Revista Outubro 2018

cristiano149090

Outubro 2018

Mariana

Revista Histórica e Cultural


A Mariana - Revista Histórica e Cultural é

uma publicação eletrônica da Associação

Memória, Arte, Comunicação e Cultural de

Mariana. O periódico tem o objetivo divulgar

artigos, entrevistas sobre a cidade de Mariana.

A revista é uma vitrine para publicação de trabalhos

de pesquisadores. Mostrar a cultura de uma

forma leve, histórias e curiosidades que marcaram

estes 321 anos da primeira cidade de Minas.

Mariana - Revista Histórica e Cultural Revista

Belas Artes é um passo importante para a

divulgação e pesquisa de conteúdos sobre a

cidade de Mariana. Esperamos que os textos

publicados contribuam para a formação de uma

consciência de preservação e incentivem a

pesquisa.

Os conceitos e afirmações contidos nos artigos

são de inteira responsabilidade dos autores.

Colaboradores:

Prof. Cristiano Casimiro

Prof. Vitor Gomes

Agradecimentos:

Arquivo Histórico da Municipal Câmara de Mariana

IPHAN - Escritório Mariana

Arquivo Fotográfico Marezza

Museu da Música de Mariana

Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana

Fotografias:

Cristiano Casimiro, Vitor Gomes, Anna Malaco. Cássio Sales e

Arquivo Marrrezza - Marcio Lima

Diagramação e Artes: Cristiano Casimiro

Capa: Arte Cóloquio de Arquivos- cristiano Casimiro

Associação Memória Arte Comunicação e Cultura

CNPJ: 06.002.739/0001-19

Rua Senador Bawden, 122, casa 02


Indice

Os Arquivos de Mariana: Guardiões da Memória

Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana

Universalizar acervo e visibilizar às experiências negras

nos territórios de mineração (Mariana, MG)

Uma pequena História do Arquivo Histórico da Câmara

Municipal de Mariana.

Criando uma nova coluna de pesquisa: Um recente trabalho no

AHCSM-IPHAN/MG

Livro de Inventários da Catedral de Mariana

Salomão de Vasconcelos

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Vitor Gomes - Museu da Música de Mariana

Foto: Cristiano Casimiro


OS ARQUIVOS DE MARIANA:

GUARDIÕES DA MEMÓRIA

Quatro arquivos, um museu com acervo

dedicado a música, milhares de documentos,

quilômetros em papéis, três séculos de

história.

Tão antigo quanto a própria cidade e suas

instituições são seus documentos.

Mas como nasce e se forma um arquivo?

Um arquivo é formado por documentos e

esses são produzidos pelas instituições ou

pessoas no exercício de suas funções. A

primeira instituição presente na ainda

freguesia de Nossa Senhora do Carmo foi a

igreja, através de uma Paróquia (1706?).

Depois veio a Câmara, instalada em 8 de

abril de 1711. Com isso, a freguesia se

transformou em Vila e ganhou certa autonomia

administrativa e jurídica. Era responsável

pelas questões relativas a ocupação do

solo, controle do comércio, cobrança de

certos impostos. Em 1745 foi instalada a

Diocese de Mariana.

Documento não é apenas aquilo que é

oficial. Para os historiadores, documento é

tudo aquilo que informa sobre o passado de

um povo ou pessoa. Assim, um bilhete ou

um fragmento de uma carta é um documento.

É sabido que o ouro, extraído ao longo de

toda a serra do Espinhaço, proporcionou à

região uma economia e uma sociedade com

características próprias: mais urbanizada,

mais diversificada e populosa. Não obstante,

as instituições mais importantes na

estrutura social da época, também se

fizeram presentes: a Igreja e o Estado e,

justamente, nessa ordem. Toda esta efervescência,

inicialmente se fazia dentro de

um certo caos. Com o crescimento da então

freguesia de Nossa Senhora do Ribeirão do

Carmo, foram sendo constituídos aparatos

burocráticos capazes de garantir a legalidade

e a “boa ordem social”. É neste contexto

que se cria, em 1711, a Câmara de Mariana.

A partir daí, a presença do Estado foi se

intensificando, chegaram as Casas de

Captação (hoje, equivalente a coletorias de

impostos), os juízes de fora, os Cartórios

Notoriais etc. Aqui, a Câmara era a instituição

máxima do poder temporal. Era responsável

pelas questões administrativas, como

por exemplo, a ocupação e uso dos espaços

públicos, expedição de patente para exercício

de profissão, controle do comércio,

cadeia etc. Era igualmente responsável

pelas questões de justiça. A sociedade, por

sua, vez também criava suas instituições

que funcionavam como uma espécie de

elo/coesão social entre os indivíduos. É o

caso das Irmandades e Ordens Terceiras

Religiosas. Como Mariana passou a ser

sede de bispado a partir de 1745, aqui ficava

sua sede administrativa, a cúria diocesana,

com o seu Cabido e o Tribunal Eclesiástico.

O fato é que essas instituições, no exercício

de suas funções, geraram significativo

acervo de documentos que foram guardados

para fins de prova. O tempo passou e

por sorte ou cuidado, sobreviveram até os

dias de hoje.

A partir de 1930, com a separação dos

poderes legislativo e executivo, nascia uma

nova instituição no município: a Prefeitura.

