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meninos e meninas de rua, sexu - Fazendo Gênero

meninos e meninas de rua, sexu - Fazendo Gênero

obrigações. E é aí,

obrigações. E é aí, neste universo da maternidade como possibilidade concreta de mudança de status , muitas vezes pensada como positiva, que se colocam as considerações a seguir. Como a maternidade pode ser diferentemente significada, e como pode ser ela parte de um projeto de futuro que, para parte destas meninas de rua, deve acontecer no agora. Nestes quase três anos de pesquisa, quatro meninas da Galera (duas com 12, uma com 11 e uma com 15 anos) ficaram publicamente grávidas. E a responsabilidade pela gravidez foi colocada, em todas as vezes, sobre as meninas. Na opinião da maioria dos/das integrantes da Galera, são elas que devem cuidar para que isto não aconteça, e é também sobre elas que recaem as maiores consequências da gravidez. As duas meninas que tiveram filho voltaram para casa depois do parto, mesmo que por um período relativamente curto. Nas falas da Galera, parece que devem fazer jus e serem responsáveis pelo que fizeram : “ninguém mandou embarrigar, entao agora agüenta” viii . Vale a pena também pensar no papel duplo que a maternidade ocupa no imaginário das meninas da Galera: ao mesmo tempo aparece como uma possibilidade de projeto de futuro, mudança de status e remédio para a solidão (é a construção de um certa de um núcleo familiar, mesmo que os homens não queiram assumir as crianças) e como a indesejável morte da liberdade (inclusive sexual) propalada nas ruas, e de um possível abandono futuro, desta vez por parte das/os filhas/os. Nas palavras de Kelly, de 15 anos: “Tem várias vez que penso que queria pegar filho. Era certeza de não viver mais só, de ter alguém do meu lado, sabe? Porque macho, esses vai e vem, num é certeza de nada. Quando eu ficar grávida, certeza que num é pra prender macho. Desde quando que menino prende macho? (...) Mesmo tempo, eu fico pensando assim, que se eu tiver filho que nem eu mais Washington (irmão de Kelly, também da Galera), vou continuar é sozinha mesmo. Minha mãe sempre que diz, que de castigo vou ter filha trejeira que nem eu, que vai largar de mim cedinho. E aí, no que eu penso é nisso: vou perder minha liberdade, sabe, assim, de poder ir com quem eu quero, pra depois menino vim me deixar sozinha?” Aparece na fala de Kelly o outro aspecto da esperteza dentro da sexualidade das meninas : ficar grávida para prender macho. Se é por ser espertas que elas fazem sexo, é por serem mais esperta ainda que ficam grávidas, de quem quiserem, para ter poderes de barganha frente à sexualidade masculina, que encontra alguns limites nas

esponsabilidades parentais. Também para os meninos, “ter filho é assim responder por alguém sabe, ser assim honrado de botar comida pro filho comer, de guiar a pessoa” ix . Mesmo assim, a responsabilidade pela concretização da gravidez, nas falas da Galera, é das mulheres: elas que não foram prudentes, os meninos apenas colocaram mais uma vez em prática sua sexualidade não plenamente controlável x . E é exatamente por isto que a esperteza das meninas que querem engravidar triunfa. Dentro desta discussão sobre sexualidade e maternidade/paternidade, colocou-se a questão das campanhas públicas para o uso da camisinha xi . A camisinha aparece sempre como meio de evitar doenças, mais do que como método contraceptivo.Parece ser importante usar camisinha quando se faz sexo com alguém que não seja sua namorada, para não “pegar pereba”, não “ficar sujo”. A camisinha parece ser pensada como um barreira para a poluição: é possível penetrar o impuro e nem por isto abrir mão da pureza. Interessante notar que o uso ou não da camisinha parece ser uma prerrogativa masculina, ao contrário dos outros métodos anti-concepcionais. Mas, ao meu ver, a camisinha , dentro da Galera, é muito mais um modo de os homens não pegarem doenças do um método contraceptivo. Talvez por isto mesmo seja uma prerrogativa masculina: as mulheres devem cuidar de sua reputação e de seus corpos, não trepando com quem não seja seu namorado e garantindo assim sua pureza. A sexualidade (assim como a violência) parece desempenhar um papel crucial na construção das identidades destes meninos e meninas, aparecendo como um dos possibilitadores da movimentação entre o ser criança e o ser adulto no universo das ruas. É dentro deste universo, marcado pela circulação entre lugares físicos e sociais, que se produzem e reproduzem valores permeados por constuções de gênero que, ao mesmo tempo em que cristalizam concepções de vários mundos morais, colocam novas questões. O desafio é não reduzir estes meninos e meninas à sexualidade e à violência, tentando dar conta da pluralidade de valores, vivências e representações acerca destas e de outras questões. Mais do que isto, o desafio é perceber que os meninos e as meninas da Galera não são “menores”. Pensam-se e repensam-se constantemente, construindo suas identidades de adultos baseadas em valores como a liberdade, a esperteza e a valentia. Referências Bibliográficas

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