Revista Dr Plinio 270

revistadp

Setembro 2020

Publicação Mensal

Vol. XXIII - Nº 270 Setembro de 2020

Gládio da Palavra,

escudo da Fé


Doruk Salancı (CC3.0)

Calma e vigilância

U

m dos mais belos exemplos na natureza do misto de vigi-

lância, argúcia e calma, encontramos na onça e na sua

miniatura, o gato.

A onça que prepara o pulo não é um animal nervoso. Pelo contrário,

uma das belezas desse felino está em conservar uma verda-

deira calma nas situações mais difíceis. A coexistência da calma

com a vigilância, esse jeitão da onça quando recua com toda a sua

capacidade agressiva e dá o bote furioso, reunindo dois extre-

mos opostos, é uma verdadeira maravilha.

O que agrada ver no gato andando em cima de

um muro é a calma calculada dele. Não é um

bicho preguiça cretino. Está com todos os sen-

tidos atentos, até a cauda em pé serve-lhe

de radar. Ele todo está se equilibrando,

mas na calma.

Nas situações mais difíceis o gato

tem o domínio perfeito da flexibi-

lidade de sua musculatura, joga-se

medindo bem o lance; atento, mas

calmo. Nervoso, nunca. Com jeito

amável, mas sentindo-se ameaçado,

vem uma unhada. Depois en-

colhe as unhas, e mostra aquela

patinha redondinha.

Assim deve ser o católico mili-

tante na hora do perigo: nada de

correr como barata tonta. Susto,

nunca; previsão, sempre. Unhas

capazes de sair do estojo a qual-

quer momento, pulo para qualquer

lado, enxergando até, e sobretudo,

no escuro.

Portanto, muita desconfiança em

relação ao demônio, muito recurso

à oração, nada de nervosismo, calma

inteira, porque Nossa Senhora

nos protegerá.

(Extraído de confe-

rência de 22/6/1974)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXIII - Nº 270 Setembro de 2020

Vol. XXIII - Nº 270 Setembro de 2020

Gládio da Palavra,

escudo da Fé

Na capa, Dr. Plinio

discursando em

Pindamonhangaba,

em maio de 1943.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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INSC. - 115.227.674.110

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02911-000 - São Paulo - SP

Tel: (11) 3932-1955

Editorial

4 Odiai o erro, amai os que erram

Piedade pliniana

5 Oração para vencer o

espírito naturalista

Dona Lucilia

6 Afeto, mansidão generosa,

firmeza inquebrantável

A sociedade analisada por Dr. Plinio

9 Idade Média: o Direito

consuetudinário

Gesta marial de um varão católico

16 A Revolução tendenciosa se

difunde como o lodo - I

Reflexões teológicas

20 A verdadeira honra e o nosso

relacionamento com o mundo angélico

Calendário dos Santos

26 Santos de Setembro

Preços da

assinatura anual

Comum............... R$ 200,00

Colaborador........... R$ 300,00

Propulsor.............. R$ 500,00

Grande Propulsor....... R$ 700,00

Exemplar avulso........ R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

Hagiografia

28 Escudo da Igreja e gládio

contra os demônios

Luzes da Civilização Cristã

32 Luís XIV e a respeitabilidade

Última página

36 Luz que brilha nas trevas

3


Editorial

Odiai o erro, amai os que erram

C

ostuma-se dizer que “devemos odiar o erro e amar os que erram”. Quem ousaria negar o sublime

princípio que essa frase define? Do que se alimentou o zelo de todos os apóstolos que desde os

primórdios da Igreja até hoje, em linha ininterrupta, têm combatido o erro procurando salvar das

garras dele os que erram? Exatamente de um ódio ao erro e de um amor ao pecador. Diminua-se no espírito

do apóstolo ou este ódio ou este amor, e ele deixará de ser um apóstolo autêntico.

Entretanto, esta frase precisa ser bem entendida. Devemos certamente amar os que erram, e isto

ainda mesmo quando no paroxismo de seu ódio à verdade eles nos causam os maiores prejuízos e nos

infligem as mais tremendas afrontas. Mas como devemos amá-los? Em outros termos, no que deve

consistir concretamente esse amor? Em que sentimentos, em que ações se deve ele traduzir?

A pergunta não é ociosa. Deus que é infinitamente sábio não julgou suficiente recomendar-nos

que O amássemos sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, por amor a Ele; pelo contrário,

julgou necessário promulgar dez mandamentos em que esse preceito do amor ficasse bem definido,

perfeitamente explicitado e as obrigações daí decorrentes concretamente discriminadas. E a

Santa Igreja ainda julgou dever acrescentar cinco mandamentos aos dez que Deus promulgara nos

primeiros tempos: tudo isto só para que o cumprimento do preceito do amor não ficasse entregue

aos caprichos do sentimentalismo, mas se efetuasse conforme a vontade de Deus.

Ai dos que não amam os pecadores e os hereges! São eles próprios hereges e pecadores. Mas como

se deve amá-los? Ainda quando se combata o erro, será legítimo atacar encarniçadamente as pessoas

que o sustentam?

Com efeito, as ideias não se sustentam nem se difundem por si próprias. São como as flechas e

projéteis que a ninguém feririam se não houvesse quem os disparasse com o arco e o fuzil. Ao arqueiro

e ao fuzileiro se devem dirigir, pois, em primeiro lugar os tiros de quem deseje ferir sua mortal

pontaria, e qualquer outro modo de guerrear poderia ser muito conforme aos princípios liberais,

mas não teria o sentido comum.

Os autores ou propagandistas de doutrinas heréticas são soldados com armas envenenadas: o livro,

o periódico, a arenga pública, a influência pessoal. Não basta, pois, recuar para evitar o tiro; o

que em primeiro lugar se deve fazer, por ser mais eficaz, é pôr fora de combate o atirador. Assim,

convém desautorizar e desacreditar seu livro, periódico ou discurso e, em alguns casos, sua pessoa,

por ser esta o elemento principal do combate.

Em certos casos, pois, é legítimo publicar suas infâmias, ridicularizar seus costumes. Só é necessário

que a mentira não seja posta a serviço da justiça, pois ninguém tem o direito de se distanciar da

verdade por pouco que seja.

O hábito dos Santos Padres prova esta tese. Ainda mesmo os títulos de suas obras dizem claramente

que, ao combater as heresias, procuravam desferir o primeiro tiro contra os heresiarcas: Contra

Fortunato maniqueu, Contra Adamantox, Contra Felix, Contra Secundino, Quem foi Petiliano, Dos

gestos de Pelágio, Quem foi Juliano, etc. De sorte que quase toda a polêmica do grande Agostinho foi

pessoal, agressiva, biográfica, por assim dizer, tanto quanto doutrinária; corpo a corpo com o herege,

tanto quanto com a heresia. E o mesmo poderíamos dizê-lo de todos os Santos Padres.

De onde tiraram, pois, os liberais, a estranha novidade de que, ao combater os erros se deve prescindir

das pessoas, e até mesmo afagá-las e acariciá-las? Atenhamo-nos ao que sobre isto ensina a tradição

cristã, e defendamos a Fé como sempre ela foi defendida na Igreja de Deus. Fira, pois, a “espada”

do polemista católico, e vá direito ao coração, pois que esta é a única maneira verdadeira de combater. *

* Cf. O Legionário n. 470, 14/9/1941.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Flávio Lourenço

Ação do Arcanjo São Miguel

durante o Juízo particular

Igreja de São Lourenço, São

Lourenço de Morunys, Espanha

Oração para vencer o

espírito naturalista

ÓSão Miguel Arcanjo, peço-vos empenhadamente que destruais em mim a

vivência, criada pelo demônio do naturalismo, de ver o universo como um

todo fechado, de banalizar o sobrenatural não compreendendo a sua importância

e necessidade, de julgar que os fatos sérios, graves e profundos não podem

acontecer.

Essa vivência, que me enclausura e me sujeita a esse demônio, impedindo de tornar

efetiva e completa minha escravidão a Nossa Senhora, afirma continuamente:

“As horas trágicas e os grandes lances não se aproximam porque não podem se

aproximar!”

Assisti-me, pois, no combate contra esse demônio que me impede de ter a grande

generosidade necessária para ganhar a batalha da Contra-Revolução.

(Composta em 21/7/1974)

5


Dona Lucilia

Arquivo Revista

Afeto, mansidão generosa,

firmeza inquebrantável

O relacionamento de Dr. Plinio com sua mãe era todo feito

de afeto, tendo como pressuposto um misto de admiração e

esperança que produzia uma íntima ligação de almas. Dentro

dessa clave imponderável sobressaía em Dona Lucilia uma

mansidão generosa levada até o inacreditável, ao lado de uma

firmeza inquebrantável quando se tratava de princípios.

Para melhor compreender o

afeto existente entre Dona

Lucilia e mim é preciso ver como

era a linguagem e a vida de família

na intimidade, no ambiente onde vivíamos;

porque esse é um assunto cheio

de matizes, e cada país, bem como cada

Estado e cidade do Brasil, tem um.

Essência do afeto:

admiração e esperança

Entre nós havia o pressuposto

de que o afeto era um ato de admiração

ou, pelo menos, de esperança.

Admiração da minha parte para

com ela e de esperança dela para

comigo. O afeto, de si, era um sentimento

muito elogioso que não se

esbanjava concedendo-o para qualquer

um, precisamente porque ou

é a afirmação de uma qualidade ou

da esperança que alguém venha a

ter essa qualidade. Essa era a essência

do afeto. Mas, ao mesmo tempo,

6


era a afirmação de uma consonância

do bem que se espera ou se reconhece

no outro, com o bem que

se sente em si próprio. Era, portanto,

uma afirmação de íntima ligação

de almas.

Tudo isso eu manifestava por

um modo intensamente afetuoso

de tratá-la, onde eram abundantes

as palavrinhas muito carinhosas e

simbólicas que repercutiam nela de

maneira suave, mas profunda, deixando-a

tão comprazida que meu

pai – por natureza, muito brincalhão

– dizia para ela, imitando um

pouco o sotaque português: “Não

te derretas!”

Lembro-me de algumas das expressões

que eu usava. Por exemplo,

às vezes dirigia-me a ela chamando-a

de Lady perfection 1 , ao

que ela respondia com toda a naturalidade,

como se não tivesse ouvido

ou como se eu a tivesse chamado

de “mamãe”. Outro título que

usei durante muito tempo, tendo

em vista o aspecto afrancesado

e distinto dela, foi o de “marquesinha”.

Outras vezes eu a chamava

de “manguinha”, como no tempo

de minha infância, com um afeto

especial para lembrar aqueles

tempos. Ademais, “minha

querida”, “meu bem”, às torrentes!

Não preciso dizer

que nunca a chamei de você.

Nunca! Nem me passou pela

cabeça. Era sempre “senhora”.

Eu teria a impressão

de que precisaria me

confessar se a chamasse de

você.

Às vezes lhe dizia que

mãe igual a ela eu não conhecia.

Evidentemente, também

a beijava, pegava na mão dela,

batia levemente, abraçava-a,

etc., muitas vezes.

Eu percebia que ela ficava muito

tocada e recebia tudo isso com comprazimento,

mas com uma certa discrição

que não sei bem descrever.

Era como se ela, sem apagar a luz,

pusesse um abat-jour. Era o sistema

usado por ela – compreensível e

muito adequado, a meu ver – e com

o qual eu afinava.

Significado das reticências

usadas nas cartas

Quem lê as cartas que mamãe me

escrevia nota que ela usava muitas

vezes reticências. Dona Lucilia fazia

isso sem refletir, com a naturalidade

de uma mãe, mas essas reticências

correspondiam a um modo de ela falar,

era a passagem para o papel da

maneira de se exprimir.

Ela possuía uma voz muito aveludada,

suave, enormemente matizada.

Os matizes da voz lhe serviam

muitíssimo para exprimir cada ideia,

cada pensamento, cada expressão, o

que ela acompanhava mudando ligeiramente

a posição da cabeça e

com movimentos de mãos muito discretos,

mas expressivos.

Ora, Dona Lucilia tinha um hábito

interessante, que talvez exista em

outras pessoas, mas só notei nela,

de dizer uma coisa e ficar um tempinho,

discreto, com os olhos postos

no interlocutor para ver que repercussão

aquilo causou, como que

acentuando pelo olhar o que ela disse,

de maneira a chegar ao grau de

repercussão que julgaria normal,

proporcionada.

Isso que era, por assim dizer, os

últimos timbres de suas palavras,

nas cartas ela representava pelas reticências.

De maneira que onde há

reticências, ao falar ela diria aquilo

com uma voz que ecoaria por meio

do olhar.

