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Revista Elas por elas 2015

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

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Ciganas<br />

Entre o mito e<br />

a realidade<br />

SER MÃE<br />

Mães em restrição de liberdade<br />

POLÍTICA<br />

Longe das cotas de gênero


3<br />

<strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>elas</strong> mesmas<br />

Em sua oitava edição, a revista <strong>Elas</strong><br />

<strong>por</strong> <strong>Elas</strong> traz muitas histórias de mulheres<br />

que vivem realidades diversas.<br />

São ciganas, circenses, escritoras, sindicalistas,<br />

cabeleireiras, professoras,<br />

políticas, quadrinistas, presidiárias, feministas,<br />

etc. Não im<strong>por</strong>ta quais papéis<br />

exerçam na vida ou na sociedade, são<br />

mulheres de fibra que enfrentam o desafio<br />

de lutar contra o machismo, a<br />

violência e a discriminação.<br />

<strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>elas</strong> mesmas descrevem a<br />

dor e a delícia de serem mulheres. E<br />

assim, como numa colcha de retalhos<br />

multicolorida, essas diferentes vivências<br />

nos trazem encantamento e im<strong>por</strong>tantes<br />

reflexões sobre o universo feminino.<br />

Cabelo, imagem, maternidade, sexualidade,<br />

educação, violência, seja qual<br />

for o tema abordado, em todas as re<strong>por</strong>tagens<br />

há sempre uma personagem<br />

guerreira. Uma mulher que superou<br />

desafios, que foi à luta, que não esmorece<br />

diante de uma sociedade que dá<br />

passos lentos em direção à igualdade<br />

de gênero.<br />

Ser mãe em situação adversa é um<br />

dos destaques dessa edição. Falamos<br />

das mães que vivem nas ruas e convivem<br />

com as drogas, das que são impedidas<br />

de parir em sua própria cidade, das<br />

que sofrem restrição de liberdade e<br />

são obrigadas a se separar de seus<br />

filhos, assim como daqu<strong>elas</strong> que tornam<br />

suas as crianças que outras mães não<br />

puderam cuidar. São mulheres de coragem<br />

e mães <strong>por</strong> vocação.<br />

A revista traz a triste realidade das<br />

mulheres em situação de abandono<br />

nas ruas, assim como aborda o mundo<br />

controverso das ciganas e das mulheres<br />

que vivem no circo. Também debatemos<br />

sobre a participação das mulheres no<br />

sindicalismo e na política, um universo<br />

onde as mulheres driblam o machismo<br />

e sonham em ocupar cada vez mais<br />

espaços de poder.<br />

O feminismo também é evidenciado<br />

<strong>por</strong> uma nova geração de mulheres na<br />

América Latina que, a exemplo das lutadoras<br />

do passado pela emancipação<br />

feminina, são aguerridas e fazem a<br />

gente acreditar que o futuro pode ser<br />

diferente. A propósito, esse ano faz<br />

20 anos que feministas de todo o mundo<br />

se encontraram em Pequim para a<br />

conferência da ONU que estabeleceu<br />

uma plataforma de ações pela igualdade<br />

de gênero. Nesse cenário, a violência<br />

ainda é um dos maiores desafios a<br />

serem enfrentados. A notícia boa é<br />

que no Brasil a Lei Maria da Penha reduziu<br />

em 10% os homicídios contra as<br />

mulheres e o feminicídio se tornou<br />

crime hediondo.<br />

Com cada vez mais exemplos de<br />

autoestima, beleza, raça e cultura, as<br />

mulheres negras têm seu espaço<br />

garantido na revista, pois suas bandeiras<br />

são de todos/as que lutam <strong>por</strong> uma<br />

sociedade mais justa e igualitária. Também<br />

estamos de olho na aplicação da<br />

lei 10.639, que determina o ensino de<br />

história e cultura afro-brasileira e africana<br />

em todas as escolas do país, e<br />

recomendamos a leitura da entrevista<br />

com a professora Mara Evaristo. Na<br />

literatura, a história imperdível é a da<br />

catadora de papel que virou escritora<br />

com repercussão internacional. Carolina<br />

de Jesus foi uma idealista que,<br />

mesmo diante do preconceito <strong>por</strong> ser<br />

mulher, negra e favelada não desistiu<br />

de seus sonhos.<br />

Com tantas histórias e exemplos,<br />

desejamos que essa publicação seja<br />

mais que um entretenimento. Possa<br />

ser um material de reflexão e instrumento<br />

para a educação e formação de<br />

uma consciência pela igualdade e diversidade<br />

de gênero, raça/etnia e sexo.<br />

Boa leitura!<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


RECONHECIMENTO<br />

Pág<br />

7<br />

POLÍTICA<br />

Pág<br />

24<br />

DIREITOS<br />

Pág<br />

50<br />

<strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> recebe<br />

menção honrosa em<br />

prêmio nacional de<br />

jornalismo<br />

Longe das cotas<br />

de gênero<br />

Em busca de um<br />

novo rumo<br />

HOMENAGEM<br />

Pág<br />

8<br />

Celina Arêas<br />

Exemplo de dedicação<br />

ENTREVISTA<br />

Pág<br />

38<br />

SER MÃE<br />

Pág<br />

56<br />

SINDICAL<br />

Pela igualdade<br />

de gênero<br />

Pág<br />

10<br />

Pequim+20<br />

Nadine Casman<br />

HOMENAGEM<br />

Pág<br />

42<br />

Mães em restrição<br />

de liberdade<br />

Uma mulher impossível<br />

Rose Marie Muraro<br />

SER MÃE<br />

Pág<br />

64<br />

Mãe coragem<br />

FEMINISMO<br />

Feminismo na<br />

América Latina<br />

Pág<br />

18<br />

ARTIGO<br />

Em Gaza, nada a<br />

comemorar<br />

Pág<br />

46<br />

ARTIGO<br />

Mães de Noronha<br />

Pág<br />

68<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


CAPA<br />

Pág<br />

72<br />

PERFIL<br />

Pág<br />

112<br />

Entre o mito e a realidade<br />

Dora Alves<br />

REALIDADE<br />

Pág<br />

80<br />

ENTREVISTA<br />

Pág<br />

100<br />

LITERATURA<br />

Pág<br />

116<br />

A vida no circo não<br />

é brincadeira<br />

Diversidade é assunto<br />

de criança<br />

Mara Evaristo<br />

Uma idealista do lixo<br />

VIOLÊNCIA<br />

Pág<br />

88<br />

AUTOESTIMA<br />

Pág<br />

107<br />

A gente tem uma força<br />

que desconhece<br />

EDUCAÇÃO<br />

Pág<br />

94<br />

Debaixo dos caracóis,<br />

muita história<br />

pra contar<br />

ARTIGO<br />

Muito além do feminino<br />

e do masculino<br />

Pág<br />

130<br />

Profissão docente:<br />

uma escolha de valor<br />

Pág<br />

132<br />

POUCAS E BOAS<br />

Pág<br />

134<br />

RETRATO<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


6<br />

Departamento de Comunicação do Sinpro Minas: comunicacao@sinprominas.org.br<br />

Diretores responsáveis: Aerton Silva e Marco Eliel de Carvalho;<br />

Editora/Jornalista responsável: Débora Junqueira (MG05150JP);<br />

Redação: Cecília Alvim (MG09287JP), Denilson Cajazeiro (MG09943JP),<br />

Nanci Alves (MG003152JP e Saulo Martins (MG15509JP);<br />

Programação visual/Diagramação: Mark Florest;<br />

Design Gráfico: Fernanda Lourenço e Mark Florest;<br />

Revisão: Aerton Silva e Maria Izabel Bebela Ramos<br />

Estagiária: Pollyana Bitencourt<br />

Foto capa: Lais Rodrigues (cigana Dara Amaral)<br />

Conselho Editorial: Antonieta Mateus, Clarice Barreto, Lavínia Rodrigues, Maria Izabel Bebela Ramos,<br />

Marilda Silva, Liliani Salum Moreira, Soraya Abuid, Terezinha Avelar e Valéria Morato.<br />

Impressão: EGL-Editores Gráficos Ltda - Tiragem: 2.000:<br />

Distribuição gratuita: Circulação dirigida<br />

REVISTA ELAS POR ELAS<br />

PUBLICAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE<br />

COMUNICAÇÃO DO SINPRO MINAS<br />

ANO VIII - Nº 8 - ABRIL DE <strong>2015</strong><br />

ACESSE AS EDIÇÕES ANTERIORES EM<br />

www.sinprominas.org.br<br />

<strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>elas</strong> - nº 7<br />

Diretoria Gestão 2012/2016<br />

Adelmo Rodrigues de Oliveira, Adenilson Henrique Gonçalves, Aerton de Paulo Silva, Albanito Vaz Júnior, Alessandra<br />

Cristina Rosa, Altamir Fernandes de Sousa, Ângelo Filomeno Palhares Leite, Aniel Pereira Braga Filho, Antonieta Shirlene<br />

Mateus, Antonio de Pádua Ubirajara e Silva, Antonio Sergio de Oliveira Kilson, Aparecida Gregório Evangelista, Aristides<br />

Ribas Andrade Filho, Benedito do Carmo Batista, Bruno Burgarelli Albergaria Kneipp, Carla Fenicia de Oliveira, Carlos<br />

Afonso de Faria Lopes, Carlos Magno Machado, Carolina Azevedo Moreira, Cecília Maria Vieira Abrahão, Celina Alves<br />

Padilha Arêas, César Augusto Machado, Clarice Barreto Linhares, Cláudia Cibele Souza Rodrigues, Clédio Matos de Carvalho,<br />

Clóvis Alves Caldas Filho, Daniel de Azevedo Teixeira, Débora Goulart de Carvalho, Décio Braga de Souza, Dimas<br />

Enéas Soares Ferreira, Diva Teixeira Viveiros, Edson de Oliveira Lima, Edson de Paula Lima, Eliane de Andrade, Erica<br />

Adriana Costa Zanardi, Estefania Fátima Duarte, Fábio dos Santos Pereira, Fábio Marinho dos Santos, Fátima Amaral<br />

Ramalho, Fernando Antonio Tomaz de Aquino Pessoa, Fernando Dias da Silva, Fernando Lucio Correia, Geraldo Magela<br />

Ribeiro, Gilson Luiz Reis, Gislaine dos Santos Silva, Grace Marisa Miranda de Paula, Haida Viviane Palhano Arantes,<br />

Heleno Célio Soares, Henrique Moreira de Toledo Salles, Humberto de Castro Passarelli, Idelmino Ronivon da Silva, João<br />

Francisco dos Santos, João Marcos Netto, Jones Righi de Campos, José Carlos Padilha Arêas, José Geraldo da Cunha,<br />

José Heleno Ferreira, José Mauricio Pereira, Josiana Pacheco da Silva Martins, Josiane Soares Amaral Garcia, Juliana<br />

Augusta Rabelo Souza, Laércio de Oliveira Silva, Lavínia Rosa Rodrigues, Liliam Faleiro Barroso Lourenço, Liliani Salum<br />

Alves Moreira, Luiz Antonio da Silva, Luiz Cláudio Martins Silva, Luiz Henrique Vieira Magalhães, Luliana de Castro Linhares,<br />

Marcelo José Caetano, Marco Eliel Santos de Carvalho, Marcos Gennari Mariano, Marcos Paulo da Silva, Marcos Vinicius<br />

Araújo, Maria Aparecida Penido de Freitas Zandona, Maria Célia da Silva Gonçalves, Maria Celma Pires do Prado Furlanetto,<br />

Maria da Conceição Miranda, Maria da Glória Moyle Dias, Maria das Graças de Oliveira, Maria Elisa Magalhães<br />

Barbosa, Maria Goretti Ramos Pereira, Maria Helena Pereira Barbosa, Maria Nice Soares Pereira, Marilda Silva, Marília<br />

Ferreira Lopes, Marisa Magalhães de Souza, Mateus Júlio de Freitas, Messias Simão Telecesqui, Miguel José de Souza,<br />

Miriam Fátima dos Santos, Moisés Arimateia Matos, Murilo Ferreira da Silva, Nalbar Alves Rocha, Nardeli da Conceição<br />

Silva, Neilon José de Oliveira, Nelson Luiz Ribeiro da Silva, Newton Pereira de Souza, Orlando Pereira Coelho Filho, Paulo<br />

Roberto Mendes da Silva, Paulo Roberto Vieira Junior, Pitágoras Santana Fernandes, Renata Titoneli de Aguiar, Renato<br />

César Pequeno, Rodrigo de Paula Magalhães Barbosa, Rodrigo Rodrigues Ferreira, Rogério Helvídio Lopes Rosa, Romário<br />

Lopes da Rocha, Rossana Abbiati Spacek, Rozana Maris Silva Faro, Sandra Lucia Magri, Sebastião Geraldo de Araújo,<br />

Simone Esterlina de Almeida Miranda, Siomara Barbosa Candian Iatarola, Sirlane Zebral Oliveira, Terezinha Lúcia de<br />

Avelar, Valdir Zeferino Ferreira Júnior, Valeria Nonata Teixeira, Valéria Peres Morato Gonçalves, Vera Lúcia Alfredo, Vera<br />

Lúcia Freitas Moraes, Wagner Ribeiro, Warley Oliveira Drumond, Wellington Teixeira Gomes<br />

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS<br />

SEDE: Rua Jaime Gomes, 198 - Floresta - CEP: 31015.240<br />

Fone: (31) 3115 3000 - Belo Horizonte - www.sinprominas.org.br<br />

SINPRO CERP - Centro de Referência dos Professores da Rede Privada<br />

Rua Tupinambás, 179 - Centro - Cep: 30.120-070 - BH - Tel: (31) 3274 5091<br />

sinprocerp@sinprominas.org.br<br />

SEDES REGIONAIS:<br />

Barbacena: Rua Francisco Sá, 60 - Centro, CEP: 36.200-068 - Fone: (32) 3331-0635; Cataguases: Rua Major Vieira,<br />

300 - sala 04 - Centro - CEP: 36.770-060 - Fone: (32) 3422-1485; Coronel Fabriciano: Rua Moacir D'Ávila, nº 45 -<br />

Bairro dos Professores - CEP: 35.170-014 - Fone: (31) 3841-2098; Di vinópolis: Av. Minas Gerais, 1.141 - Centro -<br />

CEP: 35.500-010 - Fone: (37) 3221-8488; Governador Valadares: Rua Benjamin Constant, n° 653/ Térreo, Centro -<br />

CEP: 35.010-060, Fone: (33) 3271-2458; Montes Claros: Rua Januária, 672 - Centro, CEP: 39.400-077 - Fone: (38)<br />

3221-3973; Paracatu: Rua Getúlio de Melo Franco, 345 - sala 14- Centro - CEP: 38.600-000 - Fone: (38) 3672 1830;<br />

Poços de Caldas: Rua Mato Grosso, nº 275 - Centro, CEP: 37.701-006 - Fone: (35) 3721-6204; Ponte Nova: Av.<br />

Dr. Otávio Soares, 41 - salas 326 e 328, Palmeiras - CEP: 35.430-229 - Fone: (31) 3817-2721; Pouso Alegre: Rua<br />

Dom Assis, 241 - Centro, CEP 37.550-000 - Fone: (35) 3423-3289; Sete Lagoas: Rua Vereador Pedro Maciel, 165 -<br />

