NOREVISTA ABRIL 2021

norevistadigital

REPORTAGEM

NOABR21 01


SUMÁRIO

PUB.

ABRIL

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26

38

2021

ENTREVISTA

À MESA COM GUALTER FURTADO

OPINIÃO

JUVENTUDES PARTIDÁRIAS

REPORTAGEM

PORTUGAL ENQUANTO NAÇÃO ESPACIAL

REPORTAGEM

A ENERGIA RENOVÁVEL MARINHA COMO

ALTERNATIVA

REPORTAGEM

O FUTURO DO TURISMO: PARA QUANDO OS VALORES

DA PANDEMIA?

92

24

96

98

REPORTAGEM

50 TENDÊNCIAS GLOBAIS DE EMPREGO PARA A

JUVENTUDE

102

60 119

PROJETO “CULTURA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA

IMPRENSA” | CIÊNCIA

30 ANOS DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM PAPEL DE

JORNNAL

PROJETO “CULTURA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA

IMPRENSA” | SAÚDE

COMBATER A OBESIDADE E O EXCESSO DE PESO COM

A AJUDA DO TELEMÓVEL

PROJETO “CULTURA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA

IMPRENSA” | SAÚDE

INQUÉRITO INTERNACIONAL REVELA QUE

PORTUGUESES ESTÃO DEPRIMIDOS

CRÓNICAS

SÁTIRA POLÍTICA

PORTUGAL ENQUANTO

NAÇÃO ESPACIAL

26

A ENERGIA RENOVÁVEL

MARINHA COMO

DE EMPREGO PARA

ALTERNATIVA 38 50

TENDÊNCIAS GLOBAIS

O FUTURO DO TURISMO:

PARA QUANDO

OS VALORES DA

A JUVENTUDE PANDEMIA 60

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EDITORIAL

JOVENS, POLÍTICA(S) E O FUTURO

Não é novidade dizer-se que

a nossa classe política está

cansada e viciada em si mesma.

Os mesmos lugares, em anos

diferentes, ocupados pelas

mesmas pessoas nas cadeiras

do parlamento açoriano. De

quatro em quatro anos, voltam a

aparecer nos panfletos que nos

entregam as mesmas caras, com

uma dúzia de jovens em lugares

ilegíveis.

Poder-se-á dizer que as

eleições que nos trarão um

maior vislumbre serão,

provavelmente, as autárquicas,

não fossem os presidentes de

junta de freguesia ter mandatos

eternos e ocuparem aqueles

cargos para o resto da sua vida.

Na verdade, a limitação de

mandatos não existe para as

eleições legislativas. Pode uma

senhora ou senhor deputado

começar a sua carreira política

aos 25 anos e até lá ficar

enquanto os açorianos assim

quiserem, seja apenas por

quatro anos ou por mais 40.

Poderão os críticos afirmar que

os lugares a que pertencem

nas listas aquando das eleições

são escolhas do partido e, a

partir do momento em que

os açorianos votam, quer à

esquerda, direita ou centro,

conhecerão quem estarão a

votar.

Mas depois, questionamo-nos

– porque não rejuvenescer a

nossa classe política açoriana?

Ora veja-se, existem apenas

seis jovens com idade até

aos 35 anos e com assento

na Assembleia Legislativa.

Representam 10,5% dos 52 que

a compõem.

Apregoa-se, tantas vezes, a

vontade pelo rejuvenescimento

dentro do seio político, por

aqueles que agora vivem

tempos diferentes e que

ganham, em virtude desses

tempos, também ideias,

doutrinas e pensamentos

adaptados ao novo quotidiano

que todos os dias ganha vida.

É igualmente fácil encontrarmos

discursos, quer à direita,

esquerda ou centro, o apelo

à participação dos jovens na

dinamização de novas políticas

sociais, económicas e culturais.

Pode um jovem, sem ter estado

ligado a qualquer partido nos

últimos anos, querer concorrer

como membro integrante de

uma lista? A verdade é que,

muitas vezes, não pode.

Não vale de nada apregoarse

pela participação cívica

jovem se os últimos sentem

descredibilidade naqueles que

são os protagonistas na nossa

Região. Apelar os jovens a

participarem, credibilizar a

nossa classe política, ouvindo

os seus pareceres, é o caminho a

seguir. Não vale nem tão pouco

apregoar-se pelo jovem quando

não se lhe dá a capacidade para

que possa mostrar o potencial.

Enquanto assim for, as taxas

de abstenção continuarão a ter

os números que nos têm vindo

a habituar, sendo depois alvo

de escrutínio e de possíveis

hipóteses para que tal tenha

acontecido, quando a resposta

parece ser óbvia – sem inclusão,

não haverá nunca participação.

Cláudia Carvalho

FICHA TÉCNICA:

ISSN 2183-4768

PROPRIETÁRIO ASSOCIAÇÃO AGENDA DE NOVIDADES

NIF 510570356

SEDE DE REDAÇÃO RUA DA MISERICÓRDIA, 42, 2º ANDAR,

9500-093 PONTA DELGADA

SEDE DO EDITOR RUA DA MISERICÓRDIA, 42, 2º ANDAR,

9500-093 PONTA DELGADA

DIRETORA ADJUNTA CLÁUDIA CARVALHO TPE-288A

REDAÇÃO CHEFE REDAÇÃO RUI SANTOS TPE-288 A,

CLÁUDIA CARVALHO TPE-288 A, SARA BORGES, ANA SOFIA

MASSA, ANA SOFIA CORDEIRO

REVISÃO ANA SOFIA MASSA

PAGINAÇÃO CARINA COELHO

CAPTAÇÃO E EDIÇÃO DE IMAGEM RODRIGO RAPOSO E

MIGUEL CÂMARA

DEPARTAMENTO DE MARKETING, COMUNICAÇÃO E IMAGEM

CILA SIMAS E RAQUEL AMARAL

PUBLICIDADE RAQUEL AMARAL

MULTIMÉDIA RODRIGO RAPOSO, RAFAEL ARAÚJO E MÁRIO

CORRÊA

INFORMÁTICA JOÃO BOTELHO

RELAÇÕES PÚBLICAS CILA SIMAS

Nº REGISTO ERC 126 641

COLABORADORES ANTÓNIO VENTURA, JOÃO CASTRO,

RICARDO SILVA

CONTACTOS MARKETING@AGENDADENOVIDADES.COM

ESTATUTO EDITORIAL:

A NO É UMA REVISTA DE ÂMBITO REGIONAL (NÃO FICANDO

EXCLUÍDOS OS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA E

COMUNIDADES PORTUGUESAS ESPALHADAS PELO MUNDO).

A NO DISPONIBILIZA INFORMAÇÃO INDEPENDENTE E

PLURALISTA RELACIONADA COM A POLÍTICA, CULTURA

E SOCIEDADE NUM CONTEXTO REGIONAL, NACIONAL E

INTERNACIONAL.

A NO É UMA REVISTA AUTÓNOMA, SEM QUALQUER

DEPENDÊNCIA DE NATUREZA POLÍTICA, IDEOLÓGICA

E ECONÓMICA, ORIENTADA POR CRITÉRIOS DE RIGOR,

ISENÇÃO, TRANSPARÊNCIA E HONESTIDADE.

A NO É PRODUZIDA POR UMA EQUIPA QUE SE COMPROMETE

A RESPEITAR OS DIREITOS E DEVERES PREVISTOS NA

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA; NA LEI DE

IMPRENSA E NO CÓDIGO DEONTOLÓGICO DOS JORNALISTAS.

A NO VISA COMBATER A ILITERACIA, INCENTIVAR O GOSTO

PELA LEITURA E PELA ESCRITA, MAS ACIMA DE TUDO,

PROMOVER A CIDADANIA E O CONHECIMENTO.

A NO REGE-SE PELO CUMPRIMENTO RIGOROSO DAS

NORMAS ÉTICAS E DEONTOLÓGICAS DO JORNALISMO E

PELOS PRINCÍPIOS DE INDEPENDÊNCIA E PLURALISMO.

À MESA COM

REPORTAGEM

GUALTER FURTADO

presidente do Conselho Económico e Social dos Açores

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ENTREVISTA

ENTREVISTA EM

VÍDEO NA VERSÃO

DIGITAL

Sejam bem-vindos a mais um À Mesa

Com no restaurante da Associação

Agrícola. Eu tenho o prazer de vos

apresentar este mês o Doutor Gualter

Furtado, ele que é presidente do

Conselho Económico e Social dos

Açores (CESA). Começava por pedir

que me explicasse, no fundo, o que é o

CESA.

O CESA é uma instituição que está

prevista no estatuto políticoadministrativo

da Região Autónoma

dos Açores. Como sabem, um

dos pilares da nossa autonomia

democrática, juntamente com a

constituição da república e com

a lei das finanças das regiões

autónomas, e lá, digamos, está

prevista a criação deste órgão que é

um órgão independente, é um órgão

de aconselhamento do governo e

dos órgãos próprios do governo dos

Açores. É um órgão que tem como

missão principal instituir o diálogo

entre a sociedade civil e os órgãos de

governo dos Açores e, por conseguinte,

um órgão que funciona com base

numa grande representatividade

da sociedade açoriana. Lá estão

representadas praticamente todas as

organizações da sociedade civil e dos

parceiros sociais incluindo também do

governo. Este formato atual, que é um

formato independente, resulta muito

da vontade da Câmara de Comércio

e Indústria dos Açores, da Federação

Agrícola dos Açores e da UGT, que

mais tarde se juntou à AICOPA, que é

a sociedade da construção civil e eles

propuseram, digamos, na altura, aos

partidos e ao governo que o conselho

que existia, que era o Conselho de

Concertação Estratégica (CCE) e do

qual eu também fazia parte como

personalidade independente, de que

o conselho devia ter um formato

diferente e ser presidido por uma

pessoa que não o Presidente do

Governo dos Açores, porque antes

quem presidia o CCE era o Presidente

do Governo, mas uma personalidade

civil que fosse escolhida e que se

auto propusesse e depois fosse

aprovada no parlamento regional

com a maioria de 2/3; é um órgão

independente de aconselhamento

e agora tem funções amplas. Nós

desde logo temos competência de nos

pronunciarmos sobre os planos de

desenvolvimento da Região Autónoma

dos Açores sobre o orçamento. Temos

que nos pronunciar sobre a aplicação

e a gestão dos fundos comunitários,

sobre a relação da Região com

entidades externas à Região, ligadas

ao desenvolvimento económico, sobre

as leis laborais e sobre a concertação

social e, por conseguinte, nós temos

também essa incumbência de, ao

fim ao cabo, fazer a arbitragem e

intervir em possíveis plataformas de

entendimento entre as organizações

sindicais e as organizações patronais.

Por conseguinte, são competências

amplas e que nós fazemos questão em

cumprir.

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ENTREVISTA

ENTREVISTA

Quem é o Doutor Gualter Furtado e como é que ele vem

parar a presidir o CESA em 2019?

Naturalmente isso resulta de um percurso de vida. Um

percurso que começa na escola primária no Vale das Furnas,

depois vem para Ponta Delgada, para a Escola Comercial

e Industrial de Ponta Delgada. De seguida, consegue ter

acesso a uma bolsa de

estudos das antigas

juntas gerais e, graças

a essa bolsa de estudos,

fui estudar para Lisboa,

para o Instituto

Comercial de Lisboa

fazer a secção de

Economia e também

Concluído isso, fui

parte do curso

para a universidade,

de Contabilidade.

para o Instituto

Superior de

Economia, que

naquela altura

fazia parte da

Universidade Técnica

de Lisboa, hoje tem a

designação de ISEG.

Tive a felicidade de

chegar a monitor,

depois assistente

da universidade.

Quando era

assistente da universidade fui desafiado a regressar aqui aos Açores

para fazer doutoramento no nosso instituto universitário e para vir

dar aulas. Nessa altura o diretor do departamento de Economia e

Gestão era o professor Monteiro da Silva e eu mais a minha mulher,

depois de uma avaliação que não durou muito tempo, resolvemos

regressar e viemos para os Açores em 1984 e a partir daí tive vários

desafios. Nunca me desliguei da

universidade totalmente. Até há

bem pouco tempo eu era membro

do Conselho Geral da Universidade

dos Açores, fui vice-presidente.

É uma instituição pela qual eu

tenho muito carinho, nunca me

desliguei dela, mas, entretanto,

fui fazendo outras coisas na vida.

Fui para a banca, para a Caixa

Económica da Misericórdia de

Ponta Delgada.

Depois fui desafiado pelo Doutor

Mota Amaral para fazer parte

de um dos governos dele como

Secretário Regional das Finanças

e Planeamento e que mais tarde

se acrescentou a Administração

Pública. Depois regressei à banca

novamente, ajudei a fundar o

banco que era o BES dos Açores.

Foi um banco de sucesso. No

meio dessa desgraça toda que

aconteceu ao grupo Espírito Santo

e ao BES, nós, felizmente, aqui

nos Açores, conseguimos não

ser intervenciados pelo Banco de

Portugal. Fomos considerados um

banco bom e isso significou que

os nossos acionistas nacionais e

regionais, que são 13 misericórdias

e o grupo Bensaude, continuassem

sempre a ter a sua posição

acionista. Mudámos de nome, mas

o espírito sempre foi o mesmo e

talvez foi esse percurso de vida que

fez com que me desafiassem alguns

partidos, sobretudo os chamados

partidos do arco da governação

para me candidatar ao CESA. Fi-lo

e felizmente obtive uma maioria

no primeiro mandato de 81.3%,

no segundo mandato de 91.2%.

Não estava no meu horizonte

candidatar-me a um segundo

mandato, mas digamos, a pedido de

alguns parceiros sociais e também

de alguns partidos políticos e

dos seus principais líderes e a

situação muito difícil que nós

estamos a passar, fez-me refletir

um bocado sobre pôr ao serviço

da comunidade e dos Açores a

minha experiência pessoal, técnica

e profissional e é isso que eu vou

procurar fazer de uma forma

independente e do melhor que sei.

Naturalmente, ninguém faz nada

na vida sozinho. Conto com o

apoio dos parceiros sociais, desde

logo, e também da Assembleia

Legislativa da Região Autónoma

dos Açores (ALRAA) e do Governo

para facilitar o nosso trabalho,

sempre numa base independente.

Isso então faço questão de ser

sempre numa base independente

e de concertação com os parceiros

sociais.

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ENTREVISTA

ENTREVISTA

Passando agora para um assunto também ele muito importante que é o da

Economia. Foi alvo de muita contestação e também de alguma preocupação a

extinção da Secretaria da Economia em 2012. Agora, com o novo executivo, nós

temos a Economia e Finanças juntas na mesma secretaria. Qual é o parecer que

merece da sua parte esta junção das Finanças e da Economia numa só secretaria?

Bom, eu já fiz parte de um Governo em que

havia o Secretário Regional da Economia e

o Secretário Regional das Finanças. Depois

fiz parte de um Governo em que a Economia

fazia parte das Finanças e, por conseguinte,

já vivi isso tudo. O que eu acho é que uma

Secretaria Regional das Finanças bem

estruturada, com boas direções regionais

é suficiente. Eu acho que, nos Açores,

quanto menos complicarmos e quanto mais

simplificarmos o nosso modelo de governação,

mais eficiente ele vai ser. Por conseguinte, eu

julgo que não é criando muitas estruturas que

nos tornamos mais eficientes.

Aliás, eu penso que nós aqui nos Açores o que

nós temos que ter é valorizar a sociedade civil

e, por conseguinte, quando digo valorizar

a sociedade civil digo valorizar o papel dos

parceiros sociais da Federação Agrícola, das

Câmaras de Comércio, dos representantes das

Pescas, das Misericórdias, os representantes

do Ambiente, das Instituições Particulares

de Solidariedade Social, da Associação para

a Igualdade de Género, dos jovens, etc, e,

por conseguinte, valorizar isso, haver um

grande diálogo em concertação estratégica

para aí reduzir ao máximo estruturas e eu

penso que este governo vai ser avaliado e a

avaliação que vai ter no fim não é por ter mais

uma secretaria ou menos uma secretaria,

é pela capacidade de resposta que vai dar

aos problemas dos açorianos e da economia

açoriana. Por conseguinte, não vejo isso

com muitos maus olhos, o facto de se juntar

a Economia e as Finanças numa mesma

secretaria.

No fundo, era uma promessa do

governo uma racionalização do setor

público empresarial que também passa

pela SDEA. Acha que a extinção da

SDEA poderá provocar algum vazio na

orgânica do Governo Regional ou isso

não está iminente?

Bem, o que eu acho é que tem de

haver aqui um sentido de equilíbrio,

ou seja, não se pode estar a extinguir

essas estruturas e essas empresas,

e ao mesmo tempo, engordar o

Governo. Tem de haver um equilíbrio

e fazer isso sem prejuízo de aumentar

excessivamente também a máquina

governativa. É tudo uma questão de

bom senso como lhe digo, com boas

direções regionais, com bons diretores

regionais, podemos ter bons resultados.

Eu acho que podem dar conta do recado,

mas depende do funcionamento e da

própria orgânica do Governo. Agora,

o próprio Governo também tem que

dar um sinal de não excessiva gordura.

Evidentemente, do ponto de vista

da dívida pública, isso já estava tudo

consolidado. Hoje em dia, as empresas

públicas, os institutos já consolidam

com a dívida pública

regional. Eu sou a favor de que todas as

despesas e receitas relacionadas com a

administração pública regional tenham

um espelho no orçamento regional.

Qual é o grande desafio que os Açores

têm, que é o desafio de ontem, o desafio

de hoje e o desafio de amanhã? É o

facto de nós termos uma governação

nos Açores e termos uma sociedade nos

Açores a funcionar melhor do que na

Madeira e do que no Continente.

Para conseguirmos esse desiderato é

preciso que nos empenhemos em

tudo aquilo que fazemos com grande

qualidade e eficiência. Isso é que é o

grande desafio. Por conseguinte, termos

as nossas contas todas de uma forma

transparente é uma forma que contribui

para melhorarmos a qualidade da

administração pública regional e, por

conseguinte, eu sou a favor de que toda

a receita e despesa pública tenham um

reflexo no orçamento regional.

Por conseguinte, eu vejo bem que isso

termine nisso. Evidentemente que

alguns serviços acho que têm de se

manter em empresas públicas, por

exemplo no caso da EDA, ou no que se

refere ao SREA. Eu vejo por exemplo

como positivo que o SREA ganhe uma

autonomia maior, que seja um instituto

público de maneira a não ser permeável.

Não estou a dizer acabar com tudo.

Até por exemplo criar neste caso um

instituto público de estatística regional,

até já digo o nome: Instituto Público de

Estatística Regional dos Açores (IPERA).

Sou a favor disso. Mas agora o resto de

coisas assim marginais eu acho que só

ficamos a ganhar com a sua integração

no Governo. Essas empresas e esses

organismos que devem serem extintos

não têm a ver com as pessoas que

lá estavam a gerir, não estou a fazer

nenhum juízo de valor em relação às

pessoas que lá estavam, estou a dizer é

que é importante nessa fase em que nós

nos encontramos que haja uma grande

transparência orçamental e se esta tiver

de ser conseguida com integrações ou

fusões, que isto seja feito.

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ENTREVISTA

ENTREVISTA

Durante muito tempo e para finalizar, nós fomos uma Região muito

demarcada pelo desenvolvimento na agropecuária. Depois da

agropecuária seguiram-se investimentos no turismo e acabaram

ambas as áreas por competir um pouco entre si. Nos Açores, na nossa

posição geoestratégica, será a tecnologia e a ciência o futuro dos

Açores?

Não tenho dúvidas nenhumas

que, tendo em conta o nosso

posicionamento insular geográfico

aqui no Nordeste Atlântico, espalhado

pelos nossos nove bocados plantados

aqui no Atlântico, o futuro é, de facto,

das novas tecnologias. É a ciência,

a investigação e formação. Hoje

em dia nós temos uma localização

geográfica fantástica, temos grandes

mais-valias ao nível por exemplo

de setores estratégicos como a

meteorologia. Nós estamos muito

longe de explorar o potencial que

temos a nível da metereologia,

como estamos longe de explorar o

potencial que a oceanografia e o mar

dos Açores podem representar no

futuro dos Açores, mas também as

pescas e as próprias comunicações.

