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Revista Elas por elas 2016

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

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COMPORTAMENTO

Pelo direito de

ser quem sou

pág

30

SUPERAÇÃO

Protagonistas de

uma outra história

pág

60

RACISMO

Violência simbólica

e negligência

pág

72

SAÚDE

Intimidade

ameaçada

pág

80


Como te dizer

homem

que não te necessito?

Não posso cantar a liberação feminina

se não te canto

e te convido a descobrir liberações comigo.

Não me agrada a gente que se engana

dizendo que o amor não é necessário

-"tenha medo, eu tremo"

Há tanto novo que aprender,

formosos homens da caverna a resgatar,

novas maneiras de amar que ainda não inventamos.

Em nome próprio declaro

que gosto de me saber mulher

frente a um homem que se sabe homem,

que sei de ciência certa

que o amor

é melhor que as multi-vitaminas,

que o casal humano

é o princípio inevitável da vida,

que por isso não quero jamais liberar-me do homem;

o amo

com todas suas debilidades

e gosto de compartilhar sua teimosia

todo este amplo mundo

onde ambos somos imprescindíveis.

Não quero que me acusem de mulher tradicional

mas podem me acusar

tantas como quantas vezes queiram

de mulher.

NOVA TESE FEMINISTA

(Gioconda Belli, tradução de Jeff Vasques)


Queridas mulheres de luta

É lamentável que a primeira mulher

eleita para a Presidência do Brasil tenha

sido afastada injustamente por homens

corruptos e ligados a forças que atuam

contra os avanços democráticos em

toda a América Latina. Conforme descrevem

feministas em manifesto contra

o golpe em curso no país, a solidez de

uma democracia é também medida pela

igualdade de gênero.

O aprofundamento da disputa política

no Brasil, desde o desfecho das

eleições presidenciais, desencadeou

uma forte onda conservadora e retrógrada

no país. Se na democracia é

preciso lutar para que as mulheres

sejam tratadas de forma igualitária em

todas as dimensões do cotidiano, imaginem

num contexto em que o Estado

de Direito está sob ameaça. É nessa

conjuntura política que o Sindicato dos

Professores edita a nona edição da revista

Elas por Elas.

O Sinpro Minas, considerando a

composição majoritariamente feminina

da categoria, tem importante papel na

defesa dos direitos das mulheres, não

só no âmbito do trabalho, mas em

todas as questões que envolvem as

pautas de lutas e empoderamento da

mulher. Nesse sentido, a revista Elas

por Elas é um importante contribuição

na luta pela emancipação feminina.

Avançar no sentido de maior igualdade

de gênero em nossa sociedade

requer mudanças profundas. A começar

pela mídia tradicional que reproduz estereótipos

machistas. Em estudo sobre

como os discursos midiáticos têm representado

a presidenta eleita Dilma

Rousseff pode-se reconhecer atitudes

que ferem o princípio de igualdade de

gênero, que atingem não só as mulheres

na política, mas em todas as esferas.

Nesse cenário de retrocessos, o debate

sobre as questões de gênero é um

tema de grande relevância na luta em

defesa da democracia brasileira. E a

educação não pode se furtar a esse

debate. Mesmo com todos os desafios

e a pressão de grupos conservadores,

a discussão em torno do assunto, dentro

ou fora dos muros da escola, é inevitável.

Criar no ambiente escolar um espaço

mais acolhedor, que respeite as

diferenças, é um dos caminho para o

combate à violência de gênero.

Nesse contexto, a Elas por Elas traz

na capa a foto de uma mulher trans. Libernina

tem uma história de vida que se

repete todos os dias com crianças e

adolescentes que não se identificam

com o sexo que nasceu. Essa edição

também destaca outras histórias de superação

de mulheres que enfrentam

grandes barreiras na luta por direitos.

A desigualdade de gênero vem conjugada

à desigualdade de raça/cor,

classe, geração e orientação sexual e se

expressa no cotidiano das mulheres.

Atuar na melhoria das condições de

vida das mulheres na sociedade significa

incorporar medidas que impulsionem e

contribuam para a construção de novas

relações sociais de equidade de gênero.

Acreditamos que só o debate e a organização

da sociedade será capaz de impulsionar

a nossa luta, e de garantir a

presença das mulheres nos espaços de

poder e de decisão.

Boa leitura!

Revista Elas por Elas - Junho 2016

3


POLÍTICA

Agressões de gênero

CAPA

Pelo direito de

ser quem sou

Pessoas trans lutam

contra a falta de

políticas públicas

Pág 12

Pág 30

EDUCAÇÃO

Gênero na escola

VIOLÊNCIA

10 anos da Lei Maria

da Penha

ARTIGO

Violência contra a mulher

na internet

Pág 16

Pág 44

Pág 54

TRABALHO

Mulheres na tecnologia

SUPERAÇÃO

Protagonistas

de uma outra

história

Pág 24

Pág 60

Revista Elas por Elas - Junho 2016


RACISMO

Violência simbólica e negligência

HISTÓRIA

Lélia Gonzalez: mulher

negra na história do Brasil

Pág 72

Pág 102

COMPORTAMENTO

Intimidade ameaçada

BELEZA

Depilação feminina

PERFIL

Conceição Rosière

A mulher que dá vida

aos bonecos

Pág 80

Pág 88

CULTURA

Um novo olhar sobre o cinema

Pág 108

POUCAS E BOAS

Pág 111

POUCAS E BOAS

INTERNET

LIVROS

FILMES Pág 112

Pág 96

RETRATO

Pág 114

Revista Elas por Elas - Junho 2016


Departamento de Comunicação do Sinpro Minas: comunicacao@sinprominas.org.br

Diretores responsáveis: Aerton Silva, Clarice Barreto e Gilson Reis;

Editora/Jornalista responsável: Débora Junqueira (MG05150JP);

Redação: Cecília Alvim (MG09287JP), Denilson Cajazeiro (MG09943JP),

Nanci Alves (MG003152JP e Saulo Martins (MG15509JP);

Programação visual e Diagramação: Mark Florest;

Design Gráfico: Fernanda Lourenço;

Revisão: Aerton Silva

Foto capa: Libernina Andrade - Foto: Mark Florest

Conselho Editorial: Antonieta Mateus, Clarice Barreto, Lavínia Rodrigues, Maria Izabel Bebela Ramos,

Marilda Silva, Liliani Salum Moreira, Luliane Linhares, Soraya Abuid, Terezinha Avelar e Valéria Morato.

Impressão: EGL-Editores Gráficos Ltda - Tiragem: 2.000:

Distribuição gratuita: Circulação dirigida

REVISTA ELAS POR ELAS

PUBLICAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE

COMUNICAÇÃO DO SINPRO MINAS

ANO X - Nº 9 - JUNHO DE 2016

ACESSE AS EDIÇÕES ANTERIORES EM

www.sinprominas.org.br

Elas por elas - nº 8

Diretoria Gestão 2016/2020

Adelmo Rodrigues de Oliveira, Aerton de Paulo Silva, Albanito Vaz Júnior, Alessandra Cristina Rosa, Alexandre Durann Matos,

Alina Machado Moreira, Altamir Fernandes de Sousa, Ângela Maria da Silva Gomes, Ângelo Filomeno Palhares Leite, Antonieta

Shirlene Mateus, Antônio Marcos das Chagas, Aparecida Gregório Evangelista da Paixão, Arnaldo Oliveira Júnior, Beatriz Claret

Torres, Braulio Pereira dos Santos, Bruno Burgarelli Albergaria Kneipp, Camillo Rodrigues Júnior, Carla Fenícia de Oliveira, Carlos

Afonso de Faria Lopes, Carlos Magno Machado, Carlos Roberto Schutte Junior, Carolina Azevedo Moreira, Cecilia Maria

Vieira Abrahão, Celina Alves Padilha Arêas, Cid Indalécio Moreira Alves, Clarice Barreto Linhares, Claudia Nunes dos Santos

Silva, Clédio Matos de Carvalho, Clovis Alves Caldas Filho, Décio Braga de Souza, Diogo Oliveira, Edson de Oliveira Lima, Edson

de Paula Lima, Eduardo Arreguy Campos, Eliana Assunção Franco Codignole, Fábio dos Santos Pereira, Fabio Marinho dos

Santos, Fátima Amaral Ramalho, Fernando Dias da Silva, Fernando Lucio Correia, Filipe Luis dos Santos, Francine Fernandes

Cruz, Franz Lima Petrucelli, Geraldo Fabio Alves de Souza, Gilson Luiz Reis, Gisele Andrea Satrapa Oliveira, Grace Marisa Miranda

de Paula, Guilherme Caixeta Borges, Haida Viviane Palhano Arantes, Handerson Correa Gomes, Heber Paulino Pena,

Hélcia Amélia de Menezes Quintão Simplício, Helena Vicentina Flores, Heleno Célio Soares, Henrique Moreira de Toledo Salles,

Hermes Honório da Costa, Hugo Gonçalves Soares, Humberto de Castro Passarelli, Idelmino Ronivon da Silva, Inez Grigolo

Silva, Isabela Maria Oliveira Catrinck, Jaderson Teixeira, Jaqueline Rodrigues Gouveia Gomes, Jefferson Costa Guimarães,

João Francisco dos Santos, Jones Righi de Campos, José Carlos Padilha Arêas, Josiana Pacheco da Silva Martins, Josiane

Soares Amaral Garcia, Juvenal Lima Gomes, Kelly Angelina dos Reis Oliveira, Kenya de Jesus Sodre, Leila Lucia Gusmão de

Abreu, Leonardo Alves Rocha, Lilian Aparecida Ferreira de Melo, Liliani Salum Alves Moreira, Luiz Antonio da Silva, Luiz Carlos

da Silva, Luiz Claudio Martins Silva, Luliana de Castro Linhares, Marco Antonio Ramos, Marcos Antonio de Oliveira, Marcos

Gennari Mariano, Marcos Paulo da Silva, Marcos Vinícius Araújo, Maria Célia Silva Gonçalves, Maria Cristina Teixeira do Vale,

Maria da Conceição Miranda, Maria da Glória Moyle Dias, Maria Elisa Magalhães Barbosa, Maria Luiza de Castro, Mariana

Helena Moreira Nascimento, Marilda Silva, Marilia Ferreira Lopes, Mario Roberto Martins de Souza Silva Braga, Marta Betânia

Pereira Pimenta, Mateus Júlio de Freitas, Messias Simão Telecesqui, Miguel Jose de Souza, Miriam Fátima dos Santos, Moises

Arimateia Matos, Mônica Junqueira Cardoso Lacerda, Nalbar Alves Rocha, Nelson Luiz Ribeiro Da Silva, Newton Pereira de

Souza, Orlando Pereira Coelho Filho, Paola Notari Pasqualini, Patricia de Oliveira Costa, Petrus Ferreira Ricetto, Pitágoras

Santana Fernandes, Ricardo de Albuquerque Guimarães, Robson Jorge de Araújo, Rockefeller Clementino da Silva, Rodrigo

Rodrigues Ferreira, Rodrigo Souza de Brito, Rogerio Helvídio Lopes Rosa, Rossana Abbiati Spacek, Rozana Maris Silva Faro,

Sandra Lúcia Magri, Sandra Maria Nogueira Vieira, Sebastião Geraldo de Araújo, Silvio Rodrigo de Moura Rocha, Simone Esterlina

de Almeida Miranda, Siomara Barbosa Candian Iatarola, Sirlane Zebral Oliveira, Sirley Trindade Vilela Lewis, Tarcisio

Fonseca da Silva, Telma Patrícia de Moraes Santos, Teodoro José Eustáquio de Oliveira, Terezinha Lúcia de Avelar, Thais Claudia

D’Afonseca da Silva, Uldelton Paixão Espírito Santo, Umbelina Angélica Fernandes, Valéria Peres Morato Gonçalves, Vera Cruz

Spyer Rabelo, Vera Lucia Alfredo, Virgínia Ferreira Ramos e Wellington Teixeira Gomes,

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS

SEDE: Rua Jaime Gomes, 198 - Floresta - CEP: 31015.240

Fone: (31) 3115 3000 - Belo Horizonte - www.sinprominas.org.br

SINPRO CERP - Centro de Referência dos Professores da Rede Privada

Rua Tupinambás, 179 - Centro - CEP: 30.120-070 - BH - Fone: (31) 3274 5091

sinprocerp@sinprominas.org.br

REGIONAIS:

Barbacena: Rua Silva Jardim, 425 - Bairro Boa Morte - CEP:36.201-004 - Fone: (32) 3331-0635; Cataguases:

Rua Major Vieira, 300 - sala 04 - Centro - CEP: 36.770-060 - Fone: (32) 3422-1485; Coronel Fabriciano: Rua

Moacir D'Ávila, 45 - Bairro dos Professores - CEP: 35.170-014 - Fone: (31) 3841-2098; Di vinópolis: Av. Minas

Gerais, 1.141 - Centro - CEP: 35.500-010 - Fone: (37) 3221-8488; Governador Valadares: Rua Benjamin Constant,

653 - Térreo - Centro - CEP: 35.010-060 - Fone: (33) 3271-2458; Montes Claros: Rua Januária, 672 -

Centro - CEP: 39.400-077 - Fone: (38) 3221-3973; Paracatu: Rua Olhos D’água, 92 - Centro - CEP: 38.600-

000 - Fone: (38) 3672-1830; Patos de Minas: Rua Tenente Bino, 32 - Sala 408 - Centro - Condomínio Cristina

- CEP: 38.700-108; Ponte Nova: Av. Dr. Otávio Soares, 41 - salas 326 e 328 - Palmeiras - CEP: 35.430-229 -

Fone: (31) 3817-2721; Pouso Alegre: Rua Dom Assis, 241 - Centro - CEP: 37.550-000 - Fone: (35) 3423-3289;

Sete Lagoas: Rua Vereador Pedro Maciel, 165 (A) - Bairro Nossa Senhora das Graças - CEP: 35.700-477 -

Fone: (31) 3776-5864; Teófilo Otoni: Rua Pastor Hollerbarch, 187 - sala 201 - Grão Pará - CEP: 39.800-148 -

Fone: (33) 3523-6913; Uberaba: Rua Alfen Paixão, 105 - Mercês - CEP: 38.060-230 - Fone: (34) 3332-7494;

Uberlândia: Rua Olegário Maciel, 1212 - Centro - CEP: 38.400-086 - Fone: (34) 3214-3566; Varginha: Av. Doutor

Módena, 261 - Vila Adelaide - CEP: 37.010-190 - Fone: (35) 3221-1831.

6 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Tantas mulheres, tantas histórias...

Mulheres anônimas e guerreiras...

Outras reconhecidas somente após

sua morte... Assim se fez e se faz a história

humana, com diferentes almas femininas

que não desistiram da luta da vida, apesar

das adversidades, que encontraram caminhos

revolucionários e linguagens de

esperança para fazer a diferença no tempo

e lugar em que viveram e vivem e que nos

inspiram até hoje a seguir acreditando.

No ensaio fotográfico “Mulheres cabulosas

da história”, lançado em março, por

ocasião do Dia Internacional da Mulher,

43 mulheres de diferentes nacionalidades

e realidades foram representadas

por jovens do Levante Popular da Juventude

de Belo Horizonte. O projeto propõe

uma releitura fotográfica de personalidades

femininas da história mundial

comprometidas com a construção de

uma nova sociedade. "Queremos que as

mulheres de hoje se inspirem e se sintam

encorajadas a provocar novas transformações

na sociedade atual", disse a

fotógrafa Isis Medeiros.

A escolha das mulheres que seriam

representadas e a produção do ensaio foi

feita de forma colaborativa. As jovens se

identificaram fisicamente com as personalidades

e ajudaram na pesquisa de

informações sobre cada uma delas. As

fotos pretendem reproduzir a mesma

postura, olhar e direção das personalidades

em fotos originais. Foram dois dias

para fotografar todas elas. “As mulheres

envolvidas no projeto participaram de

forma efetiva, arrumando o cabelo e

retocando a maquiagem uma da outra,

ajudando na direção das imagens e na

iluminação. O processo foi empoderador

para todas nós!”, completou Isis. Das 43

mulheres fotografadas, oito são negras e

duas são indígenas. “Infelizmente, a

maioria dessas mulheres tiveram seus

nomes ignorados ao longo da história,

em função do machismo e especialmente

do racismo”, alertou a fotógrafa.

Para Paula Silva, uma das organizadoras

do projeto, as mulheres importantes e

protagonistas na luta do povo não são

devidamente retratadas na escola, nos

livros de história e na mídia. “Suas histórias

são apagadas pelo patriarcado para

que as pessoas não tomem conhecimento

do potencial revolucionário das mulheres

na busca de uma sociedade livre de

todas as opressões", afirmou Paula Silva,

uma das organizadoras do projeto.

Ao longo desta edição,

você poderá se inspirar

em algumas dessas

mulheres que

fizeram a história!

Revista Elas por Elas - Junho 2016

7


Luiza Mahim foi trazida

como escrava ao Brasil,

era quituteira e foi uma

das lideranças na Revolta

dos Malês (1835). Caso os

malês tivessem sido vitoriosos,

Luísa seria reconhecida

como Rainha da

Bahia.

Na verdade, essa é Ana Carolina

Vasconcelos, estudante

que luta pela liberdade

e reconhecimento das

mulheres e por um feminismo

cada vez mais representativo.


Vilma Espim foi a segunda

mulher a se formar engenheira química

em Cuba. Era do movimento

estudantil e foi uma das líderes da

tomada de poder pelo socialismo,

em 1960. Fundou a Federação de

Mulheres Cubanas, que oferecia

formação para mulheres, inclusive

política, o que fez com que Cuba

fosse o segundo país no mundo com

maior representação de mulheres

em cargos eletivos.

Mas, na verdade, essa é Nathália

Ferreira, que luta por uma América

Latina livre de injustiça e discriminação.


POLÍTICA

POR DÉBORA JUNQUEIRA

CADU GOMES

Agressões de gênero

Críticas à presidenta Dilma trazem à tona a misoginia da mídia


Estereótipos de gêneros sempre foram

usados para tentar atingir a dignidade

e a importância das mulheres,

mas as agressões à presidenta Dilma

Rousseff, principalmente na mídia, extrapolam

todos os limites éticos. Desde

o período de campanha até o seu afastamento

da Presidência, Dilma tem

sido vítima do machismo socialmente

arraigado no Brasil.

No artigo Governo Dilma e representações

da mulher: uma análise

das relações entre gênero, política e

mídia no Brasil, a jornalista Piedra

Magnani da Cunha, mestre em Comunicação

e professora da UNA, analisa

as formas de discursos midiáticos que

têm representado a presidenta da República,

Dilma Rousseff, em diversas

passagens polêmicas de seu governo,

nas quais pode-se reconhecer atitudes

de defesa e rejeição ao princípio de

igualdade de gênero dentro do quadro

político. O artigo está disponível no

livro Mulheres comunicam – Mediações,

sociedade e feminismos (Editora

Letramento).

A autora cita que, antes mesmo que

Dilma se tornasse a primeira mulher a

ocupar o mais alto posto político do

Brasil, em 2011, a imprensa já iniciava

seus discursos tangenciando questões

de gênero quanto as três prováveis candidatas

à presidência: Dilma Rousseff,

Marina Silva e Heloísa Helena, elencando

preconceitos como autoritarismo, ausência

de charme e falta de feminilidade.

O jornalista Jorge Pontual, à época

correspondente da Rede Globo em

Nova York, publicou em sua página no

twitter (em 24/08/2009) comentários

machistas e desqualificadores da candidata

Dilma que geraram enorme repercussão

na rede: “Se você receber um e-

mail intitulado ‘Fotos nuas de Dilma

Rousseff nua’, não abra! Pode realmente

conter fotos de Dilma Rousseff nua”.

Outra violência, exemplificada no

artigo, foi a vaia com palavrões recebida

pela presidenta durante a Copa

do Mundo de futebol, realizada no Brasil,

nos meses de junho e julho de

2014. Dilma se pronunciou após o

ocorrido, ressaltando que não iria se

deixar perturbar com as agressões verbais,

afinal “nem mesmo a tortura a

tirou do seu rumo”.

A autora também cita a posse da

presidenta da República para seu segundo

mandato, no dia 1º de janeiro

de 2015, quando a imprensa dedicouse

a analisar se o “look” escolhido por

Dilma era apropriado para seu cargo

e ocasião. “José Simão, em suas crônicas

sobre a repercussão da posse da

presidenta, destilou sua ironia ao comparar

a roupa rendada usada por Dilma

na cerimônia com uma capa de botijão

de gás – montagem e comentário que

rapidamente se tornaram virais nas redes

sociais e sites noticiosos na web”,

descreve a professora Piedra. O post

com imagens lado a lado de Dilma e

um botijão de gás com capa em tom e


Na posse, a imprensa

dedicou-se

a analisar se o

“look”escolhido

por Dilma era

apropriado

tecido similares teve 40 mil curtidas e

20 mil compartilhamentos e centenas

de comentários machistas.

Uma das mais graves situações de

desrespeito à presidenta Dilma aconteceu

em julho de 2015, quando começaram

a circular em várias cidades

carros com adesivos, que apresentavam

montagens gráficas nas quais o rosto

da presidenta Dilma está inserido em

um corpo feminino de pernas abertas,

para serem colados em torno das bombas

de combústivel de automóveis, de

modo que, no ato de abastecimento

desses veículos, houvesse clara alusão

a uma penetração sexual.

As imagens causaram um verdadeiro

frisson nas redes sociais e foram exaustivamente

compartilhadas e comentadas.

“Os discursos contrapunham-se claramente:

os que defendiam seu direito de

protestar contra o governo e aqueles

que denunciavam preconceito e abuso

contra os direitos das mulheres. Na imprensa

tradicional, o tema tornou-se

pauta quando a secretária de Políticas

para as Mulheres (SPM-PR), Eleonora

Menicucci, abriu pedido de investigação

ao Ministério Público Federal (MPF), à

Advocacia-Geral da União (AGU) e ao

Ministério da Justiça sobre sua produção,

utilização e também comercialização

pelo site Mercado Livre”, diz a autora.

Banalização da violência

A ONU Mulheres Brasil também

divulgou uma nota afirmando ser “ultrajante

e extremamente agressiva a

apologia de violência sexual contra a

presidenta da República, Dilma Rousseff,

retratada em adesivos para automóveis,

como expressão de misoginia

e interpelação dos direitos humanos

Revista Elas por Elas - Junho 2016

11


de mulheres e meninas. Tal episódio

se configura como violência política

sem precedentes. Nenhuma discordância

política ou protesto pode abrir margem

e/ou justificar a banalização da

violência contra as mulheres – prática

patriarcal e sexista que lhes invalida a

dignidade humana”, diz a nota.

A professora Piedra Magnani ressalta

que nos discursos destacados a

respeito de Dilma não está em questão

apenas a emergência de uma mulher

que alcançou o cargo de presidente do

país, mas de uma mulher aparentemente

fora dos padrões de

fe mi nilidade (constituídos por visões

machistas e finalidades mercadológicas).

“Nesses discursos, ela aparece

como figura destoante, distinta do

modelo ‘esperado’ de mulher, e parece

não ser aceita pelo fato de encarnar

uma dureza que não condiz com sua

condição de mulher”, avalia.

Outra agressão à presidenta Dilma

na mídia foi o texto “Dilma e o sexo”,

assinado pelo jornalista e editor da revista

Época, João Luiz Vieira, em

agosto de 2015. O autor atribui os

problemas da presidenta Dilma Rousseff

à “falta de erotismo”. Diante da repercussão

negativa, o artigo foi retirado

do ar no mesmo dia. No artigo O Machismo

e a presidenta, publicado no

site Blogueiras Feministas (27/08/15),

a autora Máira Nunes comenta o texto

da revista Época e avalia que a argumentação

central do jornalista João

Luiz Vieira é a de que para fazer o

jogo político Dilma precisa se erotizar.

Segundo Máira, na nossa sociedade

machista e patriarcal, a política é considerada

um jogo masculino e a

maioria das estadistas passaram por

um processo de “masculinização” e

“dessexualização”. “Dilma, que já era

uma mulher considerada dura, fez um

caminho inverso, abrandou-se ainda

na campanha para tornar-se mais amigável

ao eleitorado. Mas, pelo visto,

não foi o suficiente. É preciso mais.

Segundo a autora, é preciso não só

expressar sua sexualidade, mas também

ser desejável”, cita.

Em abril de 2016, a revista IstoÉ

protagonizou mais um episódio da mídia

golpista, estampou em sua capa uma

foto da presidenta de costas com as

Desrespeito: presidenta recebeu xingamentos na Copa do Mundo.

12 Revista Elas por Elas - Junho 2016


mãos pra cima ao lado do título “Fora

de controle”. No texto, Dilma é comparada

à personagem da história conhecida

como “Maria I, a louca”. A assessoria

da presidenta, na época, disse que a reportagem

é “escandalosa, leviana, sexista,

INTERNET

covarde e risível” e afirmou que a Justiça

seria acionada no caso.

A reportagem causou grande repercussão

e protestos. O coletivo feminista

ThinkOlga publicou um texto

de repúdio e acusou a revista de estar

praticando “GashLighting” que é uma

violência emocional baseada na manipulação

psicológica que leva a mulher

e todos a seu redor acharem que ela

enlouqueceu ou é incapaz.

“Um acinte, um desrespeito e uma

violência contra todas as mulheres a

capa da revista IstoÉ, com um texto

vexaminoso, utilizando todos os estereótipos

e adjetivos machistas e misóginos,

para desqualificar uma mulher

na Presidência do Brasil!”, descreve a

jornalista Ivana Bentes, no artigo Reportagem

da IstoÉ é um ataque às

mulheres, divulgado na Internet

(02/04/2016). Para Ivânia Pereira, secretária

da Mulher Trabalhadora da

Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras

do Brasil (CTB) a pressão contra

as mulheres no poder é muito mais intensa

em relação aos homens. “Isso

ocorre porque a luta por igualdade de

gênero, assusta a elite. Então atacam

as mulheres como se fossem responsáveis

pelos erros dos homens”, explica.

Bela, recatada e do lar

“Depois da matéria execrável da IstoÉ,

surgiu a reportagem da revista

Veja, Bela, recatada e do lar, como

mais um exemplo de violência simbólica,

com o recado de que o papel da mulher

na política deve ser de apêndice ou

enfeite”, opina Marlise Matos, professora

da UFMG e coordenadora do Núcleo

de Estudos e Pesquisa sobre a

Mulher (Nepem). A reportagem retrata

Marcela Temer, esposa do presidente

provisório da República, como o tipo

de mulher que todas deveriam ser, ou

seja, à sombra, nunca à frente, com

papel reduzido na sociedade. A reportagem

também provocou manifestações

contrárias calorosas nas redes sociais.

Segundo Marlise, a presidenta Dilma

é vítima de violência política sexista de

uma sociedade preconceituosa e discriminatória.

“O fato de ela ser mulher

não foi determinante para tudo que

ela passou, mas, com, certeza há um

componente machista”, afirma. Marlise

explica que, na política, se a mulher

age com firmeza é considerada masculinizada,

sendo chamada de general.

Do contrário, carrega o estereótipo

de conciliadora e dizem que vai ser

atropelada pelo jogo político. “Estamos

para construir esse lugar para a mulher

na política que desliza entre esses dois

estereótipos”, afirma.

A professora vê um cenário sombrio

na política, em que as conquistas feministas

correm riscos. “A ruptura da democracia

afeta todas as mulheres e em

um ano eleitoral, o desafio é gigantesco.

Estamos vendo a primeira mulher que

chegou à Presidência perdendo seu

cargo e isso vai ser um desestímulo para

outras mulheres. O recado é de repúdio

social às mulheres na política”, afirma

“Um estupro político da democracia

e do voto popular”, conceitua Marlise

ao falar da condução do processo de

impeachment da presidenta Dilma Rousseff

sem um debate transparente e justo.

Para ela, o bater panelas nos protestos

evidencia o simbolismo de quase um dizer:

“volte para a cozinha, dona Maria.

Parece” que tudo é um exercício de vingança

e ódio, vindo do imaginário de

que a mulher está usurpando um lugar

que não é dela”, conclui.ø

Revista Elas por Elas - Junho 2016

13


Juana Azurduy de Padilla

(General) representa as milhares

de mulheres heroínas nas guerras

de emancipação da colônia sul

americana que pertencia à Espanha.

Cristina Kirchner, expresidenta

da Argentina, substituiu

uma estátua de Cristovám

Colombo, que ficava dentro da

residência oficial do governo,

por uma de Juana Azurduy, de

nove metros de altura.

Mas, na verdade, essa é Giovanna

Abreu, estudante de Direito, que

luta pelo fim do feminicídio.


Nísia Floresta foi escritora

e educadora no século XIX. Escreveu

vários livros, como: Direitos

das mulheres e injustiças

dos homens e Opúsculo Humanitário,

esse último criticou o

ensino nas escolas da Corte, onde

meninas aprendiam regras de

etiqueta e “bons” costumes. Ela

fundou uma escola para ensinar

línguas, ciências naturais e sociais,

matemática e artes.

Mas, na verdade, essa na foto é

Aline Bentes, pediatra, que luta

para que o trabalho das mulheres

seja valorizado.


ISTOCK


EDUCAÇÃO

POR DENILSON CAJAZEIRO

Gênero na escola

Assunto tem despertado resistência de conservadores, mas

abordá-lo pode diminuir desigualdades e situações de violência

As mulheres ainda realizam seis

vezes mais os afazeres domésticos que

os homens e, no mercado de trabalho,

o salário delas é 30% menor. Em uma

lista com 83 países, o Brasil ocupa o

triste quinto lugar com maior taxa de

violência contra as mulheres, segundo

levantamento feito pela Faculdade

Latino-Americana de Ciências Sociais

(Flacso), e em Minas Gerais, um caso

de agressão é registrado a cada quatro

minutos.

