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Revista Elas por elas maio 2022 web

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

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Arte,

semente

em defesa

da vida

As ruas do Brasil

têm muito o que contar

Luz, câmera, educação!

Professoras reinventam a sala de aula e

mantêm o ensino durante a pandemia

Entre quatro paredes

Isolamento social força mulheres a

suportarem violência caladas


2 Revista Elas por Elas - maio 2022

n Carina Aparecida


Esta edição da revista Elas por

Elas chega em momento emblemático

para o planeta e, em especial,

para o Brasil. Em 2022, vivemos sob

a expectativa de que a crise sanitária

provocada pelo coronavírus –

que mudou nossas vidas radicalmente

nos últimos dois anos – arrefeça.

Acalentamos a esperança de retornar

ao “novo normal”, conceito

cujo significado varia de acordo

com a realidade das nações. Por aqui,

a nova normalidade traz consigo a

urgência de reconstrução do país

na sua base econômica e em sua dimensão

social, com foco na retomada

dos empregos, na reindustrialização

e na proteção social.

Elas por Elas discorre sobre as

consequências das crises econômica

e sanitária na vida das mulheres

(cis/trans) . Nosso preço varia de

acordo com a gradação socioeconômica

da paleta da exclusão: quanto

mais negras e mais pobres, mais

submetidas à superexploração ou

ao desalento.

A pandemia tirou da invisibilidade

a feminização da pobreza,

que tem como pano de fundo

a histórica inserção desigual das

mulheres no mercado de trabalho,

a remuneração menor do que a

dos homens e a cultura patriarcal.

O fenômeno também é consequência

direta das políticas de precarização

das relações trabalhistas,

da expansão do trabalho domiciliar

informal e da explosão da

vulnerabilidade social.

O novo normal e o novo futuro

Trabalhadoras em educação do setor

privado, conhecemos bem como

a superexploração atingiu nossos lares

nos últimos dois anos. Nos “viramos

nos 30”, reinventamos a pedagogia,

as relações com estudantes e

transformamos nossas casas em estúdios

– muitas vezes arcando com

todos os investimentos didáticos e

tecnológicos. A exaustão do trabalho

remoto suscitou novas bandeiras

de luta, como o direito à desconexão

e o direito de imagem.

Parte significativa da feminização

da pobreza está ligada à ausência

de políticas públicas que nos desonerem

das tarefas de casa e dos

cuidados de crianças e idosos. Em

2020, segundo pesquisa da ong Oxfam,

o trabalho do cuidado, não remunerado

e mal pago, realizado quase

sempre por mulheres/meninas pobres,

agrega US$10,8 trilhões à economia

mundial, valor que vai para

o bolso de homens ricos. Parte deste

dinheiro deveria ser investido em escolas

públicas com horários estendidos

para crianças, espaços de lazer e

saúde para idosos, e para outras políticas

públicas que interrompam a

reprodução da desigualdade de gênero

e da pobreza.

Tais ações permitirão, inclusive,

que as mulheres participem em

maior número e com mais qualidade

não só do mercado de trabalho,

mas em todos os espaços e esferas

de decisão, públicos e privados. Um

dos temas desta edição da revista é

justamente a nossa participação na

Editorial

cena pública. Em Minas Gerais, somos

13% das prefeitas, 16% das vereadoras

e 11,6% das deputadas estaduais.

A igualdade de gênero passa,

necessariamente, pela ampliação da

nossa representação nessas instâncias

- com a presença de mulheres

que defendam a nossa emancipação,

a educação e a classe trabalhadora.

Elas por Elas mostra como mulheres

de diferentes origens e trajetórias

de vida enfrentaram graves

dificuldades econômicas e sociais.

Os dramas das prostitutas, das presidiárias,

das mulheres em situação

de rua, das artistas, das indígenas e

das meninas submetidas à pobreza

menstrual denunciam que suas lutas

pela sobrevivência contam com pouco

ou nenhum apoio dos poderes públicos

responsáveis por protegê-las.

Embora duríssimas, são jornadas

entremeadas de solidariedade. Vimos,

formamos e participamos de redes

que organizaram inúmeras campanhas

de doação de alimentos, roupas,

produtos e equipamentos de proteção

contra o coronavírus, além de

acolhida terapêutica.

A resiliência do nosso povo está

bordada nos nossos corações e nos

enchem de esperança e energia para

construir não apenas um novo normal,

mas um novo futuro. Sigamos

juntas, mulheres, na luta cotidiana

pela valorização e respeito que

merecemos!

Valéria Morato

Presidenta do Sinpro Minas

Revista Elas por Elas - maio 2022

3


Ensaio

Cansadas

Larissa Isis

7

Política

Eleitas, mas pouco

valorizadas

Devagar, ainda muito devagarinho. E assim

vai crescendo, aos poucos, a participação

das mulheres na política e no Parlamento

no Brasil, 88 anos depois de conquistarem o

direito de votar e serem votadas.

11

Capa

Arte, semente

em defesa

da vida

Em tempos difíceis, a arte mostra

suas múltiplas funções e se fortalece

31

Artigo

Cavalo arreado nunca passa

diante das mulheres

Jô Moraes

17

Realidade

Prostitutas lutam

pela sobrevivência

O preconceito e a falta de políticas públicas

agravados com o desemprego e o medo da

contaminação pelo coronavírus

21

Realidade

As ruas do Brasil

têm muito o que contar

Mais de 160 mil pessoas estão em situação de

rua em nosso país. Um número assustador

que vem crescendo com o desemprego,

desigualdade social, violência doméstica e

outras causas que se reforçam com a falta de

políticas públicas.

41 51

Saúde

A pandemia que

contamina emoções

Os impactos e transformações do mundo

pela Covid-19 chegaram às subjetividades

com consequências para a saúde mental.

Reproduzindo a histórica desigualdade

de gênero, são pesos e dores que recaem

principalmente sobre as mulheres.

4 Revista Elas por Elas - maio 2022


Artigo

Pobreza menstrual exige

política pública urgente

Brena Melo

59

Educação

Luz, câmera, educação!

Professoras reinventam a sala de aula e

mantêm o ensino durante a pandemia

79

Violência

Entre quatro paredes

Isolamento social força mulheres a

suportarem violência caladas

109

Artigo

A irracional, anacrônica

e inconstitucional

criminalização do

aborto no Brasil

Dra. Cláudia Maria Dadico

65

Trabalho

Invisível e estrutural:

a histórica desvalorização

das trabalhadoras

domésticas

71

Artigo

Que país seremos daqui

a 40 anos?

Valéria Morato

87

Resistência

Linhas de combate

Mulheres utilizam o bordado como forma de

expressar diferentes lutas na sociedade

93

Indígenas

Guerreiras da Terra

Mulheres indígenas protagonizam a luta pela

demarcação e preservação de seus territórios,

diante dos ataques do governo Bolsonaro

103

Artigo

Este beco tem saída!

Uma conversa ficcional inspirada em situações

reais de violência doméstica na pandemia

117

Artigo

As várias formas de tortura

no sistema prisional mineiro

121

Perfil

A diáspora dos degredados

Cida Pedrosa

125

Poucas e boas

Podcasts

Internet

Livros

Audiovisual

Retrato

Revista Elas por Elas - maio 2022

128

129

130

5


Departamento de Comunicação do Sinpro Minas: comunicacao@sinprominas.org.br

Diretores responsáveis: Aerton Silva, Clarice Barreto e Gilson Reis

Editora de texto: Nanci Alves (MG3152JP)

Editora de fotografia: Carina Aparecida (MG13115JP)

Redação: Aloísio Morais (MG2447JP), Carina Aparecida (MG13115JP),

Denilson Cajazeiro (MG9943JP) e Nanci Alves (MG3152JP)

Projeto gráfico e Diagramação: Mark Florest

Revisão: Aerton Silva

Foto capa: Cristina Granato (Cyda Moreno e Taís Alves, cena do espetáculo Luiza Mahin)

Conselho Editorial: Antonieta Mateus, Clarice Barreto, Lavínia Rodrigues, Maria Izabel Bebela Ramos,

Marilda Silva, Liliani Salum Moreira, Luliana Linhares, Soraya Abuid, Terezinha Avelar e Valéria Morato.

Impressão: EGL-Editores Gráficos Ltda - Tiragem: 2.000:

Distribuição gratuita: Circulação dirigida

REVISTA ELAS POR ELAS

PUBLICAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE

COMUNICAÇÃO DO SINPRO MINAS

ANO XIII - Nº 13 - MAIO DE 2022

ACESSE AS EDIÇÕES ANTERIORES EM

www.sinprominas.org.br

Diretoria Gestão 2020/2024

Adelmo Rodrigues de Oliveira; Aerton de Paulo Silva; Alessandra Cristina Rosa; Alexandre Durann Matos; Altamir

Fernandes de Sousa; Andrez Wescley Machado; Ângela Maria da Silva Gomes; Ângelo Filomeno Palhares Leite;

Antonieta Shirlene Mateus; Aparecida Gregório Evangelista da Paixão; Arnaldo Oliveira Júnior; Beatriz Claret

Torres; Bráulio Pereira dos Santos; Bruno Burgarelli Albergaria Kneipp; Camillo Rodrigues Júnior; Carlos Magno

Machado; Carolina Azevedo Moreira; Cássio Francisco de Lima; Celina Alves Padilha Arêas; Clarice Barreto Linhares;

Cláudio Lima Ribeiro Júnior; Cristiane Pardini Ferreira Valério; Daniel William Araújo Coelho; Décio Braga

de Souza; Edson de Oliveira Lima; Edson de Paula Lima; Eduardo Arreguy Campos; Fábio dos Santos Pereira;

Fábio Marinho dos Santos; Fernando Lúcio Correia; Filipe Luis dos Santos; Franz Lima Petrucelli; Gilson Luiz

Reis; Grace Marisa Miranda de Paula; Haida Viviane Palhano Arantes; Handerson Correa Gomes; Heber Paulino

Pena; Helcia Amélia de Menezes Quintão Simplício; Idelmino Ronivon da Silva; Isabela Maria Oliveira Catrinck;

Jaqueline Rodrigues Gouveia Gomes; João Francisco dos Santos; Jones Righi de Campos; Jose Carlos Padilha

Arêas; Josiana Pacheco da Silva Martins; Josiane Soares Amaral Garcia; Juvenal Lima Gomes; Liliani Salum Alves

Moreira; Luciano Martins de Faria; Luiz Antonio da Silva; Luliana de Castro Linhares; Marcos Gennari Mariano;

Marcos Paulo da Silva; Marcos Vinícius Araújo; Maria Cristina Teixeira do Vale; Maria da Conceição Miranda;

Maria da Gloria Moyle Dias; Marilda Silva; Mário Roberto Martins de Souza Silva Braga; Mateus Julio de Freitas;

Miguel José de Souza; Miriam Fátima dos Santos; Moisés Arimatéia Matos; Mônica Junqueira Cardoso Lacerda;

Nalbar Alves Rocha; Newton Pereira de Souza; Orlando Pereira Coelho Filho; Paola Notari Pasqualini; Petrus

Ferreira Ricetto; Pitágoras Santana Fernandes; Renilde de Fátima dos Santos; Ricardo de Albuquerque Guimarães;

Rodrigo Rodrigues Ferreira; Rodrigo Souza de Brito; Rogério Helvídio Lopes Rosa; Rozana Maris Silva Faro;

Sandra Lúcia Magri; Sandra Maria Nogueira Vieira; Sebastião Geraldo de Araújo; Simone Esterlina de Almeida

Miranda; Siomara Barbosa Candian Iatarola; Sirlane Zebral Oliveira; Telma Patrícia de Moraes Santos; Teodoro

José Eustáquio de Oliveira; Terezinha Lúcia de Avelar; Thais Claudia D’ Afonseca da Silva; Thiago Gomes Soares;

Umbelina Angélica Fernandes; Valéria Peres Morato Gonçalves; Vera Lúcia Alfredo e Wellington Teixeira Gomes.

Elas por elas nº 12

FILIADO À

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS

SEDE: Rua Jaime Gomes, 198 - Floresta - CEP: 31015.240 - Fone: (31) 3115 3000

Belo Horizonte - www.sinprominas.org.br

SINPRO CERP - Centro de Referência dos Professores da Rede Privada

Rua Tupinambás, 179 - Centro - CEP: 30.120-070 - BH - Fone: (31) 3274 5091

REGIONAIS:

Barbacena: Rua Baronesa Maria Rosa, 430, apto 03 - Boa Morte - CEP: 36200-015 - Fone: (32)

3331-0635; Coronel Fabriciano: Rua Moacir D’Ávila, 45 - Bairro dos Professores - CEP: 35170-

014 - Fone: (31) 3841-2098; Divinópolis: Av: Amazonas, 1.060 - Sidil - CEP: 35500-028 - Fone: (37)

3221-8488; Governador Valadares: Av. Tomaz Antônio Gonzaga, 161 - Vila Rica - CEP: 35045-450

- Fone: (33) 3271-2458; Montes Claros: Rua Januária, 672 - Centro - CEP: 39400-077 - Fone: (38)

3221-3973; Patos de Minas: Rua Agenor Maciel, 100 - sala 201 - Centro - CEP: 38700-046 - Fone:

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Sete Lagoas: Rua Vereador Pedro Maciel, 165 - Nossa Senhora das Graças - CEP: 35700-477

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3332-7494; Uberlândia: Av. Professor José Inácio de Souza, 1.744 - Brasil - CEP: 38400-732 - Fone:

(34) 3214-3566; Varginha: Rua Santos Anjos, 67 - Centro - CEP 37002-460 - Fone: (35) 3221-1831.

6 Revista Elas por Elas - maio 2022


Cansadas

O cansaço histórico sobre as costas, a

cabeça, todo o corpo. Cansaço que se

arrasta há séculos em uma sociedade

em que são quebrados espelhos, escutas,

memórias. Um cansaço ainda mais pesado,

angustiante e opressor quando recaído

sobre as mulheres negras.

Os meios de comunicação até noticiam

os dados: a violência, a desigualdade, as

barreiras, o sofrimento cotidiano vivido. De

acordo com o relatório do Fórum Brasileiro

de Segurança Pública, “Atlas da Violência”,

divulgado em agosto do último ano, a cada

10 mulheres assassinadas, 6 são negras. Se

em 2009 a taxa de mortalidade de mulheres

negras era 48,5% maior do que brancas,

em 2019, esse indicador passa a ser 65%.

Os números escancaram o genocídio,

mas só através deles não acessamos as

dores dessas mulheres arrancadas do seu

próprio existir. Elas, que nem tiveram a

chance de seguirem cansadas, se tivessem

tido a chance de gritar, o que gritariam?

Nesta edição da Revista Elas por

Elas, dedicamos algumas páginas às

vozes que em resistência e em vida ecoam

seus gritos. São fotos que fazem parte do

projeto fotográfico “Cansei”, da fotógrafa

Larissa Isis. Larissa, como mulher negra,

tece este trabalho com o olhar de quem vai

reconstruindo os espelhos que a história

racista e colonizadora insiste em quebrar.

Te convidamos a escutar cada um

desses gritos. A observar cada um desses

olhares. São gritos e olhares que certamente

te cercam: na rua, em casa, no trabalho,

nos seus espaços de diversão. Que eles não

sejam mais invisibilizados ou negados. Que

possam seguir em re(existência).

“Cansei” é um projeto fotográfico que

visa trazer à tona parte da experiência de

ser negro em uma sociedade pautada pela

democracia branca através de registros de

depoimentos protagonizados por pessoas

negras que, apesar de terem diferentes

origens, características e histórias, passam

por experiências similares.

O projeto Cansei teve sua primeira fase

voltada a mulheres negras, pois numa

escala de preferências de oportunidades,

de padrão de beleza e tantos outros, a

mulher negra sempre está em último lugar,

desta forma decidi dar voz a elas, decidi

dar voz a nós.”

Larissa Isis

[ Para conferir o ensaio completo com os depoimentos das mulheres fotografadas, acesse: larissaisis.com.br ]

Revista Elas por Elas - março 2022

7


Cansei

Adriana Vasconcellos

8 Revista Elas por Elas - maio 2022


Cansei

Beatriz Oliveira

Revista Elas por Elas - maio 2022

9


n Soraya Santos

10

Revista Elas por Elas - maio 2022


Política

por Aloísio Morais

Eleitas,

mas pouco valorizadas

Devagar, ainda muito devagarinho. E assim vai crescendo, aos poucos, a

participação das mulheres na política e no Parlamento no Brasil, 88 anos

depois de conquistarem o direito de votar e serem votadas.

Nos últimos 100 anos presenciamos,

felizmente, verdadeira reviravolta

na situação das mulheres em diferentes

campos da vida humana, em

especial sua integração no mercado

de trabalho, nas organizações sociais,

nos espaços de produção científica e

no reconhecimento de direitos por

parte de organismos internacionais

e de inúmeros governos. São lentos

os avanços institucionais, mas, após

as eleições de 2020, cresceram também

os casos de violência, assédio,

ameaças e perseguições às mulheres

que abraçaram a vida política. Certamente,

uma reação do machismo

que impera no setor, principalmente

nestes tempos de governo Bolsonaro,

um fascista indisfarçável – e que,

aliás, enquanto deputado federal foi

o autor da frase absurda proferida

contra a deputada federal Maria do

Rosário (PT/RS), em 2014 em uma

sessão da Câmara dos Deputados:

“Não te estupro porque você não

merece”. Atitudes como esta são o

retrato de uma sociedade machista,

sexista e misógena.

Ultimamente, temos visto seguidos

casos de denúncias contra

as mulheres envolvidas no ambiente

político. Um dos mais graves e marcantes,

sem dúvida, foi registrado

contra Manuela D’Ávila (PCdoB) em

Porto Alegre. Em 2021, a ex-vereadora,

ex-deputada federal e candidata

a vice-presenta da República

foi alvo de verdadeiro bombardeio

bolsonarista em suas redes sociais.

No dia 1º de junho, Manuela usou

as redes sociais para denunciar ameaças

de estupro contra sua filha de

cinco anos. O pai de uma aluna da

mesma escola onde sua filha estuda

tirou uma foto da criança e entregou

para grupos que distribuem

ódio nas redes sociais. A partir disso,

a ex-deputada começou a receber as

ameaças de estupro e de morte. “São

muitos anos de violência. Como vocês

sabem, quando Laura ainda era

Revista Elas por Elas - maio 2022

11


n Mídia Ninja

processo em que a deputada Isa

um bebê de colo foi agredida fisicamente

de desistir, todos os dias me lembro

12 Revista Elas por Elas - maio 2022

em função de uma mentira

distribuída amplamente na internet.

De lá pra cá, muitas coisas aconteceram”,

lembra Manuela (foto).

“Mas nenhuma jamais havia

envolvido sua escola e algum pai

de colega. Foi devastador lidar

com isso. Ver a imagem sendo usada

das imensas razões que temos

para continuar”, diz Manuela .

Em São Paulo, a Assembleia Legislativa

suspendeu por 180 dias

o mandato do deputado Fernando

Cury (Cidadania) ao concluir o

Penna (PSOL) o acusou de importunação

sexual, uma decisão inédita.

Em dezembro de 2020, uma câmera

de segurança flagrou o deputado

passando a mão no seio da colega

no plenário ao abraçá-la por trás,

durante a votação do orçamento do

Estado. Isa Penna comemorou a de-

por toda essa gentalha que vive

cisão como um “momento histórico

às nossas custas foi uma violência

imensa”, escreveu. “São anos

dentro da história do Parlamento

“São anos vivendo assim. paulista. Deixamos um recado para

vivendo assim. A gente mal toma A gente mal toma ar de a sociedade: a Alesp não aceitará

ar de uma agressão e vem a próxima.

Mas quando a gente respira, próxima. Mas quando aceitar assédio, seja ele moral, sexu-

uma agressão e vem a assédio. Nós, mulheres, não iremos

a gente lembra que tem um mundo

pra mudar. Que tem um genocida

no governo. Que tem mãe enterrando

filho e filho enterrando

mãe. Que tem criança trabalhando.

Se todos os dias tenho vontade

a gente respira, a gente

lembra que tem um

mundo pra mudar.

al ou psicológico.”

Já a eleição da primeira vereadora

negra da história de Curitiba, Carol

Dartora (PT), vem incomodando

a branquitude da capital paranaense.

Algumas propostas apresentadas


pela parlamentar petista com pautas

do movimento negro tem sido

barradas sistematicamente nas comissões

da Câmara Municipal. Após

denunciar as reações como racismo

estrutural, alguns vereadores passaram

a atacar Dartora (foto) nas

redes sociais e na tribuna, chegando

ao cúmulo de acusá-la de racista.

Em setembro, a visita de mulheres

negras representantes do movimento

negro aos gabinetes dos

parlamentares para pedir apoio a

projetos de interesse do movimento,

protocolados por Dartora, também

causou polêmica. Um vereador

bolsonarista chegou a usar a

tribuna para fazer falsas afirmações,

dizendo que a visita teria

sido uma invasão e realizada, não

pelas ativistas, mas pelos assessores

da vereadora, isso porque a

equipe de Carol Dartora é composta

por pessoas negras.

“Esdrúxulo é quando eu trato de

um problema social, que se chama

racismo, eu ser criminalizada e essa

tentativa de ser silenciada por vários

vereadores que estão tentando

inverter a lógica e me acusar por denunciar

um problema social, que eu

vou continuar denunciando”, disse

Dartora. Durante sua fala, ela foi interrompida

várias vezes.

O episódio mostra a dificuldade

e a resistência de alguns parlamentares

curitibanos em admitir a

existência do racismo estrutural na

terceira cidade com maior número

de células neonazistas no Brasil, segundo

a pesquisadora da Unicamp,

Adriana Dias. Curitiba também demorou

328 anos para eleger uma

mulher negra e dos seus 38 vereadores,

apenas três são negros.

Assédio na Assembleia

Eleita para o primeiro mandato em

2018, a deputada estadual Beatriz

Cerqueira (PT), ex-presidente do

SindUTE, diz com tristeza que já

sentiu na própria pele o assédio e

“Esdrúxulo é quando eu

trato de um problema

social, que se chama racismo,

eu ser criminalizada

e essa tentativa de ser silenciada

por vários vereadores

que estão tentando

inverter a lógica...

o preconceito por ser uma mulher

no parlamento, assim como já testemunhou

casos ocorridos com colegas

na Assembleia Legislativa de

Minas, onde há apenas nove mulheres

entre os 77 parlamentares.

“Os espaços de poder, incluindo

aí os espaços políticos institucionais,

são organizados para a presença dos

homens. Então, a presença das mulheres

é tratada como algo ora exótico,

ora inconveniente, mas sempre

com a ideia de que não deveríamos

permanecer ali. Então, a violência

política de gênero é cotidiana. Nossa

competência é constantemente

testada e questionada, nosso ritmo

de trabalho precisa ser maior, além

de todas as tarefas da vida privada

já assumidas em nossas famílias”,

observa Beatriz.

n Câmara Municipal de Curitiba

Revista Elas por Elas - maio 2022

13


é a deputada federal por Minas, Áurea

Beatriz ressalta que já foi questionada

públicas proferidas por deputado

14 Revista Elas por Elas - maio 2022

publicamente, o que jamais

aconteceu com um deputado. “São

tantas violências experienciadas que

aprendi a fazer um exercício com as

situações. Me pergunto, se fosse o

deputado 'fulano' o comportamento

desta pessoa seria o mesmo? Se a

resposta é não, já consigo identificar

a violência”, conclui a parlamentar.

Para a deputada, o machismo se

expressa na ideia de que mulher não

discute política, se está conversando

“é fofoca”. “Se expressa pela constante

ideia de que é preciso 'completar'

nossa fala como se ela não fosse

completa. E, nas atividades, ocorre

o enaltecimento de um modelo de

mulher, casada e com filhos, como

atestado de competência e moralidade”,

observa.

“Há, também, uma mania de nos

dar ordens, como se não fôssemos

capazes de ter nossas próprias iniciativas.

Isso vem de todos os lados,

incluindo da esquerda. O apagamento

é outra questão que infelizmente

tenho vivido. Um exemplo: sou a

única mulher a compor CPI nesta Legislativa.

Recentemente, uma entidade

fez referência à CPI da Cemig

dentro da Assembleia Legislativa”,

destaca a deputada.

Beatriz acredita que as relações

no parlamento e nos partidos reproduzem

a sociedade que vivemos, que

é patriarcal. “Não teremos mudança

nos parlamentos sem mudanças na

sociedade. Hoje, mulheres morrem

por serem mulheres, são odiadas por

serem mulheres, nossos corpos são

tratados como propriedade do Estado

ou de Igrejas fundamentalistas.

Então, a superação disso passa por

mudanças estruturais na sociedade.

Enquanto não temos a correlação

de forças para isso, no âmbito dos

parlamentos devemos ocupar os espaços,

disputar orçamento e proposições

que fortaleçam políticas públicas

que combatam a discriminação,

o feminicídio, a misoginia e a violência

política de gênero”, conclui.

Machismo federal

Outra parlamentar que também já

foi vítima de assédios e constrangimentos

provocados por seus colegas

Carolina, do Psol, após passar

pela Câmara dos Vereadores de Belo

Horizonte. “Em vários momentos da

minha trajetória como parlamentar

já sofri com comentários preconceituosos

de colegas. Com piadinhas

sexistas e machistas, comentários

sobre meu cabelo, as roupas que

eu uso, meu temperamento”, disse.

”Recentemente, durante a reunião

de uma das comissões que participo

na Câmara dos Deputados, um

colega sentou ao meu lado para falar

sobre o assunto que estávamos

discutindo e colocou a mão na minha

coxa. Imediatamente o repreendi.

Disse que ele não podia fazer

aquilo. Todas essas situações não

são comuns de acontecerem com

os homens”, disse.

“O racismo e o machismo estruturam

as relações na nossa sociedade,

impondo muitas barreiras para

a participação das mulheres na política.

Durante a campanha à Prefeitura

de Belo Horizonte, em 2020, fui

questionada se conseguiria conciliar

a maternidade com minha atuação

política. É comum que as pessoas estranhem

que mães estejam neste espaço,

principalmente quando rom-

simplesmente me excluindo, como

se eu não existisse. Isso vindo da esquerda

é ainda mais vergonhoso”, “

pemos o padrão masculino, hétero

Todas as vezes que uma e branco daqueles que sempre ocuparam

os espaços de poder”, conta.

critica Beatriz.

parlamentar sofre um

“Fui a mulher mais votada para

“Temos acompanhado com bastante

frequência, infelizmente, ca-

ataque machista, mais

deputada estadual, o que não é pouca

coisa se lembrarmos que as eleisos

de violência política e assédio

longe ficamos da possibiliade

de que mais de

ções de 2018 aconteceram após um

contra parlamentares no país, que

nós alcance a política

golpe parlamentar contra a primeira

mulher eleita presidenta do país.

te, tanto por meio das redes sociais

têm aumentado assustadoramen-

institucional e possa realizar

seus mandatos de

Você não vai encontrar nenhum registro

partidário que sequer tenha forma segura”

te do espectro político. Defendo o en-

como fora delas, independentemen-

noticiado isso! Já me mandaram calar

a boca, além de outras ofensas

frentamento da violência como urgente,

para aumentar a participação


política das mulheres. Esta é uma

causa suprapartidária, importante

para o fortalecimento da democracia

brasileira. Todas as vezes que uma

parlamentar sofre um ataque machista,

mais longe ficamos da possibilidade

de que mais de nós alcance

a política institucional e possa realizar

seus mandatos de forma segura”,

observa Áurea Carolina (foto).

Então, o que faltaria para ampliar

a participação e presença das mulheres

nas atividades parlamentar

e partidária? “Na Câmara Federal,

somos 14% do total de parlamentares,

as mulheres negras são raríssimas.

Para garantir a paridade entre

homens e mulheres nos parlamentos

pelo Brasil são fundamentais políticas

públicas que garantam mais

recursos para financiar suas campanhas,

bem como o enfrentamento

ao racismo e ao machismo que

são estruturais e também se manifestam

nos casos de violência política

contra nós, afirma.”

Para as eleições 2022, Áurea Carolina

não irá se candidatar. Segundo

ela, passar pelo puerpério em plena

pandemia, ser deputada federal, se

candidatar à prefeitura de BH e sobreviver

à Covid exigiu demais da

sua saúde emocional e ela considera

que é tempo de dar uma parada

para cuidar de si própria também.

“Desde que me disponibilizei a ser

candidata pelas Muitas, minha intenção

sempre foi dar uma contribuição

como cidadã, sem fazer disso

carreira ou um fim em si mesmo”,

escreveu em suas redes sociais. Ela

reforça que quer retomar a sua atuação

na sociedade civil brasileira.

“Por isso, decidi não me candidatar

a nenhum cargo em 2022. Cumprirei

o mandato até o fim, com alegria política

e a certeza de que mais de nós

ocuparemos cada vez mais os espaços

de poder”, afirma.

Todas estas mulheres mostram as

dificuldades e, ao mesmo tempo, a

importância de votarmos e apoiarmos

o trabalho que desenvolvem enquanto

nossas representantes nos

espaços de poder. A presidenta do

Sinpro Minas, Valéria Morato, ressalta

que “a nossa participação na

vida pública e política do país vem

crescendo gradativamente, mas enfrentamos

algumas barreiras que limitam

nossa atuação nessas esferas.

Por exemplo, a sobrecarga doméstica,

que nos exaure, é um problema

estrutural da nossa sociedade patriarcal.

Também faltam políticas

públicas que permitam às mulheres

disporem de tempo para pensar

e atuar na política, como creches

e escolas em tempo integral e

em horários alternativos para nossos

filhos e filhas. Além disso, não

há nada que justifique que a gente

receba salários menores pelas mesmas

funções. É importante lembrar

que os países que garantiram a igualdade

de oportunidades e direitos entre

mulheres e homens conseguiram

ampliar nossa atuação na vida pública

de forma significativa”, destaca

Valéria que é pré-candidata à deputada

estadual em Minas Gerais.

n Cleia Viana - Câmara dos Deputados

Revista Elas por Elas - maio 2022

15


n Mídia Ninja

16

Revista Elas por Elas - maio 2022


Artigo

Jô Moraes

Cavalo arreado nunca passa

diante das mulheres

Difícil de entender por que existem

tantos obstáculos e tão poucas

soluções para incorporar as mulheres

numa área tão importante da sociedade

humana, que é a dimensão

da política. Deveria se entender a

sociedade política como o reino do

‘universal’ onde os interesses gerais

se fariam representar. Mas nas sociedades

divididas em classe, o cotidiano

é muito diferente.

Os últimos 100 anos presenciaram

uma verdadeira reviravolta na

situação das mulheres, em diferentes

campos da vida humana: sua integração

no mercado de trabalho,

seu papel nas organizações sociais,

nos espaços de produção científica,

com a ampliação das mulheres doutoras,

no reconhecimento de direitos

por parte de organismos internacionais

e de governos.

Lamentavelmente, para a ocupação

das mulheres nos espaços de

poder a história vem mostrando o

quanto o caminho é difícil. A começar

pelas mulheres que integram a

militância dos partidos políticos. Na

última atualização feita pelo Tribunal

Superior Eleitoral, em abril de

2021, existiam 16.200.892 pessoas registradas

em partidos políticos, sendo

que a população brasileira é de

210 milhões. Destes filiados, 45,72%

são mulheres, embora elas representem

52,6% do eleitorado.

