Impressões Capixabas 165 anos de jornalismo no Espírito Santo

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Impressões Capixabas 165 anos de jornalismo no Espírito Santo

Impressões Capixabas

165 anos de jornalismo no Espírito Santo

José Antônio Martinuzzo (Organizador)

Ananda Bisi

Andressa Zanandrea

Carlos Calenti Trindade

Ceciana França

Daniella Zanotti

Danilo Bicalho

Fernanda Coutinho

Fernanda Pontes

George Vianna

Gleyson Tete

Guido Nunes

Juliana Bourguignon

Karina Moura

Kênia Freitas

Letícia Rezende

Luciana Silvestre

Luciano Frizzera

Melina Mantovani

Milena Simões Murta

Patrícia Arruda

Patricia Galleto

Raquel Machado

Renata Murari

Ronald Alves

Thiago Dal Col

Nota sobre esse e-book:

Essa é uma versão integral do livro impresso, reformatada para se adequar melhor ao meio

digital. Podem ocorrer pequenos erros, que são decorrentes dos processos usados nessa

conversão. No caso específico do livro 4, não foi usado o reconhecimento ótico pelo

scanner, mas o arquivo pdf original do livro. Para ter acesso aos outros e-books do projeto

Coca, visite o site.

Marcus Vinícius Jacob


Editor e organizador – Professor José Antonio Martinuzzo

Revisão – Vitor Bourguignon

Capa e Projeto Gráfico – Ceciana França e Guido Nunes

Projeto Comunicação Capixaba – CoCa

Fotos – Arquivos pessoais dos entrevistados, Arquivo Público do Estado do Espírito Santo e

Gustavo Forattini (Capa)

Impressão – Imprensa Oficial do Estado do Espírito Santo

Edições anteriores – Rádio Club Espírito Santo – Memórias da

Voz de Canaã; Balzaquiano – Trinta anos do Curso de Comunicação

Social da Ufes; e Diário Capixaba – 115 anos da Imprensa Oficial do

Estado do Espírito Santo.

Universidade Federal do Espírito Santo

Centro de Artes

Departamento de Comunicação Social

Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)

________________________________________________________________________

Impressões capixabas : 165 anos de jornalismo no Espírito Santo / José Antonio

I347 Martinuzzo (organizador) ; colaboradores Ananda Bisi ... [et al.]. - Vitória :

Departamento de Imprensa Oficial do Espírito Santo, 2005.

404 p. : il. , p&b ; 22cm.

2. Jornalismo - Espírito Santo (Estado) - 1840-2005. 2. Imprensa - História -

Espírito Santo (Estado). 3. Comunicação. I. Martinuzzo, José Antonio. II. Bisi,

Ananda. III. Título.

CDU: 070 (815.2)

CDD: 070.5098152

________________________________________________________________________

Eugenia Magna Broseguini – CRB 12ª Região – nº 408


Prefácio

O jornalismo impresso capixaba fez história. E continua fazendo. Os ideais republicanos foram

propagados entre nossos antepassados também por intermédio de uma ação centrada em jornais, na

capital e no interior do Estado. A causa republicana configurou-se como um dos grandes motores

do jornalismo capixaba na segunda metade do século XIX.

Muniz Freire, o primeiro presidente eleito do Espírito Santo, foi um desbravador do

jornalismo. Tendo acumulado experiência na Imprensa em Recife e São Paulo, onde foi estudar

Direito, Freire, aos 21 anos, em 1882, fundava juntamente com Cleto Nunes e Afonso Cláudio o

jornal A Província do Espírito Santo, em defesa da causa republicana e dos interesses capixabas.

Ao longo do século XX, a imprensa não deixou de participar e influir na vida política, social,

econômica e cultural do Espírito Santo. Cito especialmente o jornal Posição, que teve papel

importante na mobilização política nos tempos da ditadura. Juntamente com os companheiros do

movimento estudantil, compartilhei da tarefa de distribuição deste jornal que é um capítulo à

parte 8 na história da luta capixaba pela reconstrução da democracia em nosso País.

Também não poderia deixar de registrar o relevante papel desempenhado pela Folha

Capixaba, O Diário, A Gazeta, A Tribuna, dentre tantos outros, que marcaram ou marcam nosso

cotidiano.

No início deste século, por exemplo, nosso jornalismo impresso fez importantes e corajosas

coberturas que muito contribuíram para que se virasse a página de corrupção e assalto da

máquina pública pelo crime organizado, àquela época reinante no âmbito dos poderes públicos

capixabas.

A Imprensa é um fenômeno das sociedades modernas, em que se estabelecem os poderes

institucionais e organizam-se os movimentos sociais, funcionando o jornalismo como um

importante mediador entre as esferas de poder e decisão política. Ou seja, a Imprensa é um

elemento crucial à política e à democracia que o mundo vem constituindo nos últimos três séculos.


E parece que no futuro não será diferente. Numa era de relações sociais mediadas por

mensagens da mídia, o jornalismo não só mantêm seu papel de informar e formar opinião,

como também se coloca como lugar privilegiado de debate e diálogo de idéias e projetos de vida

coletiva.

Nesse sentido, é importante que se multipliquem os canais de emissão jornalística e, na mesma

medida, se ampliem os meios de acesso da população a tais conteúdos – quando estava no

Senado, por exemplo, dei entrada na Comissão de Educação ao projeto de TVs comunitárias.

Informação, comunicação e educação são pilares fundamentais para a conquista de uma sociedade

de homens e mulheres emancipados, para uma realidade de cidadãos.

A recuperação da história e a elaboração de uma memória do jornalismo impresso capixaba,

objetivos desta publicação, contribuem para o processo de formação da identidade capixaba.

Também nos ajudam a entender nossa trajetória até aqui, fornecendo- nos, dessa forma,

elementos importantes para projetar o futuro.

Como afirmamos, os ideais que ajudaram a constituir o Espírito Santo moderno obtiveram nos

jornais espaço privilegiado, tendo na figura do jornalista Muniz Freire um grande repórter das

potencialidades capixabas. Que os jornais de hoje possam continuar somando para um futuro digno

para todos os capixabas, problematizando o presente, discutindo alternativas e

apontado possibilidades.

No momento em que o nosso Estado reconstrói sua máquina pública e inicia uma outra fase de

sua história político-institucional e econômica, estabelecendo as bases de uma nova era capixaba, a

atuação do jornalismo tem sido peça fundamental. Que boas e melhores notícias estejam sempre na

pauta de todos os capixabas, inclusive nas manchetes dos jornais.

Paulo Hartung Governador do Estado do Espírito Santo .


Apresentação

O quarto volume do projeto Comunicação Capixaba (CoCa), coordenado pelo professor José

Antonio Martinuzzo, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito

Santo (Ufes), é resultado de uma pesquisa cuidadosa acerca do jornalismo impresso. Trata-se de um

produto acadêmico consistente e de leitura indispensável, realizado pelos alunos do curso de

Comunicação Social da Ufes, sob a orientação do professor Martinuzzo.

A rigor, o jornalismo impresso em terras capixabas possui uma história peculiar e que merece

ser contada. Não obstante as novas tecnologias que alimentam mídias mais modernas,

configurando novos e modernos canais de comunicação, o jornalismo impresso possui um traço

marcante como veículo inserido no cotidiano da comunidade. Desde O Estafeta, passando por O

Diário, até os atuais A Gazeta, A Tribuna e Notícia Agora, os jornais impressos possuem uma

marca indelével na história do Espírito Santo.

Rever a trajetória dos jornais capixabas enriquece a nossa história e nos propicia conhecer os

caminhos percorridos até os dias atuais. Os acontecimentos mais marcantes da cena

capixaba podem ser resgatados por meio dos jornais, em cujas páginas podemos compreender a

evolução do Espírito Santo, nos registros dos episódios mais significativos.

Nesta edição, Martinuzzo e seus alunos não dispensam a abordagem de uma questão

fundamental, que é a de tratar do futuro do jornalismo impresso. Com efeito, o jornal feito com

tintas gráficas suscita algumas análises atuais que dão conta de seu estado terminal; outras, porém,

asseveram que o seu espaço nas comunicações é insubstituível, inalienável.

O certo é que estamos diante de um trabalho de grande importância acadêmica, produzido com

dedicação e rigor, cujo resultado deve-se ao esforço do professor Martinuzzo e de seus alunos.

Como reitor da Ufes, quero parabenizar mais essa excelente produção do projeto CoCa,

concebido com o apoio do Governo do Estado do Espírito Santo, um indispensável parceiro da

nossa Universidade. Deixo o meu reconhecimento em nome da comunidade acadêmica.

Rubens Sergio Rasseli Reitor da Ufes


Introdução

O quarto volume do Projeto CoCa é dedicado a um tema que está na pauta das discussões

acerca do futuro da comunicação:

o jornalismo impresso. Originado há vários séculos, mas com suas raízes modernas localizadas

há pouco mais de 100 anos, o jornalismo impresso é uma prática comunicacional que suscita, no

mínimo, duas correntes de pensamento em tempos de novas mídias, tecnologias digitais e internet.

Há aqueles que prevêem o fim das notícias diárias entregues aos leitores a partir da

combinação de tinta e papel. Outros apostam numa reconfiguração do produto, mas não no seu fim.

Existem os que vão além: não é só o impresso que tem sua extinção decretada, mas o próprio

jornalismo.

Este não é um livro sobre o futuro, mas sobre a história do jornalismo. No entanto, isso não

quer dizer que não existam correlações entre essas duas temporalidades. A abordagem acerca do

passado certamente coloca esta publicação a serviço das discussões sobre os dias que virão, pois o

futuro nada mais é que a conseqüência de nossa caminhada.

Iniciamos este volume com uma breve recuperação da história do jornalismo impresso no

mundo e no Brasil. Em seguida, contamos os primórdios dessa atividade em terras capixabas, do

inaugural O Estafeta, em 1840, até 1926. Esse capítulo se baseia num exaustivo estudo elaborado

pelo historiador Heráclito Amâncio Pereira. O inventário A Imprensa no Espírito Santo reúne dados

sobre mais de 400 publicações, entre jornais e revistas que circulavam em todo o Estado. Publicado

pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, foi apresentado no oitavo Congresso de

Geografia, em 1926.

A seguir, abordamos os jornais diários de maior representatividade socioeconômica, cultural e

política no Estado. A Gazeta, A Tribuna e Notícia Agora têm suas trajetórias descritas, com

maior ou menor detalhamento, de acordo com disposição que encontramos por parte das fontes em

nos atender durante a feitura deste livro.

Logo após, recuperamos a história de um dos maiores ícones do jornalismo impresso capixaba:

O Diário. O capítulo foi escrito essencialmente a partir dos depoimentos reunidos no livro O Diário


da Rua Sete, organizado, em 1998, pelo jornalista Antônio de Pádua Gurgel, a quem agradecemos a

cooperação e o compartilhamento do conteúdo. Os autores também fizeram novas pesquisas e

entrevistas, constituindo um texto bastante rico em informações sobre “o maior jornal da Rua Sete”.

O Jornal da Cidade, eternizado pelas polêmicas colunas assinadas por sua proprietária Maria

Nilce Magalhães, assassinada em 1989, é o tema do sétimo capítulo. Em seguida, convidamos

os leitores a fazer um giro pelo Interior do Estado, com uma análise dos principais veículos que

constituem o jornalismo impresso feito além das fronteiras da Grande Vitória.

O capítulo nono é também um convite a uma outra viagem. Um passeio pelo mundo

alternativo dos veículos impressos produzidos fora do esquema comercial da indústria cultural. Os

autores recuperaram informações sobre o comunista Folha Capixaba, dos anos de 1940, e o

Posição, dos anos 70, e também analisaram a imprensa ligada a sindicatos e à Igreja Católica nos

tempos de luta contra a ditadura e de abertura política.

O décimo capítulo traz uma análise da produção de revistas em terras capixabas, marcando

uma trajetória que vai desde as publicações focadas em cultura, no início do século XX, até

os veículos destinados ao consumismo e à fixação pela exposição pública, tão marcantes neste

começo de milênio.

Um início de milênio que, conforme salientamos, debate o futuro do jornalismo impresso,

numa discussão marcada pela perspectiva do fim ou pela certeza de repaginações. Nesse

sentido, formulamos um convite aos professores do Departamento de Comunicação Social da Ufes

para escrever sobre o jornalismo e suas perspectivas. A professora doutora Ruth Reis aceitou o

convite.

Confira suas reflexões no capítulo décimo primeiro.

A decretação inescrupulosa de diversos “fins” é uma febre nesta virada de século. Talvez

porque estejamos num momento de tantas e velozes mudanças, desnorteados pelo tempo real e

aturdidos pela espacialidade global/virtual, a vida contemporânea parece ser um eterno começo

sem-fim. Ademais, as tecnologias digitais são tão alucinantes que a revogação do passado e

seus costumes e práticas é dada como certa.

Como subjetividades marcadas pela intermitente reconfiguração identitária, esta executada

essencialmente por processos comunicacionais, somos levados, em um primeiro momento,


a concordar ou mesmo apostar no fim do passado. Mas, pensando bem e olhando a nossa trajetória

de humanos em perspectiva, podemos notar que o que mais fizemos foi reciclar nossos hábitos, sem

grandes rupturas.

Não há como negar que as tecnologias digitais de comunicação e informação estejam

transformando a prática jornalística que herdamos da moderna era industrial. Em todas as

especialidades, podem-se notar mudanças de apuração, produção, publicação, recepção e interação

entre jornalistas e seus públicos.

Mas se o impresso acabará, essa é uma questão que, por hora, só pode ser tratada como

prognósticos e leituras do passado. Por exemplo, há alguns anos, com a popularização dos

computadores e o boom da internet, pensava-se que o consumo de papel e de livros sofreria um

grande baque. Nada disso ocorreu. No mundo e no Brasil, os investimentos em produção de papel

só vêm crescendo. A indústria cultural planetária não deixou de lado o negócio dos livros e registra

movimentações expressivas em todos os cantos do planeta.

Certamente, tendo pela frente novos consumidores criados diante das telas de computador e

ligados no mundo via celular e outros artefatos tecnologicamente radicais, além da concorrência da

atualização segundo a segundo dos sites de notícias, há de se transformar o jornalismo impresso,

mas sua extinção nos parece lenda de início de milênio.

Com algum exercício de serenidade, podemos vislumbrar um impresso mais analítico e

opinativo, algo que as revistas semanais já exercitam há muitas décadas. Mas, para isso, será

preciso que se constitua uma nova prática nas redações dos jornais e se crie uma nova cultura de

produção e de consumo do impresso, com jornalistas mais bem preparados para a análise e

interpretação do mundo e um público que se ajuste a esse novo tipo de produto jornalístico diário.

Como se vê, este livro conta uma história essencialmente moderna, de um velho personagem

em mutação. Mas, para além do registro da memória de tempos idos, essa publicação também

se coloca como uma alternativa para se entender o atual movimento sociocultural e econômico, ao

mesmo tempo em que ajuda compreender as origens e as marcas do jornalismo on-line que se

faz no presente e se fará no futuro.

Foram imprescindíveis à realização deste livro o apoio do Governo do Estado do Espírito

Santo, por intermédio do Departamento de Imprensa Oficial e do Arquivo Público Estadual, o


suporte do Departamento de Comunicação Social e da Universidade Federal do Espírito Santo, e a

colaboração dos entrevistados, que dispensaram um tempo precioso na atenção aos alunos.

Como sempre registramos neste espaço, salientamos que esta publicação não esgota o tema.

Muito pelo contrário. É apenas uma contribuição à formação de uma memória da comunicação no

Espírito Santo. Não busque o leitor um completo relatório de veículos impressos capixabas. Na

Grande Vitória, por exemplo, o foco foram os grandes jornais, sendo que muitas experiências, como

o Jornal Metropolitano, citando de memória, ficaram para uma outra oportunidade de pesquisa.

Os livros do Projeto CoCa são elaborados pelos alunos do sexto período do curso de

Jornalismo da Ufes como um laboratório de produção editorial, tendo em vista a formação em

comunicação organizacional. A pauta é discutida coletivamente – nesse sentido, vale o registro de

que o capítulo sobre a imprensa alternativa, tema que merece um livro à parte, foi

sugestão/reivindicação dos seus autores, que acabaram produzindo um verdadeiro livro dentro do

livro.

Definidos os capítulos, os alunos são reunidos em duplas ou pequenos grupos e partem para a

pesquisa e produção. Eles são orientados durante esse processo, mas têm autonomia para

escolher fontes, enfoques e estilo de texto. O que se tem é uma coletânea, executada em torno de

um tema principal, sem a pretensão de alcançar todos os elementos, personagens e, neste caso,

jornais/ revistas a ele relacionados. Que as lacunas possam inspirar novos trabalhos que se juntarão

a este na constituição de uma memória mais completa e multiautoral.

Além das condicionantes do tempo – os livros são feitos e publicados no período de um

semestre letivo – e do processo de aprendizado, registramos que dentre as limitações à produção

de uma memória, objetivada por este projeto, está a falta de receptividade das fontes.

Esse foi um problema e tanto na produção deste volume. Pelos relatos dos alunos, muitas

personagens importantes do jornalismo impresso capixaba se recusaram a dar entrevistas. Outras

não repassaram informações e documentos prometidos. Mas, felizmente, há quem entenda o

propósito do projeto e a importância da memória para a constituição de uma realidade diferente e,

mesmo estando fora do Estado e do País, se dispôs a dar entrevistas.

Em razão desta realidade, cabe uma abordagem acerca da importância da memória. Memória

não é passado, é leitura presente do que passou com vistas a um futuro desejado. E por que


a memória é importante? Ela é a principal referência para a constituição de nossa identidade.

Entendendo-se identidade como o autoconhecimento e a diferenciação em relação ao outro, a

memória é o que nos dá elementos para nos conhecermos e demarcarmos nossas peculiaridades no

mundo.

A comunicação capixaba, como de resto o Estado do Espírito Santo, carece de memória. Sem

sabermos o que fomos, sem conhecermos nossa caminhada, falta-nos algo essencial na

construção de um futuro melhor e com maior autonomia social, cultural, política e econômica: falta-

nos uma identidade concreta e objetiva. E identidade é memória em ato.

Se pudemos resgatar a memória do jornalismo impresso capixaba do século XIX, é porque

uma inteligência visionária chamada Heráclito Amâncio Pereira dedicou tempo e esforço a

reunir informações numa época que não tem paralelo com a atualidade em termos de facilidade de

comunicação.

O quanto esse material pode nos ajudar a entender a economia, a cultura, a política capixaba

de então nem se pode imaginar. Só depende de os capixabas de hoje e do futuro tentarem

buscar explicações sobre as suas razões de ser e os condicionantes de seus olhares para o horizonte.

Talvez por terem sido raras as figuras como Heráclito Amâncio Pereira nos falte a cultura da

busca pelo autoconhecimento;

talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em produzir memória no presente. A continuar

assim, o futuro não se apresenta com as melhores perspectivas. Quem não sabe o que é pode fazer

muito pouco por si e pelos outros. Tem como destino a periferia e a dominação. Por um outro

futuro, memória já!

José Antonio Martinuzzo Professor organizador e editor do Projeto CoCa .


Jornalismo impresso:

Interesse público ou comércio de notícias?

Milena Simões Murta

A natureza do jornalismo está no medo. O medo

do desconhecido que leva o homem a querer exatamente

o contrário, ou seja, conhecer.

Felipe Pena (2005)

Selecionar, apurar, organizar, contar. Estas são algumas das atividades cotidianamente

exercidas por qualquer jornalista frente aos fatos da vida. E o resultado desse trabalho, as notícias,

as reportagens, é produto de primeira necessidade no mundo contemporâneo.

Numa realidade globalizada, em que a nossa superfície de contato é o planeta inteiro, a

qualquer tempo e hora, o jornalismo nos confere, em alguma medida, os dons divinos da

onisciência, onipresença e, por que não?, da onipotência.

Mas, nesse frenesi midiatizado que se tornou a vida atual, pouco se reflete acerca dessa

máquina de produzir relatos sobre o cotidiano. É tudo tão “normal” que nem paramos para

pensar sobre as especificidades do jornalismo e suas artimanhas para influenciar de modo tão

marcante as mentes contemporâneas.

O hoje decantado jornalismo impresso foi o precursor de tudo, de todas as modalidades

jornalísticas, tendo desempenhado, ao longo dos séculos XIX e XX, um importante papel na

constituição do modelo de sociabilidade que compartilhamos atualmente, qual seja, um regime

dramaticamente dependente dos conteúdos da mídia, incluindo os informativos.


Desde seus primórdios, a atividade jornalística sempre esteve vinculada à necessidade que o

homem tem de saber, de vencer a ignorância que afeta seu cotidiano. Ainda que existissem

cientistas, navegadores ou astronautas para pesquisar e descobrir as engrenagens do mundo, era

preciso que houvesse também alguém que traduzisse tais relatos exóticos para a linguagem do senso

comum e tivesse ainda a capacidade de tornar públicas tais reportagens.

Reportar informações, contar uma história. Há quem diga que o jornalista realiza

primordialmente duas ações: entender o fato e explicá-lo para as outras pessoas por intermédio de

um suporte (papel, TV, rádio, internet). E, nesse processo, o jornalista dispõe de certa autonomia

discursiva para elaborar a versão dos fatos, o que, para muitos, corresponde à verdade dos fatos.

O senso comum é algo tão forte que jamais os jornalistas publicarão como fato afirmações que

o contradigam. Por outro lado, é o jornalismo quem coleta novos itens a serem integrados a

esse conjunto de conhecimentos. Como? Através da mídia, onde estão incluídos todos os tipos de

manifestação cultural presentes no espaço público. É o que diz Pena (2005, p. 29): “A mídia

assumiu a privilegiada condição de palco contemporâneo do debate público. Na

contemporaneidade, as representações substituem a própria realidade”.

Para realizar essa tarefa de falar e produzir senso comum a partir de um mundo complexo, o

jornalista é portador de uma autoridade cultural, um contrato tácito estabelecido com a sociedade.

Tais profissionais formam uma verdadeira comunidade que compartilha noções semelhantes

acerca do funcionamento das relações socioeconômicas, culturais e políticas, produzindo versões

socialmente aceitas acerca da vida e seus mais diversos acontecimentos.

Conforme afirma Zelizer (1992, p. 11), “imprensados entre o público e o evento a ser descrito,

os repórteres são capazes de construir aquilo que lhes parece ser preferível e

estrategicamente importante, graças à suposição de que eles dispõem de alguma autoridade acerca

das matérias que narram”.

Mas essa autoridade – que existe – não é insulada, resultando mesmo de uma constante

negociação entre repórteres, empresários e consumidores de notícia. O campo jornalístico é

subordinado aos índices de audiência, ou, como define Bourdieu (1997), aos “veredictos do

mercado”.


O jornalista é portador de uma autoridade que negocia com interesses comerciais e políticos,

que dialoga com a memória coletiva e o senso comum, mas, verdadeiramente, possui

uma autoridade cultural nada desprezível. Porém, como esse diálogo se desenvolve? Suas rotinas

produtivas e suas narrativas se sustentam no tripé “objetividade, imparcialidade e

neutralidade”, que, por mais que seja utopia ou mero discurso, encontra eco e mantém a vigorosa

relação jornalismo-sociedade.

Essa cultura é tão marcante que o Código de Ética do Jornalismo Brasileiro, no seu Artigo 7,

destaca: “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se

pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação”.

Relatar a realidade de um modo descomprometido, imparcial e impessoal – será que isso

realmente existe? Uma das primeiras coisas que se aprende ao estudar jornalismo é: o

jornalista deve ser o-b-j-e-t-i-v-o. Contudo, será que é possível desligar-se da memória pessoal e

coletiva e despir-se de tudo o que constrói nossa personalidade (preconceitos, carências, ideologias,

preferências) antes de produzir uma matéria?

Não! É sabido que não. A subjetividade, que se opõe à objetividade, é algo inevitável. E, por

mais que os jornalistas insistam em responder às seis questões básicas do lide – o quê, quem,

como, quando, onde e por quê –, colocando-as no início da notícia, não há garantias de

objetividade. Há, no máximo, intenção de ser objetivo.

Existem, ainda, vários atributos da busca pela objetividade, dentre eles: apresentação de

possibilidades conflitantes, ou seja, os dois lados da moeda; relação de provas auxiliares; citação

de fatos suplementares que comprovem o que se está dizendo; e a disposição de falas de

testemunhas.

Para além do contrato social, Gaye Tuchman (1993, p. 78) aponta a objetividade como um

ritual estratégico que o profissional utiliza para se proteger. A autora acredita que o jornalista

busca a objetividade, primeiramente, para neutralizar potenciais críticas e, depois, para seguir

rotinas confinadas pelos limites cognitivos da racionalidade. Essas críticas podem ocorrer sob a

forma de repressão ainda dentro da redação ou até de fontes que se sintam prejudicadas por alguma

deturpação do que informaram.


O fato é que, conforme estabelecido no Código de Ética, o compromisso é com a verdade dos

fatos, mesmo que isso não signifique automaticamente ser objetivo. A objetividade completa não

existe. Mas, conforme ressalta Pena (2005 p. 51), “a sociedade confunde o texto com o discurso, o

que fica claro na separação dogmática entre opinião e informação”. Mesmo que seja como um

ideal, a objetividade sustenta um contrato fundamental desde os tempos modernos entre os

jornalistas e os cidadãos: o contrato que autoriza a produção de versões da vida, numa indústria que

teve no impresso o primeiro espaço de comunicação de massa.

A seguir, um pouco da trajetória do jornalismo impresso, que se confunde com a história do

próprio jornalismo, esse incrível produtor do real. Faremos um rápido passeio pela

trajetória mundial e brasileira, para abrir caminho ao detalhamento dessa história aqui no Espírito

Santo, o tema deste livro.

O Impresso na história do Jornalismo

Os relatos orais foram, sem discussão, a primeira forma de jornalismo que existiu, a primeira

grande mídia da humanidade. Os mensageiros, apregoadores e, mais tarde, trovadores eram

responsáveis pela transmissão e circulação das notícias. Mas a escrita em suporte manuseável

trouxe à comunicação atributos de valor como portabilidade, difusão para além dos limites

presenciais do enunciador, precisão das mensagens e fidedignidade dos relatos.

As Acta Diurna, relatos diários do cotidiano político e social do Império Romano, são

consideradas como um dos primeiros modelos de jornalismo impresso. Todavia, como o jornalismo

impresso não se estabelece somente pela periodicidade, é no século XIII que encontramos seus

principais vestígios iniciais. A Europa, mais especificamente Itália, França e Alemanha, em

plena Idade Média, iniciou o processo de firmação do jornalismo através das Letteri d’Avvisi

(Itália), Nouvelles à la Main (França) e Geschriebene Zeitungen (Alemanha). Todas elas eram

espécies de cartas manuscritas, que traziam informações sobre os mercados e se fundamentavam no

desenvolvimento do comércio. Seu público consumidor era restrito, e sua difusão, razoável, pois as

notícias circulavam em torno de safras, colheitas e transações comerciais e financeiras.


Aqui destacamos Gutenberg, que, no século XV, imprimiu a Bíblia, ficando conhecido assim

como o revolucionário da impressão.

Mas, segundo Pena (2005, p.27), a invenção dos tipos móveis é atribuída aos chineses. O

primeiro livro impresso conhecido é do ano de 868, e a invenção do tipo móvel, de 1040.

Em geral, a criação desses protótipos de impressora muito facilitou a propagação das notícias.

No século XVI, sobretudo na Itália, as Letteri d’Avvisi passaram a ser gazzetes, ou gazetas

(uma referência à moeda utilizada em Veneza). As gazzetes são o embrião dos jornais de hoje,

principalmente pela periodicidade com que eram publicadas. As notícias, no entanto, continuavam

em torno da pauta comercial. O diferencial era a forma menos séria, menos completa e mais

apelativa.

Já naquele momento, era mais importante alcançar um maior número de pessoas do que

informar em profundidade.

Nessa época, não podemos deixar de mencionar outro fator que potencializou a necessidade de

relatos: a expansão marítima.

Após a descoberta da América, as mensagens regulares se tornaram elementos estratégicos

para a exploração das colônias.

É como explica Gontijo (2004, p.211): “As viagens geravam um enorme volume de

informações sobre povos e culturas completamente desconhecidos e de oportunidades de negócios

até então inexploradas”.

Apesar do grande número de analfabetos e de grandes dificuldades nos transportes, a

sociedade começou a perceber como as gazetas estavam se transformando num poderoso veículo

de comunicação. Imediatamente, lideranças políticas trataram de descobrir maneiras de controlar o

que era veiculado.

Por causa disso, os impressos do século XVI estavam fortemente submetidos às pressões das

autoridades e dos próprios interesses comerciais de quem os produzia. Segundo Gontijo, surgia uma

nova modalidade de negócio, “um misto de prestação de serviço, atividade industrial e comercial”.

Para que o público consumidor das notícias fosse ampliado, bem como os lucros, os impressos

investiam na linguagem popular e até mesmo no tratamento sensacionalista das notícias.


No século XVII, surgem as primeiras publicações propriamente jornalísticas. Na Alemanha,

em 1609, inicia-se a publicação semanal Ordianri Avisa. Na Espanha, o primeiro folheto semanal é

a Gaceta de Madrid, em 1661. Em Portugal, tem-se A Gazeta, em 1641. No final do século XVIII, a

imprensa diária chega à França e à Inglaterra.

No século XIX, verificou-se o crescimento da atividade jornalística, a partir da expansão do

capitalismo e da ampliação da urbanização – efetivamente, o jornalismo impresso é um

fenômeno urbano-industrial.

Em meados desse século, a informação barata dos penny press, que fazem referência ao “um

centavo” necessário para comprar jornais, ampliou o público dos diários nos Estados Unidos e

fez movimentar o mercado publicitário.

As tecnologias também influenciaram decisivamente nos destinos do jornalismo. Os avanços

na rapidez de transmissão da informação, com o auxílio do telégrafo, favoreceram a criação das

agências de notícias, como a Agence Havas, na França (1836), a Associated Press, nos Estados

Unidos (1844), e a Reuters, na Inglaterra (1851). Traquina (2004, p. 54) explica:

O impacto do telégrafo no jornalismo foi

significativo porque consolidou tudo o que a penny press

tinha posto em movimento: permitiu que os

jornais funcionassem em tempo real, ajudou a fomentar

a criação de uma rede mais vasta de pessoas

empregadas integralmente no trabalho de produzir

informação, que rapidamente alargaram ao nível

internacional a sua cobertura jornalística, num processo

continuado até hoje na globalização do jornalismo, e

introduziu alterações fundamentais na escrita das notícias,

uma linguagem telegráfica.

Com a instituição da empresa de comunicação, ou seja, uma organização destinada

exclusivamente a produzir e vender notícias, sustentada pela publicidade e pela vendagem de


jornais, o jornalismo se distancia cada vez mais da explícita tutela políticoeconômica para se firmar

como um campo. Agora, estamos em fins do século XIX, falando de uma realidade de primeiro

mundo, notadamente a norte-americana.

Conforme afirma Traquina (2004, p.36), “a emergência do jornalismo com seus próprios

‘padrões de performance e integridade moral’ tornou-se possível com a crescente

independência econômica dos jornais em relação aos subsídios políticos, método dominante de

financiamento da imprensa no início do século XIX”.

O século XX assistiu ao crescimento da indústria da comunicação, influenciada pelo

surgimento de novas mídias (rádio, TV, internet) e também pelo sombreamento planetário do

modo capitalista urbano-industrial e burguês de viver. Registre-se que a indústria de mídia,

fortemente ancorada no jornalismo, é um grande negócio do capitalismo e, ao mesmo tempo, o seu

mais poderoso preposto ideológico na atualidade.

Para arrematar esta história, vale reportar as cinco épocas distintas que Ciro Marcondes Filho

demarcou para o jornalismo, segundo relata Pena (2005):

1) Pré-história do jornalismo, de 1631 a 1789, caracterizada por produção artesanal e bem

próxima do livro;

2) Primeiro jornalismo, de 1789 a 1830, marcado pelo conteúdo literário e político,

comandado por escritores, políticos e intelectuais;

3) Segundo jornalismo, de 1830 a 1900, caracterizado pelo surgimento da imprensa de massa,

início da profissionalização dos jornalistas, instituição de reportagens e manchetes, estruturação de

empresas e utilização de publicidade;

4) Terceiro jornalismo, de 1900 a 1960, com imprensa monopolista, enormes tiragens,

formação de grandes grupos de mídia; e

5) Quarto jornalismo, a partir de 1960, marcado pelas tecnologias eletrônicas e digitais,

interatividade, velocidade, atualização intermitente, valorização da imagem e crise da imprensa

escrita.

O Brasil


Em nosso País, o jornalismo impresso só deslanchou a partir de 1808, com a chegada da

Família Real, o que demonstra uma defasagem de mais de 300 anos em relação à Europa. Antes

disso, as notícias circulavam principalmente pela ação dos tropeiros, que se configuravam como

verdadeiros veículos de comunicação, ou por intermédio da militância intelectual da elite

tupiniquim.

A estratégia da Coroa Portuguesa era evitar a circulação de informações.

Havia controle rígido, com punições severas em caso de transgressões. Sem a autorização da

metrópole para imprimir, as notícias escritas circulavam através de cartas ou pasquins, que eram

manuscritos e afixados em pontos de maior circulação ou recopiados e jogados por debaixo das

portas.

A luta pela independência do Brasil foi um dos fatores que 30 impulsionou a formação de

grupos e a produção de folhetins.

Mesmo assim, durante muito tempo, as notícias dos movimentos políticos ficavam restritas aos

conchavos nos porões. É como diz Gontijo (2004, p. 276): “O debate de idéias seguia

acontecendo em diferentes pontos do país, apesar de todas as dificuldades de comunicação. O livro

e os textos manuscritos foram sem dúvida a principal ferramenta de disseminação de informações,

na falta de impressoras e de um sistema de correios eficiente”.

Resumindo: a instalação da primeira tipografia no Brasil, a fundação de jornais e periódicos,

tudo isso foi possibilitado graças à vinda Família Real e à instalação da Imprensa Régia. Em 10

de setembro de 1808, saiu o primeiro número de A Gazeta do Rio de Janeiro, patrocinado pela

corte. Em junho do mesmo ano, Hipólito José da Costa, de Londres, lançou o seu Correio

Braziliense.

Gontijo nos relata que foi somente a partir dos anos de 1820, com a Independência e a abertura

dos primeiros cursos de Direito no País, que a imprensa ganhou vulto. Nesse sentido, em 1823, a

Assembléia Nacional promulgou a primeira lei de imprensa, garantindo a liberdade de expressão,

pois a instalação da Imprensa Régia não mudou em nada a realidade do aparato de controle

da informação.


Com a nova realidade descrita acima, jornais e pasquins experimentam a pauta política para

alimentar a disputa pelo poder.

Durante várias décadas, registra-se um jornalismo impresso bastante panfletário e

sensacionalista. Duas grandes causas – o fim da escravidão e a proclamação da República e suas

conquistas – vão funcionar como a base para o surgimento do jornal como empresa, no final do

século XIX.

Grandes nomes da literatura e do direito passam a escrever nos prestigiosos espaços da imprensa. A

urbanização e o desenvolvimento do capitalismo no País, acalentados pela ideologia de ordem e

progresso, juntamente com a influência dos imigrantes europeus que aqui aportaram com o hábito

de ler e produz jornais alternativos, acabou por impulsionar a imprensa no Brasil.

Grandes grupos começaram a se formar e alguns de seus periódicos existem até hoje, como o Jornal

do Brasil e, posteriormente, O Globo.

No Brasil, a profissionalização ou autonomização do jornalismo, basicamente o impresso, só vem a

ocorrer por volta dos anos 50, a partir da reprodução do modelo de objetividade e rotinas produtivas

lançadas mais de 50 anos antes nos Estados Unidos.

Os maiores jornais do Brasil investiram num discurso e em processos que referendassem a posição

de autonomia e profissionalização do jornalismo. Por essa época, as escolas de

Comunicação tornam-se uma realidade em nosso País.

Mas a ligação direta com os grupos de poder nunca foi desfeita.

Ao longo do século XX, registra-se a formação de influentes grupos de mídia, que passam a

concentrar as novas modalidades de jornalismo (rádio, TV e internet). Atualmente, seis redes

nacionais de TV – Globo, SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV!

E CNT – controlam quase 700 veículos em todo o País. E, em torno delas, estão 50 jornais diários,

mais de 300 canais de TV e outras 300 e tantas emissoras de rádio, sem falar dos portais de internet.

Os maiores grupos de mídia são: Organizações Globo, Grupo Folha, Grupo Abril, Grupo Estadão,

Grupo RBS e CBM – Companhia Brasileira de Mídia.

Todas essas organizações estão às voltas com a discussão e o ajustamento de suas mídias impressas

de jornalismo, principalmente, os diários. Concorrência de novas mídias, custos de

produção, enxugamento de quadros, dilemas de cobertura e posicionamento frente ao “tempo real”


e ao “vivo’’ da internet e da TV, dentre tantas outras questões, colocam o jornalismo impresso, que

foi a origem de tudo, no centro das discussões neste início de século XXI.

Diante desse quadro, o jornalismo impresso vai reciclar-se ou desaparecer? Mas essa é uma outra

história – a história do futuro.

Fiquemos com os relatos do passado, especificamente do nosso Espírito Santo, que, inclusive, nos

ajudam a entender o presente e a pensar e refletir sobre os dias que virão.

Cronologia do surgimento dos periódicos nos Estados brasileiros

1811 – Bahia, Idade de Ouro do Brasil

1821 – Pernambuco, Aurora Pernambucana

1821 – Maranhão, Conciliador Maranhense

1822 – Minas Gerais, Compilador Mi-neiro

1822 – Pará, Paraense

1823 – São Paulo, O Paulista

1824 – Ceará, Diário do Governo do Ceará

1826 – Paraíba, Gazeta da Parayba do Norte

1827 – Rio Grande do Sul, O Diário de Porto Alegre e Constitucional Rio-Grandense

1829 – Estado do Rio de Janeiro (Niterói), Eco na Vila Real da Praia Grande

1830 – Goiás, Matutina Meiapontense

1831 – Alagoas, Íris Alagoense

1831 – Santa Catarina, O Catharinense

1832 – Rio Grande do Norte, Natalense

1832 – Sergipe, Recopilador Sergipano

1835 – Piauí, Correio da Assembléia Legislativa do Piauhi

1839 – Mato Grosso, Themis Mattogrossense

1840 – Espírito Santo, O Estafeta, com apenas um número.


1849 – O Correio da Vitória

1851 – Amazonas (província do Império a partir de 1850), Cinco de Setembro

1854 – Paraná (província do Império a partir de 1853), Dezenove de Dezembro

Fonte: Gontijo (2004)


Referências bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

CHILDS, Harwood L. Relações públicas, propaganda e opinião pública. Rio de Janeiro: FGV, 1976.

FREITAS, S. Comunicarte. Campinas. v.2, nº.4. 1984.

GONTIJO, Silvana. O livro de ouro da comunicação. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005.

TRAQUINA, N. Teorias do Jornalismo, porque as notícias são como são. Florianópolis: Insular, 2004.

TUCHMAN, G. A objetividade como ritual estratégico. In: TRAQUINA,

Nelson. (org). Jornalismo - questões, teorias e “estórias”. Lisboa, Vega, 1993.

ZELIZER, B. Covering the body: the Kennedy assassination, the media, and the shaping of collective

memory. Chicago and London: University of Chicago Press, 1992.


Os primórdios da Imprensa no Espírito Santo

Andressa Zanandrea e Luciano Frizzera

O historiador Heráclito Amâncio Pereira reuniu, em um inventário, dados sobre jornais,

revistas e outras publicações impressas que circulavam em todo o Estado do Espírito Santo no

período compreendido entre 1840 e 1926. O trabalho A Imprensa no Espírito Santo foi publicado

pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e apresentado no oitavo Congresso de

Geografia, em 1926. Na ocasião, foi considerado um “estudo cuidadoso de grande alcance para a

vida social e política do Espírito Santo”.

No trabalho estão registradas mais de 400 publicações. Possivelmente havia outras, mas, já

naquela época, havia dificuldade em se encontrar os exemplares, sendo esses os que foram

encontrados por Heráclito Amâncio Pereira. Esta foi a primeira catalogação da imprensa capixaba.

O que havia sido feito anteriormente era deficiente e permeado de erros.

Como podemos perceber ao longo do inventário, logo que as primeiras tipografias chegaram

ao Espírito Santo, havia poucas publicações. O número foi se expandindo com o passar dos anos, e

a tiragem dos periódicos também foi aumentando. Entre 1840 e 1860, foram publicados apenas 13

jornais. A partir de 1880, os números começam a ficar mais expressivos. Entre 1880 e

1900, surgiram 100 jornais. Mas, de 1900 a 1926, o número foi mais que o triplo: 320 publicações.

Apesar do grande número, foram poucos os que perduraram. Muitos publicaram somente

uma edição e grande parte não durou mais que um ano – lembrando que a maioria deles não saía

diariamente.

Com o material que temos em mãos, não somos capazes de fazer amplas análises. Mas, ao

longo do texto, podemos apontar os vínculos mantidos por esses jornais, como os políticos e os

de classe. No entanto, muitos desses periódicos não existiam por razões políticas, mas somente

como órgãos escolares, publicações destinadas às mulheres ou puramente humorísticas.

Em 1840, houve a primeira tentativa de se estabelecer um jornal no Estado. Em 15 de

setembro, o alferes Ayres Vieira de Albuquerque Tovar firmou contrato com o Governo

Provincial para publicar atos oficiais. Assim, fundou O Estafeta, na Capital do Espírito Santo.


Pelo contrato, Ayres Tovar comprometia-se a publicar um jornal duas vezes por semana,

ficando o Governo com o direito a 120 exemplares de cada número, pelos quais pagaria 10 mil réis.

O jornal tinha como diretor de oficinas José Marcellino Pereira de Vasconcellos. No entanto,

circulou somente uma vez. Em 1848, sua tipografia foi vendida a Pedro Antônio de

Azeredo, secretário do Governo, que em 1849 criaria o primeiro impresso de notoriedade: o Correio

da Victoria.

O primeiro número do Correio circulou em 17 de janeiro. O jornal tinha Azeredo como

proprietário e redator, e era impresso em papel de linho azulado. A primeira pessoa que o leu antes

de sua distribuição foi o coronel José Francisco de Andrade Almeida Monjardim. Era uma folha

política, literária e noticiosa.

No ano anterior, em 26 de setembro, Azeredo e o Governo Provincial assinaram um contrato

de dez anos para a publicação dos atos oficiais, que, para isso, marcava a quantia de um conto

de réis. Para cada folha de impressão, Azeredo receberia 10 mil réis.

Em março de 1849, foi lavrado contrato, entre o proprietário do Correio e a Comissão de

Política da Assembléia Provincial, para a publicação dos atos legislativos na sessão daquele ano. A

comissão de política, então, compunha-se dos seguintes membros:

José da Silva Vieira Rios, Wenceslau da Costa Vidigal e Francisco Rodrigues Barcellos Freire.


Na edição de 3 de janeiro de 1852, o Correio publica sua posição: o “dogma político –

monarquia, constituição e liberdade – dá guarda à defesa do oprimido, e censura o opressor e o

crime, procurará vulgarizar os melhoramentos morais e materiais que se tenham feito em benefício

da espécie humana; promoverá quanto em si estiver o engrandecimento desta terra, em que vive,

acompanhará a administração da província nos benefícios que lhe tiver de fazer, e mesmo lhe

lembrará aquelas mais urgentes e exigidas precisões para o bem do povo; - publicará enfim os atos

do governo e daquelas repartições que se quiserem de sua colunas utilizar: é esta sua missão, é este

o sacerdócio mais nobre e sagrado da imprensa livre, e ordeira – é esta a profissão de princípios que

vêm hoje fazer em público o Correio da Victoria”. Termina franqueando suas colunas aos cultores

das boas letras e prometendo invitar todas as forças para o engrandecimento da província.

Em 25 de junho de 1852, a Assembléia cassou o contrato e, em 3 de julho, o Correio declarou

que deixava de publicar os atos oficiais e franqueava suas colunas a todas as publicações. Esta foi a

independência da publicação, como disse em seu editorial, intitulado Nossa missão da imprensa.

Não obstante, de 18 de setembro de 1852 em diante, tornou a dar publicidade aos atos da

secretaria do governo, sendo assinado novo contrato aos 30 de julho de 1853. O Correio foi

bissemanal (quartas e sábados) até 13 de janeiro de 1872, quando começou a circular três vezes por

semana (terças, quintas e sábados). Defendia a política conservadora, deixando de ser publicado em

1873, com a cisão levantada no seio do partido. Tinha quatro páginas.

Entre seus colaboradores estavam Rangel Sampaio, Emílio da Silva Coutinho, João Luiz da

Fraga Loureiro, Antônio Joaquim Rodrigues e José Joaquim Rodrigues, que foi seu redator

durante três anos (1852-1854). Com a morte de Azeredo, passou, em janeiro de 1872, a ser

prioridade de Joaquim Francisco Pinto Ribeiro e gerido por Aprígio Guilhermino de Jesus; antes,

em 1869, estivera sob a redação de Tito da Silva Machado. Tornou-se, depois, propriedade de

Jacintho Escobar Araújo.

O noticiário local era muito resumido, havendo dias em que deixava completamente de

aparecer no jornal, que não deixava de ser atochado com transcrições de notícias da corte. A

tiragem era pequena e havia correspondente no Rio de Janeiro. Os anúncios eram poucos e na

maioria sobre escravos fugidos. O comércio ainda não sabia se servir dessa poderosa arma de

propaganda.


No Correio de 10 de setembro de 1859 foi publicado em folhetim um ensaio de crônica sob o

título A Semana. Seria essa a primeira crônica aparecida na imprensa capixaba.

O terceiro jornal capixaba foi A Regeneração, que surgiu em 17 de dezembro de 1853, na

Capital. Era um periódico bissemanal literário, imparcial e de regular formato, que se publicou até

fevereiro de 1856. Conforme a tradição, exerceu influência salutar sobre os costumes da sociedade.

O proprietário e redator era Manoel Ferreira das Neves, professor público da segunda cadeira de

primeiras letras da Capital, e entre seus colaboradores contava- se José Marcellino Pereira de

Vasconcellos. Manteve contrato com a Assembléia Provincial, para a publicação de seus atos,

em 1854, por 200 mil réis. Diz-se que foi um dos melhores periódi- cos, pelas matérias, boa redação

e nitidez de impressão.

Em 17 de julho de 1856, surge O Capichaba, na Capital. Era um periódico político e noticioso,

aparecido como órgão das idéias de um dos lados da Assembléia Provincial (minoria) e para

combater pela eleição de um espírito-santense patriota e ilustrado como deputado pela província à

Câmara Temporária. Publicava-se às quintas- feiras. Seu 15º e último número circulou em 23 de

outubro.

Em 2 de janeiro de 1857, surge O Semanário, na Capital. Era um jornal de instrução e recreio,

de publicação semanal (sextas- feiras). Era de exclusiva propriedade e direção do major

José Marcellino Pereira de Vasconcellos. Suspendeu a publicação aos 6 de novembro do mesmo

ano, em vista de alteração na saúde do diretor, reaparecendo aos 10 de fevereiro do ano seguinte.

O número 50, último, traz a data de 3 de abril de 1858. Tinha oito páginas. Possuía 202 assinantes:

41 na Capital; 130 em outros pontos da província e fora dela.

Em 19 de agosto de 1859 surge o Aurora, na Capital. Era um periódico literário, científico e

per accidens político, que saía às sextas- feiras, tendo cada número oito páginas. A folha avulsa

era vendida a 160 réis. Suspendeu a publicação, depois de haver publicado dezesseis números, por

motivo de se ter retirado desta capital o Dr. Joaquim dos Santos Neves, seu redator.

Durante o ano de 1860, surgem sete publicações na Capital. O Mercantil, A Liga, O

Indagador, O Maribondo, O Picapau, O Periódico dos Pobres, que substituiu O Picapau em 9 de

dezembro. Todos duraram pouco.


No mesmo ano, em 7 de setembro, começou a circular também O Provinciano. Era um jornal

político, noticioso e órgão do Partido Conservador, que tinha como editor-proprietário Emílio

Francisco Guizã e como redatores principais José Camillo Ferreira Rabello e Antônio Joaquim

Rodrigues, que, ao retirar-se da redação, foi substituído por Joaquim José Fernandes Maciel.

Publicava-se às quintas feiras e aos domingos. Tinha quatro páginas.

Em 1861, surgiram na Capital os jornais União Capichaba, O Clarim, O Desapprovador e O

Tempo. O primeiro data de 3 de fevereiro e era político progressista. O primeiro número de O

Clarim – que era político, literário e noticioso – circulou em de abril.

Já O Desapprovador era noticioso, político e recreativo, tendo aparecido em 5 de outubro.

O Tempo circulou pela primeira vez em 1º de novembro, sob a redação de José Marcellino

Pereira de Vasconcellos. Era um órgão político e advogado das idéias do Partido Liberal. Em

1862, suspendeu a publicação durante quatro meses. Sua tipografia foi administrada por Manoel

Antônio de Albuquerque Rosa até 12 de agosto de 1863.

Em 1863, foram publicados na Capital pela primeira vez A Borboleta, Amigo do Povo, Liberal

e O Monarchista, um jornal político e noticioso. O dono e editor era Manoel Antônio de

Albuquerque Rosa. Surgiu como órgão do Partido Conservador com o fim de O Provinciano e

usava sua tipografia. Estava sob a redação de Joaquim José Fernandes Maciel (redator-chefe),

Antônio Joaquim Rodrigues e José Camillo Ferreira Rabello. Publicava-se às quintas-feiras e

domingos, com quatro páginas. Parou de circular no fim de 1865.

Em 2 de abril de 1864, surge o Jornal da Victoria. Defendia as idéias do Partido Liberal. Seus

redatores eram os engenheiros Manoel Feliciano Moniz Freire (redator-chefe e

proprietário), Leopoldo Augusto Deoclecian de Mello e Cunha, o bacharel José Corrêa de Jesus. O

gerente era Delecarliense Drumond de Alencar Araripe, que, em 1866, tornou-se o proprietário do

jornal.

Entre seus colaboradores estavam Manoel Augusto da Silveira e João Zeferino Rangel de S.

Paio. O Jornal da Victoria substituiu O Tempo, cuja tipografia herdou, e circulava às quartas-feiras

e aos sábados, trazendo também atos oficiais. Devido à falta de assinaturas em número suficiente

para cobrir as despesas, suspendeu a publicação em 29 de dezembro de 1869, com o número 588.

Em 1866, é publicado o primeiro periódico fora da Capital.


O primeiro número de O Itabira circula em Cachoeiro do Itapemirim em 1º de julho. O jornal

era redatoriado por Basílio Carvalho Daemon, editorado por João Paulo Ferreira Rios e usava a

tipografia de O Monarchista. Era literário, agrícola, comercial e noticioso. Tendo-se tornado

violento, foi obrigado a suspender a publicação, sendo substituído em 1868 por O Estandarte.

Na Capital, em 23 de julho, surge o Diário Victoriense, órgão literário e noticioso, sob a

redação de Emílio Francisco Guizã, seu proprietário. Era publicado diariamente, com exceção

dos domingos e dias santos. Surge também O Escorpião, de caráter pilhérico, em 16 de dezembro.

Em 26 de janeiro de 1867, é publicado O Filho do Escorpião, em substituição a O Escorpião.

No mês de julho, circula, em Anchieta, o primeiro número do Estrella do Sul, que passa a ser

impresso na Capital em 5 de janeiro de 1868.

Em 24 de agosto, sai o primeiro número do Sentinella do Sul, na Vila do Itapemirim. Defendia

o Partido Liberal, sendo propriedade de uma associação. Estava sob a direção política do Dr.

Climaco Barbosa, administração de Ângelo Ramos e redação de Horta de Araújo, Maximiano

Bueno, Macedo Pires de Amorim, Antão e Manoel Joaquim de Lemos. Publicava-se aos

sábados, passando a circular aos domingos, em 22 de setembro. Sustentou grandes lutas com O

Itabira, tornando-se violento. Deu o nº 52 a 16 de agosto de 1868 e suspendeu a publicação, mas

ainda circulou em 1869.

Em 15 de março de 1868, surge, na Capital, O Cidadão, defen- sor do Partido Liberal e

redigido por José Corrêa de Jesus. A Voz do Povo surge em 27 de agosto, também defensor do

Partido Liberal e também redigido por José Corrêa de Jesus. Em Cachoeiro, é criado O Estandarte,

para substituir O Itabira, em 5 de abril.

Tinha como redator e proprietário Basílio Carvalho Daemon, e os colaboradores eram os

mesmos de O Itabira. Circulava semanalmente, aos domingos, e era político, literário, noticioso

e defensor do partido conservador.

Em 31 de março do ano seguinte, é publicado A Liga, na Capital.

Em 8 de setembro de 1870, circula pela primeira vez, na Capital, O Espírito Santense. O

fundador e primeiro redator foi Marcellino Pereira de Vasconcellos, e o gerente e editor, Manoel

Antônio de Albuquerque Rosa. Era político, científico, literário, noticioso e defendia idéias


conservadoras. Tinha correspondentes na França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos e

em algumas repúblicas do Sul, os quais enviavam notícias quinzenalmente.

Entre seus colaboradores, podemos citar José Joaquim Pessanha Póvoa, Mucio Teixeira,

Affonso Cláudio, padre Antunes de Siqueira, professor Aristides Freire, Manoel Rodrigues, Ubaldo

Rodrigues, Antônio Athayde, Almeida Nobre, Amâncio Pereira, Cleto Nunes Pereira, Candido

Brizindor, Eduardo Gomes Ferreira Velloso, Sebastião Mestrinho, Miguel Thomaz Pessoa, Edgardo

Daemon, Magno Machado, J. Firmino dos Santos, Godofredo Autran, Emílio da Silva Coutinho, M.

H. de Moraes, Adrião Rangel, Ignácio Thomaz Pessoa, A. d’Oliveira Costa (correspondente em

Paris) e Coriolano de Oliveira.

Era publicado três vezes por semana. Tendo suspendido a circulação por cerca de cinco meses,

reapareceu em 2 de junho de 1880. H. A. Binner foi seu impressor, até 2 de abril de 1874, quando

passou a ser impresso por Miguel Pereira Gambôa.

Em 1877, a despesa com o pessoal de suas oficinas atingia 420 mil réis mensais. Tinha quatro

páginas e sua tiragem era de 500 exemplares.

Seus adversários chamavam-lhe a Bíblia da Mentira, o Carrilhão da Victoria, Órgão

Cabeleira, Grande Realejo, Órgão do Percevejo Viajante, entre outros. O jornal durou até 14 de

junho de 1889.

Em 5 de agosto de 1872, O Conservador começa a circular na Capital. Era bissemanal e

começou a ser publicado como aprendizagem de arte tipográfica e passatempo do então

estudante Manoel Corrêa de Vasconcellos. Tornou-se político mais tarde, sendo então de

propriedade e redação do capitão Francisco Urbano de Vasconcellos. Colaboravam Tito da Silva

Machado, José Joaquim Pessanha Póvoa, Joaquim Corrêa de Lírio e outros. Chamavam- lhe

também Periquito.

No ano seguinte, em 16 de março, chegou às ruas A União. Era um órgão liberal redigido por

Tito da Silva Machado e outros. Saía às quintas-feiras e aos domingos, mas suspendeu a publicação

por falta de recursos, em março de 1874. Tinha quatro páginas e entre seus colaboradores estava o

padre Antunes de Siqueira.

Em 3 de janeiro de 1875, na Vila do Itapemirim, surge O Operário do Progresso. Em seu

artigo de apresentação, comprometia-se a ser imparcial em questões pessoais e políticas, e a


esforçar-se pelo desaparecimento do analfabetismo. Com quatro páginas, publicava-se aos

domingos e trazia matérias sobre ciência, artes e indústria. Seu redator-proprietário era Augusto A.

Pereira César e eram colaboradores José Feliciano Horta de Araújo, Leopoldo Augusto Deocleciano

de Mello e Cunha e Joaquim Adolpho Pinto Pacca. O último número circulou aos 2 de abril de

1876.

Em 24 de setembro, sai, na Capital, o primeiro número de A Aurora. Eram seus redatores

Moniz Freire, Affonso Cláudio e João Monteiro Peixoto, então estudantes do Atheneu Provincial.

Publicava-se semanalmente e ocupava-se de ciências, literatura e indústria. Foi o primeiro

periódico nascido na província por iniciativa de estudantes.

Em 1º de dezembro, circula O Commercio, que manteve discussões com O Espírito Santense,

pois atacou o conselheiro Costa Pereira e outros conservadores. Com quatro páginas e tiragem

de 500 exemplares, circulava às terças-feiras e aos sábados, passando a ser semanal em fevereiro de

1876.

Foram seus redatores José Joaquim Pessanha Póvoa e José Feliciano de Noronha Feital

(também proprietário). Entre seus colaboradores estavam Francisco de Lima Escobar Araújo,

também revisor, e Benjamin Constant Pereira da Graça. A publicação foi suspensa ainda em 1876.

Em 14 de maio de 1876, surge O Itapemirinense, na Vila do Itapemirim.

Era um periódico noticioso, literário, comercial, agrícola e imparcial em política, publicado

aos domingos. Na Capital, circula A Gazeta do Commercio, em 24 de junho. Era um

órgão democrático, de quatro páginas, que foi publicado até 1878, ano em que foi substituído pelA

Gazeta da Victoria. O proprietário era Dr. José Joaquim Pessanha Povoa e entre seus

colaboradores estavam Cleto Nunes Pereira e Affonso Cláudio.

No mesmo ano, em 6 de agosto, A Liberdade é publicado pela primeira vez, na Capital. Era

um semanário de quatro páginas, que tinha por objetivo o desenvolvimento das letras e ciências e

estava sob a redação de José de Mello Carvalho Moniz Freire e Candido Vieira da Costa, além de

ter colaboração de Affonso Cláudio e Cleto Nunes Pereira. Durou pouco. Surge também, em 5 de

outubro, o Opinião Liberal, periódico de quatro páginas e publicação semanal. Defendia o Partido

Liberal e estava sob a direção do advogado Francisco Urbano de Vasconcellos, sendo seus


proprietários Alpheu A. Monjardim de Andrade e Almeida, Azambuja Meirelles e Leopoldo A. D.

de Mello e Cunha.

Em 7 de janeiro de 1877, sai, em Cachoeiro de Itapemirim, o primeiro número de O

Cachoeirano. Era de propriedade e redação de seu fundador Luiz de Loyola e Silva.

Com o nº 52, aos 23 de fevereiro de 1879, completou o segundo ano e paralisou sua

publicação. Reapareceu em 15 de junho.

Em 1881, apresentou-se como órgão imparcial, sendo propriedade de João de Loyola e Silva,

que assumiu a chefia de redação.

redação.