Por conseguinte, os Açores hoje em

dia são o porta-aviões, implantado,

é verdade, porque já não tem aquela

função física de ser porta-aviões

clássico como era, mas em tempos

de comunicações eu penso até que a

nossa posição geoestratégica hoje em

dia é mais reforçada do que nunca. Eu

estou convencido que a nossa posição

geoestratégica é até mais importante

do que era no passado. Temos que

valorizar muito a nossa relação com

as nossas comunidades. Nós somos

um povo extraordinário, temos

comunidades espalhadas por todo

esse mundo inteiro, mas desde logo

aquela forte comunidade dos Estados

Unidos e Canadá, mas também

das Bermudas. O Brasil, o mundo

imenso que é o Brasil. Nós temos

hoje pessoas no Brasil localizadas em

situações fantásticas, mas temos hoje

açorianos a trabalhar na Finlândia, na

Dinamarca, enfim, em toda a parte.

Em todo o Mundo temos açorianos

e, por conseguinte, esta rede que é o

povo açoriano espalhado pelo Mundo

pode ser de um valor geoestratégico

que está muito longe de ser explorado.

Depois, evidentemente, eu não

esqueço que a nossa Universidade

dos Açores tinha que ser repensada

e refundida. Quer dizer, a nossa

Universidade dos Açores tem que

ter um carinho especial e está sendo

maltratada. Eu próprio também fiz

parte do Conselho Geral, aprovámos

o novo estatuto, implementámos

uma nova orgânica, mas eu penso

que tem de ser feito um esforço

ainda maior. A própria Universidade

também tem que se internacionalizar,

tem tudo para ser um grande polo,

uma grande universidade no meio do

“O que relevo de mais

importante no CESA

é a mobilização e a

disponibilidade de todos

os Parceiros Sociais para

defenderem os seus

sectores específicos,

mas com abertura já

demonstrada para

trabalharmos em conjunto

e em concertação

para Desenvolvimento

económico, social e

cultural dos Açores, sem

nunca esquecer os nossos

emigrantes que são o nosso

prolongamento territorial,

de sangue e de afetividade,

a que junto os imigrantes

que por necessidade ou

outra razão escolheram as

nossas Ilhas para viver e

trabalhar”.

Discurso do Presidente

do CESA na Tomada de

Posse do II Mandato

Atlântico, mas também tem que ter apoios.

Finalmente, os nossos setores tradicionais

que é a questão das pescas e da agricultura

têm de continuar. É verdade que o Turismo

é muito importante, veio catapultar

os Açores para níveis de crescimento

inimagináveis. O setor do turismo é um

setor muito importante, tem um efeito

multiplicador muito grande sobre os outros,

mas é muito dependente do exterior.

Temos que ter aqui uma economia que

seja uma economia multissectorial e multi-

especialista. Não pode ser uma economia

afunilada só num tema, num setor

independente. Os Açores têm que dar muita

importância e jogar com a sua posição

geoestratégica nessa questão da Europa,

Estados Unidos da América, Brasil, China,

África. O Mundo encurtou-se, está mais

próximo, mas continua a haver barreiras e

os Açores no meio dessas barreiras podem

ter uma posição geoestratégica central a

desempenhar no futuro.

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

OPINIÃO

JUVENTUDES

PARTIDÁRIAS

A NO Revista,

consciente da importância

dos jovens para o contributo

de uma sociedade mais plural, dá a

oportunidade, mais um mês, de dar voz

aos jovens dos oito partidos com assento

parlamentar no parlamento açoriano.

Assim, os jovens têm oportunidade

de expressarem as suas opiniões e

pensamentos sobre as políticas de

desenvolvimento na Região e

não só.

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OPINIÃO

A verdadeira coesão e autonomia é não precisar mais do

dinheiro dos contribuintes portugueses e dos países ricos

da União Europeia. Ao contrário do que parece ser mais

intuitivo, o caminho da criação de riqueza e do bem-estar

social depende muito mais da forma como se alocam os

recursos do que da sua quantidade inicial. Por isso é que

economias livres em territórios inóspitos conseguem

prosperar e territórios ricos em recursos naturais ou

apoiados há décadas por fundos comunitários se mantêm

na pobreza.

A proposta de plano e orçamento para 2021 entregue

pelo governo no parlamento regional prevê gastar 45%

do dinheiro total em investimento público, designado por

plano. São 720 milhões mais outros fundos comunitários

para os diferentes secretários terem o mérito de

distribuir. Ademais, só para os leitores terem uma

noção do que a casa gasta, apenas 54% do orçamento

são receitas próprias da região, quase totalmente

provenientes dos impostos pagos pelos Açorianos. A

restante parte do bolo provém de transferências do

Orçamento de Estado (22%), transferências da União

Europeia (10%) e, como nada disto é suficiente, do

recurso ao endividamento de 250 milhões (15%).

Estes números até podem parecer normais à maioria

dos leitores, porque sempre foi assim por tantos anos

que até se esquece que há outra forma de fazer política

e alocar recursos. Mas para este jovem autor que tem

outras ambições para a sua querida terra representam o

José luís parreira

A fraude do

governo de direita

risco de os nossos recursos continuarem a ser gastos em

projetos sem retorno para a economia, que precisarão

de ser alimentados no futuro. No fundo, a continuação

do socialismo, cuja dívida herdada custar-nos-á 38,5

milhões em juros em 2021 (154 euros por habitante).

Em primeiro lugar, dirão os leitores que o momento

excecional da pandemia em que vivemos justifica

continuar a apoiar a economia, o emprego e os

desempregados, nem que para isso seja necessário de

recorrer ao endividamento. Certo. No entanto, apenas 44

milhões se destinam às medidas criadas em resposta ao

surto da covid-19. Além disso, o investimento em saúde

e educação representam outros 80 milhões de euros, ou

seja, apenas 11% do plano de investimentos. Então, e o

restante investimento? Aqui pouco importa discutir se

o investimento é destinado ao setor público ou privado,

porque todo o dinheiro gasto pelo estado acabará no

setor privado: os funcionários públicos, as empresas

fornecedoras do governo e os credores da região. Quem

mais contribui é também quem mais beneficia. Por isso,

o que este governo continua a fazer é nacionalizar parte

da economia, mantendo as empresas na dependência

do estado. Que os socialistas o fizessem era de esperar,

mas que a direita o faça só mostra falta de valores e

convicções fortes ou, então, deixaram-se corromper

pelo poder de ter o dinheiro na mão. O dinheiro dos

contribuintes, sejam eles açorianos, portugueses ou de

outro qualquer país da Europa, apenas deve ir para os

privados para contratar bens e serviços públicos

que estes forneçam de forma mais eficiente ou para

os indemnizar por perdas derivadas de decisões

governamentais, como o confinamento.

Em segundo lugar, dirão os leitores que havendo

dinheiro da solidariedade nacional e europeia à

nossa disposição, este deve ser usado e o que o que

é preciso é uma melhor aplicação e fiscalização dos

fundos. Todavia, o que ninguém sabe explicar é como

é que se garante isso. Nos próximos anos, há duas

alternativas: podemos continuar a financiar todos

os caprichos de uma maioria governativa, gastando

grandes quantidades, recursos e crédito, ou podemos

confiar na capacidade individual de cada um para

gastar o seu próprio dinheiro. O melhor investimento

que podem fazer para as próximas gerações é ir

pagando a dívida (ajuda não endividar mais) e

reduzir a despesa pública, seja levar à insolvência as

empresas públicas falidas, seja reduzir a dimensão

da administração pública (reformas antecipadas,

p.e.). O dinheiro da “Bazuca” deveria servir para

indemnizar e apoiar temporariamente todos os

prejudicados por essa redução de despesa, a fim de

irem confortavelmente à sua vida. Só assim se pode

baixar impostos sustentadamente e uma direita que

se preze era isto que deveria fazer. Caso contrário,

quando o dinheiro acabar, continuaremos a ter

um governo gordo para sustentar e uma economia

impreparada para andar pelas suas próprias pernas.

Enfim, será uma oportunidade perdida para quebrar

o ciclo vicioso de pobreza e dependência do estado

em que o socialismo nos deixou.

Em terceiro lugar, num tempo que que se vive

uma recessão e o investimento privado é reduzido,

por que razão há o governo de se comportar de

forma diferente, ainda para mais recorrendo ao

endividamento. Tirando as necessidades de acudir

à saúde pública, socorrer os desempregados e

indemnizar a economia, este deveria ser o momento

para se poupar recursos e adiar investimentos. No

entanto, este orçamento não evidencia um único

esforço para poupar qualquer tostão. Só gastar.

Vejamos 2 exemplos rápidos de investimento público,

pensado para 2021.

A SATA prepara-se para receber mais um aumento

de capital de 165 milhões em 2021 (em 2020 já tinha

pedido um empréstimo de 133M, com garantias

públicas). Estão a brincar! Um avião Twin Otter de

19 lugares novinho em folha custa 7 milhões e um

ATR de 50 lugares custa 10 milhões em segunda

mão. 165 milhões daria para comprar frota e meia

de 6 aviões inter-ilhas, pagos a pronto pagamento.

Isso sim permitia reduzir significativamente o preço

das viagens, nos próximos 10 anos, pois a empresa

já não tinha de imputar ao consumidor o pagamento

da prestação do avião. A SATA, cuja maioria dos

aviões não lhe pertence, deveria entrar num processo

de insolvência como qualquer empresa falida e o

serviço público de transporte inter-ilhas deveria

ser concessionado a outra empresa privada, como a

Binter, pagando o mesmo que pagamos à SATA que é

10.1 milhões de euros. É uma questão de “vender” o

caderno de encargos a nível internacional, nem que

se tenha de pagar um pouco mais.

Em segundo, subsidiamos 10.1 milhões uma

transportadora aérea para “tocar” diariamente em

todas as ilhas e, depois, vamos injetar mais de 10

milhões na Atlânticoline e gastamos outros tantos

milhões a realizar obras de terminais de passageiros

para fazer o mesmo transporte. Isso já não é brincar

com o dinheiro dos outros. É burrice! O transporte

marítimo de passageiros além de ter um custo

operacional por passageiro maior que o avião, ainda

reduz a procura do transporte aéreo, impedindo um

menor preço das passagens aéreas.

Em suma, a direita passa anos a falar mal do

socialismo e a dizer que não funciona, mas quando

está no poder não reduzem a despesa pública,

aumentam-na. Passam anos a chamar xuxalistas e

esquerdalha aos adversários, mas quando chegam

ao governo não têm coragem política para deixar

cair a SATA e negociar o caderno de encargos do

transporte aéreo de passageiros com a iniciativa

privada, a fim de o governo não ter de assumir as

dívidas de ninguém. São anos a criticar o polvo

socialista, mas continuam a manter as empresas

e a economia dependente do estado. Isto tem um

nome: hipocrisia. Deveremos estar satisfeitos apenas

por tirar os socialistas do poder e esperar que estes

sejam melhores gestores da coisa pública? Não. Isso

não é suficiente para os Açores. É preciso mudar de

políticas e a forma de fazer política.

016 NOABR21 NOABR21 017


OPINIÃO

Completados 126 anos

em março do “Decreto

Autonómico” de 1895, fruto

de um intenso trabalho de um

grupo de notáveis açorianos,

o diploma permitiu a

aplicação do (primeiro)

regime de autonomia

administrativa aos três

distritos açorianos da época.

É notório o papel que o

arquipélago dos Açores

desempenhou em várias fases

da História Portuguesa e

como os Açorianos sempre

se destacaram e, sobretudo

nesta última, pelo seu espírito

aguerrido na luta pela

Mariana Marques Quadros

CORSÁRIO

POLÍTICO

identidade regional e pelos

seus direitos, quer sejam eles

administrativos, legislativos

ou políticos que efetivamente

se foram consolidando ao

longo da História Açoriana.

A disputa por palco político

na região e a qualidade

política que temos vindo a

assistir sobretudo como se

verificou após o resultado

das últimas eleições

regionais, de um autêntico

Governo de retalhos, que

se apoia na muleta do

multipartidarismo, mesmo

sendo esse um “acordo de

incidência parlamentar com

o Partido Chega”, chega é a nós

um aspeto pouco plausível, de

corsários políticos, que quer seja

em alto mar como em terra firme,

o principal propósito rendeu-se ao

poder governar.

E, navegamos assim, sem

bússula nem quadrante, mas

não à deriva da distribuição

dos saques mediáticos, que

solidariamente foram utilizados

na figura de André Ventura ou no

aproveitamento da reeleição de

Marcelo, nem que seja porque já

se avista no horizonte as eleições

autárquicas. E qualquer corsário

que se preze assim o faz.

Assim como a afirmação

depreciativa da herança ou legado

regional que justifica determinadas

situações inconvenientes e,

portanto, maus vícios de 24

anos de oposição. Justifica sim,

a “herança” ser distribuída para

mais nomeações políticas e cargos

imprescindíveis para o novo poder

político exarcebado.

Vivemos por isso tempos de

crise e, enquanto jovem, afligeme

a mudança cada vez mais

visível na nossa sociedade, na

dualidade interpretativa que

mentalmente realizo, quer de um

lado o surgimento e representação

de partidos de extrema-direita

na nossa região, quer a disputa

política corrosiva que tem afetado

os bons valores democráticos e

o bem-estar das gentes açorianas

que só querem ver representados

os seus direitos.

Resta-nos a nós acreditar, mesmo

assim, se toda esta combinação

política ideológica que tanto

afirma ser fruto da manifestação

do voto açoriano nas últimas

eleições é de facto o caminho

da resolução dos desafios que

enfrentamos.

E, “se bem me lembro”, quando o

debate deixa de ser sério e o teatro

político se sobrepõe aos reais

interesses públicos, assistimos

novamente a um processo de

descrença na classe política.

018 NOABR21


OPINIÃO

ADEQUAR-NOS AOS NOVOS

HÁBITOS DA

Vitória Silva

JUVENTUDE!

A globalização digital e por

consequência a ascensão de uma

geração de influencers levanos a

refletir sobre as reais inquietudes

dos jovens no seu quotidiano.

Assim, devemos entender

essas inquietudes de forma a

sensibilizar, aplicar e instruir,

através dos meios digitais, aquilo

que são as maiores problemáticas

de uma política de e para a

juventude.

A transformação digital tem de

ser, efetivamente, a ferramenta

essencial para a fundamentação

dos novos hábitos de vida juvenis,

de forma a quebrar aquelas que

são as grandes lacunas no diaa-dia

de alguns jovens. Através

das redes sociais e de todo o

seu meio digital envolvente,

conseguimos chegar à geração

que vive para esta era, tornando-a

imprescindível, pois de outra

forma torna-se desadequado,

desadaptado e intransigente.

Deste modo, a promoção de

estilos/hábitos de vida saudáveis

e os mecanismos que devem

combater o flagelo social

que se vive, em que todos

temos conhecimento na nossa

Região, no que diz respeito às

elevadas taxas de consumos

de estupefacientes, abandono

escolar, gravidez na adolescência

ou outras preocupações, como as

desigualdades de oportunidades

sociais, devem também ser

combatidas, através dos meios

digitais com conteúdos explícitos

e adequados ao público-alvo.

A educação para a saúde deve

ter como princípio educar para

prevenir e não para correr atrás

do prejuízo. Desta forma, é

necessário ter sempre presente

a sua adaptação à realidade

social, para que a sua eficácia

seja benéfica e os jovens de hoje,

sejam os adultos de um amanhã,

como cidadãos sensibilizados

e educados para estas e outras

temáticas da nossa sociedade de

extrema importância.

É através do bem formar que

se deve construir os alicerces

de uma sociedade futura com

menores lacunas sociais. Só

assim iremos conseguir alcançar

resultados benéficos e produtivos

para uma geração que alguns

dizem ser dada como perdida.

Devemos lutar por políticas de

juventude assertivas e adequadas

à realidade do século XXI,

indiscutivelmente seria, se assim

não o fosse.

020 NOABR21 NOABR21 021


OPINIÃO

6 ANOS

A

No passado dia 23 de Fevereiro

foi finalmente aprovada, por

unanimidade, a proposta do PAN para

o fim imediato do abate de animais

errantes e de companhia na região

dos Açores. A primeira iniciativa

apresentada pelo PAN/Açores no

Parlamento Açoriano.

Esta é uma luta já de há 6 anos,

quando o recém-eleito deputado Pedro

Neves, enquanto cidadão, levou à

Assembleia Regional dos Açores uma

petição que tinha como objetivo este

mesmo fim e que foi chumbada pela

maioria parlamentar, num golpe muito

duro para o bem-estar e proteção

dos animais nos Açores. Mas não

desistimos!

Muitos terão achado este mais um

ALEXANDRE DIAS

DEPOIS,

VITÓRIA!

capricho do PAN - “aquele partido

animalista”. Não, não é um capricho

considerar que matar um animal “só

porque ele está a ocupar espaço” seja

um ato atroz e que nos dias de hoje

não deve ser tolerável.

São vidas que estão em jogo. Vidas

de animais que têm capacidade de

sentir amor e carinho, de se divertir

e brincar e que, por outro lado, agem

em legítima defesa se se sentem

ameaçados ou sofrem maus-tratos.

Este processo de socialização

entre o ser humano e os animais,

nomeadamente cães e gatos, remonta

há milhares de anos, por altura do

período Paleolítico, quando os cães

ainda eram lobos.

Inicialmente, não foi uma “amizade”

com um início fácil. Na verdade, não

passava de uma troca de interesses:

de acordo com os historiadores, os

lobos andavam atrás do ser humano

por causa dos restos de comida

deixados para trás, pois perceberam

que, assim, conseguiam obter

alimento facilmente. Começaram

então a partilhar o território com o ser

humano que, por sua vez, começou

a sentir-se mais protegido com os

lobos por perto. No fundo, criou-se

uma sinergia entre ambas as espécies.

Resultado? Os lobos deixaram de

caçar sozinhos.

Já com os gatos o processo

foi diferente. Estima-se que a

domesticação dos gatos teve um

forte impulso de agricultores, que os

usavam para proteger as plantações

de cereais de roedores. Mas já antes,

no Egipto, os gatos eram adorados

como se fossem deuses ou entidades

que simbolizavam sorte.

Desta forma, torna-se evidente como

esta sinergia entre ser humano e

animais é já antiga. Mesmo assim,

na nossa sociedade o abandono

de animais ainda é um fenómeno

generalizado. Com o fim do abate

de animais errantes e de companhia

conseguido pelo PAN nos Açores,

estes animais sofrem menos um

atropelo aos seus direitos.

É fundamental que as diferentes

forças políticas sigam o exemplo

do PAN, um partido que reconhece

a estes animais – e todos os outros

– a senciência e capacidades que a

ciência atesta. A verdade é que os

animais têm hoje um papel muito

significativo na nossa sociedade e

que, sem eles, a nossa vida seria

bastante diferente.

23 de Fevereiro de 2021 é, por isso,

uma data que deve ser relembrada

com um momento progressista, um

momento de viragem para possibilitar

o debate de novos temas. Da parte do

PAN, uma certeza: continuaremos a

levar à discussão pública as questões

transversais à nossa sociedade. Uma

sociedade em que se incluem as

Pessoas, os Animais e a Natureza.

022 NOABR21 NOABR21 023


REPORTAGEM PUB.

REPORTAGEM

PUB.

024 NOABR21 NOABR21 025


REPORTAGEM

REPORTAGEM

PORTUGAL

ENQUANTO NAÇÃO ESPACIAL:

UMA ESTRATÉGIA PARA UM FUTURO tecnOLÓGICO

ANA SOFIA MASSA

No final de 2000, Portugal tornou-se

membro da Agência Espacial Europeia

(ESA) e o Espaço e a utilização de

tecnologias espaciais sofreram uma

evolução substancial. A participação

do nosso país na ESA, que conta com

a colaboração do Instituto de Apoio

às Pequenas e Médias Empresas e à

Inovação (IAPMEI) e da Autoridade

Nacional de Comunicações (ANACOM),

tem contribuído para a criação de um

conjunto de empresas e instituições

científicas e tecnológicas, cujo objetivo

é desenvolver e disponibilizar soluções

para os desafios científicos e tecnológicos

que se colocam neste setor.