Todas as funções relacionadas ao controle e

uso dos espaços públicos e execução das

políticas públicas municipais passaram a ser

desempenhadas pelo executivo.

O fato é que três grandes conjuntos documentais

foram acumulados ao longo do

tempo: um administrativo, um judiciário e

outro religioso.

Hoje, esses documentos que naquela época

nasceram com funções administrativas e/ou

jurídicas, civis ou religiosas, por serem

antigos, datados dos séculos XVIII, XIXe XX

ganharam outro valor: o cultural e o científico.

Isso significa que a cidade possui um

patrimônio que é único, depositado em

quatro grandes arquivos: O Arquivo

Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana,

que guarda a documentação eclesiástica, o

Arquivo Histórico da Câmara Municipal de

Mariana, que guarda a documentação

administrativa relacionada a todo o Termo

da Cidade de Mariana, o Arquivo Histórico

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Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana

Foto: Arquidiocese de Mariana


da Casa Setecentista de Mariana, que guarda

a documentação judiciária do Termo de

Mariana, e posteriormente, Comarca de

Mariana e o Arquivo da Prefeitura de Mariana,

que guarda a documentação administrativa

municipal posterior a 1930.

As riquezas desses acervos os tornam procurados

por muitos pesquisadores brasileiros

e brasilianistas, pois neles são encontrados

as provas da existência de Mestre

Athayde, Antonio Francisco Lisboa, o construtor

Arouca etc. Sem esses documentos,

como saberíamos que a população escrava

era superior à população livre e que, embora

a colonização fosse do europeu, a população

era negra e mestiça? Como descobrir

que o fausto da economia aurífera era falso?

Como entender o processo de expansão

da zona urbana da cidade? A cidade era

melhor que hoje? Como reconhecer e se

reconhecer na cultura de nossos antepassados!

Desta forma, os arquivos são um tipo de

instituição que guardam a memória da sociedade

que o gerou.Os documentos são

importantes porque são fontes de informação

sobre a cultura, as relações sociais,

econômicas, entre tantas outras possibilidades

de pesquisa, tantas quantas nossa

criatividade permitir. Os documentos, por

tratarem de fatos e atos específicos de uma

sociedade, pessoa, época, são únicos.

Cada documento constitui uma unidade

particular, mesmo que serial. Diferentemente

dos livros de bibliotecas que são editados

em maior quantidade de unidades. Quando

deixamos um arquivo se perder, se deteriorar,

queimar, jamais será substituído por

completo, mesmo havendo cópias de segurança,

simplesmente, por serem cópias. É

como a queima das mais de 80.000 cobras

do instituto Butantã, no ano de 2010. Muitas

com mais de cem anos. A perda não foi calculada

pelo número de cobras, mas pelo

valor genético que elas representavam para

a pesquisa no Brasil e no mundo. Assim são

os arquivos, em especial os de Mariana,

visto que guardam, não só informações

sobre a cidade e seu povo, mas também de

boa parte do Estado de Minas Gerais.

Uma política de preservação da cultura de

um povo e de seu patrimônio, não terá êxito

se deixar de lado os arquivos. Um patrimônio

edificado, não enseja em si valor apenas

estético, mas dele nos interessa saber, também,

quem o construiu, a técnica utilizada,

os materiais, o valor financeiro, o tempo de

execução, o seu significado para a comunidade

etc. Muitas dessas informações terão

de ser buscadas nos arquivos.

Não existe arquivo morto. Um arquivo morre

quando nós o matamos, por vontade, ou

omissão. Assim disse um estudioso da

arquivologia, em 1913, “o grau de civilidade

de um povo se mede pela forma como cuidam

de seus arquivos”. Disse isso, não por

acreditar que é nobre cuidar das coisas antigas,

por serem simplesmente antigas ou

belas, mas por possuírem valor informativo

de relevância para a cultura e a ciência. Ele

não está preocupado em preservar o que

ficou do passado como se fossem relíquias,

exemplares de um tempo que não voltará.

Não! Ele está preocupado também com o

futuro.

Os arquivos constituem um tipo de lugar tão

importante quanto os museus. Preservá-los

é necessário se queremos construir uma

sociedade livre e democrática. Não há

como edificar a liberdade e a democracia

sem que todos tenham acesso à informação

e ao conhecimento. Preceito tão importante

que está definido na Constituição Brasileira,

em seu artigo 5º, incisos XIV e XXXIII que

tratam do acesso a informação e aos documentos

públicos. Não há garantias de que

os cidadãos tenham acesso à informação

se os documentos não forem preservados

ou estiverem inacessíveis. Cabe aos municípios

a preservação da documentação

pública municipal, é o que diz o parágrafo

2º, do artigo 216, da Constituição Federal.

Entretanto, uma pesquisa recente, feita

pelo Conselho Nacional de Arquivos concluiu

que apenas um por cento dos municípios

brasileiros possuem arquivos.

Maria José Ferro de Souza e Maria Tereza Gonçalves

Arquivo do Museu da Música - Foto Paulo Castanha

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Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana

Foto: Arquivo do Museu da Música de Mariana


Por que o número é tão baixo? Por duas

razões maiores. A primeira é de ordem

política. Não há política pública nos municípios

para o setor. A maior parte dos investimentos

que existem são com recursos do Estado

ou da União, através das políticas de incentivo

à cultura. A segunda é de ordem técnica.