A - Bairro Nossa Sra. das Graças - (Atendimento: Quartas-feiras - 8h às 17h - Fone: 93685999 - Fernanda);<br />

Teófilo Otoni: Rua Pastor Hollerbarch, 187/201 - Grão Pará, CEP: 39.800-148 - Fone: (33) 3523-6913;<br />

Uberaba: Rua Alfen Paixão,105 - Mercês, CEP: 38.060-230 - Fone: (34) 3332-7494; Uberlândia: Rua Olegário Maciel,<br />

1212 - Centro, CEP: 38.400-086 - Fone: (34) 3214-3566; Varginha: Av. Doutor Módena, 261 - Vila Adelaide,<br />

CEP: 37.010-190 - Fone: (35) 3221-1831.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


7<br />

RECONHECIMENTO<br />

<strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> recebe menção honrosa<br />

em prêmio nacional de jornalismo<br />

Em 2014, a revista <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong><br />

do Sinpro Minas esteve mais uma vez<br />

em evidência numa premiação nacional.<br />

A matéria “O parto é da mulher<br />

– movimentos denunciam a violência<br />

e propõe mudanças para promover o<br />

parto ativo e humanizado”, da jornalista<br />

Maria Cecília Alvim Guimarães,<br />

publicada na edição de 2013, recebeu<br />

uma menção honrosa no Prêmio Nacional<br />

de Jornalismo sobre Violência<br />

de Gênero.<br />

O prêmio, promovido pela Casa da<br />

Mulher Catarina e pela Rede Feminista<br />

de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos<br />

Reprodutivos, de Santa Catarina, contou<br />

com o apoio da Secretaria de Políticas<br />

Públicas para as Mulheres da<br />

Presidência da República. A premiação<br />

aconteceu no dia 16 de maio de 2014,<br />

em Florianópolis, juntamente com a<br />

abertura do Seminário Internacional<br />

sobre Mídia e Violência de Gênero.<br />

“Fico muito feliz com o reconhecimento<br />

desse trabalho que repercutiu<br />

na minha vida pessoal. O propósito da<br />

re<strong>por</strong>tagem foi evidenciar um tipo de<br />

violência contra a mulher, muito comum<br />

na atualidade, mas ainda pouco conhecida<br />

e combatida, a violência obstétrica.<br />

Com isso, colaborar com a conscientização<br />

das mulheres sobre o problema,<br />

a fim de que se tornem protagonistas<br />

de suas experiências de parto e assim,<br />

contribuir também com a perspectiva<br />

Premiação é comemorada em reunião do conselho editorial.<br />

de que é possível evitar condutas inadequadas<br />

na assistência ao parto”, explica<br />

Cecília Alvim. Após escrever a re<strong>por</strong>tagem,<br />

a jornalista passou pela experiência<br />

do parto natural.<br />

Foram inscritas 82 re<strong>por</strong>tagens e<br />

15 foram selecionadas entre os primeiros<br />

lugares de cada categoria, que receberam<br />

R$ 5.000, e as menções<br />

honrosas. O prêmio faz parte da Campanha<br />

“Jornalistas dão um ponto final<br />

na violência contra mulheres e meninas”,<br />

desenvolvida em outros países da<br />

América Latina e Caribe, incluindo o<br />

Brasil. De acordo com Clair Castilhos,<br />

secretária executiva da Rede Feminista<br />

de Saúde, a proposta da campanha é<br />

contribuir para que jornalistas possam<br />

olhar para o tema da violência de gênero<br />

com sensibilidade. “O objetivo da<br />

campanha é dialogar com jornalistas,<br />

de maneira que o tema não seja somente<br />

pautado nos meios de comunicação,<br />

mas que quando tratado,<br />

considere as relações de gênero, os aspectos<br />

culturais que estão ligados a<br />

todos os atos de violência contra meninas<br />

e mulheres”, destaca.ø<br />

MARK FLOREST<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


8<br />

HOMENAGEM<br />

POR SAULO ESLLEN MARTINS<br />

FOTO MARK FLOREST<br />

Exemplo de dedicação<br />

Celina Arêas recebe condecoração da Justiça do Trabalho<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


9<br />

A diretora do Sinpro Minas e da<br />

CTB nacional, Celina Alves Padilha<br />

Arêas, foi condecorada com a Ordem<br />

do Mérito Judiciário do Trabalho Ari<br />

Rocha em 2014. A medalha é uma iniciativa<br />

do Tribunal Regional do Trabalho<br />

de Minas Gerais (TRT-MG) – 3ª Região<br />

e destaca as personalidades que atuam<br />

de forma brilhante no mundo do trabalho.<br />

A indicação da professora e sindicalista<br />

mineira foi feita pelo desembargador<br />

do TRT/MG, Marcelo Lamego<br />

Pertence. Para ele, Celina é um exemplo<br />

de dedicação ao mundo do trabalho<br />

e ao trabalhador. “Seriedade, competência<br />

e compromisso são as premissas<br />

dessa medalha e essa mulher tem esse<br />

algo a mais que precisa ser ressaltado.<br />

Pessoa mais indicada não haveria para<br />

receber essa medalha”, frisou.<br />

Celina é sindicalista desde a década<br />

de 1980 e sua história é marcada pela<br />

luta em defesa dos direitos dos professores(as)<br />

e demais trabalhadores(as). Foi<br />

diretora de Comunicação Social da Contee,<br />

<strong>por</strong> duas gestões – de 1997 a<br />

2000 e de 2000 a 2003 – e também<br />

diretora de Assuntos Educacionais <strong>por</strong><br />

uma gestão, de 2006 a 2009.<br />

Nascida no Vale do Jequitinhonha,<br />

na cidade de Rubim/MG, começou a<br />

trabalhar como professora primária, lecionando<br />

Língua Portuguesa e Inglês.<br />

Veio para Belo Horizonte em 1972,<br />

quando começou a dar aulas também<br />

no setor privado. Filiou-se ao PCdoB<br />

em 1973, com o partido na clandestinidade,<br />

e em 1977 ingressou na militância<br />

sindical, participando da onda<br />

grevista que ocupou o país em 1979.<br />

Sua caminhada junto aos professores<br />

culminou em dois mandatos como presidenta,<br />

nas gestões entre 1995 a 2000.<br />

A desembargadora Maria Laura Franco<br />

Lima de Faria, presidente do TRT-<br />

MG, destacou a im<strong>por</strong>tância do momento<br />

como a o<strong>por</strong>tunidade de reverenciar<br />

os “cidadãos e entidades que<br />

prestam relevantes serviços ao bem comum<br />

e que contribuem ou contribuíram<br />

com ações de engrandecimento da Justiça<br />

do Trabalho e promoção das instituições<br />

livres e da democracia”.<br />

Para a vice-presidenta do Sinpro<br />

Minas, Valéria Morato, a homenagem<br />

representa o reconhecimento do trabalho<br />

do sindicato dos professores na<br />

pessoa da Celina. “Ela é uma grande<br />

lutadora, foi presidente do Sinpro numa<br />

época em que as mulheres ainda encontravam<br />

muitas dificuldades para<br />

ocupar espaços de poder e nem <strong>por</strong><br />

isso deixou de lutar pela categoria e<br />

<strong>por</strong> melhores condições de vida para<br />

os trabalhadores. Assim, é uma honra<br />

para todos nós essa homenagem do<br />

Tribunal do Trabalho”.<br />

De acordo com Celina, a medalha<br />

é de extrema im<strong>por</strong>tância para o sindicalismo<br />

mineiro e nacional, <strong>por</strong>que<br />

reconhece o trabalho coletivo que vem<br />

sendo feito: “essa medalha não é individual,<br />

ela sintetiza o trabalho do sindicato<br />

dos professores, da Central dos<br />

Trabalhadores e Trabalhadoras (CTB)<br />

e de outras entidades das quais participamos.<br />

Eu vou levar essa honraria<br />

como um prêmio à luta coletiva dos<br />

trabalhadores <strong>por</strong> uma sociedade mais<br />

justa, humana e igualitária”.<br />

Você ocupa cargos de destaque<br />

no sindicalismo, fato que a maioria<br />

das mulheres não alcança. O que é<br />

preciso para que as mulheres consigam<br />

superar o machismo e ocupar<br />

os espaços de poder?<br />

Quando participei pela primeira vez<br />

da direção do Sindicato dos Professores<br />

do Estado de Minas Gerais já atuava na<br />

luta política e sindical. A minha história<br />

confunde-se com a luta <strong>por</strong> mais liberdade,<br />

democracia e direitos iguais entre<br />

homens e mulheres. Desde minha vida<br />

estudantil. Nem sempre estive em cargos<br />

de “poder”. Na primeira vez que participei<br />

da diretoria do Sinpro Minas era<br />

suplente. Penso que espaço se conquista<br />

com muita luta e coerência. Devemos<br />

ter convicção que a luta pela emancipação<br />

da mulher é uma luta de classe.<br />

Não é fácil ocupar lugar de destaque<br />

no regime capitalista. Somos maioria<br />

da sociedade e não somos maioria em<br />

nenhuma instância de poder.<br />

Na sua opinião, quais iniciativas<br />

podem ser eficazes para romper as<br />

barreiras de gênero no movimento<br />

sindical?<br />

As mulheres não devem ter medo<br />

de errar. Devem ter confiança em si e<br />

cuidar da formação ideológica, além<br />

de vencer a timidez e sempre cuidar<br />

da autoestima.<br />

Você acha que quando há mulheres<br />

na direção, as questões de<br />

gênero ganham mais ênfase nas políticas<br />

do sindicato?<br />

Não. Penso que não basta ser mulher,<br />

negro ou pobre. Precisamos sim,<br />

ganhar, no local em que atuamos, a<br />

convicção de que a luta <strong>por</strong> direitos<br />

iguais é cotidiana.<br />

Você já sofreu algum preconceito<br />

<strong>por</strong> ser mulher, dentro do movimento<br />

sindical?<br />

Já. Principalmente pelo patronal.<br />

Quanto aos companheiros sindicalistas,<br />

de uma forma velada, são muitos educados,<br />

mas na maioria das vezes se julgam<br />

mais capazes, mais preparados<br />

do que nós.ø<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


10<br />

foto SAULO ESLLEN MARTINS<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


11<br />

SINDICAL<br />

POR DÉBORA JUNQUEIRA<br />

Pela igualdade de gênero<br />

Mesmo sub-representadas, as trabalhadoras superam<br />

desafios e buscam mais espaços de poder<br />

Em contraste com a crescente participação<br />

das mulheres no mundo do<br />

trabalho, que representa 50% da população<br />

economicamente ativa, a luta<br />

sindical ainda é marcadamente masculina.<br />

É o que se pode constatar através<br />

de pesquisas sobre as mulheres no<br />

mercado de trabalho e no movimento<br />

sindical. O que se vê é que a desigualdade<br />

de gênero, presente principalmente<br />

nos espaços de poder, se repete<br />

nas instituições que atuam em defesa<br />

dos/das trabalhadores/as.<br />

Conforme levantamento do Dieese,<br />

feito em 2009, a mulher não tem assento<br />

em 26% das diretorias de sindicatos,<br />

sejam urbanos ou rurais. E mesmo<br />

quando está presente, a participação<br />

da mulher ainda é bem menor que a<br />

do homem. No topo da representação<br />

sindical, ou seja, nas centrais sindicais,<br />

as mulheres representam apenas<br />

21,18% de suas diretorias.<br />

“A pesar da sub-representação nas<br />

direções, nos cargos decisórios das entidades<br />

sindicais, a participação das<br />

mulheres têm pavimentado uma estrada<br />

que é longa e íngreme, haja vista, a<br />

conquista de secretarias da mulher na<br />

maioria dos sindicatos, federações, confederações<br />

e centrais sindicais”, garante<br />

a dirigente da Central dos Trabalhadores<br />

e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Raimunda<br />

Gomes, mais conhecida como<br />

Doquinha. Na CTB, foi estabelecida a<br />

cota de 30% de gênero em todos os<br />

cargos e instâncias de direção, conforme<br />

seu Estatuto Social e resolução aprovada<br />

no 1º encontro nacional de mulheres<br />

da CTB. “É uma exigência o seu cumprimento<br />

e orientamos que os sindicatos<br />

filiados à central apliquem o dispositivo<br />

estatutário”, afirma. (Leia a entrevista)<br />

“a mulher não<br />

tem assento em<br />

26% das diretorias<br />

de sindicatos,<br />

sejam urbanos<br />

ou rurais”.<br />

As mulheres são mais de 50% entre<br />

os/as professores/as do ensino superior,<br />

71% no ensino médio e 85% no ensino<br />

fundamental, de acordo com dados da<br />

pesquisa do Ministério da Educação,<br />

realizada em abril de 2010. Mesmo na<br />

categoria de trabalhadores/as em educação,<br />

majoritariamente feminina, essa<br />

representatividade ainda não se reflete<br />

nas organizações sindicais educacionais.<br />

Segundo pesquisa realizada pela Confederação<br />

Nacional dos Trabalhadores<br />

em Estabelecimentos de Ensino (Contee),<br />

em 2011, entre os 1838 dirigentes que<br />

formam as diretorias das 81 entidades<br />

filiadas à Confederação, 60,07% são<br />

homens e 39,93% mulheres. A diferença<br />

torna-se ainda mais expressiva quando<br />

se foca na participação das sindicalistas<br />

nos cargos de presidência e coordenação<br />

das entidades. Nestes casos, os homens<br />

ocupam 78% dos postos de mais poder<br />

na direção das entidades. Nos sindicatos<br />

da região sudeste, 422 são homens<br />

(58,6%) e 297 (41,4%) são mulheres.<br />

Nas federações de trabalhadores/as<br />

em educação ligadas à Contee, a situação<br />

não é diferente. Um levantamento de<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


