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Masculinidade e Homofobia em O Ateneu ... - Fazendo Gênero

Masculinidade e Homofobia em O Ateneu ... - Fazendo Gênero

violência. A segunda

violência. A segunda está na afirmação da virilidade como forma de rejeição do feminino e obtenção de vantagens simbólicas alcançando a masculinidade hegemônica. A homossociabilidade permeada por relações violentas é objeto de reflexão de Sérgio após se sentir obrigado a revidar provocações violentas de seu colega Barbalho. O garoto reflete: Qual o meu destino, naquela sociedade que o Rebelo descrevera horrorizado, com as meias frases de mistério, suscitando temores indefinidos, recomendando energia, como se coleguismo fosse hostilidade? De que modo alinhar a sobranceira de proceder com a obsessão pertinaz de Barbalho? Inutilmente buscara reconhecer no rosto dos rapazes o nobre aspecto da solenidade dos prêmios, dando-me a idéia da legião dos soldados do trabalho, que fraternizavam no empenho comum, unidos pelo coração e pela vantagem do coletivo esforço (p. 15-16). Muitas vezes as relações homossociais são configuradas de forma hierarquizadora, marcada por dominação e subordinação. (SEDGWICK, 1985, p. 66). Como nos mostram os banhos na piscina no colégio, marcado pelo medo e pela violência dos maiores sobre os menores. Conta-nos o narrador: “os menores agrupados no raso, dando-se as mãos em cacho, espavoridos, se algum mais forte chegava” (p. 16). Centraremos na relação Sérgio-Bento Alves que é representativa da relação homoafetiva atravessada pela homofobia. A relação se dava através do molde binário no qual Alves era protetor de Bento: “no recreio não andávamos juntos; mas eu via de longe o amigo, atento, seguindo-me o seu olhar como um cão de guarda” (p. 44). Trocavam presentes: “um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete...” (p. 51). Sérgio escondeu a imprudência dos ramalhetes. Mas o romance foi percebido. Barbalho provoca Sérgio e incita uma rivalidade antiga entre Malheiro e Bento Alves. Informou ironicamente o Bento: “o Malheiro não passa pelo Sérgio que não pergunte quando é o casamento.. é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O Sérgio está desesperado” (p. 51). Há uma briga entre os dois e Bento Alves é castigado por Aristarco. O caso se tornou notório entre os alunos. A amizade após tal caso é definida por ele como “uma situação prolongada de vexame, como se a convivência fosse um sacrifício e o sacrifício uma necessidade” (p. 66). Assim permaneceu a relação até o caso público do Cândido. Quando Aristarco repreende os “amantes” e os testemunhos da “imoralidade”, a relação entre Sérgio e Alves é bruscamente rompida violentamente por Bento Alves: “apenas me reconheceu, atirou-se... brutal. Rolamos ao fundo escuro do vão da escada... Bento Alves deixou-me bruscamente” (p. 66). A paranóia de Bento Alves, enquanto internalização das pressões sociais provenientes da homofobia, transforma-se em violência contra Sérgio. Referências bibliográficas 6

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