Em 27 de dezembro de 1887, José Feliciano Horta de Araújo deixou de fazer parte de sua

Tornou-se órgão republicano, a partir de 29 de julho de 1888, sob a redação do Dr. Antônio

Gomes Aguirre e do farmacêutico Bernardo Horta, que já faziam parte da redação. Em 23 de

setembro do mesmo ano, os títulos das seções passaram a indicar os assuntos nelas tratados: “De

malho em punho (editoriais); A nova fase; Álbum do povo; Por dentro e por fora (notícias);

Em busca de Chanaan; Psiu...; Nós e os nossos; Quem diz o que quer... (ineditoriais); Mundo oficial

(editais); Dobrando sinos; A fama voa (anúncios); No parnaso; Colunas do povo”.

Em 17 de novembro de 1889, com a Proclamação da República, editou um número especial.

Paralisou a publicação durante o mês de dezembro, a fim de reformar seu material tipográfico.

No ano seguinte, suas seções tomaram as denominações: “Pró-Pátria (editorial), Revista Semanal,

Avisos, Literatura e Recreio, Coluna Livre, Editais, Anúncios”.

Aos 15 de junho, tornou-se órgão do Club Republicano 4 de maio, passando a ser redatoriado

pelo farmacêutico Bernardo Horta de Araújo, Lydio Marianno, José Feliciano Horta de Araújo e

Custódio Maia, sendo Leopoldino Lima o seu administrador e João de Loyola e Silva o seu gerente.

Custódio Maia retirou-se do corpo de redação em 14 de setembro, e, aos 18 de janeiro do ano

seguinte, a administração ficou a cargo de Adolpho Corrêa de Toledo.

De 10 de maio a de junho, suspendeu a publicação, mais tarde reaparecendo como órgão

imparcial e com programa completamente mudado, prestando apoio ao governo do barão

de Monjardim.


Em 10 de abril de 1892, Alfredo Moreira Gomes deixou de ser co-proprietário e retirou-se da

redação. Na ocasião, O Cachoeirano apresentou-se como órgão político, comercial e agrícola,

passando a dirigi-lo Bernardo Horta de Araújo, auxiliado por Costa Cavalcanti e Dias de Freitas e o

professor Quintiliano Azevedo.

De 17 de julho até o fim do ano, encarregou-se da redação João Loyola e Silva.

Começou a publicar serviço telegráfico na Capital Federal, a 1º de agosto de 1893. Opôs-se ao

golpe de Estado de 3 de novembro de 1891 e ao governo de Marechal Floriano, havendo

aderido abertamente ao movimento revolucionário chefiado pelos almirantes Custódio e Saldanha.

Suspendeu a publicação em 3 de dezembro de 1893, por haver sido vendida a tipografia.

Reapareceu em 6 de janeiro de 1894, quando comprou a tipografia de Opinião.

Em 1901, foi órgão do partido Construtor-Autonomista. No número de 23 de julho de 1905,

apareceu a seção “Notas avulsas”, destinada à literatura amena, como ligeiro passatempo

aos avessos à política.

Suspendeu a publicação por ter sofrido empastelamento na noite de 4 de julho de 1906,

voltando em março de 1907, sob a direção de Bernardo Horta, redator-chefe, e Victor de

Moraes, redator-gerente.

Em 1911, tornou-se propriedade de uma associação, sendo seu gerente Alexandre Ramos.

Tendo suspendido a publicação logo após a campanha presidencial de 1912, voltou pouco depois,

aos 4 de agosto do mesmo ano, sob a gerência de Alexandre Ramos, prometendo defender os

interesses do povo como órgão independente e imparcial e não tomar parte em questões políticas.

Em 1916, porém, colocou-se em oposição à candidatura de Bernardino Monteiro à Presidência

do Estado. Aos 6 de maio, José Bento Vidar Júnior assumiu a chefia da redação, de acordo com a

vontade do diretório oposicionista do município. Com o triunfo da chapa Bernardino-Athayde, O

Cachoeirano paralisou a publicação, voltando em outubro do mesmo ano, sob a direção de Alfredo

de Souza Monteiro, então, sob a bandeira do Partido Republicano do Espírito Santo.

A 1º de novembro de 1921, iniciou uma nova fase, sob direção do Dr. Francisco Gonçalves e

gerência de José Sobreira.


A princípio, publicava-se aos domingos. Depois aparecia duas vezes por semana, mas tornou a

circular semanalmente até 4 de setembro de 1915, quando começou a dar edições vespertinas

às quartas-feiras e sábados. Na época em que Heráclito fez a pesquisa, saía todas as quintas-feiras.

Possuía quatro páginas, sendo que, no período de 26 de agosto de 1894 a 11 de novembro do

mesmo ano, foi impresso em duas páginas devido à falta de papel. Tem seis e, às vezes, mais

páginas, na fase atual.

Entre seus colaboradores, nas diferentes fases de sua existência, estão Horta de Araújo, Maria

Leonilda, Antônio Carlos da Fonseca, Bernardo Horta, Ildefonso Vianna, Eugênio

Amorim, Godofredo da Silveira, M. C. de Vasconcellos, Deolindo Maciel, Virgílio Vidigal, Oscar

Leal, Antônio Gomes Aguirre, Affonso Cláudio, Moreira Gomes, Coelho Lisboa, Silva Lima, José

Marcellino, João Freitas, Jeronymo de Souza Monteiro, José Lino, Joaquim Ayres, Manoel

Fernandes, Pe. Antônio Fernandes da Silva, padre Carloto Fernandes da Silva, Júlio Leite, Victor de

Moraes, José Batalha Ribeiro, Cel. Antônio da Silva Marins, João Motta, Mário Imperial, Narciso

Araújo, Benjamim Silva, José Calasans de Mello Rocha, Antônio Vieira, Tertuliano de Loyola,

Moacyr Moraes, Sizenando de Mattos Bourguignon, padre Carlos Regattieri, Belisario Vieira da

Cunha, Everaldino Silva, Sylvio Júlio e Attílio Vivacqua.

Em abril de 1877, surge, na Capital, um pequeno periódico dedicado ao sexo feminino: o

Jornal das Moças. Era redigido por um “pai de família”. Em 2 de dezembro, aparece, na Capital, O

Echo dos Artistas. Era contra a aristocracia e de propriedade do editor Benedicto Ferreira de

Carvalho e Corrêa. Suspendeu a publicação, por ter se tornando violentíssimo, no oitavo número,

em 20 de janeiro de 1878. Assinava-se na razão de 500 réis mensais para a Capital, e 3 mil réis o

trimestre para fora. Avulso custava 120 réis. Tinha quatro páginas.

Entre seus colaboradores estavam Affonso Cláudio, Cleto Nunes, Joaquim Lyrio, Pedro Lyrio,

Alexandre Costa e Candido Brizindor. Nas palavras de Amâncio Pereira: “Fez uma

trajetória rápida, mas de efeito pela independência que sustentou”.

A Gazeta da Victoria surge em 24 de janeiro de 1878, substituindo A Gazeta do Commercio.

Em 4 de março de 1879, passou a ser órgão democrático e, em abril de 1881, tornou-se folha

comercial, política, literária e noticiosa.


Durou até 1889, ano em que esteve sob a redação de Pessanha Povoa e Joaquim Corrêa Lyrio.

Circulava às terças, quintas e sábados.

Tinha quatro páginas, com tiragem de 300 exemplares.

Faziam parte de seu corpo de colaboradores Gonçalo Marinho de Albuquerque Lins, Affonso

Cláudio, Ignácio Thomaz Pessoa, Amâncio Pereira, Antônio Athayde, Henrique Cancio,

Braulio Cordeiro Jr., Horácio Costa, Benevides L. Barbosa, Olympio Hygino, Pedro Lyrio, Genezio

Lopes, Gomes Netto, Manoel Augusto da Silveira, Moniz Freire, padre Antunes de Siqueira,

Marins Jr., Mucio Teixeira, Emílio da Silva Coutinho e Candido Brizindor.

Em 27 de janeiro de 1878, surge, na Capital, o Actualidade. Desapareceu com o falecimento

de seu redator, ocorrido em 30 de outubro de 1879. Folha política, literária, comercial e órgão

do Partido Liberal. Estava sob a direção do bacharel José Corrêa de Jesus, sendo seu editor

Benedicto Ferreira de Carvalho. Era continuador das idéias pregadas no Jornal da Victória, União e

Opinião Liberal. Tinha quatro páginas.

Em 7 de agosto, começou a se denominar A Actualidade. Devido ao fato de que o expediente

do Governo ocupava a maior parte das colunas, o Espírito Santense chamava-lhe o “órgão do

expediente”.

O primeiro número de Idéa, um semanário literário, saiu em 1º de setembro de 1878. Era de

propriedade e redação dos tipógrafos de O Espírito Santense e durou até 1880. Afonso Cláudio

e outros eram os seus colaboradores.

Em 7 de setembro de 1878, surge, na Capital, o Sete de Setembro.

Durou pouco, mas pelo menos um ano. Era literário e noticioso, e estava sob a redação de

Amancio Pereira, Lydio Mululo e Pedro Lyrio, então estudantes do Atheneu Provincial. O papel

verde e amarelo para imprimir o primeiro número foi emprestado por Pessanha Povoa, de A Gazeta

da Victoria.

Em 11 de abril de 1878, A Gazeta da Victoria anunciou o aparecimento de O Bonito. Seria um

periódico “crítico e chistoso, para mostrar a calva de certos moços tesoureiros de

sociedades quebradas e de outros pedantes”.

Em 20 de julho de 1879, surge O Operário, na Vila de Itapemirim.


Era um periódico comercial, agrícola e literário, que se declarava neutro na luta do partidos

locais. O editor era Candido Gonçalves Pereira Lopes. Durou até 19 de dezembro de 1880.

Em 15 de julho de 1880, aparece, na Capital, O Horisonte. Era do Partido Liberal. Durou até o

número 36, de 6 de junho de 1885, sendo substituído por O Liberal. Quando A Gazeta da

Victoria suspendeu a publicação dos atos oficiais, em março de 1882, O Horisonte começou a fazê-

lo. Tinha quatro páginas e era vespertino.

Em 3 de junho de 1882, tornou-se matutino e passou a sair duas vezes por semana, às quartas e

aos sábados. A tiragem era de 500 exemplares. Entre seus colaboradores estavam José

Joaquim Pessanha Povoa, Elizeu Martins, Tiburcio de Oliveira, Cerqueira Lima, Paulo de Freitas e

Manoel Rodrigues de Campos.

Em 15 de março de 1882, o Província do Espírito Santo surge na Capital. Foi fundado por

Cleto Nunes Pereira e José de Mello Carvalho Muniz Freire. Consagrava-se aos interesses da

província e filiava-se à política liberal. Publicava-se inicialmente três vezes por semana e tinha

quatro páginas. Em 3 de janeiro de 1883, tornou-se diário.

Aos domingos, a primeira página era dedicada à literatura. Mantinha correspondentes no Rio

de Janeiro, em São Paulo, Paris e nos municípios da província. Teve a primeira Marinoni

(impressora rotativa, que imprimia 10 mil exemplares por hora, necessitando apenas de três

operários) do Espírito Santo. Sua tiragem inicial era de mil exemplares, mas chegou a 1600 em

1889. Com o advento da República, passou a se denominar Diário do Espírito Santo (1889) e O

Estado do Espírito Santo (1890).

Tinha como colaboradores José Joaquim Pessanha Povoa, Affonso Cláudio, Adelina Lyrio,

Joaquim de Salles Torres Homem, Mucio Teixeira, Francisco Peçanha, coronel Augusto

Calmon Nogueira da Gama, Ferreira Vianna, Adelino Fontoura, Tiburcio de Oliveira, Emilio da

Silva Coutinho, Gama Rosa, Cerqueira Lima e Francisco de Lima Escobar Araújo.

Na Vila do Itapemirim, surge, em de maio de 1882, A Gazeta do Itapemirim. Durou até 2 de

novembro de 1884. Publicava-se aos domingos, com quatro páginas, e tinha como

colaboradores Alvaro Mario Pacca, Amâncio Pereira, Antonio Hautequestt, A.

Rodrigues, Candido Gonçalves Pereira Lopes, entre outros.


Em 20 de agosto de 1882, foi criado O Pyrilampo, órgão da sociedade Amor às Letras, de

estudantes do Atheneu Provincial.

Era publicado duas vezes por mês e teve como redatores João Magalhães Junior, Aldano

Paiva, Lydio Mululo e José Antonio Monjardim. Os colaboradores eram Amâncio Pereira, J. Lirio,

B.

Bastos, Pessanha Povoa, Jose Batalha Ribeiro, entre outros.

Em 1º de setembro de 1882, foi lançado, na Capital, O Baluarte.

Era um semanário literário, recreativo e noticioso, com quatro páginas. Entre os colaboradores

estavam Ignácio Thomaz Pessoa, Aristides Freire e Francisco Amalio Grijó.

Em 7 de setembro de 1882, surge O Mitra. Impresso na tipografia de O Horisonte, era um

periódico satírico e humorístico, de redação de José Joaquim Pessanha Povoa. Publicou 16

números, em quatro páginas. No mesmo ano, em 5 de outubro, surge O Filho, periódico crítico e

literário. O nome se deveu à falta de caracteres para o cabeçalho. As existentes só davam para

formar esse nome.

Em 7 de janeiro de 1883, apareceu A Passagem de Vênus. Era um semanário crítico, literário e

científico. Em 8 de julho, aparece A Folha da Victoria, publicado duas vezes por semana, em

quatro páginas, com tiragem de 600 exemplares. Era político, comercial, agrícola, literário e

noticioso. Tinha como colaboradores Candido Costa, Ubaldo Rodrigues, Adelina Lyrio, Tiburcio de

Oliveira, entre outros. Durou até 24 de julho de 1890, sendo substituída pelo Federalista.

Em 1º de novembro, surge o Vasco Coutinho, na Capital. Diziase alheio às lutas políticas e

pertencia ao capitão Odorico José Mululo, sendo redatoriado por José Joaquim Pessanha Povoa.

Deixou de circular em 16 de maio de 1884.

Em 4 de fevereiro de 1884, edita-se, na Capital, o semanário Magnólia. Era dedicado às

mulheres e impresso na tipografia do Vasco Coutinho. No mesmo ano, em 10 de fevereiro, surge A

Meditação.

Era de propriedade do Província do Espírito Santo e tinha como escopo a elevação do espírito

de classe e a dignificação da arte. Em 3 de julho, surge O Arado, que tinha publicação bissemanal.


Suspendeu a publicação no ano seguinte, sendo substituído por O Liberal. Em 6 de setembro,

aparece O Porvir, um periódico literário, dedicado aos artistas. Já em 6 de outubro, é

publicado Lúcifer, um jornal crítico e literário.

Em agosto de 1884, foi publicado o primeiro Almanak Administrativo, Mercantil, Industrial e

Agrícola da Província do Espirito Santo.

Interrompeu a publicação em 1887 e reapareceu em 1889. Tinha auxílio do governo

provincial.

Em 12 de abril de 1885, foi criado O Constitucional, na Vila do Itapemirim. Em 25 de julho de

1886, passou a ser publicado em Cachoeiro, onde findou em 25 de dezembro de 1889. Era

político, agrícola e comercial, sendo órgão do Partido Conservador.

Tinha quatro páginas e era publicado aos domingos. Em 1889, passou a ser bissemanal.

Em 17 de junho, surge O Liberal, na Capital. Ele vem para substituir O Horisonte e O Arado.

Como os anteriores, era órgão do Partido Liberal. Seus redatores foram José Joaquim Pessanha

Povoa e Maximino Maia. Era publicado três vezes por semana, com quatro páginas. Em 16 de

agosto do mesmo ano, é publicado O Athleta. O periódico circulava três vezes por mês e era

redigido por membros da sociedade Amor às Letras, assim como O Pyrilampo.

Em 1º de janeiro de 1886, circula o primeiro número de A Regeneração, em Anchieta.

Em 2 de abril de 1889, publica-se O Semanal. Durou 44 números, até 18 de agosto de 1890.

Era órgão dos alunos do Atheneu Provincial, redigido pelos estudantes Affonso de

Magalhães, Enéas Tagarro e Sebastião Barroso. Em 18 de agosto, circula A Violeta, em Cachoeiro.

Era um semanário literário, noticioso e recreativo.

Suspendeu a publicação em agosto de 1890. Com o advento da República, o Província do

Espírito Santo mudou de nome, para Diário do Espírito Santo. O primeiro número saiu em 23

de novembro, com tiragem de 1600 exemplares. No ano seguinte, em 1º de janeiro, seria substituído

por O Estado do Espírito Santo.

O Estado tinha como redatores Moniz Freire e Cleto Nunes. Em 2 de outubro, tornou-se órgão

do Partido Republicano Construtor e Cleto Nunes saiu da redação. Tinha tiragem de 1700

exemplares e era impresso em quatro páginas. Foi órgão do Governo de março de 1892 a 1905 e

cessou a publicação em 6 de agosto de 1911, devido a um empastelamento.


Aos domingos, publicava uma página literária. Estavam entre seus colaboradores: Horacio

Costa, José Joaquim Pessanha Povoa, Antonio Athayde, Affonso Cláudio, Ignácio Pessoa,

coronel Augusto Calmon Nogueira da Gama, Argeu Monjardim, Manoel de Alvarenga, Graciano

Neves, Olympio Lyrio, Henrique Cancio, Zozimo Fraga e Manoel Monjardim.

Em 2 de fevereiro de 1890, publica-se O Lidador. Era um semanário literário, recreativo e

noticioso, sob a redação de Phedro Daemon. Publicou 24 números, cessando em outubro do mesmo

ano. Em março, circulou O Rouxinol, em Anchieta. Era dedicado às mulheres.

O Diário Official do Estado Federal do Espírito Santo surgiu em 23 de maio. Foi criado pelo

decreto de 20 de fevereiro de 1890, em vista da rescisão do contrato que o governo mantinha com

O Estado do Espírito Santo para a publicação dos atos oficiais. Em 1891, passou a se denominar

Correio Official do Estado Federal do Espírito Santo.

Em 30 de julho, publica-se O Federalista, órgão democrático da União Republicana Espírito-

Santense. Publicava-se às quintas e aos domingos, com quatro páginas. Teve como

colaboradores José Francisco Monjardim, Ricardo Vieira de Faria, entre outros.

No dia 31, publicou-se O Pharol. Era um semanário, órgão do Partido Operário do Estado.

Em 1º de janeiro de 1891, surge o Commercio do Espírito Santo. No ano seguinte, tornou-se

órgão do Partido União Espírito-Santense.

Em 18 de novembro de 1896, tornou-se órgão do Partido Republicano Federal. Em 20 de

junho de 1904, criou a Seção Italiana, às quintas-feiras, com artigos de literatura, notícias, versos e

outros interesses da colônia. Em 1º de janeiro de 1909, deixou de lado a feição partidária. Em 1912,

passou a ser publicado com o nome de Commercio. Era um jornal diário de quatro páginas, com

tiragem de 1500 exemplares. Trazia aos domingos uma página literária. Teve a colaboração de

Antonio Aguirre, Antero de Almeida, Amâncio Pereira, Argeu Monjardim, Jose Monjardim, Luiz

Adolpho Thiers Velloso, Bernardo Horta, Domingos Vicente, Manoel Augusto da Silveira, Affonso

Magalhães, Lydio Mululo, Antonio Ferreira Coelho, Ricardo Vieira de Faria, entre outros.

Em 1º de fevereiro de 1891, surge o Companheiro do Silencio, em Cachoeiro. Era um

semanário, órgão do Partido Republicano- Construtor. Publicou 27 números, até 23 de julho. A

partir do número , de 6 de agosto, passou a se denominar Affonso Cláudio, sendo publicado até 29

de novembro. Ainda na primeira quinzena de fevereiro, surge o Amigo do Povo, em Anchieta. Em


de abril, começa a ser publicado o Correio Official do Estado Federal do Espírito Santo,

substituindo o Diário Official. No ano seguinte, passa a se chamar simplesmente Correio Official.

Foi extinto pela Junta Governativa em 24 de março de 1892, por causa da despesa que causava. A

tipografia, que custava 10 contos de Réis, foi vendida para O Estado do Espírito Santo, por três

contos de Réis.

Em 15 de agosto de 1891, publica-se O Norte do Espírito Santo, o primeiro jornal de São

Mateus. Era um semanário oposicionista ao Governo do Estado, que se publicava aos domingos.

Em 4 de janeiro de 1892, surge, em Anchieta, A Voz do Sul. Era um órgão político e literário,

fundado e dirigido por José Madeira de Freitas e Torquato Moreira. Era filiado ao Partido

Construtor.

Durou até o ano seguinte e teve como colaboradores Affonso Cláudio e Gonçalo Marinho de

Albuquerque Lima.

No mesmo ano, surgiram vários periódicos que duraram pouco:

A Chrysalida e O Município duraram dias; A Revolta durou cinco meses. Já A Opinião durou

dois anos, até 1894. O Echo da Lavoura, de Iconha, durou pelo menos até 1894.

Em 1º de janeiro de 1893, publicou-se O Alto Guandu, em Afonso Cláudio. Era uma

publicação dominical de quatro páginas, que foi suspensa em 11 de agosto de 1895. No mesmo ano,

surgiram jornais que duraram pouco tempo: O Alecrim, em Cachoeiro; O Alegre, em Alegre; O

Artista e O Democrata, na Capital.

Em 1894, surgiram O Operário (Capital); Verdade (Alegre); O Município (São Pedro do

Itabapoana); O Leopoldinense (Santa Leopoldina).

Em 6 de outubro, publica-se o Sul do Espírito Santo, em Cachoeiro. Era filiado ao Partido

Construtor, passando a ser órgão do Partido Republicano Federal, em 1896.

Em 1895, publicam-se O Aymorés (São Mateus); O Gladiador (Cachoeiro); A Experiência

(Santa Leopoldina); A Pátria, Treze de Julho, Alvorada e O Combate – que sucedeu o Treze de

Julho – (na Capital). Nesse ano, foi publicado também L’immigrato, primeiro jornal escrito em

língua estrangeira no Estado, que se propunha a defender os interesses da colônia italiana. Circulava

quatro vezes por mês, sendo impresso na Capital.


Em 1896, circulam O Papagaio, A Borboleta (Cachoeiro) e O Artista (Vitória). No ano

seguinte é a vez de O Relâmpago (Cachoeiro) e A Lyra (Vitória).

Em 1898, publicam-se O Alvor, Pimpão, Echo do Sul, A Folha Azul, O Binóculo (Cachoeiro);

O Tic-Tac, A Borboleta (Vitória); O Imparcial (Santa Leopoldina); e A Pátria (São Pedro do

Itabapoana).

Ainda em São Pedro do Itabapoana, surge, em 1º de janeiro, A Evolução, órgão do Partido

Construtor-Autonomista, com tiragem de 500 exemplares.

No ano seguinte, publicam-se A Gazeta Titteraria, A Gazeta do Povo (Capital); A Flecha

(Castelo); O Bilontra e A República (Vila do Itapemirim). Este tinha tiragem de 600 exemplares.

Em fevereiro de 1900, declarou-se filiado ao Partido Construtor-Autonomista.

Em 1900, surgem A Bomba, A Lanterna, O Jornalzinho (Cachoeiro);

A Alvorada, Auxiliadora, O Beijo – dedicado às mulheres – e Polyanthéa (Capital). O último

foi uma publicação especial, de quatro páginas, em virtude do quarto centenário do descobrimento

do Brasil, por iniciativa de Amâncio Pereira e A. Moreira Dantas.

Em 1901, a Polyanthéa foi destinada a homenagear o Marechal Floriano Peixoto. No mesmo

ano, foram publicados também O Pandego (Cachoeiro) e O Caboclo (Vila do Itapemirim), que

pugnava pela reforma da Constituição Federal e pela incorporação do território espírito-santense ao

de Minas Gerais.

A Polyanthéa para o Marechal Floriano foi publicada novamente em 1902. Ainda naquele ano,

foram publicados O Bodoque, O Opúsculo (Vila do Itapemirim); O Carnaval – revista

carnavalesca do Club Az de Copas, cuja venda foi revertida para a Santa Casa de Misericórdia

(Vitória) –; A Brisa (Vila Velha); e O Progresso (São Pedro do Itabapoana). Este era um semanário

que, em junho de 1904, tornou-se órgão do Partido Construtor-Autonomista, denominado O Rebate.

Em 1903, houve apenas um periódico: O Cravo, em Vila do Itapemirim.

Em 1904, publicam-se: O Norte (São Mateus); O Pharol (Vila Velha), O Tentamen (Viana);

Observador Catholico (Vila do Itapemirim);

O Martelo, Argos, Homenagem da Imprensa, O Operário – revista carnavalesca –

(Cachoeiro). Também em Cachoeiro, circulou o Alcantil, com tiragem de mil exemplares de quatro

páginas.


Ainda no mesmo ano, circulou pela primeira vez O Livro (Capital), que publicou somente três

números, reaparecendo em 21 de abril de 1914 como órgão do Colégio Amâncio. Sua tiragem era

de 500 exemplares, com distribuição gratuita. Ainda naquele ano, surgiu O Rebate (São Pedro do

Itabapoana), órgão do Partido Construtor-Autonomista, e depois do Partido Construtor. Em 1913,

virou órgão dos interesses do Governo Municipal. Suspendeu a publicação em 30 de março de

1913, voltando em 4 de março de 1916, como órgão oposicionista e defensor da candidatura de

Pinheiro Junior à P○residência do Espírito Santo.

Em 1905, publicam-se A Reforma (São Pedro do Itabapoana);

O Combate (Capital); A Reacção (São Mateus), Itabira, O Tentamen (Cachoeiro); O

Itapemirim (Vila do Itapemirim). Em comemoração ao terceiro aniversário do Clube Álvares

Cabral, publica-se o Vera Cruz, em 9 de julho. Por ocasião do encerramento do ano letivo na escola

regida pelo professor Amâncio Pereira, publicouse, em 5 de dezembro, o Honra ao Mérito. No

mesmo ano, em 10 de janeiro, foi publicado o Jornal Official, criado por um decreto no dia anterior.

Era dirigido pelo coronel Augusto Calmon e por Ignácio Thomaz Pessoa.

Em 1906, são criados O Piyrlampo, A Voz da Penha – semanário católico –, O Ferrinho, O

Prestígio, Guttenberg (Vitória); O Caçador – revista carnavalesca –, O Areópago, O Pierrot

(Cachoeiro); e, novamente, o Honra ao Mérito, da escola de Amâncio Pereira. Em comemoração ao

Sete de Setembro, publicou-se também Polyanthéa.

No ano seguinte, circulam O Vadio, O Lepidóptero (Cachoeiro);

O Binóculo (São Pedro do Itabapoana); Gazeta da Tarde, O Raio e O Corisco (Vitória). Ainda

na Capital, publica-se, em 18 de agosto, o primeiro número do Diário da Manhã, órgão do Partido

Construtor, mas que, em 30 de agosto de 1909, torna-se o órgão oficial do Governo do Estado.

Tinha quatro páginas e, em 24 de fevereiro de 1912, passa a se chamar apenas O Diário.

Em 1908, surgem Lábaro da Paz (São José do Calçado); A Navalha, O Tentamen, O

Gafanhoto (Cachoeiro); O Typo (Vila do Itapemirim).

Na Capital, circulam O Binóculo e Sete de Setembro, órgão dos alunos da Escola Jeronymo

Monteiro. Do segundo número em diante, passou a se chamar A Pátria. Era publicado em dias

de festas nacionais e escolares.


No ano seguinte, publicam-se o semanário A Opinião, o dominical O Beijo (Anchieta); O

Imparcial (Alfredo Chaves); O Santa Leopoldina – edição única – (Santa Leopoldina). Na Capital,

surgem O Tamoyo – jornal de anúncios da casa de mesmo nome, de quatro páginas, distribuído

gratuitamente – e Trabalha e Confia, distribuído por ocasião da inauguração dos serviços de água e

luz.

Em 1910, circulam O Radio, Álbum – com 12 páginas –, O Anthelmintico (Cachoeiro); A

Serra (Serra); Correio do Sul (Vila do Itapemirim); O Tentamen (São Pedro do Itabapoana); O

Charivari (Anchieta). Na Capital, são publicados O Popular, O Rubimense, A Escola – órgão dos

alunos do Grupo Escolar Gomes Cardim, que circulava em dias de festas nacionais e escolares. Em

2 de abril, circula a Revista Illustrada, semanário de crítica, arte e literatura, que publicou números,

com tiragem de mil exemplares.

Em 1911, saem Novo Horizonte (Cariacica); O Alegrense – semanário com quatro páginas e

tiragem de 500 exemplares – (Alegre);

O Calçado – dominical que substitui o Lábaro da Paz – (São José do Calçado); O Brasil, O

Gato (Anchieta); O Trabalho (Viana);

O Ideal (Cachoeiro). Na Capital, publicam-se A Notícia, O Tiro, Pharol, O Palco, O Chaleira,

A Victoria, além do Diário do Povo. O último era um órgão político e noticioso, cujo primeiro

número circulou em 21 de julho. Fazia oposição ao Governo de Jeronymo Monteiro. Publicou 214

números de quatro páginas, sendo o último em 18 de maio de 1912. Tinha como colaboradores José

Horácio Costa, Octávio Araújo, Adolfo Fraga, Eurípedes Nogueira da Gama Pedrinha, César

Velloso, Olympio Lyrio, José Lyrio, Philomeno Ribeiro, José Cândido de Vasconcellos,

Aristóbulo Leão, Kosciuszko Leão e outros.

Em janeiro de 1912, publica-se a Revista Militar da Força Pública do Estado do Espírito

Santo, na Capital. Tinha publicação mensal.

Foi fundada pelo diretor de segurança pública, Lafayette Valle, tenente-coronel Pedro Bruzzi,

comandante do Corpo Militar de Polícia, major-fiscal Alfredo Pedro Rabayolli, capitão

ajudante João de Barros, capitão Ramiro Martins, Archimimo M. de Mattos, diretor do Gabinete de

Identificação e Estatística. O número 5, último, publicado em maio, tem 18 páginas de texto, além

de dois suplementos com os retratos dos fundadores da Revista, do presidente da República,


Marechal Hermes da Fonseca, e dos presidentes Jeronymo Monteiro, que terminava o

quadriênio 1908-1912, e Marcondes de Sousa, que iniciava o período de 1912-1916.

No mesmo ano, surgem também Rio Pardo (Vila do Rio Pardo);

A Estrella (Cachoeiro); A Ré-publica (Cariacica); O Raio Illustrado, Commercio – que

substitui o Commercio do Espírito Santo –, O Diário – que, em 18 de março de 1913, volta a se

chamar Diário da Manhã –, A Verdade, Victoria, O Pagode, O Telephone, Jornal Official,

A Cruzada, A Tarde, A Tribuna, O Botão, O Diabo – que, a partir do número 3, passa a se chamar

O Raio, para, em 1914, ser substituído por O Besouro – (Capital).

Ainda na Capital, surge, em 1º de setembro, O Olho, semanário humorístico, que tinha como

redatores Aristóteles da Silva Santos, Urbano Xavier, Oskar Araujo e Luiz da Fraga Santos.

Tomou forma de revista em 5 de janeiro de 1913, passando a ter dezesseis páginas de texto,

além das páginas de anúncios e da capa em papel colorido. Findou no número 30, em 2 de agosto de

1913.

Em 1913, surgem O Muquyense (Muqui); O Echo (Vila do Itapemirim);

A Semana (São Pedro do Itabapoana); O Imparcial (São José do Calçado); A Encrenca

(Anchieta); O Affonso Claudio (Afonso Cláudio); Progredior – publicação quinzenal de

distribuição gratuita, com tiragem de 10 mil exemplares de quatro páginas –, Alvorada, O Estudante

(Capital).

Ainda em Vitória, publica-se o Diário da Manhã, em 18 de março.

Era órgão do Partido Republicano Construtor do Estado, mas, em 1921, declara-se órgão

oficial do Estado. Em 1915, foram instalados em suas oficinas três linotipos. Em 31 de janeiro de

1926, foi inaugurada a nova máquina de impressão roto-plana Duplex Press, dos fabricantes Buhler

Irmãos, de Unzwall, Suíça, especialmente fabricada para o Diário, que imprimia 6 mil

exemplares por hora, dobrando, colando, numerando e cortando as páginas. Funcionou no

pavimento térreo do atual Palácio Anchieta e teve como colaboradores Aristeu Aguiar, Manoel

Ferreira, Amancio Pereira, Adolpho Fraga, Carlos Xavier Paes Barreto, Aurino Quintaes, Augusto

Calmon, João Bastos Vieira, Azevedo Pimentel, Hermano Brunner, Affonso Cláudio, Affonso

Lyrio, Plínio Andrade, Abílio de Siqueira, J.J. Bernardes Sobrinho, Henrique de Novaes, Maria

Stella de Novaes, Abner Mourão, Escobar Filho, Aristóteles da Silva Santos, Alarico de Freitas,


Audifax Aguiar, Mirabeau Pimentel, Sezefredo Rezende, Antônio Tinoco, Aristóbulo Leão, Jair

Tovar, Climério Borges, Antônio Araújo Aguirre, Alvaro Moreira de Sousa (Saul de Navarro),

Fernando Rabello, Clóvis Nunes, Kosciuszko Leão, entre outros.

Em 1914, circulam Victoria Illustrada – com 22 páginas –, Carnavalescos?, O Operário, O

Abelhudo – substituído por O Berro –, A Crise, O Besouro – que substitui O Raio – (Capital); A

Integradora – com tiragem de 10 mil exemplares – (São Pedro do Itabapoana); Rio Novense, O

Binóculo (Rio Novo); O Santa Thereza (Santa Teresa); O Átomo (Afonso Cláudio); e A Fita

(Conceição do Castelo).

Em 1915, publicam-se O Pimpão, A Mocidade, Os Bohemios, O Pierrot, Polyanthéa, A Sogra,

Pax, Pro Pátria, Última Dança, O Progresso, O Curioso, A Flor, O Sport, O Melpomene, O

Correio, Gymnasio Espírito-Santense (Capital); O Santa Izabel (Santa Isabel, Domingos Martins);

A Nota, O Espião (Cachoeiro); A Columna (Vila Velha); O Timbuhy (Timbuí, Fundão); Espírito

Santo (Muniz Freire); O Acciolense (Acioli).

Em 1916, circulam A Luz (São Pedro do Itabapoana); O Centro (Santa Leopoldina); O Echo

(Rio Novo); A Ordem, A Desordem – para combater A Ordem –, Victoria Nua, O Myosotis, A

Pimenta, O Papagaio, A Penna, O Fallador, A Cuia, A Thesoura, A Mocidade (Vitória); O Lyrio

(São Pedro do Itabapoana), O Alpha (Cachoeiro), Atalaia (Alfredo Chaves) e O Interior (Vila do

Rio Pardo).

Além desses, publicaram-se também a Folha Official – órgão oficial do governo

revolucionário estabelecido em Colatina – e, na Capital, O Echo – diário vespertino do comércio,

lavoura, indústria, política, letras e artes. Era redigido por Thiers Vellozo, diretor e proprietário, e

João Milton Varejão. Tinha quatro páginas e o último número (443) saiu em 11 de fevereiro de

1918.

Em 1917, surgem Correio do Interior, Polyanthéa, Pica-páu, Beija- Flor (Santa Leopoldina);

O Campinho (Campinho – Domingos Martins); O Progresso (Itaguaçu); O Martello (Alegre). Em

São Miguel do Veado, município de Alegre, publicou-se, em 1º de abril, o Correio do Veado. Era

órgão do movimento separatista do distrito, de publicação semanal, com quatro páginas e tiragem

de 1,5 mil exemplares.


Na Capital, publicam-se Resenha Judiciária, Nova Senda, O Parafuso, A Nota, O Coió, O

Sport, O Folheto, O Colibri, Polyanthéa e a Revista do Instituto Histórico e Geographico do

Espírito Santo, com colaboração de Antonio Athayde, Araújo Aguirre, Carlos Xavier Paes Barreto,

Amâncio Pereira, Adolfo Fraga, Heráclito Amâncio Pereira, João Lordêllo dos Santos Souza,

Thiers Vellozo. A maior edição foi publicada no ano de 1926, com 203 páginas.

Em 1918, circulam O Atirador (Santa Leopoldina); O Carnaval, A Tarde, Polyanthéa

Carnavalesca do Pierrot Club, Polyanthéa, O Flirt, A Pellicula (Vitória); O Riso (Cachoeiro); e

Prelúdio (Vila do Itapemirim).

No mesmo ano, publica-se, na Capital, o Almanak do Estado do Espírito Santo, com 172

páginas sobre o Estado, numa tiragem de dois mil exemplares. Era dirigido por seu

fundador, Amâncio Pereira.

Teve colaboração de Antônio Athayde, Jair Tovar, Octávio Araújo, Jonas Montenegro, Aurino

Quintaes, Carlos Xavier Paes Barreto, Manuel Xavier, Aristides Freire, Mário Freire, Aristóteles

da Silva Santos, Francisco Rufino, Adolfo Fraga, João Lordêllo, Adolpho R. F. de Oliveira,

Kosciuszko Leão, Candido Costa, Edgard Daemon, Feu Rosa, Elpídio Pimentel, Elias Tomasi, entre

outros.

Em 1919, circulam Preito de Affeição, Riscando, O Obreiro, Santuário da Penha, Victoria

Commercial – com distribuição gratuita e 50 páginas –, O Succo – com segunda fase em Cachoeiro,

a partir de outubro de 1920 –, Educando – órgão do Colégio Americano –, Mocidade Baptista,

Almanak Histórico do Corpo Militar de Polícia do Estado do Espírito Santo – com 142 páginas –

(Vitória); e A Luneta (Alegre).

Em 1920, publicam-se Boletim Official (Muniz Freire); O Alfinete, Foliões, A Trombeta (Santa

Leopoldina); O Município (Cachoeiro);

O Povo (Santa Teresa); Correio do Sul (São José do Calçado), A Marreta (Alegre); O Riso, A

Primavera – revista de páginas, impressa no Rio de Janeiro –, Diário da Tarde, Gazeta de

Victoria (Vitória). Também foi publicado O Commercio, primeiramente em Santa Leopoldina, para

em 21 de junho de 1925 passar a circular em Santa Teresa.


Em 1921, circulam O Almofadinha, A Senda, A Victoria – com tiragem de mil exemplares –, O

Rebenque, O Sabe-tudo, O Estado (Capital); Folha do Dia (Muniz Freire); A Dactylographia

(Cachoeiro);

O Echo (Alegre); e O Radium (Santa Leopoldina).

No ano seguinte, publicam-se O Itabapoana, O Vagalume (Ponte do Itabapoana); Correio do

Guandú (Afonso Cláudio); O Riso, Correio do Alegre (Alegre); A Notícia (Colatina); O Filhote

(Santa Teresa); A Voz do Timbuhy (Timbuí – Fundão); A Voz do Povo (João Neiva); O Itapemirim

(Cachoeiro); O Evangelizador – órgão da Igreja Batista de Vitória –, O Embrulho, O Renovador e

O Garoto (Vitória).

Em 1923, é a vez de O Espião, O Telephone (Colatina); Boletim Parochial (Afonso Cláudio);

Folha do Sul (São José do Calçado); O Norte (São Mateus); A Verdade – órgão espírita com

tiragem de mil exemplares –, O Sorriso, O Bicudo, O Democrata, O Penedo, Excelsior e

Vida Capichaba (Capital). Em Muqui, publicou-se A Primavera, revista literária de 30 páginas,

com tiragem de 2 mil exemplares. Veio a ser substituída em janeiro de 1924, por A Opinião.

Em Vitória, circulou a Revista Pedagógica, órgão do professorado espírito-santense, com 38

páginas, sendo substituída em 1925 pela Labor. Seu redator-chefe era Arnulpho Mattos e entre os

colaboradores estavam Maria Stella de Novaes, Suzette Cuindet, Aurino Quintaes, Placidino

Passos, Fernando R. de Oliveira, José Queiroz, José Nunes, Olga Coitinho, Elpidio Pimentel,

Thereza Calazans, Bráulio Franco, Florisbello Neves, Ernesto Nascimento, Elpídio C. de Oliveira,

Corina Salles e Jayme Abreu.

Em 1924, circulam A Opinião, A Folia (Muqui); Correio do Alegre, O Anchieta (Alegre); O

Momento, A Setta, O Futurista, I Due Vessilli – periódico quinzenal dos interesses ítalo-brasileiros

– (Cachoeiro);

O Binóculo (Colatina); A Semana (João Neiva); O Centro (Itaguaçu);

Folha do Povo, Don Benedicto Alves de Souza – edição comemorativa ao regresso do referido

bispo –, A Luneta (Vitória); O Pharol (Vila Velha); Dou Xiquote (São Mateus); e O Truc (Afonso

Cláudio).


No ano seguinte, publicam-se O Propagandista – indicador comercial, industrial e

profissional, com tiragem de 3 mil exemplares de 100 a 130 páginas –, Progresso (Cachoeiro); Idéa

Nova (Mimoso); A Luz – órgão espírita de distribuição gratuita – (Afonso Cláudio);

Voz do Povo (Muniz Freire); O Gymnasio, O Binóculo (Alegre); O Almofadinha (Calçado); A

S Centelha (Colatina); A Gargalhada, O Santuário da Penha – órgão do centro espírito-santense de

propaganda católica –, Carnavanthéa, Credito Popular e A Garra (Vitória).

Para substituir a Revista Pedagógica, circula Labor, publicação mensal de 42 a 56 páginas.

Entre seus novos colaboradores estavam Benedicto Paulo Alves de Souza, Carlos Xavier Paes

Barretto, José Sette, Aristeu Aguiar, Hugo Vianna Marques, Thiers Vellozo, Manoel L. Pimenta,

Kosciuzsko Leão, Affonso Lyrio, Fernando Rabello, Ceciliano A. de Almeida, Jair Dessaune,

Heráclito Pereira, Aristóbulo Leão, Elias Tommasi e Orlando Sette.

Em 1926, último ano do inventário de Heráclito Amâncio Pereira, publicam-se O Labaro

(Santa Teresa); O Carnaval, O Matheense (São Mateus); A Platéa, O Estado (Cariacica); Jornal da

Serra (Serra); O Santa Cruz (Santa Cruz); A Alavanca (Alegre); A Pátria (Cachoeiro); A Ordem

(São José do Calçado); A Gaita (São Pedro do Itabapoana); Folha Official (Afonso Cláudio). Na

Capital, circulam A Marreta, Charitas, Correio do Povo, A Noite, O Espião – que publicou um

único número, sendo substituído por O Alarme –, Sirena, Jornal do Commercio e Homenagem a

Elpídio Boamorte.

A seguir, listaremos publicações cujas datas não puderam ser assinaladas pelo historiador.

Publicados na Capital: Annaes da Assembléa Legislativa Provincial do Espírito Santo, O Guarda

Nacional, O Constitucional, O Debate e A Violeta. Na Vila do Itapemirim: O Martello, A Mariposa

e Argos. Em Cachoeiro: Lanceta e O Espoleta. Em São José do Calçado: Folha do Sul e O

Monóculo. Em Rio Pardo: O Rio Pardense. Em Alegre: O Espelho e Voz do Sul. Em Mimoso: O

Mimosense. Em Santa Teresa: Almanak de Santa Thereza. E em Iconha: Almanak.


A Gazeta:

uma longa história de tradição e transformações

Juliana Bourguignon, Letícia Rezende e Patrícia Arruda

De um acanhado jornal de anúncios imobiliários ao periódico mais antigo ainda em circulação

no Estado. Assim poderíamos definir a trajetória de A Gazeta, fundada em 19.

Cerca de 90 jornalistas trabalham na produção diária do jornal.

Feita para atender as classes mais abastadas (A, B e C), a publicação segue uma linha mais

conservadora. A Gazeta é voltada, sobretudo, para as editorias de Política e Economia, o que

lhe confere um caráter ainda mais sério e confirma a sua atuação junto ao seu público. “O leitor de

A Gazeta é um leitor de terno e gravata, que tem um emprego e que vai trabalhar só depois de ler o

jornal”, considera Clodomir Bertoldi, jornalista mais antigo em exercício em A Gazeta.

Seguindo esse raciocínio, a direção de A Gazeta optou, durante as várias mudanças

promovidas nos últimos tempos, pela manutenção do formato standard, composto por dois

cadernos principais, pelo Caderno Dois, pelo Classificados e por suplementos temáticos semanais:

Informática, Imóveis, Turismo, Veículos, dentre outros.

A forma de se escrever em A Gazeta também acompanha essa linha, com textos moldados, em

sua maioria, pela clássica narrativa jornalística do lide. A Gazeta distribui sua edição diária em todo

o Estado do Espírito Santo, em parte de Minas Gerais e da Bahia e nas cidades de São Paulo, Rio de

Janeiro e Brasília.

Primeiro veículo da maior rede de comunicação do Estado, o jornal A Gazeta pertence à

família Lindenberg desde o final da década de 40, quando foi adquirido pelo grupo político do

exgovernador e ex-senador capixaba Carlos Lindenberg. Ou seja, é fácil concluir que a política e a

economia sempre estiveram em destaque.

Mas, diferentemente de outras redes midiáticas do Estado, A Gazeta pertence a um grupo

exclusivamente de comunicação, como enfatiza seu diretor geral, Carlos Fernando Monteiro

Lindenberg Neto, o Café: “A Gazeta é um grupo só de comunicação.


Se um grupo político tem um jornal, se um grupo econômico tem um jornal, é natural que uma

notícia que não esteja dentro dos interesses desses grupos não tenha a cobertura com a

abordagem mais adequada jornalisticamente. Procuramos ser uma empresa sólida, sadia

financeiramente para fazermos um bom jornalismo, sem termos que estar vinculados a interesses

econômicos. Nosso negócio grande é este aqui. Então, temos que fazê-lo bem feito para não dar

errado”.

No entanto, nos últimos anos, após passar por inúmeras reformas gráficas e editoriais, A

Gazeta reduziu consideravelmente seu índice de vendagem, tendo uma tiragem média atual de 50

mil exemplares nos domingos e 25 mil em dias úteis.

Para o jornalista Álvaro José Silva, que trabalhou por quase 30 anos no jornal e foi desligado

durante o processo de mudança, isto é resultado de uma crise de identificação com o leitor:

“A Gazeta precisa se reencontrar com o seu leitor. Perguntar ao leitor o que houve é o caminho mais

seguro e o único caminho que A Gazeta pode seguir hoje”.

O editor-executivo André Hees atribui essa queda a uma conjunto de fatores: disseminação do

uso da internet, da TV a cabo e do celular, e introdução de novos hábitos na classe média, com a

conseqüente perda de poder aquisitivo.

Este é um período de adaptação às reformulações pelas quais A Gazeta está passando e

também de apostas no que concerne à descoberta de um novo modo de se fazer jornal, visando a

ampliar seu público, principalmente entre os jovens. Registre-se que esse segmento é uma incógnita

para o setor impresso, tendo em vista que já nasceu num mundo dominado pelo audiovisual.

Nesse sentido, Hees faz uma análise de adequação do jornalismo impresso a esse momento

que atravessa a comunicação e sugere propostas para serem seguidas por A Gazeta: “O jornal

sempre terá o seu espaço. A tendência é ser cada vez mais atrativo, criativo. Tem que ter mais

capacidade de análise e interpretação, não basta dar a notícia, porque o fato em si está na internet.

O jornal tem que trazer isto e um pouco mais, apostar em conteúdo exclusivo, em reportagem,

reportagem investigativa, reportagem exclusiva, em análise, em matéria de comportamento, em

tendências, em tentar captar as tendências da sociedade. Tem que focar cada vez mais no amanhã e

não no ontem. Tem que dizer o que aconteceu e o que vai acontecer. É o que os jornais têm


tentado fazer. Os veículos impressos têm futuro e têm espaço. O que estamos vivendo é um

processo de adaptação à convivência com o novo veículo: a internet”.

Em nossa pesquisa, pudemos identificar várias fases pelas quais passou A Gazeta. O capítulo

seguirá essa divisão: “A Gazeta Política”, “A Gazeta Empresarial” e “A Gazeta Contemporânea”. É

esta a história que pretendemos traçar nas páginas que se seguem.

A Gazeta Política

As primeiras décadas do século passado representam um momento em que o Espírito Santo

estava atrasado economicamente em relação ao restante do País. Contudo, data dessa época o boom

da cafeicultura no Estado, o que lhe proporciona um lugar de destaque no cenário econômico

nacional. Esse é um momento de grande euforia. Vitória cresce e o Estado vive uma fase importante

da sua história.

O jornal A Gazeta surge nesse contexto, sendo fundado, em 11 de setembro de 19, pelo

empresário Ostílio Ximenes, dono da Imobiliária Cambury, e pelo advogado, professor, jornalista

e político Adolpho Luis Thiers Vellozo. O jornal foi criado porque Ximenez possuía um loteamento

em Camburi e desejava vendê- lo por meio de anúncios em jornal. O loteamento não foi vendido,

mas o jornal teve boa aceitação e continuou como uma opção de negócio.

Um episódio marcante dessa fase inicial deu-se durante a Revolução de 30, em 13 de

fevereiro, conhecido como “Dia do Empastelamento”. Na época, A Gazeta defendia a Aliança

Liberal contra o Governo e apoiava a candidatura de Getúlio Vargas à Presidência do Brasil. Ao

longo da campanha, houve algumas manifestações bastante violentas, como o tiroteio no Colégio

do Carmo, Centro de Vitória. A manchete de A Gazeta sobre o fato fora a seguinte: “13 de fevereiro

de 1930. Data que se desenha em sangue na história do Espírito Santo, perpetuando a

pusilanimidade de um governo”. Revoltados, partidários situacionistas invadiram a sede do jornal e

impediram que a edição do dia seguinte continuasse a ser rodada. A Gazeta foi proibida de

circular, voltando apenas seis meses depois, ainda sob a direção da família Vellozo.

Com o fim da Segunda Guerra, A Gazeta foi vendida a Eleosip- po Rodrigues da Cunha,

fazendeiro de São Mateus. O novo proprietário tinha o propósito de utilizar o jornal para fazer


campanha política para o Brigadeiro Eduardo Gomes, integrante da União Democrática Nacional

(UDN) e candidato à Presidência da República, em 1946. No entanto, o Brigadeiro perdeu as

eleições para o Marechal Eurico Dutra. Desacreditado por não ter alcançado o seu objetivo,

Eleosippo Cunha decide se desfazer do negócio.

A professora Marta Zorzal e Silva (1995) registra, com a recuperação do histórico do jornal, o

desenrolar dessa decisão:

De sua fundação até maio de 1948, quando foi adquirido

pela família Lindenberg, o jornal funcionou tanto como órgão

oficial do Governo (período pósrevolução de 30 até 1942),

como empresa privada.

Com efeito, em 1942, o jornal retornou às

atividades privadas através de sua transformação em

Sociedade Anônima, pelos empresários Aurino Quintais e

Oscar Guimarães. Esses empresários nomearam para

dirigilo o professor Heitor Rossi Belache, que permaneceu na

função até junho de 45, quando faleceu, sendo, então,

substituído pelo Dr. Nilo Martins da Cunha.

Em setembro de 45, os Srs. Oswald Guimarães e Pedro

Sposito renunciaram a suas funções de diretores da Sociedade

Anônima. Com isso, o Cel.

Eleosippo Rodrigues da Cunha assumiu a presidência da

organização e a direção do jornal passou para as mãos do Dr.

Rosendo Serapião de Souza Filho. O jornal permaneceu com

o Dr. Rosendo até maio de 1948, quando foi adquirido pelo

grupo Lindenberg, que substituiu a direção pelo Dr. Olympio

José de Abreu. Posteriormente, em novembro de

1949, quando o jornal assumiu, definitivamente, a postura do

novo grupo que o adquiriu, sua direção seria entregue a José

de Mendonça.

O grupo ligado a Carlos Lindenberg – político de direita, proprietário de terras, criador de

gado e plantador de cacau – criou uma sociedade e pediu para uma terceira pessoa, Alfredo

Alcure, representante do Partido Social Democrata (PSD) e amigo de Eleosippo da Cunha (UDN),

comprar o jornal. Anos depois, A Gazeta foi transferida para a sociedade criada. Os membros

dessa sociedade, aos poucos, foram vendendo as suas partes, as quais foram sendo adquiridas por

Carlos Lindenberg, que, em 1948, já Governador, acabou sendo o maior acionista do jornal.


“O jornal defendeu as posições da União Democrática Nacional (UDN) e, a partir de 1948,

passou para um grupo que fazia parte do Partido Social Democrático (PSD). Então, de 1948

até 1963, ele deixa de ser oposição e passa a ser o porta-voz da situação, do PSD, que era o grupo

de Carlos Lindenberg,” explica a cientista política Marta Zorzal.

Segundo dados fornecidos pela Rede Gazeta, a empresa, nessa época, estava instalada na Rua

General Osório, nº 119, Centro de Vitória. Possuía duas máquinas linotipos e uma impressora

rotoplana Magnone. “No início, o jornal reproduzia muitas matérias do Rio de Janeiro. Tinha

colunas de críticas locais e uma parte de debate político de facções. O público leitor era bastante

restrito e mais urbano. Nesse momento, a população do Espírito Santo era predominantemente

rural, sendo que mais de 80% da população estava no campo. Vitória ainda era uma vila, com uma

população de aproximadamente sete mil habitantes”, lembra Zorzal.

A Gazeta não tinha grande impacto na sociedade. O índice de analfabetismo no Espírito Santo

era altíssimo. Desse modo, quem consumia o jornal eram pequenos grupos. Marta

Zorzal exemplifica esta informação com a campanha para eleição de governador do Estado, em

1947: “Quem estava no jogo da disputa era Atílio Vivacqua, que era uma liderança desde os anos

20 e 30.

Nesse momento, o jornal A Gazeta ainda pertencia à UDN e Vi- vacqua (representante desse

partido) vai apresentar todo seu discurso e propostas por meio do jornal. No outro lado da

disputa, estava Carlos Lindenberg (PSD). Lindenberg vai fazer uma série de discursos em comícios

pelo interior do Estado, prometendo acabar com todos os impostos. Seu discurso vai ter muito

mais penetração do que o discurso bastante articulado, bastante racionalizado, pela liberdade, pelos

valores democráticos, típicos do momento de abertura política, que o candidato Atílio

Vivacqua estava fazendo e que quase não vai obter votos, pois o nível de penetração do jornal

naquele momento era muito pequeno”.

Os anos de 1960 ainda eram marcados pela vida no campo em terras capixabas. O Estado vivia

uma queda da cafeicultura e entrava em um processo de profundo empobrecimento, porque quase

99% da sua receita era derivada desse setor. Esse quadro só mudaria na década de 70. O discurso de

que o Espírito Santo estava abandonado foi transmitido pelas páginas de A Gazeta.

Também nesse período, o Brasil voltava a um regime ditatorial.


A Gazeta Empresarial

Em 31 de março de 1964, foi dado o Golpe Militar no Brasil, marcando o que seria o início de

uma fase nebulosa para a imprensa brasileira. Coincidência ou não, logo após o golpe, em abril de

64, assumiu o posto de editor-chefe de A Gazeta o General Darcy Pacheco de Queiroz, irmão de

Maria Lindenberg, esposa de Carlos Lindenberg, e de Eugênio Queiroz, diretor comercial da

empresa. Entretanto, jornalistas da época afirmam que esta era apenas uma patente e que o editor

não exercia o militarismo dentro da redação.

Com a entrada do general, foram contratados alguns novos profissionais, com o objetivo de

ampliar o jornalismo de A Gazeta.

Entre eles estava Glecy Coutinho, a primeira mulher a ser contratada para trabalhar nas

redações capixabas. Até então, a presença feminina nas páginas dos jornais se restringia a

colaborações.

Glecy foi convidada para desenvolver um projeto voltado para as crianças. Foi então que

surgiu a idéia de se fazer “A Gazetinha”, um fascículo semanal que priorizava matérias

educacionais e culturais. Junto com Glecy, também entraram Chico Flores e José Antonio Nunes do

Couto, o Janc, convidado para fazer o “Jornal do Janc”, uma página sobre futebol.

Mas em tempos de ditadura, não se vivia só de censura e repressões.

Chico Flores foi protagonista de um episódio curioso desse período. O jornalista começou a

freqüentar alguns bailes “barra pesada” para a época, no Centro de Vitória, local da boemia e

também reduto de prostitutas que circulavam pela área portuária. Certo dia, sua esposa foi à entrada

da redação do jornal e fez uma confusão. Ela reclamava das noitadas de seu marido, dizendo que ele

não parava mais em casa. A jornalista Glecy Coutinho foi chamada para acalmá-la. Então, explicou-

lhe que não era para ela se preocupar, que Chico estava indo a esses lugares a pedido do general

Darcy, para produzir uma série de reportagens sobre a prostituição em Vitória. Assim, ele deveria

ir aonde era o foco da questão. Resultado: após esse dia, Chico foi obrigado a produzir a tal série de

reportagem, que foi publicada no primeiro caderno.

Mas, voltando à história institucional de A Gazeta, o jornal vinha de um histórico de

envolvimento político com os governos da situação. Seu proprietário, Carlos Lindenberg, era filiado


ao Partido Social Democrata (PSD) e já havia cumprido dois mandatos à frente do Governo do

Estado (1947-50 e 1959-62). Em 1965, contudo, foi declarado o Ato Institucional nº2, que

previa, dentre outros cerceamentos, a legalidade de apenas dois partidos políticos: a Aliança

Renovadora Nacional (Arena) e o Movimen- to Democrático Brasileiro (MDB). A Arena era o

partido do Governo e a ele se aliaram os partidos de direita (PSD, UDN); já o MDB era o único

partido consentido de oposição ao regime. Por conseguinte, Lindenberg aderiu ao grupo arenista e

deu continuidade à sua trajetória política situacionista.

Durante a ditadura militar, a imprensa nacional sofreu forte pressão e com A Gazeta não foi

diferente. A censura estava em toda parte e se expressava em três estágios diversos. A

primeira instância era proveniente dos órgãos de controle de imprensa do Governo, que emitiam

bilhetes comunicando quais eram os assuntos que não poderiam constar nos noticiários e

páginas dos jornais do dia seguinte. Para esses bilhetes, foi destinado, inclusive, um lugar de

destaque na redação, que ficava ainda no prédio A Gazeta, na Rua General Osório, Centro de

Vitória. Era um espaço em um mural de cortiça, decorado com uma tesoura aberta. Ali,

penduravam-se as ordens de censura e, às vezes, até matérias produzidas que não haviam

“passado”. É consenso entre jornalistas da época que muitos daqueles bilhetes serviram também

como propagadores de notícias que não saíam na mídia.

Era por ali que se ficava sabendo das atrocidades do regime e das movimentações populares

espalhadas pelo País. As informações, ainda que incompletas, eram levadas ao conhecimento de

movimentos sociais clandestinos.

A segunda instância de censura era a dos editores dos jornais, que, mais que censurar os textos

dos seus repórteres com o objetivo de oferecer apoio à ditadura, faziam-no por proteção pessoal.