12<br />

gênero feito nessas entidades mostra<br />

que dos 218 dirigentes, 153 são homens<br />

(70,2%) e 65 mulheres (29,8%).<br />

“Existem diversos fatores que impedem<br />

ou dificultam a participação das<br />

mulheres nas esferas públicas, seja a<br />

questão da dupla jornada de trabalho,<br />

a segmentação das mulheres em atividades<br />

ou funções ditas femininas, as<br />

disparidades salariais e a ausência de<br />

políticas públicas como creches, entre<br />

outras. Entretanto, através da nossa vivência,<br />

e de conversas com diversas<br />

companheiras, podemos observar a falta<br />

de incentivo, seja através de discursos<br />

ou de práticas, que não favorecem o<br />

rompimento dessas barreiras”, afirma<br />

a professora Nara Teixeira, dirigente<br />

da Contee, em artigo sobre a pesquisa<br />

de gênero feita pela entidade.<br />

MARK FLOREST<br />

Sindicalistas mineiras<br />

Na base do Sinpro Minas, que representa<br />

os/as professores/as das escolas<br />

particulares de Minas Gerais, exceto<br />

Juiz de Fora, há 42.342 mulheres<br />

(67%) e 20.935 (33%) homens, entre<br />

os/as professores/as sindicalizados/as.<br />

A representação na diretoria eleita<br />

para a gestão 2012/2016 composta<br />

<strong>por</strong> 129 dirigentes, 54 são mulheres<br />

(41,8%) e 75 são homens (58,2%).<br />

Para a vice-presidenta do Sinpro<br />

Minas, Valéria Morato (foto), o problema<br />

da desigualdade de gênero não é exclusivo<br />

do movimento sindical. Ela também<br />

entende que é uma questão que<br />

afeta as mulheres nos espaços de poder<br />

em geral. “A participação na vida pública,<br />

em qualquer tipo de militância,<br />

nos ocupa nos horários não convencionais,<br />

exigindo a nossa participação<br />

à noite e nos finais de semana. Não é<br />

fácil para as mulheres conciliar as atividades<br />

políticas e a vida familiar. Com<br />

a predominância dos homens, é mais<br />

difícil para a mulher ocupar os espaços<br />

decisórios. As mulheres têm que se esforçar<br />

mais que os homens para se estabelecer.<br />

Quando agem de forma mais<br />

firme são criticadas, se não se impõem,<br />

são consideras ‘mulherzinhas’, avalia.<br />

Valéria conta que quando entrou<br />

no movimento sindical, há 12 anos,<br />

não tinha a dimensão do trabalho<br />

dentro do sindicato. “O trabalho nos<br />

envolve 24 horas. Não tive medo de<br />

mudar a minha vida pessoal para me<br />

adaptar, mas entendo que muitas mulheres<br />

têm dificuldade de fazer isso,<br />

<strong>por</strong>que dentro de uma sociedade machista<br />

o espaço privado ainda é considerado<br />

prerrogativa da mulher e somos<br />

cobradas quando não o assumimos<br />

dentro dessa cultura”.<br />

É consenso que a ausência de mulheres<br />

nos espaços de poder e de decisão<br />

significa um déficit na democracia<br />

e uma dívida da sociedade em relação<br />

às mulheres. A representação política<br />

e sindical é fundamental para se avançar<br />

na construção de uma sociedade mais<br />

democrática e mais igualitária. É o que<br />

também reforça a vereadora e sindicalista<br />

Vera Lúcia Alfredo.<br />

Vera iniciou sua militância política<br />

na juventude quando participava da diretoria<br />

do DCE na faculdade. Em 1979,<br />

período im<strong>por</strong>tante do movimento sindical,<br />

entrou para a diretoria do Sindicato<br />

dos Trabalhadores em Educação<br />

(SindUTE-MG) e em 2007, como professora<br />

de escola privada, passou a participar<br />

da diretoria do Sinpro Minas. Em<br />

sua trajetória, ela conta que foi rotulada<br />

de “largada”, “comunista” e até ouviu<br />

que sua militância política era uma fuga<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


13<br />

da obrigação com os serviços domésticos.<br />

Para seguir em frente, ela teve que<br />

superar várias barreiras para assumir a<br />

tripla jornada de uma mulher sindicalista.<br />

“Dava aula, fazia faculdade, cuidava<br />

da casa, marido e filhos e ainda<br />

participava de reuniões, assembleias e<br />

greves. Muitas vezes, levava as crianças<br />

junto comigo, que dormiam nos sofás<br />

do sindicato, nem sempre preparado<br />

para acolher as mulheres e suas necessidades.<br />

Quando eu chegava em casa,<br />

o meu marido reclamava muito. O fim<br />

do casamento foi inevitável, mas não<br />

me arrependo, gosto do que faço e me<br />

sinto realizada”, afirma. Por outro lado,<br />

Vera diz que nunca sentiu preconceito<br />

<strong>por</strong> ser mulher dentro do sindicato.<br />

“Não me intimido com os homens e sei<br />

me im<strong>por</strong>”, declara.<br />

Se as entidades de classe do movimento<br />

sindical de trabalhadores lutam<br />

<strong>por</strong> mais democracia, diversidade e<br />

emancipação feminina, a pergunta que<br />

se faz é se há apoio à maior participação<br />

da mulher nas diretorias, seja <strong>por</strong> meio<br />

de cursos de formação política ou em<br />

outras formas de atuação que possibilitem<br />

a inserção das mulheres nos espaços<br />

de poder. Tema que instiga e<br />

merece uma investigação mais ampla.<br />

“Muitas vezes,<br />

levava as crianças<br />

junto comigo, que<br />

dormiam nos sofás<br />

do sindicato”.<br />

Atuação das<br />

mulheres no<br />

movimento sindical<br />

é invisibilizada<br />

No artigo Práticas Invisíveis: o Movimento<br />

Feminista e o Sindicalismo<br />

no Brasil, de Luanda de Oliveira Lima,<br />

mestranda em Sociologia da Universidade<br />

Federal do Rio de Janeiro –UFRJ,<br />

disponível na internet (https://strabalhoegenero.cienciassociais.ufg.br/up/24<br />

5/o/LUANDA.pdf), a autora faz uma<br />

análise sobre a participação feminina<br />

nos movimentos de trabalhadores no<br />

Brasil. O trabalho da pesquisadora mostra<br />

que, apesar da intensa participação<br />

das mulheres na vida sindical e nos movimentos<br />

sociais no país, essa atuação<br />

é igualmente invisibilizada e marcada<br />

pelo falocentrismo, o que influencia na<br />

forma como essa história é ‘‘contada”.<br />

O texto recorda que, no final do<br />

século XIX, embora as mulheres fossem<br />

grande parte da classe trabalhadora,<br />

<strong>elas</strong> não eram bem vindas nos sindicatos.<br />

Contudo sempre estiveram presentes<br />

no movimento operário e sindical<br />

brasileiro, inclusive em momentoschave<br />

como na greve geral de 1917,<br />

que começou com tecelãs que reclamavam<br />

dos abusos sexuais cometidos<br />

pelos capatazes e das más condições<br />

de trabalho.<br />

Lutaram pela incor<strong>por</strong>ação de alguns<br />

de seus direitos na Consolidação das<br />

Leis do Trabalho – CLT – em 1937, e<br />

conseguiram garantir alguns im<strong>por</strong>tantes,<br />

como da proteção à maternidade<br />

e da igual remuneração. Em 1968,<br />

nas greves de Contagem e Osasco,<br />

marcos da resistência no período da<br />

ditadura, é possível observar a partici-<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


14<br />

pação de mulheres dirigentes sindicais.<br />

Na década de 1970, com o aumento<br />

da força de trabalho feminina, houve<br />

também um significativo aumento das<br />

mulheres sindicalizadas, índice que era<br />

superior ao aumento da sua participação<br />

no mercado de trabalho.<br />

Ainda segundo o artigo, o mundo<br />

do trabalho viveu nas décadas de<br />

1980 e 1990 momentos antagônicos.<br />

No Brasil, a década de 1980 é marcada<br />

pela redemocratização, pela<br />

intensa participação popular e pela<br />

expansão do movimento sindical, que,<br />

com mais de 700 greves vive sua<br />

“época de ouro” (SANTANA, 2004).<br />

A luta pela democratização das relações<br />

de gênero persistiu e, com a<br />

Constituição Federal de 1988, as<br />

mulheres conquistaram im<strong>por</strong>tantes<br />

vitórias no patamar político e jurídico.<br />

Nas greves da década de 1980, como<br />

na greve de 1988, em Volta Redonda,<br />

as mulheres atuaram não só como<br />

apoio, mas também ativamente nas<br />

mobilizações, articulações e divulgação<br />

do movimento grevista.<br />

Já na década de 1990, a “década<br />

neoliberal”, o mundo do trabalho vive<br />

sua fase de enxugamento, com a reestruturação<br />

produtiva, a flexibilização e<br />

a precarização do emprego os sindicatos<br />

se fragmentam, aumentando as<br />

dificuldades e as barreiras para ampliar<br />

a participação e as conquistas das trabalhadoras.<br />

A autora defende a necessidade<br />

uma atuação conjunta e articulada da<br />

classe trabalhadora para garantir a<br />

aplicação das Convenções 100 e 111<br />

da Organização Internacional do Trabalho<br />

– OIT, respectivamente acerca<br />

do salário igual para trabalho igual e<br />

sobre a igualdade de o<strong>por</strong>tunidades<br />

entre homens e mulheres no mercado<br />

de trabalho.<br />

Ela conclui que a luta das mulheres<br />

sempre esteve diretamente ligada à<br />

luta dos trabalhadores, no entanto,<br />

parece estar invisível, como se estivesse<br />

escondida sob uma “dominação<br />

masculina” (BOURDIEU, 1999). Na<br />

sociedade contem<strong>por</strong>ânea a ideologia<br />

predominante ainda é marcada <strong>por</strong><br />

uma visão masculinizada na qual a<br />

imagem feminina é um estereótipo<br />

sem voz (SOUZA-LOBO, 1991), a<br />

maioria dos movimentos, seja sindical,<br />

popular ou partidário, reproduz, de<br />

alguma forma, essa ideologia.<br />

INTERNET<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


15<br />

Pela primeira vez,<br />

SAAEMG tem<br />

uma mulher na<br />

presidência<br />

O Sindicato dos Auxiliares de Administração<br />

Escolar (SAAEMG), com<br />

33 anos de existência e 60% de mulheres<br />

na base, nunca havia sido presidido<br />

<strong>por</strong> uma mulher. No dia 13 de<br />

dezembro de 2014, o SAAEMG começou<br />

a escrever uma nova história<br />

com a posse da advogada Rogerlan<br />

Augusta de Morais (foto).<br />

Rogerlan, 46 anos, é a quinta presidente<br />

do sindicato. Antes de assumir a<br />

presidência, coordenou o Departamento<br />

Jurídico durante 12 anos. Rogerlan<br />

também fez parte da diretoria da Central<br />

dos Trabalhadores e Trabalhadoras do<br />

Brasil (CTB/MG) como secretária geral<br />

até 2013. Hoje ocupa o cargo na diretoria<br />

plena da CTB Nacional.<br />

<strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Como você vê a<br />

atuação das mulheres no movimento<br />

sindical dos Auxiliares de Administração<br />

Escolar?<br />

Somos a maioria da população, somos<br />

a maioria de trabalhadores nas<br />

instituições de ensino (em torno de<br />

60%) e, para o mandato de 2014/2018<br />

a categoria elegeu pela primeira vez<br />

uma mulher para presidir o SAAEMG.<br />

Neste mandato representamos percentual<br />

de 42% de mulheres na diretoria e<br />

conselho fiscal. A pretensão é que a<br />

representação de gênero seja de 50%<br />

o que, entendemos, confere maior legitimidade<br />

e equidade na condução da<br />

entidade sindical.<br />

O SAAEMG, em várias o<strong>por</strong>tunidades,<br />

tem ressaltado a im<strong>por</strong>tância da<br />

mulher para a categoria e incentivado<br />

sua participação nas demandas do sindicato<br />

e registrado que é um direito dela<br />

assumir essa bandeira, que a sociedade<br />

(machista) não faz nenhum favor em<br />

apoiá-las. Aliás, é um dever já que lutamos<br />

<strong>por</strong> direitos iguais em todas as<br />

áreas e sabemos da dedicação e influência<br />

da mulher na formação da<br />

sociedade em todos os níveis, familiar e<br />

profissional.<br />

Você acredita que há preconceito<br />

de gênero, mesmo numa categoria<br />

majoritariamente feminina?<br />

O aumento da participação feminina<br />

nos postos de trabalho viabilizou<br />

as demandas de igualdade de gênero<br />

também no meio sindical, que antes<br />

era predominantemente masculino.<br />

Infelizmente, ainda há preconceito que<br />

não se manifesta abertamente (já que<br />

se tornou politicamente incorreto <strong>por</strong>menorizar<br />

a mulher). Isso ainda ocorre<br />

<strong>por</strong> meio de piadinhas que ao serem<br />

contestadas p<strong>elas</strong> mulheres, são justificadas<br />

como uma brincadeira inocente<br />

pelos homens. Sabemos que, no<br />

fundo, é preconceito sim. Na nossa ca -<br />

te goria esse preconceito não é tão<br />

acentuado, pois a maioria são mulheres<br />

que, a cada dia, mais se apoderam<br />

do seu espaço de forma natural e<br />

consciente.<br />

A pretensão é que, agora, com<br />

maior número de mulheres na diretoria,<br />

possamos criar uma secretaria ou diretoria<br />

de políticas para mulheres. Dessa<br />

forma, teremos condições de pensar a<br />

mulher no mundo do trabalho e no<br />

meio sindical, discutindo e desenvolvendo<br />

atividades que valorizem e defendam<br />

ainda mais sua im<strong>por</strong>tância na<br />

sociedade.<br />

FOTO CRÉDITO<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


16<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

ENTREVISTA<br />

RAIMUNDA GOMES<br />

“Não há igualdade<br />

de o<strong>por</strong>tunidade<br />

para a mulher<br />

exercer o poder”<br />

Para a professora e dirigente da<br />

Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras<br />

do Brasil (CTB), Raimunda Gomes<br />

(Doquinha), que já esteve à frente da<br />

Secretaria de Mulheres da entidade, a<br />

luta não é só de uma classe contra<br />

outra, ela é também de gênero, raça e<br />

orientação sexual. Segundo ela, no<br />

caso especifico das mulheres, está comprovado<br />

que <strong>elas</strong> possuem a mesma<br />

capacidade política e administrativa<br />

dos homens, o que lhes falta é igualdade<br />

de o<strong>por</strong>tunidade para exercer o poder.<br />

Ela afirma que ao romper com o<br />

estereotipo de passiva e subserviente e<br />

assumir o espaço público, as mulheres<br />

disputam com seus próprios companheiros<br />

homens e também com as<br />

próprias mulheres, que <strong>por</strong> falta de<br />

compreensão do papel da mulher na<br />

sociedade patriarcal, acabam reproduzindo<br />

a discriminação contra a mulher<br />

no movimento sindical, criando armadilhas<br />

para as mulheres não ascenderem<br />

politicamente.<br />

Doquinha acredita que há um jeito<br />

masculino e outro feminino de fazer<br />

sindicalismo. “Os homens pensam mais<br />

na universalidade das lutas e as mulheres<br />

pensam para além disso, <strong>elas</strong> conciliam<br />

a pauta geral do movimento sindical<br />

com as especificidades que brotam das<br />

questões subjetivas da luta, principalmente<br />

em relação à sua condição no<br />

mundo do trabalho”, afirma. Confira<br />

a entrevista.<br />

<strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong>: Como você avalia<br />

a participação das mulheres no movimento<br />

sindical?<br />

Determinante no processo de democratização<br />

dos espaços e valorização<br />

das opiniões que as mulheres possuem<br />

acerca dos mais diversos assuntos, principalmente<br />

seus direitos no mundo do<br />

trabalho. A pesar da sub-representação<br />

nas direções, nos cargos decisórios das<br />

entidades sindicais, a participação das<br />

mulheres tem pavimentado uma estrada<br />

que é longa e íngreme, haja vista, a<br />

conquista de secretarias da mulher na<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