Mas o problema não está aí. O

mais grave é que, no levantamento

de 2020, as mulheres ocupavam

apenas 21% dos cargos nas executivas

partidárias nacionais. A filiação

cresceu neste período mais recente,

provavelmente como consequência

da eleição da presidenta Dilma

Rousseff. O símbolo de uma figura

feminina no principal espaço de poder

do país estimulou a participação

política das mulheres.

Depois de tantos anos de redemocratização,

quando as mulheres

tiveram um papel decisivo com o

Movimento Feminino pela Anistia,

chegamos a uma precária representação

institucional, com a eleição de

15% apenas da Câmara Federal, nas

últimas eleições.

Da conquista do voto feminino,

em 1932, para o próximo passo, que

foi a primeira lei de cotas, tornando

obrigatório um percentual de candidaturas

de mulheres, passaram-

-se 63 anos! A Lei nº 9.100, de 29 de

setembro de 1995, estabeleceu normas

para as eleições municipais do

ano seguinte, incluindo o estabelecimento

de 20%, no mínimo, das vagas

Revista Elas por Elas - maio 2022

17


de cada partido para candidaturas

de cada gênero. A ampliação para

30% veio em 1997 com a Lei nº 9.504.

Mas os partidos políticos não eram

punidos se não cumprissem a regra.

A obrigatoriedade do preenchimento

somente passou a existir com a reforma

eleitoral de 2009, que substituiu

a expressão “deverá reservar”

por “preencherá”, na Lei nº12.034.

n Mídia Ninja

Financiamento

de candidaturas

das mulheres

Chega-se ao fim de mais uma jornada

De passo em passo chegamos à regra

de reserva de, no mínimo 5%

e no máximo 15% do montante do

Fundo Partidário destinado ao financiamento

das campanhas eleitorais

para aplicação nas candidaturas

femininas, estabelecido na Lei

nº13.165 de 2015.

espaços de conquistas legais, apesar

18 Revista Elas por Elas - maio 2022 Mas a vitória só foi significativa

com a decisão do Supremo Tribunal

Federal sobre a Ação Direta de Inconstitucionalidade

– ADI 5617, questionando

as regras anteriores. A decisão

aumentou o percentual de recursos

gastos com as candidatas para, no

mínimo, 30% do total colocado à disposição

pelos partidos, variável de

acordo com a quantidade de postulantes

que disputará o pleito.

Apesar dessas conquistas legais,

poucos partidos aplicam os recursos

tendo como base um planejamento

feito pelas suas militantes, e inúmeras

são as denúncias de manobras

para usar os recursos das candidaturas

femininas com candidaturas

masculinas.

Com a presença de um governo

de intensa mobilização das mulheres,

incluindo aí a resistência das

parlamentares progressistas que

atuam no Congresso Nacional.

Na votação das mudanças eleitorais

ocorridas em 2021 houve intensa

mobilização para que fosse garantido

um percentual fixo para mulheres

nos parlamentos. Não mais cotas

de candidatas, mas, sim, cotas

de vagas reservadas para mulheres

que tivessem um percentual mínimo

de votos. A proposta já tinha

sido votada em 2015 e foi derrotada

por apenas 15 votos.

Apesar de toda mobilização, a

maioria conservadora do Congresso,

em relação às demandas das mulheres,

só cedeu em contar em dobro

os votos recebidos pelas candidatas

de luta pela incorporação de

mais mulheres na política com uma

significativa conquista: a aprovação

e sanção da Lei 14.192/21, que estabelece

normas para prevenir, reprimir

e combater a violência política

contra a mulher durante as eleições

e no exercício de direitos políticos

e de funções públicas.

para fins de cálculo para o fun-

Q

de orientação conservadora, o período

recente viu restringirem-se os do partidário.

ex-deputada federal do PcdoB/MG,

Jô Moraes

feminista


Cansei

Camila Fonseca

Revista Elas por Elas - maio 2022

19


n Cícero Pedrosa Neto

20

Revista Elas por Elas - dezembro 2021


Realidade

por Nanci Alves

Profissionais do sexo

lutam pela sobrevivência

O preconceito e a falta de políticas públicas agravados com o

desemprego e o medo da contaminação pelo coronavírus

Fal Medeiros está escrevendo

um livro sobre sua vida e a prostituição.

Ainda não sabe como e

quando irá publicá-lo, mas já dá pra

saber que este não será um desafio

muito complicado para ela que está

acostumada, desde cedo, a lutar

pela vida e pelos direitos - seus e

de outras mulheres. Fal é coordenadora

geral da APROSBA, Associação

de Profissionais do Sexo da Bahia

(@aprosba), que ajudou a fundar

na década de 1990 e também uma

das fundadoras, em 2016, da Articulação

Nacional de Profissionais

do Sexo, ANPROSEX.

Esta parte da sua história começou

em meados de 1990, quando foi

feita a revitalização do centro histórico

de Salvador. Segundo Fal, tentaram,

de todas as formas, expulsar

da rua as trabalhadoras do sexo. “Os

políticos queriam higienização, limpeza

moral para a sociedade, falando

que iam reformar o Pelourinho.

Foi muita luta nossa contra as arbitrariedades,

assédio moral, violência

física, prisões. Eu batalhava no centro

e outras mulheres na Praça da Sé

- que faz parte do Pelourinho. Várias

mulheres acima de 60 anos, sem saber

o que fazer da vida - para onde

elas iam? Vi que elas iriam morrer.

Qual boate iria aceitar essas mulheres?

O centro histórico de Salvador

é o primeiro centro de prostituição

do Brasil. Como queriam agora tirar

as trabalhadoras do sexo de lá? A polícia

mandava as mulheres circularem

para não irem presas. Eu batalhava

num barzinho, para onde algumas

foram, outras disseram que

não iam sair da rua e foram presas.

Isso foi acontecendo e me incomodando

muito”, conta.

Com 26 anos de idade e se vendo

numa situação assustadora, Fal resolveu

unir as mulheres para a luta.

Revista Elas por Elas - maio 2022

21


Quando a mediadora da mesa leu,

foi uma surpresa e uma comoção.

Todas olharam para trás querendo

saber quem tinha escrito aquilo. Nós

também nos viramos, fingindo não

sermos nós, pois o estigma era enorme

por sermos vistas como vadias. Mas,

de repente, uma juíza disse que

iria nos ajudar. Então, eu criei uma

coragem tão grande e falei que era a

gente. Eu me tremi toda, segurando

no microfone, porque lá só tinham

doutoras, estudantes. Falei tudo que

estávamos sofrendo. A gente se sentiu

segura naquele momento. E tive a

certeza que a partir dali, ninguém

mais me segurava. Se sofrendo eu

lutei, imagine apoiada! Voltei radiante

deste encontro. Fomos atrás da juíza,

depois fomos atrás de outros grupos,

instituições, ONGs e, daí por diante,

a gente nunca mais parou. Isso em

1996 e, em 98, a gente registrou a

associação”, explica.

Na época, ela chegou a ser presa 10 que era inacreditável que numa vasta

vezes por vadiagem - crime que só programação pela passagem do Dia

Os reflexos da

pandemia

saiu do código civil em 2002. “Sabendo

que já existiam associações em alguns

estados do Brasil, começamos a nos

organizar, porque a luta sozinha não

dá, não temos ninguém que fale por

nós’. Começamos com um grupo, mesmo

sem nome, e fomos participando

de eventos, para interagir com outras

Internacional da Mulher se falavam

de todas as mulheres, menos de nós,

de nossas questões. Também somos

consumidoras, eleitoras, como todas.

Desde o início, as dificuldades e a

luta nunca cessaram. Porém, Fal

destaca que os tempos de pandemia

da Covid-19 são os piores vividos

em sua vida. “Já enfrentamos

a violência policial, de segmentos

da sociedade que tentam nos destruir,

inclusive religiosos nos con-

pessoas, feministas, gays, ONGs como

o GAPA etc”, conta. E foi num evento

denando, mas nunca pensei em passar

um momento tão pesado como

“Se sofrendo

do dia 8 de março que Fal Medeiros

(foto) ajudou a mudar esta história.

eu lutei,

o da pandemia”, revela.

Estavam em três profissionais do

imagine

Com o isolamento social e com

sexo e, com vergonha de dizer o que

apoiada!"

o desemprego, a situação das trabalhadoras

eram, ficaram caladas assistindo tudo

durante 3 dias. No final, indignadas,

escreveram uma carta para a mesa

organizadora do evento. “Falamos

do sexo se agravou ra-

pidamente. “Mulheres que nunca

imaginei que fossem parar na rua,

hoje estão lá, pois o aluguel, as contas

n Daniele Rodrigues


de água e luz já estavam pendentes

há meses. Muitos bordéis fecharam,

clientes sumiram, porque ficaram

desempregados, muitas casas de

prostituição vazias. Faço reuniões

com algumas mulheres para entrega

de cesta básica e a realidade, durante

o isolamento social, é a mesma para

todas – antes da pandemia, faziam

5 programas por dia, agora levam 5

dias para conseguir um programa”,

diz. A APROSBA atende mais de duas

mil trabalhadoras do sexo de Salvador,

região metropolitana e algumas

cidades do interior. A Associação conseguiu

cadastrar poucas mulheres

em algum auxílio emergencial: “Está

muito difícil. As autoridades, inclusive

de Salvador, não fizeram nada,

nenhuma política pública, como já

aconteceu no passado”.

As associações de trabalhadoras

do sexo em todo país têm se apoiado

na Articulação Nacional de Profissionais

do Sexo (ANPROSEX), na

Rede Brasileira de Prostitutas (RBP)

e na Central Única das Trabalhadoras

e Trabalhadores Sexuais (Cuts).

“Estas 3 redes, unidas, pediram ao

Ministério da Saúde para que fôssemos

incluídas na prioridade para

a vacinação contra a Covid-19, já

que trabalhamos com o corpo. Nunca

houve resposta e nem nenhum

tipo de ajuda. Só não ficamos totalmente

a mercê, porque temos parcerias

com instituições, coletivos,

universidades e ONGs e, assim, temos

conseguido material de higiene

e cestas básicas para muitas dessas

mulheres em situação de sofrimento”,

conta. Segundo ela, durante a

pandemia, as mulheres têm usado o

serviço do Pop Rua, instituição que

cuida da população em situação de

{ Trabalhadoras sexuais e militantes Izete, Fal e Lúcia

rua, porque muitas trabalhadoras

sexuais passaram a viver esta realidade.

Lá, elas têm acesso a banheiro,

roupa e algumas passam a noite

nos albergues.

Como coordenadora da APROS-

BA, Fal vai a campo todos os dias

pedir apoio a parceiros da Associação,

socorrer as mulheres e participar

de reunião presencial na sede

da APROSBA (prédio cedido, parceria

com Movimento Libertação

da Mulher da Igreja Católica). Com

esta rotina, se contaminou duas vezes

pelo coronavírus. “Da primeira,

no início da pandemia, fiquei muito

ruim, mas em casa. A vizinha deixava

remédio no quintal pra mim.

Em outubro, me contaminei novamente.

Lutamos muito pela vacina,

mas só consegui quando chegou a

vez da minha idade. Minha grande

preocupação é com estas novas variantes

da Covid-19. Eu me cuido,

uso máscara, álcool, distanciamento,

mas preciso sair para ajudar essas

mulheres. Umas precisam fazer

cirurgia, outras com problemas

psicológicos. Formamos um grupo

de psicólogos voluntários que nos

atendem virtualmente. Eu também

faço, porque fiquei muito deprimida.

Minha preocupação é com o

futuro, mas o presente já está impossível:

sem clientes, sem dinheiro

e os boletos continuam chegando.

Este país precisa mudar, voltar

a ter trabalho para todo mundo e

acabar com a hipocrisia do conservadorismo,

com o discurso de ódio

n Daniele Rodrigues

Revista Elas por Elas - maio 2022

23


e de morte, gente de igrejas fazendo

arminha. Nós, trabalhadoras do

sexo, sofremos violência frequentemente,

inclusive destes fundamentalistas.

Alguns vão para a porta dos

hotéis gritar que estamos vivendo

a pandemia por causa do pecado.

Hipócritas, leem a Bíblia, mas não

seguem os ensinamentos de Jesus.”

Em defesa dos direitos

Em Belo Horizonte (MG), a rotina

dos hotéis era de 300 clientes por

dia, até início de 2020. Mesmo depois

das ondas roxa e vermelha,

este número não alcança 50. “Muitas

empresas fecharam, aumentando

o desemprego que, por um lado,

reduziu o número de clientes e, por

outro, aumentou o de mulheres na

prostituição”, afirma Cida Vieira

(foto), diretora geral da Associação

das Prostitutas de Minas Gerais,

APROSMIG (@aprosmig). Com a redução

da flexibilização, muitos hotéis

tiveram que parar suas atividades

por muito tempo. “As mulheres

tiveram que batalhar nas ruas e, assim,

isoladas, ficaram mais vulneráveis,

não só em relação à pandemia,

mas também à violência. Especialmente

para a mulher trans, o estigma

e preconceito são ainda piores. Estamos

todas com a saúde mental abalada

pelo isolamento, perda de entes

queridos em função da covid-19,

falta de dinheiro, de perspectiva. A

n Mídia Ninja

fome não espera. Faltam políticas

públicas e que contemplem a diversidade.

Estamos sempre às margens.

Até para nos manter vivas, temos

que brigar muito”, desabafa.

Em Minas, pelos dados estatísticos

antigos que a APROSMIG levantou,

são 80 mil mulheres (cis e trans)

na prostituição. Mas, atualmente,

e principalmente depois da pandemia,

a Associação acredita que este

número seja bem maior. “Sabemos

que muitas morreram ao longo dos

anos, mas surgiram novas mulheres

no ramo. Porém, muitas não se

identificam como tal, outras fazem

ponto em ruas, bares que não temos

conhecimento. Precisamos saber como

estão essas mulheres, inclusive as

novatas, para ajudá-las. Em Minas,

contamos com algumas instituições

apoiadoras. Em BH, temos a ajuda

da Casa de Passagem, parceria com

o Clã das Lobas, que é muito importante,

principalmente nestes tempos

de pandemia. Quando os hotéis

fecharam, por causa da onda roxa,

as mulheres que não têm família

ou são do interior foram acolhidas

neste espaço. A nossa maior luta hoje

é pelo direito à aposentadoria com

um tempo específico de trabalho.

Precisamos de uma legislação que leve

em consideração o tipo de atividade

que fazemos, as especificidades da

profissão, a insalubridade dos locais

de trabalho, os riscos que corremos”,

explica Cida. Apesar da atividade

profissional ser oficializada desde

2002 pelo Ministério do Trabalho, em

sua Classificação Brasileira de Ocupações

(item 5198), ela ainda não foi

regulamentada. “Precisamos resgatar

os antigos projetos dos ex-deputados

federais Fernando Gabeira (PV-RJ),

24

Revista Elas por Elas - maio 2022


de 2003, e de Jean Wyllys (PSOL-RJ),

em 2012, que foram arquivados na

Câmara - ambos visavam regularizar

a profissão das prostitutas”, ressalta.

O projeto do Jean foi batizado de Lei

Grabriela Leite, uma das primeiras

mulheres na luta pelos direitos das

profissionais do sexo no Brasil.

n Cícero Pedrosa Neto

A sororidade essencial

A realidade da mulher trabalhadora

do sexo é a mesma em todo o país.

De acordo Diana Soares, presidenta

da Associação das Profissionais

do Sexo do Rio Grande do Norte, AS-

PRORN (facebook.com/geni.asprorn),

a pandemia tem sido pior do que o

vírus HIV, pois a forma de contágio

do coronavírus é bem mais complicada

de se combater, por estar no ar.

Ela conta que no início do isolamento

social, a qualquer espirro, os

donos de hotéis, onde as meninas

moravam, as mandavam embora

pra suas casas. “Assim, eu tive que

abrigar em minha própria casa,

duas mulheres que não tinham para

onde ir. Não podia deixá-las na rua.

Isolei cada uma delas e pedi ajuda

para a rede nacional. Todo mundo

com muito medo, mas eu fui cuidando

com todos os protocolos de

segurança e minha filha me ajudando.

Depois, com apoio, conseguimos

alugar alguns espaços para as que

estavam bem e não tinham onde ficar

neste período”, diz.

Sororidade não faltou entre as

trabalhadoras do sexo no Rio Grande

do Norte. Segundo Diana, quando

uma mulher faz um programa, ajuda a

colega que não conseguiu. No Estado,

são mais de mil trabalhadoras do sexo

associadas, sendo 500 só em Natal.

Revista Elas por Elas - maio 2022

25


tudo fechado: secretarias, câmara,

Mas a Associação também não consegue

fazer contato com todas, porque

sem trabalho, ficaram sem internet e

sem telefone. Para aquelas que ainda

podem contar com esta ferramenta,

a ASPRORN conseguiu fazer um

grupo no WhatsApp. São 60 mulheres,

umas têm comorbidades, mas todas

precisam de ajuda financeira e tem

mulher que precisa até de cadeira

de rodas.

Diane Soares (foto) lembra que

quando as casas reabriram, o movimento

caiu muito. “Muitos clientes

idosos não voltaram – uns com medo e

outros que já deviam ter morrido mesmo.

A gente toma todos os cuidados,

mas claro que é sempre um risco, pois

ficamos muito vulneráveis. A gente

não pode adoecer, pois a maioria das

mulheres têm filhos, família para sustentar.

Tem cliente que não acredita

que pode ficar doente e não usa máscara

e ainda diz: ‘Não tô doente. Se

tivesse, não tinha tesão’. Mas não pensa

que ele ou a gente mesmo, pode

ter pego o vírus naquele dia”.

Fazer trabalho de campo, visitando

as mulheres, em plena pandemia

é como estar numa guerra.

“Muito sofrido tudo. Não temos a

quem recorrer. Nos períodos piores,

nem carro para fazer as visitas

a gente consegue, porque fica

ONGs etc. Algumas mulheres ficaram

grávidas por falta de preservativos,

pois bordéis fechados e a

gente não tinha como ir até elas. Outras

sofrendo a violência do tráfico

- usam a droga como suporte para

trabalhar. Uma situação dramática

e num momento em que eu estava já

sofrendo muito, pois tinha perdido

meu irmão mais velho pouco antes

da pandemia. Ele era meu apoio em

tudo, inclusive financeiro. Tive que

levantar a cabeça e ver que a dor

ao meu redor era maior do que a

minha e que poderia ser pior se a

gente não segurasse na mão uma

da outra. Busquei ajuda para elas e

pra mim. Adoeci de tanto segurar a

onda. Mas, depois, as universidades

foram abrindo para nos ajudar, com

apoio psicológico e isso tem sido

fundamental”, diz.

Diana conta que seu sonho é se

aposentar – o que também está difícil.

“A gente tem orientado as meninas

para contribuírem para o INSS

como microempreendedoras para

não passarem pelo que nós, mais velhas,

estamos passando. Não tenho

direito nem ao Benefício de Prestação

Continuada (BPC). Antes era

aos 60 anos, mas este atual governo

passou para 65 anos. Acabou com a

gente. Na verdade, nós não somos

amparadas por lei trabalhista e nem

a própria Lei Maria da Penha no

trabalho. Ela só vale se o homem

for companheiro ou familiar, se for

cliente o problema é na delegacia

comum e a gente ainda sofre mais

humilhação: ‘você apanhou porque

é puta’. Também pagamos impostos,

mas não temos segurança e nem

direitos. Até quando?”, pergunta.

n Mídia Ninja


Valorizando a terceira idade

Aos 80 anos de idade, a paraibana

Lourdes Barreto (foto), prostituta

desde os 16 anos, segue na

luta pelos direitos, pelo respeito e

pelo fim do preconceito da sociedade

sobre a sua profissão. Ela, ao

lado da já falecida Gabriela Leite,

fundou a Rede Brasileira de Prostitutas

– a primeira da América

Latina. “O lançamento foi no Rio

de Janeiro, em 1987. Eu conheci a

Gabriela, em 1981, por meio dos

encontros nacionais da Pastoral

da Mulher Marginalizada e fomos

nos fortalecendo e nos organizando

até que nasceu a Rede. O

trabalho das religiosas foi fundamental,

pois elas nos alertavam

sobre a importância da nossa autonomia

e organização”, lembra

Lourdes Barreto que vive desde

1957 no Estado do Pará.

Mãe de 4 filhos, com 10 netos

e 8 bisnetos, Lourdes Barreto,

uma das vozes mais potentes do

movimento de prostitutas brasileiro,

tem muita história de vida

e muitas conquistas para contar.

“Fui uma das primeiras pessoas

a lutar contra a Aids no Brasil,

já fui conselheira nacional

e estadual dos Direitos da Mulher,

hoje sou conselheira municipal

do Conselho da Saúde e

muitas outras ações dentro e fora

do movimento. A gente tem que

conquistar nossos espaços e reafirmar

sempre nossa profissão,

porque a sociedade é preconceituosa.

Sempre somos lembradas

pelos pesquisadores/as em suas teses

de doutorado, mas a realidade

ainda não mudou em nada”, afirma

Lourdes.

Hoje, uma das preocupações de

Lourdes Barreto, que é uma das coordenadoras

do Grupo de Mulheres

Prostitutas do Estado do Pará, GEM-

PAC (facebook.com/gempacpa/), é a

sexualidade na terceira idade. “Eu

sou bem resolvida com a minha sexualidade

e tenho minha vida também

organizada, mas temos muitas

mulheres na prostituição que passam

por sérias dificuldades, agravadas

com a crise sanitária. As mulheres

com mais de 60 anos foram as mais

prejudicadas com o isolamento social

e o risco de contaminação”, afirma.

Com o olhar atencioso para a

terceira idade, começou um projeto

cultural com o apoio de uma

pesquisadora e professora de dança.

Trata-se do Grupo Saindo das

Brenhas para Cantar e Dançar. “Somos

12 mulheres e a mais jovem

tem 60 anos. A professora Carol nos

deu apoio técnico por meio do seu

projeto de doutorado e a gente realmente

sai para as ruas, inclusive

na pandemia, seguindo os protocolos

e distanciamento, para expressar

com arte tudo que sempre esteve

preso com a gente. Temos figurino,

putas que cantam bem e muita alegria

em fazer as apresentações. Uma

coisa que tem dado certo dentro do

movimento e tem gerado um pouco

de grana para as mulheres, com as

contribuições voluntárias do povo

na rua. Nossa ideia é valorizar esta

mulher e dizer que a terceira idade

não pode ficar excluída. Eu sei que a

luta é para o movimento. Eu não verei

nossa profissão regulamentada e

nem uma sociedade menos preconceituosa,

com relações mais humanitárias

e um país onde todos e todas

tenham direito de ir e vir e de trabalhar

como quiserem. Mas a luta

segue todo dia”, finaliza.

Serviço:

Rede Brasileira de Prostitutas:

@redebrasileiradeprostitutas

Central Única das Trabalhadoras

e Trabalhadores Sexuais (Cuts).

facebook.com/CUTSBR/

Associação Nacional de Profissionais

do Sexo: @anprosex

Revista Elas por Elas - maio 2022

27


Cansei

Christiane Silva Pinto

28

Revista Elas por Elas - maio 2022


Cansei

Elaine Justino (in memoriam)

e Ana Lívia Justino

Revista Elas por Elas - maio 2022

29


n Cristina Granato

30

Revista Elas por Elas - maio 2022


Cultura

por Nanci Alves

Arte, semente

em defesa

da vida

Em tempos difíceis, a arte mostra suas múltiplas funções e se fortalece

A vida precisa e muito de arte!

Essa é uma das verdades que a pandemia

do coronavírus escancarou

para o mundo, além da importância

da Ciência e do crescimento das

desigualdades e injustiças sociais. Se

no momento de alegria, a arte é uma

presença certeira seja pela música,

dança, fotografia etc, nos momentos

difíceis, como estamos todos vivendo

desde março de 2020, a arte se faz

ainda mais necessária, inclusive

para manter nossa sanidade mental.

E o/a artista, um dos/as primeiros/

as trabalhadores/as a ser atingido/a

pelas medidas do isolamento social,

conseguiu ultrapassar barreiras e

levar, mesmo que de forma virtual,

aconchego, alegria, esperança e um

pouco de ar para todos/as nós que,

dentro de nossas grades e máscaras,

ansiávamos por este respiro.

Incontáveis artistas realizaram

lives, em suas redes sociais, também

para arrecadar recursos em

prol dos/as mais necessitados/as.

Eles/as colocaram sua arte em defesa

da vida e nos possibilitaram conhecer

os bastidores: a luta para

continuar o trabalho, a falta de políticas

públicas e a criatividade pulsando,

mesmo em situação de vulnerabilidade.

A arte foi fundamental

para denunciar atitudes de governantes

e pessoas negacionistas que

atrapalham o processo de controle

da pandemia, além de ter atuado

seriamente no combate a fakenews

ao mesmo tempo que nos mostra a

Revista Elas por Elas - março 2022

31


do Fundo Setorial do Audiovisual

importância de defendermos o nosso

Sistema Único de Saúde, tão precarizado

por este governo, assim como

valorizarmos a vacina e a vida.

Mas mesmo com toda atuação

e importância da arte, o/a artista

foi drasticamente afetado/a no

contexto da crise sanitária. Com

o fechamento dos espaços culturais,

ficou sem recursos para

sua sobrevivência e a situação só

melhorou um pouco quando veio

a Lei Aldir Blanc, cujo projeto foi

iniciativa da deputada Benidita da

Silva (PT). A lei homenageia o músico

Aldir Blanc, um dos primeiros

artistas mortos pela covid-19 (maio

de 2020). De caráter emergencial,

ela destinou, por poucos meses,

o dinheiro retido no FNC (Fundo

Nacional de Cultura) para o auxílio

artistas que não tinham vínculo

empregatício. A LAB, por meio de

editais, possibilitou também a todos/as

nós acessarmos uma diversidade

de trabalhos artísticos em

todas as áreas, por todo o país.

A luta atual da categoria é pela

derrubada do veto presidencial,

pelo Congresso, à Lei Paulo Gustavo

(nome em homenagem ao

ator que faleceu vítima de Covid

19, em maio de 2021). Esta prevê o

repasse de R$3,8 bilhões do FNC e

(FSA) para o setor cultural.

Na avaliação de Ione Amaral,

membro do Conselho Estadual da

Cultura de Minas Gerais, a Lei Paulo

Gustavo é importante porque vai garantir

que o superávit financeiro do

FNC seja usado em ações emergenciais

para a cultura, e não para amortização

da dívida pública como autoriza

a PEC emergencial 109/2021.

“O recurso precisa ser investido na

própria cultura, no apoio aos artistas

e na produção cultural. Esta lei traz

avanços em relação à LAB como, por

exemplo, previsão de ações que estimulem

a participação e o protagonismo

das minorias com promoção

da igualdade de gênero, raça e classe

de acordo com a realidade local

de cada território”, afirma. Mais informações

sobre a Lei PG no https://

linktr.ee/leipaulogustavo

Lei Aldir Blanc

A demora em surgir uma política

pública em benefício dos/as artistas

mostrou a fragilidade econômica

que o setor cultural enfrenta. “A

Lei Aldir Blanc (LAB) só veio no segundo

semestre de 2020, mas, felizmente

alcançou muitos artistas”,

avalia a poetisa e cordelista de Alagoinha

do Piauí (PI), Regivalda de

Souza (foto). “O recurso que recebi

da LAB me permitiu publicar, em setembro

passado, o livro “O Vale das

Flores”, conto autoral que aborda a

pluralidade feminina e temas sociais

que fazem parte deste universo. Eu

me sinto feliz pela possibilidade de

publicar um novo livro, mas a realidade

continua sendo um espectro

que assusta”, afirma.

n Rocílio Ribeiro Rocha


n Enzo Macieira

Trabalhando com literatura desde

2014, Regivalda diz que escrever

é uma forma de resistência diante

da carência de políticas públicas

que deixa os/as artistas, principalmente

aqueles/as que, como ela,

atuam no interior do país, sozinhos/

as no desenvolvimento de práticas

que são relevantes para a sociedade”,

desabafa.

Em 2020, com a pandemia, Regivalda

teve que adiar vários projetos.

E como saraus e demais eventos

culturais já não podiam acontecer,

dificultou a comercialização do

produto final do seu trabalho: os

livros. Porém, a crise sanitária

trouxe também coisas novas. “As

redes sociais atuaram com uma

luz no fim do túnel e permitiram

a aproximação de diálogos com

outros escritores e artistas plásticos

da região: o que originou a ALVAR,

Academia de Letras do Vale do

Riachão, formada por seis cidades

do Piauí (São Julião, Alagoinha do

Piauí, Monsenhor Hipólito, Francisco

Santos, Santo Antônio de Lisboa

e Bocaina). Nascida como um grupo

de WhatsApp, acabou sendo regulamentada

como uma Academia de

Letras e visa fomentar a produção

cultural e artística da região. Com

este projeto, nos fortalecemos

enquanto artistas e vamos buscar

a união com poder público destas

cidades”, conta ao destacar a

importância da escola nos tempos

de pandemia. “A escola sempre foi

espaço de acolhimento da cultura

local e de debate. E com a aula

remota, os/as professores/as, que

também tiveram que se reinventar,

ampliaram este laço com a arte e

pudemos participar de muitas lives

com alunos/as. Queremos, cada vez

mais, fortalecer este vínculo entre

escola e arte”, diz.

A união de artistas, a partir do

isolamento social, também foi um

fato inédito na cidade mineira de

Revista Elas por Elas - maio 2022

33


n Dany Dhen

e a produção de um material com

as demandas dos/as artistas enviado

para a prefeitura. “Estou na cidade

há 40 anos e foi o primeiro movimento

forte de união dos artistas.

O Fórum hoje tem mais de 120 artistas

de todas as áreas. Passamos a

conhecer mais um ao outro e a pensar

juntos/as para a luta em defesa

da arte e da cultura. Sozinho/a ninguém

faz nada. Este foi pra todos/as

nós o grande aprendizado da Lei Aldir

Blanc”, afirma.