O Conselho Nacional de Arquivos considera

arquivo somente aquelas instituições que

desempenham suas funções tanto de custódia,

como de preservação, de difusão de

seus acervos e de gestão documental, como

definido na lei federal de arquivos 8.159/91.

Não significa que apenas um por cento dos

municípios possuem documentação preservada.

Significa que muitos municípios não

tem nenhum tipo de política ou ação de

preservação de seus documentos. Significa

também que muitos municípios transferem a

guarda de seus documentos à Casas de

Cultura, Centros de Memória ou Fundações

Culturais, para deles tomarem conta.

A lei federal de arquivos aponta o contrário,

responsabilizando diretamente o executivo

municipal pela definição de uma política

municipal de arquivos públicos e privados,

pela criação e manutenção de um arquivo

público municipal e organização de um

sistema municipal de arquivos. Isso por duas

razões óbvias. A primeira é ordem constitucional.

O poder público não pode transferir a

instituições culturais a responsabilidade de

preservar e dar garantias legais aos documentos

ali depositados. Os documentos

públicos, mesmo que muito antigos, ainda

servem como prova de direito. Um arquivo

público é uma instituição que tem fé pública.

Por outro lado, é a forma do arquivo ter

acesso aos recursos do orçamento público. A

segunda é de ordem conceitual. No Brasil,

confundimos o conceito de arquivo. Não

raro, transformamos os arquivos em espaços

cuja função é quase exclusivamente de

conservar os documentos antigos e disponibilizá-los

aos consulentes. Por tal razão,

esses espaços acabam se transformando

em lugares de pouca importância no contexto

da vida da instituição que gerou o documento

e da própria comunidade. Um arquivo

vivo, moderno, desenvolve seu trabalho ao

longo das três idades dos documentos: a

corrente, a intermediária e a permanente.

José Geraldo Begname

Graduado em História pela UFOP, Especialista em

História pela Faculdade São Luís-Jaboticabal,

Técnico em Conservação e Restauração pela FAOP.

Professor de História e Gestor de Arquivos.

Inauguração das Novas instalações do Arquivo

Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana

Foto: Arquidiocese de Mariana


Casa Setecentista de Mariana

Foto: Cristiano Casimiro


Arquivo Histórico da

Casa Setecentista de Mariana

Em 1944 o Instituto Histórico e Geográfico

de Minas Gerais (IHGMG) elaborou uma

proposição para a concessão do título de

Monumento Nacional para a cidade de

Mariana. A proposta foi encaminhada para o

então Serviço do Patrimônio Histórico e

Artístico Nacional (SPHAN), atual Instituto

do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

(IPHAN), que deliberou favoravelmente ao

pedido no ano seguinte. Entre os argumentos

do texto original da proposta que justificaram

o reconhecimento da “cidade monumento”,

a diretoria do IHGMG, -cujo proponente

mais empenhadofoi o marianense

Salomão de Vasconcelos -, destacoua

relevância dos “preciosíssimos arquivos

coloniais, civis e eclesiásticos” preservados

na cidade.

Não por acaso, além de ser reconhecidamente

a“cidade monumento”,Mariana

também é a“cidade arquivo”. A cidade é

detentora de um patrimônio documentalinestimável

preservado no Arquivo Histórico

d a C â m a r a M u n i c i p a l d e M a r i a n a

(AHCMM), Arquivo Eclesiástico da

Arquidiocese de Mariana (AEAM), Museu

da Música, Arquivo Contemporâneo da

Câmara de Marianae Arquivo Histórico da

Casa Setecentista de Mariana (AHCSM).

O I Colóquio dos Arquivos Históricos de

Marianaocorreu no dia 17 de agosto de

2018 no Museu da Música de Mariana.O

objetivo do evento consistiu em promover o

diálogo entre os representantes e os pesquisadores

dos arquivos históricosmarianenses,

bem como viabilizar a realização de

ações conjuntas de preservação. A mesa

Preservação dos Arquivos Históricos de

Mariana: o papel das instituições, o papel da

sociedade, contou com a participação das

representações dos arquivos históricos de

Mariana, entre eles do AHCSM.

O AHCSM é custodiado pelo Instituto do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

(IPHAN), desde 1948. O conjunto documental

é composto por mais de 50 mil documentosque

contemplam uma extensa região de

Minas Gerais conhecida como Termo de

Mariana, e um amplo recorte temporal,que

abrange os anos de 1709-1956.

A documentação é organizada em três

fundos: Fórum de Mariana, Arquidiocese de

Mariana e Câmara de Mariana. O fundo

Fórum de Mariana é composto por processos

crime, testamentarias, inventários postmortem,

justificações, notificações,

sesmarias, ações cíveis, execuções, cartas

de alforrias, audiências, compras e vendas

de escravos, fianças de criminosos, hipotecas,

notas, procurações, querelas e registros

de testamentos.No fundo Arquidiocese

de Marianacontém livros de irmandades,

livros de assentos de missas e receitas e

despesas de capelas. Finalmente, integram

o fundo Câmara de Mariana os livros de

atas, livros de posturas, livro de distribuições

de datas e águas minerais, livros de

audiências e o primeiro livro da Câmara de

Mariana.

