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Masculinidade e Homofobia em O Ateneu ... - Fazendo Gênero

Masculinidade e Homofobia em O Ateneu ... - Fazendo Gênero

E quando a imoralidade

E quando a imoralidade se torna pública, como no caso amoroso do aluno Cândido, empreende-se a punição como forma de disciplina a todos os cúmplices. Aristarco não expulsou os “réus da moralidade”. Nas palavras do diretor: “Expulsar não é corrigir” (p. 68). A questão financeira se fazia impositiva; a disciplina e a normalização eram tarefas a serem cumpridas dentro da instituição. Medo do feminino e a figura do efeminado “um conselho; faça-se forte aqui; faça-se homem. Os fracos perdem-se” (p. 14) “Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo” (p. 14) Logo que Sérgio, personagem principal de O Ateneu, entra no internato de Aristarco, ele recebe tais conselhos de seu colega Rebelo. Percebe-se que a homossociabilidade masculina no internato é pautada pelo medo da associação com o feminino. O feminino, nos termos de Welzer- Lang (2001) é o pólo de rejeição central na constituição de uma identidade masculina. Podemos pensar, apoiando-nos em Sedgwick, que em uma sociedade marcada pelo desejo homossocial masculino, o feminino enquanto pólo de rejeição na constituição de uma identidade masculina não tem como referência as mulheres, relegadas a condição de moeda de troca das relações que realmente importam: as relações homossociais masculinas. Bourdieu corrobora com tal tese, afirmando que: a virilidade, elemento constituinte de uma masculinidade hegemônica 2 , é “uma noção eminentemente relacional, construída diante dos outros homens, para os outros homens e contra a feminilidade, por uma espécie de medo do feminino, e construído, primeiramente dentro de si mesmo” (BOURDIEU, 2002, 67). O feminino constituído como abjeto aqui é uma referência a uma categoria específica de homens que deve ser entendida contextualmente: o homem efeminado. Não se pode entender tal categoria sem historicizá-la e contextualizá-la. Halperin (2000) discorre sobre sua longa história na sociedade ocidental, afirmando que: em várias culturas tradicionais européias, homens podem ser designados como ‘frágeis’ ou “não-masculinos”... tanto porque eles são invertidos – porque eles são femininos, ou transgressores de gênero, ou gostam de serem penetrados por outros homens – ou porque, ao contrário, eles são conquistadores de mulheres, porque eles desviam das normas masculinas de gênero quando eles preferem a opção suave do amor ao invés da pesada opção da guerra (p. 93). A masculinidade normativa foi durante muito tempo associada ao domínio do impulso e do prazer e o efeminado relacionado ao homem que prefere a companhia amorosa das mulheres, abandonando a sociabilidade competitiva dos homens. Sendo assim: “efeminamento tradicionalmente funcionou como uma marca de excesso heterossexual” (HALPERIN, 2000, p. 94). A inteligibilidade das identidades de gênero não recai diretamente nas práticas sexuais – se homo- orientadas ou não. 4

Este modelo não é mais predominante nas sociedades modernas permeadas pelo dispositivo de sexualidade. O gênero passou a ser entendido fundamentalmente em relação à sexualidade. Constitui-se a identidade homossexual como uma natureza singular, uma personagem na qual “nada daquilo que é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade” (FOUCAULT, 1988, p. 43). O gênero é então construído a partir da coerência sociamente imposta entre sexo, gênero, desejo e práticas sexuais (BUTLER, 2003). A heterossexualidade compulsória ocupa local privilegiado nesta construção e a homofobia emerge para regulá-la. Cabe analisar como esta construção emerge do dispositivo de sexualidade em nosso contexto. No final do século XIX, forma-se um local de socialização homoerótica amplamente conhecida no Rio de Janeiro: o Largo do Roscio (GREEN, 2000). A partir de então vigoram representações binárias em charges de jornal ou mesmo em teses médicas sobre as relações entre homens. Homens viris, também chamados de fanchonos e homens efeminados, chamados de “frescos”, seriam pretensamente penetradores e penetrados. Os próprios documentos demonstram práticas sexuais que iam além deste binário, mas a inteligibilidade social se restringia a elas. Estabelece-se uma associação direta entre efeminamento e homoerotismo. A relação entre ser impelido para o sexo da fraqueza (tornar-se efeminado) e ser dominado, festejado e pervertido (no limite, ser penetrado) demonstra esta mesma associação. As relações homoeróticas em O Ateneu são sempre entendidas pelos casais e pelos testemunhos por esta lente binária. Observemos a seguinte passagem que descreve a relação entre Sérgio e Bento Alves: “estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque podia me valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse animo de ser amigo” (p. 44). Sérgio se vê como pólo feminino em relação a Bento Alves, reiterando o esquema de inteligibilidade vigente. Em suma, a abjeção ao feminino, presente na fala de Rebelo representa parte constituinte do controle das relações homossociais masculinas. A associação entre efeminamento e práticas homo- orientadas faz constituir como elemento integrante da homofobia a recusa do feminino. Portanto, em O Ateneu percebemos como a figura do efeminado se articula com a gestão política dos corpos vigente no Brasil finisecular. Paranóia e violência Pode-se apontar duas causas sociais complementares para a violência presente nas relações homossociais do romance. Elas resultam do paradoxo inerente aos ambientes de homossociabilidade: um ambiente no qual se constrói a virilidade (rejeitando o feminino) ao mesmo tempo em que se iniciam os jogos eróticos homo-orientados. A primeira causa está ligada à interdição do potencial erótico do desejo homossocial que em forma de paranóia se transforma em 5

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