Por fim, a terceira instância partia do próprio jornalista, que, sabendo de todas as supervisões a

que seria submetido, fazia uma autocensura e já preparava o texto sob medida para ser

aprovado pelas instâncias anteriores.

Mas, os jornalistas, em épocas de opressão, também usavam de mais criatividade em suas

publicações para driblar o Governo.

Desse modo, por meio de metáforas e de colocações sutis, esses profissionais encontravam

meios de enfrentar a censura. Quando era preciso eles se faziam de bobos. Certa vez, quando


foi assassinado o presidente chileno Salvador Allende, veio a ordem da censura federal para que não

se reportasse o ocorrido e para que só fossem feitas notícias elogiosas ao golpe militar daquele país.

Todas as atrocidades e massacres deveriam ficar de fora dos jornais. Os presos políticos foram

levados ao Estádio Nacional de Santiago, onde foram separados em celas, torturados e,

muitos deles, ali mesmo assassinados. Nessa mesma época, a seleção chilena precisava fazer um

jogo das eliminatórias para a Copa de 74 contra a seleção da União Soviética, naquele estádio.

Mas os soviéticos se recusaram a jogar, alegando que não jogavam em campos de concentração. No

dia seguinte à publicação dessa notícia, a chefia, preocupada com a repercussão que a

matéria poderia causar, chamou a atenção do editor de Esporte, Álvaro José Silva: “Álvaro, você

viu o que você publicou?”. “O que eu ia fazer? Dizer que o jogo vai acontecer?”, retrucou o editor.

“Mas não podia ter tirado o campo de concentração?”, reclamou a temerosa chefia. “Ih, passou

batido, nem vi!”, constatou o “desligado” editor.

Alguns jornalistas eram chamados a prestar esclarecimentos quanto ao teor do material

publicado e, às vezes, até ficavam dois ou três dias presos para serem intimidados, como foi o caso

do chargista Milson Henriques. Milson fazia diariamente a charge para A Gazeta e, quando estava

preso, era substituído pelo também chargista Janc. Desse modo, a população tomava

conhecimento da sua prisão, o que, para ele, era uma garantia de que não seria torturado. “Toda a

cidade sabia que eu estava preso. Eu não tinha medo de apanhar, por exemplo, porque eles não iam

me bater ou me matar, já que todo mundo sabia que estava preso.

Essa certeza me tirou muito do medo que eu poderia ter. E, na época, A Tribuna era um jornal

pequeno. Então era A Gazeta que mandava mesmo”, conta Milson Henriques. Os jornalistas,

de certa forma, tinham essa segurança de serem respaldados pelo respeitável nome A Gazeta, o

veículo para o qual trabalhavam.

No meio desse caminho, também havia os interesses da empresa.

A convicção política da diretoria de A Gazeta ia contra os ideais da grande maioria dos

jornalistas de sua redação, que era de esquerda. “As pessoas mais inteligentes eram de esquerda.

Então eles [os diretores] tinham que se render às pessoas inteligentes, e as pessoas inteligentes,

para sobreviver, tinham que se render a eles”, reflete Milson Henriques. Jornalistas e editores

se viam obrigados a seguir algumas determinações. Existia a linha editorial do jornal e o que a


empresa chamava de “recomendações editoriais”, as quais, por vezes, seriam um consenso entre

os editores e os seus repórteres – como a não-publicação de temas tabus para a época, como a

homossexualidade – e, por outras, seriam a transmissão de um posicionamento político da diretoria.

Mas os tempos de ditadura não foram de todo ruins para A Gazeta. Durante o período de

exceção, o jornal ganhou porte empresarial. Em 1969, ela saiu da sua sede, o acanhado

prediozinho de três andares na Rua General Osório, Centro de Vitória, para se instalar no Edifício A

Gazeta, de treze andares, um investimento imobiliário, localizado na mesma rua. Naquele

mesmo ano, foi instalado, já na nova sede, o sistema de impressão off-set e a rotativa Goss.

Também se passou a utilizar o fotolito e, nessa mesma época, foi introduzida a composição a frio.

Glecy Coutinho explica o processo de composição a chumbo, abandonado com a mudança: “A

barra de chumbo vai derretendo e cai nas canaletas. Quando ela ainda está mole vai-se

datilografando, é uma espécie de datilografia em cima do chumbo ainda quente e mole. Se faz uma

fatia, linha por linha, a linha vai passando e vai caindo, com a letra em cima. Depois que o texto

estava pronto, amarrava-se com um barbante todos os pedaços formando o tex- to. Colocava-se

numa mesa e tirava-se uma cópia. Botava-se no prelo e se passava tinta em cima, depois se botava o

papel e passava o rolo. O que estava escrito ali já saía pronto. Depois, passava-se o material para o

jornalista ler e corrigir. Tinha os revisores, além da redação, era muita gente que trabalhava por

turno, um lia a matéria, corrigia e depois lia de novo. Esse trabalho de revisão veio até a chegada

dos computadores. O que estivesse errado era marcado no texto, levado para a oficina e os

funcionários corrigiam as palavras erradas e acentos no chumbo”.

Por falar em mudanças, em 1983, A Gazeta trocou novamente de casa. Dessa vez, a empresa

saiu do Centro de Vitória e se instalou na atual e bem estruturada sede na Rua Chafic Murad, Ilha

de Monte Belo, montada para comportar todos os veículos da Rede Gazeta. A mudança física da

empresa foi acompanhada por nova modernização do parque gráfico, com a compra da rotativa

Harris/845, com capacidade de impressão de 60 mil exemplares por hora.

Mas, voltando aos anos setenta, em 1971, dando continuidade às renovações tecnológicas, com

a aposentadoria definitiva das máquinas de linotipo, chega às redações capixabas o primeiro telex,

que conectaria A Gazeta às principais agências de notícias nacionais e internacionais e seria um


ecurso adicional a essas duas editorias, já que, além de notícias tornou-se possível receber fotos

através dos sistemas radiofoto e telefoto.

A primeira grande reformulação jornalística em A Gazeta ocorreu entre 1972 e 1975. Foi

executada pelo então editor-chefe, Marien Calixte, e por jornalistas que participaram de um

programa de estágio no Jornal do Brasil (Sérgio Egito, Amylton de Almeida, Erildo dos Anjos,

Élber Suzano, dentre outros). O JB foi a matriz do modelo gráfico e editorial aplicado em A

Gazeta, revolucionando sua forma de fazer jornal. Ao fim desse processo de inovações, A Gazeta

ganhou porte de um jornal moderno para a época.

As principais inovações gráficas e editoriais foram: adoção de um novo modelo de paginação e

de diagramação; renovação do logotipo A Gazeta, utilizando na marca letra característica de

imprensa; reposicionamento de seções; separação das matérias por editorias, que foram divididas

em dois cadernos – no primeiro, ficaram Opinião, Cidade, Polícia, Economia e Política; no

segundo, Agenda, Cultura e Esporte –; adoção de um editorial, charge e tirinhas; e criação de

colunas de opinião destinadas a articulistas.

Logo as editorias de Agenda e Cultura deram origem ao Caderno Dois, batizado assim pelo

seu então editor, Erildo dos Anjos.

Além dessas mudanças, que renovaram a cara do jornal, houve também inúmeras inovações

editoriais que merecem destaque por serem responsáveis pela profissionalização de A Gazeta.

Dentre elas, estão as criações da Secretaria de Texto – responsável por promover uma

uniformização das matérias e por aplicar a técnica de utilização do lide e da pirâmide invertida –; da

Secretaria de diagramação; e da Editoria de Pesquisa.

Paralelamente ao projeto de reformulação do jornal, veio o processo de profissionalização das

pessoas envolvidas na sua produção diária. Vale lembrar que a ditadura militar apertou o cerco a

profissionais sem registro ou formação acadêmica em Jornalismo. A discussão ganhou espaço nas

páginas de A Gazeta, especificamente na coluna de Hélio Dórea, que reivindicava a criação do

curso de Jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Assim, segundo nos conta a

jornalista Glecy Coutinho, a pedido de Carlos Lindenberg Filho, o Cariê, e de João Santos,

proprietário de A Tribuna, em 1975, foi criado o curso de Comunicação Social da Ufes, para

atender às necessidades do mercado. Nessa época, ainda era comum que estudantes de Medicina


(Alípio César), Engenharia (José Carlos Correa) e Direito tivessem participação expressiva dentro

das redações, sobretudo os estudantes de Medicina.

No final da década de 70, o regime de exceção já demonstrava sinais de esgotamento,

catalisado pelo fim do “milagre econômico”.

A crise que atingiu o Brasil acabou por minar o pouco do prestígio que o Governo Militar

ainda poderia ter entre a população e fortaleceu os movimentos sociais de contestação.

Nesse contexto, a imprensa também contribuiu de modo significativo para inflamar o povo contra a

ditadura.

Em 1979, assumiu a Presidência do Brasil o General João Baptista Figueiredo, prometendo

redemocratizar o País. Nesse mesmo ano, foi assinada a Lei de Anistia (“ampla e irrestrita”), que

previa a suspensão das penalidades aos opositores do regime militar e colocava fim à censura de

imprensa. Mesmo assim, os jornalistas foram cautelosos em suas matérias, posto que ainda viviam

em um Estado ditatorial. A liberdade geral só veio mesmo em 1985, quando os militares saíram do

poder.

A Gazeta contemporânea

Nos últimos 20 anos, é possível observar diversas mudanças que marcaram a trajetória de A

Gazeta. Nesse período, o jornal enfrentou dificuldades, realizou novas experiências gráfico-

editoriais e modernizou seu parque industrial.

A partir de 1986, A Gazeta colocou em operação um avançado sistema de fotocomposição,

cuja recepção, codificação e processamento passaram a ser inteiramente computadorizados.

Em 1992, o periódico passou a contar com fotos coloridas diariamente, seguindo a tendência

do que vinha acontecendo com os demais jornais impressos do Brasil. Esta foi uma tentativa

de atingir os novos interesses dos leitores, visto que os últimos 20 anos foram marcados por

mudanças de hábitos da sociedade.

Muitas pessoas passaram a acompanhar as notícias pela televisão.

Dessa maneira, a saída que A Gazeta encontrou para sobreviver e superar a crise que se

instaurava foi acompanhar essas transformações e se tornar um veículo mais moderno, explicativo


e contextualizado. Nesse mesmo ano, foi contratada uma empresa de consultoria para cuidar da área

de planejamento estratégico do jornal. Este foi o ponto de partida para as transformações que

viriam posteriormente. Em 1994, A Gazeta inaugurou seu sistema de redação informatizada.

No entanto, mesmo com o progresso técnico e administrativo, o jornal, que outrora vendia

aproximadamente 100 mil exemplares aos domingos, estava perdendo cada vez mais leitores.

A Tribuna ultrapassa as vendagens de A Gazeta e, paralelamente, crescia o número de assinaturas

de jornais de fora do Estado, como Folha de São Paulo e Jornal do Brasil. Essa queda nas

vendas acentuou-se em 1995, com a morte do então diretor de redação, Paulo Torre, que dirigiu A

Gazeta no ápice das vendagens.

Em 1996, Vinícius Seixas, jornalista experiente da empresa capixaba, assumiu a chefia de

redação, e profissionais de outros Estados foram trazidos para atuar no jornalismo local. Sua

permanência no cargo foi curta. Ele viveu uma espécie de interinidade até a entrada de Ariovaldo

Bonnas, ainda no ano de 1996.

Bonnas veio de São Paulo para o Espírito Santo especialmente para dirigir a redação do jornal.

Em sua passagem por A Gazeta, o editor realizou algumas demissões e trouxe mais

profissionais de fora do Estado. Era um jornalista reconhecido por gostar de grandes reportagens e

grandes assuntos. Contudo, apesar das boas intenções com o jornalismo capixaba e de ter

conseguido alguns bons resultados no comando do jornal, ele não permaneceu por muito tempo.

Em 1998, Bonnas pediu demissão e Vinicius Seixas assumiu novamente como chefe interino

até a chegada do também paulista Roberto Muller, jornalista famoso por ter sido o responsável

pela reforma gráfica e editorial em A Gazeta Mercantil, considerada por muitos como um marco do

jornalismo moderno no Brasil.

Roberto Muller foi o responsável por uma segunda reforma gráfica no jornal, comandada pelo

cubano Mário García, considerado uma das maiores autoridades em design gráfico por já ter

realizado reformas em alguns grandes jornais do mundo. A Gazeta passou a dar prioridade a

matérias mais curtas e a assuntos locais. Além disso, tornou-se mais colorida e recebeu

maior número de fotografias e de recursos gráficos. Muller também “importou” os jornalistas

Marco Antônio Rodrigues e Cláudio Conceição, para ajudá-lo na gerência da redação.

Com a entrada de Muller, houve um enxugamento na redação.


Cerca de 30 profissionais foram demitidos. Essas demissões coincidiram com a época da crise

econômica no Brasil, ocasionada pelo fim da paridade dólar-real em 1999. Segundo o colunista de

A Gazeta Sérgio Egito, as demissões foram uma espécie de adaptação ao impacto do câmbio

flutuante, tendo em vista que 90% dos insumos de um jornal impresso (papel, tintas, peças

de máquinas, filmes, etc) são comprados em dólar. Mas, além do problema com os gastos

cotidianos, a Rede Gazeta sofreria o impacto de empréstimos feitos para a modernização do jornal.

Em 1997, começou a construção de um prédio em uma área com, aproximadamente, seis mil

metros quadrados, anexa ao edifício sede da Rede Gazeta. O novo parque gráfico, inaugurado em

1999, foi construído para abrigar a impressora Newsliner, uma das mais modernas do mercado, de

fabricação norte-americana.

Com capacidade de produção 3,5 vezes maior que a da antiga impressora, ela consegue

produzir até setenta mil exemplares por hora de cadernos de até 32 páginas, sendo 16 em várias

cores e as outras 16 em duas cores. Todos os ajustes da nova máquina são feitos através de

softwares específicos, o que reduz consideravelmente as perdas de produção.

Esta foi a terceira revolução na confecção das páginas do jornal e corresponde ao maior

investimento feito pela empresa desde a fundação do diário, em 19. A primeira foi na década de

50, com a troca dos tipos móveis pela composição feita a chumbo, na máquina linotipo. Depois veio

a fotocomposição, no final dos anos 60. Agora, o grande avanço concerne à introdução da

informatização em todas as áreas do processo de produção.

Todavia, as empresas que investiram em novos equipamentos no final da década de 90 tiveram

prejuízo, em virtude do aumento expressivo do dólar. A partir de 1999, a moeda passou de R$ 1,20

para aproximadamente R$ 3,80. Os jornais que tinham comprado equipamentos em dólar viram sua

dívida triplicar repentinamente.

A Gazeta havia adquirido uma nova impressora no valor de US$ 9 milhões, sendo que, desse

montante, 7,2 milhões foram financiados. Esse financiamento foi pago em um valor três vezes

maior que a dívida inicial.

“Todas as empresas que investiram em novos equipamentos, tiveram prejuízo. Não há nenhum

jornal do Brasil que tenha lucrado no período de 2001 a 2003, devido ao aumento do preço do

dólar. Adquirimos uma nova impressora. Mesmo com a crise, que comprometeu a rentabilidade da


empresa, a parte repassada para o leitor foi muito pequena. Muitas empresas tiveram de se ajustar.

Assim como A Gazeta, a Folha de São Paulo e O Globo demitiram muita gente para superar a crise.

Alguns jornais foram vendidos, inclusive”, diz Carlos Lindenberg Neto, o Café, diretor geral da

Rede Gazeta.

Álvaro José Silva, jornalista demitido na época, após 27 anos na empresa, diz que as

demissões realizadas vieram em resposta às contestações dos jornalistas mais antigos em meio às

mudanças gráficas e editorais adotadas no jornal. “É difícil para um profissional de 20, 30 anos de

atividade ficar convivendo com coisas erradas sem poder reagir. O jornal perdeu força e conte- údo

também. Na redação, foram mais de 20 demissões. Até que um belo dia o próprio Roberto Muller

pediu demissão. Jornalistas que eu conheço em São Paulo me disseram que ele pediu as contas

porque não estava conseguindo fazer o jornal reagir e não queria associar sua imagem a um

fracasso. Eu acredito que aquela mudança foi o maior erro que o jornal cometeu”, diz.

Em meio às dificuldades que o setor impresso da Rede Gazeta enfrentava naquele momento, a

empresa investiu na criação de um novo jornal para atingir segmentos da sociedade que, até então,

não eram abrangidos pela empresa e se configuravam como o público preferencial da concorrente A

Tribuna. Assim, em 2000, foi lançado o Notícia Agora.

No início, as redações eram separadas fisicamente. Contudo, em 2001, foi preciso fazer uma

revisão logística nas redações de A Gazeta e do Notícia Agora, as quais, após alguns ajustes,

passaram a dividir o mesmo espaço. “A redação de A Gazeta teve um período de muita resistência a

mudanças. Já o jornal Notícia Agora entrou no mercado com menos compromisso com o passado.

A competição interna entre os dois jornais era muito grande. Hoje, eles convivem bem e

compartilham algumas editorias como as de Polícia e Brasil. O Notícia Agora trouxe boas lições

para A Gazeta, principalmente nas áreas de Serviços e Cidades”, diz Café. O passo a passo da

criação e a trajetória do Notícia Agora estão no capítulo cinco deste livro.

Uma trajetória de mudanças

As novas tecnologias propiciaram uma série de vantagens para o processo técnico de produção

dos jornais. Até 1988, existiam em A Gazeta apenas dois microcomputadores; atualmente, são cerca


de 800. A informatização do setor foi acompanhada pela criação de uma grande estrutura para dar

suporte a essa nova realidade da empresa.

Com os computadores, veio também a internet. No início, apesar de disponibilizar um grande

número de informações, auxiliando nas pesquisas dos jornalistas, ela não era uma fonte

muito confiável, diferentemente dos dias de hoje, em que é possível ter acesso a todos os jornais do

mundo com a mesma confiabilidade de um jornal impresso. A formação jornalística dos

universitários também mudou com a entrada das novas tecnologias. Se antes as redações serviam de

laboratório para os profissionais iniciantes, hoje, eles já saem da universidade dominando o

computador, a fotografia e outros instrumentos de trabalho. O repórter vai para a rua, faz a

entrevista, fotografa, faz tudo. Esta é uma nova tendência que já pode ser observada em alguns

jornais do mundo.

“A informatização só muda onde você contrata as pessoas. Antigamente, havia várias etapas

de pré-impressão. Quando entrei em A Gazeta, em 1988, havia sete etapas entre a redação e a

impressão;

hoje há apenas uma ”, diz Café.

Com a evolução dos meios audiovisuais, como o rádio, a televisão e a internet, o jornalismo

impresso está passando por mudanças significativas na maneira de levar a notícia para seu leitor.

Antigamente, essa diferença se dava pelo fato de o jornal ser mais completo do que os outros

veículos. Hoje, as novas tecnologias exigem uma nova maneira de se fazer um jornal impresso. As

notícias estão mais curtas e pró-ativas, ou seja, a notícia, na maioria das vezes, apresenta uma visão

projetada de futuro e não mais baseada no passado.

Atendendo às novas exigências, A Gazeta buscou novamente se adaptar, modificando, dessa

vez, não apenas sua apresentação gráfica.

No ano de 2004, houve a implantação de um novo projeto editorial e gráfico, com o objetivo

de ampliar a cobertura dos assuntos locais, avançando na análise e na interpretação dos fatos.

Novo modelo de A Gazeta

Foram oito meses de planejamento – desenvolvido pela consultoria espanhola Mediacción, da

Universidad de Navarra, que presta serviços para 38 jornais na Europa e na América Latina1 – até


que o novo modelo de A Gazeta no formato standard – o único do Espírito Santo – fosse lançado no

mercado, com mudanças gráficas e editoriais, em julho de 2004.

Com as modificações, o jornal está dividido por cadernos e a estrutura geral das páginas é

seguida de uma matéria principal, uma secundária e uma coluna de notas curtas ou uma coluna de

autor.

As notícias locais passaram a ser publicadas no início do primeiro caderno, incluindo o

noticiário de polícia e segurança pública. Notícias internacionais, nacionais, políticas, econômicas e

esportivas estão na segunda parte do primeiro caderno. As editorias não têm ordem nem número de

páginas fixos. A exceção é apenas para Esportes, que sempre fecha o caderno. O jornal passou a

privilegiar assuntos mais próximos do cotidiano do público.

Nessa reforma, foi criado o Guia de Serviços, no formato tablóide.

Publicado diariamente, o guia concentra informações sobre cursos e concursos e seções que

estavam espalhadas pelo jornal, como Linha Direta, Coluna da Fé, Tempo, Cruzadas e Quadrinhos.

Todas as editorias contribuem com pautas e repórteres para fechar esse caderno.

O Caderno Dois passou a contemplar mais informações sobre programações de arte e

espetáculos, cinema e televisão. Além disso, o periódico conta com suplementos semanais sobre

diversos temas, como informática, imóveis, turismo, lazer, veículos, moda, turismo e saúde. Possui,

ainda, o suplemento infantil “A Gazetinha”, um dos mais antigos do País, com mais de 40 anos.

Além dessas transformações, A Gazeta incorporou ao seu quadro de colunistas nomes

expressivos, como Arnaldo Jabor, Benjamin Steinbruch, Dráuzio Varella, Renato Machado,

Agamenon Mendes Pedreira, Tostão, Paulo Rabello de Castro, entre outros.

“O jornal tornou-se mais segmentado. A nova filosofia adotada pela empresa foi criada com a

finalidade de atender a essas transformações dos hábitos da sociedade. Hoje, a edição é

mais planejada e flexível em termos de paginação, o que oferece mais mobilidade na redação. Além

das reformas gráficas, houve também uma mudança conceitual. A Gazeta passou a ser um jornal de

serviços, sem perder seu público. A assinatura aumentou e está conseguindo bons resultados. As

pesquisas pós-lançamento revelaram que a taxa de aprovação das mudanças é de mais de 90%. Em

agosto de 2005, foi feito um planejamento do rumo da empresa para os próximos três anos”, revela

Café.


A Gazeta e a política de fim de século

Na virada do milênio, o Espírito Santo foi marcado por uma onda de denúncias de corrupção

nas estruturas do poder público. O jornal A Gazeta abriu espaço para reportagens (muitas delas

premiadas) que tiveram grande influência no quadro geral da política capixaba.

A administração do ex-Governador José Inácio Ferreira esteve envolvida em denúncias de

operações ilegais que incluíam desde desvio de verbas públicas para financiamento de sua

campanha política, passando por superfaturamento de obras, até cobrança de propinas e chantagens

para liberação de transações envolvendo o erário público.

O processo de apuração foi demorado. Da primeira suspeita de fraude à publicação da primeira

reportagem bombástica se pas- saram cerca de 40 dias de puro trabalho investigativo,

sustentado pela ação da Polícia e do Ministério Público.

Foram quase dois anos de cobertura, de 2001 ao final de 2002. Uma equipe de jornalistas,

chefiada pelo então editor de Política, Sérgio Egito, trabalhou no caso. Dentre esses jornalistas

estavam Andréia Lopes, André Hees, Lúcia Garcia, Eduardo Caliman, Gabriela Rölke, Radanezi

Amorim e Vilmara Fernandes.

O jornalista Eduardo Caliman, atual editor de Política, conta que A Gazeta recebeu de fontes

em off uma cópia de um extrato bancário que demonstrava o repasse de um empréstimo de R$

2 milhões feito no Banestes a duas empresas. Esse dinheiro chegou a José Inácio por meio dessas

empresas e foi usado para cobrir o rombo que ele tinha naquele banco referente a um

empréstimo feito durante sua campanha eleitoral.

Entretanto, mesmo com essa prova nas mãos, o jornal não publicou a matéria, porque não

havia a certeza quanto à questão de ter que se respeitar o sigilo bancário. Além disso, o

jornalista lembra que o fato de o então presidente da Assembléia Legislativa, José Carlos Gratz,

estar alimentando a imprensa com informações era um fator de questionamento quanto à veracidade

do material reunido, já que ele era parte interessada no processo de afastamento do Governador e do

Vice-Governador, pois seria o próximo a assumir o Palácio Anchieta, seguindo a hierarquia dos

poderes. Assim, foi preciso fundamentar as matérias com o dobro de cuidado.


“Começar com as denúncias era difícil. A Folha de São Paulo deu uma notinha. Já era

público, nós aproveitamos e soltamos. O veículo do Estado tem que tomar mais cuidado, porque a

gente se importa muito mais com a vida daqui do que a Folha de São Paulo”, explicou Caliman.

Após as primeiras denúncias, o caso foi se desdobrando. Se- gundo Sérgio Egito, José Inácio

tomou medidas informais para abafar a divulgação de novas informações: “Proibiram os

secretários de dar entrevista para A Gazeta. Nós tivemos que nos virar com nossas fontes dentro do

Governo. Nós sempre precisamos ter uma fontezinha, os offs são necessários. E, no Governo,

também sempre tem uma disputa. Seja em qual governo for. Até que, no final, nós conseguimos que

algumas fontes em off fossem em on, como o procurador Geraldo Salles Pimentel”.

O jornalista André Hees também confirma essa situação: “Um ou dois secretários me disseram

que não podiam dar entrevista por telefone, porque estava tudo grampeado: ‘O Governador

fica sabendo e depois cobra da gente’. Sofremos boicote de informação, eles passavam para a

concorrência porque era estratégia do Governo passar para eles e não para nós”. Os jornalistas

sofreram muita pressão política e alguns foram até processados, como a jornalista Andréia Lopes, já

absolvida.

Outro escândalo que marcou a época, segundo os jornalistas ouvidos, foi o desvio de verbas da

transação milionária de vendas de crédito de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e

Serviços) da Samarco à Escelsa. A Samarco, por ser uma empresa exportadora, acumula créditos de

ICMS junto ao Governo.

Contudo, a dívida que se formava não tinha perspectivas de pagamento e esse dinheiro

acabava correndo o risco de virar “dinheiro fantasma”.

A Samarco, em negociação com a Escelsa, com autorização do Governo do Estado, vendeu

esses “títulos” para a empresa de energia por um valor bem mais baixo do que realmente

valiam, com a justificativa de receber ao menos parte do dinheiro.

Entretanto, como lembra Caliman, parte do dinheiro dessa negociação foi parar na conta do

ex-tesoureiro de campanha eleitoral de José Inácio, Bené, em uma espécie de caixa dois de

campanha (dinheiro não declarado à Justiça Eleitoral).

Um outro caso, folclórico até, envolveu um guru que veio a público cobrar por serviços que

teriam sido prestados a integrantes do Governo, e não pagos, na tentativa de se acabar com a


“urucubaca” que tomava conta da administração estadual. No ano de 2001, a jornalista Vilmara

Fernandes recebeu o Prêmio Aberje de Jornalismo pela reportagem “Guru cobra dívida”. “Fomos

questionados se não estaríamos exagerando, mas a gente fez simplesmente o trabalho que a gente

tinha que fazer”, disse Caliman.

A Gazeta teve fundamental importância na divulgação minuciosa dos fatos que envolviam a

crise do Governo José Inácio.

Contudo, Caliman se decepciona com a falta de reconhecimento da sociedade: “A editoria é

valorizada pelo histórico de denúncias de corrupção. Mas isso não é tão valorizado pela população

que não tem muita informação. Os leitores que acompanham sabem, mas a população de um modo

geral não entende o papel de A Gazeta nessa reconstrução ética do Estado. O Estado é outro.

O Gratz está preso, a gente fez várias denúncias contra o governo José Inácio. A Gazeta é co-

responsável pelas mudanças. Se não tivesse ninguém para dar porrada no governo José Inácio,

ele estaria aí reinando”.


A Gazeta de 1936


A Gazeta de 1945


A Gazeta de 1961


A Gazeta de 1970


A Gazeta de 1974


A Gazeta de 1984


A Gazeta de 1993


A Gazeta de 2001


A Gazeta de 2005


Referências bibliográficas

A Gazeta. Edição comemorativa de 75 anos do jornal. Vitória. 11 de setembro de 2003.

FERREIRA, Tânia Mara Corrêa. A Ruptura da Eletrônica no Fluxo de Produção do Jornal

Impresso – Relato baseado na experiência de renovação tecnológica do jornal A Gazeta.

Monografia apresentada ao Programa de Pós- Graduação – Especialização em Jornalismo –

Universidade Estácio de Sá/RJ. Orientador: Prof.: Potiguara M. da Silveira Jr. 1995.

MARTINUZZO, José Antonio (org.). Balzaquiano: Trinta anos do Curso de Comunicação Social

da Universidade Federal do Espírito Santo 1975-2005.

Vitória: DIOES, 2005.

ZORZAL E SILVA, Marta. Espírito Santo: Estado, interesses e poder. Vitória:

FCAA/SPDC, 1995.

Entrevistas

Marien Calixte – Jornalista aposentado, em 22 de setembro de 2005 às autoras do capítulo.

Clodomir Bertoldi – Jornalista/colunista de A Gazeta, em 23 de setembro de 2005 às autoras do

capítulo.

Carlos Lindenberg Neto (Café) – Diretor geral da Rede Gazeta, em 26 de setembro de 2005 às

autoras do capítulo.

Carlos Lindenberg Filho (Cariê) – Secretário executivo da Rede Gazeta, em 27 de setembro de 2005

às autoras do capítulo.

André Hees – Editor executivo de A Gazeta, em de setembro de 2005 às autoras do capítulo.

Glecy Coutinho – jornalista aposentada, em de setembro de 2005 às autoras do capítulo.

Milson Henriques – Chargista, em 29 de setembro de 2005 a Vitor Vogas, Ronald Alves e Kênia

Freitas.

Sérgio Egito – Jornalista/colunista de A Gazeta, em 04 de outubro de 2005 às autoras do capítulo.


Eduardo Caliman – Editor de Política de A Gazeta, em 04 de outubro de 2005 às autoras do

capítulo.

Álvaro José Silva – jornalista e ex-funcionário de A Gazeta, em 05 de outubro de 2005 às autoras

do capítulo.

Marta Zorzal – Cientista política e professora da Ufes, em 05 de outubro de 2005 às autoras do

capítulo.


A Tribuna:

memórias de um jornal sem registros

George Vianna, Gleyson Tete e Guido Nunes

22 de setembro de 1938. Reis Vidal, jornalista oriundo de São Paulo, funda o jornal A Tribuna

na cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. Funcionando inicialmente na Esplanada Capixaba,

hoje Avenida Jerônimo Monteiro, o impresso foi criado no período que antecedeu a Segunda

Guerra Mundial.

O jornalista aposentado Adam Emil Czartoryski relembra o contexto em que se passou o

surgimento, assim como os primeiros anos de funcionamento do jornal. “O Reis Vidal tinha

idéias fascistas e, no início da Guerra, defendia os alemães e, principalmente, os italianos. Havia

uma firma alemã muito poderosa – a ‘Arens & Langens’ – situada perto da praça Costa Pereira,

que importava e exportava produtos e agenciava navios. Havia suspeitas de que ela financiava o

Reis Vidal na feitura de A Tribuna. Nesse mesmo período, o jornal foi ‘empastelado’. Invadiram

e quebraram tudo. O jornal ficou fechado por um tempo”.

No início da década de 1950, após o fechamento, o jornal foi comprado por um grupo ligado

ao Partido Social Progressista (PSP), de Ademar de Barros. “Nessa época, chamei o Marien Calixte

e o Asdrúbal Soares, para formarmos uma redação, e concorríamos muito com A Gazeta. Esta foi

uma boa fase de A Tribuna, tentamos fazer uma edição diária do jornal só sobre o Espírito Santo,

pois, na época, as comunicações eram muito deficientes; jornais do Rio de Janeiro e São Paulo

chegavam aqui somente um ou dois dias depois. Não havia pauta naquela época, o jornalista saía

para a rua e se virava. Foi a partir de então que começamos a fazer pautas e pagar os repórteres”,

contou Adam Emil Czartoryski.

Ademar de Barros entrou numa fase de dificuldades financeiras, já que uma quantia

considerável de dinheiro havia sido roubada de seu cofre por militantes de esquerda. Ele também

estava enfraquecido politicamente por conta da ditadura que havia se instaurado no País em 1964.

Não vendo alternativas para sair da crise, resolveu passar adiante o jornal, saindo do cenário

jornalístico capixaba no ano de 1968 e deixando o veículo nas mãos de Djalma Juarez Magalhães.


Pouco tempo se passou para que A Tribuna fosse comprada pelo grupo João Santos, que já

tinha adquirido também a fábrica de cimento Nassau, antiga Barbará, da Prefeitura de Cachoeiro

de Itapemirim. “Nessa compra foi feito um acordo com o Governo do Estado, que determinava a

isenção de impostos durante 20 anos para a empresa. Porém, com a indicação de Cristiano

Dias Lopes Filho como governador biônico do Estado, esse privilégio estava com os dias contados.

Com o intuito de bater de frente com o Governo, João se preocupou com seu fortalecimento

político dentro do panorama estadual, comprando, assim, um veículo de comunicação”, disse Pedro

Maia, colunista de A Tribuna que vivenciou esse período. Anos mais tarde, essa idéia

mostrouse uma atitude acertada, diante dos fatos que se sucederam.

João Santos Filho possuía aspirações políticas, mas tinha também a idéia de fazer uma rede de

comunicação, e, agora que já possuía o jornal, visava a expandir seus investimentos. Em

decorrência desse ideal, surgiram, anos depois, a rádio e a TV Tribuna.

Funcionando, desde sua fundação, na Avenida Jerônimo Monteiro, A Tribuna passa a operar

em outro lugar a partir de 1971, transferindo sua sede para uma pequena rua no Centro de

Vitória, chamada Nélson Monteiro. Ali, permanece por pouco tempo.

Logo muda para seu espaço atual: rua Joaquim Plácido da Silva, 225, na Ilha de Santa Maria.

... e saiu pela culatra

No dia 25 de maio de 1981, entre 2h10 e 2h30 da madrugada, A Tribuna foi vítima de um

atentado. Ocorreram duas explosões e um conseqüente incêndio que destruiu completamente o

Departamento de Circulação e o Arquivo do jornal. O atentado – um tanto quanto nebuloso – até

hoje não teve explicações ou provas concretas, e as informações (desencontradas) que constam é

de que alguém passando pela rua teria jogado um coquetel Molotov por uma janela na sede da

empresa.

Segundo pessoas que lá trabalhavam na ocasião, a provável intenção era destruir o maquinário

do jornal, o que implicaria a suspensão das suas atividades. Entretanto, o alvo não foi atingido,

o que possibilitou que o jornal fosse impresso e vendido, mesmo com um pouco de atraso, na

manhã daquele lamentável dia.


O governador Eurico Rezende ordenou ao então secretário de Segurança Pública, José Parente

Frota, que desse prioridade à investigação do caso. Porém, o deputado federal Max Mauro, do

PMDB, preocupado com os caminhos que a mesma pudesse seguir, exigiu do Ministro da Justiça,

Abi Ackel, um delegado es- 106 Mesmo com o atentado, A Tribuna circulou no dia seguinte pecial

e um procurador para averiguarem o inquérito com a máxima isenção. Apesar de não encontrarem

nenhuma prova contra ninguém, as suspeitas recaíram sobre uma rede de prostituição que A

Tribuna investigava.

O diretor superintendente da Rede Tribuna de Comunicação naquele período, Edmar Eudóxio

Telesca, disse no dia do ataque: “Entendo que seja uma manifestação descabida de um grupo radical

desejoso de perturbar a vida nacional, já a braços com problemas sérios e que estão a exigir de

todos nós compreensão, trabalho e determinação”.

Uma outra versão, relatada pelo jornalista Marien Calixte – que trabalhou muitos anos em A

Tribuna –, chama atenção para o fato de que muitas pessoas que trabalhavam lá, na época,

tinham fortes ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), e esse atentado poderia ser uma

tentativa de intimidação por parte de indivíduos atrelados às forças direitistas.

Um dia depois daquele fatídico dia, Marien Calixte, que era editor-chefe, escreveu no jornal:

“Há muitos tipos de loucuras registradas ao longo da história da humanidade. O terrorismo é uma

dessas faces mais tragicamente criminosas que o mundo tem enfrentado. Loucura só não é bastante

para estabelecer um qualificativo a respeito da crueldade dos que, ocultos em sua paranóia e

esquizofrenia, satisfazem-se apenas destruindo. O que dizer mais além da estupefação que já nos

roubou estadistas, religiosos, intelectuais, artistas, militares e até chegou ao peito da figura até então

intocada de um Papa?”.

E, em fevereiro do ano seguinte, 1982, A Tribuna sofreria mais um duro golpe. Viria a falecer,

no Uruguai, em um terrível acidente de avião, um de seus principais articuladores: João Santos

Filho. O grupo que comandava o jornal chegou a cogitar a possibilidade de fechá-lo, mas,

posteriormente, houve um consenso entre os diretores de que ele deveria prosseguir as suas

atividades.

Se a situação é grave, a solução é greve... de fome!


Nos anos 80, as relações entre as empresas jornalísticas e os jornalistas ainda eram muito

insatisfatórias, porém havia uma preocupação em mudar esse quadro, pelo menos por parte

dos jornalistas, que lutavam por relações mais justas. Este era o período de reorganização dos

sindicatos e de intensa mobilização da sociedade civil, o que convergiria para o fim da ditadura.

Foi feito um acordo coletivo com A Tribuna que determinava a não-redução do quadro de

jornalistas – em torno de 70, no momento. Contudo, esse acordo foi desrespeitado e, no ano

de 1984, o jornal demitiu dois funcionários, criando um clima de insatisfação entre os demais

profissionais.

Com isso, a greve se tornou a melhor alternativa de manifestação e, ao mesmo tempo, de

marcar revolta e solidariedade. Eles exigiam que o jornal fosse fiel às decisões tomadas e

mantivesse o quadro de vagas como havia antes sido acordado. A empresa se mostrou totalmente

radical à mobilização e imediatamente fechou o jornal.

Então, dois dos grevistas (Francisco Flores e Romero Mendonça) optaram por não desistir tão

facilmente, e entraram em greve de fome. Ficaram por vários dias na porta da empresa, recebendo o

apoio de várias pessoas, inclusive políticos do cenário nacional. No sétimo dia, a saúde deles não

resistiu, e eles foram internados. A atitude dos grevistas não surtiu o efeito esperado, já que o jornal

não retomou suas atividades e ficou inativo por aproximadamente três anos.

“Fiz 12 dias de greve de fome, a única coisa que tomávamos era água de coco. Não me

arrependo de ter feito e hoje faria novamente pela categoria. A gente recebeu muito apoio durante a

greve, mas, infelizmente, o jornal não abriu”, afirmou Romero Mendonça.

Reuniões foram realizadas entre o então governador, Gérson Camata, e o superintendente do

Grupo João Santos, Sérgio Maçães, na tentativa de se buscar uma solução para o impasse. Mas

a diretoria se mostrava irredutível e cogitava, ainda, a possibilidade de vender o jornal, pois este,

segundo Maçães, estava registrando sucessivos prejuízos nos últimos meses.

Audálio Dantas, então presidente nacional da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), veio

ao Estado e, junto com Tinoco dos Anjos, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo

à época, reuniu-se com o Governador para discutir a situação.


Dantas ressaltou o prejuízo que o fechamento do jornal causaria aos espírito-santenses: “Além

da gravidade do desemprego, existe também o fato de que, com a extinção de mais um meio de

comunicação e informação, toda a comunidade capixaba seria prejudicada”.

Uma comissão de quatro deputados estaduais – Dilton Lyrio e Rose de Freitas, do PMDB, e

João Miguel Feu Rosa e Antônio Moreira, do PDS – foi a Recife tentar sensibilizar o Grupo

João Santos, mas retornaram sem grandes perspectivas de contornar o ocorrido.

A situação mereceu até mesmo um discurso no dia 29 de março de 1984, feito, no Congresso

Nacional, pelo então deputado federal Nélson Aguiar, que destacava o absurdo do fechamento do

jornal.

Confira um trecho da fala, a partir do informe do jornal Tribuna Livre (na edição de 6 de abril

de 1984, número 6, à página 8), que era publicado pela Cooperativa dos Jornalistas do

Espírito Santo: “No momento em que acintosa e arbitrariamente se fecha o jornal A Tribuna, de

Vitória, Espírito Santo, tradicional veículo da luta e da cultura do povo capixaba, desde 1938,

quando foi fundado, torna-se obrigatório que o Congresso Nacional levante sua voz em forma de

protesto, de repúdio e de clamor público 110 por todos os meios a seu dispor. Não apenas e

simplesmente contra o fechamento de um jornal ou a dispensa de um grupo de trabalhadores, mas, e

acima de tudo, em defesa do direito de divergir, de reivindicar, de se opor e protestar, direito este

que tem na liberdade de imprensa seu maior e principal sustentáculo [...] Concluo meu

pronunciamento apelando ao senhor João Santos a que reabra A Tribuna, não apenas como forma

de restituir o direito de 200 (duzentos) trabalhadores penalizados de forma tão brutal, mas também

como forma de reparar a ofensa feita à sociedade capixaba e o golpe desferido contra a liberdade

de imprensa”.

A sociedade capixaba apoiou os grevistas de A Tribuna, assim como as centrais sindicais,

como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Conferência Nacional da Classe

Trabalhadora (Conclat), que realizaram manifestações. Empresários, a classe estudantil e sindicatos

de diversas categorias apoiaram o movimento.

Os artistas capixabas criaram uma comissão de eventos artísticos e culturais para fundo de

greve e doaram obras para uma exposição. Entre eles, estavam artistas como Kleber Galvêas, João

Vago, Luiz Maurício de Oliveira e Marlene Tejada.


Paralelamente a tudo isso, o Tribuna Livre relatava os desdobramentos diários da greve e

acusava a empresa proprietária de A Tribuna de muitos delitos, entre eles: sonegação fiscal,

mentir para autoridades e mostrar-se intransigente para com a situação dos trabalhadores.

“Durante a greve, vários políticos se solidarizaram com a situação dos grevistas, entre eles

Lula, que veio visitá-los. Com o tempo houve uma dispersão, e cada um procurou outros meios de

viver a vida”, disse Ruth Reis, professora de Comunicação Social da Ufes, que também trabalhava

no jornal.

“Tablóide: mais que um formato, uma emoção”

A Tribuna experimenta significativas mudanças em seu recomeço, no dia 2 de fevereiro de

1987, quando apareceu de volta no mercado com outro formato. O antigo standard

transformouse no moderno tablóide, que, no início, foi muito criticado por pessoas da imprensa,

mas, com o tempo, obteve a aprovação popular.

Outras modificações acompanharam essa nova forma de publicação, como a visão editorial

diferenciada, voltada para a prestação de serviços, e um reduzido quadro de apenas 40 jornalistas.

A linguagem se tornou mais simples, buscando se aproximar cada vez mais do público leitor e,

ainda, marcar diferença na vida da população. Essa recolocação no mercado fez o jornal

ganhar forças no embate mercadológico.

“Existe um livro, ‘O Papel do Jornal’, do Alberto Dines, da década de 70, que fala que o

jornalismo se tornaria importante no momento em que o cara, de manhã, ao comprar o pão e o

jornal, se tivesse dinheiro só para um, compraria o jornal. Ou seja, iria contribuir no dia-a-dia dele.

Esta foi a visão que A Tribuna tentou passar, desde a sua nova fase”, disse o atual editor de

Regional, Joel Soprani.

Em 1995, uma mudança no aspecto gráfico fez o jornal entrar numa nova fase, consolidando-

se e alavancando de vez seu crescimento.

Pela primeira vez em sua história, a publicação saía com páginas coloridas, num estilo

moderno e arrojado. O grande articulador desse projeto foi João Luiz Caser, que, ao lado do

grupo João Santos, tinha a idéia de se firmar no mercado do jornalismo.


O projeto foi especialmente encomendado à Universidade de Navarra, na Espanha, que já tinha

realizado esse tipo de trabalho para outros veículos.

Capa de A Tribuna de 1989 no formato tablóide


“A partir de 87, e principalmente de uma década para cá, começamos a mudar a realidade do

mercado. Antes, A Gazeta dominava a estrutura de mídia impressa no Estado, e A Tribuna foi mês a

mês, dia a dia, conseguindo mudar isso. Hoje, A Tribuna é absoluta em tiragem, vendagem etc...”,

afirmou Soprani.

A compra de uma moderna impressora, capaz de imprimir até 45 mil exemplares de até 48

páginas por hora, fez com que o jornal conseguisse maior número de tiragem, dando-lhe mais

competitividade no mercado. No ano seguinte, em 16 de setembro de 1996, A Tribuna vence mais

uma etapa e começa a circular também às segundas-feiras. Segundo Soprani, antes o jornal não

era publicado nesse dia pelo fato de ser inviável economicamente, mas a necessidade de mostrar aos

leitores e aos patrocinadores a capacidade de A Tribuna fez com que fosse tomada essa decisão.

Ainda como efeito da modernização, outros esforços foram concentrados em áreas vitais para

a solidificação de qualquer publicação.

O setor de circulação foi renovado e novas técnicas e sistemas de controles de distribuição

foram implantados. Houve, ainda, um empenho de todas as áreas para o cumprimento de prazos e

horários. A redação foi informatizada e novos servidores foram disponibilizados para garantir a

dinamização nas diversas seções, dando ao jornal mais velocidade e qualidade gráfica. Até hoje, a

impressão do jornal continua sendo destaque em âmbito estadual.

Conquistando mercados

Com médias de 47,95% em dias úteis e 79,34% aos domingos – de acordo com o Instituto

Verificador de Circulação (IVC) – o jornal alcançou, em 1997, no mapa nacional, a liderança no

índice de crescimento em percentual dentre os jornais do País.

A empresa se consolida, em 1999, como líder em circulação na Grande Vitória, em número de

vendas e em número de leitores, de segunda a sábado. E, no ano de 2000, complementa sua

virada, conquistando a liderança em todo o Estado.

Segundo números do IVC e do IBOPE, atualmente o jornal possui aproximadamente 394.233

leitores diários, com média de 69.125 exemplares vendidos aos domingos e 47.168 nos dias úteis.

Com esses números, A Tribuna ocupa a 17ª colocação entre os jornais mais vendidos do País. Esse


prestígio é resultado dos investimentos realizados nas diversas áreas – em especial, nas

de marketing e promoções.

Muitos vinculam o crescimento do jornal à promoção que sorteia um automóvel por mês, mas

parece evidente que as ações e inovações no âmbito da redação foram e continuam sendo

importantes para o posicionamento de A Tribuna.

Hoje, o jornal é composto por nove editorias (Cidades, Economia, Polícia, Política,

Internacional, Opinião, Regional, AT2 e Esportes), além de dez cadernos temáticos (Classifácil,

Informática, Sobre Rodas, AT2, AT2 Fim de Semana, Mulher, Minha Casa, Imóveis, TV Tudo e

Jornal da Família). Há a publicação de inúmeros colunistas locais e de renome nacional.

O jornal possui particularidades, como as seções “A Tribuna com você”, que ouve as

reivindicações de moradores de determinados bairros e depois procura as autoridades para tentar

atendêlas;

“Qual é a bronca?”, uma página em que o leitor pode reclamar de diversas questões, como de

uma empresa que lhe vendeu um produto com defeito e agora está demorando a conceder

os benefícios cabíveis; e a página de religião, que é totalmente ecumênica e congrega quaisquer

credos.

Eis que surge um novo rival

O surgimento do jornal Notícia Agora foi uma estratégia da Rede Gazeta para disputar com A

Tribuna o nicho de mercado das classes com menor poder de compra. O formato tablóide e a linha

editorial de cunho popular deixavam claro quem era o alvo direto. Sobre o surgimento do rival, o

editor de Regional de A Tribuna, Joel Soprani, afirma: “O Notícia Agora não fez com que o jornal

se preocupasse em mudar suas estratégias. Nosso concorrente direto sempre foi A Gazeta. Sempre

respeitamos a concorrência, mas nunca nos preocupamos com o Notícia Agora.

Tanto que o jornal só veio crescendo em vendas mês a mês”.

“Na verdade, o Notícia Agora conseguiu bater A Tribuna no início, chegando perto da marca

dos 45 mil exemplares vendidos em um dia, o que, sem dúvida, deixou-os preocupados.


Infelizmente, o projeto não teve continuidade e caiu de produção”, rebateu Lena Azevedo, jornalista

que saiu de A Tribuna para ser responsável pela estruturação do novo jornal da Rede Gazeta.

E agora, A Tribuna ?

Apesar de ter a liderança consolidada no Estado desde 2000, o objetivo de A Tribuna é

continuar crescendo. Existem planos de investimentos futuros, inclusive de montar um jornal no

Estado de Pernambuco, onde o grupo João Santos possui uma estrutura de rádio e televisão. Ainda

existe um antigo sonho de fazer o jornal totalmente colorido, da primeira à última página.

“Estamos no Espírito Santo inteiro e em cidades no sul da Bahia, leste de Minas Gerais e norte

do Rio de Janeiro. A perspectiva é de crescer, não só no Espírito Santo. Se tiver necessidade de ser

todo colorido, será. Ah, não tem, não será”, disse a diretora de Marketing, Nilda Miranda.

Casos famosos

Segundo Pedro Maia, no Espírito Santo, de 1969 para cá, os casos noticiados por A Tribuna

que tiveram maior repercussão foram o da menina Aracelli e o dos Esquadrões da Morte.

“Nosso Estado foi o primeiro a prender policiais que estavam matando pessoas e a condenar essas

pessoas a altas penas”, disse.

Em 18 de maio de 1973, foi assassinada, em Vitória, uma criança de oito anos: Aracelli

Cabrera Crespo. Ela foi drogada, estuprada e teve seu rosto desfigurado. Muitos jornalistas citam

esse caso como um dos mais importantes na história dos jornais do Estado.

Na tarde daquele dia, Aracelli não voltou da escola que freqüentava e seu corpo só foi

encontrado seis dias depois em um matagal, irreconhecível para o próprio pai. “Eu me lembro

até hoje do pai da Aracelli chegando desesperado aqui na redação”, disse o editor de Cidades,

Francisco Borges.


O envolvimento da mãe com o uso e tráfico de entorpecentes teria sido determinante para o

destino da menina, que estaria entregando drogas a pedido dela. Os clientes eram jovens de famílias

abastadas e o caso seguiu um rumo estarrecedor.

Os acusados ficaram impunes e alguns dos designados para desvendar o crime foram mortos

ou afastados de seus cargos.

“Houve uma espécie de comoção da opinião pública. Guilhotinavam os suspeitos, mesmo que

não houvesse nada comprovado contra eles, e os jornais ajudaram nisso”, afirmou Pedro Maia.

O caso do “Esquadrões da Morte”, que começou a ser investigado em 1991, envolvia a

Scuderie Le Cocq, uma organização legalmente constituída e profundamente envolvida nos

chamados assassinatos de “limpeza social” (cujo alvo foram adolescentes que viviam e trabalhavam

nas ruas de Vitória), extorsões e outras formas de corrupção.

A teia intrincada de policiais corruptos e assassinos tornou o sistema judiciário ineficaz para

combater seus crimes: quando investigadores de polícia, promotores e juízes que não faziam

parte da rede da Scuderie investigavam os crimes do grupo, eram induzidos a abandonar os casos

contra os membros da Scuderie através de suborno ou intimidação. Esse caso foi bastante

divulgado.

“Foi a partir dele que o povo capixaba começou a se interessar de fato pelas notícias dos

jornais”, afirmou Pedro Maia.

Histórias engraçadas

Iniciação sexual

“Houve um caso de uma reportagem sobre adolescentes que estavam se iniciando sexualmente

cada vez mais cedo e que, muitas vezes, dormiam em casa com o namorado. O repórter abordou no

shopping uma mãe com uma filha de 16 anos. ‘Se minha filha quiser não tem problema, ela tem

juízo’, disse a mãe. No outro dia, às sete da manhã, a mulher liga pedindo para desmentir a matéria.

Ela era do interior do Estado, a notícia repercutiu na cidade inteira, o marido queria bater nela,

xingando: ‘É para isso que você foi para Vitória, para o shopping?’. Ela se entusiasmou no dia”.

(Joel Soprani)


Traficante errado

“Fizeram uma foto de capa num morro em que um traficante chamado ‘Fininho’ estava

infernizando a vida de todo mundo.

Demos a foto de um velhinho em cima de uma laje (vizinha à do traficante) e a legenda tinha

uma ambigüidade. De manhã, o traficante falou que ia matar o velhinho por achar que ele

estava passando informações. No outro dia nós corrigimos”. (Joel Soprani)

Seita em Pedra Azul

“No dia em que iria sair a reformulação de A Gazeta, deveria ter uma matéria forte para combater.

Fui como repórter para Pedra Azul com a Celeste, a Luciana Lima e o Leonardo

Bicalho (fotógrafo). Não tinha nada interessante, o cara desmentiu tudo sobre a seita. Aí, no

finalzinho do dia, achamos um agricultor que deu um depoimento confessando que espancava os

filhos, por orientação da seita. Depois de muito tempo após a matéria ter sido publicada,

descobrimos que o cara enterrava comida e gasolina, que era o fato mais importante”. (Lena

Azevedo)

Desfile

“Aconteceu um desfile de escola de samba em Vitória, e tinha uma ala só de jornalistas na

Imperatriz do Forte. Várias pessoas de A Tribuna foram desfilar, inclusive Luciana Lima. Ela

tinha que dar plantão no outro dia. Aí atrasou o desfile e ela teve que ir direto para o plantão. Pegou

emprestada uma minissaia com Franciane Barbosa e foi com purpurina no corpo. Chegou

na polícia, teve uma rebelião na casa de detenção”. (Lena Azevedo)


Capa de A Tribuna de 1939, sob o comando de Reis Vidal


Em 1941, suplemento cultural de A Tribuna com 16 páginas


A Tribuna de 1951, já integrante do grupo de Adhemar de Barros


A partir da década de 90, um novo padrão visual para o tablóide


Entrevistas

Adam Emil Czartoryski – Trabalhou como editor em A Tribuna e está aposentado, em 04/10/2005.

Antônio José Miguel Feu Rosa – Trabalhou como diretor em A Tribuna, é desembargador

aposentado, em 17/10/2005.

Francisco Borges – Revisor de A Tribuna, em 24/10/2005.

Joel Soprani – Editor de Regional de A Tribuna, em 27/09/2005.

Maria Elena Azevedo – Trabalhou como pauteira no jornal, atualmente trabalha na área de

assessoria política, em 04/10/2005.

Marien Calixte - Trabalhou como editor em A Tribuna, atualmente produz e apresenta um programa

na Rádio Universitária, em 29/09/2005.

Nilda Miranda - Marketing de A Tribuna, em /09/2005.

Pedro Maia – Colunista de A Tribuna, em 24/09/2005.

Romero Mendonça – Ex-fotógrafo do jornal, atualmente trabalha na Secretária de Comunicação do

Estado do Espírito Santo, em 21/10/2005.

Ruth Reis – Trabalhou como repórter em A Tribuna, é professora do Departamento de

Comunicação Social da Ufes, em 07/10/2005.


Notícia Agora:

jornal popular e novas estratégias

Fernanda Coutinho e Raquel Machado

O Jornal Notícia Agora foi criado, em 2000, pela Rede Gazeta de Comunicações, para alcançar

um público que se denomina como popular. O formato tablóide não era a única diferença em

relação a A Gazeta, o tradicional diário do grupo.

Também havia discrepância em relação à linguagem e recursos gráficos e editoriais. Até hoje

se discute se o Notícia Agora teria sido criado para concorrer com o popular A Tribuna.

Mas, antes de seguir com esta história, vamos a algumas considerações conceituais sobre

jornalismo popular e o formato tablóide, que tem, entre nós, a marca do sensacionalismo.

Segundo Barbosa (2004), o “popular” é uma mistura de dramas quotidianos, de estruturas

narrativas que apelam para o imaginário e para a identificação com uma realidade romanceada para

conseguir ser vivenciada. Para a autora, o “popular” é muitas vezes incompreensível e as

preferências, os entendimentos desse público são vistos de maneira pré-conceituosa como de valor

inferior.

Por ser um espaço estratégico de articulação de conflitos, as práticas culturais são carregadas

de carga política, considera Martín- Barbero, citado por Bernardes (2004, p. 08). “É na cultura que a

hegemonia aparece como processo feito de sentido, de apropriação de sentido pelo poder, de

sedução e de cumplicidade”, afirma o autor. Para Martín-Barbero, trata-se de “um

processo inerentemente político, mas também econômico, portanto.

E é nessa representatividade sociocultural, nessa capacidade de materializar o modo de viver e

pensar das classes subalternas que está a importância e o valor do popular”.

O jornalismo popular muitas vezes é associado ao sensacionalismo, praticado desde o

surgimento dos jornais europeus e americanos entre os séculos XVI e XVII, segundo Agrimani

(1995).


Também de acordo com esse autor, no século XIX, surgem os cannards, jornais populares

franceses; nos Estados Unidos, o New York World, de Joseph Pulitzer, descobriu o filão do

sensacionalismo e, posteriormente, sofreu forte concorrência do Morning Journal, de George

Hearst. Segundo Barbosa (2004), foi na década de 1920 que surgiram no Brasil jornais diários

dedicados a escândalos e tragédias, como Manhã e Crítica.

O jornal sensacionalista utiliza-se de uma linguagem coloquial exagerada (uso de gírias ou

palavrões), faz com que o leitor se envolva emocionalmente com os fatos. Há a exploração de

lendas do vulgar, crenças populares, pessoas e animais com deformidades, e seu maior enfoque é o

trinômio “sexo-escândalo-sangue”, ressalta Agrimani. Além, é claro, do uso de imagens de impacto.

Um ingrediente fundamental do sensacionalismo são os fait divers:

Não é preciso conhecer nada do mundo para consumir

um fait divers: ele não remete a nada além dele próprio;

evidentemente, seu conteúdo não é estranho ao mundo:

desastres, assassinatos, raptos, agressões, acidentes, roubos,

esquisitices, tudo que remete ao homem: à sua história, à sua

alienação, a seus fantasmas, aos seus sonhos, aos seus medos.

(Barthes, apud Barbosa, 2004, p. 06).

Um marco do jornalismo sensacionalista no Brasil foi o jornal Notícias Populares, criado em

1963 por Herbert Levy (presidente da UDN) e pelo jornalista romeno Jean Melle. É o que

afirma Agrimani, para quem o jornal foi autor da maior mentira da imprensa brasileira: o caso do

bebê diabo. Foram vinte e duas edições de pura invenção nas páginas do diário, que acabou

em 2001. “O Notícias Populares surgiu para neutralizar o Última Hora”, afirma Goldenstein,

citado por Agrimani.

