Revista Dr Plinio 246

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Setembro de 2018

Publicação Mensal Vol. XXI - Nº 246 Setembro de 2018

Cavalaria Angélica


Flávio Lourenço

São Gabriel Arcanjo - Museu Nacional de Arte da Catalunha, Barcelona, Espanha

Luta espiritual cheia de amor,

amor cheio de doçura

OArcanjo São Gabriel é aquele que mais conhece a Deus e comunica melhor este conhecimento.

Daí o papel dele na Encarnação. Seu conhecimento não é meramente abstrativo,

teórico, doutrinário, mas é evidentemente todo amoroso, com um amor que se manifesta

na luta entendida assim: Luta espiritual cheia de amor, amor cheio de doçura. Há, portanto, uma

espécie de prœlio no qual está, como ponto de origem e ponto terminal, o amor.

(Extraído de conferências de 5 e 12/12/1976)


Sumário

Publicação Mensal Vol. XXI - Nº 246 Setembro de 2018

Vol. XXI - Nº 246 Setembro de 2018

Cavalaria Angélica

Na capa, Dr. Plinio na

década de 1990.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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Editorial

4 Vínculo entre Anjos e homens “angelizados”

Piedade pliniana

5 Prece a São Miguel Arcanjo

Dona Lucilia

6 Autêntica lutadora

O pensamento filosófico de Dr. Plinio

8 Fatores naturais e preternaturais na

divergência entre convicções e vivências - II

Reflexões teológicas

11 O reflexo de Deus na

sociedade temporal - I

A sociedade analisada por Dr. Plinio

16 Hífen entre doçura e combatividade

Dr. Plinio comenta...

22 Balduíno IV, o protótipo do católico - II

Calendário dos Santos

26 Santos de Setembro

Hagiografia

28 A severidade de São Corbiniano

Luzes da Civilização Cristã

32 Lugar onde a Providência quis

reunir suas maravilhas - I

Última página

36 Guerreiros implacáveis contra o

demônio e seus sequazes

3


Editorial

Vínculo entre Anjos e

homens “angelizados”

Quando os medievais se referiam aos Anjos, falavam muitas vezes da Cavalaria Angélica. Diziam

que os espíritos celestes foram os primeiros cavaleiros porque lutaram contra os primeiros

maus: os anjos revoltosos.

Não nos é fácil compreender como foi o prœlium magnum, esse grande combate travado no Céu

entre os Anjos e os demônios. Como um puro espírito luta contra outro? Quais são os recursos de

um espírito para vencer o outro, a ponto de precipitá-lo no Inferno? Como se dá a expulsão de um

espírito por outro, de um determinado lugar?

Por certo, esta guerra deu-se de um modo intrinsecamente muito mais nobre do que as Cruzadas.

Aqueles espíritos angélicos, no momento em que se punham em luta contra os demônios, eram confirmados

em graça e conquistavam para todo o sempre a coroa eterna.

O chefe dessa Cavalaria Celeste é o Arcanjo São Miguel que, constituído o patrono dos cavaleiros,

resume em si todo o espírito das Cruzadas, da Cavalaria e, consequentemente, todo o espírito da

Idade Média.

Nós achamos tão nobre alguém derramar seu sangue por uma grande causa. Mas a nobreza de um

espírito como São Miguel, desdobrando toda a sua força contra o demônio, é inimaginável!

É tal a beleza do Príncipe da Milícia Celeste que o intelecto humano não é capaz de captar, mas de

algum modo pode suspeitar, entrever, conjecturar, à maneira de um degrau para imaginarmos a infinita

perfeição de Deus.

Sem dúvida, também nessa guerra incruenta em que estamos engajados – guerra psicológica, de

graças e carismas contra as tentações e insídias diabólicas; de um espírito de inocência contra o de

cumplicidade e toda espécie de indecência, de crime e de fraude da Revolução – há muito maior nobreza

do que na própria Cavalaria terrena.

Contudo, não poderemos contrarrestar a ofensiva revolucionária se não formos tais que os Anjos

se reconheçam afins conosco e nossos naturais aliados; sem que estabeleçamos com a Cavalaria Angélica

essa consonância por onde os celestiais guerreiros venham lutar conosco e dentro de nós com

uma naturalidade como se o abismo que nos separa deles não existisse.

Este vínculo entre Anjos e homens, e de homens por assim dizer “angelizados” entre si, agindo sobre

a opinião pública no sentido contrarrevolucionário, em continuidade com a Cavalaria Celeste, é

isto que deve nos caracterizar*.

* Cf. conferências de 16/10/1970, 12/2/1978 e 6/10/1981.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Samuel Holanda

São Miguel vence satanás - Santuário do Monte Saint-Michel, França

Prece a São Miguel Arcanjo

São Miguel Arcanjo, vede o quanto há, em nossos dias, uma presença preternatural especialíssima.

Quebrai o poder e a eficácia dessa presença pela ação de vossa força.

Vós, que arrastastes na luta contra os espíritos revolucionários as coortes vencedoras

dos Anjos contrarrevolucionários, aumentai em nós a Fé, a retidão da inteligência, a firmeza

de princípios e a combatividade heroica, de maneira a discernirmos cada ardil do demônio,

formando em nossa alma uma execração perfeita que esmague, inutilize e expulse os

dragões infernais. Amém

(Composta em 2/12/1973)

5


Dona Lucilia

Autêntica lutadora

Dona Lucilia possuía convicções firmes, e o que ela considerava

como verdadeiro decorria de uma reflexão calma, detida, depois

de ter visto, no exame das coisas da vida, até que ponto aquilo

correspondia a grandes horizontes e era oposto ao mal.

Arquivo Revista

Se a minha formação como lutador,

como tudo quanto possa

haver em mim de bom se

deve a alguma coisa em que a ação

tão profundamente católica de minha

mãe esteve presente, eu devo

começar a narrar um pouquinho como

era ela como lutadora.

Distância calma,

fria e cortês com

relação aos maus...

A ideia que habitualmente se tem

do lutador é de um indivíduo espumante.

Ele vê algo com que não

concorda, então espuma de raiva. E

quando está bem espumante de raiva,

acha-se no auge de sua condição de

lutador. Então ele se joga na luta por

impulso, por atração, e encontra a delícia

de ser lutador no fato de dar vazão

à raiva de que está possuído.

Tudo isto era o contrário do modo

de Dona Lucilia ser lutadora.

Ela era uma pessoa de convicções

firmes. Quer dizer, o que mamãe tinha

como verdadeiro era fruto de

uma reflexão calma, detida, depois de

ter visto, no exame das coisas da vida,

até que ponto aquilo correspondia a

grandes horizontes e era o oposto ao

mal. Assim como ela amava o bem e

queria que todo o mundo o praticasse,

ela detestava o mal e desejava que

todo o mundo evitasse o mal.

Quando uma pessoa era adepta

ou sequaz do mal, ela não espumava

de raiva contra ela, mas considerava

o mal que havia naquela pessoa com

toda a lógica:

“Tal pessoa fez isto ou pensa daquela

maneira. O que ela fez, ou pensa,

ou disse é mau por essas, aquelas e

aquelas outras razões, tiradas da Doutrina

Católica, da experiência da vida,

etc. Se isto é assim, eu tenho uma posição

oposta a essa pessoa, e absolutamente

não estabelecerei relações próximas

com ela, não farei dela minha

amiga, mas viverei a uma distância calma,

fria e cortês dessa pessoa.

“Evitarei brigas e discussões, a não

ser quando minha obrigação for de lutar

contra e dizer que está errado. Aí

eu falarei e estabelecerei a discussão.

Do contrário, manter-me-ei numa calma

perfeita, mas em torno de mim tudo

que eu possa fazer para que aquela

ideia não seja aceita, aquele exemplo

não seja aprovado, aquele modo

de agir não se repita, eu farei, falando

com calma a respeito daquela pessoa:

‘Fulano tem tais qualidades, mas,

coitado, ele possui tal defeito. E tal defeito

tem tais e tais consequências, de

6

Dr. Plinio discursando,

em Outubro de 1970


onde acontece que ele está exposto,

de um momento para outro, a fazer

tal ou tal ação ilícita.’

“Como não se pode fazer ação

ilícita nem querer o mal, tenho

que manter-me afastada dessa

pessoa. Eu a cumprimentarei

amavelmente, cortesmente,

não farei nenhuma brutalidade,

mas estabelecerei uma distância

fria. Uma distância, se quiserem,

à la luz neon que ilumina,

porém não aquece. E entre essa

pessoa e eu fica um espaço, mas

um espaço frio que mostra distância

e no qual se lê de todos os lados a

palavra não, não, não e não.”

Esse era o sistema que ela aplicava

e eu me habituei desde logo a ver

esse sistema.

...que se vingavam dela

com o isolamento

Arquivo Revista

Ela me chamava atenção a respeito

daquele, daquele outro para ir

me formando, a fim de eu compreender

como são as coisas. No modo

de ela falar eu compreendia a calma

que deveria ter diante do mal, mas a

irredutível frieza e hostilidade diante

daquele que não se converte, que

não muda a sua conduta. E por causa

disso também uma distância, que

colocava entre aquela pessoa e eu

um vazio. Esse vazio fazia com que o

outro ficasse meu inimigo.

Dona Lucilia, sendo uma senhora

– a vida de uma senhora naquele

tempo era muito mais cerimoniosa

e mais reverente –, não era objeto

de polêmicas e vivia na tranquilidade

da vida de família, mas a vingança

dos maus contra ela era o isolamento.

Então, quando ela tomava uma atitude

sistemática contra um defeito, as

pessoas que tinham aquele defeito se

isolavam dela; retribuíam do mesmo

modo a atitude que ela tomava.

Isto mamãe via perfeitamente, mas

queria e achava que era normal. Se ela

estava de um lado, o outro se pôs do lado

oposto; não tinha o direito de se pôr,

mas o fez. Fique lá que eu permaneço

aqui, e eu servirei a Deus do lado de cá

e você servirá ao demônio do lado de lá.

Observem sua fotografia tirada em

Paris, na qual ela, ainda relativamente

moça, está sentada num banco e pousando

o rosto levemente sobre a mão.

Dona Lucilia está pensativa, formando

um juízo a respeito de alguém ou

de alguma coisa. Ela está entre um sim

e um não, uma rejeição e uma aceitação.

Vai concluir alguma coisa e traçar

uma norma para a vida dela.

Vejam a serenidade com que ela

está ali, a tranquilidade, a dignidade.

Mas, de outro lado, a irredutibilidade:

ela não muda, a convicção tomada

por uma razão qualquer ela conserva

durante a vida inteira.

Assim eu a conheci até ao fim dos

seus queridos e saudosos noventa e

dois anos.

Colocar os adversários no

chão, de modo amável

Por temperamento não sou uma

pessoa violenta; sou muito tranquilo

e até afetivo. Mas tive que aprender

com ela que, embora sendo afetivo,

é preciso ser irredutível. E eduquei

meu temperamento calmo na

batalha de quem se dedicou a um

ideal, que vive para ele, luta contra

quem é contra esse ideal e

faz tudo a favor de quem é a

favor dele; o mundo se divide

entre bons e maus, certos

e errados, católicos e não católicos,

é preciso tomar a posição

e depois enfrentar.

Enfrentar com amabilidade

sempre que haja o caso; se

não puder enfrentar com amabilidade,

enfrenta apertando…

O que naturalmente, no meu

tempo de menino, depois de estudante

e posteriormente de homem

maduro, se fazia com muito mais vigor

do que entre senhoras.

E por meio do quê? Aprendendo

bem a ser lógico, a raciocinar, de

maneira que, posto um raciocínio, o

adversário não saiba como sair-se de

dentro dele.

Tenho escrito inúmeras coisas em

minha vida e, com certa frequência, as

pessoas com quem entro em desacordo

me respondem; mas muitas vezes

nem entram na discussão, porque percebem

logo que vão ser derrotados.

E se entram na discussão, eu com

calma, de um modo sempre amável,

ponho o bom senso.

Eu soube recentemente que uma alta

personalidade do mundo católico daqui

do Brasil, querendo dizer que eu lhe

passava rasteira, afirmou: “É, o Plinio é

assim. Ele escreve um artigo contra uma

pessoa, a qual começa a lê-lo. É um artigo

tão amável que ela se sente até agradada.

Mas, quando chega no fim do artigo,

a pessoa está sentada no chão, porque

não tem argumento; ele cortou a erva

por debaixo dos nossos pés. E não temos

outra coisa senão ficar quietos porque

não há o que dizer.”

Eu acho que é o modelo perfeito

da cortesia e da combatividade. Pôr no

chão de um modo amável, acabou. v

(Extraído de conferência de

26/2/1994)

7


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

Fatores naturais e

preternaturais na divergência

entre convicções e vivências - II

O fenômeno de subversão psíquica na humanidade é tão singular,

simultâneo e universal que não poderia ser produzido, ao mesmo

tempo e em circunstâncias tão diversas, sem um fator ou um complexo

de fatores, idêntico a si próprio, por toda parte. É sumamente provável

que ele seja causado principalmente por um fator preternatural.

Arquivo Revista

Dr. Plinio na década de 1970

Certezas que a boa ordem

interior apresenta

No exemplo da febre que dei anteriormente

1 me exprimi, antes de tudo,

com muito cuidado num pormenor:

não disse que posso ter a certeza de

que estou com febre ou não. Eu posso

ter a certeza de que não estou com 42

graus de febre, o que é uma coisa muito

diferente. Porque qualquer um de nós

pode se enganar. Põe o termômetro, de

repente está com 37, 5, digamos. É uma

coisa possível. Até mais. Mas 42 é muito

puxado, é o auge da febre.

A origem dessa certeza de não estar

no extremo da enfermidade vem

de uma tal ou qual limpidez do testemunho

interno, que possui toda a segurança

de uma evidência indiscutivelmente

autêntica. É como quando

alguém enche os pulmões com ar. A

pessoa tem certeza de que está respirando

e enchendo seus pulmões.

