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Santa da Ladeira - Fazendo Gênero - UFSC

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consagração e a

consagração e a configuração atual deste. O processo de consagração iniciou-se na década 60 e durante este período a imagem e o culto à Maria da Conceição passou por um processo de evolução e transformação – de Maria da Conceição (uma simples trabalhadora rural), foi reconhecida e legitimada pelos crentes como vidente, irmã Maria, profeta, mensageira e representante divina (escolhida por Deus para representar Nossa Senhora na terra), chamada de mãe, mãe Maria, nossa mãe na terra, ou seja, uma santa viva (sendo sua imagem semelhante a de Nossa Senhora). O movimento devocional em torno dela ocorre principalmente no Santuário de Nossa Senhora das Graças (Ladeira do Pinheiro, Torres Novas, Portugal), reúne milhares de pessoas oriundas especialmente de Portugal, mas também de países como Espanha, França, Canadá, Ilha de Martinica), vinculadas a diversas religiões, sendo procurada e respeitada, inclusive, por padres e religiosos da Igreja Católica Romana e Ortodoxa. Este movimento ocorre, desde sua origem, de forma paralela as instituições religiosas e possui características populares. Os relatos dos crentes e os diversos documentos reconhecem que Maria da Conceição foi protagonista de acontecimentos “transcendentes” e de uma vida de sofrimento desde sua infância, elementos básicos de sua legitimação como santa. Nascida e crescida na área rural de Torres Novas, vivia de forma muito simples junto com a família. Tinha um comportamento de isolamento desde menina, não tinha amigos e era filha única de uma mãe severa e violenta. Aceitou casar aos dezenove anos sem gostar do marido, nunca conseguiu ter filhos biológicos 6 , embora desejava ser mãe. Aos 29 anos foi acometida de uma doença incurável e foi hospitalizada, mas sem muitas chances de cura. Ao final de 4 meses, foi considerada curada e sua cura atribuída à uma aparição de Nossa Senhora. A partir daí, torna público as visões e aparições de Nossa Senhora 7 , Deus e Santos à ela que tinha desde os 7 anos 8 , tornando-se mais frequentes (e públicos) os êxtases, desmaios, estigmas corporais, ocorrência de eventos anormais como aparecimento de hóstias dos céus, imagens que sangram e suam, além da recorrente acerto na previsão de acontecimentos. A legitimação por parte dos crentes a estes acontecimentos e ao poder sobrenatural de Maria da Conceição popularizou o movimento de devocional em torno dela, conjuntamente com a organização de rituais (como Banho de Santo Antônio, Mesa da Aliança, Oração do 1º domingo, Procissão, Comemoração de aniversário e outros) e formação de grupos de apoiadores como o Exército Branco (formado por mulheres escolhidas e subordinadas à Maria da Conceição que auxiliam nos rituais e na estrutura do santuário e vestem-se de forma distintiva dos demais). A organização dos rituais e o funcionamento do culto na Ladeira são legitimadas pelas mensagens divinas, transmitidas em êxtase, à Maria da Conceição. Maria da Conceição apresenta-se, ela própria, como profeta e mensageira de Deus para salvação do mundo. Declara a sacralidade da Ladeira (onde vive) e constrói, com ajuda da comunidade interna, um Santuário, um lar para idosos e outro para crianças, uma casa de apoio ao

peregrino, uma igreja Romana (que atualmente encontra-se fechada) e, por fim, uma catedral com objetivo de, no futuro, quando o final dos tempos se concretizar, ser utilizada como o encontro de todas as religiões. Esta catedral é utilizada, desde sua construção, para todos os rituais da comunidade e pela Igreja Ortodoxa. Paralelamente ao movimento de adesão por parte dos populares, surge um movimento de contestação por parte da Igreja Católica Romana, que alia-se ao Estado e envolve instituições civis, militares, judiciais locais e nacionais para impedir o culto da Ladeira. Durante anos Maria da Conceição é convocada a explicar-se, é submetida a exames médicos para comprovar sua nãosanidade mental, é presa e vê a Ladeira ser ocupada pela Guarda Nacional Republicana durante quatro anos. Além do aparato estatal, a hierarquia católica define uma cruzada contra o que chamou de fraude ou embuste, convocando, para tanto, os párocos e líderes comunitários que são constantemente ameaçados de ex-comunhão, caso apoiem o movimento devocional da Ladeira. Apesar disso, Maria da Conceição continua afirmando a veracidade dos fatos, sua condição de subordinada de Deus e apelando a Santa Sé para que o culto da Ladeira seja legitimado. Segundo os crentes, Maria da Conceição aceitou, com resignação, todo sofrimento físico, as perseguições e a discriminação promovida pelos poderes político e religioso, justificando-o como parte de sua missão na terra. Aliás, o sofrimento da mãe (pessoal e nas relações) serve como justificativa de seu poder sobrenatural e sacralidade. É importante ressaltar que Maria da Conceição acaba transformando-se em símbolo de resistência à Igreja e ao Estado e sua trajetória teve apoio incondicional de uma comunidade de fé, que não só reconhecia seu sofrimento e sacrifício como acreditava na eficácia de seu poder, alcançando um estado que a distinguia dos comuns. Já a linguagem e a postura de Maria da Conceição também contribuiu como fonte de sua própria consagração. A imagem de Maria da Conceição passou por fases que levaram, a ela e aos seus crentes, a acreditar no seu papel de eleita como mediadora e representante do divino na terra. O fato de Maria da Conceição utilizar, na maioria da vezes, um longo manto branco, que a distinguiu do grupo, e de ter construído uma imagem de virgem (ao viuvar, casou novamente, mas estabeleceu um acordo de celibato com seu marido, chamado de pai Humberto), contribuíram no processo de sua identificação com Nossa Senhora e de conferência ao estatuto de pertença ao mundo divino, sendo reconhecida como Nossa Senhora na terra ou Mãe Maria. Desta maneira, Maria da Conceição passou a reunir simultaneamente os componentes de mãe coletiva e de santa viva, além de ser procurada como mediadora, conselheira e respeitada como autoridade, a quem cumprimentam com um beijo na mão e uma genuflexão. Ao mesmo tempo, Maria da Conceição soube fixar os crentes e criar uma comunidade unida através de rituais comemorativos frequentes e de atitudes que foram meios eficazes de difusão e propaganda deste movimento devocional. Com a colaboração dos crentes e especialmente do

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