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Centenário do nascimento de Carlos Drummond de Andrade

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Affonso Romano <strong>de</strong> Sant’AnnaTer a consciência <strong>do</strong> tempo é ter a consciência <strong>do</strong> passa<strong>do</strong>, <strong>do</strong> presente e <strong>do</strong>futuro articuladamente. Não se tem uma consciência orgânica <strong>do</strong> tempo senão se fizer a articulação <strong>de</strong>sses três estágios. Então ele começa uma “viagem”que passa a ser a recuperação <strong>de</strong> sua história. E o presente não é só vivência social,dramática, humana, mas é também um movimento em direção ao futuro,no senti<strong>do</strong> metafísico. A palavra aparece, então, como um instrumento <strong>de</strong>ssaviagem, ela é que o vai conduzir entre o passa<strong>do</strong> e o futuro. Surge então a poesiacom sinônimo <strong>de</strong> viagem: “Carrego comigo há milhares <strong>de</strong> anos”, vai ele dizen<strong>do</strong>,revelan<strong>do</strong> que transporta algo misterioso em seu trajeto. Trajeto que éprocura, <strong>de</strong>sgaste e construção poética. Andar, prosseguir, procurar, pesquisarsão to<strong>do</strong>s sinônimos que se acumulam nessa trajetória, nesse projectum que estáse realizan<strong>do</strong>. No meu menciona<strong>do</strong> livro <strong>de</strong>monstro mais exaustivamentecomo diversos poemas vão construin<strong>do</strong> essa trajetória através <strong>de</strong> verbos <strong>de</strong>movimento e da repetição <strong>de</strong> termos como “procura” e “busca”.Assim como numa banal e prosaica viagem num automóvel você gasta opneu, também na viagem existencial, com o expor-se ao tempo, você gasta ocorpo. E começa a sentir a crescente avaria física, com suas conseqüênciasmetafísicas.Ele começa ironicamente a notar as “<strong>de</strong>ntaduras duplas”, começa a perceberas rugas no seu corpo, começa a perceber estrategicamente das maneiras maisvariadas uma <strong>de</strong>molição em marcha. Por exemplo, através da morte das casas<strong>de</strong> Ouro Preto. A <strong>de</strong>molição está ali visível aos olhos <strong>de</strong>le. Depois, a <strong>de</strong>molição<strong>do</strong> próprio corpo: “Assisto ao meu <strong>de</strong>smonte palmo a palmo.” Ou, então,em outro verso: “Uma sensibilida<strong>de</strong> maior ao frio, vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> voltar mais ce<strong>do</strong>para casa.” E assim diante <strong>de</strong>sse <strong>de</strong>smonte na direção da morte, e aí é que entrauma das coisas mais lindas e raras nessa poesia. Assim como há uma relaçãoentre estar no tempo e submeter-se à <strong>de</strong>struição, entre avançar no tempo e <strong>de</strong>molir-se,há uma relação entre caminhar para a morte e conhecer melhor oamor. Então, esse poeta que no princípio da obra tratava o amor à distância,ironicamente: “João amava Teresa que amava Raimun<strong>do</strong>”, etc., etc., esseamante que apenas “espiava” o que estava acontecen<strong>do</strong>, esse amante que não120

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