Os dados, por si sós, seriam suficientes

para que as questões de gênero

fossem discutidas em todos os locais,

sobretudo na sala de aula, um dos

principais espaços formativos da sociedade.

No entanto, há uma parcela

da população que quer ver o assunto

distante dos bancos escolares e não

mede esforços para isso. O medo, segundo

alegam, é de que os professores

promovam uma “ideologia de gênero”

que defenderia a liberdade sexual dos

estudantes e deturpariam o conceito


A menção ao

termo gênero

chegou a ser excluída

do PNE

(Plano Nacional

de Educação).

de homem e mulher e o modelo tradicional

de família.

O assunto tem gerado há algum

tempo bastante polêmica, e a menção

ao termo chegou a ser excluída do

Plano Nacional de Educação (PNE),

aprovado há dois anos, por força do

lobby da bancada religiosa no Congresso.

O PNE é o documento que estabelece

as diretrizes do setor para os

próximos dez anos. Durante a tramitação

da proposta, os parlamentares da

Bíblia, como são conhecidos na Casa,

pressionaram e o texto final do projeto

excluiu qualquer menção à igualdade e

identidade de gênero, orientação sexual

e sexualidade nas escolas.

No ano passado, o assunto ocupou

o noticiário quando os planos estaduais

e municipais tramitaram nas câmaras

e assembleias legislativas país afora.

Em Belo Horizonte, por exemplo,

numa das audiências públicas, realizada

a pedido do vereador Gilson Reis

(PCdoB), manifestantes chegaram a

espalhar os seguintes cartazes: “não

mexam com nossas crianças!”, manifestação

contra o direito de a escola

atuar na promoção de condições iguais

entre homens e mulheres. Em muitas

cidades e estados, o cenário foi o mesmo,

e a palavra gênero ficou de fora

dos planos aprovados.

Em outubro passado, a onda conservadora

voltou sua artilharia para o

Exame Nacional do Ensino Médio

Revista Elas por Elas - Junho 2016

17


(Enem). O teste, aplicado em todo o

país, foi acusado de fazer doutrinação

ideológica e de tratar de assunto “ultrapassado”

por trazer, em uma de suas

questões, uma frase da feminista Simone

de Beauvoir, além de o tema da redação

ter sido a persistência da violência contra

a mulher. Tramitam, também, país afora,

projetos de lei que querem proibir que

o assunto seja tratado pelos professores.

No Congresso Nacional, um dos projetos,

de autoria do deputado federal Eros

Biondini (PTB/MG), chega a prever

prisão de até dois anos para o docente

que falar sobre “ideologia de gênero”.

Todos eles são tributários do chamado

movimento “Escola sem partido”, criado

em 2004 com o objetivo de combater

o que considera um processo de contaminação

político-ideológica das escolas

brasileiras.

Para Adla Betsaida, professora e

pesquisadora da Faculdade de Educação

da Universidade Federal de Minas Gerais

(UFMG), as questões de gênero precisam

ser abordadas em sala de aula como

forma de garantir os direitos humanos.

“Essa discussão sobre ideologia de gênero

é manipulação da bancada religiosa.

Basta olhar os dados de mulheres vítimas

de violência, a discriminação salarial,

entre outras desigualdades. Isso é um

dado, um fato, que gera impactos para

toda a sociedade, para o orçamento

público. Todo mundo paga por isso”,

critica a pesquisadora. Segundo ela, há

certa confusão na sociedade ao achar

que gênero diz respeito somente às

mulheres. “Trata-se de meninos e meninas,

homens e mulheres, de como

somos fixados em modelos de masculinidade

e feminilidades e como isso nos

afeta”, pondera a educadora, para quem

tais modelos são limitadores e geram

perdas para toda a sociedade. “Existe

uma socialização que joga meninos e

meninas para áreas específicas. É visto

como algo da natureza do homem e da

mulher. Não existe isso, e todos somos

fruto dessa discriminação. Há várias

perdas para a sociedade, desde perdas

físicas até de cérebros brilhantes. Há

um impacto social enorme”.

Um experimento feito por pesquisadores

da Universidade de Tel Aviv

confirma essa diferente socialização

no ambiente escolar, em que os meninos

estariam mais aptos para as Ciências

Exatas, enquantos as meninas, para a

área de Humanas. Alunos foram selecionados

para fazer provas idênticas

sobre uma série de matérias, e os exames

foram corrigidos por dois grupos

de professores: um que sabia o nome

dos estudantes, e portanto era capaz

de deduzir o sexo deles, e outro que

corrigiu as provas sem a identificação.

O resultado mostrou que as correções

foram desiguais, mesmo com respostas

idênticas. Nas provas de Matemática e

Ciências, os professores que conheciam

os nomes deram notas maiores para

os meninos, enquanto os da correção

ISTOCK

18 Revista Elas por Elas - Junho 2016


anônima deram notas maiores para as

meninas. Os pesquisadores concluíram

que, nos exames dessas áreas, os professores

superestimaram a capacidade

dos alunos, e subestimaram a das

alunas, e que essa prática produziu um

efeito duradouro, já que poucas meninas

que participaram da pesquisa demonstraram

interesse pelas Ciêncas Exatas

quando estavam perto de se formar.

ISTOCK

Cultura do silêncio

Na avaliação do professor Teodoro

Zanardi, do programa de pós-graduação

em Educação da Universidade

PUC Minas, o atual modelo educacional

privilegia a pessoa branca, heterossexual

e cristã. “Esse é um padrão que

tem sido trabalhado. Só que temos

hoje na escola, abandonando a cultura

do silêncio, aquele que não é branco,

não é heterossexual e não é cristão.

Essas pessoas devem ser ouvidas e respeitadas

para transformar a realidade

tanto escolar quanto social. A escola

não tem o direito de silenciar a diferença,

deve ser um espaço de cidadania”,

aponta Zanardi.


O atual modelo

educacional privilegia

a pessoa branca,

heterossexual

e cristã.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

19


Muitas pesquisas também revelam

que silenciar as diferenças pode resultar

em abandono dos estudos ou em

baixo desempenho escolar. Thiago

Costa, do Centro de Luta pela Livre

Orientação Sexual de Minas Gerais,

sabe bem disso. Quando jovem, evitou

por vezes ir à escola com medo de sofrer

algum tipo de violência. “Várias

vezes, fingi para minha mãe que estava

doente para não ir à escola, para não

ser ridicularizado ou apanhar na saída,

porque era isso que eu vivia. Então,

não é só dizer que a escola não está

preparada e não acolhe. Ela faz pior

do que isso e chega a expulsar, em função

do ambiente de imposição de comportamentos”,

relata.

Situação semelhante vivenciou Maria

Catarina, quando estava no ensino médio.

Na época, ela passou a se identificar

como mulher trans e, a partir de então,

começaram as situações de violência

no ambiente escolar. “Eu nunca tinha

tirado uma nota vermelha, mas aí minhas

notas começaram a cair porque

os professores e colegas me maltratavam.

Meus colegas começaram a me

maltratar principalmente quando os

professores não respeitaram o meu

nome social, faziam chacota de mim

na frente de todos, e isso deu amparo

para que os alunos fizessem violência

sem qualquer proibição. Então teve

um momento que não aguentei mais e

evadi, no último ano”, conta Catarina.

Segundo a travesti Sayonara Nogueira,

professora da rede estadual de

ensino de Minas Gerais, a escola ainda

hoje funciona como um motor de exclusão,

com muita dificuldade de aceitar

padrões diferentes de comportamento.

“A importância dessa questão de gênero

hoje, que vem levantando tanta polêmica,

é diminuir a violência que existe.

É criar uma escola que trate realmente

da diversidade, não só das travestis e

transsexuais, mas também das lésbicas,

gays e bissexuais. É tratar também da

violência contra a mulher. Quando

você retira a discussão sobre gênero

na escola, você está reafirmando essa

cultura patriarcal que a sociedade impõe

pra gente”, defende.

Para pesquisadores da educação,

mesmo que os planos estaduais ou

municipais não mencionem a palavra

gênero, a Constituição Federal e tratados

internacionais, dos quais o Brasil

é signatário, permitem que o assunto

esteja presente nas políticas educacionais

e no cotidiano das escolas. “As

crianças precisam tomar conhecimento

de suas diferenças, sejam elas de gênero,

religiosa, raça ou etnia”, afirma João

Batista Rocha, professor de Direitos

Humanos, ao comentar que situações

de homofobia, lesbofobia e outros preconceitos

e violências de gênero podem

ser evitados na vida adulta, caso o

tema seja trabalhado desde cedo.

Ideologia de gênero

Várias entidades, entre elas o próprio

Ministério da Educação (MEC), já

emitiram notas públicas nas quais

apoiam a abordagem em sala de aula

Reunião da Comissão Especial do PNE é marcada por protestos

contra a “ideologia de gênero”.

20 Revista Elas por Elas - Junho 2016


e desmistificam a tese da suposta “ideologia

de gênero”. “A escola, historicamente,

vem ensinando o que se instituiu

como comportamento de meninos

e meninas e organiza um conteúdo curricular

com base em conceitos heteronormativos

que grande parte das vezes

não reconhecem a diversidade de desejos

e de relações sexuais e afetivas.

Há modelos de comportamentos atribuídos

a homens e mulheres que, embora

não instituídos por nenhuma diretriz

pedagógica, são recorrentemente

reforçados, produzindo a reiteração de

desigualdades e, em casos mais extremos,

de discriminações e violências”,

diz a nota elaborada por técnicos do

www.cartaeducacao.com.br

ministério no ano passado, quando a

pasta estava sob o comando do ministro

Aloizio Mercadante.

Na mesma linha, a Associação Brasileira

de Antropologia (ABA) publicou

um manifesto, assinado por 113 pesquisadores

e grupos de estudos, no

qual aponta que o conceito de gênero

está baseado em parâmetros científicos

de produção de saberes sobre o mundo.

“Uma identidade masculina baseada

na agressividade e na indisciplina tem

cada vez mais afastado os meninos

dos bancos escolares, negando-lhes

seu direito à educação e reproduzindo

uma cultura da violência. Professoras

são vítimas de agressões em sala de

aula, meninas são estupradas por seus

colegas de turma e meninos são afastados

das escolas neste ciclo de desigualdade

perpetuado por noções hierarquizadas

do que é ser homem ou

mulher. Também são notáveis, por

outro lado, as pesquisas que mostram

o quanto a discriminação de gênero

contra as pessoas que fogem dos padrões

socialmente estabelecidos de

identidade ou sexualidade tem desencadeado

processos institucionalizados

de discriminação, agressões e exclusão

escolar”, afirma o manifesto.


Boa parte da resistência

ao tema poderia

ser superada

com mais investimento

na formação

dos docentes

Para Adla Betsaida, o assunto deve

ser trabalhado nas diversas disciplinas,

e boa parte da resistência ao tema poderia

ser superada com mais investimento

na formação dos docentes, para

que eles pudessem explicar à comunidade

escolar como a questão seria

abordada na escola e qual a importância

dela. “O problema é que muitos professores

não têm tempo de se preparar.

É injusto exigir isso. Eles estão exaustos

com o excesso de atividades, de provas

e avaliações. Há um grau de exigência

enorme. Mas muitos docentes também

têm de aceitar que existe discriminação.

Na escola da minha filha, um professor

disse que mulher que pinta as unhas

de vermelho está pedindo para ser assediada”,

afirma Betsaida, chamando

a atenção para que o assunto não

fique sob responsabilidade apenas da

escola, mas de toda a sociedade. “Há

certo receio dos pais, sobretudo em

relação às filhas, em discutir o tema

em outros espaços”.

Mesmo com todos os desafios e a

pressão de grupos conservadores, a

discussão em torno do assunto, dentro

ou fora dos muros da escola, é inevitável.

O caminho, apontam os pesquisadores

da área, é de fato criar, no ambiente

escolar, um espaço mais acolhedor,

que respeite as diferenças.

“Acho que se tem uma palavra que vai

se aproximar da nossa noção de democracia

é respeito. A escola precisa

criar esse ambiente de convivência,

harmonioso, desde a mais tenra idade.

Acho que se desde criança você ensinar

que o coleguinha pode ser diferente,

que isso não é errado, que ele não

precisa ser atacado, perseguido por

isso, você colabora para criar um ambiente

de mais respeito na sociedade”,

destaca Thiago Costa.ø

Revista Elas por Elas - Junho 2016

21


Dandara foi liderança

junto ao seu companheiro,

Zumbi, no maior quilombo

das Américas: o Quilombo

dos Palmares. Ela plantava,

trabalhava na produção da

farinha de mandioca, caçava

e lutava capoeira, usava armas

para liderar homens e

mulheres de resistência do

quilombo.

Mas, na verdade, essa é Lorena

Lemos, que luta por

uma educação de qualidade

e pela emancipação das mulheres

negras.


Sophie Scholl foi integrante

do movimento “A Rosa

Branca” de resistência contra

o nazismo na Alemanha. Ela

espalhava panfletos que denunciavam

os crimes do regime

nazista nas caixas de

correio, colava em cabines telefônicas

e em carros estacionados.

Quando capturada, ela

foi decapitada pela SS, a polícia

do Estado.

Mas, na verdade, essa é Bruna

Gavino, estudante que luta

contra os estereótipos de gênero

até hoje.


EDUARDO FANTINI

TRABALHO

POR NANCI ALVES E CECÍLIA ALVIM

Mulheres na tecnologia

Empoderamento feminino ainda é desafio nesta área


Metade da população brasileira

(50,1%) já está conectada à rede mundial

de computadores, de acordo com

dados da pesquisa de 2014, do Instituto

Brasileiro de Geografia e Estatística

(IBGE). O acesso ao mundo virtual,

portanto, faz parte da vida de milhões

de pessoas, do norte ao sul do país,

incluindo muitas comunidades tradicionais

como indígenas e quilombolas.

Porém, do ponto de vista do trabalho,

as vagas em empresas de desenvolvimento

de software, cursos superiores

de Tecnologia da Informação, projetos

tecnológicos sempre foram, em sua

maioria, ocupadas por homens.

O contrassenso desse universo machista

é que foram duas mulheres, no

século passado, que criaram o sistema

do primeiro computador eletrônico digital:

a britânica Ada Augusta Byron

King, conhecida como a Condessa de

Lovelac (1815/1852), e a americana

Grace Murray Hopper (1906/1992).

(Veja o box na página 27).

Culturalmente, criou-se a ideia

preconceituosa de que as ciências

exatas são uma área masculina. Muitos

educadores e psicólogos sempre

apontam o machismo como causa

deste preconceito, pois a influência

que crianças recebem desde bebês, por

meio das relações (e não só familiares),

dos brinquedos e das brincadeiras,

certamente ajudam a reforçar essa

cultura. Meninas, costumeiramente

chamadas de princesas e bonecas,

ganham brinquedos que estimulam a

delicadeza, a maternidade (panelinhas,

bonecas que falam apenas mamãe e

nunca papai, fogão, ferro de passar

roupa, etc) e meninos, brinquedos que

estimulam o raciocínio como legos,

quebra cabeças, jogos como xadrez,

dominó, etc.

Quebrar esta cultura machista e

abrir espaço para que as mulheres se

interessem mais pela área das ciências

exatas, pela informática e pela tecnologia

digital tem sido o esforço de

muitas ONGs e associações em todo o

mundo. No Brasil, há 7 anos, em

Goiás, foi criado o Grupo Mulheres na

Tecnologia (MNT), por quatro amigas

que queriam lutar pela equidade de gênero

na Tecnologia da Informação, visando

contribuir para o empoderamento

das mulheres. A organização sem fins

lucrativos atua por meio de palestras,

projetos, eventos, além de realizar um

encontro nacional de mulheres na tecnologia,

que reúne pessoas de todo o

país que se destacam na atuação ou

na defesa de mulheres na tecnologia.

Em 2016, o 4º Encontro Nacional de

Mulheres na Tecnologia foi realizado

nos dias 17 e 18 de junho, em Goiás.

(https://doity.com.br/mnt2016).

De acordo com Márcia Almeida,

membro do conselho gestor do MNT,

o objetivo do encontro nacional é disseminar

novas tecnologias entre as participantes,

destacar conquistas das mulheres

na área, promover a troca de

experiências entre as profissionais, discutir

políticas de gênero e TI, apresentar


O ato de ver mulheres

palestrando, e algumas

pela primeira vez, sobre

seus sucessos e dificuldades,

incentiva outras

mulheres e meninas a

se engajarem na área

resultados de pesquisas e incentivar o

empreendedorismo das mulheres na

TI. “O ato de ver mulheres palestrando,

e algumas pela primeira vez, sobre seus

sucessos e dificuldades, incentiva outras

mulheres e meninas a se engajarem na

área”, afirma. Márcia enfatiza que querem

prosseguir com esta discussão,

“sabemos que muito já se tem falado a

respeito da presença feminina na área,

mas há muito mais a se fazer para

mudar os cenários, na maioria das

vezes hostis, para nos acolher”.

Para ampliar seu campo de ação, o

MNT criou o site e uma lista de discussão,

com representantes ativas da maioria

das unidades federativas do país. O

Grupo possui quase 400 membros,

com uma participação ainda maior nas

redes sociais. Em setembro de 2015

foi feita uma enquete informal no grupo

do facebook do MNT sobre a área de

atuação de cada uma. Segundo Danielle

Gomes, engenheira de computação e

membro da MNT, das 80 pessoas que

responderam a pesquisa, a grande

maioria trabalhava com programação

(20), análise de requisitos/negócio (18),

gestão de projetos (13) e Administrador

de Banco de Dados (10).

Menos mulheres nos

cursos de TI

“Estatisticamente o percentual de

mulheres em relação aos homens que

ingressam nos cursos de tecnologia,

pesquisa e inovação vem reduzindo,

conforme pesquisa apresentada

(http://mulheresnatecnologia.org/noticias-mnt/638-estatisticas-da-educacao-superior-em-computacao-2014).

Este é um fator preocupante mas também

incentivador de uma resposta da

Revista Elas por Elas - Junho 2016

25


MATRICULADOS POR GÊNERO

ARQUIVO PESSOAL

2004

2005

2006

2007

2008

2009

38.061

41.230

42.151

44.613

54.662

54.000

147.846

168.450

182.456

210.156

241.683

246.743

2010 52.643 261.793

2011 49.958 257.434

2012 47.777 255.297

2013 47.154 259.737

2014 49.042 272.078

TOTAL: 2004 A 2014

FEMININO

541.291

MASCULINO

2.503.673

MATRICULADO POR GÊNERO

CURSO DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO NO BRASIL

A terapeuta Rocio venceu as dificuldades com a tecnologia.

sociedade. Novos grupos, blogs e organizações

sem fins lucrativos surgem

focados na discussão desta temática.

Grandes empresas de tecnologia começaram

a se preocupar em ter mulheres

no seu quadro de funcionários e

já possuem alguns programas específicos

de retenção de talentos femininos

e incentivo à entrada de novas mulheres”,

afirma Danielle.

Além dos cursos superiores da área

da tecnologia terem um público predominantemente

masculino, as poucas

alunas enfrentam machismo dentro da

instituição, podendo levar algumas a

desistir do curso. Christiane Borges,

mestre em Engenharia da Computação,

professora no Instituto Federal de Goiás

e membro do Comitê Gestor do Mulheres

na Tecnologia (MNT) conta no

site da revista Forum: “Fiz curso e a

maioria da minha sala era masculina.

Na época, sofri preconceito até de

professor: Mas você é tão pequenininha”,

conta.

Mesmo não tão rápido como deveria,

felizmente esta história do preconceito

dentro da sala de aula está mudando.

É o que acredita Paloma Fantini

(1ª foto), que cursa, em Belo Horizonte,

o 3º período do curso Tecnologia em

Jogos Digitais. “Eu já esperava ter

uma turma com minoria composta por

mulheres. Então, quando vi que éramos

apenas quatro em uma turma de quase

80 alunos, não me surpreendi. Atualmente,

sou a única mulher na sala, de

um total de 20 alunos. Assim, acredito

que a desistência e a dificuldade ocorre

para todos, seja homem ou mulher,

por vários motivos em qualquer curso.

Mas posso afirmar, pois também sou

26 Revista Elas por Elas - Junho 2016


graduada em Odontologia, que o curso

de jogos digitais é difícil,” conta Paloma.

Quanto à discriminação por ser mulher,

ela afirma nunca ter vivido isso em

sala de aula, nem por colegas e nem

por professores. “Pelo contrário, vejo

que eles buscam estimular a presença

de mulheres no curso. Os professores

são receptivos com a participação das

mulheres, comentam que determinadas

tarefas geralmente são melhor executadas

por nós, que nossa sensibilidade

costuma agregar muito aos projetos e

jogos. Nos dois últimos períodos, os

destaques acadêmicos do curso foram

mulheres”, conta Paloma ao acrescentar

que neste semestre tem uma professora

na disciplina de programação e “vejo

o carinho e respeito que todos têm

por ela. Acredito que, se um dia houve

machismo na área de tecnologia, ele

não existe mais. E se a pessoa é boa

no que faz, o mercado está aberto. Na

área de TI eu acho que ser mulher é

um fator que só tem a somar”, finaliza.

Vida transformada

com o uso da tecnologia

O maior acesso à tecnologia mudou

a vida da terapeuta ayurvédica, Rocio

Mouzo, que criou o projeto Escolhas

Saudáveis (www.escolhassaudaveis.com)

para levar o conhecimento do ayurveda,

uma medicina milenar da Índia, a um

público cada vez maior e não só no

Brasil. Essa ideia surgiu, segundo ela,

durante uma aula de ayurveda em um

curso de formação. “A professora

Laura Pires comentou que agora que

a sementinha do ayurveda havia sido

plantada em nós, deveríamos divulgar

esta ciência milenar. Fiquei pensando

naquilo, pois já estava fazendo um

curso on line sobre tecnologia para

aprender a divulgar o meu trabalho”,

conta. Porém, com os novos e eficientes

conhecimentos na área técnica, Rocio

teve o desejo de realizar o primeiro

Congresso Brasileiro de Ayurveda

(CONBRA), utilizando uma plataforma

on line. Em parceria com um colega

do curso técnico, Cristiano Maciel, realizou

o I CONBRA, chegando em brasileiros

de 52 países, e já estão produzindo

o II. Após o sucesso do Congresso,

criaram um espaço onde os terapeutas

de ayurveda podem levar e

trocar conhecimentos com o público,

todas as quartas feiras à noite, on line,

e é de forma gratuita para o público.

“Depois estas palestras são colocadas

em uma plataforma que criamos chamada

“Ayurveda Club”, onde, por meio

de uma pequena contribuição mensal,

o internauta pode ter acesso quando

e onde quiser.

Rocio tem 56 anos e a primeira vez

que viu um computador foi em 1979

em uma aula do curso profissionalizante

de Administração. “Esse

computador era o único da cidade de

La Coruña (na Espanha) e ocupava

uma sala inteira. A informação era

colocada com cartões furadinhos por

meio do sistema binário. Depois disso,

só fui ver outro computador nos anos

90. No começo, qualquer botão que

eu apertava achava que tinha quebrado

o computador e chamava meu filho.

Com toda paciência me ajudava, até

que um dia me disse: ‘mãe, quando é

que você vai fazer as pazes com o

computador?’ Foi uma frase que teve

um grande efeito em mim. Não foi um

caminho fácil, mas consegui e hoje

estou feliz. A tecnologia me ajudou a

realizar o meu projeto e mudou muito

a minha vida”.ø

Mulheres na história

da tecnologia

A matemática Ada Lovelace é

reconhecida internacionalmente

como a primeira programadora da

história, pois criou o algoritmo para

ser lido por uma máquina. Em 1833,

Ada interessou-se pela ideia de seu

amigo matemático Charles Babbage,

a chamada “Máquina Analítica”, que

faria cálculos mecânicos, projetada

cerca de um século antes do computador

digital. Enquanto Babbage

foi o primeiro a idealizar um computador,

Ada é responsável pelo primeiro

programa – as instruções que,

ao serem processadas, geravam os

resultados. Nenhum dos dois viu o

projeto se tornar real, por falta de

dinheiro para a sua conclusão. Ada

faleceu aos 36 anos por conta de

um câncer no útero. Já a almirante

e doutora em matemática Grace

Hopper foi uma analista de sistemas

da Marinha dos Estados Unidos, conhecida

por ser a inventora da linguagem

de programação COBOL

(acrônimo de Common Business

Oriented Language).

Posteriormente, outra grande

inspiração para a tecnologia foi

Lois Haibt, uma americana que nasceu

em 1934 e ficou famosa por

ter sido uma das 10 pessoas que

desenvolveu a linguagem de programação

FORTRAN (FORmula

TRANslation) na década de 1950,

a primeira linguagem de alto nível

de sucesso.

Fontes: techcity.org.br e

http://www.dsc.ufcg.edu.br

Revista Elas por Elas - Junho 2016

27


Frida Kahlo é uma das mais famosas artistas

latino-americanas do século XX. Comunista,

afirmava que nasceu exatamente na data

da revolução mexicana. Defendia o resgate à

cultura indígena e latino-americana como forma

de oposição ao sistema imperialista. Como a

mesma disse, suas pinturas retratavam o assunto

que mais conhecia, ela mesma. Quebrando parâmetros

de seus tempos e desses também,

Frida, mostra uma arte marcada profundamente

pela dor, pela paixão, pela luta, pela deficiência

física, pelos seus abortos, pela bissexualidade.

Mas, na verdade, essa é Rafaella Dotta, jornalista,

que luta para que o povo diga sua realidade e

seja mais escutado.


Rosa Luxemburgo foi

uma filósofa e economista marxista.

Participou da fundação

do grupo de tendência marxista

do SPD, que viria a se tornar

mais tarde o Partido Comunista

da Alemanha (KPD). Ela foi símbolo

do anticapitalismo e da luta

por uma esquerda democrática

e altamente conectada com as

revoltas cotidianas da massa de

trabalhadores e excluídos.

Mas, na verdade, essa é Andressa

Pestilli, que luta pela libertação

de todos os povos.


MARK FLOREST


CAPA

POR NANCI ALVES

Pelo direito de ser

quem sou

Pessoas trans lutam contra a falta de políticas públicas

Entrar em uma universidade e cursar

engenharia ambiental. Esse é o sonho

de Libernina Andrade (foto), 21 anos,

que se prepara por meio de um cursinho

pré-Enem, especial para pessoas trans

e travestis em Belo Horizonte. “Este

ano não pude fazer o Enem, porque

não consegui pedir a a isenção da taxa

de inscrição e não tinha como pagar.

Mas no próximo, tentarei a vaga e,

pelo Sisu ou pelo ProUni, vou entrar

na faculdade finalmente”, conta Libernina,

ao afirmar que chegar até aqui

não foi fácil. Ela viveu, desde a infância,

um grande sofrimento, abandonando

inclusive os estudos, por ser rejeitada

por todos, pois não se enquadrava no

que as pessoas, em geral, consideram

“normal”. “Meu corpo e meu nome

não correspondiam ao que eu sentia e

como me via no mundo. Eu ainda não

entendia o que eu era, as pessoas

achavam que eu era homossexual e tinha

sempre as piadinhas: olha a bichinha,

o viadinho. Era muito sofrido e

constrangedor ter que ouvir aquilo todo

dia. Não tinha ânimo nenhum para

continuar vivendo. Sentia muita angústia,

pois me reprimia o tempo todo.

Meus pais me obrigavam a ir para

aula, mas eu não me sentia bem naquele

ambiente”.

Só na adolescência, ao assistir a

uma entrevista com uma modelo transexual,

falando de sua vivência, que


Ainda bem que fiz

amigos que me

acolhem – é a

família que a gente

ganha da vida.

Libernina se identificou. “Então, comecei

a pesquisar sobre o assunto. Me

mudei para Belo Horizonte, porque

achei que teria mais recursos para isso

e porque a minha cidade era pequena

e eu sei que iria sofrer mais preconceito.

Aqui, com a ajuda de uns amigos, pesquisei

sobre hormônios, tratamentos

cirúrgicos e comecei o processo de

transição para ser o que realmente

sou, uma mulher. Decidi que queria

ser chamada de Libernina, ser tratada

como mulher, comprei roupas femininas

e comecei a viver o que eu queria. Mas

quando contei para os meus pais no

interior, eles não me aceitaram mais.

Ainda bem que fiz amigos que me

acolhem – é a família que a gente

ganha da vida”, conta.

A história de Libernina se repete

todos os dias. Crianças e adolescentes

que não se identificam com o sexo

que nasceu sofrem com a falta de informação

e de apoio das famílias, da

escola, da sociedade em geral e também

Revista Elas por Elas - Junho 2016

31


com as críticas de colegas. Portanto,

falar da realidade da vida das pessoas

trans é falar de falta de respeito com o

ser humano, a começar pelo direito a

ter um nome que o represente. Para

conquistarem o direito de mudar seu

documento de identidade, mulheres e

homens trans precisam estar dispostos

a enfrentar uma luta nada fácil. E a negação

deste direito leva à negação de

muitos outros, promovendo uma verdadeira

segregação das pessoas trans

na sociedade. “Se alguém se apresenta

como mulher, mas nos seus documentos

tem nome de homem, ou vice-versa,

sofre demais. Muitas vezes não é aceita

naquele ambiente ou tem que se sujeitar

a piadinhas, o que a leva a abandonar

escola e trabalho, ficando ainda mais

vulnerável”, afirma Libernina.

MARK FLOREST

Falta de políticas públicas

Com certeza, todos estes problemas

existem por falta de políticas públicas

que atendam às pessoas trans.