Lagoa Santa. A partir da iniciativa

do então vereador Artileu Bonfim,

um grupo de artistas se uniu, em julho

de 2020, para entender a lei Aldir

Blanc e cobrar agilidade da prefeitura

em colocá-la na prática. “A

lei precisava ser aplicada urgentemente,

pois os artistas estavam passando

grande aperto financeiro. Fizemos

uma mobilização rápida e o

Artileu criou o Fórum da Cultura de

Lagoa Santa, de forma virtual. Assim,

foi feita a capacitação sobre a

lei e a ajuda aos/às artistas para o

cadastro no município para receberem

o auxílio emergencial e entrar

nos editais lançado pela LAB”, conta

a professora universitária e artista

multimídia, Cássia Macieira. Ela revela

que o grupo foi se fortalecendo

e, mesmo que ainda esteja existindo

de forma virtual (WhatsApp e @forumdaculturals),

muita coisa já foi

feita como eleger um membro para

o Conselho Municipal de Cultura

representando os artistas da cidade,

“Muitos/as são casados/

as com artistas também

e isso tornou a situação

mais preocupante. A lei

Aldir Blanc demorou e

quando saiu, muitos já

estavam endividados”

Busca de alternativas

A cantora, violonista, compositora e

professora particular de música Ana

Carla Almeida faz parte do Fórum

dos Artistas de Lagoa Santa e diz que

foi um alívio poder contar com este

apoio. Em março de 2020, sua vida

estava toda organizada como ela e

o marido, Lucas Silva, planejaram

com muito carinho e cuidado. Com

um filho de 3 anos, o Luan, o casal se

preparava para receber Luara Elis,

em abril de 2020. Assim, Ana Carla

deixaria a profissão, por 4 meses,

para cuidar do bebê e, a partir de

setembro, poderia retornar com sua

música aos bares, casamentos, festas

e demais eventos já agendados. Mas,

a realidade da pandemia mudou sua

vida de cabeça pra baixo. Além de

não poder retornar ao trabalho no

tempo imaginado, seu marido teve

redução de salário. “Consegui o auxílio

emergencial da LAB que ajudou

um pouco, mas era bem menos do

que recebia trabalhando com minha

arte. Depois, sem o auxílio, a situação

complicou e eu resolvi trabalhar com

algo que nunca tinha feito - produzir

e vender doces. Tive que aprender a

34

Revista Elas por Elas - maio 2022


fazer um bom produto, planilha de

compras, conquistar clientela, me

preocupar com a entrega etc. Foi

muita embolação e eu ia gastando

na medida que recebia e, às vezes,

não sobrava para comprar mais

materiais”, afirma. Assim, o novo

empreendimento durou apenas seis

meses. Ana Carla (foto) conta ainda

que fez poucas participações em lives

e não entrou em edital da LAB por

não ter espaço físico e condições

apropriadas já que era tudo dentro

de casa, com duas crianças pequenas

que também não podiam ir para a

creche. “Música demanda espaço

para compor, ambiente tranquilo

para estudar, criar, gravar e não

tive isso. As coisas começaram a

mudar só no final de agosto de 2021,

quando fiz o primeiro trabalho em

bar desde o início da pandemia. Esta

área foi muito afetada e eu imagino

a dificuldade das mães solteiras que

também vivem da arte”, afirma.

n Josiane Soares

A força do sindicato

Assim que começou a quarentena, o

Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos

em Espetáculos de Diversões

de Minas Gerais) lançou campanha

para arrecadar recursos em benefício

dos/as artistas, técnicos e produtores/as

culturais. “Muitos/as são casados/as

com artistas também e isso

tornou a situação mais preocupante.

A lei Aldir Blanc demorou e quando

saiu, muitos já estavam endividados”,

afirma a presidenta do Sated,

Magdalena Rodrigues.

Uma das grandes preocupações

do sindicato foi com o artista circense.

Em Minas Gerais, foram 70 circos

parados em várias cidades. “Um

Revista Elas por Elas - maio 2022

35


a covid-19. Em termos de casas de

espetáculos, as apresentações estão

voltando aos poucos. “Acredito que

o período de pandemia conseguiu

sensibilizar a sociedade sobre o que

são as profissões de artistas e técnicos,

que sempre padeceram de certa

incompreensão sobre a sua natureza.

A atividade artística gera emprego,

renda e impostos, estimula o turismo.

Porém, carece de políticas

de apoio e desenvolvimento como

qualquer atividade econômica. Somos

trabalhadores/as! Os governos

devem promover políticas de Estado

reais e efetivas para a área artística

e cultural como propõem as

recomendações da UNESCO acerca

da arte, da cultura e dos artistas”.

O palco virtual

{ O Tempo e os Conways, de J. Priestley. Direção Wilson de Oliveira. (2005)

Wolney Oliveira, Magdalena Rodrigues e Juliana Ramos

No Rio de Janeiro, a atriz e professora

caos, pois sabemos que, no circo, o

ingresso de hoje é para comprar o

almoço de amanhã. E, em geral, as

famílias são grandes, gente de todas

as idades, enfermos etc. Com o circo

fechado, muitos precisaram vender

material de trabalho para poder sobreviver,

pois o/a circense não tem

comprovação de endereço - exigida

pelas prefeituras para cadastramento

para destinação de doação

de cestas básicas. Muitos destes circos,

mesmo parados tiveram que seguir

pagando aluguel do lote/espaço,

luz, água. A diretoria de Circo do

Sated articulou com várias prefeituras

conseguindo solução para alguns

dos casos. Com campanhas e

apoio de pessoas e instituições, levamos

cestas básicas, medicamentos,

material de higiene etc”, conta.

Não podemos sobreviver se o

próprio poder público não reconhecer

que somos trabalhadores/

as. Sou atriz há 43 anos e nunca vi

um governo que realmente fizesse

uma política efetiva de Estado para

a área artística e cultural. Precisamos

mudar essa visão. Todo mundo

se sente usuários do transporte,

da educação, da saúde, segurança,

de tudo, mas não se sente usuário

das políticas públicas de arte e cultura.

O mundo não existe sem arte -

nossa forma de nascer, crescer, namorar,

festejar, casar etc. Faz parte

da vida de todo mundo”, destaca.

Em setembro de 2021, alguns

destes circos começaram a retomar

as atividades, mesmo que com público

menor, respeitando também

os protocolos de segurança contra

de arte Cyda Moreno estava

estreando uma peça em 13/03/ 2020,

quando saiu o decreto fechando casas

de espetáculo, bares etc. Assim, foi

apenas uma única apresentação de

“Eu Amarelo”, no qual interpreta a

escritora Carolina Maria de Jesus.

“Tínhamos estreado em 2018, no Rio,

e, em 2019, em São Paulo. Mas o meu

sonho era fazer para a comunidade

negra do Rio, num espaço que é

sede dos coletivos pretos - o Terreiro

Contemporâneo. Passamos mais de

um mês trabalhando na preparação

com ensaios, divulgação, mas, infelizmente,

só fizemos um espetáculo

e empacotamos tudo,” conta.

Cyda Moreno considera que todo

artista teve que se reinventar nestes

tempos de pandemia. “Saímos dos

palcos e fomos para vídeos e o espaço

virtual, experimentando várias

n Guto Muniz


linguagens e formatos. O primeiro

vídeo que gravei foi para o canal

CULTNE, um canal de acervo das

produções da comunidade negra.

Gravei um poema de Carolina de

Jesus e, na sequência, dava dicas de

programas culturais que eu estava

desenvolvendo para ocupar o tempo

e abstrair aquela situação. Dirigi

uma performance teatral sobre a

morte do menino Miguel, em Recife,

fiz inúmeras lives, fizemos uma

versão de Carolina para a internet

e apresentamos pelo projeto Sesc

em casa. Gravei também um vídeo

cantando uma música de Carolina e

ele foi parar no jornal da Globo de

Nova York. Além disso, aproveitei

também o meu tempo para entrar

no doutorado, na UNI Rio”, diz.

E foi com a chegada da Lei Aldir

Blanc que Cyda Moreno conseguiu

voltar aos palcos, após o início da

vacinação. “O Aldir se foi e recebemos

esta dádiva em sua memória.

Entrei no edital e recebemos R$50

mil para produzir a peça teatral

Luiza Mahin. Fiz milagre com o

dinheiro. Reuni uma equipe de 12

pessoas, de amigos dos sonhos, e

ficamos 3 meses em cartaz até 31

de julho passado, presencialmente

(apenas 40 lugares) e on-line. Não foi

fácil, mas foi maravilhoso, porque

o que queremos mesmo é estar no

palco. O espetáculo pra mim é como

uma missão. Trazer a história desta

mulher invisibilizada pelo racismo

e falar da dor das mães negras, que

continuam perdendo seus filhos,

foi muita emoção”, afirma Cyda

ao ressaltar que nada poderá calar

o/a artista. Na avaliação da atriz,

o teatro pós-pandemia será um

recomeçar das cinzas, “pois não

{ Taís Alves, Márcia do Valle, Cyda Moreno, Regina Café, Márcia Santos, e Jonathan Fontella.

será fácil tirar as pessoas de casa.

Mas, por outro lado, não acredito

que o modelo virtual terá vida muito

longa, porque nada substitui o ator,

a atriz no palco, a energia da plateia.

A arte salva, é cura!”, finaliza.

“a arte tem o poder de

ajudar o ser humano a

encontrar-se a si mesmo,

superar e conseguir

conviver com problemas

emocionais que vão

surgindo em virtude da

realidade.

A arte como cura

Em tempos de guerra, catástrofes

e pandemias, além de diversão,

denúncia e alento, a arte se

apresenta também como a possibilidade

de ser um ponto de

equilíbrio e força para continuar.

Nestes últimos tempos, foi comum

vermos entre amigos, familiares

e até nas redes sociais, pessoas

não artistas partilharem seus primeiros

desenhos, cantos, pinturas,

fotografias etc. Para a cordelista

Regivalda de Souza, com a

pandemia, ficou ainda mais claro

que “a arte tem o poder de ajudar

o ser humano a encontrar-se a si

mesmo, superar e conseguir conviver

com problemas emocionais

que vão surgindo em virtude da

n Cláudia Ribeiro

Revista Elas por Elas - maio 2022

37


realidade. Ela é o caminho onde a

gente consegue também se reconhecer

e se fortalecer”.

Para a jornalista, fotógrafa e

realizadora audiovisual, Carina

Aparecida dos Santos, se permitir

viver a arte foi essencial no período

de isolamento. Ela trabalhou na

realização de três projetos de artistas

aprovados na Lei Aldir Blanc, mas

também pode realizar sua própria

obra. “Tive uma relação com a

criação artística mais livre. Era uma

espécie de alimento para sustentar

tanto vazio e desespero que estes

tempos trouxeram. Li uma vez um

depoimento de uma fotógrafa que

dizia que a arte é a única ocupação

que permite aos adultos continuarem

brincando. Isso me tocou muito. Percebi

o quanto é importante manter

vivo este espírito da descoberta, de

brincar por brincar, do experimento.

Passei os quatro primeiros meses

de quarentena na casa da minha

mãe, em Juatuba /MG e ali levei isso

ao pé da letra. Com tanto tempo vago,

fui propondo algumas “brincadeiras”.

Fizemos juntas o ensaio fotográfico

“Perto do Útero”, em que tentava

traduzir justamente o sentimento

que eu tinha naquele momento. Não

tinha pretensão com esse trabalho,

só queria mesmo registrar esse tempo

ali com minha mãe. Mas fiquei muito

feliz quando o ensaio começou a ser essência do que somos, sem manuais, Desde a luta por políticas públicas

divulgado, o texto foi traduzido para sem regras. Vivida organicamente”, que valorizem o trabalho cultural,

inglês, espanhol, recebi mensagens afirma. Na avaliação de Carina, a inclusive com a perspectiva de gênero,

até essa construção subjetiva

de muitas mulheres agradecendo e criação é semente em todos/as nós

dizendo o quanto foram tocadas por e, especialmente para as mulheres, mesmo, do que somos com o tempo

isso. Recentemente, uma das fotos foi também uma possibilidade de que é nosso, único. Não é à toa que

selecionada para a exposição “Mulher romper com padrões, transmutar a arte tem a capacidade crítica de

no Plural: Múltiplas Perspectivas”, nossas feridas históricas, nos colocar questionar este sistema. Eles querem

realizada pela ALMG. Fui sentindo no mundo como queremos estar. consumir todo nosso tempo. E sem

a importância da arte conectada à “É resistência, em todos os níveis. tempo, não há arte”, afirma.

38 Revista Elas por Elas - maio 2022

n Patrick Alves


Revista Elas por Elas - maio 2022

39


n Mark Florest

40

Revista Elas por Elas - maio 2022


Realidade

por Nanci Alves

As ruas do Brasil

têm muito o que contar

Mais de 160 mil pessoas estão em situação de rua em nosso país. Um número assustador

que vem crescendo com o desemprego, desigualdade social, violência doméstica e

outras causas que se reforçam com a falta de políticas públicas.

Um viaduto movimentado, perto

da região central de Belo Horizonte/MG,

tem sido a moradia de Maria

Aparecida de Souza nos últimos

anos. Ao lado de seu companheiro,

José Luiz, e de inúmeros cachorros,

ela vive na esperança de um dia ter

sua casinha, “onde possa tomar um

banho direito, descansar tranquila

sem os sustos diários que a rua nos

dá”. Aos 37 anos, Maria Aparecida

cuida como pode do espaço, mantém

as panelas brilhando e trata os

bichos com carinho e alimentação

- “a gente compra e também ganha

ração para eles”.

Ela conta que perdeu sua mãe

aos 22 anos na cidade de Caeté/MG

e, como o pai vendeu o terreno da

família, veio tentar a vida em Belo

Horizonte. Depois de um tempo, Maria

Aparecida se uniu a José Luiz e

juntos vivem do recurso que recebem

tomando conta dos carros estacionados

debaixo de uma parte do

viaduto onde moram. “Estou acostumada

aqui e me sinto segura, porque

tenho meu marido e meus cachorros.

Não é fácil para a mulher

viver na rua por causa das questões

femininas e da violência também. O

mais seguro é ter um companheiro

e o meu é muito especial, ele cuida

de mim. Inclusive me tirou duas

vezes da cadeia, onde fui parar injustamente.

Ele conseguiu advogado

com os donos dos carros que a

gente toma conta”, explica. Maria

Aparecida diz que conseguem água

numa bica que tem perto e que contam

também com doações. “Com a

pandemia, não senti muita diferença,

porque normalmente não saio

daqui, vivemos sozinhos mesmo e

com o pouco que temos”, afirma.

Como Maria Aparecida, quantas

pessoas vivem em situação de

rua no Brasil? Esta continua sendo

Revista Elas por Elas - maio 2022

41


n Mark Florest

{ Maria Aparecida: o sonho de ter uma casinha e viver em paz

a pergunta sem resposta oficial do

governo, porque até hoje o IBGE não

faz esta contagem, mesmo com todos

os apelos dos movimentos em

defesa dos direitos humanos desta

parcela, nada pequena, da população.

A antiga reivindicação é também

um dos 14 objetivos propostos

para a Política Nacional para a População

em Situação de Rua, conforme

o decreto n.º 7.053, de 23 de

dezembro de 2009, do governo Luís

Inácio Lula da Silva. Porém, mesmo

ainda não tendo pesquisa oficial, dados

de um levantamento realizado

pela UFMG (veja no final desta

matéria) apontam para mais de

160 mil pessoas nas ruas em todo o

Brasil, sendo mais de 40% no Estado

de São Paulo. Este número absurdo

também revela quem são estas pessoas

– em sua maioria negras (70%),

sem acesso a direitos básicos como

saúde, alimentação, educação e trabalho

e empurradas para as ruas

“Difícil falar da realidade

de uma população

que não foi contabilizada,

que apenas uma

parte conseguiu se cadastrar

em programas

sociais, projetos etc.

também por outras questões como

rompimento com vínculos familiares,

violência doméstica, doenças,

desastres ambientais como inundações

e secas etc. Além das várias

perdas, estas pessoas sofrem todo

tipo de preconceito, discriminação e

diversas outras formas de violências

diárias, especialmente as mulheres.

De acordo com Samuel Rodrigues,

membro do Movimento Nacional

da População de Rua, mesmo

alguns estados ou municípios realizando

senso em suas regiões, é fundamental

que o IBGE incorpore em

suas pesquisas as pessoas em situação

de rua porque é com base nestes

resultados que o governo constrói

políticas públicas.

42

Revista Elas por Elas - maio 2022


A rua e a pandemia

Samuel Rodrigues, que já viveu a

experiência de situação de rua em

tempos remotos, salienta que a falta

de dados concretos e de políticas

públicas foram entraves ainda maiores

durante o período de isolamento

social provocado pela pandemia

da Covid-19.

“Difícil falar da realidade de uma

população que não foi contabilizada,

que apenas uma parte conseguiu se

cadastrar em programas sociais, projetos

etc. É inegável que é um povo

que sofre muito. Trata-se de um fenômeno

urbano - um povo de pobreza

extrema, grande vulnerabilidade

e que está sendo violentado

antes, durante e seguirá, no pós-pandemia,

se não lutarmos por políticas

realmente estruturantes, capazes de

contribuir para o fim ou a redução

deste fenômeno. Estas pessoas sobrevivem

com apoio dos parcos serviços

da assistência social dos municípios

e da atuação das ONGs, igrejas

de credos diferentes e grupos organizados

da sociedade que oferecem

alimentação e outros itens necessários

para a vida. Foi positivo perceber

que teve uma maior aproximação

da sociedade nestes tempos

de pandemia. Mas em termos políticos,

está muito aquém, esquecida

pelo poder público”, conta.

Durante a pandemia, quando

a cidade foi fechada, a Pastoral de

Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte

(MG), preocupada em se manter

presente junto dessa população

que não tem condições de se proteger

contra o coranavírus, criou em

conjunto com a Pastoral Nacional do

Povo da Rua e uma rede de parceiros

(sociedade civil, ONGs, universidades,

justiça e poder público) o projeto

Canto da Rua Emergencial (@

cantodaruaemergencial). Trata-se de

uma Frente Humanitária que atuou

de março de 2020 a agosto de 2021,

n Divulgação Redes Sociais

conseguindo atender a 10 mil pessoas

com o básico para a sobrevivência

como o acesso à água. O Canto

da Rua funcionou no espaço cultural

Serraria Souza Pinto (cedido pelo

governo do Estado) com ações voltadas

para lanche, higiene pessoal,

espaço para cuidar dos pets, atendimento,

oficinas, atividades culturais,

orientação e encaminhamento

social. De acordo com a coordenadora

da Pastoral de Rua da Arquidiocese,

Claudenice Rodrigues Lopes,

houve também uma articulação

com a rede pública de saúde para

os casos sintomáticos da Covid-19 e

para outras queixas - “porque essa é

uma população que apresenta, historicamente,

um quadro de adoecimento

muito grave e crônico e que

muitas vezes não é percebido ou cuidado.

E além disso, tiveram as hospedagens

para cerca de 170 pessoas

com a garantia de uma moradia

provisória”, conta.

O Canto da Rua conheceu e

acolheu milhares de histórias como

a de Eliane, que quer escrever um

livro sobre sua vida; Bete (1ª foto)

que enfrenta muita solidão nas ruas

e, mesmo mais velha, tem muitas

saudades do colo da mãe; Tereza,

que quer ser cabeleireira; Maria, que

conseguiu fazer seus documentos

com apoio do Canto Emergencial,

Jullyanah (2ª foto), que sofreu toda

sua vida por ser trans e que, com a

pandemia, perdeu seu emprego de

cabeleireira indo parar nas ruas. E,

Cyntia, que como Jullyanah, é mulher

trans e veio para BH em busca

de trabalho e casa. Estas e todas as

mulheres em situação de rua têm

muitas histórias para contar sobre

seus sonhos e, infelizmente, sobre

Revista Elas por Elas - maio 2022

43


suas dores. Com muita força de resistência,

P. conta que foi estuprada

8 vezes “porque o machismo na rua

é forte e a mulher está sempre em

desvantagem”.

O sonho da casa própria

“Sou Alessandra Martins (foto),

mulher negra, venho de uma família

pobre e desestruturada. Tenho

40 anos, sou mãe de 5 filhos e avó

da Melyssa. Vivi uma trajetória de

20 anos nas ruas, que começou com

uma gravidez precoce e a desestruturação

familiar. Na rua, me envolvi

com drogas e outras coisas ruins que

essa situação nos oferece. Fui usuária

de crak por 12 anos. A rua tem

um grande poder de afetar a saúde

mental de quem nela vive, por isso

o maior desafio de estar nas ruas é

se manter vivo e saudável!”

Com esta apresentação de si mesma

e das ruas, Alessandra nos mostra

uma realidade que passa invisibilizada

pela sociedade e principalmente

pelas políticas públicas. Ela também

nos ensina que um novo caminho é

possível quando as portas se abrem.

“Só consegui reaver o sentindo da

vida a partir de oportunidades e da

confiança de outras pessoas em mim.

Hoje eu agradeço à minha mãe e aos

meus filhos pelo apoio, por acreditarem

que seria possível através do

amor, da presença e da união. Agradeço

também às pessoas da Pastoral

do Povo da Rua e da Asmare (Associação

dos Catadores de Papel, Papelão

e Materiais Reaproveitáveis de

Belo Horizonte). Elas me mostraram

o quanto sou fundamental na vida

dos meus. Estou “limpa” há nove

anos e quatro deles luto por moradia.

44 Revista Elas por Elas - maio 2022

n Carina Aparecida


Divido um espaço com mais 14 famílias

que têm o mesmo propósito

que é morar e morar com dignidade”,

conta Alessandra, que vive na

Ocupação Anita Santos, na região noroeste

de Belo Horizonte/MG - nome

em homenagem à Anita Gomes dos

Santos, mulher negra, militante, ex

moradora de rua e uma das fundadoras

do Movimento Nacional da

População de Rua, que faleceu em

2017. O terreno faz parte da CBTU

(Companhia Brasileira de Trens Urbanos),

hoje privatizada. “Teremos

audiência em breve até hoje sem nenhuma

proposta do poder público

sobre moradia. Estamos ansiosas

e inseguras, porque corremos riscos

de ter que voltar para as ruas.

Este retrocesso traz de volta tudo

que deixamos para trás, pois a rua

não te capacita para nada de bom.

Ela te impossibilita de ser enxergada

como gente, de ter uma vida normal.

Somos seres humanos e tudo

que queremos é uma casa e um trabalho

para vivermos com dignidade

com nossas famílias. Não existe

bem maior do que este”, desabafa.

Alessandra lembra que, especialmente

para a mulher, a situação de

rua é ainda mais perversa. “Além

da violência, a mulher também enfrenta

dificuldades com a higienização,

principalmente no período

menstrual, pois são praticamente

inexistentes os equipamentos voltados

só pra mulheres. Precisamos

fortalecer as políticas voltadas para

a mulher, inclusive a trans, seja ela

mãe, avó ou adolescente. É urgente

um olhar sensível para os vulneráveis,

precisamos criar a garantia

dos direitos básicos da vida. A nossa

Constituição nos diz que somos

iguais. Ela nos garante moradia, segurança,

direitos e dignidade. Mas

onde está esta verdade? Especialmente

neste governo o que vemos

é uma caça aos pobres. Somos nós

que sempre temos um pouco mais

a pagar. Buscamos apoio de pessoas

que se sensibilizam com a nossa

luta por moradia e trabalho”, conta.

Crime humanitário

Conforme pesquisa da UFMG (veja

no final da matéria), em São Paulo

se concentra o maior número de

pessoas em situação de rua do país

(65.728). Na capital paulista está mais

da metade deste percentual (36.367).

Lá, entre outras ações, a gente sempre

vê, pelas rede sociais, o incansável

trabalho social/espiritual do

padre Júlio Lancelotti (foto) e dos

agentes pastorais da sua paróquia

(São Miguel Arcanjo), no bairro da

Mooca. Nas celebrações e nas redes

sociais, ele sempre convoca a toda a

sociedade a ser solidária e acolher

os/as que estão em situação de risco

social. Pe. Júlio, ao lembrar que

as praças da cidade de São Paulo parecem

um acampamento, por tantas

barracas de pessoas em situação de

rua, pede sempre para as autoridades,

políticas públicas e um olhar humano

para os vulneráveis, pois “não

adianta falar ‘Deus acima de tudo’ e

colocar as pessoas abaixo do nada”.

Carla de Souza, que foi vítima

de violência doméstica com o então

marido, e que hoje vive na ocupação

Viaduto Alcântara (SP), faz parte desta

estatística. “Eu morei só um ano

n Daniel Kfouri

Revista Elas por Elas - maio 2022

45


de aluguel, foi no ano que trabalhei.

Era auxiliar de cozinha, depois passei

para cozinheira, mas com a pandemia,

a dona fechou o restaurante e

até hoje não reabriu”. Carla explica

que pra saber o que vivem as pessoas

nas ruas é preciso passar pelo que

passam, vestir uma roupa suja por

3 dias, sentir fome. “Já comi comida

estragada, porque não tinha o que

comer. Já fui em restaurante pedir e

recebi um não na cara”, conta ao ressaltar

que morar na rua é dormir no

meio de baratas, ratos, ser mordida.

Ao afirmar que cozinha com

amor, Carla conta que seu sonho

é ter um restaurante onde possa

cozinhar e os fregueses ficarem

tão felizes com a comida a ponto de

quererem conhecer a cozinheira.

“Também é meu sonho criar meus

filhos, saindo da rua, ter um canto

para morar com dignidade, pra mim

e para todos nós. Não penso só em

mim, mas no próximo também. Não

é só a minha barriga que dói e todo

mundo tem sonho.”

Carla faz seu depoimento, em

vídeo nas redes sociais (@daniel_

Kfouri) a Paulo Escobar, do projeto

Vozes da Rua de autoria de Daniel

Kfouri e Paulo Escobar.

Com a pandemia, era urgente

incluir as pessoas em situação

de rua entre os grupos de

prioridade para a imunização

contra a Covid-19, pela precariedade

das condições de

vida que se encontram, a exposição

a diversos riscos e às

dificuldades de higienização,

como a falta de acesso à água

potável. Porém, no plano de

vacinação do Governo Federal,

apresentado no início de

2021, os números referentes

à população em situação de

rua no país eram de somente

66 mil pessoas, conforme dados

do Ministério da Saúde,

muito aquém da realidade e

dos dados estimados pelo Instituto

de Pesquisa Econômica

Aplicada (IPEA), em março de

2020, de, aproximadamente,

221 mil pessoas. Diante deste

desacordo de números, a Defensoria

Pública da União solicitou

ao Programa Polos de

Cidadania da Faculdade de Direito

da UFMG, Universidade

Federal de Minas Gerais

que fizesse um levantamento

com informações detalhadas

sobre a população em situação

de rua em todo o território

nacional.

O Polos, em diálogo com o

Movimento Nacional da População

em Situação de Rua

e a Pastoral do Povo da Rua,

46 Revista Elas por Elas - maio 2022 Os Incontáveis

n Daniel Kfouri


criou o Projeto Incontáveis para

fazer o levantamento necessário.

Como resultado final, em abril de

2021, a pesquisa, realizada a partir

da consulta sistematizada ao Cadastro

Único para Programas Sociais do

Governo Federal (CadÚnico), apontou

um número de 160.097 pessoas

em situação de rua cadastradas nessa

base de dados em março de 2021,

sendo 155.085 em faixas etárias vacináveis.

Assim, o número indicado

e inicialmente previsto no Plano de

Vacinação do Ministério da Saúde

(66 mil) atingiria somente 43% das

pessoas em situação de rua com faixas

etárias vacináveis no país.

De acordo com o coordenador

do Polos, o professor Dr. André Luiz

Freitas Dias, o documento reforça

que o fenômeno da população em

situação de rua no Brasil apresenta

uma relação intrínseca com o Racismo

Estrutural, historicamente

presente em nosso país - 70% das

pessoas em situação de rua se declaram

negras. Assim, a partir destes

dados e da realidade das violências

secularmente praticadas contra as

vidas negras no Brasil, o documento

afirma, nas considerações finais,

que “é imperativo e urgente que as

suas existências sejam não somente

contabilidades, reconhecidas e respeitadas,

mas parem de ser violadas,

estigmatizadas, patologizadas, criminalizadas,

encarceradas e eliminadas.

Recolhimentos constantes de

pertences, como colchões, cobertores,

documentos e alimentos; colocação

de pedras e objetos pontiagudos

população em situação de rua no Brasil

Relatório técnico-científico do Polos

Centro-Oeste

7%

Sul

14,30%

Norte

3,38%

pelas cidades (especialmente debaixo

dos viadutos); retiradas sistemáticas

de crianças dos convívios

de mães e famílias historicamente

Nordeste

12,70%

Sudeste

62,62%

Minas Gerais: 11,84%,

São Paulo: 41,05%

Rio de Janeiro: 8,04%

Espírito Santo: 1,69%

vulnerabilizadas são algumas das

inúmeras violências cotidianamente

enfrentadas por essa população nas

cidades brasileiras”.

Revista Elas por Elas - maio 2022

47


Cansei

Eloisa Helena

48

Revista Elas por Elas - maio 2022


Cansei

Érika Gonçalves

Revista Elas por Elas - maio 2022

49


n Luiz Cláudio

50

Revista Elas por Elas - maio 2022


Saúde

por Carina Aparecida

A pandemia que

contamina emoções

Os impactos e transformações do mundo pela Covid-19 chegaram às subjetividades

com consequências para a saúde mental. Reproduzindo a histórica desigualdade de

gênero, são pesos e dores que recaem principalmente sobre as mulheres.

é um processo lento

desembrutecer

exige que você abra as

portas

e deixe escorrer o gosto

denso do passado

seu trauma não diz mais

seu nome

mas você segue abraçando

a escuridão

porque acredita que só ali

pode caber

deixe escorrer, agora e

novamente

repita:

o afeto também

me pertence

(...)

Ao lado, alguns versos do poema

escrito por Ryane Leão e compartilhados

nas redes sociais de Stephanie

Nazaré de Oliveira (foto). Depois

de escutar sobre seu processo

subjetivo desde o início da pandemia,

dá pra sentir a motivação em

se sentir nesses versos.

Antes mesmo de começar a pandemia,

Stephanie, 33 anos, já enfrentava

a saga de conseguir um emprego

fixo, em uma realidade econômica

que já apresentava sinais de crise.

No início do ano de 2020, conseguiu

uma proposta de trabalho,

se via cheia de planos e expectativas,

mas com a chegada da pandemia,

tudo se transformou. "Me afetou

muito emocionalmente. Passei

a fazer bicos, freelas, mas com o

lockdown não deu para continuar.

Eu fiquei muito triste, não tinha renda,

tranquei meus estudos e passei

a depender da ajuda dos meus pais.

Para mim, independente financeiramente

desde os meus 17 anos, foi

uma facada", relata.

Esse foi o pontapé para uma

instabilidade emocional que foi

se agravando com o tempo. A estudante

de gastronomia percebeu

que não estava tudo bem quando

começou a ter crises de ansiedade.

"Rangia os dentes, me sentia ansiosa

quando colocava máscara. Tive

problemas de estômago, refluxo e

coisas que pareciam sintomas da

Covid, como perda do apetite e do

paladar. Ficava irritada, muito nervosa.

Não estava bem. Afetada com

a dependência e todo o contexto da

pandemia", descreve.

Revista Elas por Elas - maio 2022

51


Talvez, até aqui, muitas mulheres

já se identificaram com a montanha

russa emocional vivida por Stephanie.

E é normal que se identifiquem.

Um estudo realizado em 2020 pelo

Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital

das Clínicas (HC) e Faculdade

de Medicina da USP (FMUSP) analisou

o perfil do grande número de

pessoas que apresentou, durante a

pandemia, problemas emocionais

sérios. As mais afetadas foram as

mulheres, respondendo por 40,5%

de sintomas de depressão, 34,9% de

ansiedade e 37,3% de estresse.

No caso de Stephanie, como a ansiedade

foi tomando conta do seu

cotidiano, foi orientada a fazer uso

de medicamentos para combater os

refluxos, diretamente ligados ao fator

emocional, além de um ansiolítico.

"Eu cheguei a tomar quatro remédios

diferentes. De manhã, não

conseguia fazer nada e senti que

estava criando uma dependência

da medicação", explica. Muitas angústias

atravessaram o cotidiano de

Stephanie até que outra possibilidade

de tratamento começou a se desenhar

à sua frente. "Para mim, a

ajuda chegou quando uma amiga

me mandou um folder com informações

de um coletivo de mulheres

negras (Mulheres da Quebrada),

que oferecia ajuda psicológica. Já

sabia que tinha algumas iniciativas

assim, mas eu não tinha grana para

pagar. Eu me inscrevi, mas sem

achar que ia ser chamada", conta.

