a minha pureza e comparando

com a agitação: a Fulana telefonou,

ela vem, vai acontecer algo, ela está

gostando de outrem e não de mim…

Mas que calma, que calma eu tinha!

Não tem nada dessa porcaria. Que

ela goste de quem quiser, eu estou cuidando

de mim, a coisa é outra, não é

28


essa droga. Ou então: Fulano ganhou

um automóvel. Eu vivo bem sem automóvel.

Eu sou eu; vivo de mim. Mas

a fruição que eu tinha aí, e substituía o

automóvel e a Fulana, era calma.

O saltitar dos tico-ticos

O homem precisa também cogitar,

que é uma coisa eminente da alma.

E o jardim era muito propício

não só para cogitar, mas fluir os prazeres

pequenos e inocentes da vida.

Por exemplo, lá havia bastantes tico-ticos.

Eu ouvia falar dos tico-ticos

como passarinhos muito comuns,

que não valem nada, como gato de

goteira. E os tico-ticos chegavam até

o parapeito do terraço, que era largo,

e saltitavam em cima. Vendo-os,

eu de repente tive a minha atenção

muito atraída para a saltitância alegre

deles, os pulinhos que davam. Eu

não gostava de pular, mas o tico-tico

tinha um peso para carregar muito

menor do que o meu.

Depois comecei a prestar atenção

nas penas do tico-tico: achei o jogo

de cores muito bonitinho. Então

passei a notar que os movimentos

dele eram também graciosos, e que o

tico-tico é todo muito proporcionadinho,

uma verdadeira joia.

Vinha-me uma alegria em observar

isso e um comprazimento em

ver naquela natureza, que ainda era

da São Paulinho, o tico-tico saltitando.

Mas, ao mesmo tempo, uma coisa

empanou a minha cogitação: como

eram estúpidos os outros que julgavam

os tico-ticos tão banais. Nunca tinham

tido a independência, nem critério,

para perceber

Retorno do

Bucentauro ao cais

pelo Palácio Ducal

como o tico-tico pode

ser interessante,

bonitinho.

E daí me afluíram

ao espírito todas

as minhas diferenças

em relação

aos colegas, e as lutas

com eles, o que

era penoso e irritante.

Eu pensei: “Não

é a hora de cogitar

nisto. Pensarei

no tico-tico.” Então

mandei embora

aquela reflexão e

continuei a comer e

olhar para o tico-tico.

É a calma.

Aqui se poria,

muito de passagem,

uma questão:

É possível uma reconquista

da calma?

Em geral, a

perda da calma e,

portanto, da temperança,

se deu a

partir da ideia de

que, forçando a

fruição a ir a um paroxismo por meio

do exagero do que ela apresenta, a

pessoa gozaria mais incessantemente.

Esse foi o erro, a mentira de satanás.

Nós tínhamos essa calma e, se

não forçássemos nada, possuiríamos

tudo. Forçando, nos arrebentamos.

Essa calma pode conservar-se diante

de uma coisa sumamente apetecível?

A rigor pode, mas é preciso notar

que as coisas muito apetecíveis levam

o homem a não querer depois as menos

apetecíveis. É necessário, portanto,

ter um certo cuidado. Para isso, eu

também, graças a Nossa Senhora, sentia

muita facilidade, porque havia um

lado no meu temperamento por onde

o sumamente apetecível me cansava

quando durava pouco. E eu tinha vontade

de voltar ao normal.

Sonhando ser ovacionado

no Viaduto do Chá

Por vezes, a criança, antes de se

dar conta do mal da coisa, tem sonhos

de olhos abertos. Lembro-me de sonhar

– é ridículo, mas sonhei com isso!

– como seria se na minha vida obtivesse

uma grande vitória e houvesse

uma multidão me ovacionando.

Para mim o ideal punha-se assim:

Havia um bonito hotel em São

Paulo de onde se divisava o Viaduto

do Chá. Então imaginava o viaduto

cheio de uma multidão e eu, em

uma arcada grande que dava para

um salão interno, aparecendo para

receber a ovação da multidão. Mas

eu comendo uma refeição estupenda

sozinho e sabendo que o pessoal

chegaria para me ovacionar em certo

momento. Via-me, então, saindo

um instante, recebendo aquela ovação

e depois me esquivando para poder

continuar o meu jantar sozinho.