Aliás, oficialmente, nem elas mesmas

existem para o país, porque não aparecem

sequer no levantamento do

IBGE, já que não existe um item em

que a pessoa possa dizer, ela própria,

com qual gênero se identifica (homem

ou mulher), independentemente do

sexo (órgão genital – masculino ou feminino)

com o qual nasceu.

De acordo com Carlos Magno Fonseca,

presidente da Associação Brasileira

de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis

e Transexuais (ABGLT), nenhum país

no mundo quantifica sua população

por gênero e sim por sexo e “esta debilidade

faz com que o estado desconheça

e invisibilize pessoas trans. Igualmente

ocorre quanto à orientação se-


Se alguém se

apresenta como

mulher, mas nos

seus documentos

tem nome de homem,

ou vice-versa,

sofre demais.

32 Revista Elas por Elas - Junho 2016


xual, não sabemos quantos gays, lésbicas

e bissexuais existem. A falta deste indicador

é crucial para a ausência de

políticas públicas”.

Na avaliação de Carlos Magno

(foto), a política de promoção ainda

acontece de forma pontual em algumas

áreas como da saúde e da educação,

mas de forma desconectada. “Nossa

intenção é delinear uma política nacional

de promoção da cidadania de LGBT

(Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e

Transexuais) que oriente estados e municípios

como atender nossas demandas:

nome social, enfrentamento à violência,

investimento em centros de referência

LGBT, debate de gênero e sexualidade

nas escolas e, principalmente, a inclusão

de orientação sexual e identidade de

gênero nos cadastros públicos para que

possamos gerar indicadores da política.

Institucionalizar a política nas unidades

da federação com a implementação de

um sistema LGBT com conferências,

conselhos, coordenações, políticas e orçamento”,

afirma.

Porém, o caminho não está sendo

fácil diante do ultraconservadorismo

demonstrado pelos parlamentares brasileiros.

O que vimos nos últimos anos

é que não foi aprovado, por exemplo,

o Projeto de Lei que criminaliza a homofobia

(PLC 122), os parlamentares

retiraram a palavra Gênero do Plano

Nacional de Educação (PNE) e estão

estudando a aprovação do Estatuto da

Família que quer reconhecer como família

apenas aquela formada por homem,

mulher e filhos, ignorando assim

as pessoas LGBT como chefes de família.

Posturas que demonstram um

enorme retrocesso. Na opinião de Carlos

Magno, o caminho é o diálogo

com parlamentares e com toda a sociedade.

“Precisamos urgentemente de

legislação que criminalize a LGBTfobia

e que faça o reconhecimento à identidade

de gênero de pessoas trans. Para

conseguirmos que esse reconhecimento

torne-se princípio básico do Estado de

Direito é necessária a aprovação do

Projeto de Lei (PL 5002/13) dos deputados

Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Erika

Kokay (PT-DF), acompanhada de ações

e políticas públicas condizentes no âmbito

estadual e municipal”, finaliza.

Libernina Andrade concorda que o

caminho é lutar pela aprovação desse

PL (mais conhecido como lei João

Nery), que foi rejeitado na Câmara dos

Deputados. “A conquista do nome social

é importante, mas precisamos ter o direito

de mudar nosso registro de nascimento,

pois têm pessoas que falam que

nome social é nome falso. Na verdade,

o erro está no meu registro e todos sofremos

para mudar isso. A Defensoria

Pública nos ajuda, mas o processo pede

laudos psicológicos para atestar que o

nome de registro te gera sofrimento,

depois tem que esperar pela aprovação

de um juiz. Minha vida fica nas mãos

de outras pessoas. Você não pode simplesmente

se declarar. Psicólogos e

juízes é que precisam dizer quem realmente

sou. Uma lei federal nos daria a

garantia de irmos ao cartório fazer a alteração

necessária”, desabafa.

Lei João Nery

Segundo o deputado Jean Wyllys,

o Projeto de Lei (PL 5002/13) tem

como objetivo trazer a noção de identidade

de gênero como conceito, garantindo

o direito das pessoas trans à

ROJÚ SOARES

Revista Elas por Elas - Junho 2016

33


GABRIELA KAROSSY - CÂMARA DOS DEPUTADOS

troca de prenome e do marcador de

gênero no registro civil, além do direito

de realizarem modificações corporais

através do Sistema Único de Saúde.

“Hoje, o Brasil tem essa política estabelecida

através de portarias, ou seja,

através de políticas criadas administrativamente

pelo poder executivo, e

como o tema é delicado, existem poucos

setores realmente comprometidos

com a aplicação da política. Na teoria,

o SUS deveria oferecer não somente

terapia de reposição hormonal e cirurgias

de transgenitalização (redesignação

genital) quanto outros serviços

cirúrgicos, como a colocação de próteses

mamárias, retirada de pomo-deadão

(cartilagem tireoide), entre outros

tipos de procedimentos e terapias oferecidas

por equipe multidisciplinar. Na

prática, os serviços são quase inexistentes

ou se limitam a fazer o tratamento

terapêutico, sem medicamentos,

pois os hospitais não fornecem os

remédios, somente as receitas. E a situação

das cirurgias é de estagnação

total nos poucos hospitais credenciados

no país”, denuncia.

O deputado explica que o PL é conhecido

como “Lei João Nery” em homenagem

ao primeiro homem trans

brasileiro e autor do livro autobiográfico

“Viagem Solitária” - um teste -

munho imprescindível para entender a

realidade da pessoa trans. “Para driblar

uma lei que lhe negava o direito

de ser ele mesmo, João teve que renunciar

a tudo: sua história, seus estudos,

seus diplomas, seu currículo. O

PL tem por finalidade garantir que

nunca mais aconteça esta violação dos

direitos humanos”, afirma.

Em fevereiro passado, vimos pela

mídia que, em decisão inédita, a Justiça

de Mato Grosso autorizou o pedido da

família de alteração de nome e gênero

no registro de nascimento de uma criança

de 9 anos que nasceu menino, mas

se sentia menina desde bem pequena.

O defensor público que atuou em defesa

da família argumentou, no processo,

que a criança nasceu com anatomia

física contrária à identidade sexual psíquica.

Para o deputado Jean Wyllys

(foto), este caso que sensibilizou a todos,

principalmente pelo apoio e compreensão

dos pais, reacende a necessidade

da discussão deste tema com a sociedade.

“Existem parlamentares que querem

fazer as pessoas acreditarem que debater

gênero, como no caso do Plano Nacional

de Educação, é uma suposta tentativa

de “implantar a homossexualidade nas

escolas”. Um absurdo, fruto de grande

conservadorismo. O sofrimento daquela

criança é real e foi experimentado em

diversas situações, das brincadeiras às

idas ao banheiro na escola”, destaca.

O parlamentar enfatiza ainda o grave

problema da LGBTfobia no Brasil. “Devemos

reforçar os mecanismos legislativos

nos estados e criar protocolos

para que os crimes de motivação dessa

natureza sejam melhor apurados, além

de promover campanhas de conscientização

para que essa realidade mude. É

uma realidade cultural, que tem a ver

com o machismo e a LGBTfobia plantada

na sociedade. Claro que a resposta

também tem que ver com as ações legislativas

e do executivo, mas precisa

haver uma mudança social para que

esses números se revertam”, afirma.

34 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Atuação da

Defensoria Pública

Sem essa mudança cultural e uma

lei federal que garanta políticas públicas,

pessoas LGBT com seus direitos violados

o tempo todo, precisam de ajuda. Muitas

recorrem à Defensoria Pública em seus

estados. Assim, o primeiro passo tem

sido mudar o nome de registro. Além

da lei brasileira que permite esta alteração

quando o nome provoca sofrimento

para a pessoa, independentemente da

questão trans, existe também os Princípios

de Yogyakarta (2007), uma legislação

internacional de direitos humanos

em relação à orientação sexual e identidade

de gênero da qual o Brasil é signatário.

De acordo com a promotora

Júnia Roman Carvalho (foto), em

atuação na Defensoria Especializada de

Direitos Humanos, Coletivos e Socioambientais

(DPDH), quando o país assina

um tratado internacional, este entra no

país como força de lei hierarquicamente

superior à lei ordinária.

Em Minas Gerais, segundo a promotora,

a Justiça tem sido ágil com relação

à retificação do nome (menos de

um ano), pois o processo passa pela


Minas Gerais

deveria ter um

atendimento

próprio, pois a

população trans é

significativa.

Vara de Registros. Mas o problema está

no pedido de retificação de gênero na

documentação. Um contrassenso a pessoa

ter um nome de mulher e no seu

registro estar escrito “masculino” e vice

versa. A dificuldade, segundo Júnia Carvalho,

está na Vara de Família, “que é

mais conservadora, onde o processo

caminha com lentidão e pode ser negado

sob a alegação de que a pessoa não fez

cirurgia de redesignação genital. Isso é

entender o gênero como o biotipo, o

órgão sexual com o qual ela nasceu.

Um absurdo por dois motivos. Primeiro

porque o gênero é auto-percebido, sou

mulher ou homem porque me identifico

assim. Não é o órgão externo que determina

quem eu sou. E depois, porque

o sistema público não oferece cirurgia

facilmente. Tenho três pessoas há mais

de quatro anos na fila esperando. Todos

encaminhados para o Rio de Janeiro.

Minas Gerais deveria ter um atendimento

próprio, pois a população trans é significativa”,

afirma.

Além de ser difícil conseguir pela

lei, como apenas quatro capitais brasileiras

têm médicos e hospitais creden-

MARK FLOREST

Revista Elas por Elas - Junho 2016

35


ciados pelo SUS para a realização do

processo transexualizador, a espera é

absurda, podendo chegar até a 15

anos. Esse processo é mais que cirurgia

– passa por hormonização, fonoaudiologia

para o apoio na voz, psicoterapia

para a pessoa se sentir mais feliz

no meio da sociedade, etc.

Para a defensora Júnia Carvalho, o

problema é que, com a falta do atendimento

público especializado, muitas

pessoas fazem a hormonização sozinhas,

sem qualquer tipo de atendimento

médico, correndo risco inclusive de

morrer. A mulher trans precisa do anticoncepcional,

que consegue na farmácia,

facilmente, sem orientação e

sem acompanhamento médico, o que

gera consequências para a saúde. No

caso do homem trans, ainda é mais

grave: com a adolescência, vem o crescimento

dos seios e a menstruação, o

que traz grande sofrimento. Como o

hormônio que precisa não é vendido

em farmácia, “compra ou falsifica receita

e adquire o produto no mercado

clandestino, sem saber que tipo de remédio

está tomando. Algumas pessoas

não querem a cirurgia. As travestis

querem se identificar com o gênero feminino,

mas nem sempre têm interesse.

A cirurgia não deve ser um remédio

para consertar a pessoa para a sociedade.

Todo mundo tem que ter o direito

de ser como quer ser. Todos temos

que estar felizes”, acrescenta.

Segundo Júnia Carvalho, na falta

de avanços por iniciativa dos próprios

órgãos públicos, o caminho são as

ações judiciais em busca do acesso ao

tratamento transexualizador. “A dificuldade

maior é para os homens trans,

pois a cirurgia é considerada pelo Conselho

Nacional de Medicina como experimental.

Assim, não temos como

obrigar o Estado a proceder esta cirurgia.

As consequências disso são que

muitas pessoas juntam dinheiro durante

anos e fazem a cirurgia fora do país,

como na Tailândia. Coisa insana, pois

o pós-operatório é muito pesado e a

pessoa sozinha, sem acompanhante,

e ainda em outro idioma que não domina,

corre muitos riscos”, explica.

A promotora, ao falar que a sociedade

deve atuar sempre cobrando as

autoridades uma mudança, conta que

já existe um enunciado do Conselho

Nacional de Justiça (CNJ), órgão fiscalizador

do judiciário, que diz que a retificação

do gênero e a retificação do

nome independem de cirurgia de redesignação

genital. “Quando o CNJ

faz enunciado é porque a matéria é

importante e recorrente. Um magistrado

pode se apoiar nesse enunciado do

CNJ para dar decisão de retificação,

independente de cirurgia. Se isso for

condição, estaremos sempre excluindo

aquela travesti que não quer fazer a cirurgia

e o homem trans para a qual o

Estado não oferece”, explica.

Um ciclo de violências

Para a defensora pública Júnia Carvalho,

na medida em que não se possibilita

condições para que a pessoa

trans viva sua identidade com plenitude,

“são gerados outros custos para a

saúde, pois isso traz doenças físicas e

psicológicas e a infelicidade volta para

o sistema de saúde. Só pela economia

se deveria investir nisso”, explica.

Quando a pessoa trans está em situação

de privação de liberdade, o problema

é ainda mais grave. Em alguns

poucos presídios têm celas especiais,

ajudando a evitar que tanto a mulher

como o homem trans sofram violência

em celas masculinas. “Mas em geral a

gente vê um monte de discriminação e

um total despreparo das polícias para

lidar com a situação”, afirma. Também

quando o assunto é mercado de trabalho

a realidade não muda. Segundo Júnia

Carvalho, há muito desrespeito, mas o

mais grave é que poucas pessoas trans

conseguem ser contratadas. Para isso,

é preciso mudar a documentação. Um

homem trans, por exemplo, se não

mudar o gênero na documentação, não

pode pedir ao Exército o certificado de

dispensa do serviço militar sem o qual

não consegue emprego. Mas para a

Justiça, não pode mudar o gênero no

documento se não fez cirurgia, a qual o

Estado não é obrigado a oferecer, porque

ainda é considerada experimental no

Brasil. Uma negação de direito que

leva a muitas outras”, explica.

Para a promotora, a invisibilidade

da pessoa trans nos traz um desafio.

“Já ouvi algumas pessoas trans falarem:

‘eu sou passável’, o que quer dizer que

ninguém percebe que é trans, que passa


A cirurgia não deve

ser um remédio para

consertar a pessoa

para a sociedade.

Todo mundo tem

que ter o direito de

ser como quer ser.

Todos temos que

estar felizes.

36 Revista Elas por Elas - Junho 2016


MARK FLOREST

batido. Elas querem ser invisíveis neste

sentido, ou seja, serem respeitadas

como qualquer mulher e qualquer homem.

Mas não podem continuar na invisibilidade

das políticas públicas que é

a garantia de acessos a direitos que vão

possibilitar uma vida digna”, afirma.

O lugar onde quero estar

Raul Capistrano (foto), representante

do Centro de Luta Livre Orientação

Sexual (CELLOS/MG) e do Instituto

Brasileiro de Transmasculinidade

(IBRAT), iniciou sua transição em 2010,

aos 28 anos, quando escolheu seu

nome. Passou a infância e a adolescência

se habituando a entender que o lugar

correto para ele era aquele que não causava

nenhum desconforto para a sua família

e nem para ninguém: “esse lugar

era sempre onde estavam as meninas,

mas não era onde eu queria estar. Angustiante,

vivia sem perspectiva de vida,

pois todos vislumbram um futuro onde

é possível estar, uma profissão, um emprego.

Geralmente, a pessoa trans não

se vê em algum lugar, pois ela não quer

estar onde dizem que ela tem que estar

e não pode estar onde ela quer. Vive infeliz.

A maior parte das famílias não entende

isso, quer te bater, expulsar; na

escola, sua professora não quer entender

e é mais aliviador para ela que você

não estude lá, mais para não ter que

lidar com você todos os dias. Então,

quando a pessoa trans abandona a escola

e a família é um alívio para todos

eles”, desabafa.

No caso de Raul, como sua transição

foi tardia, não teve que largar escola

por discriminação, mas não concluiu o

segundo grau por falta de perspectiva.

“Por ser pobre, a alternativa era o en-

Revista Elas por Elas - Junho 2016

37


sino público e quando vislumbrei a

Universidade Federal de Ouro Preto

(UFOP), vi que era impossível. Teria

que morar em uma república, sendo

que nem a masculina nem a feminina

me caberiam. Preferi, então, desistir

de estudar”, conta.

Raul achava que estava sozinho no

mundo e fadado a sofrer para sempre.

“Não podia nem optar por morrer, pois

minha avó dizia que quem tira sua própria

vida vai para o inferno. Preferi

viver sofrendo minha vida. Foi assim

até quando vi em um programa de TV

um homem trans. Me identifiquei e vi

que tinha uma saída, que não estava

condenado a ter que viver naquele corpo

que não me representava. Eu me entristecia

desde a hora que eu acordava

até a hora que dormia todos os dias,

não conseguia nem me olhar no espelho.

Descobrir que podia deixar de viver

assim foi um dos melhores momentos

da minha vida”, conta Raul ao lamentar

ter compreendido isso depois de adulto.

Uma das suas primeiras e tristes

descobertas, durante sua transição, foi

que pessoas trans são classificadas como

uma patologia, e na área de doenças

mentais. “Estranho, mas usei isso como

arma. Se o SUS considera isso como

patologia precisa ter tratamento e eu

tenho o direito. Mas descubro, então,

que o SUS só tem isso no papel, um

absurdo. Tenho seis anos de transição

e não tive nenhum acompanhamento

psicológico, o que é importantíssimo,

pois de repente passei a ser homem

para a sociedade, uma coisa forte. Hoje

não preciso mais de um acompanhamento

básico de questão da minha transexualidade,

mas tudo isso afetou minha

vida. Fiz um curso de informática e trabalhei

durante 15 anos em uma empresa.

Depois de 13 anos lá, comecei a


“Não podia nem

optar por morrer,

pois minha avó

dizia que quem

tira sua própria

vida vai para o

inferno.

MARK FLOREST

38 Revista Elas por Elas - Junho 2016


fazer intervenções cirúrgicas e hormonais.

Ao iniciar minha transformação

física, a empresa não quis reconhecer

meu nome social. Muito difícil tudo e

as pessoas não te entendem, não te

acolhem. Até usar um banheiro ficou

difícil, pois nenhum dos dois me cabiam

mais. Antes, era visto como um ser humano

igual a todos. De repente, passei

a ser encarado com um olhar que não

achei que veria nesta vida, é assustador!

Eu quis me proteger e isso significou

pedir demissão”, conta.

Com a transição, Raul passou a ser

feliz pessoalmente, se sentindo bem

diante do espelho, mas socialmente

ainda considera muito complicado: “Se

digo que sou pessoa trans, não sou respeitado,

não tenho tratamento médico

para as minhas necessidades, não tenho

possibilidade de emprego, não tenho

registro com meu nome retificado, não

tenho nada. São constantes as violências

veladas em qualquer canto que eu vá”.

Assim, se antes tinha autoestima

baixa porque tinha conflito consigo

mesmo, agora é baixa porque não tem

acesso a nada. “Até há um ano estava

com depressão. Só no ano passado

que consegui focar, estudar. Voltei aos

estudos, tirei o diploma do ensino médio

e, este ano, passei em segundo lugar

em Filosofia na UFMG. Estou feliz, mas

só fiz minha inscrição do Enem porque

foi anunciado que seria respeitado o

nome social. Caso contrário, não teria

feito e não teria passado. Não foi da

melhor forma, pois o nome só foi respeitado

na hora da prova e a abertura

para o solicitação do nome social não

foi no ato da inscrição e sim meses depois.

Então, muita gente perdeu, pois

não sabia que podia fazer esta solicitação.

Além disso, tinha que imprimir ficha,

mandar foto. Então, quem não tinha

scanner, computador, internet, não fez.

Foi uma conquista, mas tem que aprimorar,

pois muitas pessoas fizeram sem

ter nome social reconhecido”, afirma.

Raul fez o cursinho TransEnem e

afirma que entre seus colegas quem

teve o nome social respeitado teve

notas melhores nas provas. “Será coincidência?

Porque é um constrangimento

chegar em uma sala e as pessoas

te chamarem por um nome que não é

seu mais, você se desconcentra, se

sente desconfortável, constrangido e

não consegue fazer uma boa prova.

Agora esperamos que as universidades

tenham sua resoluções próprias e respeitem

isso também, para garantir os

direitos. Tem que ter respeito dentro da

faculdade, não basta apenas entrarmos,

temos que permanecer”, acrescenta.


O sucesso desta

pessoa como ser

humano está em

parte nas mãos

do professor.

Papel da escola

Raul destaca a importância da escola

e do professor se informarem sobre o

tema, pois quando alguém ou alguma

instituição ignora a pessoa LGBT ou

faz críticas a partir de uma opinião pessoal,

isso é uma violência. “O/a professor/a

é referência importante e quando

ele/a fala de um assunto que domina,

todos gostam. Mas não precisa fazer

nenhum curso sobre pessoas LGBT;

basta pesquisar e dialogar com estas

pessoas. Geralmente, o/a professor/a

conversa com seus alunos/as sobre

mitos e fantasias como Curupira, Saci,

Coelho da Páscoa, mas não conversa

sobre pessoas que existem em nossas

famílias – gays, travestis, trans, etc. Se

ignoramos essas pessoas, estamos di-

ISTOCK

Revista Elas por Elas - Junho 2016

39


zendo que não existem. Isso é a porta

de entrada para a violência”, afirma.

No Brasil, a violência contra pessoas

LGBT é assustadora. “É o país

que mais mata gays no mundo e também

onde a expectativa de vida de pessoas

trans é a menor. Um absurdo”,

protesta. De acordo com a organização

não governamental (ONG) Transgender

Europe (TGEU), rede europeia

de organizações que apoiam os direitos

da população transgênero, foram registradas

604 mortes no Brasil entre

janeiro de 2008 e março de 2014:

mais de 100 mortes por ano.

Ao defender que a escola precisa

fazer esse debate, Raul afirma que os

alunos estão abertos para isso. “Ministro

palestras em escolas e é a coisa que

mais gosto de fazer. Fico impressionado

como eles/as têm mais facilidade para

entender estas questões do que os/as

adultos/as. A família, principalmente

mais humilde, busca estes conhecimentos

no posto de saúde ou na escola.

Se o professor ignora, não te respeita,

a família também vai fazer o mesmo.

O sucesso desta pessoa como ser humano

está em parte nas mãos do professor”,

finaliza.ø

SERVIÇO

ABGLT - www.abglt.org.br

Ê (31) 9333-7812

Cellos - Ê (31) 3075-5724

cellosmg@yahoo.com.br

Ministério Público do

Estado de Minas Gerais

Avenida Álvares Cabral, 1690 - Lourdes

BH/MG - Ê (31) 3330-8100

Dicas para não ser transfóbico:

https://goo.gl/JmItn3

Acesso à universidade

Em 2015, com a autorização do

uso do nome social para a realização

da inscrição no Enem, 278 travestis

e pessoas trans, em todo o Brasil,

puderam fazer a seleção e concorrer

a uma vaga na universidade.

Em Belo Horizonte (MG), 3 alunos

do TransEnem, de uma turma

de 12, conseguiram uma vaga em

universidades públicas. O TransEnem

é um cursinho popular para ajudar

a população trans e travesti a se

preparar para o Exame Nacional do

Ensino Médio (Enem) e outros vestibulares.

Foi criado há menos de um

ano (agosto de 2015) pela advogada

Adriana Valle e pela assistente social

Ana Isabel Lemos (foto), que querem

ajudar a combater a exclusão

das pessoas trans na universidade e

no mercado de trabalho.

Segundo Ana Isabel, a estimativa

é que mais de 30 pessoas trans tenham

entrado na faculdade em Minas

Gerais neste ano, mas é um

dado difícil de apurar. “Fizemos um

levantamento superficial e acreditamos

que pode ser um número

maior”, afirma. No TransEnem BH,

todos os professores e administradores

são voluntários. “Este ano

conseguimos apoio do governo do

Estado que garantiu o acesso a uma

sala de aula na Escola Estadual Pedro

II (Centro) e a merenda escolar.

Mas precisamos de recursos financeiros,

pois além de material escolar,

precisamos garantir a passagem de

ônibus e visitas a museus e cidades

históricas, lugares onde nossos/as

alunos/as nunca puderam ir. Além

disso, temos o projeto de oferecer

aulas à distância, favorecendo mais

pessoas trans e travestis em todo o

país. Porém, para criar e manter esta

plataforma, precisamos do apoio de

mais pessoas”, afirma a psicóloga

ao contar que existe uma vaquinha

on line (https://goo.gl/O5ronQ) por

meio da qual os interessados podem

contribuir.

Outras informações no

facebook.com/transenembh

MARK FLOREST

40 Revista Elas por Elas - Junho 2016


OUTUBRO ROSA AINDA ESTÁ LONGE,

MAS NUNCA É CEDO

Essa luta é de todas e todos

CUIDE-SE, AME-SE!

Revista Elas por Elas - Junho 2016

41


Angela Davis foi filósofa

marxista e militante

dos Panteras Negras, nos

EUA. Depois de deixar o movimento,

ela atuou no Partido

Comunista dos Estados

Unidos, em 1968. Angela sofreu

intensa perseguição e

foi posta na lista dos 10 mais

procurados pelo FBI.

Mas, na verdade, essa é Stefanny

Elias, que luta por ser

mulher negra e por reconhecer

que é preciso lutar

para ter seus direitos cumpridos.

A luta é reflexo de

toda sua ancestralidade.


Olga Benário foi membro do

Partido Comunista alemão desde

1926, participou do V Congresso da

Juventude Comunista e foi presa por

três meses, acusada de atividades

subversivas. Veio ao Brasil, com o

objetivo de liderar uma insurreição

armada que instalasse um governo

revolucionário, mas foram capturados

pela polícia e mesmo estando grávida,

Olga foi deportada para a Alemanha

para ser executada pelos nazistas,

em 1942.

Mas, na verdade, essa é Marcela Nicolas,

que luta por uma sociedade

mais justa, na qual as pessoas sejam

de fato iguais nas oportunidades e

liberdades.


VIOLÊNCIA

POR SAULO ESLLEN MARTINS

10 anos da Lei

Maria da Penha

Escassez de recursos ainda é entrave para sua efetivação


“Não, não te quero mais. Agora eu

que decido aonde vou. Não, não, não

suporto mais. Prefiro andar sozinha

como sou”. O trecho do samba de

Martinália versa sobre a realidade de

muitas mulheres brasileiras. Na companhia

de seus namorados, maridos

ou ex-companheiros, elas tiveram sua

liberdade limitada e passaram por inúmeras

situações de violência. Se viram

em um caminho no qual manter uma

distância segura dos agressores passou

a ser uma questão de vida ou morte.

Os depoimentos são chocantes e

os dados comprovam os fatos. No entanto,

o perigo pode ser ainda maior,

pois muitas delas não sobreviveram

para contar sua versão da história. Foram

mortas pelas mãos de quem um

dia fez parte de um conto de fadas,

um sonho, uma história de amor.

A violência contra a mulher ocorre

de diversas formas. Danos psicológicos

e emocionais, físicos e ao patrimônio

estão no topo da lista. Os dados são

alarmantes. A cada minuto quatro

mulheres são agredidas no Brasil.

Estima-se que entre os anos de 2001

e 2011 ocorreram mais de 50 mil crimes

de feminicídio.

Hoje, em Belo Horizonte, de acordo

com o Tribunal de Justiça de Minas

Gerais (TJMG), existem 45 mil processos

de violência doméstica contra

mulheres. Essa quantidade está distribuída

em ações penais, medidas protetivas

e inquéritos que aguardam denúncia

ou serão arquivados. Nessa matemática,

restam 24 mil processos criminais

para serem julgados na cidade.

“Ele me segurava pelo cabelo... Eu

me lembro que foi uma cena horrível e

tudo aconteceu na frente dos meus filhos...

Desculpe eu me emocionar, mas,

tem horas que ainda dói... Eu gritava

por socorro! Ninguém me ajudava. As

pessoas fechavam portas e janelas. Para

defender o meu filho, com medo dos

socos e chutes, deixei ele deslizar pelo

meu corpo até chegar ao chão”. O

relato de Alda Ribeiro de Lima, vítima

de violência doméstica, parece cena de

filme, mas compõe um roteiro trágico

que assusta a população brasileira.


A cada minuto

quatro mulheres

são agredidas

no Brasil.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

45


A presidenta do Movimento Popular

da Mulher de Belo Horizonte, Terezinha

Avelar (foto), destaca que nem sempre

os órgãos de proteção e apoio conseguem

evitar o pior. “Você acompanha

o caso, conduz a mulher a todos os

equipamentos, contudo, no meio do

caminho, ela pode desistir ou o agressor

consegue matá-la. Quando isso ocorre

acaba o nosso trabalho com ela e começa

uma outra luta por justiça, pela

punição dos culpados”.

Joseílda Santos da Silva sofreu duas

tentativas de homicídio. Ela conta que

se sentia vulnerável, sem condição nenhuma

para reagir, foi aí que buscou

ajuda. “Nessa hora a gente entende

que sozinha não dá”...

Daniele Caldas é gerente do Centro

de Apoio à Mulher – Benvinda/BH,

ela destaca que as mulheres precisam

adquirir condições para sair de uma situação

de violência. “Existem questões

subjetivas em relação ao fortalecimento

dessa mulher, porque nós estamos falando

de relações de afeto e intimidade.

Elas precisam conseguir perceber em

que contexto enfrentam a violência,

porque, muitas vezes, nem compreendem

que são vítimas”.

Ao considerar dados de violência

em 85 países, a Organização Mundial

da Saúde (OMS) aponta que o Brasil

tem uma taxa de 4,8 homicídios para

cada 100 mil mulheres. Isso faz com

que o país atinja o 5º lugar e tenha,

proporcionalmente, 48 vezes mais homicídios

de mulheres do que Reino

Unido, Dinamarca, Espanha, etc. A

cada mulher que morre nesses países

aqui morrem 48”.

Evangelina Castilho Duarte é desembargadora

do TJMG e também é

uma militante feminista. Segundo a jurista,

a violência contra a mulher é um

problema principalmente do homem,

porque ele é o ator, o agente da violência,

a mulher é a vítima. “É preciso

trabalhar muito com os meninos para

que eles não se tornem futuros agressores.