Porém, é lógico afirmar que, se há jornais sensacionalistas, é porque há uma identificação do

leitor – mesmo que inconsciente – com os heróis das notícias, os “personagens” do crime e

da violência. Agrimani acredita que

tanto o leitor do jornal “sóbrio”, quanto aquele

que prefere o sensacionalismo, se interessa pelo crime, pelo

rapto, pelo acidente, pela catástrofe. O que vai fazer com que

o mercado se divida e haja um público exclusivo para o

veículo sensacionalista é a linguagem [...], além da


preferência por matérias originadas de fait divers, em

detrimento de temas político-econômico-internacionais que

servem como estímulo predominante ao jornal

informativo comum. (p. 54)

Segundo Pedroso, referenciado por Agrimani, o fazer jornalístico sensacionalista é uma

especificidade discursiva de jornal empresarial capitalista, que pertence ao segmento popular da

grande empresa industrial urbana, em busca de consolidação econômica no mercado jornalístico; é

o escamoteamento da questão popular, apesar do pretenso engajamento com o universo

social marginal; gramática discursiva fundamentada no desnivelamento socioeconômico e

sociocultural entre as classes hegemônicas e subalternas.

Nos últimos anos, alguns jornais populares têm optado pela prestação de serviços, maior

destaque para o esporte e para o entretenimento, em detrimento da velha fórmula “espreme que sai

sangue”, o que não impede que haja um destaque para as notícias policiais nessas publicações. A

linguagem coloquial continua sendo explorada – uma vez que promove aproximação com o público

que pretende conquistar (das classes C e D, preferencialmente).

Amaral (2004, p. 01) afirma que

Jornais como Agora São Paulo (SP), O Dia (RJ),

Extra (RJ), Lance! (RJ), Folha de Pernambuco (PE),

Amazônia Jornal (AM), Primeira Hora (PA), Notícia Agora

(ES), Expresso Popular (Santos, SP), Tribuna do

Paraná, Diário Popular (PR) e Diário Gaúcho (RS), são

voltados para um público de menor poder aquisitivo e

podem ser agrupados sob o rótulo de “segmento popular

da grande imprensa”.

Segundo o autor, esta é uma referência aos jornais editados por grandes empresas jornalísticas,

auto-intitulados populares, e não aos jornais sindicais, alternativos ou comunitários. Os jornais

populares da grande imprensa também são conhecidos como “popularescos”, uma sobreadjetivação

que, conforme Sodré e Paiva, em citação de Amaral, significa a espontaneidade popular

industrialmente transposta e manipulada por meios de comunicação, com vistas à captação e à

ampliação da audiência urbana.


Tablóide: um formato sensacional

A Rede Gazeta, que publica o jornal A Gazeta (em formato standard), de tradição no

Espírito Santo, direcionado ao leitor das classes A e B, optou, no ano 2000, pela criação do jornal

Notícia Agora, no formato tablóide, direcionado às classes C e D, primordialmente. Este é um

formato de jornal muito utilizado na Inglaterra por periódicos especializados em cobrir a vida

das celebridades e, principalmente, publicar escândalos sobre a Família Real (a exemplo do The

Sun e do Sunday Mirror). O formato compacto (menor que o standard) é de fácil manuseio.

Talvez o sensacionalismo inglês seja o responsável pela associação automática que se faz entre

o formato tablóide e o sensacionalismo, o que é um equívoco, pois não se trata de uma regra.

O exemplo brasileiro de jornal de tradição em formato tablóide é o jornal Zero Hora, de Porto

Alegre (RS), do grupo RBS, que edita o jornal popular Diário Gaúcho, lançado no ano 2000.

Tablóide: custo x benefício

Nos últimos anos, há uma tendência mundial de reformulação gráfica dos jornais e a opção

pelo formato tablóide é cada vez mais freqüente, mesmo entre os jornais mais tradicionais.

Segundo Singer (2005), o Independent foi o primeiro jornal britânico tradicional a optar pela

versão tablóide paralelamente à edição broadsheet (equivalente ao tamanho standard adotado

no Brasil). Posteriormente, o Times seguiu a mesma receita e, no ano passado, optou pela

publicação exclusivamente em formato tablóide.

No mesmo ano, 40 pessoas foram demitidas do jornal.

De acordo com Dines (2005), em artigo escrito em 1999, a ANJ (Associação Nacional dos

Jornais) enumera vantagens do tablóide para justificar a opção de mudança de alguns jornais

brasileiros, na época, para esse formato: a facilidade de manuseio, melhor visibilidade para as

informações, padronização dos anúncios, fortalecimento do veículo jornal através dessa

demonstração de unidade em torno da entidade empresarial.

Para o jornalista, a verdadeira razão da mudança que alguns jornais fizeram para o formato

tablóide é a economia: corte no custo do principal insumo – o papel. Dines registra:


Estes 2,54 centímetros a menos em cada folha impressa

podem representar uma poupança de cerca de 10% no peso de

cada edição. [...] Também não estão sendo anunciadas as

indispensáveis reformas gráficas para compatibilizar as novas

dimensões com uma nova concepção editorial. E, apesar da

febre das sondagens de opinião, nenhum jornal, muito

menos a ANJ, teve a humildade de ouvir o distinto público

e promover um debate através de suas páginas. Afinal, este

encolhimento é o primeiro passo para o jornal do futuro, bem

menor. A verdade é que estas novas medidas aproximam-se

do formato denominado “Berliner”, o semi-tablóide muito

usado na Europa (menor do que o Le Monde, próximo ao El

País) concebido para um projeto de jornalismo qualitativo e

interpretativo – destino final do veículo jornal.

Entre os anos de 2002-2004, o jornal Notícia Agora passou por uma grande crise que, no caso

da Rede Gazeta, ocorreu devido a um financiamento em dólar para a compra de equipamentos.

Essa crise gerou demissões, provocou a redução no número de páginas e no tamanho do jornal, que

surgira em formato tablóide.

A Notícia é agora!

Notícia Agora: nasce o jornal da nossa gente.

O COMPROMISSO COM O LEITOR ESTARÁ PRESENTE

TODOS OS DIAS

Nasce hoje um jornal que tem a cara de seu povo, em toda a

beleza e dignidade. Alegre, porque é este o estado da gente, e

popular, no sentido de custo.

O valor real do Notícia Agora não se mede: está no fato de

estar em dia com os fatos aqui e no mundo;

moderno em visual e conteúdo, e comprometido com o leitor.

Em cada página o jornal tenta ecoar a voz do cidadão comum,

que estuda, consome e produz.

Com essas palavras, no dia 3 de maio de 2000, chegou às bancas o primeiro exemplar do

Notícia Agora. Ele surge após um período em que A Tribuna passou por transformações que


elevaram esse jornal ao patamar de forte concorrente do antes líder isolado de vendas no Estado: A

Gazeta.

Segundo a elaboradora do projeto do Notícia Agora, Maria Elena Azevedo (Lena), A

Gazeta, que é um jornal direcionado aos públicos “A” e “B”, foi obrigada a ampliar o seu público

a um segmento mais popular, o que não surtiu efeitos positivos entre seus leitores.

O diretor geral do grupo, Carlos Fernando Lindenberg Neto, o Café, afirmou que a criação do

novo jornal não foi para competir com A Tribuna. Segundo ele, optou-se pelo Notícia Agora

para conquistar o público que nunca teve acesso a jornais (parte da classe “C” e a classe “D”) e que

teria melhorado o poder aquisi- tivo com o Plano Real.

Lena Azevedo destaca que se criou o Notícia Agora para conquistar o novo público que

surgira, mas principalmente para competir com A Tribuna. Esta também é a opinião da atual

editora executiva do jornal, Sandra Aguiar: “O jornal surgiu em um contexto interessante, a velha

briga entre A Gazeta e A Tribuna.

A Tribuna estava ganhando mercado em uma reviravolta espetacular e o jornal tinha um

pouco esse propósito de ganhar, de entrar nessa briga”.

A idéia de criação de um novo jornal ou “Projeto Caparaó”, como era conhecido, existia havia

algum tempo. No final de 1999, a Rede Gazeta contratou a jornalista Lena Azevedo (ex-chefe

de reportagem e pauteira de A Tribuna) para trabalhar como editora, mas não estava definido que

ela elaboraria o projeto.

No início, pensou-se na contratação do jornalista Luis Fernando (de O Dia), porém ele não

aceitou. A convite do então diretorexecutivo do jornal, Plínio Marchini, a jornalista aceitou o

desafio para elaborar o projeto.

Havia uma proposta elaborada por Roberto Muller, diretor de redação de A Gazeta, mas esta,

segundo Lena Azevedo, era totalmente inviável, pois teria apenas 10 jornalistas. Como havia

pessoas em A Gazeta que eram contrárias ao jornal popular, a aprovação do projeto, de acordo

com a ex-editora chefe do Notícia Agora, foi resultado da articulação de Plínio Marchini junto à

empresa.


O projeto gráfico inicial foi elaborado pelo designer gráfico cubano Mário Garcia. Porém,

segundo Lena Azevedo, quem fazia os ajustes necessários era Maria José Pereira, que teve

participação fundamental nesse processo.

Mãos à obra!

A redação foi composta com 45 jornalistas, entre recém-formados e profissionais

estrategicamente contratados de A Tribuna (Weber Caldas, Alba Lívia, Sandra Daniel, Sandra

Aguiar e Érica Lene, dentre outros). Para a montagem da redação, foi efetuado um levantamento e

cada editoria tinha que elaborar uma rede de contatos, visando principalmente à prestação de

serviços. Por exemplo, a editoria de Cidades precisava saber o contato das farmácias, prefeituras,

pontos de táxi etc. Também foi escrito o Manual Básico de Redação do Notícia Agora.

Um mês antes do lançamento do jornal, havia uma simulação diária de reportagens para o

treinamento dos profissionais.

Na semana que antecedeu o lançamento, o jornal passou a ser impresso para avaliar o

entrosamento da equipe. Foi criado um “0800”, para que o leitor pudesse opinar.

Alicerçado em uma grande campanha de marketing, o Notícia Agora vendeu cerca de 35 mil

exemplares em sua estréia, fato que se repetiu nos meses seguintes. Nem a Rede Gazeta esperava

tamanho sucesso, segundo Lena Azevedo. A jornalista afirma que, durante um mês, o jornal vendeu

mais que A Gazeta e A Tribuna nas bancas.

Uma peculiaridade é que não há assinaturas do Notícia Agora, ou seja, ele só é vendido nas

bancas. De acordo com Café, não é viável para a empresa oferecer assinatura, por causa do preço a

que o jornal é vendido. Uma opção seria entregá-lo junto com A Gazeta, mas nem sempre os

jornais ficam prontos ao mesmo tempo.

A escolha do formato tablóide está relacionada com o público alvo (parte da classe “C” e a

classe “D”). Segundo o diretor geral do grupo, Café, “a principal vantagem é que as pessoas que

andam de ônibus acham mais confortável ler um tablóide que um standard”.


A inspiração

O jornal Notícia Agora é resultado de muita pesquisa e foi inspirado em alguns jornais

populares brasileiros. A partir de experiências bem sucedidas no jornal O Dia, surgiu a idéia de

prestação de serviços, matérias mais curtas, destaque para a economia popular, com forte apelo

policial (mas sem muito sangue, destaca Lena). Do jornal Extra, o grande sucesso: as promoções e

o entretenimento.

“Como um dos objetivos era atingir as classes que nunca tiveram oportunidade de comprar

jornal, acrescentaram-se assuntos relacionados à programação televisiva, pois esse público assiste a

muita novela”, observa a jornalista. O entretenimento sempre esteve presente, como no caderno

“Mix Tudo”. Além disso, há destaque para o esporte.

Efeito Anabolizante

Quer uma boa notícia? Hoje vai ser sorteado, às 14 horas, o primeiro leitor que vai levar a TV

de 20 polegadas da promoção “Outubro Premiado”, do Notícia Agora. Quem sabe essa pessoa não

é você? E não faltam motivos para acreditar na sorte.

Além do sorteio de uma televisão por dia, continua a promoção “Chuva de Gols”, que dá um

Gol zero todo mês. (Notícia Agora, Vitória, ES, 04 out. de 2005. Cidade, p. 02)

Ter promoção ligada a produtos de comunicação é um fenômeno relativamente recente e

diretamente ligado à difusão de jornais populares. Em abril de 1998, o jornal Extra (Rio de Janeiro)

lançou a coleção de selos que presenteava o público com um conjunto de panelas. Avaliando o

sucesso de venda que essa e outras promoções propiciaram ao jornal carioca, o Notícia Agora já

surgiu com essa proposta. “Se você vai ao supermercado, vê um detergente e, sem pagar nada, leva

a esponja, por que não comprar o detergente?”, comparou a atual editora executiva do jornal,

Sandra Aguiar.

no primeiro número do Notícia Agora, foi dada a largada para o grande sucesso do jornal e

das promoções junto ao público.

Além da promoção de panelas do “A hora é agora”, os leitores também concorriam a um carro

0km por mês, através do cupom “Notícia premiada”.


“Isto, no jargão da imprensa, é o que chamam de ‘anabolizante’.

É um instrumento de venda muito bom e tem um efeito grande sobre a circulação”, explicou

Cariê Lindenberg, diretor-geral da Rede Gazeta em 2000.

Essa maneira de “turbinar” o impresso não influenciou no conteúdo editorial do Notícia

Agora. Sandra Aguiar relatou que as promoções não são exclusivamente de jornais populares:

“A Época sorteia DVD e A Gazeta, bolsa de estudos”. Nesse caso, o sorteio funciona como uma

ferramenta auxiliar de venda, uma publicidade.

Ana Paula Costa, jornalista do Notícia Agora desde fevereiro de 2004, acredita que as

promoções até estimulam o repórter: “Se vai vender muito, queremos é fazer bem o nosso

trabalho”.

No biênio 2002-2004, o jornal passou por alguns ajustes (e desajustes) e várias premiações

foram banidas. O impresso, que chegou ao ápice de 45 mil exemplares diários, passou por uma fase

difícil, vendendo não mais que 5 mil jornais. Contudo, no segundo semestre de 2004, foi

implementada a promoção “Chuva de Gols”. A perpetuação de outros “anabolizantes” no jornal

é cada dia mais certa:

[...] Mas essa é apenas uma das promoções que serão realizadas no jornal. O analista de

desenvolvimento comercial do Notícia Agora, Edson Roncato, explicou que o leitor deve

acompanhar o jornal, pois outras surpresas virão em breve. (Notícia Agora, Vitória, ES, 04 out. de

2005. Cidade, p. 02)

Uma coluna “tudo de bom”

Romper com os moldes tradicionais do colunismo e tirar de cena a elite que sempre “aparece”

há 50 anos. Este era o objetivo da “Cena Cult”, coluna inicialmente escrita no Notícia Agora

pelo até então novato Marcelo Said.

Segundo o jornalista, que mora nos Estados Unidos e não escreve mais para a coluna, a idéia

era trazer gente da comunidade mais fora da badalação, fora do circuito Praia do Canto-Ilha

do Frade.


“O Marcelo começou a trabalhar a ‘Cena Cult’ com o mundo gay e com a cultura alternativa

que não tinha espaço. A coluna também inovou no palavreado, conseguiu mudar esse conceito de

colunismo no Estado”, relatou Lena Azevedo.

Qual era realmente a essência da “Cena Cult”? Por e-mail, Marcelo Said fez um relato pessoal

e paternal da verdadeira representação da coluna: “A grande diferença era que todos os

outros jornais estavam falando de eventos caretas, daqueles que só Deus agüenta... do Wall Street

whatever, a Swingers aquilo... please. Precisávamos de coisas novas no pedaço. Sobre a

linguagem jornalística, não tive para onde correr. Como tudo na coluna era fato, mas ainda sim

relato pessoal, decidi por uma escrita coloquial, como aquela fofoca ao pé do ouvido que a gente

adora ouvir, cheia de frases inexistentes, mas com muito sentido. Pois bem, meus leitores se

tornaram parte de um mundo que até então vivia escondido nos guetos capixabas sem chance de

serem ouvidos, mas adoravam fazer graça das muitas ‘flopadas’ da vida”.

Depois que Marcelo Said se desligou do jornal, a “Cena Cult” continuou existindo. Porém, sua

marca pessoal do escrever e transitar no meio não conseguiu ser substituída: “Acho que

quando optei por caminhar para frente e deixar meu bebê... que brejeiro...

para trás, ninguém realmente teve o perfil da coluna ‘Cena Cult’... Ela meio que tem que fazer

parte de quem a escreve, senão a graça perde sentido. A ‘Cena Cult’ sempre foi um retrato das

pessoas que realmente contribuíam de alguma maneira para a emancipação cultural da cidade, seja

ela gay, artística, literária, musical ou o escambal... contribuições culturais totais e intrínsecas ao

desenvolvimento cult da cidade. O resto era ‘bobage’.

Quem sabe quando eu estiver de volta as coisas não se reciclam?

Adoraria reviver a ‘Cena Cult’ um dia”.

Outras inovações

Na área do esporte, a equipe do Notícia Agora percebeu um diferencial que já fazia sucesso

em jornais populares de outros Estados: o futebol de várzea.


“Esta é a paixão que você não imagina, a pelada de periferia”, disse Lena Azevedo. A

jornalista afirma que muitas pessoas compravam o Notícia Agora para ver foto do time do bairro.

A fórmula deu tão certo que perdura até hoje na seção “Torcida Agora”.

Em termos de diagramação, o jornal inovou com a logomarca “flutuante”. Tratava-se de uma

tendência vinda de diários internacionais, nos quais, a cada dia, o nome do jornal localizava-se em

pontos diferentes da primeira página.

Do segundo para o terceiro ano, os responsáveis pelo Notícia Agora optaram por não usar

mais a logomarca flutuante, alegando que isso poderia prejudicar a visualização do jornal pelo

público.

Outro elemento inovador foi a contratação de jovens desenhistas de Carapina que faziam

quadrinhos. “Pagávamos um valor quase simbólico, mas era importante para eles. Era um

trabalho de muita qualidade. Pretendíamos conquistar o público jovem”, frisou Lena Azevedo.

A seção dos desenhistas deixou de existir, pois o público achava os desenhos muito

“sangrentos”.

A crise em pauta

Foi aquele boom inicial. O Notícia Agora vendia mais que picolé na praia em dia quente.

Seis meses após o lançamento, ele oferecia preço acessível (R$ 0,30), promoções interessantes e o

principal, conteúdo similar ao dos demais jornais do Estado.

O jornal tinha 48 páginas diárias e conquistou leitores dos outros jornais, além de formar um

público que antes não tinha acesso a jornal algum. O sucesso, no entanto, transformou-se em uma

crise interna cujo pico está entre os anos de 2002-2004.

“Tivemos uma baixa com uma crise em todo cenário jornalístico do Brasil”, destacou a editora

Sandra Aguiar. A Rede Gazeta, em específico, tinha comprado equipamentos financiados em dólar

e viu, de uma hora para outra, a dívida aumentar em três vezes.

“O Notícia Agora teve que aumentar de preço, diminuiu o número de páginas e perdeu parte

de sua equipe. Foi geral: a Abril demitiu mais de 40”, disse Sandra, sobre o processo de

enxugamento do jornal.


Lena Azevedo, ex-editora, desligou-se da Rede Gazeta no início da crise. “Eu fui o primeiro

corte”, brinca. Nas entrevistas, ela destacou que, desde a montagem, o Notícia Agora foi motivo de

guerra interna: “As próprias pessoas dentro de A Gazeta eram contra o jornal”. Ela saiu da equipe

por divergências com a diretoria de unidade de jornais: “Eduardo Valério quis descaracterizar o

jornal. Ele achava que ia diminuir gastos cortando páginas”.

Lena ainda afirma que Valério estava iniciando a demolição do Notícia Agora, e não era só

questão de economia.

Eduardo Valério desligou-se da Rede Gazeta em julho de 2005 e, atualmente, mora em

Curitiba. Ele respondeu, por e-mail, às colocações da jornalista: “É normal que em projetos novos

haja descrença principalmente pelo desconhecimento integral do propósito do novo jornal e até pela

não-participação da conceituação do produto”. Quanto aos cortes, Valério destaca que

as adequações foram necessárias e pertinentes à época.

A crise estava em pauta e o jornal entrou em decadência. Mais de 12 jornalistas da equipe de

45 foram demitidos, e as vendas diárias do impresso, quando muito, eram de 6 mil exemplares.

Além disso, o jornal custava R$ 0,80, sem oferecer nenhum “extra” para o leitor.

Uma das saídas encontradas para se reerguer o Notícia Agora estava nas velhas fórmulas, ou

melhor, nas promoções. Em 2004, houve o retorno do recorte-selos e do sorteio de Gols. A

própria redação também teve a iniciativa de criar cadernos suplementares para oferecer “algo além”

ao leitor, como o Caderno Sua Chance e o Caderno de Torcida.

Enfatizando as notícias locais em detrimento das internacionais e focando a escrita em polícia

e em serviço, o Notícia Agora vem aumentando a sua venda e começando a equilibrar-se.

Segundo a pesquisa Ipsos Maplan 2005, que coletou dados entre janeiro e julho, o jornal

obteve um crescimento de 126,13% em sua circulação em relação ao mesmo período do ano

passado.

Ele ultrapassou 185 mil leitores semanais, dos quais se destaca o público jovem do Espírito

Santo, uma vez que 58% do público do jornal tem entre 10 e 29 anos.

O visual


“Ele tem uma cara diferente, uma diagramação diferente”. Foi com essas palavras que Cariê

Lindenberg resumiu o projeto de diagramação do Notícia Agora. Ele foi desenvolvido para uma

recepção rápida e fácil das matérias pelo público “popular”.

Atualmente, o que se encontra no jornal é uma capa com chamada principal em destaque e

mais três ou quatro “coadjuvantes”.

As cores existentes na logomarca do jornal (vermelho, amarelo, preto e branco) e outras mais

chamativas (verde e azul) são usadas como fundo das chamadas. Também na capa, há a presença de

duas fotos, sendo uma maior que a outra, e de anúncios publicitários das promoções do Notícia

Agora.

Na parte interna, geralmente, duas páginas de cada editoria são coloridas e o restante é em

preto e branco. Muito utilizado, o recurso fotográfico configura-se como uma comunicação

direta dentro de quase todas as matérias. Estas não costumam ter mais que meia página de texto.

“O Notícia Agora trata os fatos de maneira leve”, disse Sandra Aguiar. Esse “leve” está

inserido no formato tablóide do impresso, uma vez que ele é de manuseio mais fácil que os demais

do Estado e, ‘‘diagramalmente’’, consegue suprir as necessidades do seu principal público-alvo

(classes C e D).

Sem perder a linha

Dentro da sua proposta inicial, a linha editorial do Notícia Agora não fugia daquela mantida

pelos jornais populares até então existentes no Brasil: “Reforçamos muito em economia popular,

entretenimento, esporte e polícia, com um tratamento jornalístico”, disse a ex-editora Lena

Azevedo. Além disso, o jornal sempre ofereceu texto curto e linguagem “acessível” para o seu

leitor.

“Com pesquisas e participação do leitor, encontramos a linguagem do jornal. O leitor quer

serviços. O leitor não quer informações rápidas. O que ganho nessa matéria? É útil para quem?

Não é informação pela informação. O repórter busca o que interessa ao leitor e não a si”, resumiu a

atual editora Sandra Aguiar.


Entre as editorias diárias e semanais do Notícia Agora estão Cidade (pautas corriqueiras da

Grande Vitória), Vida Saudável (trata de saúde e religião), Canal do Leitor (local reservado para o

leitor reclamar e expor sua opinião), Polícia, Dinheiro (voltado para uma economia popular),

Concurso/Emprego Agora, Tudo Aqui (ou classificados) e Torcida.

“Assim como no Extra (RJ), o entretenimento e a novela eram muito presentes desde o

começo”, relatou Lena. Atualmente, o jornal conta com uma espécie de caderno cultural, o “Mix

Tudo”.

É nele que entram os jogos dos erros, horóscopos, fofocas, guias de novelas e a cobertura

sobre a vida dos artistas.

Aos domingos, a “Revista Mix” traz, além dos convencionais assuntos “novelísticos”, uma

série de matérias que englobam o mundo da moda, beleza, costura e dicas de psicologia e sexo.

Nesse contexto, o Notícia Agora configura-se como “cotidiano local”, em detrimento do

nacional e do internacional. E, dentro desse local, pode-se verificar uma tendência a se

priorizar, principalmente em chamadas da capa, matérias de polícia (como assassinatos e assaltos) e

de serviços (como vagas para trabalho e cursos profissionalizantes).

“As pessoas se interessam por isso”, disse a jornalista do Notícia Agora Ana Paula Costa. O

destaque para o esporte também é bem amplo. Costuma-se ressaltar as “peladas” locais, com

o futebol de várzea, além de jogos dos times cariocas.

Entre as áreas que o jornal Notícia Agora geralmente não ressalta estão “política” e

“internacional”. Fatos enquadrados nesse hall só são destacados quando mais bombásticos, como

denúncias de corrupção e ataques terroristas (por exemplo, ataque às torres gêmeas, em 11 de

setembro de 2001).


Polícia e preço: estratégias do Notícia Agora visíveis já na primeira edição


Planejamento: 45 jornalistas testaram a produção do jornal por um mês

Notícia Agora chegou a vender 35 mil exemplares na sua estréia


À esquerda e à direita: no começo, a logomarca do Notícia Agora...


...“flutuava” em formato de “U” na primeira página do jornal


Nem só de notícias: campanhas para enfrentar concorrentes


“Cena Cult”: universo GLS e cultura alternativa ganham espaço


Polícia e preço: à estratégia inicial somam-se, hoje, as promoções


Referências bibliográficas

AGRIMANI, Danilo. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa. São

Paulo: Summus, 1995.

BARBOSA, Marialva. Jornalismo popular e o sensacionalismo. Rio Grande do Sul, 2004. In:

Verso e Reverso/Revista da comunicação, Ano XVIII, 2004/2, nº. 39. Disponível em:

Acesso em 10/10/2005.

BERNARDES, Cristiane Brum. A narratividade como categoria estratégica para a produção

de um jornal popular massivo. Rio Grande do Sul, 2004.

In: Verso e Reverso/Revista da comunicação, Ano XVIII, 2004/2, nº. 39. Disponível em:

Acesso em: 14/10/2005 AMARAL, Márcia Franz. A fala popular e a

realização do jornalismo. Belo Horizonte, 2004, Trabalho apresentado ao Núcleo de Pesquisa

02 (jornalismo) do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom.

Disponível em: Acesso em: 16/10/2005.

Teletipo. Independent: o feitiço virou contra o feiticeiro. Monitor da Imprensa.

16/12/2003. Disponível em: Acesso em: 16/10/2005 SINGER, Beatriz. The Times

versão tablóide: o triste fim de uma instituição.

Monitor da Imprensa. 16/11/2004. Disponível em: Acesso em: 16/10/2005 DINES, Alberto.

Quanto mais muda, mais fica a mesma coisa: jornais emagrecem rumo ao tablóide. A

imprensa em questão. 20/06/1999. Disponível em:

Acesso em: 16/10/2005 Notícia Agora. Vitória, ES, 03 de mai. 2000. Pra Começar, p.

02 Notícia Agora. Vitória, ES, 04 de out. 2005. Cidade, p. 02

Entrevistas


Sandra Aguiar – Editora executiva do jornal Notícia Agora, em 20/09/2005.

Carlos Fernando Lindenberg Neto – Diretor geral da Rede Gazeta, em 26/09/2005.

Maria Elena Azevedo – Jornalista e elaboradora do projeto do jornal Notícia Agora, em

27/09/2005 e 03/10/2005.

Carlos Fernando Lindenberg Filho, em 27/09/2005.

Ana Paula Costa – Jornalista, em 05/10/2005.

Eduardo Valério – Ex-diretor da unidade de jornais da Rede Gazeta, em 06/10/2005.

Marcelo Said – Jornalista, em 09/10/2005.


Uma paixão chamada

O Diário

Ronald Alves e Thiago Dal Col

No processo de formação do jornalismo impresso, muitos foram os jornais que nasceram, obtiveram

sucesso e morreram, sempre com o objetivo de cumprir a importante função social de informar. No Espírito

Santo, um jornal já falecido – exceto na memória daqueles que o fizeram – estabeleceu-se como o grande

laboratório de formação de jornalistas, num período em que não existiam as escolas de Jornalismo. Esse

jornal foi O Diário.

Este capítulo trata dos 25 anos de existência desse veículo, no período de 1955 a 1980. O Diário

nasceu numa época em que os jornais defendiam claramente uma posição política, pois eram instrumentos

escancaradamente utilizados para essa finalidade;

cresceu e morreu numa das fases mais obscuras da nossa história, a ditadura militar.

Hoje, 25 anos depois de seu fechamento, cabe apresentar uma versão de sua história. O capítulo foi

escrito a partir dos depoimentos presentes no livro O Diário da Rua Sete – 40 visões de uma paixão,

organizado pelo jornalista Antônio de Pádua Gurgel, e de conversas dos autores com os jornalistas de O

Diário Marien Calixte, Milson Henriques e Tinoco dos Anjos.

O jornal O Diário reflete um sentimento contraditório. Primeiro vem o “fascínio”, uma vez que ele

representou, dentro do jornalismo capixaba, todo ideal de liberdade e experimentação que almejam os

jornalistas. No final da década de 1960 e início de 1970, O Diário representava o jornal de vanguarda no

Estado.

Era formado por jovens jornalistas em início de carreira, “focas”

que, com muita garra e disposição, influenciados pelos acontecimentos culturais da época, traziam

esses sentimentos para o jornalismo que faziam. Vemos, por intermédio dos depoimentos apaixonados dos

profissionais, que a criatividade era uma atitude valorizada na redação. Ela levou o jornal a fazer grandes

inovações na imprensa do Espírito Santo.

O sentimento contraditório surge do fato de O Diário em alguns momentos estabelecer um jornalismo

puramente sensacionalista, exclusivamente para vender jornais. Nas suas principais manchetes, estampava a

violência, em letras garrafais, e priorizava o colunismo social.

Nas páginas que vão adiante, temos a pretensão de tentar relatar um pouco do que foi O Diário, na

magia dos depoimentos de quem trabalhou nesse veículo e o trata como uma paixão. Este relato constitui

uma maneira de o leitor entrar em contato com o modo como os jornalistas viam o jornal e como


dialogavam com o público, as histórias, lendas ou não, que ocorreram e marcaram a época, e tudo aquilo

que em parte faz com que O Diário mereça, por diversos motivos, ser lembrado nos livros que contam

a história do jornalismo capixaba.

O maior diário da Rua Sete

O sr. Carlos Lindenberg é diretamente responsável por

tudo quanto tem acontecido de violências policiais, durante o

seu Governo. Da sua inspiração política, dos exemplos de

perseguição que tem dado, da proteção que está dispensando

a esses belenguis policiais – de tudo isto é que nasce e se

revigora o clima de terror e de morte.

Este era o editorial publicado pelo jornal O Diário, em 12 de maio de 1960, assinado por

Plínio Marchini, o diretor de então, que escrevia textos apaixonados em defesa do político

Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho. Uma prática comum, pois os jornais da época eram

controlados por grupos políticos que os utilizavam como arma para combater os adversários.

Este é só um exemplo da instrumentalização explícita da imprensa em tempos idos. Mas a

história dO Diário começou a ser escrita sob o patrocínio de outros “coronéis” da política

capixaba e colecionou, ao longo de 25 anos, muitas curiosidades, orientações e “desorientações”

jornalísticas.

Após a compra dos equipamentos do jornal Folha do Povo, em 1955, O Diário iniciava a sua

circulação, dirigido por membros do Partido Social Democrático (PSD), que havia perdido as

eleições no ano anterior. Nesse ano, o governador era Francisco Lacerda de Aguiar e O Diário

atuava como um jornal de oposição. Nasceu “para manter acesa a chama do PSD”. Trazia em suas

seis páginas, quando começou a circular, assuntos de política, comércio, cultura, com destaque para

cinema e esporte, além de informação nacional de modo geral.

Nesse mesmo ano, por falta de verbas, o jornal foi comprado por Mário Tamborindegui, um

empresário carioca do setor de construção de estradas, que o fez para servir a Chiquinho. Segundo o

jornalista Marien Calixte, “entre 1955 e 1958, o jornal foi usado para torpedear Carlos Lindenberg,

Jones dos Santos Neves e todo mundo que não fosse Chiquinho. Era essencialmente sectário”.


Calixte recupera algumas manchetes, para lembrar o tom extremamente agressivo: “Políticos

querem lotear o ES”, “As oligarquias do PSD...”, “Oligarquia de Carlos Lindenberg...”, “Os

ricos querem dominar o pequeno Estado do ES...”.

No final da década de 50, O Diário passa para as mãos de Chiquinho, que, para não aparecer,

usa como “testa de ferro” seu filho Renato Aguiar e Setembrino Pelissari, um advogado da

ala jovem da União Democrática Nacional (UDN). Por essa época, Chiquinho nomeia Plínio

Marchini para diretor do jornal.

Apesar da ação ofensiva de O Diário, Carlos Lindenberg foi eleito governador em 1958. E

seria, assim, o principal alvo do jornalismo extremamente violento de O Diário, que o atacava com

duríssimas palavras.

Nas eleições para governador de 1962, Chiquinho era novamente candidato, tendo sua

candidatura articulada pelo PRP. A jornalista e pesquisadora Sandra Daniel afirma: “Com

Chiquinho novamente em campanha, O Diário se lançou na cobertura política.

Em julho desse ano, o jornal publicava diariamente o roteiro de viagens do candidato,

enquanto seus editoriais criticavam a ação do PSD”.

Para a política, o jornal cumpria uma importante função, mas não recebia nenhum tipo de

investimento. Segundo Calixte, “era tudo precário, comprado de segunda mão. Só havia dois

linotipos”.

Com a vitória de Chiquinho, os funcionários pensavam que o jornal fosse melhorar. Mas isso

não aconteceu. No entanto, o teor da notícias continuava agressivo contra os adversários políticos.

Em 1964, veio o golpe militar. No início, segundo Calixte, a orientação que chegou à redação

do jornal era que não se provocassem os militares, mas também não se atacasse o ex-

presidente João Goulart, que poderia voltar ao poder. Por isso, a partir de então, o jornal perdeu a

linha habitual e passou a se dedicar a assuntos de polícia.

Não seria uma boa fase nem para Chiquinho nem para O Diário.

O ano de 1965 foi tumultuado para o Espírito Santo. Sandra Daniel conta que “um dos

resultados da teia de intrigas construídas a partir de 1964 seria o afastamento de Francisco Lacerda

de Aguiar no ano seguinte, vitimado pelas acusações de corrupção”.


A jornalista afirma que “as denúncias foram lançadas por jornais cariocas em setembro, dando

conta de uma possível ligação do governador a casos de corrupção e a elementos subversivos”.

O Diário continuava sendo usado para contra-atacar os inimigos políticos. No entanto, não lhe

era dada a devida importância.

“Chiquinho não dava a mínima para o jornal, que era usado por Setembrino apenas como

instrumento para escrever contra Carlos Lindenberg e o PSD”, afirma Calixte.

Em abril de 1966, Chiquinho renunciou ao cargo de governador, mesmo sendo absolvido pela

Comissão Especial criada na Assembléia para investigá-lo. Com sua saída do Governo,

Christiano Dias Lopes é eleito governador do Espírito Santo pela Assembléia Legislativa. Os

representantes de Chiquinho vendem suas cotas. A partir daí, O Diário passaria a ser dirigido por

Edgard dos Anjos, em cujas mãos viveria seus momentos de glória, na década de 1970.

O Diário da Ditadura

Edgard dos Anjos assumiu o jornal e não existia uma direção específica. A idéia era fazer

daquele espaço um grande laboratório.

Para Calixte, “O Diário era tido como de esquerda, mas, na verdade, não tinha nada de

esquerda e nem de direita. Era um jornal sem ideologia definida”.

Nessa fase, as principais manchetes eram informações internacionais e assuntos de polícia,

além de temas mais suaves, como enquetes sobre comportamento. As notícias sobre a vida social da

cidade ganhavam destaque, em detrimento da discussão política.

“Havia muitas colunas e espaço para articulistas, críticos de arte e cronistas. Havia seções e

colunas dedicadas à ‘sociedade’ e à cultura”, detalha Sandra Daniel.

No último ano da década de 60, a linha política adotada anteriormente pelo jornal estava

praticamente abandonada. Prevalecia a editoria de Polícia. Tanto que aí se registou a maior

venda de exemplares do jornal na sua história, com a cobertura da ação do Esquadrão da Morte,

famoso grupo formado por policiais civis, no final dos anos 60, que decidiram agir como

justiceiros, caçando e eliminando os bandidos, sem levá-los à Justiça.


Marien Calixte relatou que O Diário se relacionou com o Esquadrão da Morte de uma maneira

“curiosa”. “Embora se falasse contra as chacinas, os delegados ligados ao Esquadrão viviam

na redação, costumavam beber cerveja com o pessoal e alguns deles até escreviam matérias, dando

a versão da Polícia”.

Segundo Calixte, esta era uma estratégia, pois, “mesmo falando contra o Esquadrão da Morte,

o jornal sempre tirava da reta a cara do pessoal que o integrava. Não havia uma posição radical do

jornal de denunciar o Esquadrão”.

Com a cobertura desses crimes, o jornal, que tinha uma tiragem diária de três mil exemplares,

passou a rodar de três a quatro vezes mais jornais por dia. Com isso, segundo Pedro Maia, o público

capixaba aprendeu a ler jornal e passou a procurá-lo na banca.

Esse fato está na lembrança de muitos jornalistas que lá trabalhavam e fizeram seus registros

no livro organizado por Gurgel em 1998:

“O Esquadrão foi um escândalo e, por isso, um filé mignon

para a cobertura jornalística”. (Tonico dos Anjos)

“O jornal era combativo, publicava reportagens especiais e se

destacou na cobertura do Esquadrão da Morte. A linha

editorial era popular, mas tinha de tudo”. (João Luís Caser)

“O jornal teve seus grandes momentos. Nos tempos do

Esquadrão da Morte, vendia igual água. Era um jornal

simpático, todo mundo gostava”. (Oscar Rocha Junior –

Boquinha)

“Era noite e dois camburões da Polícia passaram com destino

à Barra do Jucu. Era o início da maior manchete policial da

história do jornalismo capixaba: o Esquadrão da Morte. A

notícia demorou 24 horas para explodir. Foi uma manchete

garrafal, com letras que eu nunca vira iguais: 11 Cadáveres”.

(Gérson Camata)

O período que se segue é marcado pela grande contradição que norteou os anos 70 na redação

de O Diário: o jornal passa por grandes dificuldades financeiras, mas funciona como a

grande escola de jornalismo do Espírito Santo.


Uma novidade que se apresentou foi a idéia de se fazer o jornal vespertino, que vigorou em

1971. Quem dirigia o jornal era Cláudio Bueno Rocha. A edição da tarde circulou por cerca de seis

meses. Ela tinha por finalidade matar todos os assuntos dos jornais concorrentes. “Então, no outro

dia, de manhã cedo, eles teriam que dar matérias que já tinham saído em O Diário. O jornal virou

vespertino exatamente com essa finalidade de antecipar a notícia”, registrou José Maria Batista.

Mas, segundo Pedro Maia, essa estratégia “não podia dar certo, porque as bancas de Vitória

naquela época fechavam às seis da tarde. Mesmo com aquela porrada de garoto vendendo jornal

na rua, a situação ficou insustentável”.

Ser um jornal vespertino foi somente uma das várias inovações feitas por O Diário no

jornalismo capixaba ao longo de sua existência.

O jornal da Rua Sete, como era conhecido, foi pioneiro no Estado em diversos aspectos. Para

Cacau Monjardim, falar de economia foi uma inovação, “porque naquela época ninguém falava em

economia. A coluna (Poltrona B) passou a ser leitura obrigatória dos empresários do Estado”.

Segundo Monjardim, o jornal foi pioneiro também na veiculação de cadernos especiais, lançando

dezenas deles a partir de 1957. O primeiro suplemento se chamava Jornal Social e era assinado por

Hélio Dórea e Elcio Álvares. Para Tinoco dos Anjos, “no Espírito Santo, as noções modernas de

jornalismo foram experimentadas primeiro em O Diário, onde pela primeira vez se desenvolveu a

concepção de segundo caderno”.

O Diário foi pioneiro dentro do Espírito Santo justamente por se propor a experimentar. Do

movimento cultural às inovações editoriais e gráficas, da luta contra a ditadura com um

enfrentamento alegre e independente ao lançamento de colunas e cadernos diversos, o jornal sempre

inovou e por isso sobrevivia, mesmo sem recursos financeiros. Era uma luta para deixar o jor- nal

mais atraente e competitivo. Na técnica, era um jornal de vanguarda, mas a tecnologia não ajudava.

Os jornalistas tinham de fazer verdadeiros milagres.

Houve um tempo em que os jornais eram formados basicamente por textos. O Diário foi o

primeiro a empregar fotógrafo, bem como a montar um departamento fotográfico próprio. Foi lá

também que se iniciou um grande sucesso: estampar na mesma edição fotos relativas ao fato

noticiado. Da mesma forma, inovou ao ser o primeiro jornal capixaba a instalar um sistema


de radiofoto, que depois passou a se chamar telefoto. É creditado também a O Diário o primeiro

telex que funcionou num jornal do Espírito Santo.

Segundo George Bonfin, lá aconteceu inovação também na comercialização, que deu bons

resultados. “O comum, até então, era o cliente fazer com o jornal um anúncio só, apenas

uma publicação. E eu criei na época o formato diferente, que comprometia o cliente com o jornal,

quer dizer, um contrato. E o cliente passava a anunciar três meses, seis meses”.

Tinoco dos Anjos relata que, por essas e outras, O Diário foi um jornal inovador. “Além dos

equipamentos, ele também inovou na linguagem, na diagramação e no conteúdo”.

O preço da liberdade

O sonho de todo jornalista de hoje é poder escrever o que pensa e o que sente sem se

preocupar com a pressão do mercado nem com a aceitação do texto pelo editor. No Espírito Santo,

um jornal permitiu essa experiência: no jornal O Diário havia liberdade de expressão nos termos

que o jornalismo hoje não conhece.

Liberdade de conteúdo e de forma. Era o período em que, na direção, estava Edgard dos Anjos

e também Cláudio Bueno Ro- cha. Sempre havia chance para quem não tinha experiência.

Em contrapartida, recursos financeiros nunca foram o grande forte do jornal, desde sua inauguração.

Sendo assim, existia liberdade, mas o salário do jornalista era coisa incerta. “NO Diário,

podiase escrever com liberdade e fazer o que se quisesse, mas no final do mês não aparecia

dinheiro”, revela Calixte.

Na verdade, nesse período, O Diário recebia muitos jovens dispostos a aprender a escrever, a

fazer jornalismo e que, de certa forma, não estavam muito preocupados com o retorno

financeiro que a atividade pudesse dar. Os depoimentos comprovam que nem sempre o salário era a

coisa mais importante para aqueles jovens jornalistas:

“Todo dia era diferente. A gente tinha um amor danado. Nem

importava se o salário estava atrasado ou se ganhávamos

pouco. Às vezes, a gente ia prá oficina de madrugada ver os


caras montando. Era como se o pessoal que trabalhava lá

fizesse parte da nossa família”. (Mariângela Pellarano)

“A coisa mais importante que O Diário promoveu na

imprensa capixaba foi a liberdade de criar, para se produzir.

Tanto que mesmo os jovens jornalistas podiam ter suas

colunas.” (Rubinho Gomes)

“Éramos todos muitos jovens, O Diário tinha descoberto uma

maneira barata de fazer jornal com estagiários. Embora isso

pareça uma coisa antipática, ao mesmo tempo tinha uma

faísca de renovação.”

(Rosental Calmon Alves)

“Efetivamente, a redação dO Diário oferecia possibilidades

de aprendizado. Estávamos motivados.

Foram contratados também profissionais maduros.

Com grande bagagem e experiência. Um detalhe:

era permitido errar.” (Antônio Rosetti)

“Pra mim, O Diário foi a maior escola de jornalismo que o

Espírito Santo já teve. Não tem Universidade, não tem o que

se compare. A gente aprendia com a dificuldade. [...]. Embora

houvesse dificuldades e a gente recebesse o salário em

parcelas semanais a título de vale, uma coisa era certa:

ninguém ficava duro no final de semana.” (Oscar Rocha Jr. –

Boquinha)

“Para quem tinha boa vontade e entusiasmo, O Diário

ensinava um pouco de tudo – diagramação, fotografia, revisão

– e foi lá que obtive essa ‘cultura geral’ de jornalismo, esse

treino exaustivo que me permite saber os segredos da

profissão.” (Paulo Torre)

Vinte e cinco anos depois de sua fundação, por dificuldades financeiras – eterna pedra no

sapato –, O Diário fecha. O fim não poderia ser menos tumultuado. Pertencia ao advogado

José Maria Ramos Gagno.

De acordo com o último proprietário, quando ele adquiriu o jornal, no ano de 1980, havia uma

dívida crônica com a Previdência Social e com o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, com


inadimplências que ultrapassavam os dez anos. O jornal encerrou suas atividades sem o

conhecimento dos jornalistas, o que gerou revolta.

Gagno relata os últimos dias de O Diário: “No período em que dirigi o jornal, 64 famílias

viviam dele. Mas a situação estava insustentável.

Havia créditos, mas não se conseguia receber. Fechar o jornal com os funcionários dentro seria

impraticável. Então, eu fui lá e deixei terminar a edição de domingo no sábado de ma- drugada. No

domingo, eu lacrei o jornal e, na segunda, não deixei que ninguém trabalhasse mais”.

Estava encerrada, assim, a história de um veículo de comunicação sem igual na história do

jornalismo capixaba. Nas palavras de Sandra Daniel, “um jornalismo rico em colunismo e seções

de variedades, arauto da efervescência cultural que marcou época.

Nas palavras do fotógrafo Paulo Makoto, “os frutos da experiência, no entanto foram

proveitosos, pois outras empresas colheram os profissionais jovens, mas bastantes amadurecidos”.

Histórias de O Diário

Quando compraram as máquinas e fundaram O Diário em 07 de Julho de 1955, os pessedistas

não tinham idéia do que estavam iniciando. A razão era defender os ideais do PSD e fazer

oposição ferrenha ao então governador Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho. Essa ação daria

início a uma das histórias mais ricas do jornalismo capixaba, talvez a maior delas por sua

singularidade.

Em meio a tanta perseguição ao governo de Chiquinho, foi criado o trocadilho “Odiário”, que

se remete a odiar. A ligação entre jornais e grupos políticos nessa época se mostrava

explícita, diferente do camuflado jornalismo contemporâneo. Quando abria o jornal, o leitor sabia a

quem este pertencia, pois era evidente se era do governo ou da oposição.

Os anúncios eram raros nos jornais. Dessa forma, salvo alguns casos, só entrava dinheiro

quando alguma personalidade queria atacar ou ser defendida. Mantinham aquele veículo como

arma para lutar nas eleições. Para os jornalistas, a atração era o salário pago pelos seus patrões. Mas

nem sempre. A vontade de escrever e ser jornalista em O Diário ultrapassava a fronteira entre

patrão e empregado. A prova é que, muitas vezes, os jornalistas permaneciam sem receber, quando


não recebiam menos do que era de direito. Estavam na redação pela vontade de mostrar suas

idéias impressas naquele papel, e O Diário apaixonava.

A diferença entre o maior diário da Rua Sete e os concorrentes estava em sua organização.

Enquanto nos outros as coisas funcionavam tranquilamente, em O Diário funcionavam na marra

e na raça, em um trabalho realizado por amigos dentro da redação.

Tudo era pensado e realizado pelos jornalistas e isso o diferenciava.

Pois aquela desorganização, para eles, era sinônimo de liberdade.

Este era o charme do jornal.

Como nem sempre havia profissionais à disposição do jornal, alguém tinha que fazê-lo ir para

as bancas no outro dia. Assim, formaram-se profissionais que sabiam de tudo dentro da empresa.

Muitas vezes, o repórter tinha que descer até a gráfica para trabalhar como linotipista, tituleiro,

emendador e tantas outras funções que não existem mais nas redações. O profissional

era praticamente forçado a passar por todas as áreas do jornal, tanto técnicas quanto de produção de

notícia. Difícil era achar alguém que ainda não tinha escrito uma coluna dos mais variados

assuntos, fotografado, editado e tudo o que mais fosse preciso fazer.

E tal fato não era visto como dificuldade, mas como uma oportunidade.

Dessa forma, O Diário se tornou uma escola de formação de profissionais do jornalismo, cuja

maioria, posteriormente, rendia-se aos melhores salários e à segurança dos empregos nos veículos

concorrentes.

Transformar O Diário em escola do jornalismo capixaba foi realização dos próprios

jornalistas. Apesar de, em um momento da década de 1970, publicar na primeira página o anúncio

“Você quer ser jornalista?”, para depois fazer uma seleção, O Diário sempre teve como

característica formar bons jornalistas. A dinâ- mica do jornal parecia ser a seguinte: quem quer ser

jornalista só precisa chegar até a redação e pegar a sua pauta. Segundo Pedro Maia, os pauteiros

mandavam os “focas” para o Departamento Médico Legal, para o morro (favela), sempre locais

ruins. Se eles gostassem iam continuando. Como a história mostrava, poderiam até virar diretores

ou o que quer que almejassem. A oportunidade sempre era dada.

A liberdade para errar era enorme, e não havia burocracia no jornal. Isto fascinava alguns e

assustava outros. Quando entrou na redação de O Diário, na segunda metade da década de


1960, Eloy Nogeira se assustou. “Aquilo não era jornal. Era a casa onde um doido chamado Otávio

Lisboa fazia, sem dinheiro, alguma coisa impressa e oferecia aos capixabas”. Essa liberdade para

se escrever o que quiser era tudo para os jornalistas.

Os jornalistas pareciam surgir ao acaso para O Diário. Não são poucos os casos de pessoas que

do nada se tornaram profissionais de imprensa. Um dos pré-requisitos básicos era conhecer alguém

do jornal. Paulo Maia diz que seu pai conhecia Rosendo Serapião, que dirigiu o jornal no final de

1956. Dessa forma, pediu ao amigo para ajudá-lo, pois seu irmão Pedro Maia não queria estudar.

Serapião sugeriu mandar o garoto com 16 anos para trabalhar como jornalista. Na verdade, ele

começou varrendo a redação, mas a oportunidade surgiu e ele se tornou jornalista. O mesmo

aconteceu a Paulo Maia, com 14 anos.

Na época em que colocavam anúncio no jornal chamando jovens para serem jornalistas, um

jovem entrou na redação para entregar um livro a um amigo. Rogério Medeiros, fotógrafo de

O Diário na década de 1960, diz que o pauteiro confundiu o rapaz com um candidato e lhe deu uma

pauta. Ele fez a matéria e se tornou jornalista. O nome desse jovem é José Casado, hoje na revista

Época. Erildo dos Anjos foi quem arranjou uma pauta pra ele, que fez a matéria e gostou do

negócio.

Quando Francisco Henrique Borges chegou à redação de O Diário, imaginou que seria

tranqüilo, pois já tinha escrito matérias para outros jornais. Enganou-se. Tão logo entrou,

jogaram uma máquina fotográfica em suas mãos e lhe deram uma pauta fotográfica. Mesmo sem

saber usá-la direito, foi para o campo.

Ele confirma a lenda de que voltou se gabando das boas fotos que tinha feito. Alguém

perguntou onde estavam e ele abriu a máquina e velou todo o filme. Tal fato fez com que Paulo

Torre o promovesse de foca para bagre. Desde então este é o seu apelido.

diversão.

Os jornalistas sempre lembram de fatos que misturam o aprendizado com o humor. Era pura

Existiam casos de pessoas que iam para O Diário sem saber escrever e aprendiam dentro da

própria redação. Antônio Alaerte foi um desses. Ele chegou a publicar textos nos quais escrevia

a palavra operário com “h”. Por isso que muitos zombavam, dizendo que “se a pessoa é analfabeta e

gosta de escrever, não tem problema; dá um pulo nO Diário que aprende”.


Admitindo o inadmissível, O Diário era usado como porta de entrada. Depois que o jornalista

aprendia nO Diário, os outros o compravam. O jornalista Hely Edson, que trabalhou como editor de

internacional em 1973, disse que Cláudio Bueno Rocha chegou a anunciar alguns jornalistas em um

Classificados, pois a situação financeira não estava boa. Na verdade, nunca esteve.

Outro exemplo de nenhum purismo nas regras foi contado por Oscar Rocha Jr., o “Boquinha”,

que não se poderia reportar a não ser da mesma forma como ele registrou:

“Havia um rapaz, o Didinho, halterofilista, fortão, dois metros

de altura. Eram revisores, ele e o Edvan, um rapaz magrinho.

Um lia a matéria original do repórter, corrigida a caneta; o

outro acompanhando a leitura na prova impressa. Quando

havia um erro, paravam a leitura para conferir. O aviso de

erro era uma batida na mesa.

Didinho não era muito bom de português, e tropeçou num

nome:

- Asdrúbal.

Edvan bateu na mesa:

- Asdrúbal.

Didinho insistiu:

- Asdrúbal.

Edvan corrigiu outra vez, já não muito certo se devia.

Didinho perdeu a paciência, deu uma porrada na mesa e

gritou:

- As-dru-bal!

E ficou por isso mesmo.”

Cada editoria só podia usar uma foto por semana, por economia de clichês. Os antigos clichês

eram usados centenas de vezes por ano. Utilizavam uma foto com um treinador antigo do Flamengo

e davam como legenda: “O Flamengo, que já teve o Fleitas Solich como técnico, ganhou de

tanto...”. Esse treinador já estava no Uruguai havia meses e ainda aparecia em O Diário.

Outra maneira de se conseguir uma imagem desejada era posicionar a câmara na frente da TV

na hora do Jornal Nacional e fazer a foto. Na manhã seguinte era capa de O Diário. Tudo era

válido quando o negócio era vender jornal e furar o concorrente.

Quando as manchetes de capa não apareciam, elas eram arranjadas.


Pegaram duas calotas de carro, colaram uma na outra e jogaram de cima do Penedo. Makoto

fotografou e deram como se um disco voador sobrevoasse Vitória. O Diário botou na capa com

manchete em letras garrafais, como era de costume. Os jornais locais, O Globo, JB e outros também

trabalharam o assunto.

Até a Aeronáutica investigou. Três dias depois, O Diário mostrou na primeira página o

lendário Américo Rosa com as calotas debaixo do braço.

Américo Rosa era um contínuo que trabalhava em O Diário.

Conhecido por toda cidade, ele vivia cantando pelas ruas a música de Afonso Abreu “Os

peixinhos do mar”. Ele dividia suas horas entre andar pelas ruas, pelo hospício Adauto Botelho

e pela redação de O Diário. Fazia o café para os jornalistas em seu fogareiro a querosene. Os

jornalistas dizem que o café era horrível, mas todos tomavam sem reclamar. Rosa parou de fazer

o café quando ateou fogo no jornal e destruiu a redação. A salvação é que Edgar dos Anjos tinha

feito o seguro do prédio poucos dias antes. Acredite se quiser: todos afirmam que o incêndio

em momento tão propício teria sido pura coincidência.

Tendo sempre em mente o lema de “ganhar pouco sim, mas se divertir”, os jornalistas sempre

criavam histórias. Paulo Bonates diz que, certa vez, armou para cima de Renato Cascata.

Percebendo que o amigo estava precisando de uma pauta, ligou para ele de outro telefone da

redação. Bonates se identificou como Kleber Andrade, presidente do time de futebol Rio Branco, e

disse que em uma semana se realizaria um torneio em Vitória com o Flamengo, o Santos de Pelé, o

Milan da Itália, a Desportiva e o Rio Branco. Todos riam na redação, inclusive Tinoco, editor

de Esportes, mas Renato não percebeu. No outro dia era matéria de capa com a seguinte manchete:

“TORNEIO MONSTRO”.

Kleber Andrade culpou o presidente da Desportiva, mas nada aconteceu. Esse fato seria

justificativa de demissão em qualquer outro jornal, mas tinha acontecido em O Diário.

O jornal era feito por uma família, em todos os sentidos. Sabendo de suas deficiências, eles as

compensavam com criativi- dade e diversão. Para defender o jornal, não foram poucas as vezes em

que empunharam armas. Paulo Maia contou que, certa vez, souberam que seriam “visitados” pelos

seguranças do então governador Carlos Lindenberg, pois ele não estaria satisfeito com as

esculhambações diárias que sofria do jornal. Quando os carros dos capangas do governador


chegaram, alguém que estava escondido gritou: “Não desce que morre”. Os carros desceram a

ladeira próxima a O Diário em alta velocidade. Até hoje, não se sabe quem gritou. O fato foi

comemorado como uma vitória em campo de batalha. Não deixou de ser.

O hábito de andar armado para se defender dos atentados era tão comum que são inúmeras as

histórias a esse respeito. Paulo Bonates conta que um delegado chamado Barreto, que

também trabalhava na redação de O Diário, levou uma bala de festim e deu um tiro dentro da

redação. Fernando Jakes Teubner, o Jakaré, caiu e gritou: “Tô ferido, tô ferido”. Estes e outros

casos de tiros acidentais são lembrados por quem participou de O Diário.

Outra área de bastante trabalho no jornal foi a de horóscopo.

Jornalistas como Carmélia Maria de Souza e outros escreviam para ela. Nada de esotérico, e

sim pura criatividade. Rogério Medeiros registrou que Edgard dos Anjos sempre exigia que o

único carro da redação fosse levar o jornal na sua casa todos os dias, até que se descobriu que era

para sua empregada, que lia apenas o horóscopo e seguia à risca suas instruções. Daí então os

jornalistas começaram a enviar mensagens diretas e nominais para a empregada. O “horóscopo”

mandava pedir aumento, falando que o patrão era desonesto com ela, para não obedecê-lo e

muito mais. Até que Edgard acabou com o horóscopo do jornal.

Beber e fumar não se restringia aos botecos como o Britz Bar.

Até mesmo dentro dos jornais o hábito era freqüente. Segundo Paulo Maia, para acompanhar

as biritas e o carteado, sempre caçavam um tira-gosto. O mais freqüente era carne de gato.

Os felinos eram atraídos com pequenos pedaços de carne e alguém os acertava com uma das peças

da gráfica, mais especificamente com o brete da impressora, um cano grosso de ferro. O

preparo ficava por conta de Dequinha, outra figura folclórica do jornal, que cozinhava e pendurava

a cabeça do bicho em um poste próximo à redação. Enquanto preparavam o jornal, serviam-se de

carne de gato. Certa vez, o governador Francisco Lacerda de Aguiar chegou justamente na hora que

o bichano era feito. Questionou o que seria e falou que se o pessoal de O Diário comia gato, ele

também comeria. Prepararam seu pratinho com pirão e ele se satisfez bebendo um vinho. Ao sair,

brincou: “Eles pensam que me enganam. Vê se isso é gato...”. Foi então que alguém lhe apontou a

cabeça do gato pendurada no poste.


O tira-gosto de gato não durou muito tempo em O Diário. Dequinha, por azar, matou a gata

angorá de uma vizinha do jornal.

Quando viu a cabeça do gato pendurada, a mulher desmaiou. A Polícia foi acionada e, desde

então, foi proibido comer gato no jornal.

Todas essas características se refletiam no produto final. Quando, em 1969, a ditadura militar

chegava a seu auge, por meio do AI 5, Antônio de Pádua Gurgel voltava a Vitória, cidade

provinciana, e verificava que, dentro desse contexto, existia esse jornal que fugia aos padrões do seu

tempo, estando na vanguarda do jornalismo capixaba.