Entre 1948 a 1963 estes documentos foram

armazenadosno edifício da Câmara de

Mariana, quando a então Diretoria do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

( D P H A N ) , a d q u i r i u a a t u a l C a s a

Setecentista. Esta edificação do século

XVIII compõe o patrimônio arquitetônico

nacional e foi destinada para abrigar aquele

que nas palavras do primeiro diretor do

IPHAN, Rodrigo Melo Franco de Andrade,

seria o “precioso acervo documental dos

cartórios”.

Desde 2005, o IPHAN em cooperação

técnica com a Universidade Federal de

Viçosa (UFV), realiza o projeto Digitalização

e Acesso em Meio Digital dos Acervos dos

Cartórios do 1º e 2º Ofícios conservados no

AHCSM. A documentação pode ser acessada

pelo Portal Acervos de Minas Gerais do

Laboratório Multimídia de Pesquisa

Histórica (LAMPEH) da UFV. Até o presente

momento, todos os inventários post-mortem

do Cartório do Primeiro Ofício encontram-se

digitalizados e acessíveis através do Portal.

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Arquivo da Casa Setecentista de Mariana

Foto: Arquivo Cássio Sales


Desde 2005, o IPHAN em cooperação

técnica com a Universidade Federal de

Viçosa (UFV), realiza o projeto Digitalização

e Acesso em Meio Digital dos Acervos dos

Cartórios do 1º e 2º Ofícios conservados no

AHCSM. A documentação pode ser acessada

pelo Portal Acervos de Minas Gerais do

Laboratório Multimídia de Pesquisa

Histórica (LAMPEH) da UFV. Até o presente

momento, todos os inventários post-mortem

do Cartório do Primeiro Ofício encontram-se

digitalizados e acessíveis através do Portal.

Devido a relevância do patrimônio documental

arquivístico preservado no AHCSM

para a memória de Minas Gerais e do Brasil,

encaminhamos uma proposta de candidatura

desse acervo para o Comitê Nacional do

Brasil do Programa Memória do Mundo da

Organização das Nações Unidas para a

E d u c a ç ã o , a C i ê n c i a e a C u l t u r a

(UNESCO). Os Acervos dos Cartórios do 1º

e 2º Ofícios foram reconhecidos pelo

Programa Memória do Mundo em 2018.No

dia 12 de dezembro, no Rio de Janeiro (RJ),

o documento receberá o selo e certificado

de patrimônio mundial da UNESCO. O

Programa foi criado em 1992 para promover

a preservação, o acesso e a divulgação do

patrimônio documental de significância

mundial, regional e nacional.

No Brasil, o Comitê Nacional do Programa

Memória do Mundo iniciou a sua atuação

em 2007, e, desde então, 101 conjuntos

documentais receberam o Registro

Nacional. Destes, 5 acervos arquivísticos e

1 bibliográfico encontram-se em Minas

Gerais. Fazemos votos de que o conjunto

documental custodiado pelo AHCSM contribua

para a preservação, acesso e divulgação

do patrimônio documental marianense.

Em 2018 comemoramos os 70 anos de

aniversário do AHCSM. Registramos a

nossa gratidão a todos aqueles que se

dedicaram a preservação desta documentação:

Rodrigo M. F. de Andrade, Antônio

Ferreira Morais, Maria das Dores Ferreira

Morais, Kátia Spagolla Tavares Napoleão,

João Antero dos Reis, e, principalmente, o

nosso querido Cássio Vinício Sales, não

fosse pelo empenho de todos vocês, certamente

não teríamos acesso a este “preciosíssimo”

acervo documental.

Aline Nascimento Ribeiro

Graduada em História- Universidade Federal de Viçosa

Mestre em Patrimônio Cultural Paisagens e Cidadania –

Universidade Federal de Viçosa

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Foto: Arquivo do Prof. Moacir Maias


Universalizar acervo e

visibilizar às experiências

negras nos territórios de

mineração (Mariana, MG)

O Núcleo de Pesquisa em História Econômica

e Demográfica do Cedeplar da Universidade

Federal de Minas Gerais associou-se à

Vanderbilt University com o objetivo de preservação

da documentação histórica sobre

africanos e seus descendentes que habitaram

o território de Minas Gerais, no interior do

Brasil.

Minas Gerais possuiu uma das maiores

populações negras do país ao longo do século

XVIII e XIX, na condição de escravizados e

também de libertos e negros livres. O impacto

da descoberta de metais preciosos no interior

do Brasil, a partir do final do século XVII,

atingiu a sociedade portuguesa e grandes

parcelas do continente africano. Foi da chamada

África Negra que veio o maior número

de moradores para a nova região de mineração

de ouro e diamante do passado brasileiro.

Esta nova sociedade, em terras de garimpo,

marcou-se pela diversidade étnica, pela

presença de milhares de trabalhadores

africanos e seus descendentes em situação

de escravização e também de liberdade.

Contudo, ainda, há poucos estudos que

exploram as histórias de vida dessa significativa

parcela da população de Minas Gerais.

Inicialmente, o projeto tem como foco disponibilizar

o precioso acervo dos livros de testamentos

do território da primeira capital e

cidade de Minas Gerais, Mariana. O acervo

objeto da pesquisa-ação é um dos mais ricos

corpos documentais sobre a experiência

negra no passado colonial e imperial da região

mineira. Como é de conhecimento dos especialistas

em História do Negro no Brasil, a

documentação sobre esses atores sociais

muitas vezes foi produzida de maneira indireta,

o que torna, ainda mais importante os

testamentos produzidos por mulheres e

homens negros relatando suas últimas vontades.