Eles devem ser os agentes transformadores

que vão levar a ideia de

não agressão para a comunidade. É

uma questão de segurança pública e

de educação”.

Para a educadora Euzelina Dóris,

quando se fala de violência, nós temos

que pensar de uma forma mais ampla,

não podemos mencionar só as agressões

físicas, é preciso tratar também das feridas

emocionais e afetivas. “Eu percebo

uma certa banalização, até mesmo em

uma simples conversa na rua. Existe

um silenciamento, pois as pessoas não

sabem ao certo onde vão fazer essas

denúncias. Com isso, a gente consegue

perceber o aumento da violência a cada

dia que passa, mesmo diante de progressos

relativos à Lei. É um paradoxo

que precisa ser solucionado com mais

ações educativas.”


É preciso trabalhar

muito com os meninos

para que eles

não se tornem futuros

agressores

MARK FLOREST

46 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Um balanço sobre

os mecanismos

de combate à

violência

No dia 7 de agosto de 2006, o presidente

Lula sancionou a Lei 11.340.

Chamada popularmente de Lei Maria

da Penha, a legislação criou mecanismos

para coibir a violência doméstica e familiar

contra a mulher. Em 10 anos de

vigência, muitas vidas já foram salvas,

contudo, especialistas e movimentos

sociais acreditam que é preciso melhorar

os equipamentos que atendem às vítimas.

Jô Moraes é deputada Federal pelo

PCdoB/MG e presidiu a CPMI da Violência

contra a Mulher no Congresso.

A parlamentar ressalta que, nesse momento

em que são comemorados 10

anos da Lei Maria da Penha, é preciso

destacar que a tipificação do assassinato

de mulheres como feminicídio foi

uma conquista muito importante, porque

deu mais visibilidade a esses crimes.

Agora, estamos com outro

desafio que é aprovar o Fundo Nacional

de Enfrentamento à Violência. Enquanto

estávamos com a CPMI em

andamento, visitamos o conjunto dos

serviços de atendimento e percebemos

que são necessários mais recursos financeiros

para a criação de delegacias,

institutos médicos legais, varas especializadas,

este é o nosso foco na Câmara

dos Deputados.

Joseilda Santos esclarece que,

antes de tudo, as mulheres devem ser

informadas sobre os seus direitos. Durante

a sua rotina como agente comunitária

de saúde, ela orienta a

comunidade. “Busquei informações

Revista Elas por Elas - Junho 2016

47


sobre a Lei Maria da Penha e, hoje,

guardo na ponta da língua muitos artigos.

Não quero que ninguém sofra as

mesmas coisas que eu passei”.

Hoje, sei que ele sabe onde estou,

não tenho medo porque aqui me sinto

mais segura, tenho pessoas que me

ajudam e apoiam, pessoas que não

têm medo de falar que estão do meu

lado para o que der e vier. O auxílio

que recebi depois que a Lei foi estabelecida

me fez confiar na Justiça”,

salienta Alda Ribeiro.

A defensora pública Samantha Vilarinho

Mello afirma que a Lei Maria da

Penha é conhecida por 98% da população

e as pessoas fazem até piada

com situações do cotidiano. “Você pode

até não conhecer o detalhamento da

legislação, mas sabe que existe. Se

bater em mulher vai ter consequência,

pode até ser preso. Isso gerou um processo

de consciência da mulher. Além

disso, todos que estão ao redor pressionam

para que ela não desista da denúncia.

Recentemente, atendi uma mulher

que não queria procurar ajuda,

mas as vizinhas, parentes diziam – é

uma ameaça, vai que ele concretiza,

você está correndo um risco muito grande,

procure ajuda, vá à polícia. Isso é

um bom motivo para comemorar!”

Para o coordenador do Mapa da

Violência no Brasil, Júlio Jacobo, o

problema é que se fala muito da Lei,

mas os recursos financeiros são escassos.

“A área de segurança pública é

muito contingenciada, porém, investese

naquilo que não vai trazer os resultados

esperados. Um exemplo ocorre

na guerra contra as drogas, compramse

submarinos, armamentos e aviões,

entretanto os altos índices de violência

no Brasil só serão reduzidos com a reformulação

educativa da cultura.”

A farmacêutica Maria da Penha é uma das defensoras

da efetivação da Lei que leva seu nome.

O desabafo de Alda Ribeiro é

tocante, de todo modo, pode parecer

um pouco sensacionalista, mas, pode

ajudar a mudar um pouco desse quadro.

– “Ele me perguntava se eu o

amava e eu dizia que sim para não

apanhar mais. Eu sentei na cama e ele

me fez levantar e sentar no chão. Ele

puxava meu cabelo, cuspia no meu

rosto. Só depois de muita confusão,

ele dormiu. Peguei meus filhos e fui

procurar ajuda, só que na época não

tinha a Lei Maria da Penha, dessa

forma, eu tive que escolher viver ao

lado dos meus filhos e me sujeitar à

violência, torcendo para que um dia

isso acabasse, nem que fosse com a

minha morte”.

FÁBIO POZEBOM/AGÊNCIA BRASIL

48 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Rede de Enfrentamento

à Violência contra a Mulher

Em Minas Gerais, órgãos do judiciário,

executivo e entidades da sociedade

civil fazem parte da rede de

enfrentamento à violência contra a mulher.

A articulação tem o objetivo de facilitar

o acesso aos serviços previstos

na Lei Maria da Penha. Entre as reivindicações

das entidades que compõem

a Rede estão a criação de varas especializadas

no interior do Estado e de

um juizado que reúna diversos órgãos

de apoio à mulher.

No momento, são apenas quatro

varas que funcionam na Capital. “Com

o juizado, eu entendo que haveria uma

proteção maior à mulher, porque essa

vítima da violência contaria a sua

história apenas uma vez para um único

juiz, teria um magistrado que tem conhecimento

especializado na proteção

contra a violência doméstica. A parte

cível: divórcio, pensão alimentícia, guarda

de filhos, seriam decididos dentro

da ótica da Lei”, explica a desembargadora

Evangelina Castilho (foto).

A representante do Centro de Apoio

à Mulher esclarece que dentro dessa

Rede existe uma ideia de conexão

entre os serviços. No caso do Benvinda,

a ideia é prestar atendimento psicológico,

psicosocial, social e jurídico. “O

nosso trabalho é integrado aos outros

serviços, com a proposta de ouvir e

discutir com elas quais serão as saídas

para essa situação de violência, através

do tratamento individual da questão

como também de encaminhamentos

sociais”, frisa Daniele Caldas.

Já a Defensoria Pública promove o

atendimento específico e especializado,

conforme explica Samatha

Vilarinho. “Nós fazemos uma orientação

plena em direitos. Se percebermos

que a mulher ainda não tem certeza de

que quer fazer a denúncia encaminhamos

para o atendimento psicossocial

e, se por acaso ela já estiver certa de

si, vamos dar andamento à questão

jurídica”.

“Hoje, acredito que 90% do problema

eu já superei. Ainda não gosto

muito de falar sobre os momentos que

vivi. Eu quero mandar um recado para

as mulheres que estão passando por

esse momento: – busquem ajuda e

orientação, você não pode permanecer

nessa situação de violência, porque

a sua sobrevivência está em jogo. Não

se cale!”, manifesta Joseilda Santos.

“A agressividade e opressão contra

as mulheres vem da sociedade machista

que não avançou muito nesse sentido,

por mais que a gente caminhe na discussão.

A mídia coloca a mulher em um

lugar que não permite o empoderamento

feminino, haja vista que as nossas leis

são construídas por homens; quem discute

a ampliação dos direitos das mulheres,

em todos os setores, em maioria

são homens. Dessa maneira, nós não

estamos sendo as protagonistas da história.

Somos a maioria mas não estamos

em um lugar de decisão para que possamos

influir na construção das leis”,

declara Terezinha Avelar, presidenta do

Movimento Popular da Mulher.

MARK FLOREST

Revista Elas por Elas - Junho 2016

49


Medidas protetivas

Existem várias medidas protetivas

previstas na Lei Maria da Penha. O

objetivo é proteger as mulheres que

sofreram agressões e ameaças. Elas

são consideradas exemplificativas, portanto,

na prática os juízes podem adicionar

novos elementos, de acordo

com o caso.

Medidas mais comuns:

➊ Afastamento do agressor da casa

onde o casal mora, quando a mulher

sofrer violência, independentemente

de quem a casa pertença;

➋ Permitir que a mulher se afaste da

casa sem que ela perca os direitos relativos

aos bens;

➌ Quando a vítima é obrigada a fugir,

é determinado o afastamento do agressor

e recondução da mulher para a casa;

➍ Proibição de aproximação do agressor

a uma determinada distância. Cada

juiz dá a distância que entender adequada.

Proibição de se aproximar da

mulher, familiares e testemunhas do

caso;

➎ Proibição de se fazer qualquer contato,

seja por telefone, e-mail, redes

sociais, etc;

➏ Proibição de frequentar lugares onde

a mulher transita com mais frequência,

como casa e trabalho.

Obs: A mulher deve tirar cópias da

medida protetiva e carregar para

onde ela for. Caso ocorra alguma

violação, deve apresentar à policia.

SERVIÇO

Delegacia Especializada

de Atendimento à

Mulher - DEAM

Funcionamento: 24 horas

Rua São Paulo, 679, Centro

Belo Horizonte/MG

Ê 3270-3242 e 3270-3245

Núcleo de Defesa

da Mulher – NUDEM

Funcionamento:

das 8h às 17h

Av. Amazona, 560,

2º andar - Centro

Belo Horizonte/MG

Ê 3270-3202

Centro Risoleta Neves de

Atendimento de Minas

Gerais - CERNA

Funcionamento:

das 8h às 17h

Av. Amazonas, 558,

1º andar - Centro

Belo Horizonte

Ê 3270-3235

Benvinda - Centro de

Apoio à Mulher

Funcionamento:

das 8h às 18h

Rua Hermílio Alves, 34

Santa Tereza

Belo Horizonte/MG

Ê 3277-4379 e 3277-4380

ENTREVISTA

ERMELINDA IRENO

Qual é o balanço dos 10 anos da

Lei Maria da Penha?

Sem sombra de dúvida, é uma Lei

muito robusta, uma das legislações

mais qualificadas, se levarmos em consideração

os países que decidiram enfrentar

a violência contra a mulher. Os

mecanismos previstos na Lei pensam

desde a perspectiva de urgência ao

atendimento continuado em diversas

esferas, criminalização dos atos de violência

e também o acompanhamento

psicológico dos homens que praticaram

atos de violência. No entanto, é

necessário destacar que para a Lei ter

efetividade é preciso o auxílio de alguns

elementos, entre eles alguns serviços

que já estavam constiuídos

mesmo antes da Lei Maria da Penha.

De toda forma, a Lei depende do funcionamento

de todos os seus mecanimos

para que seja efetivo o combate à

violência. Sendo assim, o grande desafio

que enfrentamos hoje, do ponto de

vista aqui de Minas Gerais, por exemplo,

é a aplicação, justamente pela falta

de mecanismos que condicionem isso.

Se formos analisar, temos em Minas

853 municípios, mas não temos nenhum

juizado previsto na Lei. O que

temos são quatro varas especializadas

que funcionam em Belo Horizonte, nenhuma

também no interior do Estado,

onde a Lei é aplicada nas varas criminais

comuns.

A situação é mais grave do que

muita gente imagina?

O nosso sinal estava alaranjado até

pouco tempo atrás. Agora, já está co-

50 Revista Elas por Elas - Junho 2016


meçando a ficar vermelho porque o

número de feminicídios está assustador.

É uma grande contradição, temos uma

lei completa e as mulheres continuam

morrendo. No nosso caso, isso ocorre

porque temos uma sociedade extremamente

machista e as mulheres passaram

a reagir a essa condição de violência.

A Lei Maria da Penha vem suscitando

como a nossa sociedade é patriarcal.

Esse é o primeiro fato. O segundo

fato que o Mapa da Violência

no Brasil comprova é que a violência

contra a mulher diminui nas capitais e

aumenta nas pequenas cidades, porque

a Lei não é aplicada, principalmente,

no interior do país. As mulheres denunciam,

mas não possuem um aparato

para protegê-las, assim a violência vai

aumentar mesmo.

No caso das delegacias, existe número

suficiente? Elas funcionam bem?

Essa é umas das políticas públicas de

enfrentamento à violência contra as

mulheres mais antigas no Brasil. Desde

1985 já existem as Delegacias de Mulheres

(Deams). Eu acredito que as delegadas

tentam realizar um bom trabalho,

mas o número ainda é bem tímido

diante do tamanho do nosso Estado.

Hoje, temos cerca de 87 delegacias,

só que é preciso ressaltar o teor patriarcal

desses órgãos. Ainda temos que lidar

com delegadas e demais profissionais

que na hora de fazer o registro perguntam

à mulher: “– o quê você fez para

apanhar?” Aí é bom frisar que se o escrivão

age dessa maneira, isso legitima

que algumas mulheres podem apanhar,

que existem situações em que os maridos

podem bater.

DÉBORA JUNQUEIRA

Até que ponto as medidas protetivas

funcionam?

Esse é outro mecanismo previsto na

Lei, as Medidas Protetivas de Urgência,

o juiz precisa deferir em até 48 horas.

Só que essa não é a realidade, nós temos

municípios da Região Metropolitana

onde a medida leva até três meses

para ser concedida. Isso pode acontecer

pelo excesso de processos ou do não

reconhecimento da importância da violência

contra a mulher, a falta das

varas e/ou juizados especiais, enfim

são inúmeros fatores. Muitas vezes escutamos

dos juízes que: “– são muitos

os crimes que aguardam julgamento,

existem casos mais urgentes e mais

graves, eu não posso perder tempo

pensando em medidas protetivas..”

Agora, precisamos considerar que essa

demora pode refletir na sentença de

morte para uma mulher, porque a medida

protetiva vai afastar o autor de

agressão de casa.

Qual é o papel que a educação

pode desempenhar nesse debate?

A educação, em muitos casos, exerce

um papel tradicional que efetiva os

modelos de comportamento para homens

e mulheres. Contudo, pensar a

educação para a efetividade dessas mudanças

é entender que professoras,

professores e todos os profissionais do

ensino podem alterar a dinâmica social

na construção de papéis mais equânimes

e não esse papel binário que determina

que isso ou aquilo é de menino ou menina.

Eu sou professora e lecionei na

educação infantil e a gente via as filas

que separam meninos e meninas, na

educação física os meninos vão jogar

bola e as meninas ficam ali brincando

de alguma coisa. Ali, você já está dizendo

o que cada um pode ou não

fazer. No entanto, não podemos jogar

essa responsabilidade só para a escola,

mas ela tem um lugar de formação

para alterar esse processo cultural.ø

Ermelinda Ireno - Superintendente do Consórcio

Mulheres das Gerais e coordenadora da Rede Estadual

de Enfrentamento à Violência contra a Mulher

Revista Elas por Elas - Junho 2016

51


Tereza de Benguela

ou“Rainha Tereza”, liderou

o Quilombo de Quariterê,

em Guaporé, no Mato Grosso.

O quilombo resistiu com

aproximadamente 100 pessoas

até Tereza ser capturada

e morta por soldados

em 1770.

Mas, na verdade, essa é

Driely Marques, que luta

pelo direito e representatividade

da mulher negra

e seu espaço na sociedade.


Iara Iavelberg militou na Organização

Revolucionária Marxista

Política Operária (Polop), na Vanguarda

Popular Revolucionária

(VPR), na VAR-Palmares e, finalmente,

no Movimento Revolucionário

8 de Outubro (MR-8). Ela foi uma

das comandantes mais procuradas

pela ditadura devido sua importância

na resistência contra o golpe.

Mas, na verdade, essa é Vithoria Ednere,

que luta pelo fim do sistema

patriarcal, machista, racista e preconceituoso.


ISTOCK

ARTIGO

POR SILVIA CHAKIAN

Violência contra a

mulher na internet


Na era digital e globalizada, onde

pessoas do mundo inteiro, conectadas,

se comunicam e compartilham mensagens,

textos, fotos e vídeos, com velocidade

e alcance assustadores, a internet,

as redes sociais e os grupos de

conversa ou mensagens instantâneas,

infelizmente também constituem terreno

fértil para a proliferação de toda forma

de violação de direitos humanos –

numa sociedade patriarcal, machista,

racista e homofóbica – não é preciso

muito esforço para imaginar quais são

os grupos sociais mais atingidos.

Só no Brasil são cerca de 81,5 milhões

de pessoas com mais de dez

anos acessando diariamente a internet

pelo celular e gastando 29,7 horas

por mês em conexão. A pesquisa

Jovem Digital Brasileiro (Conecta,

2014) mostrou que 96% dos entrevistados

com idade entre 15 e 32 anos

usam a Internet diariamente e 90%

navegam nas redes sociais. Quatro

aplicativos de comunicação estão em

80% dos celulares (facebook, e-mail,

whatsapp e youtube).

São espaços virtuais que surgem

como grande ferramenta de comunicação

e informação, ao mesmo tempo

em que abrem espaço para que a violência

de gênero do mundo real seja

praticada também no ambiente virtual,

com alcance muito maior e consequências

tão ou mais devastadoras,

dada a capacidade de maior exposição

da intimidade das vítimas, que pode

ser disseminada a um número elevado

e indeterminado de usuários, numa

fração de segundos.

É neste cenário que surge a chamada

pornografia de vingança (revenge porn

ou cyber vingança) e o cyberbullying.

A pornografia de vingança se traduz

na conduta do (ex) companheiro, (ex)

namorado, (ex) marido ou terceiro que,

após ter acesso permitido a fotografias

e vídeos de conteúdo íntimo da vítima,

decide divulgá-los, sem o seu consentimento,

com o intuito de constrangê-la.

A prática geralmente ocorre quando

o parceiro (ou ex parceiro) não aceita

a recusa da vítima em manter com ele

relacionamento, ou não se conforma

com sua decisão de rompê-lo. Também

pode ocorrer quando a vítima viola as

chamadas expectativas de gênero, adotando

o que seria um “comportamento

feminino inadequado” (ex: traição).

Já o cyberbullying vem sendo classificado

como o uso do espaço virtual

para disseminar comentários depreciativos,

sendo as meninas e mulheres as

principais vítimas.

Em 2014, uma pesquisa realizada

pelo Data Popular/Instituto Avon revelou

que 83% dos homens entrevistados admitiram

ter ameaçado publicar fotos ou

vídeos da parceira nua na internet 1 .

Essa prática que atinge milhares de

meninas e mulheres, diariamente, no

meio virtual, tem se revelado uma das

formas mais graves de violência de gênero,

ao mesmo tempo em que se


Essa prática que atinge

milhares de meninas e

mulheres, diariamente,

no meio virtual, tem se

revelado uma das formas

mais graves de

violência de gênero.

apresenta como grande desafio por

parte de todos aqueles que lutam pelo

fim da discriminação e violência contra

a mulher.

É fato que o Direito não acompanhou

a evolução da tecnologia e o enquadramento

da violência praticada na

internet enfrenta a ausência de tipos

penais específicos e adequados para

descrever tais práticas.

Atualmente os casos de cyberbullying

podem configurar a prática de

crimes contra a honra (injúria, calúnia

e difamação), sem prejuízo de ensejarem

responsabilização civil por danos morais

e, em última análise, violência psicológica

traduzida em lesão à saúde psíquica.

Nas situações envolvendo menores de

idade, a proteção vem do Estatuto da

Criança e do Adolescente.

Nos casos de pornografia de vingança,

além dos crimes contra a honra,

é possível que a conduta praticada pelo

autor configure também os delitos de

ameaça ou extorsão, dependo do caso.

Vale dizer que os crimes contra

honra, cujas penas previstas são bastante

brandas, somente podem ser

processados mediante ação penal privada,

o que significa dizer que a vítima

depende da Defensoria Pública ou de

advogado constituído para o ajuizamento

da queixa-crime.

A Lei 12.737/12 (Lei Carolina

Dieckmann) incluiu no Código Penal

uma série de infrações praticadas no

ambiente virtual, desde que o conteúdo

divulgado tenha sido obtido de forma

ilícita, ou seja, tenha sido subtraído,

sem o conhecimento da vítima, razão

pela qual não se aplica aos casos de

pornografia de vingança, quando na

grande maioria das vezes, o autor teve

acesso ao conteúdo divulgado de maneira

lícita.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

55


Em relação à retirada do material divulgado

na rede, o Marco Civil da Internet,

aprovado a partir da Lei n.

12.965/14, previu que os provedores

que não retirarem do ar o material após

notificação extrajudicial poderão responder

pelos danos causados à vítima.

No mais, há diversos Projetos de

Lei em tramitação no Congresso Nacional,

com vistas a tipificar penalmente

a conduta daquele que promove a divulgação

e expõe, por meio de imagens,

vídeos ou quaisquer outros meios de

material que contenha nudez ou ato

sexual de caráter privado.

Merece destaque o Projeto de Lei

nº 5.555 de 2013, de autoria do

Deputado João Arruda, que altera a

Lei nº 11.340/06 ao criar mecanismos

para o combate a condutas

ofensivas contra a mulher na internet

ou em outros meios de propagação de

informação.

O Projeto, que tem como relatora

a Deputada Tia Eron, tem como objetivo

alterar o artigo 3º da Lei Maria da

Penha, incluindo no respectivo rol o

direito à comunicação, bem como

acrescentar ao artigo 7º novo inciso

(VI), que contará com a seguinte redação:

“violação da sua intimidade, entendida

como a divulgação por meio

da Internet, ou em qualquer outro

meio de propagação da informação,

sem o seu expresso consentimento,

de imagens, informações, dados pessoais,

vídeos, áudios, montagens ou

fotocomposições da mulher, obtidos

no âmbito de relações domésticas,

de coabitação ou de hospitalidade”.

Uma das consequências mais significativas

do Projeto refere-se à natureza

da ação penal nesses casos. Entendeuse

que para atingir melhor as finalidades

do tipo penal, a ação deve ser pública

condicionada à representação, ao contrário

do que ocorre com os delitos

contra a honra, que se processam mediante

ação privada.

Trata-se de providência imprescindível

para se garantir às vítimas, o

acesso pleno à justiça, evitando-se que

a falta de informação ou de recursos

limitem seu direito à busca pela responsabilização

criminal dos responsáveis

e reparação dos danos causados.

Por fim, a despeito da necessidade

urgente desse aprimoramento legislativo,

não se desconhece que as causas

ISTOCK

sociais dessa forma de violência estão

diretamente relacionadas às questões

de nossa sociedade patriarcal e de expressões

machistas, que reservam às

mulheres o papel do recato, do comportamento

sexual “adequado”, discreto

e tradicional.

São essas expectativas sobre o

“comportamento feminino adequado”,

criadas ao longo de séculos de dominação

masculina, que autorizam o julgamento

moral da vítima. Ao mesmo

tempo em que tem sua intimidade exposta

na internet, passa a ser responsabilizada

pela própria violência que a

vitimou, como se tivesse “contribuído”

para sua ocorrência. Daí porque pessoas

conhecidas ou mesmo desconhecidas

das vítimas passam a compartilhar o

material divulgado, disseminando-o no

ambiente virtual.

Dessa forma, evidentemente não

basta a solução dos casos concretos e

a tipificação adequada das formas de

violência contra a mulher na internet.

Mais que isso, a certeza é de que os

avanços somente virão com a promoção

de debates e reflexão da sociedade

sobre os aspectos da naturalização da

cultura de violência contra a mulher,

que tolera o compartilhamento sucessivo

desse conteúdo na rede, ignorando as

consequências nefastas para as vítimas,

que podem variar do isolamento social,

stress pós traumático e depressão, até

o suicídio. ø

1. (disponível em http://www.agenciapatricia -

galvao.org.br/dossie/pesquisas/violencia-contraa-mulher-o-jovem-esta-ligado/,

acessado em 28

de março de 2016).

Silvia Chakian de Toledo Santos - Promotora de

Justiça de São Paulo, Especializada em Violência

Doméstica e Familiar contra a Mulher, membro

colaborador do Conselho Nacional do Ministério

Público, integrante da Comissão Nacional de Combate

à Violência Doméstica do Ministério Público.

56 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Revista Elas por Elas - Junho 2016

57


Nadezhda Krupskaya foi liderança

do Partido Social-Democrata

Russo. Trabalhava para erradicar o

analfabetismo entre a população russa,

como um dos pilares do avanço

da revolução bolchevique. Foi do Comissariado

da Educação e responsável

pela disseminação das bibliotecas

pela União Soviética. Depois da revolução

foi presa, exilada e escreveu

o livro “A mulher trabalhadora” sobre

as condições das mulheres russas que

trabalhavam nos campos e fábricas.

Mas, na verdade, essa é Ana Júlia

Guedes, que luta por levar consigo a

história das mulheres que deram sua

vida nas revoluções.


Carmen da Silva foi

uma das mais notáveis feministas

brasileiras do século

XX. Escritora e jornalista,

ela aproximava-se do

público feminino escrevendo

artigos para uma revista feminina

que discutia a questão

da mulher, divulgava o

movimento feminista brasileiro

e suas principais bandeiras

de luta.

Mas, na verdade, essa é Paula

Madeira, que luta por menos

desigualdade social e melhor

qualidade de vida para

todos.


Elaine Cunha e sua filha, em “Maternidade

- Mulheres com deficiências”.

O ensaio reafirma o direito

delas serem mães, contra

todo o preconceito da sociedade.

FOTO: LULUDI MELO

SUPERAÇÃO

POR CECÍLIA ALVIM

Protagonistas de

uma outra história

Mulheres com deficiência enfrentam grandes barreiras

na luta por direitos e pelo respeito à diversidade

60 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Aparentemente, elas têm sim uma

diferença... Olívia não enxerga com os

olhos, mas com o coração. Fabíola não

anda velozmente, no entanto, tem uma

caminhada linda que inspira muita

gente. Conceição já não anda, mas encanta

com sua autonomia, generosidade

e seu sorriso aberto, mesmo depois

de ter passado por maus bocados

na vida. Já Rejane se desloca para todo

lado com sua prótese na perna, símbolo

de suas vitórias sobre o preconceito

e as adversidades do caminho.

Assim como essas mulheres de histórias

anônimas fizeram de cada obstáculo

uma oportunidade para se tornarem

pessoas melhores, tantas outras

mulheres com deficiência no Brasil e

no mundo são sinônimo de superação

e inspiração para muitas pessoas. Isso

não significa, entretanto, que ser mulher

com deficiência seja algo fácil numa

sociedade diversa, mas ainda muito

excludente e preconceituosa.

“Com o mercado de trabalho altamente

competitivo hoje, alguns empregadores

acham que aceitar uma pessoa

com deficiência pode afetar a produtividade.

No entanto, quando isso acontece,

as pessoas tornam-se mais humanas

e solidárias, aumenta o trabalho

em equipe, o ambiente muda”, destaca

a psicóloga Patrícia Valadares.

Em novembro de 2013, durante o

I Seminário Nacional de Políticas Públicas

e Mulheres com Deficiência,

promovido pelo governo federal, as

mulheres representantes da sociedade

civil e do poder público das cinco

regiões do país, aprovaram uma carta

com 41 propostas “necessárias ao fortalecimento

das mulheres com

deficiência e à efetividade dos direitos

e políticas públicas direcionadas ao

segmento”.


Muitas vezes as mulheres

com deficiência

ficam mais vulneráveis

às violações

de direitos.

Entre as propostas, estão pontos

importantes que desnudam a dura realidade

vivida por elas: “intensificar, no

âmbito do Ministério do Trabalho, campanhas

e treinamentos junto aos empregadores,

voltadas para superação

das barreiras atitudinais que impedem

o acesso delas ao trabalho; promover

pesquisas e indicadores relacionados a

essas mulheres, especificando suas deficiências;

promover a realização de

campanhas com foco na autoestima

de meninas e mulheres com deficiência,

bem como no enfrentamento a estereótipos,

discriminações e preconceitos;

sensibilizar e subsidiar o poder judiciário

para a promoção dos direitos dessas

mulheres, estabelecendo parcerias para

o enfrentamento à violência, e para o

fim dos pedidos de esterilização involuntária,

interdição forçada e internação

compulsória; assegurar às mulheres

com deficiência o direito ao exercício

de sua sexualidade, a constituição de

família, ao pleno gozo dos direitos sexuais

e reprodutivos, incluído o direito

à gestação e à adoção”, entre outras.

Para Luciene Carvalhais, psicóloga

que atua na área, muitas vezes as mulheres

com deficiência ficam mais vulneráveis

às violações de direitos. “Somase

a isso, em alguns casos, o preconceito

de gênero, de raça, a falta de laços familiares

e de condições financeiras.

Nessa soma de estigmas, aumenta a

vulnerabilidade”.

Autonomia e resistência

Para a professora de psicologia Fabíola

Fernanda do Patrocínio, usuária

de cadeira de rodas, a deficiência

remete a uma posição de descrédito e

desvantagem, criando uma ordem de

exclusão socialmente construída, porém

é uma experiência singular. “Convivi

com mulheres com todos os tipos de

deficiência e com posturas muito distintas

diante da vida, e percebi que

cada uma tem um modo particular de

compreender as experiências de limitações,

rejeição, preconceito, o que

pode culminar em posicionamentos de

fragilidade, vitimização e submissão ou

na construção de posicionamentos libertários

e emancipatórios”.

Em sua dissertação de mestrado em

Psicologia, Fabíola avaliou a realidade

das mulheres com deficiência física adquirida.