Gurgel relata que observou uma manchete que lhe chamou a atenção: “EU NÃO

SEQUESTREI O EMBAIXADOR ALEMÃO, SÓ O AMERICANO”. Era uma manchete que

cobria quase metade da primeira página do jornal e lançava uma entrevista exclusiva com Franklin

Martins, até então na clandestinidade.

Essa matéria estimularia Gurgel a posteriormente organizar o livro “O Diário da Rua Sete –

40 versões de uma paixão”.

Britz Bar: uma extensão de O Diário

Depois de “tediosos” dias de trabalho, nada mais merecido do que um pouco de diversão. Os

jornalistas de todos os principais jornais de Vitória sempre se reuniam no Britz Bar. Era como uma

extensão das redações, principalmente a de O Diário, que ficava pertinho do bar. Dino Gracio disse

que o Britz “era o centro boêmio-pensante da cidade”. Tanto é verdade que Milson Henriques, em

O Diário, criou a tirinha Britiznics, segundo ele, “uma homenagem à patota de jornalistas,

intelectuais (falsos ou não), boêmios, artistas, esquerdistas e zoneiros em geral que freqüentavam o

saudoso Britz Bar”.

Muitos jornalistas, ao falarem de O Diário, lembram desse bar.

Rosental Calmon Alves disse que guardaria seu primeiro salário.

“Mas aí, passei no Britz e gastei”. Gerson Camata lembrou que “trabalhava o dia todo e pela

madrugada descia para o Britz”.


Aquele bar não era só para tomar cachaça e fumar, pois isto não deixava de ser feito dentro de

O Diário. Era nele que os jornalistas se encontravam com os amigos de outras redações e sabiam

o que seria publicado no outro dia, quem daria furo no concorrente.

Camata ainda recorda de Milson Henriques desenhando o Britznics dentro do Bar.

Na ditadura, os censores proibiam os jornais de veicularem certos assuntos, muitos deles

desconhecidos pelos próprios jornalistas.

Ao perceberem que poderiam informar de outra forma, criaram o jornal mural dentro do Britz,

em 1974, e lá publicavam de tudo. Hely Edson, que trabalhou como editor de Internacional de O

Diário, disse: “Era uma coisa muita divertida, porque o Paru, dono do Britz, fez uma redação pra

gente lá, botou máquina de escrever no Bar. A gente chegava lá, tomava todas, escrevia o que

queria e pregava no mural”. A Polícia descobriu, cercou o quarteirão e levou todo mundo para o

quartel de Vila Velha. A partir de então, o censor visitaria freqüentemente o Britz Bar.

O Britz ficava na Rua Gama Rosa, próximo à Igreja do Carmo e ao Colégio Nacional. Com a

mudança de eixo do Centro de Vitória para as periferias, por volta do início da década de 1980, o

bar não agüentou e fechou as suas portas. Ele abriu posteriormente na Praia do Canto, mas também

não foi para frente. Jairo Brito, ex-redator de Cultura do “maior jornal da Rua Sete”, diz que o Britz

“lembra aquelas ilhas da Polinésia, sempre com farto material à disposição de antropólogos em

busca de teses”.


Referências bibliográficas

GURGEL, Antônio de Pádua. O Diário da Rua Sete: 40 versões de uma paixão. Vitória: Contexto Jornalismo &

Assessoria Ltda, 1998.

Entrevistas

Antônio de Pádua Gurgel – Jornalista, em 22 set. 2005, aos autores.

Marien Calixte – Jornalista, em 29 set. 2005, a Thiago Dal Col.

Milson Henriques – Chargista, em 30 set. 2005, a Ronald Alves.

Tinoco dos Anjos – Jornalista, em 07 out. 2005, a Vitor Bourguignon.


Ponto de partida

Jornal da Cidade

Kênia Freitas

Uma pilha de jornais dobrados, amarrados e empacotados em uma estante escondida e

abarrotada da Biblioteca Pública Estadual.

Em 2005, estes são os exemplares do extinto Jornal da Cidade.

Estão ali guardadas, sem precisão cronológica, praticamente todas as edições de 1985 até

1992, ano de seu fechamento. São oito páginas impressas na linotipo com chumbo derretido


(agora artigo de museu ou de decoração, como na porta da Rede Gazeta), o que explica sua evidente

baixa qualidade visual.

É desafiador o exercício de imaginar que aquelas páginas agora mofadas já foram um jornal

vibrante. Na capa de algumas edições, está até estampado um orgulhoso: “segundo jornal mais lido

da Grande Vitória”. O jeito é seguir o conselho da bibliotecária e usar máscara e luva, para

descobrir um capítulo da história da imprensa capixaba que se esconde atrás de tanta sujeira.

O jornal chapa branca da ditadura

O Jornal da Cidade começou a circular em 1972; primeiro, como um semanário, mas logo

ganhando a periodicidade diária. Seus proprietários, Djalma Juarez Magalhães e sua esposa Maria

Nilce dos Santos Magalhães, compraram o que era então o Jornal O Debate.

Fundado por deputados do MDB, O Debate era dirigido por Carlito Von Schilgen. Sua

proposta era fazer oposição ao então governador biônico Christiano Dias Lopes. Não deu certo.

Foi entregue ao radialista Oswaldo Oleari e, duramente reprimido pela ditadura militar, o jornal

fechou, sendo comprado por Djalma e Maria Nilce, recém-saídos de A Tribuna. “O Debate

estava falido, então nós o compramos, sem dinheiro, sem nada”, explica Djalma Magalhães.

A aquisição do Jornal da Cidade pelo casal aconteceu após um racha com o jornal A Tribuna,

depois que este foi comprado pelo industrial João Santos. “Antes, eu dirigia o jornal e Maria

Nilce era colunista social. Mas fomos demitidos por pressões políticas e de membros da alta

sociedade, inconformados com nosso posicionamento independente como jornalistas”, completa

Magalhães.

Diversos jornalistas passaram pelo jornal em suas duas décadas de existência: Xerxes Gusmão

Neto, Carmélia Maria de Souza, Rubinho Gomes, Amylton de Almeida, Zuleika Savignon,

César Viola, entre outros citados nostalgicamente pelo proprietário.

Fundado em pleno regime militar, o jornal seguiu uma linha editorial declaradamente

conservadora. “O jornal era muito direitista.

Até porque o Djalma era ligado aos militares. Foi como ele angariou alguns fundos para

começar o jornal”, diz Zuleika Savignon, que trabalhou na redação de 1985 até 1989. “Então, eu fui


chamada junto com o Graciano Dantas, para dar um toque mais democrático e leve ao jornal. Ele

mantinha o seu editorial assinado que era conservador e nós fazíamos uma outra linha”, lembra

Zuleika. Para Djalma, essa questão era simples: “O jornal não apoiava a oposição que se fazia na

época. Até porque, se apoiasse, não teria como sobreviver, como O Debate não sobreviveu”.

Estrutura e desestruturas

A redação funcionou em vários lugares. Quando o jornal fechou, em 1992, a sede era na César

Hilal, no Largo das Compras.

Muitos jornalistas tiveram passagem relâmpago por sua redação, até porque os salários eram

pagos semanalmente, desqualificando um vínculo empregatício. Segundo Zuleika Savignon,

eram poucos os jornalistas contratados. Dois na redação e mais alguém que cobria a Polícia. No

começo, Djalma Magalhães escrevia praticamente todo o jornal sozinho. O resto era de

colaboradores.

Maria Nilce escrevia sua coluna em seu escritório e mandava o motorista levar. “As pessoas

que trabalhavam lá não tinham certos direitos, como férias e décimo terceiro. Nós da redação

recebíamos tipo free lancer”, explica Zuleika Era notoriamente um jornal muito pobre tecnicamente

e sem recursos. A composição de texto era do tipo caixa, as fotos eram em clichê e o jornal só tinha

uma cor. “Ele era feio. O formato de diagramação era muito provinciano. Não tinha um layout

afinado com a época. Não era nem diagramado, ele era composto à mão”, recorda Álvaro Nazaré,

contratado para mudar, repensar sua composição.

Nessa época, Djalma Magalhães tinha adquirido uma linotipo, uma máquina obsoleta que já

havia sido substituída pela fotocomposição. Mas, para o Jornal da Cidade, foi um avanço.

Maria Nilce tinha o desejo de fazer o jornal em off-set. Sendo a diretora financeira da

publicação, ela conversou com diversos jornalistas para tentar implementar a mudança. “Ou por

bem ou por mal ela botava o dinheiro lá dentro. Principalmente depois que o regime militar acabou,

porque o Djalma ficou sem as rendas que ele tinha”, explica Zuleika. Sendo o dínamo do jornal

em termos financeiros, Maria Nilce fazia cadernos especiais, lançava livros, para angariar fundos

para o jornal. Mas a mudança nunca aconteceu de fato.


Segundo Antônio Moreira, que começou a trabalhar no jornal em 1974, fazendo fotos para o

jornal e para Maria Nilce, o Jornal da Cidade não tinha estrutura. “Não havia sócios. Era um

jornal do Djalma e da Maria Nilce. Vivia de anúncios e assinaturas que a Maria Nilce arranjava, e

dos bons relacionamentos políticos do Djalma. Não entrava nenhum dinheiro além disso”,

afirma Moreira. “Tinha só um carro para fazer tudo: entrega, cobranças, levar material, etc. Não

tinha um carro de reportagem, os jornalistas tinham que se virar. O jornal não tinha uma equipe na

rua, só fazia cobertura em ocasiões especiais. No conteúdo, era um jornal ou fofoqueiro ou de

fofoca política”, continua Moreira.

A falta de estrutura não parava por aí. Tânia Trento e Marilda Rocha, que trabalharam na

seção de Polícia do jornal, contam que só iam à redação para receber. Seus textos eram escritos

em uma salinha de imprensa na Polícia Civil e entregues diretamente na oficina em Santa Cecília,

onde o jornal era impresso, sem revisão no texto. “Não tinha estrutura nenhuma. Não tinha pauteiro.

Ninguém me ligava pedindo nada. O que eu escrevesse era o que saía. Era eu quem

determinava o que ia fazer”, comenta Tânia.

Essa seção ficava na última das oito páginas que possuía o periódico.

Às vezes, ocupava a página inteira, outras, a metade. “Se eu escrevesse duas páginas, davam

duas páginas. Mas eu não fazia isso, porque ganhava muito pouco. Parecia um estágio em

que ninguém tomava conta de você”, diverte-se Tânia. “Nosso salário era a terça parte do salário de

A Tribuna na época. E a gente ainda recebia por semana, ou seja, não tinha vínculos”,

completa Marilda Rocha.

Hilmar de Jesus foi repórter da seção de Polícia no início dos anos 70. “A rotina não era nada

saudável. Devido à dificuldade de repórteres, teve até um período em que fiz uma reportagem

de futebol. Havia dias em que, além de escrever a minha parte, tinha também de datilografar a

coluna de Maria Nilce na máquina Olivetti.

Lembro que até corrigia algumas palavras que ela escrevia errado”, recorda-se Hilmar.

O repórter foi o responsável por um furo memorável no caso Araceli que o jornal deu nos

concorrentes, ainda em seu início.

“Era março de 1972. Recordo-me que cheguei na Chefatura de Polícia por volta das 14 horas.

Como tinha apenas 17 anos de idade, os repórteres de A Gazeta e A Tribuna não me davam im-


portância. Foi quando a mãe de Araceli chegou desesperada para pedir ajuda à Polícia, porque a

filha de nove anos havia desaparecido.

Eu estava aguardando no corredor do segundo andar, onde funcionava o gabinete do chefe da

Polícia, e, percebendo o desespero da mãe, pedi que lhe dessem prioridade na atenção. Ao observar

a foto da menina desaparecida, pedi ao chefe da Polícia para publicá-la no Jornal da Cidade. Sete

dias depois, o corpo de Araceli foi encontrado nas matas do Hospital Infantil”, recorda Hilmar.

O jornal de Maria Nilce

Não é raro, ainda hoje, ouvir o Jornal da Cidade sendo chamado de “o jornal de Maria Nilce”.

Nada mais natural, já que era sua polêmica coluna social que movimentava e sustentava o

periódico, e foi o seu assassinato brusco que marcou definitivamente a história da publicação. Tanto

quanto sua coluna diária, Maria Nilce era contraditória e polêmica: admirada, detestada,

temida, invejada por muitos. “Todo mundo que comprava o Jornal da Cidade, a primeira coisa que

ia ler era a coluna dela. E ali acabava o jornal”, explica Tânia Trento.

Moradora de Fundão dos Índios, uma pequena cidade do interior do Espírito Santo, Maria

Nilce estava noiva quando começou a enviar cartas para o jornalista Djalma Magalhães, de A

Tribuna, em Vitória. Os dois acabaram se casando. Maria Nilce tinha 18 anos e ele, 31. Djalma a

levou para trabalhar no jornal. Ela atuou como colunista social até ser despedida. Djalma seguiu os

passos da mulher e saiu de A Tribuna.

“Enquanto Djalma escrevia para agradar aos militares, Maria Nilce escrevia para fazer a vida

dela”, afirma Zuleika. E, com um estilo cada vez mais agressivo, a coluna de Maria Nilce no novo

jornal logo a tornou conhecida. Ela era constantemente acusada de usar sua coluna para chantagear

os que se recusavam a publicar anúncios. Seus comentários maldosos e preconceituosos geravam

diversas rixas e desafetos, assim como suas reações exageradas nas relações pessoais. Devido a esse

comportamento, passou a ser vista com restrições pelos demais jornalistas e com ressentimento por

membros da sociedade capixaba.

“Era Maria Nilce. Na época, havia dois colunistas sociais: Heraldo Brasil e Maria Nilce.

Depois, ela foi tomando o público e ficou só Maria Nilce, o tempo todo. O jornal era a coluna


dela, fofoqueira o tempo todo”, conta Milson Henriques, que fez algumas crônicas como

colaborador para o jornal. Milson lembra também que ela mandava o jornal de graça para os

escritórios, onde os funcionários o disputavam para ler fofocas dos patrões.

Eram jocosamente mencionadas no “jornal de Maria Nilce”

as roupas de mulheres e os casos amorosos de integrantes da alta sociedade de Vitória. “A

sociedade capixaba era composta de ricos que vieram de baixo, muitos através de

enriquecimento ilícito. Então, eles não tinham o hábito de ser ricos. E, quando faziam festas ou

eventos sociais, cometiam muitos erros, e Maria Nilce criticava isso. Essas pessoas foram ficando

feridas e queriam acabar com o jornal para acabar com essas críticas. Além disso, havia esses

elementos do crime organizado que ela criticava”, afirma Djalma Magalhães.

Leitura obrigatória

Na época, existiam A Gazeta, A Tribuna, O Diário e o Jornal da Cidade. O jornal era lido por

toda a sociedade capixaba. Tinha uma grande repercussão por causa da imprevisível coluna

de Maria Nilce, que, aliás, tinha um público fiel. “Ela era da socie- dade, ia a todos os coquetéis e

escrevia umas notas picantes que a colocavam inclusive na berlinda de vez em quando”,

afirma Tânia. Vendido nas bancas, o jornal também estava disponível em vários locais, como a

Assembléia Legislativa, consultórios e outros pontos “importantes” da cidade. Os órgãos públicos e

o aeroporto também recebiam.

“O jornal era lido pelos inimigos dela – que liam para saber se ela havia falado mal deles – e

pelos assinantes, que tinham de fazer assinatura por livre e espontânea pressão. A venda era

muito pequena”, ironiza Zuleika. Ainda assim, sua tiragem era quase irrisória – até porque papel era

um luxo caro para um jornal de parcos recursos. “Uns diziam que as pessoas assinavam o jornal por

medo de a Maria Nilce atacar. Eu não sei. Porque ela tinha um bom relacionamento com todo

mundo. E ela corria atrás”, contesta Moreira. Segundo ele, o noticiário do jornal era a coluna de

Maria Nilce, com suas uma ou duas páginas diárias. Fora isso, só algum editorial do Djalma e a

seção de Polícia. “Por causa da coluna, o jornal cresceu, mesmo ainda sendo pequeno, e chegou a

ser o segundo mais lido”, afirma Moreira.


A interrupção abrupta

Maria Nilce dos Santos Magalhães foi assassinada a tiros em 5 de julho de 1989, aos 48 anos,

diante da Academia Corpo e Movimento, na Rua Aleixo Neto, Praia do Canto, em Vitória, entre

6h45 e 7h. Ela chegou de carro em companhia de sua filha.

Quando saiu do veículo, um homem apontou uma arma para sua nuca. A arma não disparou.

Ela entrou em um ônibus na parada em frente à academia. O assassino a seguiu e disparou

quatro tiros, dentro do ônibus. Três atingiram Maria Nilce, que chegou morta ao Hospital das

Clínicas.

Várias hipóteses foram cogitadas como causa de sua morte.

Chegou-se a pensar, naquela época, que ela tinha sido assassinada como uma forma de

intimidar o governo Max Mauro, que começava a repreender o crime organizado no Estado. Outra

hipótese derrubada pelas investigações é que ela teria sido assassinada a mando de uma família

tradicional de Vitória, porque fazia chacota da esposa de um dos seus membros. Além das fofocas

que mexiam com a sensibilidade de inúmeras pessoas, houve ameaças da colunista de revelar os

nomes de policiais ligados aos crimes de mando e também ao tráfico de drogas.

Antes de sair do Jornal da Cidade, a jornalista Zuleika Savignon recomendou a Djalma

Magalhães que ele olhasse a coluna de Maria Nilce com mais cuidado. “Eu costumava mudar ou

tirar algumas ofensas que ela fazia. Mesmo sabendo que no outro dia ela iria brigar comigo, já que a

coluna era assinada por ela e ela se garantia. Mesmo assim eu tirava, porque ela expunha muito

a vida particular das pessoas. Eu achava terrível”, conta Zuleika.

As notas cortadas eram sempre repetidas nos dias seguintes pela colunista na tentativa de furar

o bloqueio. “Eu avisei a ele que Maria Nilce poderia morrer porque estava demais. E

aconteceu”, lembra Zuleika.

“De repente, no período em que eu era secretário de Segurança do governo Max Mauro, houve

o assassinato dela. Foi um crime de mando, com todas as características. O crime da Maria Nilce foi

um crime bárbaro e covarde”, conta o coronel Luiz Sérgio Aurich. Para o coronel, Maria Nilce foi

assassinada dentro de uma prepotência do crime no Espírito Santo, que a matou no meio da rua.

“Na época, nós fizemos um jogo de estratégia para colocar a Polícia Federal na apuração do crime,


já que a Polícia do Estado, naquela época, principalmente a Polícia Civil, tinha comprometimento

muito forte com pessoas que figuravam como suspeitos, autores intelectuais ou mandantes do

crime”, explica Aurich. O crime foi apurado pela Polícia Federal. O pro- motor Gilberto Fabiano

Toscano de Mattos elaborou um relatório com base no inquérito da Polícia Federal e disse que o

crime teve como mandante José Alayr Andreatta, que teria contratado seu amigo pessoal, Romualdo

Eustáquio da Luz Faria, conhecido como “Japonês”, para matar Maria Nilce. Eustáquio

chamou para a missão o pistoleiro José Sasso, que convocou o policial César Narcizo da Silva para

executar o crime. Segundo as apurações, foi o próprio Sasso quem disparou os tiros que

mataram Maria Nilce. A arma de César Narcizo, que era o encarregado de matá-la, não funcionou.

“O intermediário do crime era o Andreatta e os mandantes não foram indicados porque, apesar de

ter sido provado que o intermediário participou do pagamento da viagem dos criminosos, ele nunca

confessou a autoria e nunca indicou quem lhe teria pagado para isso. A tese que foi composta e que

justificava o assassinato é de que Maria Nilce teve informações privilegiadas sobre algumas

negociatas aqui do Estado.

E sinalizou que queria publicar no seu jornal”, completa Aurich.

Segundo o coronel, ela estava sendo ameaçada e ficou apavorada, intimidada e não conseguiu

denunciar.

O inquérito comprovou que seu assassinato foi realmente fruto do crime organizado no

Espírito Santo. “Na época, eles diziam que não havia crime organizado, que era invenção da gente.

Agora, ficou provado que nós falávamos a verdade. Existia não só no mundo empresarial, como na

Justiça, no Governo, nas duas Polícias”, afirma Djalma. “Não é fácil, até hoje, lutar contra o

crime organizado, contra o tráfico de drogas, contrabando, fraudes. É difícil porque quem luta não

tem dinheiro e eles têm até demais, para pagar não só quem faz os crimes, mas também para

encobrilos”, indigna-se.

“Era um Espírito Santo diferente do atual. Hoje, um crime como o dela teria outro tipo de

repercussão. Naquela época, na sociedade, não houve muita indignação. A sociedade não teve o

comprometimento emocional que deveria ter tido. Eu acho que, hoje, a sociedade se indignaria mais

com o assassinato dela”, pondera Aurich. Até porque os diversos desafetos de Maria

Nilce procuraram desqualificá-la. Dizia-se que ela traía o marido, que ela era desonesta, que ela


estava extorquindo os outros. “Era uma época terrível. Eram cometidos crimes absurdos. Não

tem só o de Maria Nilce, tem vários”, concorda Djalma.

Apesar de as provas no caso do assassinato de Maria Nilce serem materiais – prenderam José

Sasso, localizaram a arma, recuperaram a toca ninja que ele usava com seus cabelos dentro, fizeram

perícia –, o caso nunca foi a julgamento. “Na época, envolveu-se o nome de um desembargador e

isso nunca mais foi à frente na Justiça. Virou crime insolúvel, mas, na verdade, ele foi solucionado.

Esse processo me parece que é um desses que estão aí nas prateleiras do Poder Judiciário. Em 2009,

ele vai para o espaço. Não é difícil ele estar parado por causa disso”, diz Aurich.

Após o crime, a família se desestruturou. Maria Nilce era uma mulher forte, de personalidade.

Seu marido era uma pessoa mais pacata. “A nossa luta era esta. Foi um erro pelo qual nós

pagamos, mas do qual eu não me arrependo. Ela foi assassinada por causa disso. Ninguém foi

punido pelo crime, porque houve um complô da sociedade, do Governo, da Polícia e da Justiça.

Agora a Scuderie Le Cocq foi fechada. Mas isso custou a vida dela, a minha ruína e a da

minha família. Porque até hoje eu estou pagando”, desabafa Djalma. Após o crime, ele

continuou recebendo ameaças e chegou a ser aconselhado por um membro da organização Scuderie

Detetive Le Cocq a sair da cidade, caso contrário também seria assassinado.

O inevitável fim

O Jornal da Cidade já havia sofrido represálias por suas publicações.

No dia 15 de outubro de 1975, a Polícia Civil apreendeu toda a edição do jornal, a pedido da

Polícia Federal, atendendo a determinação da chefia em Brasília. A solicitação foi feita

pelo governador Elcio Álvares, alegando que a edição do jornal continha “ataques à pessoa do

governador e à sua família”. Djalma contestou a informação, destacando que o jornal trazia um

editorial criticando apenas o jornalista Esdras Leonor, secretário-particular do governador. “O

Djalma sempre foi ligado ao Governo, aos militares. O único relacionamento que ele não teve bem

foi com o governo Élcio Álvares. Era uma briga de Maria Nilce.

Nessa época, o Governo do Estado não dava nenhum dinheiro em publicidade para o Jornal da

Cidade e coagia as empresas a também não darem”, relata Antônio Moreira.


Em 14 de setembro de 1983, uma bomba explodiu na redação.

Maria Nilce culpou Carlos Guilherme Lima, então presidente do Banco do Estado do Espírito

Santo (Banestes), pelo incidente. E ele a acusou de querer se beneficiar do seguro. Os dois se

desentenderam quando ele se negou a colocar publicidade ou fazer assinatura do periódico. Maria

Nilce, então, publicou uma nota no jornal dizendo que o balanço econômico do Banestes havia

sido adulterado para mostrar lucro fictício. Ele acionou o Ministério Público e a colunista foi

obrigada a se retratar.

“Quando Maria Nilce faleceu, tudo acabou de repente. O Djalma só com a política, só com a

parte dele, não segurava o jornal.

A família ficou desestruturada. E eles tiveram que parar com o jornal”, lembra Moreira. A

filha do casal, Milla, tentou escrever uma coluna no jornal, mas não prosseguiu na atividade. A

situação da família ficou insustentável economicamente. Sem anunciantes, com o medo instalado

entre a família e os empregados, o Jornal da Cidade deixou de funcionar. Muito abalado

psicologicamente, Djalma Magalhães passou um tempo fora do Estado, cuidando da saúde.

“Mataram Maria Nilce e fecharam o jornal, porque eu não suportei. Tentaram me matar duas vezes

depois que ela morreu. Não existe mais, acabou tudo. Ficou só a história do jornal”, diz.

Além da morte de Maria Nilce, outro fator foi determinante para a decadência do jornal: sua

defasagem tecnológica. O jornal nunca acompanhou os investimentos dos demais periódicos e sua

inferioridade de impressão se tornava cada vez mais gritante.

Era necessária uma substituição do parque gráfico, e não apenas de um equipamento. Era um

investimento muito alto. “A concorrência tinha avançado demais. O único jeito era se ele

encontrasse um grupo investidor muito poderoso. Aí, já era coisa de milhões de dólares”, afirma o

jornalista Álvaro Nazaré. Mas, com o fim de seu principal, quiçá único atrativo, a coluna de Maria

Nilce, esse tipo de investimento ficou fora de cogitação.

No entanto, antes de fechar definitivamente, o jornal ainda teve sua derradeira aventura: o

fotógrafo Antônio Moreira, ex-funcionário e amigo de Djalma Magalhães, tentou manter o Jornal

da Cidade funcionando. “Eu conversei com o Djalma e ele passou o jornal para mim. Era o Jornal

da Cidade Promoção Publicidade, que era a empresa da Maria Nilce. A Empresa Gráfica O Debate

era outra, devia aos funcionários, tinha até máquina na Justiça como garantia”, conta Moreira.


“Em meados de 1992, eu comecei a preparar o jornal, rodei algumas edições – mesmo sendo

empregado de outro jornal, eu estava de férias. Fazia o jornal semanal, e não mais diário”, lembra o

fotógrafo. Mas, quando o jornal começou a circular, Moreira passou a enfrentar problemas com a

Empresa Gráfica O Debate, responsável pela impressão. “O pessoal da oficina achou que eu ia

ganhar dinheiro com o jornal, que eu ia ficar rico. O Djalma e a Maria Nilce nunca foram ricos. A

Empresa Gráfica O Debate começou a pressionar, porque eles tinham questões

trabalhistas pendentes”, afirma Moreira. Foi feito um acordo, pelo qual a gráfica ficava com a

oficina e prestaria um serviço para o jornal, que pagaria por ele. Mas, pouco tempo depois o acerto

foi desfeito.

“Eles temiam que o jornal fosse feito em off-set. Para evitar mais problemas, eu fechei, desisti.

Nisso, todos ficaram sem receber, eu fiquei sem um meio de comunicação. Eu, Djalma e os

últimos funcionários do Jornal da Cidade ficamos a ver navios, sem nada”, lamenta Moreira.

Para Zuleika Savignon, o Jornal da Cidade teve uma passagem interessante, que marcou

época. “Eu acredito até que ele faça falta hoje. Ela faz falta”, afirma a jornalista. Talvez porque

seja um tipo de jornalismo que não sobreviveu a esta época. Os jornais impressos seguiram um

caminho oposto, consolidando-se como grandes empresas de comunicação ligadas a corporações de

mídia. O pequeno jornal impresso, quase um empreendimento familiar, não tem mais lugar na

sociedade contemporânea. Assim como o colunismo social perdeu bastante de sua influência dentro

da sociedade.

Analisando o jornalismo capixaba em seus 32 anos de carreira, Moreira percebe na diminuição

do número de jornais uma triste realidade. “Antes, existiam o Jornal da Cidade, O Diário, A

Tribuna e A Gazeta. Daquela época para cá, a população do Estado aumentou cerca de 60% e os

jornais diminuíram pela metade”, afirma o jornalista, que ainda está na ativa. “A leitura de jornal no

Estado é muito baixa. Pelo número de jornais e a população, não chega a 5% de leitura”, constata

Moreira, desapontado.

Ainda assim, muitos desafios continuam os mesmos e alguns conselhos parecem ser eternos:

“Se a imprensa não falar nada, se ela se omitir, se ficar encolhida com medo de morrer, ou de

envelhecer como eu envelheci, ninguém vai falar nada. E eu posso morrer amanhã em um asilo,


posso morrer do jeito que eu morrer, se me perguntarem se me arrependo de ter feito o que fiz, eu

não me arrependo. Não é possível você aceitar isso”, conclui Djalma Magalhães.

Maria Nilce: colunismo sem entrelinhas para falar de sociedade...

... cultura ...

... polícia e muito mais


Após o assassinato, novas ameaças de morte rondam o jornal

Referências bibliográficas

BILICH, Jeanne (repórter). Celebridade capixaba? Autêntica e Multitalentosa!

: entrevista. Século Diário, Vitória (ES) 06/07 março 2004.

Disponível em: . Acesso em:

25 set. 2005.

BITTENCOURT, Gabriel. Historiografia capixaba e imprensa no Espírito Santo. Vitória, Edit, 1998. 104p.

GLOCK,Glorinha. O caso de Maria Nilce dos Santos Magalhães. Impunidade, Brasil. Abril 2001. Disponível

em:. Acesso em: 25 set. 2005.

JORNAL DA TARDE. Vinte Prisões em dez dias. Denúncia do MDB 15 out. 1975. Disponível em: <

http://www.citadini.com.br/atuacao/ outros/jt751015.htm>. Acesso em: 25 set. 2005.

LIMA JÚNIOR, Carlos Benevides. Maria Nilce ou o tiro que calou Vitória.

In: Escritos de Vitória – Personalidades de Vitória – 15. Vitória (ES):


Prefeitura de Vitória, 1996.

OLEARI, Oswaldo. Capitão Romão x Capitão Maziero. In: Escritos de Vitória – Imprensa – 17. Vitória(ES):

Prefeitura de Vitória, 1996.

Entrevistas

Marilda Rocha – Repórter da sessão de polícia do Jornal da Cidade, entrevistada no dia 26 de

setembro.

Tânia Trento – repórter da sessão de polícia do Jornal da Cidade, entrevistada no dia 29 de

setembro.

Milson Henriques – Cronista colaborador do Jornal da Cidade, entrevistado no dia 29 de setembro.

Djalma Magalhães – Proprietário do Jornal da Cidade, entrevistado no dia 04 de outubro de 2005.

Luiz Sérgio Aurich – Secretário estadual de Segurança em 1989, entrevistado no dia 06 de outubro de

2005.

Zuleika Savignon – Jornalista do Jornal da Cidade, entrevistada no dia 03 de outubro de 2005.

Álvaro Nazaré – Diagramador do Jornal da Cidade, entrevistado no dia 05 de outubro de 2005.

Hilmar de Jesus – repórter da sessão de polícia do Jornal da Cidade, entrevistado no dia 13 de

outubro de 2005.

Antônio Moreira – Fotógrafo e último proprietário do Jornal da Cidade, entrevistado no dia 16 de

outubro de 2005.


Impressões do Interior:

de Mucurici a Presidente Kennedy

Ananda Bisi, Danilo Bicalho e Melina Mantovani

Buscar o jornalismo impresso no Interior do Estado. Eis uma tarefa que nos proporcionou

descobrir inúmeros jornais que não são facilmente encontrados nas bancas da Grande Vitória.

Cruzar fronteiras dentro do próprio Estado à procura de um jornalismo que não tem sua importância

reconhecida, mesmo que seja de imensurável valor cultural e histórico para o Espírito Santo. Este

foi o nosso principal objetivo: tornar conhecida a história daqueles que fazem jornalismo no Interior

capixaba e contribuem para nossa cultura.

Começamos a vasculhar jornais de diferentes regiões e é impressionante a quantidade de

periódicos distribuídos ou vendidos à população. Jornais alternativos, esporádicos, mensais,

quinzenais, semanais, bissemanais, diários e até bidiários. Encontramos gente disposta a dar a cara a

tapa por uma publicação. Gente disposta a pôr o pé na estrada em busca de público, de

reconhecimento. Cursar a faculdade de Jornalismo para exercer a profissão é quase uma raridade

por aquelas bandas. O que temos são pessoas que querem fazer um jornalismo social, quase

comunitário. Ao mesmo tempo, descobrimos pessoas que fazem do jornalismo um negócio,

um meio de sobrevivência. O mundo é notícia, porém o que acontece ali, nas portas das casas

daqueles que escrevem os jornais, é, geralmente, muito mais relevante para os leitores do Interior.

Identificamos, nesse tema, a necessidade de um aprofundamento da pesquisa. A comunicação

impressa do interior capixaba não possui uma referência bibliográfica à altura do assunto.

Com este trabalho, objetivamos fazer um levantamento dos principais periódicos interioranos,

como iniciativa para futuras pesquisas.

Como metodologia, segmentamos o Estado em três regiões:

Norte, Centro-serrana e Sul. As fontes foram diversas: amigos, moradores das regiões,

profissionais da área, sindicatos, estudantes de Jornalismo, professores e alguns dos veículos. Todos

foram de extrema importância para a realização deste capítulo, na medida em que, gentilmente, nos

cederam informações sobre os periódicos regionais e deram depoimentos sobre a arte de

fazer jornalismo fora da região da Grande Vitória.


Ao analisar o jornalismo do interior do Espírito Santo, percebemos que as regiões

compartilham questões comuns, como influência política, dificuldades financeiras e a falta de

jornalistas profissionais nas redações – temas que serão percebidos no decorrer do capítulo e

discutidos na sua parte final.

Norte: imprensa tardia, muitos jornais

Segundo Bittencourt (1998, p. 75), a imprensa no Norte do Estado surge tardiamente:

“Somente na República, fará a imprensa sua estréia no Espírito Santo. A iniciativa pioneira deve-se

a Fausto de Oliveira, proprietário da Tipografia Progresso e Indús- tria, que, em 15 de agosto de

1891, imprimiu, sob a denominação de O Norte do Espírito Santo, o primeiro hebdomadário a

circular em São Mateus”.

Posteriormente, ainda de acordo com Bittencourt, o então presidente do Estado, Barão de

Monjardim, de quem o redator-chefe do jornal, Graciano dos Santos Neves, era ferrenho

opositor, suspende a circulação de O Norte do Espírito Santo, que só volta a ser publicado em 1893.

Desde esse primeiro jornal, muitos foram os veículos impressos que surgiram naquela região.

Alguns circularam por mais tempo, outros, porém, tiveram vida curta. Atualmente, por meio

desta pesquisa e de listas cedidas pela Superintendência Estadual de Comunicação Social (Secom),

foram relacionados 61 jornais em atividade na região. Com alguns foi possível um maior

contato, entrevistas pessoalmente, troca de e-mails, telefonemas. Já com outros, apesar da

insistência em tentar uma aproximação, pouco conseguimos, de alguns somente o nome.

Dentre esse vasto número de jornais, um tem grande prestígio, sendo conhecido não só na

Região Norte, como também no restante do Estado – talvez pelo fato de ser diário, por não

se contentar em dar as notícias das cidades onde circula ou, quem sabe, por deixar os chamados

“grandes jornais” (A Gazeta e A Tribuna) “comendo poeira”, de acordo com seu diretor geral,

em entrevista aos autores. Trata-se do jornal Tribuna do Cricaré, que tem sede na cidade de São

Mateus.


Em 1969, na cidade de Governador Valadares (MG), Matosinhos Castro Pinto, ex-deputado

que havia pouco tempo tinha sido cassado pelo regime militar, inicia sua vida de jornalista

no periódico Gazeta de Valadares. Posteriormente, em 1976, Matosinhos inaugura seu próprio

jornal: Ponto de Vista, sediado na cidade mineira de Nanuque. É em uma redação onde predomina a

militância política que crescem os irmãos Antônio de Castro Pinto Neto e Márcio José de Castro

Pinto. Seja como atividade empresarial, seja como meio para difundir os ideais de quem

não concordava com a política vigente, o jornal foi a escola de jornalismo desses jovens, local onde

aprenderam na prática todas as etapas da produção de um jornal, desde os assuntos a

serem pautados ao fechamento da publicação e sua distribuição.


Não se contentando apenas com o jornal de Nanuque, a família expande sua atuação para o

jornal Diário do Rio Doce, este com sede em Governador Valadares, também Estado de Minas

Gerais.

Aos 24 anos, Antônio de Castro Pinto Neto, residindo na cidade de São Mateus, decide pôr em

prática os conhecimentos adquiridos na adolescência e cria o Tribuna do Cricaré, que começa a

circular no dia 12 de janeiro de 1984. O jornal já esclarece a sua preocupação em informar sobre

notícias locais ao ter o mesmo nome de um rio que passa pela cidade.

No início, o jornal tinha periodicidade quinzenal, circulando, com mil exemplares, nas mesmas

cidades em que é encontrado atualmente: São Mateus, Pedro Canário, Conceição da Barra,

Pinheiros, Jaguaré, Sooretama, Vila Valério, Nova Venécia, Montanha, Mucurici e Boa Esperança.

Funcionando em sede alugada, era impresso em Minas Gerais, na gráfica da família.

Com uma redação bastante enxuta, eram apenas os irmãos Castro e mais dois funcionários

que, contando com o apoio de eventuais colaboradores, executavam toda a produção, composta de

pautas locais, estaduais, nacionais e até internacionais.

Posteriormente, a publicação tornou-se semanal, depois bissemanal, tri-semanal, e, em 7 de

julho de 1998, passou a circular de terça-feira a sábado, sendo assim considerada um diário

pelo Departamento Nacional de Registro do Comércio.

Durante toda essa mudança de periodicidade e aumento de tiragem (atualmente, 6,5 mil

exemplares diários), segundo seu diretor geral Márcio José de Castro Pinto, o Tribuna do Cricaré

nunca teve sua circulação interrompida.

Segundo os proprietários, desde sua origem, o jornal adota a linha editorial comunitário-

construtivista, sendo ela sua base de sustentação.

Talvez por causa dessa postura editorial, especula-se, o jornal tenha sido perseguido

politicamente, em 1992, por um grupo liderado por Amocim Leite, na época candidato a prefeito da

cidade de São Mateus, e seu ex-vice-prefeito, Walace Batista, já falecido.

Márcio José de Castro Pinto afirma que, naquele ano, houve um processo eleitoral muito

tumultuado em São Mateus. Inicialmente, o Tribunal Superior Eleitoral negou a Amocim Leite

o direito de candidatura, por ele, anteriormente, já ter sido cassado duas vezes por acusação de

corrupção, quando exercia o cargo de prefeito. Porém, quando restavam 30 dias para a


votação, Amocim conseguiu uma liminar que lhe garantiu a candidatura, disputou o pleito e venceu

as eleições. Teve início, então, uma batalha judicial. Ainda de acordo com Márcio, “nas cidades

do interior, as forças políticas normalmente controlam as forças militares e as utilizam a seu serviço

de forma muito mais descarada do que acontece nos grandes centros”.

Márcio conta como o jornal se envolveu nesse caso e, por meio de sua pessoa, foi ameaçado:

“Em 1992, o capitão da Polícia esteve na sede do jornal e pediu que eu saísse da cidade, porque

tinha um grupo político querendo colocar fogo na empresa. Eu reagi contra eles, os denunciei e, no

dia seguinte, estava lá, aguardando os bandidos, e eles não apareceram. Porque nós reagimos,

denunciamos a Justiça, denunciamos à Associação Brasileira de Jornais. Era uma coisa ilegal,

absurdamente ilegal, porque ninguém pode ameaçar a liberdade, o direito à liberdade de imprensa.

E ele achou que ia atemorizar a direção da empresa para poder fazer o capricho daquele grupo

político, mas eles não conseguiram isso. O próprio juiz, na época, interveio, chamou essas pessoas e

as enquadrou”.

Por estar com a saúde debilitada, Amocim Leite não teve condições de responder às acusações.

Em sua residência, disseram apenas que todas as informações que são divulgadas a seu

respeito estão no museu da cidade de São Mateus.

Mais recentemente, no ano de 2002, conforme afirma Márcio de Castro, um ex-prefeito da

cidade, que também foi denunciado por corrupção pelo jornal e estava envolvido nos recentes

escândalos divulgados no Espírito Santo, fez dois comícios na porta do jornal em um intervalo de

cinco dias. Os diretores do Tribuna do Cricaré só conseguiram a proteção da Polícia após acionar

o alto comando, já que, novamente, a força política estava controlando a militar. O diretor geral do

jornal preferiu não citar o nome do acusado por ser uma história muito recente e este ainda estar

respondendo processos judiciais.

Apesar das turbulências, o jornal cresceu, ampliou sua circulação e sua equipe, que atualmente

é composta por 67 funcionários, sendo três deles formados academicamente em Jornalismo.

Entretanto, o diretor geral, Márcio José de Castro Pinto, e o diretor de redação, Antônio de

Castro Pinto Neto, não têm graduação na área.

Utilizam, ainda, o serviço da Agência Estado para as notícias nacionais e internacionais, e,

eventualmente, são contratadas agências especiais. Já para a definição de pautas locais, Márcio


é enfático ao dizer que à população é dada muita liberdade tanto para sugerir pautas, como para

expressar sua opinião: “A Tribuna do Cricaré é o jornal que mais dá espaço ao leitor no Espírito

Santo:

uma página inteira todos os dias. Fazemos isso há 21 anos, tem uns que fazem recentemente. É

um jornalismo de via dupla. E isso faz a diferença. As pessoas são acostumadas a lerem o jornal.

Nós temos uma abertura muito grande com a comunidade, o que faz dela leitora e também

agente propulsora, porque ela é nossa fonte. O jornalismo é focado na comunidade, olho-no-olho,

esse contato com a comunidade te obriga a ser mais transparente”.

Já ao avaliar o jornalismo nacional e internacional, Márcio Pinto prevê uma maior

regionalização dos jornais: “Observamos que no mercado brasileiro, e mesmo no mercado

internacional, há muitos jornais se auto-avaliando, corrigindo alguns rumos e adotando uma postura

mais local, mais para aquilo que está em torno de sua base de circulação. Antigamente, para dizer

que era um grande jornal, as pessoas gostavam de ficar publicando o que estava acontecendo lá em

Israel, lá na Suécia, e esquecendo do rio em que bebem água, do local onde jogam o esgoto de

suas casas. A sociedade moderna, contemporânea, está exigindo dos próprios meios de

comunicação, de modo especial do jornal (impresso), que eles se voltem cada vez mais para sua

comunidade, que percebam os problemas de onde o leitor está inserido”.

Ao se fazer uma análise superficial do jornal, nota-se que predominam as matérias locais e a

utilização de imagens, em sua maioria fotos. Na capa, são utilizadas muitas cores fortes; a manchete

e a fotografia correspondem à mesma matéria, que, majoritariamente, são locais. Pouco maior que o

tradicional tamanho tablóide, o Tribuna do Cricaré possui 10 páginas, sendo uma para coluna

social fixa e uma para classificados – as demais não possuem editorias permanentes. O jornal não

apresenta ousadias de diagramação, mantendo, principalmente na capa, o mesmo formato.

Um outro jornal diário que circula na Região Norte do Espírito Santo é A Notícia, com sede na

cidade de Nova Venécia. Fundado em fevereiro de 1989, o periódico circulou pela primeira vez em

18 de março daquele ano, tendo como diretor José Renato Ferrari, que se mantêm no cargo. A

publicação tinha como objetivo colocar à apreciação dos venecianos e da população vizinha um

novo jornal.


No início, A Notícia circulava apenas aos sábados, com tiragem média de mil exemplares. A

partir de 2001, o jornal passou a ser publicado de terça-feira a sábado, sendo, portanto, considerado

diário.

Para que isso acontecesse, houve uma ligeira reformulação.

A primeira equipe do jornal era formada por quatro pessoas. Atualmente, esse número está em

12 funcionários, que trabalham para que o jornal circule, em maior quantidade, nas cidades de Nova

Venécia, Vila Pavão e Boa Esperança, e, em menor número, nas demais


localidades da região Norte. Há ainda assinaturas nos demais municípios do Espírito Santo e

também outros Estados brasileiros.

Sobrevivendo de assinaturas e publicidades, A Notícia traz anúncios de empresas privadas e

órgãos públicos, dentre eles o Governo do Estado, anunciante de muitos jornais interioranos.

As publicidades, aliás, ocupam grande parte do jornal, estando muito presentes inclusive na

sua primeira página.

Em entrevista por e-mail, José Renato Ferrari, diretor do jornal, afirma que: “Assim como

qualquer outra empresa, o jornal também já passou por situações difíceis, mas não o suficiente para

forçar sua paralisação. Às vezes, reduziu a circulação, mas paralisar de forma definitiva, não”.

O diretor lembra, ainda, que não é fácil disputar com A Tribuna e A Gazeta, mas que A Notícia

tem um grande reconhecimento:

“A Notícia foi citada em diversas ocasiões quando da pesquisa Recall de Marcas, elaborada

pelo Instituto Futura em parceria com A Gazeta, liderando em nível de jornal de interior, na região.

Esse quesito – jornal –, infelizmente, não vem sendo incluído na pesquisa nos últimos anos,

mas, em 1999/2000, A Notícia apareceu com grande influência na região Norte, o que, para

nós, representa a maior conquista”.

No formato tablóide e com oito páginas, o jornal apresenta pouco texto e muita publicidade,

que chega a ocupar quase metade de todas as suas páginas. Algumas matérias são estaduais,

mas predominam notícias locais. Edições especiais, como no aniversário de Nova Venécia, são

publicadas eventualmente. O jornal A Notícia mantém ainda o site www.anoticianv.com.br, que é

de design e conteúdo muito simples.

Portanto, os jornais Tribuna do Cricaré e A Notícia são os únicos periódicos diários com sede

no Norte do Espírito Santo levantados nesta pesquisa. Há, ainda, publicações bissemanais, das quais

apuramos o jornal O Pioneiro e o Correio do Estado, ambos com sede em Linhares.

O Pioneiro, dentre os apurados, é o mais antigo da região, tendo como data da primeira edição

25 de dezembro de 1967. Na época, um de seus fundadores e atual proprietário e colunista social,

Deni Almeida da Conceição, era o correspondente do jornal O Diário (ver capítulo VI deste livro)

no Norte do Estado. As notícias que escrevia para o informativo da Capital tinham uma grande

repercussão na cidade de Linhares. A população do município, então, questionava-o por que não


fundava um jornal na cidade. Com isso, Almeida, juntamente com Alvacy Perin – ambos

trabalhavam na época com contabilidade –, resolveu fundar O Pioneiro.


Apesar de o nome do jornal sugerir que ele tenha sido o primeiro da cidade, Deni Almeida

esclarece, em entrevista aos autores, que antes dele houve outros, porém O Pioneiro é o único a se

manter em circulação, já que os primeiros resumiram-se a, no máximo, seis edições.

Com grande dificuldade, logo depois de fundado, O Pioneiro circulava quinzenalmente. Como

na época o método de impressão utilizado era a tipografia e as gráficas locais não tinham

tradição na confecção de periódicos, as matérias eram produzidas em Linhares e enviadas a

Cachoeiro de Itapemirim para impressão, o que retardava o processo e, conseqüentemente, a

circulação.

Com isso, surge a necessidade de o próprio jornal adquirir uma gráfica, o que é feito em menos

de um ano de existência do veículo, passo importantíssimo para sua continuação.

Imediatamente após a aquisição da gráfica, O Pioneiro torna-se semanal, tendo como redatores

os proprietários, repórteres e colaboradores.

Era uma equipe formada por muitos funcionários, já que só a gráfica empregava cerca de 10

pessoas na composição das letras para o processo tipográfico.

Cerca de três anos após sua fundação, o jornal passa a ser bissemanal, como prossegue até os

dias atuais, não tendo parado de circular nenhuma vez em seus 37 anos de publicação.

Sempre funcionando em sede própria, O Pioneiro continua tendo como cidade base de

circulação o município de Linhares, sendo encontrado também, em menor quantidade, em São

Mateus, Aracruz e Colatina.

Por buscar a isenção política, Deni Almeida afirma que o jornal nunca foi incomodado por

políticos: “A política nunca nos atrapalhou, porque nós nunca deixamos que ela penetrasse

na empresa. Nosso negócio é com o comércio, com a indústria, com o anunciante de um modo

geral. Isso não quer dizer que não tenhamos anúncios políticos. Nós vendemos um espaço e

eles compram, mas não temos compromisso político”.

Apesar de dar boas-vindas aos jornais recém-surgidos na cidade, o proprietário e diretor geral

do jornal reclama da concorrência por publicidade, dizendo que muitos anunciantes não sabem

diferenciar a publicidade veiculada em um jornal que está há 37 anos no mercado daquela veiculada

em um jornal que está há pouco tempo e tem uma tiragem bem menor que a de O Pioneiro,

atualmente fixada em 4 mil exemplares (3,5 mil a mais que na época de sua fundação). Afirma,


ainda, que, com certeza, há público para todos os jornais da cidade, inclusive para aqueles que estão

surgindo, desde que tenham como projeto formar e informar.

Em um grupo de 11 funcionários, o periódico não possui nenhum jornalista em sua equipe,

recebendo apenas o respaldo da filha do diretor, que agora se tornou ainda mais difícil, já que

esta mudou-se recentemente para o exterior.

De acordo com o diretor Deni Almeida, O Pioneiro se preocupa com o que acontece na cidade

de Linhares, é mais um veículo com a intenção de complementar a grande mídia, e não de substituí-

la. Para isso, afirma que o periódico é aberto à comunidade:

“Aceitamos muito os e-mails que os leitores nos enviam, de sugestão de pauta, acontecimentos

da comunidade. Temos uma coluna que é ‘O Pioneiro nos Bairros’, em que o presidente da

associação e a comunidade têm total liberdade. Todos os domingos é focalizado um bairro. Essa

coluna já tem mais de 10 anos. Nela, o presidente da associação é quem reclama, quem elogia, faz

suas reivindicações”.

Deni Almeida reclama, ainda, da falta de valor das autoridades para com o jornalismo local no

interior do Estado: “A função do jornalismo impresso no Interior do Espírito Santo é

muito importante, talvez mais importante do que a grande imprensa, porque o que acontece na

comunidade local só é visto nos jor- nais locais. Às vezes, as próprias autoridades não dão [para

o jornalismo local] o valor necessário. Acredito que, no futuro, os jornais locais terão ainda mais

importância que a grande imprensa, porque a tendência é que as pessoas queiram saber o que

está acontecendo em volta delas”.

Publicado às quintas-feiras e aos domingos, O Pioneiro circula com 12 páginas, em formato

tablóide, contendo apenas uma editoria fixa (Polícia) e diversas colunas: duas sociais, uma de

televisão, uma de política e uma com notas de assuntos variados, como economia e política.

Bem mais recente que O Pioneiro, o jornal Correio do Estado também é bissemanal e tem

sede em Linhares. Fundado em 25 de janeiro de 2005, por José Vicente Mendes e Carlos

Madureira, tem a intenção de suprir a necessidade que o Norte do Estado apresenta em relação a um

órgão de imprensa que atenda pelo menos 10 municípios, conforme declarou Mendes, em

entrevista por e-mail.


A periodicidade, nos dois primeiros meses de existência, era quinzenal, passando a semanal e,

depois de mais dois meses, a bissemanal, circulando às quartas-feiras e aos sábados (dia anterior ao

que circula seu concorrente direto, O Pioneiro).

Para circular nos municípios de Linhares, Colatina, São Mateus, Governador Lindenberg, Rio

Bananal e Sooretama, o Correio do Estado tem tiragem de 3 mil exemplares e seis funcionários,

dentre eles o jornalista João Vicente Mendes.

Sem sede própria, o jornal começou a circular gratuitamente, passando, posteriormente, a ser

vendido. Como grande parte dos jornais do Interior do Estado, enfrenta constantemente

dificuldades financeiras.


Contendo 12 páginas, quatro delas coloridas, o jornal apresenta editorias fixas, como Geral,

Cidade e Sociais, e algumas esporádicas, por exemplo Estado, Negócios e Polícia. Apresenta capa

muito colorida, muitas fotos e diagramação com poucos brancos.

Na região Norte, é possível encontrar também publicações semanais, dentre as quais, nesta

pesquisa, foram localizados Folha do Litoral, Folha do Norte, Folha do Estado, Nova Geração e O

Colatinista.

A Folha do Litoral é sediada em Aracruz, onde foi fundada por Danilo Salvadeo, no dia 18 de

abril de 1993. Circula às sextasfeiras, com 15 mil exemplares, nas cidades de Aracruz,

Linhares, Ibiraçu, João Neiva, Sooretama, Fundão e Vitória. O editor responsável pelo jornal,

Agnelo Netto, diferentemente de muitos dos jornais do Interior, tem registro de jornalista.


Após 34 anos sem circular, o jornal Folha do Norte, de Colatina, voltou às ruas em 1990. A

maior parte de sua tiragem de 3 mil exemplares é distribuída gratuitamente para os alunos do

Centro Universitário do Espírito Santo (Unesc), faculdade vinculada ao jornal. Apesar da ligação

com a instituição de ensino, Bento Tadeu Cuquetto, seu editor, garante que o jornal não atende

somente os cursos. É um jornal informativo, que busca a neutralidade e foge ao sensacionalismo.

Fundado em fevereiro de 1952, pelo então deputado Oswaldo Zanello, tinha, na época, uma

linha editorial muito forte, combatendo os “maus valores e o comunismo”, considerados por alguns

a grande preocupação daqueles tempos. Por motivo desconhecido, o jornal parou de circular no ano

de 1956, só retomando seu funcionamento em 1989. Atualmente, a Folha do Norte segue o formato

tablóide e contém 10 páginas.

No dia 26 de julho de 1986, na cidade de Nova Venécia, teve origem o jornal Folha do Estado,

cujo diretor é Idaulio Bonomo.

Em Colatina, no dia 05 de julho de 1975, Jair Rodrigues Oliveira fundou o jornal Nova

Geração, que circula principalmente nas cidades de Colatina, Baixo Guandu e São Roque do

Canaã. Seu proprietário, além do jornal, mantém na cidade uma rádio com o mesmo nome,

concentrando dois tipos de mídia.

Também com sede em Colatina, o jornal O Colatinista circula, além da cidade onde é sediado,

em Vitória, Santa Teresa, Pancas, São Domingos do Norte, São Roque do Canaã, Marilândia, São

Gabriel da Palha, Baixo Guandu, Itaguaçu e Itarana. Caracteriza- se por apresentar um jornalismo

opinativo e de forte apelo editorial. Enviamos um e-mail para sua redação e as respostas do diretor,

apesar de não se referirem às perguntas feitas, são elucidativas quanto à situação do jornalismo no

interior do Espírito Santo. O e-mail enviado foi:

Bom dia!

Sou aluna do 6 º período do curso de

Comunicação Social/Jornalismo da Ufes. Minha turma,

tendo como orientador o professor José Antônio Martinuzzo,

está escrevendo um livro sobre o jornalismo impresso

capixaba, visando a enriquecer o material bibliográfico que

trata do Jornalismo no Espírito Santo e, consequentemente, o

conhecimento dos profissionais que atuam nessa área.


A resposta, assinada pelo diretor do jornal, foi:

Coube ao meu grupo o capítulo sobre Jornalismo Impresso no

Interior do ES.

Por isso, estamos fazendo um levantamento dos jornais do

interior do Estado.

Gostaria, então, de contar com a colaboração do

responsável por esse jornal. Para isso, faz-se necessário que

responda as seguintes questões:

- Há quanto tempo existe o jornal?

- Qual a periodicidade do jornal? Ela é regular ou varia?

- Qual a tiragem?

- Quantos funcionários possui?

- Há alguém formado academicamente em Jornalismo na

equipe?

- O jornal é vendido ou gratuito?

Aguardo ansiosa a resposta deste e-mail, confiante na

contribuição que podem dar a nosso livro.

Desde já agradeço a atenção dispensada.

Minha filha, vou resumir para você:

O jornalismo no interior do Espírito Santo tem dois lados,

duas faces ou duas qualquer coisa que você queira conceituar.

Tem o jornalismo feito com independência, e que acaba

perseguido pelo poder público local e às vezes até regional,

pois se reveste de idealismo, já que não vendo, troco,

empresto minha opinião pelas verbas públicas, e tem o

jornalismo que senta no colo dos mesmos que perseguem os

idealistas.

Aqueles que emitem opinião independente, nunca entram no

bolo publicitário do poder público, que, aliás, sou contra até

que exista. Os impostos são para atender as necessidades

básicas da população, e não para pagar publicidade de

governos, geralmente incompetentes.

Que façam divulgação com seus recursos, ou de seus partidos.

Quando o governo é competente, não necessita

de publicidade.

Para justificar as verbas de publicidade, deveriam aprová-las,

mas destinando ao mandatário, 50% do valor, e à oposição, os

outros 50%, pois assim dispensariam a imprensa de denunciar

os mal feitos públicos, já que a oposição teria recursos para o

fim.


Você já viu governo dizer que errou numa obra, num serviço?

Eles só mostram o que acham que fizeram bem feito.

Você já viu governo mostrar o muro que caiu, duas semanas

após concluído?Só viu mostra-lo logo após sua conclusão,

não?

O dia que você entrar no mercado de trabalho, você vai

entender isso.

Hermeval Carlos Zanoni

Colatina – ES

Diversos outros periódicos foram descobertos. Porém, pouco ou nada se sabe a respeito deles.

Muitos têm periodicidade irregular, há os que estão circulando há pouco tempo e outros

de identidade desconhecida.

Região Serrana: preservação da cultura regional

Dificilmente os grandes jornais conseguem ir além dos estereótipos e registrar a dinâmica

social de cada região. Ao buscar abranger todo o Espírito Santo, por exemplo, torna-se inviável o

aprofundamento da cobertura dos fatos sociais de cada cidade.

Mais próximos da população de suas respectivas regiões, os jornais interioranos conseguem

aprofundar-se nas relações sociais, no cotidiano de seus leitores. Os recortes da realidade

feitos pelos jornais locais contam com uma maior riqueza de detalhes, apresentam um caráter

menos superficial, até mesmo pelo fato de tais veículos estarem inseridos de fato na realidade que

buscam retratar.

Fundado em agosto de 1991 pela jornalista Maria Auxiliadora Gonçalves (Lilia) e pelo

agrônomo José Onofre Pereira, o jornal Folha da Terra, de Venda Nova do Imigrante,

almeja justamente essa aproximação com a realidade do público local.

Lilia, diretora do jornal, define da seguinte forma o perfil de sua publicação: “Procuramos

focar em nossa identidade, na construção da cidadania local, preservando a identidade cultural

da região. Não é necessário que façamos uma cobertura estadual, isto já tem quem faça”.

O trecho do editorial da edição nº 536 retrata a preocupação do jornal com o fortalecimento da

identidade cultural da região:


Todas as pessoas se alimentam, se relacionam,

habitam...morrem. O que as torna diferentes são os ritos na

prática do que é comum entre os povos. Damos a isto o nome

de identidade cultural. Isto um povo não pode perder nunca.