Não tem conversa, é aquilo.

A pessoa pode não estar segura de

sua perfeita sanidade, mas quando se

refere ao extremo da doença, tenho

um testemunho interno que me diz que

não estou nesse extremo. São essas cer-

8


tezas que a boa ordem interior apresenta,

e que são as primeiras evidências,

anteriores a qualquer raciocínio.

Nas novas gerações – não digo

sempre, mas em alguns casos – essa

certeza não é tão grande, mas é uma

certeza vacilante que, diante de uma

afirmação muito categórica em sentido

contrário, pode parecer dúvida.

Ora, um corpo grande de evidências

primeiras é elementar para a boa

marcha do espírito.

O raciocínio deve

fazer o controle das

evidências primeiras

Pergunta-se como esse corpo de

evidências chegou a tornar-se débil.

Pretendo tratar disso agora.

Nós devemos fazer uma distinção

entre a certeza básica saudável, objetiva,

que nos dá a percepção clara,

indiscutível da realidade imediata, e

que é prévia ao próprio raciocínio,

de acordo com a Filosofia de São

Tomás. E depois a certeza racional

que é filha dessas certezas iniciais.

Porque o raciocínio não é o primeiro

passo da elaboração mental. O raciocínio

é uma conclusão tirada de

duas premissas. Logo no início do

processo mental estão premissas, e

depois delas saem as conclusões.

Quando as premissas são muito

saudáveis e bem apanhadas, o raciocínio

só se volta sobre as premissas

para controlá-las por uma conveniência

metodológica, mas não há uma

verdadeira inquietação. Porque a

pessoa tem aquela certeza e não concebe

a menor dúvida a respeito desta.

E isto porque as certezas, as evidências

primeiras são superiores à razão.

É próprio à razão conjugar as certezas

e controlar o mecanismo das evidências

primeiras. Porque, como há a

possibilidade de uma ilusão por onde

algumas certezas primeiras não se diferenciam

tão claramente do irreal como

outras, o raciocínio deve fazer o

controle. No texto lido, o autor censura

precisamente o fato de não ser feito

este controle, de maneira que algumas

certezas evidentes, mas falsas, não se

distinguem das verdadeiras.

No fundo do processo de insegurança

da “geração nova” dá-se um

fenômeno simultâneo, por onde há

uma espécie de debilitação desse

corpo inicial de certezas e a possibilidade

de aceitar como válidas certezas

inteiramente arbitrárias, por causa

de um arrombamento do raciocínio.

Assim, apaga-se a distinção sensível

entre o verdadeiramente evidente

e o que não o é; a razão, que

poderia controlar esta obnubilação e

restabelecer a ordem, também se paralisa

e se suspende. O resultado é

que entram afirmações gratuitas no

espírito humano.

A meu ver, trata-se de um fenômeno

universal que se apresenta

com uma aparência, pelo menos, de

irreversibilidade, porque por mais

que se utilizem meios para convencer

uma pessoa, não se consegue eliminar

a impressão errada.

Circunstâncias da

vida moderna

Ademais, não é apenas uma anomalia

acidental e pequena, mas sim

profunda. É uma inversão profunda

da ordem das coisas num campo capital,

porque esse é um dos campos capitais

da estrutura mental do homem.

Então, trata-se de um fenômeno que,

na ordem psicológica, é tão anormal

quanto seria, por exemplo, na ordem

física, todos os homens nascerem caolhos.

Seria uma irregularidade gravíssima

em matéria visual.

Essa irregularidade gravíssima e

universal pode ter várias causas ou

uma só causa. Mas esse complexo de

causas, em razão da anomalia do fenômeno,

é um só para o mundo inteiro,

porque um fenômeno tão singular,

simultâneo, universal não poderia

ser causado ao mesmo tempo

nas circunstâncias mais diversas,

a não ser por um fator ou um complexo

de fatores idêntico a si próprio

por toda parte. Esta é a primeira

conclusão que se deve tirar.

Existe a eventualidade do fator

preternatural. Entretanto, há uma

regra de bom senso segundo a qual

nós só devemos apelar para uma explicação

preternatural ou sobrenatural

quando a natural parece impossível.

Então, aparece a hipótese de se

apelar para outro fator que não seja

de ordem natural.

Nós poderíamos perguntar se não

são as circunstâncias da vida moderna

que preparam essa gravíssima subversão

psíquica na humanidade. Portanto,

se métodos psicológicos, de ordem

natural, não poderiam explicar isso.

A ser isso verdade, deveríamos

chegar à conclusão de que, provavelmente,

quanto mais um determinado

ambiente fosse carregado de influências

modernas, tanto mais esse

fato se notaria; e quanto mais tênues

fossem essas influências, tanto menos

ele seria notado.

Ora, não há nenhuma certeza de

que isso seja assim. Há um fato parecido

com esse, mas isso propriamente

não é assim. Quer dizer, aonde chegou

a influência da Revolução, nós

notamos que esse fato se dá em profundidade.

Aonde tal influência não

chegou, verificamos que esse fato se

dá em profundidade muito menor.

Influência da Revolução

Explico-me. Em cidades muito

pequenas, onde a influência da Revolução,

muito distante, não penetrou,

é de se admitir que esse fato seja

menos profundo. Onde a influência

da Revolução penetrou, esse fato

se apresenta com toda a intensidade,

embora as condições de vida dessa

cidade pequena não tragam consigo

essa consequência.

Tomem uma cidade qualquer de

fim de linha, de fim de estrada. Se ali

chegou o espírito da Revolução, em-

9


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

bora a vida material dessa cidade seja

pacata, não haja excesso de trânsito,

nem trepidação econômica, incerteza

de condições de vida, nem a angústia

contemporânea, mesmo ali esse

fato se pronuncia; ao menos tanto

quanto eu pude verificar. Acontece

que, em geral, a Revolução não chega

muito a fundo em lugares assim. Mas

quando ela chega a fundo, esse fato

se dá tanto quanto nos grandes centros.

O que leva a julgar que a coisa

é mais filha de uma influência da Revolução

do que das condições de vida

contemporânea.

Esse é, naturalmente, um exame

sumário, não inteiramente taxativo,

decisivo. Esse exame sumário a mim

me leva a achar que muito provavelmente

as coisas são assim.

O que tem a Revolução, considerada

enquanto desligada das condições

de vida que ela mesma criou,

para que ela produza esses efeitos?

Os fatos naturais não

explicam tudo

doras dessa mentalidade têm uma capacidade

de difusão prodigiosa, e isso

também não é verdade. Não há nenhuma

razão para achar que isso seja

especialmente assim.

Fazendo um exame que, por algum

lado, é muito atento, e por outro

não cerca todas as possibilidades

menores, mais rebuscadas – abrange

apenas a linha geral –, se diria que

não é fácil encontrar uma causa natural

que, só ela, produza tudo isso.

Que haja fatos naturais que concorram

para produzir isso, eu concordo.

Mas que somente eles causem isto

eu acho muito discutível.

Então, somos levados a nos perguntar

se um fator preternatural poderia

produzir isto. E para nosso

exame ser completo, já que levantamos

uma hipótese para além da natureza,

deveríamos nos perguntar

também se o fator sobrenatural poderia

ser responsável por isso. Ora,

quando falamos em fator sobrenatural

responsável por isso, nós recusamos

a ideia com horror. Porque

compreendemos que isto é uma desordem,

não pode ser produzido pelo

fator sobrenatural autêntico, o

qual, por sua natureza, é ordenador.

Ação preternatural

Então, só pode ser o preternatural,

pois este produz desordem. Acontece

que o homem, diante de impressões

nele causadas ou acentuadas por

efeito preternatural, tem um comportamento

muito parecido com esse.

Quer dizer, quando o homem é tentado

por uma forma de tentação, como

soem ser todas as tentações – ou quase

todas –, que acentua muito nele

uma impressão, dão-se nele todos esses

fatos. De um lado a sugestão faz-

-lhe parecer como evidente algo que

não o é; de outro lado o raciocínio se

suspende e ele fica incapaz de crítica,

e precisa ter uma ascese firmíssima

para escapar a essa ação. Ascese tão

firme que, segundo os autores espiri-

Poderíamos fazer a seguinte objeção:

Os comunistas têm uma dosagem

de espírito revolucionário muito

mais intenso do que os burgueses.

Logo, os filhos, os netos de comunistas

– em linhagens comunistas

de pai para filho e para neto – deveriam

ter essa deformação psíquica

muito mais do que os filhos e netos

dos burgueses.

Ora, essa tese absolutamente não

parece que seja verdadeira. Haveria,

pelo menos, interrogações muito

fortes a fazer, em admitir que é pura

e simplesmente a ideologia revolucionária,

ou um ambiente apenas revolucionário.

Seríamos levados a admitir

a presença de uma outra causa.

Uma pequena cidade penetrada

pelo espírito da Revolução toma contato

com gente que já tem essa mentalidade.

E essa mentalidade, então,

intoxica a pequena cidade. Nós deveríamos

achar que as pessoas portatuais,

para um homem muito tentado

consiste em não pensar no assunto,

até que passe a tentação. Porque

se ele pensar no assunto, vai se deixar

dominar por esta impressão, de

tal maneira o mecanismo intelectivo

está apertado, contrariado, coarctado

na sua eficácia normal, pela tentação.

Um exemplo. Uma pessoa desconfiada

está caminhando, ouve alguém

dizer alguma coisa, e desconfia

que aquilo é com ela. Dá mais

uns passos e o demônio, porque

quer levá-la ao homicídio, sussurra:

“Aquilo é com você.” Imediatamente,

entrando o demônio, uma porção

de impressões que a pessoa teve

com aquilo se perturbam, se complicam

e ela já não é mais capaz de

dizer com clareza o que ouviu e não

ouviu. Mas fica com a falsa evidência

de que ela ouviu uma coisa que,

bem analisada – e entra aí uma análise

errada –, vai levá-la à conclusão

de que aquele indivíduo disse aquilo;

e conclui que é preciso matá-lo.

A pessoa vai e mata. Na origem do

crime de homicídio houve um fenômeno

dessa natureza.

Então, fica a pergunta se não haverá

uma ação preternatural, uma

vez que uma causa meramente natural

é muito improvável, e a ação dos

espíritos malignos costuma ser assim.

Ora, isso faz muito o jogo do demônio

e da Revolução. Resultado:

não terá o demônio feito isso?

Se houver um processo psicológico

– e aqui entra a certeza –, o demônio

está a cavalo nesse processo. Porque

sempre que entra uma tentação natural,

a sugestão demoníaca se conjuga a

ela, e o fator preternatural se introduz.

Logo, pode-se afirmar a existência de

uma importante dose de preternatural

no fenômeno acima descrito. v

(Extraído de conferência de

6/4/1973)

1) Cf. Revista Dr. Plinio, n. 245, p. 26.

10


Reflexões teológicas

O reflexo de Deus na

J.P. Braido

sociedade temporal - I

Há espíritos curtos e outros de grandes horizontes. Uns

se interessam somente pelo que lhes toca de perto, outros

por cogitações muito acima deles. Salvo vocações muito

especiais, a perfeição está em saber contemplar tanto o

grande quanto o pequeno, pois as perfeições de Deus se

espelham em todas as criaturas. Também as obras saídas do

talento humano refletem as perfeições divinas, pois quando

a pessoa está muito penetrada pela graça, espraia-se em

torno dela uma ação de presença às vezes indefinível.

H

á indivíduos com uma

mentalidade tal que, naturalmente

falando, têm

a impressão de que as coisas são como

se eles fossem o centro do universo.

O centro de todas as suas

atenções, preocupações, apetências,

de tudo quanto entendem, é aqui-

lo que eles são, têm que fazer e o

que lhes convém. O que for de uma

esfera maior do que isto, para eles

passa a ser desinteressante, na medida

em que está longe deles. De

maneira tal que um fato acontecido

a uma grande distância deles não

lhes interessa.

Um aspecto da alma

humana finamente descrito

por Eça de Queiroz

É conhecido o caso de Eça de Queiroz

contando a história de um almoço

em Portugal, em que ele fala do “pé da

11


Reflexões teológicas

BNP (CC3.0)

Luíza Carneiro”. Em duas palavras, diz

ele que numa casa de certa distinção do

interior de Portugal – aquele interior

tão tranquilo, tão largo, tão farto, tão

repousando sobre si próprio – termina

um almoço de domingo. A refeição esteve

esplêndida, compareceram vários

convidados da família, e passaram todos

para uma sala ao lado a fim de conversar.

Mas o peso do almoço opulento

da comida portuguesa, que é muitas vezes

difícil de digerir – há um restaurante

em Lisboa que se chama “Ao Farta

Brutos”, onde eu teria comido se soubesse

de sua existência quando estive lá

–, provoca sono; à medida que o sono

sobe, a conversa vai se amortecendo.

Por educação, cada pessoa joga de cá e

de lá uma palavra, a coisa se arrasta...

Chega o carteiro que entrega os

jornais, e uma pessoa lê a notícia de

um desastre medonho na China. Um

rio transbordou e, digamos, cem aldeias

ficaram submersas ceifando

não sei quantas vidas, destruindo casas,

lavouras, culturas, obras de arte,

pagodes. Foi uma catástrofe, mas

houve desinteresse geral na sala.

José Maria de Eça de Queiroz

E o Eça então descreve, com aquela

capacidade de reconstituir a realidade

que ele tinha, todo mundo ouvindo

aquilo com uma pena platônica

dos chineses, porque a China está

longe de Portugal, é quase um outro

mundo. Ainda mais naquele tempo

de um telégrafo escasso, em que

as comunicações eram feitas por navio;

não havia ainda avião.

De repente entra alguém e traz

um aviso: A senhora, Da. Luíza Carneiro,

que estava sendo esperada

para o almoço e não apareceu, nem

deu satisfação – não havia telefone

–, mandava um recado pedindo desculpa.