Mas Stephanie conseguiu o acompanhamento

psicológico gratuito com

o Coletivo e, desde então, segue com

o acompanhamento. A iniciativa

de um coletivo de mulheres negras

acolher a outras mulheres negras

52 Revista Elas por Elas - maio 2022

n Luiz Cláudio


nos traz a reflexão sobre o desigual

acesso aos cuidados em saúde mental

e os reflexos disso na vida dessas

mulheres.

"Todo/a psicológo/a tem

que ser antirracista"

Essa foi uma das últimas afirmações

que a psicóloga Beatriz Dagma

(foto) fez na entrevista para esta

reportagem e traz uma provocação

necessária sobre o entendimento de

saúde mental em uma sociedade extremamente

marcada pelo racismo

estrutural.

Beatriz é uma profissional parceira

do coletivo Mulheres da Quebrada.

Para ela, essa iniciativa, especialmente

em um momento como o

que vivemos, é de extrema importância.

"Com certeza, a pandemia foi e

tem sido uma marca na subjetividade

dos sujeitos. Angústia, ansiedade,

episódios depressivos, sintomas obsessivos,

crises de pânico aumentaram

muito. Creio que ainda há muito

para descobrir sobre o impacto subjetivo

da pandemia, principalmente

agora com a abertura da cidade e

a volta do convívio social", explica.

A psicóloga ressalta que a pandemia

trouxe a morte para muito

perto, além de muitas incertezas,

desemprego, desmonte de políticas

públicas. "Alguns desses fatores impactaram

diretamente a vida de muitas

mulheres negras e suas famílias.

Durante a pandemia também vimos

casos terríveis de racismo no Brasil

e em todo o mundo, como por

exemplo, o assassinato do norteamericano

George Floyd (05/2020)

pela polícia, que reforçou a campanha

“Vidas Negras Importam”. Ver

a morte cercando, por todos os lados,

tem sido outro ponto de muita

angústia no consultório", afirma.

“Cada dia mais entendendo

que quem cuida

da mulher negra é só

outra mulher negra".

Se o racismo é estrutural, é urgente

que o cuidado com a saúde mental

passe por todas as camadas de vivências

tão desiguais e diversas. "Cada

dia mais entendendo que quem cuida

da mulher negra é só outra mulher

negra". Esse é um tweet de @

nahrivelli que visualizei justo nos

dias em que escrevia esta matéria.

Me lembrei do relato de Stephanie,

quando contava sobre a importância

de ter sido acolhida por uma psicóloga

também negra, assumindo que

as primeiras sessões foram bem difíceis,

mas que aos poucos a terapia

n Carina Aparecida

Revista Elas por Elas - maio 2022

53


ainda mais quando se trata de mulheres

foi ajudando a descortinar a fumaça

que a impedia de enxergar algumas

questões profundas. "É muito

importante tratar a saúde mental. Tô

aprendendo que preciso me assumir,

que posso ter meus limites, colocar o

que eu quero, me posicionar afetivamente.

Como mulher negra, a gente é

muito estereotipada e quis saber filtrar

melhor as pessoas com quem eu

me relaciono, as pessoas com quem

escolho dividir os meus momentos.

A questão emocional da mulher negra

fica muito afetada, porque a gente

tem que ser forte o tempo todo, a

gente tem que dar conta de tudo e

não precisa disso. A gente tem que

ficar bem. Inclusive com amizades,

entendendo se o ‘tamo junto’ é ‘tamo

junto’ mesmo", reflete.

Questões subjetivas que também

se relacionam com marcadores

econômicos e sociais. A psicóloga

e professora de Psicologia da

UFRGS e UFES, Simone Mainieri

Paulon, também tem construído reflexões

sobre os distintos impactos

da pandemia na vida da população

brasileira. Explica que somado

à "desastrosa" gestão do combate à

pandemia no Brasil, temos ainda os

efeitos devastadores que o desmonte

das políticas sociais em curso

desde o "golpe midiático-jurídico-

-parlamentar" de 2016 representou

aos segmentos mais vulneráveis da

população brasileira. Dentro dele,

os marcadores de raça, gênero e

classe apontam a extrema fragilização

das mulheres, que se agrava

negras. "Neste sentido, são

cruéis, mas não surpreendentes,

os dados que começam a ser divulgados

quanto aos impactos diferenciados

da pandemia de Covid-19. A

cultura colonial escravocrata brasileira

mantém, por exemplo, quase

6 milhões de domésticas em

condições de trabalho, na maioria

das vezes, precarizadas e informais.

As diaristas foram altamente

atingidas tanto pelo desemprego

como pela contaminação por famílias

de contratantes que ou as dispensaram

ou não tomaram medidas

adequadas, de transporte, por

exemplo, que as protegessem para

continuarem frequentando as casas

que limpam", relata a psicóloga.

Ser mãe é padecer no

paraíso… e na pandemia

"Quem pariu Mateus que o embale".

O ditado popular tão propagado

reflete uma visão perigosa que a

sociedade patriarcal tem lançado à

maternidade. Com a pandemia, isso

tem se agravado. Tempos em que

tudo se aflora ainda mais e parece

se propagar, como o vírus.

É o caso de Ana Cristina Silva

de Lima, 32 anos, que também

teve que enfrentar os desafios

de uma saúde mental abalada

em um contexto assustador. Como

mãe solo, ela já enfrentava a realidade

de estar sem trabalho para

cuidar do filho Ravi Silva, que no

início da pandemia tinha apenas

sete meses. "O seguro desemprego

acabando, eu procurando emprego

e já vendo que tava muito difícil.

As escolas e creches estavam

n Adobe Istock


fechadas e isso me desesperava

porque, quando eu precisei voltar

para o mercado de trabalho, as dificuldades

aumentaram", conta.

Ana (foto) relata que foi natural

até ter que se abster, desistir de

algo para não surtar psicologicamente

e, ao mesmo tempo, sentindo que

isso não seria possível. "Maternidade,

desemprego, pandemia, a qualidade

do emprego, mão de obra barata,

um filho, escola fechada, preciso

pagar particular, mas não tenho condições",

desabafa, recordando suas

angústias, além da preocupação com

o desenvolvimento de Ravi. "Até hoje

reflito sobre o impacto disso tudo

para ele. Observava as fases em que

ficou mais agitado, sentindo falta de

interação. Sempre me questionando

se o que eu estava fazendo era o certo.

Questionamentos comuns na maternidade",

conta Ana ao desabafar

também sobre outros sentimentos:

"fui percebendo que depois que você

se torna mãe, o mundo tenta te anular

como mulher. Parece que tudo

que eu sou, que fazia antes é apagado.

Eu escutei em um dos meus últimos

trabalhos que eles tinham contratado

duas mulheres sem filhos. E

na época meu filho tinha adoecido

assim que eu entrei no trabalho, e

eu cheguei a ouvir que eu tinha que

me virar. Então foi bem difícil saber

disso, que eles preferem mulheres

que não são mães", relata.

A psicóloga Simone Paulon explica

que nossa cultura patriarcal e colonial

naturalizou as funções de cuidado

como femininas e, como funções

desvalorizadas socialmente, são mal

ou sequer são remuneradas. "As tarefas

de cuidado, incluindo dos filhos, as

atividades domésticas, as profissões

n Camila Paiva

Revista Elas por Elas - maio 2022

55


da saúde e de limpeza, ficam muito

ao encargo das mulheres. Isto tem

determinado, por exemplo, um quadro

de adoecimento específico entre

as mulheres que tem sido denominado

de burnout materno", comenta.

Simone relembra uma reportagem

veiculada no último ano na BBC

intitulada “As mães demitidas durante

a pandemia: Tentei conciliar

trabalho com meu bebê, mas perdi

o emprego", descrevendo a realidade

de muitas mulheres que viveram

no limite do stress emocional para

se manterem trabalhando e muitas

delas não conseguiram manter suas

rendas - ou pelo trabalho informal

que deixou de ser realizado, ou pela

diminuição de demanda daquelas

que prestavam serviços externos,

ou mesmo pela impossibilidade de

conciliar a sobrecarga de trabalho

doméstico com home office.

Saúde!

de acolher e aprofundar nas questões

Simone Paulon afirma que podemos caminhos para driblar as doenças

56 Revista Elas por Elas - maio 2022

considerar a pandemia da Covid-19

como um marco de saúde mental

para todo o planeta, sobretudo para

as mulheres. "Uma crise de proporções

planetárias como esta abala e

desorganiza a todas nós, provocando

medos, inseguranças e demandando

intervenções governamentais

firmes e coletivas de proteção e cuidados

com toda população. E quando

se trata de países empobrecidos,

governos autoritários e populações

vulneráveis, os abalos tendem a ser

inevitavelmente maiores", explica.

De fato, o contexto político em que

vivemos parece afetar diretamente

o psicológico de muitas pessoas,

mesmo quando existe tratamento e

mentais. Stephanie de Oliveira relata

que já conseguiu deixar os remédios.

Arrumou emprego fixo como

auxiliar administrativa e foi encontrando

também a cura através da

dança afro e na corrida de atletismo.

Mesmo assim, questiona a ideia

de poder estar totalmente bem nos

dias atuais. "No Brasil de Bolsonaro,

não dá pra falar que a gente tá bem.

Mas a gente tem conseguido se abraçar,

se acolher, se aquilombar. Eu estou

me aquilombando com os meus,

sendo seletiva", afirma. O aquilombamento

lembrado por Stephanie

está presente, inclusive, no consultório

psicológico, espaço que ela continua

ocupando. Esse espaço, capaz

humanas, tecendo as subjetivi-

dades com o contexto social, é para

a psicóloga Beatriz Dagma um lugar

de muita relevância. "É um espaço

potente e principalmente de transformação,

tanto para mim que nunca

nem imaginei ocupar um espaço

assim, quanto para as mulheres negras

que passaram tanto tempo caladas

e não escutadas. Falar e ser escutada

é libertador", relata. Beatriz

ainda ressalta: "Minha trajetória profissional

tem a contribuição de muitas

pessoas. Cada pessoa que atendi e

escutei, enquanto estudante e agora

como profissional, me ensina sobre a

luta antirracista - além de uma luta

minha, enquanto sujeito, é também


uma ética e isso se estende à minha

prática. No código de ética do psicólogo

diz que todo/a psicólogo/a precisa

trabalhar em prol da liberdade,

dignidade e igualdade, ou seja, todo/a

psicólogo/a precisa ser antirracista".

Realmente, o acesso ao tratamento

terapêutico tem ajudado muitas mulheres.

Ana Cristina fala da sua experiência:

"São vários tipos de violência

que a gente vive, não só física.

Relacionamentos abusivos, violência

psicológica, no trabalho. Aí, junta

todo peso, o pensamento de que

é preciso dar conta de tudo - eu tenho

um filho para criar, totalmente

dependente de mim, preciso cobrir

a ausência da paternidade biológica,

cobrir a parte financeira, dar conta

da casa. Tem que ter um psicológico

muito forte, mas o que é ter um psicológico

forte? É um processo que tem

que ser trabalhado todo dia. Muitas

mulheres que não têm acesso, instrução

e também rede de apoio, que

para mim tem sido essencial: desde

a pessoa que me ajudou a pagar

o teste de gravidez até a minha tia,

que atualmente me ajuda a cuidar

do meu filho", enfatiza. Ana Cristina,

que através do ProUNI (Programa

Universidade para Todos) conseguiu

se formar em Serviço Social, reflete

também o quanto o acesso à Universidade

foi importante e que a saúde

da mulher, em todas as dimensões,

está ligada a uma estrutura mais ampla

da sociedade. "Há uma falta de

n Adobe Istock

efetivação das políticas para as mulheres.

Lutamos historicamente para

que eu, hoje, por exemplo, possa ter

direitos. Porém, ainda temos muita

luta. Temos que falar todo dia sobre

nossos direitos e nem todo mundo

quer escutar", desabafa.

E se a escuta é elemento fundamental

para o cuidado coletivo,

parece que somos convidadas(os) a

aprofundar sobre o debate da saúde

mental, que para a psicóloga Beatriz

Dagma, não deve ser banalizado.

"Ainda temos muito o que avançar

no debate sobre saúde mental, para

que esse termo também não acabe

sendo mais um padrão normatizador

que vai encaixar o ser humano e

sua diversidade em uma caixa cheia

de normas. No entanto, pensar saúde

mental é pensar em cada sujeito

com toda sua diversidade, perguntando-se

sobre si, pensar saúde

mental também é um ato político.

Sabemos que um povo doente e segregado

é muito mais fácil de ser

controlado", alerta.

Em um contexto de tantos adoecimentos,

olhar para si e enxergar

essa diversidade subjetiva que todas/os

nós carregamos é urgente.

Outros versos da mesma poesia com

que começamos esta reportagem fortalecem,

então, a reflexão da psicóloga

Beatriz.

(...) esse fogo que sobe as

entranhas

não se chama desespero

se chama vida

ela ainda está aí

e está devolvendo

tudo aquilo que é teu.

Revista Elas por Elas - maio 2022

57


n Adobe Istock

58

Revista Elas por Elas - maio 2022


Artigo

Brena Melo

Pobreza menstrual exige

política pública urgente

A pobreza menstrual é uma questão

complexa, de múltiplas dimensões,

com potencial de grandes danos

invisíveis a meninas, mulheres

e pessoas que menstruam. Em maio

de 2021, o relatório publicado pelo

Fundo das Nações Unidas para a Infância

(UNICEF) sob o título “Pobreza

Menstrual no Brasil: desigualdades

e violações de direitos” trouxe o

tema, tradicionalmente invisibilizado,

aos holofotes da mídia nacional.

A pobreza menstrual é definida

como falta de acesso a recursos, infraestrutura

e conhecimento para

cuidar da menstruação e está intrinsecamente

ligada a um conceito ainda

mais amplo: saúde menstrual, ou

melhor dizendo, a falta dela. Saúde

menstrual consiste no completo bem-

-estar físico, mental e social em relação

aos ciclos menstruais. Depende,

assim, do acesso a direitos humanos

básicos. Entre os objetivos de desenvolvimento

sustentável da Organização

das Nações Unidas (ONU), a garantia

de acesso a alguns deles está

no cerne dessa questão: água potável

e saneamento, igualdade de gênero,

educação de qualidade, saúde

e bem-estar.

O recente debate midiático sobre

o tema, incluindo a disseminação de

projetos de lei para distribuição gratuita

de absorventes, ajudou a minimizar

a invisibilidade da questão.

Entretanto, e a repercussão positiva

dessa exposição precisa ir muito além

da simples distribuição gratuita de

absorventes. Para isso, é importante

contextualizar as várias dimensões

relacionadas ao comprometimento

dos direitos humanos básicos associados

à pobreza menstrual.

Um dos pontos elementares da pobreza

menstrual é a constatação da

falta de acesso à água potável e ao

saneamento. Para uma saúde menstrual

adequada é preciso, primeiro,

garantir o acesso aos três elementos

básicos conhecidos na discussão sobre

o tema, como WASH (water, sanitation

and hygiene), ou água potável,

saneamento e higiene (como

sabão ou papel higiênico), conforme

listado nos objetivos de desenvolvimento

sustentável. De acordo com

o relatório da UNICEF, uma a cada

três meninas não tem sabão na escola.

Considerando a faixa etária das

meninas durante a vida escolar, vale

destacar que quase 90% delas passam

três a sete anos menstruando na escola.

O risco relativo de uma menina

negra estudar em uma escola que

não tenha acesso a papel higiênico

Revista Elas por Elas - maio 2022

59


Além do impacto mais imediato

nos banheiros é 51% maior do que

60 Revista Elas por Elas - maio 2022

para meninas brancas, trazendo o

racismo estrutural como mais uma

dimensão do problema.

Além disso, há um impacto mais

imediato na vida escolar das pessoas

que menstruam: o absenteísmo.

Dados de países como Inglaterra

e Nova Zelândia apontam que, em

média, meninas faltam de um a três

dias por mês por não terem absorventes.

Nesses locais, em que a garantia

de acesso à educação pública

de qualidade para todos é prioridade,

os impactos no rendimento escolar

das pessoas que menstruam foram

mitigados. Após a identificação

da pobreza menstrual como causa do

absenteísmo escolar crônico, foram

implementadas políticas públicas de

distribuição gratuita de absorventes,

principalmente nas escolas.

Como mais uma dimensão do problema,

há, ainda, a falta de garantia

do acesso à água potável e ao saneamento,

comprometendo a disseminação

de alternativas efetivas, seguras,

ecológica e economicamente sustentáveis

como os coletores menstruais.

A importância da inclusão de informações

sobre os coletores em materiais

educacionais já é mais do que

reconhecida. A falta dessas informações

e de materiais educativos sobre

saúde menstrual, assim como saúde

reprodutiva, representa mais um importante

dano invisível relacionado

à pobreza menstrual. A educação sobre

saúde reprodutiva é um dos fatores

de maior impacto para evitar

gestações indesejadas, muitas vezes

o potencial de contribuição dessas(es)

cidadãs(ãos) no futuro tanto a si mesmas(os)

quanto à sociedade.

No Brasil, dados detalhados sobre

o tema ainda são escassos. Grande

parte do conteúdo apresentado pelo

relatório da UNICEF é proveniente da

Pesquisa Nacional de Saúde Escolar

(PeNSE), conduzida pelo IBGE, em

2015. A apresentação de dados proxy

reforça a necessidade de se ampliar

o debate, promover e financiar

estudos mais detalhados sobre a temática.

Entre os pontos passíveis de

maior investigação há a necessidade

de se mensurar o impacto à saúde

reprodutiva do uso de miolo de

pão, jornais e panos como alternativas

pouco saudáveis à falta de absorventes.

à saúde reprodutiva, os desdobramentos

relacionados à dimensão da

igualdade de gênero, como acesso à

educação, merecem ser destacados.

Entre as consequências previsíveis

do absenteísmo escolar sistemático

há o prejuízo para o potencial de empregabilidade

num futuro. Esse prejuízo

ao acesso a empregos mais bem

remunerados representa um impacto

transgeracional de saúde, com perpetuação,

por exemplo, de um ciclo

de pobreza entre mulheres. Dados

cada vez mais sólidos apontam para

o impacto positivo de um bom nível

educacional das mães para a saúde

e bem-estar de sua prole.

Para minimizar as consequências

de um problema com tantas dimensões

é preciso mantê-lo visível.

A escola é um ambiente fundamental

para a promoção de discussões e

leituras sobre a importância de assegurar

a saúde menstrual de meninas,

mulheres e pessoas que menstruam.

Pobreza menstrual, portanto, é consequência

da falta de acesso a direitos

humanos básicos. Tomar consciência

disso é o primeiro passo para

combater essa tragédia silenciosa.

As consequências negativas

Q

presentes ainda durante a vida escolar.

Minimizar as consequências podem ser estimadas, mas precisam

Médica tocoginecologista

Brena Melo

PhD Maastricht University, Holanda

de uma gestação indesejada, nessa ser quantificadas, assim como suas

Inst. de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP)

fase, pode influenciar sobremaneira repercussões a longo prazo.

Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS)

n Adobe Istock


Revista Elas por Elas - maio 2022

61


Cansei

Fernanda Leôncio

62

Revista Elas por Elas - maio 2022


Cansei

Gisele Fernanda

Revista Elas por Elas - maio 2022

63


n Mídia Ninja

64

Revista Elas por Elas - maio 2022


Artigo

Dra Claudia Maria Dadico

A irracional, anacrônica

e inconstitucional criminalização

do aborto no Brasil

A forma mais comum de desvirtuar

um debate é iniciá-lo a partir

da pergunta errada. Assim ocorre

quando o tema é o aborto.

Se o ponto de partida for a pergunta:

“– Você é a favor ou contra o

aborto?”, a imensa maioria das pessoas

se dirá contrária e a discussão

não evoluirá. Numa sociedade patriarcal,

como a brasileira, em que

a maternidade ainda é apregoada,

não como uma opção, mas como

o destino necessário de toda mulher,

ninguém, em sã consciência,

pode se dizer a favor do aborto. Em

maior ou menor grau, a decisão pelo

aborto sempre representará um

sofrimento para todas as pessoas

envolvidas na decisão.

O correto equacionamento do

debate deve partir de outra pergunta,

cuja resposta é bem mais

complexa: “– Deve a prática do

aborto ser criminalizada?” Em outras

palavras: “– Você é a favor ou

contra o uso do aparato repressivo

do Estado, em sua potência máxima,

com a possibilidade, inclusive

de prisão, das mulheres que o fazem

e das equipes médicas responsáveis

pelo procedimento, como medida

de enfrentamento à questão do

aborto?” Ou ainda: “– É aceitável

que no atual estágio de desenvolvimento

do Estado Democrático de

Direito moderno, necessariamente

laico, o aborto ainda siga sendo

criminalizado?”

Estes questionamentos desafiam

reflexões que não se satisfazem com

raciocínios simplórios ou argumentações

mistificadoras.

Em resumo: o aborto deve ser

uma questão criminal ou uma

questão de saúde pública? Eis a

pergunta correta.

Como se sabe, no direito brasileiro

a prática do aborto ainda é descrita

como crime nos artigos 124 e 126 do

Código Penal, sujeitando seus agentes

a penas privativas de liberdade, de

1 a 4 anos; ou seja, ficam sujeitos

à pena: (1) a mulher, nos casos de

auto abortamento 1 ; (2) a mulher e o

terceiro que realiza o procedimento,

nos casos de aborto realizado por

terceiro, com o consentimento da

mulher; (3) o terceiro que realiza o

procedimento, nos casos de aborto

sem consentimento.

Se a pessoa não registra antecedentes

criminais, terá direito à

substituição das penas de prisão

por penas restritivas de direitos

(prestação de serviços à comunidade

ou prestações pecuniárias). No

entanto, uma condenação criminal

gera uma variedade de efeitos

prejudiciais à pessoa. Além da

1) Embora de aplicação muito remota, não é possível excluir uma interpretação literal do Código Penal e do Estatuto da Criança e do Adolescente que sujeite adolescentes

de idade superior a 12 anos envolvidas em casos de auto abortamento ou abortamento consentido realizado por terceiros, a responder por ato infracional no campo

socioeducativo, o que reforça o absurdo da lógica punitiva aplicada ao campo do aborto.

Revista Elas por Elas - maio 2022

65


públicas realizadas no Supremo

perda de primariedade e do acesso

a benefícios da lei penal em outros

casos que eventualmente venha a

responder, a condenação criminal

gera toda sorte de estigmatizações

sociais e profissionais, dificultando

o acesso ao mercado de trabalho,

além da impossibilidade de votar

e ser votado, enquanto durem os

efeitos da pena.

Para o terceiro que realiza o procedimento

de aborto nos casos em

que a gestante é menor de 14 anos,

as penas previstas podem chegar

a 10 anos de reclusão. Se, no caso

concreto, houver condenação a

pena superior a 4 anos, a lei veda a das hipóteses autorizadoras, no caso

66 Revista Elas por Elas - maio 2022

substituição da pena de prisão por

penas alternativas. Somente em casos

excepcionais, quando a gravidez

expõe a vida da gestante a risco de

morte, é resultado de estupro ou em

casos de fetos anencefálicos, a lei

penal autoriza a prática do aborto.

Ao preconizar penas nestes altos

patamares, justamente nos casos

em que a vítima é criança ou

adolescente, a lei penal intimida sobremaneira

os profissionais de saúde,

dificultando, ainda mais, o acesso

aos serviços mesmo nos casos

em que o aborto é permitido. Para

aqueles profissionais que já, de antemão,

possuem pré-compreensões

contrárias ao abortamento, a mera

existência destas altas penas fornece

o pretexto perfeito para recusas

ou obstáculos ao atendimento, mesmo

nos casos de aborto legal. Basta

manifestar dúvidas na configuração

concreto, ou invocar a discutível

“objeção de consciência 2 ”.

A partir do panorama normativo

acima traçado, passa-se a demonstrar

a total ineficácia da opção

legislativa atual, de manter como

regra a criminalização do aborto e

sua autorização em algumas poucas

exceções apenas.

Dados empíricos demonstram

que a manutenção da criminalização

não apresenta nenhum impacto na

diminuição dos casos.

A Pesquisa Nacional do Aborto 3

2016, feita pela Anis, demonstrou

que, somente em 2015, 417 mil

mulheres realizaram aborto no

Brasil urbano e, em extrapolação

para todo o país, 503 mil mulheres,

incluindo as mulheres que vivem

fora dos centros urbanos. De acordo

com dados do Ministério da Saúde,

fornecidos durante as audiências

Tribunal Federal, no bojo da ADPF

442, os procedimentos inseguros de

interrupção voluntária da gravidez

levam à hospitalização de mais de

250 mil mulheres por ano, cerca de

15 mil complicações e 5 mil internações

de muita gravidade 4 .

O aborto inseguro causou a morte

de 203 mulheres em 2016, o que representa

uma morte a cada 2 dias.”

Entre 2008 e 2018, foram duas mil

mortes maternas por esse motivo 5 .

Quanto a crianças e adolescentes,

dados oficiais 6 revelam que ocorrem

no Brasil, em média, seis internações

diárias por aborto envolvendo meninas

de 10 a 14 anos que engravidaram

após serem estupradas.

O Anuário Brasileiro de Segurança

Pública 2021 7 demonstra que

no ano de 2020, já sob o impacto da

pandemia da Covid-19 e das medidas

de isolamento social, 73,7%

2) Cabe lembrar que os serviços de saúde habilitados à realização do aborto legal são obrigados a manter o atendimento, ainda que os profissionais invoquem a duvidosa objeção. A inexistência de

profissionais habilitados a prestar o serviço pode expor a instituição a consequências administrativas e, a depender do caso concreto, a recusa do profissional pode vir a configurar outro crime que é

a omissão de socorro (art. 135 do CP), cujas penas, entretanto, são muito mais leves. Nesse sentido: https://rb.gy/eesnr2, Acesso em 13/09/2021, acesso em 13/09/2021; https://rb.gy/oodfqa, Acesso em

13/09/2021. 3) Disponível em https://rb.gy/xj01rk, Acesso em 10/09/2021. 4) Juntas Pela Vida das Mulheres https://rb.gy/s78xp7, Acesso em 10/09/2021. 5) Uma mulher morre a cada 2 dias por aborto

inseguro - Ministério da Saúde Conselho Federal de Enfermagem https://rb.gy/7zoi4q, Acesso em 10/09/2021. 6) Brasil registra 6 abortos por dia em meninas entre 10 e 14 anos estupradas - BBC News

Brasil, Acesso em 10/09/2021. 7) Anuário Brasileiro de Segurança Pública - Fórum Brasileiro de Segurança Pública (forumseguranca.org.br), Acesso em 10/09/2021.

n Mídia Ninja


dos estupros registrados no ano

enquadram-se como “estupro de

vulnerável” que têm como vítimas

crianças e adolescentes. A maioria

das vítimas estão na faixa entre 10

a 13 anos (28,9%).

Dito isso, é possível perceber que

o aborto é um fato da vida reprodutiva

das meninas, adolescentes

e mulheres.

O que a criminalização do aborto

faz é lançá-lo na marginalidade, na

clandestinidade, deixando crianças,

adolescentes e mulheres que realizam

o procedimento, sobretudo as

mais pobres, privadas de fiscalização

sanitária e inibindo a busca por

atendimento médico adequado em

caso de complicações ou sequelas.

Também é preciso destacar que a

criminalização da prática do aborto

expõe mulheres a abordagens violentas

e constrangedoras por partes

dos agentes da segurança pública,

como a que ocorreu com a jovem de

Apucarana, presa quando recebia

em sua casa uma encomenda de

comprimidos de misoprostol 8 .

De forma diversa, nos países em

que o aborto não é criminalizado,

como por exemplo, nos Estados Unidos,

Canadá, Alemanha, Espanha,

Itália, África do Sul e Uruguai, são

disponibilizadas redes de apoio integradas

por equipes multidisciplinares

que incluem serviços de assistência

psicológica, médica e de assistência

social para verificar a real situação

da gestante, o que implica em diminuição

significativa no número

de procedimentos e, sobretudo, no

número de mortes maternas e outras

complicações e sequelas que afetam

a saúde daquelas que recorrem a

procedimentos clandestinos.

Ou seja, a criminalização não previne

o aborto. Apenas impede que

as mulheres sejam adequadamente

atendidas nas redes pública e privadas

de saúde e fornece elementos

para que protocolos médicos sejam

construídos a partir da proibição

penal, com o intuito de dificultar o

acesso ao aborto, mesmo nos casos

em que a norma penal não o proíbe,

como vimos recentemente no

emblemático caso da menina de 10

anos no interior do Espírito Santo 9 .

Dessa forma, se a norma penal

não cumpre sua função de evitar ou

diminuir as ocorrências de abortos,

pode-se afirmar que sua permanência

constitui uma aberração, ou, no

mínimo, um desvio de finalidade.

Ao deixar de cumprir sua função,

a norma penal passa a funcionar

como “instrumento de controle da

sexualidade feminina e da autonomia

das mulheres, que são aprisionadas

na concepção ideológica patriarcal

da maternagem 10 ”.

Não é demais recordar que a

“maternidade compulsória” já foi

equiparada a tortura pelo Supremo

Tribunal Federal 11 , uma violência

de gênero cujos efeitos são ainda

mais devastadores nos casos que

envolvem meninas e adolescentes 12 .

O Supremo Tribunal Federal já

declarou a inconstitucionalidade da

criminalização do aborto nos casos

de fetos anencefálicos 13 e, mais recentemente,

por intermédio de sua

Segunda Turma, proclamou a inconstitucionalidade

da criminalização

do aborto no primeiro trimestre da

gestação 14 . Aguarda-se o julgamento

da ADPF 442, em que o tema será

examinado pelo Plenário da Corte 15 .

Recentemente, a América Latina

registrou notáveis progressos rumo

à descriminalização do aborto: a

Argentina teve o direito ao aborto

seguro e gratuito reconhecido por

lei 16 e o Tribunal Constitucional do

México, em julgamento histórico,

pronunciou-se pela descriminalização

do aborto por unanimidade

de seus integrantes 17 .

É urgente alinhar o Brasil aos

países de maior desenvolvimento

no tema do aborto, tratando-o não

como questão criminal, mas como

política pública de saúde.

Castanheira Neves afirma que “as

sobrevivências são um fenômeno

conhecido e há mortos que morrem

devagar”. Já passa da hora de

sepultar, de uma vez por todas, essa

norma penal anacrônica, irracional

e inconstitucional.

n Jorge Roberto L. G. Soza

8) https://rb.gy/xisjsg/, Acesso em 13/09/2021. 9) Menina de 10 anos estuprada pelo tio no Espírito Santo tem gravidez interrompida

| Pernambuco | G1 (globo.com), Acesso em 10/09/2021. 10) TORRES, José Henrique Rodrigues. Aborto e Constituição. São

Paulo: Ed. Estúdio Editores.com, 2015, p. 25. 11) STF: ADPF, 54. 12) Assim já decidiu a Corte Interamericana de Direitos Humanos,

no caso Gusmáz Albarracín e outros vc. Equador, sentença de 24 de junho de 2020. 13) ADPF 54, https://rb.gy/zverpg, Acesso

em 10/09/2021. 14) HC 124306/RJ, https://rb.gy/atcb7o, Acesso em 10/09/2021. 15) https://rb.gy/wtlvor, Acesso em 10/09/2021.