No máximo pode adaptar- se às novas necessidades dos

tempos modernos.

A preservação da cultura e da história é um abraço entre os

semelhantes para se protegerem da insanidade do mundo.

Quem somos? Como não nos perdermos nos apelos

constantes na selvageria da lógica do lucro?

A constante mudança do mundo, agora sob o signo da

globalização, pede a regionalização. Senão, tudo fica igual. É

impossível remar contra a maré do que impõe o mercado

mundial. No contraponto, vem a valorização do diferente.

Precisamos é lutar pela harmonia das diferenças e dar um não

à hegemonia imposta pela indústria cultural.

A identificação do público com o jornal parece ser um dos grandes trunfos para o sucesso do

mesmo, que também circula em Afonso Cláudio, Brejetuba, Conceição do Castelo e Pedra Azul,

cidades vizinhas a Venda Nova do Imigrante.

Ao longo de seus 14 anos, o jornal deixou de ser mensal (em agosto de 1997), passou a

circular semanalmente e hoje já existe demanda para reduzir ainda mais o intervalo entre as edições.

Seu projeto gráfico sofreu algumas mudanças, mas manteve elementos que identificam o veículo. O

mesmo aconteceu com seu projeto editorial, que, aos poucos, foi se tornando mais abrangente,

tratando de temas cada vez mais diversificados, mantendo-se, entretanto, o caráter local

da abordagem.

Atualmente, a publicação circula com uma tiragem de mil exemplares, dos quais cerca de 500

são destinados a assinantes (alguns deles no exterior) e o restante às vendas avulsas em bancas

e algumas cortesias. Números expressivos para um veículo situado em uma cidade com cerca de 17

mil habitantes, principalmente ao considerar o número de leitores por exemplar. Segundo

Lilia, cerca de 70% dos leitores não compram ou assinam o jornal, que circula sempre às sextas-

feiras.

Assim como acontece nos grandes jornais, a receita proveniente da venda avulsa e das

assinaturas não é suficiente para garantir o funcionamento do jornal. A publicidade tornase, então, a

principal fonte de recursos, predominando, no caso da publicação vendanovense, os anúncios de


pequenas e médias empresas locais e de órgãos públicos da região. Em conseqüência de uma

adaptação de mercado, considerando os poucos anunciantes locais e a inexistência de uma cultura

de marketing e publicidade, o jornal sempre foi em preto e branco, exceto nas edições especiais da

Festa da Polenta, feiras e Festa de Emancipação de Venda Nova. O fato de não haver um grande

anunciante, como constata Lilia, dá ao jornal maior independência, pois a perda de um ou outro

anunciante não terá grande impacto para as finanças do veículo.

Uma das marcas da publicação é a edição especial que circula durante a Festa da Polenta,

tradicional evento de manifestação da cultura italiana. Segundo Lilia, o Folha da Terra é o pioneiro

em registros editoriais da festa. Durante essa semana, o jornal publica duas edições, a semanal e a

especial. A edição da última Festa da Polenta, que circulou no dia 12 de outubro de 2005, abordou o

tema “Álbum de família”, fazendo uma referência às parteiras (homenageadas nessa edição da

festa), sem as quais muitos daqueles álbuns estariam incompletos.


Também vale destacar a edição número 501, de 12 de fevereiro de 2005, que noticiou a morte

de Padre Cleto Caliman, descrito pelo jornal como “o homem mais reverenciado de Venda Nova”.

A edição conta a história de Padre Cleto e traduz o sentimento do povo vendanovense com a

sua morte. Confira parte do editorial:

A edição desta semana do Jornal Folha da Terra não estava

nos planos. Ao receber a notícia da morte de padre Cleto no

domingo, sabia que seria impossível deixar de circular com

reportagens especiais. Então nos desdobramos: parte da

equipe retornando das férias, feriados e outros senões.

Superamos todos.

Em nome do grande respeito, da grande amizade, de tudo que

significa este homem.


O jornal apresenta uma estrutura dificilmente encontrada no interior do Espírito Santo. Possui

sede própria, inaugurada em agosto de 2003, onde, além da redação e da administração do

jornal, funciona uma livraria, um café e em breve serão ministrados cursos para a comunidade.

A equipe é formada por oito pessoas, duas delas graduadas em Comunicação Social. Com

exceção da impressão, toda a linha de produção do jornal é feita por esses oito funcionários, desde

a apuração das matérias, até a diagramação e a distribuição. Além do jornal, a equipe mantém um

site de notícias, que disponibiliza o conteúdo no jornal impresso na internet.

Mas nem sempre foi assim. Há alguns anos, a publicação, a montagem do jornal e a revelação

das fotos eram feitas na capital, Vitória, a 103km de Venda Nova. A chegada das

tecnologias digitais de informação e comunicação (TICs) à cidade possibilitou a digitalização da

produção do jornal, desde a diagramação até a fotografia, proporcionando maior dinamismo em tal

processo. Atualmente, o jornal também tem algumas de suas matérias veiculadas na internet através

do site www.

folhadaterra.com.br.

Fatos curiosos marcam alguns desses jornais do interior do Espírito Santo. Em Iúna, município

com cerca de 30 mil habitantes, aos pés da Serra do Caparaó, por exemplo, está sediado o jornal A

Notícia, veículo semanal que ficou famoso por ser o primeiro a noticiar o aparecimento do “chupa-

cabras”, espécie de monstro que bebia o sangue dos animais e que foi notícia nos grandes veículos

de comunicação do País.

Ainda em Iúna, há o jornal Comunicatto, fundado em 1º de janeiro de 1994, que circula

quinzenalmente nos municípios de Iúna, Irupi, Ibatiba, Ibitirama, Divino de São Lourenço, Dores

do Rio Preto, Muniz Freire, Alegre, Jerônimo Monteiro (ES) e Laginha (MG), com uma tiragem de

3000 exemplares.

O projeto editorial do jornal aponta para a proximidade com a realidade da população da

região em que o periódico circula.

Fatos de abrangência estadual ou nacional são publicados apenas quando têm alguma relação

com a área de alcance da publicação.

A preocupação do jornal Comunicatto em se manter próximo à realidade de seus leitores

pode ser percebida no direcionamento dado ao conteúdo publicado em suas editorias e cadernos que


circulam permanentemente. Editorias como Política e Economia, que, geralmente, concentram

temas de abrangência nacional ou estadual nos jornais de grande circulação, são abordadas de modo

a interagir com a realidade do leitor, conferindo ao jornal um perfil diferenciado, como afirma o

diretor do jornal, Erasmo Rocha Gonçalves, em entrevista concedida, via correio eletrônico, aos

autores: “Não podemos dizer que o Comunicatto faça competição com os grandes veículos da

Capital, já que os assuntos abordados não são convergentes, ou o são em algumas ocasiões. Quando

isto acontece, o nosso jornal procura detalhar um assunto mais generalizado pela grande imprensa,

no que diz respeito a assuntos que interessem à região, alcançando uma quantidade maior de leitores

do que os grandes veículos, dentro da região, porque um pequeno percentual lê A Gazeta ou A

Tribuna, enquanto muitas pessoas que não lêem esses jornais são leitores do Comunicatto”.


Pouco mais ao norte de Iúna, na cidade de Afonso Cláudio, está sediado o jornal O Resgate.

Fundada em maio de 1993, a publicação circula mensalmente nas cidades de Afonso Cláudio,

Brejetuba, Laranja da Terra, Venda Nova do Imigrante, Conceição do Castelo, Ibatiba, Pedra Azul,

Marechal Floriano e Cariacica.

Um pouco mais próximo à Capital, em Domingos Martins, encontra- se o jornal O Braço Sul.

Fundado em outubro de 1990, o jornal tem sede própria e circula mensalmente em

Domingos Martins, Marechal Floriano, Venda Nova do Imigrante, Vitória (através de mala direta) e

Vila Velha (através de mala direta), com uma tiragem de 5 mil exemplares.


A fonte de recursos do jornal é, exclusivamente, a venda de espaços para publicidade, uma vez

que ele é distribuído gratuitamente.

Segundo a diretora do jornal, Sandra Cola, o veículo é produzido pela empresa Pauta 6

Comunicação e todos os profissionais envolvidos em sua produção possuem curso superior

em Jornalismo. A linha editorial do jornal é voltada para questões pertinentes à realidade da região

em que circula. Por isso, não concorre com os veículos de abrangência estadual.


A força do jornalismo impresso no Sul capixaba

Começamos por Cachoeiro de Itapemirim, cidade com mais de 200 mil habitantes.

Potencialmente importante para o Estado, a “Princesinha do Sul”, palco de uma vasta história,

tornou-se uma cidade com grande expressão cultural, econômica e política no Espírito Santo. Por

isso, é mais que normal o grande número de veículos de comunicação que existem na localidade.

Historicamente, Cachoeiro contou com jornais importantes como O Clarim, O Arauto, A Época,

Sete Dias, O Momento, Folha da Cidade, A Vanguarda, Jornal Capixaba, entre outros, de acordo

com Ormando Moraes em A Imprensa de Ontem e de Hoje, Escritos de Vitória (p. 122).

Alguns desses jornais existem até hoje. Outros simplesmente desapareceram com o tempo.

Porém, há pessoas na região que ainda se preocupam em transmitir informações e expressar-se por

meio do jornalismo impresso. Como declarou Jules Renard, “Escrever é uma maneira de falar sem

ser interrompido”. E é essa filosofia que faz com que muitos persistam nessa profissão.

Como explicado na introdução deste capítulo, a intenção é contar a história de pessoas que

contribuem para a criação de uma identidade cultural na imprensa capixaba. E, nesse sentido, toda

informação é válida. Essa importância cultural, da qual uma minoria tem ciência, pode ser

entendida no trecho escrito por Ormando Moraes (1996, p.122) sobre a cidade de Cachoeiro

de Itapemirim, nos “tempos difíceis” do jornalismo impresso:

Em Cachoeiro, além de outros, havia naquela época o

Correio do Sul, fundado por Armando Braga e tendo Newton

Braga como seu redator-Chefe. O jornal era composto à mão

(catando milho, como se dizia), pelo saudoso tipógrafo Helio

Ramos, e impresso em primitiva impressora manual, que

exigia enorme esforço físico, mas, mesmo assim, saía

com regularidade, duas vezes por semana.

Todo esse processo, hoje, pode ser substituído por equipamentos tecnológicos de última

geração. Implícitas, porém, nessa “força física” do passado, estavam pessoas que faziam um

jornalismo corajoso, persistente, apaixonante. É fato que nem todos eram tão românticos quanto à

profissão, mas a herança que deixaram é fonte de inspiração para muitos. Quando não lembrados


pela destreza, são lembrados pelas dificuldades que, assim como naquela época existiam, hoje

afligem a maioria das pessoas que sustentam um periódico – principalmente, no interior do Estado.

O jornal Espírito Santo de Fato, de Cachoeiro de Itapemirim, já enfrentou muitas dificuldades

no início do seu processo de criação.

O jornal tem como editor e diretor Wagner dos Santos, que adquiriu experiência em uma outra

empresa, uma outra publicação de Cachoeiro. Saiu dedecidido a lançar o próprio jornal, que

existe há três anos. E, como é algo muito comum para iniciantes no jornalismo impresso, as crises

financeiras foram um obstáculo.

As dificuldades enfrentadas foram muitas e Wagner, ao ser entrevistado pelos autores, explica

por quê: “A gente é muito vulnerável, porque a nossa base comercial é pequena. A única coisa que a

gente tem é o próprio jornal. Se a gente vender, tem, se não vender, é complicado. No começo, é

muito mais difícil, mas chega certo momento em que você vai criando credibilidade, você vai

conseguindo fechar alguns contratos”. Credibilidade, definitivamente, torna-se a palavra-chave

nessa profissão.

O jornal foi fundado no dia 14 de março de 2003 e, de lá para cá, a popularidade só tem

aumentado. Era gratuito e os próprios funcionários o distribuíam. Joana Campos, que trabalha

atualmente na área comercial do jornal, em entrevista aos autores, lembra seu início no Espírito

Santo de Fato: “No começo, a gente não tinha como pagar a mão-de-obra, aí a gente montava e

distribuía nas ruas, nós mesmos. Quando eu entrei no Fato, ele já tinha seis meses e lembro que a

gente saia na rua distribuindo aquele montão de jornal”.

Os próprios anunciantes e assinantes financiavam o Espírito Santo de Fato e o fazem até hoje.

Atualmente, o jornal possui 800 assinantes e, além disso, é distribuído em mala direta, chegando até

a capital, Vitória.

A sede ainda é alugada. Mas, mesmo sendo o ambiente de trabalho quase familiar, decorado

com móveis domésticos e com pessoas bem à vontade, é impossível esquecer que é

daqueles cômodos que surge a notícia a ser entregue para grande parte do Sul do Estado. Desde o

início, o jornal possuía uma tiragem de 3 mil exemplares. Hoje, porém, já pensam em aumentar esse

número para abranger mais cidades. O Espírito Santo de Fato atinge os municípios de Mimoso do


Sul, Presidente Kennedy, Itaoca, Vargem Alta, Marataízes, Itapemirim, Muqui e Cachoeiro de

Itapemirim.

O jornal é diário, circulando de terça-feira a domingo.

Outro jornal diário de Cachoeiro de Itapemirim, muito popular na região Sul, é a Folha do

Espírito Santo. Conhecida pelas polêmi- cas levantadas por suas matérias, a Folha surgiu a partir do

jornal Folha de Cachoeiro, com o objetivo de alcançar uma visão macrorregional e tirar o

“bairrismo” existente, até então, na linha editorial, podendo, assim, expandir-se para toda a região

Sul. Com o passar do tempo e reformulações na sua periodicidade, a Folha do Espírito Santo se

tornou um jornal diário.

No dia 1° de março de 2006, o jornal Folha do Espírito Santo completará um ano. Na época de

seu surgimento, os funcionários, remanescentes de um jornal semanário, praticamente não tinham

confiança de que poderiam manter um jornal diário. Em entrevista aos autores, o proprietário

Jackson Rangel explica o porquê: “Alegavam que faltaria notícia e que comercialmente não seria

viável”. Transformar a Folha em um jornal diário foi uma atitude pioneira. O tempo passou e as

pessoas se convenceram de que realmente era possível existir um periódico distribuído diariamente

na região.

Uma outra situação pioneira provocada pela Folha foi manter um jornal bi-diário durante dois

anos. Rangel explica como se deu o processo: “Nós possuíamos dois editores, fechávamos até as

13h um exemplar, com oito páginas, e um outro matutino, com vinte páginas. Então, o que ocorria:

Às 18h, os assinantes da Folha já estariam a par de tudo o que tivesse acontecido até as 13h. Então,

quando os outros jornais iam dar a notícia, mesmo sendo A Gazeta ou A Tribuna, a Folha já estava

circulando”. O Jornal foi bi-diário durante dois anos, e isto há quatro anos. Foi extinto porque, na

época, houve uma alta do dólar e, como todo o material do jornal era baseado na moeda americana,

ele teve de ser paralisado, pois se tornou inviável comercialmente e até estrategicamente, segundo

Jackson. O jornal era destinado aos assinantes, porém também era distribuído gratuitamente em

alguns pontos estratégicos da cidade.

Uma curiosidade quanto à tiragem do jornal: ela é sempre re- gulada de acordo com a

manchete principal, podendo chegar a 4 mil exemplares. Segundo Jackson Rangel e a maioria dos

donos de jornais impressos, o que mais vende são dois assuntos:


denúncia contra políticos e assuntos relativos à Polícia. “A Folha já denunciou

desembargador, juiz, políticos, empresários, bispo, padre, pastor, tudo que você possa imaginar”,

afirma Jackson Rangel, que segue a seguinte filosofia: “Eu perco um amigo, mas não perco a

notícia”.

Quando a Folha passou de jornal semanário para diário, possuía 10 funcionários. Hoje, são

cerca de 35. Já chegaram a possuir 50 pessoas trabalhando, mas, após um tempo, concluíram

que não eram necessárias tantas pessoas. O próprio Jackson complementa:

“Chegamos à conclusão de que a gente podia fazer um trabalho da mesma qualidade, nas

mesmas condições, com um quadro menor de funcionários”. O número de funcionários

que produzem o jornalismo impresso é muito reduzido no interior do Estado. Não somente pelo

tamanho dos municípios, o que, teoricamente, faria com que as notícias fossem facilmente

apuradas, mas principalmente pela situação econômica. Em alguns casos, no entanto, o bom estado


das máquinas e a quantidade das mesmas (quando existem), também diminuem o número

de trabalhadores, como em qualquer empresa.

O jornal Folha do ES foi bissemanário, semanário, depois se tornou diário, depois bidiário, e,

atualmente, é somente diário.

Passaram por lá muitos profissionais formados e não-formados na área de Comunicação e,

dessa maneira, foi ultrapassando o tempo. O jornal existe há 10 anos e é o único com sede e

maquinário próprio em Cachoeiro de Itapemirim. Circula em praticamente toda a Região Sul do

Estado, porém o foco maior ainda se encontra nas notícias de Cachoeiro.

Sobre a linha editorial, Jackson Rangel afirma: “A linha editorial da Folha do Espírito Santo é

praticamente investigativa. Na linha editorial, na parte opinativa, ela é parcial, ela é

investigativa, toma um posicionamento e por isso também inovou no aspecto de impactar as

pessoas. É um jornal considerado polêmico e por ser investigativo faz muitas denúncias. Ao mesmo

tempo em que é muito respeitado, também é muito visado no sentido de perseguição. Eu diria que a

Folha provoca amor e ódio nas pessoas, os dois sentimentos. O que eu ouço demasiadamente

e constantemente são ameaças particulares, de morte, por telefone, por recado. Mas, se quem deseja

fazer jornalismo não tiver certo destemor, não consegue fazer. Em Cachoeiro, as pessoas estavam

acostumadas a ter, antes da Folha, um jornalismo de registro, apenas de registro. O que seria o

jornalismo de registro?

É um jornalismo que não é questionador, não é investigativo.

Dessa maneira, as autoridades, no primeiro momento, rejeitaram o jornal, mas depois tiveram

que se acostumar com esse tipo de jornalismo que existe hoje”.

Mudando o foco para outra cidade, histórias interessantes fazem parte do surgimento do jornal

Notícias e Negócios, de Piúma.

A história do jornal se confunde com a história do capixaba João Carmo. João morou 13 anos

em São Paulo e lá fez o curso de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de

São Paulo. Porém, segundo o próprio João, em entrevista dada por e-mail aos autores, ele foi

pressionado pela violência e pelo “terror” causado pela Aids, que o fez perder seu melhor amigo.

Dessa maneira, desencantado com a cidade, decidiu voltar para o Espírito Santo, sua casa.


Chegou a Piúma no dia 15 de junho de 1990. Conseguiu arrancar na Istoé, onde disse ter

trabalhado quando residia em São Paulo, um contrato de correspondente no Espírito Santo.

Fazia duas ou três matérias por mês. Isso proporcionou o tempo que lhe faltava para andar pelas

praias de moto, como lembra. “Foi um período muito bom”. Para se manter, sua casa em São

Paulo ficava alugada.

Tem início, então, a campanha para a eleição de governador, na qual Albuíno Azeredo era

candidato. João fez matérias para a Istoé (“Primeiro candidato a governador negro na história do

ES”), fotografou Albuíno nos morros, com galos de briga na mão, entrevistou mãe, fãs, etc. As

matérias saíram e Albuíno venceu. João explica como surgiu a idéia de se fazer um jornal. “Em

Piúma, quem facilitou as entrevistas para mim foi Valter Potratz, aliado de Albuíno. Com a vitória

do governador, Valter me pressionou:


‘Vamos abrir um jornal’”. Então, foi criado um conselho que reuniu as melhores cabeças

pensantes da cidade e assim o jornal começou a ser feito, em julho de 1991. Dirigiu o Notícias e

Negócios até fevereiro de 2005, período em que o jornal foi publicado ininterruptamente.

O jornal, então, começa a circular em Piúma, vila de pescadores com 18 mil habitantes, situada

no litoral Sul do Espírito Santo, que possui, como um dos atrativos, um mar de águas calmas.

João Carmo diz que foi tachado de doido e louco, inúmeras vezes, por manter um jornal numa

cidade com um número tão pequeno de habitantes: “Estou em Piúma por opção de vida”.

Situações um tanto “diferentes” já fizeram parte do jornal Notícias e Negócios. Na primeira

edição, para atrair os leitores, João conta que sortearam entre eles um bezerro, doado pelo

pecuarista Simão Bassul. O nome do bezerro era “Revistinha”, que foi devidamente comido, em um

churrasco em família, pela ganhadora.

Por isso, João brinca ao caracterizar a história do N&N como sendo um tanto “antropofágica”.

Na segunda edição, em agosto de 1991, descobriram que não possuíam nenhuma manchete

para a capa. Bolaram, então, uma estória mirabolante, para prender os leitores. “Íamos contar

uma estória de uma visita de ETs à Ilha do Gambá, famosa em Piúma, por se tratar de uma espécie

de ‘motel’ para os garotos nativos. A estória incluía um diálogo louco entre o ET e um surfista

famoso, um adolescente chamado Alanzinho. Mas, no último momento, um crime bárbaro

aconteceu, a manchete de que tanto precisávamos surgiu e a estória da visita do ET foi esquecida”.

Hoje, o jornal circula nos municípios de Piúma, Anchieta, Iconha, Iriri, Alfredo Chaves, Rio

Novo do Sul, Itaipava e Itaoca.

Tem tiragem de 5 mil exemplares e circula mensalmente nessas cidades. A diretora atual do

jornal, Mônica Siqueira, em entrevista por e-mail, diz ser gratificante trabalhar no Interior: “É

um trabalho pesado, mas gratificante. O fato de a periodicidade ser mensal ajuda a apurar melhor as

notícias e dar continuidade a elas. Temos mais tempo. Temos tempo também de criar um

relacionamento com os ‘fornecedores’ de notícias, o que nos garante informações privilegiadas”.

Já em Muqui, município com quase 13 mil habitantes e que possui a maior concentração de

art-noveau do Estado, encontra-se um outro jornal popular. É nessa pacata cidade que se

encontra um personagem famoso: João Bicalho, redator-chefe do Jornal de Muqui e vice-presidente

da Associação dos Jornais do Interior do Espírito Santo (ADJORI).


O Jornal de Muqui foi fundado em 15 de março de 1967.

Segundo João Bicalho, em entrevista dada aos autores por telefone, a idéia partiu dele mesmo,

pois tinha vontade de trabalhar em um jornal. Dessa forma, Bicalho tomou frente da construção do

periódico. A produção das notícias, o ato de fotografar e a diagramação eram de sua

responsabilidade. Ou seja, Bicalho é uma espécie de “faz tudo” dentro do Jornal de Muqui. Porém,

nunca se queixou disso, afirmando que escreve o jornal para ele mesmo.

A entrega dos exemplares também fica por sua conta. Mensalmente, 3 mil exemplares são

distribuídos em todo o Sul do Estado e em outras regiões, como Vitória. Todos pelas mãos de João

Bicalho.

Os assinantes e o espaço dado à publicidade ajudam o jornal a se manter. O Jornal de Muqui é

muito respeitado na região e por isso, atualmente, já conta com cerca de 400 assinantes. Isto se deve

à preocupação do redator em abordar os problemas da região de forma a atingir todos os tipos de

público. João não é formado em Jornalismo, é uma pessoa simples que admira seus conterrâneos e

que gosta do que faz. Assim como na maior parte do Interior, o jornalismo funciona impulsionado

por pessoas que têm força de vontade, disposição e um forte sentimento pelo que escolheram fazer.


O jornalismo impresso também se encontra com bastante força na cidade de Alegre, situada na

região do Caparaó. Com uma população de mais de 32 mil habitantes, Alegre, também

conhecida como “Cidade Jardim”, possui diversos atrativos, como rios, cachoeiras, clima frio,

montanhas e é reconhecida nacionalmente pelo Festival de Música que acontece todo ano na região.

É nessa localidade que se encontram o jornal A Palavra e o jornal O Alegrense.

O Alegrense, jornal oficial da Prefeitura, tem o merecido espaço, devido à sua importância

histórica para o jornalismo. Mesmo atendendo a interesses políticos, o jornal também aborda

assuntos de cunho geral, destinados à população local. O fator principal seria o tempo de sua

existência. O Alegrense foi fundado por José Batista do Nascimento, no dia 1° de janeiro de 1911,

ou seja, está em vigor há 94 anos. No ano de 1912, aconteceu a incorporação de O Alegrense ao

patrimônio da Prefeitura.

Almyr Carvalho, que redigiu por quase três décadas o jornal, afirma, em entrevista dada por e-

mail aos autores, que, “embora com algum lapso na circulação, é um jornal importantíssimo”.

Primeiro, como ele mesmo salientou, é preciso ter uma noção histórica para que se

compreenda melhor a importância do jornal da Prefeitura de Alegre. Explica que, no início do

século passado, as comunicações entre as cidades e, principalmente, com a Capital, eram muito

precárias.

Então, as cidades do Interior como Alegre, Guaçuí, São José do Calçado e Colatina, criavam

seus jornais oficiais, que, além de divulgar decretos, leis, atas das câmaras, editais do juízo, faziam

cobertura de fatos importantes da cidade: sociais, administrativos etc.


Almyr confirma sua admiração pelo jornal O Alegrense: “Alegre, hoje estagnada, já foi nas

décadas de 10 e 20 do século passado o município mais próspero do Estado depois da Capital.

Tinha 48 mil habitantes, era o que tinha maior número de alunos matriculados, produzia e

comercializava de tudo, principalmente café, que era exportado por meio da Estrada de Ferro (quase

que o único meio de comunicação existente).

Por isso, além de necessário para divulgar atos oficiais, o jornal era uma prova de cultura, de

desenvolvimento. E, justamente pela sua história, nem que seja em museu, seu acervo deve ser

preservado, mesmo com ônus para a Prefeitura. Defendo, como nunca, o meu concorrente e

opositor. Concorrente em termos, já que ele nada cobra nem faz anúncios”.


O Alegrense era impresso em tipografia plana. Almyr dá mais detalhes: “Se não me engano a

data, em 1927 a Prefeitura de Alegre adquiriu, na Alemanha, uma impressora e uns tipos (aqueles

colocados letra a letra, conforme é visto nos filmes de faroeste), para imprimir o seu próprio jornal.

Também confeccionava talões, fichas, etc. A impressora e a tipografia, embora desativadas, ainda

existem. Atualmente, entretanto, o jornal O Alegrense é impresso em gráfica moderna (A

Gazeta), em cores e redigido por jornalistas de fora, profissionais”.

Porém, existem as críticas à linha editorial do jornal, por parte do ex-redator: “Em vez de

registrar fatos e ações oficiais, o prefeito se utiliza dele para fazer promoção pessoal e de seus

secretários, o que é proibido por lei a um jornal oficial, mantido por dinheiro do contribuinte.

Entretanto, sou um dos defensores da permanência de O Alegrense pelo que ele representa de valor

histórico e informativo da vida alegrense”.

Almyr Carvalho também deu início a outro jornal. A história do jornal A Palavra, também do

município de Alegre, inicia-se quando um advogado local, Alceu Silveira, convida Almyr para criar

um jornal independente, que participasse da vida da cidade e não descuidasse do panorama estadual

e federal: “Não havia como competir com televisões e jornais diários. Disse a Alceu que meu caso

era escrever. Não gostava nem tinha talento para administração. Ele, então, ficou com a

responsabilidade de arranjar anúncios e eu com a parte da redação e tudo o mais. Em pouco tempo,

contudo, Alceu ‘esfriou’ e eu tive que assumir tudo”.

O jornal foi fundado em 15 de agosto de 1997, funcionando ininterruptamente desde então.

Almyr diz que, desde a fundação até hoje, o jornal é composto por ele, pelo fotógrafo e pelos

colaboradores, que nada recebem por seus textos. Segundo Carvalho, são profissionais

realizados em outras atividades, mas de ótimo conteúdo intelectual. “Eles escrevem por idealismo e

para manter contato com seus conterrâneos.

Tudo de graça. Outro detalhe: ninguém tem curso de Jornalismo”. Porém, Almyr e Alvimar

(um dos colaboradores) têm registro como jornalistas no Ministério do Trabalho, com todos os

direitos inerentes aos diplomados.

Sobre os colaboradores, Almyr salienta o fato de serem muito profissionais: “Temos

colaboradores graciosos, a exemplo da economista Ângela Penalva, professora de pós-graduação da

UERJ, que, evidentemente, escreve sobre economia nacional e mundial;


Osmar Oliveira, advogado, ex-Superintendente da Portocel, que escreve também uma coluna

sobre política estadual; e Alvimar Rodrigues, que tem uma página sobre variedades,

denominada ‘Sopa de Letras’. Há, ainda, colaborações esporádicas de outras pessoas, poetas,

cronistas, de Vitória, Rio de Janeiro e Alegre. Até o imortal da Academia Brasileira de Letras,

Carlos Heitor Conny, no lançamento do jornal, fez uma crônica de saudação”.

Almyr explica como é fazer um jornalzinho de Interior: “A gente é tudo. A coisa funciona

assim: eu sou repórter, redator, diretor comercial (cuido dos anúncios). Tenho um rapaz que

fotografa para mim. Depois desse material digitado eu o remeto para o diagramador (muito bom) e

o acompanho no trabalho. Concluída essa fase, mando todo o material, em CD, pelo Correio, para a

gráfica, que fica em Petrópolis (RJ), por questão de preço e qualidade. Depois, no dia seguinte,

recebo os exemplares via ônibus. Este é o processo”.

O jornal nunca teve uma sede própria. Funciona na sala da resi dência de Almyr e não é

vendido em bancas, mas por assinatura.

Eis o sistema de financiamento do veículo: “Um comissionado procura as pessoas e faz as

assinaturas, anual ou semestral. Há, ainda, os anúncios comerciais, a publicação de editais, avisos

etc., que ajudam a cobrir os gastos. Ninguém banca. Nem autoridades públicas nem políticos.

Vendo, às vezes, espaço político. Temos apenas bons anunciantes, como a Aracruz e a Faculdade de

Filosofia de Alegre, que mantêm uma página em toda edição. Isto cobre as despesas de impressão,

frete e impostos, que são muitas, já que meu jornal, apesar da pobreza, é uma microempresa,

legalizada, podendo dar nota fiscal e tudo o mais. Inclusive fazer pesquisa”

O jornal é um mensário com uma tiragem de 2 mil exemplares.

Circula, basicamente, em Alegre, mas, também, em todos os municípios da periferia, assim

como em Vitória, Rio de Janeiro e Brasília. Nessas capitais, principalmente, junto a alegrenses

que moram fora ou em setores públicos: Assembléias Legislativas, Câmara Federal, Senado,

Prefeituras, Tribunal de Contas etc. A situação praticamente não mudou desde a sua fundação.

“Nosso plano era tirá-lo quinzenalmente e a cores, ter um escritório próprio. Mas, por falta de

recursos (já que não nos atrelamos a políticos), não pudemos fazê-lo”


Ao falar sobre elogios e críticas, Almyr Carvalho conta um episódio que traduz a questão da

relação com os poderes públicos:

“Embora as críticas sejam quase sempre justas, elas são, geralmente, mal aceitas pelos poderes

públicos. Todos gostam de elogio. Num governo anterior, por exemplo, o prefeito era casado com

minha sobrinha e meu afilhado de casamento. Ele entrou numa ‘mutreta’. Quis entrevistá-lo para

explicação. Ele se recusou a receber o jornal, dizendo que éramos seus inimigos.

Daí comecei a pegar pesado. Ele, então, ameaçou me agredir fisicamente e prometeu até me

matar se continuasse a criticá-lo.

Continuei e estou vivo. E consegui derrotá-lo na eleição seguinte.

Mais um corrupto que foi para o brejo”.

Todas essas histórias vieram de apenas alguns dos vários jornais impressos existentes no Sul

do Estado. Os relatos tiveram a finalidade de apontar características comuns em cada um

desses periódicos. Na maioria dos outros jornais, essas características são semelhantes. Lutas,

dificuldades, ameaças, alegrias, satisfações, decepções, resistência, persistência. Jornalistas,

formados ou não, com seus veículos, mesmo que não percebam, já fazem história.

Em síntese, podemos ter uma idéia de como algumas dessas pessoas pensam sua profissão por

meio das palavras de Almyr Carvalho: “O jornal, para mim, não é visto como uma empresa.

Embora tenha excelente qualidade, ele é um hobby, uma forma de participar da vida da minha

cidade e do meu Estado. Idealismo puro, algo muito comum na profissão quando nela ingressei”.


O jornalismo reinventado

Fazer jornalismo no Interior, em alguns casos, significa reinventar a profissão. A sensibilidade

do jornalista para compreender a cultura regional e sua dinâmica social e, assim, conquistar

a confiança dos leitores, torna-se fator fundamental para o desenvolvimento de um veículo de

comunicação local.

O menor grau de complexidade das relações sociais proporciona uma interação entre leitores e

autores dificilmente encontrada nos grandes jornais. Essa proximidade é um dos principais atrativos

para o público leitor, que se enxerga e se identifica nas páginas do jornal de sua cidade.

O estreitamento dessas relações, contudo, pode ser prejudicial à produção jornalística. É

comum encontrarmos veículos influenciados ou persuadidos pelos poderes locais, tanto

política quanto financeiramente. Todavia, há aqueles que resistem e colocam sua paixão pelo

jornalismo acima das ameaças e, apesar das dificuldades, buscam fazê-lo da forma mais ética

e transparente possível.

Não se submeter aos interesses de grupos com grande influência política e financeira pode

resultar em dificuldades orçamentárias.

A publicidade, principal fonte de recursos dos veículos de comunicação como um todo, nas

pequenas cidades do Interior capixaba é, em sua maioria, proveniente de anúncios de órgãos oficiais

(prefeituras, Governo do Estado etc.) ou de pequenas empresas. Mesmo nas cidades de porte médio,

como Cachoeiro de Itapemirim, São Mateus, Colatina e Linhares, os principais anunciantes

particulares são empresas locais. A escassez de fonte de financiamento pode tornar o veículo

dependente de seus anunciantes. Mesmo não sendo uma característica exclusiva dos jornais do

Interior, tal dependência, até mesmo pela proximidade com o público, torna-se mais incisiva nas

pequenas cidades.

O financiamento é, sem dúvida, um dos principais complicadores para esses jornais de

pequeno e médio porte. Muitos não conseguem manter uma periodicidade regular e outros tantos

não circulam por muito tempo. São poucos os casos em que os jornais obtêm sucesso enquanto


empresas, conseguindo, por meio de sua própria receita, investir em infra-estrutura, funcionários ou

equipamentos.

Outro complicador para a produção de jornais no interior do Espírito Santo é a ausência de

uma formação acadêmica que atenda às especificidades da práxis jornalística nessas regiões.

O curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Faculdade Unilinhares,

situada em Linhares, por exemplo, tem ênfase em assessoria de imprensa e não apresenta um

currículo direcionado para as demandas dos jornais interioranos.

Os cursos de Comunicação Social / Jornalismo do Interior restringem- se às cidades de

Cachoeiro de Itapemirim e Linhares.

Recentemente implantados, esses cursos podem, potencialmente, colaborar para o

desenvolvimento do jornalismo regional, seja formando novos profissionais, seja capacitando

aqueles que já exercem a profissão, porém sem formação acadêmica. Dentre os estudantes de

Jornalismo das faculdades de Linhares e Cachoeiro de Itapemirim, há alguns estagiando nos

veículos locais.

Dentre os alunos de Jornalismo da Unilinhares, encontramse vários que já trabalham na área,

seja com radialismo, jornalismo televisivo ou impresso. Há, inclusive, proprietário de jornal

impresso fazendo o curso. Porém, a grande maioria dos estudantes ainda não exerce a profissão.

Quando questionados se pretendem trabalhar na imprensa local, as opiniões são divergentes: alguns

dizem não ter interesse em trabalhar no interior do Estado, por acreditarem que o jornalismo

nessas cidades é ruim, muito influenciado pelas forças políticas e econômicas e difícil de ser

mudado; já outros vêem a possibilidade de, após formados, trabalharem em veículos de maior porte

em grandes centros para, depois de adquirirem prática, voltarem para suas cidades e melhorarem a

qualidade do jornalismo lá produzido.

A freqüente ausência de jornalistas com registro profissional nas publicações regionais é um

tema polêmico e que divide opiniões. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por exemplo,

defende a obrigatoriedade do registro profissional para que se exerça a profissão.

Algumas entidades que defendem a democratização da comunicação, como a Executiva

Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (Enecos), questionam tal obrigatoriedade sob

o argumento de ser este um fator cerceador do direito à produção de comunicação.


A existência de veículos regionais, além de contribuir para a diversificação do conteúdo,

também cumpre um importante papel para a preservação da cultura local diante do fenômeno

da globalização e do imperialismo cultural.

Erros ou circunstâncias?

Durante as pesquisas para a elaboração deste capítulo sobre os jornais do interior do Estado,

registraram-se algumas questões que não poderíamos deixar de relatar. Apeguemo-nos aos

formatos e conteúdos dos jornais, que apresentam, em alguns casos, certos “desvios”.

Iniciamos o trabalho com as nossas referências de jornalismo impresso feito na Grande Vitória

e ensinado na Universidade. A comparação é inevitável, mas, ao conhecermos as reais condições de

trabalho nos pequenos municípios capixabas, pudemos perceber a complexidade do assunto.

A precariedade pode nos fazer relevar o fato de os jornais apresentarem elementos que fogem

às normas e técnicas do jornalismo impresso tradicional. Num primeiro momento e visualmente,

essas discrepâncias podem incomodar, ainda mais para quem tem conhecimento da gramática

narrativa e estética do jornalismo impresso. Mas, no cotidiano das cidades onde circulam tais

publicações, essas diferenças não são contundentes o bastante para que se registrem estranhezas.

Apesar de um jornalismo mal-cuidado poder representar um certo descaso com a inteligência

alheia, a maior relevância é dada ao conteúdo.

No entanto, entra em cena uma outra questão: para aqueles proprietários que têm ciência da

falta de pessoal especializado (jornalistas formados academicamente) e de equipamentos e

elementos suficientes para a finalização do jornal, fica a questão do desrespeito com o leitor que dá

credibilidade a um veículo que não se preocupa em reparar erros primários, seja na construção da

notícia, seja na publicação de imagens e propagandas.

A seguir, reunimos impressões acerca do material analisado.

Não pretendemos fazer julgamentos, apenas evidenciar algumas marcas do jornalismo

praticado no Interior, para além do afinco, da persistência e da prestação de um serviço essencial à

cidadania:

1) Erros gramaticais foram encontrados em alguns jornais.


Mesmo não tendo como adivinhar as condições na quais se encontrava o autor, incomodamo-

nos com a publicação de textos sem revisão eficaz

2) Outro fato que chamou a atenção foi a utilização excessiva de cores diferentes nas capas dos

jornais. Visual e esteticamente, essa mistura de cores pode não ajudar no processo comunicativo.

variações.

O jornal Tribuna do Cricaré, por exemplo, utiliza na capa, em média, oito cores e suas

3) Alguns projetos gráficos são feitos de forma arcaica, não pelo estilo do jornal, mas,

claramente, pela falta de senso estético.

Outros utilizam linguagem ultrapassada.

4) O apoio a partidos políticos não é permitido pela ética jornalística.

No entanto, percebemos o excesso de matérias sobre alguns políticos capixabas. Os

proprietários dos jornais pesquisados não assumiram nenhum tipo de “apoio” por parte do

Governo, por exemplo, o que explicaria tamanha parcialidade nas manchetes de alguns deles. O

jornal Folha do Espírito Santo, de Cachoeiro de Itapemirim, afirma que toma posições, é

parcial, mas nega que tenha “apoio” de partidos políticos.

5) O sensacionalismo vende e todos sabem disso. Eis a questão: qual é o limite para que não se

fira a dignidade humana?


6) Outro tipo de jornal que vende muito é aquele recheado de colunas sociais. O colunismo é

recorrente nos periódicos de todo o País, é verdade, mas, convenhamos, jornal não é apenas coluna

social.


Jornais em circulação no Espírito Santo

Com base na pesquisa desenvolvida para a produção deste capítulo e por meio de listas

cedidas pela Superintendência Estadual de Comunicação Social, constatamos que, atualmente,

em todo o interior do Espírito Santo, de acordo com os municípios de origem, circulam os seguintes

jornais, no total de 87:


MUNICÍPIOS JORNAIS

Afonso Cláudio

Água Doce do Norte

Alegre

Anchieta

Aracruz

Baixo Guandu

Barra de São Francisco

Boa Esperança

Bom Jesus do Norte

Cachoeiro de Itapemirim

O Resgate

Diário Popular

Folha de Alegre

O Alegrense

A Palavra

Terceiro Milênio

Folha de Aracruz

Folha do Litoral

O Regional

A Gazeta do Vale

Folha Guandense

O Regional

O Impacto

O Trovão

Alternativo

Folha do Campo

Gazeta do Norte

O Recado

Gazeta de Bom Jesus do Norte

O Brado

O Diário

A Boca

Tribuna do Povo

Sete Dias


Castelo

Colatina

Conceição da Barrra

Domingos Martins

Ecoporanga

Itaguaçu

Iúna

Linhares

Espírito Santo de Fato

Folha do Espírito Santo

Folha de Castelo

A Folha dos Municípios

Canal Direto

Folha do Norte

Jornal da Indústria e Comércio

Nova Geração

O Imigrante

O Colatinista

Vale do Itaúnas

O Braço Sul

Folha de Ecoporanga

Guia do Norte

O Regional

Primeira Página

A Notícia

Comunicatto

Correio do Estado

El Shaddai

Folha de Linhares

Notícias do Norte

O Jornal

O Pioneiro


Marataízes

Montanha

Muqui

Nova Venécia

Pedro Canário

Pinheiros

Piúma

Nova Venécia

O Popular

Terra da Gente

Terral

Nova Fase

O Litoral

Diário Popular

Gazeta Popular

Jornal de Muqui

A Notícia

Folha do Estado

Norte Sul

O Cidadão

O Estadão

O Momento

Norte-Sul

Correio Capixaba

Fala Povo

Norte Notícias O Guia

O Ponto

Projeção

As Cabral Rezende

Hora Aghá

Notícias e Negócios

A Notícia

Folha do Estado


Pedro Canário

Pinheiros

Piúma

Santa Teresa

São Gabriel da Palha

São José do Calçado

São Mateus

Norte Sul

O Cidadão

O Estadão

O Momento

Norte-Sul

Correio Capixaba

Fala Povo

Norte Notícias O Guia

O Ponto

Projeção

As Cabral Rezende

Hora Aghá

Notícias e Negócios

Santa Teresa

Tribuna do Canaã

A Palha

O Expresso

São Gabriel

Cidade Aberta

A Imprensa

Jornal do Norte

O Classificadão

Tribuna do Cricaré


Venda Nova do Imigrante

Vila Pavão

Folha da Terra

A Voz do Norte

Expresso Norte

Tribuna do Pavão


Referências bibliográficas

BIGIO, Marilza. As cidades e suas gentes, Iúna, capital do café: uma história de lutas, sonhos e

conquistas. Revista Século. Disponível em:

. Acesso em 06 out. 2005.

BITTENCOURT, Gabriel. Historiografia capixaba & imprensa no Espírito Santo. Vitória:

Edit, 1998.

CIDADES e Microrregiões. Disponível em Acesso em set. e out.

2005.

ELE aprendeu a fazer... Fazendo! Disponível em Acesso em set. 2005.

MORAES, Ormando. A Imprensa de Ontem e de Hoje. Escritos de Vitória.

Vitória: Edit 1996. p122.

Entrevistas

BICALHO, João. Jornal de Muqui. 2005. Entrevista concedida a Melina Viana Mantovani. 27 set.

2005.

CAMPOS, Joana. Jornal ES de Fato. 2005. Entrevista concedida a Melina Viana Mantovani, 01 out.

2005.

CARMO, João. Jornal Notícias e Negócios. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por

em 05 de out.2005.

CARVALHO, Almyr. Jornal A Palavra e O Alegrense. [mensagem pessoal].

Mensagem recebida por em 08 de out. 2005.

COLA, Sandra Wernersbach. Jornal O Braço Sul. [mensagem pessoal]

Mensagem recebida por em 09 out.2005.

CONCEIÇÃO, Deni Almeida da. Jornal O Pioneiro. 2005. Entrevista concedida a Ananda

Barcelos Bisi, Linhares, 01 out. 2005.


CUQUETTO, Bento Tadeu. Jornal Folha do Norte. 2005. Entrevista concedida por telefone a

Ananda Barcelos Bisi, 06 out. 2005.

FERRARI, José Renato. A Notícia [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por

em 04 out. 2005.

GONÇALVES, Erasmo Rocha. Comunicatto. [mensagem pessoal].

Mensagem recebida por em 17 out.2005.

GONÇALVES, Maria Auxiliadora. Jornal Folha da Terra. 2005. Entrevista concedida a Danilo

Bicalho, Venda Nova do Imigrante, 07 out.2005.

MENDES, José Vicente. Resposta de questionário [mensagem pessoal].

Mensagem recebida por em 29 set.2005.

MENDES, José Vicente. Re: pesquisa [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por

em 20 set. 2005.

MIGNONE, Maurício. Jornal O Mirante. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por

em 11 de set.

2005.

PINTO, Márcio de Castro. Jornal Tribuna do Cricaré. 2005. Entrevista concedida a Ananda

Barcelos Bisi e Melina Viana Mantovani, Vitória, 23 set. 2005.

RANGEL, Jackson. Jornal Folha do ES. 2005. Entrevista cedida à Melina Viana Mantovani, 01 out.

2005.

SANTOS, Wagner. Jornal Espírito Santo de Fato. 2005. Entrevista cedida à Melina Viana

Mantovani, 01 out. 2005.

SIQUEIRA, Mônica. Jornal Notícias e Negócios. [mensagem pessoal].

Mensagem recebida por em 13 de out. 2005.

ZANONI, Hermeval Carlos. Re: Livro [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por

em 03 out. 2005.


Empastelou!

Do porquê deste capítulo

Jornalismo Alternativo:

da década de 40 aos dias atuais

Carlos Calenti Trindade, Karina Moura,

Luciana Silvestre, Renata Murari e Vitor Bourguignon

Já que este livro se propõe a contemplar a produção observada no Estado nas últimas décadas

dentro do campo do jornalismo impresso, destacando a importância dessa produção junto à

sociedade capixaba, compreendemos não haver nada mais justo e coerente que incluir como objeto

de nossa apuração, ao lado dos grandes veículos já inclusos, aqueles que seguem justamente na mão

oposta à lógica em que se funda a grande imprensa (os mass media) e que, malgrado não alcancem

a mesma repercussão, não raro exercem uma influência ainda maior sobre o público restrito a que se

destinam. Referimo-nos, evidentemente, aos jornais alternativos, que, como todos nós

sabemos, gozam de ampla representatividade social face ao público inscrito em seu raio de

influência. E, entendendo ser este o principal critério para definição de nossa “pauta”, queremos

crer que não faz sentido descartarmos ou simplesmente ignorarmos essa modalidade de

comunicação em nosso trabalho de pesquisa, ainda que admitindo as dificuldades imanentes a esse

tema, quer pela escassez de material documentado, quer pela própria abrangência que lhe é própria.

Reconhecemos, igualmente, dada toda essa abrangência, que é impossível encampar em um

capítulo todas as informações que o assunto exigiria ou mereceria, no tempo exíguo de apuração

que nos compete. Este capítulo, é bem verdade, está condenado a ficar incompleto ou insuficiente, o

que, porém – ao menos assim pensamos –, não impede que apresente qualidade se,

conscientes dessas limitações, definirmos claramente nosso campo de apuração, e se, dentro daquilo

que nos propusemos a apurar, conseguirmos escapar à superficialidade.


Mais do que encerrar-se em si, este capítulo deve servir como incentivo, como ponto de

partida para uma investigação mais apurada sobre essa história que se nos foi apresentando

levemente ao longo do prazo que tivemos para desvendá-la – o qual, se é certo que foi curto, foi,

ainda assim, suficiente para inferirmos o quão rica ela pode se mostrar.

Método

Reunimos algumas das experiências que entendemos ser as mais importantes ou relevantes ao

longo da história da imprensa capixaba, dentro do campo do jornalismo alternativo. Para

isso, achamos por bem seguir uma linha cronológica, que, ainda que alguns entendam não ser a

mais apropriada (poderíamos, por exemplo, ter dividido o capítulo por modalidades dessa

imprensa alternativa), foi a que entendemos ser a mais adequada para uma exposição histórica, já

que, por muitas vezes, essas várias modalidades se confundem, inseridas que estão em uma

mesma conjuntura.

Concluímos que, mais interessante que esmiuçar as especificidades de cada publicação, seria

analisarmos sob o ponto de vista histórico o desenvolvimento da imprensa alternativa no

Estado, desde o seu tímido alvorecer junto com a imprensa capixaba, na primeira metade do século,

até os dias atuais, portanto contextualizando os vários momentos dessa “evolução” segundo a

perspectiva sócio-político-econômico-cultural que então vivia o País – e, particularmente, o Estado

–, discutindo como a conjuntura vivida pelo Espírito Santo em cada momento demarcado

repercutiu diretamente na produção alternativa de então.

Evidentemente, algumas publicações se impõem e não poderíamos deixar de analisá-las mais

detidamente. Assim, elegemos como carros-chefes alguns jornais que tiveram maior

expressividade em suas respectivas épocas, até mesmo com vistas a termos uma compreensão

global do que foi a imprensa alternativa em cada um desses períodos, partindo da análise específica

dessas publicações.

Teremos, assim, no período que antecede a ditadura militar, uma análise concentrada no jornal

Folha Capixaba, que pode ser compreendido como único veículo de relevância no cenário

alternativo capixaba durante o período mencionado. Em seguida, no primeiro ciclo da ditadura


militar (que aqui estamos tomando como as décadas de 60 e 70), vamos nos debruçar com

maior ênfase no jornal Posição, que, apesar de sua curta duração, foi extremamente representativo

para a luta social contra o regime, sendo, seguramente, o marco principal de resistência da

imprensa capixaba à repressão dos militares.

Na seqüência, naquilo que entendemos como o segundo ciclo da ditadura militar (de 78 até o

fim oficial da ditadura), a tarefa fica um pouco mais complexa, em função da notável explosão dos

chamados jornais alternativos entre os movimentos sociais (entenda-se populares, sindicais,

religiosos) que então se consolidavam, e que vai acompanhar todo o processo de reabertura política

do País. Aqui, optamos por dar um destaque um pouco maior ao boletim Ferramenta, produzido, à

época, pela Pastoral Operária de Vitória – ligada à Arquidiocese –, por entendermos que este reúne

e sintetiza todas as principais características que ora caracterizavam esse tipo de publicação.

Por fim, trazemos essa discussão para a contemporaneidade, em que vamos perceber, à

primeira vista, um certo arrefecimento dessa imprensa de caráter alternativo. Na ausência de um

grande expoente, um jornal que seja emblemático do período, pretendemos dedicar esse capítulo

exatamente a uma reflexão crítica acerca desse possível “refluxo” e, admitindo que ele tenha

acontecido, quais os fatores que o motivaram. Por fim, tencionamos avaliar a atual situação da

imprensa alternativa capixaba, diante da conformação midiática global que hoje se estende para o

Estado.

Afinal, nesses tempos de globalização (leia-se monopólio e massificação), há espaço para um

jornalismo genuinamente alternativo, que de fato justifique a expressão? Em caso afirmativo, onde

estão esses espaços? Atualmente, onde se insere o “alternativo”, onde podemos identificá-lo?

Mas vamos começar pelo começo. Você, leitor atento (que Machado nos dê licença), já deve

ter notado que estamos aqui a falar sobre o “alternativo”, a lhe fazer reiteradas alusões, como

se fosse algo consensual, sem termos mostrado uma preocupação em definirmo-lo mais

precisamente. Em verdade, longe de ser “ponto passivo”, a definição de “alternativo” suscita um

intenso debate conceitual, quer na academia, quer nas instâncias em que se dá sua produção.

De modo que, antes de nos aventurarmos a fazer qualquer aná- lise crítica ou exposição da

história de um jornal, cuidemos de dar sua definição – ou melhor, a definição que nós lhe


estamos conferindo, o recorte que fizemos sobre esse conceito fluido e subjetivo que é o de

“alternativo”.

O que é esse “jornalismo alternativo”? Que jornal pode se arrogar essa alcunha? Quais são as

características do “alternativo”?

O que define um jornal como “alternativo”? O que estamos a chamar de “alternativo”? E,

afinal, por que “alternativo”?

A quê?

nos diz o próprio vocábulo: “Alter”: “outro(a)”; “Nativo”: da terra – se quisermos, é claro,

ativar nossa imaginação. Alternativo, então, vem a ser uma segunda opção, uma possibilidade

outra de fazer, criar, pensar alguma coisa, que não aquela previamente existente. Alguns poderão

alegar que o conceito, em si, já sustenta uma depreciação, uma desqualificação, uma

minimização do objeto de estudo, uma vez que, para merecer essa definição, essa característica de

“alternativo”, tal objeto, a priori, é julgado e analisado sob o prisma do já-existente, isto é, do

hegemônico, tomado então como referência.

Seria, em tese, a título de ilustração, o mesmo que dizer que determinada tribo indígena segue

um modo e vida “alternativo”

– só porque este difere do modo europeu ocidental, amplamente aceito e conhecido.

Revelamo-nos, desde o início, predispostos a assumir um ponto de vista centrado no europeu (ou,

como queiram, eurocentrista). Todavia, a rigor, se invertemos o foco pelo qual analisamos a questão

e assumimos a óptica do índio, concluímos que a recíproca também é verdadeira. Isto é, o modo de

vida europeu é que passa a ser o alternativo.

Fazemos este preâmbulo para ajudar a esclarecer o porquê da nossa escolha. Ao falarmos de

uma “imprensa alternativa”, partimos do pressuposto de que há uma imprensa regular,

bem estabelecida, que aqui estamos tomando como base. É uma imprensa tradicionalmente

instituída na sociedade e que, ao longo da história, consolidou sua atuação, seu modelo de produção


e difusão de informações como o modelo convencional de se fazer jornalismo – portanto, um

modelo hegemônico.

Essa imprensa, hoje, atendendo à conformação midiática que se dá em âmbito global, está

concentrada na grande empresa e baliza a sua atividade pela lógica industrial da produção

massiva de notícias. É, portanto, uma imprensa inscrita no que pode ser entendido como

“comunicação de massa” e que, por seu longo alcance e repercussão social, pelo número expressivo

de leitores, pela sua proximidade (promiscuidade) às esferas de poder, pela sua influência direta na

configuração da sociedade que abrange e nas suas constantes re-configurações, tende a se instaurar

no imaginário popular como sendo “a” imprensa; é entendida, no senso comum, como o único

modo possível, a única “alternativa”. E é precisamente esse modelo que adotamos como um

pressuposto, para chegarmos à definição dessa tal “imprensa alternativa”.

Não quer dizer, de modo algum, que estamos aqui legitimando esse modelo, que estamos

tomando uma visão “globo-centrista”.

Muito pelo contrário, admitir sua hegemonia não equivale a coadunar com ela. Entendemos

que, longe de permitir a diversidade, democratizar a informação – como seus representantes tanto

gostam de afirmar –, uma tal conformação é extremamente negativa, na medida em que essa marcha

da concentração dos meios vem notavelmente redundar numa homogeneização do noticiário que

chega à população, logo seguindo na via inversa dessa diversidade tão charlatanescamente

propalada.

Ora, tomando-se alguns exemplares de exemplos dessa grande imprensa, jornais de grande

circulação que representam esse modelo, notamos que a ordem do dia entre eles é praticamente a

mesma. Seguem estes veículos basicamente os mesmos critérios para definição da pauta e as

mesmas estratégias de discurso para apresentar as notícias. Assim, priorizam na seleção dos

fatos aquilo que se mostra vendável (comercializável) e, ao apresentar essas notícias, lançam-lhes

contornos cada vez mais espetacularizados – processo cada vez mais difundido entre os

jornais impressos, visando a recuperar o espaço ocupado pelo telejornalismo.

Fundados que estão esses jornais em parâmetros estritamente comerciais, tratam a informação

como um produto mercadológico, julgando-a, assim, pelo seu valor de troca e não mais pelo

interesse social, princípio elementar do jornalismo desde a sua mais remota origem.


Com efeito, o caminhar do negócio midiático, em conformidade com o caminhar dos tempos,

conduziu-o para uma paulatina concentração dos meios – já anunciada, há muito, pelo

clássico “Cidadão Kane”. À medida que o mundo foi progressivamente se capitalizando,

convertendo-se ao capitalismo – e, por extensão, a seus (anti-)valores do consumo –, a comunicação

foi transmutando-se em segmento econômico, deixando para trás o romantismo de suas origens

panfletárias; a informação, por sua vez, produto dessa comunicação, foi adquirindo as feições

de mercadoria e, em compasso com os avanços das tecnologias que lhe dão suporte, foi-lhe sendo

atribuída importância econômica cada vez maior, a ponto de hoje ela ser compreendida como

a mola-mestra desse neo-capitalismo. Fala-se mesmo que adentramos um novo ciclo do

capitalismo, sucessor ao da energia, e que teria na informação o seu centro de irradiação.

Assim sendo, o que vislumbramos hoje é um jornalismo concentrado nos grandes

conglomerados, o domínio das corporações de mídia, de modo que os jornais, vinculados

organicamente a empresas dos mais diversos setores econômicos, constituem-se em nada mais que

seus autênticos porta-vozes, canal que essas empresas utilizam para reproduzirem seu discurso,

amparadas pela legitimidade de que o meio jornalístico desfruta no espaço social.

Podemos falar, portanto, que informação hoje em dia é poder: quem detiver o controle sobre

sua produção, terá, por extensão, o controle virtual da sociedade. Quem tiver o poder de

informar, terá, por extensão, poder político. A disputa de poder não se dá mais nos campos de

guerra, mas no espaço virtual. Para além de uma disputa bélica, há, antes, uma disputa ideológica,

que não se trava no plano militar, mas no plano midiático, no plano simbólico da informação.

E as empresas jornalísticas – e aqui particularmente suas ramificações no jornalismo impresso

–, largamente instrumentalizadas, apresentam-se como um recurso estratégico para a produção de

subjetividades, ação sobre o imaginário coletivo, persuasão e convencimento, dada, em que pese a

concorrência esmagadora exercida por mídias mais modernas, a penetração considerável que ainda

têm na sociedade. Há, então, a circulação de inúmeras versões, as quais, no entanto, dão conta de

uma só “verdade

– retomando Foucault: “Verdades são discursos hegemônicos”.

Dito isto, não obstante as boas intenções de alguns jornalistas ou até mesmo de alguns

empresários, percebemos atualmente um jornalismo verticalizado, amplamente


descomprometido com as demandas e os anseios populares, cada vez mais distanciado das

comunidades às quais, ao menos em tese, se reporta.