Revelam, dessa maneira, hábitos, cultura

material, parentesco e inserção social dessa

parcela da população.

Festa de Nossa Senhora do Rosário em Padre Viegas - Mariana - Mg - 2017.

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A série de Livros de Testamentos de Mariana

integram o precioso acervo do Arquivo

Histórico da Casa Setecentista de Mariana,

instituição pertencente ao Instituto do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

(IPHAN). Mariana surgiu no final do século

XVII na corrida do ouro e tornou-se a primeira

povoação mineira com sede administrativa

instalada pela Coroa Portuguesa em 1711.

Acolheu os primeiros governadores que

habitaram o território e a partir de 1745 tornouse

a capital eclesiástica de Minas Gerais.

O projeto tem por objetivo dar visibilidade às

experiências negras do passado que marcaram

a realidade de extenso território de Minas

Gerais. Por exemplo, em 1781, a africana

Francisca da Conceição revelou como, pelo

seu trabalho e indústria, conseguiu conquistar

a liberdade após ser escravizada e enviada da

Costa da Mina para o Brasil. Posteriormente,

se instalou no então Arraial de Bento

Rodrigues, em Mariana, no qual se tornou

proprietária de uma estalagem que também

era um pequeno comércio. No seu testamento,

registrou que comprava produtos da cidade

do Rio de Janeiro para abastecer seu pequeno

empório/hospedaria. Para cuidar de seus

negócios, contava com os trabalhadores

Sebastião, Damião e Matheus Angola, além

de Felizarda e Maria Mina - todos africanos

como sua senhora. Sua casa, como muitas

outras, era uma pequena África no coração de

Minas Gerais. Francisca da Conceição tornou-se

destacada devota de São Benedito

ocupando os cargos de juíza e Rainha. Ela

desejou que sua última morada fosse a tumba

de São Benedito na Capela de São Bento do

Arraial de Bento Rodrigues. Outro africano,

que passou a se registrar como Inácio

Fagundes, morador na sede da Vila do Carmo

(atual Mariana), deixou a escravidão após

comprar a sua liberdade por elevada soma.

No seu testamento, escrito em 1732, registrou

que além de ser chefe do seu domicílio, era

proprietário de parte de uma mina de ouro na

vizinha localidade de Vila Rica.


Foto: Arquivo do Prof. Moacir Maias

Igreja NS do Rosário de Padre Viegas - Marezza PHOTO


Em sua casa, viviam, ainda, sua esposa,

mais cinco africanos com filhos, no total de

onze membros.

Durante a primeira etapa do projeto,

inventariamos todos os 84 códicescontendo

testamentos do ano de 1716 até 1949,

uma importantíssima série documental.

Contamos com um banco de dados, com

as informações gerais de cada códice,

com mais de 8.000 indivíduos listados,

entre testadores (4.294) e seus testamenteiros.

A construção do banco de dados e

seu preenchimento foi fundamental tanto

para a localização geral dos indivíduos,

quanto para a identificação de mulheres e

homens negros que deixaram seus testamentos

registrados.

Posteriormente, com a identificação dos

testadores negros, empreendemos leitura

minuciosa de 281 testamentos manuscritos.

Construímos um banco de dados da

população negra testadora, com informações

detalhadas sobre cada indivíduo:

relações familiares; relações de trabalho;

suas casas; outras propriedades; e seu

p a p e l a s s o c i a t i v o n a s o c i e d a d e .

Importante, enfatizar, que número significativo

desses atores sociais eram africanos,

o que possibilitará a produção de

estudos variados sobre àqueles que

nasceram em outro continente e vivenciaram

a diáspora para as Américas.

Vivenciaram tanto a escravidão, quanto a

liberdade. Temos, então, valioso conjunto

de dados que será disponibilizado, juntamente,

com o acervo digital da documentação.

Informações sobre pessoas negras

chefes de domicílios ao longo de três

séculos.

O nosso trabalho, após a realização das

etapas anteriores, deteve-se no processo

de digitalização dos 84 livros de testamentos.

A digitalização da referida documentação

colaborará para a preservação da

preciosa coleção e, particularmente,

assegurará a existência de um registro

digital da mesma. Foi digitalizada toda

série documental que cobre o período que

vai de 1729 a 1956. O processo de digitalização

produziu mais de 45 mil imagens

nos formatos RAW e JPG.

O projeto contou inicialmente com o apoio

do edital “Preservação e acesso aos bens

do patrimônio Afro-Brasileiro” promovido

pelo Minc e pela UFPE.

A universalização dessa preciosa documentação,

sobre parcela da população

negra do passado, contribuíra para a

ampliação dos estudos e produção de

conhecimento em múltiplo níveis. Essa

ação também se insere no amplo contexto

de promoção e efetivação da lei brasileira

10.639/03 – ensino da História da África e

da Cultura Afro-brasileira.

Moacir Rodrigo de Castro Maia

Historiador, doutor em História Social/UFRJ e

coordenador do projeto.


Projeto Arquivo Aberto

Foto: Ana Malaco


Uma pequena História do

Arquivo Histórico da Câmara

Municipal de Mariana.

O sistema de governo municipal baseado

nas câmaras foi legalmente fixado para

Portugal e seus domínios no ano 1504. Em

geral, a câmara era a sede administrativa,

executiva e a primeira instância jurídica

dedicada ao governo do termo concelhio.