16) https://rb.gy/n3n8cy, Acesso em 10/09/2021. 17) https://rb.gy/vdw7nc, Acesso em 10/09/2021.

Q

Dra Claudia Maria Dadico

Doutora em Ciências Criminais pela PUC/RS

Juiza Federal, Conselho da AJD

Revista Elas por Elas - maio 2022

67


Cansei

Janaína Melo

68

Revista Elas por Elas - maio 2022


Cansei

Juliana Rosa

Revista Elas por Elas - maio 2022

69


n Carina Aparecida

Invisível e estrutural:

{ Maria Catarina de Lima lembra do seu trabalho doméstico, desde os 11 anos de idade.

70

Revista Elas por Elas - maio 2022


Trabalho

por Carina Aparecida

a histórica desvalorização

das trabalhadoras domésticas

Segundo dados de 2020

do Instituto de Pesquisa

Econômica Aplicada

(Ipea), as trabalhadoras

domésticas representam

cerca de 6 milhões de mulheres

no Brasil e mais de

70% trabalham sem carteira

assinada. Estatística

acompanhada por memórias

e vivências que carregam

muitas opressões.

Diversas vezes, com um copo

de café na mão, em momentos

livres para acessar a memória,

ela relembra o que foi vivido nas

inúmeras casas onde era trabalhadora

doméstica. Conta que, aos 11

anos, ainda vivendo no interior,

foi que começou essa jornada. As

recordações que ela tem desse tempo

fogem do que se espera na infância.

“Minha patroa saiu para trabalhar e

disse que, quando chegasse, queria

a comida pronta. Eu ainda não sabia

cozinhar e ela não me ensinou. E

o mais difícil para mim foi que ela

ainda me mandou matar o frango

para cozinhar naquele dia. Eu fiquei

em pânico, eu era uma criança. Mas

eu fiz, tinha que fazer”, recorda.

Já com 12 anos, em outra casa,

coincidiu da filha da patroa ter a

mesma idade dela. Igualdade só mesmo

na idade. A filha da patroa estudava

de dia e ela, à noite, sem poder

abrir o livro e o caderno naquela

casa. “Um dia, a gente fez a mesma

prova. Eu de noite, ela de dia. Eu tirei

nota 9 e a menina, 5. Eu escutei

a patroa xingando a menina, dizendo:

“Como assim, uma empregada

tirar mais do que você em uma prova,

é um absurdo”, relembra.

Da infância à vida adulta, são necessários

muitos cafés para abarcar

as lembranças que marcaram essa

mulher. Já habitou muitos quartos

de empregada e já sentiu na pele

o que hoje consegue compreender

Revista Elas por Elas - maio 2022

71


como preconceito e humilhação. “Tinha

casa que, quando chegava visita,

eu sabia que não podia ficar ali

compartilhando o mesmo espaço, tinha

que ir para fora, enquanto eles

comiam na mesa. Também era comum

eu não poder comer de tudo,

tinha patroa que fazia meu prato

pra eu não servir carne ou outras

coisas que eram só para eles”, relata.

As memórias de Maria Catarina

de Lima, 71 anos, hoje aposentada,

eu não escutei só no contexto desta

reportagem. Eu escuto há anos.

Mesclado aos relatos, sempre uma

afirmação que também me acompanha

há tempos: “Minha filha, tomara

que você nunca precise trabalhar

na casa dos outros, eu não

desejo isso a você”.

O desejo de minha mãe, uma

ex-trabalhadora doméstica, revela

o quanto estamos distantes da valorização

dessa profissão. Uma valorização

ausente na vida de muitas

mulheres, como também de Kelly

Cristina da Silva (foto), 35 anos.

Aos nove anos de idade, começou

a trabalhar em uma feira no Aglomerado

da Serra, local onde vive até

hoje, para ajudar a mãe, que tinha

mais dez filhos/as. Aos 21 anos, foi

chamada por uma das clientes para

trabalhar como doméstica. A partir

daí, passou por diversas casas e considera

difícil relatar algumas situações

que viveu. “Uma vez, trabalhei

em uma mansão em que fui contratada

para manter a casa limpa e

cozinhar, mas acabava fazendo de

tudo: faxina, limpar calha, piscina,

lavar roupa. Um dia, a patroa chegou

irritada dizendo que meu serviço

não tava rendendo e eu disse

que era porque eu estava fazendo

72 Revista Elas por Elas - maio 2022

n Carina Aparecida


a mais do que tinha que fazer. Ela

ficou nervosa, disse que empregada

doméstica tinha obrigação de fazer

tudo dentro da casa e que a patroa

dava fim de semana e feriado de

folga para a empregada só se quisesse,

que a gente tinha mesmo que

trabalhar”, relembra. Kelly ainda

recorda que a filha da patroa chegou

mandando ela calar a boca e,

depois, foi demitida.

Esse não foi um caso isolado. Infelizmente,

Kelly guarda na memória

muitas outras situações de desprezo

e exploração. Trabalhou em uma

outra casa em que foi contratada para

cuidar de uma senhora, mas tinha

que fazer também serviços domésticos.

“Limpava a casa, fazia compra,

cozinhava, tinha que sair para

comprar cigarro para a filha dela e

lavava roupa. Mas não podia nem

encostar na máquina de lavar, não

deixavam. Eu acabava lavando na

mão mesmo”, recorda.

Além de tantas situações de humilhação,

Kelly relembra também o

racismo presente nas relações de

trabalho doméstico em uma situação

em que, mais uma vez, tentou

defender seus direitos, dizendo que

precisava ganhar mais para fazer

tantas coisas. “Minha patroa disse

que vivia no tempo da senzala, que

se ela quisesse me colocar no tronco,

me colocaria. Eu fiquei sem chão,

sem rumo. Eu falei que sabia que

sou preta, mas tenho muito orgulho

da minha cor, da minha raça,

que não é porque eu sou preta que

devo ser escrava. Ela me mandou

embora na hora. Depois, disse que

me mandou embora porque roubei

uma tesoura de cortar cabelo e dois

rolos de papel higiênico. Eu fiquei

passada! Na época, como eu não

sabia ler direito só fui saber bem

depois que minha carteira foi assinada

com menos tempo e não pagaram

meu INSS”, relata.

Todo trabalho doméstico

tem um pouco de navio

negreiro?

De acordo com a Pesquisa Nacional

por Amostra Domiciliar (PNAD) de

2018, do IBGE, no Brasil são cerca

de 6,2 milhões de trabalhadores/as

domésticas, sendo que 92% são mulheres

e, entre elas, 68% são negras.

Andréia de Jesus, deputada estadual

(PT), é uma mulher que já

fez parte dessa estatística. Eleita em

2018, sua vitória representa um marco

histórico para a política institucional

do estado: foi a primeira mulher

negra eleita para legislar na ALMG

(Assembleia Legislativa de Minas Gerais).

Sua trajetória militante e parlamentar

não apaga as memórias

que traz como trabalhadora doméstica.

Pelo contrário, relembra com

riqueza de detalhes essa caminhada,

também marcada por tantas situações

de opressão.

“Herança de família, né? Minha

mãe começou a trabalhar como empregada

aos 11 anos. Eu também comecei

aos 11 anos, na casa de pessoas

brancas, que não eram ricas,

mas esse padrão classe média”, relembra

Andréia ao refletir sobre a

desigualdade que já começava a perceber

neste momento. “Foi um universo

que se abriu quando eu passei

a trabalhar na casa dos outros.

Banheiro com azulejos, tipos de talheres,

copos, taças, produtos de limpeza,

vaso com tampa, porque na

minha casa não tinha nada disso.

n Carina Aparecida

Revista Elas por Elas - maio 2022

73


Para ela, falar dessa violência é

denunciar o quanto, nesta relação de

trabalho, está muito presente a herança

escravocrata e também problematizar

uma visão frequente de

que há empregadas “que são como

da família”. “Esse lugar do “animal

de estimação”, que é uma expressão

muito doída, mas que eu vi durante

os debates feitos a partir da Lei

que igualava o trabalho doméstico

a outras profissões. Uma visão de

que a empregada doméstica é quase

da família, igual um bicho de estimação.

Só que não. Um bicho de

estimação não é da família. E aí você

não tem feriado, Natal, ano novo

e você se submete a isso, porque você

precisa do salário. Muitas vezes,

se submeter a trabalhos exaustivos

que você não pode dizer não, porque

a única fonte de renda é a experiência

mais próxima da escravidão”,

ressalta.

Eu descobri nessas casas que cada

membro da família tinha uma toalha

de banho - lá em casa minha

mãe dava banho e secava todo mundo

com a mesma toalha e que era

feita de saco. Não tinha essa dimensão,

esse acúmulo de coisas que as

pessoas brancas, ricas têm”, conta.

Andréia de Jesus (foto) diz que

começou a perceber o que é ser “o

tivesse uma doença que pudesse passar

para o resto da família, ser esse

objeto, ser tratado como ferramenta,

como enxada, como foice e não

como ser humano. E é opressor demais

o que recai majoritariamente

sobre as mulheres”, afirma.

Para Andréia, falar do papel das

mulheres neste mercado de trabalho,

e no caso de mulheres negras, é

pensar em uma inserção a partir do

cuidado da casa e da família do outro,

que é um lugar extremamente

precarizado. “O trabalho na infância

e o trabalho doméstico retiram muito

de nós mesmos. O seu tempo para

questionar, para analisar, para se

mordomo da casa grande”: descobrir

que as relações, a organização

histórias. E quanto isso se repete de

“Recebe muito pouco, de-

conhecer, conhecer seu corpo, suas

da vida de quem é rico, de quem tem

geração em geração, vai sendo naturalizado.

Ter uma ajudante em casa,

pende da boa vontade da

acesso é muito diferente de quem é

patroa, do patrão e você

pobre e que vive com o mínimo. “Recebe

muito pouco, depende da boa nunca é pessoa: é a últi-

é quase uma relação de troca, prin-

uma diarista, a relação de trabalho

vontade da patroa, do patrão e você ma a comer, tem copo e cipalmente quando debatemos a noção

classista, descobrimos aí a ‘mais

nunca é pessoa: é a última a comer, prato separado.

tem copo e prato separado. Experiências

que eu vivi e que achava extremamente

natural. É como se você

valia’ para entender essa trabalhadora

como operária, que contribui

para o sistema capitalista”, reflete.

n Nádia Nicolau


Trabalho estrutural

e desvalorização

Um trabalho indispensável para

fazer girar a roda do capital, que

carrega as marcas da relação escravista,

segue enfrentando diversos

desafios para a devida valorização

e reconhecimento. Nesta jornada

de lutas por direitos, é importante

lembrar da Emenda Constitucional

n° 72/2013, conhecida como PEC

(Proposta de Emenda Constitucional)

das Domésticas, que foi regulamentada

pela Lei Complementar

n° 150/2015. Com a Lei, há sete anos,

as/os trabalhadoras/es domésticas/

os têm o direito à carteira assinada,

e como isso, acesso a direitos trabalhistas,

como Fundo de Garantia

por Tempo de Serviço (FGTS), jornada

de trabalho fixada em oito

horas diárias e 44 horas semanais,

pagamento de horas extras, recebimento

de multa por demissão sem

justa causa, intervalo durante o expediente

entre outros benefícios garantidos

pela CTPS.

Para Lucileide Mafra Reis (foto),

presidenta da Federação das Trabalhadoras

e Trabalhadores domésticas/os

da região Amazônica, uma

conquista fruto da luta de classes,

em defesa dos direitos da maior categoria

do país. “A profissão de trabalhadora

doméstica em nosso país

é tão antiga quanto o mundo é mundo,

porém ainda hoje é tratada de

forma desigual pela sociedade capitalista

e opressora, que não valoriza

essas profissionais, tratando como

refugo da sociedade”, afirma.

De fato, a desigualdade parece

ser uma marca deixada para esta

profissão. Mesmo com o direito

assegurado à CTPS, muitas trabalhadoras

seguem na informalidade.

Inclusive, com casos análogos à

escravidão, como o que veio à tona

no de 2021, da Madalena Gordiano,

mulher negra, de 46 anos, escravizada

por uma família em Patos de

Minas (MG), durante 38 anos.

Em tempos de pandemia, o acesso

aos direitos parece ter ficado ainda

mais inalcançável. “Infelizmente,

o primeiro caso de Covid-19 no

Brasil teve como vítima uma trabalhadora

doméstica. Essa foi a ponta

do iceberg para a categoria, que

foi extremamente penalizada pela

pandemia, principalmente as trabalhadoras

diaristas”, afirma Lucileide

Mafra, recordando o simbolismo

da morte de Cleonice Gonçalves, infectada

pelos patrões que haviam

viajado ao exterior. Os números

confirmam também a precarização

crescente nestes tempos: segundo a

PNAD Contínua, divulgada em janeiro

de 2021, 1,5 milhão de postos de

trabalho doméstico foram perdidos

de setembro a novembro de 2020.

Também durante a pandemia,

vimos a trágica morte do menino

Miguel Otávio Santana da Silva, no

dia 2 de julho de 2020, após cair do

nono andar de um prédio do centro

de Recife/PE. Com a quarentena,

Miguel, sem poder ir à escola, estava

naquele dia acompahando sua mãe

que, na época, trabalhava como

empregada doméstica na casa de

Sarí Corte Real, primeira-dama do

município de Tamandaré. No momento

da queda, a criança estava

sob os cuidados da patroa, porque

n Arquivo CTB

Revista Elas por Elas - maio 2022

75


Ela pontua que “direitos não se retiram,

sua mãe, Mirtes Renata S. de Souza, trabalho doméstico for compartilhado,

76 Revista Elas por Elas - maio 2022

tinha saído para levar o cachorro da

patroa para da uma volta no bairro.

A morte de Miguel indignou o país

inteiro e fez crescer movimentos

de protesto exigindo justiça. O caso

ainda continua na Justiça.

a gente evita ter uma “pequena

escrava” dentro de casa. Cozinhar,

faxinar, lavar roupa, se vai terceirizando

tudo e as mulheres brancas

fazem muito isso: para elas se libertarem,

jogam para o corpo das mulheres

direitos se ampliam”.

Maria Catarina já não sente na pele

as opressões cotidianas dessa relação

trabalhista, mas ainda se sente

tocada quando vê as notícias que

abordam a humilhação vivida por

negras os afazeres que aca-

essas trabalhadoras. “Eu queria mui-

Um horizonte de

bam nos dificultando a entrar no tas mudanças para as empregadas

visibilidade e respeito mercado de trabalho, de estar na domésticas, que fossem valorizadas,

Kelly Cristina da Silva enfrentou

muitas dificuldades na pandemia,

mas em maio do ano passado foi contratada

com carteira assinada. “Hoje,

me sinto mais segura por saber

que tenho meus direitos respeitados

e que posso dar segurança aos meus

filhos Iago e Lavínia”, relembrando

também que em algumas casas

não deixavam ela levar as crianças,

mesmo ela não tendo onde deixá-las.

Enquanto Kelly comemora o trabalho

formal após tantas experiências

de precarização, Andréia de Jesus

ocupa um cargo parlamentar,

trazendo para o mandato a reflexão

sobre o racismo estrutural, com as

inquietudes de toda a sua trajetória.

Explica que há uma agenda feminista,

que traz a importância do

compartilhamento das tarefas domésticas.

Para ela, a manutenção da

vida tem que superar esse tabu que

só as mulheres têm a habilidade para

o cuidado. “Isso precisa necessariamente

passar pela educação, o

papel que a escola tem na formação

do sujeito, isso deve ser discutido,

a distribuição desse tipo de trabalho,

algo essencial para tirar do

corpo das mulheres essa obrigação”,

ressalta. E mesmo entre as mulheres,

Andréia reflete sobre uma desigualdade

histórica. “Quanto mais o

pesquisa, na academia. Desafios no

campo dos costumes e também em

políticas do Estado”, explica. Para a

parlamentar, a legislação só pode

acompanhar a complexidade desse

trabalho se as mulheres perceberem

a violência presente na própria relação

com o mundo.

Para Lucileide Mafra, uma das

soluções seria a sincronização dos

órgãos fiscalizadores, para garantir

o cumprimento da lei trabalhista,

inclusive aplicando punições para

coibir a infringência desses direitos.

enxergadas como ser humano, pois

muitas não são. Há até casos de trabalhadoras

apanhando. Elas merecem

respeito, é um serviço digno e

necessário”, afirma.

Em caminhos diferentes, mas simbolicamente

lado a lado, Maria Catarina,

Kelly Cristina, Andréia de Jesus

e Lucileide Mafra compartilham

a escuta de memórias que se cruzam

e a esperança de uma sociedade

que valorize a reprodução da vida,

não como dom ou caridade, mas sim,

como força: força de trabalho.

n Carina Aparecida


Revista Elas por Elas - maio 2022

77


n Adobe Istock

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Revista Elas por Elas - maio 2022


Educação

por Denilson Cajazeiro

Luz, câmera, educação!

Professoras reinventam a sala de aula e mantêm o ensino durante a pandemia

Logo que a pandemia do novo

coronavírus se instalou no Brasil e

as aulas presenciais foram suspensas,

entre março e abril de 2020, a

professora Beatriz Silva, de 38 anos,

precisou transformar o quarto do

bebê em seu set de filmagem. Foi

nesse cômodo, o mais silencioso da

casa, que ela passou a gravar as aulas,

editar os vídeos, filmar os conteúdos

e dar conta de todos os recursos

multimídias necessários para

que o ensino virtual fosse mantido,

em uma escola particular da

região metropolitana de Belo Horizonte

(a pedido da entrevistada,

a reportagem alterou o seu nome,

pois ela teme que sua história possa

lhe render críticas no ambiente

profissional).

À época, ela estava grávida de cinco

meses. Tudo foi muito rápido, e a

pouca experiência que tinha com o

audiovisual não foi suficiente para

lhe trazer tranquilidade no uso das

novas tecnologias. “Foi bem tenso

no início. Eu me lembro que gastava

muito tempo para fazer as aulas, porque

tinha essa questão de os equipamentos

não estarem preparados para

essa finalidade. Foi um momento de

muito desafio, e tivemos de aprender

muita coisa em pouquíssimo tempo”,

conta Silva, que leciona português

para estudantes do quarto e quinto

anos do ensino fundamental e teve

de redesenhar a maneira de ensinar,

para reter a atenção dos/as alunos/

as e evitar a dispersão.

No início, as videoaulas eram gravadas,

muitas vezes de madrugada,

quando a casa estava silenciosa,

mas depois elas passaram a ser

realizadas pelo formato de lives, ao

vivo com os/as estudantes – o que

demandou dela a aquisição de um

novo computador, com uma configuração

mais avançada.

“Até precisei no começo, mas não

comprei, por causa do cenário de insegurança

que estávamos vivendo,

Revista Elas por Elas - maio 2022

79


com algumas escolas reduzindo salários.

Aí peguei um emprestado do

meu cunhado, por quatro meses, e

só depois comprei um novo”, revela

a educadora, que diz ter perdido

a conta dos momentos que precisou

amamentar seu bebê, no intervalo de

20 minutos entre uma aula e outra,

e de quantas vezes teve de ir para a

casa da sogra, por conta de problemas

com a internet.

Aliás, foi esse o motivo que levou

a professora Sabrina Alves (nome fictício),

de 46 anos, a ministrar uma

aula no quintal de sua casa, encostada

no muro que faz divisa com a residência

ao lado. Sem qualquer aviso

prévio, sua internet simplesmente

parou de funcionar, e foi essa a solução

que ela encontrou, para pegar

o sinal emprestado pela vizinha.

“Tentei ficar virada para uma parede

lisa, sem muita informação, para

que os alunos não percebessem. Fiquei

umas duas horas e meia assim.

A gente fica muito nervosa, parece

que a culpa é nossa, mas não é,

né?”, relata a professora, que trabalha

com o ensino fundamental nos

setores público e privado.

Depois do episódio, ela decidiu

aumentar o plano de internet

e comprar um celular melhor, com

mais capacidade para armazenar

e processar dados. “Para trocar a

internet, tinha de ser em um dia

n Carina Aparecida

específico, que não íamos usar. Ficamos

muito pressionados. Tive amigas

que estavam quase surtando”.

Para Sabrina, o cenário foi o mesmo

que se viu em milhares de residências

de docentes em todo o país.

De repente, o escritório de sua casa

se transformou em sala de aula, a

parede virou uma lousa improvisada

e o computador de uso familiar

foi o equipamento mais demandado

por toda a família, em uma conexão

quase que permanente com

o mundo virtual. Entre uma aula e

outra, elas tiveram de se preocupar

com a luz, o áudio, o enquadramento,

como se fossem, além de professoras,

profissionais de audiovisual

ou videomakers.

“Foi muito assustador. Não dominava

muito a tecnologia e, do nada,

tive que saber um monte de coisa.

Fui à casa de colegas para aprender

como usá-la. Nas aulas, a família toda

ficava travada. O menino não podia

fazer barulho, o cachorro não podia

latir, não podia ter um carro passando.

Era muita coisa para prestar atenção.

Todas nós sofremos com isso,

de regravar várias vezes, por conta

da luz, de um barulho. Além disso, a

gente tinha de ficar ligada no whatsapp

o tempo todo, porque sempre

tinha um recado da escola ou de aluno”,

conta a professora.

Falta de reconhecimento

patronal

Para a educadora Valéria Morato,

presidenta do Sinpro Minas, sindicato

que representa os docentes

do setor privado no estado,

todo esse esforço das professoras

não resultou em valorização da

80

Revista Elas por Elas - maio 2022


carreira profissional. Ao contrário

disso, afirma Valéria, muitas escolas

se aproveitaram da pandemia

para retirar direitos da categoria e

reduzir salários.

“Desde março de 2020, as professoras

se reinventaram e mantiveram

a educação. Isso foi notório.

Desconheço alguma docente que

não tenha investido boa parte do

seu tempo e recursos financeiros

para dar conta do ensino. Elas refizeram

a didática cotidianamente

e conseguiram, apesar das diversas

pressões e adversidades, repassar o

conhecimento. Infelizmente, muitos

donos/as de escolas não reconheceram

todo esse trabalho e, ao invés

disso, até propuseram retirar direitos

e reduzir salários nesse período

de crise sanitária, para a surpresa

de todos/as nós”, afirma Valéria

Morato (foto).

Ela destaca que, nesta pandemia,

o Sinpro Minas entrou com diversas

ações na Justiça, para preservar

a saúde dos/as professores/

as e garantir cumprimento dos direitos

trabalhistas da categoria. Foram

assinados acordos e convenções

emergenciais, que permitiram

preservar empregos e conquistas

dos professores/as, e várias escolas

foram denunciadas à vigilância sanitária,

por descumprir protocolos

sanitários. O sindicato também notificou

prefeituras, para que cumprissem

decisões judiciais e medidas

de distanciamento.

“Encaminhamos uma série de

ações durante a pandemia, e uma

das nossas principais preocupações

foi garantir o direito à vida. Tivemos

uma conquista importante nesse

sentido, que foi a inclusão dos/as

trabalhadores/as em educação na escala

prioritária de imunização contra

a Covid-19. Trabalhamos bastante

para isso, em diálogo tanto com

prefeituras quanto com os órgãos

estaduais, e a categoria pressionou

“Encaminhamos uma

série de ações durante

a pandemia, e uma das

nossas principais preocupações

foi garantir o

direito à vida

muito para que a vacina se tornasse

realidade. Sempre defendemos

a volta às salas de aula, mas de forma

segura, para garantir a saúde física

e mental de toda a comunidade

escolar”, afirma Valéria Morato.

Segundo ela, o esforço do sindicato

neste momento tem sido para retomar,

com os/as donos/as de escolas, o

diálogo sobre a necessária valorização

da carreira docente, além de discutir

ações para os desafios impostos

pela pandemia na educação, que

devem perdurar por algum tempo.

“A pandemia mostrou que a educação

é fundamental”, resume Beatriz

Silva. Para a professora Sabrina

Alves, um aspecto negativo que se

n Mark Florest

Revista Elas por Elas - maio 2022

81


razões econômicas ou falta do serviço

tornou evidente nesse período foi a

distância entre os setores público e

privado de ensino. Em todo o país, a

retomada das aulas nas escolas públicas

foi mais lenta, e os alunos tiveram

menos contato com as instituições

de ensino durante a pandemia.

De acordo com o Instituto Nacional

de Estudos e Pesquisas Educacionais

Anísio Teixeira (Inep),

órgão vinculado ao Ministério da

Educação, 64% das escolas públicas

brasileiras disponibilizaram aulas

ao vivo ou gravadas para seus alunos/as

em 2020, seja pela internet,

rádio ou televisão. Visto de outro

modo, significa que cerca de um

terço das escolas públicas não ofertou

aulas remotas naquele ano.

Para especialistas em educação,

os números podem ser explicados

pela dificuldade de acesso à tecnologia,

a equipamentos ou à internet

na rede pública, tanto por parte das

instituições de ensino quanto pelos/

as estudantes. Segundo dados da Pesquisa

Nacional por Amostras de Domicílios

(Pnad), do IBGE, cerca de 4,3

milhões de alunos/as no país não tinham

acesso à internet, em 2019, por

no local onde vivem. Desse total,

4,1 milhões eram da rede pública.

Vale lembrar que, em julho de

2021, o governo Bolsonaro recorreu

ao Supremo Tribunal Federal

(STF) para suspender a lei que prevê

o repasse aos estados de R$ 3,5 bilhões

de recursos da União para serem

investidos em ações de conexão

à internet, destinadas a alunos/as e

professores/as de escolas públicas.

“A pandemia ressaltou muitas

desigualdades e mostrou que ambas

as redes precisam se preparar

muito para enfrentar esse desafio.

Demonstrou também que teremos

agora um desafio enorme para frente,

nos próximos anos, pois precisamos

resolver as lacunas de conhecimento.

E sobre o ensino remoto,

revelou que as crianças têm muito

mais capacidade de se adaptar do

que a gente imaginava. E os educadores/as

também”, opina a professora

Beatriz Silva.

Os professores atuam

como resistência

Arte-educadora, com trabalhos

em escolas infantis e em projetos sociais,

Sara Brito também se desdobrou

para garantir a continuidade

do ensino durante a pandemia. “No

meu caso, o meu quarto virou espaço

de brincar. Precisei pintar a parede

e reorganizar a mobília. Arrastei

minha escrivaninha para o outro

lado, porque preciso de muito espaço

para as aulas de dança e as brincadeiras.

Pesquisei um tutorial de

iluminação para fazer um softbox,

comprei um ring light e tive que fazer

um upgrade no meu notebook”.

n Arquivo Sinpro Minas


n Adobe Instock

Sara Brito

n Ana Luísa Cosse

O empenho para transferir o conhecimento

pelas redes trouxe bons

resultados e, até hoje, muitos pais a

procuram para falar da repercussão

das aulas gravadas e de como elas

foram importantes para as crianças.

“Isso me faz pensar na importância

da relação família-escola”, diz.

Mas, com tantas tarefas novas,

a rotina dela ficou tumultuada.

“Precisei de muitas tabelas, papeizinhos

na parede e chá de camomila!

Precisei conciliar trabalho

na escola, aulas particulares, graduação,

estágio, filha de 6 anos e

suas aulas online, tarefas domésticas

e cuidados redobrados

de higiene. O pouco tempo

que sobrava ficava para o lazer,

que também teve que caber

dentro de casa”, relata.

Bailarina e pesquisadora do

grupo Folclórico Aruanda, em

Belo Horizonte, Sara é também

graduanda no curso de licenciatura

em Dança pela Universidade

Federal de Minas Gerais (UFMG),

com formação livre em danças

populares brasileiras.

Confira a seguir o relato dela.

Na escola onde trabalho, tivemos um

primeiro momento de pausa, tentando

entender melhor a situação. Como

sou oficineira e atuo com projetos

nas turmas, optamos pelo envio

de vídeos semanais, com histórias e

brincadeiras para as crianças. Enviei

os vídeos até dezembro de 2020.

Em 2021, começamos uma tentativa

de retorno presencial, a partir de

março. Sempre em espaços abertos,

mantendo o distanciamento, com o

uso de máscara e álcool 70%.

Em maio, iniciei o projeto “Cara

de que”, que buscava ressignificar o

uso das máscaras, trazendo máscaras

utilizadas nas festas das culturas

populares brasileiras. Foi muito lindo

e emocionante. Sinto que foi uma

ação de resistência realizar um projeto

diante de tantas restrições, medos

e dificuldades. A “festa”, na verdade,

foi uma filmagem das brincadeiras

inspiradas nas máscaras brasileiras.

O resultado foi um vídeo. Seguimos

Revista Elas por Elas - maio 2022

83


com as aulas presenciais, observando o Sinto que passei por fases muito

diferentes. Inicialmente, o não sa-

protocolo sanitário estipulado.

A chegada do ensino remoto emergencial

foi um grande desafio. Primei-

ficar em casa sem uma perspectiva

ber o que fazer quando tivemos que

ro porque atuo na educação infantil e do amanhã. Em seguida, a tentativa

sempre foi impensável aula online para

crianças pequenas. Segundo porque familiares me fez buscar o ensino re-

de manter vínculos com as crianças e

seria necessário um investimento em moto como possibilidade (mesmo para

a educação infantil). Essa fase foi

equipamentos e estratégias de audiovisual

para produção de boas aulas. Por marcada por muitas dúvidas sobre o

fim, o fato de invadir e perder a privacidade,

abrindo uma janela de casa quanle

momento, se as crianças deveriam

que seria o melhor a ser feito naquedo

iniciava uma aula online.

ficar diante das telas.

Nós, professoras, tivemos que utilizar Depois de perceber que o processo

de isolamento ainda seria longo,

o que havia em casa, fazendo as gambiarras

necessárias com o espaço, iluminação,

figurino, roteiro e edição. Com recursos e propostas que fossem in-

chegou o momento de experimentar

relação ao trabalho com a primeira infância,

muito me surpreendi quando as uma fase de muita experimentação

teressantes para as turmas. Essa foi

crianças e familiares reagiram muito com as aulas gravadas. Tentei ver como

um espaço de criação artística.

bem às aulas virtuais e vídeos gravados,

demonstrando grande flexibilidade

e disponibilidade de ação.

cial. As aulas virtuais traziam a difi-

Depois foi a vez do retorno presen-

Durante o período de isolamento, culdade do cansaço visual e mental,

fiz uma canção com um amigo, professor

de música, que traduzia um pouco po em que ficava sentada. Já as aulas

além das dores na coluna pelo tem-

da vontade de sair de casa, pegar carona

num raio de sol e chegar à janela fios. Tinha o medo, a tristeza por não

presenciais trouxeram outros desa-

de uma pessoa querida. Uma expansão poder abraçar as crianças, o cansaço

do corpo-casa para além do espaço de vocal por ter que falar, cantar e dançar

usando máscara N95, a não reali-

casa. A inspiração veio de uma aula de

outra amiga, professora de ioga, quando

ela disse para uma criança: “Henri-

A pandemia me mostrou como a

zação da aula caso estivesse chovendo.

que, que bom que você veio!” E ele respondeu:

“Eu sempre estou aqui”.

tanto como espaço de convivência,

educação é primordial para todos,

A fala dele nos fez pensar sobre a relação

de presença, mesmo com a distân-

e física. Também me mostrou como

como de cuidado com a saúde mental

cia do isolamento. Ele fala de um vínculo

que foi construído no contato real e cia, tendo que se reinventar de muitas

os professores atuam como resistên-

que seguiu com ele. São esses atravessamentos

que alimentam cotidianos prefeitura, tudo mudava de novo. A

formas – e a cada determinação da

cercados de notícias assustadoras, encontros

mascarados e distâncias nos sigualdade social no nosso país. Eu fa-

pandemia também escancarou a de-

corações. Fazer essa música foi um grito

e um respiro. Além disso, minha filha veram escolha, tiveram acesso. Muilo

de um lugar onde meus alunos ti-

também participou.

tos não tiveram, e isso é muito triste.

