Revista Dr Plinio 012

revistadp

Março de 1999

MEU DEUS, MEU DEUS, POR QUE ME ABANDONASTES?

Causa-me assombro como essa fisionomia

expressa uma forma de

sofrimento de Nosso Senhor que

não me lembro de ter visto representado,

de modo tão preciso e extremo, em nenhum

outro crucifixo.

Olhos escancarados e salientes, a tensão

de toda a carnatura da face e a posição

do pescoço dão a impressão de algo

muito mais aflitivo do que a dor: é o malestar.

Um mal-estar terrível, pior do que

qualquer padecimento, inundando completamente

a Alma adorável e o sagrado

Corpo de Nosso Senhor no alto da Cruz.

Dir-se-ia que, nessa posição e com essa

expressão fisionômica, o Divino Redentor

não estava distante de dar o brado

sublime que precedeu de momentos a sua

morte: “Meu Deus, meu Deus, por que

me abandonastes?” Tudo n’Ele está prestes

a estalar, a desaparecer. O “consummatum

est” se aproxima.

Sofrimento indizível, cuja consideração

deve nos preparar para nos unirmos

a Jesus, pelos rogos de Maria Santíssima,

em nossas dores, em nossas perplexidades

e aflições de espírito, nas horas em

que parecemos sucumbir ao peso da angústia

e pensamos estar, nós também,

abandonados pela Providência.

Comentários de Dr. Plinio sobre o milagroso

crucifixo que se encontra no altar-mor

da Igreja de São Francisco de Assis,

em São João del Rey, MG (foto acima).


Sumário

Na capa,

Dona Lucilia aos

91 anos, e Dr. Plinio

no início desta

década

4

EDITORIAL

Eloqüente Prefácio

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

Diretor:

Antonio Augusto Lisbôa Miranda

Jornalista Responsável:

Othon Carlos Werner – DRT/SP 7650

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Marcos Ribeiro Dantas

Edwaldo Marques

Pedro Paulo de Figueiredo

Carlos Alberto S. Corrêa

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Diogo de Brito, 41

02460-110 São Paulo - SP Tel: (011) 6971-1027

Fotolitos: Prepress – Tel: (011) 833-0885

Impressão e acabamento:

Takano Editora Gráfica Ltda.

Av. Dr. Silva Melo, 45

04675-010 São Paulo - SP - Tel: (011) 524-2322

Esta revista não é órgão oficial nem oficioso da

SBDTFP.

5

10

13

18

23

25

GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

Vida de Professor

DENÚNCIA PROFÉTICA

A grande esperança da Igreja

para o século XXI

DR. PLINIO COMENTA...

São José, esposo de Maria

e pai adotivo de Jesus

DONA LUCILIA

Brisas de saudade e benquerença

A EXPANSÃO DA OBRA DE DR. PLINIO

Guatemala, Colômbia,

Portugal, Costa Rica

ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

Nós também

Preços da assinatura anual

MARÇO de 1999

Comum. . . . . . . . . . . . . . . R$ 60,00

Colaborador . . . . . . . . . . . R$ 90,00

Propulsor . . . . . . . . . . . . . R$ 180,00

Grande Propulsor. . . . . . . R$ 300,00

Exemplar avulso. . . . . . . . R$ 6,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

Telefone: (011) 6971-1027

28

33

36

PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Os povos e seus arquétipos

LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

Magnífico crepúsculo da

Idade Média

ÚLTIMA PÁGINA

Maria, o Paraíso do novo Adão

3


Editorial

Eloqüente prefácio

E

m junho de 1994, recebeu o Revmo.

Frei Antonio Royo Marín, O.P. —

um dos maiores teólogos e pregadores

de nosso tempo —, em seu Convento

de Nossa Senhora de Atocha, em Madri, a

última redação de uma obra que estava para

ser lançada. O autor, seu amigo pessoal — o Sr.

João S. Clá Dias —, pedia-lhe examiná-la e

preparar-lhe um prefácio, ao que o célebre sacerdote

dominicano aquiesceu de muito bom

grado. O nome da obra: “Dona Lucilia”.

“Comecei a ler estas páginas ignorando totalmente

o altíssimo valor de seu conteúdo” —

escreveu depois Frei Royo Marín. “O que no

princípio se configurou como simples curiosidade

ante o desconhecido, evoluiu rapidamente

para franca simpatia, a qual foi aumentando

progressivamente até se converter em

verdadeira admiração e assombro. Mais que

os dados biográficos de uma mulher extraordinária,

o que eu ia lendo era a vida de uma

verdadeira santa, em toda a extensão da palavra.”

No seu entusiasmo pela obra, Frei Royo

Marín nunca perde a objetividade, e, tendo

analisado conscienciosamente os 15 capítulos,

faz uma sinopse muito bem-apanhada de cada

um deles. E a completa, dizendo:

“É impossível recolher, nesta brevíssima síntese,

a enorme riqueza documental que o autor

pôde reunir de primeiríssima mão (muitas de

suas páginas contêm relatos vividos pessoalmente

com Dona Lucilia). Trata-se de uma

autêntica e completíssima Vida de Dona Lucilia,

que pode equiparar-se às melhores ‘Vidas

de Santos’ aparecidas até hoje, no mundo inteiro.

Sobretudo tem um valor inapreciável a

correspondência epistolar entre ela e seus filhos,

particularmente com o Dr. Plinio. Em

suas magníficas cartas, Dona Lucilia diz com

freqüência coisas tão sublimes e de uma espiritualidade

tão elevada que o leitor é tomado

por uma emoção parecida à que produz a leitura

do inimitável epistolário de Santa Teresa de

Jesus.”

No presente número de nossa revista, em

meio aos ricos comentários de Dr. Plinio sobre

múltiplos temas — como a Paixão de Nosso

Senhor, o papel dos arquétipos na História

das nações, o futuro da América Latina, ou

reminiscências de sua vida de professor — oferecemos

aos leitores o ensejo de degustar uma

amostra dessas cartas. Elas revelam o grande

“tesouro de prudência e sabedoria cristã” —

outro termo utilizado pelo Frei Royo Marín

— transbordante da alma de Dona Lucilia,

permitindo também entrever a profunda influência

que esta grande dama exerceu sobre

Dr. Plinio e, por reflexo, sobre a obra que ele

fundou.

DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625

e de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras

ou na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista.Em nossa intenção, os títulos elogiosos não

têm outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, no

início do século. Poucos anos após ter atravessado

suas arcadas como advogado, Dr. Plinio ali retornaria

para encetar sua carreira de mestre universitário

Vida de

Professor

D

esde seu tempo de estudante na Faculdade de Direito, Dr. Plinio pressentia sua vocação

para lecionar, pois tinha gosto em dar explicações, expor idéias, fazer entender. De fato,

a carreira do magistério acabou se tornando uma das facetas mais conhecidas de sua vida.

Quando, numa reunião em 1989, jovens discípulos seus se mostraram ávidos de algumas

recordações a tal respeito, Dr. Plinio começou por dizer que, apenas se formara advogado, desejoso

de obter mais recursos financeiros para reforçar seu orçamento, resolveu realizar sua primeira

experiência no estabelecimento onde estudara, o Colégio São Luís.

P

rocurei o reitor do colégio,

Padre Dante, e lhe

disse sem rodeios:

— Padre Dante, preciso ajuntar

um certo pecúlio e, para isso, queria

ser professor. O senhor não me conseguiria

uma vaga?

— Olhe — respondeu ele —,

de momento me seria necessário

verificar o quadro do corpo docente.

Com efeito, não poderia ele demitir

um professor cujo salário era

certamente indispensável para a sua

sobrevivência e a dos seus, dizendolhe:

“Ponha-se fora daqui, pois desejo

colocar outro em seu lugar”.

Então ficou acertado que ele tomaria

certas providências, a fim de me

abrir um espaço sem prejudicar ninguém.

E me assegurou:

5


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

— O senhor volte dentro de uma

semana, que nós o contrataremos.

Primeiros passos no

magistério

O Pe. Dante manteve a promessa

e, na data aprazada, telefonou-me

dizendo ter obtido uma vaga, e me

perguntou se eu ainda queria ser

professor. Diante de minha enfática

confirmação, ele me propôs lecionar

um tema que aceitei de muito

bom grado.

Durante uma semana exerci minha

nova profissão, e tudo me pareceu

correr bastante bem. Entretanto,

logo depois adoeci seriamente,

acometido de uma terrível gripe, a

ancestral e a maior de todas as que

tive em minha vida. Como é de supor,

essa grave enfermidade impôs

meu afastamento das salas de aula.

Quando me restabeleci, estava

em curso a Revolução de 1932, que

redundou na convocação de uma

Assembléia Nacional Constituinte.

Almejando importantes conquistas

para a Igreja no texto da nova Carta,

tornei-me secretário da Liga

Eleitoral Católica (LEC), pela qual

fui eleito deputado.

Naturalmente, faltar-me-ia tempo

para continuar com minha carreira

de professor. Além disso, estava

resolvido a lecionar em universidades

e não em colégios, por uma

ponderável razão. Sempre desejei

ensinar História, por me parecer a

mais bela das matérias para a cultura

geral do homem. Porém, uma

História bem focalizada, ao invés da

que às vezes se costuma ensinar — e

de algum modo é preciso fazê-lo

nos cursos secundários —, isto é,

um enfadonho estudo de datas e

cronologias que os alunos devem

decorar. E eu não me considerava

apto para tratar da História dessa

maneira, ao passo que para comentá-la,

analisá-la, tomar seu significado,

sentia-me mais ou menos habilitado.

Faculdade Sedes Sapientiae

E

sse acalentado desejo de Dr. Plinio se tornaria realidade

quando terminava sua legislatura. Aprovada

pela Assembléia Constituinte a organização

de universidades particulares no Brasil, foi ele convidado

a ocupar cátedras nas recém-fundadas faculdades “Sedes

Sapientiae”, da Congregação das Cônegas de Santo

Agostinho, e “São Bento”, dos beneditinos. Obteve ainda a

cátedra de História da Civilização no Colégio Universitário,

anexo à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Assim recordava ele essa etapa de sua vida, na qual conciliava

o magistério, a advocacia e as atividades de líder católico:

6


A

diei a posse da minha

cátedra na Faculdade

São Bento. Ainda assim,

trabalhando ao mesmo tempo

na Faculdade de Direito e na Sedes

Sapientiae — quatro dias por semana

naquela, e três nesta — assumi

um considerável número de aulas,

que exigiam cuidadosa preparação,

pois muitas vezes versavam sobre

temas para mim desconhecidos. Motivo

pelo qual comprei, por indicação

do Pe. Leonel Franca (um astro

da intelectualidade católica de

então), a mais recente e famosa História

Universal, em diversos volumes,

de João Baptista Weiss, um

austríaco também de boa orientação

católica.

Minha rotina diária era organizada

da seguinte maneira: pela manhã,

após voltar da Comunhão, preparava

as aulas. Almoçava e saía

para as faculdades, deslocando-me

em geral de bonde, uma vez que

nunca quis dirigir um automóvel e

os táxis eram raros. Com isto se escoavam

as tardes quase inteiras. No

período vespertino que me restava,

eu trabalhava no meu escritório de

advocacia. E à noite, depois do jantar,

dedicava-me ao apostolado no

Movimento Católico. Meu tempo

era, assim, todo tomado.

