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1 Gênero: multiplicidade de representações e ... - Fazendo Gênero

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Anais do VII Seminário

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 impedir outrem de fazer algo, como as ações adotadas pelo Estado a fim de coibir os indivíduos de abalarem a ordem social estabelecida. Na verdade, o poder é, sobremaneira, uma rede de forças produtivas, que investe sobre todo o corpo social. Segundo Foucault (1995, p.240), “O termo ‘poder’ designa relações entre ‘parceiros’ (entendendo-se por isto não um sistema de jogo, mas apenas – e permanecendo, por enquanto, na maior generalidade – um conjunto de ações que se induzem e se respondem umas às outras)”. Isso nos remete ao aspecto relacional da categoria gênero, da constituição de homens e mulheres, apontado por Scott (1992); além disso, Scott (1995) defende o gênero como um dos primeiros campos que promovem e sobre o qual promovem a articulação de significados de poder. Para Foucault (1979, p.8), O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir. Nessa citação, quando afirma “o poder não pesa só como uma força que diz não”, Foucault não nega o seu aspecto proibitivo, mas, sobretudo, alerta para as suas possibilidades produtoras, expandindo o horizonte de exercício de poder; ou, melhor dizendo, já que as relações de poder já eram presentes nas diversas esferas da vida quotidiana, essa noção expandiu o nosso horizonte de estudos. Podemos vivenciar essas relações na família, na escola, na religião, na produção científica, na mídia… e não apenas na instituição do Estado. Podemos sentir os seus efeitos positivos muito mais do que os negativos – isso, principalmente num momento histórico em que as práticas discursivas na mídia contribuem bastante para a reformulação, o deslocamento e a fragmentação das paisagens culturais (HALL, 2004), influindo na produção dos sujeitos na contemporaneidade e na ressignificação das identidades desses sujeitos, em termos de gênero, raça, etnia, sexualidade, classe, geração etc. O poder tem como função afetar e como matéria ser afetado. Isso não implica pensar em exercícios de poder qualificados como ativos e outros como passivos. Se a prática de poder é considerada como um afeto e se exercê-lo é afetar outras forças, devemos referir-nos a afetos ativos e a afetos reativos. Conseqüentemente, podemos pensar que, assim como as práticas não-discursivas são irredutíveis às discursivas, as forças que são afetadas também não se reduzem àquelas que as afetam (DELEUZE, 2005). Do mesmo modo, sabendo que as relações de poder estão ao alcance de dominantes e dominados, nenhum interlocutor se subjuga completamente às forças que lhe atacam, porque ele possui a capacidade de resistir, fazendo com que o outro também seja confrontado pelo seu exercício de poder. 4

Anais do VII Seminário Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de 2006 Em seus estudos, Foucault (1995, p.232) apreende como ponto de partida as estratégias de resistência acionadas contra os efeitos do exercício de poder e, assim, pensa os modos de objetivação dos sujeitos: “Era, portanto, necessário estender as dimensões de uma definição de poder se quiséssemos usá-la ao estudar a objetivação do sujeito”. É nessa dilatação das dimensões do poder que Foucault fornece subsídios teóricos e metodológicos para um redimensionamento de estudos sobre mulheres e gênero, a ponto de investirem na desconstrução de significados imputados a partir de uma marca corporal, de um signo, do sexo biológico. Tomando poder como força exercida em relação a outras forças, ele oportuniza a visibilidade das mulheres não mais enquanto sujeitos inertes às atitudes dos homens. Muitas foram as tentativas de alterar essa visão que recaía sobre as mulheres. Temos como exemplo a crítica feminista à prática de historiadores e outros cientistas – investida que contribuiu para uma desconstrução de significados sociais atribuídos a mulheres e homens, concorrendo para a reelaboração de modelos de papéis e identidades de gênero e de sexualidade, que nos são apresentados como se fossem portadores de uma lógica inexorável e como se fossem situados fora dos domínios da cultura e do poder. Nesse sentido, Foucault traz subsídios à crítica feminista através de uma noção de poder que tem como elemento central a resistência, que expõe o corpo como alvo e veículo do biopoder, que se apresenta como uma rede de forças em exercício no quotidiano. As suas contribuições concorrem para desconstruir os regimes de verdade elaborados em torno de determinados objetos presentes nas várias instâncias da vida quotidiana, persuadindo-nos a perceber que “Não há objetos naturais, não há sexo fundado na natureza” (PERROT, 2005, p.501). Também não há gênero instituído na natureza. Inspirados em Foucault (1995; DELEUZE, 2005), podemos afirmar que eles são efeitos de práticas discursivas e de exercícios de poder. Quanto aos aspectos positivos e negativos dos efeitos de poder, é importante lembrarmos que, no âmbito dos estudos de gênero, muitos trabalhos abordam a violência contra as mulheres. Contudo, embora não esquecendo a existência da repressão, não podemos confundir poder com violência, apesar de essa poder resultar daquele. A diferença entre eles é que a atitude violenta tem como alvo corpos, objetos, pessoas, seres diversos, destruindo, deformando, alterando a sua morfologia, enquanto que o poder almeja atingir ações, forças, induzindo, estimulando, motivando, limitando etc. Segundo Foucault (1995), as relações de poder funcionam através do consentimento, que, por sua vez, depende dos discursos e das práticas discursivas que constituem essas relações, das instituições para o controle e a repressão de discursos, gestos, comportamentos humanos, já que o poder se materializa através do controle exercido sobre as ações dos indivíduos, sobre os seus corpos. Foucault (1979) afirmou a materialização corporal do poder, o que não implica que, para ser exercido, tenha de deixar marcas no corpo do outro. Nilda e Concita tiveram os seus corpos marcados por atitudes violentas. No entanto, elas não ficaram sem reagir. Elas reagiram, resistiram, 5

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