84 Revista Elas por Elas - maio 2022

Andréa Pinheiro

professora na Universidade

Federal do Ceará

Com a pandemia e as aulas remotas,

tive que fazer adaptações

em casa para trabalhar, de forma

mais confortável, já que usaria todos

os dias o que utilizava apenas

no final de semana. Porém, a mudança

mais radical foi a sensação

de que o trabalho nunca acaba. Antes

da pandemia, saía do trabalho e

estava disponível para outras atividades,

em outro ambiente.

Nas atividades remotas, a sensação

é de profundo cansaço, porque

você passa o dia todo diante da

tela do computador com as aulas

e, depois, várias outras atividades

que também passaram a ser virtuais,

como corrigir provas, trabalhos,

acompanhar alunos/as e muitas

reuniões, em geral longas.

O fato de a gente não se encontrar,

ver e olhar faz diferença. Tem

sido muito difícil para todo mundo,

pela doença em si, pelo medo, pelo

isolamento social. Por isso as estratégias

para falarem de si, das angústias,

do que está maltratando, dos

medos, têm ajudado a provocar um

distensionamento nessas questões.

n Flávio Paiva


n Arquivo pessoal

n Tony Luiz Araújo

n Carina Aparecida

Flávia Pereira Dias Viegas

Professora do ensino

básico

Como professora, os desafios impostos

pela pandemia foram muitos.

No início, ter que sair da sala de aula

física, cheia de alunos, e dar aula

para a tela do computador, sem ver

as carinhas deles, sem ter o contato

olho a olho, sem perceber se entenderam

ou não a matéria só com

um olhar, foi bem frustrante. Com o

passar do tempo, fui me acostumando

com o “novo normal”, e daí surgiu

uma nova condição: o ensino híbrido.

Voltar para a sala de aula física,

mas de olho na tela do computador,

também trouxe desafios. Porém,

já fortalecida e alegre por estar

na escola e tomando os devidos

cuidados necessários, foi relativamente

tranquilo.

A rotina da minha casa teve

que ser adaptada para as aulas

on-line, e os meus filhos aprenderam

a ficar quietinhos durante o

meu horário de trabalho. Acredito

que os alunos que conseguiram

ter foco e disciplina durante as aulas

remotas foram pouco prejudicados,

mas, infelizmente, essa não

foi a realidade da maioria.

Lourdes Silva

professora na Universidade

Santo Amaro (SP)

Em março em 2020, quando iniciou

a pandemia e começamos as

aulas on-line, entre as disciplinas

que ministrava na graduação em

Comunicação estava a de “Ética e

Legislação Publicitária”. Apesar de

ministrá-la há algum tempo, percebi

a necessidade de repensar e diversificar

a metodologia, considerando

o contexto das aulas on-line,

visto que as interações, o face a face,

eram de outra natureza. Entre

os achados, uma das técnicas que

utilizei e que funcionou de modo

bem eficaz foi a elaboração de mapas

mentais. Acredito que planejar

a metodologia da aula não se limita

a eleger o uso de recursos digitais

na aula on-line, mas eleger a técnica

mais eficaz para aquele conteúdo.

Uma técnica metodológica bem

planejada possibilita que o professor

motive e mobilize seus alunos ao

aprendizado. O contexto desafiou a

todos nós, no universo educacional.

Os professores precisaram se reinventar

mais que o usual para tornar

a aprendizagem mais encantadora

e assim encantar também os alunos.

Liliani Salum

professora de Química no Centro

Universitário Uni-BH

Início de semestre tranquilo, como

nos últimos 40 anos, e de repente

a pandemia! Tudo virou um pandemônio!

Os alunos sumiram, eu sumi,

todos sumiram. Professor sem aluno

é como mãe sem filho! A transição

da sala de aula para as aulas on-line

não foi fácil sob vários aspectos, entre

eles o tecnológico, o financeiro e

o emocional. Dominar as novas tecnologias,

por mais que já se saiba, foi

um grande desafio. Tive que aumentar

a velocidade da minha internet,

minha conta de luz também aumentou,

mas minha carga horária permaneceu

a mesma e, consequentemente,

o meu salário.

Sou professora de Química, teórica

e prática. Usar programas de laboratórios

virtuais só minimizou a minha

preocupação com o manuseio do bico

de gás e do ácido sulfúrico, mas não

substituiu a maravilhosa vivência dos

alunos nos procedimentos experimentais.

O mais difícil dessa nova jornada

acadêmica foram as aulas. Falar para

vários quadradinhos com o nome dos

alunos, sem nenhum questionamento,

nenhuma reação.

Revista Elas por Elas - maio 2022

85


n Mark Florest

86

Revista Elas por Elas - maio 2022


Artigo

Valéria Morato

Que país seremos daqui a 40 anos?

Educação, ciência e tecnologia

andam de mãos dadas em qualquer

nação desenvolvida economicamente

ou que deseje trilhar este caminho.

Compreendo por desenvolvimento

econômico a capacidade de

um país intensificar sua industrialização

com bens e serviços sofisticados,

que demandem cada vez mais

tecnologia e conhecimento.

Economias sofisticadas precisam

de cientistas, pesquisadores/as e profissionais

de ponta em todas as áreas,

centros de pesquisa, escolas equipadas

e conectadas, professoras/es

bem remunerados/as, estudantes

motivadas/os (e bem alimentadas/

os) e grade curricular maior e mais

diversificada.

Quanto mais um país se industrializa,

maior será sua condição de

gerar riquezas, distribuir renda e

aumentar o padrão de vida da sociedade,

em especial dos mais excluídos,

em especial as mulheres pobres

e negras. Para essa roda girar,

são necessários constantes e volumosos

investimentos na economia

e, em especial, em todos os níveis do

sistema educacional e em pesquisa

e desenvolvimento.

Cabe ao Estado liderar este projeto

e articulá-lo aos demais interesses

(do mercado financeiro, do

capital produtivo e da sociedade).

Nos últimos 40 anos, países com economias

menores apostaram no conhecimento

e na industrialização

como base de suas estratégias nacionais

de desenvolvimento e obtiveram

crescimento econômico e

aumento da qualidade de vida acima

da média mundial e avançaram

em políticas de igualdade de gêneros.

Alguns destes países já figuram

como potências econômicas e protagonistas

na geopolítica mundial.

O exemplo da Coreia do Sul é emblemático.

Até a década de 1980, o

país exportava produtos de baixíssimo

valor agregado, como perucas

e bicicletas. O Estado coreano criou

uma política industrial de “incubação”

de indústrias nacionais, garantindo

proteções tarifárias, reservas

de mercado e créditos de bancos públicos.

Exigiu como contrapartida

Revista Elas por Elas - maio 2022

87


que as empresas tivessem eficiência

competitiva e conquistassem mercados,

o que resultou no desenvolvimento

de uma indústria de alta

tecnologia, como a Hyundai e a Samsung,

e a maior empresa de siderurgia

do mundo, a estatal POSCO.

A China também tem apresentado

resultados exuberantes após

40 anos de ininterrupto desenvolvimento.

Seu PIB é de US$ 20 trilhões

(2º do mundo) e a produção industrial

movimenta US$ 4 trilhões. Entre

2008 e 2017, os salários cresceram

200% como parte da estratégia

para o crescimento do mercado interno.

Não por acaso, o país incluiu

400 milhões de cidadãs e cidadãos

na classe média entre 2008 e 2017.

Esta revolução dentro da revolução

se iniciou no final da década

de 1970, quando os chineses assumiram

suas limitações econômicas

e, literalmente, criaram uma economia

de mercado para alavancar o desenvolvimento

socialista, e mecanismos

para entender quais seriam os

pontos de inflexão da economia e se

antecipar para continuar crescendo.

No início dos anos 2000, o país

construiu seu sistema nacional de

inovação que o colocou na fronteira

tecnológica de setores como eletroeletrônicos,

automobilístico e o da energia

limpa. Os chineses construíram 96

conglomerados para atuar nos diversos

setores da economia. Cada conglomerado

é do porte da Petrobras.

Para sustentar seus ciclos de desenvolvimento,

Coreia e China investiram

fortemente na educação em todos

os níveis, a partir da educação

de base. A consequência foi a formação

contínua de professoras/es, pesquisadoras/es

e cientistas altamente

n Adobe Istock

88

Revista Elas por Elas - maio 2022


capacitados pelas universidades. Na

Coreia, todo o ensino básico e 80% do

ensino público são financiados pelo

Estado. Na China, o ensino é gratuito

e obrigatório dos seis aos 15 anos,

e as/os alunas/os passam no mínimo

sete horas diárias na escola. No

ensino médio, jovens e adolescentes

estudam de oito a 13 horas por dia.

Investimentos estatais para alavancar

as economias e impulsionar

(ou manter) seus sistemas de educação

e pesquisa também são a regra

na América do Norte e na Europa.

A União Europeia anunciou plano

de recuperação econômica de € 750

bilhões, e os EUA vão investir US$ 5

trilhões em rodovias, ferrovias e aeroportos,

na indústria de semicondutores,

na saúde e educação públicas.

Lembrando que o festejado sistema

privado do ensino superior norte-

-americano é financiado por vultosos

fundos públicos, e 73% das/os

estudantes de nível superior norte-

-americanos estão matriculadas/os

em universidades públicas.

E o Brasil?

Nação que mais se desenvolveu entre

1930 e 1980, o Brasil parou no tempo

e enfrentou, nos últimos 40 anos,

processo contínuo de desindustrialização

de sua economia, cuja participação

no PIB caiu de 25% para

10% entre 1980 e 2018. Lembram da

China? Pois é, eles nos visitaram em

1978, época em que nosso PIB era

três vezes maior do que o deles, para

entender nosso processo de crescimento

e aplicá-lo por lá.

Nos anos 1990, a abertura desenfreada

da economia sem a existência

de um regime cambial e de

incentivos favoráveis às exportações,

e as privatizações de empresas

estatais que poderiam obter ganhos

tecnológicos para o país (como

a Telebrás), aceleraram o desmonte

de parte do nosso parque industrial.

Durante os governos Lula e Dilma,

a retomada de investimentos no

setor produtivo, na educação, ciência

e na tecnologia iniciou um novo

ciclo de desenvolvimento, ainda limitado

pelo tripé macroeconômico

liberal, no qual especular é mais lucrativo

que produzir.

Na contramão do mundo, os governos

Temer-Bolsonaro, iniciaram

o maior projeto de desnacionalização

de nossa história, através de políticas

de aniquilamento do Estado

brasileiro, notadamente na prestação

de serviços essenciais à população

como educação e saúde. A constitucionalização

do congelamento

do orçamento destinado à população

é uma aberração fiscal que nenhuma

nação do mundo adota. Condena

o país ao atraso e amplia as já

profundas desigualdades sociais. Inviabiliza,

por exemplo, o Plano Nacional

de Educação, que previa dobrar

o investimento na área de 5%

para 10% do PIB até 2024.

O impacto na Ciência e na Tecnologia

é igualmente desastroso. Também

não precisamos explicar aqui

a imensa desvalorização que as/os

docentes sofreram com o desmonte

da Consolidação das Leis do Trabalho

(CLT) e com a impiedosa reforma

da Previdência. Para o sucessor

de Temer, “há professores em excesso

no Brasil”. Caso a PEC 32 venha a

ser aprovada, Bolsonaro terá carta

branca para expulsar docentes do

serviço público.

E se toda a política de desregulamentação

do ensino privado em

curso for levada a cabo, corremos o

risco de nos transformarmos rapidamente

em tutores de aplicativos

educacionais, quebrando-se de vez

a relação ensino-aprendizagem, a

compreensão do processo educacional,

o vínculo trabalhista da/o profissional,

a capacidade de diálogo e

do contraditório.

Eu me pergunto que nação

seremos em 40 anos, caso continuemos

a ser arrastados pelo ciclo

de autodestruição a que fomos

submetidas/os. De consumidoras/

es de aplicativos e softwares produzidos

em países ricos? De trabalhadoras

e trabalhadores precarizados

4.0? Eu escolhi lutar por

um modelo de desenvolvimento

que combine crescimento econômico

com igualdade, garantia de

direitos, distribuição de renda e

da riqueza e preservação ambiental,

e que promova, através deste

ciclo virtuoso, uma vida melhor

para mulheres e homens. Temos

capacidade econômica, território,

diversidade cultural e um povo

trabalhador. O que precisamos é

mudar de rumo agora.

Q

Valéria Peres Morato

Presidenta do Sinpro Minas e da CTB Minas

Revista Elas por Elas - maio 2022

89


Cansei

Larissa Isis

90

Revista Elas por Elas - maio 2022


Cansei

Marina Morena

Revista Elas por Elas - maio 2022

91


n Carina Aparecida

92

Revista Elas por Elas - maio 2022


Resistência

por Denilson Cajazeiro

Linhas de combate

Mulheres utilizam o bordado como forma de expressar

diferentes lutas na sociedade

A Praça da Estação é um local

em Belo Horizonte que tradicionalmente

acolhe manifestações populares.

Atravessada por uma avenida,

a dos Andradas, está localizada

bem no baixo centro da capital mineira,

ao lado do alternativo espaço

104 – uma antiga fábrica têxtil

transformada em centro cultural,

com café, cinema de rua e local de

shows e exposições artísticas.

Em um dos lados da praça, há

muitas árvores, uma boa área verde

e bancos disponíveis para aqueles

que planejam descansar um pouco

na região. A parte onde os manifestantes

se reúnem, do lado direito

de quem segue do centro para

os bairros, não se assemelha exatamente

a uma praça. Sem nenhuma

área verde, um dos poucos atributos

desse lado parece ser as fontes

artificiais espalhadas pelo extenso

piso cimentício. Quando estão ligadas,

servem para refrescar quem se

dispõe a entrar debaixo dos jatos

d’água, como muitas pessoas que

estão em situação de rua.

Mas é uma parte interessante,

principalmente por estar localizada

em frente à estação central do

metrô e ao prédio da antiga estação

ferroviária, onde hoje funciona

o Museu de Artes e Ofícios – o primeiro

no Brasil a se dedicar integralmente

ao tema do trabalho. Por ali

também transita diariamente uma

multidão apressada, o que permite

divisar uma infinidade de rostos e

imaginar suas preocupações.

Na manhã do dia 10 de julho do

ano passado, a praça foi palco de um

ato inter-religioso. Marcado por movimentos

e organizações sociais, coletivos

e sindicatos, a intenção era

protestar contra a gestão do governo

Bolsonaro diante da pandemia

do novo coronavírus.

Junto a outras integrantes do coletivo

de bordadeiras Pontos de Luta,

dona Seuza Marques (foto), de

83 anos, ajudou a confeccionar um

painel de quase 7 metros, que ficou

exposto durante a manifestação na

Revista Elas por Elas - março 2022

93


n Carina Aparecida

Pampulha, em Belo Horizonte, onde

praça. No tecido foram bordados 690 nossa tristeza. Teve gente que bordou

94 Revista Elas por Elas - maio 2022

corações com nomes de vítimas da

Covid-19 – entre elas alguns profissionais

da educação –, além de um

trecho do poema “Inumeráveis”, do

cordelista Bráulio Bessa. A ação fez

parte do projeto “Memória não morrerá”,

criado pelo coletivo Linhas do

Rio, e percorreu outras cidades brasileiras,

em exposições e protestos

itinerantes. Uma iniciativa que se

junta ao trabalho de inúmeros outros

coletivos existentes em todo o

país, em uma espécie de rede de bordado

e luta por mudanças sociais.

“Realmente, quando as pessoas

morrem, elas ficam gravadas no coração.

É uma forma de a gente expressar

chorando, porque perdeu pesso-

as muito próximas, outras nem conseguiram

bordar. A gente transfere,

no momento que estamos fazendo,

a revolta pelo descaso deste governo”,

protesta dona Seuza, professora

aposentada de Biologia.

Nascida na pequena Colônia Leopoldina,

em Alagoas, dona Seuza

viveu em Pernambuco, na Bahia

e no Rio de Janeiro antes de se fixar

em terras mineiras, em 1977.

No estado, trabalhou em três escolas

da rede pública de ensino – uma

em Santa Luzia e duas na capital –,

e atualmente mora em um apartamento

no bairro Castelo, região da

costura seus protestos. A militância

política começou em 1981, junto com

as greves e manifestações de professores

por melhores condições de trabalho,

mas a relação com o bordado

é bem mais antiga.

“Eu bordei muito quando era jovem,

em casa, para ajudar minha

irmã, que era bordadeira. Depois

que cresci, só pegava em uma linha

para pregar um botão, porque não

tinha tempo. Certo dia, mais recentemente,

fui ajudar uma vizinha a dar

uns pontos e depois disso retomei

o bordado. Não é uma obrigação, é

algo que você preenche o tempo. Na

verdade, é prazeroso. De qualquer


forma, qualquer bordado tem um

trabalho de criação. São frases de

protesto, e eu digo que são panfletinhos”,

diz dona Seuza.

Constituído majoritariamente

por mulheres, o coletivo Pontos de

Luta mantém o hábito de participar

de manifestações desde que foi

criado, em março de 2019. Já fizeram

protestos em defesa da ciência

e dos povos indígenas, a favor do

parto humanizado e do SUS, contra

o crime da Vale em Brumadinho e

as privatizações dos Correios e da

Petrobras, entre outros. O fato é

que, nos últimos anos, motivos para

bordar não faltaram. “A gente

trabalha com as coisas que acontecem,

com as reivindicações, com os

movimentos políticos todos. Sempre

participamos das manifestações.

Sempre na luta, porque decidimos

por meio do bordado expressar

nossa denúncia para a sociedade

de uma forma diferente”,

resume dona Seuza.

Uma das fundadoras do coletivo,

a assistente social Lúcia Pinheiro

(foto) sabe que a situação atual não

está nada fácil, e que muitas linhas

ainda terão de ser costuradas para

denunciar a realidade brasileira. A

economia do país não deslancha, o

desemprego está elevado, a inflação

disparou, a fome aumentou e

os salários cada vez mais acabam

bem antes do fim do mês.

Enquanto isso, em Brasília, a maior

preocupação do presidente Bolsonaro

parece ser suspeitar das urnas eletrônicas

e defender o voto impresso nas

eleições de 2022. Uma crise econômica,

política, social e sanitária sem precedentes

na história recente do país.

“A gente queria homenagear e dar o

nosso grito de indignação, em relação

a esse número enorme de gente

que partiu em função das ações desastrosas

deste governo”, afirma Lúcia

Pinheiro, sobre o painel de corações

confeccionado por elas.

“Estamos dentro de

casa, mas não em silêncio.

Agora mesmo,

bordamos as comemorações

do centenário

de Paulo Freire.

Isoladas, mas unidas

Com a pandemia, a rotina do grupo

foi alterada, e os trabalhos passaram

a ser feitos individualmente

e depois reunidos. Antes, os encontros

em ruas, praças e locais públicos

para bordar eram comuns no grupo,

e oficinas sobre a prática, frequentes.

“Estamos dentro de casa, mas

não em silêncio. Agora mesmo, bordamos

as comemorações do centenário

de Paulo Freire. Fizemos várias

bordações, e isso contribui para

a socialização e de certa forma traz

um fortalecimento para as pessoas

que estavam em casa sozinhas”, diz

a assistente social.

n Carina Aparecida

Revista Elas por Elas - maio 2022

95


n Carina Aparecida

do presidente Bolsonaro, que, no dia

27 de agosto, chamou de idiota quem

diz que precisa comprar feijão. Para

ele, “todo mundo tem que comprar

fuzil”. Isso foi dito em meio à elevada

alta no preço dos alimentos. Segundo

o Dieese (Departamento Intersindical

de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos),

em julho de 2021 o trabalhador

brasileiro precisou gastar, em média,

55,68% do salário mínimo para comprar

a cesta básica. “Ah, meu filho, tenho

muita esperança de dias melhores,

mas que a gente tem de batalhar,

isso tem”, diz dona Seuza.

Mais recentemente, o coletivo iniciou

o projeto Verdear, que consiste

em bordar espécies de árvores de

Belo Horizonte, em apoio aos movimentos

da cidade de proteção às áreas

verdes. Nas redes sociais, o grupo

também posta imagens de trabalhos

feitos individualmente por suas integrantes.

“Não tire a máscara, tire

o Bolsonaro!”, pede um bordado.

“Nossos trabalhos simbolizam a resistência

e a luta contra toda forma

de opressão. É uma linguagem política.

A gente transborda um sentimento.

Há toda uma carga ali, se alegria,

se tristeza, se revolta, se repúdio a

uma ação opressora. É isso”, define

Lúcia Pinheiro.

Entre uma linha e outra, dona Seuza

permanece, em casa, atenta ao noticiário,

em busca daquilo que pode

servir de motivo para tecer seus “panfletinhos”.

Na última conversa com

a reportagem, ela havia acabado de

bordar a seguinte mensagem: “Queremos

feijão no prato, nada de fuzil!”.

Era uma resposta à declaração

“Nossos trabalhos simbolizam

a resistência e

a luta contra toda forma

de opressão. É uma

linguagem política. A

gente transborda um

sentimento.

Bordando histórias

Marcado por diferentes técnicas, o

bordado é uma prática social cuja

origem é incerta. O que se sabe é que

o trabalho sobre o tecido atravessou

séculos e está presente em diferentes

culturas, com variados usos

e simbologias ao longo da história –

da demonstração de poder e status

social à expressão artística, pessoal,

de protesto ou da identidade de um

povo. Ou, simplesmente, como forma

de reparar roupas danificadas.

Com sentido político, uma das experiências

que se tornou bastante conhecida

foi a das arpilleras, técnica

que surgiu em Isla Negra, no Chile,

por meio da qual as bordadeiras denunciavam

as violações da ditadura

de Pinochet, a partir da década 70.

Recentemente, o bordado voltou

a ganhar projeção, sobretudo o de

protesto. Em uma época efêmera,

industrializada e acelerada, fixar

uma frase ou desenho em um pano,

por meio de um trabalho manual,

detalhado, que leva tempo, tornou-se

por si só uma espécie de resistência.

96

Revista Elas por Elas - maio 2022


No ano passado, por exemplo, o Sesc

Pinheiros, em São Paulo, recebeu a

exposição Transbordar: transgressões

do bordado na arte, que reuniu 39

artistas de diferentes gerações.

A mostra apresentou dois núcleos:

um histórico, em que um dos destaques

foram obras de protesto a regimes

ditatoriais latino-americanos,

e outro com artistas que, desde os

anos 1980, usam o bordado de forma

subversiva, para expressar uma

crítica política. Um dos trabalhos

apresentados foi o da artista visual,

educadora e pesquisadora Rosa

Paulino, que se destaca por sua produção

ligada a questões sociais, étnicas

e de gênero – sobretudo aos

diferentes tipos de violência sofrida

pela mulher negra.

“Eu acredito que o bordado está

na vida das pessoas, na vida das mulheres

desde que as vestimentas foram

iniciadas. O entrelaçar fibras,

lãs, fios, linhas foi simplesmente surgindo,

sendo aprimorado e modificado

no decorrer da vida, a cada

situação social. As tramas, de maneira

geral, não só formam o tecido

como também comunicam histórias

e trajetórias sociais”, aponta

Ralyanara Freire, doutora em antropologia

social pela Universidade

Estadual de Campinas.

Em sua tese, concluída em junho

do ano passado, ela testemunhou o

cotidiano de mulheres impactadas

pela usina de Belo Monte, em Altamira,

no Pará. Por meio de linhas,

agulhas e tecidos, as atingidas relevaram

experiências de deslocamento

forçado, perdas, novas condições

precárias de vida, violências, entre

outros graves problemas decorrentes

da construção da hidrelétrica.

n Carina Aparecida

Revista Elas por Elas - maio 2022

97


Tecendo

resistências

Pesquisadora faz estudo

antropológico sobre

arpilleras de Altamira,

no Pará

n Portal Medium

Durante cinco anos, a pesquisadora

Ralyanara Freire conduziu

um estudo antropológico sobre

mulheres que foram expulsas de

suas casas para a construção da

usina hidrelétrica de Belo Monte,

no rio Xingu, próximo ao município

de Altamira, no Pará. Como

forma de denunciar os impactos

do empreendimento em suas vidas,

as atingidas começaram a tecer

bordados arpilleras, técnica

de origem chilena.

O estudo foi feito para a sua

tese de doutorado, defendida

em junho do ano passado, na

mediada pela câmera, com o ‘pluriverso’

das linhas, agulhas, tesouras

maiores, a exemplo dos que buscam por

Universidade Estadual de Campinas

(Unicamp). Para realizá-lo,

moradia nas grandes cidades e os que

e tecidos”, afirma a pesquisadora.

reivindicam reforma agrária.

Ralyanara esteve em Altamira,

Confira a seguir o relato dela.

Nesse sentido, as coisas foram simplesmente

acontecendo. Na realização

entrevistou mulheres atingidas

98 Revista Elas por Elas - maio 2022 e chegou a morar na casa de uma

delas, de quem se tornou uma

grande amiga.

“O trabalho com agulhas, no

que diz respeito a tecelagem, bordados,

costuras, é hoje uma fonte

de estudos, tanto teóricos quanto

artísticos. Mas, muito além disso,

eu os considero uma maneira

de expressar meus conhecimentos

e inquietações. Eu realizo

costuras em jornais, papéis, fotografias,

buscando tensionar o

mundo da escrita e da imagem

Eu sempre trabalhei com costura.

Minha mãe ensinou minha irmã e eu a

costurar. Só que nosso trabalho era realizado

na costura industrial. Fazíamos

calças jeans em larga escala. Em Goiânia,

cidade onde eu resido, esse tipo de

profissão e comércio é facilmente encontrado.

Por toda a cidade há pequenas

facções domésticas – nos quintais, nos

fundos de barracões, nos cômodos da

casa. Então, a costura me constitui. Eu

também sempre me interessei por movimentos

sociais, tanto pelas organizações

de bairro, quanto por movimentos

da minha pesquisa de mestrado, eu estudei

a fiação e a tecelagem de algodão

em Goiás, em uma região que foi modificada

pela implementação da estrada de

ferro, por volta de 1910. Eu percorri essa

região, fui de porta em porta e conversei

demoradamente com muitas fiandeiras

e tecedeiras. As mulheres, com faixa etária

que variava entre 40, 60, 80 e até 100

anos, ensinaram-me os processos manuais

de transformar o algodão em tecido.

Foi aí que elas me falaram dos trabalhos

com arpilharia e então eu cheguei até o

tema de pesquisa do meu doutoramento.


Durante o meu doutorado, em antropologia

social pela Universidade Estadual

de Campinas (Unicamp), desenvolvi

extensa pesquisa com mulheres

atingidas pela construção da usina hidrelétrica

Belo Monte. Essa hidrelétrica,

em plena Amazônia brasileira, devastou

a floresta, secou o rio e impactou

muitas famílias. Manifestando-se de

forma contrária à construção da usina,

as mulheres começaram a criar bordados

arpilleras. Esses bordados surgiram

no Chile e foram uma importante manifestação

feminina de enfrentamento à

ditadura imposta por Pinochet.

Então, por intermédio do Movimento

dos Atingidos por Barragens (MAB),

as mulheres começaram a criar bordados

políticos, as arpilleras, e passaram

a denunciar os danos causados pela usina.

Belo Monstro, forma como a hidrelétrica

é chamada na região, destruiu casas,

o rio, a floresta e a vida de muita

gente. Os bordados arpillera mostram

tudo isso, e foi bordando que aprendi

sobre a arpillera e sobre os impactos de

Belo Monstro. Nós fazíamos os bordados

nos reassentamentos coletivos urbanos,

que são moradias de baixo padrão

instaladas na periferia da cidade,

bem longe do rio Xingu, para abrigar

as famílias expulsas das faixas urbanas

do rio. Ali o calor era intenso, devido às

péssimas condições de construção dos

imóveis. As temperaturas ultrapassam,

facilmente, a marca de 40º.

Para piorar, a desigualdade social

aumentou, bem como o acesso à cultura

e ao lazer. Então, os índices de violência

eram grandes, o que tornou a cidade

uma das mais violentas do país.

Por isso, apesar do calor, as famílias

ficavam em casa, de portas e janelas

trancadas, com grades e cadeados. Ao

caminhar pelos reassentamentos, tem-

-se a impressão de que não há ninguém

em casa, porque tudo está fechado e as

ruas estão sem movimentação. Todavia,

as pessoas estão em casa, resistindo

à Belo Monte como é possível resistir.

Os bordados mostram as más condições

de vida após a construção de Belo

Monstro e da barragem no rio Xingu.

Sobretudo as péssimas condições de moradia,

a longa distância dos reassentamentos

até o rio – o que modificou o modo

de vida das famílias. Também mostra

a violência sexual, acentuada no período

alto de construção da Hidrelétrica.

Chegar até as mulheres, de maneira

respeitosa, e falar com elas sobre as dores

que as afligiam foi um grande desafio.

Em 2020, as mulheres estavam adaptadas

às suas novas rotinas de vida. Todavia,

elas não estavam conformadas

ou menos indignadas. Mas elas precisavam

seguir com suas vidas. Ao falar dos

impactos de Belo Monstro, a dor voltava

à superfície de suas vidas. Era preferível,

Os bordados mostram

as más condições

de vida após a

construção de Belo

Monstro e da barragem

no rio Xingu."

em muitas situações, que o sofrimento

fosse arrefecido pelos fazeres do

dia a dia e, em muitas ocasiões, pela

realização da arpillera. Então, ao

invés de falar, de entrevistá-las, eu

preferi bordar com elas ou conversar

sobre as arpilleras.

A história é feita no agora, no

dia a dia. Nesse aspecto, eu vejo

que os bordados brasileiros se destacam

fortemente, tanto os bordados

do tipo arpillera, criados no Brasil,

quanto os bordados políticos feitos

por grupos femininos e feministas

nas grandes cidades. Eu penso

que todo bordado pode ser político,

a depender do modo como observamos,

como o acionamos para nos expressar.

Há tecidos de algodão, por

exemplo, que mostram lavouras de

café e laranja. Ao conversar com as

tecedeiras, elas me explicaram que

essa foi uma maneira de dizer que

já não se via mais as flores do cerrado

– uma vez que para se plantar

café e laranja era necessário devastar

grandes áreas.

Em termos de maiores repercussões,

as chamadas Mães de Maio,

na Argentina, utilizaram os lenços

de seus filhos e filhas desaparecidos

pela ditadura daquele país. Nesse

exemplo, um pedaço de tecido se tornou

símbolo político que ainda hoje

é repercutido. Outra coleção muito

importante são os bordados ou tapeçarias

de quilts feitas por Harriet

Powers – criados muito antes das

arpilleras chilenas. Trata-se de criações

políticas sobre a indescritível

violência que pessoas brancas fizeram

contra pessoas negras através

da escravização e sequestro.