Atualmente, observam-se

mudanças estruturantes no

setor espacial, quer seja pela

crescente implementação

de tecnologias e serviços

espaciais no dia a dia da

população, como também

na difusão de sistemas

educacionais. Nos últimos

anos tem-se verificado um

forte investimento neste setor,

formando assim um novo

“ecossistema empresarial”

(p.7). Todavia e atendendo a

que este é um dos setores que

mais evolui tecnologicamente

e a velocidades difíceis às

vezes de acompanhar, muitos

países têm definido novas

linhas de posicionamento

estratégico, de maneira a

influenciar investimentos

futuros no setor.

Neste âmbito, Portugal

apresenta assim uma

estratégia, alinhada com a

sua localização geográfica

e com o seu ecossistema

científico e empresarial, mas

também com a ambição de

um novo posicionamento a

nível internacional. Estabelece

ainda o desenvolvimento e

evolução dos quadros jurídico,

financeiro, institucional,

de internacionalização

e cultural/educacional

capazes de impulsionar o

desenvolvimento do sector

espacial em Portugal através

de iniciativas de carácter

nacional e da cooperação

internacional para a próxima

década.

Depreende-se assim que, quer

no território continental como

nos arquipélagos

dos Açores e da

Madeira, há que

continuar a apoiar

o crescimento deste

setor. Após a adesão

à ESA, Portugal

tem revelado uma

rápida adaptação

e integração

nos programas

espaciais. Como

resultado deste

investimento, o

ecossistema espacial

026 NOABR21

NOABR21 027


REPORTAGEM

REPORTAGEM

A SEGURANÇA E O BEM-ESTAR DA

SOCIEDADE “DEPENDEM CADA VEZ

MAIS DA INFORMAÇÃO E DOS SERVIÇOS

PRESTADOS A PARTIR DO ESPAÇO

empresarial português tem um retorno

económico superior a 120% na última

década, envolvendo uma força total

de trabalho de mais de 1400 pessoas,

incluindo 300 engenheiros qualificados,

e gerando um volume de negócios

relacionados com tecnologias espaciais

de cerca de 890 milhões de euros entre

2006 e 2015.

De acordo com uma publicação da

Fundação para a Ciência e a Tecnologia,

“Estratégia Portugal Espaço 2030.

Uma Estratégia de Investigação,

Inovação e Crescimento para Portugal”,

Manuel Heitor, Ministro da Ciência,

Tecnologia e Ensino Superior, afirma

que a segurança e o bem-estar da

sociedade “dependem cada vez mais

da informação e dos serviços prestados

a partir do Espaço, sendo de assinalar

a transferência de competências

adquiridas entre este setor e outros

como a agricultura, as pescas, a

monitorização de infraestruturas, o

desenvolvimento urbano, a defesa e a

segurança, e mesmo o setor da saúde

pública e monitoração de epidemias”

(p.7). Depreende-se, então, que a

aposta do Espaço na sociedade europeia

continue a aumentar, atendendo a que

atualmente a Europa cada vez mais se

torna unificada e mais próxima a nível

social.

Esclarece ainda Manuel Heitor que

“o Espaço deve ser

encarado como um bem

público, a associar às nossas

instituições e ambições

coletivas, sendo crítico

democratizar o acesso ao

Espaço. É neste âmbito que

as tecnologias espaciais

são incontornáveis para o

futuro da Humanidade”

(p.7), requerendo, assim,

continuar o investimento

na educação e cultura

para o Espaço, por forma

a atrair jovens cientistas e

engenheiros e a estimular

o interesse pelas áreas

da ciência, tecnologia,

matemática, entre outros.

O objetivo principal recai

na possibilidade de as

tecnologias espaciais

poderem ser um

instrumento através do

qual seja possível “capacitar

o Mundo para a Paz” (p.7).

Atendendo ao presente

projeto, a análise

da Organização

para a Cooperação

e Desenvolvimento

Económico (OCDE) ao

retorno do investimento

de Portugal na ESA

aponta para um efeito

multiplicador entre 4 e 5 do

financiamento público de

atividades de Investigação e

Desenvolvimento (I&D). “O

posicionamento atlântico

de Portugal é assim crítico

e abre novas oportunidades

no contexto internacional”

(p.9). De acordo com

Manuel Heitor, a localização

única da Região Autónoma

dos Açores assume uma

posição geoestratégica

adequada para a criação de

uma infraestrutura espacial

para o lançamento de

satélites. “A sua localização

em território da União

Europeia, no Espaço

Schengen, tão perto da

Europa Continental como

do continente americano

e com uma extensa

cobertura oceânica de mais

de 1500km em qualquer

direção, proporciona

vantagens absolutamente

únicas para a promoção e

desenvolvimento do “New

Space”, especialmente

através do reforço em curso

das infraestruturas de

monitorização de satélites,

como antenas, e, sobretudo,

a instalação de novos

serviços de lançamento

de satélites, incluindo o

028 NOABR21 NOABR21 029


REPORTAGEM

REPORTAGEM

HOJE PODEMOS DIZER QUE

OS AÇORES NÃO SÃO APENAS

MAR, SÃO TAMBÉM ESPAÇO

potencial para a instalação de um porto

espacial” (p.9). O desafio consiste, assim,

em garantir a instalação ao nível mundial

de um porto espacial aberto a todos os

operadores internacionais. Deste modo,

a “instalação de uma nova geração

de serviços de lançadores de satélites

ambientalmente sustentáveis e seguros,

abertos ao mundo, pode criar um novo

posicionamento de Portugal no mundo”

(p.9).

É neste contexto que o presente plano

“Portugal Espaço 2030”, aprovado pelo

Governo, mobiliza diversos setores da

sociedade para o Espaço, “valorizado

como um bem público” (p.9), potenciando

novas oportunidades de cooperação

institucional, industrial e internacional

e contribui para o desenvolvimento de

tecnologias inovadoras e competitivas

no mercado internacional. Para Manuel

Heitor, o desenvolvimento desta agenda

requer, também, o estabelecimento de uma

entidade reguladora que regista, autoriza e

regula as atividades e os objetos espaciais,

devendo funcionar como interlocutor

único entre o ator espacial e as entidades

públicas que, em razão da matéria, devam

intervir no procedimento. Estas entidades

devem ser criadas e reguladas através

de um quadro legal próprio, competitivo

internacionalmente.

Já Gui Menezes, antigo Secretário

Regional do Mar, Ciência e Tecnologia,

Governo Regional dos Açores, considera

ser “inegável a dimensão que a Região

Autónoma dos Açores confere a Portugal

por via da sua localização no centro

do Atlântico Norte. A essa dimensão

essencialmente marítima, junta-se uma

dimensão espacial que cada vez mais

deixa de ser objeto de análise e exploração

exclusiva das maiores potências. Hoje

podemos dizer que os Açores não são

apenas Mar, são também Espaço” (p.11).

Para o antigo Secretário, os Açores

desempenham um papel relevante fruto

dos investimentos que têm sido feitos

em infraestruturas, redes e projetos

relacionados com esta temática. Gui

Menezes começa por referir a integração

na rede NEREUS (Rede de Regiões

Utilizadoras de Tecnologias Espaciais)

desde a sua fundação, que tem permitido

acompanhar e contribuir para a definição

da Estratégia Europeia do Espaço. É

nos Açores que se encontra a primeira

estação da Agência Espacial Europeia

(AEE), instalada em Portugal e uma das

primeiras estações da rede ESTRACK,

com a capacidade de fazer rastreio de

lançadores de satélites, à qual foi anexado

um dos elementos do segmento terrestre

do sistema global europeu de navegação

por satélite, uma Galileo Sensor Station.

“Ainda neste âmbito, os Açores estão a

apostar na instalação de duas estações

de radioastronomia integradas na Rede

Atlântica de Estações Geodinâmicas

Espaciais (RAEGE) que, fazendo uso

de meios tecnológicos de rádio, tempo

e frequência, se constituem como as

mais adequadas infraestruturas para

a observação do Espaço profundo

e das fontes geradoras de sinal

eletromagnético que o constituem”

(p.11).

De acordo com Gui Menezes, é fulcral

para a Região continuar a apostar

não só nas tecnologias espaciais e

infraestruturas com elas relacionadas,

mas também em infraestruturas de

armazenamento, processamento

e disponibilização de dados de

observação da Terra e de serviços deles

derivados. Por exemplo, ao usufruir

da proximidade das infraestruturas

de receção de dados provenientes

dos satélites Sentinel, os Açores

“poderão oferecer uma plataforma

de apoio aos programas Copernicus

e Galileo”. Para além disso, o antigo

Secretário defende que há que apostar

no desenvolvimento científico e em

áreas como o Oceano, a Atmosfera e o

Clima, atendendo a que estas áreas de

investigação, bem como as de ponta,

poderão “beneficiar da aplicabilidade

de dados de observação da Terra e do

Espaço e do envolvimento da Região

na criação do Atlantic International

Research Centre (AIR Centre)” (p.11),

cuja sede poderá ser nos Açores. “Todas

as ilhas possuem um conjunto de

030 NOABR21 NOABR21 031


REPORTAGEM

REPORTAGEM

instalações, equipamentos e serviços

de apoio à atividade empresarial, como

portos, aeroportos, estradas e ainda

parques tecnológicos e industriais, com

excelentes infraestruturas, e uma rede

de comunicações de transmissão de alta

velocidade que liga os Açores a todo o

mundo” (p.12).

Também Paulo Ferrão, presidente

da FCT, considera que o Espaço tem

despertado nas últimas décadas uma

“ambição de explorar novas fronteiras,

de promover melhor conhecimento

da Terra e de disponibilizar sistemas

globais de comunicação, o sonho de

protagonizar a aventura espacial e o

conhecimento de base científica que

indiscutivelmente está associado ao

lançamento de veículos espaciais, à

operação de satélites ou à exploração do

espaço” (p.15).

Nesta estratégia apresentada, são

propostos três eixos estratégicos

principais que serão implementados

em colaboração com a ESA, a Comissão

Europeia e outros parceiros. No que

concerne ao Eixo 1, pretende-se

estimular a exploração de dados e sinais

espaciais através de serviços e aplicações

de base espacial ou habilitadas por

tecnologias espaciais, promovendo novos

mercados e o emprego qualificado em

diversas áreas. O Eixo 2 visa fomentar

o desenvolvimento, construção e

operação de equipamentos, sistemas e

infraestruturas espaciais e de serviços

de produção de dados espaciais, com

ênfase em mini, micro e nano satélites,

mas também abrindo novas áreas de

intervenção em Portugal para serviços

de lançadores e alargando as atuais

atividades de monitorização e rastreio

de satélites e observação da Terra. Por

fim, o Eixo 3 pretende continuar a

desenvolver a capacidade e competências

nacionais na área do Espaço através

da investigação científica, inovação,

educação e cultura científica, permitindo

a sustentabilidade a longo prazo das

infraestruturas, serviços e aplicações

espaciais.

A Estratégia Portugal Espaço

2030 preconiza, para o

desenvolvimento dos três eixos

apontados, o desenvolvimento

de um programa-quadro

envolvendo cinco linhas de ação

jurídica, financeira, institucional,

de internacionalização e de

cultura científica. No quadro

financeiro, prevê-se estimular

uma estratégia de investimento,

começando por complementar

e alargar o atual nível de

investimento público na ESA,

suportado financeiramente

através da FCT, I.P., com o apoio

do IAPMEI e da ANACOM,

bem como adequar os fundos

estruturais e programas de

financiamento público ao

desenvolvimento e capacitação

do setor do Espaço, de modo

a que o investimento no setor

possa alcançar um fator de

multiplicação de cinco nos

próximos cinco anos; e promover

a diversificação das fontes

de investimento, incluindo o

acesso ao Banco Europeu de

Investimento, entre outros

fundos internacionais.

No quadro institucional, está em

vista a criação de um “agente

regulador das atividades espaciais

em Portugal, responsável por

executar ações para monitorizar

032 NOABR21 NOABR21 033


REPORTAGEM

REPORTAGEM

e regular atividades espaciais em

Portugal, em linha com o projeto de

proposta de lei de acesso e exercício

de atividades espaciais” (p.34);

bem como de um “agente promotor

adequado e específico para o setor do

Espaço, com vista à futura criação da

Agência Espacial Portuguesa” (p.34).

Está também prevista uma missão de

preparação para a criação da agência

espacial com o apoio da ESA, de

especialistas internacionais, cabendo

assim assegurar a nova antena de 15

metros a ser instalada na ilha de Santa

Maria, a qual será propriedade da FCT,

I.P.; explorar a possibilidade da criação

de um centro de dados do Programa

Copernicus em Portugal, o qual iria

auxiliar na disseminação de dados,

entre outras estratégias.

No âmbito da internacionalização,

prevê-se o desenvolvimento de

uma “agenda para o Mediterrâneo,

garantindo a integração de dados

espaciais para o desenvolvimento

agroindustrial, a sustentabilidade

energética e a gestão da água,

através da cooperação com países

do Norte de África e Médio Oriente,

designadamente no quadro do

lançamento emergente a nível europeu

do Programa PRIMA (Partnership

for Research and Innovation in the

Mediterranean Area)” (p.35), assim

como a possibilidade de criar novas

parcerias internacionais com países

que ainda não desenvolveram ou estão

em vias de desenvolver capacidades

espaciais.

Por fim, no quadro da educação e

cultura científica para o Espaço, o

objetivo centra-se no reforço de uma

“estratégia humanista para o Espaço”

(p.36) que passa por promover

programas de difusão da cultura

tecnológica para o Espaço, estimular

o enriquecimento dos currículos

escolares no âmbito de matérias

relacionadas com o setor espacial e,

por fim “lançar e promover um portal

na Internet que possibilite o acesso

público a informação sobre programas

espaciais, atividades científicas e

tecnológicas, recursos de disseminação

de imagens de satélite, oportunidades

de formação, exposições e conferências,

entre outros conteúdos” (p.36).

Revisitando as palavras de Gui Menezes

relativamente à posição “ímpar”

da Região Autónoma dos Açores,

detentora de uma Zona Económica

Exclusiva (ZEE) com uma área de

aproximadamente 1.000.000 km²,

poderá concluir-se que a região “tem

as premissas de base para garantir

o desenvolvimento decorrente desta

NUM FUTURO

PRÓXIMO,

PORTUGAL SE

POSICIONARÁ

COMO UMA

VERDADEIRA

NAÇÃO ESPACIAL

mudança” (p.12). Já Manuel Heitor

fornece uma perspetiva de “prestígio

nacional” (p.9), afirmando que, num

futuro próximo, Portugal se posicionará

“como uma verdadeira nação espacial,

com capacidade de assumir os

novos desafios do sector. Tal é, aliás,

imperativo para um país que se procura

afirmar no cenário internacional pela

ciência e inovação” (p.9).

Bibliografia:

Estratégia Portugal Espaço 2030. Uma

Estratégia de Investigação, Inovação e

Crescimento para Portugal, Aprovada

no Conselho de Ministros de 15 de

fevereiro de 2018. (Resolução n.º

30/2018), Publicada em “Diário da

República” (1.ª Série, n.º 50), 12 de

maço de 2018.

034 NOABR21 NOABR21 035


PUB.

REPORTAGEM

REPORTAGEM

PUB.

036 NOABR21 NOABR21 037


REPORTAGEM

A ENERGIA

RENOVÁVEL MARINHA

COMO ALTERNATIVA

O aproveitamento das ondas está em

fase de demonstração, ou seja, encontrase

em fase de teste no mar e apenas

alguns dos estudos alcançaram a fase

de testes no mar em condições reais,

nomeadamente, o projeto Pelamis,

Tecnologia Powerbuoy, Tecnologia BOLT,

Tecnologia WaveRoller, entre outros.

Devido aos estudos já desenvolvidos,

esta energia desempenha um papel

importante na transição para um

sistema energético global mais

sustentável.

Em Portugal existem três projetos

de demonstração da ERM: dois de

tecnologia das ondas (WaveRoller em

Peniche) e o Centro das Ondas na ilha

do Pico, nos Açores e um de energia

eólica offshore (projeto Windfloat na

Aguçadora).

A energia renovável marinha

(ERM) “é qualquer tecnologia

que extraia energia renovável

do oceano. Abrange as energias

eólicas (tanto longe como perto da

costa), as energias provenientes

das ondas, das correntes de maré,

do gradiente de salinidade e a

energia gerada pelas diferenças

de temperatura”.

SOFIA CORDEIRO

O Centro das Ondas na ilha do

Pico “foi, ao longo da última

década, um importante centro de

teste europeu para tecnologias de

energia das ondas à escala real”. Foi

construído entre 1996 e 1999 como

um “projeto piloto” de energia das

ondas, financiado por programas de

investigação e inovação da Comissão

Europeia (Projetos JOULE1), mas

também por financiamento nacional

(Programa Energia) e pelas empresas

EDP e Electricidade dos Açores

(EDA), sensivelmente em partes

iguais. A obra ficou concluída no

verão de 1998. Em setembro do

mesmo ano, durante a instalação do

equipamento elétrico no interior da

Central, ocorreu uma tempestade

que provocou uma inundação e

danos graves nos componentes

elétricos. Os primeiros testes da

Central atrasaram-se, por este

motivo, até ao verão do ano seguinte.

Só quatro anos mais tarde viria a ser

possível o funcionamento

NOABR21 039


REPORTAGEM

REPORTAGEM

regular da Central, com o apoio

do Programa PRIME (DEMTEC)

da Agência Nacional de Inovação.

O Programa de Incentivos à

Modernização da Economia

(PRIME), lançado em 2003, tinha

um instrumento de financiamento,

designado DEMTEC, para apoio a

“projetos piloto” relativos a soluções

tecnologicamente inovadoras.

Foi no âmbito deste programa

nacional financiado pela Agência

de Inovação (atual ANI – Agência

Nacional de Inovação), que o

WavEC, criado em 2003, mobilizou

o apoio de parceiros portugueses

para submeter uma proposta de

recuperação e arranque da Central

do Pico.

A Central de Ondas da Ilha do Pico

“é uma versão costeira de uma

tecnologia designada por ‘Coluna

de Água Oscilante’, vulgarmente

conhecida pela sigla CAO. Esta

tecnologia é constituída por uma

estrutura oca, neste caso em betão,

formando uma câmara pneumática

sobre a superfície livre interior

da água. A câmara comunica

com a atmosfera (lado de terra),

através de uma conduta contendo

uma turbina de ar acoplada a um

gerador elétrico, e com o mar

exterior através de uma abertura

submersa, existente na parede

frontal da câmara. As ondas do

mar, ao propagarem-se para o

interior da câmara através da

abertura submersa, fazem oscilar

verticalmente a água no seu interior.

Consequentemente, movimenta-se

um fluxo de ar interior em sentidos

alternados, através da conduta que

liga a câmara à atmosfera. Esta

passagem de ar aciona a turbina

instalada na conduta, que deve ser

de escoamento reversível (isto é,

a turbina roda sempre no mesmo

sentido independentemente do

escoamento de ar ser de ou para a

atmosfera)”.

Os dados adquiridos na Central

do Pico, ao longo de vários

anos de operação, “têm sido

fundamentais para a melhor

compreensão deste tipo de

tecnologia”. A instrumentação

instalada para análise em tempo

real das condições do mar e de

operação da turbina “permitiram

tirar conclusões importantes sobre

o projeto deste tipo de centrais”.

O gráfico abaixo representado

mostra a evolução da produção

de energia elétrica nos últimos 10

anos de operação da Central. A

melhoria gradual das condições de

funcionamento nos primeiros três

anos “traduziu-se num aumento

substancial de produção de

energia elétrica em 2010, ano em

que foram implementados, com

sucesso, a operação autónoma e o

controlo remoto da central (sem

operador local). Em 2011, uma falha

grave no gerador, seguida de um

problema no inversor, obrigaram

a uma paragem prolongada para

diagnóstico e reparação dos

problemas” assim como em 2017.

Figura 1 - Energia Elétrica produzida pela Central

nos últimos 10 anos

Brito e Melo, Ana. “Um olhar sobre a Central Piloto

Europeia de energia das ondas na ilha do Pico”. 2018.