Ela tivera uma queda na rua

e machucara o pé. Como Da. Luíza

Carneiro era amiga de todo mundo

que estava ali, foi um alvoroço:

– Mas Da. Luíza Carneiro machucou

o pé? O que terá sido?

Mandam imediatamente bilhetes,

recados para Da. Luíza Carneiro. E

o sono, que a catástrofe dos chineses

não tinha sacudido, o simples pé da

Luíza Carneiro sacudiu!

Eça, muito finamente, põe o ponto

final e não comenta o fato.

Mas fica entendido o inconveniente

da alma humana, que

ele queria apontar aí: uma catástrofe,

absolutamente falando,

grande, ocorrida na China,

para o homem comum é como

se não fosse nada.

Por quê? Porque não diz respeito

ao círculo no qual se move,

pois acha que o centro de tudo

é ele. Pelo contrário, o pé da

Luíza Carneiro é uma coisa insignificante;

uma senhora que,

nas ruas tranquilas de uma aldeiazinha

de Portugal, caiu,

machucou o pé, está com a perna

estendida, passando sonolentamente

o domingo em casa.

É uma bagatela, mas julgam

ser muito importante porque

se trata de uma pessoa da roda

deles. E como isso toca a eles,

o pé da Dona Luíza Carneiro

fica valendo muito mais do que todo

o desastre acontecido na China, que

é distante.

Os homens de espírito curto

e os de grandes horizontes

Aqui um vezo do espírito humano

fica indicado. E esse vezo é: algo

importa ao homem na medida e no

sentido em que diga respeito a ele.

O que não lhe diz a respeito não importa

em nenhum sentido e nenhuma

medida.

Esses são os espíritos curtos, mais

ou menos como homens afetados de

uma forte miopia, e que não veem a

não ser o espaço necessário para se

moverem. Quer dizer, os horizontes

maiores eles não conseguem perceber,

porque não lhes é necessário, não sentem

falta. Andam à vontade. Se para

pegar os objetos, ler algo, se movimentar,

eles veem o necessário, pouco lhes

importa saber como são as estrelas, os

horizontes, como é o mar.

Há um outro tipo de homens que

é o contrário. Só se interessam pelos

grandes horizontes, pelas grandes

coisas, por aquilo em que eles não estão

no centro. Têm um gosto enorme

disso, a ponto de relaxar, às vezes, sobre

aquilo que lhes é imediato. Então,

se veem com frequência artistas,

poetas, grandes generais, diplomatas,

etc., que deixam a família na miséria,

que não cuidam de seus próprios interesses

pessoais, e vivem com a cabeça

posta em coisas que estão muito

acima das cogitações imediatas deles.

Isso é um defeito ou uma qualidade?

À primeira vista, é um defeito,

porque o homem deveria ver longe

e perto. A vista boa, proporcional, vê

as estrelas tanto quanto é normal e lê

a letra pequena do jornal, sem auxílio

de lentes. Sabe observar uma formiga

e ver uma montanha, ao longe,

bem como o que na montanha se passa,

sem necessidade de lentes. Essa é

a visão perfeita; observa tudo quanto

interessa muito à vista humana.

12


Gabriel K.

São Tomás de Aquino à mesa com o Rei São Luís IX - Convento de São Domingos, Lima, Peru

São Tomás de Aquino,

chamado a se preocupar

exclusivamente com

as coisas do Céu

Na realidade, alguns homens têm

uma vocação especial. Nossa Senhora

os chama para verem de longe e não

se ocuparem com o que está perto. Na

vocação especial isto é uma qualidade,

porque significa uma tal absorção

no que está mais alto e mais longe, que

eles como que voam e são mais Anjos

do que homens. Existem Santos assim.

É muito conhecido o episódio em

que São Luís, Rei da França, convida

São Tomás de Aquino para um almoço.

É uma honra ser convidado para a

mesa do Rei. O Superior dos dominicanos

vai com São Tomás de Aquino

e começa a conversa, São Luís presidindo.

Todo mundo tem por obrigação

estar atento ao que diz o Rei, pois

é ele quem faz a conversa. Aliás, São

Luís tinha muito boa prosa, era muito

bom interlocutor, mas São Tomás

reimerge nas suas preocupações e se

esquece de que está na mesa do Rei.

E ele, que era corpulento, de repente

dá um soco na mesa e diz:

– Ergo, conclusum est contra manichæos!

“Portanto, está concluído contra

os maniqueus”, que eram hereges

mais ou menos gnósticos do tempo

dele. O Superior o chama:

– Frei Tomás, Frei Tomás!

São Luís:

– Frei Tomás chegou a alguma

grande conclusão. Tragam logo material

para escrever a fim de tomar

nota do pensamento dele!

Rapidamente, vieram pessoas que

anotaram as palavras de Frei Tomás.

Depois ele normal e mansamente entrou

na conversa. Uma luz nova tinha

nascido na Igreja: novos argumentos

contra os maniqueus. Frade

chamado ao abandono das coisas da

Terra, a preocupar-se exclusivamente

com as do Céu, São Tomás de Aquino

evidentemente fez bem de, na própria

mesa do Rei, nem olhar para o

monarca. Mais terrível ainda: na mesa

do Santo, não olhar para o Santo!

Esqueceu de tudo, querendo pegar os

maniqueus e provar seus erros.

Santos atentos aos

acontecimentos deste mundo,

mas absortos em Deus

Mas houve Santos a quem Deus

chamou para uma outra forma de

perfeição. É muito conhecido este

fato: Santa Teresa de Jesus estava

preparando um almoço para as freiras

e teve um êxtase em que foi raptada

aos Céus em espírito e recebeu

uma visão altíssima – era uma grande

mística, com visões absolutamente

transcendentais –, na qual contemplou

a Deus, enquanto ela fazia

uma panqueca. De repente, a auxiliar

da cozinheira entrou, viu-a no

êxtase, na glória de Deus, e batendo

direito a panqueca para as freiras.

A ação dela – não absolutamente,

mas neste ponto – era mais alta do

que a de São Tomás, porque este estava

pensando nos maniqueus, e ela, vendo

Deus face a face. O Criador falava a ela

naquele momento e a ajudava a bater

13


Reflexões teológicas

a panqueca. E ela, por espírito

de disciplina e pelo senso das

coisas como são, tinha o êxtase

místico e, ao mesmo tempo, estava

fazendo a panqueca.

Talvez mais característico

ainda, seja um dito de Santo

Inácio de Loyola, a respeito

do seguinte: ele media tão bem

o pró e o contra de tudo quanto

fazia e, portanto, qual a razão

última da convicção formada

ou da deliberação tomada, que

no simples ato de passar por um

noviço da Companhia de Jesus

– portanto, o que a Companhia

tem de mais modesto – e tirar

seu barrete para ele, Santo Inácio

poderia encher uma folha

de papel com, digamos, quinze

motivos prós e dezoito contra,

explicando porque cumprimentou

ou respondeu ao cumprimento,

com esse ou aquele

matiz. Quer dizer, era uma visão

agudíssima do que lhe era

imediato, mas sem ter perdido

a noção, em nenhum momento,

daquilo que é o verdadeiro

centro de todas as coisas: Deus

Nosso Senhor.

Esta exposição mostra várias famílias

de almas. Santo Inácio, agindo

com a finura de um político, de um

ultrapolítico – estou certo de que um

Talleyrand ou um Metternich não saberiam

calcular tão bem um cumprimento

como ele –, estava por inteiro

posto nos acontecimentos deste mundo.

No extremo oposto, podemos imaginar

São Tomás de Aquino pensando,

não na panqueca, nem no Rei da

França, o Santo que tinha diante dele,

mas exclusivamente nos maniqueus.

As perfeições divinas

espelhadas no

talento humano

Santa Teresa de Jesus - Mosteiro de

Santa Teresa, Ávila, Espanha

É uma gama enorme de variedades

onde se espelham as perfeições

infinitas de Deus. Então se compreende

bem que deve haver gente que

preste atenção em tudo, neste sentido

da palavra: tudo aquilo que Deus

criou, é conforme a Ele, foi feito para

ser visto pelo gênero humano. Esse

é o princípio geral.

E precisa haver homens com o

feitio de espírito para ver cada coisa.

Uns veem mais uma, outros veem

mais outra, mas tudo é objeto para

ser contemplado muito atentamente

por um certo tipo de homem.

Dou um exemplo modesto. No

uso doméstico, não há nada de mais

comum do que uma colherzinha de

mexer café. A diversidade de formas,

de estilos de colherzinha de café que

se tem fabricado no mundo, desde

que há café, é tão grande que se poderia

fazer um museu enorme com

essas variedades. E o homem fez

mil obras de arte e mil horrores

com colherezinhas de café.

Quer dizer, a colherzinha

de mexer café é uma criatura

indireta de Deus, porque

ela foi modelada por aqueles

que foram criados por Deus.

Só em torno desse objeto o

talento humano quantas modalidades

inventa! Quanto o

homem pensou a respeito de

colherzinha de mexer café!

É um certo tipo de homem.

Deus quer que alguns tenham

espírito feito para isso.

Em alguns lugares da Europa

se fizeram colherezinhas

de mexer café tão magníficas,

que na Áustria chegou a haver

isto: no fim de certas recepções,

às vezes com mais de um

milhar de convidados, o Imperador

da Áustria mandava

oferecer café pelos lacaios, e a

colherzinha era de ouro. Tão

bonita era essa colherinha que

já se sabia, por tradição, que o

convidado tinha o direito de

levá-la para casa. Era um presente

do Imperador.

Tenho certeza de que, vendo

essas colherezinhas de café as quais

se encontram frequentemente em

qualquer lugar, nunca lhes passou pela

cabeça que pudesse haver isso.

Considerem outra coisa: o saleiro, o

objeto mais rotineiro que pode haver

no mundo. Pois bem, o que existe de

variedade de saleiros é simplesmente

inimaginável; poder-se-ia fazer um

museu de saleiros.

Figuremos uma sala de jantar dos

antigos tempos. Cada comensal poderia

aproximar uma colherzinha e

pôr na sua própria comida o sal que

quisesse. Na mesa, candelabros, lustres

com velas no alto do teto, na indecisão

da luz que vai e vem, o saleiro

brilha como uma montanha de cristal

no meio da mesa, ao reflexo do ouro.

É um objeto tão pequeno, tão modesto.

Entretanto, tudo quanto é para

Samuel Holanda

14


o uso do homem foi feito para ser pensado

e elaborado de um modo magnífico

em alguns espécimes, bom em outros,

decente em outros, e de um modo

indecente pela Revolução. Quer dizer,

há toda uma gradação. E mesmo

o indecente que a Revolução faz serve

ao homem, porque é útil para comparar

e detestar. De maneira que até isso

serve aos justos.

Um passeio de Nossa

Senhora pela Terra Santa

Daí tira-se a conclusão seguinte:

Deus fez na Terra os homens e, abaixo

deles, o reino animal, o vegetal e

o mineral. Além disso, Ele criou uma

forma de vida que vale mais do que o

homem: a vida sobrenatural da graça.

Quando a pessoa está muito penetrada

pela ação da graça – daqui

a pouco lembrarei o que é a graça –,

espraia-se em torno dela uma como

que luz, às vezes visível, às vezes invisível;

uma como que ação de presença,

às vezes definível e às vezes indefinível,

em razão da qual a pessoa parece

dar a conhecer algo em si, que é

superior à própria natureza humana.

E isto nota-se muito bem quando

se imagina Nossa Senhora andando,

por exemplo, por um vale

florido com os famosos lírios

do campo; é quase impossível

não presumir que, na medida

em que Ela ia passando,

pela ação de sua presença as

flores se abriam mais, ficavam

mais brancas, voltavam-

-se discretamente para Ela e

deitavam um perfume mais

intenso. Porque havia na

Santíssima Virgem, em grau

proporcionado à dignidade

incomparável d’Ela, algo de

sobre-humano, quer dizer,

superior a todas as naturezas,

mas atraindo tudo quanto

era inferior.

Pode-se imaginar que

também as outras flores se

voltavam para Nossa Senhora quando

Ela passava; os recém-nascidos

paravam de chorar e começavam a

abanar as mãos em direção a Ela; os

cordeiros, símbolos do Cordeiro de

Deus, se achegavam diante d’Ela e

iam se tornando mais alvos na medida

em que Ela ia se aproximando; os

leões olhavam-Na e ficavam, de repente,

dulcificados e mansos como

se fossem pássaros, mas depois rugindo

ao longe para defendê-La contra

o adversário imaginário, e com

uma força também duplicada. Assim

seria um passeio de Nossa Senhora

pela Terra Santa.

A mais alta qualidade

que uma pessoa pode

possuir na Terra

Isso se deu também com incontáveis

outros Santos, em grau infinitesimalmente

menor, porque em relação

a Nossa Senhora as coisas mais

belas, maiores, que se podem imaginar

são infinitesimais.

O famoso caso do lobo de Gúbio

com São Francisco de Assis. Era

um lobo terrível e que incutia medo

a todo mundo, comia, devorava,

etc. Então, pediram a São Francisco

Dr. Plinio em 1979

uma providência contra o lobo. Ele o

chamou, e o lobo veio todo docinho.

São Francisco deu uma bênção e o

lobo ficou suave, e nunca mais atacou

ninguém.

Também São Francisco Solano,

um jesuíta, apóstolo do Paraguai.

Quando os índios ficavam muito bravios,

ele tocava violino e os amansava.

Era como a bênção de São Francisco

de Assis.

A vida sobrenatural da graça vale

mais do que a vida humana, porque

é uma participação do homem

na vida divina. Deus cria a graça, a

qual confere uma participação na vida

d’Ele; e Deus como que a enxerta

no homem. E se o homem corresponde

à graça, esta é, ao pé da letra,

como um enxerto. Põe-se o enxerto

numa árvore frutífera e toda a produção

muda; também tudo quanto o

homem faz como que se diviniza sob

a ação da graça. E a mais alta qualidade

que pode haver na Terra é estar

imbuído da graça, correspondendo a

ela com toda a intensidade. Nada se

compara à ação da graça. v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de

9/6/1979)

Arquivo Revista

15


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Samuel Holanda

Hífen entre

doçura e

combatividade

Na sociedade orgânica medieval existia muita bondade e

combatividade. Não se podia mexer nos princípios, pois nesse caso

o Cordeiro de Deus se transformava em Leão de Judá. Ela primava

também pela lealdade, que é o hífen entre a doçura e a combatividade.