E a parte do jantar depois da aclamação

era mais agradável do que a

ovação ou o prelibar a ovação que

viria. Porque a coisa passou, a ovação

veio, ganhei aquilo, e volto para

a minha calma.

29


Dr. Plinio comenta...

É preciso dizer que na ovação não

entrava delírio nenhum. Tratava-se

de vê-la como uma constatação de

que eu tinha merecido aquilo por

uma coisa muitíssimo grande que

fizera, e fora reconhecida pelos

outros. Havia aquela permuta

de afeto com um reconhecimento

que me engrandecia

aos olhos de Deus. Entrava

um pouco o amor-próprio

também, mas não era

nenhum delírio. O que estava

presente mais do que tudo

era o prazer gastronômico.

Conto isso para explicar um

pouquinho o que é morar na

calma e como alguém deveria

construir o seu plano de felicidade

terrena.

Evidentemente, esse sonho era

perigoso e eu o abandonei porque

percebi que poderia facilmente degenerar

para outra coisa, que era o

inebriar-me com as multidões; e levaria

à vaidade. Mas Nossa Senhora

me ajudou e não cheguei até lá.

Secundo Pia (CC3.0)

Necessidade do sofrimento

Deve-se dizer o seguinte: esse estado

de alma ligado à inocência não

se mantém sem que em outras circunstâncias

da vida a pessoa sofra, e

sofra muito. Quer dizer, essa calma

não se sustenta se, ao mesmo tempo,

a propósito de outros temas ou

aspectos, a pessoa não sofra. Esse é

um ponto capital.

Se o ser humano não gasta sua vitalidade

no esforço, na luta, no trabalho

e, portanto, em coisas que o

fazem sofrer, ele borbulha demais

e extrapola. É mais ou menos como

uma pessoa que não pode ficar sem

se mover, porque aquela vitalidade

represada produz efeitos danosos no

organismo; assim também não pode

permanecer nesse estado sem passar

por dores enormes, suportando dentro

da calma, num outro sentido da

palavra, isto é, em meio a ameaças

Santo Sudário

ou a dores atuais aguentar deliberadamente,

pondo-se dentro do sofrimento

e cuidando de viver.

Por fim, resta a pergunta: Essa

calma pode ser recuperada? A resposta

é simples: Com a oração sim,

sem a oração não. Porém, ela deve

ser profundamente desejada, considerada

como uma meta da vida espiritual.

Eu não sei a que grandeza

chegaria o gênero humano se tantas

capacidades de tantas pessoas não

se perdessem em torcidas inúteis, e

os recursos pessoais fossem todos

aproveitados dentro dessa calma.

Seria uma coisa fantástica!

Figura comunicativa da calma

por excelência: Nosso Senhor Jesus

Cristo! Aquilo é a calma, em todos

os sentidos e gradações possíveis

da palavra. Ele o tempo inteiro teve

calma, não deixou de sentir calma. E

a figura d’Ele – inclusive o sudário

de Turim – comunica calma.

A calma de Nossa Senhora

Toda solenidade implica em calma.

É, aliás, uma das muitas razões

pelas quais a Revolução Industrial se

revoltou contra as solenidades, as cerimônias,

o trato cerimonioso, respeitoso.

O respeito é, dentro da calma,

a constatação de um valor maior e

dá origem à homenagem.

Para encerrar esta parte em

que tratamos da verdadeira

calma, eu recomendaria que

todos pedissem para si a Nossa

Senhora uma calma como

Ela e Nosso Senhor tiveram.

Ao receber a Anunciação

do Anjo, a Santíssima Virgem

ficou perplexa, deu seu assentimento

e, ato contínuo, concebeu

do Espírito Santo. Se estava próxima

a hora do almoço, Ela se levantou

e principiou a fazer a refeição

com toda a calma. E, ao mesmo

tempo em que, por exemplo, preparava

ovos para São José e para Si mesma,

começava a entrar em uma oração

altíssima com o Verbo de Deus,

presente dentro d’Ela. Essa é a calma!