As aulas na Faculdade

Sedes Sapientiae

A Sedes Sapientiae era uma faculdade

para moças, que não causavam

problemas em questões de disciplina,

mas solicitavam do professor

um particular empenho didático. E,

para isto, era necessário que as aulas

tivessem substância e a matéria

fosse exposta num tom de discurso.

Eu procurava atender a essas necessidades,

cuidando de seguir um conselho

de meu pai: ter clareza!

Ainda me lembro quando, certa

feita, recebeu ele no escritório de

casa um conhecido seu, com quem

tratou de negócios. Esse amigo, homem

muito verboso, de belas e rutilantes

palavras, entretanto não era

claro ao se expressar. Eu, então menino,

achava-me ali ouvindo a conversa

dos dois. Após a saída do visitante,

meu pai exclamou com ar

aborrecido:

— Como fala este homem!

E, voltando-se para mim, disse:

— Vou lhe dar um conselho.

Quando você for advogado, cuide

de ser claro. Quem é claro tem metade

da causa ganha. Exponha com

clareza, para o juiz entender bem o

que você quer. Em tudo o que você

disser ou escrever, prefira ser claro

a ter palavras bonitas. O ideal é unir

a beleza à limpidez de pensamento.

Mas pode ser que você não seja

capaz disso. Então, pelo menos seja

claro. Fazer como este homem

que você acabou de ouvir aqui, não

adianta de nada!

Precioso conselho, que me foi de

inestimável auxílio quando se abriram

para mim as vias do ensino e da

oratória. Semelhante ajuda encontrei

nas aulas de um dos meus professores

de Direito, que possuía extraordinária

clareza. Resolvi prestar

atenção no modo como as idéias se

formavam na mente dele e como ele

lhes conferia tanta nitidez. À força

de observar, acabei compreendendo

Pátio

interno da

Faculdade

Sedes

Sapientiae

e procurei, eu mesmo, ser claro em

tudo quanto dizia.

Entendi, também, ser necessário

evitar palavras fofas e vagas, empregando

aquelas que exprimam exatamente

o meu pensamento. Para isso,

dispor de um amplo vocabulário

de termos precisos, e usá-lo à vontade.

Depois, muito método no raciocínio,

condição essencial para se ter

clareza.

Raciocínios metódicos com palavras

claras, utilizando um vocabulário

exato: assim deve proceder o professor.

Conduta na qual tratei de me

adestrar tanto quanto possível. Adicionando,

nas aulas da Sedes Sapientiae,

um pouco de literatura, para

que as alunas pudessem saborear

pormenores da História mais significativos.

Aliás, como anteriormente

frisei, as aulas para elas decorriam

sem nenhuma dificuldade, e assim o

foi durante todo o período em que

lecionei naquele estabelecimento.

Os alunos da

Faculdade de Direito

O mesmo não posso afirmar das

aulas para os estudantes da Faculdade

de Direito... Em geral, estes eram

apenas cinco anos mais jovens do

que eu. Não chegáramos a ser cole-

7


GESTA MARIAL DE UM VARÃO CATÓLICO

gas, mas a Faculdade ainda estava

quente da minha presença. Esses fatores

podiam facilmente despertar

naqueles rapazes a idéia de serem

indisciplinados comigo.

O primeiro problema era imporme

ao respeito de todos. Segundo,

fazer com que prestassem atenção

na aula e gostassem dela. Terceiro,

tornar-lhes manifesto a que ponto

eu era católico, de um lado. De outro,

incutir-lhes a certeza de que eu,

como ex-aluno da Faculdade, estava

Dr. Plinio em traje de professor catedrático

ciente da existência de uma forte,

radical e declarada corrente anticatólica

ali dentro, da qual muitos deles

faziam parte. Corrente esta contra

a qual eu mesmo lutara, peito a

peito.

Não podendo fazer o papel do

mocinho que se aventurou a ensinar

e não logrou obter o respeito de

seus alunos, estabeleci meu plano

de ação: seria um professor-torpedo,

impondo-me ao acatamento deles

e tratando da questão católica

de modo rombudo. Essa era a única

forma segura de agir, para que

os indisciplinados curvassem a cabeça.

Professor-torpedo

Naquele tempo, as cátedras da Faculdade

de Direito se erguiam sobre

um elevado estrado, ao qual se tinha

acesso por uma escada lateral.

Em cima havia um banco — aliás,

muito incômodo — dentro de um

cercado de madeira. Para entrar,

uma pequena porta. No minúsculo

recinto, uma tábua inclinada para se

colocar livros e apontamentos.

Cada classe dispunha de um bedel,

teoricamente encarregado de

manter a disciplina. Os alunos, porém,

não davam a menor importância

a esses funcionários que, no decorrer

das aulas, prestavam pequenos

serviços aos professores, como

pegar giz, trazer um livro, ou um

copo de água, etc.

Pondo em prática o plano que

traçara, no meu primeiro dia de

aula subi na cátedra sem olhar para

os alunos. Sentei-me com segurança.

Eles, como tinham entrado havia

pouco na sala, estavam entregues à

sua costumeira baderna. Eu permanecia

quieto, com uma fisionomia

de pouca amizade. Não demorou

muito, e notaram que algo diferente

vinha entrando em cena...

Então, eu disse:

— O primeiro ponto de meu programa

é tal; passarei a discorrer sobre

esse assunto. — E dei início à

exposição.

Passada a primeira surpresa, noto

cochichos percorrerem a sala. Bati

com força a mão na mesa, dizendo

firme:

— Silêncio!

Outros cochichos e outras vigorosas

intervenções, até que eles ficaram

quietos e silenciosos. Prossegui

a la torpedo, dando minha

aula sem nenhuma outra consideração.

8


Quando soou o toque de fim da

aula, eu interrompi e avisei:

— Amanhã vou continuar a matéria.

— E saí com passo decidido.

As aulas eram claras, e a maioria

dos alunos adquiriu atração por elas,

prezava-as e prestava muita atenção.

A minoria agitada percebeu que

sua vida não seria fácil. Preparou algumas

desordens, mas disciplinei-a

com energia.

No desenvolvimento do curso da

História, ensinei tudo quanto havia

de mais católico, acrescentando, de

vez em quando, num tom resoluto:

— Se os senhores quiserem me

perguntar alguma coisa, ou mesmo

fazer uma objeção, estejam à vontade.

E eles, quietos...

Certo dia, ao entrar na sala, percebi

que haviam traçado no quadro

negro uma caricatura minha (por

sinal, muito bem feita). E eles à espera

da minha reação. Passei devagar

diante da lousa, com ar distraído,

indolente, sem lhe deitar os

olhos. E ninguém teve a coragem de

me dizer: “Olhe ali, professor!”

Furando uma greve

de estudantes

Noutra ocasião houve greve em

toda a Faculdade. Quando cheguei,

um piquete de grevistas estava percorrendo

as classes, a fim de obrigar

os alunos a aderirem à manifestação

e impedir os professores de lecionarem.

Nesse dia eu estava dando aulas

na “Sala João Mendes”, um recinto

especial, mais utilizado como salão

de conferências, muito solene, com

uma cátedra bem alta e uma imensa

porta de entrada. Em determinado

momento, o bedel veio me dizer,

aflito:

— Professor, queria avisar ao senhor

que está havendo essa greve...

Seria mais prudente o senhor desistir

de dar a aula hoje.

Minha resposta:

— Desistir de dar aula por causa

de greve, não desisto.

— Mas, professor, não sei... Se os

alunos baterem aí na porta...

— Arranje-se, porque eu dou conta

do caso.

Ele se afastou, eu continuei a exposição.

E ouvia os grevistas que

corriam pelo prédio da Faculdade,

gritando: “Greve! Greve!” Percebi

que haveria de chegar o momento

de passarem por mim, pois

não iriam bloquear toda a Faculdade

e poupar a sala onde eu me

encontrava. De fato, dali a pouco se

aproximaram da minha porta, repetindo

seu brado de protesto: “Greve!

Greve!”

Os alunos, sobretudo aqueles revoltados,

começaram a cochichar.

Eu continuei como se nada estivesse

acontecendo. Ocorreu então o inevitável.

Um dos grevistas desferiu

um pontapé na porta, e o bedel me

perguntou:

— O que faço, professor? Agora

estão eles aqui.

Disse-lhe:

— Vá lá e abra a porta. E abra de

par em par... Depressa!

Ele foi e fez o que eu lhe dissera.

Na sala toda, expectativa: o que irá

acontecer? Assim que o bedel abriu

a porta, dei de frente com os grevistas.

Olhando-os fixamente, perguntei-lhes

num vigoroso timbre de voz:

— Que é?!!

— Professor... nós... estamos fazendo

greve...

— Greve?! Fora!!!

Minha recusa era declarada com

tal força e decisão que eles compreenderam

não haver remédio. Dissolveram-se.

Eu disse ao bedel:

— Feche a porta.

Ele a fechou, e eu prossegui a

aula.

Não é difícil imaginar como essa

atitude causou profunda decepção

no clã de alunos que me eram desafetos.

Terminei a aula tranqüilamente,

e saí pelos corredores, nos

quais alguns manifestantes ainda

transitavam de um lado para outro,

insistindo no seu grito de “greve!

greve!” Pensei: “Eles agora vão se

vingar de mim. Devem estar furiosos

e tentarão me vaiar. Posso sair

por uma porta do fundo, mas, se

perceberem, hão de achar que estou

com medo. Isso será pior. Devo enfrentá-los

e me distanciar com serenidade.”

E foi o que fiz. Com toda a calma

atravessei pelo meio deles, e nada

disseram. Voltei para casa. Tinha

chegado ao fim mais um dia de aula

na Faculdade de Direito...

Faculdade de Filosofia São Bento

9


DENÚNCIA PROFÉTICA

S

acudida por tempestades colossais

neste ocaso do segundo milênio,

a humanidade vê, de dentro da

borrasca, saltarem incógnitas que podem

trazer consigo a indicação de um rumo

salvador ou da completa perdição. Como

interpretá-las? Onde encontrar nelas

esperançosos sinais quanto ao futuro?

A solução estará nalgum povo cuja

regeneração poderá revigorar todo

o mundo?

Em nossos dias de incerteza, as

palavras de Dr. Plinio aparecem como

extraordinário facho de luz a refulgir no

horizonte. Segundo elas, as reservas

humanas que servirão de base ao século

XXI se encontram no continente nascido

da colonização luso-espanhola.

Consideremos, a seguir, uma síntese

desse pensamento de Dr. Plinio, por ele

expresso em diversas ocasiões ao longo de

quase sete décadas de militância católica.

E

m cada época da História, Deus

suscita um povo para realizar seus

maravilhosos e sábios desígnios.

Assim, enquanto algumas civilizações conhecem

seu ocaso, outras vão sendo erguidas pelas

mãos da Providência. Tal se verificou, por

exemplo, com os povos judeu, egípcio, assírio,

caldeu, persa e europeu.

A grande esperança

da Igreja para o século XXI

10


Entardecer da

civilização ocidental

Ora, estamos novamente na tarde

de uma civilização.

O homem ocidental já não encontra

encantos na liberdade de que

abusou, na igualdade com que sonhou

e na fraternidade que não realizou.

Sua economia pujante, orgulho

de seus velhos dias, foi devorada

pela superprodução. A filosofia, a

quem erguera um altar na sua admiração,

foi abeberar-se nas correntes

envenenadas a que não resistem povos

nem civilizações. Servem-lhe de

leito funerário os escombros de suas

glórias passadas.