Ela destaca alguns elementos

que desencadeiam os processos de autonomia

dessas mulheres, entre eles a

disponibilidade para intercâmbios sociais;

a implicação com uma obra a ser

realizada, como a educação de um

filho, o trabalho, o esporte, a arte; recursos

financeiros e o acesso a tecnologias

como cadeira de rodas, próteses

e outras. “Contudo, o fundamental é

que essas mulheres cultivem o 'cuidado

de si', atualizando constantemente lutas

subjetivas e sociais que lhes possibilitem

produzir uma vida bela mesmo

nessas condições”.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

61


45,6 milhões

da população brasileira

informam ter algum tipo de deficiência

15 milhões

deficiência

visual

16 milhões

deficiência

motora

25,7milhões

são mulheres

11,8 milhões

deficiência

intelectual

4,9 milhões

deficiência

auditiva

*Algumas mulheres possuem

mais de uma deficiência

DIFERENÇA SALARIAL

mulheres ganham

menos

17,2% 28,5%

se tiverem

deficiência

que os homens

Fonte: IBGE

A Carta do I Seminário Nacional

de Políticas Públicas e Mulheres com

Deficiência apontou também três propostas

relacionadas à área da educação,

que podem contribuir para a promoção

de uma cultura do respeito à diversidade

e à dignidade das meninas e mulheres

com deficiência a partir da escola: garantir

a deficiência como categoria

transversal nos parâmetros curriculares

nacionais; difundir a Lei Maria da

Penha na rede de ensino, garantindo

os formatos acessíveis; garantir a inclusão

de meninas com deficiência em

idade escolar na rede regular de ensino

e o transporte acessível.

Histórias que

inspiram

Entre tantas mulheres com diversas

deficiências que enfrentam

inúmeros obstáculos para viver

em sociedade, estudar, trabalhar,

criar suas famílias, quatro delas

contam suas histórias de vida que

significam muito mais do que as

palavras são capazes de expressar.

São histórias que comprovam os

dados sobre a desigualdade e as

dificuldades que as mulheres com

deficiência encontram para viver,

mas que revelam grandes superações.

Histórias que são sinônimo

de esperança e do poder que as

mulheres têm para mudar o

mundo!

Olívia Souza Silva

Um problema de retinose pigmentar,

detectado na infância, fez Olívia perder

a visão progressivamente. “É um problema

atrás dos olhos. Minhas córneas

são perfeitas. Quero doá-las quando

eu me for. Você pode ver, meus olhos

têm brilho”.

Com 5 anos, Olívia saiu de Araçuaí

para Belo Horizonte com os pais e irmãos,

alguns deles também com baixa

visão. Para os pais trabalharem, foi estudar

no Instituto São Rafael, instituição

de educação para pessoas com deficiência

visual, onde ficou em regime

de internato até os 12 anos. Ao ouvir

de uma colega que estava numa “escola

de cegos” é que ela se deu conta de

que praticamente não enxergava. A

partir daí viveu uma fase difícil de aceitação

de si mesma. “No São Rafael,

aprendi a ler em Braille (sistema de leitura

com o tato), aprendi a me cuidar,

a cozinhar, tinha amigos como eu”.

Com 14 anos, Olívia recebeu o

difícil diagnóstico após o exame com

o oftamologista: “essa doença é progressiva.

Em algum momento, você

vai perder toda a visão e não há nada

que a medicina possa fazer. Mas você

tem duas opções: pôr fim à sua vida,

ou escolher ser feliz”. Segundo Olívia,

não foi fácil ouvir isso, mas foi o empurrão

que precisava para passar a

“ver” a vida de outro modo. “Eu pensei

comigo que queria viver e resolvi que

ia fazer tudo o que pudesse na vida.

Tive uma juventude boa, animada, e

sempre fui feliz, até demais”, conta

com uma risada genuína. “Meu natural

é sorrindo, porque amo a vida. Mas é

claro que tive dias em que não estava

bem, enfrentei muitas dificuldades”.

62 Revista Elas por Elas - Junho 2016


MARK FLOREST

Ainda muito jovem, foi mãe, assumindo

o filho sozinha. “Enfrentei o

preconceito de pessoas que achavam

que eu não daria conta de cuidar dele

e que ele poderia ter o mesmo problema.

Mas superei tudo isso, ele nasceu

bem, e fiz tudo que uma mãe faz”.

Olívia conviveu com muitos amigos,

namorou e encontrou o “homem dos

seus sonhos”, Edésio, que também tem

deficiência visual, com quem se casou

aos 29 anos de idade e teve mais um

filho, que enxerga.

Embora quisesse trabalhar, ela conta

que não conseguia. “Ia atrás de vagas,

mas sempre me diziam que depois me

ligariam”, conta. Passou a vender loterias

no centro da cidade, assim como

seus irmãos com deficiência visual. Assim,

sustentava a si e a seus filhos. Até

30 e poucos anos, ela enxergava pouco

durante o dia, via vultos e movimentos,

e nada à noite. Aos poucos, passou a

não enxergar com os olhos, e a perceber

o mundo com o coração, usando

os demais sentidos, que se aguçaram.

Após anos vendendo loterias na rua,

Olívia recebeu finalmente uma proposta

para trabalhar no Sindicato dos Professores.

“Era um sonho ter a minha carteira

assinada”. Em um primeiro momento,

ela mesma teve receio de não

conseguir se adaptar à nova função de

telefonista. Mas com o apoio de diretores


A deficiência

me ensinou a

ver as pessoas

por dentro.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

63


e colegas, Olívia se firmou na nova

profissão e conseguiu transcrever para

o braile todas as informações que precisava

para desenvolver bem suas atividades.

“Através do meu jeito de trabalhar,

quis provar para mim e para as

pessoas que deficiente visual é capaz

sim. Todo deficiente devia aprender

que não somos coitadinhos, pois somos

capazes de muitas coisas”.

Com 47 anos, fez o ensino médio

através do EJA (Educação de Jovens e

Adultos). No início, percebeu certa resistência

da turma e de alguns professores

à sua presença, mas com o

tempo ganhou o apoio da sala. “Fechei

a prova de matemática do primeiro bimestre

e ajudei a organizar a formatura.

Não quero nada de graça, eu quero

conquistar. Preciso lutar para ocupar o

meu espaço”.

Segundo ela, um grande desafio

para as pessoas com deficiência visual

é realmente ocupar outros espaços da

cidade além da escola, como os equipamentos

públicos, o transporte coletivo

e as ruas: ter os lugares preferenciais

respeitados, entrar nos ônibus, não

trombar com obstáculos nas calçadas.

Além disso, faltam livros e materiais

em braile: “Acho que já li quase todos

que existem para consulta na biblioteca

pública”, conta Olívia.

Olívia acredita que a sociedade precisa

superar preconceitos e possibilitar

oportunidades de trabalho e apoio para

os estudos para toda pessoa com deficiência.

“Quero fazer o Enem e estudar

Psicologia para poder ajudar as pessoas.

Sou vitoriosa. A deficiência me ensinou

a ver as pessoas por dentro. Você olha

as fisionomias. Eu conheço pela voz,

pelo perfume, pelo tato, pelo abraço”.

E é assim, com brilho nos olhos e na

alma, que Olívia segue seu caminho.

Rejane Dias Ferreira

Rejane nasceu com uma lesão na

medula. O médico disse à sua mãe

que ela não iria andar, que viveria

entre 7 e 10 anos, e que nunca seria

uma “bailarina na vida”. Ao contrário

dos prognósticos médicos, ela teve

poucas sequelas. “Eu sou um milagre

de Deus. Tenho algo muito importante

para fazer nesse mundo”.

Perdeu o pai com um ano de idade.

Sua mãe foi morar com sua avó, e

depois de um tempo deixou os filhos

com ela. Sua avó, Maria Vieira, hoje

com 81 anos, sempre a levou aos médicos

para os cuidados que precisava.

Com cerca de um ano de vida, a lesão

na medula gerou uma ferida no pé, que

foi tratada como um problema na pele.

No entanto, era o sinal de um problema

associado que se chama osteomielite,

uma inflamação no osso. Teve que fazer

mais de 40 cirurgias para tentar sanar o

problema. Segundo ela, algumas foram

desnecessárias, erros médicos. Houve

desgaste do osso por tantas cirurgias.

“Meu refúgio era ficar internada. Era o

único momento em que eu sentia que

me viam, que recebia atenção”.

Rejane teve fases de depressão

desde criança. Vivia chorando, assistindo

TV e fechada em seu quarto. Só saía

para ir à escola. “Não tinha muitos

amigos. Minha vida era essa: ir no

posto, a médicos, fazer curativos, buscar

remédios”. A ferida no pé fazia minar

constantemente um líquido com um

odor forte e as pessoas se afastavam

dela por isso. Na escola, sofria com os

apelidos ruins, com o fato dos colegas

se sentarem distante dela, e até com

atitudes agressivas. “Eu achava absurdo

ficar longe de todo mundo. Uma vez

minha avó foi na escola explicar a

minha situação e dizer que eu tinha alguém

para me defender”.

Repetiu de ano várias vezes, pois

frequentemente ficava 20, 30 dias no

hospital. A difícil recuperação era em

casa com os pés para cima. Quando

foi para o ensino médio, já tinha 21

anos. Teve uma infecção forte às vésperas

de se formar. “Fiquei triste por

não poder ir à minha formatura”. Com

26 anos, passou por uma fase difícil

de saúde e ficou internada. O seu médico

então afirmou, chorando, que não

havia mais saída, que já tinha feito

tudo o que podia, mas que agora seria

preciso amputar sua perna, que já

estava toda comprometida. “Depois

dessa difícil decisão, nunca mais precisei

voltar para o hospital. Foi uma libertação.

Mas nenhuma mulher está preparada

para perder um membro, afeta a

imagem que temos de nós mesmas”.

Após um ano para a recuperação

completa da cirurgia de amputação, Rejane

colocou uma prótese na perna,

mas não fez fisioterapia para voltar a

andar. “Aprendi sozinha. Fui me reerguendo

e aprendendo a viver com a

prótese, que é um acessório, com ela

tudo é possível. Hoje sinto que caminho

com tranquilidade”. Ela teve alguns tra-


Apesar de grandes

dificuldades, deu

passos grandiosos.

64 Revista Elas por Elas - Junho 2016


MARK FLOREST

balhos de carteira assinada e, atualmente,

trabalha no Sindicato dos Professores.

Para Rejane, um dos desafios para

as pessoas com deficiência física é o

deslocamento na cidade, que começa

pela fila e pela entrada nos ônibus.

Teve que mostrar a perna com a

prótese várias vezes no coletivo e em

outros lugares públicos para conseguir

se assentar ou ter prioridade.

Na sua opinião, muita gente ainda

olha as pessoas com deficiência com

preconceito. “Isso dói. Essa é a pior

parte, acharem que a deficiência te

torna uma pessoa inferior. Eu não sou

metade de uma perna. Eu sou muito

mais do que o pedaço da perna que eu

perdi, que não me servia mais”. Ela

afirma que aprendeu a lidar com o receio

e a curiosidade das pessoas em

relação à deficiência. “Mas não tem

como acostumar com o preconceito,

que é muita pobreza de espírito. Há

muitas pessoas que têm a mente pequena

em relação à diferença”. Rejane

conta que já teve alguns relacionamentos,

mas lamenta ser vista comumente

com preconceito. “Percebo que muitos

homens não se envolveriam comigo

porque eu sou assim. Mas penso que

amor é convivência. Se você convive,

você aprende a amar”.

Com sofrimento e coragem, ela

aprendeu a andar e a vencer os obstáculos

do caminho. “Essas dificuldades

todas foram para me moldar, para me

fazer mais forte. Eu tenho orgulho da

pessoa que me tornei a partir da minha

história”. E é com essa força de quem

não desanima, que ela quer “fazer algo

muito importante nesse mundo”: suscitar

a esperança no coração das pessoas.

“Eu quero ser pastora de mulheres, líder

na minha Igreja, para fortalecer outras

mulheres a partir da minha história”.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

65


Maria da

Conceição Pires

dos Santos

Sãozinha, como é conhecida, é sorridente,

falante, esperta. Hoje em dia

se locomove numa cadeira de rodas,

em função de uma doença degenerativa,

a artrose, que trouxe muita dor e foi limitando

seus movimentos. Tem também

deficiência intelectual, condição que

trouxe limitações para sua vida, mas

também muitas experiências e aprendizados,

e uma visão de mundo singular.

Ainda pequena foi deixada em um

abrigo, e de lá passou por outras instituições

onde morou. “Eu ficava querendo

ver meu prontuário. Queria saber

se tinha mãe, irmão, pai. Queria saber

toda minha história direito”, conta em

um livro que escreveu. Parte de sua

vida passou na antiga Febem, junto a

outras crianças com e sem deficiência

deixadas lá. “Eu tenho um trauma até

hoje. Tinha muita coisa ruim lá. Era

muita covardia. Até hoje eu abaixo a

cabeça e começo a chorar.”

Depois que a Febem foi extinta,

Conceição e parte dessas pessoas com

deficiência que não conseguiu ser reinserida

em suas famílias de origem,

foram transferidas para casas-lares da

APAE (Associação de Pais e Amigos

de Excepcionais) em Belo Horizonte.

Nesses lares, são estimuladas a viver

com autonomia, a cuidar de si mesmas,

a desenvolver suas potencialidades e a

trabalhar, dentro de suas possibilidades.

“É um lugar de resgate da cidadania e

da dignidade, onde essas pessoas vivem

como irmãos há muitos anos”, observa

Elen Mariz, assistente social da Apae.

Segundo ela, Conceição “sobreviveu a

todo esse holocausto” vivido nos abrigos,

na Febem, e apesar disso, “tem

muita habilidade social”.

Ela morou durante alguns anos

numa casa com outras quatro mulheres

com deficiência intelectual e múltipla.

Ajudou a cuidar dessa casa, “sempre

com muito bom humor”. Ia sozinha

no posto de saúde, na hidroginástica,

na igreja. Trabalhou de carteira assinada

na Apae durante alguns anos. Participava

de reuniões em Belo Horizonte e

Brasília como conselheira do Conselho

Nacional de Assistência Social e do

Conselho da Pessoa com Deficiência,

onde ajudou a pleitear direitos e políticas

públicas para as pessoas com deficiência.

Sempre que preciso, tinha uma

pessoa de apoio para ajudá-la a se

deslocar, a entender e a participar de

alguns debates. “Tínhamos chance de

falar, de discutir. A gente é muito importante”,

diz Conceição.

Segundo Luciene Carvalhais, psicóloga

na APAE, a deficiência intelectual

traz um comprometimento das funções

cognitivas e do comportamento adaptativo.

No entanto, para Patrícia Valadares,

coordenadora de ações integradas

da APAE, a sociedade ainda não entende

que essas pessoas são capazes

de muitas coisas, e que muitas vezes


Ela venceu o

abandono, o

preconceito e

lutou por direitos

só precisam de apoio, seja um mobiliário

acessível, alguns recursos para

se deslocar ou viver ou o simples apoio

de outra pessoa na realização de certas

atividades. “A pessoa que tem problema

assim, não tem sua vontade, sua liberdade.

Eu já tive namorado, já quis casar”,

conta Sãozinha. A questão da sexualidade

na deficiência intelectual é

mais delicada ainda, segundo a psicóloga

Luciene. “Elas têm interesses e querem

mostrar, mas não são compreendidas.

Há mulheres cegas e surdas com marido,

filhos, mas no caso da deficiência

intelectual isso é raro. Os familiares

têm alguns receios, inclusive de quem

vai cuidar dos filhos, de como isso vai

ser. Nas casas-lar, algumas delas têm

namorado, mas são orientadas a se

cuidar”, destaca.

Segundo as profissionais da APAE,

Sãozinha andava, dançava, pulava, até

que passou a apresentar problema

nos joelhos, fez cirurgia, tomou medicamentos,

mas não adiantou. Como a

doença é progressiva, passou a usar

muleta e depois cadeira de rodas. “Eu

já estudei, sou muito inteligente e entendo

o que aconteceu comigo. Mas

até hoje eu fico deprimida. Eu tenho

que confirmar que a vida é assim, que

o importante é a cabeça, é ter autonomia”,

diz num triste desabafo de quem

ressignificou a própria história. “Hoje

eu ajudo na cozinha, faço artesanato,

vejo televisão, gosto de música, de

passear, de cantar no karaokê”.

Conceição também gosta de registrar

o que vive. “Eu quis escrever, porque

via as coisas e guardava”. Quando foi

à praia, ganhou um caderno vermelho

da amiga Mercês, onde começou a escrever

seus textos. “O tempo foi passando

desde que escrevi minhas primeiras

histórias”. Em 2005, o caderno

66 Revista Elas por Elas - Junho 2016


se transformou num livro também de

capa vermelha, que se chama: “Histórias

da Conceição”, onde conta um

pouco de suas descobertas e revela

sua habilidade para escrever. “Hoje estou

muito triste, deprimida. Ana Paula

vai embora da APAE. Eu gosto muito

dela. Arrumei minhas coisas e quis ir

embora para sempre... É difícil conhecer

as pessoas e delas se separar. É mais

difícil ainda para mim. Vou aprender

aos poucos. Vou aprender a me controlar.

Aprender a me conhecer. Eu sei

que vou ver a Ana Paula ainda”, conta

Conceição em um de seus textos, que

demonstra a singular sabedoria que

ela desenvolveu para viver e sorrir,

apesar das adversidades.

MARK FLOREST

Revista Elas por Elas - Junho 2016

67


Fabíola Fernanda

do Patrocínio Alves

Fabíola teve poliomelite aos 3 anos

e 9 meses. Ficou 3 meses internada.

Os médicos achavam que ela não ia

sobreviver. A sequela da doença foi a

perda total dos movimentos dos membros

inferiores, a paraplegia.

Ainda bem pequena, poucos anos

depois de dar os primeiros passos, Fabíola

teve que reaprender a viver sem

andar. “Foi um refazer, uma retomada.

Minha família teve que aprender a lidar

com isso. Esse princípio da fé foi um

alicerce da nossa vida, e é até hoje”,

conta. Com o tempo ela reaprendeu a

andar em casa, brincando com os irmãos,

e com a ajuda de aparelhos.

“Não é fácil para uma criança usar

uma órtese, porque são equipamentos

que machucam”.

O apoio da família, e especialmente

da mãe, Gláucia, foi fundamental para

ela conseguir se refazer e tocar a vida

adiante. “Eu sabia que minha mãe não

ia me deixar fora da escola. Quando

entrei, aos 6 anos, e por um bom

tempo, ela me carregava no colo para

a aula”, conta Fabíola, ao lembrar

também que viveu o processo de

inclusão escolar, numa época em que

não se falava disso. “Era um salve-se

quem puder na escola. Mas encontrei

professoras muito abertas para

acolher, que não sabiam como lidar,

mas aprendiam”.

Um dia os chefes de seu pai se sensibilizaram

com a sua situação, levaram

para ela uma boa cadeira de rodas e a

apoiaram na reabilitação. Passou, então,

por uma cirurgia nos quadris para

esticar as pernas que estavam encurtando.

Enquanto se recuperava, fez o

primeiro semestre letivo em casa, deitada

em uma cama. Com a ajuda de

uma professora particular voluntária e

de uma prancheta, fazia atividades e

provas que a escola enviava.

Concluiu o ensino médio, como os

demais colegas. Fez o vestibular e começou

a faculdade de psicologia aos

19 anos. “O transporte era sempre

uma dificuldade. Minha mãe me acompanhou

a faculdade inteira para me

auxiliar nos deslocamentos, e sempre

me esperava. Ela investiu em mim, na

minha independência”, conta e se emociona

ao lembrar de todos os esforços

que faziam juntas.

Teve seu primeiro namorado com

18 anos. Anos depois se casou com

Dirlei. “Ele me aceitou como sou, me

apoia e ajuda”, diz com admiração.

Quando engravidou, enfrentou resistências.

“Muita gente achou que eu ia

arrumar menino para minha mãe cuidar.”

Ela conta que curtiu a gestação,

se cuidou e fez o pré-natal adequadamente.

Hoje, ela leva sua filha Esther,

com 4 anos, para a escola, dirigindo

um carro adaptado.

“A educação nasceu em mim, primeiro

como aluna, depois como professora.

Do ensino infantil ao mestrado,


Ela superou

barreiras e se

tornou

professora.

não foi uma caminhada fácil”. Fez uma

especialização e o mestrado em Psicologia,

e passou a lecionar em faculdades

particulares. Atualmente é doutoranda

em Educação na UFMG. “Minha luta

resultou em algo, onde eu cheguei.

Sou privilegiada por isso. Eu sempre

acreditei que as coisas iam dar certo,

68 Revista Elas por Elas - Junho 2016


dava os primeiros passos e tinha apoio

para prosseguir”.

Trabalhou na Coordenadoria de

Apoio e Assistência à Pessoa com Deficiência,

com RH e em clínica, e depois

começou a trabalhar no Instituto Esther

Assunção. Hoje ela é coordenadora de

projetos do Instituto, onde atua no programa

que promove a inclusão de alunos

com deficiência nas escolas, e é professora

na Faculdade Pitágoras, em Betim.

Fabíola diz que a deficiência física a

ensinou a ter humildade, a contar com

as pessoas, a reconhecer que há limitações.

“Minha vida inteira foi de reconstruções.

Tenho construído uma arte de

viver, de articular apoios e acessibilidade.

Se não há soluções arquitetônicas nos

locais onde vou, driblo isso usando o

diálogo, a articulação, a gratidão com

as pessoas. A deficiência não é um

mundo cor de rosa. Mas há um colorido,

misturado com outros tons... Temos

que nos reinventar a cada dia”.ø

MARK FLOREST

Revista Elas por Elas - Junho 2016

69


Tuira Kayapo é uma mulher

guerreira do povo indígena Kayapó.

Ao sentir a ameaça da construção

da represa Belo Monte sobre o Rio

Xingu, ela levou seu facão até o engenheiro

chefe do projeto, passou

a lâmina em seu rosto e disse:“A

eletricidade não vai nos dar a nossa

comida. Precisamos que nossos rios

fluam livremente. O nosso futuro

depende disso. Nós não precisamos

de sua represa”.

Mas, na verdade, essa é Larissa Lopes,

médica que luta diariamente

para que todas mulheres da América

Latina tenham acesso à saúde.


MARK FLOREST

RACISMO

POR DÉBORA JUNQUEIRA

Violência simbólica

e negligência

Racismo institucional afeta a saúde da mulheres negras

72 Revista Elas por Elas - Junho 2016


O Brasil é o segundo país do mundo

com a maior população negra e as

mulheres negras representam 25% dos

191 milhões de habitantes. Essas mulheres

formam a grande massa que

busca atendimento na saúde pública e

têm dificuldades de acesso aos serviços.

É o que aponta o Relatório Anual das

Desigualdades Raciais no Brasil 2009-

2010. O tratamento desigual que, principalmente,

as mulheres negras recebem

nas instituições por causa de sua cor é

considerado racismo institucional.

Segundo o Relatório, 40,9% das

negras (pretas e pardas) nunca haviam

feito mamografia, contra 22,9% das

brancas. Outras 18,1% das mulheres

negras nunca haviam feito o exame

Papanicolau, contra 13,2% das brancas.

Em relação ao pré-natal, 71% das

mães de crianças brancas fizeram mais

de sete consultas; o número de mães

de crianças negras que passaram pelos

mesmos exames é 28,6% inferior.

No Brasil, o Programa de Combate

ao Racismo Institucional (PCRI) implementado

em 2005, definiu o racismo

institucional como “o fracasso das instituições

e organizações em prover um

serviço profissional e adequado às pessoas

em virtude de sua cor, cultura,

origem racial ou étnica. “Ele se manifesta

em normas, práticas e comportamentos

discriminatórios adotados no

cotidiano do trabalho, os quais são resultantes

do preconceito racial, uma

atitude que combina estereótipos racistas,

falta de atenção e ignorância.

Em qualquer caso, o racismo institucional

sempre coloca pessoas de grupos

raciais ou étnicos discriminados em situação

de desvantagem no acesso a

benefícios gerados pelo Estado e por

demais instituições e organizações”.

(CRI, 2006, p.22).

A pesquisa nacional sobre Discriminação

Racial e Preconceito de Cor

no Brasil, realizada em 2003, pela

Fundação Perseu Abramo e Instituto

Rosa Luxemburgo Stufting, mostra

que apenas 3% da população brasileira

já se percebeu discriminada nos

serviços de saúde. Entre as pessoas

negras que referiram discriminação,

68% foram discriminadas no hospital,

26% nos postos de saúde e 6% em

outros serviços não especificados.

Ainda que isso tenha sido percebido,

poucos buscaram denunciar o ato.

Entre aqueles que o fizeram, ninguém

relatou ter sido informado sobre as

providências tomadas pela instituição

para reverter o quadro.

A estudante de fisioterapia Regina

Célia Costa Domingos (foto) fez estágio

durante um ano na Unidade de

Pronto Atendimento (UPA Centro-Sul)

em Belo Horizonte. Ela relata que presenciou

alguns casos que acredita se

configurarem como racismo. “Observava

que, já na triagem, as mulheres

negras, mesmo com a verificação da

taxa de glicose baixa, esperavam mais

para serem atendidas do que as pessoas

de pele mais clara. Os profissionais


40,9% das negras

(pretas e pardas)

nunca haviam feito

mamografia,

contra 22,9% das

brancas.

costumam julgar mais a pessoa negra,

suspeitando que elas estão passando

mal por que beberam ou se drogaram,

mas não pensam o mesmo dos brancos.

Isso pra mim é racismo”, opina.

Segundo Regina, sua percepção

vem dos comentários ou perguntas diferenciadas

feitas aos negros, como

por exemplo justificar que o remédio

fez mal porque a pessoa deve ter misturado

com bebida, ou mesmo perguntar

para uma mulher negra com

quantos parceiros ela tem relações sexuais.

“Quando um jovem negro chega

ferido num pronto-socorro, ele é visto

como um bandido, mas quando o mesmo

ocorre com um jovem branco,

ficam curiosos para saber como ele se

envolveu numa briga e porque se feriu,

como se o jovem negro estivesse no

seu lugar natural, mas o jovem branco

não”, afirma

Violência simbólica

O racismo institucional está diretamente

ligado à forma como a sociedade

está estruturada e com a falta de reconhecimento

da cidadania plena da população

negra, impedindo-a de acessar

integralmente bens e serviços, reduzindo

a longevidade e potencializando agravos

na saúde. Conforme esclarece o Ministério

da Saúde (portaldasaúde.gov.br),

o racismo não se apresenta necessariamente

na forma de atitudes discriminatórias

explícitas, mas também na

forma de resultados negativos ou desiguais

para o grupo vulnerável (negação

da necessidade). É preciso identificar o

racismo nas instituições e como ele

ocorre, a saber: linguagem codificada

(violência simbólica) e negligência (indiferença

diante da necessidade).

Revista Elas por Elas - Junho 2016

73


Para a professora do UNI-BH e diretora

do Sinpro Minas, Ângela Maria

da Silva Gomes (doutora em etnobotânica

negro-africana, coordenadora nacional

do movimento negro unificado

e membro do comite impulsor da Marcha

Mulheres Negras) o racismo ocorre

quando há a crença de supremacia de

um grupo sobre o outro. “Numa sociedade

desigual vão sempre ensinar

às vítimas que elas estão num lugar

natural e ao opressor que o fato de ele

estar por cima, assim como todas as

atitudes dele contra o oprimido, também

é algo natural”, exemplifica. Segundo

ela, o racismo institucional começa

com a formação de uma violência simbólica.

Os médicos vão estudar onde

somente há brancos e cria-se uma

ideia natural de que o grupo de mulheres

negras é inferior, como se tivessem incapacidade

intelectual. “Se os médicos

cristalizam isso, quando vão atender o

paciente eles dizem: tem esse remédio

aqui, mas ele é caro, vou receitar outro.

Ele não pergunta se o paciente tem dinheiro.

O produto da violência simbólica

é que o sujeito cria um papel para o

outro. Então a mulher negra é a prostituta

e, quase sempre, o preconceito

antecede o diagnóstico. Há casos em

que o médico nem encosta na pessoa

negra, porque acha que ela é um vetor

de doenças”, afirma.

Segundo Ângela, os estereótipos

são reducionistas, enclausura a pessoa

num determinado modelo. “Se a pessoa

sair daquele modelo vai sofrer violência

e ser discriminado. O racismo se utiliza

da violência simbólica, ou seja, repetir

os símbolos tantas vezes que acreditase

que é verdade”, explica. “Há um

genocídio da juventude negra, um feminicídio

negro, pois 65% das mulheres

mortas são negras. Há poucas estatísticas

e estudos sobre racismo dentro

das universidades. Isso é uma alienação

que ocorre como forma de ocultar os

conflitos”, opina.

Mulheres negras e aids

Em artigo intitulado Consciência

Negra: Racismo institucional, mulheres

negras e a aids, Emanuelle Goes,

enfermeira, blogueira, doutoranda em

Saúde Pública pela UFBA (Universidade

Federal da Bahia), descreve que a barreira

institucional funciona como uma

rede que se ramifica, impede o acesso

das mulheres negras e piora o seu

processo de adoecimento, vulnerabilizando-as

nas diversas entradas dos serviços

de saúde, desde a oferta de preservativos

no planejamento reprodutivo,

aos exames para o HIV no pré-natal,

assim como no diagnóstico e tratamento,

seu retardo e o acesso precário

serão os principais fatores do agravamento

da doença e da morte precoce.

De acordo com a Pesquisa Nacional

de Demografia e Saúde - PNDS (BRA-

SIL, 2008) sobre a oferta de teste para

o HIV no pré-natal, para 79,7% das


“Há um genocídio

da juventude negra,

um feminicídio negro,

pois 65% das

mulheres mortas

são negras.