Portanto não significa que ela era

uma pessoa reticente, nem um pouco.

Até, pelo contrário, o pensamento

dela se exprimia com muita franqueza

e clareza. Mas eram os imponderáveis

que constituíam uma

espécie de aureola em torno do que

ela dizia.

Aliás, uma das coisas interessantes

do Quadrinho 2 é retratar a atitude

que ela tomava quando acabava

de dizer algo e olhava. Isso contribui

para dar a expressão que o Quadrinho

tem.

Embora tudo isso tivesse nela

o significado que estou mencionando,

é preciso dizer, para

a glorificação da Civilização

Cristã, que era um pequeno

fragmento do passado. A arte

da conversa antigamente era

muito assim. Hoje as pessoas

quase não mudam de tom

de voz, são monótonas com

frequência, e não sabem utilizar

o olhar; olham para o interlocutor

como poderiam fitar

uma parede branca. O olhar

não possui mais o papel que teve

outrora. Portanto esse predicado

em Dona Lucilia era a iluminação

pela presença, pela fidelidade à graça,

de um modo de ser da Civilização

Cristã, ou seja, uma tradição.

Arquivo Revista

7


Dona Lucilia

Disposição de ser como um

cordeiro que se deixa atingir

Um dos aspectos que me encantava

em Dona Lucilia, antes de tudo,

era a elevação de alma, a qual constituía

a clave onde essas coisas se davam.

Porque tudo quanto estou dizendo,

posto em almas menos elevadas,

redundaria em banalidades. A

elevação de alma dela colocava tudo

isso num píncaro, e dava a clave da

beleza dessas coisinhas íntimas que

estou contando.

Dentro da clave dessa elevação de

alma, toda ela imponderável, encantava-me

um misto de uma mansidão

generosa levada até o inacreditável,

ao lado de uma firmeza inquebrantável

quando se tratava de princípios.

A justaposição desses contrastes harmônicos

realmente me

atraía no mais alto grau.

Ninguém pode ter

ideia do que era a mansidão

de mamãe! Ela vivia,

evidentemente, numa

família educada e que

não ia tratá-la com brutalidades.

Mas a educação

não impede a ingratidão,

a incompreensão e, portanto,

não evita muitas

decepções. A educação é

um verniz, o qual não importa

a qualidade da madeira.

Dona Lucilia passava,

às vezes, por situações

realmente difíceis

de calcular.

Invariavelmente com

o propósito de nunca retrucar,

nunca redarguir

de um modo desagradável

ou ácido, impertinente

– o que estava bem no

seu papel de mãe de família

–, ela apresentava

sempre uma explicação

do que fazia, com lógica

e afabilidade; e se não

adiantava, ficava quie-

Gabriel K.

ta sem azedume. Dali a pouco retomava

as relações no mesmo nível anterior,

desde que a outra pessoa quisesse.

Mamãe fazia isso com tal disposição

de ser como uma vítima ou

um cordeiro que se deixa atingir porque

quer sofrer sem reagir, e por julgar

que deve fazer esse apostolado

da mansidão, que não conheço, verdadeiramente,

coisa igual, ou que sequer

se pareça com isso de longe.

Dentro dessa atitude vinha a firmeza

dos princípios. Ela era assim,

gostassem ou não, porque assim se

deve ser. Essa é a vontade de Deus,

esse é o pensamento da Igreja e, portanto,

não se muda. Por onde, adaptar-se

para evitar o sofrimento da incompreensão,

nunca! Ela era inteiramente

ela, com dignidade, apesar

de ser com mansidão.

Cristo manietado - Sevilha, Espanha

Para mim, que a conheci tão de

perto, este aspecto aparece muito

numa fotografia tirada na Escola

Caetano de Campos, na Praça da

República, enquanto ela assistia a

uma conferência minha. Mamãe está

ali numa atitude de quem presencia

uma sessão com certa solenidade,

mas não perde o propósito de manter

uma mansidão inalterável, uma

doçura como não se pode imaginar;

o que se exprimia por uma certa melancolia

que ela fazia notar. Entretanto,

se as pessoas fossem indiferentes

a essa melancolia, ela continuava

na mesma doçura e no mesmo

modo.

Devo dizer que este foi um dos

meios mais possantes para ela cativar

meu afeto, porque isso me encantava

além de toda a expressão e

me fazia pensar, naturalmente,

em Nosso Senhor

Jesus Cristo, em Nossa

Senhora. Mesmo porque

minha mãe, de vez em

quando, elogiava Nosso

Senhor por isso. No modo

de elogiar, sem se dar

conta, fazia transparecer

como ela O imitava. Não

era sua intenção, mas

por uma espécie de santa

inadvertência ou santa

ingenuidade, sem perceber,

ela se elogiava falando

de Nosso Senhor Jesus

Cristo. v

(Extraído de conferência

de 24/5/1980)

1) Do inglês: Senhora perfeição.

2) Quadro a óleo, que muito

agradou a Dr. Plinio,

pintado por um de seus

discípulos, com base nas

últimas fotografias de

Dona Lucilia.

8


Σωτήριος Παν. Γιαννακουλόπουλος (CC3.0)

A sociedade analisada por Dr. Plinio

Idade Média: o Direito

consuetudinário

Muralha da cidade

de Rodes, Grécia

As leis consuetudinárias existentes na Idade

Média constituíram um dos maiores tesouros

legislativos de todos os tempos. Foram elas o

resultado de uma das mais terríveis catástrofes

da História: as invasões dos bárbaros na Europa

durante os séculos IX e X. Isso prova que

quando o homem é reto e procura servir a Deus

de todo o coração, apesar dos inconvenientes,

das desvantagens e desgraças que possam

lhe sobrevir, ele acaba fazendo maravilhas.

Lancastermerrin88 (CC3.0)

Oassunto a ser tratado se enunciaria

da seguinte maneira:

leis dos feudos, dos municípios,

das corporações e do reino.

A legisladora por excelência

é a Igreja Católica

Para tratar desse tema somos obrigados

a reunir certas noções gerais a

respeito de diversos pontos da doutrina

do Direito da Idade Média, porque

a sociedade medieval é muito mais

complexa do que a contemporânea.

A complexidade da lei medieval

tem como ponto de partida a noção

Moisés - Claustro da Catedral

de Palência, Espanha

de que o verdadeiro soberano de um

reino não é o senhor feudal, nem o

rei, nem o imperador, mas o Direito,

cuja origem é divina. Essa concepção

de Deus como Autor da lei natural e

fonte de todo o Direito é diretamente

oposta à noção moderna de lei vigente

em nossos dias, onde o Estado representado

por uma assembleia elabora

as leis e sua vontade é soberana.

Na Idade Média não se chegou

a formar uma ideia muito exata do

que seja o Estado, mas sim do Direito,

fundamentado na lei natural, ou

seja, Deus criou o mundo, e da ordem

natural das coisas a inteligência

9


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Tours Jean Fouquet (CC3.0)

humana é capaz de deduzir a existência

de determinadas regras que

constituem a vontade de Deus. Porém

como a inteligência humana é

susceptível de se enganar no conhecimento

dessas regras, o Criador as

revelou, fazendo-as constar do Decálogo.

Esta é a Lei das leis, à qual

estão submetidos todos os países do

mundo e nenhum rei pode revogar.

Ora, como a interpretação da Lei

divina cabe infalivelmente à Igreja,

a lei básica de toda a Cristandade é

aquela da qual a Igreja tem o depósito,

sendo incumbida de ensiná-la,

preservá-la de falsas interpretações e

de impor, por meio de penas, o seu

cumprimento. Assim, a arca, a guardiã,

a mestra, a depositária da lei e,

portanto, a legisladora por excelência

de todas as nações católicas vem

a ser a Igreja Católica.

De momento, vamos nos ocupar

detidamente do Direito consuetudi-

Coroação de Carlos Magno pelo Papa Leão III

nário por ser o mais importante e interessante.

Quando é reto e procura

servir a Deus, o homem

faz maravilhas

Sem entrar em digressões de caráter

jurídico, simplificando um pouco

podemos dizer que, na estrutura do

Estado moderno, todo homem é reputado

livre. Ele possui a liberdade de

fazer aquilo que bem entende e só tem

duas espécies de limites: de um lado,

os limites estabelecidos pela sua própria

vontade. Quando faz um contrato

e livremente se obriga a uma determinada

coisa, ele não pode violar aquilo

a que se obrigou. Mas há depois um

outro liame que se põe aos homens,

e é o da lei. Ela é uma ordem editada

pelo poder competente, capaz de

se impor à vontade dos cidadãos, quer

queiram, quer não.

Como no Direito moderno

só o Estado faz a

lei, chegamos à conclusão

de que em certos contratos

livremente aceitos

ninguém está sujeito a

outra norma, a não ser a

estabelecida pelo Estado.

Na Idade Média apareceu

um tipo diferente

de lei que é, a meu ver,

a maior originalidade do

Direito medieval: a lei

consuetudinária. Consuetudo,

em latim, quer dizer

costume. A lei consuetudinária

é a lei do costume.

Para bem compreendermos

como esse tipo de lei

nasceu, temos de estudar

as condições jurídicas e

políticas da Idade Média.

As leis consuetudinárias,

que constituíram um

dos maiores tesouros legislativos

de todos os tempos,

foram para a Idade Média

o resultado de uma catástrofe

imensa, das mais terríveis da História.

Isso prova quanto é verdade que

quando o homem é reto e procura servir

a Deus de todo o coração, apesar

dos inconvenientes, das desvantagens

e desgraças que possam lhe sobrevir,

ele acaba fazendo maravilhas.

O Império de Carlos Magno foi

organizado à maneira do Império

Romano, no qual a organização do

Estado era parecida com a do Estado

moderno, ou seja, o imperador

encarnava o Estado, todo mundo era

obrigado a obedecê-lo e só ele tinha

o direito de fazer leis. O Império de

Carlos Magno era, portanto, baseado

nesse pressuposto.

Mas quando Carlos Magno morreu,

e já nos últimos anos de sua

existência, uma sombra de tristeza

projetou-se sobre seus domínios:

eram as segundas invasões de bárbaros

que destroçaram completamente

o Império Romano.

10


Hordas bárbaras

moeram a Europa

Com efeito, durante os séculos IX

e X a Europa foi literalmente devastada

pelos bárbaros em todos os sentidos.

Por um lado, eram as incursões

de húngaros – remotos descendentes

dos hunos – que, em corcéis

pequenos e velozes, chegaram a penetrar

na devastada Alemanha, arrasando

o Norte da Itália, atravessaram

a Áustria, a Suíça montanhosa

e atingiram o coração da França, até

Champagne.

De outro lado, os normandos

oriundos da Escandinávia que, penetrando

pelos rios, queimavam, saqueavam

e devastavam tudo quanto encontravam

pelo caminho, e cuja capacidade

de navegação era tal que acabaram

por invadir Constantinopla,

dando a volta

por todo o Mediterrâneo.

Por aí se compreende

bem qual era a ferocidade

desse povo.

Depois, um povo

que desapareceu, os

ávaros. Por fim, os sarracenos

que entravam

pelos Pirineus, pelo

Sul da França, e adentravam

pela Itália.

Assim, invasões de

povos hostis entre si

vindos de todos os lados

moeram literalmente

a Europa. Não

se tratava de exércitos

regulares que avançavam

em ordem, porém

de hordas bárbaras incapazes

de estabelecer

uma estratégia única

de invasão, vagueavam

sem itinerário definido,

não para conquistar

um país, mas

apenas para devastar

as regiões por onde

passavam, sem nenhuma

vontade de voltar nem de se

fixar, tampouco de encontrar lugar

para residir; sua intenção era pilhar

e ir vivendo conforme os meios permitissem

e não fossem enxotados.

Coloquemo-nos na posição de

um rei que esteja sitiado, por exemplo,

em Paris. Ele não tem nenhum

dos meios de comunicação modernos,

e só toma conhecimento dos fatos

por mensageiros que vêm a cavalo

dar-lhe informações. Porém esses

mensageiros raras vezes chegam, porque

as estradas estão obstruídas por

bárbaros que os prendem. Com isso,

as outras cidades do reino desanimam

de mandar notícias ao rei, mesmo

porque ele está preocupado em

defender a sua própria capital e nem

sequer pode estabelecer um programa

de defesa para outras regiões. Se

o monarca pudesse dizer: “Meu reino

vai ser atacado em tal ponto; então,

vou mandar para lá minhas tropas

e oferecer resistência”, isso teria

um sentido. Mas um reino acometido

de todos os lados, picado, quebrado,

moído em todos os sentidos, sem que

possa mandar suas tropas salvar coisa

alguma... Nesse regime, a única atitude

possível é “salve-se quem puder”.