WaVEC Offshore Renewables.

Segundo um documento elaborado

em 2018 designado por “Um olhar

sobre a Central Piloto Europeia de

energia das ondas na ilha do Pico”,

a autora, Ana Brito e Melo, afirma

que a produção elétrica da Central

“ficou, no entanto, muito aquém

do previsto para uma Central de

400 kW de potência nominal. Os

constrangimentos financeiros não

possibilitaram a correção de todos

os problemas técnicos e limitaram a

sua plena operação. As deficiências

040 NOABR21 NOABR21 041


REPORTAGEM

estruturais da Central, na sua parte

submersa, e o seu agravamento ao

longo dos anos inviabilizam a sua

continuidade por muito mais tempo”,

mas a central “cumpriu muito bem

o seu papel de unidade piloto, de

demonstração e de formação, sendo,

de longe, a central de energia das

ondas com mais longevidade, e, talvez,

com mais visibilidade do mundo”.

A autora adiciona que há vários

fatores que afetaram a imagem da

Central do Pico, nomeadamente “o

seu enquadramento arquitetónico

deficiente, a fraca disponibilidade

para campanhas de informação

e sensibilização pública e a falta

de condições para permanência

de equipas no local”. No entanto,

o principal fator que afetou a sua

reputação, quer nos Açores quer

no Continente, “foi uma errada

expectativa para a sua missão,

nomeadamente na altura em que foi

construída”.

Quanto à energia eólica offshore,

a Europa detém um elevado

potencial eólico offshore. O

continente europeu é, atualmente,

o líder mundial em parques eólicos

offshore. No fim do primeiro

semestre de 2011 estavam em

operação 1247 turbinas eólicas com

uma capacidade acumulada de 3294

MW, correspondendo a 49 parques

eólicos existentes em nove países

europeus. Em 2010 a capacidade

média de cada aerogeador instalado

era de 3,2 M em parque eólicos com

uma dimensão média de 155,3 MW.

“A integração na rede elétrica da

energia produzida nos parques

eólicos offshore apresentase

como um novo desafio”,

implicando custos elevados e

o desenvolvimento de novas

tecnologias, tais como navios de

instalação, subestações ou cabos

de transmissão. No entanto, são

vários os projetos que visam o

desenvolvimento de super-redes

de recolha e transporte de energia

eólica offshore.

Os custos de capital associados à

produção das energias renováveis

“são ainda demasiado elevados”

para que aquelas tecnologias sejam

competitivas. Os custos da energia

eólica offshore são, atualmente,

2,5 vezes superiores aos custos

da eólica em terra (onshore),

enquanto os custos da energia das

ondas são seis vezes superiores.

No entanto, os especialistas esperam

que essa diferença venha a diminuir

significativamente, o que indica

que pode surgir uma oportunidade

de investimento nesta indústria no

futuro.

NOABR21 043


REPORTAGEM

Em Portugal, o desenvolvimento

de energias offshore envolve

custos e riscos de desenvolvimento

muito elevados. Por isso, o

desenvolvimento deste tipo de

tecnologias necessita de apoio

financeiro, não só no apoio em

inovação e desenvolvimento, como

em cofinanciamento público-privado

dos projetos de demonstração,

e ainda de tarifas bonificadas à

produção de energias.

O investimento em fontes de energias

limpas pode resultar em diferentes

benefícios, o que poderá motivar o

apoio público. Estes benefícios são

efeitos externos da utilização desta

energia como a redução de poluentes

locais com populações, mas também

a redução de emissões de dióxido de

carbono e de poluentes atmosféricos e

ainda redução do impacto visual entre

outros.

Pelo contrário, existem também efeitos

negativos como os impactos causados

pelo ruído, perda de biodiversidade

associada à instalação e operação de

dispositivos de energia, mortalidade

de aves devido à colisão com turbinas

eólicas e impactos na biodiversidade

associados aos efeitos dos campos

eletromagnéticos produzidos pelos

cabos enterrados no fundo do mar.

Relativamente aos apoios ao

investimento nestas energias o

investigador privado não investirá sem

apoio público, pois as receitas de venda

de eletricidade não são suficientes para

compensar os custos de capital nos três

tipos de infraestruturas de ERM. “Estas

tecnologias ainda não atingiram um

nível de maturidade suficiente, ao

contrário do que tem sido observado,

por exemplo, na indústria de energia

eólica onshore”. Ainda que os custos

de capital tendam a diminuir ao longo

do tempo, os resultados deste trabalho

sugerem que a ERM (incluindo energia

eólica offshore, nearshore e energia das

ondas) não será competitiva mesmo no

longo prazo.

De acordo com Maria Cunha-e-Sá, Ana

Faria Lopes e Filipa Saldanha, “existem

muitos fatores ao nível local que são

cruciais para garantir a viabilidade das

ERM. Por exemplo, a profundidade no

local de instalação, a fonte de energia

(velocidade do vento ou energia das

ondas), a distância à rede elétrica,

entre outros. Foram analisados vários

locais ao longo da costa portuguesa

para perceber como é que, do ponto de

vista social, as diferentes características

locais podem influenciar a viabilidade

do investimento. No caso da energia

das ondas, concluiu-se que nenhum dos

locais selecionados parece ser viável

devido aos elevados custos de capital,

dado que se trata de uma indústria

nascente. No caso da eólica nearshore,

os impactos paisagísticos podem ser

determinantes. No que se refere à

NOABR21 045


REPORTAGEM

REPORTAGEM

energia eólica offshore, enquanto o fator

de capacidade (ou seja, a percentagem

de tempo durante o qual a turbina

eólica está a operar, dado os regimes

de vento) é particularmente relevante

para a instalação deste tipo de energia,

a distância à rede também se revela

importante”.

Ao nível de Inovação e Desenvolvimento

em Portugal, destaca-se um conhecimento

científico importante, reconhecido a nível

mundial, em particular na energia das

ondas fruto dos projetos de investigação

que têm sido desenvolvidos nas últimas

três décadas e dos pilotos pioneiros que

já foram implementados. Em particular, a

atividade de Inovação e Desenvolvimento

começou nos anos 80, com o

desenvolvimento dos primeiros trabalhos

em energias das ondas. Na década de 90,

os trabalhos continuaram sobretudo no

âmbito do desenvolvimento do primeiro

projeto de demonstração, a central do

Pico. No entanto, só em meados da

primeira década de 2000 existiu um maior

envolvimento de entidades portuguesas

neste sector, sobretudo a nível de projetos

Europeus.

De acordo com Maria Cunha-e-Sá, Ana

Faria Lopes e Filipa Saldanha, a indústria

das ERM é um “investimento de

longo prazo”. A energia eólica offshore

poderá ser viável do ponto de vista

social. Em Portugal, as Feed-in-Tariffs

(FiTs) têm sido utilizadas para apoiar

projetos de energia renovável. A decisão

de investir em energia eólica nearshore

“está altamente dependente dos custos

associados à degradação da paisagem

que dela pode resultar. Uma vez que não

existem estudos de valoração que estimem

esses custos para Portugal, utilizámos

estimativas obtidas em estudos

realizados noutros países, depois de

devidamente ajustados para Portugal”.

Os resultados do estudo realizados

pela “Iniciativa Gulbenkian Oceanos”

sugerem a necessidade de promover

uma visão “mais integrada e de longo

prazo” que garanta estabilidade à

indústria das ERM. Por exemplo,

o apoio às ERM, através de FiTs,

ou mesmo os objetivos nacionais

propostos para as ERM, conforme

definidos no Plano de Ação para as

Energias Renováveis (PNAER), “não

têm sido consistentes ao longo do

tempo”, o que reduz a capacidade

de atração dessas tecnologias em

Portugal. Uma visão de longo prazo

para a indústria ERM reduziria a

incerteza regulatória, contribuindo

para o cumprimento dos objetivos

estabelecidos na Estratégia Nacional

para o Mar e no PNAER.

A decisão de investir em energia eólica

nearshore “está altamente dependente

dos custos associados à degradação

da paisagem que dela pode resultar,

uma vez que não existem estudos de

valorização que estimam esses custos

para Portugal”.

Bibliografia:

Brito e Melo, Ana. Um olhar sobre a

Central Piloto Europeia de energia das

ondas na ilha do Pico. (2018). WaVEC

Offshore Renewables.

Cunha-e-Sá, Maria A.; Lopes, Ana

Faria; Saldanha, Filipa. Energias

Renováveis Marinhas em Portugal.

(2017). Fundação Calouste Gulbenkian.

Silva, C. A. S., Matias, S., Mafra, C.,

Sim-Sim, F., Estaqueiro, A., Simões, T.,

& Cardoso, A. (2011). Roadmap para

as energias renováveis offshore em

Portugal. LNEG/UESEO, Lisboa.

046 NOABR21 NOABR21 047


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REPORTAGEM

REPORTAGEM

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048 NOABR21 NOABR21 049


REPORTAGEM

TENDÊNCIAS GLOBAIS

DE EMPREGO PARA A

JUVENTUDE:

tecnologia e o futuro dos empregos

SARA BORGES

A tecnologia destruirá empregos e

agravará a desigualdade ou trará

empregos mais significativos e

sociedades mais saudáveis? Esta questão

preocupa a humanidade desde que o

avanço tecnológico assumiu alguns

trabalhos manuais e aglomera diversas

conspeções entre investigadores e

instituições.

Deste modo, o presente artigo pretende

identificar as inovações que podem

levar a novos modelos de oportunidades

de trabalho para os jovens, tendo por

base diversos estudos. O objetivo é

entender os principais pontos chave

de influência para trabalhar com as

organizações, corporações e outros

grandes empregadores na construção

de empregos futuros para os jovens, a

partir de hoje.

A pandemia Covid-19 e os

confinamentos induzidos juntamente

com a recessão global que se prosseguiu

criaram perspetivas altamente incertas

para o mercado de trabalho e obrigaram

a uma alteração dos modos de trabalho.

De acordo com o relatório - The

Future of Jobs - divulgado pelo Fórum

Económico Mundial, vão surgir

novas funções, mas também vai

haver menos procura de alguns dos

trabalhos já existentes, destacando-se

o “potencial” para trabalho remoto

ou híbrido.

Os jovens, de um modo geral, tendem

a ter mais dificuldades em posicionarse

no mercado de trabalho seja

devido à idade, à falta de experiência

ou à inadequada educação. Certas

subpopulações enfrentam barreiras

ainda maiores devido a fatores como

raça, sexo e status socioeconómico.

Esses desafios são intensificados durante

uma recessão económica e deste modo

é fulcral perceber como se integram os

jovens nestes cenários de instabilidade.

Algoritmos inteligentes e redes de

robóticas estão transformando o

significado do trabalho. De acordo com

o relatório elaborado pelo Institute for

the Future (IFTF), em parceria com The

Rockefeller Foundation’s U.S. Youth

Employment initiative, a automação está

cada vez mais a substituir trabalhadores

de trabalhos rotineiros de manufatura

e serviços. Muitos empregos básicos

de salário mínimo estão a tornarse

escassos. Além de tudo isso, o

percurso escola - trabalho já não

funciona como antes, “um diploma

universitário não é mais um bilhete

infalível para um bom emprego”,

defende o IFTF.

Deste modo, antes de procedermos aos

possíveis cenários para os jovens no

mercado de trabalho importa salientar o

modo como este, possivelmente, estará

organizado.

050 NOABR21 NOABR21 051


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Neste aspeto, o relatório divulgado pelo

Fórum Económico Mundial fornece

informações detalhadas para 15 setores

da indústria e de 26 países avançados e

emergentes.

De um modo sintetizado o relatório denota

que é expectável que o ritmo de adoção

da tecnologia permaneça inabalável e

que até possa acelerar em algumas áreas.

Consequentemente, a pandemia juntamente

com a automação estão a criar um cenário

de “rutura dupla” para os trabalhadores.

Note-se que a automação é o ato de tornar

um processo manual num processo

independente de interação humana. Desta

forma, as empresas estão e vão permanecer

em processos de adaptação. Na avaliação feita

pelo Fórum Económico Mundial, 43% das

empresas, de vários sectores, estão a procurar

obter “mais automatização e reduzir a força

de trabalho” humano; 34% quer aumentar

a força de trabalho “como um resultado

da integração tecnológica mais profunda”,

enquanto 41% procura contratar pessoas

para tarefas especializadas. De acordo com

o relatório, em 2025, “o tempo gasto em

tarefas atuais no trabalho por humanos e

as máquinas serão iguais” (2020, p. 5).

exacerbada devido ao duplo impacto da

tecnologia e a recessão pandémica”, refere

o relatório. Assim, prevê-se que, até 2025,

85 milhões de empregos no mundo sejam

adaptados de forma a conciliar o trabalho

entre humanos e máquinas. Além disso,

espera-se que possam surgir 97 milhões

de novas funções que permitam também

esta divisão laboral, mas com a inserção de

algoritmos.

No entendimento do Fórum Económico

Mundial, “durante a última década, um

conjunto de inovações e tecnologias

emergentes sinalizaram o início da quarta

revolução industrial” (2020, p. 8). Esperase

que mesmo aqueles que mantenham os

empregos necessitem de atualizar 40% das

competências para o futuro mercado de

trabalho, por forma a responder à quarta

revolução industrial. Além disso, conclui-se

também que o sector público precisa de dar

um apoio mais forte para a requalificação e

qualificação dos trabalhadores em risco de

perder o emprego ou vê-lo adaptado. Apenas

21% das empresas dizem “ser capazes de usar

fundos públicos para apoiar os funcionários”

(2020, p. 48) de forma a conseguirem

atualizar as suas competências.

Em relação à questão abordada na

introdução deste artigo, este relatório

projeta que, a médio prazo, “o trabalho

destruído provavelmente será compensado

pelo crescimento do emprego nos jobs of

tomorrow”, assim estes trabalhadores podem

preencher empregos na economia verde,

nas funções de vanguarda da economia de

dados e IA, como também em novas funções

na área de engenharia, computação em

nuvem e desenvolvimento de produtos. No

entanto, importa realçar que a criação de

novos empregos é mais lenta que a destruição

de antigos ofícios e a ausência de esforços

proativos, pode provocar uma “desigualdade

Assim, o Fórum Económico Mundial,

em parceria com o Fundo Monetário

Internacional, prevê que possam vir a

emergir novos empregos no campo da

tecnologia, como analistas e cientistas

de dados e especialistas em inteligência

artificial, e de profissões ligadas à

estratégia e ao marketing digital, como a

gestão de redes sociais, vendas e produção

de conteúdos, que permite trabalhar com

vários tipos de pessoas. Por outro lado, vai

reduzir a procura por empregos ligados à

administração, à montagem, à reparação e ao

atendimento ao público.

Relativamente às soft skills, em 2025, de

acordo com o relatório, vão ser valorizadas

as capacidades de “pensamento analítico

e de inovação”, a “resolução de problemas

complexos”, a “criatividade, originalidade e

a iniciativa”, a “flexibilidade”, bem como a

“gestão do stress” e a “inteligência emocional”

dos empregados.

Portanto, a questão mais relevante para as

empresas, governos e indivíduos não é até

que ponto a automação e aumento da força de

trabalho humano afetará os números atuais

de empregos, mas de que modo o mercado

de trabalho pode ser apoiado de forma a

encontrar um novo equilíbrio na divisão de

trabalho entre trabalhadores humanos, robôs

e algoritmos.

O desemprego, seja causado por uma

economia lenta, impulsionadores tecnológicos,

ou falta de preparação, cria dificuldades

duradouras para a juventude e para a

economia do país como um todo. Desta

forma, importa perceber quais os cenários

de futuro que os mais recentes estudos

indicam. Para tal, recorreremos a dois estudos

diferentes que preveem mundos alternativos

de trabalho. O primeiro incide no relatório

intitulado - The Future of Youth Employment

052 NOABR21 NOABR21 053


REPORTAGEM

elaborado pelo Institute for the Future (IFTF)

e o segundo da responsabilidade da Hesse e

Olsen denominado - What will work look like

in 2030?

Em relação ao relatório do IFTF, este recorre

a uma metodologia de cenários alternativos

desenvolvida na Universidade do Havaí para

quatro futuros arquetípicos: crescimento,

colapso, restrição e transformação. Sendo

assim, cada perspetiva de futuro agrega um

conjunto de elementos-chave, como também

recomenda estratégias-chave que podem ser

usadas por empregadores preocupados em

promover a preparação e o desenvolvimento

da força de trabalho para os jovens, e

recomendações de políticas para o governo.

Desta forma, os principais elementos e políticas

públicas recomendadas para cada cenários são

os seguintes:

Para o cenário de crescimento verifica-se

uma economia flexível, onde o mercado de

trabalho favorece “a elevada qualificação

dos funcionários em certos setores de

crescimento”. O mercado de trabalho é

“altamente fluido com abundância de novas

oportunidades”, mas as habilidades do

trabalhador devem ser “constantemente

atualizadas”. Em relação à educação, esta

expande-se em “instituições para o online e

espaços comunitários” e o “credenciamento

alternativo cresce e torna-se aceitável” (IFTF,

2014, p. 4).

Em termos de políticas públicas, o estudo

defende para este cenário a “subsidiação

do custo do emprego inicial para ajudar

jovens desfavorecidos”, como também

a implementação de “currículos de

aperfeiçoamento online e no trabalho”. Na

sequência do estudo, as empresas deveriam

receber incentivos para desenvolver e

distribuir material didático online como uma

ferramenta para encontrar e promover novos

trabalhadores (IFTF, 2014, p. 6).

Seguidamente, na abordagem do cenário de

colapso, “The Growing Gap”, surge a automação

crescente que reduz o conhecimento do trabalho

e de empregos de salário mínimo. Neste ponto,

existem “mais estudantes universitários a graduarse,

mas a descobrir que a sua especialização não é

comercializável”. Como também o “governo enfrenta

crises e é incapaz de abordar necessidades de uma

forma sistemática”, a “economia informal e moedas

alternativas crescem” (IFTF, 2014, p. 7).

Para este cenário, as políticas públicas recomendáveis

focam na obrigação dos “empregadores a designar

um tempo para melhorar as habilidades” e

“reconstituir o trabalho organizado para sustentar os

salários e proteger os empregos” (IFTF, 2014, p. 9).

Em terceiro lugar, surge o cenário de restrição, que

incorpora um mundo com “poucas oportunidades

de crescimento novas e o foco das empresas é na

redução de custos”. Aqui “as redes de trabalho online

funcionam como um suplemento altamente eficiente

para os funcionários” e as “estruturas organizacionais

são apoiadas por software de coordenação que

substitui a hierarquia tradicional” (IFTF, 2014, p. 10).

054 NOABR21 NOABR21 055


REPORTAGEM

De acordo com as caraterísticas do

cenário de restrição o estudo recomenda

as seguintes políticas públicas. Por um

lado, “melhorar a passagem da esfera

escolar para a esfera do mundo do

trabalho”, entre vários motivos, foca no

facto de os planos de carreira começarem

a ser definidos no ensino médio. Por

outro lado, defende a “promoção

da propriedade dos funcionários –

employee stock ownership (ESOPs)” ou

propriedade de ações por funcionários,

é quando os funcionários de uma

empresa possuem ações nessa empresa.

ESOPs demonstram que aumentam a

produtividade do trabalhador, segurança

económica e compensação (IFTF, 2014,

p. 12).

Por último, no cenário de transformação

ou transformista encontramos o

“indivíduo amplificado”. Neste ponto,

os “custos de coordenação caem

significativamente”, o “capital para

empresas de crowdfunding, bancos e os

VCs fluem livremente”. Este cenário é

“altamente empreendedor para empresas

e mentalidades flexíveis” e o “equilíbrio

de poder muda de grandes organizações

para indivíduos” (IFTF, 2014, p. 13).

E como políticas públicas para este

cenário recomendam “disponibilizar

microcréditos para empreendedores de

renda baixa”, como também, promover

“módulos de empreendedorismo em

toda a educação”, e por fim, “apoiar

o desenvolvimento de negócios

cooperativos dos trabalhadores” (IFTF,

2014, p. 15).