Rigorosamente vão sendo abandonados – ou despriorizados – os princípios que devem

amparar qualquer atividade jornalística, ou que se pretenda como tal.

Nesse sentido, enfatizamos o seu papel de formação, que, antes mesmo que se acrescente o

prefixo, deve corresponder ao real sentido de “informar”. “Formação”, aqui, num sentido

muito amplo, não só de formar opinião, mas, primeiramente, de educar, socializar conhecimento,

divulgar idéias, estimular a criticidade, a consciência política e a participação nas esferas públicas,

quer no que tange aos espaços de representação formal do poder (macroesferas), quer no que tange

aos espaços locais de sociabilidade (micro-esferas).

Em suma, incentivar a participação política do indivíduo, para que ele desenvolva a

consciência de seu potencial como agente social e reflita sobre a sua condição no mundo que habita

(“mundo”, é claro, sempre relativizado), nos vários espaços de convivência que freqüenta, nos

vários grupos sociais de que é parte; reflita, enfim, sobre a sua forma de se relacionar com o mundo

e, sobretudo, com seus pares, com as pessoas que dividem esse mundo.

Com efeito, desde que o homem se entende como homem e busca situar-se neste mundo

(definir o seu lugar e o seu papel), a comunicação (vale lembrar: “tornar comum”) deve, em

essência, ter por finalidade a integração entre as pessoas. O jornalismo, então, como campo que, na

contemporaneidade, sintetiza essa comunicação, deve se propor a aproximar os indivíduos,

publicizar as questões coletivas, incentivar a interação e o diálogo. A informação deve atender a um

coletivo e deve ser usada tendo em vista o bem comum, e não sob essa perspectiva individualista da

autopromoção, do acúmulo, da competitividade, do aprimoramento pessoal, do “quanto mais sei,

mais posso”, tão próprio da era em que vivemos, dessa ética neoliberal que tanto ganha adesão entre

as pessoas.

E onde podemos resgatar esses princípios em desuso na imprensa senão no assim-chamado

jornalismo alternativo”? Um jornalismo que, de fato, seja alternativo a esse modelo, nos

mais diversos aspectos da produção jornalística: definição da pauta; seleção, edição e tratamento da

notícia; estilos e estratégias de discurso; interlocução com os leitores; linha editorial;

propósitos com a publicação; o público a que se destina e a relação mantida com o mesmo; a


dinâmica de produção; a participação desse público naquilo que é veiculado; o perfil da equipe,

daqueles que produzem a informação; sua forma de se relacionar com o veículo; as formas de

financiá-lo e de geri-lo; a participação do público em sua gestão e planejamento.

Um jornalismo, enfim, que, ao menos em alguns desses aspectos, escape a essa conformação

tradicional da grande imprensa.

Alter-nativo: “o outro da terra”

Como se pode ver, o critério que empregamos para definir esse “alternativo” foi o mais amplo

e genérico, sob o risco (assumido)

de incorrermos em um reducionismo. Diante da dificuldade – ou mesmo da impossibilidade

de delimitarmos esse campo, especificarmos o conceito, optamos por chamar “alternativo” a

tudo aquilo que não é A Gazeta, A Tribuna, etc, enfim, tudo aquilo que não segue uma linha

comercial de empresa midiática.

Isto inclui desde aquelas experiências que podem mais seguramente se caracterizar como

“imprensa alternativa”, isto é, os jornais de resistência e oposição política – no nosso caso com

destaque ao Posição –, até as experiências mais (aparentemente) despretensiosas, jornais de alcance

bem menor, com um público específico e de âmbito local. Aí incluímos os jornais de movimentos

sociais – particularmente aqueles da década de 80 –, jornais comunitários, jornais de bairros

(associação de moradores), eclesiais e sindicais, os quais, em que pese toda sua diversidade,

guardam claramente algumas marcas em comum, quais sejam: um conteúdo mais crítico e

politizado, uma linguagem acessível ao “povão” e, no mais das vezes, o fato de partirem de

iniciativas populares.

Entretanto, não poderíamos simplesmente ignorar a disparidade teórico-conceitual que recai

sobre o conceito. Visando justamente a incorporar essa discussão ao trabalho, contemplar as

opiniões distintas, é que pensamos este sub-capítulo. Num primeiro momento, pensávamos em

pesquisar autores ou correntes teóricas em Comunicação que, ao longo dos anos, desenvolveram

trabalhos de pesquisa e teorias importantes sobre o tema, a exemplo da escola Latino-Americana –


indicamos Peruzzo, Kaplún, Martín-Barbero Contudo, no decorrer do trabalho de campo, a

interatividade se impôs. Mais do que nos debruçarmos sobre livros já publicados, pensamentos já

encerrados e sistematizados, a própria discussão com os entrevistados de várias procedências foi

nos propiciando o contato com as várias concepções de jornalismo alternativo e nos levando a

construir a nossa própria idéia sobre o meio.

Falamos com alguns protagonistas dessa história no Estado e com alguns intelectuais de vários

campos do saber que, de alguma forma, dedicam-se ao estudo sobre o tema, tais como:

Professora Doutora Desirée Cipriano, atualmente no Departamento de Serviço Social da Ufes, ex-

professora de Comunicação Social na mesma universidade; Professor Paulo Soldatelli,

atualmente no Departamento de Comunicação Social da Faesa; Professora Doutora Marta Zorzal,

do departamento de Ciências Sociais da Ufes; Professora Doutora Beatriz Krohling, atualmente no

Departamento de Serviço Social da Univila (Vila Velha); João Morais, diretor regional do Partido

dos Trabalhadores no Espírito Santo; Tinoco dos Anjos, diretor-geral da TVE no Estado.

Pega dali, fuça de lá, cada um nos emprestava o seu retalho, que íamos tratando de amarrar

com nossa “linha alternativa”. Ao fim desse trabalho de costura, chegamos a algumas conclusões.

São elas:

1) Em meio a tantas divergências, há, destacadamente, um ponto consensual, livre de qualquer

contestação: o “jornal alternativo”

não pode possuir fins lucrativos. Ainda que seja vendido, os lucros eventualmente angariados

devem servir a causas outras que não empresariais.

2) No que diz respeito a estratégias de discurso, os jornais alternativos, quaisquer que sejam as

suas motivações, seguem diametralmente no sentido oposto à grande imprensa –

tradicional, conservadora e burocrática –, cujos expoentes contentam-se em refletir-se mutuamente,

atolados que estão em modelos de discurso pasteurizados que se (a)fundam em “técnicas

jornalísticas” frias, mecânicas e extremamente aborrecidas.

Assim, em lugar da impessoalidade, temos um discurso direto e familiar; em lugar da

objetividade factual, a análise e a reflexão aberta, a argumentação fraterna e dialógica; em lugar da

pretensa isenção (imensa pretensão!), o ponto de vista assumido e declarado; em lugar da

neutralidade, de uma suposta imparcialidade – que, como sabe qualquer calouro de Comunicação


Social, nada mais é que um véu para mal dissimular intencionalidades inconfessas muito

particulares –, a fala explícita que todos sabem de onde parte, de alguém que todos sabem de onde

vem.

3) Podemos – e novamente admitindo uma visão eventualmente redutora – distinguir bem

claramente três modalidades principais de jornalismo alternativo, a saber:

a) Um jornalismo com claros contornos político-partidários.

Nas publicações que atendem a esse modelo, há um discurso politicamente engajado em

defesa dos interesses de um partido ou de uma corrente política – em alguns casos, mais de uma.

Aqui no Estado, um perfeito exemplo é o próprio Folha Capixaba, do período pré-ditadura. Há

também aqueles jornais reconhecidamente “de esquerda”, que sustentam um discurso libertário

em contraposição à repressão. São os chamados “jornais de resistência”, que emergem

particularmente em regimes de exceção e cassação de direitos civis. O principal exemplo dentro do

jornalismo capixaba é, certamente, o Posição. Embora, de modo geral, esses jornais se remetam às

massas, não há, aqui, propriamente, uma participação efetiva do povo na sua produção.

b) Um jornalismo produzido especificamente para atender a um segmento social, mas que não

conta, nas etapas de produção, planejamento e gestão, com o envolvimento direto de seus

representantes.

As publicações aqui inscritas levam até esse grupo social (comunidade, categoria, etc)

questões de seu estrito interesse – sejam elas mais pontuais (suas demandas e reivindicações), sejam

elas as “causas maiores”. São jornais politizados, que almejam conscientizar seu público e estimular

sua mobilização e participação mais cidadã.

Geralmente, partem de iniciativas pessoais de jornalistas ligados a esses grupos e engajados

em suas causas, ou são vinculados a entidades como ONGs, partidos, empresas ou instituições

religiosas.

Um bom exemplo no Estado é o jornal Ferramenta, ligado à Pastoral Operária, que também

detalharemos na seqüência.

c) Um jornalismo que se destina a um determinado grupo social e que, para além disso, é

produzido por esse mesmo grupo. Aqui, é certo, a participação da comunidade envolvida se dá em

níveis muito maiores. Alguns acreditam que esta é a única modalidade genuinamente alternativa de


se fazer jornalismo, já que todas as etapas de produção (redação, impressão, distribuição) da

publicação se encerram no interior desse grupo, que, em casos mais extremos, responde ainda pelo

planejamento de políticas financeiras e de propostas editoriais do informativo (sistema de auto-

gestão).

Em alguns casos, pode haver, num primeiro estágio, a presença de um ou mais jornalistas, que

vão estimular naquele grupo o interesse em criar a publicação, capacitando-o para usar os meios

e orientando-o em suas práticas. Com o passar do tempo, conforme o seu interesse, o grupo pode

manter a produção, mesmo após o afastamento dos “tutores”. Em verdade, esta é uma prática

que vem se disseminando no País, sob a tutela de Ongs ou por iniciativas pessoais. Em outras

situações, a publicação pode despontar de um interesse espontâneo do grupo social, a partir de uma

necessidade autêntica manifesta por seus representantes.

Da década de 40 ao início da Ditadura

Jornal Folha Capixaba

Folha Capixaba apareceu-nos como uma surpresa ao pesquisar sobre jornalismo impresso

alternativo no Espírito Santo. Primeiro, pelo período histórico em que o jornal existiu: de 1945 a

1964, entre o Estado Novo e a ditadura militar. Não havia muitas expectativas de que fôssemos

encontrar algum periódico que questionasse a ordem vigente nessa época. Segundo, pelas

próprias características da publicação: um jornal comunista e popular, diário, que permaneceu por

15 anos em circulação, concorrendo com os grandes jornais da época.

Resgatar a história desse impresso capixaba não foi fácil, devido aos poucos registros

históricos que se tem, tanto materiais quanto pessoais. Existem apenas dois rolos de

microfilmagem do jornal no Arquivo Público Estadual, que guarda exemplares dos anos de 45, 54,

55 e 56. Muitas edições, no entanto, estão visivelmente prejudicadas. Não encontramos registros do

jornal em papel, uma vez que todo acervo foi queimado ou apreendido quando ocorreu o golpe de

64.


Em âmbito pessoal, devido ao tempo, somente os senhores Antônio Granja e Clementino

Dalmácio, com 90 e 97 anos, respectivamente, são a memória viva dessa experiência de jornalismo.

As demais pessoas que escreveram no jornal, lembradas pelos entrevistados ou que têm seus

nomes nas edições encontradas, faleceram ou estão fora do Espírito Santo há muito tempo.

Apesar das dificuldades, consideramos que essa experiência de jornalismo no Estado merece

registro e valorização, uma vez que apresenta um recorte da história mais próxima da visão

popular e das forças de esquerda e oposição que existiram naquele momento histórico.

Do contexto ao texto e aos personagens em cena

Para compreender a atuação do jornal Folha Capixaba e sua relevância histórica, é

imprescindível situá-lo no contexto político por que passava o Brasil naquele período. E também ter

em vista, desde já, quem foram os principais articuladores e mantenedores do jornal.

A Folha Capixaba teve seu primeiro número lançado em 1º de maio de 1945. Seus diretores e

proprietários eram João Calazans e Érico Neves, os donos da tipografia onde era rodado o jornal.

A redação, administração, distribuição e assinaturas, entretanto, eram de responsabilidade

principalmente dos membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que entrou na legalidade

nesse mesmo ano, quando terminou a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.

O ano de 1945, então, é um marco na reabertura democrática do País, que acabava de sair do

Estado Novo, um período de ditadura caracterizado pelo fechamento do Congresso Nacional,

imposição de uma Constituição de tendência fascista, censura aos meios de comunicação e

repressão à atividade política pelo governo de Getúlio Vargas – lembrando que o golpe do Estado

Novo, em 1937, ocorreu sob a justificativa de que os comunistas estariam preparando o Plano

Cohen para tomar o poder no Brasil.

Mas a reabertura em 1945 só foi possível devido à pressão internacional.

Nesse período, estava terminando a Segunda Guerra Mundial em favor dos Aliados e contra os

Estados nazi-fascistas a quem Vargas ideologicamente se alinhava. Isto fez com que

ocorressem mudanças institucionais no sistema político do Brasil, cul- minando no fim do Estado

Novo e na reintrodução das instituições liberais como partidos políticos e realização de eleições.


O PCB, então, bastante atacado durante a ditadura de Vargas, volta à legalidade em 1945 e

articula seus diretórios em vários locais do País, principalmente no Rio de Janeiro, Salvador,

Recife, Belo Horizonte e São Paulo. E articula também publicações em vários lugares,

principalmente jornais diários, como: Tribuna Popular, no Distrito Federal; Hoje, em São Paulo; O

Momento, na Bahia; Folha do Povo, em Pernambuco; O Democrata, no Ceará; A Tribuna Gaúcha,

no Rio Grande do Sul; O Estado, em Goiás; e Folha Capixaba, no Espírito Santo.

É importante destacar que a Folha Capixaba, assim como outros jornais do mesmo estilo que

existiram, emerge num momento de reabertura democrática no País, de inserção de novas forças

no contexto político; e terá também o papel de marcar a posição da esquerda, representada pelo

PCB na conjuntura política daquele momento.

Das cartinhas dos leitores ao embate político: Folha Capixaba em

tempos de Vitória antiga

Como escrito anteriormente, o jornal Folha Capixaba foi lançado em 1º de maio de 1945.

Desde seu primeiro exemplar, já tinha características que o acompanhariam por todas as demais

edições, como a presença de artigos de membros do PCB, que configuraram a linha política do

jornal, denúncias de problemas locais e divulgação de eventos do Estado, com destaque à área de

esportes.

Na primeira edição do jornal, os principais assuntos abordados foram o Dia do Trabalhador,

com grandes questionamentos às leis trabalhistas; a memória de Domingos José Martins,

considerado herói capixaba em Pernambuco; e análise da situação nacional e internacional por Luiz

Carlos Prestes, grande dirigente do PCB.

Pelos temas abordados, pode-se perceber que o jornal pretendia fazer essa aproximação com a

classe operária e com o povo, além de divulgar as idéias de esquerda naquele momento. Na

primeira edição, Prestes faz uma saudação especial ao jornal:

Ao saudar, neste primeiro número da Folha Capixaba, o

povo do Espírito Santo, evoco a memória de Domingos José

Martins, herói e mártir de 1817, padrão e guia do Brasil


democrático e progressista a que havemos de chegar. Que

Folha Capixaba seja digna dessa tradição e saiba defender

com sinceridade e inteireza os superiores interesses do povo

espíritosantense e dos Estados vizinhos, é o que almeja - Luiz

Carlos Prestes- 26/04/1945.

O editorial da primeira edição enfatizava a postura que o jornal teria:

Presença.

Folha Capixaba é um jornal do povo. Batalhará

pelos anseios da população de todos os recantos do

nosso Estado, por menores que eles pareçam,

procurando sempre, com justiça e desassombro, a solução

de cada um deles.

Problemas populares que necessitam dos

nossos cuidados. Assim sendo, seguiremos sempre

ao encontro da coletividade espírito-santense, levando suas

reivindicações e sugerindo soluções práticas e imediatas. Não

temos quaisquer compromissos que nos impeçam de lutar

pelas conquistas populares, jornal do povo, nascido do povo,

para atender exclusivamente à vontade do povo, jamais

daremos lugar às paixões que nos afastem dessa linha

de conduta.

Assim mostramos a arma com que vamos enfrentar a

luta: - nem o elogio incondicional, nem o ataque sistemático,

pois ambos são incompatíveis com a verdadeira democracia.

Um regime como o que esperamos seja estabelecido no

Brasil, democrático e progressista, abrangendo elementos de

todas as camadas sociais, só poderá ser instituído à base de

campanhas populares, dentro da ordem e da liberdade.

Regime que não admite nenhum debate sem a participação do

povo. Dentro desse ponto de vista, nossas colunas estarão

sempre abertas, prontas para o levantamento das questões

mais urgentes da nacionalidade. Sem exclusivismos

regionalistas, seremos uma bandeira de defesa da terra e do

povo do Espírito Santo.

Segundo o senhor Clementino Dalmácio, que foi gerente do jornal e membro do “Partidão”, a

Folha Capixaba era um jornal da classe operária, do povo. “Eles participavam do jornal,

levavam reclamação. A Folha Capixaba tornou-se um jornal popular da classe operária. Não fomos

nós que impusemos o jornal, foram eles mesmos que foram trazendo as matérias para publicar”.

O jornal também costumava enfatizar isso nas suas páginas:


A Folha Capixaba lidera o movimento democrático em

prol da reconquista das liberdades perdidas em 37. É,

portanto, um órgão do povo. Sua grande tiragem, sua feição

gráfica e suas autorizadas fontes de informações, dizem

melhor da excelente acolhida que lhe dispensa o público

capixaba.

Esse jornal fazia, de fato, uma ponte com o povo, sobretudo com os operários. O senhor

Antônio Granja, colaborador do jornal, recorda que o periódico era lido aos operários que

trabalhavam no porto de Vitória, uma vez que muitos eram analfabetos.

“O Hermógenes Lima ia levar marmita no porto para o seu pai.

Tirava a comida da sua bolsa e também o jornal. E fazia a leitura das notícias em voz alta”.

Além disso, era freqüente o envio de cartas à redação do jornal, com sugestões de temas a

serem publicados. Pode-se perceber que havia notinhas com títulos que retratavam problemas

bem pontuais do cotidiano das pessoas, por exemplo: “Escolas para o povo”, “Manteiga acima da

tabela”, “Ônibus para Colatina”. O próprio jornal incentivava esse tipo de participação, como

pode ser comprovado na seguinte passagem:

Queixas e sugestões:

- Você tem alguma sugestão a fazer?

- O transporte que utiliza é deficiente?

- Seu telefone está constantemente defeituoso?

- Em seu bairro há falta de água?

- Sua rua é visitada pela limpeza pública?

- Há foco de mosquitos e moscas nos corredores de sua

residência?

- O local de seu trabalho é insalubre, mal ventilado?

Enfim, você tem alguma reclamação a fazer?

Escreva-nos. Nós seremos, com prazer, o veículo de suas

reclamações. Reclame. Mas sempre com razão.

Nas questões locais, o jornal atuava bastante como órgão de denúncia, retratando os problemas

sociais daquele período, como as dificuldades dos trabalhadores rurais, as obras de construção do

porto de Vitória, as deficiências de saneamento e infra-estrutura dos bairros. Além disso, divulgava

eventos da cidade, tanto culturais, como peças de teatro, quanto políticos, como reuniões de


sindicatos. É interessante ressaltar que havia duas colunas fixas no jornal: a “Folha Social”, uma

espécie de coluna social que continha nascimentos, aniversários, núpcias, saudações do

povo capixaba; e a “Folha nos Esportes” que tratava dos eventos esportivos do Estado.

Além de tratar recorrentemente de questões sociais dos bairros e das cidades do interior

também (principalmente Colatina, Cachoeiro e Guaçuí), o jornal trazia diariamente notícias

internacionais e acompanhava as discussões políticas nacionais, sempre se posicionando claramente

em tempos de eleição.

Desse modo, ao olhar as edições do jornal ao longo do ano de 1945, é possível acompanhar

todo movimento político que acontecia no Brasil e internacionalmente, apenas pelos temas

de primeira página. As matérias nacionais tratavam principalmente da reabertura democrática do

País e destacavam o desfecho da Segunda Guerra Mundial; a extinção do DIP (Departamento

de Imprensa e Propaganda do Estado Novo); críticas ao integralismo como movimento

antidemocrático; legalidade do PCB e sua expansão pelos Estados do Brasil e, posteriormente, sua

organização no Espírito Santo; organização dos movimentos populares, como na criação do

movimento unificador dos trabalhadores (MUT) no Estado. Além disso, o jornal abordou temas por

meio de propagandas mesmo, como na convocação da Assembléia Constituinte, no ano de 1945.

Diariamente, a Folha trazia novas informações sobre o tema, artigos em defesa da convocação

da Assembléia e propagandas políticas, que incentivavam os leitores a aderirem a esse movimento

em favor da convocação. Não se pode deixar de citar também que os candidatos apoiados

pelo jornal, na época de eleições, eram apresentados explicitamente nas suas páginas para

conhecimento do leitor.

Internacionalmente, o jornal abordava questões relacionadas à situação dos países alinhados ao

comunismo, como a União Soviética (havia várias referências a Stálin), China e Iugoslávia, com o

marechal Tito. Percebe-se essa preocupação internacionalista quanto às questões políticas, bastante

característica desse momento histórico de reconfiguração geopolítica pós-Segunda Guerra.

A distribuição do jornal também era feita de modo a atingir as classes populares. O senhor

Antônio Granja lembra que saía, juntamente com Hermógenes Lima, para distribuir o jornal de casa

em casa. “Íamos com 300 exemplares debaixo do braço ao morro dos Alagoanos. Batíamos de porta

em porta oferecendo o jornal”. Os exemplares também eram vendidos em bancas e por crianças na


ua, que gritavam: “Comprem o Folha Capixaba, o jornal do povo!”, já ansiando pela venda de um

exemplar para comprar um docinho, como recorda seu Clementino.

Entretanto, o jornal não se mantinha apenas das vendas. Havia muitos anúncios no jornal,

sobretudo de estabelecimentos comerciais populares como açougues, farmácias, sapatarias, fábrica

de móveis, laticínios e loja de materiais de construção. É interessante observar que o jornal chegou

a fazer uma campanha de arrecadação de fundos para sua subsistência, divulgando, por várias

edições, uma carta que apresentava suas necessidades e dificuldades para se manter, juntamente

com uma lista de nomes de colaboradores freqüentes. Segue a carta publicada nos exemplares:

Aos amigos da Folha Capixaba:

Folha Capixaba é um jornal do povo. Tem lutado para

manter sua posição firme, sua linha justa, esboçada na sua

edição inicial, no artigo “Presença”, onde estabelece a

fidelidade de seu programa.

Dissemos, então: - “Não temos quaisquer compromissos

que nos impeçam de lutar pelas conquistas populares. Jornal

do povo, jamais daremos lugar às paixões que nos afastam

dessa linha de conduta”. Efetivamente, assim tem acontecido

e nunca sairemos desse princípio, pois, desse

modo, esperamos corresponder à confiança do nosso grande

der Luiz Carlos Prestes, na mensagem que nos enviou de

saudação ao povo capixaba [...].

Tribuna das aspirações populares, nossa posição de

independência política precisa ser conduzida ao lado da maior

independência econômica. Não temos outros recursos a não

ser o apoio do povo.

Não possuímos outra fonte de renda que não a

da contribuição espontânea do povo.

Um grupo de amigos da Folha

Capixaba, compreendendo a necessidade de ser mantido

esse jornal do povo, encabeça o movimento de

ajuda, angariando meios e recursos para que

possamos enfrentar os enormes gastos indispensáveis

ao prosseguimento de nossa obra.

Louvamos a idéia e a aceitamos, justamente

porque partiu da vontade popular, daqueles que, desde o

primeiro momento, nos encheram de orgulho e estímulo,

sentindo a necessidade da imprensa livre.

Assim, ficou constituída uma comissão de ajuda à Folha

Capixaba, composta dos srs: Jason Moreira de Barros,


O jornal na concorrência

Geraldo Sodré, Cap. Augusto Olivies, Moysés Calino,

Edward Santana e Major Otto Netto, todos devidamente

credenciados para esse fim.

Em nossa redação, encontra-se, desde já, uma lista para

aqueles que queiram aderir ao movimento.

O jornal Folha Capixaba era um dos jornais de destaque da época, concorrendo com A Gazeta

e com A Tribuna. Nessa época, a Folha se colocava como oposição política a A Tribuna, que

era considerada “integralista” e “reacionária”, como relatam Granja e Clementino. É interessante

registrar que a sede do jornal foi ameaçada diversas vezes pelos integralistas, embora não

tenha existido uma ação efetiva por parte deles.

A Gazeta, entretanto, não era considerado um jornal tão reacionário pela Folha Capixaba.

Muitos jornalistas de A Gazeta, inclusive, chegaram a trabalhar na Folha nesse período.

“Éramos oposição a A Tribuna, mas não a A Gazeta. A Gazeta era nossa aliada, mas não em

termos de matéria; tinha sua linha, que era do conservadorismo, como é até hoje. Participávamos da

Associação de Imprensa Capixaba junto com o pessoal de lá. Entretanto, tínhamos intrigas com o

pessoal de A Tribuna. Porque aí eram os dois opostos: comunismo e integralismo.

E nós sempre ganhamos”, lembra Antônio Granja ao comentar que, muitas vezes, a Folha

Capixaba chegou a ser lida mais que A Tribuna.

O mais interessante de se observar nisso é como um jornal marcadamente de esquerda,

produzido sem uma infra-estrutura suficiente, que contava com diversos colaboradores

para produção de textos, conseguia concorrer, em termos de leitura da população, com jornais

produzidos por empresas de comunicação.

Folha Capixaba e os governos locais

A relação de Folha com os governos locais, embora bastante crítica aos problemas sociais, era,

de certa forma, amistosa. O senhor Clementino afirma que procuravam não fazer um

embate político direto com o governador, na época Lindenberg.


Mas houve um fato marcante que fez com que a Folha Capixaba influenciasse muito na vida

política do Estado. Em 1960, houve uma eleição para governador, na qual disputaram Jones dos

Santos Neves e Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho. O candidato Chiquinho, um populista,

pediu ao PCB que o apoiasse por meio da Folha Capixaba. O jornal, então, lançou uma nota

pedindo ao eleitorado para votar em Francisco Lacerda de Aguiar. “O Chiquinho foi eleito. Poderia

ter 20 motivos para isso. Mas o que prevaleceu foi o apoio de Folha Capixaba”. Antônio Granja

ainda afirma que o apoio ocorreu porque era o melhor candidato no período.

“O Chiquinho era o melhor, era um popular, um populista. O Jones era da elite. O Jones

sempre foi muito reacionário”.

É importante relembrar que a Folha Capixaba deixava bem claro, estampado em suas páginas,

quais eram os candidatos que apoiava.

E por ter essa grande inserção nas camadas populares e no interior, era um jornal bastante

procurado para esse tipo de apoio político.

Uma escola de democracia

A Folha Capixaba teve seu fim decretado no golpe militar de 1964. Assim como toda

imprensa desse período, o jornal foi confiscado, o material foi queimado e seus responsáveis foram

presos temporariamente, como Clementino, que chegou a ser detido três vezes num mesmo dia por

participar da equipe do jornal.

Por toda sua trajetória, a Folha é considerada uma escola de democracia. “A Folha Capixaba

ensinou para essa gente aí que oposição não é um bicho papão; é uma parte da sociedade que não

concorda com o modelo vigente e busca uma outra saída.

E, nessa saída, educamos. A Folha Capixaba teve um papel muito importante na divulgação

do sistema da democracia no Estado”, destaca Antônio Granja.

Também é importante destacar que a Folha Capixaba promovia comícios e atividades, ou seja,

os debates na vida política ultrapassavam as páginas do jornal e concretizavam-se na prática,

no cotidiano, na praça pública.

Como diz Clementino, são “histórias de Vitória antiga”, mas que marcaram um período de

reabertura política do País. É interessante notar que o jornal refletiu a inserção da classe operária na


cena política do Brasil e do Espírito Santo, guiada pelo PCB, que teve fundamental importância na

difusão dos ideais de esquerda nesse período. A preocupação em divulgar a “voz do povo” nos

meios de comunicação começava a surgir em alternativas concretas, como foi a Folha Capixaba.

Clementino orgulha-se de dizer que “era um jornal nosso. Nós podíamos publicar o

que pensávamos, o que acontecia com o povo. Se o povo mandasse uma reclamação para A

Tribuna, não saía. Para A Gazeta, saía um pouco. E, na Folha, saía tudo que o povo pensava”.

Portanto, é preciso perceber a Folha Capixaba como uma expressão concreta da necessidade

de expressar idéias, posicionamentos políticos profundamente reprimidos durante muito tempo

no País. O jornal representa a reorganização explícita da esquerda em torno de questões políticas,

representada no PCB, o qual teve papel central em manter o jornal e pensá-lo como instrumento de

classe. Desse modo, é possível perceber como os meios de comunicação, sobretudo o jornal, dizem

muito de uma época. E Folha Capixaba diz muito sobre a visão popular e da esquerda do período

de 1945 a 1964.


A estréia do jornal capitaneado pelo Partido Comunista Brasileiro


O Folha Capixaba possuía coluna diária sobre o esporte no Estado


O debate sobre o comunismo internacional era pauta obrigatória


O Folha Capixaba tinha posição política expressa em seu conteúdo


A população era convidada a contribuir com o dia-a-dia do jornal

Expediente da Folha Capixaba


Apesar de se declarar não-partidário, a influência do PCB era clara


Período ditatorial

Posição

No dia 29 de outubro de 1976, com o lema “A imprensa independente é a única alternativa”, é

lançada, no Espírito Santo, a primeira edição do jornal Posição. Com a pretensão de ser um

jornal diferente dos tradicionais veículos de comunicação da época, a primeira edição traz as suas

justificativas sob um editorial intitulado “Um jornal do leitor”:

Afinal, POSIÇÃO saiu. E está em suas mãos. Será POSIÇÃO

um jornal diferente? Sim. Porque é um jornal de jornalistas. E

não de um industrial, de um empresário. E também porque

queremos que, deste jornal, o leitor faça o seu jornal.

Participando como quiser e puder. Escrevendo crônicas,

poesias ou reportagens, desenhando ilustrações, criticando o

nosso trabalho ou estimulando a nossa posição.

Desse diálogo entre leitor e jornalista nascera, com certeza,

uma notícia mais representativa das aspirações do leitor. Das

suas aspirações. E das de seus amigos. E de sua comunidade.

O jornal, portanto, será aberto: suas notícias serão

importantes porque serão as notícias do leitor. Este, no

momento, nos parece o método mais democrático de fazer

jornal.

Além de deixar clara a sua posição em relação à forma de se fazer jornal, destacando a

importância da participação do leitor, o Posição ressalta ainda os porquês de ser um jornal

independente, quinzenal e “atrasado”:

O nosso jornal é um jornal independente. O que é que isso

significa? Uma vez mais, isso vai depender de nós,

jornalistas, e de você, leitor. A idéia de fazer um jornal de

jornalistas parece inegavelmente boa. Boa porque, dessa

forma, a notícia divulgada não obedecerá a interesses

estranhos aos do jornalismo propriamente dito. Mas, em

compensação, sem uma estrutura empresarial sólida, nos será

muito mais difícil sustentar o jornal. Dependemos

essencialmente do leitor.


Um outro aspecto que deveria ser comentado na apresentação

é o do jornal ser quinzenal. Pode parecer banal, mas para nós

tem um significado maior, profundamente ligado a nossa

concepção de jornalismo. [...] Vivemos na época dos pressreleases,

ou seja, boletins previamente preparados pelas

grandes empresas, pelas secretarias, pelas autarquias ou

pelas autoridades, com o objetivo de serem a notícia.

Vivemos também na época do off, ou seja, quando

a informação nos é comentada ou fornecida ao pé do ouvido

sob a condição de não ser citada a fonte.

Em ambos os casos, o grande inimigo do repórter é o tempo.

Trabalhando para um jornal diário, ele fica literalmente sem

tempo para apurar a autenticidade dos dados fornecidos pelo

release ou para verificar a honestidade da informação dada

em off. Nossa opção por um jornal quinzenal foi também

considerando que, dessa forma, o repórter terá mais tempo

para apurar a notícia. E sua notícia será seguramente

mais próxima da verdade. [...]

A gráfica que nos ofereceu o melhor preço para fazer o jornal

é distante, em outro Estado, e isso nos obrigará a terminar

cada edição com um adiantamento de uma semana. Assim, o

que o leitor está lendo agora já foi preparado, no mínimo, há

uma semana. Esse obstáculo, infelizmente, nos

parece insuperável, pelo menos por enquanto.

Contamos, pois, com a sua confiança e paciência.

Enfim, nos permitimos transcrever parte do editorial, uma vez que ele contém as principais

características que irão marcar a trajetória do jornal. O constante convite ao diálogo com o leitor, a

crítica à consagrada forma de se fazer jornalismo e ao poder político-econômico que dava o tom aos

veículos tradicionais são características que se destacam nos editoriais, nos textos, nas ilustrações,

nas entrevistas, nas reportagens. O Posição nasceu em 1976, ainda no regime militar. É importante

analisarmos o contexto sócio-político-econômico, não somente do Estado, mas também do País, a

fim de compreendermos melhor sua existência e seus objetivos.

Nacionalmente, vivíamos o declínio do “milagre econômico”, a forte repressão aos grupos de

oposição ao Governo, a censura aos meios de comunicação, a instituição do AI-5, um período de

perseguições políticas, prisões, torturas, “desaparecimentos”, exilados, tudo, proporcionado pela

ditadura militar que se instalou no Brasil com o golpe de 1964 – que a grande imprensa


chamou “Revolução de 64” e apoiou como sendo a melhor coisa do mundo, que tinha colocado fim

às greves... No Espírito Santo, a década de 70 apresenta uma conjuntura importante do ponto

de vista do desenvolvimento. Após anos de crise econômica com a erradicação dos cafezais, que

empobreceu muito o Estado, já que praticamente toda a sua receita vinha da cafeicultura, o

Espírito Santo entra num período de reestruturação da sua economia.

Surge a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), a fim de discutir alternativas para

o desenvolvimento, que, resgatando o discurso de Jones dos Santos Neves, do início dos anos 50,

começa a difundir a idéia de que o Estado precisava se industrializar para sobreviver, visto que “os

ramos dos cafezais já eram frágeis demais para sustentar o peso crescente da economia espírito-

santense”.

Durante toda a década de 60, será esta uma das grandes discussões e essa idéia da necessidade

de industrialização – divulgada e apoiada por A Gazeta – vai ser implementada justamente nos

anos 70, devido a dois fatores cruciais. De um lado, temos as políticas econômicas nacionais,

baseadas no PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), que vão gerar um processo de

descentralização da industrialização no País, até então concentrada nos grandes centros urbanos

(Rio de Janeiro/São Paulo), sob a orientação da geopolítica do governo militar, no sentido de

expandir os pólos de crescimento. Por outro lado, temos a Vale do Rio Doce que, desde a sua

criação, vem investindo em infra-estrutura, criando, assim, toda uma logística de transportes que vai

gerar crescimento e atrair outros investimentos e empresas para o Estado.

É nesse contexto que o Governo Estadual começa a negociar os chamados “grandes projetos”

que serão implementados durante a década de 70 e vão transformar a economia capixaba, que deixa

de ser primário-exportadora para ser urbano-industrializada.

Se por um lado, os grandes projetos trouxeram desenvolvimento industrial ao Estado, por

outro causaram a expulsão do homem do campo, a urbanização acelerada e desorganizada e

o aumento das desigualdades sociais e geográficas.

É nessa realidade que surgem os jornais alternativos, uma vez que a grande imprensa –

liderada por grupos políticos e econômicos –, quando não alinhada à ditadura, estava amordaçada

pela censura. A imprensa alternativa cresceu muito nesse período com a proposta de fazer o

jornalismo que a ditadura ou os grupos político- econômicos barravam, mas, também, de ser uma


experiência democrática de produção jornalística e enfrentamento ao governo militar vigente,

discutindo questões que não eram tratadas nos grandes veículos e retratando a época com outro(s)

olhar(es).

Como analisa Namy Chequer, jornalista e colaborador do jornal na época, hoje apresentador

do programa Ponto de Vista na Rádio Universitária da Ufes: “Lá pela metade da década [70],

surgiram os jornais alternativos nacionais, tipo Opinião, Movimento e outros.

Na esteira desse recurso é que Posição acontece. Era uma época de censura prévia na

imprensa. Época em que censores, geralmente policiais federais, freqüentavam as redações para

autorizar o que devia ser publicado”.

O Posição é resultado da censura e de uma demissão, como conta Robson Moreira, um dos

fundadores do jornal, atualmente diretor de programação da STV (Rede Sesc/Senac de Televisão):

“Quando eu e o Jô Amado estávamos em A Tribuna, fizemos uma matéria sobre um despejo num

lugar chamado Cantinho do Sossego, no município da Serra. O jornal bateu na banca e causou

escândalo.

O governador Elcio Álvares ligou para a direção e pediu a cabeça de todo mundo. Quando a

gente saiu de A Tribuna, o Jô estava bastante adiantado com a idéia do Posição. Já pensava em

sócios para ajudar, para conseguir algumas cotas em dinheiro. O jornal seria para imprensa

alternativa, difícil de ser feito, complicado na sua execução, um misto de curiosidade e vontade. Eu

e o Jô nos comprometemos a garantir que o jornal sairia toda quinzena e nos entregamos ao

Posição”. Fazer jornal impresso e ainda alternativo era muito trabalhoso, segundo Tânia Mara

Ferreira, colaboradora do jornal por mais de um ano, hoje professora do Departamento de

Comunicação Social da Ufes. “A diagramação era um processo bem artesanal e toda a equipe

ajudava até a fase final do jornal, levava para a gráfica, esperava imprimir para juntar as páginas e

dobrá- las, tudo para baratear o máximo. Todos faziam um pouco de tudo, diagramação, discussão

de pautas e serviços de boy, levando material aqui e ali”, recorda.

O financiamento do jornal era baseado na venda e nos anúncios.

Além das assinaturas, o jornal era vendido nas comunidades, por seus próprios colaboradores,

sendo que somente algumas bancas aceitavam vendê-lo. Robson Moreira conta: “Pegávamos o

jornal e saíamos de madrugada distribuindo, vendendo nos botecos.


Eu levava para a Universidade e Jô para os bairros. Com 2 mil exemplares, colocávamos 500

na banca e distribuíamos 1.500 nas comunidades, de mão em mão”. Já os anúncios eram, de acordo

com Tânia Mara, “basicamente, de profissionais liberais de esquerda e cobriam apenas o custo do

jornal, que era feito por jornalistas quase na sua totalidade voluntários, que tinham um outro

trabalho e eram, na verdade, colaboradores”. Como completa Namy Chequer, “profissionais liberais

(médicos, dentistas, advogados e comerciantes) ajudavam com dinheiro. Era gente comprometida

com a luta contra o regime militar. O jornal tinha espaço para publicidade, mas assentava sua

viabilidade financeira em cima das vendas avulsas”. O público do Posição era

composto, principalmente, por estudantes universitários e lideranças políticas e intelectuais. De

acordo com Namy Chequer, “o jornal era bem vendido. Quem comprava sabia que estava ajudando

a manter um órgão da imprensa alternativa. Os leitores eram pessoas que sabiam que não

encontrariam em A Gazeta e A Tribuna as informações que buscavam. Denúncias de corrupção, de

mordomias do poder, de negociatas com dinheiro público, tudo isso era impossível de se saber junto

aos jornais tradicionais. Informações sobre atividades sindicais, tais como fundação de

sindicatos ou movimentos grevistas, sofriam absoluto boicote na chamada grande imprensa

capixaba”.

Conforme afirma Robson Moreira, o jornal tinha uma tiragem pequena, com uma média de 3

mil exemplares por edição. “O jornal Posição era uma coisa muito pequenininha em relação

aos outros veículos estabelecidos. Não tínhamos nenhuma pretensão de tirar o leitor, nem de

concorrer também”. Sobre a produção, Namy destaca que o jornal foi duramente perseguido, por

isso não era qualquer gráfica que permitia sua impressão. Dificuldade que foi explicitada na

apresentação do jornal, logo no editorial da primeira edição. Conforme lembra Robson Moreira,

“era complicado, tínhamos de mandar para Belo Horizonte, onde o fotolito era feito, depois para a

gráfica de um conhecido nosso em Juiz de Fora, onde rodava e mandava para a rodoviária”.

De maio de 1976 até o final de 1979, período de duração do Posição, é possível perceber três

fases que caracterizam o percurso do jornal. Criado por jornalistas, a primeira é marcada pela

nãoligação a partidos ou organizações e por uma linha jornalística de produção, com a preocupação

de elaborar matérias, reportagens e entrevistas de natureza jornalísticas, embora já se colocasse, não


somente nos editoriais, mas também em outras páginas, opiniões e posicionamentos políticos que

tiravam muito a pretensão de imparcialidade desse primeiro momento.

De acordo com Robson Moreira, a idéia era dizer, em função de uma determinada realidade

início da abertura de uma ditadura muito cruel –, tudo aquilo que há muito não era dito.

Segundo Tinoco dos Anjos, jornalista, que embora não tenha trabalhado, era envolvido com o

jornal na época, “o Posição era um jornal de esquerda que denunciava, criticava e fazia

oposição àquela situação política do País. Batia nisso com força. Eu me lembro de uma matéria de

capa que me marcou muito, sobre o prefeito da Serra, José Maria Feu Rosa. O título da matéria

era assim: ‘Êta corruptozinho de merda’, referindo-se ao fato de ele ter sido apanhado numa

pequena transação desonesta mal feita.

Então, era um jornal que misturava humor com agressividade política, e era um espaço de

combate mesmo”.

A segunda fase, entre 1977 e 1978, é marcada pela inserção de outros profissionais, como

intelectuais e integrantes de movimentos sociais, de forma que, uma vez inseridos nos meios de

comunicação, pudessem se sentir como personagens dessa história. “Fizemos do movimento

popular na periferia a grande matéria-prima para o jornal. Nós não fazíamos para eles, mas, por

meio do jornal, falávamos dos problemas e que, se eles se organizassem, podiam conquistar a vida

que estavam necessitando.

E eles se animavam a conversar com o outro e daqui a pouco, tinha grandes famílias

envolvidas. Era uma situação de abandono, de miséria absoluta, de falta de saneamento básico, de

falta de comida”, descreve Robson Moreira.

Nesse período, surge uma das principais características que distingue o Posição dos demais

jornais daquela época: um conselho editorial. De acordo com Moreira, esse conselho era bastante

diversificado e qualquer um podia participar, desde que freqüentasse as reuniões. As pessoas que o

constituíam nem sempre eram jornalistas; havia também, e principalmente, pessoas da

comunidade, da Universidade, de movimentos, sindicatos, isto é, pessoas que tinham suas

respectivas militâncias, mas que, naquele momento, participavam das discussões e edições do

jornal. Há quem diga que, nesse período, o jornal passou a servir como instrumento dos diversos

movimentos de base e que, por isso, teria deixado de ser um jornal, idéia que vem de encontro ao


que pensa Robson Moreira: “O conselho não fez com que o jornal deixasse de ser jornal. Ao

contrário, caracterizou-o ainda mais, porque a idéia do conselho era normatizar e dar voz a

representantes da sociedade ou da comunidade. A sociedade não é feita somente de jornalistas, e as

pessoas se sentiam presentes nas edições, isso deu a essência do jornal”.

A terceira e última fase está situada no ano de 1979. Mais especificamente, a partir de maio,

quando o jornal passa por uma “mudança radical e profunda”, como é possível verificar no

editorial da edição de número 53 do dia 4 de maio de 1979:

A teorização – como alguns preferirão chamar toda a

argumentação acima – tem também uma justificativa:

acontece que nós, a equipe que faz Posição, resolvemos com

base numa análise detalhada, séria, conseqüente e profunda

da realidade e da conjuntura, assumirmos os riscos e

as conseqüências de uma mudança profunda e radical.

O radical muda, já dissemos, citando Paulo Freire, quando

constata um erro ou equívoco ou quando a conjuntura muda.

Nessas situações, sua análise, sua prática e sua postura

também mudam.

Nós, de Posição, com base no trabalho, nas posições, nas

posturas e nas práticas assumidas durante esses dois anos e

meses de uma existência sofrida e encarada sempre com luta,

destemor e descomprometimento, reivindicamos e

fazemos mesmo questão de assumirmos a qualificação (ou

o ‘rótulo’, o ‘estigma’, a ‘pecha’, ou até o xingamento como

muitos classificarão), de radicais – com todos os riscos e

conseqüências que disso possa advir.

A conjuntura mudou. Assim, não faz sentido continuarmos os

mesmos [...] A conjuntura política, social e econômica

mudou. O Brasil de hoje não é mais o Brasil de há dois anos.

O ‘milagre’ acabou. A crise do petróleo, a crise do

capitalismo internacional, a crise econômica interna do país,

aliados a ‘fissuras’ e ‘rachaduras’ internas do sistema,

somados às pressões populares, trabalham todos,

rapidamente, para quebrar e arrebentar com tudo isso.

Para quebrar e arrebentar com a ditadura.

Visto que esse último momento se concentra, basicamente, no ano de 1979 e que esse período

nos apresenta marcos históricos no que diz respeito ao regime militar vigente, consideramos


importante pontuar alguns desses acontecimentos que marcaram o contexto político nacional, a fim

de suscitar possíveis conclusões acerca do final do jornal. Ainda no final de 1978, o País vive a

revogação do AI-5, aprovada pelo Congresso e sancionada pelo General Geisel. Era um indício de

que um processo de abertura política estava sendo encaminhado.

Este seria o primeiro fato, dos vários que iriam marcar o ano seguinte. Em maio de 79, nas

comemorações do Dia do Trabalho, é lançada a Carta de Princípios daquele que seria em pouco

tempo uma referência política para os trabalhadores: o PT (Partido dos Trabalhadores).

No mesmo mês, ocorre o 31º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), o primeiro

desde 1968, com a presença de 10 mil estudantes, espaço que decide pela realização da

primeira eleição direta da entidade, que aconteceu cinco meses depois, com a participação de mais

de 300 mil votantes. Em agosto e novembro do mesmo ano, duas importantes votações são

aprovadas no Congresso.

A primeira é a Lei da Anistia, que beneficia cerca de 4.500 presos políticos.

Embora a esquerda do MDB (Movimento Democrático Brasileiro)

tenha rejeitado o caráter recíproco e parcial da lei, o general João Baptista Figueiredo sanciona

a anistia limitada, mas, ainda assim, uma conquista. Parte dos presos políticos é libertada e os

exilados começam a retornar ao Brasil. A segunda é a Reforma Partidária, que decreta o fim da

Arena e do MDB e permite que novos partidos sejam criados.

Além das aprovações do Congresso, o final da década de 70 é marcado – talvez como

conseqüência – pelo fortalecimento de outras frentes de luta, como a rearticulação e o

surgimento de diversos movimentos que já eram menos reprimidos e que vão dar o tom à década

seguinte. Paralelamente a esse processo, percebiam-se os efeitos da diminuição da censura oficial

sobre os jornais tradicionais, o que implica o fim do espaço exclusivo da imprensa alternativa, que

atendia às demandas sociais, noticiando e discutindo o que os outros não noticiavam.

Conforme analisa Robson Moreira: “Quando já estava praticamente consolidado o processo de

abertura, a sensação que passamos a ter era de que a imprensa alternativa tinha perdido um pouco

do que a motivava. Várias pessoas que estavam voltadas para a imprensa alternativa começaram a

migrar para partidos políticos, a entender que tudo ia passar agora por uma fase de democracia,

pelo voto, pelo povo. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) começou a aparecer. O PC do B


(Partido Comunista do Brasil) começou já também a botar as garras de fora, e ficou uma militância

mais político-partidária do que militância por uma causa”.

As mudanças propostas no editorial, de fato, foram profundas e radicais. Além de passar a ser

um jornal semanal, o que quebrava uma das principais características do Posição (a crítica quanto à

limitação do tempo), o jornal passou a ter um viés mais partidário, com mudanças – talvez mínimas,

contudo perceptíveis e fundamentais – como a forma de dialogar com o leitor.

A linguagem deixa de ser simples, do povo para o povo, e passa a ser uma linguagem

partidária e para a massa. No início, o jornal dialogava com a comunidade, entrevistando pessoas

comuns, como trabalhadores de rua, pessoas que tinham perdido a terra para a plantação

desordenada de eucaliptos, enfim, cidadãos que contavam suas histórias de vida. A partir daí, o

jornal analisava e criticava o modelo de sociedade que vinha sendo desenvolvido, não só no Estado,

mas no Brasil.

Para Namy Chequer, “o jornal adotou um estilo irônico e mordaz, uma linha com mais humor

e uma dose, não exagerada, de sensacionalismo. Mais para chamar a atenção do leitor e atrair

vendas.

Era uma tentativa de escandalizar as coisas da política”. Nesse período, Luzimar Nogueira

Dias, jornalista e militante do PC do B, falecido num acidente de carro em 1986, assumiu a direção

do jornal, dando mais ênfase aos temas internacionais, às discussões sobre o comunismo pelo

mundo e às questões político-partidárias.

Durante toda a sua trajetória, o Posição abarcou pessoas de várias tendências políticas, todas

naturalmente de esquerda. Namy Chequer acredita que “o jornal ficou realmente inviável,

justamente, quando surgiram divergências políticas entre aqueles que defendiam a fundação de um

partido popular de esquerda (mais tarde veio a ser o PT) e os que queriam a manutenção do

PMDB como forma de melhor combater o regime militar que já dava sinais de decomposição”.

Entre 1976 e 1979, o jornal Posição publicou 65 edições. Edições que, além de serem

fundamentais para compreender a história capixaba, marcaram um posicionamento político

diferenciado frente ao regime militar instalado no País.


“O jornal que depende do leitor”: o Posição entra em cena em 1976


Em 1977, o Posição não conseguiu driblar a perseguição da ditadura


O Posição “expludia” as regras para falar nas entrelinhas


Conflitos e contradições na breve história do Posição


Posição: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”


A Igreja entra com tudo na peleja

Durante o regime militar, A Igreja esteve na vanguarda das mudanças no País e liderou a

frente da reabertura política, escudando os movimentos sociais, sindicatos e partidos que então se

organizavam. Após o Concílio Vaticano II, na década de 60, o ideário da recém-fundada Teologia

da Libertação, baseada na realidade dos povos do terceiro mundo, encontrou campo fértil para se

disseminar pelo Brasil. Segundo esse ideário, a Bíblia deve ser interpretada sob a realidade desses

povos – e não mais eurocentrista, como sempre havia sido. A Igreja deve olhar por seus fiéis sob

uma luz mais social (socialista?) e, na via inversa, a sociedade deve ser interpretada sob a luz do

Evangelho.

Encabeçados por D. Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, um grande número de

clérigos e religiosos em geral adotou prontamente essas idéias no espaço social onde atuavam.

Desse modo, ao longo da ditadura, tivemos, no País, uma Igreja extremamente politizada,

efervescente, atuante nas causas sociais, comprometida com os movimentos que explodiam e,

por tudo isso, diretamente responsável pela rearticulação política da sociedade brasileira. Essa

história já é mais que conhecida.

Em verdade, o que muitos ignoram é que, mais do que ser simplesmente mais um palco de

aplicação dessas idéias, o Espírito Santo constituiu-se no portal principal para que as mesmas

pudessem penetrar no País. Quem explica é David Protti, professor de Comunicação Social da Ufes:

“Quando eu vim para o Espírito Santo, em 1983, encontrei uma Igreja muito mais politizada que

aquela de onde eu vinha [Ribeirão Preto, SP], o palco para a introdução do Concílio Vaticano II no

Brasil. O bispo daqui, D.

João Batista da Motta e Albuquerque, foi para o Concílio II e já quis implantar logo de cara as

novidades, as diretrizes do Concílio – ele e um outro bispo chamado D. Luiz Fernandes.

Então, Vitória foi um grande laboratório para o Brasil inteiro quanto à implantação de uma série de

ações propostas no Concílio Vaticano II, entre elas o conceito e a prática de Comunidades

Eclesiais de Base (ou CEBs)”.

E completa: “Esse movimento foi muito importante porque mudou a atuação dos padres, a

ideologia e a atividade da maioria deles, que passaram a morar junto com as populações pobres


e passaram a ter um papel muito mais engajado, de que a fé está ligada à política também – e

política vai desde a rua, até o movimento comunitário e sindical. Então, nessa época, a Igreja

está muito efervescente e várias pessoas vêm para cá para trabalhar e conhecer essa experiência,

entre as quais Frei Beto e Leonardo Boff ”.

Além dos vários teólogos e militantes em geral, a “Cidade Presépio” (o apelido nunca foi tão

apropriado) passa também a atrair a migração de uma série de missionários europeus, vindos de

países como França e Holanda, que ficavam nas paróquias de Vitória e muito colaboraram para a

implantação dessas idéias progressistas.

Bom exemplo disso é a importância dos padres holandeses na proliferação de grupos de

jovens, como já atestado por Cláudio Vereza: “Os padres holandeses caracteristicamente são

avançados, são liberais, são mais modernos. Eram mais seculares, menos clericais. E uma das suas

atividades foi criar grupos de jovens nas comunidades que acompanhavam”.

Outro que participou das atividades da Igreja através de um grupo de jovens foi Paulo

Soldatelli, que atualmente leciona Comunicação Social na Faesa. No seu caso, com uma

peculiaridade:

até ingressar no grupo, Paulo não tinha absolutamente nenhuma formação católica – o que só

vem a reforçar esse poder de atração sobre os jovens que, então, competia à Igreja.

“A minha família não é católica. Eu entrei na Igreja já com 17 anos, num grupo de jovens,

meio como curioso. E, talvez por não ter uma formação católica tradicional, eu questionava

tudo que havia na Igreja. Quando entrei no grupo de jovens, eu não tinha nenhuma consciência

desse lado mais social. Só que o padre que atuava lá era uma pessoa bastante engajada

politicamente.

Na época, ele era organizador da Pastoral da Juventude e ia acontecer um encontro de jovens,

para discutir um documento da Igreja fazendo uma crítica política ao fechamento do Congresso.

E, como ele era também o padre do nosso grupo de jovens, resolveu fazer um treinamento com

a gente. Então a gente foi para lá para ajudar a discutir o documento”.

Daí em diante, Paulo já havia mordido a isca: “Depois disso, nosso grupo foi fazer um trabalho

em uma penitenciária, com a idéia de levar a Bíblia para os presos. Só que lá, a gente fez toda uma

reflexão sobre a condição de vida deles na prisão. Então, a gente começou a discutir que a estrutura


social era o problema predominante e começou um processo de tentar fazer um trabalho social. E

foi dessa reflexão que surgiu a minha consciência mais política”.

Além dos CEBs, a Igreja passa a se dividir em uma série de pastorais, cada qual arrebanhando

um determinado segmento social.

Tinha-se, então, as Pastorais do Operário, da Terra, do Idoso, do Menor, de tudo quanto se

imagine. Os vários grupos sociais encontravam ali amparo para se organizar, preocupação explícita

da Arquidiocese de Vitória. Ora, se falamos de articulação, estamos naturalmente falando da

comunicação como setor estratégico. E é tendo isso em mente que a Arquidiocese vai começar a

priorizar esse setor.

Àquela altura, internamente, já começavam a brotar aqui e ali algumas iniciativas nesse

sentido. A Arquidiocese, então, já possuía uma pequena gráfica (mimeógrafo, sempre ele), em

que, timidamente, começavam a ser impressas algumas publicações.

Estas, porém, num primeiro momento, tinham um cunho estritamente eclesial. Foi o caso do

Jornal Espírito Santo. Lançado por volta de 1970, por iniciativa do Monsenhor Rômulo – ex-

pároco de Campo Grande –, foi de fato pioneiro nessa linha. Dirigido estritamente aos fiéis,

limitava-se a veicular notícias pertinentes à Igreja.

Assim é que, na balada das transformações, D. João Batista da Motta e Albuquerque vai

montar, em meados dos anos 70, uma equipe para trabalhar especificamente com toda a

comunicação da Arquidiocese. Entre outras atribuições, cabia a essa equipe:

manter no ar a programação regular da Igreja (um programa de rádio e “A Santa Missa em seu

Lar”); produzir o Caminhada, boletim eclesial aplicado nas liturgias, distribuído, até hoje, por todas

as paróquias da Arquidiocese de Vitória; produzir os diversos boletins informativos de natureza

mais política, concebidos justamente para atender às pastorais e promover a já

mencionada articulação.

Como ressalta Cláudio Vereza: “Naquele período, foram publicados na Igreja a maioria dos

informativos e cartilhas temáticas em linguagem popular. Estes veículos não eram noticiosos.

Tinham um princípio muito mais ‘formativo’ do que propriamente ‘informativo’”.

Além disso, mais tarde ir-se-ia acrescentar a principal competência da equipe, isto é, promover

a capacitação de lideranças comunitárias para trabalharem a comunicação em seus


espectivos locus, com base em oficinas para uso dos meios disponíveis (a década de 80 não tinha

nem vídeo-cassete) e discussões temáticas e teóricas sobre as implicações dessa comunicação.

Daquela primeira equipe, ainda nos anos 70, fizeram parte, entre outros: Carlos Zanatta (hoje

em Brasília; então professor desbravador do curso de Comunicação da Ufes, coordenador da equipe

e da Pastoral Universitária); Marlene de Fátima (hoje, Secretária de Educação de Vitória);

Giovandro Marcus Ferreira (hoje, Doutor em Comunicação, na Bahia; à época, assim como Paulo,

estudante de Comunicação); Anselmo Venturin (hoje, dono da Gráfica “Bê-á-bá”); além do próprio

Paulo Soldatelli, que ingressou na equipe a convite do “Professor Zanatta”.

Seu ingresso, aliás, não podia ter sido mais ousado: a TV Vitória queria produzir um programa

religioso, com duração de uma hora, que teria entrevistas e “variedades cristãs”. “E eu fui,

sozinho, o responsável por esse programa, que durou uns três meses.

Hoje eu jamais teria coragem de assumir um programa como aquele. Que maluquice! Só

estudante de Comunicação aceita fazer uma coisa dessas”, recorda saudoso.

Paulo Soldatelli também nos conta sobre um outro veículo de comunicação, o Ferramenta:

“Como eu fiquei trabalhando no setor de comunicação, comecei a ajudar em várias pastorais, para

trabalhar com texto. Mais tarde, fui da equipe de Círculos Bíblicos e passei a fazer os boletins. Era

também da equipe que escrevia o boletim Caminhada, para usar em celebrações. E acabei

sendo convidado pelo Padre Gabriel, que era, na época, o assessor da Pastoral Operária, para ajudar

no boletim Ferramenta”.

A foice, o machado... e a caneta, por que não?