Nasce o feudalismo

A Europa começa, então, a se eriçar

de castelos. Em cada lugar, um

proprietário de terras constrói uma

fortaleza e, na iminência de uma invasão,

recolhe para dentro dela os seus

servidores, as populações livres dos arredores

com o gado, o trigo, o vinho, o

que possam dispor, e ali resiste durante

todo o tempo que consiga.

Por um fenômeno

natural, cada proprietário

começou a impor

a sua autoridade, à

maneira de um pequeno

rei local. Nascia, assim,

o feudalismo.

Tenho vontade de

sorrir quando vejo alguns

historiadores escreverem

estas tiradas

clássicas: “Na época

do obscurantismo da

Idade Média, os reis

carolíngios decadentes

não souberam conter

em suas mãos trêmulas

o cetro de Carlos

Magno, nem o seu

espírito embrutecido

conseguiu discernir o

pensamento do grande

fundador do Império,

de maneira a conservar

a unidade...”

Eu queria saber o que

um desses declamadores,

sitiado na capital

de um reino nessas

condições, faria do cetro

de Carlos Magno.

lwl.org (CC3.0)

11


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Provavelmente fugiria, deixando-o

pela estrada... Quanto à unidade, ele

nem pensaria nela. De fato, as coisas

foram como forçosamente tinham

que ser, em face do que as brutais

circunstâncias impunham.

Essa situação durou cerca de duzentos

anos nos quais, evidentemente,

as pessoas compravam, vendiam,

enfim, estabeleciam toda espécie de

relações de cunho jurídico. Como é

natural, com o passar do tempo essa

vida jurídica foi sofrendo o impulso

das circunstâncias novas. Nenhum

país permanece dois séculos com suas

leis intactas. Qual é o modo pelo qual

essas leis foram se organizando?

Em cada lugar, o costume foi alterando

a lei primitivamente existente.

Para enfrentar os problemas novos

foram se criando novos direitos

e obrigações, e se aperfeiçoando fórmulas

de processo. Terminadas as invasões,

a Europa ficou cheia de castelos,

de barões que fizeram de cada

feudo um pequeno Estado dentro do

qual vigoravam leis inteiramente características,

surgidas com o sabor da

coisa que nasce da realidade. Não era

a lei elaborada, como se faz hoje, por

um homem que não tem nada a ver

com as atividades a serem legisladas.

A lei era feita pelos homens especializados

no exercício daquelas atividades,

que iam adaptando as regras à

medida que o costume ia mudando,

temperando-as, assim, em contato

com a realidade. Esse foi o nascimento

do direito consuetudinário.

Leis consuetudinárias

Durante esse tempo, o que era

feito daquilo que designamos Estado?

Nós chamaríamos de Estado o

rei. E de fato o rei era o Estado. Se

Luís XIV tivesse dito, naquela época,

a famosa frase que lhe é atribuída

– a qual parece que ele não disse–:

“L’Etat c’est moi – O Estado sou eu”,

ele teria afirmado uma banalidade,

porque todo mundo sabia que o único

poder que representava o Estado

era o rei. E o que fazia o rei? Durante

todos esses séculos de invasão há decretos

reais. Mas estes versam apenas

a respeito disso: privilégios a favor de

uma igreja, de um barão, privilégios

a respeito da organização da vida de

um determinado grupo de burgueses.

Eram coisas muito pequenas, em geral

concessões de privilégios locais.

Por exemplo, não consta do Direito

francês durante essa época uma

só lei de caráter geral, que se refira

a todo o território nacional. Eram

apenas casos individuais.

O que eu disse a respeito do Direito

francês é muito mais compreensível

ainda em relação ao Direito espanhol.

Imaginem se durante sete séculos

de Reconquista, em que palmo a

palmo os guerreiros cristãos de origem

visigótica vão reconquistando aos árabes

a Península quase completamente

perdida, os visigodos fossem fazendo

leis. Eles lutavam e na retaguarda

os costumes iam se tornando leis. E assim

a Europa toda se encheu de costumes,

inclusive os costumes muito bonitos

de Portugal, que foi um dos países

onde o Direito consuetudinário atin-

F Rancis Raher (CC3.0)

Castelo da Aljafería - Zaragoza, Espanha

12


giu uma das suas manifestações

mais interessantes.

Em cada lugar constituiu-se,

pela força dos

costumes, uma amálgama

das várias leis estabelecidas.

Essa amálgama

de leis, já consuetudinária

em si, foi sendo

alterada pela transformação

dos costumes

ao longo dos séculos da

Idade Média. Mas houve

uma coisa curiosa: dentro

dessas leis feitas assim,

em cada região, em

cada lugar, o estilo de relações

entre homens foi

tendo uma lei própria.

Por exemplo, os que

trabalhavam em couro.

Os negociantes de couro

tinham entre si certos

problemas comuns: relações

de concorrências, de

apoio, etc. Por outro lado,

eles possuíam também relações

com os clientes.

Como havia uma série

de questões que interessavam

só aos comerciantes

de couro e o Estado

não fazia leis, eles acabavam

elaborando leis por si, as quais

só valiam para eles. Por exemplo, uma

lei muito comum para vários ramos

de negócio na Idade Média era que,

quando um cliente não pagava a um

comerciante, todos os outros negociantes

do ramo não lhe vendiam mais

suas mercadorias, até que ele resolvesse

pagar. Isso exprime bem o espírito

de classe que se formava entre eles.

Então, dentro dessas unidades pequenas

começaram a aparecer as leis

consuetudinárias para as várias classes,

os vários grupos sociais. Assim,

temos leis vigorando só para determinada

igreja e terras circunvizinhas;

leis apenas para os clérigos, nobres

ou burgueses de um determinado lugar;

leis só para determinados ofícios

Aula na Universidade de Paris, na Idade Média

e, por fim, leis válidas apenas para

uma determinada parte do feudo.

O Direito Romano

A partir do século XII, começou a

aparecer o estudo do Direito Romano

nas faculdades europeias e, consequentemente,

um tipo de organização

onde não há quase costumes e a

lei é feita pelo próprio Estado. Principiou-se

a aplicar o Direito Romano

nos julgamentos, e o povo de tal modo

não gostou que no Sul da França,

por exemplo, houve reações violentas.

O Direito Romano acabou entrando

ali, mas no Norte não penetrou.

Então a França dividiu-se em

duas categorias de zonas: as de Direito

consuetudinário, não escrito,

Étienne Colaud (CC3.0)

porque esses costumes

não tinham nascido de

um documento escrito; e

depois a zona do Direito

escrito, que era o Direito

Romano. Mas o curioso

é que o Direito Romano

entrou como um costume

também. Não houve

um rei pondo em vigor

o Direito Romano. Simplesmente

começaram

a aplicá-lo porque acharam

bonito.

O costume assim conceituado

pode definir-

-se da seguinte maneira:

é um uso jurídico,

ou seja, que produz força

de direito, de formação

espontânea – não se

fizeram estatísticas, nem

houve a escola de Sociologia

e política para dizer

a última palavra –,

aceito por todo um grupo

social interessado e

vigorando só para esse

grupo.

Quais são os requisitos

para que um costume

exista? Primeiro requisito:

é preciso que sejam

atos repetidos. Realmente não existe

um costume se não houver repetição.

Repetidos durante quanto tempo?

Eles fixaram um limite que é necessariamente

arbitrário, porque não

há limite fixo para essas coisas. Eles

determinaram um limite de quarenta

anos. Mas os costumes bons eram

costumes que vigoravam há tempos

imemoriais e era um prestígio quando

se podia dizer: “Esse costume vigora

desde tempos imemoriais”.

Outro requisito é que esses atos

sejam públicos. É claro que o costume

concernente a atos não públicos

não pode prevalecer como lei. O

terceiro requisito é que os atos sejam

pacíficos. Eles entendiam como

atos pacíficos os que não tinham tido

13


A sociedade analisada por Dr. Plinio

por sua origem uma violência e que

se praticavam sem nenhuma contradição

séria.

Fala-se tanto de democracia, mas

a democracia verdadeira é aquela

em que o homem legisla só naquilo

que ele entende, sem ser por meio

de legislador, mas diretamente, contribuindo

para formar o costume e

entregando a regulamentação deste

à vida social. Isso é imensamente

mais autêntico, tem muito mais

sabor de realidade do que qualquer

outra coisa.

Dois extremos hostis

Depois de termos estudado a assombrosa

elasticidade dos costumes,

compreendemos bem quanta estupidez

há em afirmar que a Idade Média

foi um período de tirania, em

Gabriel K.

Émile Signol (CC3.0)

São Luís IX - Palácio de Versailles, França

Adão e Eva sendo expulsos do Paraíso

Catedral de Gloucester, Reino Unido

que o homem era um verdadeiro

escravo.

Há uma coisa muito curiosa

que a História comprova

continuamente: o demônio é

o pai da mentira; sempre que

ele promete ao homem uma

coisa, podemos estar certos

de que aquilo o demônio não

vai dar. E o programa dele já

está enunciado na mentira:

aquilo é que ele vai tirar.

Adão e Eva tiveram um

obscurecimento de inteligência

pavoroso em consequência

do pecado original. Decadências

internas, psíquicas,

de toda ordem. E perderam o

Céu. O que há de mais diferente,

nesse processo de decadência

e nessa marcha para

o Inferno, do que a promessa do demônio:

“Sereis como Deus”? É justamente

o que não vai acontecer.

O homem tinha a liberdade, mas

o demônio quis roubá-la prometendo

a liberdade. Vimos a margem

enorme de liberdade dos grupos sociais

na Idade Média. Entretanto como

o demônio roubou à humanidade

a liberdade, nas sucessivas revoluções

que nos conduzem ao totalitarismo!

É interessante comparar os dois

elos extremos da cadeia: de um lado,

uma sociedade que vive de respiração

consuetudinária; e no outro

extremo, a sociedade totalitária

na qual não se espirra sem um regulamento.

Se espirramos fora do regulamento,

vamos parar num campo

de concentração. Por quê? Por-

14


que as coisas saem de uma certa ordem

prevista pelo sociólogo para o

bem comum. O totalitarismo e o direito

consuetudinário são os dois extremos

hostis.

Uma pessoa poderia me fazer esta

pergunta: “Mas isso não cai no caos?

Imaginemos os homens de hoje

regidos pelo costume e veremos o

tumulto que vai nascer.”

Em primeiro lugar é preciso notar

o seguinte: com um material podre

não se constrói uma casa forte. Numa

época de decadência moral tremenda

como a nossa, soltando-se, dá

na desordem, prendendo-se, surge

a tirania. Se se nomeia alguém para

governar, acaba sendo um gatuno ou

carrasco. A solução não é outra senão

moralizar. O direito consuetudinário

supõe evidentemente um teor

de moralidade, uma ordem cristianizadora.

Eu não seria favorável à aplicação

brusca, pura e simples de um sistema

consuetudinário no Brasil de hoje.

Entretanto, se em cada lugar fossem

entregues paulatinamente certas

funções consuetudinárias às forças

sociais verdadeiras do local, tenho

a impressão de que a coisa terminava

bem. Porque a legítima autoridade

social, por uma espécie de

molejo interno, é capaz de resolver

bem os casos; enquanto que a autoridade

política como nós a concebemos,

distanciada da vida social, é artificial

e não resolve nada bem.

Revogação de costumes

contrários à Moral

ou ao bem comum

O direito de revogar um costume

competia só ao rei, que o exercia

apenas em dois casos: quando o costume

era contrário à Moral cristã ou

ao bem comum da sociedade.

Nesse sentido, é bonito notar que

o grande protetor dos costumes foi

São Luís IX, que não só deu todo

apoio aos costumes justos, mas se

tornou um extirpador tremendo de

maus costumes.

No século XIII, como a função do

rei começou a se desenvolver, o parlamento

de Paris principiou também

a receber essas funções de extirpar

os maus costumes. Na Inglaterra alguns

desses costumes estão em uso

até nossos dias.

Na França o processo foi diferente.

Estudados os costumes dos vários

feudos grandes, verificou-se que tinham

traços comuns, que constituíram

o Direito consuetudinário de

certas regiões: Normandia, Champagne,

Auvergne, etc., ao lado dos

direitos consuetudinários menores

das pequenas unidades. E assim formou-se

a estrutura: lei de Estado feita

pelo rei, costumes regionais que

são os denominadores comuns dos

costumes locais e, por fim, os costumes

locais. E dentro dos costumes

locais, os costumes para as várias

classes, para os diversos pequenos

lugares: rios, lagos. Temos, assim,

a imensa diversificação do Direito

medieval.