Quando a Idade Média terminou e iniciou a Renascença, a lealdade

foi deixando de ser estimada, começou uma insensibilidade para

com a traição e as alianças passaram a valer cada vez menos.

Uma pessoa que, sendo objeto

de toda a doçura, de

toda a suavidade do Sagrado

Coração de Jesus, se deixa enternecer

e suavizar tem condições para

que todas as suas qualidades pessoais

se expandam largamente, sem constituir

fator de agressão nem de briga

dentro da sociedade orgânica.

Reciprocidade enternecida

Tomem uma pessoa que leia as revelações

de Nosso Senhor a Santa Marga-

rida Maria sobre o Sagrado Coração de

Jesus, e tem alma para se deixar tocar

por isso. Enquanto é assim – pode deixar

de ser –, ela tem gratidão que, afinal

de contas, é essa reciprocidade no bem.

Alguém nos faz bem, nós lhe damos essa

reciprocidade; isso é gratidão.

A alma é muito instável nessa reciprocidade.

E enquanto está tocada

por essa reciprocidade, essa pessoa

pode desenvolver todas as suas qualidades

o mais que queira e tornar-se

um colosso; ela é um fator de bem-

-estar, de ordem, de bom funcionamento

de todas as coisas dentro da

sociedade orgânica.

Se, pelo contrário, ela tem um tipo

de alma que, sendo objeto de uma

bondade tal do Sagrado Coração de

Jesus ou do Imaculado Coração de

Maria, não se deixa tocar, quanto mais

ela se expande, mais tira o terreno dos

outros, e mais torna a sua própria expansão

daninha e insuportável.

Numa sociedade em que essa reciprocidade

enternecida é o comum do

trato de uns homens com os outros, o

papel da autoridade fica muito peque-

16


no, porque o caos, as desordens são

muito raros. A autoridade não tem senão

uma função repressiva limitada.

Haverá sempre necessidade dela, mas

é limitada. Possui uma função diretiva

muito grande – inspiradora e diretiva

– que consiste, sobretudo, em estimular

essas disposições de alma.

Todos podem expandir-se inteiramente,

sem que ninguém entre no terreno

do outro. Daí se torna possível a

sociedade orgânica, que se define assim:

é a sociedade na qual todas as expansões

não ocupam espaço vital a terceiros,

e são benfazejas umas às outras.

Uma floresta de pesadelo

Nós deveríamos imaginar uma

floresta de pesadelo, onde as árvores

só pudessem crescer de maneira

tal que umas batessem com os ramos

das outras. Um tal crescimento seria,

de um lado, a lei da vida; de outro

lado, a lei do caos. Seria preciso

repressão contínua nessa floresta de

pesadelo.

E quando as árvores estão nutridas

por um princípio vital, pelo qual elas

se expandem sem se tocarem, sem invadirem

reciprocamente o espaço vital,

temos a floresta que se pode desenvolver

livremente.

Qual é a condição que faz com

que os homens não batam com as

qualidades uns nos outros? É exatamente

essa enternecibilidade diante

da bondade muito grande, paciente,

que espera, que perdoa; aí nasce

a sociedade orgânica. Mas o famoso

problema da sociedade orgânica realmente

não é possível a não ser in

caritate Christi 1 , exatamente por isso.

Os setenta sábios no

Farol de Alexandria

Lembro-me dos setenta sábios no

Farol de Alexandria. Para mim é das

coisas mais belas que há: setenta sábios

num farol estudando juntos os

documentos sagrados, a interpretação,

etc. Eu acho uma coisa maravilhosa.

Como poesia, é de uma beleza única.

Se a pessoa tem a alma assim enternecível

pela bondade autêntica

que se lhe faça – não é, portanto, por

qualquer agradinho vão –, quando

vê um outro, que é um par dela, fazer

uma coisa boa, ela fica contente,

agradecida, porque a alma enternecida

não tem rivalidade, nem vontade

de esmagar ou de superar quem

quer que seja. Ela quer que todas as

formas de bem se expandam. E não

quer ocupar nessa floresta senão o

lugar onde naturalmente ela está.

Então, vendo outros que brilham

mais, etc., ela se rejubila, até dá graças

a Deus, toma isso como uma bondade

de Nossa Senhora. Por quê?

Porque um estado de espírito traz outro.

Toda forma de bem a toca.

Por exemplo, num seminário onde

os seminaristas são

assim. Um seminarista

vê um outro que o sobrepuja

em virtude e

fica contente: “Olhe,

que bonito fez o clérigo

Tal!”. Por quê? Porque

toda forma de bem

o enternece, ele fica

grato.

É a aplicação num

outro campo, quer dizer,

nas relações horizontais,

daquilo que

acabo de dizer nas relações

verticais, entre

o Sagrado Coração de

Jesus e nós. É uma variante.

Aseitas

Daí decorre também

uma outra coisa: uma

espécie de abundância

de bem-estar interior,

por onde a pessoa

fica com o sistema nervoso,

o temperamento,

muito mais aberto, mais

afável, mais flexível, recebe bem qualquer

coisa. É à maneira do Cordeiro

de Deus, desde que não mexam nos

princípios. Este é o ponto que não

pode ser tocado, pois do contrário o

Cordeiro vira o Leão de Judá.

A sociedade orgânica vem do fato

de que todo mundo expande suas qualidades,

as quais se entrerrelacionam

espontaneamente; movidas pelo bom

impulso que elas têm, formam harmonias

novas, como nunca ninguém pensou.

É a aseitas 2 da sociedade orgânica.

Falei há pouco da organicidade que

vem de que isto procede do fundo de

todos. Agora trato da aseitas. Isso tem

uma originalidade que nunca ninguém

pensou, porque dá origem a combinações

sempre novas, inesperadas e, por

causa disso, encantadoras.

Cada pessoa tem uma unicidade inconfundível.

Nas relações de cada um

Revelação do Sagrado Coração de Jesus

a Santa Margarida Maria Alacoque - Igreja

de São Patrício, Nova Orleans, EUA

Francisco Barros

17


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Divulgação (CC3.0)

com um outro nascem sempre, neste

clima de organicidade, surpresas que

ninguém pode prever. É propriamente

a doçura de Cristo no Reino de Cristo.

Então surge o reino da suavidade,

o reino de doçura, o reino da bondade.

A verdadeira sociedade

orgânica não existiu

antes de Cristo

É uma coisa que um pagão não

pode imaginar. Por causa disso, a

verdadeira sociedade orgânica não

houve antes de vir Nosso Senhor.

Porque sem Ele não se concebe.

E esta unicidade não se poderia

realizar antes da vinda de Jesus, por

efeito do pecado original. Como se

poderia pensar numa realização inteiramente

na ordem da Metafísica,

e levando-a até suas últimas consequências,

por uma humanidade parada

pelo pecado original?

Compreende-se assim o que vem

a ser a revelação do Sagrado Coração

de Jesus a Santa Margarida Maria

e o convite para aquela devoção,

retamente entendida. Daria o que

nós acabamos de dizer.

Então, uma das coisas mais antipáticas

do Ancien Régime é uma espécie

de ressentimento contínuo de uns com

os outros. Isso não existia na Idade

Média, o clima era outro. E da simples

generalização dessa devoção, se o rei

tivesse dado apoio, teria nascido uma

coisa que nós não sabemos como é.

Todas as elucubrações sobre Idade

Média e a inocência do homem

medieval não têm sentido se não tomarmos

isso em consideração.

A pessoa assim não pode ser, habitualmente,

muito apressada, posta

no ritmo norte-americano do metrô,

do elevado, do avião, etc. Eu

procuro muito, dentro do corre-corre

a que sou obrigado, não ter pressa

interior. E acho que estou dirigindo

minhas palavras contra o teor de

vida mecanizado e moderno. A um

homem que diz as coisas saltando de

um lado para outro torna impossível

ter esse estado de espírito.

O corre-corre, o

apego e o pânico

Portanto, tudo quanto a Revolução

colocou para acelerar demais o

ritmo das relações humanas, eu considero

de algum modo perturbador

deste estado de espírito do qual estou

falando. É necessário uma certa serenidade

por onde as reciprocidades se

sentem e têm tempo de recuar.

Gravura representando o Farol de Alexandria

Na ponta de cada linha de obrigações

do homem moderno está alguma

agilidade inexorável, à maneira de um

funcionário atrás de um guichê de um

banco, dizendo: “Faça isso assim, porque

do contrário serás prejudicado!”

No fundo de todo esse corre-corre

existe uma promessa de suborno e

uma ameaça. Quer dizer, um apego e

um pânico. Ora, apego e pânico saem

desse ritmo e não são compatíveis com

a sociedade orgânica, a qual comporta

um certo vagar, uma certa tolerância.

Em vista do que acabei de falar –

desta virtude da gratidão, da reciprocidade,

etc. –, se compreende a quase impossibilidade

de se levar uma vida verdadeiramente

católica – salvo melhor

juízo da Igreja algum dia; aí me curvo,

mas do contrário não – nesse corre-corre

dentro do qual sou obrigado a viver.

Alguém dirá: “Mas o senhor vive

ou não vive direito assim?” Eu espero

que viva, mas não se pode exigir

isso de cada um.

Não pode haver sociedade

orgânica sem reflexão

Há também uma outra coisa desse

estado de alma de que falei no começo

da reunião, que é muito ligada

com essa história da pressa. Todos

conhecem, mas a questão é fazer

o relacionamento debaixo desse ângulo.

É o seguinte:

Quem tem esse estado de alma é

reflexivo, reflete com facilidade e

gosta de refletir. Será mais inteligente

ou menos, pouco importa; ele reflete.

Porque tem os interstícios, os intervalos,

e uma necessidade de alma, por

efeito de suas próprias reciprocidades,

de pesar e ponderar o que se passou

para, organicamente, se ajustar

em vista do que aconteceu e fazer reflexões.

E são reflexões sem pedantismo,

mas que nascem do fundo da alma

dele – tal coisa, tal outra, depois é

de tal jeito –, que dão a vida refletida.

Um sabor que a sociedade orgânica

precisa ter é sentir-se em todos os seus

18


membros que eles refletem.

Sem isso não há sociedade

orgânica, como, por exemplo,

não pode existir um

avião sem asas e sem motor.

Digamos que uma pessoa

acaba de fazer um negócio,

no qual teve uma situação

aflitiva de que um

amigo a salvou, numa atitude

elegante, desprendida.

Ela, então, gosta de refletir,

de recordar a cena, o

amigo falando, de ponderar

o que este sacrificou, a

vantagem que ela mesma

auferiu, e tem vontade de

encontrar o amigo para lhe

agradecer.

Não é necessário que

seja sempre um agradecimento

em expressos termos.

Pode ser um agradecimento

implícito que, às

vezes, se exprime num modo

de dizer “bom-dia”. Há

mil modos de agradecer,

mas ela gosta de agradecer.

E isto sem uma reflexão não toma

seu valor inteiro.

Conhecer a mim mesmo e

a caridade que os outros

têm para comigo

Então, esses problemas que se

apresentam: “A sociedade orgânica

deve ter uma economia de tal tipo

ou de tal outro?” Eu começo por

dizer para o sujeito que formula tal

pergunta: “Faça primeiro os homens

com a alma própria à sociedade orgânica,

que a economia qualquer um

a efetua, vai de si. Não venha com

regras, mas procure criar homens

que, pela sua natural expansão, sejam

como as árvores da floresta que

se desenvolvem.”

Daí vem a sabedoria popular, a filosofia

popular que é o comum do

pensamento do povo, etc., mas que

dão a sociedade orgânica.

Dr. Plinio em 1983

Eu volto a dizer: a reflexão assim

pede negócios e um âmbito de contato

pessoal que não sejam com muita

gente, nem muito complicados,

entremeados, mas que tenham uma

certa simplicidade para poderem ser

aprofundados.

Essa posição de alma suporia uma

outra coisa, que é a seguinte: Um conhecimento

muito equilibrado de si

próprio, do que, segundo a justiça,

me é devido, e depois qual a caridade

que me fazem. Porque não é possível

ter reciprocidade com os outros

sem entender isso.

Alegria ao ver uma

pessoa superior a nós

E esse simples enunciado põe o

homem contemporâneo delirando,

porque está tão apodrecido pela Revolução,

que fica incapaz de refletir

razoavelmente sobre o que ele é.

Ele é tão igualitário que,

se for um homem de um

pouco mais de valor, pensa

para si o suprassumo e dá

num orgulhoso; ou, se for

um medíocre, quer reduzir

tudo ao nível dele. Em ambos

os casos, qualquer desigualdade

o deixa louco.

Não é o modo pelo qual

uma alma ordenada, da

qual falei, considera isso:

“Fulano tem tal coisa que

eu não tenho? Fico contente!

Então vamos homenageá-lo,

felicitá-lo por

causa disso, o que lhe dará

alegria!”

Isto era, propriamente,

o antigo ambiente de

família. Quando aparecia

um na família que se destacava

muito, às vezes de

um ramo bastante secundário,

era uma alegria geral.

Mas por quê? Porque a

família, que era uma espécie

de princípio vital, tinha

manifestado sua fecundidade, florescendo

naquele de modo especial.

Era uma razão de alegria para todos,

e não de pega-pega: “Aquele vai ficar

mais importante que eu, não é possível...”

Não existia isso.

Naquele tempo as moças cantavam,

tocavam piano, etc. Se aparecia

uma mocinha que está sendo apresentada

à sociedade e cantava magnificamente,

eclipsava todas as outras,

estas ficavam alegres: “Já viu Fulana

como está cantando bem? Convide-a

para sua casa!” É o natural.