Esta é uma história que merece ser contada em separado. É sobre o boletim Ferramenta, da

Pastoral Operária (P.O.), que elegemos como marco do período. Como em tantos outros

exemplos, era feito pela Arquidiocese, com o propósito firme de servir à organização e mobilização

da P.O., certamente uma das mais emblemáticas. Para recontar essa história, recorremos a alguns

de seus personagens. Pudemos também contar com o grande apoio de Dona Eni Maria de Almeida,


que hoje coordena a Pastoral – ainda na ativa, embora com muito menor vulto. Foi ela quem nos

forneceu as informações mais detalhadas.

No Estado, a P.O. começa a germinar em 1974, como uma associação dos trabalhadores, mas

ainda não como pastoral. Em setembro de 74, houve um encontro no Rio de Janeiro, onde surgiu a

sugestão de se criar uma pastoral, a fim de organizar os trabalhadores. Porque, para usar as palavras

de Dona Eni: “Na época o sindicato era do patrão, né? Eles não atuavam ao lado dos trabalhadores,

eram os chamados ‘pelegos’ que diziam. Dentro dessas dificuldades que os trabalhadores estavam

encontrando...

E muita exploração nas fábricas (muita exploração mesmo), aí eles começaram, através da

Igreja. Então o arcebispo da época (Dom João Batista da Motta e Albuquerque) e o auxiliar

(Dom Luiz Fernandes Gonzaga) organizaram as primeiras reuniões da Pastoral Operária. E o bispo,

reunido em assembléia com os trabalhadores, colocou essa necessidade de criar uma pastoral

que desse apoio aos trabalhadores, pra que eles pudessem se organizar e se reunir para refletir à luz

da palavra de Deus os problemas e a exploração do trabalho (até pra fazer organização de greve por

causa da exploração)”.

E assim, em 1976, era inaugurada, no Estado, a primeira Pastoral Operária do Brasil. Do

surgimento para a mobilização; daí ao jornalismo foi um passo. Idealizado por Padre Gabriel,

nasce, então, o Ferramenta. O nome, aliás, não poderia ter sido mais acertado (certeiro e sugestivo):

por um lado, o jornal como uma autêntica ferramenta (de combate, de luta, de conserto, de

reparo social); por outro, como bem demonstra a ferramenta escolhida em seu logotipo, a união, a

ligação, a articulação entre as partes de um conjunto.

Padre Gabriel Felix Roger Maire (01-08-1936/23-12-1989) foi um daqueles missionários que

se transferiram para cá no embalo do Concílio II, com vistas a fortalecer as CEBs. Por muitos anos,

coordenou a P.O., tendo participação decisiva nas lutas dos trabalhadores capixabas. Em 1989,

acabou assassinado, quando apoiava, em Cariacica, um movimento de desabrigados, num crime até

hoje em aberto. Quem nos conta melhor a história é Dona Eni: “Foi por motivo político. A história

foi lá em Cariacica. Ele estava lutando por um local pra colocar um conjunto de famílias que não

tinham onde morar. E ele estava lutando pelo terreno lá. Mas os políticos de Cariacica, na época,

não queriam. Até que o povo ganhou o terreno, fizeram os barracos e ficaram. Mas a perseguição


continuou. Aí, um dia, ele foi fazer um casamento em Castelo Branco, aí na volta dele... O caso foi

investigado, mas acho que houve mesmo é compra de justiça”.

Paulo Soldatelli complementa: “Se alguém mandou matar, foi alguém muito importante que

até hoje a gente não sabe. Teve todo um processo de apuração, mas, infelizmente, por enquanto, a

versão oficial é de que foi um assalto”.

Outra peça-chave nessa fase inicial do Ferramenta foi Cláudio Vereza. Na época, já tendo

deixado O Encontro – jornal nascido espontaneamente no movimento popular do bairro Aribiri,

em Vila Velha –, Cláudio ganhava dois (!) salários mínimos para trabalhar no Centro de

Documentação das Igrejas de Vitória (Cedives), atrelado à Arquidiocese. Um dia, foi surpreendido

com a encomenda: a P.O., por meio de Padre Gabriel, queria que ele elaborasse um jornalzinho para

a classe operária, assim, assim e assado. Para Cláudio, a proposta era bem clara: “O Ferramenta,

seguindo a linha daqueles boletins – alimentar e fortalecer as CEBs e, por conseguinte, os

movimentos sociais – deveria estimular um movimento sindical combativo, encadear a formação de

lideranças para atuar na sociedade”.

Aceita a tarefa, Cláudio, em parceria com Tereza Cogo – hoje sua esposa –, “assinou” as

primeiras edições do informativo.

“Passado um ano, ele andou com as próprias pernas”. Esse “an- dar com as próprias pernas” a

que Cláudio se refere na verdade se deve ao trabalho da equipe de comunicação então já

composta na Arquidiocese – ou o “Grupo dos Responsáveis”, como era chamada por Padre Gabriel.

Somando-se à equipe (mais ou menos seis membros a cada época), havia pessoas que eram

voluntárias ou não eram da Pastoral Operária.

O Ferramenta era um boletim pequeno, de oito páginas, cada qual trazendo um assunto. Sua

distribuição era feita entre os grupos da P.O.. Era bancado pelos trabalhadores, que compravam

o seu boletim (o capital...). Mas qual era, afinal, seu conteúdo? Fala aí, dona Eni: “Sobre o

trabalhador no seu campo de trabalho. As lutas. Eleições também, para que na época de eleições os

trabalhadores pudessem se organizar para votar certo, porque naquele tempo o voto era de cabresto.

Os colonos tinham que votar no candidato que o fazendeiro indicasse. E a P.O. trabalhou muito com

os trabalhadores pra acabar com isso. Libertar os trabalhadores rurais e mesmo os daqui, porque os

empresários também dominavam, né?”.


Concluímos, então, um propósito bem diverso daquele que vimos, por exemplo, no jornal

Caminhada, conforme enfatiza Paulo: “Era uma reflexão muito mais ligada à realidade, era

para estimular os grupos da Pastoral Operária a refletirem sobre a realidade, com pouca referência

religiosa. Lógico que tinha, volta e meia, uma fala bíblica, uma ou outra citação...”.

O Ferramenta atingia todas as dioceses do Estado (Vitória, Linhares, São Mateus, Colatina e

Cachoeiro). Tanto que, na época em que algumas pessoas foram mortas pela perseguição dos

fazendeiros em Pancas e Linhares, onde morreram vários trabalhadores, o jornal registrou tudinho.

O grande mérito do jornal, como porta-voz da Pastoral Operária, foi de ter sido, indiretamente,

um dos fatores que, em 1978, culminariam na greve da construção civil, primeira durante a ditadura

militar no Espírito Santo. É aí que alguns sindicatos começam a ser tomados pela oposição e é

fundada a CUT no Estado. No campo, ocorreu um processo semelhante, que tem como marco a

fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Colatina.

Mas que ninguém pense que tudo foi só flores. “Teve uma época”, relembra Dona Eni, “em

que os sindicatos tentavam entrar nas fábricas pra distribuírem os boletins, mas não deixavam

eles entrarem. Era muito difícil... Muitas vezes, os trabalhadores tinham que distribuir escondido”.

Os (Ir)responsáveis

Como dissemos, havia também por parte da Arquidiocese, sob o comando de D. João Batista

da Motta e Albuquerque, a preocupação em capacitar as lideranças populares em

comunicação alternativa (nesse caso, comunitária). A Igreja, de certa forma, era um centro onde se

faziam treinamentos para o pessoal das Comunidades Eclesiais de Base e, junto com elas, os

movimentos sociais que existiam (praticamente todos vinculados à questão religiosa). Assim, vira e

mexe, havia os cursos nessa área, ministrados pela assessoria de comunicação. Entre os instrutores,

Anselmo Venturin: “Essas oficinas eram voltadas a agentes comunitários dos bairros. Tinha gente

também da Juventude Operária Católica (a JOC). E esse pessoal queria aprender a fazer

comunicação.

Então, por exemplo, num treinamento de fazer impressos, a gente reunia lideranças de vários

lugares e fazia algumas explanações teóricas de comunicação, oficinas de fotografia, o pessoal


ensaiava e por aí vai. Formavam-se pequenos grupos e cada um escolhia um tema ou região quando

ia experimentar fazer o jornalzinho. E, sob a nossa orientação, eles faziam desde a fotografia, até

escolher o tipo de letra, as frases de efeito, e íamos construindo juntos o produto final”.

Mas será que isso dava certo? Dali saíam muitos jornaizinhos locais? Venturin responde:

“Bem, aí o pessoal ia para as comunidades.

Às vezes implementavam, às vezes, não. Mas eram jornaizinhos, não era como a idéia que nós

fazemos hoje de jornal, algo que circula periodicamente. Era um material que vinha para atender a

uma necessidade de um momento específico da região, de uma luta, de uma comemoração. Uma ou

outra vez saíam dois, três exemplares. Mas eram tentativas de levar uma outra realidade que não

fosse da imprensa oficial – na época, restrita ao jornal A Gazeta”.

E Paulo Soldatelli arremata: “Tinha também um curso que a gente chamava de ‘Leitura Crítica

dos Meios de Comunicação’.

A gente fez um áudio-visual, com roteiro do Carlos Zanatta, que era ‘Quem não se comunica

se trumbica’. São dicas para as organizações populares tentarem usar os meios de comunicação

de uma forma interessante, inclusive os impressos. A gente incentivava manifestações, para chamar

a atenção da imprensa. Fazer a ‘Festa do Buraco’, esse tipo de coisa...”.

Em suma

Sobre a atuação da Igreja no período, Davi Protti – que, nos anos 80, também se juntaria ao

“Grupo dos Responsáveis” – resume:

“Embora, no fundo, os jornais tivessem esse cunho político, a própria Igreja era política, então

a gente não se esforçava muito para fazer a coisa. Só o fato de você divulgar as atividades da Igreja

já dava uma visão diferente”.


Aperta-se o primeiro parafuso: edição n° 1 do Ferramenta


... assim como as grandes causas políticas do País...


... e a conscientização do povo para o exercício da cidadania


A morte do padre Gabriel, devidamente registrada. Partia, então, o grande

idealizador do Ferramenta; seu exemplo, porém, ficou para todos os que lutam pela

emancipação do ser humano


As duas últimas décadas do século XX

Comunicação para olhos embotados de cimento e lágrima – um panorama

do jornalismo sindical no Espírito Santo

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir A certidão

pra nascer e a concessão pra sorrir Por me deixar respirar, por

me deixar existir, Deus lhe pague.

(Chico Buarque – Construção)

Este é um tema que muitas vezes passa despercebido tanto para nós, autores deste livro e

estudantes, cujos olhos embotados ora de apatia ora de impulsos revolucionários não enxergam a

real importância desse tipo de comunicação, como para a sociedade em geral, cuja visão de mundo

é passada em grande parte por olhos um tanto astigmáticos da chamada grande imprensa.

É complicado definir um marco histórico inicial para o jornalismo sindical no Brasil, mas não

é muito difícil estabelecer os momentos de maior relevância desse veículo que tem como um dos

principais objetivos dialogar com a classe trabalhadora.

Como bem sinaliza Vito Gianotti (1997) – a quem muitos profissionais na área gostam de

chamar o “papa da comunicação sindical” –, o objetivo desse tipo de comunicação não é algo

abstrato, mas palpável. Está intimamente ligado à ação. Um bom veículo de comunicação sindical é

aquele que consegue dialogar com os trabalhadores sobre sua condição de classe explorada.

A comunicação sindical, assim, tem vários papéis: esclarecer, formar e mobilizar forças em torno

não só de lutas gerais, mas de específicas também:

A comunicação sindical, quando bem feita, convence e leva à

ação. E esta ação não é simplesmente ir ou não ao cinema.

Comprar ou não um sapato novo. A ação proposta pela

comunicação sindical traz resultados que podem mudar a vida

de uma pessoa. Ou se ganha ou se perde. Se tal ação obteve

os resultados, estes estão ali, na frente, não na mão, no bolso,

no dia-adia.


No dia seguinte a uma luta vitoriosa, o resultado se faz sentir.

O salário aumentou. A carga horária diminuiu” (Santiago &

Gianotti, 1987, p. 42).

Mais do que abordar assuntos relacionados à categoria (chavão usado por 10 entre 10

sindicalistas), o jornalismo sindical tem (ou deveria ter) a missão, digamos, oftalmológica de dar

interpretações mais críticas de mundo aos “olhos embotados de cimento, lágrima e tráfego” (como

canta Chico Buarque) dos trabalhadores brasileiros.

Onde encaixar, então, o jornalismo sindical neste livro senão no espaço conquistado pelo filho

caçula e, a princípio, não planejado – porém muito querido quando concebido –, como este capítulo

dedicado à imprensa alternativa capixaba? Afinal, a imprensa sindical também é alternativa? A

seguir, uma pequena análise sobre a caminhada de um importante setor da sociedade, o

sindicalismo. As conclusões ficam por sua conta, leitor, porque nós mesmos ainda não chegamos a

elas.

O boom do sindicalismo: do peleguismo às lideranças combativas

Em sintonia com o movimento nacional, as forças sindicais capixabas tomaram um novo rumo

a partir do final da década de 1970. A movimentação, inicialmente localizada no ABC

Paulista, difundiu seus efeitos para várias localidades do País, configurando um novo momento na

história sindical brasileira, conhecido como “novo sindicalismo”. Uma vez que o País ainda vivia

sob a égide do militarismo, as estruturas sindicais vigentes se contrapunham à política trabalhista do

governo autoritário. A intervenção estatal – sustentada pela Consolidação das Leis

Trabalhistas (CLT) – nas relações de trabalho era presente no cotidiano dos trabalhadores, os quais

reivindicavam a negociação coletiva entre sindicatos e empregadores sem a intervenção do Estado;

o direito irrestrito à greve; liberdade e autonomia sindical; e a organização dos assalariados no local

de trabalho (Colbari, 2003).

No Espírito Santo, grupos da oposição sindical no campo e na cidade, juntamente com

trabalhadores assalariados (em especial, médicos, professores, bancários e jornalistas)

protagonizaram o movimento de renovação sindical no Estado. De acordo com o diretor da TV


Educativa do Espírito Santo, militante do PT, exsindicalista e aluno da primeira turma de

Comunicação Social da Ufes, Tinoco dos Anjos, “tivemos aqui um período muito quente no

sindicalismo, talvez o período em que o Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo teve mais

mobilização, mais embate aos patrões”. Tinoco teve a oportunidade de conviver diretamente com

isso na época em que foi presidente do sindicato. “Eu fui o segundo presidente do Sindicato dos

Jornalistas e virei sindicalista.

Comecei em 1982 e fiquei nessa vida de sindicalismo durante 12 anos. No nosso período no

sindicato, fizemos o jornal dos jornalistas, fazíamos os boletins. Os sindicatos sempre

criam instrumentos de comunicação e também fizemos os nossos. Era um dos instrumentos de luta

e aquele sonho de ter o próprio veículo”.

O grupo da construção civil (cuja formação data de 1974), estimulado pela Pastoral Operária e

pela Federação dos Órgãos de Assistência Social e Educacional (Fase), protagonizou a

participação efetiva em campanha salarial, disputa de eleição sindical, assembléias com até 5 mil

trabalhadores, e deflagrou a primeira greve no Estado após o golpe militar. A paralisação de

nove dias, que não acontecia havia 35 anos, em setembro de 1979, é considerada um marco na

retomada do fôlego sindical capixaba (Colbari, 2003).

É interessante comentar que, nessa fase de transição entre o recomeço da mobilização

proletária até a tomada dos sindicatos pelas lideranças combativas, os grupos de oposição sindical

aos ditos “pelegos” tiveram uma ligação importante com a Pastoral Operária (inspirada pela

Teologia da Libertação) e com grupos de orientação marxista.

Entre as estratégias para mobilizar as categorias, os informativos impressos eram uma espécie

de arma tanto ideológica como comunicacional para munir os trabalhadores de inspiração e

força numa luta coletiva. Tanto que em 1980, durante o 1º Encontro Estadual de Oposições

Sindicais, mais de 3 mil exemplares do informativo Voz do Metalúrgico foram distribuídos nas

portas das fábricas.

No entanto, com a tensão política fumegante no início da década, muitos operários que

tentavam entrar nas indústrias para distribuir os boletins sofriam represálias por parte dos patrões.

Outras experiências na área da comunicação impressa tiveram um certo destaque durante essa

efervescência sindical no Estado, como é o caso do boletim do Movimento do Transporte Coletivo,


em 1979, de O Araçá (dos Ferroviários), em 1981, e do Informativo Metalúrgico (que depois virou

Boca de Forno), dos trabalhadores da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), que reforçaram

o movimento de oposição já em 1984 – além do Boletim Ferramenta.

Como esses informativos impressos eram manifestações relativamente isoladas, ou seja, não

tinham uma periodicidade muito concreta – uns ainda eram mensais, mas outros saíam por causa de

uma data específica ou quando o grupo tivesse verba –, não nos dedicamos a relatar as experiências

distintas de cada um deles.

Reconhecemos, entretanto, a importância de cada veículo como contribuição para a

comunicação alternativa na época, uma vez que o conteúdo propagado nesses informativos

dificilmente seria veiculado pela imprensa comercial do Espírito Santo.

Toda a movimentação no final da década de 1970 e início de 1980 resultou em alguns

Encontros de Classes Trabalhadoras (Enclats), que reuniam várias entidades e sindicalistas

dispostos a formar grupos de oposição para tomar os sindicatos das mãos dos pelegos, o que, ao

final, acabaria com a criação de uma central de trabalhadores. Mesmo nos grupos oposicionistas,

diferentes frentes político-ideológicas eram encontradas, mas, ainda assim, disputavam a liderança

sindical. O primeiro Enclat-ES (os encontros aconteciam em todo o País) foi em agosto de 1981, e,

na ocasião, foi criada uma comissão Pró-CUT/ES. O segundo Enclat foi em junho de 1982, com o

objetivo de preparar a fundação da Central Única dos Trabalhadores. Esta, por sua vez, foi fundada

em de agosto de 1983, resultante da Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (Conclat), em

São Bernardo do Campo (SP). No Espírito Santo, em maio de 1984, a Comissão Nacional da CUT

organizou o primeiro Ceclat (Congresso Estadual da Classe Trabalhadora no Espírito Santo).

Assim, estava sendo criada a CUT/ES, reunindo, a princípio, trabalhadores do campo, da

construção civil, ferroviários e comerciários. Estes últimos foram os primeiros a se filiar à Central,

cuja direção ficou a cargo do então presidente do Sindicomerciários da época, João Coser, hoje

prefeito de Vitória e militante do Partido dos Trabalhadores. A partir da criação da CUT, os rumos

do sindicalismo começaram a se “estabilizar”. As diretorias sindicais pelegas foram perdendo

espaço para a oposição. Os sindicatos, conseqüentemente, ficaram mais fortes e pretendiam deixar

o caráter corporativista e assistencialista para trás.


Toda essa contextualização histórica se faz necessária para entendermos o processo de criação

e sustentação da imprensa sindical capixaba. Como já foi citado, os jornais de sindicato

começaram a surgir no começo da década de 80, com edições esporádicas e sem um projeto

editorial (e principalmente gráfico)

distinto. Tudo acontecia “no susto”. As edições saíam por conta da movimentação em torno de

uma greve e por necessidades pontuais de determinada categoria. Pela quantidade de

sindicatos existentes hoje no Espírito Santo, fica difícil fazer um relato sobre todos aqueles que

produziram ou produzem algum tipo de jornal impresso. Vamos nos ater aqui, então, a análises

feitas em conjunto com quem trabalha diretamente no campo da comunicação sindical no Espírito

Santo.

O desenrolar da comunicação sindical capixaba

No Espírito Santo, de acordo com uma pesquisa do IBGE (2001), existem aproximadamente

196 sindicatos, dos quais mais de 60 são filiados à CUT. Dentre estes, os que possuem

uma publicação impressa mais regular são: Sindibancários, Sindprev/ ES, Ferroviários, Petroleiros,

Construção Civil, Professores da Rede Pública, Professores da Rede Privada, Professores da

Ufes, Sintufes, Sindialimentação, Sindipúblicos, Sindicato dos Trabalhadores de Empresas de

Limpeza Pública, Sinergia e Sindisaúde, além da própria CUT, que mantém uma espécie de jornal –

o qual, porém, não tem uma periodicidade certa.

O fato é que – e aqui temos como objeto de estudo a imprensa cutista – a maioria dos

sindicatos não tem uma publicação regular.

Seria apenas um empecilho financeiro? Na visão do jornalista da CUT/ES, Edílson Lenk, “o

problema é não enxergar a comunicação como estratégica. Quando se disputa uma eleição,

a secretaria de comunicação é uma parte a ser negociada. Ninguém fala ‘eu quero a comunicação’, a

pessoa aceita a comunicação”.

Assim, por mais que ele afirme que a Central tenha uma preocupação com a comunicação, o

investimento nesse setor é visto por algumas lideranças apenas como um custo a mais, e não


como uma mobilização trabalhadora em potencial. A seguir, um trecho da entrevista com Edílson

Lenk, em setembro de 2005:

Quando começou a produção de um jornal impresso da

CUT no Espírito Santo? Como foi esse processo?

Começou muito esporadicamente. Tivemos três jornalistas até

hoje: a Magda Carvalho, a Tânia Mariano e eu. Elas ficaram

pouco tempo e, nessa época, o jornal não tinha periodicidade.

Quando eu entrei, nós tínhamos um jornal semanal (eu

estou aqui há nove anos), que era distribuído por boy.

Eram distribuídos para as entidades, que distribuíam para a

base. Depois disso teve um tempo em que a CUT teve uma

crise financeira miserável (1998- 2000). Ela quase fechou as

portas. Foi após a crise que a comunicação da CUT mais

produziu, assim, sem um projeto gráfico, sem periodicidade,

mas foi quando mais produzimos. Então, hoje, editamos

um jornal diário on-line, que é mandado por e-mail. E temos

um jornal impresso. O nosso planejamento é para que ele seja

mensal, mas, devido ao acúmulo de trabalho na secretaria,

optamos por fazer jornais temáticos.

Na sua opinião, como jornalista que atua na área sindical

há algum tempo, qual a importância do jornalismo

sindical? Ele é inserido, de alguma maneira, no

jornalismo alternativo?

Olha, apesar de ele ter uma cara bastante institucional, não deixa

de ser alternativo quando se contrapõe ao que a grande mídia

fala e quando se interessa por questões caseiras mesmo. E foi o

jornal sindical que ensinou a grande mídia a colocar

nos cadernos assuntos de interesse doméstico. Isto

foi desenvolvido a partir dos primeiros anos da CUT,

o interesse de desenvolver o jornal e mantê-lo dentro de casa,

com a família. Ele também é alternativo porque não é vendido e

porque é feito e assumido como um jornalismo parcial. Nós

estamos aqui para falar a nossa opinião, não tem espaço pra

ouvir o outro lado no jornal, levar para defesa de opinião

do meu adversário.

Na sua opinião, qual a importância da imprensa sindical?


Acho que a principal importância é que ela é um instrumento

mobilizador. Ela não existe só na época da negociação coletiva,

nem só para fazer uma campanha da categoria. Ela perdeu esse

caráter corporativista ao longo do tempo. Ao mesmo tempo em

que trata de questões da vida funcional daquela categoria que

representa, ela discute também concepção de mundo, de

governo. É formativa, tem um caráter educacional, ao mesmo

tempo em que tenta unir forças das categorias.

Enquanto alguns sindicatos mantêm, com muita dificuldade, um boletim impresso em folha

A4, fruto de um trabalho quase artesanal, outras entidades possuem uma verdadeira estrutura de

redação para a produção de seus veículos. O Sindicato dos Bancários do Espírito Santo (SEEB-ES),

por exemplo, tem uma equipe com dois jornalistas, um diagramador e um fotógrafo para produzir o

Correio Bancário (quinzenal, gratuito, tiragem de 8 mil exemplares) e o Mulher 24 Horas

(mensal, gratuito, 7 mil exemplares).

A primeira edição do Correio Bancário é de 1979, mas o jornal nem sempre foi mensal.

Como explica uma das jornalistas do SEEB-ES, Adriana Machado, “não havia a consciência quanto

à importância da regularidade, nem quanto à forma. Hoje, ele tem um padrão, teve todo um

investimento no projeto gráfico a partir da década de 90”. Ainda sobre a importância da

periodicidade:

A falta de regularidade é um dos aspectos do amadorismo da

nossa comunicação (...) O boletim que tem periodicidade,

seqüência de temas e propostas pode influenciar pensamentos

e determinar ações (...)

Como responder aos ataques diários que a burguesia faz aos

trabalhadores via Jornal Nacional, via Hora do Brasil, via

Edir Macedo, via todos os ministros e juízes dos supremos

tribunais, via os Sílvios Santos, os Gil Gomes, as Hebes e

Xuxas? Certamente, se um sindicato se limitar a publicar um

boletim de vez em quando, já entrará derrotado na batalha

pela conquista da cabeça, do coração e de todo o corpo do

trabalhador. (Santiago & Gianotti, 1987, p. 106).

Por esse caráter amador, muitas pessoas pensam que o jornalismo sindical e alternativo deva

ser rudimentar. Adriana Machado explica o contrário: “Foi tudo pensado mesmo. Pensando que


a imprensa alternativa não deva ser uma imprensa panfletária, uma imprensa feia. Ser alternativa,

mas com um padrão de qualidade sim, por que não?”.

Ao analisarmos o Correio Bancário, é possível verificarmos a mudança de conteúdo pela qual

passou o jornal. Na época de sua criação, o caráter assistencialista dividia um espaço grande com as

informações sobre a categoria e as matérias mais políticas.

Vale lembrar que, nessa época, o sindicato ainda estava nas mãos dos pelegos, mas que os

próprios pareciam manter uma postura de enfrentamento aos banqueiros dentro do jornal. “Acho

que mudou muito mais a linguagem do que as idéias propagadas.

Você vê que esse período de 1979 a 1985 ainda é um período de peleguismo, mas de uma

absorção de outra postura. Porque eles sabiam que se, não fizessem isso, iam acabar perdendo para

a oposição. Pelas manchetes, você não vê nada do retrato do peleguismo.

Esse peleguismo acontece mais na prática, como quando você propõe uma greve”, considera

Adriana Machado.

Na verdade, como o Correio estava nas mãos dos pelegos ainda no começo da década de 80,

após a eleição de 1982 para a diretoria do sindicato (na qual a chapa da situação saiu

vitoriosa), surgiu um veículo da oposição unificada dentro do SEEB, o Mobilização Bancária. Eis

o seu editorial de estréia:

Esse é o primeiro boletim de uma série que pretende ser

periódico. Ele pretende cobrir uma lacuna que sempre existiu

na categoria bancária, porque o boletim do sindicato – o

Correio Bancário – sempre foi muito irregular e não traz

notícias realmente quentes, de interesse da categoria, apesar

de ser graficamente bonito e evidentemente caro.” (Tosi et al.,

1994, p. 129)

Para a direção sindical da época, o Mobilização Bancária era um “informativo bastardo”. O

embate entre os dois veículos era intenso, mas a proposta de regularidade do Mobilização acabou

se esvaindo e o boletim deixou de existir.

Além do Correio, o SEEB-ES – a partir de 1994 – produz o Mulher 24 Horas, como reflexo

de um trabalho de organização das mulheres bancárias. De acordo com Adriana, “o Mulher 24

Horas tem um caráter diferente do Correio. Ele é crítico e questionador, mas tem o toque da


feminilidade. Tem uma linguagem mais do jornalismo comportamental, embora seja um veículo

bem crítico”.

Jornal do Sindicato dos Ferroviários ES/MG


Jornal da CUT/ES sobre os 22 anos de fundação da entidade


Primeira edição do Correio Bancário, abril/maio de 1979


Edição atual do Correio Bancário, que circula em cores


Número zero do Mulher Bancária, que hoje é o Mulher 24 Horas


Uma voz fragmentada: muito mais desafios que perspectivas

Uma das questões a serem pensadas sobre o jornalismo sindical como um todo é a

fragmentação dos veículos impressos. Segundo Vito Gianotti, se juntássemos todos os boletins e

jornais feitos pelos sindicatos, teríamos um verdadeiro jornal nacional, pois essas produções

somam, aproximadamente, sete milhões de exemplares semanais. Os jornais e informativos, porém,

encontram- se dispersos, esporádicos. É perfeitamente compreensível que cada movimento popular

e social e cada sindicato tenha suas próprias demandas a partir de um contexto regional, mas é

uma pena realmente que, de fato, essa imprensa esteja fragmentada e com a história não muito bem

preservada. Prova disso é a própria pesquisa que culminou na elaboração deste capítulo.

Seria praticamente impossível resgatar a memória de toda a imprensa sindical capixaba, uma vez

que muitas dessas reminiscências já estão esquecidas/perdidas.

Outra questão é a produção, de fato, de um veículo impresso desse porte. Por mais que a

comunicação sindical possa ser inserida num contexto alternativo, há algumas diferenças entre ela

e a comunicação popular, por exemplo. Aí está a grande dúvida: o alternativo só estaria impregnado

no perfil ideológico do projeto editorial? Alternativo não seria, também, se a base pudesse

produzir seu próprio meio de comunicação, ao invés de somente ter o produtor do jornal, no caso

um jornalista responsável, como seu interlocutor?

É fato que, independentemente de cada categoria ter suas próprias bandeiras de luta, verifica-

se um período de refluxo após a efervescência do sindicalismo na década de 80. E este

certo retrocesso, “muitos dizem por aí”, deve-se à perda de um referencial.

O que buscamos, como movimento social, para eclodir numa agitação em massa? O que falta

para nós, enquanto sociedade civil, aglutinarmos forças em uma luta uníssona?

O Alfabeto certo

Ao longo de nossa pesquisa nos acervos de Vitória, conseguimos coletar um considerável material

impresso. Reunimos uma amostra significativa do que foi a produção alternativa nos últimos, digamos,

30 anos. Folheando tais publicações, em especial aquelas dos idos de 70 para 80, características dos


movimentos populares então insurgentes, impressionam as várias estratégias de linguagem que elas

empregavam para fazer chegar a sua mensagem àquele público-alvo bem localizado a que se

direcionavam: em geral, pessoas que, na escala societária, ocupavam as camadas C, D e E; pessoas,

portanto, com um baixo grau de escolaridade.

Tais estratégias são em tudo discrepantes às técnicas de discurso aplicadas nos jornais de grande

circulação. Basta que se folheie brevemente alguns poucos exemplares de publicações dessa ordem para

se identificar alguns traços bem marcantes e que, basicamente, repetem-se em todas elas, quais sejam:

1) Um texto muito mais direto e objetivo, em todos os sentidos que esses adjetivos possam ter.

Quase via de regra, o enunciador se dirige diretamente ao leitor e o faz na linguagem mais

simples possível. Por “simples” entenda-se uma linguagem “enxuta”, popular, coloquial, muitas vezes

até vulgar, para assegurar que a comunicação se estabeleça. O vocabulário é o mais acessível – o que,

vale frisar, não quer dizer desrespeito ao Português –, reduzido às palavras que são de conhecimento

coletivo. O discurso, não raro, revela um tom didático, visando a transmitir mensagens evidentemente

educativas. Há, também, um flerte constante com o lúdico, que se expressa de maneiras variadas.

2) Salta aos olhos, sobretudo, o uso extremado de quadrinhos, charges e ilustrações em geral, ora

para adornar o texto, tornando- o mais agradável, ora para se somar ao texto, complementando a sua

mensagem, ora realmente em seu lugar, quando corresponde à própria mensagem. É notável a maneira

como se apelava reiteradamente a essas linguagens como estratégias de discurso, aproveitando-se todo

o ludismo que elas encerram.

Com efeito, a recorrência aos quadrinhos aponta como estratégia com o fim deliberado de atingir,

de maneira mais precisa e abrangente, um público sabidamente pouco afeito à leitura da palavra escrita.

Assim, freqüentemente, vemos o texto verbal dando lugar ao texto visual, às vezes mais direto e

infantil, às vezes um pouco mais elaborado em charges que contêm mensagens mais sutis nas

entrelinhas. Fica clara a intenção primordial de fazer entender a mensagem, garantir que ela seja

devidamente assimilada, em detrimento de qualquer preocupação estética e formal.

Vejamos o que os sujeitos dessa imprensa alternativa têm a dizer sobre essa questão:

Andressa Rebonato – assessora de Comunicação do PT-ES, produz boletins informativos

para vários movimentos sociais.


Jornal de massa X jornal alternativo

A primeira grande diferença é o texto. No jornal alternativo, o texto é mais curto, é mais

objetivo. E para cada área é um texto um pouquinho diferente, um jeito de falar diferente. Do

interior para a cidade, entre os próprios municípios. Cada município tem a sua especificidade,

cada setor tem sua particularidade.

Por exemplo, tem gente que me diz: ‘Andressa, o povo lá não quer ler nada’. Então, espera aí,

a gente usa uma ilustração para prender a atenção da pessoa, e depois complementa com um texto.

Na ilustração, você já diz metade do que quer dizer, quando não diz tudo.

Trabalhei por um tempo em A Tribuna e ainda uso muito do jornal para fazer esses jornais,

no que diz respeito ao estilo, porque A Tribuna é bastante popular. Mas, às vezes, eu peco no

sentido de deixar de dizer algo no jornal porque em A Tribuna eu não falava. E penso: ‘Pô, eu

podia ter falado isso...’. No jornal alternativo, você não só pode como deve assumir sua posição.

Não tem aquela coisa de pensar: ‘Ah, será que eu posso dizer isso?’.Não, você conversa com a

pessoa e pensa: ‘É isso que eu devo dizer’. Aí você vai passar, como acha que deve passar.

O jornal alternativo tem esse lado de você poder ir mais profundo, dizer o que está mesmo

acontecendo, dar uma informação, dar o seu ponto e depois fazer o cruzamento e dar uma

resposta. E isso você não pode fazer na mídia.Em A Tribuna, eu tive muitas matérias cortadas e

jogadas fora, porque eu não podia dizer alguma coisa. O que vale mesmo é o conselho editorial.

Milson Henriques – jornalista/chargista de intensa atuação durante os “anos de chumbo”.

O ciclo vicioso

Autores: Vocês da classe artística, jornalística e intelectual tinham essa preocupação de chegar

ao povo, sensibilizá-lo e chamar sua atenção para as causas?

Era um beco sem saída, porque a gente tinha que fazer com tanta sutileza que o intelectual

entendia, o estudante entendia, mas o povão não entendia.


Autores: Você faz alguma autocrítica quanto a isso? Não faltava talvez mais objetividade ou

uma estratégia de discurso mais acessível?

Não. Tinha que ser mais acessível, mas aí a censura proibia. Se a gente fizesse uma coisa

muito aberta, a censura entendia e não “passava”, então a gente procurava ser sutil. Mas aí não

adiantava, porque o povo não tinha cultura para entender a sutileza. Era muito difícil...

Paulo Soldatelli – professor de Comunicação; trabalhando pela Arquidiocese, produziu uma

série de jornaizinhos para movimentos populares, atuando, inclusive, como ilustrador.

O texto visual

O jornalista, em geral, talvez por trabalhar com texto escrito, não consegue trabalhar com a

imagem que está ligada ao texto. E eu, talvez por gostar tanto de quadrinhos e fazer quadrinhos

quando era pequeno, também desenvolvi bastante uma maneira de pensar visualmente. E a imagem

às vezes pode ser vista como um enfeite do texto, mas o mais importante é quando ela é um

complemento ou quando é a própria mensagem.

Então, em alguns momentos, a imagem era a mensagem, o texto só dava detalhes. No

Ferramenta, a maior parte dos conceitos era traduzida em imagem. Isto eu levei para o movimento

sindical. Como a gente trabalhava com pessoas que liam muito pouco, o texto tinha que ser muito

simples, muito direto, e a imagem é uma linguagem mais direta”.

Desirée Cipriano – professora de Comunicação, sempre pautou sua atuação dentro da

comunicação comunitária; em Minas Gerais (sua terra-natal), ajudou a escrever alguns jornais de

cunho popular, dentre eles o Pelejando (editado pelas coordenações estaduais da Pastoral da Terra,

Pastoral Operária e CEBs).

O Pelejando era um jornal feito para pessoas que não têm hábito de leitura. Então, ele tinha

um corpo maior, um entre-linhamento maior, muito branco, muito espaço, ilustrações... Uma coisa

era a própria falta de dinheiro para fotografia. Era muito complicado. Mas a outra é que a gente


descobriu que, às vezes, você fazia um artigo bonito, na linguagem adequada, preparado no

tamanho certo, mas as pessoas discutiam a partir da ilustração; não discutiam o artigo.

Às vezes, a ilustração até diz mais. E as pessoas podem participar mais.

Então, nós temos que caminhar para isso. Nós temos que fazer um jornal que as pessoas

possam ler e em que possam se reconhecer e se tornar parte de sua história. Não é um jornal como

a Folha de São Paulo, que as pessoas podem ler, mas quem? As pessoas da elite. Eu tenho que ser

alternativo em abrir essa mídia a outras pessoas também, para que elas possam ler também.

Então você é alternativo também trabalhando o formato.

Da década de 90 aos dias atuais

Sobre refluxos, crises e algumas perspectivas – o jornalismo alternativo na

contemporaneidade

Para uma análise minimamente satisfatória de qualquer aspecto da sociedade que se estude, é

primordial a compreensão do seu entorno, da conjuntura na qual esse objeto de análise se insere,

da qual sofre influência e que também influencia.

Assim, falar do jornalismo impresso alternativo capixaba a partir da década de 90 é,

essencialmente, falar do que aconteceu com os movimentos sociais de esquerda nesse mesmo

período. E falar desses movimentos sociais é necessariamente falar do que ocorreu e ocorre no País

e no mundo, das profundas mudanças políticas, econômicas e culturais que sucederam nessas

décadas.

Mas é preciso deixar clara uma coisa: esse período não é isolado historicamente, ele está

dentro de um processo. Portanto, a década de 90 não começa exatamente no dia 1º de janeiro

de 1991, mas ainda antes – as suas raízes estão em acontecimentos anteriores.

Nós, ao pretendermos abordar a crise do jornalismo alterna- tivo que se deu em tal década,

podemos sublinhar alguns fatos que, tendo acontecido nos anos 80, seriam decisivos para o

refluxo enfrentado pelos movimentos sociais e, conseqüentemente, pelos seus meios de

comunicação posteriormente. Entre eles, o processo de redemocratização do Estado brasileiro e o


colapso do regime socialista soviético, representado pela queda do Muro de Berlim. Estes são dois

marcos complementares, relacionados, que nos dão uma boa contextualização do período, tanto

nacional quanto internacionalmente.

O fim da ditadura militar

Dentro do País, muitos movimentos sociais de contestação se fortaleceram, ou mesmo

surgiram, no final dos anos 1970 e começo dos 1980. Grande parte com um inimigo em

comum bastante nítido: a ditadura militar. Lutar contra esse regime autoritário aglutinava pessoas

em torno de uma causa palpável, facilmente visível para qualquer um. Foi nessa época que

aconteceram, por exemplo, as famosas greves dos metalúrgicos do ABC (a primeira em 1978) e o

movimento “Diretas Já!” (1984).

Apesar de fracassada em seu objetivo imediato, que era a eleição direta no ano de 1985, a

pressão popular das “Diretas Já!” teve papel decisivo para o processo de democratização do

País, que só se conclui com a Constituição de 1988, promulgada pelo então presidente civil, mas

empossado através de uma eleição indireta, José Sarney.

Já com menos um elemento de envolvimento nos movimentos sociais, sem um inimigo tão

concreto como um governo ditatorial, é eleito, em 1989, como presidente da República, o

candidato Fernando Collor de Mello, com um projeto de governo marcadamente neoliberal. A partir

daí, o neoliberalismo se reforça no Brasil, desmantelando ainda mais os movimentos populares

e sindicais de oposição.

Com esse refluxo dos movimentos, é óbvio, há também uma diminuição severa dos meios de

comunicação alternativos produzidos pelos mesmos. E, além dos fatores já citados, ocorre também

a entrada dos partidos de esquerda na política institucionalizada, o que reforçará a crise desse tipo

de imprensa, como explica Hamilton de Souza:

Outro motivo é que as lutas políticas dos partidos de esquerda

que se formam ou que saem da clandestinidade, como o PCB,

o PC do B se concentram no jogo institucional via eleições

e parlamento. Há um abandono no trabalho


de conscientização e organização a partir da população nas

periferias, nos bairros, nos locais de trabalho, etc.

E, de certa maneira, a imprensa alternativa perde um pouco o

sentido. (In: Segundo, 2005)

Cai o Muro de Berlim – o colapso soviético e a globalização neoliberal

Paralelamente a esses acontecimentos internos, em 1989, denunciando um processo de

desgaste das estruturas do regime socialista soviético, o Muro de Berlim é derrubado pelo

governo da então Alemanha Oriental. Para a esquerda internacional, essa queda teve uma gama

enorme de significados. Com o muro cai também sobre a cabeça de milhares de intelectuais um

Estado socialista que não deu certo, uma esperança perdida.

Esse acontecimento é considerado o marco do fim da Guerra Fria, que se estendia desde a

conclusão da Segunda Guerra Mun- dial. Assim, aos poucos, a União Soviética também se

desintegra, chegando ao fim em 1991.

Com esse fim, o mundo, que antes vivia uma disputa entre duas formas distintas de

organização econômica e política, encontrase quase que inteiramente dominado por um único

modelo ideológico:

o capitalismo. E o capitalismo num estágio de avanço tecnológico intenso, que, através de

constantes inovações nos campos da comunicação, transporte e informática, inaugura um conceito

muito difundido a partir da década de 90: a globalização.

Uma globalização que obviamente serve aos interesses do atual modelo capitalista: o

neoliberalismo.

O neoliberalismo prega o Estado Mínimo, ou seja, governos nacionais que interfiram o

mínimo possível na economia de seus países. Com a circulação mundial de bens, capitais e

serviços, essa não-intervenção estatal foi muito propícia para que o capital internacional, advindo

dos países desenvolvidos, entrasse maciçamente no Terceiro Mundo, atrás de mão-de-obra mais

barata e leis fiscais mais favoráveis, transferindo, em muitos casos, ramos inteiros de produção para

essas localidades. Ou penetrando através de privatizações promovidas por governos locais de

orientação neoliberal, como o do ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Todo esse

processo ocasiona uma grande taxa de desemprego nos países subdesenvolvidos.


No Espírito Santo, isto também acontece, como nos mostra Colbari (2003): “A Escelsa, que

antes da privatização empregava 2.600 trabalhadores, reduziu esse contingente a 1.500. [...] A

CST empregava, em 1990, 6.209 pessoas e, em 1992, ano da privatização, demitiu 1.700

empregados. [...] A CVRD, no decorrer de quatro anos, reduziu de 23 mil para 15 mil o efetivo

pessoal.”

Tantos desempregados e trabalhadores transferidos para o terceiro setor da economia

enfraquecem altamente a atividade sindical, ao diminuir circunstancialmente a sua base. Além

disso, outros fatores advindos com as privatizações contribuem para a desarticulação do

sindicalismo, como novas formas de administração das indústrias, através de gestões participativas,

que atrelam os interesses do trabalhadores aos dos patrões.

Dessa forma, preocupadas com o desemprego, tendo que trabalhar cada vez mais para

garantirem seus cargos, influenciadas por uma cultura midiática que estimula a todo o momento o

consumismo e o individualismo, as pessoas acabam por priorizar o plano individual em detrimento

do coletivo, provocando, assim, uma séria desmobilização dos movimentos sociais.

E, como já dissemos, esse refluxo dos movimentos vai afetar em larga escala a produção de

jornais alternativos, que tiveram um boom nos anos 80. O pior é que essa crise vai acontecer

exatamente no momento em que mais se precisa de mídias com posicionamentos opostos aos das

megacorporações de comunicação, que mundializam formas de se comportar, se pensar e ver a

sociedade, agindo geralmente no sentido da ratificação do modelo capitalista.

São necessárias mídias que apresentem a diversidade cultural de nossas sociedades, que se

preocupem com a (in)formação de um receptor crítico, que apresentem novos jeitos de enxergar

o mundo e decidir o que é e o que não é notícia, o que merece e o que não merece atenção. Mídias

que, ao se pautarem, coloquem também em debate a democratização dos meios de comunicação e

seu papel primordial na construção de uma sociedade mais justa, onde todos tenham voz para dizer

o que pensam e quais são as suas necessidades.

Avante!


No Espírito Santo, o quadro é basicamente o mesmo do nacio- nal, inserido que está nessa

conjuntura. Da explosão de jornais populares e sindicais da década de 80, foram poucos os que

sobreviveram. E, mesmo estes, combalidos e fragmentados, tiveram sua influência e penetração

ainda mais minimizados.

A maior parte dos jornais do tipo que existem hoje estão conformados a um estilo mais

“jornalístico”, no que essa palavra tem de mais ligado à imprensa tradicional. Ou seja, utilizando-

se de estruturas como o lide e a pirâmide invertida, e se atendo a fatos mais pontuais, deixando para

trás, em boa parte deles, um conteúdo mais formativo.

Não há, atualmente, no âmbito regional, nenhum jornal alternativo que se destaque em

importância. E não falamos aqui de um jornal que compita com os grandes veículos empresariais

capixabas. Falamos que não há mesmo um jornal alternativo que tente compreender em suas pautas

as necessidades de voz da população local, ou, pelo menos, da esquerda intelectual, que, em tese,

deveria ser mais organizada.

Uma tentativa nesse sentido, no contexto nacional, é o semanário Brasil de Fato. O jornal foi

lançado em 2003, no Fórum Social Mundial, e, articulado por diversos movimentos sociais,

principalmente o MST, tem como projeto representar a esquerda brasileira, ou ao menos uma parte

dela. De certa forma, esse jornal se tornou referência no que se trata de um jornalismo

combativo brasileiro. Mas, mesmo tendo adquirido esse status, a sua penetração foi aquém do

esperado, como explica José Arbex:

Nós fizemos uma conta quando fomos lançar o Brasil de

Fato. Existem 9 mil paróquias no Brasil e a gente pensou

que, se 10% das paróquias assinarem um exemplar, são

novecentas assinaturas. Tinha 150 mil pessoas que

participaram da campanha contra a Alca, se 10% assinarem o

jornal, são 15 mil assinaturas. Só aí teríamos, em tese, 16 mil

assinaturas do jornal, o que já seria suficiente para implantálo.

Até hoje (novembro de 2003), não tem nem 5 mil.

(In: Segundo, 2005)


A verdade é que é muito difícil enfrentar o poderio das grandes mídias, empresariais e

essencialmente capitalistas. Porém, a luta se dá como em todo movimento contra-hegemônico: de

pouco em pouco, feito formiguinhas, tentando reconstruir toda uma sociedade.

Acreditamos que essa reconstrução passa necessariamente pelo campo comunicacional, dada a

sua enorme importância simbólica no pensamento do homem contemporâneo.

É claro que nós, humildes estudantes, não temos respostas sobre como enfrentar esse enorme

desafio à nossa frente. Mas nós sabemos que ele existe, que se irrompe sólido perante a

realização do nosso sonho de uma sociedade mais justa, e que nós temos que tentar enfrentá-lo. Na

verdade, é só o que podemos fazer: tentar.

Mas, para isso, precisamos entender também o que foi feito, o que acontece hoje, quais erros

não repetir, quais acertos levar em consideração. E, por isso, este capítulo é de extrema relevância.

Inclusive para que, daqui pra frente, nós possamos fazer parte desta história.


Referências bibliográficas

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PERUZZO, Cicilia Maria Krohling. Comunicação nos Movimentos Populares – a participação na

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Vozes da democracia – história da comunicação na redemocratização do Brasil.

Disponível na Internet. http://www.intervozes.org.br/arquivos/livro_ miolo.pdf. 2 out. 2005

Entrevistas


Adriana Machado – Jornalista do SEEB-ES. Setembro de 2005.

Andressa Rebonato – Assessora de Comunicação do PT-ES.

Anselmo Venturin – Ex-assessor da Arquidiocese de Vitória. Outubro de 2005.

Antônio Granja e Clementino Dalmácio – Ex-colaboradores do jornal Folha Capixaba. Setembro

de 2005.

Cláudio Vereza – Deputado estadual PT-ES. Setembro de 2005.

David Protti – Professor do Deptº de Comunicação Social – Ufes.

Outubro de 2005.

Diretoria do Conselho Comunitário de Vila Velha. Setembro de 2005.

Edílson Lenk – Jornalista da CUT/ES e do Sindiupes. Setembro de 2005.

Eni Maria de Almeida – Pastoral Operária. Setembro de 2005.

Fabíola Melca da Silva Araujo – Coordenadora Geral da Casa da Mulher (Projeto “Olho da Rua”).

Setembro de 2005.

João Morais – Diretório do PT-ES.

Ligia Sarlo – Jornalista. Setembro de 2005.

Milson Henriques – Jornalista, cartunista, ator. Setembro de 2005.

Namy Chequer – Jornalista e radialista. Outubro de 2005 (por e-mail).

Paulo Soldatelli – Professor de Comunicação Social – Faesa. Outubro de 2005.

Doutora Beatriz Krohling – Professora do Deptº de Serviço Social – Univila. Setembro de 2005.

Doutora Desirée Cipriano – Professora do Deptº de Serviço social – Ufes. Setembro de 2005.

Doutora Marta Zorzal – Professora do Deptº de Ciências Sociais – Ufes. Outubro de 2005.

Tania Mara Ferreira – Professora do Deptº de Comunicação Social – Ufes. Setembro de 2005.

Tinoco dos Anjos – Diretor da TVE-ES. Outubro de 2005.

Warley Soares – Produtor do Jornal Vitória, da Arquidiocese de Vitória.

Setembro de 2005.


O Espírito Santo em revista

Ceciana França, Daniella Zanotti,

Fernanda Pontes e Patrícia Galleto

A imprensa é um ótimo reflexo do imaginário sociocultural dos grupos detentores dos

meios de comunicação. Estudar a evolução desses veículos significa, portanto, analisar

a versão dos fatos sob a ótica de uma pequena parcela da sociedade, predominantemente, a

elite. Tal fator se torna ainda mais evidente se observarmos as revistas aqui produzidas.

Durante todo o processo evolutivo dessas publicações no Estado, é possível perceber que,

em sua maioria, elas foram – e continuam sendo – concebidas pelas classes de maior poder

aquisitivo e a elas destinadas, contribuindo para a perpetuação de seu status.

Iniciamos nosso estudo a partir da análise de uma revista eclética, a Vida Capichaba,

que unia literatura e notícia. Desde então, o colunismo social se fazia presente nas edições,

focando a nata aristocrática da época. Essa especificidade temática ganhou força com os

anos, deflagrando um processo de fragmentação das publicações com esse formato, fator

marcante no mercado capixaba.

Se antes tínhamos uma revista multitemática, embora vi- sivelmente carregada de

peculiaridades de uma elite social e destinada, a princípio, a toda população da Capital,

atualmente temos publicações com temas específicos para públicos determinados.

Essa característica atual é muito mais perceptível e proposital do que em outros tempos.

É como se, majoritariamente, a classe alta escrevesse para si mesma sobre temas que

dizem respeito apenas ao seu subgrupo. Talvez esta seja uma exigência natural do mercado,

talvez seja mesmo fruto de uma mentalidade provinciana, presente até hoje nas revistas

capixabas. O fato é que ainda há grandes obstáculos nesse tipo de produção local e as que se

mantêm na ativa são, em sua maioria, dedicadas a empresas privadas, ao colunismo social e

ao consumo. É interessante ressaltar que, ao longo dos oitenta anos que este estudo alcança,

uma das dificuldades que prevalece continua sendo a mesma: a falta de aceitação de

publicações locais pelo público capixaba.


Dessa forma, no presente trabalho, buscamos resgatar um pouco da história dos

periódicos não-diários produzidos no Espírito Santo, bem como apresentar um breve

panorama desse mercado no início do século XXI.

A história Capichaba nas páginas da Vida

Quando analisamos determinado veículo de comunicação, é importante ter em mente toda a

significação ideológica e social que este carrega. Dessa forma, ao pesquisar uma revista como a

Vida Capichaba – que, no período entre 1923 e 1957, acompanhou pequenas e grandes mudanças

nos diversos âmbitos da sociedade local –, podemos observar seu evidente papel de destaque na

construção do imaginário social capixaba. Pode-se afirmar, ainda, que, de forma cíclica, esse

veículo muito influenciou, e até mesmo modelou, idéias e valores que construíram a vida da

sociedade que viveu no Espírito Santo durante o século XX. Antes dela, outras publicações

especializadas já haviam surgido no mercado capixaba. Um exemplo é a Gazeta

Literária, estabelecida em janeiro de 1899. Dirigida por Amâncio Pereira, ela era basicamente

literária e, editada em cores, foi considerada uma das mais bem produzidas publicações do gênero

até então.

Vale destacar também a Revista Ilustrada, de 1910, e a Vitória Ilustrada, de 1914.

Já nesse período, é possível perceber que as publicações eram construídas em torno de uma

temática principal – no caso, a literatura – e que contemplavam apenas o universo de pequena

parcela da sociedade. A restrição do acesso a obras literárias, bem como ao ensino superior, já

estava incrustado na cultura local, determinando também o público consumidor desse tipo de

periódico. Já que as famílias ricas representavam o principal grupo consumidor das

produções culturais, as revistas eram escritas sob a ótica elitista da época, carregando, desde seu

nascimento, o caráter de segmentação de público.

Influenciadas pelo modernismo e pela Semana de Arte Moderna de 1922, surgiram no Brasil

várias revistas de vanguarda, que circulavam numa época em que imprensa e literatura se

confundiam.


No entanto, nenhuma dessas publicações influenciou tanto a sociedade local quanto a Vida

Capichaba. Ela nasceu no Espírito Santo, em 1923, e é considerada a revista de maior

longevidade no Estado até hoje. Sua primeira edição foi lançada no mercado no mês de abril

daquele ano, com uma tiragem de mil exemplares, custando 500 réis e com a proposta de ser uma

revista quinzenal.

Seu primeiro editorial dizia:

A Vida Capichaba ahi está. Não é ainda a revista

que idealizamos. Do terceiro número em deante é que ella

vestirá a sua roupagem definitiva. Por emquanto, ainda

estamos na trabalhosa phase de organização.

Passada, porém, essa época de singulares tropeços, a Vida

Capichaba está em condições de realizar os seus grandes

ideaes, de vencer as terríveis hostilidades que se nos

prophetizam.

E os ideaes da Vida Capichaba são os formosos ideaes de

todos nós, os trabalhadores ingênuos e honesto pela grandeza

do Espírito Santo.

Não se justifica a falta de uma revista nesta Capital:

que já é uma linda e encantadora cidade de muitos milhares

de habitantes.

Toda a cidade linda tem uma revista linda, que conta a sua

história, que perpetua as suas emoções, que perfuma a sua

galanteria, que exalta a sua elegância e que guarda, como

num pequenino livro de horas, as ânsias subtis de sua vida

sentimental...

Embora pessoas experimentadas, embora velhos peregrinos

da chiméra, que ficaram pelo caminho, nos digam que a nossa

iniciativa, devido à famosa indifferença do publico espírito

santense pelas cousas de arte e literatura, terá ephemera

duração, aqui estamos para enfrentar o monstro... [...]”

Além de evidenciar as dificuldades encontradas e a vocação literária que seria seguida na

publicação, o primeiro editorial dedicou a revista à mulher espírito-santense por ser esta “a mais

ardente protetora da arte e a mais requintada amiga do sonho”. Tal fato talvez represente o

importante papel que o público feminino teria para a revista ao longo dos anos.


Capa da primeira edição de Vida Capichaba


A partir da quarta edição, em agosto de 1923, Manoel Lopes Pimenta, Elpídio Pimentel e

Aurindo Quintaes assumiram o papel de sócios fundadores e redatores. O editorial desse número

dizia:

É bem certo que lhe tomaram o leme outros timoneiros,

porque os dois brilhantes intellectuaes que, tão

auspiciosamente, a puseram em movimento, entenderam

sermos capazes de substitui-los nos postos de comando, de

que irrevogavelmente se apartaram. [...]”

Após sua fase inicial, Vida Capichaba tornou-se a mais expressiva publicação do Espírito

Santo. Ela circulava, quinzenalmente, na Capital e no interior, tendo representantes por todo o

Estado.

Entre contos, crônicas e poemas, coluna social e fotos da alta sociedade e de membros do

governo, seção de esportes, artigos avulsos produzidos por colaboradores, a Vida Capichaba

continha geralmente 36 páginas.

Outra característica era o cuidado estético da publicação: suas capas e seu design geral eram

nitidamente influenciados pelo estilo art-nouveau; além disso, ela era publicada em papel couchê

e sempre trazia belas fotografias. É interessante notar que muitas fotos de paisagens do interior

estampavam a revista. Isto pode ser explicado como uma tentativa de ultrapassar a ilha de

Vitória, integrando o Estado e tornando a revista mais atraente para quem vivia fora da Capital.

Produzida e direcionada para a elite, a revista refletia um caráter conservador e provinciano,

típico da sociedade capixaba da época, o que espelhava o modelo oligárquico-agrário-exportador.

Como instrumento determinante de tendências, além de representante oficial do cotidiano, a

Vida Capichaba perpetuou uma mentalidade elitista que foi aos poucos se tornando mais sutil.

Um exemplo disso é a forma como o negro e o operário eram tratados pelo veículo.

Inicialmente, seu cotidiano não era retratado e, caso fosse incluído na revista, isto acontecia de

forma pejorativa.

Na coluna “Do meu livro de notas”, assinada por Lucia, na terceira edição da revista, esse fato

é explícito:


[...] Era o povo da cidade, o povo brutal e grosseiro, que

celebrava a festa do trabalho. Não gosto nada do povo. O meu

espírito aristocrático repugna tudo que não tenha distincção.

[...] Toda vez que me lembro deste homem de má catadura

tenho medo de uma revolução...

Mais tarde, embora mantivesse sua ideologia elitista, a Vida Capichaba cederia espaço para o

proletariado no dia 1° de maio de 1930, na edição de número 225. Nessa data, foi publicado o

artigo “A Festa do Trabalho”, no qual os trabalhadores eram exaltados como elementos de

relevância para o desenvolvimento do Estado, ou seja, lembrados como classe pertencente à

sociedade.

no dia 15 de maio do mesmo ano, os negros tiveram um grande espaço na publicação de

número 227. Para comemorar a Abolição da Escravatura, a Vida Capichaba trazia na capa a frase:

“Meu Deus! Já não há mais escravos em minha terra!”. Além disso, um artigo com o título “13 de

Maio” estampava a foto da Princesa Isabel e de José do Patrocínio sendo exaltados como heróis do

movimento abolicionista.

A forma como a mulher era tratada pela publicação também merece destaque. Muitos

consideram a Vida Capichaba pioneira, pois, além de grande incentivadora do público feminino

como leitor, a revista inovou ao convidar jovens intelectuais capixabas para escrever em suas

páginas, tanto colunas especialmente para mulheres – como a “Feminea”, escrita por Ilza Dessaune

– como seções literárias. Maria Antonieta Tatagiba, Arlet