A alma perturbada é aquela que

perdeu o leme e não sabe para onde

voltar-se, e é sacudida por ventos

desordenados que ela não consegue

dirigir. Nosso Senhor, no Horto das

Oliveiras, não teve perturbação.

A falsa calma

Passemos agora a tratar da falsa

calma para fazer a distinção entre

esta e a verdadeira calma.

Essa calma que estou descrevendo

é cheia de frescor e de mobilidade

para aceitar a variedade, sem ficar

atarraxada numa determinada coisa,

com exclusão de outras. Uma espécie

de flexibilidade de toda a alma, por

onde, diante de tudo o que acontece,

vai aceitando ou recusando e se modelando

na alegria e no bem-estar da

vida. Essa é a calma boa.

A calma ruim tende para qualquer

coisa de melancólico, de amuado, de

fechado e de desconfiado, numa atitude

perante a vida como quem diz:

“Vida, tu és tal que perante ti eu só

30


tenho uma posição, é a da defesa. Fecho

as portas e as janelas, não quero

que tu entres na minha impassibilidade,

porque tudo teu me faz sofrer. E

é só por esta forma que eu consigo viver.

Portanto não sinto nada, não sofro

nada, não me alegro com nada,

para não entrar no teu jogo.”

É uma recusa da vida e, se quiserem,

uma recusa de Deus. Recuso

tudo! Isso é errado.

Alguém me diria: “Não tenho

meios de evitar o excesso dos apegos,

a não ser assim.” E eu responderia:

“Meu filho, então conserve isto que

é menos difícil de combater do que o

excesso dos apegos, mas vamos ir diminuindo

este excesso dos apegos,

até poder desembaraçar-se de dentro

desta cadeia para o fluxo normal da

vida!” A pessoa está num sarcófago.

Não me parece a forma mais fácil

de combater os apegos. É apenas para

subtrair uma má solução, gradualmente,

com sabedoria, para conseguir

uma solução boa. Se for eliminar

de uma vez, pode cair num excesso.

Fazer aos poucos, mas tem que fazer.

Acontece uma coisa boa, aceita-se;

vem algo ruim, fica-se desagradado;

não acontece nada, não se fica amuado,

mas se mantém

flexível a tudo.

É como aquele movimento

do barco

sobre as ondas que

vão de um lado para

outro dentro de um

porto, que em francês

se diz ballottage.

Devemos nos deixar

ballotter pela vida.

Essa posição fria

diante da vida equivale

à ideia gnóstica

de que a Criação

foi um mal. Aliás, os

adeptos dessa teoria

não têm a ideia da

Criação e sim a de

que o homem é uma

partícula que se desprendeu

de uma divindade, mas não

deveria ter-se desprendido. Isso foi

um desastre nesse deus e, uma vez

que eu nasci desse desastre, o que devo

querer agora é manter-me em uma

espécie de nirvana ou de nada, até o

momento feliz em que eu possa me

reincorporar na divindade.

Devemos lutar por uma

outra ordem de coisas

Se considerarmos a alma católica,

enquanto for consoante com a Santa

Igreja, ela nunca será assim. Entretanto

se não for fiel, ela poderá passar

para a posição protestante à maneira

dos britânicos ou dos prussianos, mas

somente como uma manobra para diminuir

em si as dores e não ter que

enfrentá-las. Portanto, uma manobra

parecida com a do budismo, mas sem

a mentalidade dos budistas nem o inteiro

desejo de deixar a vida e de se

reduzir à imobilidade completa. Pelo

contrário, poderá ter o desejo feroz

de ganhar dinheiro e de construir,

por exemplo, o Império Britânico, de

se vestir bem, e manter essa posição

diante de grandes infortúnios: não os

sentir e conservar-se impassível. Lord

Anunciação - Basílica Santa Maria del popolo, Roma, Itália

Nelson, por exemplo, ao falecer, procuraria

morrer assim. Já o Churchill

não. Este era muito mais vivão, inteiramente

diferente. A fleuma britânica

tem muito disso que estamos comentando.

A alma faz uma pequena

operação parecida com a do budismo,

por razões psicológicas análogas,

mas com fundamentos e métodos

doutrinários diferentes.