O Direito consuetudinário fixou-

-se em todo o território europeu.

Com o tempo esses costumes transformaram-se

em documentos chamados

cartas, que eram convenções particulares

nas quais havia referências

aos costumes. Nos séculos X e XI essas

cartas já são numerosas. No século

XII começaram a aparecer estatutos

municipais, consentidos por reis e

outros senhores, para determinadas

cidades. Principiaram a surgir também

os registros das cartas feitas pelos

particulares ou pelo rei. Mais tarde

surgiram os livros de costumes, escritos

por juristas para uso próprio. E

quando esses livros eram bem feitos

generalizavam-se de tal maneira que

acabavam tendo, até certo ponto, força

de lei. Por fim, no século XII, começaram

a aparecer as compilações

de decisões de juízes com base nos

costumes, e constituíram uma espécie

de complemento do Direito consuetudinário.

Sobretudo no século XIII

isto se desenvolveu.

Assim nós temos uma visão de como

se estabeleceu o Direito consuetudinário

e de que modo podia haver

ordem dentro dele. Deixo posto um

problema a ser tratado futuramente:

Nesse pulular de leis e de corpos

sociais, como estabelecer a ordem e

a medida? Dessa orquestra com milhares

de instrumentos, como podia

nascer uma sinfonia? v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de 1954)

Dr. Plinio durante uma

conferência, na década de 1950

Arquivo Revista

15


Gesta marial de um varão católico

A Revolução

Diego Delso (CC3.0)

tendenciosa se difunde

como o lodo - I

A Revolução tendenciosa move-se no

subconsciente, lamacenta, na confusão

dos defeitos que se chocam e se

amalgamam, se fazem e se desfazem

em novelos de desordens túmidos e

malcheirosos. No fundo é a ação do

demônio, que se agita e desprende

maus odores os quais infestam todo o

ambiente. Dr. Plinio se voltava contra

isso com indignação e horror. Seu senso

católico clamava por ideias definidas,

argumentações nítidas, resoluções fortes,

rumos certos, limpeza, pureza, retidão.

Arquivo Revista

C

omo é a combatividade? De

que modo ela se porta em face

do “pacinismo” 1 , o qual

avança como uma cobra que conspira,

urde, trama? Aliás, não caminha

propriamente como uma serpente,

mas é uma coisa diversa.

Águas de Araxá

Quando menino, fui a uma estação

de águas, que depois possivelmente se

modificou muito nos seus aspectos, a

qual começava apenas a se tornar conhecida

no Brasil, e hoje é conhecidíssima

no País inteiro e até em determinados

lugares do exterior: Araxá, no

Estado de Minas Gerais. Eu acompanhava

meus pais porque parece que

as águas de lá eram muito benfazejas,

ou ao menos se esperava que o fossem

para o estado de saúde de minha mãe.

16


A cidade de Araxá ficava um tanto

distante das águas. Todos os dias era

necessário tomar um automóvel para

chegar até lá. Tudo isso era para nós

um passeio – para minha mãe um curativo

–, e ia-se até o ponto das águas que

se apresentavam em pleno campo.

Havia ali duas ou três pequenas

construções necessárias para o serviço

das águas, mas que eram, se me

lembro bem, umas meras barraquinhas.

Por todos os lados existia uma

terra grossa, úmida, feia, com borbulhas

que saiam de profundidades,

causadas por calores subterrâneos,

e explodiam daqui, de lá e de acolá.

Aquela massa sulfúrica se mexia nas

várias direções, mas com movimentos

desordenados provenientes do

fundo, que ora faziam saltar um tanto

de lama, ora outro tanto. Aqueles

flocos de lama se chocavam, efetuavam

um remelexo desagradável e incongruente,

extravasavam um pouquinho

as margens e voltavam. E daí

se depreendia um cheiro sulfúrico

dos mais desagradáveis.

Por causa das propriedades terapêuticas

muito apreciadas e parece

que bastante apreciáveis dessas águas,

era preciso que uma pessoa perita em

remexer aquelas coisas soubesse tomar

algo como um copo na ponta de

um pau, estendê-lo até certo local e,

apertando um pouquinho as massas

de lama, arranjar um jeito de entrar

no copo a água e não a lama, e fornecê-la

ao pobre doente o qual a bebia e

parece que se sentia bem.

Olhei para aquilo e tive a seguinte

impressão: “Isto parece com algo

que de futuro conhecerei. Já vi coisas

destas – bem entendido, não era

aquela água, mas algo que na ordem

intelectiva, espiritual, mental parecia

com aquilo –, porém não sei com

o que posso compará-las.”

E concluí: “Isto vai ficar em meu

espírito, tanto mais que noto aqui, lá,

acolá, tufos de fumaça escura parecida

com poluição e que se desprende

em vários lugares. São sinais de desastres

subterrâneos que causam o

entrechoque de massas líquidas das

quais saem aquelas fumaradas feias.”

Tudo não era senão feiura e horror,

exceto as qualidades terapêuticas

misteriosas daquela água.

Ódio inspirado pela

Fé e a razão

Mais tarde, percebi as grandes

multidões humanas trabalhadas pela

Revolução, mas não como quem

move soldadinhos de chumbo –

avança um, avança outro –, porque

o soldadinho de chumbo tem sua

individualidade, distingue-se um do

outro, possui uma forma definida,

é coeso, avança. Não era, portanto,

como aquilo que eu posteriormente

chamaria “Revolução B”, que se desenvolve

nos fatos, nem como a “Revolução

A sofística”, quer dizer, com

ideias precisas, definidas, mas sim como

o que eu denominaria “Revolução

A tendencial”. Ou seja, uma Revolução

que se move no subconsciente dos

homens, lamacenta, pardacenta, na

confusão dos defeitos que se chocam

e se amalgamam, se fazem e se desfazem

em novelos de desordens túmidos

e malcheirosos. É no fundo a ação do

demônio que move, move, move, move

e desprende maus odores os quais infestam

todo o ambiente.

Assim eu vejo o “pacinismo”, nas

suas grandes possibilidades de vitória

hoje em dia. E é para o mísero

estado no qual a Revolução deixou

multidões humanas inteiras, que me

volto ao mesmo tempo com indignação

e horror.

Por que com horror e indignação?

Porque há algo que é o meu próprio

senso do ser, o senso da minha condição

de homem e, sobretudo, de católico

que clama por ideias definidas,

argumentações nítidas, resoluções

feitas e fortes, rumos certos,

limpeza, pureza, retidão e que se

sente horrorizado com aquele desgoverno,

aquela confusão, aquela

Flávio Lourenço

Beau Dieu - Catedral de

Notre-Dame, Amiens, França

17


Gesta marial de um varão católico

Divulgação (CC3.0)

moleza que dá em tudo e não dá em

nada; e principalmente horrorizado

com aquela força subterrânea misteriosa

que, mareando aquela sujeira

toda, tem a intenção de ir corroendo

a crosta terrestre até que o mundo

não seja senão isso.

Donde vem a indignação? Do choque.

Eu conheço a minha condição

humana e de católico, e sei o que tenho

de bom. Não hesito em dizer que

amo a Deus. E se é verdade que toda

criatura foi feita à imagem ou à

semelhança de Deus, olhando para

mim devo sentir que sou feito à

imagem e semelhança d’Ele. E se eu

O amo preciso amar isto em mim. E

não posso deixar de odiar algo que

tende a destruir aquilo que é semelhança

d’Ele. Odiar de um ódio inspirado

pela Fé, pela razão; portanto

é um ódio que toma a pessoa inteira.

E odiar instintivamente porque o homem,

quando é reto, tem um instinto

que o leva a amar as coisas que devem

ser e, vendo algo que é como não

deve ser, sente-se estranho e contrário

àquilo. E o resultado é este: nós

não cabemos juntos!

Entre mim e o lodo o estado

de guerra é irremediável

Araxá na primeira metade do século XX

Considerando essa situação, exclamo

interiormente:

— Tu, lama imunda, sabes disso

e tentas introduzir em mim as tuas

emanações sulfúricas, penetrar minha

veste, minha cútis, entrar por minha

respiração, destemperar os meus

pulmões, intoxicar o meu sangue,

conformar-me ao nojo que existe em

ti e fazer de mim algo à tua maneira.

Mas não desejo te fazer à minha maneira,

quero fazer-te cessar.

Eu sou o agredido porque tenho o

direito de ser. Sou conforme Àquele

que é fonte de todo o Direito: Deus

nosso Senhor!

Tu não tens o direito de ser. Fora!

De ti, lodo, só quero guardar a lembrança

de teu horror, para que quando

voltares disfarçado – porque te co-

nheço, sei que não tens vergonha e

voltarás – eu possa te olhar e dizer para

todos: esta é a lama, vou descrevê-

-la. E com horror, despertando o nojo

e o ódio a ti, faço que mais uma vez tu

sejas repelida. Entre mim e ti o estado

de guerra é irremediável, porque

eu sou e não quero cessar de ser, exceto

quando Deus me chamar a Ele.

Mas aí eu não cessarei de ser; deixarei

de ser nesta Terra para ser mais inteiramente

no outro mundo.

E no outro mundo continuarei a

lutar contra ti. Porque enquanto lodo

houver pela Terra, eu serei do

Céu seu inimigo. Lodo, eu te conheço,

conheço qual o teu futuro, como

tu conheces o meu. Tu sabes que se

me dominares me levarás para aquele

lodo sem fim, cheio de fogo e de

imundície e de maldição, que é o Inferno.

Sei para onde tu queres me levar.

Mas sei também que se eu for para o

Céu te amaldiçoarei e, dos mais altos

páramos, te atormentarei para a glória

de Deus! Nem eu após a morte

nem tu deixaremos de existir. Lodo,

eu te atazanarei, perseguirei e te humilharei!

Tu podes me caluniar, invectivar,

ignorar e até fazer sair dos

meus pés uma labareda de fumaça

que impeça que me vejam.

Nada extinguirá minha combatividade,

a qual é antes de tudo mi-

Diego Delso (CC3.0)

18


tinha mais vontade de sair. Parece

que as banheiras eram alugadas

por tempo determinado. Terminado

o prazo, bateram na porta porque já

havia outro candidato. Tive vontade

de comprar mais um turno, mas não

era possível. Você não sabe o que é

nadar no lodo.

“O lodo descarrega a pessoa. Você

não chega a encostar-se no fundo

da banheira. Ele é tão denso que você

fica cercado daquela matéria lisa,

a qual penetra por entre os dedos,

sobe pelo peito, vai até o queixo e dá

um sono... É gostoso como você não

pode imaginar.”

Não disse nada a ele porque era

um homem mais velho do que eu,

com quem não tinha esta forma peculiar

de intimidade que nos autoriza

a trocar confidências de alma.

Pensei com meus botões: “Vi o lodo

de Araxá, mas agora observei outra

coisa: o lodo na sua alma. Há muito

que o conheço e o vejo passear, se

revolver, viver dentro do lodo. Conha

fidelidade a Deus e a Nossa Senhora.

É um reflexo e um prolongamento

da incompatibilidade irredutível

d’Eles contigo, porque tu és a

serpente eternamente esmagada na

cabeça.

Eu te conheço, lodo, e por isso

digo: És esmagado pelo pé virginal

d’Aquela que te venceu e todos

teus sequazes! E tu me odeias e tens

razão porque sou filho d’Ela! Mas

também é verdade que, porque sou

filho d’Ela, eu te odeio.

Vejo bem, ó lodo, que na tua moleza

borbulhas ódio contra mim. Esse

ódio não é cristão. Tu dizes contra

mim “isto é vingança”, “isto é orgulho”,

ou então “senta a meu lado,

mete tuas mãos dentro de mim, acaricia-me

e eu teria algo para te contar”;

e todas as borbulhas emitirão

um gás tóxico que me dará vontade

de dormir, me tirará o gosto das

energias inquebrantáveis do ar límpido

das batalhas que não acabam

mais. Sei, lodo, que tu me prometes

dar todos os gáudios do lodo. Eu

imagino esses regozijos.

O lodo do espírito

Ouvi certa vez um senhor comentar

diante de mim como era delicioso

tomar um banho de lodo. Falava

ele de um local situado na Europa

Central, com um lodo mais célebre e

provavelmente mais curativo do que

o de Araxá.

Dizia-me este senhor que ele tomara

esse banho não por necessidade,

mas por curiosidade, coisas de

turista. Disseram-lhe que era muito

agradável meter-se no lodo, então

ele foi. Havia torneiras com esguichos

fortes, grandes, de onde saía

o lodo que enchia uma banheira. Ele

achou aquilo repugnante. E acrescentou:

“Tive horror daquilo, mas, levado

pela curiosidade, entrei. Você não

imagina, Plinio, a sensação do fofo,

do macio, do agradável que me circundava

por todos os lados. Eu não

Dr. Plinio em 1982

nheço o lodo da matéria e o lodo do

espírito porque conheço o senhor.