Revista Elas por Elas - maio 2022

99


Cansei

Nubiha Modesto

100 Revista Elas por Elas - maio 2022


Cansei

Valentina Fornerolli

Revista Elas por Elas - maio 2022

101


102 Revista Elas por Elas - maio 2022

n Ana Pessoa - Mídia Ninja


Indígenas

por Denilson Cajazeiro

Guerreiras da Terra

Mulheres indígenas protagonizam a luta pela demarcação e preservação de

seus territórios, diante dos ataques do governo Bolsonaro

Assim que retornou de Glasgow,

na Escócia, em novembro do ano passado,

Alessandra Korape foi surpreendida

ao chegar em casa, em Santarém,

no Pará. Sua residência estava

revirada, e os criminosos que

a invadiram levaram documentos

e o aparelho onde ficavam armazenadas

as imagens do circuito interno

de câmeras. A indígena esteve

no país europeu para participar

da COP26, a Conferência das Nações

Unidas sobre Mudanças Climáticas,

e denunciar ao mundo os ataques

aos povos indígenas no Brasil e as

invasões de suas terras.

Dois anos antes, a líder indígena

passou pela mesma situação. Em

novembro de 2019, entraram em

sua casa e roubaram, além de uma

televisão, o cartão de memória de

sua máquina fotográfica, com fotos

e vídeos da atuação do garimpo na

região e registros de assembleias

e reuniões de povos indígenas. A

câmera foi deixada para trás, em

cima da cama.

“Foram tentativas de nos intimidar,

porque hoje a principal luta das

mulheres indígenas é pelo território,

pela água. A terra representa a vida,

e a gente vê muitos casos de povos

indígenas expulsos de suas terras

por fazendeiros e mineradoras. Não

é à toa que sofremos ataques. É porque

não desistimos. A gente não pode

se calar, estamos defendendo a nossa

casa”, denuncia a líder Alessandra

Korape, cuja região onde mora

é marcada por conflitos territoriais.

De acordo com as lideranças indígenas,

desde o início do atual governo,

em 2019, cresceram as pressões

sobre seus territórios, com o aumento

das queimadas e do desmatamento

e a expansão do agronegócio, da

mineração e do garimpo ilegal, além

de outras graves ações de violência.

Em março do ano passado, por exemplo,

a sede da Associação de Mulheres

Indígenas Munduruku, em Jacareacanga,

no Sudoeste do Pará, foi

depredada, queimada e saqueada

por garimpeiros da região.

As lideranças avaliam que os

ataques têm sido estimulados pela

agenda anti-indígena no Congresso

e pelas declarações do presidente,

que sempre se manifestou favoravelmente

à exploração das reservas

Revista Elas por Elas - maio 2022 103


Eleniza Tupari, vice-coordenadora

tradicionais. Basta lembrar que,

quando ainda estava em campanha,

o então deputado federal Jair

Bolsonaro disse que se eleito não

concederia “nem um centímetro a

mais para a demarcação de terras

indígenas” – discurso que não cansou

de repetir.

“O sonho do governo Bolsonaro

é, na verdade, a vontade de atender

os interesses econômicos que impulsionaram

a sua candidatura e sustentam

o seu governo, mesmo que

isso implique em total desrespeito

à legislação nacional e internacional,

que assegura os nossos direitos

fundamentais”, repudiou, em nota,

a Articulação dos Povos Indígenas

do Brasil (Apib).

Na Câmara dos Deputados, em

Brasília, há várias propostas que vão

impactar diretamente a vida dos povos

indígenas em todo o país, caso

sejam aprovadas. Uma delas é o projeto

de lei 191/20, que libera mineração,

empreendimentos de petróleo e

gás e construção de hidrelétricas em

terras indígenas. Em tramitação na

Câmara dos Deputados, foi apresentado

em fevereiro do ano passado

pelo governo Bolsonaro, que cumpriu

uma promessa de campanha.

“Não está sendo fácil. Eles estão

batendo muito em cima de realmente

liberar, de querer desmontar

as leis que amparam e

defendem a causa indígena, para

diminuir nossas terras”, afirma

da Associação das Guerreiras Indígenas

de Rondônia (Agir).

Aumento da violência

Enquanto os parlamentares querem

definir o destino das terras indígenas,

os povos originários enfrentam a escalada

da violência, conforme aponta

o mais recente relatório produzido

pelo Conselho Indigenista Missionário

(Cimi) sobre o assunto. De

acordo com o documento, referente

a 2019, o primeiro ano do governo

Bolsonaro registrou uma expansão

de 134,9% nos casos relacionados

a invasões de terras indígenas, em

comparação com o ano anterior. A

publicação elenca 19 categorias de

violência – entre elas a omissão do

poder público –, das quais 16 registraram

crescimento naquele ano.

“Infelizmente, as violências praticadas

contra os povos indígenas fundamentam-se

em um projeto de governo

que pretende disponibilizar

suas terras e os bens comuns nelas

contidos aos empresários do agronegócio,

da mineração e das madeireiras,

entre outros”, diz a publicação

do Conselho Indigenista.

O relatório cita, por exemplo, os

incêndios que consumiram a Amazônia

e o cerrado em 2019, cujas

imagens impactantes percorreram

o mundo. A publicação ressalta que

as queimadas devem ser compreendidas

como parte da estratégia de

grilagem das terras indígenas, com

a finalidade de destiná-las a empreendimentos

econômicos. “De modo

resumido, assim funciona essa cadeia:

os invasores desmatam, vendem

as madeiras, tocam fogo na

n Cleia Viana - Câmara dos Deputados


mata, iniciam as pastagens, cercam

a área e, finalmente, com a área ‘limpa’,

colocam gado e, posteriormente,

plantam soja ou milho”.

E um levantamento da Agência

Pública, com base em dados da Funai

e da Agência Nacional de Mineração

(ANM), revelou que os processos

de pesquisa minerária em terras

indígenas na Amazônia cresceram

91% no primeiro ano do governo

Bolsonaro. Foi a primeira vez, desde

2013, que os pedidos registraram

aumento. “Mineração em terras indígenas

é ilegal e inconstitucional.

O Brasil tem dois exemplos de tragédia

com a mineração [Mariana e

Brumadinho]. Exemplos de destruição,

impunidade e falta de fiscalização.

Mineração só traz poluição e

morte. Não queremos a morte dos

rios, da floresta e dos povos indígenas”,

protestou a única parlamentar

indígena no Congresso Nacional, a

deputada federal Joênia Wapichana

(foto), em sua conta no Twitter.

Julgamento histórico

No Supremo Tribunal Federal

(STF), o debate que mais preocupa

os indígenas neste momento é

o da tese jurídica do marco temporal

para a demarcação de terras.

Os ministros vão decidir se,

para reconhecer uma área como

território indígena, é necessária

ou não a comprovação de que eles

a ocupavam antes ou na data da

promulgação da Constituição Federal,

em 5 de outubro de 1988.

O julgamento no plenário começou

no final agosto de 2020, mas foi

suspenso, por tempo indeterminado,

no dia 15 de setembro de 2021,

após o ministro Alexandre de Moraes

pedir vistas do processo – um

mecanismo pelo qual o magistrado

demanda mais tempo para estudar

o caso e dar o seu voto.

“...os processos de

pesquisa minerária

em terras indígenas

na Amazônia cresceram

91% no primeiro

ano do governo

Bolsonaro."

Em seu voto, o ministro Edson Fachin,

relator da matéria, rechaçou a

tese do marco temporal e considerou

que reivindicar a terra se trata

de um direito fundamental dos povos

indígenas. “Autorizar, à revelia

da Constituição, a perda da posse das

terras tradicionais por comunidade

indígena significa o progressivo etnocídio

de sua cultura, pela dispersão

dos índios integrantes daquele

grupo, além de lançar essas pessoas

em situação de miserabilidade e

aculturação. Como se depreende do

próprio texto constitucional, os direitos

territoriais originários dos índios

são reconhecidos pela Constituição,

mas preexistem à promulgação da

Constituição", afirmou o ministro.

n Vinícius Loures - Câmara dos Deputados

Revista Elas por Elas - maio 2022 105


Na avaliação de ambientalistas e

pesquisadores, se aprovado, o marco

vai legalizar as violações ocorridas

no passado, além de incentivar

novas invasões de terras indígenas,

aumentando os casos de violência e

os conflitos fundiários. “A violência

deste governo acelera a destruição

de nossas terras. É como se a gente

não vivesse aqui há milênios. Ele

abriu a caixa de pandora e liberou

todo o mal das pessoas. Tudo que estava

sumido apareceu. Essa política

é algo que nos deixa com muita preocupação

e está prejudicando todo

mundo”, denuncia Shirley Krenak.

n Ana Pessoa - Mídia Ninja

Marcha nacional

Somos muitas transitando do chão

Para dar visibilidade ao tema, cerca

de cinco mil mulheres de mais

de 170 etnias fizeram uma marcha

histórica, em Brasília, entre os dias

7 e 11 de setembro do ano passado.

A manifestação foi organizada pela

Articulação das Mulheres Indígenas

Guerreiras da Ancestralidade (AN-

MIGA), junto com a Apib, e representou

um passo decisivo na luta contra

o marco temporal e em defesa

da vida e dos territórios indígenas.

“As guerreiras da ancestralidade

“Nós, mulheres indígenas, lutamos

106 Revista Elas por Elas - maio 2022

assumem a linha de frente para

enterrar de vez o marco temporal.

A tese defendida por ruralistas restringe

os direitos indígenas. Estamos

em busca da garantia de nossos

territórios, pelas que nos antecederam,

para as presentes e futuras gerações,

defendendo o meio ambiente,

este bem comum que garante nossos

modos de vida enquanto humanidade”,

afirmou, em nota, a coordenação

da 2ª Marcha Nacional das

Mulheres Indígenas.

pela demarcação das terras in-

dígenas, contra a liberação da mineração

e do arrendamento dos nossos

territórios, contra a tentativa de flexibilizar

o licenciamento ambiental,

contra o financiamento do armamento

no campo. Enfrentamos

o desmonte das políticas indigenista

e ambiental. Nossas lideranças

estão em permanente processo de

luta em defesa de direitos para a garantia

da nossa existência, que são

nossos corpos, espíritos e territórios.

da aldeia para o chão do mundo”,

ressalta o manifesto da ANMIGA, publicado

em sua página na internet.

Para Shirley Krenak, independentemente

de o marco temporal

ser aprovado ou não, a luta das mulheres

indígenas será permanente.

“Nossas terras não serão entregues

para o agronegócio, os corruptos,

os latifundiários, que poluem nossos

rios. Enquanto existir um indígena

pisando sobre essa terra, vai

ter luta, vai ter resistência”.


Governo denunciado por políticas anti-indígenas

Uma vez por mês, a técnica

de enfermegam Elenisa Tupari

embarca em uma lancha voadeira

e percorre o rio Guaporé, até

chegar às aldeias Santo André e

Bom Futuro, localizadas ao sul

da cidade de Guajará-Mirim, em

Rondônia, na divisa com a Bolívia.

Quando o volume do rio está

bom, a viagem dura cerca de 2 horas.

Em meses de seca, a navegação

se torna um desafio, e o trajeto

pode levar mais de um dia.

Nas aldeias, Eleniza e uma

equipe de profissionais de saúde

permanecem por quase três

semanas, para atender aos mais

de 600 indígenas – entre crianças,

jovens, adultos e idosos, em

um trabalho que se acumulou

muito em função da Covid-19.

Na pandemia, o presidente Jair

Bolsonaro foi denunciado a organismos

internacionais pela

falta de políticas públicas destinadas

aos povos indígenas. Em

julho de 2020, o senador Fabiano

Contarato (PT), que à época

presidia a Comissão de Meio

Ambiente da Casa, encaminhou

uma denúncia à ONU pelo descaso

do governo com a proteção

de populações indígenas

e povos tradicionais diante da

Covid-19.

Em agosto passado, a Articulação

dos Povos Indígenas do Brasil

(Apib) protocolou um comunicado

no Tribunal Penal Internacional,

órgão de Justiça das Nações

Unidas (ONU), para denunciar o governo

por genocídio. “As ameaças

e ataques sofridos pelos povos indígenas

têm sido perpetrados, em

sua grande maioria, pelo governo

Bolsonaro, seja pela manifestação

pública de discurso de ódio e mensagens

racistas contra os povos originários,

seja no apressado processo

de destruição das políticas e dos

órgãos públicos que deveriam cuidar

dos direitos indígenas e socioambientais”,

denuncia a entidade.

Em abril de 2021, a Apib e a Indigenous

Peoples Rights International

(IPRI) lançaram o relatório “Uma anatomia

das práticas de silenciamento

indígena”, que trata da perseguição

e criminalização de lideranças

indígenas no Brasil. São relatados

casos envolvendo 10 lideranças,

entre elas quatro mulheres: Sônia

Guajajara, Alessandra Munduruku,

Maria Leusa Kaba e Kerexu

Yxapyry.

“Mesmo com todos esses ataques

e enfrentando a atual crise

sanitária, sem precedentes, os povos

indígenas do Brasil resistem

e seguem lutando pela defesa do

que lhes é mais sagrado: suas terras

e seus territórios. Garantir o

bem viver para as nossas atuais

e futuras gerações contribui, ainda,

na preservação dos biomas, da

biodiversidade, no equilíbrio climático,

não somente para os indígenas,

mas para todo o planeta

e para o futuro da humanidade”,

afirma, em nota, a Apib.

n Eduardo Milano

Revista Elas por Elas - maio 2022

107


108 Revista Elas por Elas - maio 2022

n AdobeIstock


Violência

por Nanci Alves

Entre quatro paredes

Isolamento social força mulheres a suportarem violência caladas

Falar sobre feminicídio é sempre

muito difícil, mas cada vez mais necessário.

O Brasil continua entre os

países que mais matam mulheres,

ocupando hoje o 5º lugar no hanking

mundial de feminicídio (Alto Comissariado

das Nações Unidas para os

Direitos Humanos). Nosso país fica

atrás apenas de El Salvador, Colômbia,

Guatemala e Rússia. Com esta

triste realidade, o primeiro pensamento

que nos vem é: imagina como

seria se ainda não existisse a Lei

Maria da Penha (Lei 11.340/2006)?

Criada a partir da luta da ativista

Maria da Penha Maia Fernandes e

sancionada pelo então presidente

Luiz Inácio Lula da Silva, a lei conta

com mecanismos de prevenção e

coibição de violências domésticas e

familiares contra a mulher. Mas estes

quase 16 anos ainda não foram

suficientes para que ela fosse totalmente

implementada e muito menos

para mudar essa história de horror.

De acordo com um levantamento

divulgado em março de 2021 e

feito pela Hibou, empresa especializada

em pesquisa e monitoramento

de mercado e consumo, 81%

das brasileiras ouviram relatos de

agressão doméstica na pandemia,

até esta data.

Outra pesquisa (Percepções da

População Brasileira sobre Feminicídio),

realizada pelos Instituto

Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva

em novembro de 2021, mostra

como o risco de feminicídio está

presente na vida das mulheres:

30% já sofreram ameaças de morte

por um parceiro ou ex, sendo que

7% contaram já terem sido ameaçadas

por mais de um parceiro. A

pesquisa revela ainda que seis em

cada dez brasileiros conhecem alguma

mulher que foi ameaçada de

morte pelo parceiro atual ou ex. E

41% afirmam conhecer um homem

que ameaçou matar a atual ou ex-

-companheira. Esta realidade pode

ser agravada como nos alerta a

educadora Analba Brazão Teixeira,

do SOS Corpo – Instituto Feminista

para Democracia. Em vídeo produzido

pela Agência Patrícia Galvão, a

partir desta pesquisa, a educadora

Revista Elas por Elas - maio 2022 109


sistematize, produza e publique

afirma que “o feminicídio no Brasil

já tem um número imenso e, com a

Vítimas de feminicídios, por trimestre (Brasil - 2019-2021)

liberação das armas, temos certeza

2019 2020 2021

de que a tendência é aumentar”.

400

Sabemos que uma violência física,

na maioria das vezes, começa 320 292

348

364 363

342

318

338

321 332 323

com xingamentos e humilhações.

Por isso, um/a vizinho/a ao ouvir

agressões, mesmo que verbais, precisa

240

160

tentar falar com esta mulher,

em particular, ou, se for recorrente,

até mesmo fazer uma denúncia

80

0

anônima, antes que seja tarde. Não

1º trimestre 2º trimestre 3º trimestre 4º trimestre

podemos reforçar pensamentos

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública

machistas como o antigo ditado “Em

briga de marido e mulher, não se

mete a colher”. Se muitas mulheres O Fórum Brasileiro de Segurança

110 Revista Elas por Elas - maio 2022

tivessem tido a chance da intromissão

da colher de um amigo, vizinho

ou parente, provavelmente não teriam

morrido.

Políticas públicas

demandam mais dados

O isolamento social mascarou um

pouco a realidade, porque com o

agressor dentro de casa muitas

mulheres não conseguiram denunciar

a violência que estavam sofrendo.

Mesmo assim, de acordo com o

Anuário Brasileiro de Segurança Pública,

diariamente, ao menos 630

mulheres procuraram uma autoridade

policial para denunciar um

episódio de violência doméstica, no

ano de 2020.

Pública, embora com todas as dificuldades

de acesso a informações,

fez um levantamento, a partir dos

boletins de ocorrências, registrados

pelas polícias civis sobre o índice de

violência contra a mulher nos anos

de 2019, 2020 e 2021 (veja o gráfico).

Apesar de serem dados até metade

do ano passado, são os mais

recentes em termos nacionais. Na

avaliação da diretora executiva do

Fórum Brasileiro de Segurança Pública,

Samira Bueno (foto), a pandemia

tornou este problema ainda

mais desafiador, mas “a dificuldade

de acessar os dados e sistematizá-los

sempre existiu no Brasil e

ainda não conseguimos equacionar

este problema”. Ela explica que não

tem uma esfera nacional, hoje, que

informações sobre crime e violência,

periodicamente. Temos, por

parte do governo federal, o Sinesp

(Sistema Nacional de Informações

de Segurança Pública), que é historicamente

algo recente, de 2012.

“Mas ele não é alimentado ou sistematizado

e publicado de forma periódica

pelo governo federal. Não

existe um grande rigor do ponto

de vista metodológico por parte do

Ministério da Justiça para cobrar

estas informações, os dados de cada

estado e de fazer publicações com

análises destes indicadores. A verdade

é que as estatísticas criminais

nunca foram uma prioridade para

o Ministério da Justiça. Então, a

sociedade civil organizada acabou

assumindo esta função. O Fórum coleta

estes dados via lives. O tempo

de produção de indicadores é mais

demorado mesmo. Temos algumas

Se vc não ficar comigo, vai perder a polícias que conseguem produzir e

divulgar quase que mensalmente

sua casa, os filhos e seu emprego

(SP, MG, CE, RS, RJ), mas não é a regra.

Um levantamento nacional de

27 Secretarias de Segurança leva


tempo e é super desafiador. Porém,

é importante dizer que a gente não

planeja política pública de enfrentamento

à violência se a gente não

tiver bons indicadores que nos

deem conta deste cenário, que nos

apontem os desafios impostos. É

preciso que se invista urgente neste

ponto”, afirma.

n José Antônio Teixeira - Alesp

A ajuda necessária

Em entrevistas, depoimentos ou

pesquisas, que podem ser encontrados

pela internet, muitas vítimas

de agressão relatam que se

sentiram sozinhas, durante isolamento

social, porque não tinham

com quem desabafar e muito menos

podiam ir a uma delegacia ou

outro lugar onde pudessem pedir

ajuda (Algumas destas frases estão

ilustradas na matéria).

Esta nova realidade fez também

surgirem caminhos urgentes para

socorrer as mulheres em sofrimento.

Em meados de 2020, o Conselho

Nacional de Justiça (CNJ) e a Associação

dos Magistrados Brasileiros

(AMB) lançaram a campanha Sinal

Vermelho para a Violência Doméstica,

que cadastrou mais de 10 mil

farmácias em todo o país para receberem

este tipo de denúncia. Para

isso, bastava a mulher chegar na

farmácia com um sinal vermelho

nas mãos e a polícia era acionada,

silenciosamente, em seu favor. Antes

disso, ainda no início da pandemia,

vimos várias iniciativas nas

redes sociais, de grupos feministas

ou até órgãos ligados às polícias ou

justiça, ensinando, por meio de vídeos

sem áudios, a mulher vítima

de violência doméstica a denunciar

Vc é uma analfabeta, cala a

boca, não te perguntei nada

Revista Elas por Elas - maio 2022

111


seu agressor. O primeiro vídeo foi

produzido pela Movielas, um coletivo

de mulheres profissionais das

áreas do som e da imagem do audiovisual

de Brasília (DF), e divulgado

pelo WhatsApp de mulheres de todo

o país. O vídeo, sem som, continha

apenas imagens que eram fotografias

de várias mulheres segurando

cartazes com orientações, números

de telefones e também emails

para os quais a vítima de violência

doméstica podia denunciar o que

estava vivendo. A ideia se espalhou

mostrando o que a Movielas quis

falar para cada mulher: ‘você está

isolada, mas não está sozinha’. Em

Curitiba, surgiu a segunda experiência

deste material, o “Tamo Juntas’

(TMJ). “No início da pandemia,

como não sabíamos o que viria pela

frente, criamos um grupo de amigas

para ajudar outras pessoas que

viviam sozinhas e que precisariam

de algum tipo de apoio. Quando vimos

este vídeo da Movielas, imediatamente

produzimos o nosso com

os contatos da rede de apoio às

mulheres vítimas de violência em

nosso estado. O resultado foi muito

bom. O vídeo viralizou e acreditamos

que tenha cumprido seu papel,

ajudando muitas mulheres a se protegerem”,

conta a jornalista Thea

Tavares (foto) ao reforçar a importância

da denúncia. “A única forma

é denunciar para que a mulher

seja acolhida e encaminhada para

os setores e serviços que podem oferecer

ajuda necessária como medi-

Meu marido começou a me

machucar e a dizer coisas

da protetiva, médicos, abrigo para

ela e filhos/as, trabalho etc. Faltam

realmente horríveis para mim.

políticas públicas e, enquanto cidadãs/cidadãos,

precisamos sempre

cobrar”, ressalta.

112 Revista Elas por Elas - maio 2022

n Arquivo pessoal


Chame a Frida

Outra iniciativa fundamental surgiu

em abril de 2020, na cidade de Manhuaçu

(MG), e comprovadamente

vem dando muito resultado no

combate ao feminicídio. Trata-se do

projeto Chame a Frida, criado pela

escrivã da Polícia Civil daquele município,

Ana Rosa Campos. A ideia

é simples, barata e com grande retorno.

“É um serviço de WhatsApp

por chatbot que oferece à mulher a

oportunidade de denunciar, acionar

a polícia ou esclarecer dúvidas. Frida

tem sempre, durante às 24 horas

em todos os dias da semana, um/a

policial civil monitorando casos que

necessitem de intervenção humana

com socorro imediato para ajudar a

mulher que está em situação de risco”,

explica. O resultado tem sido tão

significativo que o projeto já foi implantado

também nas cidades de Caratinga,

Ipatinga, Coronel Fabriciano,

Betim, Barbacena, Lagoa Santa

e, recentemente, em Ponte Nova e

Ouro Preto. “Para o município implantar

o projeto, basta um celular

e um número coorporativo. A gente

programa e Frida começa a funcionar.

Precisamos fomentar a denúncia,

pois é através dela que podemos

ajudar mais mulheres, explica Ana

Rosa ao frisar que seu sonho é ver

Frida atuando em todas as delegacias

de polícia de Minas Gerais.” E

isso não está longe de acontecer,

pois Chame a Frida já virou projeto

de lei ( PL 2.149/2020), de autoria

do deputado Marquinho Lemos

(PT), sendo aprovado em primeiro

turno na Assembleia Legislativa de

Minas Gerais, em outubro passado.

O PL aguarda, agora, a votação em

segundo turno para facilitar e desburocratizar

o ato da denúncia de

violência contra a mulher em todo

o estado. Chame a Frida já recebeu

5 indicações a prêmios no Brasil,

ganhando 3 deles (confira em

@chameafrida). “O reconhecimento

vem do próprio retorno. As mulheres

acham Frida de fácil acesso,

linguagem simples, não demanda

fazer cadastro e nem fornecer documentos

e endereços. Quem está

em situação de violência já está muito

frágil para ficar ali respondendo

perguntas e preenchendo formulários.

Temos que ser ágeis para salvar

vidas”, afirma.

No dia desta entrevista com Ana

Rosa, ela estava aliviada porque, naquela

manhã, Frida tinha salvado

mais uma vida em Manhuaçu. “Prendemos,

em flagrante, um homem

que estava agredindo sua esposa. Ela

acionou Frida e enviou o endereço

Se vc não ficar comigo,

vai perder a sua casa, os filhos

e seu emprego

n Mariza Tuelher

Revista Elas por Elas - maio 2022

113


que estão dependendo financeiramente

por GPS. Em poucos minutos a Polícia

Militar já estava em sua casa”, celebra

Ana Rosa (foto) que considera

fundamental a construção de novas

políticas públicas para combater a

violência contra a mulher. “Além

da denúncia, precisamos de outros

projetos, inclusive para os homens

autores de violência doméstica. Aqui

temos o ‘Diálogos sobre Masculinidades’,

em funcionamento há pouco

tempo, mas já conseguimos dar formação

para 50 homens. Em dois meses

de trabalho, o foco é no diálogo

com eles sobre violência de gênero

- como podemos entender este fenômeno,

reeducar e conscientizar

estes homens. Também oferecemos

suporte psicológico para as mulheres

por meio do Projeto Elzas. Então,

acreditamos em políticas públicas.

Temos que pensar nestas mulheres

dos homens, estudando for-

mas de ajuda financeira para que

elas possam romper com o relacionamento

abusivo”, ressalta.

Masculinidades em pauta

A reeducação do autor de violência

doméstica é realmente imprescindível

para a prevenção e proteção

exigidas pela Lei Maria da Penha.

Assim como em Manhuaçu, em todo

o Brasil existem vários projetos,

de ONGs em parceria com a Justiça,

ou dela própria, que buscam ajudar

homens que cometeram infração a

deixarem este caminho. Um deles

é o Projeto Borboleta, no Rio Grande

do Sul, desenvolvido no 1º Juizado

de Violência Doméstica e Familiar

contra a Mulher da Comarca de

Porto Alegre. A psicóloga Ivete Vargas

conta que apostam “no trabalho

em grupo que, na sua essência,

tem um papel educativo, reflexivo

e preventivo, à medida que se constitui

em espaço de escuta e, em consequência,

de troca de experiências,

que contribuem positivamente para

a redefinição de conceitos e de atitudes.

O machismo na sociedade se

constrói nos grupos (familiares, de

pares, instituições etc) e é neles que

deve ser questionado. Para isso, contamos

com voluntários de diversas

áreas capacitados pelo TJRS ”, conta.

A psicóloga diz que os grupos

reflexivos de gênero acontecem no

âmbito do judiciário desde 2011,

Tinha eu que dar conta da casa,

tendo recebido mais de mil homens

dos filhos e do trabalho virtual

até janeiro de 2022, sendo que 611

com ele violento dentro de casa.

concluíram a participação (12 encontros

presenciais) até 2019. Com

a pandemia, passou-se a oferecer

n Mariza Tuelher


também os grupos na modalidade

on-line, numa parceria com a UF-

CSPA (Universidade Federal de Ciências

da Saúde de Porto Alegre).

“Sendo bem conduzidos, os grupos

permitem o desenvolvimento

de novos olhares, mais criativos,

para comportamentos que foram

aprendidos numa cultura arraigada

de dominação dos homens sobre

as mulheres que não serve mais à

nossa sociedade. Não é uma tarefa

fácil, que exige muito estudo e

envolvimento dos facilitadores,

pois também tem que questionar

crenças arraigadas de si mesmos,

através de exemplos sociais e familiares,

num esforço de reconhecer

as violências e discriminações praticadas

em todos os ambientes, para

que possam ajudar os homens a reconhecerem

estas mesmas violências

e discriminações e buscarem

a autorresponsabilização pela mudança”,

acrescenta ao reforçar que

a participação deles também propicia

a identificação de necessidades

específicas de cada um, como por

exemplo, de encaminhamento para

tratamento terapêutico.

Esta participação dos homens

no grupo pode ser determinada pelo(a)

juiz(a) em diversos momentos

processuais: como medida protetiva

de urgência (art. 22, VI, da Lei

Maria da Penha), como condição

para a concessão da liberdade (em

caso de prisão em flagrante ou

preventiva), ou em virtude de uma

condenação criminal.

Ivete Vargas (foto) ressalta que,

em todo este trabalho, o principal

é a não tolerância a qualquer tipo

de discriminação baseada no gênero

por qualquer meio (instituições,

midiática, jurídica, educacional,

etc). “Temos apostado também no

trabalho com as mulheres através

do Grupo de Acolhimento, com

encontros semanais e grupo no

WhatsApp, onde elas trocam informações,

recebem orientação jurídica,

psicológica, psicossocial, com a

presença de voluntárias de diversas

áreas, principalmente feministas e

de atuação engajada. Contamos com

várias e importantes parcerias para

desenvolver estes projetos”, afirma.

Paulo (nome fictício) é um dos

atendidos pelo Projeto Borboletas

e conta que tem sido importante

para ele: “o grupo me ajudou ver

os erros que eu cometia e não via.

Hoje, graças a ele, vivo muito bem

com minha esposa, com toda harmonia!Tanto

eu quanto ela tivemos

muitas melhoras!

Com ele dentro de casa,

não conseguia pedir ajuda

para ninguém.

n Estúdio Scalco

Revista Elas por Elas - maio 2022

115


n Adobe Istock

116

Revista Elas por Elas - maio 2022


Artigo

Luana Oliveira

Mariana Pimenta

Este beco tem saída!

Uma conversa ficcional inspirada em situações reais de

violência doméstica na pandemia

Oi, Marcela, como você está?

Sei que pode parecer estranho

que eu te escreva assim, de repente.

Mas é que não sei para quem mais

pedir ajuda e vejo que você sempre

fala, pelas redes sociais, sobre a Lei

Maria da Penha.

Como sabe, sou casada há quase

15 anos com o Rogério, que também

estudou com a gente. Namoramos

por muitos anos e sempre achei

atencioso da parte dele se preocupar

com a minha roupa, se iria

chamar a atenção de ‘tarados que

sempre estão por aí’. Ele sempre

disse que confia em mim, mas não

nos outros. Para mim, isso era um

sinal de amor e proteção.

A gente não era de briga, mas o

tempo de convívio diário sempre

foi pequeno por causa do trabalho

e das crianças. Mas, agora, com a

pandemia, as coisas mudaram. Os

dois em home office, começaram as

discussões sobre quem tinha prioridade

de usar o computador da casa,

quem ia fazer o dever com as crianças,

preparar as refeições etc.

Prefiro ir pra cozinha e lidar com

as crianças, porque Rogério faz tanta

bagunça que me dá mais trabalho

para limpar. Também comprei um

tablet para eu e as crianças usarmos

nas nossas atividades e deixamos

o computador da casa só para ele.

Fui me organizando para dar conta

de tudo - trabalho, crianças em

aulas remotas, casa, cozinha. Mas

com o tempo e o cansaço, comecei

a cobrar dele mais apoio e vieram

novas brigas.

Pra piorar, Rogério ficou desempregado

e me culpou por não ter

oferecido a ele o ambiente ideal

para que pudesse trabalhar. Neste

dia, quebrou o tablet. Foi horrível,

as crianças ficaram assustadas.