Nesta tarde de civilização, que

ameaça ser a tarde da própria humanidade,

só dois fatores nós vemos,

realmente capazes de abrir

para o homem uma janela salvadora

sobre o futuro: no plano espiritual,

a Igreja Católica, e no plano terreno,

a América Latina.

Uma lenda antiga nos conta que

à beira de certo lago havia um rochedo

que crescia à medida que as

ondas o acometiam, de sorte a nunca

ser submergido, ainda nas maiores

tempestades. Hoje em dia, este

rochedo é a Pedra, é a Cátedra de

Pedro, que tem avultado com as revoluções,

zombando das heresias,

crescendo em vigor à medida que

seus adversários crescem em rancor.

Há já vinte séculos que ela vem espargindo

água benta sobre os adversários

que tombam no caminho.

Assistiu ao nascer de todos os

países do Ocidente. Vê-los-ia morrer

sem receios por seus próprios

dias, que não se contam com a brevidade

dos dias de uma nação.

Em sua doutrina divina, tem todos

os tesouros espirituais e morais

necessários para solucionar todas as

crises. Neste mar revolto do século

XX, em que naufragam homens,

idéias e fortunas, só Ela continua e

será via, veritas et vita, que a humanidade

há de aceitar, para levantar

um vôo salvador sobre o próprio

abismo que ameaça tragá-la.

Para atuar, porém, ela também

se serve de fatores humanos. E, destes,

o mais promissor é a América

Latina.

Continente reservado

para o dia de amanhã

A afirmação pode parecer ousada.

Pois, em geral, tem-se a idéia —

mais consciente ou menos — de que

os povos latino-americanos ocupam

posição secundária no mundo hodierno.

De fato, no concerto dos

países desenvolvidos, estimulados

pelo mecanicismo, pelo capitalismo

e, não raras vezes, pelo materialismo,

sempre estiveram à margem,

como uma zona de sombras, as nações

oriundas de Portugal e Espanha.

Objetos dessa espécie de preconceito

internacional, fica-nos a

impressão de que os acontecimentos

e realizações ocorridos em nossos

países não têm senão uma importância

secundária, como corolário

normal daquilo que se encontra

em segundo plano. Nessa situação,

quase inevitável é concebermos que

o destino da gigantesca crise contemporânea

— e, portanto, o próprio

futuro da humanidade — será

decidido entre os povos de primeira

linha, cabendo a nós tão-só aceitar a

resolução dos grandes.

Essa concepção, porém, é precisamente

falsa.

Tenho a convicção de que, para o

dia de amanhã, a grande reserva é a

América Latina. Antes de tudo, porque

somos o maior bloco de população

católica na face da Terra. Não

há, entre nossos países, nenhum cuja

esmagadora maioria dos indivíduos

não siga a única e verdadeira

Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Somos, ademais, um conjunto católico

particularmente unido, pois

como que da mesma raça. Apesar

das mais diversas e numerosas imigrações,

a tônica é latina, enriquecida

pelo fato de que castelhanos e

portugueses são povos muito fraternos

e afins. Daí a homogeneidade

cultural e religiosa, ocupando uma

vastíssima continuidade territorial.

Acrescente-se a essa identidade

de raça e religião a inestimável vantagem

de, graças à benevolência divina,

possuirmos imensos recursos

naturais que não foram consumidos

de maneira errônea por uma civilização

excessivamente técnica, como

é a dos países anglo-saxões.

Estes se desenvolveram com maior

rapidez, porém a industrialização

exauriu seus excelentes meios naturais,

que agora se encontram à míngua.

A América Latina, pelo contrário,

poderá amanhã cultivar suas

magníficas riquezas materiais sem

os erros cometidos por aqueles povos.

Entraremos para o século XXI

com muitas extensões de nosso território

como folhas de pergaminho

ainda em branco, nas mãos da Providência.

E mesmo que nosso progresso

seja mais lento e menos técnico,

há de ser, entretanto, sobremodo

orgânico, uma vez que podemos

explorar nossos recursos com

espírito católico e latino. Eis um

precioso dom que nos obteve Maria

Santíssima: ter a sutileza, a plasticidade,

a flexibilidade e o gênio latinos,

bem como a latina clareza de

olhar e de entendimento. Essa é

uma imensa vantagem, se nossos

povos forem seriamente católicos.

11


DENÚNCIA PROFÉTICA

Com todos esses predicados espirituais

e materiais, estamos aptos

a, por meio de uma profunda correspondência

à graça divina, nos

tornarmos um todo de grandes nações

católicas, cujos brilhos reluzirão

lado a lado, sem ofuscações

nem rivalidades. E se tivermos fé e

virtude, nenhuma glória nos será

negada.

Então, para o dia de amanhã, a

magna possibilidade vem dos povos

latino-americanos, essa grande reserva

que a Providência separou para

as suas horas de esplendor. Reserva

que carrega, até certo ponto,

o ônus das suas próprias infidelidades

e merecidas punições. Estas,

porém, são castigos regeneradores,

pois Deus pune sobretudo nesta

Terra as incorrespondências daqueles

a quem Ele mais ama e deseja,

pelo corretivo, converter e salvar.

Assim também, as nações que foram

punidas têm possibilidades de

se reabilitar, de perseverar no bem

e ser conduzidas pelo Divino Espírito

Santo, a rogos de Maria, ao ponto

central da História.

O século XXI será nosso

Quando, portanto, da imensa caldeira

em que fervem os restos de

nossa civilização emergirem os primeiros

princípios de uma nova ordem

de coisas, tendo por base o respeito

à Igreja, à propriedade e à família,

só a América Latina oferecerá

ao mundo um caminho a ser edificado,

com suas regiões imensas,

que as crises econômicas não esgotaram,

e seus povos de reservas morais

sólidas, que até lá terão passado

pelo cadinho do sofrimento, e nele

terão formado sua têmpera de povos

fortes.

A América Latina é, então, o

grande laboratório onde a nova civilização

católica se vai erguer. O

mesmo fator sobrenatural que, no

século V, propiciou a conversão da

Europa e a fez frutificar na Idade

Média, fará com que brote daqui,

não a cristandade medieval, mas a

plenitude que esta deveria ter alcançado,

se não houvesse decaído.

Sim, a grande esperança da Igreja

para o século XXI é a América

Latina, essas imensidades de gentes,

de terras e de riquezas que se

estendem do norte do México até os

extremos glaciais da Patagônia.

O século XXI será nosso, como

o século XX é dos Estados Unidos,

e o século XIX foi da Europa colonialista.

(Excertos, com adaptações, de matérias

do “Legionário”, nº 130, 15/10/1933;

da “Folha de S. Paulo”, 29/12/1979;

e de conferências)

Passados os dias de glória

da Europa e dos Estados

Unidos, a América Latina

surge como a grande

reserva da Providência

para o século XXI

Na foto ao lado,

Santuário

do Bom Jesus

de Matosinhos,

Congonhas do

Campo

Na página anterior,

filhos espirituais de

Dr. Plinio sobre as

muralhas do Forte

de Cartagena,

Colômbia

12


DR. PLINIO COMENTA...

Retábulo

da Igreja da

Santa Cruz,

em Sevilha.

Desponsórios

de Nossa Senhora

com São José

E

leita pela Santíssima Trindade para ser a

Mãe Admirável do Verbo Encarnado, Nossa

Senhora é a mais perfeita de todas as

meras criaturas. Mesmo se considerássemos, num só

conjunto, as excelências dos Anjos, dos Santos e dos homens

que existiram, existem e existirão até o fim do

mundo, não teríamos sequer uma pálida idéia das celestes

perfeições de Maria, que reluziram aos olhos de

Deus desde o primeiro instante de sua Imaculada Conceição.

Para cumprir os eternos desígnios da Divina Providência

no tocante à Redenção da humanidade, foi pre-

13


DR. PLINIO COMENTA...

ciso que, em determinado momento, essa criatura excelsa

contraísse legítimo matrimônio. Assim poderia

Ela, sem detrimento de sua reputação, conceber miraculosamente

e dar à luz o Filho do Altíssimo.

O único homem

à altura de Jesus e Maria

Ora, entre esposo e esposa deve haver certa proporcionalidade:

não pode um ser por demais superior ao

outro. Era necessário, portanto, surgir um homem que,

por seu amor a Deus, por sua justiça, pureza, sabedoria,

enfim, por todas as suas qualidades, estivesse à altura

daquela augusta Esposa.

Mais ainda. É também conveniente que o pai seja

proporcionado ao filho. Por isso, era preciso que esse

mesmo varão, com toda a dignidade, arcasse com a honra

de ser o pai adotivo do Verbo feito carne.

E houve um único homem criado para essa sublime

missão, um homem cuja alma recebeu do Pai Eterno todos

os adornos e predicados que o colocassem inteiramente

à altura de seu chamado. Esse homem, entre todos

escolhido por estar na proporção de Nossa Senhora

e de Nosso Senhor Jesus Cristo, foi São José.

A ele coube essa glória, esse píncaro inimaginável de

ser esposo da Virgem-Mãe e pai legal do Menino Jesus.

Como legítimo consorte de Nossa Senhora, possuía São

José plenos direitos sobre o Fruto das imaculadas entranhas

d’Ela, embora este Fruto houvesse sido engendrado

pelo Espírito Santo. Quer dizer, sem contar a própria

maternidade divina, não se pode conceber vocação

mais extraordinária! É uma grandeza inconcebível.

Pensemos, por exemplo, nos momentos em que São

José trouxe em seus braços o Menino Jesus, ou naqueles

em que ele O viu praticar os atos da vida comum na

santa casa de Nazaré, ou ainda nas horas em que O contemplou

imerso nos colóquios com o Padre Eterno...

Consideremos quão puros deviam ser seus lábios, e

quão insondável a sua humildade para conversar com o

Divino Infante, responder às perguntas d’Ele ou Lhe

dar um conselho, quando solicitado. Um simples ser humano,

formado e plasmado pelas mãos do Criador, ensinando

a Deus!

Pensemos, ainda, no trato repassado de elevação e

respeito entre São José e Nossa Senhora, quando Ela se

ajoelhava diante dele para o servir. Ele vê aquela Criatura,

que é o Céu dos Céus, inclinada à sua frente, e

aceita seus préstimos. Como se tal não bastasse, a Esposa

também se aconselha com ele, troca opiniões e

acata suas ordens.

Numa palavra, ele era o homem que tinha bastante

sabedoria e pureza para governar a Deus e a Virgem

Maria. Então se compreende quão inimaginável é a

grandeza de São José!

Excelências de príncipe e operário

Para se traçar o verdadeiro perfil moral do chefe da

Sagrada Família, seria preciso saber interpretar a Divina

Face do Santo Sudário de Turim e, à maneira de suposição,

deduzir algo da personalidade de quem foi o

educador daquele semblante que ali está, e o esposo da

Mãe d’Ele.

Casado com Aquela que é chamada de o “Espelho

da Justiça”, pai adotivo do “Leão de Judá”, São José

devia ser um modelo de fisionomia sapiencial, de castidade

e de força. Um homem firme, cheio de inteligência

e critério, capaz de tomar conta do Segredo de

Deus. Uma alma de fogo, ardente, contemplativa, mas

também impregnada de carinho.