Conheço o convite do lodo, sua atração

e o vício de viver no meio dele.

Eu odeio o lodo porque é tal que, ou

a pessoa o repele com suma energia

no primeiro momento, ou ele tem

uma carícia infame que logo no segundo

momento nos amolece. ‘Lodo,

eu não te quero. Fora! Tu alegas

as tuas carícias como um argumento

para a tolerância, e eu digo: Se tu

não tivesses outras infâmias, as tuas

carícias seriam a razão pela qual eu

diria: Lodo, fora!’” v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de

17/7/1982)

1) Neologismo criado por Dr. Plinio para

ressaltar a falácia do “pacifismo”, indicando

que a imposição de uma falsa paz

visa ocultar cinicamente seus reais objetivos

revolucionários. Palavra que agrega

“paci” a “cinismo”: “pacinismo”.

Arquivo Revista

19


Reflexões teológicas

A verdadeira honra e

o nosso relacionamento

com o mundo angélico

O homem que sente a sua própria

honra por amor de Deus adquire

um estado celeste na Terra. Sob esse

prisma, a procura da verdadeira

honra é a meta e a bússola da

vida espiritual e a marca da

civilização do Reino de Maria.

Gabriel K.

quer Anjo. Primeiramente, ele é puro

espírito. Se comparamos a condição

da matéria, como criatura, e a do

espírito, não resta dúvida de que esta

última é muito mais honrosa.

Outra razão é que, em virtude de

sua natureza espiritual, os Anjos tiveram

uma prova rapidíssima e entraram

imediatamente num estado

de bem-aventurança, o qual é honroso

em relação ao estado de prova. O

puro espírito tem uma familiaridade,

uma intimidade com Deus, que é, de

si, cheia de honra.

O estado angélico é o estado de

honra. Por conseguinte, o homem

que vive na sua honra imita o Anjo

e se aproxima dele. Por isso devemos

amar as coisas principalmente na

medida em que elas nos deem uma

participação da honra da ordem an-

Omundo dos Anjos é o mundo

da honra, e todo Anjo,

colocado em face de qualquer

criatura humana, é um vaso de

honorificência.

O Reino de Maria será a

civilização da honra

Duas razões inundam

de honra qual-

20

Coros angélicos - Basílica de Santa

Maria Maggiore, Roma, Itália


Flávio Lourenço

Arquivo Revista

Dr. Plinio durante o período de sua convalescença, após

o acidente de automóvel em 3 de fevereiro de 1975

gélica. Portanto, fazer as coisas em

espírito de honra, ou seja, na medida

em que introduzam a honra.

Podemos chegar a um estado

de vida espiritual por onde habitualmente

vejamos tudo do ponto

de vista da honra. Isso seria morar

dentro da honra. Assim, praticamos

o primeiro Mandamento da

Lei de Deus de um modo vivo e verdadeiro,

pois desse aspecto há para

nós uma espécie de flash contínuo,

ininterrupto, discreto, em que, por

assim dizer, vive-se dentro da honra

como um pássaro no ar. Há nisso

toda uma escola de vida espiritual

para considerar.

Consideradas as noções que nós

temos de honra, expungidas de “heresia

branca” 1 , vemos o Anjo como

um ser cheio da honra, e a hierarquia

celeste como a hierarquia das

honras.

Sob esse prisma, a procura da verdadeira

honra é a meta e a bússola

de nossa vida espiritual e a marca da

civilização que queremos constituir.

O Reino de Maria será a civilização

da honra ou não será nada. O estado

em que o homem sente a sua própria

honra por amor de Deus é um

estado celeste na Terra. É nesta luz

que devemos considerar tudo quanto

fazemos.

Uma espécie de licor

ou elixir divino

Às vezes me perguntam sobre minha

vida espiritual. A nota distintiva da

minha vida espiritual é esta: ver Deus,

Nossa Senhora, a vida e todo o universo

sob o lumen da honra. Por onde a

minha verdadeira felicidade de situação

consiste em estar considerando as

coisas continuamente do ponto de vista

da honra, de maneira que, examinando

meus gostos pessoais, desde a raça

de cachorros até o estilo de música, minha

predileção vai para aquilo onde o

aspecto “honra” é mais saliente.

Assim, poder-se-ia dizer que passo

o dia inteiro à procura da honra;

desde o despertar pela manhã até fechar

os olhos para dormir eu estou

em busca da honra. A tal ponto que,

durante alguma doença, tenho a preocupação

de estar na cama com naturalidade

– nada de teatralidade,

porque isso não é honra –, mas numa

posição natural com honra. Pode ser

que eu tenha tido posições descompostas

por efeito de uma dor, assim

como um homem que dorme; mas

não me lembro de mim despreocupado

de manter na cama uma posição

com honra.

Por quê? Para afirmar minha superioridade

em relação aos outros?

São Miguel Arcanjo - Igreja de

Santo Eucário, Metz, França

21


Reflexões teológicas

Samuel holanda

São Miguel - Museu do Louvre, Paris, França

Não. É para possuir a honra como

uma espécie de licor ou elixir divino,

que deve estar na minha alma como

o sangue está em meu corpo.

Os três Arcanjos e a

personificação da honra

Voltando à consideração do mundo

angélico, eu creio que, na medida

em que são altos dignatários e exercem

funções sumamente honrosas,

os Anjos são personificações da honra

naquelas funções. De suas missões

realizadas com honra decorre

uma dedução de como eles são.

São Miguel, por exemplo, faz lembrar

aquele dito do Marechal Foch 2 :

“Ma droite est pressée, ma gauche est

menacée, mon arrière est coupé. Qui

fait-je? J’attaque.” 3 Alta qualidade

de honra! Por quê? Porque é o ataque

visto no apuro e no holocausto

completo. Esse j’attaque quer dizer:

“Eu jogo o todo pelo todo, aqui está

a minha vida. Mas jogo com classe,

com ímpeto, com força”.

É uma maravilha!

Essa seria a honorabilidade

de São Miguel.

Em São Rafael, a

honorabilidade está na

virtude da prudência

enquanto operativa, isto

é, que leva a escolher

as metas boas e os métodos

adequados para

atingi-las. Ele possui

toda a honorabilidade

de um Conselho de Estado

Maior, de um conclave,

ou de um Conselho

que existe para assessorar

o Santo Padre.

Essa função exercida

na sua máxima nobreza

e honorificência

encontra seu arquétipo

no Anjo São Rafael.

Uma figura humana

de São Rafael seria,

por exemplo, São Pio

X desmontando o complot modernista

contra a Igreja,

a fim de que ela prosseguisse

nos seus verdadeiros

objetivos. Este

pontífice fez exatamente

o papel do pastor

que soube discernir

os métodos e aplicá-los.

São Rafael é isto

com suprema honra.

Não se pode ser incumbido

de uma missão

mais honrosa do que a

de São Gabriel. Ele é,

por excelência, o missus

a Deo 4 . Tudo quanto

é revelação da verdade,

da Religião, da Fé, do

bom espírito, bem como

o valor do símbolo,

eu sou levado a atribuir

a São Gabriel.

Para mim, dois Santos

representam São

Gabriel de um modo

excelente: São Vicente Ferrer, chamado

“Anjo do Apocalipse”, que vinha

anunciar o fim do mundo, pregando

as glórias de Nossa Senhora, o esplendor

da Religião, da Fé, etc.; e São Luís

Grignion de Montfort, eminentemente

“gabrielino”, que anuncia a verdadeira

devoção a Nossa Senhora.

Intercessores apropriados

para remover os obstáculos

opostos à honra

Consideremos agora o assunto

pelo seguinte aspecto: imaginemos

um homem direito, sério, mas que

não é um astro, dando um curso de

Filosofia tomista bom para um certo

número de alunos. É natural que esse

homem recorra à proteção de São

Tomás de Aquino.

O melhor dessa noção de recorrer

ao Doutor Angélico consiste em que

esse professor, lecionando a Filosofia

tomista, repete uma ação que São

Tomás praticou na vida, estendendo

de algum modo a atividade des-

Cenas da vida de São Pio X (detalhe) - Santuário

de Nossa Senhora do Rosário, Pompeia, Itália

Gabriel A.

22


se Santo. De maneira que a ação dele

é um desdobramento do próprio

São Tomás de Aquino. Ele é, portanto,

naquela aula para os seus alunos,

como que um outro Tomás de Aquino

em estatura menor; há uma verdadeira

participação da ação dele na

do Doutor Angélico. Então, o pedido

de interferência de São Tomás

não é o de um homem extrínseco à

ação que está praticando.

Para se ver como são variadas as

coisas, qual o Santo que eu seria levado

a invocar para levar bem esta conferência?

Evidentemente os três Arcanjos

mais o Profeta Elias. Porque

percebo perfeitamente que estou desenvolvendo

uma ação para remover

o grande penhasco trágico que se

opõe ao nosso progresso na vocação,

que é o mundo atual, um mundo sem

honra, enquanto presente nas almas.

Então, penso nas ações grandiosas

de Santo Elias fazendo mover céus e

terras, peço a ele que tenha pena de

mim e me obtenha uma certa participação

do poder dele para este passo

que estou desejando. Se ele tiver verdadeiramente

pena de mim, de maneira

a conferir à minha palavra uma

eficácia que ela não tem, empurrará

aqueles a quem estou falando como

os elementos se moviam às ordens

dele.

Amizade pessoal com

Anjos e Santos

A graça para discernir a situação e

saber que Santo invocar é uma flexibilidade

da alma por onde se sente a

ação do Santo que nos convida a rezar

a ele. É uma coisa muito bonita e

delicada que se dá com todo mundo,

não é um privilégio de poucos.

Por exemplo, acontece às vezes de

irmos a uma igreja e encontrarmos,

numa capela lateral, uma mulher

que se poderia comparar, mais ou

menos, com um pano molhado que

se espreme e fica seco; assim também

parece que o sofrimento espremeu

aquela pobre senhora, cuja pele

gasta recobre um corpo alquebrado.

Ali está ela, no canto de um altar, rezando

para um Santo cuja imagem

pequena encontra-se entre outras.

Um cretino diria: “Superstição.”

E eu responderia: Culto de dulia o

mais áureo e magnífico! Porque de algum

modo aquele Santo fez-lhe sentir,

por graças recebidas diante da sua

imagem, que ele teria um vínculo de

alma com ela. Portanto, mais do que

a graça obtida por ele, trata-se de um

relacionamento de amizade pessoal

com ela. Quiçá esse conceito de amizade

pessoal com Anjos e Santos possa

parecer irreverente para alguém,

mas para mim é o conceito por excelência.

O Santo de quem ficamos amigos

tem relações pessoais conosco. Esse

relacionamento até uma pobre mulher

ignorante, morando

em algum

porão, pode ter na

Santa Igreja.

Já me aconteceu

de, passando

perto de uma mulher

assim, ter pena

e vontade de parar

para falar com ela,

auxiliá-la em qualquer

coisa, mas depois

não o fazer,

pensando: “Se eu

for ajudá-la privo-

-a do melhor, que é

o auxílio que o Santo

está lhe prestando,

e meto-me no

meio desse arco-íris

que vai do Santo

para ela. Enquanto

eu não sentir que

sou mandado pelo

Santo para ajudá-la,

posso até rezar

uma jaculatória

por ela ao Santo,

mas não vou meter-

-me nesse relacio-

São Vicente Ferrer exorcizando um energúmeno

Museu de Belas Artes, Valência, Espanha

namento.”

Arcanjo São Gabriel - Museu Nacional

de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

Flávio Lourenço

Flávio Lourenço

23


Reflexões teológicas

Gabriel K.

Devoção a São Rafael

São Rafael Arcanjo (coleção

privada) - Lima, Peru

do, notei que acabara de ser posta

junto a um altar lateral uma imagem

muito feia de um Anjo que, pelas características,

notei tratar-se de São

Rafael, mas pensei: “Esta é propriamente

a imagem de um Anjo como

não deve ser. Até nem vou olhar para

ela, vou rezar abstraindo da imagem.”

Enquanto rezava o meu Rosário,

tive uma moção interior, semelhante

à da graça de Mater Boni Consilii

a Genazzano 5 , como quem me dizia:

“Reze a mim porque eu estarei ao

seu lado e o ajudarei!”

De lá para cá nunca mais rezei um

Rosário em que não intercalasse, depois

de cada dezena, uma jaculatória

a São Rafael para ele me ajudar.