Em suma, os quatro cenários neste

relatório fornecem uma experiência

numa ampla gama de desafios

enfrentados por jovens desfavorecidos

no futuro emergente. Os autores

do estudo realçam que “todos esses

cenários estão já acontecendo, até certo

ponto e numa escala de cidade por

cidade. A partir daqui o futuro não irá

evoluir exatamente como descrito em

qualquer um dos quatro cenários, mas

provavelmente entrelaça os elementos

de cada um”. Assim, defendem que

“será importante para as partes

interessadas perseguir um portfólio

de estratégias e políticas durante os

próximos dez anos para tirar jovens

desfavorecidos do desemprego” (IFTF,

2014, p. 16).

Concluída a exposição da teoria

desenvolvida pelo Institute for the

Future, passamos agora a demonstrar

a teoria elaborada por Hesse e Olsen

da PricewaterhouseCoopers (PwC).

Esta perspetiva contém quatro mundos

alternativos de trabalhos, todos

com nomes e cores diferentes. Esses

exemplos, reconhecidos pelos autores,

como “extremos” de como o trabalho

poderia ser em 2030 são moldados

“pelas maneiras como as pessoas e as

organizações respondem às forças do

coletivismo e do individualismo, num

eixo, e integração e fragmentação, no

outro” (Hesse & Olsen, 2017). Desta

forma, existe o “mundo vermelho”, o

“mundo azul”, o “mundo verde” e o

“mundo amarelo”, cada um deles com

caraterísticas distintas.

056 NOABR21 NOABR21 057


REPORTAGEM

No “mundo vermelho”, a tecnologia permitirá

que “pequenas empresas explorem os vastos

reservatórios de informações, habilidades e

financiamento”. De acordo com Hesse e Olsen,

os “recursos humanos não existirão mais como

uma função separada e os empreendedores

contarão com serviços terceirizados para

processos de pessoal”, referindo que haveria

uma “competição feroz” por talentos, e aqueles

com habilidades futuras exigidas obterão as

maiores recompensas.

Para o “mundo azul”, os autores realçam que

as corporações globais tornar-se-ão “maiores,

poderosas e mais influentes do que nunca”.

Pois, as empresas contemplam o seu tamanho e

influência como a melhor maneira de proteger

as suas margens de lucro. E neste cenário, em

semelhança ao anterior, os melhores talentos

são disputados ferozmente (Hesse & Olsen,

2017).

Em relação ao “mundo verde”, este apresentase

como sendo um mundo coletivo e integrado,

onde a tónica está na responsabilidade ecológica.

Assim, “é movido pela necessidade de uma

consciência social poderosa”. Neste mundo e

tendo em conta a forte opinião pública, como

também a escassez dos recursos naturais e

as rígidas regulamentações internacionais, as

empresas promoverão uma “forte agenda ética e

ecológica” (Hesse & Olsen, 2017).

Por último, no atual quadro teórico, existe

o “mundo amarelo”. Aqui os trabalhadores

e empresas buscarão “maior significado e

relevância”. Os trabalhadores deparam-se com

uma maior autonomia, flexibilidade e realização

quando trabalham para organizações com

“fortes padrões éticos e sociais” (Hesse & Olsen,

2017).

Desta forma, Hesse e Olsen referem que estes

cenários podem parecer “improváveis” ou até

mesmo “caprichosos”, no entanto defendem que

o futuro é incerto e que “as respostas podem

não parecer óbvias hoje”, mas é a partir da

construção de diversos cenários que se deve

“enfrentar o futuro do trabalho com um maior

senso de confiança”.

Sendo assim, como devem os jovens, as

empresas e os próprios governos

preparar-se para a incerteza

existente no mercado de trabalho,

ainda mais com as consequências

da pandemia Covid-19? Neste

novo contexto, pela primeira

vez nos últimos anos, a criação

de empregos está começando a

ser ultrapassada pela destruição

e este fator está prestes a afetar

os trabalhadores desfavorecidos

com particular ferocidade, alerta

o relatório do Fórum Económico

Mundial. Este relatório indica

que à medida que os números

do desemprego aumentam,

surge cada vez mais a urgência

para expandir a proteção

social, incluindo apoio para os

trabalhadores que necessitam ser

realocados enquanto navegam em

direção a novas oportunidades

no mercado de trabalho e para os

‘empregos de amanhã’. Abordando

os atuais desafios apresentados

pelo COVID-19, em conjunto

com a rutura representada pela

mudança tecnológica, isto requer

uma inovação do serviço público

para o benefício de trabalhadores

afetados em todos os lugares.

É neste sentido que o Fórum

Económico Mundial defende que

“os governos devem buscar uma

abordagem holística, criando

ligações ativas e coordenação

entre provedores de educação,

habilidades, trabalhadores e

empregadores, e garantindo

eficaz colaboração entre

agências de emprego, governos

regionais e governos nacionais”

(2020, p. 49).

Bibliografia:

Institute for the Future. (2014).

The Future of Youth Employment.

Retrieved from https://www.iftf.

org/our-work/global-landscape/

work/the-future-of-youthemployment/

Forum Económico Mundial

(2020). The Future of Jobs.

Retrieved from https://www.

weforum.org/reports/the-futureof-jobs-report-2020

Hesse, Jeff; Olsen, Jeff. (2017,

dezembro, 18). What will work

look like in 2030? Retrieved from

https://www.strategy-business.

com/article/What-Will-Work-

Look-Like-in-2030

058 NOABR21 NOABR21 059


REPORTAGEM

REPORTAGEM

A pandemia

CLÁUDIA CARVALHO

O FUTURO DO TURISMO:

PARA QUANDO OS VALORES ANTES DA PANDEMIA?

Não será novidade afirmar-se que a pandemia

veio trazer graves constrangimentos ao nível

do desenvolvimento e progresso económico das

pequenas, médias e grandes empresas, em virtude

do lockdown geral por todos os países – esse é um

facto que une todos os dirigentes, especialistas e

empresários.

Com o primeiro confinamento em Wuhan,

epicentro do SaRS-COV-2, seguiram-se países

como Itália, França e Espanha e, posteriormente,

o resto do Mundo, que viram as suas economias

fortemente abaladas por um vírus sem precedentes

e que viria a alterar não só a economia, mas todo o

nosso habitus na vida em sociedade.

Depois dessa data, escusado será dizer que tudo

mudou. Há, sem dúvida, uma realidade antes e

depois desta pandemia. A barreira que as separa

não é visível, mas as pessoas certamente recordarse-ão

do momento em que foram, pela virtude dos

acontecimentos, obrigados a ficar em casa, porque

assim lhes era pedido. Alteraram a sua forma de

agir, de conviver e de comunicar. Adaptaram-se

a novas formas de trabalho, em que conciliar o

teletrabalho e a vida doméstica parecia a tarefa

mais difícil de todos os tempos.

Extensível a todas as áreas da nossa vida, a

COVID-19 provocou graves constrangimentos a

todos os setores da nossa economia, destacandose

o setor dos transportes como um dos que mais

sofreu com a pandemia. Todos nos lembramos,

decerto, das famosas imagens de aeroportos,

em todo o Mundo, com os seus aviões parados,

imagem nunca antes vista. Também através de

aplicações mobile que monitorizam o tráfego

aéreo, podíamos fazer a mesma comparação face

ao período homólogo. Usarmos printscreens

do tráfego aéreo de fevereiro de 2019 e 2020 é,

deveras, devastador e assustador para qualquer um

de nós.

060 NOABR21

NOABR21 061


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Os números

Na verdade, no ano de 2019,

segundo especialistas, o turismo foi

responsável por 7% do comércio

global, sendo que, nesse ano,

se registaram 1.500 milhões de

entradas de turistas internacionais e

outros 9 mil milhões de pessoas que

escolheram o seu próprio país para

fazer turismo. O setor do turismo,

depois de quase duplicar o seu peso

entre 2014 e 2019, continuou a bater

recordes: as receitas na hotelaria

tiveram um crescimento de 9,9%

nos primeiros dois meses de 2020,

em termos homólogos.

Numa nota emitida pelas Nações

Unidas, com palavras do secretáriogeral

António Guterres, dizia que,

em todo o mundo, 1 em cada 10

pessoas estão empregadas na área

do turismo. “Só na Europa, milhões

de negócios e cerca de 27 milhões de

pessoas subsistem graças ao setor”.

Segundo um documento intitulado

“Turismo e COVID-19”, apresentado

pelo secretário-geral em agosto de

2020, que se baseia em dados da

Organização Mundial do Turismo,

apesar do início do ano de 2020

ter sido verificado um crescimento

contínuo no setor, a verdade é que,

“desde o início da pandemia, o

setor do turismo tem sido dos mais

afetados”.

A ONU estimava, em agosto de

2020, que a entrada de turistas

pudesse cair entre 58% e 78%,

colocando assim em risco cerca

de 120 milhões de empregos e

de pequenos comércios afetos ao

turismo.

Os dados recentemente divulgados

pela International Air Transport

Association (IATA), em novembro

de 2020, previam que o prejuízo na

indústria da aviação continuasse no

ano de 2021, “apesar da expectativa

de melhoria no desempenho durante

o período da previsão”. As previsões

apontam, para o ano de 2020, para

um prejuízo líquido estimado de

US$ 118,5 biliões e, para 2021, de

US$ 38,7 biliões.

No press divulgado pela IATA,

Alexandre de Juniac, diretor-geral

e CEO da associação, referiu que

“a história registará 2020

como o pior ano financeiro

do setor, sem dúvida alguma.

Em média, as companhias aéreas

cortaram despesas de US$ 1 bilião

por dia em 2020 e ainda acumularão

perdas sem precedentes”, tendo

ainda deixado o alerta: “se não

fosse a ajuda financeira de US$ 173

biliões dos governos, teríamos tido

falências em grande escala”.

E em Portugal?

De acordo com o Boletim Económico

do Banco de Portugal, datado de

maio de 2020, de entre os setores de

atividade com a maior redução de valor

acrescentado bruto (VAB), constam os

transportes aéreos, com -87.1%, bem

como o alojamento e restauração, com

-70.3%.

No caso português, a companhia área

TAP chegou ao mês de setembro do ano

transato com um prejuízo de 700 milhões

de euros, sendo que o terceiro trimestre

foi o menos negativo do ano de 2020,

com a transportadora aérea a registar um

prejuízo de 118,8 milhões. O grupo SATA,

por sua vez, fechou o terceiro trimestre

de 2020 com prejuízos de 61 milhões de

euros, valor superior aos 36,8 milhões do

período homólogo de 2019.

O estudo da OIT, intitulado “Portugal:

Uma análise rápida do impacto da

COVID-19 na economia e no mercado

de trabalho”, explica que as companhias

aéreas são um foco particular de

preocupação devido à combinação de um

choque imediato profundo e perspetivas

sombrias para o futuro próximo. Em

2020, diziam que, para “além dos

voos cancelados, estão a ser efetuadas

poucas reservas e provavelmente vão ser

impostas medidas sanitárias restritivas

às viagens aéreas (reduzindo as receitas e

aumentando os custos), sendo expectável

que a procura leve algum tempo a

recuperar”.

A Secretária de Estado do Turismo de

Portugal, Rita Marques, no Anuário

de Tendências do Turismo, escrevia,

em maio de 2020, de acordo com o

barómetro anual do World Travel &

Tourism Council (WTTC), que em cada

cinco euros de receitas que eram geradas

em Portugal, um euro provinha do

turismo.

062 NOABR21 NOABR21 063


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Os dados revelam que o turismo, em

Portugal, cresceu no ano de 2019,

registando-se valores históricos:

Portugal recebeu 27 milhões de

hóspedes em 2019 e registou 69.9

milhões de dormidas, correspondendo

a taxas de crescimento superiores às

verificadas em 2019. O VAB gerado pelo

setor chegou a 8% do VAB nacional

e o setor empregava mais de 400 mil

pessoas, correspondente a 9% do total

do emprego nacional.

O mesmo estudo da OIT referia,

inclusive, que a maior preocupação

é o risco de colapso das atividades

de turismo e dos transportes, já que

as medidas de distanciamento físico

tiveram um impacto imediato na

procura do setor do turismo.

No final de abril de 2020, 59.4% das

empresas do setor do alojamento e

da restauração tinham encerrado,

temporariamente (53.9%) ou

indefinidamente (5.5%). Já nos

estabelecimentos de alojamento

turístico, quase 4/5 das reservas entre

março e agosto do ano transato tinham

sido canceladas.

O ano de 2020, segundo explica

a Secretária de Estado, prometia

números muito animadores, com taxas

de crescimento em janeiro e fevereiro

ao nível das dormidas de 8% e 15%

face aos períodos homólogos. “Todos

os sinais eram muitíssimo positivos,

fazendo crer que o ano de 2020 iria ser

absolutamente extraordinário”, explica

Rita Marques.

Os obstáculos

Num relatório publicado pela IATA

confirmava-se, efetivamente, que um dos

principais fatores que dificultou e ainda

dificulta a retoma do setor são, sem dúvida,

as restrições às viagens e às medidas de

quarentena, “que impedem a volta das

viagens”. A solução mais imediata e adotada

por vários governos é, conforme explicam,

“a reabertura segura das fronteiras usando

testes sistemáticos para a COVID-19. A

longo prazo, a ampla disponibilização

de vacinas deve manter as fronteiras

abertas sem testes, mas o prazo para a

disponibilização dessas vacinas é incerto”.

À mesma conclusão chegaram a European

Travel Comission (ETC) e a Tourism

Economics (TE) que, num webinar

realizado em janeiro de 2021, debatiam as

tendências no turismo verificadas no final

de 2020 e as perspetivas que se poderiam

avizinhar para 2021 e anos conseguintes.

De acordo com a ETC e a TE, a ideia

principal é a de uma grande incerteza

sobre o que poderá ser e significar o

setor durante este ano. A incerteza,

segundo explicam, está relacionada com

o grau de sucesso nos programas de

vacinação nacionais, com a abertura e

encerramento de fronteiras e com o ritmo

de recuperação da economia mundial e do

emprego.

O estudo realizado pela OIT reiterava, de

certa forma, aquilo que já fora anunciado

por outros especialistas: “a incerteza, o

medo e a falta de confiança podem levar

a uma crise prolongada no setor”

064 NOABR21 NOABR21 065


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Futuro e possíveis

cenários

Apesar de ressalvarem que as

perspetivas, naquela altura, já

permitiam algum otimismo, a

recuperação dos níveis dos fluxos

turísticos verificados em 2019, segundo

a ETC e a TE, “só ocorrerá entre 2023

e 2025”. Para ambas as entidades,

os desafios colocados à distribuição

da vacina influenciarão o nível de

recuperação e os impactos da recessão

económica farão, em última instância,

retrair a procura, especialmente nas

viagens de curta distância.

Ainda sobre o Anuário de Tendências

do Turismo de 2020, consta um

artigo de opinião de Peter Tarlow,

presidente das empresas Tourism &

More e SaferTourism, que defendia

que o turismo não pode estar em

“hibernação” de forma prolongada.

Apesar de Peter Tarlow reconhecer

que o futuro do setor é ainda uma

incógnita, explicou que existem dois

cenários: uma escola de pensadores

que acredita que o turismo sofrerá

grandes mudanças e que não voltará

aos padrões que existiam antes da

pandemia vs os defensores de que, após

o confinamento obrigatório e assim

que lhes seja permitido, os turistas

vão ter um enorme desejo de viver,

acumular experiências e viajar. “Numa

análise global, acredita-se que haverá

uma conjugação destes dois pressupostos.

Espera-se que alguns segmentos do

mercado queiram viajar brevemente

para destinos internacionais, enquanto

outros vão apostar nas férias locais/

domésticas”.

Também as conclusões da ETC e da

TE explicam que os turistas optarão,

inicialmente, por viagens de proximidade,

sobretudo turismo doméstico e

sobrevalorizando os modos de viagem

sustentáveis e as viagens de lazer

liderarão o processo de recuperação do

turismo, relegando o turismo de negócios

para uma posição de menor relevância.

Na publicação do “Guia para a Retoma

do Turismo”, autoria do Instituto de

Planeamento e Desenvolvimento do

Turismo (IPDT), a Secretária de Estado

do Turismo defende que, ultrapassada

a fase da pandemia, é preciso reforçar

esforços no sentido de retomar o caminho

que estava a ser trilhado na prossecução

das metas da Estratégia Turismo 2027,

“inovando e trabalhando para que

Portugal seja reconhecido como líder do

turismo do futuro”.

Para Rita Marques, é preciso inovar

na oferta, adaptando-a às novas

tendências da procura. Será certo que

o cliente de ontem não será o mesmo

que o de amanhã, que procurará,

em primeiro lugar, mais

segurança: “a implementação de uma

política de informação que permita uma

comunicação clara quanto à identificação

066 NOABR21 NOABR21 067


REPORTAGEM

de eventuais desafios de segurança,

bem como o controlo de possíveis

riscos inerentes à prática turística

e ainda a divulgação de informação

sobre a oferta de serviços de apoio

em casos de emergência, que se

tornará numa prioridade”.

Será ainda premente que o cliente

comece a procurar maior

flexibilidade aquando da

escolha do destino turístico,

fator que deverá ser acompanhado

pela inovação, de forma a conferir

mais direitos aos turistas em matéria

de viagens, nomeadamente no que se

refere aos requisitos de informação

ou à responsabilidade de cada parte

pela execução da viagem.

A Secretária de Estado considera,

também, que o cliente procurará

mais atividades de nicho, nas quais

a saúde e experiências ao ar livre

serão fatores inovadores, daí que

se imponha “trabalhar a oferta que

privilegia a Natureza”.

Num inquérito realizado pelo IPDT,

é referida uma tendência que se

poderá vir a verificar nos próximos

tempos: o peso do preço deixará

de ser tão determinante, já que, a

curto-prazo, o turista irá priorizar

a segurança, optando por destinos e

ofertas ligeiramente mais caras caso

possam usufruir de experiências

mais seguras.

Na verdade, um estudo da Singerman

e Makon, de agosto de 2020, refere

que mais de 70% das pessoas não

ponderavam viajar para um destino

que registe indicadores altos de

transmissão de COVID-19, “mesmo

que os preços praticados ao nível do

turismo sejam baixos”.

Apesar de a ETC e a TE terem

referido, como acima foi

mencionado, que os valores do

turismo a nível global 2019 só

deveriam começar a verificar-se

entre 2023-2025, no inquérito do

IPDT, sobre a retoma do Turismo,

onde 56% dos inquiridos afirmavam

que o ano de 2022 já será um ano de

progresso e onde serão alcançados os

resultados de 2019: “acredita-se que

em 2022 a pandemia de COVID-19

estará ultrapassada. As pessoas vão

sentir-se mais seguras para viajar e

o ecossistema turístico recuperará,

o que tornará possível alcançar

resultados próximos dos registados

em 2018 e 2019”.

A comunicação dos destinos será

determinante para a retoma do setor,

dizem os especialistas. O inquérito do

IPDT revelou que 75% dos inquiridos

concordam com a afirmação “os

destinos que tiverem os canais de

comunicação ativos e atualizados vão

sair na frente da corrida na preferência

dos turistas”.

O turista, antes de fazer qualquer

tipo de reserva, irá, provavelmente,

procurar informação sobre a evolução

pandémica no destino, daí que a

disponibilização organizada dos dados

num portal será uma mais-valia para

qualquer destino. Também as medidas

de entrada no país, como já se fez

referência ao longo do texto, serão

fator influenciador para as reservas.

No futuro, a estadia média não deverá

diminuir e os gastos dos turistas

devem aumentar – são também

algumas das conclusões do inquérito

do IPDT. O slow tourism vai marcar

o futuro do turismo, que contribuirá

para que a estadia média não sofra

grandes diminuições. Assim sendo, os

turistas vão procurar a oportunidade

068 NOABR21 NOABR21 069


REPORTAGEM

REPORTAGEM

de se tornarem parte dos

destinos, num ritmo de viagem

que lhes permita estar em

contacto com a comunidade

residente e a aprender a cultura

local. Contribuir para o comércio

local será ainda uma tendência

para que o IPDT aponta,

aumentando assim os gastos

durante a viagem: “também o

desejo de conhecer a cultura e a

gastronomia local serão fatores

que vão influenciar o aumento do

valor médio gasto por turista”.