17<br />

maioria dos sindicatos, federações, confederações<br />

e centrais sindicais.<br />

Na CTB, há alguma resolução sobre<br />

paridade de gênero ou cotas nas<br />

gestões dos sindicatos?<br />

Na CTB, a cota de 30% de gênero<br />

em todas os cargos e instâncias de direção,<br />

é cláusula pétrea, nasceu com a<br />

central, somos uma Central Sindical de<br />

Trabalhadores e Trabalhadoras, está em<br />

seu Estatuto Social e, na resolução aprovada<br />

no 1º Encontro Nacional de Mulheres<br />

da CTB, é uma exigência o seu<br />

cumprimento. Orientamos que os sindicatos<br />

filiados à central apliquem o dispositivo<br />

estatutário.<br />

Sobre a paridade, eu diria que o assunto<br />

ainda precisa de debate no interior<br />

da central, para ser de fato uma conquista<br />

e não uma imposição, a paridade exige<br />

que os homens também estejam convencidos<br />

da legitimidade do pleito, e<br />

não apenas apoiem, mas, fundamentalmente,<br />

entendam que para as mulheres<br />

atuarem paritariamente, implicaria em<br />

uma mudança de postura e mentalidade.<br />

Você acredita que no sindicalismo<br />

as mulheres no poder precisam provar<br />

sua capacidade política e que as exigências<br />

são maiores do que com os<br />

homens?<br />

Tem sido a tônica até então, aos<br />

homens o direito de aprender fazendo<br />

e até errar, às mulheres o dever de<br />

fazer certo, com perfeição, o que é<br />

muito injusto, <strong>por</strong>que a condição militante<br />

é extremamente diferente entre<br />

homens e mulheres. O cenário é mais<br />

desfavorável às mulheres, pela construção<br />

histórica do seu papel cultuado pela<br />

sociedade machista e patriarcal, que<br />

lhe reserva como locus de atuação o<br />

espaço privado para um ser conciliador,<br />

passivo e subserviente, o que, <strong>por</strong> si<br />

só, já caracteriza discriminação de gênero.<br />

Ao romper com esse estereótipo<br />

e assumir o espaço público, as mulheres<br />

disputam com seus próprios companheiros,<br />

os homens, e são eles em<br />

maior quantidade, mas também as próprias<br />

mulheres, <strong>por</strong> falta de compreensão<br />

do papel da mulher na sociedade patriarcal,<br />

que reproduzem a discriminação<br />

contra a mulher no movimento sindical,<br />

criando armadilhas para as mulheres<br />

não ascenderem politicamente.<br />

Em síntese, a luta não é só de uma<br />

classe contra outra, ela é também de<br />

gênero, raça e orientação sexual, essas<br />

ditas minorias, não aceitam mais serem<br />

tratadas como alguém que precisa de<br />

outro para lhe defender, estão na condição<br />

de protagonistas da própria luta.<br />

No caso específico das mulheres, está<br />

comprovado que possuem a mesma<br />

capacidade política e administrativa<br />

dos homens, o que lhes falta é o<strong>por</strong>tunidade<br />

e igualdade de o<strong>por</strong>tunidade<br />

para exercer o poder.<br />

Na sua opinião, há um jeito ou<br />

um estilo diferente entre as mulheres<br />

quando <strong>elas</strong> participam do movimento<br />

sindical ou estão na liderança dessas<br />

entidades?<br />

Com certeza, como já dizia Elizabeth<br />

Souza Lobo, há jeito masculino e um<br />

jeito feminino de fazer sindicalismo, os<br />

homens pensam mais na universalidade<br />

das lutas, as mulheres pensam para<br />

além da universalidade, <strong>elas</strong> conciliam a<br />

pauta geral do movimento sindical com<br />

as especificidades que brotam das questões<br />

subjetivas da luta, principalmente,<br />

em relação à sua condição no mundo<br />

do trabalho.<br />

Pela sua própria condição e feminilidade<br />

as mulheres quando assumem<br />

as direções das entidades criam ou recriam<br />

ambientes que possibilitem maior<br />

conforto e interlocução na relação de<br />

gênero, ampliam a participação das<br />

mulheres e pautam nas negociações<br />

tanto salariais como políticas as questões<br />

específicas do universo feminino. Óbvio,<br />

que muitas mulheres ainda reproduzem<br />

o pensamento machista ocasionado<br />

pela ausência de formação política que<br />

possibilita a consciência de classe e<br />

gênero. De modo geral, as mulheres<br />

são bastante comprometidas com a<br />

democratização dos espaços e formação<br />

de novas lideranças.ø<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


foto UNE


Feminismo<br />

na América<br />

Latina<br />

19<br />

FEMINISMO<br />

POR SAULO ESLLEN MARTINS<br />

Uma nova geração de lutadoras ganha<br />

espaço nos movimentos sociais e políticos<br />

Inspiradas p<strong>elas</strong> mulheres<br />

que, pela liberdade feminina,<br />

queimaram sutiãs em praça<br />

pública, lutaram pelo direito<br />

ao voto e a favor do uso de<br />

contraceptivos, <strong>elas</strong> estão na<br />

cidade, no campo, escolas e<br />

empresas, demonstrando o<br />

seu poder. A exemplo das feministas<br />

que fizeram história<br />

em várias partes do mundo,<br />

ganha força uma nova geração<br />

de mulheres que lutam pela<br />

emancipação feminina.<br />

São jovens, inteligentes, trabalhadoras<br />

e engajadas em movimentos<br />

sociais e políticos.<br />

Esse é um pequeno perfil das feministas<br />

que surgem na América Latina.<br />

Muitas d<strong>elas</strong> não militam diretamente<br />

em movimentos, essencialmente de<br />

gênero, mas onde atuam defendem a<br />

bandeira da igualdade de direitos entre<br />

mulheres e homens.<br />

A partir do olhar de mulheres em<br />

quatro países: Brasil, Argentina, Nicarágua<br />

e Venezuela, é possível traçar<br />

um quadro da atuação feminista contem<strong>por</strong>ânea<br />

no continente. <strong>Elas</strong> representam<br />

seus países e orga -<br />

nizações, todavia, também são as<br />

vozes de muitas estudantes, sindicalistas,<br />

artistas, jornalistas e outras cidadãs<br />

que compartilham desejos comuns,<br />

entre eles a vontade de viver em<br />

um mundo mais igualitário e menos<br />

preconceituoso. Cada uma, a seu<br />

modo, imprime uma nova maneira de<br />

ser feminista. De toda forma, não estão<br />

só nos bastidores, são protagonistas e<br />

recebem os holofotes do trabalho que<br />

desenvolvem.<br />

Mulheres diferentes, que atuam em<br />

culturas distintas, mas que compartilham<br />

muitos sonhos em comum. Amantes<br />

da liberdade, defensoras da equidade<br />

de gênero, feministas <strong>por</strong> essência e<br />

trajetória. Escritoras de suas próprias<br />

histórias. Falam <strong>por</strong> <strong>elas</strong> mesmas o<br />

que pensam sobre o contexto político<br />

e a luta feminista em seus países.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


20<br />

Virgínia Barros<br />

Movimento estudantil<br />

Presidenta da União Nacional dos<br />

Estudantes no Brasil, cursou a faculdade<br />

de Direito, em Recife. Foi presidenta da<br />

União Estadual dos Estudantes daquele<br />

estado. É militante da União da Juventude<br />

Socialista (UJS) e do Partido Comunista<br />

do Brasil (PCdoB).<br />

ARQUIVO UNE<br />

O movimento estudantil é uma escola<br />

capaz de ampliar a nossa visão da educação<br />

e o nosso entendimento sobre o<br />

Brasil. Eu sempre senti que o conhecimento<br />

assimilado na sala de aula tem<br />

limites. Temos mais possibilidades de<br />

entender a sociedade a partir do momento<br />

em que incor<strong>por</strong>amos a luta dos<br />

movimentos sociais. Daí em diante,<br />

cria-se a possibilidade de compreender<br />

e interferir nos rumos da sociedade.<br />

Na história brasileira, podemos fazer<br />

referência a uma série de mulheres<br />

que se destacaram pela luta política e<br />

social. Contudo, uma, em especial, é<br />

a Patrícia Galvão (Pagu). Foi uma das<br />

figuras mais im<strong>por</strong>tantes do modernismo<br />

brasileiro. Através da arte e da militância<br />

política, ela contribuiu para um<br />

país melhor. É uma mulher que me<br />

inspirou com sua rebeldia e sensibilidade.<br />

É uma história que deve ser contada<br />

para as próximas gerações.<br />

Outra mulher que provocou mudanças<br />

na forma de participação das<br />

brasileiras na política é a presidenta<br />

Dilma. Ela tem uma trajetória marcante,<br />

desde a juventude, quando resistiu de<br />

forma tão brava à ditadura militar.<br />

Abriu <strong>por</strong>tas para que muitas outras<br />

possam percorrer esse caminho.<br />

Ainda existe resistência à participação<br />

das mulheres em diversos espaços<br />

de poder. Isso acontece no ambiente<br />

das universidades, no ramo empresarial,<br />

na área científica e também na política.<br />

As mulheres que se destacam nas esferas<br />

de poder, infelizmente, ainda sofrem<br />

preconceito. Só que cada vez<br />

mais mulheres têm vencido essas barreiras<br />

e contribuído para naturalizar a<br />

presença feminina nesses espaços.<br />

As universidades brasileiras ainda<br />

reproduzem as contradições sociais. A<br />

estrutura destas instituições de ensino<br />

ainda não está adaptada para a nossa<br />

presença. Isso faz com que ainda tenhamos<br />

casos de violência de gênero<br />

nestes espaços. A violência é um braço<br />

do machismo, mas não é o único.<br />

Ainda temos muito a avançar na luta<br />

feminista em nosso país.<br />

Eu me considero uma feminista e a<br />

UNE é uma entidade feminista. Nós<br />

temos objetivos gerais em torno do<br />

curso da luta política brasileira, em especial,<br />

no debate sobre a universidade.<br />

Consideramos que não é possível debater<br />

a sociedade brasileira sem inserir<br />

nesse contexto a luta pela emancipação<br />

das mulheres.<br />

Ser feminista é compreender que<br />

homens e mulheres devem ter direitos<br />

iguais e o<strong>por</strong>tunidades compatíveis<br />

para desenvolver suas potencialidades.<br />

É somar à luta para fazer com que as<br />

mulheres possam estar em um campo<br />

que é seu de direito. Ser protagonista<br />

na sociedade, sem nenhum tipo de resistência<br />

e preconceito de gênero, classe,<br />

orientação sexual ou raça. É lutar<br />

<strong>por</strong> uma sociedade igualitária.<br />

Diana Broggi<br />

Movimentos populares<br />

Graduada em psicologia, milita no<br />

movimento Popular Pátria Grande da<br />

Argentina e na Associação dos Trabalhadores<br />

do Estado. Foi integrante da<br />

Direção das Políticas de Gênero da cidade<br />

de La Plata, província de Buenos<br />

Aires.<br />

Na América Latina, as expressões<br />

dos movimentos de mulheres e feministas<br />

são heterogêneas e amplas. O<br />

processo histórico do feminismo não<br />

é o mesmo na Venezuela, Argentina,<br />

Brasil ou Nicarágua. Contudo, ainda<br />

assim, com as diferenças e origens<br />

próprias em cada território, há um<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


21<br />

dado inegável que é o avanço na organização<br />

e o crescimento do movimento<br />

feminista em nossos países. Isso tem<br />

um impacto integral, na medida em<br />

que incor<strong>por</strong>amos a luta das mulheres<br />

em todos os movimentos. Um exemplo<br />

claro disso é a Marcha Mundial de Mulheres,<br />

da qual somos parte junto a<br />

outras organizações na Argentina. Estrategicamente<br />

nos reunimos desde a<br />

perspectiva feminista na luta contra a<br />

mercantilização dos nossos corpos e a<br />

exploração do trabalho feminino.<br />

Hoje, temos algumas lutas que são<br />

centrais em nosso país, tais como o<br />

aborto legal, livre, seguro e gratuito e<br />

o fim da violência de gênero. Nos organizamos<br />

para conquistar direitos para<br />

as diversas identidades de gênero, não<br />

só para as mulheres. A partir de Pátria<br />

Grande somos parte desse processo<br />

na Argentina. Nos consideramos feministas<br />

populares e apostamos no crescimento<br />

dos movimentos para potencializar<br />

mudanças verdadeiras em nossa<br />

sociedade dominada pelo machismo<br />

em um sistema capitalista e patriarcal.<br />

Exercemos um papel de protagonistas<br />

das organizações, articuladoras,<br />

parte da coluna vertebral dos movimentos:<br />

nós garantimos, e não apenas<br />

contribuímos. Muitas vezes, tornamos<br />

possível a vida orgânica das entidades,<br />

levamos adiante debates e lutas que<br />

não se limitam a reivindicações particulares.<br />

Por isso, lutamos também pela<br />

terra, habitação e trabalho digno. Devemos<br />

soar o alarme acerca da invizibilização<br />

do papel fundamental das<br />

mulheres na história dos movimentos<br />

e organizações em processo de luta.<br />

Entendemos que as organizações<br />

necessitam do feminismo para compreender<br />

as múltiplas formas de opressão<br />

a que estamos expostos/as e batalhar<br />

contra <strong>elas</strong> de uma maneira integral.<br />

O feminismo popular tem uma forte<br />

âncora nos territórios, não é um mero<br />

posicionamento ideológico, <strong>por</strong> causa<br />

disso devemos construir laços de resistência<br />

onde habitamos, isto é: escolas,<br />

sindicatos, famílias, locais de trabalho.<br />

O feminismo é uma ferramenta privilegiada<br />

contra o patriarcado e o sistema<br />

capitalista, <strong>por</strong> isso dizemos que “sem<br />

feminismo não existe socialismo”.<br />

Patricia Zuniga<br />

Movimento de mulheres<br />

no campo<br />

Jornalista e radialista na cidade de<br />

Carazo, Nicarágua. Faz parte do Club<br />

Metamorfosis, uma organização que<br />

reúne homens e mulheres na luta <strong>por</strong><br />

igualdade de gênero. Representa o movimento<br />

de mulheres campesinas do<br />

estado de Rosário e integra a Alba Movimentos<br />

em seu país.<br />

Em relação ao lugar que as mulheres<br />

ocupam na Nicarágua, nos últimos<br />

anos tivemos alguns avanços, mas<br />

SAULO ESLLEN MARTINS<br />

ainda existem barreiras que devem ser<br />

destruídas. A luta árdua e contínua<br />

para erradicar a violência de gênero é<br />

uma d<strong>elas</strong>. Contudo, os índices são<br />

menores, pois as condições de vida<br />

melhoraram em pequena parte, no entanto,<br />

de forma significativa.<br />

Considerando que 52% da população<br />

nicaraguense é de mulheres, diversos<br />

movimentos sociais e coletivos<br />

de mulheres estão preocupados com a<br />

reivindicação de direitos e com a equidade<br />

de gênero na sociedade. Esperase,<br />

não só que a mulher exerça seus<br />

direitos constitucionais, mas também<br />

que tenha voz na política e ocupe<br />

cargos públicos im<strong>por</strong>tantes.<br />

A maioria das mulheres se dedica<br />

ao trabalho não remunerado, pois estão<br />

ocupadas com tarefas reprodutivas e<br />

produtivas que não lhes geram rendas,<br />

todavia, contribuem, sobremaneira,<br />

para que os homens possam desempenhar<br />

funções em que ganham dinheiro.<br />

Cuidam dos lares, dos filhos e<br />

dos idosos.<br />

Existem outras desigualdades que<br />

atingem principalmente as mulheres<br />

pobres, que geralmente vivem em condições<br />

precárias e raras vezes têm acesso<br />

à educação, o que limita suas opções<br />

profissionais. Houve um crescimento<br />

dos postos de trabalho remunerado<br />

para a mulher, mas quando consegue<br />

emprego em uma empresa, oficina ou<br />

até mesmo como doméstica, ela fica<br />

sobrecarregada com a dupla jornada<br />

ou é obrigada a pagar outra pessoa<br />

para cuidar de sua casa.<br />

É preciso elaborar políticas que atinjam<br />

homens e mulheres. Já existe uma<br />

lei que aplica 50/50 em cargos públicos,<br />

entretanto, o sistema capitalista e individualista<br />

tem uma forma de poder<br />

machista e isso nos afeta sobremaneira.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