O mais curioso é que eu não percebi

uma só vez a ajuda prometida. Continuo

a rezar como quem vai acumulando

jaculatórias para um belo dia

dar o resultado desejado. Vejo que

esta proteção está reservada para

uma determinada ocasião.

Com efeito, precisamos

compreender que tudo quanto

estou tratando a respeito

de honra, de Anjos e Arcanjos,

há um momento em que

isso deve tocar a nossa alma;

e que a ação desses espíritos

celestes está preponderantemente

nisso, não podemos

nos antecipar. Isso é muito de

acordo com a verdadeira vida

espiritual.

Meu modo de

sentir e pensar

Segundo o curso comum

das coisas, deveríamos terminar

estas considerações dizendo:

“Vamos fazer uma deliberação

de rezar todos os

dias tal oração.” Eu aprovo

muito isso com entusiasmo,

mas não é o nosso caso, pois

seria nos anteciparmos a uma

certa moção angélica. Eu, por

Há mais um aspecto curioso a se

considerar: por vezes, a aridez em

certo tipo de devoção é o sinal de que

aquela devoção é para nós. Mas algumas

vezes esse sinal consiste em uma

consolação. Por exemplo, toda minha

vida tive aridez pela devoção a São

Rafael. Aquela história de Tobias, o

Anjo que tira o fígado daquele peixe...

Mexer com o fígado de um peixe

para tirar daí um óleo, eu compreendo

que é enormemente respeitável,

mas tenho certa estranheza com

esse gênero de ações. Mandar o demônio

para o Inferno: Ó, magnífico!

Mas aquilo tudo com o peixe, embora

eu venere muito, minha alma não

voa para esse lado. Entretanto depois

que comecei a fazer estas reflexões

sobre os Anjos e compreendi o papel

de São Rafael, nasceu um grande desejo

de relacionar-me com ele.

Entrando certo dia em uma igreja

onde costumo rezar de vez em quanexemplo,

começaria isso meio hirto.

Se quisessem eu acompanharia,

mas não entraria minha alma inteira

nisso. O que está na minha alma

é esperar a moção angélica que virá

em dado momento, não sei qual,

mas virá. Aguardar com a esperança

de que venha e voltar os olhos nessa

direção.

Há qualquer coisa no meu modo

de sentir e pensar que nunca consegui

explicitar bem, mas entra eminentemente

no modo de ser de São

Gabriel e corresponde ao que eu

considero uma excelência, uma magnificência

especial da Igreja Católica:

é uma suma seriedade, elevação,

nobreza, acompanhadas de uma

bondade, uma proteção por onde

as coisas muito altas e sublimes se

apresentam revestidas de doçura. É

24


Samuel Holanda

É inenarrável também e apresenta

a tal harmonia da majestade e da

doçura tão magnífica, que na defesa

dela eu compreendo toda a inflexibilidade

da força, porque se alguém

ousa atacar isso, então a força tira de

dentro do amor a isso uma plenitude

e uma capacidade de reação e de resistência

total.

A matriz geradora desse combate

é o misto de majestade e doçura, que

vejo ser muito difícil as pessoas compreenderem,

mas o timbre de São

Gabriel foi esse. Em última análise,

é isso o que São Gabriel tem a dizer

ao mundo. É a clave dele, mas que

deve ser também a nossa. É o encontro

da doçura com a grandeza: uma

grandeza cheia de doçura, mas uma

doçura que se sente bem ao lado da

grandeza.

v

(Extraído de conferência de

19/12/1976)

propriamente a plenitude do estado

normal delas.

Revestidas de força também, mas

a força se apresenta à vista de um

acidente, isto é, o adversário. Entretanto

o estado normal é de estarem

revestidas de doçura, acessibilidade,

afabilidade, proteção; mas uma proteção

dada com respeito e não com

prepotência. De tal maneira que o

próprio dom vem gotejando respeito

por aquele que o recebe.

Majestade e doçura

Eu não conheço palavras nem

episódio em que esses predicados

coincidem tão bem quanto na mensagem

angélica, porque, de um lado,

não se podia comunicar acontecimento

mais alto do que a Encarnação

do Verbo. Desde que o mundo

Anunciação - Museu da Catedral

de Aachen, Alemanha

era mundo, comunicação não houve

comparável a essa.

De outro lado, dizer a uma pessoa

que ela vai ser a Mãe do Verbo é de

uma doçura incrível, ao mesmo tempo

que constitui a pessoa numa dignidade,

numa majestade incalculável!

O que se poderia dizer de mais

grandioso a alguém do que o seguinte:

“Tu és Filha de Deus Padre muito

mais amada do que imaginas. Serás

Esposa do Espírito Santo e Mãe do

Verbo Encarnado.” É de uma grandeza!

Nunca ninguém anunciou a ascensão

de um papa ou de um imperador

ao respectivo sólio com palavras

como essas. Não tem igual. No

entanto, poder-se-ia imaginar com

que doçura todas essas palavras penetraram

na alma de Nossa Senhora

e tomaram conta d’Ela?

1) Expressão metafórica criada por Dr.

Plinio para designar a mentalidade

sentimental que se manifesta na piedade,

na cultura, na arte, etc. As pessoas

por ela afetadas se tornam moles,

medíocres, pouco propensas à

fortaleza, assim como a tudo que signifique

esplendor.

2) Ferdinand Foch (*1851 - †1929). Militar

católico francês que comandou

os exércitos da França e da Inglaterra

durante a I Guerra Mundial.

3) Minha direita é pressionada, minha esquerda

é ameaçada, minha retaguarda

é golpeada. Que faço eu? Ataco.

4) Do latim: enviado por Deus.

5) Graça recebida em 16 de dezembro

de 1967, que consistiu na confirmação

e certeza do total cumprimento da

missão de Dr. Plinio e da continuação

de sua obra. (Cf. CLÁ DIAS, João

Scognamiglio, EP. O dom de sabedoria

na mente, vida e obra de Plinio Corrêa

de Oliveira. Cidade do Vaticano: Libreria

Editrice Vaticana; São Paulo:

Instituto Lumen Sapientiae. 2016, v.

IV, p. 287-291).

25


Flávio Lourenço

C

alendário

São Lino

1. São Lupo, bispo (†c. 623). Bispo

de Sens, França, exilado por haver

afirmado que o povo deve obedecer

mais a Deus do que aos governantes

desta Terra.

2. São Justo, bispo (†d. 381). Renunciou

a Sé episcopal de Lyon após

o Concílio de Aquileia e abraçou a

humilde vida dos monges de um eremitério

no Egito.

3. São Gregório Magno, Papa e

Doutor da Igreja (†604).

Beata Brígida de Jesus Morello, viúva

(†1679). Fundadora da Congregação

das Irmãs Ursulinas de Maria

dos Santos – ––––––

Imaculada, em Piacenza, Itália, após

ficar viúva.

4. Beata Maria de Santa Cecília

Romana (Dina Bélanger), virgem

(†1929). Da Congregação das Religiosas

de Jesus e Maria, em Quebec,

Canadá. Suportou com paciência durante

muitos anos a terrível enfermidade

da qual morreu aos 32 anos.

5. São Bertino, abade (†c. 698).

Fundou com São Munolino em Saint-

-Omer, França, o mosteiro de Sithieu,

do qual foi abade durante cerca de

quarenta anos.

6. XXIII Domingo do Tempo Comum.

Beato Bertrand de Garrigues,

presbítero (†c. 1230). Discípulo de

São Domingos, foi prior do convento

de Toulouse e depois fundou conventos

em Paris, Avignon e Montpelier.

7. São Clodoaldo, presbítero (†560).

De estirpe real, foi acolhido por sua

avó Santa Clotilde após a morte de seu

pai e seus irmãos. Fez-se sacerdote e

morreu em Saint-Cloud, França.

8. Natividade de Nossa Senhora.

São Tomás de Villanueva, bispo

(†1555). Religioso dominicano, aceitou

por obediência o ministério episcopal

de Valência, Espanha.

9. São Pedro Claver, presbítero

(†1654).

Beato Pedro Bonhomme, presbítero

(†1861). Dedicou às missões populares

e à evangelização do mundo rural,

e fundou a Congregação das Irmãs

de Nossa Senhora do Calvário,

em Gramat, França.

10. Beato Tiago Gagnot, presbítero

e mártir (†1794). Religioso carmelita

que durante a Revolução Francesa foi

preso numa sórdida embarcação em

Rochefort, onde morreu consumido

pelas enfermidades.

11. Beato Boaventura de Barcelona,

religioso (†1648). Irmão franciscano

que fundou em território romano

vários conventos e casas de retiros.

12. Santíssimo Nome de Maria.

São Francisco Ch’oe Kyong-hwan,

mártir (†1839). Catequista preso em

Seul por se recusar abjurar a Fé, dedicou-se

no cárcere à catequese, até

morrer extenuado pela atrocidade

dos tormentos.

13. XXIV Domingo do Tempo Comum.

São João Crisóstomo, bispo e

Doutor da Igreja (†407).

Beata Maria de Jesus López Rivas,

virgem (†1640). Discípula de

Santa Teresa de Ávila e priora do

Carmelo de Toledo. Recebeu no corpo

e na alma a comunicação das dores

da Paixão de Nosso Senhor.

Augusto P.

Santo Inácio de Santhiá

26


––––––––––––––– * Setembro * ––––

14. Exaltação da Santa

Cruz.

Santa Notburga, virgem

(†1313). Dona de casa

da aldeia de Eben, Áustria,

serviu a Cristo nos

pobres, dando aos camponeses

um admirável exemplo

de santidade.

15. Nossa Senhora das

Dores.

Beato Paulo Manna,

presbítero (†1952). Sacerdote

do Instituto Pontifício

para as Missões Estrangeiras

que, deixando a ação

missionária na Birmânia por

causa da sua debilitada saúde,

trabalhou na evangelização na Itália.

16. São Cornélio, Papa (†253), e

São Cipriano, bispo (†258), mártires.

São Vital, abade (†1122). Renunciou

aos encargos terrenos e fundou

um mosteiro em Savigny, França, onde

reuniu numerosos discípulos.

17. São Roberto Belarmino, bispo e

Doutor da Igreja (†1621).

Beato Estanislau de Jesus e Maria,

presbítero (†1701). Fundador

dos Clérigos Marianos da Imaculada

Conceição da Virgem Maria, em Gora

Kalwária, Polônia.

18. São José de Cupertino, presbítero

(†1663). Religioso franciscano do

convento de Osimo, Itália. Apesar das

adversidades que teve de enfrentar

durante sua vida, foi favorecido com

graças místicas extraordinárias.

19. São Januário, Bispo e mártir

(†s. IV).

Santa Maria de Cervelló, virgem

(†1290). Primeira religiosa mercedária.

Pela obra realizada em favor dos

pobres e enfermos, ficou conhecida

como “Maria do Socorro”.

20. XXV Domingo do Tempo Comum.

Santos Bertino e Munolino sobem em um barco,

sem velas nem remos, guiados por um Anjo

Santos André Kim Taegon, presbítero,

Paulo Chong Hasang e companheiros,

mártires (†1839-1867).

São João Carlos Cornay, presbítero

e mártir (†1837). Sacerdote da Sociedade

das Missões Estrangeiras de

Paris que, por decreto do imperador

Minh Mang, foi decapitado na fortaleza

de Són-Tây, Vietnã, depois de sofrer

cruéis torturas.

21. São Mateus, Apóstolo e Evangelista.

São Jonas, profeta. Filho de Amitai,

enviado por Deus para pregar em

Nínive. Sua saída do ventre da baleia

é evocada no próprio Evangelho como

sinal da Ressurreição do Senhor.

22. Santo Inácio de Santhiá, presbítero

(†1770). Sacerdote capuchinho de Turim,

muito assíduo na audição de Confissões

e na assistência aos enfermos.

23. São Pio de Pietrelcina, presbítero

(†1968).

São Lino, Papa e mártir (†s. I). Primeiro

sucessor de São Pedro, eleito pelos

próprios Apóstolos Pedro e Paulo.

24. Beata Colomba Gabriel, abadessa

(†1926). Injustamente caluniada,

parte do mosteiro beneditino de Lviv,

Samuel Holanda

Ucrânia, do qual era abadessa,

em direção a Roma.

Ali funda a Congregação

das Irmãs Beneditinas da

Caridade e organiza a obra

de apostolado social chamada

Casa da Família.

25. São Princípio, bispo

(†s. VI). Irmão de São Remígio,

Bispo de Soissons,

França.

26. Santos Cosme e Damião,

mártires (†c. séc. III).