Descendia da mais augusta dinastia que já houve no

mundo, isto é, a de David. Segundo São Pedro Julião

Eymard, Fundador da Congregação dos Padres Sacramentinos,

os judeus reconheciam em São José o homem

com direito ao trono real, caso a monarquia legítima

fosse restaurada na Terra Santa. Direito este que Nosso

Senhor Jesus Cristo herdou de seu pai legal, e por isso

foi aclamado como “o filho de David”, quando entrou

em Jerusalém. Ou seja, não era um descendente qualquer

do Rei Profeta, mas o primogênito pretendente ao

trono. E São José era o varão por meio de quem esta

dignidade se transferiu para o próprio Filho de Deus.

Quis a Providência nobilitar a classe operária, fazendo

com que o pai adotivo de Jesus fosse também trabalhador

manual, exercendo o ofício de carpinteiro. Desse

modo, São José reunia em si os dois extremos da escala

social na harmonia interior da santidade e da pessoa

dele. Estava no ápice como príncipe da Casa de David,

mas era um príncipe empobrecido, que tirava do seu labor

artesanal o sustento da Sagrada Família.

Como operário, soube ser humilde e tributar o devido

respeito aos que lhe eram superiores. Como príncipe,

conhecia também a missão de que estava imbuído, e

a cumpriu de forma magnífica, contribuindo para a

preservação, defesa e glorificação terrena de Nosso Senhor

Jesus Cristo. Em suas mãos confiara o Padre Eterno

esse Tesouro, o maior que jamais houve e haverá na

História do universo! E tais mãos só podiam ser as de

um autêntico chefe e dirigente, um homem de grande

prudência e de profundo discernimento, bem como de

elevado afeto, para cercar da meiguice adorativa e veneradora

necessária o Filho de Deus humanado.

Ao mesmo tempo, um homem pronto para enfrentar,

com perspicácia e firmeza, qualquer dificuldade

que se lhe apresentasse: fossem as de índole espiritual e

14


interior, fossem as originadas pelas

perseguições dos adversários de

Nosso Senhor.

O herói da confiança

São José, príncipe e carpinteiro,

herói da confiança

Consideremos, por exemplo, a

tremenda provação que sobre ele se

abateu, logo no início de seu matrimônio

com Maria Santíssima.

No Antigo Testamento, a maior

ventura que podia almejar um judeu

era a de ser contado entre os ancestrais

do Messias. Em vista disso, a

imensa maioria do povo eleito procurava

contrair matrimônio e ter filhos,

não sendo raro considerar-se a

esterilidade como um sinal de desprezo

e opróbrio.

Mas, São José, movido pela graça,

não quisera se casar, a fim de

conservar a virgindade. Levava ele

sua tranqüila vida de homem casto e

puro, quando, inesperadamente, recebe

uma convocação: todos os descendentes

diretos de David deviam

comparecer diante de uma Virgem

chamada Maria, a fim de se poder

escolher um marido para Ela.

Obediente, São José se apresenta

ao lado de seus parentes, confiando

na voz da graça que o fizera abraçar

a virgindade. No seu íntimo, alimentava

a certeza de que o escolhido

seria outro.

Como naquele tempo se viajava

com o apoio de um bordão, todos se

apresentaram com o seu. O sacerdote

encarregado da cerimônia determinou:

aquele em cujo bastão

desabrochar uma flor, este será o

eleito para se unir a Maria.

São José olha para seu cajado... e

nele vê aparecer uma flor! Evanesceram

de súbito todos os seus anseios

de virgindade. Como será agora?

Ele confia. É um milagre que o

obriga a se casar com Maria. Entretanto,

no fundo de sua alma, quer

continuar virgem!

Sereno e corajoso, aceita a disposição

divina.

15


DR. PLINIO COMENTA...

Entra em confabulação com a jovem e descobre que

Ela também fizera voto de virgindade. A dificuldade

parecia estar resolvida: ambos se manteriam intactos.

Que felicidade! Seus anelos permaneciam vivos. Com o

passar dos dias, ele percebe a incomparável riqueza de

alma dessa Virgem que foi posta no seu lar. Pensa:

“Protegê-La-ei magnificamente. Aqui estou para defendê-La

no esplendor de sua personalidade contra toda

espécie de ataques.”

Em determinado momento, porém, o impensável

acontece: ele nota que a Virgem está à espera de um

Filho. No espírito de São José se estabelece a perplexidade.

Ele não podia entender o que se passava, depois de

tantos milagres... O florescimento do bordão, o encanto

com que os dois se comunicaram o recíproco desejo da

perpétua virgindade, a alegria de alma que então sentiram:

“É claro! Deus nos colocou no mesmo caminho.

Ele prometeu e está cumprindo a promessa!”

Mas, agora, o incompreensível...

São José passa por uma inenarrável provação, e

Nossa Senhora também, uma vez que Ela percebia em

toda a medida o sofrimento de seu esposo. Angústia

tanto mais intensa quanto ele sabia ser impossível uma

traição da parte d’Aquela Virgem incomparável. Ora,

pela lei judaica, se uma esposa prevaricasse, o marido

tinha a obrigação de expulsá-la do seu lar.

Mas São José tinha a certeza de que Maria não havia

cometido nenhum pecado.

Não querendo tomar uma atitude injusta em relação

a essa Virgem tão santa, e não sendo capaz de encobrir

aquela situação irremediável, São José resolve deixar

despercebido a casa de Nazaré. Antes da longa jornada

que o esperava, resolveu descansar para reparar suas

forças. Na madrugada seguinte ele partiria, levando

simplesmente seu bordão, um pouco de comida e o fardo

de uma grande incógnita, mais pesada que o Monte

Evereste: Como se passou isto? Meu Deus, meu Deus...

eu confio na vossa promessa!

Apesar da aflição, tinha a alma tão confiante e tão

serena que adormeceu. E, ao dormir, sonhou. No sonho

teve esta recompensa: Deus lhe comunicou que aquela

Criança formada no claustro virginal de Maria era o

Verbo Encarnado, Filho do Divino Espírito Santo.

Quando São José despertou, a paz reinava na sua alma.

E Nossa Senhora, ao ver o semblante luminoso de

seu esposo, soube que a provação dele havia cessado.

Porque foi um herói da confiança, São José recebeu

a maior e mais extraordinária missão que um homem

teve na Terra. Ele era o consorte da Virgem Mãe,

d’Aquela que daria à luz o Homem-Deus e Redentor do

mundo. Nisto florescia a promessa de virgindade que

lhe fora feita. Tudo se cumprira além do inimaginável.

Cavaleiro-modelo

na proteção do Rei dos Reis

Entretanto, as dificuldades não haviam abandonado

as sendas pelas quais caminharia São José. Basta recordar,

por exemplo, as recusas de que foi objeto nas estalagens

de Belém, quando procurava abrigo para Nossa

Senhora, na iminência do nascimento do Menino-Deus.

Ou então a fuga para o Egito.

“Fuga para o Egito”... Quatro palavras que a nós,

homens do século XX, parecem banais: toma-se um

avião e em pouco tempo se vai de Jerusalém ao Egito.

Não era assim no tempo em que São José, recebendo o

aviso de que o cruel Herodes procurava matar o recém-

16


conquista de Jerusalém. É uma linda proeza! Ele é o

cruzado por excelência.

Porém, muito mais do que retomar o Santo Sepulcro

é defender o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo! E disso

São José foi gloriosamente encarregado, tornando-se

o cavaleiro-modelo na proteção do Rei dos Reis e Senhor

dos Senhores.

Na coorte dos Santos,

o primeiro abaixo de Nossa Senhora

Avisado em sonho das intenções homicidas de

Herodes, São José levou o Menino Jesus e Nossa

Senhora para o Egito, tornando-se assim o

cavaleiro-modelo na proteção do Rei dos Reis.

(Fuga para o Egito, pintura de Fra Angélico)

nascido Rei dos judeus, foi obrigado a tomar a Mãe e o

Menino e com eles partir para a terra dos faraós.

Uma viagem incerta, longa, através de desertos onde

se ocultavam toda sorte de perigos: das feras famintas

aos ladrões e salteadores, capazes de não só roubar e

matar, como também de levar os viajantes em cativeiro,

a fim de comercializá-los nos mercados de escravos. E

São José, com seu coração de fogo, sua previdência e

força varonil, enfrentou todos esses obstáculos, levando

Nossa Senhora sobre um burriquinho e, ao colo d’Ela, o

Menino Jesus, o Deus que quis ser fraco nos braços e

nas mãos do glorioso Patriarca.

Costuma-se apreciar e louvar, com justiça, a vocação

de Godofredo de Bouillon, o vitorioso guerreiro que, na

Primeira Cruzada, comandou as tropas católicas na

Ao lado de todas as glórias que se acumularam sobre

ele, São José recebeu, já nesta Terra, um prêmio inestimável:

é o patrono da boa morte.

Com efeito, dir-se-ia que ele teve um passamento de

causar inveja, pois faleceu entre os braços de Nossa Senhora

e os de Nosso Senhor, que o cercaram de todo o

carinho e consolação na sua última hora. Não se pode

imaginar morte mais perfeita, com Eles ali, fisicamente

presentes. De um lado, Nosso Senhor cumulava seu pai

adotivo de graças cada vez maiores, à medida que a alma

de São José continuava a se santificar nos derradeiros

transes da agonia. De outro, Nossa Senhora

lhe sorria com respeito, e procurava aumentar-lhe a

confiança:

— Meu esposo! Lembre-se de que tudo se cumprirá.

Coragem! vamos para a frente!

Em determinado momento, São José exala o último

suspiro, e o Limbo se abre para a alma dele. Ali ficaria

ele até o instante, entre todos bendito, em que a alma

santíssima de Jesus, que morrera crucificado, desceu ao

encontro daqueles eleitos, a fim de colocar um jubiloso

termo na sua grande espera. Alguns — Adão e Eva, por

exemplo — lá se achavam desde os primórdios da humanidade,

aguardando durante milênios o Redentor

que os levaria para a eterna bem-aventurança.

E o Messias veio. Podemos bem imaginar que toda a

coorte do Limbo se reuniu em torno de São José para

receber o Salvador. E que Este, tão logo ali se mostrou,

resplandecente de glória, tendo perdoado e redimido o

gênero humano, manifestou-se de modo especial a São

José, como que exclamando: “Oh! meu pai!”

Era o ápice do cumprimento de todas as promessas,

a perfeita realização de um chamado que passou por indizíveis

perplexidades e incomparáveis glórias. E São

José, esposo de Maria Virgem, pai adotivo de Jesus, declarado

Patrono da Igreja, ocupa no Céu um lugar tão

eminente que recebe o culto de protodulia. Ou seja,

abaixo de Nossa Senhora — a qual merece a devoção de

hiperdulia — é ele o primeiro a ser venerado na extensa

hierarquia dos Santos.

Grandiosa recompensa à qual fez jus esse varão que

praticou em grau elevadíssimo a virtude da confiança.

17


DONA LUCILIA

E

vocativas de momentos inesquecíveis são as cartas trocadas entre Dª Lucilia e

seu “filhão querido” — como ela costumava tratar Dr. Plinio. Isto vale não só

para os que puderam conhecer a ambos, como para aqueles que não tiveram

esta felicidade, mas se sentem, pela simples leitura de sua correspondência, inseridos na

atmosfera de benquerença e virtude reinante no relacionamento entre mãe e filho.