Tempo de

atendimento médico (%)

BRANCAS

NEGRAS

Acompanhantes no parto

46,2 27

Consultas de pré-natal (2012)

85,8 71,8

Orientação para a importância

do aleitamento materno

77,7 62,5

Teste de HIV

84,7 79,7

Mortes maternas

34 60

Mortalidade na primeira

semana de vida

36 47

74 Revista Elas por Elas - Junho 2016


mulheres negras é ofertado o teste,

enquanto para as brancas, o índice é

de 84,7% - isso sabendo-se que o teste

do HIV no pré-natal faz parte do grupo

de exames obrigatórios durante a consulta,

de acordo com os protocolos do

Ministério da Saúde.

MARK FLOREST

Mitos e negligência

A questão é que o racismo institucional

nem sempre se expressa em

atos manifestos, explícitos ou declarados

de discriminação. “Ao contrário, atua

de forma difusa no funcionamento cotidiano

de instituições e organizações,

que operam de forma diferenciada na

distribuição de serviços, benefícios e

oportunidades aos diferentes segmentos

da população do ponto de vista racial”,

relata Laura Cecilia López no artigo O

conceito de racismo institucional:

aplicações no campo da saúde. (Interface

- Comunic., Saude, Educ., v.16,

n.40, p.121-34, jan./mar. 2012.).

Com base em pesquisas, Laura Cecilia

questiona se o que as instituições

em saúde disseminam seriam, de fato,

práticas sistemáticas baseadas em um

imaginário de fragilidades intrínsecas à

mulher branca e uma ‘força natural’

que dispensa maiores cuidados para a

mulher negra, ou, de outra parte, a

negligência em relação a problemas

de saúde que as atingem.

Para a professora Ângela Gomes,

quando o profissional de saúde trata a

mulher negra como se ela aguentasse

mais a dor, ele tem na cabeça a imagem

da escravidão. “Quando a mulher não

tem atendimento adequado chega-se

na violência física, com casos de aplicação

do medicamento errado ou achar

que o paciente com anemia falciforme

Para a professora Ângela Gomes o racismo institucional pode levar à morte.

está fazendo manha. O racismo institucional

pode levar à morte, porque a

pessoa pode não ter o atendimento

emergencial”, esclarece.

Ela lembra que o cuidado com a

saúde que as mulheres negras historicamente

carregaram precisa ser resgatado.

“As mães de santo de terreiro

tratam de todos sem discriminação.

Essa lição deveria ser aprendida. No

período da escravidão, as mulheres

negras tratavam da saúde da população,

eram raizeiras, lutavam pela liberdade.

A matriz da mulher negra é de cuidar,

é da saúde. As amas de leite, quitandeiras

e quilombolas entendem a saúde

como algo sagrado e dão uma lição de

enfrentamento ao racismo”, conclui.

Políticas de combate

ao racismo

A saúde das mulheres negras foi

tema de audiência pública da subcomissão

especial da Câmara dos deputados

que avalia as políticas de assistência

social e saúde da população

negra, realizada em junho de 2015.

Em reportagem da Agência Câmara

Notícias sobre o evento que reuniu representantes

de ONGs de mulheres negras

e do governo, a coordenadorageral

da Saúde das Mulheres do

Ministério da Saúde, Maria Esther de

Albuquerque Vilela, ressaltou que há

estudos que provam que profissionais

consideram as mulheres negras mais

Revista Elas por Elas - Junho 2016

75


esistentes à dor. “Elas são menos tocadas

do que uma mulher branca, elas

são negligenciadas. Tem toda uma

questão de racismo institucional, que

temos trabalhado com isso para mudar

a cultura das instituições para que a

gente possa diminuir o risco de morte

materna de mulheres negras”, afirma.

Ela assinala que 92% das mortes provocadas

pela demora no atendimento

poderiam ser evitadas.

O Relatório da Subcomissão Especial

destinada a Avaliar as Políticas de Assistência

Social e Saúde da População

Negra, da Comissão de Seguridade

Social e Família da Câmara dos Deputados,

foi aprovado em outubro de

2015, com várias recomendações ao

Poder Executivo sobre saúde da população

negra. Entre elas estão: a proposição

de um projeto de lei que

estenda o acompanhamento da saúde

de crianças e jovens até dezessete anos

no âmbito do programa Bolsa Família;

a prioridade para apreciação do Projeto

de Lei nº 7.103, de 2014, da Deputada

Benedita da Silva, que “modifica a Lei

nº 12.288, de 20 de julho de 2010

(Estatuto da Igualdade Racial), para incluir

o quesito cor ou raça nos prontuários,

registros e cadastramentos do

Sistema de Informação em Saúde do

Sistema Único de Saúde (SUS), além

de outras recomendações ao Ministério

da Saúde, Ministério do Desenvolvimento

Social e Combate à Fome e ao

Ministério das Mulheres, Igualdade Racial

e Direitos Humanos a partir das

conclusões do trabalho da Subcomissão.

Nilma Lino Gomes, enquanto ministra

da Secretaria de Políticas de

Promoção da Igualdade Racial – SEP-

PIR, destacou a necessidade de implantar

e consolidar o Sistema Nacional

de Promoção da Igualdade Racial – SI-

NAPIR, que tem como objetivos aprimorar

o sistema de informação em

saúde, incluindo o quesito raça/cor

nas estatísticas; desenvolver ações para

reduzir a anemia falciforme, hanseníase,

câncer de colo uterino, entre outras;

garantir e ampliar o acesso da população

do campo e das florestas, bem

como das áreas quilombolas, aos serviços

de saúde. Para executar a política,

prevê-se a criação de comitês técnicos

de saúde nos estados e municípios.

Segundo a extinta SEPPIR, o monitoramento

das desigualdades raciais

em saúde, por meio dos sistemas de

informação, é uma ferramenta importante

para a gestão, pois além de subsidiar

a formulação de políticas públicas,

permite a comparação entre perfis epidemiológicos

e a avaliação de equidade

na utilização de serviços de saúde.

Para Nilma Gomes, o racismo é

um fenômeno ideológico, fator de violação

de direitos e produção de iniquidades,

especialmente no campo da

saúde. “O racismo tem relação com as

condições em que a pessoa nasce,

com a sua trajetória familiar, com as

condições de trabalho e o acesso a

bens. O racismo também é visível na


92% das mortes

provocadas pela

demora no

atendimento

poderiam ser

evitadas

qualidade do cuidado e da assistência

prestada, o que é evidenciado nos indicadores

de morbimortalidade”(referente

à incidência das doenças e/ou

dos óbitos de uma população), afirma.

O documento Racismo como Determinante

da Saúde, elaborado em

2011 pela Secretaria de Políticas de

Ações Afirmativas – SPAA/SEPPIR,

com a colaboração do Comitê Técnico

de Saúde da População Negra, ressalta

que a utilização do conceito raça para a

análise das desigualdades verificadas na

saúde de pessoas e grupos não afasta

outros fatores também importantes na

produção de diferenciais e injustiças

neste campo. “Entre eles, é preciso destacar

os fatores socioeconômicos de gênero,

idade, fatores ambientais, entre

outros, que agem concomitantemente

com a raça e vão determinar a ampliação

ou redução dos diferenciais apresentados.

No entanto, vale também

assinalar que, em vários estudos, de diversas

áreas do conhecimento, o controle

das variáveis demonstrou a

persistência da raça – ou do racismo –

como fator importante na produção de

desigualdades”, diz o documento.

Desde maio de 2009, está oficializada

a Política Nacional de Saúde Integral

da População Negra, cujo objetivo

geral é “promover a saúde integral da

população negra, priorizando a redução

das desigualdades étnico-raciais, o combate

ao racismo e à discriminação nas

instituições e serviços do SUS” (Brasil,

2010, p.33). “Essa política dialoga

com um conjunto de ações e políticas

voltadas à promoção da equidade no

SUS – Saúde LGBT, Saúde da População

do Campo, Floresta e Águas,

Saúde da População em Situação de

Rua e Educação Popular em Saúde”,

explica a ex-ministra.

76 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Campanha de

enfrentamento

ao racismo na

saúde

O governo federal lançou, em

novembro de 2015, uma campanha

publicitária que buscou envolver

usuários e profissionais da rede pública

de saúde na luta contra o racismo.

Com o slogan Racismo faz

mal à saúde. Denuncie! A ação

visa conscientizar a população de

que a discriminação racial também

se manifesta na saúde.

As peças veiculadas na TV, rádio,

impresso e redes sociais incentivam

as pessoas a não se calarem

diante de atos de discriminação

no Sistema Único de Saúde (SUS).

Por meio do Disque Saúde (136) é

possível denunciar qualquer situação

de racismo ou obter informações

sobre doenças mais comuns entre

a população negra e que exigem

um melhor acompanhamento.

É o caso do diabetes mellitus

(tipo II), cuja taxa de mortalidade,

a cada 100 mil habitantes, afeta

na população preta 34,1 habitantes,

na população parda atinge 29,1 e

entre a branca, 22,7. A anemia

falciforme, doença grave que deve

ser diagnosticada precocemente

por meio do teste do pezinho, é

encontrada em maior escala entre

a população negra, com incidência

que varia de 6% a 10%, enquanto

no conjunto da população oscila

entre 2% e 6%.ø

Revista Elas por Elas - Junho 2016

77


Ísis Dias de Oliveira foi militante

da Ação Libertadora Nacional

durante a ditadura.Foi presa no dia

30/01/1972 pelo DOI-CODI/RJ ,e

desde então, ficou desaparecida por

anos até que em 1987 seu nome apareceu

em uma lista de presos políticos

falecidos. Seus pais nunca tiveram

respostas das autoridades militares

sobre o que aconteceu com

ela durante a prisão.

Mas, na verdade, essa é Isis Medeiros,

fotógrafa do projeto, que luta

pela liberdade de expressão e por

uma mídia honesta que de fato emancipe

o povo com informação real.


Zuzu Angel foi estilista e valorizou

a moda brasileira com as rendas

cearenses, estampas de chita,

cores e formas tropicais. Ela protestou

contra o regime militar através

de suas estampas, mas após o

desaparecimento de seu filho, militante

do Movimento Revolucionário

8 de Outubro (MR-8), ela começou

a denunciar a tortura e assassinato

de jovens presos. Zuzu morreu em

1976, em um acidente de carro provocado

por agentes da repressão.

Mas, na verdade, essa é Débora de

Araújo, que luta por um projeto feminista

e popular.


http://www.mothernaturepartnership.org

SAÚDE

POR NANCI ALVES

Intimidade ameaçada

Acesso a absorventes higiênicos ainda é

um problema para muitas mulheres

80 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Há muito tempo falar sobre menstruação

deixou de ser um tabu, mas é

incrível que em pleno século 21, mulheres

sofram pela falta de absorventes

higiênicos, seja por problemas financeiros

ou por negação de direitos. O

que, em princípio, poderia ser somente

um problema íntimo feminino tornase

um problema social quando atinge

mulheres em privação de liberdade ou

em extrema pobreza. Mas, ainda bem

que algumas delas podem contar com

iniciativas criativas e solidárias que ajudam

a contornar o problema.

Menstruei aos quase 14 anos de

idade. Foi uma grande alegria, pois

esperava ansiosa por esta transformação,

já que minhas amigas todas eram

“mocinhas”, como se dizia na década

de 70. Após perceber a novidade, chamei

minha mãe na porta do banheiro

e ela, naturalmente, me disse: “espera

um pouquinho que já volto”. Ela era

uma mulher simples que, quando menstruou

pela primeira vez, em 1940,

teve que se virar sozinha, pois não

tinha liberdade para falar disso com

sua mãe. Minha avó só ficou sabendo

que minha mãe já tinha menstruado

três anos depois, quando estava programando

levá-la ao médico para entender

o atraso das “regras”. Foi aí

que elas conversaram sobre o assunto,

mas com muita reserva. Seguramente,

como minha avó, mamãe lavava e secava

sua toalhinha às escondidas em

algum canto da casa. Prática comum,

até então, de quase todas as mulheres,

apesar de ser exatamente neste período

que o Brasil começou a produzir o primeiro

absorvente higiênico descartável

(Modess). Claro que bem poucas mulheres

tiveram acesso ou quiseram a

novidade nos primeiros anos – a mudança

foi gradativa.

Bem, voltando à minha história,

pouco tempo depois, minha mãe retorna

com um pacotinho de absorvente

e me dá as orientações necessárias.

Uma situação tão natural já naquela

época, mas que ainda hoje não é a

realidade de milhares de adolescentes

e mulheres em várias partes do mundo.

De acordo com pesquisa do Unicef,

uma em cada 10 estudantes africanas

faltam às aulas durante o período menstrual,

o que equivale a até 20% do ano

letivo, por falta de absorventes ou de

saneamento adequado. Muitas dessas

meninas abandonam a escola por completo,

o que aumenta a probabilidade

de complicações de saúde, gravidez na

adolescência e casamento precoce, e

limita ainda mais a sua futura carreira

e oportunidades econômicas. Em Uganda,

uma das iniciativas que surgiu para

tentar mudar essa realidade foi uma

empresa social que produz absorventes

a baixo custo, a AFRIpads.

Em seu site (ww.afripads.com/),

eles afirmam que criaram uma indústria

de base rural, gerando emprego para

mais de 150 ugandeses, a maioria mulher.

“AFRIpads Kits menstruais são

absorventes reutilizáveis projetados para


Uma em cada 10

estudantes africanas

faltam às aulas

durante o período

menstrual.

fornecer proteção na higiene feminina

e conforto para adolescentes e mulheres

que, por falta de recursos, precisam

usar do improviso durante a “semana

da vergonha”: pedaços de roupas velhas,

de colchão de espuma, papel higiênico,

folhas e fibras de bananeira.

Tudo anti-higiênico e desconfortável.”

Privação de liberdade

e de absorventes

Uma outra situação inimaginável

sobre a falta de absorvente higiênico é

vivida por mulheres que estão em situação

de privação de liberdade, no

Brasil. Presas, muitas vezes abandonadas

pelas famílias, precisam buscar alternativas

nada confortáveis como, por

exemplo, usar o miolo de pão em formato

de absorvente interno, mais conhecido

como OB. O que representa

um risco grande para a sua saúde.

De acordo com Adelaide Augusta

Belga, enfermeira obstetra que presta,

voluntariamente, atendimento (prénatal,

planejamento familiar, saúde da

mulher) em alguns presídios femininos

na região metropolitana de Belo

Horizonte, “o miolo de pão é um meio

de cultura favorável para o crescimento

de microrganismos como bactérias,

fungos, vírus, etc. Todos estes são

causadores de vaginoses, doenças

infec cio sas de caráter ginecológicos

que podem agravar se não forem

detectados e tratados precocemente”.

Da mesma forma, o uso de toalhinha

como absorvente higiênico pode ser

um risco para a saúde, caso não seja

lavada, desinfetada e exposta ao sol

para secar bem. “Tem mulheres que,

por questões culturais e ecológicas,

utilizam as toalhinhas, pois estão

Revista Elas por Elas - Junho 2016

81


contribuindo com a diminuição do lixo

ambiental, uma vez que não terá

descarte do absorvente”, afirma.

“A primeira vez que eu tomei conhecimento

da realidade da falta de

absorvente foi no presídio Bicas II

(MG). Em uma visita, as meninas reclamaram

da pouca alimentação, mas

como eu já tinha visto dentro da cela

um saquinho cheio de miolo de pão,

eu disse: é pouca comida e vocês ainda

jogam o miolo do pão fora? A moça

abaixou a cabeça e me disse: não é

para jogar fora não. É para fazer OB,

pois não temos visita de família e estamos

sem absorventes. Na hora, fui tomada

por uma raiva tão grande que

eu tive vontade de gritar. O Estado fala

que gasta R$2.400,00 com cada presa,

mas se a família não visita ou manda o

kit, a presa está ferrada”, conta a presidenta

da Grupo de Amigos e Familiares

de Pessoas em Privação de Liberdade,

em Belo Horizonte, Maria

Teresa dos Santos (foto).

Segundo ela, as detentas recebem,

mensalmente, apenas meia barra de

sabão de coco para tomar banho, um

creme dental e absorventes. “Porém,

eles não dão para o ciclo todo, porque

a maioria das mulheres tem um fluxo

intenso. As que não têm ajuda da família

passam necessidade. Elas não recebem

sabonete, shampoo, condicionador e o

papel higiênico costuma dar para 15

ou 20 dias, economizando muito”, conta

ao reforçar que estes são apenas alguns

dos problemas vividos pelas presas.

“Um verdadeiro caos, falta médico, remédio,

água, a comida péssima e, em

NANCI ALVES

nome da segurança, as presas, em

geral, assim como os presos, não são

levadas a médicos por falta de escolta”,

desabafa Maria Tereza dos Santos.

Já a enfermeira obstetra, que também

presta atendimento voluntário em

presídios femininos na região metropolitana

de Belo Horizonte, Polyana

Monteiro Mourão, afirma que nunca

ouviu das presas que elas usam miolo

de pão ou toalhinha. “Existe uma rede

de solidariedade entre elas, sendo que,

quando uma mulher não tem assistência

do Estado, da família ou escassez de

recursos, as outras a ajudam doando o

que ela precisa. Em todas as unidades

que visitamos, sempre há atendimento

médico periódico, porém nem sempre

de ginecologistas. Existem muitos grupos

operativos que acontecem nessas

unidades, conduzidos por estudantes

de cursos na área da saúde, educação,

profissionais voluntários, grupos religiosos

que visam levar informação,

além de doações, o que compensa as

deficiências desses locais, porém não

desabonam o dever do Estado. As presas

têm muitas dúvidas com relação

aos cuidados com o próprio corpo,

planejamento familiar, ciclo menstrual,

climatério, dentre tantas outras relacionadas

ao universo , afirma.”

Segundo a enfermeira, a menstruação

para essas mulheres, muitas

vezes, é vista como algo incômodo devido

à revista, que é um dos procedimentos

de segurança dentro do

presídio, em que as mulheres têm que

se despir e agachar por três vezes,

sempre que saem da cela. Elas reclamam

que, quando estão menstruadas,

torna-se um transtorno passar por esse

tipo de revista, não só pelo constrangimento

em expor algo tão íntimo e

tão cercado de tabus como a menstrua-

82 Revista Elas por Elas - Junho 2016


ção, mas também pela sujeira que muitas

vezes acontece e que elas mesmas

têm que limpar. Portanto, é comum

que elas solicitem prescrição de anticoncepcionais

que ajudem a interromper

a menstruação para evitar esses

transtornos”, conta.

Solidariedade

Para tentar amenizar a realidade vivida

pelas presas, o Gupo de Amigos e

Familiares de Pessoas em Privação de

Liberdade, em Belo Horizonte, faz uma

campanha intitulada “Flores no Cárcere”,

arrecadando produtos de higiene que

são distribuídos para as detentas em alguns

presídios. “Contamos com apoio

de várias estudantes que estão nos movimentos

sociais e que usam as festas e

encontros para fazer as arrecadações.

Também fazemos rodas de conversa

com os universitários para que, por

meio deles, a sociedade possa tomar

conhecimento das mazelas do cárcere,”

afirma Maria Tereza dos Santos.

A Pastoral Carcerária, um organismo

da Conferência Nacional dos Bispos


O controle do

corpo feminino

encarcerado extrapola

a restrição à

liberdade de ir e vir e

atinge a intimidade.

do Brasil (CNBB), afirma em seu site

(carceraria.org.br) que “são as famílias

as mantenedoras do bem estar de seus

entes queridos nas prisões. Mas no

caso das mulheres, a maioria não

recebe visita e, assim, aquelas que não

conseguem trabalho dentro do sistema

penitenciário, não têm como garantir

mais do que a roupa do corpo”. Em

todo o país, a Pastoral está atenta a

essa realidade e periodicamente realiza

campanha para a arrecadação de vários

itens de higiene para as mulheres encarceradas.

A Pastoral considera que

a “atitude do Estado evidencia que o

controle do corpo feminino encarcerado

extrapola a restrição à liberdade de ir

e vir e atinge a intimidade. A invasão

da intimidade naturaliza-se dentro dos

cárceres e em razão de seus efeitos –

o constrangimento e a humilhação vivida

pelas mulheres – aprofundarem a

submissão, essa violação torna-se elemento

fundamental para a manutenção

da ordem penitenciária e constitui ação

corretiva do comportamento das mulheres

presas conforme os padrões

(patriarcais) de feminilidade”.

A coordenadora para a questão da

mulher presa na Pastoral Carcerária

Nacional, Irmã Petra Silvia Pfaller, afirma

que mesmo o Brasil sendo signatário

das Regras de Bangkok que dispõe

sobre os regramentos acerca do tratamento

de mulheres encarceradas, o sistema

prisional ignora as suas especificidades,

pois foi feito por homens e para

homens. “Não se considerou a possibilidade

que as mulheres podem ter necessidades

diferentes, desejos diferentes,

responsabilidades diferentes, e até o

que as leva ao delito pode ser diferente

em relação aos homens”, afirma.

Essa mesma constatação foi feita

pela jornalista Nana Queiroz ao fazer,

POPULAÇÃO CARCERÁRIA

FEMININA

EUA

205.400

CHINA

103.766

26.416

POR TRÁFICO

DE DROGAS

BRASIL 38.848

19.424

ENTRE

18 E 29 ANOS

8.158

ENTRE

35 E 45 ANOS

4.273

ENSINO

MÉDIO

11.654

AGUARDAM

JULGAMENTO

388

ENSINO

SUPERIOR

RÚSSIA

53.304

TAILÂNDIA

44.751

26.416

NEGRAS

6.992

ENTRE

30 E 34 ANOS

3.884

ENTRE

46 E 60 ANOS

19.424

FUNDAMENTAL

INCOMPLETO

Fonte: Infopen Mulheres - Ministério da Justiça

Revista Elas por Elas - Junho 2016

83


durante 4 anos, uma pesquisa sobre as

mulheres presas no Brasil. Seu intenso

trabalho resultou no livro Presos que

Menstruam (Editora Record, 2015).

Segundo a autora, o Estado esquece,

por exemplo, que as mulheres precisam

de absorventes, de papel higiênico para

duas necessidades em vez de uma (muitas

vezes, a mulher usa jornal velho), e que

as mulheres engravidam, têm filhos e

precisam amamentar. Ao visitar várias

cadeias, Nana Queiroz conversou com

muitas mulheres e percebeu que, como

são raros, os itens de higiene são usados

como moedas de troca dentro dos presídios

femininos. “Shampoo, sabonete,

esmalte e tinta de cabelo são moedas

valiosíssimas dentro dos presídios femininos,

muito mais do que nos masculinos,

porque as mulheres tentam recuperar a

dignidade através da vaidade”, conta.

Nana Queiroz defende que a sociedade

precisa, urgentemente, enxergar

as mulheres presas enquanto mulheres,

considerando suas especificidades de

gênero. “Que exista a distribuição de

absorventes, o pré-natal para gestantes,

creches dignas para os bebês presos,

tratamento ginecológico preventivo,

acesso a trabalho e facilidades para

que as mulheres mantenham o contato

com seus filhos”, diz. Ela resssalta que

temos cerca de 350 crianças presas

no Brasil hoje, vivendo em celas imundas

e sem condições minimamente

dignas. “O perfil dos crimes que levam

as mulheres à cadeia é diferente dos

que levam o homem à cadeia. Só 10%

das mulheres cometeram crimes violentos,

ou seja, crimes contra a pessoa.

Logo, a maioria delas poderia estar

amamentando em casa, cumprindo

pena domiciliar. Já existe a caneleira

eletrônica, tecnologicamente isso é

possível”, desabafa.

Uma história

inacreditável

Em muitos países, como no Brasil,

falar sobre menstruação, cólica, TPM,

etc, não é mais tabu, nem mesmo com

amigos e professores. Mas quando o

tema é falta de acesso a itens básicos

de higiene, o silêncio é profundo, gerando

isolamento das mulheres que vivem

este drama. Com certeza, muitas

iniciativas devem existir em todo o mundo,

onde pessoas ou ONGs tentam

fazer campanhas ou produzir material

mais barato, como o caso citado anteriormente.

Porém, uma história impressionante

vem da Índia, onde milhares

de mulheres vivem este drama silenciosamente.

Um documentário produzido

pela CNN (O homem dos absorventes)

nos conta como um homem humilde

(que deixou a escola aos 14 anos para

ajudar sua mãe a criar três irmãos,

depois da morte do pai) tem feito uma

revolução feminina, criando máquinas

para produzir absorventes baratos.

Assim que se casou, em 1998, Arunachalam

Muruganantham percebeu

que sua esposa, Shanthi, estava escondendo

alguma coisa dele. Ficou

chocado ao descobrir que eram “trapos

asquerosos” que ela usava durante a

menstruação. Como ele cuidava também

da mãe viúva, Shanthi disse que

não podia gastar com absorventes que

eram caros, pois tinha que sobrar dinheiro

para o leite.

O problema de Shanthi motivou

Muruganantham a buscar uma solução

e, assim, decidiu que poderia fazer absorventes

mais baratos. Após uma breve

pesquisa sobre material apropriado,

produziu um absorvente de algodão e

deu para sua esposa avaliar. Porém,

como a menstruação é mensal, viu

que levaria muito tempo para aperfeiçoar

seu produto. A solução seria arrumar

voluntárias e se surpreendeu ao descobrir

que nas aldeias vizinhas menos de

uma mulher em cada 10 usava absorventes.

Mas o problema era falar sobre

isso com as mulheres, onde o tema é

tabu. Sua saída foi buscar ajuda em um

grupo de estudantes da faculdade de

medicina local. Mas, mesmo sem formação

nenhuma, em pouco tempo percebeu

que as alunas usavam o material

fornecido por ele, mas apenas uma se

encarregava de responder o questionário

para todas, o que invalidava sua pesquisa.

Novamente sozinho, Muruganantham

resolveu ele mesmo avaliar a eficácia

do seu produto: “Eu me tornei o

homem que usava um absorvente”.

Com sua imaginação, criou um sistema

para imitar um útero. Colocava em

seu corpo, na região da cintura, uma

bexiga cheia de sangue de cabra, sempre

doado por um amigo açougueiro.

No material, acrescentava um aditivo

para evitar que coagulasse muito rapidamente,

mas o mal cheiro não conseguia

evitar. Com este “útero” escondido

por baixo das roupas e com absorvente,

Muruganantham andava a

pé ou de bicicleta normalmente, e, de

vez em quando, bombeava o sangue

para testar as taxas de absorção de

seu absorvente. O problema foi o alto

custo dessa ideia: foi abandonado pela

esposa, pela mãe e pelos amigos. Sua

esposa não souportou vê-lo investir

tempo e dinheiro neste projeto, diante

de tanta dificuldade financeira que enfrentavam.

E como o indiano lavava

suas roupas ensanguentadas em um

poço público, toda a aldeia concluiu

84 Revista Elas por Elas - Junho 2016


FASFA

que ele tinha uma doença sexual e,

claro, traía sua mulher.

Muruganantham conseguiu descobrir,

depois de mais de dois anos de

pesquisa, que o segredo do absorvente

feito pelas indústrias era a celulose, retirado

de casca de árvore. Mas para

processar o material precisava de máquina.

Como ela era muito cara, criou

também sua própria máquina, com

material barato e de fácil manutenção.

Foi assim que, depois de quatro anos

e meio, conseguiu criar um método

seguro e de baixo custo para a produção

de absorventes.

Os cientistas do Instituto Indiano

de Tecnologia (IIT), ao receberem seu

projeto, não deram muita importância,

pois viram que não era competitivo

com as multinacionais. Porém, para

Muruganantham o valor da sua proposta

estava exatamente em “criar um novo

mercado” e não competir. A surpresa

foi que o IIT inscreveu a simples máquina

de Muruganantham em uma

competição por um prêmio nacional

de inovação. Competindo com 943

projetos, ele ficou em primeiro lugar e

recebeu o prêmio do então presidente

da Índia, Pratibha Patil. Com a fama e

toda a história esclarecida, conseguiu

que sua esposa, mãe e amigos retornassem

ao seu convívio. Muruganantham

está fazendo uma revolução na

vida de muitas pessoas. Além de ajudar

a melhorar a saúde das mulheres, que

passaram a ter acesso a um item básico

de higiene, está também mudando a

economia do país, pois muitas das indianas

que viviam em situação de miséria

agora têm fonte de renda. Na

prática, ele produz as máquinas e leva

para comunidades carentes, onde treina

mulheres para a produção e venda

dos absorventes. No documentário,

uma jovem indiana conta que fugiu de

casa com os filhos pequenos depois

de sofrer muita violência doméstica.

Por falta de apoio e condições de trabalhar,

foi parar na prostituição. Essa

história só mudou com a chegada da

máquina e dos novos conhecimentos

trazidos por Muruganantham. Agora

ela fabrica absorventes, podendo sobreviver

das suas vendas.

Vivendo de forma simples com sua

família em um apartamento modesto, o

indiano sonhador ganha o suficiente

para viver dignamente, pois seu desejo

não é ficar rico e sim ajudar as mulheres,“porque

eu sei que nenhum ser humano

morre por causa da pobreza, tudo

acontece por causa da ignorância”, diz.ø

Revista Elas por Elas - Junho 2016

85


Winnie Mandela lutou

contra o apartheid na África

do Sul, foi duramente perseguida

por sua militância e

mesmo assim e foi grande responsável

pelas manifestações

a favor da soltura de Nelson

Mandela. No fim da segregação

racial ela se tornou presidente

da Liga das Mulheres

no Congresso Nacional Africano

(CNA).

Mas, na verdade, essa é Lorena

Lemos que luta por uma

educação de qualidade e pela

emancipação das mulheres

negras.


Meena Keshwar Kamal

foi uma feminista afegã

e ativista que trabalhou pelos

direitos das mulheres. Fundou

a Associação Revolucionária

das Mulheres do Afeganistão

(RAWA) em 1977, um grupo

organizado para promover

igualdade e educação para as

mulheres. Fundou também

escolas para ajudar crianças

refugiadas e suas mães, oferecendo

hospital e aprendizado

em atividades manuais.