Beato Luís Tezza, presbítero

(†1923). Religioso da

Ordem dos Clérigos Regrantes

Ministros dos Enfermos

e fundador da Congregação

das Filhas de São Camilo, em Roma.

27. XXVI Domingo do Tempo Comum.

São Vicente de Paulo, presbítero

(†1660).

Beato Lourenço de Ripafratta,

presbítero (†1456). Religioso dominicano

do mosteiro de Pistoia, Itália,

que observou durante sessenta anos

a disciplina religiosa e dedicou-se ao

Sacramento da Reconciliação.

28. São Venceslau, mártir (†929-935).

São Lourenço Ruiz e companheiros,

mártires (†1633-1637).

Beato Bernardino de Feltre, presbítero

(†1494). Religioso franciscano.

Para combater a usura promoveu

a fundação de Montepios, instituições

de caridade financeira. Morreu em

Pavia, Itália, aos 55 anos.

29. São Miguel, São Gabriel e São

Rafael Arcanjos. Ver página 28.

Beato Carlos de Blois, leigo (†1364).

30. São Jerônimo, presbítero e

Doutor da Igreja (†420).

São Simão, monge (†1082). Sendo

conde de Crépy, renunciou à pátria,

matrimônio e riquezas para levar vida

eremítica no Maciço do Jura.

27


Hagiografia

Flávio Lourenço

São Miguel e os Anjos bons

expulsando para o Inferno os

espíritos rebeldes - Museu de

Belas Artes, Valência, Espanha

Escudo da Igreja e gládio

contra os demônios

Suscitado por Deus para precipitar no inferno os demônios,

proteger a Igreja e os homens contras as investidas diabólicas,

São Miguel Arcanjo, cavaleiro arquetípico da milícia celeste,

é escudo e gládio em defesa dos planos divinos.

Arespeito de São Miguel Arcanjo

temos uma pequena nota:

São Miguel, Príncipe da

milícia celeste, na batalha que houve

no Céu combateu os anjos rebeldes.

Compete-lhe continuar essa luta para

nos livrar do demônio. Dele dependem

os Anjos da Guarda. É o Anjo protetor

da Igreja e o que apresenta ao Padre

Eterno a oblação eucarística.

Cavaleiro leal, forte,

puro e vitorioso

Eu chamo a atenção para o fato

de que São Miguel comandou a lu-

ta contra o demônio e o precipitou

no inferno e, além disso, é o chefe

dos Anjos da Guarda dos indivíduos

e das instituições. Ademais,

é ele mesmo o Anjo da Guarda da

Instituição das instituições, que é

a Santa Igreja Católica Apostólica

Romana.

28


Flávio Lourenço

São Miguel

Arcanjo - Igreja

de São Miguel,

Gante, Bélgica

Ele tem, portanto, uma função tutelar

a respeito da qual podemos nos

perguntar que relação há entre a sua

missão, derrubando no inferno os

que se levantavam contra Deus Nosso

Senhor, e a proteção por ele

dispensada à Igreja e aos homens

neste vale de lágrimas,

nesta arena que é a vida.

Estas duas missões se concatenam.

São Miguel defendeu

a Deus que quis servir-Se dele

como seu escudo contra o demônio,

e quer que ele seja também

o escudo da Santa Igreja e dos homens

contra as investidas diabólicas.

Porém, um escudo que é, ao mesmo

tempo, um gládio. Portanto ele

não se limita a defender, mas derrota

e precipita no inferno. Eis a dupla

missão de São Miguel.

Por causa disso São Miguel era

considerado na Idade Média como

o primeiro dos cavaleiros, o cavaleiro

celeste. Ideal e perfeitamente

leal, forte, puro, vitorioso como

um cavaleiro deve ser, pondo toda

a sua confiança em Deus e em Nossa

Senhora.

É, portanto, esta figura admirável

de São Miguel que,

vista assim, devemos considerar

enquanto sendo

nosso aliado natural

nas lutas, porque não

queremos ser outra

coisa senão homens

que executam, no

plano humano, a tarefa

de São Miguel

Arcanjo, ou seja,

defender a honra

de Deus, a glória

de Nossa Senhora,

a Igreja Católica,

a Civilização Cristã,

mas em nível de

contraofensiva, de

maneira a prostrar

no chão o

império do demônio

e a estabelecer

nesta

Terra o Reino

de Maria.

Há, por

conseguinte,

uma afinidade enorme

com nossa missão

e procedem muito

bem aqueles dentre

nós que queiram

constituir São Miguel

Arcanjo seu especial

patrono.

“Para a frente, não

esmoreçam, ataquem!”

Em Anna Catarina Emmerich 1 ,

Visões e Revelações completas, encontramos

os seguintes dados a respeito

de São Miguel:

Vi novamente a Igreja de São Pedro

com sua grande cúpula. Sobre ela resplandecia

o Arcanjo São Miguel vestido

de cor vermelha, tendo uma grande

bandeira de combate nas mãos.

A Terra era um imenso campo de

batalha.

Os verdes e azuis lutavam contra os

brancos. Estes, sobre os quais reluzia

uma espada de fogo, parece que iam

sucumbir.

Nem todos sabiam por qual causa

combatiam.

A Igreja era de cor sangrenta como

a roupa do Arcanjo.

Ouvi que me diziam: “Terá um Batismo

de sangue. A Igreja vai ser purificada

no sangue do martírio e da perseguição.”

Quanto mais se prolongava

o combate, mais se apagava a viva cor

vermelha da Igreja e se tornava mais

transparente.

A purificação ia fazendo dela algo

de diáfano, de puro.

O Anjo desceu e se aproximou dos

brancos. Estes adquiriram grande coragem

sem saber de onde lhes vinha.

O Anjo derrotou os inimigos que fugiram

em todas as direções. A espada de

fogo que estava sobre os brancos desapareceu.

Era uma espécie de ação diabólica,

de maldade, uma coisa assim que

oprimia os brancos.

Em meio ao combate, aumentava

o número dos brancos. Grupos de adversários

passavam para eles. E numa

ocasião passaram em grande número.

Sobre o campo de batalha havia, no espaço,

legiões de Santos que faziam sinais

com as mãos, diferentes uns dos

outros, porém animados do mesmo espírito.

São sinais que exortavam: “Para

a frente, avancem, não esmoreçam,

29


Hagiografia

Flávio Lourenço

O Arcanjo São Miguel derrota o demônio

Museu Lázaro Galdiano, Madri, Espanha

ataquem!”, enquanto os bons combatem

embaixo sob esse sopro. É,

portanto, o Céu inteiro aberto para

os bons, e estes vencendo os maus

para a implantação do Reino de Maria.

Senso da bem-aventurança

Temos também uma ficha de

Dom Guéranger a respeito da vocação

contemplativa dos Anjos:

Assim, a Igreja considera São Miguel

como o mediador de sua prece litúrgica.

Ele se mantém entre a humanidade

e a divindade. Deus que distribui,

com uma ordem admirável, as

hierarquias visíveis e invisíveis, emprega

por opulência, para louvor de

sua glória, o ministério desses espíritos

celestes que contemplam sem cessar

a face adorável do Pai, e que sa-

Carl Ludwig Hofmeister (CC3.0)

bem, melhor do que

os homens, adorar e

contemplar a beleza

de suas perfeições

infinitas.

Mi-Ka-El: quem

como Deus? Este nome

exprime por si só,

em sua brevidade, o

louvor mais completo,

a adoração mais

perfeita, o reconhecimento

mais inteiro

da transcendência

divina e a confissão

mais humilde do nada

da criatura.

Modelo, portanto,

de humildade.

Porque quem exclama

que ninguém é

como Deus, afirma

que não é nada. E

esta é a humildade

perfeita.

A forma de humildade

própria

do cavaleiro é

esta: Deus é

tudo e ninguém

é

nada. Agora, a partir disto

vamos conversar.

Também a Igreja da Terra convida

os espíritos celestes a bendizer o

Senhor, cantá-Lo, louvá-Lo e bendizê-Lo

sem cessar. Esta vocação contemplativa

dos Anjos é o modelo da

nossa, como nos faz lembrar o belo

prefácio do Sacramentário de São

Leão: “É verdadeiramente digno render

graças a Vós, que nos ensinais

por vosso Apóstolo que

nossa vida é dirigida aos Céus;

que com benevolência quereis

que nos transportemos

em espírito ao lugar onde

servem esses que veneramos,

especialmente

dirigirmo-nos para essas

alturas na festa do

Bem-Aventurado

Miguel Arcanjo.”

Aqui está

um tra-

30


ço da devoção aos Anjos que é preciso

muito notar. Os Anjos são habitantes

da corte celeste, onde vivem

na eterna contemplação de Deus

face a face. E as visões de todos os

grandes místicos nos referem as festas

que há no Céu e que são verdadeiras

solenidades. Não são imagens

ou quimeras, mas autênticas festas

em que Deus vai manifestando sucessivamente

suas grandezas e eles

aclamam com triunfos novos, que

não terminam jamais.

Há uma felicidade celeste, um

senso de que é a pátria de nossa alma

e propriamente a ordem de coisas

para a qual fomos criados, que

corresponde de modo pleno a todas

as nossas aspirações. Algo desse senso

da bem-aventurança celeste pela

contemplação face a face de Deus,

que é a perfeição absoluta de todas

as coisas, pode e deve passar para a

Terra. Nas épocas de verdadeira Fé

alguma coisa dessa felicidade

filtra, algo dessa

piedade é sentida e comunicada

pelas almas

mais notavelmente

piedosas, como

um tesouro comum

para toda

a Igreja.

Desejo das coisas celestes

É isto que tanto falta hoje em dia,

de maneira que não se tem a ideia

de uma felicidade celeste. E sem essa

ideia não se possui apetência do

Céu, e as pessoas se chafurdam na

pura apetência dos bens terrenos.

Mas se pudessem compreender por

um instante o que é uma consolação,

uma graça do Espírito Santo, esse tipo

de felicidade que a consideração

dos bens celestes comunica, então

começaria o desapego dos bens da

Terra, viria a compreensão de como

tudo é transitório, como há valores

que estão acima das coisas terrenas

e que tornam a Terra toda um pouco

de poeira.

É exatamente isso que os Santos

Anjos podem nos obter, eles que estão

inundados dessa felicidade,

a qual de vez em

quando se comunica sob esta

forma aos Santos. Há um

modo de fenômeno místico

que se manifesta como um

concerto muito longínquo,

de uma harmonia maravilhosa

e extraterrena. Santa

Teresinha do Menino Jesus

teve isto e ela até menciona

na História de uma alma. É

um pouco do eterno cântico

dos Anjos que chega, por

esta forma, aos ouvidos dos

homens para lhes dar a apetência

das coisas do Céu.

Em nossa época esta

apetência falta fabulosamente.

As pessoas só se

interessam e se empolgam

pelas coisas da Terra, pelo

dinheiro, pela politicagem,

pelo mundanismo,

pelas trivialidades do noticiário

de todos os dias,

mas não se empolgam pelos

assuntos elevados,

doutrinários e, menos ainda,

pelas coisas especificamente

celestes.

Vamos pedir aos Anjos que nos

comuniquem o desejo das coisas celestes

de que eles estão inundados.

Esta é uma excelente intenção para

ser apresentada na festa de São Miguel

Arcanjo, junto com o pedido

de que ele nos faça seus imitadores,

perfeitos cavaleiros de Nossa Senhora

nesta Terra.

v

(Extraído de conferência de

28/9/1966)

1) Anna Catarina Emmerich (*1774 -

†1824), terciária agostiniana alemã,

beatificada em 2004. Recebeu os estigmas

da Paixão e foi favorecida por

muitas revelações místicas sobre Nosso

Senhor Jesus Cristo, Maria Santíssima

e outros temas religiosos.

Dr. Plinio em 1966

Arquivo Revista

31


Luzes da Civilização Cristã

The Bridgeman Art Library (CC3.0)

Luís XIV e a

respeitabilidade

Luís XIV - Museu

de Belas Artes,

Tournai, Bélgica

Durante a Revolução Francesa, a turba

revolucionária violou os sarcófagos dos reis

para roubar as riquezas com que estavam

sepultados e profanar seus restos mortais. Ao

abrirem o esquife de Luís XIV, seu cadáver

possuía tal majestade que o populacho

recuou. A verdadeira respeitabilidade produz

estes dois efeitos: a veneração de quem

admira e o ódio de quem se revolta.

Luís XIV era um homem imensamente

majestoso que realizava uma mistura

muito feliz de duas nobilíssimas dinastias:

a mãe dele era Habsburg e o pai, Bourbon.

Aliás, duas nações – Áustria e França –

cujas qualidades se equilibram muito.