Um dos mais belos conjuntos de cartas, e mais adequados a essa verificação, originouse

por ocasião da viagem de Dr. Plinio à Europa, em 1950. Para apresentar algumas dessas

missivas ao leitor e o situar numa perspectiva apropriada para saboreá-las, utilizamos

excertos (adaptados) da excelente obra “Dona Lucilia”, de autoria de João Clá Dias.

18


T

rês dias após a partida de Dr. Plinio — para

Dª Lucilia, três longos dias —, sem aguardar

notícias dele e movida pelas saudades que já

lhe faziam sofrer o coração, ela toma da pena. Agradece

a seu filho todos os cuidados em lhe ocultar a viagem

para lhe evitar preocupações. De nenhum modo susceptibilizada

por isto, Dª Lucilia não cessa de manifestar

seu carinho e exclusivo desejo de que ele se beneficiasse

da viagem. Além disto, não deixa de se preocupar, aconselhar

e rezar.

São Paulo – 19-4-1950.

Filho querido de meu coração!

Com o coração transbordante de saudades,

venho dizer-te a enorme falta que me fazes, pois

parece-me ver-te entrar a todas as horas, e ver-te

em todos os lugares, e o meu espirito voa — sem

avião — em busca do teu! Contudo, filho querido,

procuro ser calma, e agradecer a Deus e à

Virgem Santíssima, a graça de poder ver-te realizar

este sonho tão necessário e útil à tua vida e

a teus futuros trabalhos, e também a felicidade de

poderes ver, talvez ouvir e falar mesmo ao nosso

Papa! — E, tudo isso, em companhia de tão bons

companheiros! (...)

Agradeço-te imenso, tudo o que, como excelente

filho, fizeste para evitar-me a angústia da

travessia. Mandei acender uma vela a Nossa

Senhora das Graças, e fiz muitas orações pela tua

feliz chegada. (...)

Conta-me tudo o que têm feito e o que de bonito

por aí já viram: Granada, Alhambra... o túmulo

de Dom Filipe,.... históricos palácios, conventos...

e o que mais? — Já comeram muitos

figos de capa-rota e cerejas? — Penso ser agora

a época. — Quando seguem para Paris para respirarem

o já celebre “doux air de France” 1 ? (...)

Muito cansada e com sono, termino esta, enviando-te

todas as minhas bênçãos, e te pedindo

para que veles bem pela tua preciosa saúde.

Mais uma vez, que Deus te abençoe, te faça

muito feliz e envio-te saudosíssima, muitos beijos

e abraços. — De tua mamãe extremosa,

Lucilia

Aniversário marcado por

grande ausência

Por imperiosas necessidades da causa católica, Dr.

Plinio foi obrigado a partir para a Europa nas vésperas

de uma grande data, muito cara a ele: 22 de abril,

aniversário de sua mãe. A fim de atenuar em algo a irremediável

lacuna que sua ausência representava para

Da. Lucilia, logo na manhã daquele dia um telegrama é

entregue no apartamento dela:

19


DONA LUCILIA

BARCELONA – 22.04.50

MILHOES BEIJOS AFETUOSISSIMOS

PLINIO

À mesma hora seu esposo, Dr. João Paulo, passoulhe

uma carta deixada por Dr. Plinio, acompanhada de

um belíssimo buquê de flores. Dessa forma, nos primeiros

momentos da manhã, recebia ela manifestações

de amor e veneração de seu filho, tal como se ele estivesse

presente. À vista do carinhoso gesto, seu coração

se comoveu e não conseguiu conter as lágrimas, só que,

desta vez, de puro contentamento, enquanto lia estas

expressivas linhas:

13 de Abril 22-IV 2

Meu amorzinho querido.

Quis que, logo ao acordar, minhas felicitações fossem

as primeiras, com as de Papai. Mil beijos, mil abraços,

carinho sem fim, um oceano de saudades.

Poucas vezes fiz um sacrifício tão grande quanto o de

marcar viagem nas vésperas de seu aniversário, que eu

gostaria imensamente de passar com a Senhora. Mas,

meu bem, foi indispensável organizar as coisas assim. A

ida foi antecipada: se-lo-á implicitamente a volta.

Hoje, comungarei pela Senhora, e pensarei na Senhora

o dia todo.... o que aliás farei nos outros dias também!

As flores da casa são todas compradas por mim.

Mil felicidades, querida. Que Nossa Senhora dê tudo à

Senhora.

Pede sua bênção com um afeto e um respeito sem conta

o seu taludíssimo e esporudíssimo ex-Pimbinche

Plinio

Sobre a mesa do escritório

de Dr. Plinio, a carta que ele

deixou para Dª Lucilia, com

a data do 22 de abril de 1950

Tendo sido o 22 de abril tomado por visitas, as quais,

por sua inalterável benevolência, Dª Lucilia ia receber

com os já conhecidos requintes de boa-acolhida, só pôde

responder a seu filho na manhã seguinte. Fê-lo com

palavras repassadas de ardente amor a Deus:

São Paulo, 23-04-50

Filho querido de meu coração!

De todo o coração, de toda a minha alma,

agradeço-te a carta tão afetuosa que me deixaste,

e que tanto conforto me trouxe, e mais as lindas,

“belíssimas mesmo”, palmas brancas, rubras, amarelas

e lilases, que Zili enviou-me pela manhã.

Chorei é verdade, mas, “graças a Deus”, foi de felicidade

por ter recebido eu, tão indigna,“liberal ”, a

imensa dádiva dos Sagrados Corações de Jesus

e Maria Santíssima, de um filho tão santo, tão

bom e carinhoso, que abençôo de todas as veras de

minha alma, por quem peço toda a proteção Divina,

e a Luz do Divino Espirito Santo. — Destas

palmas, levei duas para a capela do “sexto

andar”, uma para tua imagem do Imaculado

Coração de Maria em teu quarto, onde, como de

costume rezei por ti, e duas outras para a imagem

do Sagrado Coração de Jesus, no salão (e o resto

— muitas, na jarra do imperador). (...)

Fui hoje ouvir missa e comungar por ti na

“minha” igreja do Sagrado Coração de Jesus,

onde encomendei uma missa por tua intenção, e

bom êxito em teus empreendimentos. É o padre polonês

que vai rezá-la. Disse-me que te estima

muito. Ele está horrorizado com o progresso do

comunismo; [disse] que tem setenta e nove anos,

mas não quer morrer, sem ver o comunismo esfacelado

e exterminado, pelo que fez à Polônia.

Esperava que já estivessem em Portugal, e

fiquei admirada de ver que me telegrafavas de

Barcelona. Estou ansiosa por receber uma carta

tua, trazendo-me tuas impressões do lugar. As

primeiras, geralmente não são favoráveis; mas

depois aos poucos, já ambientado, aprecia-se

muito mais. Escreva-me sempre; sim? Vê se encomenda

a missa para Nossa Senhora da Begoña

por intenção de Rosée; sim?

20


Com muitas saudades, “espiritualmente” (...)

rezamos o terço, faço-te uma cruzinha na testa,

e... cubro-a de beijos e bênçãos. Um longo e saudoso

abraço, Pimbinchen querido, de tua “manguinha”

afetuosa,

Lucilia

Notícias de Espanha

Finalmente, por volta de 25 de Abril, Dª Lucilia recebeu

uma carta de seu filho com as tão ansiadas notícias

e impressões de viagem.

Madrid, 18-IV-50

Mãezinha querida do meu coração, e querido Papai

Escrevo-lhes depois de três dias de intensas viagens, isto

é, 24 horas de avião, um dia de visitas em Madrid, e um

dia de Escorial. Faço-o com enormes saudades. É meia

noite, hora de uma última conversa com minha gente do

6º andar no Fasano, e poucos minutos antes de minha

conversa tête-à-tête com a Lu.... Como gostaria de os ter

todos comigo aqui!

A viagem aérea foi boa. Espero que tenham recebido o

telegrama que mandei a Tia Zili no próprio aeroporto, no

dia de minha chegada. Cerca de 24hs. tocamos em Recife:

aeroporto bem arranjado e calor tremendo. A cidade se

percebia bem em todos os seus contornos graças à iluminação:

é bem grande. Dormimos passavelmente e no dia

seguinte voamos sobre o Saara, que pudemos ver muito

bem e por muito tempo. O dia ainda era claro quando sobrevoamos

Gibraltar, vendo bem o forte. Chegamos a

Madrid entre 21 e 22 horas. (...)

Nosso hotel é razoável. Encontrei logo à chegada o

Cel. Barrera (filho do Marquês de Valdegamas e Conde de

Miraflores) (...), com seu cunhado Olague (historiador

prodigiosamente culto e inteligente, e que parece muito influente

aqui). (...)

Visitei o Prado com eles (o Olague é um conhecedor

perfeito). Os Murillos, Velasques, Ticianos, Flamengos,

Goyas, pululam por lá. A riqueza do Museu é indescritível.

Quanto à beleza dos quadros é supérfluo dizer algo. Depois

fomos à casa de Lope de Vega onde o Olague nos

apresentou à Embaixatriz (notável) da França, em cuja

companhia a visitamos.

Todos os interstícios disto foram preenchidos pela dupla

Barrera.

Deitei-me assim mais morto do que vivo.

Hoje pela manhã, Barrera! Depois Olague para um

passeio ao Escorial. Este — como as outras coisas que tenho

visto aqui, não é descritível em palavras. Rezei junto à

sepultura de Filipe II, à cama em que expirou, e à sepultura

de Dom João d’Áustria, a um enorme autógrafo de

“... e o resto (das palmas), muitas, na jarra do Imperador...”

Sta Teresa, e ao tinteiro em que ela escreveu. Foi um dia

inteiro, horrivelmente fatigante. Amanhã, Toledo, outro

grande mas compensatório cansaço, com os Barreras! (...)

Amanhã se Deus quiser continuarão as visitas.

E a Lu? Tem dormido bem? Tem dormido à hora?

Tem tido energia em matéria de saudades? (...) Tem tomado

muita água Prata? Tem tomado muito táxi?

E Papai? Tem tido muito trabalho com o escritório?

Tem comido muito coco? (...)

Espero que Tia Yayá esteja melhor. Muitos abraços a

ela, Dora e Telêmaco. Muitos beijos para tia Zili, cujo excelente

estojo já experimentei. Abraços para o Tatão 3 .(...)

Para Papai, com abraços muito afetuosos, inúmeras

saudades.

E para a Senhora, minha Mãezinha, o que? Tudo

quanto pode haver neste mundo em matéria de abraços,

beijos, carinho, respeito, saudades, afeto; e abençoe o seu

filhão.

Plinio

“Quantas saudades... meu Deus!!...”

Termina o jantar em casa dos Corrêa de Oliveira, na

rua Vieira de Carvalho. O casal se levanta, faz as orações

do término da refeição, o marido se dirige a seu

quarto a fim de se refazer do cansaço do trabalho, enquanto

a senhora se entrega às orações diante da imagem

do Sagrado Coração de Jesus.

Depois de repassar todas as suas intenções, em especial

por seu filho tão querido, ela oscula as mãos, os

joelhos e os pés da imagem. Em seguida, lança mais um

21


DONA LUCILIA

Dr. Plinio em sua viagem pela Europa, em 1950

olhar amoroso à figura d’Aquele que é a Bondade em

pessoa. Lentamente se afasta, senta-se numa poltrona

próxima, e percorrendo as vias dos encantos de seu

coração materno, pensa:

“Bem, amanhã um portador vai encontrar-se com

meu Pimbinchen. Ai! que pena não ser eu! Quanto eu

gostaria de fazer essa viagem para poder revê-lo! O único

jeito de entrar em contato com ele é escrever-lhe

uma carta”.