Mas sem esse sentimento, a pessoa

não é capaz de saber aquilo a que tem

direito e o que se lhe deve. Resultado:

ela não é capaz de valorizar o que

lhe é dado. É uma ponderação de que

a pessoa se torna incapaz. Falta-lhe o

senso da medida cômoda e tranquila

para todas as coisas, que sem essa

avaliação não é possível. Na sociedade

orgânica existe isso.

Arquivo Revista

19


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Flávio Lourenço

Então, por exemplo: “Está aqui

nos visitando Fulana, que é muito

importante por causa de tal coisa.

Vamos lhe oferecer um chá melhor!”

É uma alegria que todos têm.

Alegria de dar, sem interesse.

Com o fim da Idade

Média, a lealdade deixou

de ser apreciada

E há uma virtude que é o ponto

de transição de tudo quanto eu acabo

de dizer e as virtudes combativas.

Refiro-me a uma virtude cujo nome

está ultraconspurcado pela banalidade,

mas é lindo. Chama se lealdade.

Porque esse teor de coisas só pode se

manter com quem é autêntico; com

quem não é autêntico é imantenível.

Esse estado de espírito de que falei

é pronto ao perdão. Mas uma das

coisas que ele mais dificilmente perdoa

é a falta de lealdade. Considerem

dois amigos. Um pode perdoar

ao outro qualquer coisa, por exemplo,

um desaforo muito grande; porém

perdoar uma deslealdade é mais

difícil. Viciou a base.

De onde acontece que na falta de

lealdade, não digo que seja inexplicável

o delito, mas é preciso dar provas

de si exuberantes para provar o

arrependimento. Ou há uma expiação

que é garantia de autenticidade

a vida inteira, ou aquilo não se mantém.

Ao desleal que peça perdão pode-se

dizer: “Eu perdoo e vou rezar

por você.” É muito mais difícil afirmar:

“Eu perdoo, vamos conviver.”

E a lealdade está a meio caminho

entre toda essa doçura à qual me referi

e a combatividade. É o hífen que

se põe numa ordem muito razoável.

Não tem nada de sensacional. E a lealdade

já é a passagem para a combatividade,

para uma outra ordem.

E notem o seguinte: quando a

Idade Média cessa e inicia a Renascença,

começa uma insensibilidade

para a traição. O traidor da Renascença

é muito mais frequente. Mesmo

as alianças passaram a valer cada

vez menos. Mas por quê? Porque a

lealdade passou a valer cada vez menos

e ser desleal não ficava mal.

Então, com o fim da Idade Média,

a lealdade deixa de se prezar. Quando

esse apreço pela lealdade cessa, pode

ter a forma de afetividade que quiser.

Para um homem íntegro, essa afetividade

significa pouco e é tratada como

pouco. Não tem por onde escapar.

Bondade de Nosso

Senhor Jesus Cristo

Para se compreender e amar todas

essas verdades, há um pressuposto

que eu considero uma graça especial.

Especial para nós porque vivemos

neste século, etc., mas é uma graça

frequente, corrente, comum na Cristandade:

ter uma certa noção, comunicada

pela graça, de como isso realmente

foi com Nosso Senhor, e como

o equilíbrio de tudo isso existia n’Ele.

Por exemplo, a bondade de Nosso

Senhor é, ao mesmo tempo, por assim

dizer, infatigável, insuperável; mas, de

outro lado, procede de uma Pessoa de

uma majestade indizível, fazendo que

essa graça venha especialmente preciosa

porque se percebe que ela desce

infinitamente do alto. E, vinda de

tão alto, ela preenche com tanta condescendência

um espaço que percorre

a distância infinita Criador-criatura,

mais a distância insondável homem

em estado de graça-pecador.

E quando a pessoa recebe essa

bondade fica enternecida, em boa

parte pela noção de quantas distâncias

comparáveis a anos-luz essa bondade

caminhou para chegar até ela.

De maneira que pela alma sensível,

no bom sentido da palavra, ela

é acolhida com muita gratidão. Mas

uma gratidão profundamente respeitosa

e desejosa, desde logo, no primeiro

lance, de que não se diminua

em nada a majestade que assim desceu

até ela. A pessoa seria capaz de

desembainhar não sei que espadas

para manter esta majestade, porque,

para ela, o reconhecimento da majestade

e do infatigável, por assim dizer,

da bondade, fazem um só.

Então, a seriedade, a transcendência,

a perfeição de Nosso Senhor, en-

20


quanto Segunda Pessoa da Santíssima

Trindade, enquanto Homem-Deus – a

palavra transcendência se aplica aí numa

situação mais analógica –, essa superioridade

assim percebida enquanto

vem a nós transbordante de bondade,

mas fazendo sentir a sua superioridade,

é o que de nenhum modo nas falsificações

das imagens de Jesus estão.

Sua seriedade e majestade

Essa bondade é profundamente

séria. Quer dizer, ela nos oferece

aquilo a que não teríamos direito,

mas ao mesmo tempo pede de nós, fitando-nos

com força, que nos modifiquemos

e tenhamos bem em linha de

conta o que está nos sendo dado. Ou

seja, não é uma bondade cínica. Ela

quer ser devidamente avaliada.

É uma bondade disposta a perdoar

muitas vezes. Mas cada vez que há

um pecado, ela reconstitui a situação

dramática anterior, agravada pela

nova. E ela exige, de quem recebe

a bondade, um preito de contrição

ainda maior.

Quer dizer, há ao lado disso uma

seriedade, um tomar-se a sério! E,

no fundo, está dito o seguinte: “Meu

filho, Eu te perdoo inúmeras vezes.

Um dia você cai na minha justiça; há

um certo limite, e ai de quem transpõe

esse limite!” Embora não afirmado,

isto está presente.

A majestade de Nosso Senhor é

tal que nem sei o que dizer. Naquelas

perguntas feitas por Ele aos fariseus

há, ao mesmo tempo, uma simplicidade

e uma invectiva onde está

presente um equilíbrio que só o Divino

teve, dentro do qual a própria

bondade deve ser vista. Ela não pode

ser considerada como uma virtude

avulsa. É isto que dá a ela o sabor. v

(Extraído de conferência de

17/2/1984)

Gabriel K.

1) Do latim: no amor de Cristo.

2) Cf. Revista Dr. Plinio n. 140, p. 16-21 e

n. 141, p. 20-25.

Sagrado Coração de Jesus

República Dominicana

21


Dr. Plinio comenta...

Angelo L.

Balduíno IV,

o protótipo do católico - II

Balduíno, agonizante, foi de liteira enfrentar Saladino,

que se retirou. Talvez essa vitória tenha sido, sob

algum aspecto, mais bonita do que a alcançada

pelo rei leproso quando rezou com o rosto na areia.

Nesta ele comoveu o Céu, inclinando-se no deserto;

naquela, impôs respeito ao Inferno, fazendo com que

o famoso guerreiro maometano fugisse. É a glória de

um homem na Terra, à espera da glória no Céu.

Sainte-Chapelle,

Paris, França

Imaginemo-nos na situação dos

soldados de Balduíno IV que

combateram na batalha de

Montgisard 1 , revestidos de armamentos,

marchando ou cavalgando às ordens

desse rei, e pensando o seguinte:

Epopeia comparável aos

episódios sacratíssimos

da vida de São Luís

“Do outro lado está o Sultão Saladino,

muito famoso, riquíssimo, cer-

cado de todo o fausto do Oriente –

o nome dele retumbava por todas

aquelas zonas como o de um grande

guerreiro –, um homem válido, sadio.

Nós não somos senão trezentos, e o

nosso rei o que é? Um miserável leproso,

um pobre superdoente, desfeito

em chagas e purulências. E a Providência

nos chamou para combater,

sob as ordens de um desprezível leproso,

todo o exército de Saladino!”

Não é verdade que poderia dar insegurança

monumental? O que de-

veria ter sido esse Balduíno para, sozinho,

dar segurança aos trezentos

homens! Que canal, que veículo do

Espírito Santo! Mais bonito ainda do

que pensar em trezentos guerreiros

é cogitar em trezentos soldados pernibambos...

E o rei, leproso, que se

prostra no chão e pede a Nosso Senhor,

por meio de Nossa Senhora,

força para os seus pernibambos. Ali,

de fato, nada é forte a não ser a alma

dele; mas esta o era por inteiro!

Mais sublime não pode ser.

22


Eu pergunto: na história das monarquias

católicas, há um episódio

mais bonito do que esse? Não há.

Nem os episódios sacratíssimos da

vida de São Luís excedem a esse em

beleza. Igualam sim, mas não excedem.

É uma verdadeira maravilha!

Eis a epopeia que a História da

Idade Média, vista assim, nos apresenta.

Continua o autor 2 .

No ano seguinte, Balduíno edificou

no Gué de Jacob a fortaleza destinada

a defender a Galileia dos ataques

de Damasco.

Gué é um vale por onde Jacó teria

passado. Como é bonita a figura desse

rei que vai se desagregando, mas

constrói fortalezas. Ele, ao contrário

de uma fortaleza que se edifica, é um

esboroamento vivo, a cada instante.

Mas ele ainda constrói fortaleza para

lutar no futuro.

Guilherme de Tiro pretende que isso

tenha sido feito pelas permanentes

solicitações de Odon de Saint-Amand,

Grão Mestre do Templo. Em todo caso,

qualquer que tenha sido o inspirador

da ideia, não há dúvida quanto à

importância estratégica da fortaleza

que Balduíno mandou construir.

Um senhor feudal revoltase

contra Balduíno IV

Em 1179, Saladino invadiu a Galileia.

Balduíno foi a seu encontro, tentando

surpreendê-lo, como tinha feito

em Montgisard. Mas, como os muçulmanos

não se deixaram surpreender,

o jovem rei foi cercado. Muitos foram

mortos e presos nesse dia.

Pouco tempo depois, Saladino tomou

o Gué de Jacó e mandou executar

todos os cavaleiros do Templo que

a defendiam.

Sybilla, irmã do rei, acabava de se

casar – contrariamente aos interesses

do Estado – com Guy de Lusignan,

homem de beleza discutível, sem fortuna

e sem talento. Balduíno, pressionado

pelos seus, minado pela doença,

havia consentido nessa união e doado

a Lusignan os condados de Jafa e Ascalon.

Tão logo se manifestou a insignificância

do marido de Sybilla, atiçaram-se

as esperanças dos senhores

feudais. Contava-se que o irmão de

Lusignan, comentando o casamento,

disse: “Se Guy for rei, eu deveria ser

deus.”

Nessa mesma ocasião, Isabel de Jerusalém

desposava Humphrey de Toron,

filho indigno de seu pai, o extinto

Condestável de Jerusalém, morto em

defesa do rei. O estado de Balduíno IV

piorava dia a dia. Foi uma provação

para sua mãe, que não tinha boa fama,

e para a roda de seus cortesãos,

ambiciosos e amorais, ver a aproximação

de Balduíno com Raimundo de

Trípoli, único homem capaz de aconselhá-lo

devidamente.

Nesse momento reapareceu, libertado

dos cárceres muçulmanos, o antigo

Príncipe de Antioquia, Renaud

de Châtillon. Este logo começou suas

aventuras, assaltando uma importante

caravana de peregrinos com destino

a Meca.

Tal ato rompia a trégua assinada

por Balduíno IV e Saladino, ofendia

as convicções religiosas dos muçulmanos,

a cujos olhos o atentado afigurava-se

monstruoso. Intimado pelo rei a

devolver os prisioneiros e o produto da

pilhagem, ele recusou-se com arrogância,

tornando assim evidente a incapacidade

do doente de se fazer obedecer.

Portanto, esse senhor feudal revoltou-se

contra o rei. Balduíno deu-lhe

Divulgação (CC3.0)

Batalha do Krak de Moab

23


Dr. Plinio comenta...

ordem de restituir o que tinha

tirado aos muçulmanos, e ele

não quis. O estado de doença

de Balduíno não lhe permitia,

naquele momento, manter a

autoridade necessária.

Dirigia-se às batalhas,

carregado em liteira

Divulgação (CC3.0)

Em agosto, o infatigável

maometano Saladino tentou

tomar Beirute por uma ação

combinada por terra e mar.

Uma vez mais, Balduíno afastou

o perigo.

Então, caminhando para a morte,

ele combateu e venceu.

Impediu Saladino de se apoderar

de Alepo e conduziu uma expedição

até os subúrbios de Damasco.

Que era a capital de Saladino.

Assim, por toda parte, graças à sua

energia sobre-humana, e ainda que

daí em diante ele se fizesse carregar

em liteira para as batalhas, o heroico

leproso levava vantagem sobre o genial

muçulmano.

Considerem um rei que não pode

mais cavalgar e é levado em liteira

para as batalhas, mas que vai animando

os seus. Vejam, mais uma

vez, a força de alma que renasce, enquanto

o corpo cada vez decai mais.

Ele começava, entretanto, a perder

a vista, a não poder mais se servir de

seus membros. Os que lhe eram mais

chegados o pressionavam a abandonar

seus afazeres do reinado, e ao

mesmo tempo passar parte de suas

responsabilidades a Guy de Lusignan.

Pode-se bem imaginar o drama interior

desse rei, com apenas 22 anos,

corroído por úlceras, semiparalisado

e quase cego, cercado pelas sombras

da desconfiança e dos maus pressentimentos,

atormentado ante as insinuações

e sugestões pérfidas dos seus, de

um lado, e a alta ideia que fazia de sua

missão de rei, de outro lado. Se a lepra

o enfraquecia e ele não podia ter esperanças

de se curar, sempre, entretanto,

Coroação de Balduíno V

encontrava novas forças e resistia da

melhor forma às ciladas da camarilha.

É o período de ascensão máxima

dele: cada vez mais cercado, ele vai

resistindo à camarilha, crescendo em

energia.