22<br />

Desde o momento em que ainda<br />

usam fraldas, homens e mulheres deveriam<br />

ter as mesmas o<strong>por</strong>tunidades,<br />

pois é em casa que as desigualdades<br />

de gênero devem desaparecer e dessa<br />

maneira todas as pessoas seriam educadas<br />

para servir a sociedade.<br />

As bandeiras de luta dos movimentos<br />

de mulheres reivindicam principalmente<br />

uma mudança no olhar da sociedade<br />

que nos vê como objetos sexuais, sobretudo,<br />

através da mídia televisiva,<br />

onde somos coisificadas. Temos campanhas<br />

que unem homens e mulheres<br />

para erradicar também o assédio sexual<br />

sofrido nas ruas.<br />

Muitas vidas de mulheres foram<br />

perdidas nas mãos de homens, <strong>por</strong>ém,<br />

isso não foi em vão, <strong>por</strong>que muitas<br />

deixaram um caminho que seguimos<br />

para avançar a cada dia, apesar de enfrentarmos<br />

diversos desafios. No entanto,<br />

as mulheres não podem desistir,<br />

mas, sim, continuar lutando <strong>por</strong> seus<br />

direitos. Como seres humanos temos<br />

os mesmos direitos e eles devem ser<br />

respeitados.<br />

Vanessa Rangel<br />

Militância política<br />

Comunicadora popular, fotógrafa,<br />

redatora e editora, participa da Corrente<br />

Revolucionária Bolívar e Zamora, na<br />

Venezuela, uma entidade dos movimentos<br />

sociais, com intensa inserção na<br />

esfera política.<br />

SAULO ESLLEN MARTINS<br />

Com a chegada do presidente Hugo<br />

Chávez, em 1999, o governo bolivariano<br />

ficou marcado pela preocupação<br />

em atender as reivindicações de todos<br />

os setores que <strong>por</strong> décadas haviam<br />

sido excluídos e maltratados, dedicando<br />

especial atenção à emancipação da<br />

mulher. Em parte, isso pode ser confirmado<br />

com a aprovação da Lei Orgânica<br />

sobre os direitos das mulheres<br />

a uma vida livre de violência, em 2007,<br />

e a criação do Ministério do Poder Popular<br />

para a Mulher e a Igualdade de<br />

Gênero, em 2009, que tem dentro de<br />

suas funções proteger os direitos das<br />

mulheres e impulsionar projetos socioprodutivos.<br />

Ao longo da história mundial, o<br />

papel da mulher tem sido essencial<br />

para as revoluções. Os historiadores,<br />

seguindo o sistema patriarcal, têm se<br />

encarregado de apagar a imagem de<br />

todas aqu<strong>elas</strong> que tiveram um papel<br />

de protagonista. Na Venezuela isso<br />

está mudando, o comandante Chávez<br />

entendeu a im<strong>por</strong>tância da mulher em<br />

todos os processos e compreendia a<br />

luta pela equidade de gênero e a necessidade<br />

de mudança desse sistema<br />

patriarcal dentro do marco da revolução,<br />

<strong>por</strong> isso, em diversas ocasiões se proclamou<br />

feminista. Trouxe à tona as<br />

histórias de mulheres guerreiras, ele<br />

sabia que esses exemplos nos dariam<br />

força para as batalhas que viriam.<br />

Segundo dados oficiais, desde o início<br />

da revolução, até 2014, a taxa de<br />

desemprego da mulher diminuiu 9%.<br />

Outro dado im<strong>por</strong>tante é o fato de<br />

55% dos Conselhos Comunais serem<br />

dirigidos <strong>por</strong> mulheres e 60% dos<br />

chefes das Unidades de Batalha Bolívar<br />

e Chávez, do Partido Socialista, são<br />

mulheres.<br />

Essas mudanças vão além das instituições<br />

governamentais e dos processos<br />

produtivos. É im<strong>por</strong>tante ressaltar os<br />

números mencionados, <strong>por</strong>que demonstram<br />

que hoje em dia a mulher<br />

venezuelana tem um papel vital dentro<br />

do processo revolucionário, pessoas<br />

que anos atrás estavam dedicadas somente<br />

ao cuidado com seus filhos e à<br />

manutenção da casa, agora são grandes<br />

lideranças para as comunidades em<br />

que habitam e para o país. Exercem<br />

suas funções com a ternura que nos<br />

caracteriza, mas, ao mesmo tempo,<br />

com a firmeza necessária.<br />

Prefeitas, ministras, governadoras,<br />

deputadas, assessoras, dirigentes de<br />

partidos políticos, são alguns dos papéis<br />

que atualmente são desenvolvidos. Não<br />

tem sido fácil, sendo que nossa batalha<br />

diária também é com essa realidade<br />

machista latino-americana que nos persegue.<br />

Ainda que os avanços tenham<br />

sido significativos, existe um longo caminho<br />

a ser percorrido. O mais im<strong>por</strong>tante,<br />

contudo, é que contamos<br />

com muitos companheiros/as que se<br />

questionam e entendem que não se<br />

trata de uma questão separatista, muito<br />

antes pelo contrário, o feminismo é<br />

uma questão complementar ao processo<br />

revolucionário que estamos vivendo.ø<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


23<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


24<br />

LUCIO BERNARDO JR. /C.D<br />

POLÍTICA<br />

POR NANCI ALVES<br />

Longe das<br />

cotas de gênero<br />

Mulheres continuam minoria<br />

na representação política<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


25<br />

Representando mais de 50% da<br />

população e do eleitorado, a mulher<br />

responde também <strong>por</strong> mais de 45%<br />

da produção brasileira e pelo sustento<br />

de 1/3 das famílias, mas esse protagonismo<br />

ainda não se reflete na representação<br />

política feminina.<br />

De acordo com o Tribunal Superior<br />

Eleitoral (TSE), nas eleições de 2014,<br />

o voto feminino teve o maior peso da<br />

história: 52% dos 142 milhões de eleitores<br />

brasileiros são mulheres. Nas últimas<br />

eleições, houve aumento também<br />

da participação feminina em quase todos<br />

os cargos, o que significa um crescimento<br />

de 46,5% de candidatas em<br />

comparação a 2010. A pro<strong>por</strong>ção de<br />

candidatas aptas a disputar algum cargo,<br />

em 2010, incluindo vices e suplentes,<br />

foi de 22,43% ou 5.056 candidatas.<br />

Já em 2014, foram 8.131 postulantes,<br />

ou seja, 31,07% do total de 26.172<br />

candidatos/as.<br />

Porém, ao se considerar apenas as<br />

candidaturas aptas, esse número cai<br />

para 6.475 mulheres, num total de<br />

22.530 registros, fazendo com que o<br />

percentual de candidaturas femininas<br />

(28,62%) ficasse abaixo da cota (30%)<br />

garantida <strong>por</strong> lei desde 2009. Mesmo<br />

com a campanha lançada pelo TSE,<br />

em março de 2014, “Mulher na Política”,<br />

vários partidos tiveram suas candidaturas<br />

indeferidas <strong>por</strong> falta de cumprimento<br />

da cota de gênero.<br />

Para o cargo de deputada federal,<br />

foram 1.755 candidatas; para deputada<br />

estadual e distrital, foram 4.617; para<br />

o Senado, apenas 33 mulheres e para<br />

o governo de Estado, 20 candidatas e<br />

44 à vice, além de 03 candidatas à<br />

presidente e 03 a vice.<br />

Apesar de ter crescido o número<br />

de eleitoras e de candidatas, e ainda<br />

que o cargo mais im<strong>por</strong>tante do país<br />

seja ocupado <strong>por</strong> uma mulher, <strong>elas</strong><br />

permanecem minoria em termos de<br />

representação política. O resultado do<br />

último pleito eleitoral mostrou que o<br />

parlamento brasileiro continua masculino,<br />

branco e empresarial - uma realidade<br />

difícil de se mudar no Brasil. Na<br />

Câmara dos Deputados, houve um pequeno<br />

aumento do número de mulheres,<br />

mas ainda não ultrapassa os 10%.<br />

Para o mandato que se iniciou em<br />

<strong>2015</strong>, foram eleitas 51 deputadas federais,<br />

o que significa uma pro<strong>por</strong>ção<br />

de uma mulher para cada dez deputados<br />

eleitos, pois são 513 cadeiras. Os estados<br />

de Alagoas, Espírito Santo, Mato<br />

Grosso, Paraíba e Sergipe não tiveram<br />

nenhuma mulher eleita deputada federal.<br />

Minas Gerais foi o estado em que as<br />

mulheres tiveram menos destaque, sendo<br />

que a primeira na lista de contagem<br />

de votos aparece apenas na trigésima<br />

quinta posição.<br />

Nas assembleias estaduais e na Câmara<br />

Legislativa do Distrito Federal, o<br />

número de eleitas caiu de 139 em<br />

2010 para 120 deputadas em 2014.<br />

Ou seja, a representação popular nos<br />

estados continua predominantemente<br />

masculina, já que apenas 11,3% dos<br />

“o parlamento<br />

brasileiro<br />

continua<br />

masculino,<br />

branco e<br />

empresarial”<br />

deputados estaduais e distritais são mulheres.<br />

A bancada feminina cresceu<br />

apenas no Ceará, Distrito Federal,<br />

Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso<br />

do Sul. Em 17 estados, houve diminuição<br />

no número de candidatas eleitas.<br />

No Senado, foram eleitas apenas<br />

cinco mulheres para as 27 vagas disponíveis,<br />

o que representa apenas<br />

18,5% do total dos senadores eleitos e<br />

13% da Casa (são 88 cadeiras), já que<br />

outras seis senadoras cumprem mandato<br />

até 2019 (em 2014, foi renovação de<br />

um terço apenas).<br />

E o pior: para governo de estado,<br />

somente uma mulher foi eleita. Tratase<br />

de Suely Campos (PP), em Roraima,<br />

que, na verdade, substituiu o marido,<br />

Neudo Campos, considerado inelegível<br />

pela Justiça Eleitoral em função da Lei<br />

da Ficha Limpa.<br />

Historicamente, o número de governadoras<br />

nunca passou de 11%. A<br />

representatividade feminina nos governos<br />

estaduais não é tão pequena desde<br />

1998, quando foi eleita apenas uma<br />

mulher governadora. Em 2002, foram<br />

duas; em 2006, três governadoras e,<br />

em 2010, apenas duas novamente.<br />

Na disputa para a presidência da<br />

República, o segundo turno se deu<br />

entre um homem e uma mulher, mas<br />

entre as 11 candidaturas apresentadas,<br />

as 3 candidatas ficaram entre os 4 primeiros<br />

colocados no primeiro turno.<br />

De acordo com dados do TSE, Dilma<br />

Rousseff ficou com 41,6% dos votos,<br />

Marina Silva com 21,3% e Luciana<br />

Genro com 1,6%. Juntas, conseguiram<br />

somar cerca de 67 milhões de votos,<br />

ou seja, 64,5% dos votos válidos. O<br />

Partido dos Trabalhadores (PT) segue<br />

como o partido que mais elege mulheres<br />

no país (9 deputadas) seguido pelo<br />

PMDB (7) e PSDB (5).<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


26<br />

Quem são as novas<br />

parlamentares?<br />

A Secretaria de Políticas para as<br />

Mulheres publicou, recentemente, uma<br />

nota técnica (Mulheres nas Eleições de<br />

2014), em que analisa a participação,<br />

o perfil das eleitas e os constrangimentos<br />

à sua atuação no Congresso, dada a<br />

composição desta nova Legislatura.<br />

Segundo o documento, diante dos<br />

entraves à entrada das mulheres nas<br />

arenas decisórias, algumas usam do<br />

prestígio de suas famílias, assim como<br />

fazem alguns homens. Assim, das 51<br />

novas deputadas federais, 21,5% são<br />

esposas, ex-esposas ou filhas de homens<br />

que ocupam ou já ocuparam cargos<br />

eletivos ou Ministérios. Entre os deputados<br />

eleitos, 16% são herdeiros políticos.<br />

E entre as 5 novas senadoras, 3<br />

possuem capital delegado das famílias<br />

que possuem tradição política contra<br />

3 senadores dos 27 eleitos.<br />

Das 51 deputadas eleitas, 29 exercerão<br />

o cargo pela primeira vez, sendo<br />

que três d<strong>elas</strong> conseguiram atingir o<br />

quociente eleitoral com seus próprios<br />

votos, não dependendo do total de<br />

votos de seus partidos ou coligações:<br />

Christiane Yared (PNT/RJ), Clarissa<br />

Garotinho (PR/RJ) e Shéridan<br />

(PSDB/RR).<br />

Com relação à faixa etária das eleitas,<br />

apenas duas são consideradas jovens,<br />

ou seja, menos de 29 anos. De<br />

acordo com a nota técnica da SPM, a<br />

faixa etária de maior concentração das<br />

deputadas está entre 30 e 59 anos,<br />

com 38 deputadas (74,55%). A mais<br />

jovem é a deputada Brunny da Silva<br />

do PTC/MG, com 25 anos, e a mais<br />

velha, Luiza Erundina, com 79 anos,<br />

em 2014. Também no Senado Federal,<br />

das eleitas, 60% se concentra ente 30<br />

e 59 anos. A senadora mais velha é<br />

Maria do Carmo do DEM de Sergipe,<br />

com 73 anos. “Acima dos 60 anos,<br />

tem 101 homens e 11 mulheres. As<br />

mulheres eleitas para a Câmara são<br />

mais jovens que os homens, o que<br />

pode significar que as gerações mais<br />

novas de mulheres têm maior entrada<br />

na política do que as mais velhas”, diz<br />

o documento da SPM.<br />

Sobre as profissões mais frequentes<br />

entre as deputadas eleitas, estão empresárias<br />

(11), seguido de professoras<br />

(6), advogadas (6) e médicas (5). Ao<br />

passo que entre as novas senadoras, há<br />

duas advogadas, uma pedagoga, uma<br />

empresária e uma jornalista. De acordo<br />

com o TSE, entre as principais ocupações<br />

das candidatas estão professoras, donas<br />

de casa, empresárias e estudantes. “Foram<br />

430 candidaturas de donas de casa,<br />

mas apenas Dulce Miranda conseguiu<br />

se eleger para o cargo de deputada federal,<br />

pelo PMDB de Tocantins. O que<br />

reforça a hipótese, sugerida anteriormente,<br />

de que o recrutamento de donas<br />

de casa serve apenas ao cumprimento<br />

da cota”, diz a nota técnica.<br />

“entre as<br />

principais<br />

ocupações das<br />

candidatas estão<br />

professoras,<br />

donas de casa,<br />

empresárias e<br />

estudantes”<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


27<br />

Dessa forma, sobre a escolaridade,<br />

com nível superior completo estão<br />

84,3% das deputadas eleitas e 80%<br />

das senadoras. Apenas uma senadora<br />

tem nível superior incompleto e uma<br />

deputada não terminou o ensino fundamental.<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Raça: desigualdade<br />