Levanta-se, abre a escrivaninha, acende a luz e com

delicada letra, quase desenhada, transpõe a umas folhas

de papel a expressão de seus carinhos e saudades:

S. Paulo, 30-4-950

Filho tão querido!

Ignoro ainda se já recebeste minha primeira

carta, pois as tuas nada me dizem a este respeito;

quanto à segunda, escrita no dia vinte e três,

segue com esta, porque pensávamos que seria

mais rápido e seguro em mãos de [um portador],

mas ele foi forçado a adiar a viagem, de sorte que

seguem agora duas.— Recebi anteontem uma

do dia vinte e um, e estou ansiosa por ouvir tuas

impressões e descrições da Espanha e do nosso

Portugal, que não conheço, assim como de tudo

mais que te resta a ver. Nada me dizes sobre tua

saúde. Não estarás, movido pela curiosidade,

abusando de tuas forças? — Pelo amor de Deus,

não faça imprudências de gourmands e gourmets

4

, e não te movas em excesso, o que não te permitiu

até aqui o teu gênero de vida. (...)

Você lembrou-se de mandar dizer a missa

para Nossa Senhora da Begoña, conforme te

pedi? A que mandei dizer por tua intenção no

dia três deste, no Sagrado Coração de Jesus será

ouvida com a minha máxima fé e amor, e também

comungarei, pedindo a Deus para que te

abençoe, te faça sempre um verdadeiro católico,

reto, bom e justo, para Sua maior gloria, e como

sempre, o melhor e mais querido dos filhos, por

quem dou, até mesmo, os poucos dias que ainda

me restam. É bem provável que indo a Versailles,

te lembres das estuatas 5 brancas; no Trianon, das

carruagens reais, e passeando “a pé” pela avenida

dos Champs-Elysées, no “rond point” te lembres

dos teatrinhos de bonecos! Quantas saudades...

meu Deus!!...

É bom que tenhas um bom e pequeno mapa da

cidade, fácil de ser manuseado o que te facilitará

os passeios. Quanto ao mais, nada te recomendo,

pois saberás melhor do que eu, o que tens a ver.

Escreve-me sempre; sim? Não te esqueças de

mim em Nossa Senhora de Lourdes; sim? Como

vão teus amigos? estão também gostando muito?

Recomenda-me a todos eles.

Com muitas saudades, abençoa-te, abraça-te

e beija-te muito, tua mamãe extremosa,

Lucilia

1) “Doce ar de França”.

2) Dr. Plinio colocou as duas datas na carta. A primeira era do dia

em que a escreveu.

3) Epíteto de Nestor Barbosa Ferraz, dado pelos netos dele.

4) Os que se alimentam fartamente e os apreciadores da boa mesa.

5) Alusão ao modo de o pequeno Plinio designar as estátuas do

Palácio de Luís XIV, quando o visitou durante a viagem da

família à Europa, em 1912.

22


A expansão da obra de Dr. Plinio

Guatemala

A fim de implorar à SSma. Virgem

que Ela seja efetivamente

Rainha da Guatemala,

um destemido grupo de jovens

seguidores de Dr. Plinio naquele país

deposita uma imagem

de Nossa Senhora das Graças

junto à orla de um dos muitos vulcões

ali existentes (fotos maiores).

Ao lado de outros entusiasmados jovens

provenientes de El Salvador, os

guatemaltecos realizaram também

interessantes programas apostólicos,

como um passeio às margens do

legendário Lago Atiplan (foto menor).

23


Segundo São Luís Grignion,

entre os caridosos deveres que

Nossa Senhora, como a melhor

das mães, cumpre em relação a

seus fiéis servos, está o de

provê-los de tudo para a alma e

para o corpo. Assim, a par de

favorecer, com insignes graças, o

afervoramento espiritual de

seus filhos, obtêm-lhes Ela

ótimas instalações, onde possam

melhor honrá-La e servi-La,

fixarem-se e amadurecerem

novas vocações, e se lançarem a

maiores conquistas apostólicas.

Colômbia

Sede dos mais

jovens em Bogotá

(acima),

e uma excursão

organizada para eles

(ao lado)

Propriedade

campestre em Palmela

(ao lado),

e peregrinação a Lourdes

de Correspondentes e

Simpatizantes em Portugal

(abaixo)

Portugal

24

Sede

central

em

São José

Costa Rica


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

Nós também

O beijo de Judas

(Pintura de Fra Angelico)

E m

nosso último artigo, mostramos que as

meditações que tão freqüentemente se

fazem a respeito da ingratidão, da covardia

e da cegueira dos Apóstolos, durante a

Paixão, não devem ter, para nós, interesse meramente

especulativo. Também nós temos, para com Nosso Senhor,

ingratidões, covardias e cegueiras muito parecidas

com as dos Apóstolos, e seria ridículo pensar apenas

nos defeitos deles, sem tomarmos também em consideração

a “trave que está em nosso próprio olho”. Ninguém

se santifica pela meditação sobre as virtudes ou

defeitos alheios, se não o fizer de modo a acrescer suas

próprias virtudes, ou combater seus próprios defeitos.

Assim, pois, olhos postos na Paixão de Nosso Senhor,

não devemos por isto nos esquecer de nós mesmos, pois

que Nosso Senhor nos pede, não tanto que choremos

com Nossa Senhora os padecimentos do Cordeiro de

Deus, mas que cuidemos de não transformar nossa própria

alma em uma segunda edição dos que O imolaram.

Essa reflexão, absolutamente verdadeira no que diz

respeito às suaves tristezas da Semana Santa, também se

aplica, ponto por ponto, às austeras alegrias da Ressurreição.

Tanta gente se admira e se indigna com a perturbação

cheia de abatimento, e a vacilação de espírito

manifestada depois da morte de Nosso Senhor, pelos

Apóstolos, a propósito da Ressurreição. O Redentor

tinha predito de modo positivo que ressurgiria dos mortos.

Entretanto, tendo Ele expirado na cruz, os Apóstolos

se deixaram dominar por um abatimento que fazia

transparecer claramente toda a vacilação que lhes ia na

25


ECO FIDELÍSSIMO DA IGREJA

alma. E São Tomé quis tocar com os dedos o Salvador,

para crer na objetividade da Ressurreição.

Ora, a realidade é que também nós estamos sujeitos

à mesma fraqueza e não raramente ela vence em nós,

contando com nosso próprio consentimento. Certamente,

todos nós cremos, graças a Deus, com toda a firmeza

e sem a menor vacilação, na objetividade da Ressurreição

de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas há uma

outra verdade, que sem dúvida admitimos, mas que admitimos

às vezes com tanto temor, que lhe damos um

sentido quase puramente especulativo e tão restrito,

que nos tornamos perfeitamente merecedores da censura

do Espírito Santo: “Estão diminuídas as verdades

entre os filhos dos homens”. Não se trata de uma verdade

posta em dúvida, mas sobre a qual temos, em nosso

espírito, uma noção diminuída. Entretanto, quantos

e quantos erros daí decorrem!

Essa verdade que Nosso Senhor afirmou de modo

insofismável, e a respeito da qual sua palavra não é menos

infalível do que quando predisse sua ressurreição, é

a fecundidade sobrenatural da Santa Igreja Católica

Apostólica Romana, que permanecerá de pé, sobranceira

em relação às investidas de todos os seus inimigos,

até a consumação dos séculos, sempre capaz de atrair

pela graça os homens de boa vontade.

Todos os católicos, evidentemente, estão obrigados a

crer nessa verdade. A Igreja jamais perderá esse dom

de atrair as almas. Negá-lo implica em negar que Jesus

Cristo é Deus, ou que os Evangelhos são livros inspirados.

Negá-lo é, pois, negar a própria Religião. Mas essa

verdade, que todos aceitam, todos a possuem em igual

extensão? Todos vêem com igual clareza? Todos tiram

dela as mesmas conclusões?

Nos dias torvos que atravessamos, quando vemos a

heresia se dilatar por toda a Europa, e ameaçar o mundo

inteiro, quanta gente há que julga a Igreja tão ameaçada,

que se sente inclinada a concessões doutrinárias

perante os atuais dominadores do mundo? Hoje em dia,

a paganização geral dos costumes penetrou em todas as

esferas da sociedade, e cavou um abismo que se vai tornando

cada vez mais profundo, entre o espírito da Igreja

e o espírito da época. À vista disto, quanta gente

aconselha concessões morais capazes de a reconciliar

com esta sociedade sem cujo apoio se receia, no mundo,

que ela venha a sofrer um colapso que, se não fosse a

morte, seria ao menos um prolongado desmaio? À vista

da formação de correntes pseudo-científicas cada vez

mais contrárias aos ensinamentos infalíveis da Igreja,

quanta gente desejaria que a Igreja, se não alterasse as

verdades já definidas, ao menos não explicitasse sua

doutrina em pontos ainda controversíveis, em que qualquer

definição por parte do Catolicismo poderia tornar

as divergências com a nossa época ainda maiores?

Evidentemente, todos estes erros procedem de um

temor mais ou menos inconsciente quanto à fecundidade

da Igreja.

De fato, o que é a doutrina católica? É um conjunto

de verdades. Desde que, nesse conjunto, uma só verdade

fosse adulterada, a doutrina católica já não seria

ela mesma. Assim, tentar acomodá-la, adaptá-la, ajeitála,

é trabalhar para que ela perca sua identidade consigo

mesma: em outros termos, é tentar matá-la. E achar

que o apostolado não é possível sem essa adaptação é

achar que a Igreja só pode vencer morrendo!

Evidentemente, essa vacilação, em um verdadeiro

católico, não se pode referir a certas verdades já irretorquivelmente

definidas pela Igreja. Mas há um semnúmero

de aplicações práticas de princípios, ou de deduções

doutrinárias a respeito de princípios já definidos,

em que essa fraqueza se manifesta. Em lugar de

se procurar, na utilização doutrinária ou prática dos

princípios, a verdade, toda a verdade, e só a verdade, as

reflexões feitas a este respeito se deixam imbuir mais ou

menos pela preocupação de condescender com os erros

do século. E, assim, em vez de procurar tirar do tesouro

das verdades católicas todos os frutos de ordem intelectual

e moral que contêm, procura-se saber mais o que

pode ser rotulado como discutível, e portanto como

matéria livre, do que o que pode ser rotulado como verdadeiro,

e portanto como matéria certa.

Em outros termos, a mania invariável de condescender

leva muita gente a procurar dilatar os espaços intelectuais

reservados à dúvida. Em presença de uma afirmação

deduzida da doutrina católica, a pergunta deveria

ser esta: posso incorporar mais esta riqueza ao patrimônio

de minhas convicções? Mas, em geral é esta

outra: que razões posso descobrir, para duvidar também

disto?

Pio XI, recebendo em audiência o Exmo. Revmo. Sr.

Arcebispo de Cuiabá, lhe deu como palavra de ordem

para os jornalistas católicos do Brasil: “Dilatate spatia

veritatis”. [Dilatai os espaços da verdade.] Muita gente

gosta de fazer o contrário: em lugar de se esforçar por

descobrir novas verdades doutrinárias deduzidas das já

conhecidas, ou de estender o mais possível a aplicação

dessas verdades na prática, todo seu esforço vai em negar

o mais possível qualquer coisa de positivo que se

faça neste caminho. Em suma, isto é exatamente o oposto

do verdadeiro espírito construtivo, é dilatar espaços,

não da verdade, mas da dúvida.