Na verdade, seja qual for o futuro

do turismo, uma coisa é certa

– o comportamento do turista

não será mais igual. Teses de

pensadores de que as pandemias

serão cada vez mais recorrentes

poderão fazer-nos concluir que,

tal como antevia o Secretário

Geral da OMT, o turismo de

massas poderá chegar ao fim.

Com o seu fim, haverá espaço

pela procura de um turismo

de segurança, qualidade e com

menor fluxo de visitantes, com

novas formas de se oferecer

o destino e a experiência

turística. Afinal, aquilo que

tantos almejavam poderá

ser consequência do período

pandémico que ainda vivemos.

Fluxos turísticos controlados,

ou pelo menos a diminuição na

procura de destinos massificados

– é isso que os especialistas

projetam, mas tal como a

pandemia e em virtude dela,

independentemente dos estudos

e análises que possam ser feitas,

aguarda-nos o futuro para

podermos saber qual será o novo

panorama, a nova regra.

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070 NOABR21

NOABR21 071


PUBLIRREPORTAGEM

IMPORTÂNCIA DE CRIAR UM

LOGÓTIPO PROFISSIONAL

Criar um logótipo é

essencial para qualquer

empresa, seja grande,

média, pequena ou

microempresa! Uma

empresa sem logótipo

é uma empresa sem

identidade, sendo

assim impossível de

ser reconhecida pelos

consumidores. Investir em

design gráfico é importante

e revela que a sua empresa

está verdadeiramente

empenhada em destacar-se

e oferecer valor aos seus

clientes.

E porque é importante

criar um logótipo para uma

empresa?

Um dos maiores erros que

você, como empresário,

pode cometer é fazer um

baixo investimento na

criação da identidade visual

da sua empresa. É meio

caminho para o insucesso.

Um logótipo criado por

uma empresa experiente

mostra:

1. PROFISSIONALISMO

A criação de logótipos é um

processo que implica análise

e pesquisa por parte de um

profissional qualificado,

desde pesquisar sobre a

concorrência, público alvo,

escolha de cores, definição

de tipografia, que formas e

símbolos usar e outros.

Todo este processo refletese

num logo cuidado e

pensado e os consumidores

apercebem-se disso. Mostra

que você colocou tempo

e dedicação na imagem

da sua marca, mostra

profissionalismo.

2. CREDIBILIDADE

Com certeza já lhe

aconteceu encontrar uma

empresa que tem um

logo claramente amador,

muitas vezes desajustado e

esticado, quando colocado

em materiais como flyers

ou imagens nas redes

sociais. À primeira vista, o

cliente não se sente muito

à vontade em comprar

daquela empresa. Criar um

logótipo profissional dá

segurança e confiança aos

consumidores, mostra que a

empresa tem credibilidade.

072 NOABR21

NOABR21 073


PUBLIRREPORTAGEM

PUBLIRREPORTAGEM

3. AUTENTICIDADE

Muitos pequenos

empresários recorrem

a serviços de design de

logótipo grátis. Usar

websites que têm a opção

de criar um logótipo grátis

pode ser um erro fatal. Para

além de mostrar falta de

profissionalismo, empenho

e credibilidade, existem

milhares de empresas com

o mesmo logo ou muito

parecido.

Isto é um problema

porque, primeiro, tira

todo o propósito de uma

identidade visual, que é a

autenticidade, e segundo,

porque pode receber

uma grande multa ou um

processo por usar um

logótipo, que outra empresa

já registou como sendo seu.

RETORNO SOBRE O

INVESTIMENTO

É completamente

compreensível que, para um

negócio que está apenas a

começar, se tente reduzir

custos ao máximo. No

entanto, esta não é a área

em que deve poupar!

À medida que as pessoas

começam a conhecer

e confiar numa marca,

e ao ver o logótipo

sucessivamente em vários

lugares, é mais provável

que elas respondam

positivamente aos seus

produtos ou serviços. Desta

forma, há um aumento

de vendas ou um maior

reconhecimento da sua

marca por parte do seu público alvo. Para além disso, um bom

logótipo pode levar potenciais clientes a escolherem a sua

empresa, em vez de um concorrente com um logótipo amador.

Esperamos que este artigo lhe tenha sido útil e se precisar de um

logótipo profissional, criativo e autêntico, contacte-nos.

Visite o nosso portfólio e veja os nossos trabalhos de criação de

logótipos:

https://acorespro.com/portfolio/

074 NOABR21 NOABR21 075


13% DOS DOENTES

ONCOLÓGICOS

TIVERAM TRATAMENTOS

SUSPENSOS POR

INDICAÇÃO MÉDICA

Liga Portuguesa Contra o Cancro divulga

estudo sobre o impacto da covid-19 nos

doentes oncológicos

Liga Portuguesa Contra o Cancro

(LPCC), entidade de apoio ao

doente oncológico e seus familiares,

realizou um estudo de âmbito

nacional com o objetivo de avaliar

a perceção do impacto social,

económico e psicológico da pandemia

COVID-19 nos doentes oncológicos/

sobreviventes de cancro e em

familiares/cuidadores. O estudo

está disponível em https://www.

ligacontracancro.pt/impactocovid/.

Ao nível do acesso aos cuidados

de saúde, o estudo realizado a

mais de 900 doentes oncológicos/

sobreviventes de cancro e a mais

de 300 familiares/cuidadores,

residentes em Portugal, revela que

13% dos doentes oncológicos tiveram

tratamentos oncológicos suspensos

por indicação médica; dois em

cada dez doentes e um em cada dez

cuidadores ponderaram suspender,

por sua iniciativa, os atos clínicos, por

medo de se dirigirem aos hospitais e

ainda que 57% dos doentes tiveram

receio de serem infetados por outros

doentes e profissionais de saúde. No

caso dos cuidadores, 75% tiveram

receio que o doente de quem cuidam

pudesse ser infetado.

A nível psicológico, cinco em cada

dez doentes oncológicos apresentou

distress (sofrimento) emocional

significativo durante a pandemia,

valor que aumenta nos casos dos

doentes que tiveram tratamentos

suspensos (seis em cada dez doentes).

Ainda, seis em cada dez cuidadores

com distress emocional significativo –

os dados mostram que os cuidadores

dos doentes oncológicos revelaram

um maior impacto emocional durante

a pandemia do que os doentes.

De acordo com os mesmos dados, é

ainda possível concluir que três em

cada dez doentes oncológicos e quatro

em cada dez cuidadores manifesta

ansiedade significativa e que dois em

cada dez doentes oncológicos e dois

em cada dez cuidadores manifesta

depressão significativa.

“Além do enorme impacto que o

diagnóstico e o tratamento do cancro

representam, doentes, sobreviventes

e familiares e cuidadores são agora

confrontados com desafios adicionais,

que passam pela necessidade de

proteção em relação ao vírus, gerir

a ansiedade e incerteza quanto à

continuidade do tratamento médico,

e adaptar-se às alterações nas rotinas

diárias e familiares, incluindo

a privação da autonomia e dos

contactos sociais”, afirma Natália

ARTIGO TEMÁTICO | SAÚDE

Amaral, membro da Direção da

LPCC.

Por sua vez, um em cada dez doentes

e cuidadores diz ter sentido bastante

a muitíssima dificuldade em pagar

as despesas familiares, indicadores

que demonstram o relevante impacto

socioeconómico da pandemia nestes

doentes.

O estudo realizado pela LPCC revela

ainda que a maioria dos doentes

oncológicos considera-se um doente

de risco para a COVID-19 (maior

probabilidade de contágio e maior

vulnerabilidade a complicações) e que

o mesmo acontece com os cuidadores,

relativamente aos doentes que cuidam.

Cerca de um a dois em cada dez

doentes revelaram desconhecimento

sobre o seu nível de risco.

076 NOABR21 NOABR21 077


REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO | CIÊNCIA

UNIVERSIDADE DE ÉVORA

DESENVOLVEU PROCESSO

TECNOLÓGICO PARA A

PRODUÇÃO EM MASSA DE

TÚBERAS

ladanifer (esteva), foi alcançado,

permitindo a partir de agora a

sua produção em massa para

utilização em diversos setores.

As túberas ou criadilhas (Terfezia

arenaria e T. fanfani) caracterizam-se

por permanecer debaixo da terra até

à maturação dos esporos possuírem

uma forma arredondada, medir em

média 4 a 8 cm diâmetro, podendo

atingir 10 cm, surgindo apenas na

primavera e sendo mais comuns no

sul do nosso país, região Alentejo, em

solos arenosos e ácidos, ocorrendo

também, com menos expressão, na

Beira Litoral e na Beira Baixa.

Esta importante descoberta aguarda

atribuição de patente europeia

e segundo Celeste Santos e Silva,

professora do Departamento de

Biologia e investigadora no MED

uma das etapas cruciais deste

processo tecnológico foi o

isolamento do micélio de

Terfezia em cultura pura, ou seja

“conseguir fazer crescer este

fungo numa caixa de Petri com

ágar-ágar, que dá ao meio uma

consistência gelatinosa, e com

uma determinada composição

de nutrientes e minerais”.

Um resultado só possível graças a

muitas tentativas, até porque, como

explica a investigadora, “muitas

cepas não podem ser subcultivadas,

e assim até agora,

as poucas tentativas bemsucedidas,

principalmente

com Terfezia, apresentavam

um crescimento muito lento

Com utilização em diversos setores,

como farmacêutico, cosmético,

alimentação e agricultura,

investigadores da Universidade

de Évora (UÉ) desenvolveram um

processo tecnológico para a obtenção

de plantas inoculadas visando a

produção de túberas lançando as bases

para uma nova forma de produção

de alimentos com propriedades

nutracêuticas e a exploração

sustentável deste recurso micológico,

de uma forma sustentável, resiliente e

economicamente rentável.

As túberas são a frutificação hipógea

(cogumelos subterrâneos) de fungos

micorrízicos que se associam

tradicionalmente a raízes de plantas

anuais e o desafio de conseguir a

associação micorrízica deste fungo

com plantas perenes, como o Cistus

salviifolius (sargaço) e Cistus

078 NOABR21 NOABR21 079


REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO REPORTAGEM

| CIÊNCIA

e deficitário para que fosse

possível produzir micélio nas

quantidades adequadas”.

Esta invenção, desenvolvida na

Universidade de Évora, referese

assim ao processo que permite

melhorar o isolamento e a

manutenção da cultura de micélio de

espécies do género Terfezia. Este

género é considerado o mais

diverso, rico em número de

espécies, do grupo das “trufasdo-deserto”.

“Conseguimos

melhorar as taxas de

isolamento e aumentar a

proliferação de Terfezia spp de

forma confiável e reproduzível”

destaca assim a investigadora da

academia eborense.

“Esta investigação lançou ainda

as bases para uma nova forma

de produção de alimentos com

propriedades nutracêuticas”

destaca a Investigadora referindo-se à

combinação dos termos “nutrição” e

“farmacêutica” mostrando utilidade,

entre outros para o sector agroflorestal

e “que permitirá a

exploração sustentável deste

recurso micológico, de uma

forma sustentável, resiliente e

economicamente rentável”.

Celeste Santos e Silva frisa ainda que

a disseminação de plantas inoculadas

com Terfezia spp., “previne a

desertificação e erosão do

solo, reforça a integridade

e a multifuncionalidade

da paisagem e permite a

recuperação de áreas ardidas e/

ou com solos degradados’’.

A concretização desta nova forma de

produção assegura a investigadora

do MED “possibilitará a

criação de mais emprego,

invertendo a tendência atual

para a desertificação das áreas

rurais”.

Investigadores descobrem novas

espécies de túberas

Foi também no âmbito do projeto

“Micorrização de Cistus spp com

Terfezia arenaria (Moris) Trappe

e sua aplicação na produção

de túberas”, que o grupo de

investigadores liderados por

Celeste Santos e Silva realizou uma

prospecção exaustiva na procura de

túberas e descreveu duas novas

espécies para a ciência, referimonos

a Terfezia lusitanica e Terfezia

solaris-libera.

“É muito difícil identificar

novas espécies dadas a

características morfológicas de

Terfezia, que são visualmente

muito semelhantes entre si, e

aqui a biologia molecular foi

absolutamente fundamental”

explica a investigadora destacando

que foi possível “atualizar e resolver

problemas sobre a taxonomia e

filogenia (relação evolutiva entre

grupos de organismos), deste género”.

080 NOABR21 NOABR21 081


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO REPORTAGEM

| CIÊNCIA

UNIVERSIDADE DE ÉVORA

DESENVOLVE MOLÉCULAS

PARA TRATAMENTO DE

VÁRIOS TIPOS DE CANCRO

Uma equipa de investigação

liderada por Anthony Burke,

professor do Departamento

de Química da Universidade

de Évora (UÉ) desenvolveu

uma série de pequenas novas

moléculas que mostram

potencial para o tratamento

de vários tipos de cancro,

incluindo o linfoma difuso de

grandes células B (DLBCLs).

O desenvolvimento destas

moléculas com potencial para o

tratamento de cancro e alguns

linfomas foi patenteado a nível

europeu.

“Um tratamento para o

linfoma difuso de grandes

células B (DLBCL) - o tipo

mais comum de linfoma - é

um objetivo muito importante,

pois afeta muitas pessoas”

explica o investigador da academia

eborense. As moléculas desenvolvidas

“mostram potencial também

para o tratamento deste tipo de

linfoma, o DLBCL”, um tumor

maligno do sistema linfático em que

as células tumorais são os linfócitos

B, de tamanho grande, que proliferam

e infiltram o gânglio de forma difusa.

Os resultados foram obtidos por

Anthony Burke e Carolina Marques,

investigadores do grupo de Síntese

Molecular da UÉ, um dos 11 grupos

que integram o Laboratório Associado

para a Química Verde (LAQV-

REQUIMTE), em colaboração

com investigadores internacionais

de Centros de I&D da Suíça e de

Espanha.

As novas moléculas “foram

sintetizadas usando métodos

químicos sustentáveis com

catalisadores metálicos” revela

o investigador e “apresentam uma

estrutura química relativamente

simples e são construídas por dois

anéis heterocíclicos (um composto

que tem um anel, do qual fazem parte

pelo menos dois tipos diferentes

de átomos), e em alguns casos são

quirais, ou seja, não podem ser

sobrepostos à sua imagem especular

(espelho)”.

A investigação na área da Química é

“absolutamente fundamental”

na deteção e tratamento do cancro,

doença que é a segunda causa de

morte a nível mundial e que apresenta

ainda altas taxas de morbilidade,

considera o também professor do

Departamento de Química da UÉ,

sendo “o do pulmão, colorretal e

linfomas os três tipos de cancro

mais difíceis de tratar”.

Além disso, “estas moléculas

também mostram atividade na

área de doença de Alzheimer,

principalmente na inibição de

uma enzima importante para a

progressão da doença chamada

082 NOABR21 NOABR21 083


REPORTAGEM

REPORTAGEM

REPORTAGEM

PUB.

butirilcolinesterase” destaca

Anthony Burke, referindo que o grupo

publicou este estudo no ano passado

na revista internacional Bioorganic

Chemistry, também aqui em

colaboração com grupos estrangeiros,

da Espanha, Itália e da Alemanha.

Este é mais um passo para o

desenvolvimento de novas formas

de tratamento do cancro estando

atualmente os investigadores

da Universidade de Évora “a

identificar os alvos moleculares

destas moléculas para permitir

melhorar as suas características

estruturais e assim aumentar

a sua potência farmacológica”,

avança Anthony Burke, para

que proximamente “possamos

avançar com estudos préclínicos

e conseguir determinar

a sua potência in vivo e o

seu comportamento geral no

organismo do animal”.

Recorde-se que a equipa de

investigadores liderados por

Anthony Burke, entre outros

avanços científicos, produziu

com sucesso um novo inibidor da

enzima Colinesterase, fundamental

para assegurar a comunicação

entre neurónios em doentes com a

doença de Alzheimer. Inovadora,

esta molécula apresenta apenas na

sua composição o ingrediente ativo

benéfico, por isso mais segura para o

organismo humano.

PUB.

9600-549 Ribeira Grande

geral@grupoideal.pt

GRUPO

084 NOABR21 NOABR21 085


ARTIGO TEMÁTICO | ALIMENTAÇÃO

REPORTAGEM

UE está a estudar o aumento das

restrições dos produtos de origem

vegetal e 76,4% dos consumidores

portugueses não estão de acordo

Estudo da Universidade Católica

para a Upfield apura o conhecimento

dos consumidores portugueses

relativamente a produtos vegetais no

sentido de averiguar a necessidade,

ou não, de uma regulamentação mais

restritiva sugerida pela União Europeia

com a Alteração 171.

De acordo com um estudo realizado a

uma amostra representativa de 1013

consumidores portugueses, 95.9% dos

inquiridos sabe distinguir produtos

lácteos e produtos de origem vegetal

quanto à origem dos seus ingredientes

e não se confundem com as diferentes

alternativas.

75.5% dos inquiridos “gostaria que as

restrições legislativas aplicadas a nível

europeu na rotulagem de produtos

lácteos cumprissem as mesmas regras

para rotular os produtos de origem

vegetal”, regras essas que hoje são mais

restritivas para os produtos de origem

vegetal.

Apenas 11.2% dos consumidores estão

a par da atual legislação que regula

a rotulagem de produtos de origem

vegetal.

A maioria dos portugueses (96.4%)

sabe que os produtos de origem

vegetal (plant-based) são produtos

com ingredientes maioritariamente

provenientes de origem vegetal e

95.9% sabe identificar corretamente

a diferença entre produtos lácteos e

produtos de origem vegetal quanto à

origem dos ingredientes com que são

produzidos. Estas são as conclusões

de um estudo levado a cabo pela

Universidade Católica para a Upfield,

a produtora líder de cremes vegetais,

margarinas e alternativas vegetais

ao queijo com mais de 100 marcas,

incluindo a PLANTA e BECEL.

Este estudo procurou determinar

o conhecimento dos consumidores

relativamente às alternativas vegetais

e insere-se no contexto da discussão

da Alteração 171 por parte da Comissão

Europeia, Conselho da UE e Parlamento

Europeu, previsto durante o mês de

março. Esta alteração, apresentada

por um grupo político que alega que

as práticas atuais de rotulagem de

alimentos de origem vegetal enganam

os consumidores, visa impor diversas

restrições na nomenclatura, no tipo

de embalagens, e nas imagens e

comunicações que podem ser utilizadas

nos produtos de origem vegetal.

Com o objetivo de avaliar perceções

dos consumidores sobre produtos de

origem vegetal a partir de diferentes

nomenclaturas e a sua capacidade para

os distinguir de produtos de origem

animal, o estudo demonstra que os

portugueses não ficam confusos no

supermercado e sabem identificar

e diferenciar os produtos de origem

vegetal, como no caso da ‘alternativa de

soja ao iogurte’ (95.1% dos inquiridos

considerou que este é um produto de

origem vegetal) ou do queijo vegan

onde 97,2% classificou corretamente

como ‘alternativa vegetal ao queijo’.

Assim, a respeito da rotulagem, 76.4%

dos consumidores entendem que

termos como ‘cremoso’ ou ‘não contém

lactose’ poderão aparecer nos rótulos

para qualificar alternativas de origem

vegetal, o que, segundo a Alteração

171 sugerida pela União Europeia não

poderá ser permitida.

Francisco Guerreiro, eurodeputado

do Verdes / EFA, comenta que “é

lamentável, em primeiro lugar, que a

imposição de mais restrições ao sector

alimentar de produtos vegetais seja

sequer discutida. O grupo político que

propôs esta alteração defende que

as práticas atuais de rotulagem de

produtos à base de plantas confundem

os consumidores - uma alegação criada

por setores que estão insatisfeitos com a

crescente preferência dos consumidores

por alternativas à base de plantas. Este

086 NOABR21 NOABR21 087


REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO |ALIMENTAÇÃO

REPORTAGEM

estudo muito oportuno vem provar

o que os consumidores, empresas e

ONGs têm tentado dizer aos decisores

políticos: não somos enganados por

produtos à base de plantas - compramos

porque gostamos destes produtos,

porque nos preocupamos com o planeta,

com a nossa saúde e com o bem-estar

animal!”

Qual o conhecimento dos consumidores

em relação ao quadro jurídico dos

produtos de origem vegetal?