Pedido de socorro

ao Ocidente

Como a doença entrava numa fase

evolutiva, ele devia lutar contra ela e,

sobretudo, contra a tentação de abandonar

tudo para morrer em paz.

Foi num desses períodos que ele

consentiu, se bem que a contragosto,

a investir Guy de Lusignan na regência

do reino.

No primeiro encontro com Saladino,

Lusignan deixou o exército franco ser

massacrado. Recusou com altivez prestar

contas a Balduíno, que o destituiu de seu

cargo. E para evitar que, pela complacência

de Sybilla, Lusignan se tornasse

Rei de Jerusalém após sua morte, ele designou

seu sucessor: o pequeno Balduíno

V, filho de Guilherme Longue Épée.

Ele ainda teve, portanto, um gesto

de suprema coragem e energia: vendo

que o cunhado não prestava mesmo,

destituiu-o da sucessão do reino.

Como a situação da Terra Santa estivesse

desesperadora, Balduíno mandou

uma embaixada ao Ocidente,

composta pelo Patriarca de Jerusalém,

pelo Mestre dos Hospitalários e pelo

Mestre dos Templários, o velho

Arnaud de Torrage.

Era um pedido de socorro

ao Ocidente, para ver se mandavam

gente limpa e boa para

salvar a cidade de Jerusalém.

Agonizante, Balduíno

enfrenta Saladino

e o derrota

Renaud de Châtillon, que

indiretamente tinha ajudado o

rei a se desembaraçar de Lusignan,

julgou-se autorizado a

retomar suas pilhagens, mas

agora então na mais alta escala.

Armou uma frota, que foi transportada

ao Mar Vermelho em dorso de camelo.

Essa frota, devastando portos,

interceptando comboios, ameaçou por

algum tempo o caminho para Meca.

Saladino, excitado até o cúmulo do

furor, destruiu os navios de Renaud e depois

sitiou-o em sua própria fortaleza, o

Krak de Moab. Balduíno IV apareceu,

agonizando em sua liteira, para lhe fazer

frente. Saladino então retirou-se.

O Mar Vermelho era cheio de sultanatos

e de pequenos Estados riquíssimos.

Renaud de Châtillon fez

transportar os seus navios, a dorso

de camelo, pelo istmo de Suez – o canal

naturalmente não existia, só foi

aberto no século XIX –, entrou no

Mar Vermelho e começou a saquear.

Saladino ficou indignado. Balduíno,

agonizante, foi de liteira enfrentá-lo.

Saladino se retirou. Talvez tenha sido

uma vitória, sob algum aspecto,

mais bonita do que aquela quando

ele rezou com o rosto no chão. Na

primeira vitória, ele comoveu o Céu,

inclinando-se no deserto; na segunda,

impôs respeito ao Inferno, fazendo

com que Saladino se retirasse. É

a glória de um homem na Terra, à espera

da glória no Céu.

O último ato de Balduíno IV foi o de

reunir em São João d’Acre o Parlamento

de seus barões. Guy de Lusignan, incapaz

e rebelde, foi então oficialmente

24


afastado do trono. E a regência foi confiada

a Raimundo de Trípoli.

O que era de justiça e sabedoria,

porque ele designou um menino para

ser seu sucessor, e tinha o direito

de nomear o regente. Balduíno chamou

então seu conselheiro fiel e designou-o

como regente. Vê-se o golpe

pelo qual ele não nomeou Guilherme,

o Longa Espada, para rei,

mas sim o menino. Assim, Balduíno

pôde chamar seu conselheiro fiel e

passar-lhe o bastão de mando, antes

de morrer.

Mais tarde, a 16 de março de 1185,

o mártir rendeu sua alma a Deus, em

presença de seus vassalos, dignatários

e bons companheiros de guerra. Até os

infiéis lhe tributaram homenagens.

Pedir a esse herói que

nos obtenha a força

de alma indomável

Entretanto, os católicos o esqueceram...

Em 1972, ele é lembrado

num auditório cheio de pessoas de

um continente naquele tempo habitado

pelos guaranis, araucanos, tupis,

etc. Aqui está um eco da glória

de Balduíno IV, Rei de Jerusalém.

Esse é um fulgor da Idade Média.

Não sei o que aconteceu, mas

uma figura assim não foi dada mais

à Cristandade. Esse exemplo impressionante

do rei leproso e herói, diante

de cujas feridas recuam, cheios de

reverência, os filhos das trevas, não

nos foi dado depois.

Alguém poderá objetar: “Dr.

Plinio, o seu entusiasmo por Balduíno

IV é como se ele tivesse sido

santo. Mas o senhor não pode ter os

olhos fechados para o fato de que

esse homem teve fraquezas na vida,

como o senhor mesmo observou

nessa narração histórica. Como o senhor

pode ter tanto entusiasmo por

esse personagem?”

A vida tem me mostrado poder

haver pessoas com algumas qualidades,

mas que, sob o peso de pro-

vações muito grandes, embora com

culpa, apresentam deflexões, mas a

graça depois perdoa, reanima e leva

de novo a altos cumes.

Essa foi a história, chagada e dolorosa,

de Balduíno IV. Ele teve desfalecimentos,

é verdade. Não como

Nosso Senhor caiu debaixo da Cruz

– perfeito, impecável, divino –, mas

como um homem que teve fraquezas,

e recebeu graças para não tê-las.

Essas fraquezas devem ser julgadas

com severidade. Mas os atos maravilhosos

de sua vida também precisam

ser, por isso mesmo, julgados com a

mesma justiça. E esses impõem admiração,

como as fraquezas exigem a

severidade. Sobretudo, para que esse

homem tivesse realizado o último

lance de afugentar e impor respeito

a Saladino naquelas condições, era

preciso que a sua alma estivesse em

muito belo estado.

Ele foi ocasião, como uma relíquia

viva, para um dos mais bonitos

episódios da História das Cruzadas.

Como não admitir que a alma

desse homem, num grau mais alto

ou menos, esteja na presença de

Deus? Nós não podemos canonizar

ninguém, pois este é um privilégio

Ruínas do Krak de Moab

único e exclusivo da hierarquia católica,

mais especialmente do Papa.

Porém, podemos pedir privadamente

a esse herói que nos conquiste essa

força de alma indomável. Que ele

nos faça compreender algo desse espírito

medieval, do qual ele era dotado

em tão alto grau, e que é a luz

que nos deve animar no caminho ao

Reino de Maria.

Aqui está a grande recordação

purulenta, fétida, chagada e maravilhosa

de Balduíno IV. Mais do que

isso, de Nosso Senhor Jesus Cristo

no alto da Cruz, pensando em nós,

em nossa meditação, abençoando-

-nos e nos perdoando por todos os

defeitos que haja em nossas almas.

Nós nos compadecemos de Balduíno

e, sobretudo, d’Ele. Que ambos

tenham piedade de nós! v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de

21/10/1972)

1) Cf. Revista Dr. Plinio, n. 245, p. 18.

2) Cf. BORDONOVE, Georges. Les

Templiers. Paris: Librairie Athème

Fayard, 1977, p. 111-115.

Bernard Gagnon (CC3.0)

25


Gabriel K.

C

alendário

1. Beata Juliana de Collalto, abadessa

(†1262). De família nobre, vestiu

o hábito beneditino aos 12 anos.

Fundou o Mosteiro de São Brás, em

Veneza, onde foi abadessa.

2. XXII Domingo do Tempo Comum.

3. São Gregório Magno, Papa e

Doutor da Igreja (†604). Resolveu

problemas temporais e espirituais,

ajudando aos necessitados, fomentando

a vida monástica, propagando

e reafirmando a Fé; escreveu muitas

obras sobre temas morais e pastorais.

4. São Bonifácio I, Papa (†422).

Trabalhou para solucionar muitas

controvérsias sobre a disciplina eclesiástica.

5. São Pedro Nguyen Van Tu, mártir

(†1838). Sacerdote dominicano

dos Santos – ––––––

que continuou exercendo seu ministério

clandestinamente durante a perseguição

no Vietnã.

6. Santo Eleutério, abade (†séc.

VI). Sua simplicidade e compunção

de espírito encantou o Papa São Gregório

Magno. Foi abade no mosteiro

de São Marcos, em Spoleto, Itália.

7. Beato João Batista Mazzucconi,

presbítero e mártir (†1855). Religioso

do Instituto de Milão para

Missões Estrangeiras, depois de dois

anos evangelizando, já enfermo, foi

decapitado em Papua-Nova Guiné,

na Oceania.

8. Natividade de Nossa Senhora.

São Corbiniano, bispo (†730). Ver

página 28.

9. XXIII Domingo do Tempo Comum.

10. São Teodardo, bispo e mártir

(†c. 670). Mestre de São Lamberto,

foi assassinado nos arredores de

Speyer (Alemanha), quando, sendo

Bispo de Tongeren (Bélgica), ia visitar

o Rei Childerico.

11. São Paciente de Lyon, bispo

(†c. 480). Distribuiu gratuitamente

trigo às cidades situadas junto ao Ródano

e ao Saône para socorrer à

população oprimida pela fome.

Empenhou-se na conversão

dos hereges e na assistência

aos necessitados.

12. Santíssimo Nome de

Maria.

Beato Tomás Zumárraga, presbítero

(†1622). Foi encarcerado por

ódio à Fé e lançado ao fogo em Omura

(Japão), junto com o franciscano

Apolinário Franco e mais quatro

companheiros.

13. São João Crisóstomo, bispo e

Doutor da Igreja (†407). Ordenado

Santo Alberto

sacerdote na Antioquia, foi chamado

“Crisóstomo” por sua eloquência.

Nomeado Bispo e Patriarca de Constantinopla,

esforçou-se para moralizar

o clero. Foi desterrado por denunciar

abusos de autoridades civis.

14. Exaltação da Santa Cruz.

Santo Alberto, bispo (†1214). Patriarca

de Jerusalém. Deu uma regra

aos eremitas do Monte Carmelo e,

enquanto celebrava a festa da Santa

Cruz, foi assassinado por um homem

cuja má conduta havia censurado.

15. Nossa Senhora das Dores.

16. XXIV Domingo do Tempo Comum.

São Cornélio, Papa (†253), e São

Cipriano, bispo (†258), mártires.

17. São Roberto Belarmino, bispo

e Doutor da Igreja (†1621).

São Francisco Maria de Camporosso,

religioso (†1866). Irmão capu-

Flávio Lourenço

26 São João Crisóstomo


––––––––––––––– * Setembro * ––––

chinho, ofereceu sua vida pela salvação

dos doentes da epidemia que dilacerava

Gênova, Itália.

18. Beatos Davi Okelo e Gildo

Irwa, catequistas e mártires (†1918).

Foram martirizados ainda bem jovens

numa aldeia ao norte de Uganda por

terem-se dedicado espontaneamente

a anunciar o Evangelho a seu povo.

19. São Januário, bispo e mártir

(†séc. IV).

São Mariano, eremita (†séc. VI).

De ilustre família de Bourges, França,

abandonou o mundo para tornar-

-se eremita em Berry. Alimentava-se

apenas de maçãs agrestes e mel.

20. Santo André Kim Taegon,

Paulo Chong Hasang

e companheiros, mártires

(†1839-1867).

Beato Francisco de Posadas,

presbítero (†1713).

Religioso dominicano, pregou

durante 40 anos na Andaluzia

(Espanha), especialmente

em Córdoba, sua

cidade natal.

21. São Mateus, Apóstolo

e Evangelista (†s. I).

Santa Maura, virgem

(†c. 850). Nobre francesa,

que com suas orações e

exemplo, alcançou a conversão

de seu pai.

22. Beato José Marchandon,

presbítero e mártir

(†1794). Pároco de Marsac,

França, preso durante

a Revolução Francesa numa

embarcação em Rochefort,

onde adoeceu e morreu

de fome.

24. São Pacífico de São Severino,

presbítero (†1721).

25. São Cléofas (†séc. I). Um dos

dois discípulos que Nosso Senhor encontrou

na estrada para Emaús e que

O reconheceu ao partir o pão.

26. Santos Cosme e Damião, mártires

(†c. séc. III).

Beato Gaspar Stanggassinger,

presbítero (†1899). Sacerdote redentorista,

dedicado à educação dos jovens.

Faleceu aos 28 anos, em Gars,

Alemanha.

27. São Vicente de Paulo, presbítero

(†1660). Viveu em Paris a serviço

dos pobres. Fundou a Congregação

da Missão para formar o clero e ajudar

os necessitados. Junto com Santa

Luísa de Marillac, fundou também a

Congregação das Filhas da Caridade.

28. São Venceslau, mártir (†929-935).

São Lourenço Ruiz e companheiros,

mártires (†1633-1637).

29. São Miguel, São Gabriel e São

Rafael Arcanjos. Ver página 2.

São Renato Goupil, mártir

(†1642). Médico nas missões jesuítas

no Canadá. Preso e morto pelos iroqueses

por haver feito o sinal da cruz

na fronte de algumas crianças, em Ossernenon.

30. XXVI Domingo do Tempo Comum.

São Jerônimo, presbítero e Doutor

da Igreja (†420). Nasceu

na Dalmácia e estudou

em Roma. Entregou-se à

vida ascética no Oriente

onde foi ordenado sacerdote.

De volta a Roma, foi

secretário do Papa São Dâmaso

e recebeu deste o encargo

de traduzir para o latim

as Sagradas Escrituras,

dando origem à “Vulgata”.

Flávio Lourenço

Flávio Lourenço

23. XXV Domingo do

Tempo Comum.

São Cornélio e São Cipriano

São Januário

27


Hagiografia

A severidade de

São Corbiniano

GFreihalter (CC3.0)

Precisamos ter uma visão

global da Doutrina Católica

e, portanto, timbrar em

conhecer as verdades

esquecidas. Uma delas é

a que os santos de nossos

dias devem ser como São

Corbiniano, em muitas

ocasiões de suas vidas.