26


Se a Revelação é

um tesouro, e a difusão

do Evangelho um

bem, quanto mais esse

tesouro se espalha e

esse bem se distribui,

tanto mais contentes

devemos ficar. Muita

gente, entretanto, acha

que é o contrário.

Quanto mais se ocultam

os desdobramentos

lógicos da Revelação

e se encurtam as

conseqüências do que

está no Evangelho,

tanto mais caridoso se

é! Como Deus teria sido

caridoso, se tivesse

imposto uma moral

Nascida do

flanco chagado do

Divino Redentor,

a Santa Igreja

permanecerá de pé

até a consumação

dos séculos.

Verdade na qual

todos os católicos

estão obrigados a

crer, sem nenhuma

concessão aos

dominadores do

mundo.

Ao lado, Cristo da

Boa Morte, Espanha.

Abaixo, o Vaticano

menos severa! Por que não previu Ele que no século

XX, essa moral seria um trambolho indifusível? Corrijamos

a obra de Deus: encurtemos o que na sua obra está

por demais longo, empanemos a luz do que brilha demais,

e assim teremos beneficiado largamente a humanidade.

Quanta gente, na prática, raciocina assim!

Ora, proceder assim não reflete o receio de que a

Igreja já não conte com o apoio de Deus, e, se não se

baratear, já não possa arrastar as turbas? E essa dúvida

sobre o auxílio sobrenatural que Deus dá à Igreja, não

se parece muito com a dúvida que, antes da Ressurreição,

se sentiu a respeito deste fato?

Reflitamos nisto. E peçamos a Nosso Senhor que,

fazendo ressuscitar em nós os tesouros das graças que

rejeitamos, voltemos novamente àquela ortodoxia virginal

da Fé, e àquela perfeição de vida, que talvez o

pecado, por nossa máxima culpa, nos tenha roubado.

(Publicado no “Legionário”, nº 448, 13/4/1941)

27


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

OS POVOS

E SEUS ARQUÉTIPOS

Luís XIV —

Protótipo da nação

primogênita da Igreja,

foi chamado de “amigo” pelo

Sagrado Coração de Jesus

R

epetir, em diversas ocasiões,

esquemas de

exposição laboriosamente

redigidos é um modo de

agir comum à quase totalidade

dos conferencistas e palestrantes.

Mesmo pessoas célebres

por sua erudição e renomados

autores, com centenas de livros

publicados, não escapam a esta

regra.

Dr. Plinio, contudo, constituía

exceção. Qualquer que fosse

o tema por ele abordado, nunca

se repetia. Seus ouvintes sabiam

de antemão que seriam

brindados com perspectivas inteiramente

novas, grandes panoramas,

assuntos tratados em

profundidade e de modo atraente,

porque brotavam de uma

alma dotada de admirável discernimento

e de uma singular

capacidade de análise e reflexão.

Qualidades que o leitor poderá

constatar, uma vez mais,

na reunião transcrita a seguir,

na qual Dr. Plinio relaciona a

ascensão e queda das nações

com a atitude tomada por elas

diante do que ele denominava

de “arquétipos” (aplicando este

termo a pessoas que exprimem

em grau eminente as características

de um povo, constituindo

um paradigma).

28


E

m geral, quando determinada nação tem

um grande governante, este se transforma

no arquétipo de seu povo.

Primeiramente, porque a situação em que a arquetipia

aparece de modo mais claro é, com efeito, a de chefe

de Estado. Em segundo lugar, porque uma das características

fundamentais de todo líder insigne é o fato de

ele ser a pessoa por excelência na qual seus conterrâneos

se sentem refletidos. Aquele que, pela sua simples

presença aos olhos do país, faz com que este tenha a

concretização de seus próprios ideais de perfeição e

queira realizá-los, reconhecendo no dirigente o seu modelo.

A recusa ao arquétipo pode

gerar a decadência de sua nação

Muitas vezes, a heróica virtude de um chefe de Estado não é

suficiente para evitar que um povo se extravie pelas tortuosas

sendas da decadência. Exemplo: São Luís IX, cujo neto, Filipe

o Belo, foi uma das remotas causas da Revolução Francesa.

Muitas vezes, porém, um povo não corresponde ao

valor de seus máximos expoentes. Então sucede que a

pessoa à frente de sua nação é um ótimo soberano, mas

exerce suas funções na indiferença e no descaso públicos.

Ele se sacrifica pelo bem-estar de seus governados,

funda universidades, hospitais, propicia a formação de

diversas e extraordinárias instituições, etc., e... não lhe

dão importância. Como resultado dessa infidelidade,

Deus, por punição, pode permitir que tal povo perca

paulatinamente a pujança que o fez reluzir no concerto

das nações.

Não são raros os exemplos nesse sentido. Um deles

permanece gravado na História pelo incomparável estro

de Camões. Ao se referir a uma “austera, apagada e

vil tristeza”, o poeta cantava, sozinho e contristado, a

moribunda grandeza de um Portugal que recebera da

Providência o gênio, a coragem e, sobretudo, a têmpera

varonil para realizar tantos e tão celebrados “cristãos

atrevimentos”. Ao menos naquele momento, os dias de

glórias iam conhecendo seu fim. E Camões lavrou em

versos imortais o triunfo e o crepúsculo de um Portugal

que já não tinha ouvidos para apreciar o cântico dele.

Austera, apagada e vil tristeza...

Engano é pensar que, diante de um povo em crise,

bastaria surgir um bom dirigente, digamos mesmo um

líder santo, para reerguê-lo. A santidade de um soberano

nem sempre é suficiente para, em qualquer circunstância,

regenerar sua nação. Haveria nisto uma espécie

de automatismo que as coisas sobrenaturais não comportam.

Exemplo paradigmático é o de São Luís, Rei de França.

Arquétipo de seu povo, ele foi avô, nada mais nada

menos, do que de Filipe o Belo, um monarca péssimo.

Segundo muitos visos históricos, este último esteve implicado

no crime de Guilherme de Plaisance e Luís Nogaret,

que atentaram contra o Papa Bonifácio VIII. O

Pontífice, então em Agnani, não quis ceder às pressões

do rei francês a respeito de assuntos internos da Igreja

na França. Era seu direito e seu dever não transigir. Ao

perceber que o Pontífice não estava disposto a capitular,

um dos enviados de Filipe o esbofeteou. O Papa não se

mexeu, e manteve fixo seu olhar no Crucificado que tinha

sobre sua mesa. Atitude digna e sensata, pois aqueles

celerados o podiam matar ali mesmo.

Esse episódio é característico do reinado de Filipe o

Belo, que deu início ao absolutismo na França, com todas

as suas infaustas conseqüências. Quer dizer, uma

das remotas causas da Revolução Francesa foi o neto de

São Luís IX.

Nessa linha, caso também frisante é o de São Fernando,

Rei de Castela. Soberano vitorioso contra os mouros,

teve ele um filho e sucessor, Afonso X, o Sábio, que

não seguiu as virtuosas pegadas do pai e esteve na origem

de todo o Humanismo e de toda a penetração prérenascentista

na Espanha.

Não se pense, portanto, que o santo é uma espécie de

coringa que vence sempre, ou uma panacéia que cura

todos os males.

29


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

Havendo, então, um povo que não correspondeu aos

méritos e ideais de seu arquétipo, soçobrando assim em

perigosa decadência, a solução é esse modelo se compenetrar

do fato de que a Igreja Católica é o fundamento

de todo bem existente na Terra. E de que, se um determinado

país não tem como alicerce esse bem irradiado

pela Igreja, ele está perdido. Pois, uma vez extinta a

Fé, tudo se acaba. Pode levar mais ou menos tempo: está

aberto o caminho para a ruína.

Compenetrado dessa verdade, ele deve pensar: “Meu

povo está se extraviando. Ora, eu não o amo apenas

nem principalmente por ser meu, e sim porque ele pertence

antes a Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, se Nosso

Senhor o está perdendo, isso eu não posso tolerar!”

Aí ele se torna também o exemplo de todas as virtudes,

do incansável bom pastor atrás do rebanho desgarrado,

daquele que se sacrifica pelo seu povo e chega

mesmo a se oferecer como vítima expiatória pela regeneração

dele. Esse holocausto, feito por amor a Nosso

Senhor, a Nossa Senhora e à Santa Igreja, o levará para

o Céu e, muito provavelmente, atrairá para seu país as

graças que o reconduzirão às vias da Providência.

Os arquétipos ao longo da História

Quando, porém, um povo é fiel aos desígnios de

Deus para com ele, quando é grande e ama sua grandeza,

esse povo, por assim dizer, clama pelo seu arquétipo,

e este é plasmado pelas circunstâncias.

A História não carece de ilustres exemplos de arquétipos

que a marcaram ao longo dos séculos, sendo a

Europa o continente onde eles mais se fizeram notar.

Qualquer soberano europeu que se tenha distinguido

por seus eminentes feitos, tornou-se o modelo de sua

nação.

Para não recuarmos muito no tempo, mencionemos

Filipe II, na Espanha, D. Manoel, o Venturoso, em Portugal,

Maria Teresa de Áustria. Ou então o Rei-Sol,

Luís XIV da França, protótipo do francês no que este

povo teve de mais brilhante, de mais magnífico, de mais

estupendo. Quando Santa Margarida Maria

Alacoque recebeu do Sagrado Coração de

Jesus o encargo de levar uma mensagem a

Luís XIV, a fim de estimular no seu reino a

devoção a Ele, Nosso Senhor pronunciou

estas palavras iniciais: “Diga ao meu amigo,

o Rei de França...”, etc. E os intérpretes

muito se aplicaram para compreender em

que sentido Luís XIV foi então chamado de

“meu amigo” por Jesus.

Na realidade, Nosso Senhor o considerava

seu amigo pelo fato de ele ser o monarca e o

arquétipo da França, a nação querida da Providência.

Enquanto expressão máxima desse

povo, Deus o estimava com aquela predileção

gratuita e insondável com que Ele amava

a nação primogênita da Cristandade.

D. Pedro II, “avô” do Brasil,

cercado da Família Imperial

Dom Pedro II,

arquétipo do Brasil

Insignes figuras de arquétipos surgiram

também no continente colonizado por Espanha

e Portugal.

Por exemplo, o povo brasileiro, na época

do Segundo Reinado, constituía indiscutivelmente

uma sociedade em que a organização

da família era ainda muito viva e pujante.

Tal organização convém de modo perfeito

à índole afetiva de meus patrícios.

Ora, o velho Imperador D. Pedro II, com

sua barba e cabelos brancos, aspecto respeitável,

venerável, mas bondoso, foi durante

30


Filipe II,

Rei de Espanha,

uma das mais

extraordinárias

figuras

de arquétipos

surgidos ao longo

da História

Filipe II

D. Pedro II

representou de

modo ímpar o

arquétipo do

povo brasileiro,

que se comprazia

em tomá-lo como

sendo o “vovô”

de sua nação

D. Pedro II

em traje de coroação

31


PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA

décadas o arquétipo do Brasil. Porém, um arquétipo a

la “vovô”. E o Brasil sentiu delícias em ser “neto” de

Dom Pedro II. O modo pelo qual ele dirigia a política

nacional era inteligente e recheado de jeitinhos, tão do

agrado dessa gente que não vê com bons olhos o emprego

da força para solucionar seus problemas.