O estudo em causa quis também

conhecer a opinião dos consumidores

portugueses sobre o quadro jurídico dos

produtos vegetais, de forma a perceber

a necessidade de uma alteração com

regras mais restritas. Questionados

sobre o conhecimento da legislação

em vigor sobre rotulagem de produtos

de origem vegetal, apenas 11.2% dos

inquiridos identificaram a resposta

correta e está ciente da legislação em

vigor.

A maioria, 88,8% dos consumidores

portugueses, não estão a par

da legislação em vigor. 59.5%

desconheciam que a informação de

que termos comumente conhecidos

como ‘iogurte de coco’, ‘leite de soja’,

‘queijo vegan’ ou ‘natas vegetais’ são

atualmente restritos e 29.3% referiram

desconhecer a legislação sobre este

assunto.

Álvaro Carrilho, Head of Sales Portugal

da Upfield, reafirma que “embora, pelo

estudo, a maioria dos consumidores

portugueses não o saibam, o atual

quadro regulamentar da União Europeia

já é suficientemente restritivo. Esta

Alteração 171, que está em vias de ser

discutida, pode significar a proibição

de produtos de origem vegetal

utilizarem embalagens com formatos

já reconhecidos (como por exemplo

um copo de iogurte), a utilização

de informação útil sobre saúde e

alergénios para descrever um produto

como “adequado para pessoas que

sofrem de intolerância à lactose” ou

palavras descritivas como “cremoso”

e “amanteigado” nas embalagens e na

publicidade dos produtos alternativos

aos lacticínios de base vegetal.”

Ainda neste âmbito, e apesar da

maioria dos inquiridos desconhecer o

quadro legal aplicável a produtos de

origem vegetal, 75.5% dos inquiridos

consideram que as restrições legislativas

aplicadas a nível europeu na rotulagem

de produtos lácteos cumprissem as

mesmas regras para rotular os produtos

de origem vegetal.

Os portugueses são também

muito positivos quanto ao acesso

a mais alternativas vegetais nos

supermercados, com 96.0% dos

consumidores a confirmar que a oferta

de produtos deve ser cada vez mais

alargada, possibilitando opções de

escolhas para todos os gostos, tipos de

alimentos e intolerâncias.

Metodologia

Realizado pela Universidade Católica

Portuguesa, para a Upfield, este

inquérito teve por base uma amostra

representativa de 1013 participantes,

recrutados através do Painel de Estudos

Online (PEO) da CATÓLICA-LISBON,

com uma distribuição semelhante à da

população portuguesa em termos de

sexo e faixa etária (i.e., 18-19, 20-29,

30-39, 40-49, 50-69 anos). De modo

a assegurar a qualidade dos dados

obtidos, a ordem de apresentação

das opções de resposta foi aleatória

e só foram considerados válidos os

questionários que obtiveram um tempo

de resposta superior a 2 minutos e 30

segundos. Os dados foram analisados

com recurso à versão 26 do software

IBM® SPSS®.

088 NOABR21 NOABR21 089


REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO REPORTAGEM

| ESTUDO TURISMO

Estudo avalia a perceção dos

residentes em cidades pequenas

sobre a atividade turística

Para os residentes em cidades pequenas,

os impactos socioculturais da atividade

turística são mais importantes do que

os impactos económicos, conclui um

estudo conduzido por investigadores

da Universidade de Coimbra (UC) e do

Instituto Politécnico de Viseu (IPV).

Esta investigação, que teve por objetivo

analisar a relação entre a ligação ao

lugar e os impactos percecionados

pelos residentes em cidades de pequena

dimensão relativamente à atividade

turística, envolveu 350 habitantes de

várias cidades, entre as quais Aveiro,

Covilhã, Figueira da Foz, Gouveia,

Guarda, Leiria, Seia e Viseu.

“A investigação sobre a visão dos

residentes relativamente à atividade

turística é pouco explorada, mais

ainda em cidades de pequena

dimensão. Por isso, este estudo

pretende precisamente colmatar

essa lacuna na literatura e contribuir

para um melhor planeamento destes

destinos que, fruto da pandemia,

vão ter uma maior procura”, afirma

Cláudia Seabra, investigadora e docente

da Faculdade de Letras da Universidade

de Coimbra (FLUC).

Uma explicação para os dados obtidos

no estudo, financiado pela Fundação

para a Ciência e a Tecnologia (FCT),

prende-se com o facto de “nas

pequenas cidades o espírito de

comunidade ainda ser forte. As

pessoas estão mais conscientes dos

efeitos sociais que o desenvolvimento

do turismo tem nas suas vidas

do que os efeitos económicos ou

ambientais. Em geral, as pequenas

cidades têm uma população

pequena e envelhecida, com menos

oportunidades de emprego, cuidados

de saúde e grandes infraestruturas de

comunicação”, afirma Cláudia Seabra.

Nessas comunidades, fundamenta, “as

pessoas geralmente estão ansiosas

para conhecer novas pessoas e se

conectar com outras culturas e

gerações diferentes. Em geral, os

impactos negativos dos grandes

centros urbanos onde milhares

de turistas se aglomeram não são

sentidos. Os turistas são vistos como

pessoas que trazem oportunidades

de negócios, visitando bares,

restaurantes, hotéis e atrações

da região, ao mesmo tempo que

compram produtos locais para levar.

Por outro lado, os turistas são fontes

de rejuvenescimento cultural”.

A docente e investigadora do Centro de

Estudos em Geografia e Ordenamento

do Território (CEGOT) considera

que os resultados deste estudo, além

de contribuírem para uma “maior

consciência dos efeitos que o

desenvolvimento do turismo está

a ter na comunidade dos destinos

das pequenas cidades, porque o

turismo pode ser um desafio para

as pequenas localidades e cidades,

sobretudo de forma sustentável”,

podem ajudar “os gestores a fornecer

benefícios económicos, sociais e

culturais de longo prazo para a

comunidade local, melhorando

a qualidade de vida e, assim,

fortalecendo o lugar e o vínculo com

a comunidade”.

090 NOABR21 NOABR21 091


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

| CIÊNCIA

30 anos de Ciência e

Tecnologia em papel de jornal

Rui Brito Fonseca

Partindo da análise de milhares de

artigos de jornais diários, pagos e

de circulação nacional, ou seja, sem

contemplar os jornais ditos regionais,

refletiu-se sobre as representações que

os portugueses têm da ciência e da

tecnologia, de 1976 até 2005.

A comparação efetuada, entre os jornais

de “qualidade” e os jornais “populares”,

revelou-se frutuosa, ainda que as

fronteiras entre estes dois tipos de

jornais sejam cada vez mais ténues.

A grande diferença identificada entre

estes dois tipos de jornal refere-se à

tendência geral observada. Nos jornais

de “qualidade, foi possível identificar

uma forte tendência para o aumento

dos artigos sobre assuntos de ciência e

tecnologia. Curiosamente, no caso dos

jornais “populares”, verificou-se uma

maior apetência para a publicação de

artigos sobre estes assuntos até finais da

década de 1980. A partir daí, observouse

uma opção editorial marcada pela

diminuição de publicação destes artigos.

Acrescente-se que, no caso dos jornais

“populares”, boa parte deste artigos

debruçou-se sobre estas temáticas de

forma superficial, abordando o assunto

do ponto de vista da curiosidade e da

bizarria.

No que diz respeito aos principais atores

presentes, em ambas as tipologias

de jornal, os artigos revelaram uma

ciência e tecnologia de rosto masculino,

não consonante com a proporção e

importância das mulheres na ciência

e tecnologia produzidas em Portugal,

ainda que se tenha observado uma

crescente presença de mulheres, à

Rui Brito Fonseca

Presidente e Professor Coordenador no Instituto

Superior de Ciências Educativas do Douro, em

Penafiel (desde 2019). Professor adjunto no

Instituto Superior de Ciências Educativas, em

Odivelas (desde 2010). Doutorado em Sociologia

e Mestre em Ciências do Trabalho, pelo ISCTE-

IUL. É também licenciado em Ciência Política

com especialização em relações internacionais,

pela Universidade Lusófona. É desde 2000

investigador, tendo vindo a desenvolver trabalho

sobre comunicação, media e compreensão pública

da ciência, sobre tecnologias da informação e

comunicação em saúde e sobre toxicodependências,

em diversos projetos de investigação.

092 NOABR21 NOABR21 093


ÁREA REPORTAGEM

TEMÁTICA | CIÊNCIA

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

| AMBIENTE

medida que nos aproximamos da

atualidade.

Relativamente aos temas dominantes,

em ambos os tipos de jornal, observouse

um predomínio generalizado dos

artigos que versavam sobre questões de

biologia humana e saúde. A presença

paradigmática da medicina e da saúde,

revelou uma imagem da ciência e

tecnologia muito conectada com as

preocupações quotidianas com a saúde.

Não obstante as nuances de proporção,

ao longo dos anos, também ambos

os tipos de jornal deram especial

ênfase à astronomia e ao espaço, e à

história, arqueologia e antropologia.

Se no caso da astronomia e do espaço,

os artigos eram muito relacionados

com a conquista espacial e a guerra

fria, no caso da história, arqueologia

e antropologia, os artigos reportavam

descobertas arqueológicas, bem como

o património histórico português, em

Portugal e no mundo.

Saliente-se que esta visão de autovalorização

da história e património

nacionais estava mais patente nos

jornais “populares”. Também não é de

descurar a relevância dada às questões

ambientais e relacionadas com a

energia nuclear e de uma crescente

consciencialização das populações,

para os problemas decorrentes da má

gestão ambiental – mais nos jornais

de “qualidade” – e aos computadores,

informática e internet – nos jornais

“populares”.

No sentido de compreender as

geografias da ciência e da tecnologia,

considerou-se relevante analisar a

localização geográfica dos eventos

relatados nos jornais. Assim, os dados

recolhidos permitem afirmar que

independentemente do tipo de jornal

os eventos ocorreram maioritariamente

na Europa, primeiro, e na América do

Norte, depois. Estamos perante uma

ciência e tecnologia Made in Europe

e Made in USA and Canada. Nos

últimos anos, ambos os tipos de jornais

transmitiram uma imagem da ciência e

da tecnologia de “rosto europeu”.

Quanto ao discurso dominante utilizado

na comunicação de questões de ciência

e tecnologia, também se identificaram

algumas nuances. Ao longo dos anos,

nos jornais de “qualidade” observou-se

a evolução de um discurso dominante

de benefício dos desenvolvimentos,

científicos e tecnológicos, para um

discurso tendencialmente enfatizador

dos riscos. Nos jornais “populares”, o

discurso do benefício foi predominante.

De um modo geral, a imagem da ciência

e da tecnologia parece ser dominada por

um discurso de benefício e de promessa.

Estes são alguns dos itens que

permitem compreender e refletir sobre

a presença da ciência e da tecnologia

na imprensa portuguesa, num longo

período da história recente de Portugal.

Dá que pensar…

094 NOABR21 NOABR21 095


ÁREA REPORTAGEM

TEMÁTICA | SAÚDE

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

|CIÊNCIA

Combater a obesidade e o excesso

de peso com a ajuda do telemóvel

José Pinto Gouveia

José Pinto Gouveia

Uma equipa de investigadores do Centro

de Investigação em Neuropsicologia e

Intervenção Cognitivo-Comportamental

(CINEICC) da Universidade de Coimbra

(UC), liderada por José Pinto Gouveia,

desenvolveu uma aplicação móvel (app)

para ajudar no combate à obesidade e

excesso de peso.

A app foi desenvolvida no âmbito

do projeto eBEfree, que tem como

grande objetivo fornecer ferramentas e

estratégias de regulação emocional que

permitam às pessoas com obesidade

ou excesso de peso eliminar ou reduzir

significativamente os episódios de

ingestão alimentar compulsiva, e

aumentar a sua saúde mental e qualidade

de vida.

No atual contexto da pandemia

Covid-19, «especialmente com o

confinamento geral no nosso país, vários

estudos sugerem que o isolamento vem

acompanhado de uma redução na saúde

mental das pessoas. Neste sentido, o

projeto eBEfree, nomeadamente pelo

seu formato digital, pretende ser um

contributo especialmente apropriado

à situação atual», explica a equipa do

projeto, financiado pela Fundação para a

Ciência e a Tecnologia (FCT).

A app eBEfree é constituída por

12 módulos, disponibilizado um

por semana, que abordam diversas

perspetivas do problema. «Os

conteúdos para o tratamento da

ingestão alimentar compulsiva, como

estratégias de regulação emocional

através de exercícios comportamentais

e de meditação foram desenvolvidos

com recurso a vídeos de animação

explicativos, exercícios áudio e vídeos

de psicólogos/as da nossa equipa a

abordar os temas relevantes», detalha

José Pinto Gouveia, acrescentando que

a aplicação inclui também um fórum de

discussão, «onde os utilizadores podem

colocar questões aos terapeutas (haverá

sempre um terapeuta a acompanhar o

funcionamento da app)».

Para testar e validar a eficácia da

aplicação, a equipa está a solicitar a

colaboração de pessoas de todo o país,

com idades compreendidas entre os

18 e os 55 anos, com excesso de peso e

ingestão alimentar compulsiva, e que

possuam um smartphone ou tablet com

acesso à internet. Os voluntários que

pretendam participar no estudo devem

contactar a equipa de investigação

através do endereço eletrónico: ebefree@

uc.pt.

A participação no estudo envolverá

uma entrevista inicial, via zoom, para

avaliar os critérios de elegibilidade,

o preenchimento de uma bateria de

questionários online e a utilização da

aplicação móvel.

O eBEfree resulta de um estudo anterior

cujos resultados evidenciaram que «estas

ferramentas de regulação emocional e

promoção de saúde mental são eficazes

quando implementadas presencialmente

em formato grupal. O que pretendemos

com o eBEfree é alargar esse estudo para

chegar a todo o território nacional, com

todas as vantagens de uma aplicação

móvel», conclui José Pinto Gouveia.

Mais informação sobre o projeto

disponível em: https://ebefree.uc.pt/

096 NOABR21 NOABR21 097


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

| SAÚDE

Inquérito internacional

revela que portugueses estão

deprimidos: jovens e famílias

com filhos são os mais afetados

Liliana Abreu

Liliana Abreu

Doutorada em Saúde Pública pelo Instituto de

Saúde Pública da Universidade do Porto (2018).

Obteve uma bolsa de Doutoramento da Fundação

para a Ciência e Tecnologia, tendo como Instituição

de Acolhimento o i3S – Instituto de Investigação e

Inovação em Saúde. Durante o seu doutoramento

obteve uma Bolsa Fulbright, que lhe permitiu

desenvolver parte do seu doutoramento nos EUA,

passando pela Universidade de Massachussets e

pela T.H. Chan Harvard School of Public Health.

A sua tese de doutoramento centrou-se no estudo

da literacia em saúde distribuída de pessoas com

doenças crónicas, especificamente, asma e diabetes.

Atualmente, é investigadora na Universidade de

Constança (desde 2019), Alemanha, no Grupo de

Desenvolvimento e Investigação, onde desenvolve

investigação na área da epidemiologia social em

países em desenvolvimento e dá aulas de Saúde

Global.

Com o objetivo de continuar a avaliar

o impacto social e económico da

pandemia a nível mundial, foi lançado

há cerca de seis meses a segunda fase

do inquérito mundial denominado

“Life with Corona” que, em Portugal,

tem como parceiro o Instituto de

Investigação e Inovação em Saúde da

Universidade do Porto (i3S). Os dados

já obtidos mostram que uma parte

considerável da população apresenta

sintomas ligeiros de depressão e

que cerca de 50% dos inquiridos de

Portugal, Argentina, Indonésia, Reino

Unido e Estados Unidos, assim como

40% dos alemães, revelam sintomas

mais graves de depressão. A geração

mais jovem e as famílias com filhos são

os mais afetados.

O “Life with Corona” foi lançado a 23 de

março de 2020 e, nesta segunda fase,

que começou a 1 de outubro, “tentámos

perceber os efeitos psicológicos que a

pandemia e as medidas preventivas

têm tido sobre as pessoas. Até 4 de

março recebemos um total de 21.552

respostas de 136 países e, até ao

momento, Portugal é o segundo país

com mais participações” no estudo,

depois da Alemanha, salienta Liliana

Abreu, investigadora portuguesa na

Universidade de Constança (Alemanha),

uma das instituições que lidera o

projeto.

Liliana Abreu, que já foi investigadora

no i3S e com o qual mantém a

colaboração através deste projeto,

explica que analisaram os dados

relativos a Portugal e verificaram que

“50% dos participantes apresentam

níveis de depressão moderada”, o

que, diz, “é significativo”. Uma das

causas identificadas tem a ver com a

diminuição dos rendimentos mensais.

“Percebemos também, ao contrário

do que se pensava, que os mais jovens

são mais propensos a apresentar

níveis mais elevados de depressão em

comparação com os mais velhos, o que

expõe o fardo adicional que as gerações

mais jovens estão a sofrer”, acrescenta.

“Existem imensos estudos a decorrer

sobre a pandemia, termos um bom

nível de participação num estudo

098 NOABR21 NOABR21 099


ÁREA REPORTAGEM

TEMÁTICA | SAÚDE

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

| SAÚDE

internacional demonstra o interesse

dos portugueses em nos ajudarem a

compreender o impacto que esta crise

está a ter nas suas vidas”, salienta

Liliana Abreu. Os dados que chegaram

de Portugal são semelhantes aos

obtidos nos restantes países e tornase

evidente que a saúde mental foi

fortemente afetada pela pandemia.

“Só o facto de ter sintomas da doença

pode desencadear problemas de saúde

mental. Isto sugere que o medo de

estar doente com COVID pode estar a

causar níveis mais elevados de stress”,

acrescentam os investigadores.

A equipa internacional de

investigadores está agora a comparar

como estão a reagir aqueles que vivem

sozinhos e aqueles que vivem com

outros, e também aqueles que vivem

com crianças e aqueles que não vivem.

Segundo os dados já disponibilizados

no site “Life with Corona” (https://

lifewithcorona.org/how-we-experiencethe-pandemic-is-shaped-by-whowe-live-with/),

as pessoas que vivem

sozinhas “emergem como o grupo que

teve as piores experiências durante a

pandemia. São mais propensos a relatar

níveis mais baixos de satisfação de

vida do que a média geral da amostra

e são também mais propensos a

sentir ansiedade ou depressão”. Pelo

contrário, os indivíduos que vivem com

uma outra pessoa “têm, geralmente,

lidado melhor com a pandemia e as

suas contramedidas. Em comparação

com a média da amostra, relatam

um maior bem-estar subjetivo, e

têm menos probabilidades de sentir

depressão, ansiedade ou demonstrarem

comportamentos agressivos”.

Quanto às pessoas que vivem com

um ou mais adultos e com crianças,

em comparação com a média da

amostra, “têm os piores indicadores de

consumo alimentar. É mais provável

que tenham ganho peso, petiscam mais

frequentemente e fumam e bebem

mais do que qualquer outro grupo.

Também apresentam níveis mais

elevados de ansiedade e agressividade.

É também mais provável que tenham

experimentado maiores tensões entre os

membros das suas famílias”.

O objetivo dos investigadores passa

por “gravar” as vozes e as experiências

dos cidadãos de todo o mundo durante

este período invulgar de pandemia.

Sem fins lucrativos, e baseado em

métodos académicos rigorosos, o

projeto visa populações adultas em

todo o mundo e está traduzido em

27 línguas. O inquérito continua em

curso (https://lifewithcorona.org/

survey/) pelo menos até finais de 2021,

pelo que ainda é possível participar.

Maria Rui Correia, investigadora no i3S

responsável por disseminar o projeto

em território português, apela “a todos

os portugueses para responderem ao

inquérito, pois só com a participação

dos cidadãos se consegue uma imagem

real do que se passa na nossa população

neste tempo de pandemia”.

