Views
5 years ago

Questões de gênero na literatura e na produção ... - Fazendo Gênero

Questões de gênero na literatura e na produção ... - Fazendo Gênero

prosperar – mesmo que

prosperar – mesmo que apenas para convertê-la em outro produto cultural para o mercado mundial” (p. 19, grifos do autor). Aquilo que nos parece “natural” na criança, no adulto, no índio, no negro, na mulher, no homem, é construção cultural e faz sentido porque se articula nesta rede de significações que vamos construindo e que nos vão construindo cotidianamente. Discursos que operam a partir de regras, que são dadas por um conjunto de questões: quem pode falar; o que pode falar; para quem; em quais circunstâncias. Relações de poder-saber que definem quem está autorizado a nomear/descrever as coisas do mundo e a partir de que conjunto de saberes. CONSTRUÇÕES GENERIFICADAS... As histórias do Papa-Capim, analisadas neste estudo, mobilizam discursos, colaborando para instituir significados para feminilidade e masculinidade. Aquilo que as teorizações de gênero têm apontado como sendo naturalizações de lugares sociais, a partir das quais as diferenças são definidas pela anatomia, pela biologia, como se fossem coisas do domínio da natureza e não da cultura. O fato é que aprendemos a ser homens e mulheres desde o momento em que nascemos e ao longo de nossas vidas, aprendizagens estas que se processam em diversas instituições sociais, tais como a família, a escola, as mensagens midiáticas, os grupos de que fazemos parte, as histórias cotidianas contadas informalmente. No entender de Meyer (2001) a noção de gênero reforça a necessidade de se pensar que há muitas formas de sermos mulheres e homens, ao longo do tempo, ou no mesmo tempo histórico, em diferentes grupos ou segmentos sociais. (p. 32) Concordando com esta autora, penso na noção de gênero como plural, dinâmica e constitutiva das relações sociais significadas por jogos de poder. Cada cultura elege certos traços distintivos que constituem, desde o nascimento, sujeitos para agirem masculinamente ou femininamente, sendo que diferentes mecanismos atuam na “normalização” das relações de gênero. Nas narrativas do Papa-capim, analisadas neste trabalho, é possível identificar marcadores a partir dos quais os gêneros são narrados. Em termos mais gerais, a própria presença de protagonistas femininos e masculinos constitui importante indicador das relações de gênero. Em 12 das 24 histórias aparecem apenas personagens masculinos – e em algumas delas é somente o Papa- Capim. Em seis histórias aparecem meninos e meninas, sendo estas últimas personagens secundários. Em 10 histórias aparecem personagens adultos – índios ou não-índios – e estas narrativas me fazem pensar no modo como cada sujeito é construído nas cenas. Há, a meu ver, uma distinção evidente entre o “mundo dos meninos” e o “mundo das meninas”. Papa-capim aparece em algumas histórias como único personagem, e em outras ele se envolve em aventuras cujos protagonistas são somente os meninos. São caçadas, pescarias,

incadeiras na floresta, encontros com caçadores, turistas, exploradores, ou cenas em que se deparam com o espaço urbano (ou se encontram com turistas, cientistas, fotógrafos). Estas histórias atribuem aos meninos à ação, a aventura, a ousadia e a coragem. As meninas aparecem como personagens coadjuvantes sendo que o cenário ocupado por elas é o doméstico. Brincar de casinha, brincar de fazer comida, de cuidar das crianças, domesticar animais de pequeno porte, enfeitar-se com flores e coisas da natureza, são ações comuns empreendidas pelas meninas. Nos quadros destas narrativas, as mulheres adultas são mães, “femininamente” envolvidas em atividades domésticas. Elas aparecem, nas histórias analisadas, executando tarefas “do lar”, cozinhando, varrendo, lavando, recebendo produtos de caça e de pesca, carregando potes. As mulheres não-índias, que entram em cena em algumas histórias, são apresentadas também em cenários domésticos, realizando atividades consideradas femininas. Na história Um ursinho para Jurema uma família acampa próximo à aldeia de Papa-Capim. Nos quadros iniciais a família estrutura o acampamento – o pai monta a barraca enquanto a mãe e a filha aparecem organizando as panelas e a comida. Numa seqüência posterior a mãe costura o braço do ursinho de pelúcia de sua filha enquanto o pai sai para caçar. Na história Papa-Capim encontra Chico Bento o personagem e seu amigo Cafuné saem pela mata e chegam ao sítio de Chico Bento. No caminho Papa-Capim se machuca e é socorrido. Na casa do sítio, o personagem fica aos cuidados da mãe de Chico Bento, que lhe faz curativos, prepara alimentos, cercando-o de cuidados “maternais”. Construídas como figuras conciliadoras e passivas, em geral as mulheres e meninas não participam das “cenas de ação” que quase sempre se desenrolam na mata – espaço masculino. Há, porém, histórias em que mulheres ou meninas provocam conflitos, como em O grande Caçador, que inicia com um grupo de meninas caçoando de Papa-Capim porque ele não consegue ser um bom caçador. Outro exemplo em que a figura feminina escapa desta representação conciliadora é quando sua atenção é disputada por personagens masculinos, como ocorre em Potira. Embora ela seja descrita como meiga e delicada, sua presença provoca disputas entre os jovens da aldeia – e a ação, portanto, é atribuída aos homens. A vida doméstica é reservada à mulher indígena, o mesmo ocorrendo com a maternidade, vista como algo inerente à condição feminina. Colocadas neste lugar, as personagens das histórias do Papa-Capim colaboram com aquilo que Meyer (2005, p. 151) chama de “politização contemporânea do feminino e da maternidade”, um conjunto de dispositivos e de investimentos para constituir determinados modos de ser mulher e de ser mãe. Ao analisar programas de educação em saúde a autora conclui que estes investimentos funcionam para subjetivar mulheres, posicionandoas no cuidando da prole e na garantia de um ambiente saudável. E como a produção de sujeitos femininos e masculinos acontece em uma rede de práticas e de discursos, pode-se afirmar que a leitura de histórias em quadrinhos que posicionam meninas e meninos/ mulheres e homens nesta

Questões de gênero na literatura e na produção cultural para ...
Gênero na Literatura e na Mídia. ST. 4 ... - Fazendo Gênero
De amor e romances: a censura, a literatura, o ... - Fazendo Gênero
O Estado Brasileiro e a questão do aborto: A ... - Fazendo Gênero
O que os alunos pensam sobre questões de ... - Fazendo Gênero
Desmistificando medéias - Fazendo Gênero 10
A construção de gênero e sexualidade no currículo - Fazendo Gênero
1 Gênero no Texto Visual: a (re)produção de ... - Fazendo Gênero
Violência sexual: uma questão de gênero - Fazendo Gênero 10 ...
1 Questões de gênero e educação – ST 58 ... - Fazendo Gênero
Questão de gênero e raça: o desempenho ... - Fazendo Gênero
Relações de gênero e suas representações na ... - Fazendo Gênero
Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero
Violência; Gênero; Ciências - Fazendo Gênero
Entre o público e o privado: Interpretações sobre ... - Fazendo Gênero
Cecil Jeanine Albert Zinani - Fazendo Gênero 10
GÊNERO, MASCULINIDADE E DOCÊNCIA: - Fazendo Gênero