Mas, na verdade, essa é Kimberly

Rennó que luta pela vida

das mulheres


ISTOCK


COMPORTAMENTO

POR DÉBORA JUNQUEIRA

Depilação feminina

Opção estética ou imposição social?

O hábito de eliminar os pelos do

corpo faz parte da rotina de muitas

mulheres na atualidade. Cera quente

ou fria, lâmina, creme depilatório,

linha, seja qual for o método escolhido,

deixar a pele lisinha se tornou quase

uma obsessão moderna. O que esse

comportamento representa? Quais as

suas raízes culturais? Será que as mulheres

se depilam por opção estética

ou imposição social? O debate sobre

esse hábito de origens remotas revela

algumas curiosidades e reflexões de

âmbito feminista.

Você sabia que, por muito tempo,

os pelos pubianos e o das axilas eram

muito valorizados como um símbolo

máximo da feminilidade? Segundo a

historiadora Mary Del Priore, autora

dos livros “Histórias e conversas de

mulher” e “Histórias íntimas”, durante

o Império, as mangas bufantes das mulheres

se encarregavam de cobrir o pelo

das axilas, considerado muito sensual,

pois eles apontavam a cor e a qualidade

dos pelos pubianos. Por outro lado, “o

ato de depilar-se é coisa antiga. Os

índios brasileiros já o faziam, com a intenção

de diferenciar-se dos animais de

pelo. Daí Pero Vaz de Caminha referir-


“Ali andavam entre

eles três ou quatro

moças, bem moças e

bem gentis, com cabelos

muito pretos,

compridos pelas espáduas,

e suas vergonhas

tão altas, tão

cerradinhas e tão

limpas das cabeleiras

que, de as muito

bem olharmos, não

tínhamos nenhuma

vergonha.”

Pero Vaz de Caminha

Carta ao rei de Portugal

se, em sua carta ao rei de Portugal, às

mulheres tão ‘limpinhas’, mencionando

suas ‘vergonhas’ depiladas. Escravos

egípcios, homens e mulheres também

se depilavam. Era a marca de sua condição”,

descreve a historiadora.

“Eu me depilo porque acho que

fico mais bonita. Uso cera porque a lâmina

me dá alergia, principalmente na

hora em que os pelos estão crescendo

na virilha e na axila. Acredito que as

mulheres se depilam por uma questão

cultural e, por consequência, para agradar

o parceiro. O meu marido nunca

exigiu que eu me depilasse, mas já

aconteceu de fazer comentários em

tom de brincadeira certa vez que eu

não estava depilada”, conta a psicóloga

paulistana Daniele Bettini.

Na reportagem Obsessão atual por

depilar é fruto de pressão social, não

escolha estética (Portal Uol,

22/06/2015), Jocelyn Patinel, presidente

do MIEL (Movimento Internacional

por uma Ecologia Libidinal) e

mestre em psicologia social afirma que

muitas mulheres dizem que se depilam

por vontade própria ou questões de

higiene, mas que, no fundo, têm essa

norma tão internalizada que estão alie-

Revista Elas por Elas - Junho 2016

89


ISTOCK

nadas. “Em minhas pesquisas com estudantes,

nunca encontrei mais do que

30% de mulheres que perceberam espontaneamente

a pressão social para

depilar”, afirma.

Ainda, segundo a professora, para

além dos inconvenientes fisiológicos

que a eliminação dos pelos traz, como

ressecamento da pele e favorecimento

de infecções, a depilação reflete um

comportamento submisso. O movimento

que ela preside tem sede na

França e existe desde 2003. O MIEL

defende a emancipação individual e

social, posicionando-se contra o ato

de se livrar dos pelos. Jocelyn diz acreditar

que um hábito estético só existe

quando há liberdade para adotá-lo ou

não. “Quando você recebe forte pressão

social, inclusive bullying, por não segui-lo,

então é uma opressão”, afirma.

Influência da

pornografia

A reportagem também traz o depoimento

de Denise Bernuzzi de

Sant’Anna, professora da PUC (Pontifícia

Universidade Católica) de São

Paulo e autora do livro História da

Beleza no Brasil (Editora Contexto).

Segundo ela, eliminar os pelos pubianos

é um hábito ainda mais novo, disseminado

principalmente depois dos anos

2000, por influência do fácil acesso à

pornografia, que lançou a moda. “Tem

a ver com a necessidade de as partes

íntimas serem fotogênicas, como um

rosto barbeado. Isso não existia antes”,

declara a professora.

Em revistas e sites femininos, o tema

depilação gira mais em torno da discussão

sobre qual o melhor método a

ser utilizado, abordando os prós e

90 Revista Elas por Elas - Junho 2016


contras de cada um. É comum encontrar

expressões como “não depilar é inaceitável

socialmente”, “ter pelos no corpo

está fora de moda”, ou, ainda, “são

raras as mulheres que mantém os pelos

naturais do corpo”. Ou seja, para a jovem

leitora dessas publicações a liberdade

de não se depilar nem é cogitada.

ARQUIVO PESSOAL

Sem justificativas

médicas

No site www.bolsademulher.com,

a reportagem Depilação íntima total

é segura? traz o depoimento da ginecologista

e obstetra paulista, Denise

Gomes, que afirma que todos os pelos

do nosso corpo, principalmente aqueles

que ficam em regiões próximas a cavidades,

são de muita importância. “Os

pelos pubianos protegem nosso corpo

contra microrganismos, barrando os

agentes infecciosos”, diz.

Os cílios previnem infecções oculares,

os pelinhos localizados nas narinas

evitam gripes, resfriados e doenças

respiratórias causadas por vírus ou bactérias.

“A penugem da entrada da

vagina ajuda a evitar infecções vaginais

e corrimentos”, aponta. Entretanto, a

médica afirma que depilar totalmente

a região mais íntima da mulher não

traz tantos riscos à saúde. “Se a mulher

já está acostumada, faz a depilação íntima

completa e nunca apresentou nenhuma

doença infecciosa vaginal ela

pode continuar com o hábito. Quem

tem este histórico pode remover os

pelos das áreas mais afastadas da vagina,

como coxas e pélvis”, recomenda

a ginecologista.

O ginecologista e obstetra Hélio

Borges Diniz, de Belo Horizonte, desconhece

estudos que relacionam a eliminação

de pelos com problemas ginecológicos.

“Entre os homens primitivos,

a função dos pelos era proteger

o corpo, mas hoje a roupa faz esse papel.

Não há nenhuma relação entre

depilação e problemas ginecológicos e

acredito que retirar os pelos pode contribuir

para a higiene”, afirma.

Tipo exportação

A forma de depilação completa da

região do púbis é conhecida no exterior

como Brazilian Waxing. Segundo a

brasileira Desiree Dantas (foto), dona

de um salão de beleza em Houston,

nos Estados Unidos, a moda da depilação

total ou com o chamado “bigodinho de

Hitler” também faz sucesso por lá. “No

meu salão, o casal costuma vir junto se

depilar e a moda do Brazilian Waxing

também chegou aos homens, muitas

vezes por exigência da mulher”, conta.

Um estudo de 2012, realizado pela

Universidade de Indiana e pelo Instituto

Kinsey para Estudos sobre Sexo, Gênero

e Reprodução, ouviu a opinião

de 2.451 americanas e o resultado

apontou que 87% das jovens entre 18

e 24 anos removem total ou parcialmente

os pelos pubianos. O estudo

também revelou que as mulheres adeptas

da depilação são mais confiantes e

seguras em relação ao seu corpo do

que aquelas que não costumam encarar

o processo. Elas também têm maior

índice de satisfação sexual, examinam

mais os seus genitais e não se sentem

constrangidas em falar sobre o assunto.

Entre as mulheres com mais de 50

anos de idade, 51% revelaram não ter

nem ao menos aparado os pelos nos

últimos 30 dias.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

91


Pelos Pelos

Para enfatizar a naturalidade da

existência dos pelos e mostrar que

essa opção existe para as mulheres,

jovens do Coletivo Além divulgaram

na rede social Tumblr o projeto “Pelos

Pelos”. O ensaio é composto de fotos

com valor político e artístico para questionar

o padrão estético “sem pelos” e

o que se pode entender como uma ditadura

da depilação. A proposta é

refletir que a depilação não precisa ser

padrão imposto de beleza.

“É necessário pensar por que os

pelos são geradores de tanto asco. Vivemos

em uma sociedade permeada

por um machismo que corrói nossas

relações e comportamentos, que define

opressão cruel às mulheres, e buscamos

combatê-lo!” diz o manifesto no coletivo.

Veja em www.pelospelos.com.br.

A mineira Júlia Braga, consultora

de produtos de beleza artesanais e

doula, é adepta da estética natural e

posou para o projeto Pelos Pelos. “Sofria

muito ao me depilar e comecei a

refletir sobre o motivo de passar por

isso, pensando se o que fazia era pra

mim ou para os outros. Então passei a

aceitar que ter pelos é natural. No início

foi difícil, o meu parceiro na época

estranhou um pouco e achou que eu

queria “aparecer” deixando os pelos da

axila à mostra. Eu era professora de inglês,

quando contei aos meus alunos

que eu não me depilava, eles disseram

que nunca haviam percebido. Hoje, o

meu marido acha normal, apesar de

não achar bonito. O importante é que

eu me sinto bem e essa é a minha

opção. Penso que se a pessoa se acha

bonita sem pelos que se depile, mas eu

gosto de ser assim e não tenho que dar

satisfação pra ninguém”, declara.

92 Revista Elas por Elas - Junho 2016


MARK FLOREST

Um pouco de história

por Mary Del Priori

O ato de depilar-se é coisa antiga.

Os índios brasileiros já o faziam, com

a intenção de diferenciar-se dos animais

de pelo. Daí Pero Vaz de Caminha referir-se

às mulheres tão “limpinhas”,

mencionando suas “vergonhas” depiladas.

Escravos egípcios, homens e

mulheres também se depilavam. Era a

marca de sua condição. A pasta depilatória

nasce no Oriente Médio, feita

de açúcar, água e limão. Já, durante o

Renascimento, o tosão farto recoberto

de fitas e até joias estava na moda na

Corte de Catarina de Médicis.

Por séculos, o sexo feminino foi

considerado um lugar de poder, pois

os excretos, como o sangue menstrual

e os pelos pubianos, eram usados em

rituais de feitiçaria para “prender homem”,

como comprovam os processos

da Inquisição em que tais práticas,

desde o século XVI, são mencionados.

O grande poeta barroco, Gregório de

Mattos, revelou, num poema, que no

passado os homens preferiam as mulheres

que não “lavassem seu cu”. O

“gosto de sainete” era fortemente apreciado

até por Napoleão Bonaparte que

escrevia à sua amada Josefina, dizendo:

“Não te laves, estou chegando!”.

As informações que temos sobre

as práticas sexuais de nossas avós referem-se

com mais entusiasmo ao colo

e seios, braços e sobretudo pés femininos

como lugares de desejo. Pouco se

fala na genitália que, coberta por muitos

panos e maltratada por muitos partos

- lembro que não havia contracepção -

foi pouco lembrada na prosa e no

verso do período colonial ou durante o

Império. Na mesma época, as mangas

bufantes se encarregavam de cobrir o

pelo das axilas, considerado muito sensual,

pois eles apontavam a cor e a

qualidade dos pelos pubianos.

Na Europa, durante o século XIX,

Goya pintou a “Maja desnuda” com

uma penugem e Courbet, em “A origem

do mundo”, fez um impressionante retrato

da pilosidade genital. No século

XX, prisioneiras de Auschwitz-Birkenau

e amantes de soldados alemães eram

obrigadas a se raspar, da cabeça aos

pés. As segundas, numa forma de

identificação e punição, com o fim da

II Guerra Mundial.

Nos anos 70, a depilação passou à

moda estética e higiênica. O surgimento

do biquíni fio-dental generalizou o hábito.

Atualmente, há sociólogos que

identificam a depilação excessiva com

mais uma tentativa de rejuvenescimento

da mulher.

A genitália adolescente sendo o

modelo desse ideal de juventude. Por

outro lado, vitrines expõe, nos EUA,

manequins de lingerie com pilosidade

aparente, insistindo na realidade dos

fatos. Interessante notar que a hipersexualização

das imagens e da indústria

pornográfica se contrapõe a um modelo

asséptico e infantil.

O senso comum explica que,

quando escolhida e desejada, a depilação

pode ser sinônimo de liberdade.

Quanto imposta, ela rouba a significação

do mistério e da maturidade sexual

da mulher.ø

Revista Elas por Elas - Junho 2016

93


Carolina Maria de Jesus

foi moradora da favela do Canindé,

zona norte de São Paulo.

Ela trabalhava como catadora

e registrava o cotidiano da comunidade

em cadernos que encontrava

no lixo. Ela é considerada

uma das primeiras e

mais importantes escritoras

negras do Brasil.

Mas, na verdade, essa é Carolina

Nunes, estudante de Ciências

Sociais e luta por um feminismo

enegrecido e pela real

emancipação do povo preto.


Acreditamos em um mundo

em que mais mulheres consigam

se espelhar na força

dessas personagens e que sejamos

nós as protagonistas

da nossa própria revolução!

FICHA TÉCNICA

Fotógrafa: Isis Medeiros

Figurino: Alzira Calhau

Assistente de figurino:

Kimberly Rennó

Luz: Pedro Faria

Pré-produção e idealização:

Mulheres do Levante Popular

da Juventude

Texto de abertura: Cecília Alvim


CNC

CULTURA

POR DÉBORA JUNQUEIRA

Um novo olhar

sobre o cinema

O feminismo encontra cada vez mais

espaço no movimento cineclubista

96 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Basta uma pesquisa rápida no Google

para ver que há várias iniciativas que

associam o cinema com o feminismo,

principalmente no cineclubismo, um

movimento em que a participação das

mulheres é marcante. Os cineclubes,

espaços que exibem filmes brasileiros e

estrangeiros, sem fins lucrativos e que

promovem debates, têm se tornado um

importante instrumento para a reflexão

sobre a luta emancipatória das mulheres.

Segundo um levantamento da Secretaria

do Audiovisual, do Ministério

da Cultura, em julho de 2015, havia

mais de mil cineclubes espalhados pelo

país, distribuídos em 701 cidades, o

que representa somente 12,6% do

total. Conforme informações da reportagem

“Brasil precisa triplicar cidades

com cineclubes em 5 anos para bater

meta”, o dado revela um desafio quase

inalcançável: atingir o patamar de 37%

das cidades com cineclubes até 2020,

uma das metas do Plano Nacional

de Cultura.

Grande parte dos cineclubes aborda

as questões de gênero somente em

datas comemorativas, como o Dia Internacional

da Mulher, mas há também

aqueles que se dedicam exclusivamente

ao tema como o projeto Terça Feminista,

do Cine Metrópolis, de Vitória/ES,

iniciado em abril de 2015. Em 2016,

as sessões passam a ser às quintasfeiras,

e o nome muda para Feministas

de quinta. “Tive a ideia de fazer sessões

feministas e como já participo há tempos

do movimento cineclubista, senti a necessidade

de trabalhar de forma coletiva,

por isso foi criado o Coletivo Femenina,

que contou com o apoio da professora

Gabriela Alves, que já tinha um trabalho

sobre cinema, corpo e mulher”, conta a

professora universitária e realizadora de

cinema, Saskia Sá.

Segundo ela, o público é formado

principalmente por mulheres de todas

as faixas etárias, mas o público masculino

também tem frequentado as sessões.

“Todos podem participar do debate

desde que respeitando as diferenças,

considerando o fato de que esse é

um espaço emancipatório para as mulheres,

portanto, opiniões machistas

não são aceitas”, comenta.

“Para a nossa programação damos

preferência a filmes (longas e curtas)

que tragam as temáticas que nos tocam,

como direitos reprodutivos, aborto,

LGBTT, a questão da violência contra

a mulher, estupro, gênero, incluindo

as questões étnico-raciais. Enfim, os

temas debatidos são importantes por

trazerem à tona questões do universo

das mulheres que muitas vezes, se tornam

dramas vividos em silêncio, solitariamente.

Quando fazemos o debate

sobre estes temas, os tornamos visíveis

e os desmistificamos, construindo um

território do comum, onde podemos

ouvir e ser ouvidas”, afirma.

Há também os cineclubes que reúnem

somente mulheres para assistir e

debater produções audiovisuais de

cunho feminista. Um exemplo é o


os temas debatidos

são importantes

por trazerem à tona

questões do universo

das mulheres

Cine Bandidas, de Goiás, que iniciou a

partir de um grupo de WhatsApp formado

por amigas que discutiam pelo

aplicativo temas do cotidiano delas.

Com o objetivo de reunirem-se pessoalmente,

foi criado o cineclube batizado,

em tom de brincadeira, com o

mesmo nome do grupo virtual que faz

referência a um termo popular usado

para rotular a postura de mulheres que

têm atitudes consideradas fora dos padrões

convencionais. A coordenadora

do cineclube, Cirlene Santos (foto),

trouxe a experiência a partir do cineclube

que envolve crianças na escola

infantil onde trabalha, em Goiânia.

Ela conta que, no início do cineclube,

o marido de uma delas ficou

com ciúmes e quis acompanhar a esposa

na sessão, que normalmente era

só para mulheres. Nesse dia o debate

foi sobre um filme que abordou a Lei

Maria da Penha, sobre violência doméstica.

Segundo ela, a participação

de um homem causou um certo constrangimento

e as sessões continuaram

fechadas só para mulheres. “Estamos

fazendo uma boa troca de experiências

e creio, contribuindo para a emancipação

das mulheres”, afirma Cirlene.

Cinema e educação

O espaço das mulheres no movimento

cineclubista tem sido cada vez

mais evidente. A jornalista e cineclubista

Simone Norberto é uma mulher apaixonada

por cinema, que se dedica à

sétima arte nesses espaços alternativos.

“Na minha cidade natal não havia cinema

e, em Porto Velho, onde moro,

as salas só exibiam filmes comerciais.

Lembro-me que o filme Anaconda

ficou um ano em cartaz”, conta.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

97


No cineclubismo, sua primeira experiência

foi com a realização de sessões

de cinema na casa dela, usando o

vídeo cassete e a TV. Mais tarde o cineclube

batizado de CineOca passou a

utilizar os equipamentos do Sesc. “Lembro

que uma vez estávamos exibindo

para um grupo de 45 adolescentes e a

luz acabou, foi uma confusão. Hoje a

palavra ‘cineoca’ já virou sinônimo de

cineclube entre os alunos”, descreve

com orgulho.

O CineOca funciona desde 2005,

em Porto Velho, Rondônia, com exibições

uma vez por mês no Sesc e tem

como objetivo difundir o cinema de

qualidade, alternativo, regional, de nacionalidades

diferentes, com propostas

inovadoras, temáticas diversas, diretores

conceituais e produções que têm pouca

oportunidade de divulgação em circuitos

considerados comerciais. Dentro do

projeto Rede cineclubista na escola,

que funciona em parceria com outras

entidades, acontecem exibições em instituições

de ensino.

Segundo ela, a formação política

proporcionada é o principal. “O cineclube

é atual e a troca de experiências

entre as pessoas é enriquecedora. Mesmo

entre pessoas muito simples se expressando

sobre um filme, aprendemos

muito. Ao participar do Conselho Nacional

de Cineclubes passei a ter consciência

de que o que fazemos é transformador

e é cada vez mais forte a minha

participação nessa área”, afirma.

Além de coordenadora do CineOca,

Simone Norberto é jornalista

no Tribunal de Justiça de Rondônia,

onde ajudou a desenvolver um cineclube.

O projeto Barco da Justiça do

TJ usa o cineclube como instrumento

para um trabalho educativo com as comunidades

ribeirinhas do rio Madeira,

com a exibição de filmes dentro da temática

direitos humanos. A Justiça visita

a região, de barco, uma vez por

mês para audiências itinerantes e,

nesse dia, é montada a tenda do cinema.

Simone relata que a temática de

gênero é sempre abordada. “Já foi exibido

um filme sobre a Lei Maria da

Penha, seguido por debate, com a participação

de uma juiza convidada. Nesses

momentos, os homens também

participam da conversa sobre violência

doméstica, sendo um importante momento

de conscientização”. Para ela,

as mulheres dessas comunidades, que

sobrevivem com benefícios sociais, não

têm consciência do quanto são oprimidas

pelo machismo.

Movimento cineclubista

A participação das mulheres no cineclubismo

conta com algumas guerreiras.

Uma delas é Gleiciara Ramos,

cineclubista há mais de 30 anos e exsecretária-geral

do Conselho Nacional

de Cineclubes (CNC). Gleiciara percebe

SIMONE NORBERTO


O projeto Barco da

Justiça usa o cineclube

para trabalho educativo

com as comunidades

ribeirinhas.

98 Revista Elas por Elas - Junho 2016


que, atualmente, há mais mulheres no

cineclubismo do que na década de 80,

quando este teve início através do movimento

estudantil. “Naquele tempo,

havia no movimento grande influência

dos grupos de esquerda que resisitiam

à Ditadura Militar, mas era comum a

discriminação com as mulheres e com

os gays”, afirma.

Segundo ela, o cineclubismo é um

movimento de resistência. “Temos que

aproximar mais o movimento cineclubista

dos movimentos sociais para que

ele fique mais enrraizado. Hoje está

tudo muito fragmentado com cada um

olhando para o seu próprio umbigo. O

cineclube é capaz de unir as bandeiras

sociais, ambientais, étnicas e de gênero

de maneira transversal”, acredita.

À frente do Cineclube Manga Rosa,

em Itaparica, na Bahia, que trabalha

com conteúdo educativo e arte para

crianças, ela também participa do projeto

Segunda Cineclubista em escolas

de Salvador. “Certa vez exibimos o

filme Doméstica e achei interessante

como os adolescentes se identificaram

com os filhos dessas trabalhadoras que,

muitas vezes, deixam seus filhos de

lado para cuidar dos filhos dos patrões.

Outro filme exibido foi Histórias Cruzadas,

abordando o preconceito racial

e a organização das mulheres”, conta.

Para Gleiciara, o cineclube é uma

produção coletiva de conhecimento e

as mulheres têm um papel fundamental

por terem a coletividade como valor.

Elas se destacam na organização, na

preocupação com uma temática mais

ampliada e com as questões que envolvem

todos os aspectos da vida real”,

acredita. Ela também destaca o papel

ARQUIVO PESSOAL

dos cineclubes nos bairros e nas comunidades

mais carentes. “Não concordo

que cineclube é para poucas

pessoas verem, isso pode até acontecer

nos grandes centros urbanos, agora,

na periferia, muitas pessoas se reúnem

para assistir o filme, porque as pessoas

muitas vezes, não têm condições de

gastar com o transporte para ir num

cinema fora do seu bairro”, afirma.

Gleiciara também participa do Conselho

Nacional de Cineclubes (CNC),

onde foi secretária-geral da gestão provisória

até outubro de 2015. Ela explica

que o CNC tem como objetivo propiciar

a reflexão sobre a linguagem do cinema,

possibilitar a experiência fílmica como

ferramenta de educação, estimular o

desenvolvimento do pensamento crítico

e viabilizar ações concretas de intercâmbio

entre cineclubistas, realizadores,

pesquisadores, críticos e pessoas que

se interessam pelo cinema como arte

transformadora.

Os Cineclubes do Sinpro Minas,

Joaquim Pedro de Andrade e Uma

Tela na Minha Rua fazem parte do

CNC e, atualmente, a diretora do sindicato,

Terezinha Avelar, é membro da

coordenação da entidade, que possui

mais de 500 cineclubes cadastrados em

Para Simone Norberto, a formação política proporcionada

pelo cineclube é o principal.


O cineclube é uma

produção coletiva de

conhecimento e as

mulheres têm um papel

fundamental por

terem a coletividade

como valor.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

99


etomada em 2008, foi com o filme

As horas, exibido em março, numa

programação com filmes e debates sobre

questões de gênero. Nós trabalhamos

muito com essa ideia de programação

temática de acordo com alguma

data comemorativa, depois passamos

a selecionar os filmes pelos diretores,

mas as questões sobre gênero nunca

deixaram de ser debatidas, porque todo

filme que a gente exibe dá para puxar

algum gancho com o cotidiano das

mulheres”.

Terezinha destaca como um dos

pontos altos do Cineclube a mostra

com filmes da cineasta e roterista brasileira

Laís Bodanzky. Ela também relembra

fatos pitorescos como a saída

de pessoas da sala de cinema resmungando

Para Gleiciara Ramos, o cineclubismo é um movimento de resistência.

diante de cenas de sexo no

todo o país, que envolvem grupos de

pessoas, associações ou entidades, formalizadas

ou não, que exibem produções

audiovisuais com uma leitura crítica.

Espaço de formação

Para Terezinha Avelar, o cineclube

é, também, um lugar de formação do

senso crítico e um espaço para discussões

sobre o audiovisual, visando ampliar

as discussões sobre os mais variados

temas. “Comecei a me interessar

mais por cinema quando estava em

sala de aula e passava filmes para as

minhas turmas. Como professora de

geografia não podia levar os alunos

para conhecer pessoalmente os locais

citados, portanto, os filmes sempre foram

bons instrumentos para eles visualizarem

tipos de vegetações e lugares.

Mas passava o filme todo, porque me

incomodava a ideia do uso de filmes

para ocupar um espaço vago na grade,

porque um professor faltou ou porque

choveu”, comenta.

Segundo ela, a ideia de retomar o

cineclube no Sinpro veio quando ela

se tornou responsável pela área de

Cultura da entidade. “Quando surgiu o

projeto Cine Mais Cultura, do Ministério

da Cultura, entramos com o projeto,

ganhamos o equipamento para a exibição

e recebemos uma formação sobre

cineclubismo, aí tivemos mais incentivo

para continuar”.

Sobre a ligação entre feminismo e

cineclubismo, Terezinha, que é militante

do movimento feminista, conta que,

no início do Cineclube Joaquim Pedro

de Andrade, as exibições eram temáticas,

mas que hoje a questão de gênero

é discutida quando vem à tona em

algum filme e a plateia deseja comentar.

“A primeira sessão do cineclube, na

filme. “A gente entende que nem sempre

o público está preparado, ele levanta,

cochila, ri, bate palma... Dentro

de uma sala de cinema isso é um

direito das pessoas e a gente não pode

inibir”, afirma.

Ela acredita que a participação das

mulheres no cineclubismo tem sido

crescente. “A retomada do cinema e

do cineclubismo tem envolvido muito

a juventude. Desde que comecei a participar

do Conselho Nacional de Cineclubes,

há uns cinco anos, percebo

que a presença de mulheres tem aumentado.

Há muitas mulheres à frente

dos cineclubes e muita coisa está sendo

produzida por elas. Mulheres no elenco,

no roteiro, na direção, na produção,

assim como elas estão mais presentes

na sociedade, no cinema também essa

participação é grande, com exceção

da parte técnica que ainda é dominada

pelos homens. Acredito que as mulheres

têm um olhar diferenciado na cinematografia”,

sentencia.

CNC


Experiências

cineclubistas do

Sinpro Minas

O Sindicato dos Professores do Estado

de Minas Gerais (Sinpro Minas),

em 5 de abril de 1997, inaugurou seu

cineclube. Por sugestão do cineasta

Helvécio Ratton, o cineclube foi batizado

de “Joaquim Pedro de Andrade”, uma

homenagem ao cineasta que pertenceu

a uma geração que constituiu o chamado

Movimento do Cinema Novo.

Outra iniciativa com o uso do audiviosual

foi o projeto Cinema e Psicanálise,

com exibições de filmes seguidos de debates

para um público interessado em

discutir psicanálise a partir dos temas

propostos pelos filmes. Por cerca de 15

anos, as exibições aconteceram no Espaço

Cultural Barbosa Lima Sobrinho,

na sede do Sinpro Minas, no bairro Floresta,

em Belo Horizonte. Para a psicanalista

e organizadora, Eliane de Andrade,

o projeto não se configurava

exatamente como cineclubismo. “O foco

era discutir os temas a partir de uma

visão psicanalítica, sem preocupação

com os detalhes da produção cinematográfica.

O debatedor era sempre um

psicanalista e o público era diversificado

com professores, estudantes e pessoas

da comunidade”, explica.

Em 2008, dentro das comemorações

dos 75 anos do Sinpro Minas, houve

uma retomada das atividades Cineclubistas,

porém de uma forma mais ampla,

envolvendo sessões de exibição de filmes

e debates não só para a categoria profissional,

mas também para toda a comunidade

belorizontina. A retomada se

deu exatamente no momento em que,

A cineastra Ana Luiza de Azevedo participou de debate no Sinpro.

no Brasil, as políticas públicas de fomento

ao cineclubismo foram implantadas através

do Ministério da Cultura, com ações

mais efetivas.

“As nossas ações cineclubistas ganharam,

então, um destaque maior passando

a funcionar em novo espaço

(foto), no Centro de Referência do Professor

da Rede Privada (Sinpro Cerp),

situado no centro de Belo Horizonte,

com equipamentos modernos de audiovisual

e com uma sala com capacidade

para 60 pessoas”, destaca a coordenadora

do Cineclube,Terezinha Avelar.

O Cineclube Joaquim Pedro de Andrade

tem seu funcionamento todas as

terças-feiras, às 19 horas, e visa oportunizar

a formação e a comunicação

entre os professores e a comunidade

em geral, promovendo o desenvolvimento

da categoria em um espaço

para o debate de temas relevantes.

Está em atividade também o Cineclube

Uma Tela no Meu Bairro, que

foi montado com os equipamentos do

Ministério da Cultura, pelo Programa

Cine Mais Cultura. Inicialmente era situado

na sede do Sinpro Minas, no

bairro Floresta, em Belo Horizonte,

mas atualmente as exibições acontecem

em diversos bairros de Belo Horizonte

e em algumas cidades.