ainda maior<br />

Além da sub-representação de gênero,<br />

também chamou a atenção a<br />

grande desigualdade de “raça”/cor na<br />

legislatura eleita neste ano. As candidaturas<br />

ao cargo de deputada/o federal<br />

significam 41% de candidatos do sexo<br />

masculino e brancos, as mulheres brancas<br />

foram 17,4%, ao passo que os homens<br />

negros correspondem a 6,2%<br />

das candidaturas e as mulheres negras<br />

um percentual de apenas 3,7%.<br />

Para o demógrafo e professor da<br />

Escola Nacional de Ciências Estatísticas<br />

(ENCE/IBGE), José Eustáquio Diniz<br />

Alves, a situação é bem melhor do que<br />

há 30 anos, antes do processo de redemocratização,<br />

mas ainda falta um<br />

longo caminho para se atingir a equidade<br />

“racial” e de gênero. Uma ampla<br />

reforma política poderia mudar o quadro<br />

desigual das instituições representativas<br />

da república brasileira”, afirma.<br />

Os dados preliminares do TSE indicam<br />

que, entre as/os 513 deputadas/os<br />

eleitas/os, 410 (79,9%) se autodeclararam<br />

brancas/os, 81 deputados<br />

(15,79% ) se disseram pardas/os e 22<br />

(4,29%), pretas/os. “O que demonstra<br />

que os negros (pretos + pardos) ficaram<br />

apenas com 20% dos assentos da Câmara.<br />

Assim, os pardos e pretos estão<br />

também sub-representados na representação<br />

parlamentar. Nenhum candidato<br />

que se autodeclarou como amarelo<br />

ou índio foi eleito para a Câmara dos<br />

Deputados para a atual legislatura. As<br />

pessoas que se autodeclaram amarelos<br />

(orientais) possuem os melhores níveis<br />

educacionais, mas não conseguiram<br />

assentos no Congresso”, afirma o<br />

professor.<br />

Segundo ele, outro dado alarmante<br />

diz respeito aos povos indígenas que,<br />

mais uma vez, foram excluídos da Câmara<br />

dos Deputados. “As mulheres indígenas<br />

continuam sendo o grupo social<br />

mais discriminado do país e há 500<br />

anos sofrem com as consequências da<br />

colonização <strong>por</strong>tuguesa em terras tupiniquins<br />

e com a violência real e simbólica<br />

de gênero. A população indígena sofreu<br />

um genocídio nos primeiros 300 anos<br />

da história do Brasil, sendo hoje o<br />

grupo populacional em pior condição<br />

social e o mais excluído da política e<br />

dos espaços de poder”, reforça.<br />

Vera Soares coordenadora da<br />

elaboração da nota técnica da SPM.<br />

Mais mulheres<br />

no Poder<br />

De acordo com a nota técnica As<br />

Mulheres nas Eleições de 2014, da<br />

Secretaria de Políticas para as Mulheres<br />

(SPM), o cenário decepcionante de candidaturas<br />

e das eleições que continuam<br />

excluindo a mulher e, em especial a<br />

negra e a indígena, é um indicativo da<br />

insuficiência do sistema eleitoral e político,<br />

presente hoje no Brasil. “Esse sistema<br />

necessita de mudanças urgentes<br />

para incluir de forma efetiva as mulheres<br />

na política, não só <strong>por</strong>que os partidos<br />

políticos são comandados <strong>por</strong><br />

homens, mas também <strong>por</strong>que as candidaturas<br />

femininas não são prioritárias<br />

em termos do recebimento de financiamento<br />

<strong>por</strong> falta de apoio partidário”,<br />

diz a nota.<br />

Para a coordenadora da elaboração<br />

da nota técnica da SPM, Vera Soares,<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


28<br />

ainda não alcançamos a paridade de<br />

gênero na política, nos espaços de poder,<br />

<strong>por</strong>que a cultura brasileira é machista<br />

e discriminatória. “Esta cultura<br />

patriarcal que isola as mulheres do<br />

mundo da política está refletida nos<br />

partidos que, <strong>por</strong> sua vez, não têm a<br />

mínima preocupação em mudar esta<br />

realidade. Não incentivam as mulheres<br />

a participar, não compartilham estes<br />

espaços e não se incomodam com a<br />

pequena representação feminina nos<br />

poderes, pois já está naturalizada a exclusão<br />

da mulher também no mundo<br />

da política. Um contrassenso, pois ela<br />

tem papel fundamental na economia e<br />

inclusive nos movimentos sociais, dando<br />

enorme contribuição para a transformação<br />

deste país”, afirma.<br />

Na avaliação de Vera Soares, não<br />

há como votar em mulheres se <strong>elas</strong><br />

aparecem pouco, exatamente <strong>por</strong>que<br />

os partidos não abrem o<strong>por</strong>tunidades<br />

iguais às oferecidas aos homens. “Os<br />

partidos divulgam os candidatos que<br />

querem eleger e na maioria das vezes,<br />

aceitam as candidaturas femininas <strong>por</strong><br />

exigência da lei, apenas para cumprir<br />

cotas. Assim, <strong>elas</strong> não têm visibilidade<br />

e enfrentam muito mais dificuldades<br />

como, <strong>por</strong> exemplo, obter recursos<br />

para financiar suas campanhas”, destaca.<br />

Segundo Vera Soares, a reforma<br />

política com enfoque de igualdade entre<br />

homens e mulheres, é o caminho para<br />

mudar esta realidade. “Precisamos de<br />

uma reforma política que inclua, <strong>por</strong><br />

exemplo, o financiamento público de<br />

campanha e a mudança no formato<br />

das listas de candidaturas apresentadas<br />

pelos partidos políticos que contemple<br />

a alternância de nomes entre homens<br />

e mulheres, chegando à paridade entre<br />

os sexos”, afirma. Ela reforça que é<br />

necessário também estimular que as<br />

definições internas dos partidos políticos<br />

sejam tomadas em coletivos e não continuem<br />

nas mãos dos chefes políticos,<br />

que em geral são homens.<br />

Vera Soares destaca ainda o papel<br />

dos professores para a mudança dessa<br />

realidade. “A escola, desde a educação<br />

infantil, nas suas práticas educativas,<br />

precisa estar atenta para não reforçar<br />

estereótipos machistas, pois isso contribui<br />

para o fortalecimento da política<br />

patriarcal. E, no ensino médio, a escola<br />

precisa ajudar as meninas a perceberem<br />

que não precisam, necessariamente,<br />

escolher apenas profissões que têm a<br />

ver com cuidado e/ou educação como<br />

enfermeiras, assistente social, professoras<br />

e que podem ocupar espaços,<br />

historicamente masculinos, como as<br />

engenharias, a física, a matemática,<br />

etc. Com certeza, a escola não é determinante,<br />

mas pode reforçar estereótipos.<br />

É preciso que crie um ambiente<br />

de cultura, de respeito às diferenças,<br />

que valorize a diversidade, uma<br />

cultura igualitária. Com certeza, isso<br />

vai contribuir diretamente para a igualdade<br />

de gênero”, finaliza.<br />

A historiadora Renata Rosa (foto) e<br />

ex-candidata à deputada estadual <strong>por</strong><br />

Minas (PCdoB), em 2014, também<br />

defende uma reforma política urgente,<br />

pois considera que a luta <strong>por</strong> mais espaço<br />

na política para as mulheres é<br />

pesada e chega a ser cruel, em muitas<br />

situações, uma vez que não só as<br />

razões econômicas, sociais e culturais<br />

impedem uma participação mais efetiva<br />

NANCI ALVES<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


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das mulheres na política. Na sua avaliação,<br />

boa parte das mulheres desconhece<br />

o funcionamento dos diferentes<br />

sistemas eleitorais e as diversas maneiras<br />

desenvolvidas para organização da participação<br />

política no mundo. “O poder<br />

é um domínio ainda ocupado hegemonicamente<br />

<strong>por</strong> homens e essa condição<br />

cria dificuldades para a disputa<br />

feminina no processo. As mulheres<br />

são tratadas como coadjuvantes: coordenam<br />

as campanhas dos homens,<br />

mobilizam, escrevem seus materiais de<br />

divulgação, mas quando resolvem participar<br />

como candidatas, dificilmente<br />

têm apoio efetivo, com garantia de<br />

tempo de TV, com financiamento necessário,<br />

com a presença de quadros<br />

militantes com experiência para coordenar<br />

e acompanhar suas candidaturas.<br />

São poucas as que podem contar com<br />

uma estrutura básica para sustentar<br />

sua experiência de disputa e assim fortalecer<br />

sua atuação política de modo a<br />

construir as bases para uma futura eleição”,<br />

ressalta.<br />

Desde 2009, Renata Rosa coordena<br />

a Secretaria Estadual sobre a questão<br />

da Mulher do PCdoB, em Minas Gerais,<br />

e garante que “não é fácil organizar<br />

essa luta, diante do abismo político<br />

que naturaliza a sub-representação política<br />

feminina e a dicotomia entre os<br />

espaços públicos e privados para a<br />

vida das mulheres, sem questionar suas<br />

triplas jornadas de trabalho, o tempo<br />

colossal gasto com o cuidado e manutenção<br />

de seus lares, tantas vezes marcado<br />

pela violência. Trabalho não remunerado<br />

que sustenta e garante as<br />

bases do sistema capitalista e da atuação<br />

dos homens na sociedade, com suas<br />

roupas limpas e passadas, com sua alimentação<br />

garantida, com seus lares<br />

administrados e seus filhos criados”.<br />

Portanto, segundo a historiadora, o<br />

debate sobre Reforma Política precisa<br />

ser pensado sob o ponto de vista do<br />

fortalecimento das mulheres neste processo.<br />

“Reforma é uma palavra ampla<br />

e pode nos jogar em uma armadilha.<br />

Não desejamos qualquer Reforma, mas<br />

uma reforma política que leve em consideração<br />

o cotidiano feminino nas cidades<br />

e pressuponha condições reais<br />

de igualdade na disputa política. Desejamos<br />

uma reforma política que elimine<br />

a influência do poder econômico nas<br />

eleições”, defende.<br />

REFORMA POLÍTICA<br />

DEMOCRÁTICA<br />

Caminho para aumentar<br />

a representação feminina<br />

Alterar a desigualdade de gênero<br />

na política é uma das propostas da<br />

Coalizão Democrática para a Reforma<br />

Política e Eleições Limpas. O movimento<br />

propõe a instalação de uma<br />

Constituinte Exclusiva para a consolidação<br />

da mudança do sistema político<br />

do país através de um projeto de lei de<br />

iniciativa popular (PL nº 6.316, de<br />

2013) encaminhado, ao Congresso.<br />

A Coalizão reúne mais de 100 instituições<br />

como Ordem dos Advogados do<br />

Brasil (OAB), a Conferência Nacional<br />

dos Bispos do Brasil (CNBB), a Central<br />

dos Trabalhadores e Trabalhadoras do<br />

Brasil (CTB), Conic (Conselho Nacional<br />

de Igrejas Cristãs do Brasil), Movimento<br />

de Combate a Corrupção Eleitoral<br />

(MCCE), União Nacional dos Estudantes<br />

(UNE) e Movimento dos Pequenos<br />

Agricultores (MPA Brasil).<br />

“A proposta é de um projeto de tramitação<br />

ordinária, não implica em<br />

emenda constitucional. É de iniciativa<br />

popular, ou seja, não é de situação ou<br />

oposição e sim algo que pretende ser<br />

representativo de todos os segmentos<br />

democráticos da sociedade. Procuramos<br />

encontrar identidade em torno de<br />

número pequeno de questões, mas que<br />

são decisivas para destravar o processo<br />

democrático brasileiro, para criar<br />

um sistema de representação mais<br />

identificado”, explica Aldo Arantes, exdeputado<br />

na Constituinte de 1988 e<br />

coordenador da Comissão Especial da<br />

OAB de Mobilização para a Reforma<br />

Política.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


30<br />

Entre as propostas do projeto de<br />

iniciativa popular, Aldo Arantes destaca<br />

a que se refere ao financiamento de<br />

campanha. “A influência do poder econômico<br />

nas eleições, mais especificamente<br />

o papel das empresas privadas<br />

é um grave problema. Em 2014, o volume<br />

de recursos foi de 5 bilhões de<br />

reais; só para eleição de deputados federais<br />

foi de 1 bilhão de investimento,<br />

sendo que 77% foi contribuição de<br />

empresa. E aí está a gravidade da situação.<br />

A empresa contribui, mas<br />

depois quer contrapartida”, ressalta<br />

Aldo Arantes ao reforçar que o financiamento<br />

de campanha <strong>por</strong> empresas<br />

degrada o sistema político na medida<br />

em que é o canal de corrupção eleitoral.<br />

“O que vemos é essa situação produzir<br />

uma mágica de conteúdo antidemocrático:<br />

o poder do dinheiro faz com<br />

que a minoria da sociedade, os poucos<br />

que têm muito dinheiro, se transforme<br />

em maioria no Congresso e a maioria,<br />

ou seja, os professores, estudantes, trabalhadores<br />

em geral, desempregados,<br />

se tornem a minoria no Congresso.<br />

Por isso, propomos a proibição do financiamento<br />

de campanha <strong>por</strong> empresa<br />

e propomos a adoção do financiamento<br />

democrático: público, mas que permite<br />

financiamento de pessoa física, desde<br />

que limitado a R$700,00 <strong>por</strong> pessoa<br />

e, na somatória, não mais de 40% da<br />

contribuição pública”, explica.<br />

Outro ponto im<strong>por</strong>tante do projeto<br />

defendido pela Coalizão é o fim do sistema<br />

de votação em lista aberta, com<br />

a realização de eleições <strong>por</strong> um sistema<br />

pro<strong>por</strong>cional em lista pré-ordenada e<br />

em dois turnos. “No primeiro, eleição<br />

em torno de propostas do partido, de<br />

ideias. E, no segundo turno, o eleitor<br />

escolhe o seu candidato. Isso fortalecerá<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

os partidos, grandes ou pequenos, que<br />

realmente têm representação da sociedade,<br />

impedindo os tais partidos de<br />

aluguel, reduzirá o custo das campanhas<br />

e a quantidade de candidato, permitindo<br />

uma efetiva fiscalização eleitoral. Com<br />

base no quociente eleitoral você define<br />

o número de candidatos e esse será o<br />

objeto da escolha da sociedade, no segundo<br />

turno”, explica.<br />

E para aumentar a representação<br />

feminina, o projeto de iniciativa popular<br />

propõe a alternância de gênero na<br />

composição da lista partidária, visando<br />

garantir que 50% dos cargos sejam<br />

ocupados <strong>por</strong> mulheres. De acordo<br />

com Aldo Arantes, a paridade garantirá<br />

um homem e uma mulher no primeiro<br />

turno e, no segundo turno, o<br />

eleitor escolhe.<br />

Para Vic Barros, presidenta da União<br />

Nacional dos Estudantes (UNE), uma<br />

reforma política precisa estar sintonizada<br />

com o problema da sub-representação<br />

de parc<strong>elas</strong> significativas da população.<br />

“Nós, mulheres, somos maioria da população,<br />

mas temos pequena participação<br />

na composição do Congresso. Os<br />

pretos e os pardos também são maioria<br />

e sua participação ainda é menor que a<br />

das mulheres; assim como trabalhadores<br />

e trabalhadoras do país. Vimos que<br />

cresceu a bancada empresarial, do agronegócio,<br />

etc. Precisamos de medidas,<br />

do ponto de vista legal, que garantam<br />

que a diversidade da nossa população<br />

esteja representada no Congresso Nacional<br />

<strong>por</strong> meio de uma reforma. Com<br />

uma reforma política, acredito que daremos<br />

um salto significativo para aproximar<br />

o Congresso da identidade do<br />

nosso povo”, afirma.<br />

www.reformapoliticademocratica.org.br<br />

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31<br />

Depoimentos de Deputadas Federais<br />

Jô Moraes - PCdoB<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Comecei minha atividade política<br />