Para desempenhar essas tarefas, as

câmaras contavam com uma série de

funcionários, dentre eles destacavam-se o

juiz ordinário ou juiz de fora, os vereadores e

o procurador, eleitos entre os homens

principais da terra com mais de 25 anos.

Apesar da aparente padronização, as

câmaras adequavam-se às contingências

locais, o que implicava em configurações

diversas em todos os cantos do Império

português.

As formas, as composições e as diferenças

das câmaras são assuntos recorrentes na

historiografia luso-brasileira, o que não

afasta a necessidade de pesquisas que

permitam comparações mais detalhadas do

que há em comum e das especificidades

desse órgão administrativo. Por mais óbvio

que seja, vale pontuar que a condição de

viabilidade desses estudos depende da

preservação dos acervos camarários, como

o Arquivo Histórico da Câmara de Mariana.

Tomada a decisão de fundar a Vila do

Ribeirão do Carmo, o Governador do Rio de

Janeiro, Antonio Albuquerque Coelho de

Carvalho, consultou os homens bons da

localidade que, em 1711, “uniformemente

ajustaram e concordaram que eles

desejavam viver neste distrito como Vila em

forma de república, sujeitos às leis e justiça

de Sua Majestade”. Esta história é

conhecida dos historiadores e dos

marianenses em geral. Contudo, há muito a

explorar além das datas e dos nomes. É

significativo o uso do termo república, a

sujeição às leis e à justiça, tal como figura na

citação acima. Do mesmo modo, importa

saber que governador recebeu dos

vereadores eleitos o compromisso de

arcarem com as despesas que envolvia a

criação de uma Casa de Câmara, cadeia e o

t e m p l o m a t r i z . E s s e s d e t a l h e s ,

19

aparentemente insignificantes, revelam que

a ordem local dependia da convergência de

interesses objetivando o “bem comum”. A

história das origens da Câmara de Mariana

ensina que a preocupação com coletividade

deve servir de guia nas ações dos políticos,

das autoridades cíveis e religiosas e de toda

comunidade.

Desde 1711, quando se funda a Vila do

Ribeirão do Carmo, diversos documentos

foram produzidos pela Câmara que, até

1828, seria responsável por atividades que

hoje reconhecemos como sendo atribuições

do legislativo, executivo e judiciário. Parcela

dessa riquíssima herança se perdeu pelo

tempo e o que sobrou encontrava-se

praticamente esquecido em um depósito

contíguo à Câmara, até o ano de 1986.

Nesta data, os historiadores José Guilherme

Ribeiro e Ronald Polito, ex-professores do

DEHIS-UFOP, recolheram, higienizaram e

identificaram 809 volumes que encontravam

no referido depósito. No ano de 1994, o

acervo foi transferido ICHS-UFOP, em

convênio firmado com a Câmara de

Mariana. Dois anos depois, o ICHS recebeu

cerca de 5000 documentos avulsos

produzidos pela Câmara de Mariana entre

os anos de 1711 e a década de 1980.

Atualmente toda a documentação encontrase

higienizada e bem conservada.

Aproximadamente 30% do acervo ainda

precisam ser identificados e organizados,

tarefa que vem sendo executada por

professores e alunos da UFOP, com o auxílio

de dois funcionários da Câmara. Dentre os

progressos na organização e preservação

do Arquivo, cabe mencionar a digitalização,

promovida pelo Arquivo Público Mineiro, dos

809 volumes encadernados. A expectativa é

que nos próximo ano os documentos

digitalizados fiquem disponíveis à consulta

virtual no Sistema de Informação do APM,

democratizando ainda mais o acesso à

informação.


No presente, o referido laboratório cuida de

cerca de 8500 documentos avulsos, 809

volumes encadernados e mais de 1300

exemplares do Jornal Arquidiocesano. São

documentos de extrema importância que

nos contam sobre a história local e nacional

nos séculos XVIII, XIX, XX. Essa

documentação, bem como sua importância

patrimonial e identitária, vem sendo

conhecida pelos alunos das Escolas

Municipais de Mariana por meio do projeto

“Arquivo Aberto”. A inciativa conta com o

apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Pró-

Reitoria de Graduação da Universidade

Federal de Ouro Preto e da Secretária

Municipal de Educação de Mariana.

A manutenção da memória de Mariana

depende de ações coletivas como as que

vêm se desenvolvendo desde 1986. Cuidar

desse legado secular é obrigação das

instituições e dos cidadãos que herdam e

transformam a realidade do tempo passado.

Não obstante as ameaças e dificuldades

o r ç a m e n t á r i a s , n ã o f a l t a r a m à

r e s p o n s a b i l i d a d e o s p r o f e s s o r e s ,

estagiários, alunos e funcionários que

ajudaram a conservar e divulgar a História

de Mariana. Venham conhecê-la!

Prof. Dr. Álvaro de Araujo Antunes

Coordenador do AHCMM; DEHIS-UFOP

Projeto Arquivo Aberto

Foto: Ana Malaco

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Casa Setecentista de Mariana

Foto: Cássio Sales


Criando uma nova coluna de pesquisa:

Um recente trabalho no AHCSM-IPHAN/MG

O Processo de catalogação de um documento

histórico requer uma serie de etapas

e processo até ser disponibilizado para o

pesquisador.

