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1 Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 o intuito de compor o seu eu, um eu que, no mundo contemporâneo, continuará em composição contínua ao longo de toda a sua existência, durante toda a sua convivência com o diferente. Para mulheres adultas que regressam à escola, a sala de aula pode constituir-se num espaço de fuga da opressão sofrida no ambiente doméstico através da figura do marido, uma vez que no colégio elas interagem com outras pessoas, riem, esquecem um pouco dos problemas, ou, ao contrário, lembram-se deles e sentem-se livres para refleti-los, para questioná-los. Assim, às vezes, a sala de aula pode tornar-se muito mais o espaço no qual essas mulheres discutem conflitos que repercutem em suas identidades pessoais e coletivas, do que espaço no qual se aprende, conforme relato de Sara 1 : Eu gosto de ir pro colégio, porque tem os amigos, as amigas, a gente brinca, a gente conversa, um diz uma coisa, a gente ri. Eu acho legal. Entendeu? Mas, pra eu ir pra aprender, eu não gosto, porque… Eu quero aprender, mas não entra nada na minha cabeça. (Sara). Notamos essa negociação e reformulação de uma identidade de gênero antes atribuída à mulher, quando escutamos o seguinte comentário de uma entrevistada: […]. E ele mesmo, em algumas vezes, tem falado. Muito antes de eu fazer, de eu falar com ele, ele dizia: “Olhe, depois que voltou pra escola, você está muito atrevida. Você não era assim”. Ele mesmo achou que eu mudei, ele acha que eu mudei, e eu também acho, eu acho que hoje eu sou mais eu. (Nilda). Acreditamos que o retorno à vida escolar pode favorecer a reformulação de significados sociais atribuídos a si mesma e a resistência ao poder exercido pelo homem. Depois da retomada de sua trajetória escolar, Nilda parece ter mais consciência de si: “hoje eu sou mais eu”. Esse trecho demonstra a assunção de uma postura que converge para modificar a identidade de gênero antes assumida por ela – uma mulher que se mostrava submissa e sofria a violência física. Agora, ela mesma afirma que, se antes o esposo tinha a plenitude da voz e ela recebia a obrigação do silêncio, hoje a sua atitude é outra: […] ele falava, eu me calava, ficava calada mesmo. E, mesmo assim, é o tipo da coisa: se falasse, ele vinha pra cima de mim; se eu não falasse, também vinha. Aí, pronto, eu apanhava de qualquer maneira. E, agora, ele já fez ameaças, faz muito tempo que ele fez ameaças, mas, aí, eu enfrentei: “Vai fazer novamente? Faça. Você quer fazer? Você faça, mas você vai se arrepender”. E, antes, eu não falava isso. Eu acho que tudo isso tem a ver com a minha volta à escola. Eu acho… eu tenho mais, mais… estou mais instruída, estou mais aberta. Eu acho. (Nilda). Observamos que, apesar de o esposo exercer uma influência muito forte sobre a sua vida, Nilda também passa afetar a vida dele e a sua, resistindo às forças que lhe afetam. É imprescindível que registremos que poder aqui não é concebido como algo possuído e utilizado para demonstrar a 2

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 sua autoridade e até autoritarismo sobre os outros. Talvez o esposo de Nilda e ela mesma pensem assim, mas, caso concordemos com tal idéia, concluiremos que, por toda a sua vida, ela ficará subjugada a esse homem e nada fará para mudar. Esses posicionamentos estão comprometidos com discursos totalizadores, heterossexistas e androcêntricos, que concebem mulheres como portadoras de uma essência que as destina à assunção de uma identidade marcada pela fragilidade, submissão, obediência e incapacidade de tomar decisões sobre a sua própria vida. No seguinte relato de Concita, podemos observar um posicionamento que concorre para alterar a identidade de gênero antes assumida: […] do jeito que eu estou aqui, apanhava do jeito que eu estava aqui, sentadinha, que naquela época a mulher tinha medo do homem. Agora, que não existe mais isso, as mulheres querem ser mais que os homens e estão trabalhando pra isto, não é? […]. Estudando, se formando, se casa, ninguém é de ninguém: você vive a sua vida; eu vivo a minha, né? […]. Aí, por diante, é a mulher subindo e a mulher subindo e a mulher subindo. E os homens lá embaixo. […]. (Concita). A idéia de que o homem pode bater na mulher parece ser compartilhada por algumas vítimas. Com o enunciado “[…] naquela época a mulher tinha medo do homem”, Concita justifica a situação vivenciada por ela na época do seu casamento, condição de quem apanha “sentadinha”, sem reagir. Nilda afirma calar-se, porque “apanhava de qualquer maneira”, desautorizando uma possível reação – “ficava calada mesmo”. Para alguns, isso pode ser exercício de poder; para outros, apenas prática de violência. Essa noção de poder está associada à repressão, como se os efeitos de poder fossem somente negativos. De fato, ela é encontrada em muitos estudos preocupados com relações entre sexos, com condições de vida de mulheres e com questões de gênero. Todavia, não é assim que a enxergamos e queremos enxergá-la. Resistimos a esses discursos, embora sejamos conscientes da violência, da dependência financeira, da dependência psicológica de que muitas são vítimas, geralmente em relação a homens presentes em suas vidas. É numa perspectiva foucaultiana que tomamos o poder, que não possui essência repressiva, que é algo em exercício e que se encontra ao alcance de todos. Para Foucault (1979; 1995), poder corresponde à relação de forças: forças que se confrontam com outras forças, poderes que interagem com outros poderes, revelando-se nas lutas quotidianas, microfisicamente nas várias instâncias da vida humana, além de encontrar-se ao alcance de todos os envolvidos, de todos os interlocutores, – independente de sexo, gênero, classe, etnia, raça, sexualidade, idade –, sem que um se anule face à força exercida pelo outro. São forças que estão em relação a outras forças, que se desenvolvem e se expõem no corpo e através do próprio corpo humano, construindo regimes de verdade em torno dele e regulando as suas ações, através do estímulo, da incitação etc. – o que descarta a idéia de que o poder é, exclusivamente, repressor. Concebê-lo a partir da repressão é tê-lo sob uma perspectiva jurídica, como uma lei que diz não, como o ato realizado por alguém que tinha como propósito 3

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