Elegância francesa e

grandeza espanhola

Royal Collection (CC3.0)

swbexpo.bsz-bw.de (CC3.0)

É bonito notar que a História francesa, depois

da Idade Média, divide-se em etapas segundo

a influência que sobre a França exerceu

os países próximos. Assim, houve durante

a Renascença o período da influência italiana,

que marcou toda a arte francesa; depois

tivemos o período da influência espanhola,

com a penetração de temas espanhóis

na literatura francesa, fenômeno do qual

encontramos um sinal muito marcante em

Corneille 1 .

Luís XIII da França (Coleção Real, Londres, Inglaterra) e Ana da Áustria

(Museu Staatliche Kunsthalle, Karlsruhe, Alemanha), pais de Luís XIV

32


Felipe II

Museu Internacional do

Barroco, Puebla,

México

Luís XIV reunia à elegância do francês algo

da solenidade compassada e majestosa

do espanhol. A coexistência da elegância

francesa com certa grandeza espanhola

explica exatamente o que esse monarca

tinha de solar.

Isso uma vez explicitado, sente-se

em Luís XIV qualquer coisa de Felipe

II, o rei que de tal maneira incutia

respeito que, em geral, quando as

pessoas vinham à sua presença, ele

precisava tranquilizá-las, dizendo:

“Sosegaos” 2 . Creio que isso era dito

com uma voz tão majestosa, que

a pessoa não ficava muito mais sossegada…

Acrescentem a essa majestade

a graça francesa e compreenderão

como daí só poderia sair uma verdadeira

obra-prima. Esta foi Luís XIV.

Durante a Revolução Francesa, a

turba revolucionária violava os sarcófagos

dos reis para roubar as riquezas com

que estavam sepultados, e se vingar deles

profanando seus cadáveres e jogando-os em

uma vala comum, em meio à cal para serem consumidos,

pois, devido a um sistema muito eficaz de embalsamamento,

vários desses corpos mantinham-se conservados

por muito tempo.

Ao chegarem ao esquife de Luís XIV, abriram-no e se

depararam com seu cadáver enegrecido, o qual possuía

tal majestade que o populacho, ao invés de se atirar em

cima como fizera com todos os outros, teve um suspense

e recuou um pouco. Portanto até depois de morto o Rei-

-Sol impôs respeito. Depois, recuperados

do impacto, os revolucionários

ficaram furiosos, avançaram, arrancaram

o corpo de dentro do caixão e

lançaram-no na vala comum.

Poder-se-ia dizer que o respeito incutido

por Luís XIV em seus contemporâneos

provinha do fato de ser ele

um monarca absoluto de quem dependia

o futuro de muita gente e, por

isso, metia um certo medo nas pessoas

que o reverenciavam por interesse.

Ora, aqueles facínoras sabiam

perfeitamente que estavam diante de

um cadáver, tinham aberto a sepultura

e não podiam absolutamente esperar,

supor ou recear que um rei morto

fosse capaz de qualquer vingança

contra eles. Logo, a impressão de respeito

provocada pelo monarca nessa ocasião

não tinha nenhuma relação com interesse,

ambição ou temor, e explica melhor a respeitabilidade

irradiada por ele em vida.

Efeitos produzidos pela

verdadeira respeitabilidade

O que é essa respeitabilidade a

qual um homem irradia em torno de

si a ponto de até os malfeitores que

vão estraçalhar o seu cadáver se detêm

um instante, e depois, por ódio à

respeitabilidade, profanam esse cadáver

mais do a todos os outros? De fato,

a verdadeira respeitabilidade produz

estes dois efeitos: a veneração de

quem admira e o ódio de quem se revolta.

A própria majestade de Deus causava

sobre os espíritos angélicos esse duplo

efeito. Satanás e os dele se revoltaram, enquanto

São Miguel e seus Anjos admiraram.

Então, o que vem a ser essa respeitabilidade se,

como vimos, se trata de um sentimento de inferioridade

motivado pelo medo ou pela ambição?

É, por certo, a irradiação de uma superioridade, mas

não de uma superioridade qualquer, precisamente porque

ela é irradiada pela pessoa e não incutida por algo

que se sabe a respeito dela.

Tomemos, por exemplo, Pasteur. Ele foi indiscutivelmente

um grande sábio, um cientista que fez invenções geniais

de uma grande utilidade para o gênero humano. Qualquer

indivíduo que não tivesse o senso moral completamente ob-

Luís XIV recebe Mehmet Riza Beg, embaixador do Xá

Tahmasp II - Palácio de Versailles, França

Flávio Lourenço

Gabriel K.

33


Luzes da Civilização Cristã

château de Versailles (CC3.0)

Luís XIV - Museu de História da França,

Palácio de Versailles, França

tuso, sabendo estar tratando com Pasteur, sentiria respeito.

Contudo esse respeito vinha da constatação de seus feitos e

não de uma irradiação de sua personalidade.

Outro exemplo, o Marechal Foch. Sua figura nunca

me pareceu irradiante de respeitabilidade. Se eu o visse

andando à paisana num ônibus qualquer, meu olhar não

se deteria nele nem um minuto, mas se o reconhecesse,

pensaria: “O grande Marechal Foch, vencedor da Primeira

Guerra Mundial!”, e lhe prestaria todo o respeito.

Para dar um exemplo nacional, cito Santos Dumont.

É inegável que ele proporcionou um importante avanço

na Ciência ao inventar a dirigibilidade do avião, pelo

que merece um lugar saliente na consideração das pessoas.

Entretanto quem vê sua clássica fotografia, com

aquele chapelão, não exclama: “Como sua personalidade

irradia superioridade!” Porque não irradia.

Esses exemplos correspondem, sem dúvida, a uma

respeitabilidade autêntica e muito alta, mas incutida pelo

mérito do sujeito e não irradiada por sua personalidade.

Portanto, não é uma respeitabilidade proveniente do

homem inteiro, mas de uma zona de sua alma, de uma

capacidade. A respeitabilidade de Luís XIV, ao contrário,

vinha de sua personalidade e irradiava dele inteiro.

Analogia com a visão beatífica

Então, em face do conceito segundo o qual há uma

forma especial de superioridade que irradia, o que é essa

superioridade?

Em certo sentido, o corpo é o símbolo da alma, e as

propriedades da alma irradiam através dele quando

a pessoa possui certos gêneros de atributos num grau

muito alto, por onde ao ver o aspecto físico de alguém de

alguma maneira se discerne a alma, e se nota, de modo

espiritual, uma realidade que fica por cima da realidade

física. Assim, percebe-se a respeitabilidade na alma.

Trata-se, pois, de um discernimento que vai além do

olhar, e corresponde a um bem de ordem espiritual percebido

através da consideração dos aspectos físicos. Olhando

para a face de Luís XIV, percebo simbolicamente um

bem de sua alma, a majestade de um rei no sentido pleno

da palavra. Assim, através das aparências sensíveis,

apreendo realidades espirituais que os sentidos não atingem,

mas transparecem nos aspectos físicos.

Quem vê o fenômeno espiritual dessa aparência de uma

qualidade moral num homem acaba adquirindo uma ideia

do que é, em si mesma, essa qualidade moral. Mas não é

uma noção oriunda de uma definição; é uma ideia, por assim

dizer, apalpada e sentida. Por mais que alguém definisse

num dicionário ou tratado de Moral o que é majestade,

não teria a noção de majestade que se teve vendo Luís XIV

e, mediante suas feições físicas, a alma do Rei-Sol.

Apalpar assim uma coisa que, entretanto, é abstrata,

leva a outro passo que conduz a Deus. Porque d’Ele não

podemos dizer apenas que é majestoso, mas devemos

afirmar que é a Majestade, pois Deus não somente possui,

mas é as qualidades. De maneira que Ele não é bom,

mas a Bondade; não é sábio, e sim a Sabedoria.

Por conseguinte, se olhando para um homem vi nele a

majestade de sua alma e, através dela, formei uma ideia

do que é a majestade em abstrato, considerada em seu

modo absoluto, eu adquiri algo que tem certa analogia

com a visão beatífica. De fato, mesmo sem explicitar, em

Luís XIV algo da majestade de Deus foi vista.

Isso nos explica

porque aqueles

bandidos recuaram

quando viram

o cadáver de Luís

XIV. Sempre que

um atributo bom e

digno da alma de

um homem aparece

com tanta intensidade,

a ponto

de provocar um

pasmo, uma surpresa,

um entusiasmo,

um enlevo

ou um sentimento

de veneração recolhida,

há uma

transparência de

Alberto Santos Dumont

Museu Paulista da USP (CC3.0)

34


algo de divino. É o modo pelo qual se chega a conhecer a

Deus pela quarta via indicada por São Tomás de Aquino.

Alguém poderia objetar: “Mas, Dr. Plinio, Luís XIV

não foi um grande pecador?”

Em primeiro lugar, do pecado a que aludem ele se penitenciou

e passou seus últimos vinte anos como um homem

de vida ilibada, modelar. Mas não é propriamente

o que vem ao caso, pois assim como uma pedra ou um

animal pode lembrar a Deus, por alguns lados o pecador

portador de uma tradição católica enquanto tal também

pode recordar a Deus. Por exemplo, um pai que, embora

se encontre em estado de pecado mortal, trata seu filho

carinhosamente, pode lembrar a Deus enquanto o Pai

carinhoso. De maneira que essa seria uma objeção infantil,

a qual podemos descartar.

Modalidades de majestade:

paternalidade e ímpeto para destruir

bem, ela deve se manifestar sob a forma de uma afinidade,

uma adesão, uma homogeneidade e um desejo de ajudar,

socorrer, salvar aquele bem comprometido pelas influências

contrárias que ali existem.

Em sentido oposto, a majestade que encontra uma resistência

empedernida e é insultada, por amor à ordem

que representa ela deseja esmagar. Temos, assim, as duas

modalidades de majestade.

Vemos isso de modo infinito e paradigmático em Nosso

Senhor Jesus Cristo: infinitamente manso, ensinando

que se deve ser manso e humilde de coração, mas de outro

lado, em alguns episódios da vida, incutindo um assombro

que deixava as pessoas sem saber o que dizer, como

aqueles canalhas que foram prendê-Lo e caíram com

a cara no chão, simplesmente pela afirmação: “Sou Eu!”

Era a manifestação da infinita majestade d’Ele. v

(Extraído de conferência de 23/3/1973)

Concluo com uma consideração a respeito da majestade.

A verdadeira majestade, colocada diante da boa vontade

de quem é menor, se traduz em paternalidade e tem

vontade de proteger; posta

diante da resistência de

quem é ruim, ela se traduz

num ímpeto para destruir.

Em tese, ambas disposições

se complementam

e se explicam por

um mesmo fundo, porque

o próprio da majestade

não é ser grã-fina, elegante,

mas é ter a supereminência

do bem. Quem a

possui deve amar todos os

graus que essa supereminência

inclui. Consequentemente,

precisa amar todas

as menores e mais débeis

formas de bem que

possam estar exiladas

numa alma, ainda quando

esta tenha muitos defeitos,

pois, do contrário,

a majestade mentiria a si

mesma.

Ora, não é a majestade

e sim a iniquidade que

mente a si mesma. Logo,

percebendo qualquer

pequena modalidade de

1) Pierre Corneille (*1606 - †1684). Dramaturgo francês, considerado

o fundador da tragédia (estilo de drama) francesa.

2) Do espanhol: sossegai-vos.

O beijo de Judas - Museu de São Marcos, Florença, Itália

Fra Angelico (CC3.0)

35


Luz que

Gabriel K.

brilha nas

trevas

Segundo Santo Alberto Magno,

entre os significados do nome de

Maria está o de ser Aquela que

ilumina.

Nossa Senhora é a Virgem Imaculada,

e só aquilo que não tem mancha é

sumamente luminoso. Maria Santíssima

é, portanto, uma alma luminosa,

sem nenhuma forma de pecado. Ela é

a Mulher revestida de Sol, que ilumina

toda a Igreja Católica, e deu ao mundo

a única Luz verdadeira, Nosso Senhor

Jesus Cristo.

Para nós a Santíssima Virgem é uma

luz num sentido especial da palavra,

pois é a esperança e a alegria de nossa

vida, a solução para todos os nossos problemas,

o farol que brilha nas trevas.

Compreende-se por que a Liturgia saúda

Nossa Senhora de um modo tão poético,

invocando-A como Estrela do Mar e

doce Mãe do Redentor.

(Extraído de conferência

de 12/9/1966)

Imaculada Conceição - Museu

Nacional Palácio do Bispo Erazm

Ciolek, Cracóvia, Polônia

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