Na degringolada da Revolução

Industrial que estamos presenciando

em nossos dias, isso vai se tornando

patente. O despojamento gradual

de tudo aquilo em que a pessoa pôs

o prazer de sua vida tem que produzir

necessariamente a impossibilidade

completa de reagir e, consequentemente,

uma resignação dentro da

qual se fica cuidando de levar, tanto

quanto possível, uma vidinha arranjada.

A alegria desapareceu. Isso

produz pessoas que, ao longo do caminhar

da existência, ficam completamente

surradas e perdem a reatividade

diante da vida.

A meu ver, o único jeito de reverter

esse processo seria suscitar o maior

número possível de almas inocentes

que não vão dentro dessa onda. Contudo,

eu me pergunto: Se houvesse

uma pequena cidade

na qual todos fossem

inocentes e levassem,

na calma, uma

vida orgânica, haveria

turismo para ver

aquilo? Creio que

não, porque as pessoas

preferem a situação

atual. Não obstante,

devemos lutar

até o fim por uma

outra ordem de coisas,

pela certeza de

que Nossa Senhora

premiará essa luta

com uma interferência

angélica. v

(Extraído de

conferência de

25/9/1986)

Gabriel K.

31


Luzes da Civilização Cristã

GuidoR (CC 3.0)

Um hino a

Nossa Senhora

Gabriel K.

A Catedral de Notre-Dame é tão bela que

se pode olhá-la indefinidamente, cheio de

enlevo, de veneração e de ternura. Quem a

aprecia muito passa a amar a ordem sublime

das coisas, que conduz ao amor de Deus.


Dietmar Rabich (CC 3.0)

N

otre-Dame de Paris. Eis a catedral de uma beleza

perfeita, alegria da Terra inteira!

Para sentir o equilíbrio da fachada, notemos

que há três partes distintas. Uma vai dos portais de

entrada e termina com a galeria enorme de estátuas, as

quais dão as costas para um terraço que vou analisar daqui

a pouco.

Um resplendor em torno da

Santíssima Virgem

Percebe-se ali o corrimão do terraço e se vê, logo

atrás, uma imagem de Nossa Senhora sustentando nos

braços o Menino Jesus. É a segunda parte do edifício,

que vai do terraço até uma série de colunas que separa

o terraço da torre. Há uma grande rosácea central, toda

feita de vitrais. Nela nota-se uma parte mais central, delimitada

por um trabalho de pedra. Dentro há um círculo

menor ainda, onde está a cabeça de Nossa Senhora. A

ideia que fica insinuada é a seguinte: toda essa rosácea é

o resplendor da cabeça de Maria Santíssima. E sendo a

rosácea o centro da catedral, a ideia que fica meio confusa,

mas realmente verdadeira, é que a catedral é um hino

a Nossa Senhora.

Contrastes harmônicos na relação entre

os diversos elementos da fachada

Ela tem nos braços o Menino Jesus e, com o mais inefável

sorriso de Rainha e de Mãe, olha para seu Divino

Filho. A alma fica assim transportada de entusiasmo

e com vontade de subir. O que ela encontra em cima?

Uma série de colunas, mas que dão para o vazio!

Essas colunas têm uma função que parece um disparate:

sendo tão frágeis, elegantes e harmoniosas, parecendo

irmãs que se tocam pelas mãos, elas sustentam o peso

de duas torres. Porém, ninguém tem a impressão de

que as torres vão esmagar a colunata. Parece tão natural,

com um contraste tão agradável, que se uma pessoa mais

atenta não nos mostrasse, talvez nem notaríamos.

Por detrás, vemos a flecha que se ergue, bem no meio

das duas torres. O resto é o céu...

33


Luzes da Civilização Cristã

É certo que não foi terminada a construção das torres,

as quais teriam uma parte mais alta. Ninguém pode

imaginar como seria, nem ousa completar uma coisa que,

quando se olha, tem-se a impressão de não pedir complemento.

Onde está o talento para completar uma obra

admirável como essa? Não foram encontradas as plantas

que os arquitetos deviam seguir, ninguém ousou mexer

nisso.

Considerem como a relação desses vários elementos

dá uma impressão de harmonia. Qual? Embaixo, três

portais; o do centro é um pouco maior do que os outros

dois. Mas não se percebe bem, pois é discretíssima a diferença.

Contudo, se os portais fossem da mesma altura,

seriam sem graça.