Nas próximas páginas o pesquisador

Carlos Orlando Osório do Arquivo Histórico

da Casa Setecentista de Mariana ( IPHAN)

irá nos mostrar todo o ciclo que o documento

histórico percorre até se disponibilizado

para a população.

Com a chegada dos documentos no arquivo

são executadas as seguintes etapas:

1- Identificação;

2- Higienização;

3- Catalogação; e

4- Disponibilização.


Documentos degradados pelo tempo


1- IDENTIFICAÇÃO

Processo no qual se registra a data, “personagens” e outras informações importantes do documento

e se analisa em qual tipologia arquivística vigente ele se enquadra.

Uma minuciosa leitura da primeira folha pode levar-nos à identificação da data, pessoas envolvidas

e tipo do processo, mas muitas vezes há necessidade de aprofundarmos nas páginas

subsequentes para resgatar suas informações.

24


1- HIGIENIZAÇÃO

Geralmente os documentos chegam ao AHCSM, com um histórico de armazenamentos inadequados,

com sérios níveis de degradação e/ou infestação, atingidos por pragas, fungos, umidade,

oxidação etc. Depois de feita a identificação eles são tratados com técnicas que vão da

simples limpeza até desinfestação por método atóxico (via congelamento

Higienização (limpeza do documento)

Desinfestação por método de Congelamento


Acondicionamento

Capas: se elaboram capas com papel filiset neutro (papel sem resíduo ácido, resistente ao

ataque de fungos e proliferação de bactérias de alta durabilidade de gramatura 68 g/m2) nas

quais se registram a identificação do documento (Códice, Auto, N° de Oficio Data).

Confecção de capas para os documentos

Caixas: se montam caixas de plástico polionda pré-formadas que vão conter uma definida

quantidade de autos (processos) que se denominam “códices”.

Caixa de plástico polionda pronta para conter documentos


Caixas de papel cartão: cartão tríplex de gramatura 280 g/m2, são confeccionadas geralmente,

para a preservação de livros ou documentos gravemente atingidos. Estas permitem uma alta

porcentagem de isolamento do documento.

Caixa pronta


CATALOGAÇÃO

Em forma paralela ao passo anterior se constrói o catálogo que vai identificar Fundo, N° de

Ofício, N° de Auto, Data e Pessoas envolvidas no processo. Sendo esta a mais importante

informação para os usuários do acervo.

Identificação e Catalogação

Imagem do Catálogo

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DISPONIBILIZAÇÃO

Depois de passar pelas etapas anteriores os documentos ficam em um armazenamento

adequado e devidamente indexados para disponibilizá-los aos usuários.

Atualmente temos já catalogados 1015 documentos dessa nova coluna de pesquisa que já

fazem parte de nosso Acervo documental e, em breve, serão disponibilizados para os pesquisadores,

um número ainda não quantificado de documentos no processo de identificação com um

recorte cronológico que percorre o início do Séc. XVIII a primeira metade do séc. XX, com tipologias

diversas, destacando-se: Inventários, Ações Civis, Execuções e também Solicitações de

alistamento eleitoral.

Carlos Orlando Osorio Osorio

Pesquisador

Colaborador do AHCSM-IPHAN/MG

Imagens: Acervo do autor

Foto:Vitor Gomes

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Sé de Mariana

Foto: Cristiano casimiro


Livro de Inventários da Catedral de Mariana

(1749-1904) fará parte do Registro Nacional do Brasil

O Livro de Inventários da Catedral de

Mariana (1749-1904) fará parte do Registro

Nacional do Brasil do Programa Memória

do Mundo da UNESCO. O livro foi

selecionado pelo Comitê Nacional do Brasil

do Programa Memória do Mundo da

Unesco – MoWBrasil, que aprovou dez (10)

candidaturas ao Edital MoWBrasil 2018.

Criado pela Unesco em 1992, o Programa

Memória do Mundo da Unesco/Memory of

the World – MoW reconhece como patrimônio

da humanidade documentos, arquivos e

bibliotecas de grande valor internacional,

regional e nacional, inscrevendo-os nos

registros e conferindo-lhes certificados que

os identificam. Tendo como objetivo

estimular a preservação e a ampla difusão

desse acervo, o MoW facilita a preservação

desses documentos e seu acesso, contribuindo,

assim, para despertar a consciência

coletiva para o patrimônio documental

da humanidade.

A proposta deste registro é do mestrando

do Programa de Pós-Graduação em

Estudos Linguísticos da Universidade

Federal de Minas Gerais, Marcus Dores.

Natural de Mariana, ele desenvolve pesquisas,

no âmbito da linguagem, com o "Livro

de Inventários da Catedral de Mariana

(1749-1904)". Por meio da Linguística

Histórica, o pesquisador debruça-se sobre

o manuscrito para investigar um estágio

pretérito da língua portuguesa.

Em uma das etapas metodológicas da

pesquisa, Marcus propõe a edição conservadora

do Livro de Inventários. Essa etapa,

além de permitir que o pesquisador realize

suas investigações linguísticas, contribui

também com a preservação do manuscrito

original, que encontra-se arquivado no

Arquivo Eclesiástico Dom Oscar de Oliveira

(Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de

Mariana).

