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A Cidade das Putas José Miguel Nieto Olivar ... - Fazendo Gênero

A Cidade das Putas José Miguel Nieto Olivar ... - Fazendo Gênero

mil outras palavras.

mil outras palavras. Mais tarde a Advogada do NEP vai exigir a troca da ordem e um documento por escrito. Mas ele, em “off”, nos lembra que não pode, que ele é só um peão. Fora do prédio todos rimos e somos amigos contra o Papa, o Secretário, sua mulher... e claro, em favor dessas putas maravilhosas de roupas morais, mães de família abnegadas, cidadãs ignorantes de tráfico qualquer, administradoras exemplares do seu dinheiro e seus sentimentos. 5. Tudo tudo em “off”. Nesta discussão toda, como na base dos direitos humanos, na luta do NEP e das próprias mulheres prostitutas, o que está em jogo é, justamente, esse “sentido da honra”. O final do “estigma”. O que é que faz uma mulher ter honra ou não? 3 Não é o aprendizado das leis escritas nem a assunção de um código escrito que reivindique sua profissão; seria, talvez, a modificação dos valores que sustentam o sentido da honra e da dignidade. No momento em que para as mulheres em geral trabalhar vira não um direito, mas uma obrigação social, a cidade prepara territórios e discursos adequados para esta nova mulher, tentando manter protegidos os valores culturais. E na busca da “profissionalização”, sem colocar em questão as políticas que orientam a sexualidade e o gênero (“sex politics”), pode-se terminar configurando uma espécie de “regulamentarização simbólica”, uma “zona de tolerância simbólica” e reproduzindo os sentimentos que sustentam o “estigma”. Quer dizer, pode-se cair na geração de jeitos de ser prostitutas boazinhas, decentes, adequadas às estéticas dominantes. Ou, a tolerância da vulgaridade só quando acontece de portas fechadas, na escuridão das salinhas e das boates. Não é um pouco a reprodução da lógica que diz que a sexualidade não é um assunto político? Que é algo que se resolve sob os lençóis? Apanhar da polícia é política; dos maridos é intimidade. É o risco de negociar nos termos da cultura dominante. Pertencer. Reduzir o estigma via não transformação do referente simbólico, mas do próprio nome, da identidade e do comportamento. Seria um pouco como se mobilizar contra as formas e não contra as razões que motivaram a violência e a ira que o corpo da Sílvia, da Ica, da Cris e da Janete receberam. Alguma coisa assim como aceitar que só as “filinhas de papai” podem usar roupinhas curtas e “se agarrar” nos espaços públicos. 6. Há em tudo isto um recorte de gênero e de geração que não pode se perder de vista. Todas estas mulheres, antes do que prostitutas, são, precisamente, mulheres. Sujeitos sociais “culturalmente lógicos”, sujeitos históricos, temporais. E o que temos delas, além da sua experiência prática no cotidiano, é a narrativa desta cidade, a narrativa dos anos passados e dos anos 4

vindouros. Uma cidade que, no caso das mais velhas, prostitutas de rua, é uma cidade que perdeu a beleza da sua própria presença. Aquilo era muito lindo, é uma frase constante, referindo-se à presencia delas próprias, jovens e fogosas, ocupando o espaço público aberto. A nostalgia pela rua, uma que as mais novas, especial mas não unicamente as que trabalham em salas e boates, não conhecem. Mas aqui volta o paradoxo. Aquele é o lugar onde tudo começa. Nos lembra a Sílvia falando da Rua Garibaldi. A rua, essa rua por elas vivida, é também, a memória da dor. A memória da violência. A cidade que lhes cobrava as roupas pequenas e os jeitos escandalosos de ser, o crescimento econômico marginal, a presença dessa sexualidade feminina perigosa e, aí uma das fontes da ira, euforicamente pública. As gurias, que circulam entre os 20 e os 30, ganharam, de nascimento, outra cidade. Uma com salas para se desnudarem, com movimentos sociais de direitos humanos, de mulheres, de sexualidades e de prostitutas. Uma cidade onde a experiência sexual feminina aprendeu do feminismo a existir (ou no mínimo a poder existir) para além dos mais rígidos cintos patriarcais. Cidade com camisinhas, pílulas, cafetões “bunda-mole”, prostituas velhas “assumidas” e parceiras... Muitas dessas mulheres que se prostituem hoje no Centro, nessas idades, não tem como único ofício a prostituição. Muitas não se envolveram ou fugiram cedo dos modelos de cafetinagem. Ser prostituta hoje, pela cidade que essas mulheres ganharam e re-constroem em cada caminhar e em cada ficar em cada desnudar-se, pode não ser uma experiência totalizante (amor-dinheiro-cidade- trabalho), pode ser mais uma opção e mais uma experiência Da Vida. Para esta geração vestir-se como prostituta ou como estudante universitária é cada vez menos distante. E a roupa, sabemos, é corporificação. Finalmente, volta o paradoxo dos espaços, pois tanto nas salas quanto nas ruas, a liberdade de circulação e de exposição das suas sexualidades e suas experiências de gênero, é um bem frágil e heterocontralodo. Um bem passível de política pública e de violência. Nem nas ruas, como nos lembra Sílvia e Bruna e as meninas da Garibaldi, dá pra fazer tudo, dá pra circular e flanar pela cidade, pois se tem a mão sempre próxima do marido e do policial... nem nas salas a sexualidade floresce e geme tão liberta quanto parecer-nos-ia, pois, fundamentalmente, está limitada a esse espaço, às escuridão e pequenez dos espaços e à arbitrariedade dos condomínios, administradores e síndicos. Profissionalizar significa, então, des-totalizar. Significa colocar a prostituição no seu justo lugar de opção. É uma luta temporal, da e na memória dessas fundadoras do movimento. Profissionalizar é se aproximar à experiência do século, à experiência de muitas dessas prostitutas mais novas que chegam no NEP abraçando as notas do terceiro semestre de faculdade... de muitas dessas mulheres que saem do trabalho para beber uma cerveja com as amigas e, quem sabe, 5

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