Monarca constitucional, os poderes de

D. Pedro II eram reduzidos pelas leis

do Estado. Entretanto, governante

esperto e sagaz, servia-se ele do

prestígio imperial para negociar

por fora o curso da Política,

de tal maneira que o

parlamentar número 1 do

país era ele. E com tanto

zelo se empenhou nas

suas ações, que seu reinado

representou para

o Brasil um longo período

de paz e grande

prosperidade. Chegou

a ser, ao lado dos Estados

Unidos, uma das

maiores nações americanas,

com sua marinha

mercante ocupando

o segundo lugar no

mundo.

Aos adversários que o

censuravam por exercer,

juntos, o poder constitucional

e o pessoal, o Imperador

respondia: “Eu não me desvio

uma linha da Constituição, pois nada

me impede de ter influência política.

Se um parlamentar me procura e pede

um conselho, eu o atendo e, assim, cumpro

com minha obrigação. Se a minha orientação o convence,

é porque ela foi eficaz. Vocês têm algo contra isso?”

Os inimigos vociferavam, pois eles não podiam enfrentar

a força moral do Imperador. E D. Pedro II usou

dessa força até o fim do regime monárquico. Sem nenhuma

dúvida, ele representou arquetipicamente o

brasileiro.

Garcia Moreno, modelo dos

hispano-americanos

Gabriel Garcia Moreno

– Fé, firmeza e elevação

de alma, num varão que

se tornou o arquétipo

de todo o povo

hispano-americano

Termino recordando o exemplo de uma grande personalidade

que foi o arquétipo, não apenas de seu país,

mas de toda uma família de povos: Garcia Moreno, Presidente

da República do Equador.

Com os traços físicos característicos do hispano nascido

no norte da América do Sul, nele sobressaem a

profundidade de espírito, a firmeza, a lógica de pensamento,

o domínio sobre si mesmo e uma permanente

mobilização de todo o seu ser para cumprir um dever

muito árduo, que brilha na sua pessoa revestida do uniforme

de chefe de Estado, com que ele se fez fotografar

ou pintar mais de uma vez.

Sobretudo, nele reluzem a Fé católica

apostólica romana, a afinidade com a

Igreja, a elevação de alma para as

coisas sobrenaturais, sem dúvida

infundida pela graça, mas que

encontra um ponto de inserção

na natureza. Tudo isso

Garcia Moreno possuía de

modo esplêndido, tornando-se

assim o arquétipo

do equatoriano e de todo

o povo sul-americano

de origem hispânica,

com eventualmente

alguma miscigenação

indígena.

Cumpre dizer, como

fundamento de mais

um louvor a esse extraordinário

personagem,

que é próprio das pessoas

em cujas veias corre

essa mistura de sangue,

um pendor para o sonho de

olhos abertos, para o sentimentalismo,

para a moleza e a

inconstância. Mas, é próprio do

católico, quando ele nasce com essas

inclinações, virá-las pelo avesso e

ser salientíssimo nas virtudes opostas. Não

existem grandes povos que não tenham seus defeitos

e más tendências nativos virados pelo avesso. Ou

estes são levados no látego e na rédea curta, ou impõem

seu jugo e nos dominam.

E, a meu ver, a maior pulcritude de alma do Garcia

Moreno é exatamente essa vitória sobre seus maus

pendores. E até nisso foi um arquétipo, pois soube dobrar

ao avesso os defeitos do povo dele — comuns com

as lacunas de todas as nações desse continente —, realizando

o melhor do desígnio divino a respeito do

Equador.

Arquétipo, ainda, no seu martírio, posto ter sido assassinado

por ódio à Fé católica, em cuja defesa empregou

a mesma admirável intransigência com que modelou

sua nobre e magnífica alma.

Aí estão alguns interessantes exemplos de arquétipos

surgidos ao longo da História.

32


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

E

xpressiva característica

das grandes construções

medievais é o fato

de elas solicitarem, de quem as contempla,

o tributo de um eminente e

abnegado amor, estimando-as mais

do que a si próprio. Exemplo disso

é a belíssima Catedral de Notre-

Dame de Paris, que manifesta, ante

os que dela se aproximam, perene

convite para essa superior dileção.

O mesmo pedido nos é feito, à

maneira de sussurro, por outra pre-

ciosa jóia de arquitetura, esta já não

medieval, mas que conserva algo de

medievalizante: o castelo de Chambord.

Quando o visitei, em fins de 1988,

tive ocasião de ali perceber restos

da graça que soprou sobre a Europa

e deu origem à Idade Média,

pondo-se séculos depois, lentamente,

como um sol esplendoroso.

Chambord é uma das irradiações

desse ocaso da Cristandade medieval,

mas um ocaso magnífico, como

magnífica é também a Cristandade.

Durante minha visita, voltei a vista

continuamente para esta consideração:

cada detalhe do castelo espelha

de modo esplêndido o espírito

católico, ainda que sob a forma de

um glorioso crepúsculo. No fundo,

eu contemplava em Chambord cintilações

da Santa Igreja Católica, à

qual amamos de um amor tão imenso,

que este amor se torna a razão e

o fundamento de todas as nossas de-

33


LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

mais benquerenças. E é porque a alma católica me encanta,

é porque nela discirno o reluzimento do Divino

Espírito Santo, que me apraz admirar Chambord.

Nesse castelo, tudo é amabilidade, harmonia, leveza,

elegância, força e coragem. Ora, é a graça de

Deus que concede aos homens a possibilidade de

serem assim e de imprimirem nas suas obras reflexos

desses predicados. E a graça lhes vem através da Igreja

Católica, de seus ensinamentos, de seu apostolado e

maternal influência. Graças e influxo materno que,

em Chambord, tocaram profundamente minha sensibilidade.

“Chambord

é uma das irradiações do

magnífico ocaso da

Cristandade medieval”

Dr. Plinio contemplando o castelo,

durante sua visita em 1988

Essa maravilha que eu sonhava

em conhecer, achava-se fechada aos

turistas na tarde em que ali cheguei.

Sozinha, silenciosa, envolta nas

discretas penumbras do pré-anoitecer

que começava. O conjunto refletia

aquela espécie de poesia, de tristeza

e de beleza especiais das coisas

abandonadas. Separava-me do castelo

um terreno coberto por uma erva

que nasceu de modo mais ou

menos fortuito, mas que adquiriu

extraordinário encanto, realçado

aqui e ali por graciosas florzinhas

brancas surgindo inocentemente da

relva.

À direita, destacava-se uma capelinha

de gótico flamboyant, do século

passado, em perfeita harmonia

com o estilo de Chambord.

A floresta, sobre a qual incidia

uma luminosidade amena, pareceume

de rara beleza, imersa em suave

e discreta melancolia. Contemplando

aquelas árvores, tinha-se a impressão

de ver um mundo de personagens

que participaram de toda

a existência áurea de Chambord, e

que agora se encontravam para

além do rio que nos separa da eternidade,

considerando com certo pesar

a derrota de tudo quanto eles

conheceram e representaram.

Já o castelo, com sua imensa beleza,

altivez e fantasia, erguia-se à

maneira de um grand-seigneur passeando

por seus domínios. Hierático,

algum tanto distante do mundo

ao seu redor, um grand-seigneur

que, no mesmo dia, pela manhã tomou

parte numa batalha, à tarde recebeu

convidados para uma festa na

34


qual dançou, e no fim da noite se

pôs a caminhar sozinho pela floresta.

E leva consigo alguma coisa da

batalha, da dança e do mato.

O que tem o castelo?

Proporções muito bonitas e um

universo de chaminés de tamanhos

variegados, surdindo como champignons

por toda parte, numa verdadeira

feeria de pequenas cúpulas

e torres, algumas maiores, outras

menores, causando a impressão de

que um certo húmus passou do solo

para o castelo, e deste para o ar.

Esse húmus, indescritível, é o responsável

pela grande fantasia que

existe em Chambord, emoldurada

por uma regra, uma linha e uma

harmonia que nos deixam encantados.

De vez em quando, o silêncio

daqueles instantes era interrompido

por diferentes piados de pássaros.

Ora era um longo trinado, como se

do fundo dos séculos algo dissesse:

“Eu ainda vivo!” Ora era uma ave

que, perseguida por outra, exalava

um grito de desespero, atraindo

nossa atenção para uma espécie de

pungente e oculto drama que se

desenrolava no meio daquele arvoredo.

Dali a pouco os pássaros emudeciam,

o silêncio se recompunha em

“Em Chambord tudo é amabilidade,

harmonia, leveza,

elegância, força e coragem...”

torno do castelo, e Chambord continuava

seu velho sonho, triste, digno,

seguro de si mesmo e abandonado.

E as penumbras do entardecer,

e as derradeiras incidências de um

lindo crepúsculo, tremeluzindo sobre

um extenso gramado de relva

selvagem, mal plantada mas que deveria

ser assim — tudo se tornava

úmido de absoluto, impregnado de

graças celestiais.

Sim, mais uma vez é a graça que

nos faz admirar em Chambord o

que, sem o auxílio dela, não nos seria

perceptível. São expressões do

castelo, são impressões e sentimentos

que ele só transmite a quem é

favorecido com essa assistência sobrenatural.

E deixamos o tempo transcorrer

ali com a intenção de vislumbrar a

graça como uma luz acesa no interior

de Chambord. O próprio castelo

seria o abat-jour, esplendoroso,

extraordinário, porém o mais aprazível

era considerar essa luz celeste

que acentua sua inenarrável beleza,

sua tranqüilidade recolhida, sua majestade.

Era impossível que Chambord fosse

tão belo, tão perfeito, e que Deus

não estivesse presente ali. Era impossível

que aquele castelo possuísse

essa perfeição e essa beleza, se

estas não fossem fruto das lágrimas

de Maria e do preciosíssimo sangue

de Nosso Senhor Jesus Cristo.

35


Ao pronunciar

seu “fiat” para a

Encarnação do

Verbo, Nossa Senhora

concebeu do Espírito

Santo e passou a

formar em suas

imaculadas entranhas o

Filho de Deus. A

geração da humanidade

santíssima de Nosso

Senhor Jesus Cristo

deve ter sido admirável,

a maravilha das

gerações!

Jesus é considerado

o novo Adão, que veio

ao mundo para reparar

o pecado cometido pelo

primeiro homem. Ora,

assim como este,

enquanto permaneceu

inocente, viveu em

meio aos esplendores

do Éden Terrestre,

também Nosso Senhor

teve seu Paraíso,

incomparavelmente

melhor e mais precioso

do que aquele: o

claustro virginal de sua

Mãe.

Sim, Jesus se achava

em estado paradisíaco

durante os noves meses

que passou no interior

de Nossa Senhora,

Plinio Corrêa de Oliveira

como num

tabernáculo

perfeitíssimo, onde

encontrava

alegrias, belezas e

delícias de que

eram pálidos

símbolos as

conhecidas por

Adão. Além disso,

numa inefável

união de espíritos,

o Filho ia

revelando à Mãe, a

respeito de Si

próprio, todas as

magnificências que

fossem cabíveis a

uma criatura

entender. Nesse

indizível convívio,

Jesus elevava a

alma de Maria a

um inimaginável

grau de

formosura,

tornando-a mais

bela e luminosa do

que todo o resto

do universo!

Maria, o Paraíso do novo Adão

More magazines by this user