A iniciativa do “Life with Corona”

partiu de uma equipa de investigadores

internacionais da área das ciências

sociais, nomeadamente do Centro

de Segurança e Desenvolvimento

Internacional (ISDC), na Alemanha,

do Instituto Mundial de Investigação

em Economia do Desenvolvimento

da Universidade das Nações Unidas

(UNU-WIDER), na Finlândia, do

Instituto Leibniz de Culturas Vegetais

e Ornamentais (IGZ), na Alemanha,

da Universidade de Constança, na

Alemanha, e do Instituto de Estudos

de Desenvolvimento (IDS), no Reino

Unido. O projeto é liderado por

Tilman Brück (ISDC/IGZ), Patrícia

Justino (UNU-WIDER), Anke Hoeffler

(Universidade de Constança) e

Wolfgang Stojetz (ISDC). Para

além do i3S, este projeto de Ciência

Cidadã contou com a participação de

instituições e organizações de vários

países. Os investigadores pretendem

obter dados relevantes para apoiar

respostas socioeconómicas sustentáveis

à pandemia causada pelo novo

coronavírus.

0100 NOABR21 NOABR21 0101


CRÓNICA

CRÓNICA

Enfermeira Sara Sousa,

Enfermeira Especialista em

Saúde Infantil e Pediátrica

Um ano passou desde o surgimento

do primeiro caso confirmado de

infeção pelo novo coronavírus nos

Açores. Momento de refletir sobre

algumas das mudanças que vivenciei

enquanto enfermeira neste mundo tão

particular que é a pediatria, a minha

área de cuidados de eleição, onde

exerço há 12 anos a minha atividade

profissional e pela qual ganhei um

gosto exponencial. O cuidado à

criança/jovem é um desafio constante,

não só por englobar várias faixas

etárias e diferentes especialidades

O cuidar em

pediatria em tempos

de pandemia

médicas e cirúrgicas, como também

porque a adesão e o resultado dos

cuidados prestados e objetivos

alcançados dependerá da relação

de confiança estabelecida entre

enfermeiro – pais – criança/jovem.

Há um ano atrás viveram-se dias

em contrarrelógio. Foi tempo

de adaptação a novas práticas,

reestruturação de espaços físicos e

equipas. Era urgente refletir da forma

mais criteriosa possível sobre todos os

pormenores. Vários cenários possíveis

foram antecipados de forma a provir

os ambientes de toda a segurança para

nós, profissionais de saúde, e para a

criança e sua família.

Reunidas as condições para

garantir uma resposta adequada

às necessidades identificadas,

começamos a escrever um novo

capítulo nas nossas vidas pessoais

e profissionais. O nosso número

mecanográfico deu lugar a imagens

de arco-íris, desenhados nas batas

junto ao nosso nome, como forma

de manter a esperança e amenizar a

insegurança causada pelo impacto

ameaçador do uso dos equipamentos

de proteção individual. O medo que

todos sentimos, e que era bem real,

converteu-se em coragem e seguimos

juntos, mais unidos do que nunca,

com os mesmos receios, mas também

com as mesmas armas – sorriso no

olhar e muita arte no brincar. Nem

sempre é fácil conquistar a confiança

das nossas crianças. Em pediatria nem

sempre o mais simples se torna fácil.

A pandemia trouxe-nos muitos

entraves na nossa forma de cuidar e o

nosso trabalho emocional foi o mais

afetado. O enfermeiro de pediatria

procura diariamente transformar

o internamento de uma criança/

jovem numa vivência positiva e não

num acontecimento potencialmente

traumático. A realidade dos tempos

que correm lançou-nos um desafio

ainda maior. Desenvolver uma

relação empática e terapêutica

estável, na adversidade imposta pelo

0102 NOABR21 NOABR21 0103


CRÓNICA

CRÓNICA

distanciamento físico e pelo uso de

máscaras que condicionam a perceção

das nossas expressões de afeto. Eles

não gostam do nosso rosto escondido,

mas percebem que o nosso olhar

é de confiança e isso, por vezes, é

inexplicável.

O foco de toda equipa foi sempre o

mesmo – reorganizar e reinventar

de forma a garantir a excelência do

cuidar – e isto não se reduz apenas aos

colegas que numa primeira instância

e de uma forma bastante altruísta

avançaram e constituíram a equipa

covid pediátrica. No exterior desta

ala estão sempre outros enfermeiros,

assistentes operacionais, médicos e

toda uma equipa de profissionais que,

com o mesmo afinco, trabalham para

assegurar as necessidades do serviço e

que, vestindo as suas fardas coloridas,

com personagens conhecidas do

mundo infantil, usando o seu

sentido de humor, disponibilidade,

tranquilidade e empatia dão suporte

às crianças/jovens e suas famílias,

não infetadas pelo vírus sarsCov2,

que são hospitalizadas para cumprir

tratamentos inerentes a outras áreas

de especialidade.

Era e é importante desmistificar

os receios inerentes ao recurso

aos cuidados de saúde e à própria

hospitalização em tempo de

pandemia. Todos os dias equipas

inteiras trabalham arduamente para

que os seus serviços sejam ambientes

seguros e acolhedores para os seus

utentes.

Embora tenham direito a um

acompanhante, as visitas diárias de

familiares numa altura pré-pandemia

constituíam um momento importante

no dia de uma criança/jovem

hospitalizada. Com as limitações

nas visitas era importante manter o

vínculo familiar e com a sua rede de

apoio. As visitas à janela do quarto,

onde a criança se encontra, são

uma alternativa que contribuiu para

manter uma aproximação benéfica ao

ambiente familiar. As videochamadas

e as plataformas digitais são, do

mesmo modo, recursos muito

utilizados para manter a comunicação

com amigos e familiares,

proporcionando sentimentos de

segurança e bem-estar importantes no

processo de cura.

As áreas lúdicas foram encerradas

e a partilha de brinquedos

desaconselhada, apesar da sua

limpeza e desinfeção frequente, que já

acontecia anteriormente como prática

comum. Impreterivelmente são

apuradas as competências criativas

dos enfermeiros. As atividades

recreativas num quarto onde estão

mais crianças foram ajustadas de

forma a não implicarem proximidade

no contato. Cenário nem sempre

fácil de controlar quando até aos

dias de hoje partilhar, ajudar e

brincar com os outros fazia parte

do quotidiano das nossas crianças,

noutros moldes. Contamos com

os pais como parceiros nesta tarefa

inglória, sendo que estes, geralmente,

se demonstram sensibilizados para

colaborar, privilegiando brincadeiras

mais individualizadas.

O brincar mantém-se o nosso

grande instrumento terapêutico de

trabalho, pois é a forma através da

qual as nossas crianças comunicam

connosco, com o meio em que vivem

0104 NOABR21 NOABR21 0105


CRÓNICA

PUB.

REPORTAGEM

e expressam os seus sentimentos.

Os enfermeiros de pediatria têm

inato um palhaço interior. Não

é treinado, nem forçado e não

há grande teoria que sustente

este nosso “saber ser”. É assim

que conquistamos as crianças

no nosso dia a dia – a brincar.

Minimizamos medos, inseguranças

e conseguimos a sua colaboração

até mesmo em procedimentos mais

invasivos.

Todas as estratégias têm um

cariz evolutivo e acompanham

as alterações que ocorrem nas

diretrizes do plano de contingência

hospitalar. Considero que poderia

descrever muito mais e assumo

que mais ainda poderia ser feito

no sentido de colmatar as lacunas

próprias dos obstáculos colocados

pela pandemia no cuidar em

pediatria. No entanto, e apesar

do inegável cansaço físico e

psicológico que nós, profissionais

de saúde, vivenciamos, o nosso foco

de atuação sempre esteve presente e

bem definido.

O caminho ainda é longo, mas

enquanto equipa seguimos com

a mesma linha de pensamento e

com a vontade comum de aligeirar

as sequelas deixadas por estes

tempos particulares que vivemos.

Cuidamos uns dos outros como

a segunda família que somos e

depositamos paralelamente toda

a emocionalidade, empenho e

profissionalismo no nosso cuidar.

0106 NOABR21 NOABR21 0107


CRÓNICA

CRÓNICA

Por Ricardo Silva

José Tolentino de Mendonça, O Que É Amar

um País, O Poder da Esperança, Quetzal, 2020

O madeirense, cardeal, poeta e pensador José

Tolentino Mendonça propôs como reflexão

no seu discurso de 2020, no Dia de Portugal,

de Camões e das Comunidades Portuguesas a

temática “O que é Amar um País”, convertida

em título do livro ora presente. O subtítulo

aponta para uma outra reflexão, traduzida numa

pequena coletânea de textos, feita no decorrer

da pandemia e que, pela sua profundidade,

merece um cuidado que este escrito não vai

observar. E isto porque o cidadão que foi

convidado para proferir o discurso do dia 10

de junho quis destacar a palavra Esperança

como o poder sobre a pandemia, embora na sua

intervenção solene tenha optado pela palavra

“raiz” que tenta interpretar aplicada ao nosso

país.

E se as raízes podem ser a força, a estabilidade

temporal e o vigor do crescimento, elas também

nos recordam que são vulneráveis às crises

meteorológicas e aos atos insanos dos homens.

Lembram-nos que, sendo ou parecendo

inabaláveis, são, também, frágeis aos tremores

do mundo físico e humano. E nesta oscilação

tem Portugal viajado no tempo.

O também pensador lembrou

Camões como o poeta que

desconfinou Portugal não só

porque nos deu “o poema” (Os

Lusíadas), mas, sobretudo,

“deixou-nos em herança a poesia

como ciência de navegação

interior” e “um guia náutico

perpétuo.” Releva Os Lusíadas

como um livro que nos conduz a

nós próprios “como indivíduos e

como nação” fazendo-nos chegar

à “consciência última de nós

mesmos”.

Refere a filósofa Simone Weil

para mostrar que amar um

país é amar o dinamismo da

sua história, os seus solavancos

e riscos, e não meramente a

imagem ideal do mesmo, fixa,

gloriosa, num dado momento,

e não aceitando as alterações

do tempo. Amar um país leva,

segundo Tolentino de Mendonça,

ao exercício da fraternidade e

da compaixão, numa viagem

nacional que inclui riscos, mas

que importa o caminho para

onde queremos ir.

Um país que, enquanto

comunidade cuida da vida de

cada um, formalizando um

pacto que não deve deixar para

trás os mais fracos, indiferentes

à sua sorte. Esta ideia de

pacto comunitário é tão mais

importante, conquanto hoje

voltam a germinar ideias de

discriminação e abandono de uns

por outros, num salve-se quem

puder que a pandemia mais

expôs.

O conceito seguinte de pacto

intergeracional é uma alusão

à necessidade de se reabilitar

e robustecer o diálogo entre

faixas etárias diferentes numa

perspetiva de ajuda mútua, de

aprendizagem e colaboração

pungente. Reforça a ideia de que

a sociedade é una, inclusiva e

0108 NOABR21 NOABR21 0109


CRÓNICA

REPORTAGEM

CRÓNICA

REPORTAGEM

não desagregadora e que os mais

velhos não podem ser vistos

como um peso sobre o manto dos

mais jovens.

É importante, porque evidente,

a sua chamada de atenção

aos jovens abaixo dos 35

anos, escolarizados e bem

qualificados, tantas vezes

vítimas de precariedade laboral,

impeditiva de realizar sonhos

pessoais e familiares em pleno.

As gerações devem olhar-se

em complementaridade, com

dignidade própria e com um

caminho de fortalecimento

mútuo.

O discurso no seu passo seguinte

releva a importância de mais um

pacto: o ambiental. O Homem

tem de assumir o papel de

cuidador do mundo, com uma

ética da criação, embora tenha de

mudar a “raiz” do sistema cujas

estirpes assentam no consumo

desenfreado e num conceito

de “progresso” e abundância

destrutivas. Mais se agrava a

situação é quando esta raiz até é

francamente desigual entre países

e continentes e, obviamente,

geradora de riqueza concentrada

em poucos face à miséria e

pobreza de muitos.

José Tolentino de Mendonça

recupera depois a ideia de

viagem a partir de Camões e

dos Lusíadas para comparála

a Portugal, esta nau de 9

séculos que em comunidade

vai melhorando o seu futuro.

“Portugal é e será, por isso, uma

viagem que fazemos juntos”,

terminando o seu discurso

afirmando que esta viagem é

como um grande Amor que não

se esgota na temporalidade da

história, vai além dela, criando

um rasto do seu fulgor.

Podemos afirmar que num ano

de pandemia, 2020, o nosso Dia

de Portugal, foi marcado por

palavras sensíveis de um cardeal

– poeta que apontam ao futuro

como União, Amor, Esperança,

Poesia, Raízes, Viagem e Pacto.

Com elas sabemos “o que é amar

um país”: Portugal.

A leitura vale a pena! E José

Tolentino Mendonça merece-o!

Ricardo Silva

TIAGO MATIAS

EDITOR

São a mesma coisa? É certo

que andam, muitas vezes,

de mãos dadas. Afinal de

contas, muitas vezes os

empreendedores em potência ou

os professores da área entendem

“empreendedorismo” como

sinónimo de “fazer coisas novas,

que não existam ainda”.

Vamos ao Dicionário. Infopédia.

Empreendedorismo significa:

“1) qualidade do que é

empreendedor; 2) atitude de

quem, por iniciativa própria,

assume os riscos financeiros

inerentes à criação de um

negócio com vista à obtenção

de lucro; 3) atitude de quem se

propõe a começar novo projeto

ou a implementar novo método

com vista a desenvolver uma

Empreendedorismo

Vs

Inovação

dada atividade ou a responder

a determinado problema; 4)

espírito de iniciativa; diligência;

dinamismo”.

Inovação significa: “1) ato ou

efeito de inovar; 2) introdução

de qualquer novidade na gestão

ou no modo de fazer algo,

mudança, renovação; 3) criação

de algo de novo, descoberta”.

Assim, ser empreendedor

– que não é sinónimo de

ser empresário – é tomar a

iniciativa, desenhar o seu

próprio caminho e ser inovador

é criar algo de novo.

Será necessário ser inovador

para ser empreendedor? Pois

aqui é que reside, muitas vezes, a

confusão.

Se uma pessoa se propuser

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CRÓNICA

REPORTAGEM

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a criar um negócio, como um

restaurante, um cabeleireiro, um

salão de estética, não estará a ser

inovador, mas sim empreendedor.

E só porque esse negócio

não comporta inovação, está

condenado ao fracasso? Não!

Quem quer criar um negócio

deve estudar muito bem a área

de negócio em que se pretende

envolver, estudar a concorrência,

pensar como irá viabilizar a sua

ideia e refletir sobre quais os

fatores de diferenciação que a

distinguirão da concorrência.

Em suma, fazer um plano de

negócios. Isto não implica

reinventar a roda nem pensar

em cultivar algas em ambiente

suborbital.

Assim, se estiver a pensar em

criar o seu próprio emprego,

não precisa de ter uma ideia

mirabolante. Pense nas suas

competências, pense no que

faz falta no mercado, quem irá

adquirir os seus produtos ou

serviços, se consegue ter preços

razoáveis e como será a melhor

naquilo que fizer. Pode também

ir pensando numa estratégia de

comunicação e sobre como irá

crescer nos próximos anos. Seja

realista. Recorde-se sempre do

princípio KISS - Keep it Short &

Simple. Descomplique.

Tiago Matias,

Editor

empregonosacores.blogspot.pt

tasmatias@gmail.com

PRATOS

GEOTERMICOS

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0112 NOABR21 NOABR21 0113


CRÓNICA

JOÃO AZEVEDO CASTRO

joaocastro@sapo.pt

PROFESSOR

MESTRADO EM GESTÃO PORTUÁRIA

SUEZ

mais dias de navegação.

O porta contentores “Ever

Given” é um dos maiores

navios do mundo. Construído

no ano de 2018, com 400m de

comprimento, 59m de largura e

15,7m de calado, navegava sob o

registo da bandeira do Panamá,

com uma arqueação na ordem

das 200 mil toneladas, que

podem transportar até 20 mil

contentores de 20 pés (20.000

TEU’s).

O Canal do Suez, com 164 Km

de extensão, é um dos principais

circuitos do transporte marítimo

à escala global. Foi inaugurado

em 1869, sendo um “atalho”

na ligação marítima entre a

Ásia e a Europa, permitindo

aos navios economizar, cerca

de 6.000 milhas náuticas, em

relação ao percurso pela costa

de África através do Cabo da

Boa Esperança. Estima-se que

passem, pelo canal do Suez, cerca

de 19.000 navios anualmente,

representando 12% do total de

A navegação marítima

internacional foi surpreendida,

no passado dia 23 de março,

com o encalhe, do navio “Ever

Given” no canal do Suez,

onde navegava, tendo como

destino a cidade de Roterdão. O

acidente terá ocorrido devido

às condições meteorológicas,

com ventos fortes associados

a uma tempestade de areia,

após a passagem pela entrada

Sul do canal, que terá gerado

um problema de visibilidade e

controlo do navio.

Esta situação impediu a

passagem de centenas de navios,

que planeavam utilizar o canal,

que se aglomeram nos dois

lados da passagem, criando um

efeito de atrasos sucessivos,

com impactos significativos à

escala global, o que obrigará

a encontrar rotas comerciais

alternativas, certamente o cabo

da boa esperança, obrigando a

0114 NOABR21 NOABR21 0115


CRÓNICA

CRÓNICA

mercadorias transportadas no

mundo, tendo mesmo o registo

de 6,1 milhões de toneladas num

único dia.

Se pensarmos que mais de

80% das mercadorias, do

mundo, são transportadas

por via marítima, facilmente

se percebe que o Canal do

Suez é vital para as cadeias de

abastecimento global pelo que,

este acidente, terá consequências

significativas. Desde logo

pelas consequências diretas,

nos prazos de entrega, para as

mercadorias transportadas pelos

navios diretamente afetados, mas

também face a um previsível

congestionamento das cargas

nos portos europeus, para

os próximos dias, bem como

dificuldades no abastecimento

de recursos energéticos, como

o petróleo e o gás natural

liquefeito, com provável,

aumento dos preços.

Também nos portos as

consequências poderão

ser significativas, face às

transformações, a que tem sido

sujeita a operação portuária,

nos últimos anos, decorrentes

da implantação de meganavios

e à reestruturação das

alianças marítimas, efetuadas

pelas grandes empresas de

navegação. A procura por

ganhos de eficiência, das redes

de transporte marítimo, tem

aumentado o tamanho dos

navios, aumentando por esta

via o grau de exigência sobre os

portos, que tentam corresponder

ao desafio de adaptação a esta

realidade.

Enquanto alinhavávamos o

presente texto, os trabalhos

de desencalhe apresentavam

sinais de solução, prevendo-se

uma intervenção de dragagem

das areias, em que o Ever

Given ficou preso, ou mesmo

uma diminuição do peso

do navio, com a retirada da

carga (contentores), água e

combustível, o que atrasaria

inevitavelmente toda a operação

face aos meios necessários para a

concretizar.

Falamos de “milhões”, de

prejuízos, com impactos

previsíveis na economia

mundial, obrigando os navios

a procurar rotas alternativas,

com custos acrescidos para

as mercadorias, logo para o

consumidor.

Uma consequência parece já

clara, associada à pandemia que

o mundo enfrenta, este é um

evento que fará refletir sobre o

processo de globalização.

0116 NOABR21 NOABR21 0117


FRASES DO MÊS

REPORTAGEM

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“Estimamos que apenas cerca de 80 mil vacinas seriam

necessárias para nós. Não se trata de um pedido egoísta,

mas sim de uma necessidade específica”

José Manuel Bolieiro,

Presidente do Governo Regional

“O que vai acontecer é que, em vez da produção acrescida

ser feita no hospital público, a produção acrescida

será feita no hospital privado, o que terá custos muito

superiores para o Serviço Regional de Saúde”

António Lima, deputado do BE/Açores

“Precisa de ser a mulher a garantir a mudança de mentalidade

nas próximas gerações, a romper com o sentimento de culpa

que por vezes sente quem tem responsabilidades familiares e se

dedica a outras causas”

Sandra Dias Faria,

deputada do PS/Açores

“Se o incumprimento dos compromissos assumidos por António Costa

mereceu, ao longo de todos estes anos, apenas um mero encolher de

ombros por parte do PS de Vasco Cordeiro, estamos certos de que o

atual Governo Regional vai desencadear todas as ações para que a

República cumpra o que prometeu”

Pedro Nascimento Cabral, PSD/Açores

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