Pois nossa época é de

extraordinária obstinação

no pecado, sobretudo o

de heresia, e a pior delas é

a Revolução. Para vencer

essa obstinação, em

muitas circunstâncias, o

remédio é a severidade.

São Corbiniano

Unterhaching,

Baviera,

Alemanha

Segundo o Martirológio, em

8 de setembro se comemora

São Corbiniano, Bispo de

Freising, na Baviera, falecido nesse

dia, em 730.

Recriminações a um príncipe

Regressando de Roma, onde se entrevistara

com o Papa Gregório II, São

28


Divulgação (CC3.0)

Cenas da vida de São Corbiniano - Unterassling, Tirol do Sul, Áustria

Corbiniano, ao chegar à fronteira dos

Estados pertencentes a Grimoaldo, foi

detido por guardas que este duque ali

postara, com ordem de não permitir a

passagem do bispo, se ele não aceitasse

em fazer-lhe uma visita.

O Santo consentiu. Mas, ao dirigir-se

ao castelo do príncipe, declarou

que lá só entraria se Grimoaldo deixasse

Piltrude, a viúva de seu irmão,

com quem se casara. Como o príncipe

não obedecesse, perseverou na recusa,

admoestando-o incessantemente com

suas recriminações a fim de conduzi-lo

à penitência.

Ao cabo de quarenta dias, Grimoaldo

e Piltrude prometeram separar-se

e o santo bispo mandou-os vir à

sua presença. Absolveu-os, depois de

terem pedido perdão de joelhos e lhe

beijado os pés, impôs-lhes penitências

de esmolas, jejuns e orações. Depois

entrou no palácio.

Jantando certo dia em companhia

desse mesmo príncipe, São Corbiniano

abençoou os alimentos servidos à

mesa. O príncipe, que se distraíra, atirou

um bocado ao seu cão favorito.

Imediatamente o santo homem derruba

a mesa com um pontapé, dizendo

que quem atirava a um cão semelhan-

te bênção não era digno dela, e que

desse dia em diante não comeria mais

em sua companhia.

Profundamente ferida pelo fato

de São Corbiniano tê-la separado do

príncipe, com suas admoestações, Piltrude

aproveitou a ocasião para acusá-lo

de crime lesa-majestade, merecedor

de morte.

O príncipe, entretanto, que o tinha

em grande e alta estima, mandou fechar

as portas da cidade, temeroso de

que o homem de Deus, em sua cólera,

dela se retirasse. Acompanhado

dos maiorais de sua corte, foi pedir-

-lhe perdão.

Noutra ocasião, quando se dirigia

ao ofício da noite na Igreja de Santa

Maria, o santo bispo encontrou no caminho

uma camponesa, que se retirava

carregada de ricos presentes. Já fora

apontada como dada à prática de

sortilégios. Interrogou-a sobre a razão

dos presentes. Respondeu ela que

curara o filho do príncipe, que estava

atormentado por demônios, e que por

causa disso fora presenteada. Horrorizado,

o bispo desceu do cavalo, espancou

a mulher com suas próprias

mãos, arrancou-lhe tudo quanto carregava

e distribuiu entre os pobres à

entrada da cidade. Mais do que tudo,

lamentava a infidelidade do príncipe. 1

Para vencer a obstinação

no pecado, em muitas

circunstâncias o

remédio é a dureza

Toda virtude concebida de maneira

unilateral não é autêntica virtude.

Se fôssemos imaginar um santo apenas

muito suave, bondoso, invariavelmente

amável em todas as circunstâncias

de sua vida, não estaríamos

em presença de um verdadeiro santo,

mas sim de um arremedo de santo.

Como também se imaginássemos

um santo que procedesse durante

toda a sua vida explosivamente como

São Corbiniano agiu nesses episódios,

nós estaríamos diante de um

santo muito singular, porque não se

pode conceber que um bispo, mesmo

na era constantiniana, para remédio

de todas as situações jogue as

mesas no chão, etc. Mas há situações

em que o dever consiste em agir assim,

como existem ocasiões em que

o dever se cifra em ter um procedimento

diverso.

29


Hagiografia

O que explica nossa insistência

nesse exemplo de São Corbiniano?

É que temos muitos exemplos em

sentido contrário, e as virtudes “corbinianas”

são extraordinariamente

raras. De maneira que encontramos

aí uma razão muito boa para pôr em

realce essa ficha.

Mas há uma razão mais profunda,

evidentemente. Precisamos ter

uma visão global da Doutrina Católica

e, portanto, devemos timbrar

em conhecer as verdades esquecidas.

Uma delas é que os santos

devem ser assim, como São Corbiniano,

em muitas ocasiões de suas

vidas, sobretudo quando se trata

de santos de nossa época. Época

de uma dureza, de uma obstinação

no pecado – e o pior deles que

é o de heresia, e a pior das heresias

é a Revolução, com o laicismo a ela

inerente –, uma obstinação tão extraordinária

que realmente não se

sabe o que dizer. É claro que, para

vencer a obstinação, em muitas circunstâncias,

o remédio é a dureza.

Hoje, a prova de coragem

consiste em enfrentar aqueles

que promovem a Revolução

O primeiro exemplo do procedimento

de São Corbiniano com o

príncipe se explica pelo fato de que

este era casado com uma mulher, a

qual tinha com ele um grau de parentesco

por ser viúva do seu irmão

e, portanto, precisava de uma dispensa

da Santa Sé para contrair matrimônio

com ela. Eventualmente, o

príncipe não tinha pedido essa dispensa

e vivia maritalmente com ela,

e casou-se mesmo com ela, mas de

um modo ilícito, sem a licença da

Santa Sé. Ele estava, portanto, numa

situação que São Corbiniano não poderia

tolerar.

Vimos com que extremos de severidade

ele censurou a atitude do

príncipe, e que humildade o Santo

exigiu dele, como pedido de perdão.

Quem seria um personagem equivalente

ao príncipe nos dias de hoje

para um santo humilhar assim? Como

poderíamos imaginar um confronto

entre a fortaleza da autoridade

espiritual e os poderes temporais

atualmente?

A Revolução deslocou das mãos

dos príncipes, ou ao menos da maior

parte deles, o poder e a riqueza. Enfrentá-los

já não é grande prova de

coragem. Mas é prova de coragem

enfrentar aqueles que hoje têm muito

poder, ou muitos meios de subornar,

de comprar. Entre esses nós temos

em primeiro lugar, evidentemente,

os ricos. Mas não só eles;

também a imprensa, o rádio, a televisão,

os instrumentos que manipulam

a opinião pública, os demagogos,

os chefes de correntes revolucionárias;

a todos esses, se favorecem

o mal, é preciso que um bispo

saiba enfrentar.

O exemplo do Cardeal

Mindszenty

Como é bonito, por exemplo, vermos

um bispo proceder por essa forma,

enfrentando o comunismo, a demagogia,

a desordem e a Revolução!

Nós temos hoje em dia um exemplo

que vem a propósito lembrar

porque, ao menos pelo que se conhece,

não é menos belo do que o exemplo

de São Corbiniano. É o Cardeal

Mindszenty 2 , que está preso na Hungria,

e a respeito do qual baixou um

tal silêncio que quase nos esquecemos

de que ele existe. Pois bem, temos

aí um exemplo de fortaleza extraordinária,

que lembra a fortaleza

de São Corbiniano.

A ficha narra outros dois episódios:

um é do Santo que joga a mesa

no chão porque o príncipe deu de

comer alimentos abençoados a um

cachorro.

Alguém perguntará: “Mas ele não

podia fazer de modo diferente? Por

exemplo, dizer: ‘Príncipe, eu me levanto.’

Ou simplesmente manter silêncio

sentido, em relação ao príncipe.”

Uma pessoa mais moderada indagaria:

“Ele poderia simplesmente

dizer: ‘Príncipe, para seu cachorrinho

não seria demais um pão bento?’

Assim, São Corbiniano não captaria

mais a simpatia e a benevolência

do príncipe?”

Seriedade, respeito, confiança

É preciso sempre lembrar que a

arte de tratar com as almas não consiste

principalmente em incutir-lhes

simpatia, mas sim, antes de tudo, em

lhes granjear o respeito. E o respeito

se granjeia pela seriedade. E a seriedade

se documenta muitas vezes

pela severidade. É tomando as coisas

até as últimas consequências e

punindo de acordo com a gravidade,

que se mostra ser sério. E, mostrando-se

sério por essa forma, impõe-se

respeito, inspira-se confiança e desse

modo se dirigem as almas.

Um erro da propaganda

hollywoodiana, e que o ambiente

de hoje incute nas almas de um modo

terrível, é a ideia de que o perpétuo

smiling, o sorrir para todo mundo,

arrasta as pessoas. Arrasta coisa

nenhuma. Os norte-americanos têm

distribuído dólares e sorrisos à farta.

Se houve uma potência no mundo

que garganteou pouco o seu poderio

foi a norte-americana. O grande

poder temporal mundial, anterior

ao norte-americano, foi o da Inglaterra.

Como a Inglaterra levava a

coisa de outro jeito! Antes da Inglaterra

foi Napoleão. Os Estados Unidos

exercem uma dominação velada,

por detrás dos bastidores, com dólares,

e garantindo a independência

desses países, pelo menos a independência

política, e amenizando o conjunto

com sorrisos. Contudo, eles estão

sendo gradualmente abandonados

pelo mundo inteiro.

Por quê? Porque os Estados Unidos

não incutem admiração. E não

30


Sigmund Benker (CC3.0)

incutem admiração pelo fato de que

não são sérios. Eles depositam toda

a sua confiança no sorriso. O sorriso

tem um certo papel na vida do homem,

não tem dúvida. Não estou dizendo

que nunca se deva sorrir. Mas

que essa seja a guia régia, é um engano.

O sorriso precisa ser temperado,

consertado com atos de grande

valor, de grande energia. Quem não

é capaz de meter um pouco de medo

não é verdadeiramente santo. E

por isso nós temos um Santo de requintada

bondade, mas que sabe impor

medo, e consegue fazer o príncipe

ficar quieto.

Na Idade Média, a

virtude e a contrição dos

pecadores são encantadoras

Por outro lado, é uma maravilha

a atitude do príncipe. Na Idade Média,

muitas coisas encantam. A virtude

encanta, mas também a contrição

dos pecadores é encantadora. O

príncipe andou mal porque, afinal,

ele devia ter prestado atenção. À sua

mesa estava um Santo que ele venerava

como tal; o varão de Deus dá

uma bênção nos alimentos, mas ele

está pensando no cão. Contudo, em

comparação com as coisas que fazemos

hoje, quão ingênuo, quase se diria

quão gracioso!

O príncipe leva uma admoestação

tremenda, e sua primeira ideia

é: “Segura o Santo porque eu quero

pedir perdão para ele!” E como o

Santo vai embora, manda fechar as

portas da cidade. Depois pede perdão,

ajoelha-se, o Santo se reconcilia

e volta tudo à bonança. Nota-se que

contrição entra nisso, que cordura,

que brandura de alma, que inocência

há numa atitude como essa. Não é

verdade que, mesmo nessa penitência,

há uma inocência mais profunda

do que a falta cometida e que nos

deixa maravilhados?

Finalmente, a sova na mulher que

era uma espécie de bruxa e feiticeira

e havia usado algum feitiço para

curar o filho desse homem. Qual foi

a atitude do Santo com ela?

Eu pergunto: há casos semelhantes

atualmente? Ainda hoje eu estava

lendo a seguinte notícia: Houve a

inauguração de um parque municipal

em São Paulo, durante a qual foi

realizada uma sessão ecumênica. Falou

um padre, um bispo católico, logo

em seguida um espírita e depois

um rabino. Numa mesma sessão, em

comum com o bispo. Onde está o

exemplo de nosso Santo? Como estão

mudadas as coisas... v

(Extraído de conferência de

8/9/1969)

Morte de São Corbiniano

1) Cf. ROHRBACHER, René-François.

Vida dos Santos. São Paulo: Editora

das Américas, 1959. v. XVI, p.

106-107.

2) Cardeal József Mindszenty (*1892 -

†1975). Opôs-se tenazmente ao regime

comunista, particularmente em

seu país, Hungria. Foi perseguido,

preso e morreu no exílio. Seu corpo,

exumado em 1991, foi encontrado incorrupto,

e em 1996 foi apresentada à

Santa Sé a documentação para o processo

de sua beatificação.

31


Luzes da Civilização Cristã

Gabriel K.

Lugar onde a

Providência quis reunir

suas maravilhas - I

Dr. Plinio sempre teve encanto pelo mar. Eis uma

das razões pelas quais apreciava sobremaneira

Veneza, a cidade construída sobre as águas. A causa

mais profunda do surgimento de tal maravilha é

o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Quem

resulta tudo quanto há de bom e de belo na Terra.

Antes de comentarmos alguns aspectos de Veneza,

parece-me conveniente considerarmos um

pouco o que se passa no interior de nossa alma,

vendo essa cidade. Externo aqui minhas reflexões ao visitá-la,

pois o que vou dizer a meu respeito se dá mais ou

menos com todo mundo.

Fascínio pelo mar

Tanto quanto me lembro, em pequeno eu tinha impulsos

que me levavam a lamentar de não poder viver, não

propriamente no mundo da fantasia, mas num mundo

que não era aquele no qual eu vivia. Portanto, levar uma

vida real numa atmosfera diferente da qual eu vivia.

Assim, por exemplo, recordo-me de, muitas vezes, estando

em Santos ou, muito mais modestamente, numa

estação de águas hidrotermal que eu frequentava por

causa de minha mãe, onde havia um riachinho um pouco

nutrido, corria um pouco de água, formava uma ilhota e

umas coisas assim; olhava para as águas e sentia o fascínio

que esse elemento produz. A água salgada do mar me

fascinava além de todo limite. Foi toda a vida o encanto

de minha alma considerar o mar.