Para a diretoria do Sinpro Minas, a

retomada do cineclube justifica-se,

ainda, pela notória ausência de um espaço

cultural de reflexão e integração

entre o professor da rede privada, o

seu sindicato e a comunidade. “A reorganização

do cineclube é uma das respostas

dos movimentos populares e

justifica-se pelo caráter democrático e

acessível à comunidade”, acrescenta o

ex-presidente e diretor do Sinpro Minas,

Gilson Reis.ø

ARQUIVO SINPRO MINAS

Revista Elas por Elas - Junho 2016

101


102 Revista Elas por Elas - Junho 2016

JANUÁRIO GARCIA


HISTÓRIA

POR ANA MARIA FELIPPE

ADAPTADO POR CECÍLIA ALVIM

Lélia Gonzalez: mulher

negra na história do Brasil

Neste ano de 2016, já contamos

22 anos que a guerreira Lélia Gonzalez

passou à condição de “ancestral”. A

atualidade da luta que travou, sobre a

qual refletiu e ensinou, nos faz reviver

um pouco de sua trajetória. Que seu

exemplo seja guia nessa luta que, a

cada caminhada, constatamos mais a

fazer: a luta contra o racismo.

Lélia Gonzalez nasceu em Belo Horizonte

em 1935. Quando Lélia era

criança, sua família instalou-se no Rio,

na favela do Pinto, bairro do Leblon.

Lélia era a penúltima de 18 irmãos/ãs;

filha de pai negro ferroviário e mãe índia.

Casou-se aos 28 anos, para assumir

definitivamente o sobrenome Gonzalez.

Nas escolas e nas faculdades (graduou-se

em História/Geografia e Filosofia)

era reconhecida pela dedicação

e inteligência. Como educadora, Lélia

lecionou em muitas escolas de nível

médio, em faculdades e universidades.

No final dos anos 1960 e início de

1970, Lélia era uma assumida mulher

negra: “Essa questão do branqueamento

bateu forte em mim e eu sei que bate

muito forte em muitos negros também.

Há também o problema de que, na escola,

a gente aprende aquelas baboseiras

sobre os índios e os negros; na própria

universidade o problema do negro não

é tratado nos seus devidos termos.”

Foi em 1982 que Lélia escreveu

“Lugar de negro”, junto com Carlos

Hasenbalg. E por que demoraria 12

anos para gritar, por escrito? Porque

só em 1982 Lélia teria firmado na escrita

que “O lugar natural do grupo

branco dominante são moradias amplas,

espaçosas, situadas nos mais belos recantos

da cidade ou do campo e devidamente

protegidas por diferentes tipos


Essa questão do

branqueamento

bateu forte em

mim e eu sei que

bate muito forte

em muitos negros

também.

de policiamento: desde os antigos feitores,

capitães do mato, capangas,

etc., até a polícia formalmente constituída.

Desde a casa grande e do sobrado,

aos belos edifícios e residências

atuais, o critério tem sido sempre o

mesmo. Já o lugar natural do negro é

o oposto, evidentemente: da senzala

às favelas, cortiços, porões, invasões,

alagados e conjuntos “habitacionais”

(cujos modelos são os guetos dos países

desenvolvidos) dos dias de hoje, o critério

também tem sido simetricamente

o mesmo: a divisão racial do espaço.”

Quando compreendeu teoricamente

a questão da opressão e da exclusão,

Lélia continuou fazendo exatamente a

mesma trajetória teórica e intelectual

que seguia anteriormente, mas, nesse

momento, ela se dedica à leitura dos

pensadores negros, da história do povo

negro, das rainhas negras, lendo e refletindo

noite adentro. A inteligência e

a desenvoltura teórica – que continuou

exercendo institucionalmente, como

professora na Pontifícia Universidade

Católica, até o final da vida, tendo

sido eleita Chefe do Departamento de

Sociologia, um mês antes – foi posta a

Revista Elas por Elas - Junho 2016

103


As Escolas de Samba:

O golpe de 1964 implicaria na desarticulação

das elites intelectuais

negras, de um lado, e no processo de

integração das entidades de massa

numa perspectiva capitalista, de outro.

As escolas de samba, por exemplo,

cada vez mais, vão se transformando

em empresas da indústria turística.

Os antigos mestres de um artesanato

negro, que antes dirigiam as atividades

nos barracões das escolas, foram

sendo substituídos por artistas

plásticos, cenógrafos, figurinistas,

etc. e tal... Os “nêgo véio” da Comissão

de Frente foram substituídos por

mulatas rebolativas e tesudas. Os

desfiles transformaram-se em espetáculos

tipo teatro de revista, sob a

direção de uma nova figura: o carnavalesco.

Lélia Gonzalez

serviço da realidade e da necessidade

do povo negro e, em especial, das

mulheres negras. Lélia passa a ser a

grande referência teórica do Movimento

Negro (principalmente do novo MN,

nos anos 1970, que ajudou a fundar).

É a primeira intelectual negra no país.

É nessa condição que está citada no

Dicionário Mulheres do Brasil, na Enciclopédia

Encarta Africana e, em Mulheres

Negras do Brasil.

Lélia Gonzalez teve uma trajetória,

permanente e irrestrita, na direção do

conhecimento. Pela fala, olho no olho,

ela sabia que conhecimento buscar em

sua riquíssima bagagem teórica (Filosofia,

História, Teoria da Comunicação,

Proxêmica, Psicologia e Psicanálise,

Antropologia, Sociologia, Teoria da

Arte e Estética, Teoria dos Objetos,

Política, Hermenêutica) para fazer com

que o/a interlocutor/a compreendesse

a questão “crucial”. Sua capacidade

de interpretação se mostrou na crítica

às ideologias e à hegemonia de dominação

(de lógica machista, branca e

europeia) que sempre forçou o povo

negro ao lugar de submissão, de menor

condição e capacidade.

Já havia lido os grandes filósofos

críticos, Marx, Sartre, Althusser e

outros. Havia lido a sociologia, Max

Weber e outros. Mas quando Lélia lia,

lia tudo; comprava tudo e lia tudo; não

parava enquanto não terminasse: noite

adentro, dia afora.

Agora, na luta pela consciência racial,

lia os africanos, todos: em inglês,

em francês, em espanhol. Ela havia

aprendido tudo sozinha. Nunca frequentou

escola de idioma. Aprendeu

francês no tempo da faculdade, procurando

ler os autores. Logo no início

traduziu três livros para a editora Freitas

Bastos. Depois parou de traduzir, não

tinha mais paciência. E dava aula,

muitas aulas. E estudou psicanálise:

todo Freud, todo Lacan, todo Foucault!

E era com toda essa bagagem teórica

que palestrava e não dava trégua,

apesar da simpatia contagiante.

Lélia gostava de ler e falar. Escreveu

pouco para o tanto que deixou! Nessa

hora, ela já tinha consciência de que

sabia muito e articulava magnificamente:

o social, o psicológico, o ideológico, a

luta de classes, a opressão do povo ne-

104

Revista Elas por Elas - Junho 2016


gro, sobre a acomodação e sobre mulher

(havia lido toda Simone de Beauvoir)!

Tinha horror à acomodação e à ignorância

e reafirmava a necessidade do

estudo para que a consciência não fosse

“oba-oba”, para que o “movimento negro”

não fosse “movimentação”!

O universo de conhecimento que

Lélia trazia, forçosamente determinado

por ela para a transformação do real,

muito mais tem a ver com a oralidade

africana dos griôs, do que com a academia

ocidental. Lélia representou uma

griô que conta histórias verdadeiras

para seu povo. Ela falava e ensinava

não só para preservar a história, mas,

principalmente, para resgatar as genealogias,

as origens e as tradições de

seu povo, para que esse povo compreendesse

a lógica da discriminação

e alcançasse a consciência, resgatando

o orgulho de si mesmo, para a superação

da condição de exclusão em que

havia sido colocado. Foi na defesa

JANUÁRIO GARCIA

O aparecimento

do Movimento de

Mulheres Negras:

Em, 1975, quando as feministas ocidentais

se reuniam na Associação

Brasileira de Imprensa para comemorar

o Ano Internacional da Mulher,

elas ali compareceram, apresentando

um documento em que caracterizavam

a situação de opressão

da mulher negra.

Os anos seguintes testemunharam a

criação de grupos de mulheres negras

(Aqualtune, 1979; Luiza Mahin, 1980;

Grupo de Mulheres Negras do Rio

de Janeiro, 1982) que, de um modo

ou outro, foram reabsorvidos pelo

Movimento Negro. Todas nós, sem

jamais termos nos distanciado do

MN, continuamos nosso trabalho de

militantes no interior das organizações

mistas a que pertencíamos (André

Rebouças, IPCN, SINBA, MNU,

etc.), sem, no entanto, desistir da discussão

de nossas questões específicas

junto aos nossos companheiros que,

muitas vezes, tentavam nos excluir

do nível das decisões, delegando-nos

tarefas mais ”femininas”. Todavia,

como nós, mulheres e homens negros,

nos conhecemos muito bem, nossas

relações, apesar de todos os “pegas”,

desenvolvem-se num plano mais igualitário

cujas raízes, como dissemos

acima, provêm de um mesmo solo: a

experiência histórico-cultural comum.

Lélia Gonzalez

Revista Elas por Elas - Junho 2016

105


desse povo que, dentre outras atividades, excluídos vai nortear suas campanhas

participou de seminários nacionais e para cargos públicos, em 1982 (1ª suplente

como Deputada Federal, PT) e

internacionais que duraram, pelo menos,

de 1975 a 1989. A necessidade em 1986 (suplente de Deputada Estadual,

PDT), tendo como principais re-

de implementação e transformação foi

reconhecida pela atriz e política Ruth ferências as liberdades individuais e as

Escobar (presidente do Conselho Nacional

dos Direitos da Mulher – CNDM, Lélia sempre acreditou que uma

transformações sociais.

Trabalhadoras negras

do qual Lélia era membro) que a indicou sociedade solidária e fraterna é possível.

A mulher negra permanece como o

publicamente, em editorial do jornal Para isso, compreendia como necessário

setor mais explorado e oprimido da

Folha de S. Paulo, para ocupar a vaga que, além do engajamento na luta política

mais ampla, os grupos não domi-

sociedade brasileira, uma vez que

do Ministério da Cultura, em 1985.

sofre uma tríplice discriminação (social,

racial e sexual). Nossa situação

Entre traduções de livros de filosofia, nantes, excluídos do poder, deviam

textos de palestras e “Lugar de Negro”, produzir seu próprio conhecimento.

atual não é muito diferente daquela

Lélia deixou “Festas Populares no Brasil”,

editora Index, 1987, premiado na estudo das culturas humanas, especial-

Foi em razão disso que se dedicou ao

vivida por nossas antepassadas: afinal,

a trabalhadora rural de hoje não

Feira Internacional do Livro, de Leipzig, mente da cultura negra. Muitos de seus

difere muito da “escrava do eito” de

Alemanha, na categoria “Os mais belos escritos e falas conjugaram ciência e

ontem; a empregada doméstica não

livros do mundo”, além de panfletos política e atuaram contra o racismo e

é muito diferente da “mucama” de

político-sociais, partidários, engajados, outras formas de preconceito, contribuindo

para a formação acadêmica e

ontem; o mesmo poderia dizer-se da

de muita reflexão. Seus escritos, simultaneamente

permeados pelos ce-

cidadã de muitos dos que com ela con-

vendedora ambulante, da “joaninha”,

da servente ou da trocadora de ônibus

de hoje, e “escrava de ganho” de

nários da ditadura militar e da emergência

dos movimentos sociais, são Compreendia que o ser humano

viveram direta ou indiretamente.

ontem.

reveladores de sua capacidade intelectual não pode ficar parado, acomodado a

e identificam sua constante preocupação um modus vivendi, sem ver adiante.

Aquele papo do “exige-se boa aparência”,

dos anúncios de empregos, a gente

em articular as lutas mais amplas da Isso ficou evidente nos anos 70 quando,

sociedade com a demanda específica ajudando a fundar as oportunidades

pode traduzir por: “negra não serve”.

dos negros, das mulheres e dos homossexuais.

A preocupação com os o Instituto de Pesquisas das Culturas

coletivas de consciência negra [como

Secretária, recepcionista de grandes

empresas, balconista de butique elegante,

comissária de bordo, etc. e tal,

Negras (IPCN-RJ), o Movimento Negro

Unificado (MNU), e o Olodum-BA],

são profissões que exigem contato

fez a opção definitiva de sua vida.

com o tal público “exigente” (leia-se

Tinha 59 anos quando faleceu, em

racista). Afinal de contas, para a cabeça

desse público a trabalhadora ne-

10 de julho de 1994, na cidade do Rio

Lélia sempre

de Janeiro. Depois de sua morte,

gra tem que ficar no “seu lugar”: ocultada,

invisível, “na cozinha”.

muitos grupos apareceram no país,

acreditou que

uma sociedade

lançando seu nome, em homenagem.

Seu pensamento também já foi objeto

Lélia Gonzalez

solidária e

fraterna é

de estudos e dissertações acadêmicas.ø

possível.

Ana Maria Felippe é professora,

pós-graduada em Filosofia da Ciência (UFRJ), e

coordenadora do Memorial Lélia Gonzalez

(www.leliagonzalez.org.br). Foi aluna e amiga de

Lélia, com quem conviveu por mais de 30 anos.

106 Revista Elas por Elas - Junho 2016


Aqui você ouve, durante 24 horas, música de

qualidade e fica em sintonia com temas atuais sobre

educação, trabalho, política, cidadania, meio ambiente,

cultura e pautas sociais. Um espaço com muita

participação dos professores.

www.sinprominas.org.br/radio-sinpro/

Revista Elas por Elas - Junho 2016

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ATEBEMG

108

Revista Elas por Elas - Junho 2016


PERFIL

POR SAULO ESLLEN MARTINS

Conceição Rosière

A mulher que dá vida aos bonecos

Dona de uma personalidade doce e

serena, uma mulher determinada, justa

e corajosa, que tem no currículo o domínio

de cinco idiomas e o hábito de

viajar pelo mundo. Estas são algumas

características da bonequeira Conceição

Rosière, de 65 anos, uma figura marcante

para o teatro de animação em

Minas Gerais e no Brasil. Engajada na

luta pela valorização e difusão do teatro

de bonecos, “Ção”, como é chamada

pelos artistas, é uma mulher de pulso

firme, mas que mostra toda a sua ternura

nos espetáculos que produz.

Conceição acabou de chegar de

uma viagem, na qual visitou países

como Índia e Butão, em busca de

novas experiências pessoais e também

de outras técnicas de construção e animação

de objetos. “Cada país que

visitei é peculiar à sua maneira, principalmente,

do ponto de vista do teatro

de bonecos. Existe muita riqueza e diversidade.

Me suspreendo a cada dia.

Nos meus estudos e pesquisas fui descobrindo

novas formas de fazer o ofício,

seja na construção ou, até mesmo, a

temática. Esses estudos sempre antecedem

as viagens. Quando visito os

países, já sei bastante sobre a cultura e

teatro de bonecos dos lugares. Nessas

incursões, pude assistir a espetáculos

de sombras e varas na Indonésia, ao

bunraku no Japão, ao katiputli na

Índia, ao teatro na água do Vietnã, ao

de fios em Miamar, ao teatro negro

Conheci bonequeiros,

indaguei sobre suas

técnicas de atuação

e como os bonecos

eram construídos;

isso não tem preço.

em Praga e vários outros em festivais.

Conheci bonequeiros, indaguei sobre

suas técnicas de atuação e como os

bonecos eram construídos: isso não

tem preço. Pude também comprar vários

bonecos diretamente de quem

fazia, o que contribuiu imensamente

para aumentar os meus conhecimentos

e habilidades”.

Bonequeira desde 1982, Conceição

fez parte do grupo de teatro Patati &

Patatá. Hoje, é vice-presidenta da Associação

Brasileira de Teatro de Bonecos,

já presidiu também a Associação

de Teatro de Bonecos de MG (Atebemg),

entidade que ajudou a criar.

Fez parte, durante quatro anos, da comissão

de análise de projetos culturais

do estado de MG. Ganhadora de prêmios

por textos e espetáculos, ela recebeu,

em 2015, uma comenda da

Prefeitura de Belo Horizonte, por serviços

prestados à cultura da cidade.

No ano passado, um texto de sua autoria

foi vencedor de um prêmio da

Revista Elas por Elas - Junho 2016

109


Fundação Clóvis Salgado. O grupo

Pigmalião Escultura que Mexe vai montar

a peça que tem estreia prevista

para o primeiro semestre de 2016.

Conceição conta que a arte sempre

teve espaço em sua vida. Amava assistir

aos programas de TV Vila Sésamo e

Topo Gigio, que usavam técnicas de

manipulação direta para dar vida aos

bonecos. Sempre gostou de desenhar,

esculpir e criar coisas “úteis e inúteis”,

só pelo desafio. “Me lembro de apresentar,

para deleite de meus irmãos

mais novos, a cena de marionetes do

filme A Noviça Rebelde, com panos

amarrados em um cordão. Eu cantava,

imitando as vozes dos carneiros”.

Em 1973, ela foi morar na Alemanha.

Lá, teve acesso a vários livros

sobre teatro de animação. Começou a

fazer bonecos de tecido para a filha

brincar. No entanto, ainda não tinha

pensado em nada profissional. “Quando

voltei ao Brasil, em 1981, li no jornal

que havia um “tal” de Álvaro Apocalypse

que ia ministrar um curso sobre

teatro de bonecos, na escola de Belas

Artes da UFMG - o Giramundo só

tinha ficado conhecido no festival de

inverno de Ouro Preto, em 1979,

quando eu estava fora do Brasil. Só

então me dei conta que havia pessoas

que eram bonequeiras, que construÍam

e animavam suas próprias esculturas,

o que era fascinante. Fiz o curso com

Álvaro, Tereza e Madu, mestres inesqueciveis”.

Foi então que a história da Conceição

bonequeira começou a ser contada.

Construiu seus primeiros bonecos: uma

vovó (boneco de luva); um palhacinho

(boneco de vara); e uma baiana sambista

(marionete de fios). Conheceu o bonequeiro

Tião Vieira e montou com ele

uma história que contou no aniversário

de 5 anos da filha, Amanda. “Depois

disso veio a querida Sheyla Alves, o

Paulinho Polika, Sumaya Costa, Agnaldo

Pinho e vários outros bonequeiros

que fui conhecendo e com quem aprendi,

de cada um, um pouco mais. Fui

contaminada e nunca mais parei”.

Ao ser questionada sobre as diferenças

entre homens e mulheres no

mundo dos bonecos, Conceição é enfática:

“Não há nenhum diferencial.

Nunca percebi algum tipo de preconceito”.

A manipulação exige habilidade

e assim é determinado quem manipulará

qual boneco, o mesmo acontece com

a construção. As vozes podem ser

feitas por ambos os sexos, basta uma

boa preparação vocal. Assim, competimos

em pé de igualdade e se formos

pesquisar, no Brasil, as mulheres podem

até ser maioria. Nós damos vida a formas

inanimadas, construímos sonhos,

levamos o público a um mundo onde

tudo é possível. Quando conseguimos

que o público se envolva pelo nosso

imaginário e nos acompanhe numa

viagem de fantasia, cumprimos bem

nossa missão, sendo bonequeiros ou

bonequeiras. Aqui não somos divas no

teatro e sim condutoras de uma espécie

de fio da vida, que vai até o inanimado

e o faz viver, contar uma história,

como se o objeto manipulado tivesse

vida própria”.ø

ATEBEMG

110

Revista Elas por Elas - Junho 2016


POUCAS E BOAS

Conferência Nacional de Mulheres repudia golpe de estado

Professoras, representantes do

Sinpro Minas, participaram, nos dias

10, 11 e 12/05, em Brasília, da 4ª

Conferência Nacional de Políticas

para as Mulheres (4ªCNPM). O encontro

reuniu cerca de três mil mulheres

de todas as regiões do País,

as delegadas aprovaram propostas

que exigem continuidade das conquistas

nas políticas de proteção e

de direitos para as mulheres.

Ao final, as conferencistas aprovaram

uma carta das mulheres ao

povo brasileiro para expressar o

seu repúdio ao golpe de Estado que

pretende interromper o mandato

da primeira e única mulher que venceu

duas eleições presidenciais, e

tem, até o ano de 2018, o direito e a

legitimidade de exercer o comando

da nação.

Já exonerada da condição de Secretária

Especial de Políticas para

as Mulheres, Eleonora Menicucci reforçou

a importância de as mulheres

cobrarem e defenderem todas as

conquistas dos últimos anos. “A Conferência

mostrou que temos uma

capacidade de lutar e garantir políticas

públicas de gênero. Agora sabemos

que podemos eleger mulheres

vereadoras, deputadas, governadoras

e presidentas, porque nós somos

guerreiras e podemos”, destacou.

Dentre as propostas aprovadas,

incluem-se a da reserva de no mínimo

1% dos recursos do Orçamento

para o enfrentamento da violência.

Outra prevê a aplicação do fundo

partidário para capacitação de mulheres

na política. Foi aprovada

ainda a criação de um fundo para

garantir o Sistema Nacional de Políticas

para as Mulheres, nos moldes

do SUS, que defina atribuições da

União, dos Estados e municípios em

relação ao direito de mulheres.

As participantes da conferência

incluíram também uma proposta

que prevê reserva de recursos para

ações específicas relacionadas à

diversidade. Esta contempla mulheres

negras, indígenas, quilombolas,

de matriz africana, ciganas, de

comunidades e povos tradicionais,

de terreiro, do campo, das águas,

da floresta, lésbicas, transexuais,

travestis, egressas do sistema prisional,

com deficiência e com mobilidade

reduzida.

As delegadas e observadoras

trouxeram para a 4ª CNPM o resumo

de todos os debates realizados nas

conferências municipais, intermunicipais,

livres, estaduais e nas consultas

nacionais. A maioria apontou

a necessidade da constituição de

um Sistema Nacional de Políticas

para as Mulheres.

Etapas preparatórias

Com o tema “Mais direitos, participação

e poder para as mulheres,

as etapas preparatórias para a 4ª

CNPM tiveram início em junho de

2015 e mobilizaram mais de 150 mil

pessoas em torno dos debates. No

total, mais de 2,5 mil cidades participaram

de conferências municipais

e intermunicipais. Todos os Estados

e o Distrito Federal realizaram as

suas etapas estaduais. Foram promovidas

conferências livres e uma

Plenária Governamental, com ministérios,

secretarias e instâncias

do governo federal. Também foram

realizadas consultas nacionais com

grupos que tradicionalmente encontram

maior dificuldade de acesso

e expressão nos processos convencionais

de participação social.

PAULO NEGREIROS

Revista Elas por Elas - Junho 2016

111


POUCAS E BOAS

INTERNET

Pacto pela igualdade de gênero na mídia

A ONU Mulheres lançou, em março

de 2016, uma parceria com mais de 35

veículos da mídia impressa, online, da

TV e do rádio, de vários países. Batizada

de "Pacto de Mídia — Dê um Passo pela

Igualdade de Gênero", a iniciativa foca

em ações concretas ligadas à Agenda

2030, já que o objetivo número 5 é garantir

que a igualdade de direitos entre

homens e mulheres seja alcançada.

O pacto reconhece o papel de influência

que os meios de comunicação

podem ter em promover o empoderamento

feminino. A iniciativa funcionará

como uma aliança entre a ONU Mulheres

e organizações de mídia comprometidas

com a igualdade de gênero.

As 35 primeiras entidades parceiras

do pacto transmitem para milhões de

pessoas na África, na Ásia-Pacífico, nos

países árabes, na Europa e na América

Latina. A diretora-executiva da ONU

Mulheres afirmou que a agência quer

que a mídia internacional trabalhe a

favor da igualdade de gênero. Phumzile

Mlambo-Ngcuka destaca ser uma

parceria importante, porque os meios

de comunicação "exercem grande influência

sobre como as pessoas percebem

e entendem o mundo".

Centro Feminista de Estudos

e Assessoria

www.cfemea.org.br

União Brasileira de Mulheres (UBM)

www.ubmulheres.org.br

Líder africana anula 850 casamentos infantis e

envia meninas de volta para a escola

Rede Feminista de Saúde

www.redesaude.org.br

Theresa Kachindamoto, líder feminista

em Malawi, país da África, anulou

mais de 850 casamentos forçados nos

últimos 3 anos e colocou meninas na

escola. Mais da metade das mulheres

em Malawi se casam antes dos 18 anos.

Somente em 2015 foi instituída a maioridade

de 18 para casamentos (mesmo

com assinatura dos pais). Agora, a luta

é para que essa idade seja elevada para

os 21 anos.

Theresa já foi ameaçada de morte

por outros políticos que são contra

suas políticas públicas. Ela rebate e diz

que continuará lutando até a morte. E

deixa uma mensagem quando entrevistada:

“se elas forem educadas, podem

ser o que quiserem. Ou seja, até esposas

e mães. Mas se elas quiserem”,

reforça.

Segundo o Unicef, o casamento

infantil é uma violação dos direitos

das adolescentes e mulheres. As

meninas que são casadas quando

ainda são crianças estão mais propensas

a deixar a escola, a sofrer

violência doméstica, a contrair

HIV/Aids e a morrer devido a complicações

durante a gravidez e o

parto. O casamento infantil também

prejudica as economias, levando a

ciclos intergeracionais de perpetuação

da pobreza.

Fonte: http://www.hypeness.com.br/

Movimento Vamos Juntas

https://www.facebook.com/movimentovamosjuntas

Empodere duas Mulheres

https://www.facebook.com/empodereduasmulheres

112 Revista Elas por Elas - Junho 2016


LIVROS

FILMES

Imprensa feminina

e feminista no Brasil

Autora: Constância Lima Duarte

Editora: Autêtica

O Espelho Diamantino

(1827-1828), O

Despertador das

Brasileiras (1830-

1831), O Bello Sexo

(1850-1851), A Mensageira

(1897-1900).

Esses são alguns

dos 143 títulos de

jornais e revistas

reunidos em A Imprensa feminina e feminista

no Brasil: Século XIX, de Constância

Lima Duarte, professora da Faculdade

de Letras da Universidade Federal

de Minas Gerais (UFMG). A obra,

resultado de anos de pesquisas realizadas

pela autora sobre a história das

mulheres, a literatura de autoria feminina

e o movimento feminista no Brasil, traz

fac-símiles e transcrições de textos dos

jornais, organizados por ordem cronológica

e de publicação.

Um defeito de cor

Autora: Ana Maria Gonçalves

Editora: Record

A narrativa ficcional,

de Ana Maria

Gonçalves, traz a

história de uma

africana idosa,

cega e à beira da

morte, que viaja da

África para o Brasil

em busca do filho

perdido há décadas.

Ao longo da travessia, ela vai contando

sua vida, marcada por mortes,

estupros, violência e escravidão. Inserido

em um contexto histórico importante

na formação do povo brasileiro e narrado

de uma maneira na qual os fatos

históricos estão imersos no cotidiano e

na vida dos personagens.

Heroínas negras na

literatura infantil

Preocupada em dar visibilidade às

protagonistas negras na literatura

infantil, a livreira Luciana Bento criou

o projeto “100 livros infantis com

meninas negras”. A intenção, segundo

a autora da iniciativa, é contribuir

para a diminuição do preconceito

racial e de gênero. “As crianças não

deveriam ler livros só com personagens

brancas e depois sairem nas

ruas e verem uma população multicolorida

como a nossa”, pontua. A

lista pode ser consultada em:

www.100meninasnegras.tumblr.com.

Cadernos Pagu

Criados em 1993, Cadernos Pagu é

hoje um dos principais periódicos

brasileiros focados na problemática

de gênero. A produção sobre os principais

temas contemplados pela publicação

– trabalho, educação, violência,

sexualidade, raça, família, literatura,

teorias feministas e de gênero

– tem oferecido significativa

contribuição para as discussões no

âmbito acadêmico e para a atuação

de diversas entidades, inclusive na

formulação de políticas públicas.

Saiba mais em www.pagu. uni -

camp.br.

Persépolis (animação)

Direção: Marjane Satrapi e Vincent

Paronnaud

Baseado na autobiografia em quadrinhos

de Marjane Satapri, este filme de animação

francês conta a história de uma

garota iraniana que emigra para a França

para continuar seus estudos e deixar

o país que estava então sob o regime

do Aiatolá Khomeini.

Como se fosse da família (documentário)

Direção: Alice Riff e Luciano Onça

Neste documentário, duas trabalhadoras

domésticas refletem sobre suas trajetórias

de vida e trabalho, servindo desde

cedo e até a vida adulta a uma mesma

família. As domésticas debatem a recente

regulamentação que garante os mesmos

direitos dos trabalhadores às domésticas.

Revolução em Dagenham (Ficção)

Direção: Nigel Cole

A luta das mulheres inglesas por melhores

condições salariais em um ‘mundo de

homens’ é a temática central do filme.

As operárias da fábrica da Ford de Dagenham,

na Inglaterra, vivenciam uma

rotina desgastante de trabalho, atrelada

a condições precárias e longas jornadas.

Revista Elas por Elas - Junho 2016

113


RETRATO

Conceição

Evaristo

Nascida numa favela de Belo

Horizonte, foi empregada doméstica

e se tornou professora,

mestre em Literatura

Brasileira pela PUC Rio e doutora

em Literatura Comparada

pela Universidade Federal Fluminense.

Escritora com projeção

internacional, suas obras,

em especial o romance Ponciá

Vicêncio, de 2003, abordam

temas como a discriminação

racial, de gênero e de classe.

Marcello Casal Jr - Agencia Brasil

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