no movimento estudantil como participante<br />

da Juventude Estudantil Católica.<br />

Depois, fui presidente de Diretório<br />

Acadêmico na Escola de Serviço Social.<br />

Veio a ditadura e, no ambiente de perseguição,<br />

fui presa e fiquei clandestina<br />

<strong>por</strong> 10 anos. Quando veio a anistia,<br />

pude retomar a atividade aberta. Naqueles<br />

10 anos, militei no Partido Comunista<br />

do Brasil, na ilegalidade. A<br />

luta da juventude pela liberdade foi<br />

muito forte em nosso país naquele período.<br />

O cotidiano da vida política é<br />

marcado <strong>por</strong> disfarçadas atitudes machistas.<br />

As mulheres têm que se preparar<br />

muito para que possam ser escutadas,<br />

principalmente quando chegam<br />

num ambiente novo. Quando uma mulher<br />

fala, os homens escutam mais <strong>por</strong><br />

educação do que <strong>por</strong> respeito ao que<br />

as mulheres dizem. Só depois de muito<br />

tempo e comprovada a competência é<br />

que <strong>elas</strong> passam a ser ouvidas. O<br />

centro da minha luta está focada na<br />

construção de um novo projeto nacional<br />

de desenvolvimento que supere as desigualdades<br />

e inclua as mulheres. Isso<br />

exige mais espaços de poder; equidade<br />

no trabalho; autonomia na família; e<br />

incor<strong>por</strong>ação das mulheres na economia<br />

em melhores condições e com mais<br />

qualificação. Esses aspectos têm que<br />

vir acompanhados de políticas públicas<br />

que garantam seus direitos sexuais e<br />

reprodutivos, igualdade no trabalho e<br />

apoio às mulheres vítimas de violência.<br />

Todo mundo fala em reforma política,<br />

mas há grandes diferenças nas propostas<br />

que estão circulando. No âmbito<br />

das demandas femininas, lutamos <strong>por</strong><br />

paridade e equidade, ou seja, <strong>por</strong> ter a<br />

mesma pro<strong>por</strong>ção de homens e mulheres<br />

nas cotas e vagas partidárias.<br />

Demanda que está contemplada no<br />

Projeto de Lei nº 6.316, de 2013,<br />

elaborado <strong>por</strong> integrantes de mais de<br />

uma centena de organizações da sociedade<br />

civil, entre <strong>elas</strong> a OAB, a<br />

CNBB, a UNE, a UBES. O mais im<strong>por</strong>tante<br />

aspecto a ser garantido na<br />

Reforma Política é livrar o voto da intervenção<br />

do poder econômico.<br />

dep.moraes@camara.leg.br<br />

Bruniele Ferreira - PTC<br />

Não venho de berço político, mas<br />

sou casada com um ex-deputado estadual.<br />

Vendo o exemplo do meu marido,<br />

o compromisso que ele tinha e o belo<br />

trabalho que ele desenvolvia, passei a<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

admirar o seu trabalho e achei que ingressando<br />

na política poderia seguir os<br />

seus passos e lutar <strong>por</strong> um país melhor.<br />

Como apresentadora de TV, vivenciei<br />

muitas situações e acredito que, <strong>por</strong><br />

meio da política, posso batalhar em<br />

prol das pessoas mais carentes e mudar<br />

o descaso com que são tratadas.<br />

Até agora não tive obstáculos, pelo<br />

contrário, fui muito bem recebida durante<br />

toda a campanha, <strong>por</strong> onde passava.<br />

Nós, parlamentares, sofremos<br />

ataques e sabemos respeitá-los.<br />

Sou favorável ao PL 3888, de<br />

2012, que está pronto para ser pautado<br />

em plenário e que proíbe o abrandamento<br />

de pena nos casos de crimes de<br />

violência doméstica e familiar contra<br />

as mulheres. Além disso, a sub-representação<br />

da mulher na política é um<br />

fator que muito me preocupa e estarei<br />

engajada na luta para mudar esta situação.<br />

Tem também a PEC 590, de<br />

2006, que obriga a Mesa Diretora da<br />

Câmara e do Senado a ter em sua<br />

composição ao menos uma mulher.<br />

Considero que nós, mulheres, temos<br />

e exercemos os mesmos direitos que<br />

os parlamentares homens, mas é natural<br />

que nós, mulheres, nos unamos, em<br />

especial quando o assunto envolve as<br />

políticas e programas direcionados para<br />

as mulheres, como a aprovação da lei<br />

Maria da Penha, a campanha do outubro<br />

rosa e outros.<br />

dep.brunny@camara.leg.br<br />

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32<br />

Dâmina Pereira -PMN<br />

Meu marido Carlos Alberto é quem<br />

é o político. Ele já foi deputado federal<br />

e prefeito, e eu sempre participei da<br />

política ao lado dele. Ao mesmo tempo<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

em que acompanhei sua trajetória, me<br />

dediquei à Secretaria de Assistência<br />

Social de Lavras e realizei diversos trabalhos<br />

que contribuíram bastante para<br />

essa minha decisão de enfrentar, pela<br />

primeira vez, uma vaga como deputada<br />

federal. No caso da última eleição,<br />

seria meu marido o candidato <strong>por</strong> Lavras,<br />

mas, até mesmo <strong>por</strong> perseguições<br />

políticas, ele decidiu não mais concorrer.<br />

Percebendo essa injustiça e a im<strong>por</strong>tância<br />

da causa, eu, como mulher,<br />

companheira de uma vida inteira, decidi<br />

enfrentar este novo desafio. Considero<br />

que, apesar de concorrer na política<br />

pela primeira vez, fui muito bem aceita,<br />

justamente <strong>por</strong> ser mulher. Estou no<br />

começo dos trabalhos na Câmara dos<br />

Deputados e <strong>por</strong> enquanto também<br />

não encontrei nenhuma rejeição. Na<br />

Câmara dos Deputados há a Secretaria<br />

da Mulher, que é uma estrutura institucional<br />

que une a Bancada Feminina e<br />

a Procuradoria da Mulher no Congresso<br />

Nacional. Nesta Secretaria, tenho acompanhado<br />

o trabalho das parlamentares<br />

na luta pela promoção da igualdade de<br />

gênero. Isto incentiva muito o meu<br />

empenho na defesa dos nossos direitos,<br />

na luta contra a violência doméstica,<br />

na igualdade de salários, enfim, tantas<br />

lutas e batalhas que nós precisamos<br />

vencer e que, com certeza, serão causas<br />

que irei defender. Meu dever como<br />

parlamentar será legislar em defesa de<br />

nossos direitos e levantar debates para<br />

a sociedade.<br />

dep.daminapereira@camara.leg.br<br />

Raquel Muniz - PSC<br />

Eu e meu marido, Ruy Muniz, hoje<br />

prefeito de Montes Claros, fundamos<br />

o PT em Montes Claros. Ele foi o primeiro<br />

candidato a prefeito do PT na<br />

cidade. Não foi eleito, mas logo depois<br />

se elegeu vereador. Eu o acompanhei,<br />

ajudando nos atendimentos do gabinete<br />

e a resolver as demandas. Depois, foi<br />

eleito deputado estadual. O ajudei neste<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

novo desafio e colaborei na cria ção/ela -<br />

boração da Lei Estadual da Saúde do<br />

Homem. Ruy, então, foi eleito prefeito<br />

de Montes Claros e eu me tornei sua<br />

chefe de gabinete, até o início de<br />

2013. Neste período, ajudei a sanar<br />

as demandas do município e percebi<br />

que, como deputada federal, eu poderia<br />

fazer muito mais pela minha região,<br />

que é pobre. Quero mudar este quadro.<br />

Com quase 100 mil votos, fui a deputada<br />

federal mais votada de Minas,<br />

além de ser a primeira mulher eleita,<br />

pelo, norte Minas para exercer um<br />

mandato federal. Os obstáculos foram<br />

os normais, enfrentados <strong>por</strong> qualquer<br />

candidato. Não me senti discriminada<br />

<strong>por</strong> ser mulher. No entanto, sinto não<br />

ter podido entrar antes na política,<br />

em função das responsabilidades de<br />

mulher, de jornada tripla de esposa,<br />

mãe/dona de casa e profissional. É<br />

preciso que as mulheres se conscientizem<br />

do seu papel, que descubram que<br />

política também é coisa de mulher e<br />

que somos tão capazes quanto os homens.<br />

É através da política que decidimos,<br />

definimos que país vamos deixar<br />

para as próximas gerações. Depois, é<br />

preciso que os partidos apoiem as mulheres,<br />

que não sejam apenas um número<br />

para preencher a cota determinada<br />

<strong>por</strong> lei. Na Comissão da Reforma<br />

Política, da qual faço parte, vamos discutir<br />

outras formas de ampliar a representação<br />

feminina, como a questão do<br />

número de cotas de mulheres a serem<br />

eleitas, para que possamos vencer a<br />

barreira dos 10% - 15% de representatividade<br />

atual. Mas sem uma conscientização<br />

das mulheres, as cotas ficarão<br />

apenas no papel, como muitas<br />

das nossas leis.<br />

dep.raquelmuniz@camara.leg.br<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


33<br />

Margarida Salomão - PT<br />

Minha militância começou na universidade,<br />

nos anos 1980, como professora<br />

universitária e como liderança<br />

sindical. Nos anos 1990, ingressei na<br />

política acadêmica, como pró-reitora<br />

e reitora, com um enfrentamento muito<br />

grande aos governos tucanos e sua<br />

concepção equivocada e perigosa sobre<br />

o ensino superior. A partir desse<br />

acúmulo, passei a militar também fora<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

da universidade, buscando mudanças<br />

para além do quadro institucional. As<br />

dificuldades de todas as mulheres militantes<br />

que não derivam, nem são herdeiras,<br />

de uma militância masculina.<br />

Primeiro, tem que praticar uma quebra<br />

de expectativa, <strong>por</strong>que o ambiente e<br />

as relações interpessoais na política<br />

são fundamentalmente masculinas. Em<br />

segundo lugar, precisa convencer o<br />

eleitorado de que, mesmo sendo mulher,<br />

pode ser uma boa representante. A mulher<br />

é desacreditada na política, muitas<br />

vezes com apelo sexual, ou questionando<br />

a sua capacidade, como o caso<br />

das campanhas recentes extremamente<br />

violentas sobre a Dilma e Graça Foster,<br />

que tentam denotar que <strong>elas</strong> “não dão<br />

conta” da função pública que assumiram.<br />

Duas pautas são consensuais na<br />

bancada feminina: o combate à violência<br />

contra a mulher e a ampliação da participação<br />

feminina nos espaços de poder.<br />

Em relação à violência, a luta está<br />

no campo microfísico, das microrrelações,<br />

em casa. Por isso é necessário o<br />

agravamento das penas e o cumprimento<br />

da Lei Maria da Penha. Sobre<br />

o empoderamento na política, eu defendo<br />

a paridade de gênero. A pauta<br />

feminina na Câmara hoje é uma pauta<br />

subordinada, <strong>por</strong>que nós somos minoritárias<br />

e dependemos da boa vontade<br />

dos homens. Quando se pode ter o estupro<br />

tratado como premiação, “você<br />

não merece ser estuprada”, declarado<br />

publicamente e impunemente na Câmara,<br />

fica evidente que a nossa luta<br />

pela garantia de direitos é enorme. Minha<br />

contribuição é defender nossas<br />

pautas, a ampliação e o aperfeiçoamento<br />

dos nossos direitos, e ser contrária,<br />

evidentemente, a todas as pautas<br />

que tentam reintroduzir o poder patriarcal,<br />

as quais devem reaparecer<br />

com essa nova composição mais conservadora<br />

da Casa.<br />

dep.margaridasalomao@camara.leg.br<br />

LUCIO BERNARDO JR. /C.D<br />

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34<br />

Bancada Feminina da Assembleia Legislativa de Minas Gerais<br />

Rosangela de Oliveira -<br />

PROS<br />

Professora, orientadora e supervisora<br />

escolar. É graduada em Pedagogia e<br />

pós-graduada em Didática. Começou<br />

sua carreira política em 2000, quando<br />

foi eleita vereadora em Ipatinga (Vale<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

do Aço), reelegendo-se em 2004. Em<br />

2010, foi eleita deputada estadual.<br />

Participei desde cedo de movimentos<br />

sociais e, mesmo antes de meu primeiro<br />

mandato de vereadora em Ipatinga, já<br />

trabalhava com entidades para a prestação<br />

de serviços comunitários. Há<br />

mais de 17 anos desenvolvo um projeto<br />

social de capacitação e ensino profissionalizante<br />

para jovens e adultos. Esse<br />

trabalho me levou para a vida pública<br />

<strong>por</strong>que acredito na boa política como<br />

forma de transformar, para melhor, a<br />

vida das pessoas. Conciliar a criação<br />

dos filhos, de dona de casa e participação<br />

política, realmente não é fácil.<br />

Por outro lado, culturalmente ainda<br />

enfrentamos muitos preconceitos, mas<br />

estamos aqui para mudar essa história.<br />

Considero que a reforma política com<br />

a ampliação da participação da mulher<br />

nos espaços de poder é a pauta mais<br />

im<strong>por</strong>tante atualmente. Isso terá repercussão<br />

em todas as demais pautas<br />

e dará empoderamento para que as<br />

mulheres reivindiquem, com mais força,<br />

melhores condições de trabalho, saúde,<br />

educação, etc. O que estamos realizando<br />

na Assembleia de Minas é um fato histórico<br />

e trará muitos resultados positivos.<br />

Não basta apenas conquistar o espaço<br />

como vereadora, prefeita, deputada,<br />

presidente ou gestora de uma grande<br />

empresa. É preciso atuar com vigor<br />

nesses espaços e buscar o avanço na<br />

igualdade de gênero.<br />

dep.rosangela.reis@almg.gov.br<br />

Geisa Gomes - PT<br />

Assistente Social. Foi presidente da<br />

Fundação CDCA (Centro de Desenvolvimento<br />

da Criança e do Adolescente),<br />

entre 2001 e 2008. É graduada em<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Serviço Social e pós-graduada em Gestão<br />

de Responsabilidade Social. É viúva do<br />

ex-prefeito de Varginha, Mauro Teixeira,<br />

eleito em 2000 e reeleito em 2004.<br />

No ano 2000, meu saudoso esposo,<br />

Mauro Teixeira, foi eleito prefeito de<br />

Varginha, no Sul de Minas. Já tinha<br />

participado de trabalhos em movimentos<br />

de igreja e senti que seria uma o<strong>por</strong>tunidade<br />

de realizar o que tanto almejava:<br />

um trabalho social e voluntário voltado<br />

para crianças, adolescentes e famílias<br />

em situação de risco social. Este trabalho<br />

me encantou e me motivou a entrar<br />

para a política. Acredito nas boas práticas<br />

das políticas públicas como forma de<br />

emancipação humana. O universo político<br />

é constituído em seu grande percentual<br />

<strong>por</strong> homens. A mulher tem que<br />

provar a sua capacidade empreendedora<br />

e fazer-se respeitar. Felizmente tive o<br />

reconhecimento do meu trabalho de<br />

forma incondicional. Todos me respeitam,<br />

mas reconheço que existe um preconceito<br />

arraigado contra a mulher na<br />

política. Por isso precisamos buscar uma<br />

maior participação e ter uma representatividade<br />

verdadeira, cumprindo as cotas<br />

de forma adequada e não apenas simbólica.<br />

Apoio todas as pautas das mulheres.<br />

São tantas! O assunto é amplo,<br />

mas a representatividade dos movimentos<br />

femininos precisa ser aumentada para<br />

que tenhamos poder de reivindicação.<br />

No meu mandato, pretendo apoiar as<br />

causas femininas de várias formas.<br />

dep.geisa.teixeira@almg.gov.br<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