Lembro-me do meu tempo de deputado, quando o prédio

onde se reunia a Assembleia Constituinte ficava numa

praça do Rio de Janeiro, no fundo da qual há um braço de

mar. Meu gosto pelo mar era tal que, às vezes, eu estava

sentado assistindo à sessão e me vinha à mente: “Como seria

interessante se eu pudesse estar olhando para o mar,

por exemplo, sobre uma espécie de terracinho de madeira

amarrado em estacas, posto na água de maneira a acompanhar

o movimento da maré!” Aquilo me distraía a ponto de

ter que fazer esforço com a minha inteligência para prestar

atenção nas arengas, tanto era o meu gosto pelo mar.

Entretanto, nunca me passou pela cabeça imaginar

um homem que, estando no mar, começasse a pensar na

terra. Então, alguém se encontrando num navio, vendo

a terra de longe, pensasse: “Ah, que delícia aquela terra!

Pisar em solo firme…” O chão não é firme, mas duro; é

diferente de firme. Para acharmos graça no chão é preciso

calçá-lo com pedras bonitas, pôr um tapete para disfarçá-lo

a fim de nos sentirmos à vontade em cima dele.

32


Pelo contrário, no mar não. Ele é delicioso! Debaixo

de certo ponto de vista, quanto mais a pessoa possa

estar no mar, sem pisar em nada que lembre a terra,

melhor é. Se ela estiver nadando, metida na água

que exerce sobre ela uma atração extraordinária,

tanto melhor. É o fascínio produzido por um elemento

onde o homem realmente não vive, mas no qual ele

tem a impressão de que a vida seria ideal.

Pedro K.

Palácios e jardins, nostalgia do Paraíso

Certa ocasião, estando em Petrópolis, no Rio

de Janeiro, vi pela primeira vez um homem voar

em asa delta. Percebi que do local onde me encontrava

até o panorama marítimo da Baía de

Guanabara não levava muito tempo. E notei que

lá de cima o homem estava olhando para aquela baía,

realizando assim a convergência de dois sonhos: a água

e o ar. Pareceu-me delicioso estar lá em cima, apesar de

umas inseguranças não pequenas. Mas ele se movia com

tal desembaraço no ar, que percebi estar inteiramente

seguro. Então, a ideia de estar seguro, planando no ar,

longe da terra e olhando o mar, era uma coisa deliciosa.

De outro lado, há uma coisa que também atrai o homem.

Não é propriamente a terra, mas o palácio. Folheando

álbuns, vendo palácios lindamente decorados,

os mais antigos com belos vitrais, os outros com pinturas

lindas, ou tapeçarias bonitas, com um chão precioso,

macetado com madeiras de cores diferentes, formando

desenhos, com quadros, móveis luxuosos, e com o teto

alto, o homem tem sedução por algo que esconde de todos

os modos a realidade comum da terra onde ele vive. O

palácio é uma espécie de esconderijo onde, sem sentir a

instabilidade da água e da flutuação no ar, a pessoa também

foge de algum modo da terra concreta e constrói um

sonho dentro do qual ela entra. Este é o palácio.

Ademais, para encobrir ainda de algum modo a terra,

o homem elabora jardins, por vezes ornados com chafarizes

que fazem a água brincar no ar, caindo depois em

tanques onde o elemento líquido fica refletindo o céu, o

próprio jardim e o palácio.

Como se explica que o homem goste tanto de disfarçar

a terra? A meu ver, porque ela é exatamente o elemento

que mais traduz a punição e o desterro do homem por

causa do pecado original. “Amaldiçoada será a terra por

tua causa. Com sofrimento tirarás dela o alimento todos

os dias de tua vida. Comerás o pão com o suor do teu rosto,

até voltares à terra da qual foste tirado” (Gn 3, 17.19).

A terra é apresentada como um lugar de degredo onde

é duro trabalhar, é preciso regar com o suor do rosto,

ou seja, é penoso obter algum resultado. Ela é prosaica,

não apresenta cores lindas, nem maravilhas de nenhu-

ma espécie. A meu ver, por onde mais sentimos a nostalgia

do Paraíso é precisamente no contato com a terra.

Palafitas para se proteger contra as feras

Reportemo-nos, agora, a uma remota reminiscência

para compreendermos os desígnios da Providência, e como

Ela dispõe tudo de modo maravilhoso.

Como demonstram as pesquisas arqueológicas, na

Pré-História houve povos que, levados pelo receio dos animais

ferozes, construíram as chamadas palafitas, conjuntos

de estacas que sustentavam habitações construídas

sobre as águas. Durante a noite, eles retiravam uma espécie

de tabuleiro que lhes servia de ponte entre a palafita

e a terra, e assim os animais podiam rondar em torno deles,

mas não incomodavam. A água protetora os separava.

Podemos imaginar a sensação de progresso experimentada

por esses primitivos quando eles construíram a

primeira casinha e, à noite, ouviam as feras uivar dentro

do mato; ao invés de ficarem apavorados, como no tempo

em que viviam em grutas ou cabanas, dentro das quais

um animal feroz podia de repente irromper, eles dormiam

sossegados e se abanando deliciosamente, porque

a fera não constituía mais um perigo. Que “civilização”!

Foi de uma situação análoga a essa que, do pânico de

primitivos habitando um lugar pantanoso e inconsistente,

nasceu uma das maiores belezas do universo. O local

hoje ocupado por Veneza, outrora era muito pantanoso.

Um dos lugares mais bonitos da Terra

Em certo momento, um guerreiro terrível, Átila, desceu

com seus hunos através da Hungria, invadiu a Itália e

foi surrando tudo no caminho. O pavor que os latinos civilizados

tinham dele era tal que se exprimiu por uma metá-

33


Luzes da Civilização Cristã

Gabriel K.

Vicente Torres

Gabriel K.

fora muito poética:

por onde a patas

do cavalo dele

pousavam nunca

mais nascia erva.

As populações

daquelas

regiões ficaram com pavor de Átila e se aprofundaram

em seus pântanos, procurando lugares de mais resistência

para se fixarem. Ali mais ou menos repetiram as palafitas.

Esses povos depois foram batizados, e o Batismo operou

em suas almas o efeito regenerador que lhe é próprio;

e de primitivos, mais ou menos vagabundos, passaram

a ser homens de trabalho que, seduzidos pelas

águas do Mar Adriático, entregaram-se à navegação.

Tornaram-se grandes navegantes e se dedicaram ao comércio,

passando a ser a maior potência marítima do

Mar Mediterrâneo.

As riquezas voltavam para Veneza e com elas as possibilidades

de trabalho, de organização. Aquelas ilhas

resultantes do antigo pântano foram consolidadas, ajeitadas,

fizeram correr água onde havia lodo outrora. As

casas foram melhorando, as águas se tornaram de trânsito

fácil e, no lugar do antigo pântano, constituiu-se um

arquipélago que foi se enchendo de palácios de uma beleza

famosa no mundo inteiro.

E ali, em vez do jardim que Veneza não tem, nasceu

para o homem este sonho que se realizava: morar num

palácio à beira d’água, com um céu lindíssimo. O céu de

Veneza é uma espécie de céu dos céus, o colorido e as

brumas são uma beleza, os anoiteceres são lindíssimos.

E realiza-se assim esse ponto de eleição que é uma espécie

de paraíso feito pelo homem, pela sua fantasia, pelo

seu talento, pela sua capacidade de trabalhar, pelo

seu desejo do maravilhoso, coisa tão distante do homem

contemporâneo.

Então, realizou-se em Veneza esse ponto de encontro

onde a terra feia, outrora pântano, é disfar-

çada pelo chão dos palácios, o pântano é coberto pelas

águas do mar que correm, o céu maravilhoso e as

águas se osculam, formado um dos lugares mais bonitos

da Terra.

Maravilha que nasceu do Sangue

de Nosso Senhor Jesus Cristo

No centro desta narração está o desvendar de um

enigma. Como povos tão primitivos puderam realizar

uma coisa tão maravilhosa? Será por que se mesclaram

com outros povos? A meu ver, se eles não fossem batizados

isso não saía. Pode ser que se tenham mesclado

com latinos decadentes. Mas do pântano do primitivismo

e da decadência das grandes cidades em decomposição

sair uma coisa assim, não era preciso um terceiro

elemento que fizesse uma coisa verdadeiramente

mais bela?

A meu juízo é evidente que sim. É o Corpo e o Sangue

de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja imolação no alto do

Calvário obteve as grandes regenerações morais. É deste

Sangue, a propósito de cuja efusão Nossa Senhora chorou

e do qual resulta tudo quanto há de bom, de grande,

de belo na Terra, que nasceram maravilhas dessas, pela

regeneração do homem. Batizou-se, ficou trabalhador.

Intensificou e disciplinou o seu desejo do maravilhoso,

as maravilhas começam a nascer.

Foi à procura desse auge de realização do maravilhoso

na Terra que me pus a sonhar sobre Veneza e a querê-la.

Desde minha primeira viagem àquela cidade, meu

espírito estava tomado por esta ideia: eu estava visitando

uma junção incomparável e paradisíaca de coisas

maravilhosas.

Poder-se-ia dizer, entretanto, haver mais algo ocupando

no meu espírito um grande espaço, um ponto importante

que procurarei condensar: das várias obras-primas

existentes em Veneza, – oh, mistério! – nenhuma é

tão grande e tão maravilhosa quanto o homem.

34


A “Sereníssima República de Veneza”

Se Deus tivesse criado Veneza, mas a cidade houvesse

ficado sozinha para ser habitada pelos pombos, que valor

ela teria? Muito mais do que simplesmente aquilo, há em

Veneza o estilo de vida, o estilo artístico veneziano, a cultura,

as instituições venezianas, que modelaram as fisionomias

dos palácios. E, no plano da Providência, o palácio é

modelado pela cultura do homem, mas o auxilia a modelar

depois a sua própria cultura. Ajuda-o a se requintar. O céu,

o mar e a terra foram feitos para, iluminando a casa ou o

palácio do homem, iluminar a alma de quem ali reside.

Esta é a dignidade do ser humano. Tudo isso nos reporta

ao fato de que a chamavam de “Sereníssima República

de Veneza”. “Sereníssima” é quase mais bonito

do que Imperial e Real. Dá a impressão de orvalhada

por todas as calmas da noite. “Sua Alteza Sereníssima”,

por exemplo, eu acho um título lindíssimo! E a República

de Veneza, por ser soberana e querer se encaixar

na hierarquia nobiliárquica e feudal da Europa, considerando

que seu chefe tinha uma verdadeira dignidade

de um duque, tomou para si o título de “Sereníssima”.

Veneza era uma república aristocrática, dirigida por

uma nobreza inscrita num livro chamado “Livro de Ouro”.

As famílias promovidas à nobreza tinham seus nomes inscritos

nesse livro, e pertenciam a uma classe social que elegia

uma espécie de Câmara dos Lordes. Havia também, para

as várias categorias da plebe, câmaras, conselhos, etc.

Casamento de Veneza com o mar

À testa disso estava o Conselho dos Dez, chefiado por

um doge que usava o barrete frígio das repúblicas contemporâneas,

cercado de uma pequena coroa. Tratado

como um príncipe, eleito de dez em dez anos, podendo

ser reeleito, o doge era o ponto de partida de politicagens

finíssimas, rasteiras jeitosíssimas, mais elegantes

do que passos de minueto; com a beleza de quem se habituou

muito cedo a burilar a política como quem burila um

cristal. Aliás, por uma coincidência bonita, as fábricas

de cristal começaram a aparecer. Daí vem o famoso

cristal Murano. Há qualquer coisa de cristalino

na República de Veneza.

Todo mundo conhece a festa

anual de esplendor de Veneza. O

doge, vestido com trajes fabulosos,

ia até o alto-

-mar num navio todo folheado a ouro, chamado Bucentauro,

seguido de um cortejo de embarcações com gente

a bordo tocando violinos e outros instrumentos. Ao chegar

a certa altura, fazia-se o casamento de Veneza com o

mar, lançando no fundo do Mar Adriático um anel. Nesse

momento, a música dava o seu todo, o pessoal aclamava.

Ao cair da tarde, todos voltavam, em meio aos reflexos

da água do mar de Veneza, e a festa continuava

na terra. Aqueles canais eram percorridos por gente em

gôndolas, lanternas bonitas iluminavam os terraços, de

fora dos palácios se percebia a luz das festas que se estavam

dando ali dentro. O tilintar dos copos de cristal, os

vivas, os cânticos se prolongavam

pela noite afora.

Se passarmos daí para as

palafitas que constituíram

a primeira Veneza, compreenderemos

a enorme

trajetória percorrida

nesse lugar verdadeiramente

privilegiado,

onde a Providência

quis reunir as suas maravilhas.

v

(Continua no próximo

número)

(Extraído de conferência

de 2/12/1988)

Gabriel K. TYP (CC3.0)

35


Flávio Lourenço

São Miguel Arcanjo

combate o demônio,

durante a Assunção da

Santíssima Virgem - Galeria

Nacional, Parma, Itália

Guerreiros implacáveis contra

o demônio e seus sequazes

Pode-se afirmar que todas as grandes almas que combateram as diversas heresias, ao longo dos séculos,

foram especialmente suscitadas por Nossa Senhora. É o que insinua de modo muito bonito o brasão

dos claretianos, onde figura, além do Imaculado Coração de Maria, São Miguel Arcanjo e, no alto, a

divisa: “Os seus filhos se levantaram e A proclamaram bem-aventurada.”

Essa presença de guerreiros que, como soldados de São Miguel Arcanjo, levantam-se para combater os inimigos

de Deus, proclamando bem-aventurado o Coração de Maria, não é também uma forma de irrupção da

Santíssima Virgem, como magnífica aurora, nas tramas da História? Portanto, os verdadeiros devotos de Nossa

Senhora devem desejar e pedir a Ela a graça de serem esses guerreiros de ferro, indomáveis e implacáveis contra

o demônio e seus sequazes que, em nossos dias, procuram conspurcar a glória da imortal Igreja de Cristo.

(Extraído de conferência de 8/9/1963)

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