Depois, se arrependeu, mandou

consertar e trouxe pizza para o

jantar. Sei que meu marido é boa

pessoa, está apenas passando por

uma fase ruim. Mas percebo que

estou em um estado constante de

medo e que prendo a respiração

Revista Elas por Elas - maio 2022

117


Olá, Victória.

perto dele. Esta semana, teve outro

ataque de raiva porque não foi

aprovado em uma entrevista e quebrou

um prato. Até nossos filhos

estão com medo do pai e perceber

isso, nos olhares e atitudes deles,

me angustia.

Só eu sei o quanto amo esse

homem e tudo de bom que vivemos

juntos! Declarações de amor,

viagens, filhos amados, construímos

juntos nossa casa. Como

posso agora viver com medo desta

mesma pessoa? Outro dia, uma

vizinha me entregou um bilhete

no elevador dizendo que ela sabia

o que eu estava passando e estava

disposta a chamar a polícia.

Será que não tem outra solução?

Às vezes alguém que venha aqui

conversar com ele. Meu casamento

pode estar por um fio e me sinto

fracassada por isso. É como se eu

não tivesse cuidado o suficiente da

minha família. E ao mesmo tempo,

hoje ele depende de mim financeiramente

e sou eu que compro

e cuido dos horários dos remédios

que ele precisa tomar. Se eu for embora,

quem vai cuidar dele? Não

consigo imaginar minha vida sem

Rogério ou a dele sem mim.

Desculpe procurá-la com meus

problemas, mas preciso conversar

com alguém que entenda o

que estou vivendo. Este zap é da

minha irmã, para ter certeza de

que ele não verá. Estarei com ela

novamente no fim de semana.

Agradeço muito se puder me responder

ou me ligar!

Admiro muito sua coragem e

sua força! Obrigada por lutar por

todas nós!

Como é bom ter a sua confiança

para falarmos de um assunto tão

íntimo e delicado. Gostaria que essa

conversa fosse pessoalmente, de

um jeito que eu pudesse te abraçar.

Mas, por ora, já é muito bom que

esta carta nos ajude a fazer uma

ponte entre nós.

Há séculos vivemos dentro de

uma estrutura social que distribui

os papéis de homens e mulheres,

desde que somos bebês, de uma maneira

desigual, excludente e que

pré-determina alguns enredos escolhidos

como certos e outros errados.

O resultado é que nós, mulheres,

temos enraizado em nosso subconsciente

a imagem de uma princesa

que precisa de um príncipe para ser

realizada, completa e feliz. Agora,

no mundo pós contemporâneo, essa

princesa é a “mulher maravilha”,

famosa “guerreira” – que trabalha,

cuida da família, das tarefas

da casa, gerencia a vida dos filhos

e ainda é amável o tempo todo. A

gente dá a nossa vida para sustentar

e fazer essa heroína “vencer”

uma batalha que é diária e que, na

verdade, não é uma vitória pra nós.

Quando chegamos nesse lugar, já

esquecemos quem um dia fomos e

desejamos ser. Guardamos na gaveta

todas as vontades com pensamentos

de “não ia dar certo”, “eu não

ia conseguir”, “não era para mim”,

“preciso cuidar da minha família”,

“o que seria dos meus filhos?” etc.

E assim, deixamos de nos olhar.

Precisamos fazer o caminho contrário:

Sim, ouvir o nosso corpo,

perceber os sentidos, sentimentos

e avisos. Por exemplo, o seu estado

de alerta constante - mesmo sem

n Adobe Istock


entender e até questionando se as

atitudes do Rogério são tão ruins

assim, você sente muito medo.

Seu corpo fala: cuidado, algo ruim

pode acontecer. Amiga, escute!

Este é um dos sinais mais importantes

a serem percebidos neste

momento que você está. A gente

desaprendeu a se ouvir e considerar

importante o que sentimos ou

intuímos. Mas, é importante!

A sociedade, pautada no machismo,

também foi nos tirando,

aos poucos, a valorização do grupo,

da aldeia, das outras mulheres

que fazem parte das nossas vidas e

fortalecem a nossa trajetória. Agora,

a gente chama isso de rede de

apoio. É por meio dessa rede que

conhecemos histórias semelhantes,

entendemos melhor como os

dispositivos da violência doméstica

funcionam – seja ela física, psicológica,

emocional ou material. É no

meio dessa rede que entendemos

que nossas histórias se parecem,

as agressões se repetem, e muitas

vezes começam disfarçadas de cuidado,

atenção ou carinho. É neste

espaço que começamos a enxergar

outras possibilidades, as saídas desse

beco, que sim, tem saída!

Entenda: não foi você que fez

ele perder o emprego. Falar isso é

uma forma de manipulação - quer

controlar você a partir do seu sentimento

de culpa. Outra coisa, limitar

suas roupas, seus amigos ou espaços

que frequenta não é atenção.

Tudo isso é controle sobre as suas

decisões e a sua vida. Quebrar seu

tablet, ou outro objeto seu, é violência

patrimonial e até física, quando

isso machuca alguém. Você e seus filhos

precisam de ajuda. E procurar

recursos jurídicos, como temos hoje

com a Lei Maria da Penha, é uma

possibilidade real de solução.

Não estou falando de prisão. Falo

desta rede de apoio, orientação

e ajuda. Existem grupos na assistência

social para trabalhar com

homens que cometem agressão. Assim

como você poderá acionar a sua

rede, ele também terá o tratamento

adequado. Isso será bom para todos,

Q

Luana Oliveira

Jornalista, escritora e especialista em

marketing digital. Apaixonada por causas sociais e

dedicada aos estudos sobre yoga, meditação e o

sagrado feminino.

pois seus filhos também precisam

de paz e segurança.

Eu sei que palavras são fáceis e

tomar atitudes é outro assunto. Mas

tudo começa a partir da coragem de

ter esse pensamento. Da sua coragem

em mandar essa mensagem,

da minha, em ser franca, e da nossa

coragem, em seguir em frente.

Estou com você. Pode me ligar

na hora melhor pra você. Abs!

Q

Mariana Pimenta

Jornalista e proprietária da Nenhum Destes,

empresa de comunicação social para o Terceiro

Setor. Coordenadora da coletiva feminista

As Luzias - UBM Lagoa Santa.

n Adobe Istock

Revista Elas por Elas - maio 2022

119


120 Revista Elas por Elas - maio 2022

n Charles Souza


Artigo

Maria Teresa dos Santos

Nana Oliveira

Isabela de Andrade P. M. Corby

As várias formas de tortura no

sistema prisional mineiro

É de conhecimento da grande

maioria da sociedade brasileira que

as condições do encarceramento

são, no mínimo, insalubres. Com a

pandemia isso se agravou em várias

dimensões. E quando se toca na situação

de mulheres e mães presas,

precisamos de uma atenção ainda

mais cautelosa e crítica.

De forma generalizada, os problemas

que surgiram com a pandemia

do Covid-19 no sistema prisional em

Minas Gerais foram:

1) aumento dos gastos para

os familiares - a impossibilidade

de realizar as visitas implicou na

necessidade de enviar os kits 1 de

higiene pessoal e alimentação por

meio do sedex, obrigatoriamente.

Ou seja, além do gasto com o kit

somou-se o gasto com o sedex. Nos

casos em que o/a preso/a está em

uma unidade distante da moradia

dos familiares, contrariando a Lei

de Execução Penal, o sedex chega

ao valor de R$ 350,00 (trezentos e

cinquenta reais);

2) durante meses, os familiares

ficaram sem notícias de seus entes

encarcerados/as com a proibição

das visitas, configurando, assim,

uma tortura psicológica para todos/

as os/as envolvidos/as, haja vista a

incomunicabilidade.

No retorno das visitas em Minas

Gerais, a primeira etapa foi por video

conferência por cerca de 10 minutos,

mas infelizmente não abarcou

nem a metade dos/as encarcerados/

as que já recebiam visitas antes da

pandemia. Inclusive a visita virtual

era feita com a presença de um/a

técnico/a do sistema prisional (assistente

social ou psicólogo/a) e dois

agentes prisionais. Tal configuração

gerou constrangimento e violou a

liberdade de expressão de cada um/a

dos/as presos/as, sendo que a simples

presença destes profissionais caracteriza-se

uma ameaça, mesmo que não

fosse a intenção. A próxima etapa foi

a retomada das visitas presenciais

com protocolos que limitaram a 20

minutos em algumas localidades,

em decorrência da classificação da

administração do Estado quanto a

transmissão do covid-19 - enquanto

em outros estados a visita poderia

ser de até 3 horas. Lembramos que

antes da pandemia era o dia inteiro

de visitas, uma vez por semana ou

de 15 em 15 dias. Assim, convidamos

os/as leitores(as) a um simples

exercício de imaginação e empatia:

imagine você no lugar de uma mãe,

uma filha, uma esposa que ficou em

torno de 6 meses sem nenhum tipo

de notícias do seu ente. E, finalmente,

na volta das visitas, envolta

de expectativas, você só pode ficar

20 minutos com seu familiar na

presença de dois agentes prisionais

1) Sobre os Kits enviados pelos familiares ver em: https://rb.gy/efa1sx

Revista Elas por Elas - maio 2022

121


deste grupo para unidades prisionais

para tratar de assuntos familiares Mesmo com toda esta estrutura

122 Revista Elas por Elas - maio 2022

e de cunho privado acumulados há

meses. Imaginou? Atentamos que,

atualmente, setembro de 2021, as

visitas permanecem nesta estrutura.

Nas especificidades das mulheres

grávidas e mães presas em Minas

Gerais temos a conquista de uma

unidade prisional exclusiva para

este grupo, o Centro de Referência

da Gestante Privada de Liberdade,

localizada em Vespasiano. Muito

embora, sejamos abolicionistas penais

- contra a existência do cárcere

- compreendemos que esta unidade

é o ambiente mais favorável para as

grávidas, mães e bebês em face das

condições desumanas das demais

unidades, tendo em vista que é exceção

momentos de superlotação

nesta unidade que foi construída

em atenção ao melhor interesse da

criança. Somado a isto, há agentes

prisionais experientes e sensíveis

para lidar com a especial condição

das mulheres grávidas e puérperas.

Como também há a garantia de

assistência médica por meio das

articulações realizadas pela diretoria

da unidade.

Q

Maria Teresa dos Santos

Presidenta da Associação de Amigos e Familiares de

Pessoas em Privação de Liberdade de Minas Gerais.

Fundadora e Articuladora da Agenda Nacional pelo

Desencarceramento e da Frente Estadual pelo Desencarceramento

de Minas Gerais.

que a unidade possui e os benefícios

gerados, antes da pandemia, e no

decorrer da mesma, ocorreram e

ocorrem várias tentativas de sucateamento

e fechamento pelo governo

do Estado, sendo que o principal

argumento é o gasto mensal oneroso

em face da “pouca demanda por vagas

e alto número de agentes prisionais

alocados”. Tal argumento demonstra

total desconhecimento do Estado

quanto à dinâmica diária de uma

unidade com mulheres grávidas,

mães e bebês. Cada vez que uma

mulher vai ao hospital, seja para

consulta médica do pré-natal, para

parir ou para atendimento pediátrico

é necessário a presença de duas

agentes prisionais e o motorista. E

não é possível programar algumas

destas possibilidades, há imprevistos

da própria natureza de uma gestação

ou da saúde de uma criança. Nos

causa profunda angústia vislumbrar

a possibilidade de fechamento desta

unidade em meio a uma pandemia,

ou futuramente no cessar desta tragédia

sem precedentes, e sabendo

que isto implicará no remanejamento

Q

Nana Oliveira

Presidente da Assessoria Popular Maria Felipa de

Minas Gerais. Advogada Voluntária da Associação

de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de

Liberdade de Minas Gerais.

comuns. A pandemia também

ocasionou a inviabilidade de pontos

de coleta fixos presenciais dos itens

arrecadados para as gestantes, mães

e bebês, tais como: enxovais de

bebês, fraldas (observamos que as

fraldas ofertadas pelo Estado causam

muita irritação na pele dos bebês)

e absorventes.

Nós, da Associação de Amigos

e Familiares de Pessoas em Privação

de Liberdade de Minas Gerais,

constatamos que, historicamente,

há um descumprimento das previsões

constantes na Lei de Execução

Penal e estas violações de direitos

humanos foram intensificadas com

a pandemia. E também chamamos

a atenção para a inércia dos agentes

públicos responsáveis por efetivar

a referida lei e principalmente

nossa Constituição da República de

1988, uma vez que a pena é restrita

à suspensão da liberdade. Logo,

em tese, não deveria violar o direito

à saúde física e mental tanto dos

familiares como dos/as encarcerados/as,

bem como impedir o acesso

à educação e ao trabalho.

Q

Isabela de Andrade Pena Miranda Corby

Advogada na Assessoria Popular Maria Felipa de

Minas Gerais. Mestre e Doutoranda em Direito pela

Faculdade de Direito da UFMG. Professora.


Cansei

Viviane Mendes

Revista Elas por Elas - maio 2022

123


n Andrea Rego Barros

124

Revista Elas por Elas - maio 2022


Perfil

por Denilson Cajazeiro

A diáspora

dos degredados

Em Solo para vialejo, a poeta Cida Pedrosa mergulha na memória e

empreende uma jornada lírica do mar para o sertão; a obra ganhou o

principal prêmio literário do país

Enquanto respondia à reportagem,

Cida Pedrosa se apressava para

chegar ao pavilhão de feiras do Centro

de Convenções de Pernambuco,

em Olinda. Em pouco tempo, cerca de

15 minutos, ela participaria de uma

mesa, em formato híbrido, sobre a

literatura de letra pernambucana,

na 13ª Bienal Internacional do Livro,

no ano passado.

“Pode ir que eu termino a entrevista

e entro em seguida”, disse a

um interlocutor, com o mesmo tom

simpático que conduziu a nossa

conversa. Naquela edição da bienal

no estado (o maior evendo literário

do Nordeste), ela e o patrono da educação

brasileira, o educador Paulo

Freire, foram os homenageados.

Em 2020, a poeta ganhou duas

premiações de destaque. Sua obra

Solo para vialejo foi escolhida nas

categorias de melhor livro do ano

e de melhor livro de poesia pelos

jurados do Prêmio Jabuti, a mais

importante distinção literária do

país. Quando o anúncio foi feito, ela

estava no sofá de sua casa, assistindo

à cerimônia pela internet.

“Este é um livro da volta. Eu migrei

do sertão para o mar, e neste livro

faço o oposto, migro do mar para o

sertão e vou contando dos sons, dos

negros e negras, das índias e índios,

de mim mesma, de onde me encontro

com minha ancestralidade. É minha

entrega à literatura, é porque as

palavras e os sons da minha memória

não cabiam mais na minha cabeça

e tinham de se espraiar nas páginas

de um livro”, afirmou a poeta, na

cerimônia de premiação.

Lançado em 2019, o livro é um

longo poema, mas também pode ser

lido em partes. É uma “diáspora dos

degredados”, segundo a própria autora.

Inicialmente, a obra tinha 10

páginas escritas e, em uma conversa

com o filho, ele disse que havia

ali um poema longo. Depois disso,

Cida começou a escrevê-lo, tarefa

que durou dois anos – a criação foi

lenta, em função do excesso de outros

trabalhos.

“Estou na luta da literatura desde

os 14 anos de idade, e esse é talvez

o meu lado mais importante para

Revista Elas por Elas - maio 2022

125


– E o que a palavra significa para

mim. Eu digo sempre que, quando

eu acordo de manhã e me olho no

espelho, sou poeta. O resto é uma

construção posterior. Então, receber

o prêmio é como se fosse para mim

coroar esses 40 anos de luta, coroar

dez livros publicados”, diz.

Nascida em 1963, em Bodocó, no

sertão do Araripe pernambucano,

Cida Pedrosa foi uma das militantes,

na década de 80, do Movimento de

Escritores Independentes de Pernambuco,

por meio do qual ela e

outros escritores saíam pelas ruas de

Recife recitando poemas e vendendo

seus livros de mão em mão.

“Foi a minha cidadania literária,

essa mobilização entre 1980 e 1986.

Recitávamos poesia e acolhíamos as

pessoas que saíam do cárcere, que

faziam a denúncia da ditadura. A de casa, onde escutava histórias

126 Revista Elas por Elas - maio 2022

gente lutava pela redemocratização.

O movimento tinha uma pegada

underground, alternativa, uma

coisa mais libertária”, relembra Cida

Pedrosa, que em 1987 formou-se em

Direito, pela Faculdade de Direito do

Recife, e nos anos seguintes advogou

para entidades de trabalhadores

rurais e de direitos humanos.

Antes de Solo para vialejo, ela

publicou outros dez livros de poemas

da literatura oral. Seu pai estudou

pouco, só cursou até o primeiro ano

primário, mas era um bom contador

de histórias. A mãe, que aprendeu

a ler com uma tia, também contava

histórias e lia cordéis. “Ela escrevia

cartas incríveis. Então a palavra

sempre esteve presente, seja ela oral,

seja escrita. Isso foi muito forte na

minha casa”.

você?, pergunta a reportagem.

– Eu não sei bem como responder,

mas, para mim, eu não consigo

viver sem a palavra, sabe? É isso.

Não consigo viver sem. Por mais

difícil às vezes que chega a ser essa

relação, às vezes seria muito melhor

ter nascido sem ser poeta, mas ela

está embrenhada em você e ela é

você própria. Então é impossível se

desgarrar disso.

e participou de antologias no Brasil

Além dos troféus da premiação

e no exterior. Os primeiros poemas :a mulher virou homem o

nacional, duas estatuetas de um

foram escritos bem cedo, ainda na trabalho

pequeno jabuti, Cida ganhou 105

adolescência, e sua primeira obra foi e a desigualdade por baixo da

mil reais, e uma parte desse valor

lançada quando tinha 18 anos. “Mas saia: trouxa na cabeça camisa

ela doou ao PCdoB, partido ao qual

eu publiquei no fanzine da escola cáqui de mangas compridas

está filiada há cerca de 20 anos e pelo

com 14 anos. E já neste momento chapéu de palha quartinha de

qual se elegeu vereadora em Recife,

eu estava me juntando a outros cabaça e só

na eleição de 2020, com 3.697 votos.

colegas que escreviam e que depois

“Estou ansiosa, mas não assustada

com o desafio. Como Rosa de

se tornariam poetas importantes calça comprida por baixo da saia

na cidade”, lembra Cida Pedrosa, calça comprida por baixo da saia

Luxemburgo, mais uma mulher

cuja relação com a palavra poética calça comprida por baixo da saia

socialista que tenho como referência,

começou desde a infância, dentro

acredito que só se aprende a nadar

n Henrique de Eça


na água. E nadaremos. Nadaremos

de braçadas largas, para alcançarmos

mais dignidade para a classe trabalhadora”,

discursou a comunista, em

seu primeiro pronunciamento como

vereadora eleita.

Em seu mandato, tem defendido

pautas como a luta pela inclusão

de estudantes com transtornos de

aprendizagem, em defesa da agroecologia

e contra a gordofobia, a fome

e as mudanças climáticas. Além,

é claro, das reivindicações feministas,

movimento do qual sempre fez

parte. Um dos projetos de lei que

apresentou, por exemplo, institui a

obrigatoriedade de contratação paritária

de gênero para artistas individuais

nos ciclos festivos de Recife.

“Apesar de serem maioria da

população, as mulheres ainda são minoria

nos espaços de representação,

antes de os homens brancos

chegarem com suas

naus nauseabundas e nulas a

terra era vasta e nós

vivíamos livres

livres e vastos

livres e vastos

livres e vastos

não éramos vestais

éramos a vida o verbo a vastidão

o verbo a voz e a vastidão

o verbo

o verbo

o verbo

sem necessidade de deus

como na política e em cargos de

chefia nas empresas. A cultura é o

retrato de uma sociedade, dos seus

comportamentos, práticas e conhecimentos.

Assim, a cena cultural

também é um importante espaço

de representação”, argumentou

a vereadora, na justificativa que

acompanha o projeto de lei.

Por questões de gênero, a

reportagem a pergunta se prefere

ser chamada de poeta ou poetisa.

Ambas as palavras são admitidas

pela língua e estão registradas no

dicionário, mas ao segundo termo foi

atribuída uma carga semântica pejorativa,

como se estivesse vinculado

a uma criação literária de menor

valor estético, e algumas escritoras

passaram a preteri-lo.

Mas, para Cida Pedrosa, não há

problema algum em ser poetisa. “Eu

acho as duas coisas bacanas. Por

muito tempo eu disse que era só

poeta. Aí depois eu compreendi que

quando as mulheres se chamavam

de poetisa e todo mundo colocava

isso como uma coisa menor, essas

eram as mulheres que tiveram as

primeiras falas. E do mesmo jeito que

a gente tenta reorganizar a palavra

presidenta, eu acho que a gente tem

de reestruturar a palavra poetisa

também. Então eu me sinto à vontade

com as duas”, afirma.

No meio político, o mais complicado

tem sido lidar com os conservadores

como se tudo estivesse

bem. Uma convivência cotidiana

que requer aprendizado, em seu

trabalho na Câmara Municipal

de Recife. “Aguentar os conservadores

darem tapinha nas minhas

costas e fazer de conta que está

tudo bem, isso é o mais difícil

para mim, que sou poeta. Mas estou

aprendendo”, revelou a escritora.

Neste momento, sua maior

expectativa é conseguir afastar

do poder o presidente Bolsonaro.

“Esse governo é, na verdade, algo

que retira qualquer possibilidade

de projeto de felicidade. É você

trabalhar o dia inteiro sabendo

que cada noite um direito seu vai

ser cortado”. Na literatura, o que

ela quer mesmo é poder se dedicar

à criação. “Essa falta de tempo

para escrever está me matando”,

disse Cida Pedrosa, antes de encerrarmos

nossa conversa e ela

seguir para a sua mesa literária.

fugidos ou não de casa grande

carregando no coração um tambor

na boca o sopro de ventanias

nas mãos a virtuose escondida

em dias e dias de trabalho nas

pernas as cordas tesas e tensas

de mil léguas andadas longe da

pátria os negros se espalharam nas

paragens sertanejas fazendo parte

da paisagem incrustados nas serras

e serrotes mesmo que as fotografias

não registrem e as línguas brancas

esqueçam seus nomes

mesmo que os brancos não queiram

mesmo que os brancos não queiram

mesmo que os brancos não queiram

vivem

vivem

vivem

e fazem

e fazem

e fazem

Revista Elas por Elas - maio 2022

127


Poucas e boas

Podcasts

Internet

Lugar de mulher é

Praia dos Ossos

Uma produção da jornalista Branca

também na Ciência!

Viana (Rádio Novelo) ganhou notoriedade

pelo cuidadoso trabalho de

Nilma Lino Gomes é vencedora do 3ª Prêmio

“Carolina Bori Ciência & Mulher”

narrar vida e morte de Âgela Diniz,

brutalmente assassinada pelo então

A professora Nilma Lino Gomes, da Faculdade de

namorado, Doca Street, em dezembro

de 1976, na Praia dos Ossos,

Educação (FaE) da UFMG, foi a vencedora na área de

Humanidades do 3º Prêmio Carolina Bori Ciência

em Búzios (RJ). Doca, um notório

& Mulher, iniciativa da Sociedade Brasileira para o

homem branco e rico que, apesar de

Progresso da Ciência (SBPC). O prêmio foi entregue

réu confesso, foi considerado vítima

no dia 11 de fevereiro, data escolhida por ser o Dia

pelo judiciário à época, porque sua

Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência,

masculinidade teria sido ferida. O

instituído pela Organização das Nações Unidas para

podcast é composto por 8 episódios,

a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

com duração média de uma hora cada.

Nilma Lino Gomes, que também foi ministra das

A primeira minissérie original da

Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos

Rádio Novelo.

no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, tem

www.radionovelo.com.br/

sua trajetória marcada pelas lutas emancipatórias.

praiadosossos/

Em 2019, recebeu o título de professora emérita da

UFMG, ou seja, se aposentou em posição honrosa,

mantendo seu título de professora. Na ocasião, ela

Mamilos - Diálogos de

disse que sua trajetória foi construída com a ajuda

peito aberto

de muitas pessoas e de muitas vozes anteriormente

Podcast semanal que busca nas redes

sociais os temas mais debati-

silenciadas. “Trago no sangue e na memória a dor do

açoite e da chibata. Reconheço a presença do racismo,

dos (polêmicos) e traz para mesa

por mais disfarçado e ambíguo que ele possa ser.

um aprofundamento do assunto

Trago a indignação contra a injustiça, a raiva contra

com empatia, respeito, bom humor

a opressão, o desejo de mudança e uma corporeidade

e tolerância. Apresentado por Juliana

Wallauer e Cris Bartis, a pro-

negra insubmissa.” mercado e comunidade.

Com informações do portal da UFMG

dução do B9 Company traz diversos

argumentos e visões para que os

ouvintes formem opinião com mais

Paulina Chiziane ganha

embasamento.

o Prêmio Camões

www.mamilos.b9.com.br

O Prêmio Camões, considerado o mais importante

da língua portuguesa, teve a escritora moçambicana Calma, gente horrível!

Paulina Chiziane como vencedora na 33ª edição, Como descrevem as próprias idealizadoras,

o podcast é de reclamações

realizada no ano passado (2021). Aos 66 anos, ela

é a primeira mulher africana a vencer o prêmio e semanais. Quatro mulheres, quatro

personalidades diferentes. Ana

também foi a primeira mulher a publicar um livro

em Moçambique, a obra “Balada de Amor”, em 1990. Roxo, Rita Alves, Tati Fadel e Malu

Para quem quiser saber mais sobre a trajetória de Rodrigues debatem com bom humor

Paulina, é só conferir a edição do Programa Extra-Classe, e muito deboche temas como política,

comportamento, sociedade, ciên-

produzido pelo Sinpro Minas, em que a escritora

compartilhou histórias, contos, reflexões e poemas! cia, cultura e outros assuntos.

Disponível no canal do Sinpro Minas no YouTube.

www.instagram.com/

www.youtube.com/Sinprominas

calmagentehorrivel

128 Revista Elas por Elas - maio 2022

https://votelgbt.org/flix

Desenvolvido pelo coletivo #VoteLGBT,

o LGBTFlix é um streaming

com um catálogo de filmes

com temática LGBT+. Com 250

produções no acervo, o serviço

gratuito é focado em curta-metragens,

mas possui algumas séries

e outras produções do gênero

disponíveis. Também é possível

filtrar o conteúdo por assunto,

como religião, sexo, família,

entre outros.

@planetaella

Perfil do Instagram do projeto

Ella - Rede Internacional de Feminismos.

Iniciado em 2014 como

um encontro de mulheres de

11 países, hoje o ELLA conecta a

mais de 30 países. No perfil, publicações

diversos tipos de conteúdo

sobre as temáticas em

torno dos feminismos.

@listapreta

Perfil do Instagram da plataforma

que celebra cultura,

identidade negra, estima e

representatividade.


Livros

Audiovisual

Confinada

Autoria: Triscila Oliveira e Leandro Assis

Editora: Todavia

A obra, produzida pela roteirista Triscila Oliveira e o ilustrador

Leandro Assis, foi lançada ano passado pela editora Todavia.

A criação nasceu como história em quadrinhos online,

que começou a ser divulgada após o início da pandemia da

Covid-19. Racismo, desigualdades e privilégio branco marcam

a narrativa.

Torrente ancestral, vidas negras importam?

Autoria: Juliana Souza

Editora: Matrioska Editora

“A obra Torrente ancestral, vidas negras importam?, de Juliana

Souza, é um convite à reflexão e uma crítica social às condições

de vida e existência da população negra. Mesclando relatos

de sua própria biografia a fatos históricos e cotidianos,

a autora provoca os leitores a novas práticas e questionamentos

ao longo de quatro capítulos escritos com uma linguagem

leve, fluida e muito peculiar.”

Uma história possível

Autoria: María Baranda

Editora: Olho de Vidro

“Publicado na Espanha em 2010 e agora traduzido para o português,

a escritora desenvolve uma narrativa em que o real e

o imaginário se entrelaçam de maneira poética e instigante,

levando o leitor para dentro do universo que foi ou poderia

ter sido o de Frida Kahlo. Na interseção entre realidade e

ficção, a autora explora o mundo que a pintora mexicana,

desde a infância e adolescência, buscou representar de modo

muito particular em sua arte.”

A Guerra não tem rosto de mulher

Autoria: Svetlana Aleksiévitch

Editora: Companhia das Letras

“A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de

vista masculino. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma

injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na

retaguarda, em outros estiveram na linha de frente. Quase

um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante

a Segunda Guerra Mundial, mas essa história nunca

foi contada. Svetlana Aleksiévitch deixa que as vozes dessas

mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora,

em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a

sombra onipresente da morte.”

Curta Travessia - 2018

Safira Moreira

“Travessia’’ é o curta que realizei a partir

da memória estilhaçada, fruto do apagamento

histórico da população negra

no Brasil. Por eu ser agora uma mulher

negra com uma câmera na mão e muitos

sonhos no peito, que o curta se fez.

Foi no gesto de garimpar fotografias de

mulheres negras nas feiras de antiguidade

do Rio de Janeiro que encontrei a

fotografia que abre o filme, todas as fotos

que encontrei nesse espaço provinham

de álbuns de famílias brancas, logo, elas

refletiam esse apagamento.”

Premiado em diversos festivais nacionais

e internacionais.

www.vimeo.com/moreirasafira

Série Incontáveis

Dividida em seis episódios, a série tematiza

a violência da ditadura contra

as mulheres, a população LGBTQIA+, a

população negra e moradora de favelas,

os povos indígenas, os estudantes e educadores

e os trabalhadores do campo e da

cidade. Cada episódio é narrado por uma

pessoa que viveu os impactos da ditadura,

representando os incontáveis sujeitos

coletivos atingidos e nem sempre

lembrados nas narrativas tradicionais.

Produzida pela Comissão da Memória

e Verdade da URFJ (@cmv.ufrj) tem direção

de José Sérgio Leite Lopes, edição de

Rubens Takamine e roteiro de cada episódio

feito pelos pesquisadores Felipe Magaldi,

Lucas Pedretti, Luciana Lombardo

e Virna Plastino.

Canal do Youtube/Fórum de Ciência e

Cultura da UFRJ.

Revista Elas por Elas - maio 2022

129


Retrato

O retrato desta edição é uma

homenagem à força, canto e legado

da grande rainha da música

popular brasileira: Elza Soares.

Foram 91 anos de uma história que

seguirá inspirando gerações e um

canto eterno que nos dá fôlego para

seguir cultivando esperanças.

*23/06/1930

+20/01/2022

130 Revista Elas por Elas - maio 2022

n ATEBEMG


Somos Todos Iguais

Elza Soares

Ouça Somos Todos Iguais

Eu era tão pequenina

Já me dizia papai

Filha não fique triste

Aqui somos todos iguais

Na guerra do dia a dia

O homem é bicho feroz

Mas sempre acaba vencendo

Aquele que é mais veloz

Nos campos de batalha

Morre o homem, morre a flor

Misturam todos os sangues

Mas o pranto não tem cor!!!

Revista Elas por Elas - maio 2022

131


f y t i sinprominas

Filiado à Fitee, Contee e CTB

www.sinprominas.org.br

132 Revista Elas por Elas - maio 2022 MAIO 2022

NÚMERO 13

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