Segundo Marcos foi uma surpresa receber

o resultado final. “No primeiro momento eu

fiquei surpreso, pois eu conhecia outros

bens que estavam participando do processo

e sabia que eram acervos de maior

número. Mas, eu estou trabalhando com

este documento há dois anos e reconheço a

importância deste manuscrito para a história

de Mariana e de Minas Gerais, justamente

por ele trazer o inventário da igreja

sede do primeiro bispado do interior do

país”, disse. Para arquivista e secretária do

Arquivo Eclesiástico,Luciana Viana

Assunção, essa conquista é muito significante

e só ressalta a riqueza do documento.

Todo o edital e processo foram autorizados

pela Arquidiocese de Mariana. No dia 12 de

dezembro, no Rio de Janeiro (RJ), o documento

receberá o selo e certificado de

patrimônio mundial da UNESCO.

Fonte: Arquidiocese de Mariana


Salomão de Vasconcelos

Salomão de Vasconcellos nasceu no dia 2

de janeiro de 1877, na Fazenda S. João de

Crasto, na cidade de Mariana. Foi herdeiro

de uma das famílias mais ilustres dos

primórdios de Minas Gerais, é filho de

Francisco Diogo de Vasconcellos (irmão do

a f a m a d o h i s t o r i a d o r D i o g o d e

Vasconcellos) com D. Maria Madalena

Vasconcellos. Seu tataravô foi Conselheiro

J o s é J o a q u i m d a R o c h a , u m d o s

personagens mais destacados da História

do Brasil. Além destas figuras, destaca-se

também Bernardo Pereira de Vasconcellos,

que foi deputado geral por Minas, ministro

da Fazenda, da Justiça e do Império e um

exímio jornalista. Esta genealogia mostra

que Salomão de Vasconcellos nasceu em

meio a uma família abastada e de grande

participação na vida política da região e do

Brasil, carregando consigo a mesma

preocupação com a terra natal.

Com 15 anos de idade foi morar em Ouro

Preto na casa do seu tio, Diogo de

Vasconcellos, fato que viria a ser decisivo

na sua carreira enquanto historiador. Em

1899 ingressou na Faculdade de Direito e

se forma no ano de 1903. No ano de 1915

Vasconcellos conclui o curso de medicina,

que lhe rendeu duas medalhas após sua

participação na Primeira Grande Guerra

Mundial (1914-1918). Em 1906 casou-se

com D. Branca Tereza de Carvalho da

tradicional família fluminense do Barão de

Itambi e do Visconde de Itaboraí.

Depois de anos atuando na medicina e no

direito foi nas letras que se reconfortou,

“fazendo-se escritor, agora embalado por

esta outra constante de todo homem culto –

o amor ao passado”. Convidado pelo então

Prefeito de Mariana, Dr. Josafá Macedo

para organizar o arquivo municipal,

Vasconcellos se encantou com o passado e

suas nuances. Após um ano de organização

do arquivo municipal de Mariana,

Vasconcellos foi convidado por Dr. Rodrigo

Melo Franco, então diretor do Patrimônio

Histórico e Artístico Nacional, para

colaborar com as pesquisas do SPHAN.

Além de colaborador, foi também

representante, de 1938 à 1945, do 3°distrito

do SPHAN em Minas Gerais, cargo que

passou a seu filho Sylvio de Vasconcellos.

Foi nessa fase da vida que publicou a maior

parte de suas obras e se filiou a diversas

instituições. Uma importante instituição em

que fizera parte foi o IHGMG, Instituto

Histórico e Geográfico de Minas Gerais,

onde exerceu papel fundamental no

processo de tombamento da cidade de

Mariana como Monumento Nacional, em

1945.

Considerado um grande historiador no

âmbito da História de Minas Gerais, suas

obras são importantes no cenário da

produção historiográfica mineira na primeira

metade do século XX, um tempo marcado

pelo “redescobrimento do Brasil” através da

política do Estado Novo.

M a r c a d o p e l a i n t e n s a d i s c u s s ã o

patrimonial, as obras do Salomão de

Vasconcellos explicitam claramente a

urgência na “patrimonialização” dos

símbolos daquilo que para ele são

essenciais para a formação de uma

identidade – a tradição religiosa, a arte e a

política – e que estavam se perdendo em

meio ao acelerado processo modernizador.

A pedido do prefeito de Mariana, Dr. Josafá

Macedo, Salomão de Vasconcellos

organizou o arquivo da Câmara Municipal

de Mariana, fato que, aliado também à

organização do Arquivo Público Mineiro,

sentiu-se incentivado a escrever suas obras

historiográficas. O incentivo aumentou

quando, Dr. Rodrigo Melo Franco de

Andrade o convidou para ser colaborador e

representante do 3º distrito do SPHAN em

Minas Gerais cargo que ocupou de 1938 a

1945. Apesar de já ter escrito em 1936 sua

primeira obra, que o coloca na discussão

em torno da preocupação com a identidade

e o patrimônio mineiros, foi no período que

esteve no SPHAN que publicou a maioria

delas.

A partir daí, foi ele um grande estudioso do

passado, conhecedor da arte colonial e um

especialista em história de Minas Gerais,

sendo chamado de Mestre por outros

intelectuais. O propósito de suas obras não

era a de um guia de curiosidades, elas

evocavam valor para o conhecimento e para

a arte, com reflexões sobre a identidade

mineira e seu patrimônio.

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