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gênero, idade média e interdisciplinaridade ST ... - Fazendo Gênero

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Virgindade: nas cartas

Virgindade: nas cartas de Clara e nas Legendas Menores No início da Idade Média, a preocupação da Igreja com a mulher era mantê-la afastada das tentações. Sendo ela considerada mais próxima da carne, era relevante preservá-la do estímulo de seus sentidos através do sexo. O meio encontrado foi o discurso da superioridade da virgindade. Ela era a garantia da ascese, o retorno à origem e à imortalidade. Nos conceitos de Crisóstomo e Gregório de Nissa, respectivamente temos: “O corpo virgem era o templo da alma para o movimento ascendente rumo a Deus” e “Ser virgem era dedicar-se à contemplação, exercício inseparável da incorruptibilidade do corpo.” 8 Conservando-se virgem, a mulher não poderia desejar o que nunca conhecera: os prazeres do corpo. Ao estabelecer o ideal de virgindade, a Igreja exercitava seu poder sobre a sociedade como um todo, e sobre as mulheres em especial. Esse discurso, juntamente com o da suposta fragilidade feminina, legitimavam o controle e a tutela das mulheres. Dentro dessa tutela, podemos destacar, ainda, o sistema de parentesco patriarcal, que se constituiu como uma forma primária de controle sobre o corpo da mulher. Ressalte-se que não é o sistema de parentesco em si que gera as desigualdades. Essas são produzidas no momento em que um sexo busca encontrar mecanismos para subjugar o seu sistema de parentesco, transformando-o em um sistema de parentesco matriarcal ou patriarcal. 9 No contexto histórico de Clara de Assis, esse sistema era francamente patriarcal. O contrato sexual, implantado dentro do patriarcado, seria o domínio dos homens sobre o corpo da mulher. A virgindade estava ligada a esse contrato, que era a base do sistema de parentesco patrilinear. Através da virgindade, o pai estabelecia alianças com outras linhagens, propondo o casamento de sua filha virgem. O matrimônio seria a concretização do poder do homem sobre a mulher, evidenciando que ela não tinha domínio sobre o seu próprio corpo. 10 Relações de gêneros foram construídas. Neste contexto, podemos situar Clara de Assis. Ela foi uma mulher que se impôs contra algumas dessas diretrizes de gênero. Descendente da nobreza italiana, Clara de Assis não acatou os padrões impostos pela sociedade da época. Ela vendeu seu dote e o doou aos pobres, como podemos perceber no relato de sua irmã Inês de Assis, 12ª testemunha no Processo de Canonização: “(...) Clara concordou com o que ele (Francisco) dizia, renunciou ao mundo e a todas as coisas terrenas e foi servir a Deus o mais depressa que pôde. Pois vendeu a sua herança e parte da testemunha (Inês de Assis) e deu-a aos pobres” (ProcC. 2-3) (grifo nosso). Em vez de casar-se com um nobre, ela escolheu casar-se com Jesus Cristo, aderindo à vida religiosa baseada nos ensinamentos de Francisco de Assis: pobreza e humildade.

Ao aderir à vida religiosa Clara de Assis não tinha a pretensão de ser mais uma religiosa em mais um grupo religioso, ela almejava viver segundo os ideais de Francisco de Assis e em virgindade. Como a virgindade foi vista, por Clara, nesse contexto? Nas quatro cartas que ela escreveu para a princesa da Boêmia, Inês de Praga, um dos pontos de destaque é o tema virgindade. O semantema virg. aparece 15 (quinze) vezes nas quatro missivas, estando associado ao casamento com Cristo e a Inês de Praga: “O Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta” (1CtIn 7) (grifo meu); “Amando-o, sois casta; tocando-o tornar-vos-eis mais limpa; acolhendo-o, sois virgem..” (1CtIn 8); refere-se também a Virgem Maria: “Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem depois do parto.”(3CtIn 17); e, também, a outras mulheres que aderiram à vida religiosa.: “Minhas filhas também, de modo especial a virgem prudentíssima Inês, minha irmã ( Catarina, irmã consangüínea de Clara, teve seu nome mudado por Francisco quando tornou-se Damianita, passando a chamar-se Inês) (...)”(4CtIn 38) (grifo meu). Ele também mantém ligação com a pobreza: “Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre.” (2CtIn 18) (grifo meu). Nas cartas dedicadas a Inês de Praga, percebemos, em uma primeira análise, que Clara incorpora o discurso dos Pais da Igreja sobre virgindade, que era respeitado e aceito pela sociedade. Permanecendo virgem a mulher alcançaria a ascese, casando-se com Cristo ela seria mãe, esposa, irmã, mantendo-se íntegra. Em uma análise mais contextualizada, detectamos que Clara, ao assumir o discurso da Igreja no tocante à virgindade, ela o fez com o intuito de se tornar sujeito de um outro discurso que realmente lhe importava. Ela desejava para si e suas irmãs um viver religioso segundo os moldes franciscanos e desligar-se da dominação masculina. O viver religioso significava também vias de acesso ao controle do corpo pela mulher, permitindo que ela se dedica-se aos estudos e aos trabalhos intelectuais. Cabe ressaltar que a relação com a linguagem não é jamais inocente. Nenhum discurso é ingênuo. A nova forma de vida de Clara de Assis aparece em um trecho de sua primeira carta: “Porque, embora pudésseis gozar, mais do que outros, das pompas e honras deste mundo, desposando legitimamente o ilustre imperador (...) rejeitastes tudo isso (...)”(1CtIn 5-7). Depois, é ratificado na segunda carta: “Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre.” (2CtIn 18). Ao ligar virgindade à pobreza, Clara e suas irmãs se opuseram a qualquer relação terrena, pois esta estava ligada à riqueza e era um vínculo para a estabilidade das famílias, o casamento da mulher nobre representava a manutenção desse vínculo em que ela ficaria submetida ao poder do marido, assumindo o papel secundário de somente procriar. Através da virgindade a mulher poderia almejar viver em pobreza, uma vez que a pureza interior e a entrega a Deus eram características associadas à virgindade por Clara

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