A ogiva é a nota do andar térreo. O andar de cima começa

com a galeria de estátuas e acaba com a colunata.

No meio há uma rosácea e duas ogivas, uma de cada lado.

Cada ogiva é dividida em duas. E, no ponto em que

as duas se encontram, há outra rosácea.

Assim, o redondo é a nota mais saliente nesse andar,

contrastando com o pontiagudo de tantas outras partes.

Mas observem a harmonia, o bom senso e o equilíbrio de

coisas tão diversas e tão bem reunidas. Notem como fica

leve, quase como um brinquedinho, a estátua colossal de

Nossa Senhora ladeada por duas figuras de Anjos.

Por cima, vê-se a massa enorme das torres, cada uma

com duas notáveis ogivas, onde os sinos tocam gravemente

nas grandes horas do ano litúrgico e, às vezes, nas

grandes horas da História da França, que são as grandes

horas da História do mundo.

A galeria dos reis

DXR (CC 3.0)

Essa galeria com estátuas de reis tem sua história. A

Revolução Francesa, sempre ela mesma, decapitou todas

essas esculturas porque, como os bandidos tinham guilhotinado

o rei e a rainha, quiseram “guilhotinar” também

todos esses reis do Antigo Testamento.

Recentemente, nos alicerces de um banco próximo a

Notre-Dame, quiseram fazer construções e encontraram

essas cabeças, que a Revolução Francesa tinha arrancado,

enterradas no subsolo do banco. Fizeram-se estudos

e verificou-se que foi um homem piedoso, residente nas

cercanias, que enterrou essas cabeças ali, porque ele não

se conformava com essa decapitação.

Dietmar Rabich (CC 3.0)

34


Dietmar Rabich (CC 3.0)

Mark Bonica (CC 3.0)

Veio o dia em que mãos justiceiras tiraram do subsolo

todas essas cabeças e tentaram colocar nos troncos dos

reis. Mas, infelizmente, as autoridades decretaram que

não ficavam bem, não havia meio de prendê-las. Entretanto,

eram belas obras de escultura e foram levadas para

o Museu de Cluny, que é o museu de coisas da Idade

Média.

Miguel Hermoso Cuesta (CC 3.0)

Contemplação que conduz ao amor de Deus

Todas essas coisas tão diversas se unem de um modo

tão tranquilo, mas tão interessante, que se fica olhando

indefinidamente, cheio de enlevo, de veneração e de ternura.

Porém, se colocarmos diante desse monumento um

frenético, um indivíduo que baila essas danças modernas,

nasce uma batalha, porque ou ele, à força de gostar do

monumento, perde o frenesi, ou recusa a santa influência

do monumento e o abandona. Entretanto, para almas

predispostas a aceitar essa tranquilidade, essa estabilidade,

a catedral quer dizer enormemente! Quem começa

a gostar daquilo, por novato que seja, passa a amar a ordem

sublime das coisas que conduz ao amor de Deus. v

(Extraído de conferência de 28/6/1986)

BrokenSphere (CC 3.0)

35


Rainha da

Gabriel K.

Contra-Revolução

Nossa Senhora enquanto Rainha

dos Anjos é a Rainha da Contra-Revolução.

Ela dirige a

Contra-Revolução dos Anjos que atuam

sobre nós e os acontecimentos da

Terra, de maneira a se passar tudo como

Ela quiser.

Maria Santíssima tem todos os matizes,

todas as glórias, todas as cores,

todas as belezas da Contra-Revolução.

É a Imaculada Conceição esmagando

a cabeça da serpente, a Rainha

dos Anjos que comanda o exército angélico,

como o exército dos Santos – Regina

Sanctorum Omnium, Rainha de todos

os Santos. É a Rainha dos contrarrevolucionários,

nossa Mãe, que nos

guia e nos ama especialmente por esta

razão. E Nossa Senhora é o arquétipo

da virtude dos anjos que, tendo

decaído, terminaram por ser lançados

no Inferno, e que devemos substituir

no Céu. Assim, há um nexo

especial entre nós e Ela.

(Extraído de conferência de

28/5/1988)

A Imaculada Conceição - Igreja

São Francisco dos Penitentes,

Rio de Janeiro, Brasil

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