35<br />

Marília Campos - PT<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Psicóloga. Militante do PT desde a<br />

década de 1980. Nessa época, em<br />

Uberlândia, iniciou a militância social<br />

como integrante do movimento estudantil<br />

e foi uma das fundadoras do PT<br />

e da CUT na região. Presidiu o Sindicato<br />

dos Bancários de Belo Horizonte<br />

<strong>por</strong> dois mandatos (1990 e 1995). Foi<br />

candidata a deputada estadual em 1998<br />

e tornou-se vereadora <strong>por</strong> Contagem<br />

em 2000. Em 2004, foi eleita a primeira<br />

mulher a governar a cidade,<br />

sendo reeleita em 2008.<br />

Comecei no movimento estudantil.<br />

Estávamos saindo do regime militar e<br />

minha luta foi motivada para superar<br />

os traumas desse regime. Os ambientes<br />

e os espaços de poder são dominados<br />

pelo mundo masculino. Então, isso,<br />

<strong>por</strong> si só, é um constrangimento. Há o<br />

jeito de fazer do masculino e o jeito de<br />

fazer do feminino. E isso gera sempre<br />

um certo conflito. Por isso que essa diversidade<br />

é democrática, traz o debate<br />

e contribui para consolidar um processo<br />

democrático. A outra questão é que<br />

ser mãe, dona de casa, ir a uma reunião<br />

na escola do filho, estar na vida política<br />

e no mercado de trabalho é bastante<br />

complexo. Mas sempre fomos acostumadas<br />

a trabalhar e isso é um desgaste<br />

permanente, mas que, com a solidariedade<br />

dos companheiros, com a divisão<br />

de tarefas, se torna possível. Apoio<br />

toda e qualquer pauta que lute contra<br />

a discriminação, que seja de interesse<br />

coletivo, que ajude a emancipar as mulheres,<br />

que lute contra o preconceito e<br />

a favor da inclusão das mulheres no<br />

mercado de trabalho, nas políticas públicas<br />

ou na política. <strong>Elas</strong> precisam<br />

trabalhar, estudar, precisam de creches<br />

e escolas infantis para seus filhos.<br />

Quero lutar para que, no orçamento<br />

do Estado, estejam incluídas rubricas<br />

orçamentárias que promovam as mulheres.<br />

E a polêmica referente ao corpo<br />

da mulher, como o aborto, para mim,<br />

é uma questão de saúde pública. Esse<br />

tem que ser um direito assegurado à<br />

mulher. Se ela fizer essa escolha, que<br />

faça e tenha apoio do poder público.<br />

dep.marilia.campos@almg.gov.br<br />

Celise Laviola - PMDB<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Advogada. Servidora aposentada<br />

da Assembleia de Minas, é formada<br />

em História, Filosofia e Direito e especializada<br />

em Direito Público. Assumiu,<br />

em <strong>2015</strong>, seu primeiro mandato como<br />

deputada estadual. Natural de Belo<br />

Horizonte, é filha de José Laviola<br />

Matos, que foi vice-prefeito e prefeito<br />

de Conselheiro Pena, além de deputado<br />

estadual em Minas Gerais <strong>por</strong> seis legislaturas<br />

consecutivas. É cunhada do<br />

ex-deputado estadual do PMDB José<br />

Henrique (1956-2013).<br />

Estou no meu primeiro mandato eletivo.<br />

Mas minha família tem uma história<br />

política muito bonita, pautada no trabalho<br />

para o povo, sempre com transparência<br />

e dedicação. Com o falecimento do<br />

meu cunhado, minha família e o nosso<br />

partido decidiu que meu nome seria o<br />

mais viável para substituí-lo. Para ser<br />

sincera, tenho que dizer que o fato de<br />

ser mulher não foi obstáculo na minha<br />

campanha. Meu partido me acolheu<br />

com muito carinho e o os eleitores da<br />

nossa região também. Como parlamentar<br />

pretendo discutir e buscar soluções para<br />

as demandas femininas, atenta aos problemas<br />

da mulher e com um olhar<br />

isento, sem discriminações.<br />

dep.celise.laviola@almg.gov.br<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


36<br />

Mirian Cristina - PT<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Professora de história com MBA<br />

em Gestão Pública e Responsabilidade<br />

Fiscal. Filiada ao PT desde 2005, foi<br />

secretária de Formação do partido em<br />

Santa Luzia. Em 2012, foi candidata a<br />

prefeita desse município pelo mesmo<br />

partido, ficando em 2º lugar na disputa.<br />

É irmã do deputado federal Miguel Corrêa<br />

(PT) e atuou como coordenadora<br />

de campanha do parlamentar desde o<br />

primeiro mandato, a partir de 2007.<br />

Em 2004, ingressei na vida política<br />

e, a partir daí, fui coordenadora de diversas<br />

campanhas do PT. Com isso,<br />

me veio uma vontade muito grande de<br />

fazer parte disso, mas de dentro, com<br />

voz ativa. Fui candidata a prefeita de<br />

Santa Luzia em 2012, onde obtive excelente<br />

votação. Muitas vezes enfrentei<br />

o machismo e o preconceito de alguns<br />

homens que ainda acham que política<br />

não é lugar de mulher, mas enfrentei,<br />

principalmente, as dificuldades de ser<br />

mãe e muitas vezes ter que deixar meu<br />

filho aos cuidados de outras pessoas<br />

para trabalhar e fazer política. A igualdade<br />

de o<strong>por</strong>tunidades, de salário, o<br />

fim da violência doméstica e principalmente<br />

das mulheres serem o que quiserem<br />

sem o estigma do machismo. A<br />

luta <strong>por</strong> mais espaço das mulheres na<br />

política é essencial, para isso a política<br />

de cotas será um grande avanço para<br />

as mulheres já que democratizará o<br />

acesso de nós, mulheres, aos cargos<br />

políticos.<br />

dep.cristina.correa@almg.gov.br<br />

Ione Pinheiro - PMDB<br />

Empresária. Assume em <strong>2015</strong> seu<br />

primeiro mandato na Assembleia Legislativa<br />

de Minas Gerais. Irmã do presidente<br />

da ALMG e deputado estadual<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Dinis Pinheiro, foi chefe de gabinete<br />

durante o primeiro mandato do parlamentar,<br />

na 13ª Legislatura, a partir de<br />

1995. Também ocupou cargo semelhante<br />

quando o outro irmão, Toninho<br />

Pinheiro, se tornou prefeito do município<br />

mineiro de Ibirité.<br />

As motivações para ingressar na<br />

vida política retomam a minha história<br />

de vida. Tomo como exemplo os meus<br />

pais, para quem o trabalho e o servir<br />

ao bem comum sempre estiveram presentes.<br />

Sedimentada nesse alicerce familiar,<br />

percorri o caminho que me<br />

trouxe a esse momento atual. Como<br />

em toda profissão, a vida política requer<br />

compromisso, renúncias e o aprendizado<br />

da conciliação. Ser mãe, esposa,<br />

trabalhadora é sempre um desafio para<br />

qualquer pessoa, e para a mulher, pela<br />

grande expectativa de transformação<br />

e superação de preconceitos, a missão<br />

é mais árdua. Diante dessa realidade,<br />

na Assembleia, buscamos ocupar o<br />

nosso espaço, <strong>por</strong> meio da bancada<br />

feminina, e apresentamos à Mesa Diretora<br />

a proposta de criação de uma<br />

comissão especial para promover a<br />

participação da mulher na política. A<br />

minha atuação está pautada na verdade<br />

e transparência, o meu engajamento<br />

em medidas que alcancem melhorias<br />

para todos, a minha disposição em<br />

ouvir e conhecer cada vez a necessidade<br />

do outro, certamente me conduzirão a<br />

lutar para que não só a mulher, mas<br />

todos indistintamente possam ascender<br />

à condição de dignidade com a superação<br />

das dificuldades que ainda remanescem<br />

em nossa sociedade.<br />

dep.ione.pinheiro@almg.gov.br<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


37<br />

Arlete Gonçalves - PTN<br />

Participo da vida política há muitos<br />

anos, sendo que nosso grupo político<br />

elegeu pela terceira vez o meu irmão,<br />

Wellington Magalhães, vereador de Belo<br />

Horizonte. Minha motivação para entrar<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

na vida política foi o fortalecimento<br />

desse grupo, que trabalha sério em prol<br />

da qualidade de vida do nosso povo.<br />

Trabalhando sempre muito próximo<br />

à comunidade, nunva tive problemas<br />

quanto à discriminação <strong>por</strong> ser mulher<br />

e garanto que, na base, as mulheres<br />

são muito ativas. A campanha eleitoral<br />

é que é um grande obstáculo. Disputei<br />

duas eleições e enumero a desigualdade<br />

de financiamento, as distâncias territoriais<br />

e a infidelidade partidária como grandes<br />

desafios para se chegar até aqui.<br />

Não considero que uma parlamentar,<br />

pelo fato de ser mulher, tenha obrigatoriamente<br />

atuação dferenciada da atuação<br />

de um político do sexo masculino.<br />

Acho que depende do perfil de atuação<br />

de cada parlamentar. Algumas mulheres,<br />

inclusive, militam em setores dominados<br />

<strong>por</strong> homens e se dão muito<br />

bem. No setor social e comunitário<br />

em que milito, não vejo diferença na<br />

atuação de homens e mulheres. Já no<br />

que diz respeito aos mandatos eletivos,<br />

principalmente no Executivo, as o<strong>por</strong>tunidades<br />

ainda são desiguais. Acredito<br />

que, agora com mandatos voltados<br />

preferencialmente à defesa dos direitos<br />

das mulheres, nós temos muito mais<br />

a acrescentar do que eles.<br />

Coloco meu mandato à disposição<br />

de todas as causas justas que venham<br />

a evidenciar a grande contribuição que<br />

as mulheres podem e irão acrescentar,<br />

não só na política, mas também em<br />

todas as áreas de desenvolvimento de<br />

um país melhor".ø<br />

LÚCIO BERNARDO JB/C.D<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


8 de março de <strong>2015</strong> - Comemorações pelo Dia da Mulher em Nova York<br />

foto UN WOMEN - J CARRIER


39<br />

Pequim+20<br />

Igualdade de gênero: uma promessa<br />

ainda não cumprida<br />

ENTREVISTA<br />

NADINE GASMAN<br />

Duas décadas após a 4ª Conferência<br />

Mundial sobre a Mulher, realizada<br />

em Pequim (Beijing), em 1995, os desafios<br />

para a igualdade de gênero em<br />

todo o mundo continuam. “É possível<br />

identificar um progresso significante<br />

nas diferentes áreas de preocupação da<br />

Plataforma de Pequim, <strong>por</strong>ém ainda<br />

não é suficiente. Ainda há muitos desafios<br />

a serem superados para conquistar<br />

a igualdade política, econômica e<br />

social de gênero”, afirma a representante<br />

da ONU Mulheres no Brasil, Nadine<br />

Gasman.<br />

A Conferência Mundial sobre a Mulher<br />

de Pequim teve a presença de<br />

17.000 participantes, 30.000 pessoas<br />

assistiram ao fórum de ONGs e resultou<br />

em um acordo entre 189 governos<br />

que adotaram a Declaração e a Plataforma<br />

de Ação de Pequim de 1995. A<br />

Plataforma prevê ações pela igualdade<br />

de gênero e eliminação da discriminação<br />

contra mulheres e meninas. O docu-<br />

mento lista 12 pontos prioritários de<br />

trabalho, além de ações detalhadas<br />

para alcançar seus objetivos estratégicos.<br />

Uma promessa ainda não cumprida,<br />

segundo a ONU Mulheres, que coordena<br />

a Campanha Pequim+20.<br />

Para Nadine Gasman, a violência<br />

contra a mulher é um dos maiores desafios<br />

a serem enfrentados. “Os presentes<br />

esforços para reduzir a violência<br />

contra as mulheres não são suficientes.<br />

É preciso ter em mente que esse problema<br />

cria desafios de curto e longo<br />

prazo, <strong>por</strong> isso a educação e as políticas<br />

públicas devem ser inovadoras e ousadas<br />

para promover o respeito de todos os<br />

direitos humanos e das mulheres”.<br />

Uma comissão com representantes<br />

de várias partes do mundo revisa a Declaração<br />

e Plataforma de Ação de Pequim<br />

e faz um balanço sobre os avanços<br />

e desafios para a igualdade de gênero<br />

e o empoderamento das mulheres, desde<br />

a implementação do documento.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


40<br />

<strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - 20 anos após a<br />

histórica 4º Conferência Mundial de<br />

Mulheres, em Pequim, quais os avanços<br />

e desafios para a igualdade de<br />

gênero e empoderamento das mulheres<br />

no mundo e no Brasil?<br />

É possível identificar um progresso<br />

significante nas diferentes áreas de<br />

preocupação da Plataforma de Pequim,<br />

<strong>por</strong>ém ainda não é suficiente. Ainda<br />

há muitos desafios a serem superados<br />

para conquistar a igualdade política,<br />

econômica e social de gênero. A Plataforma<br />

de Pequim permanece muito<br />

atual no sentido de orientar os governos<br />

e as sociedades a conquistar a<br />

igualdade substantiva e eliminar a discriminação<br />

contra mulheres e meninas.<br />

Mas, infelizmente, nenhum país<br />

atingiu esse objetivo até hoje. As mulheres<br />

ainda ganham salários menores<br />

que os dos homens de mesma idade e<br />

nível de instrução e estão mais propensas<br />

a empregos de baixa qualidade.<br />

No mundo, um terço das mulheres já<br />

sofreu violência física ou sexual e 800<br />

mulheres morrem <strong>por</strong> dia durante o<br />

parto devido à falta de assistência médica<br />

adequada ou <strong>por</strong>que não têm direitos<br />

reprodutivos garantidos.<br />

Das doze áreas temáticas que<br />

foram abordadas na Plataforma de<br />

Ação de Pequim (Mulheres e pobreza;<br />

Educação e Capacitação de Mulheres;<br />

Mulheres e Saúde; Violência<br />

contra a Mulher; Mulheres e Conflitos<br />

Armados; Mulheres e Economia;<br />

Mulheres no Poder e na liderança;<br />

Mecanismos institucionais para o<br />

Avanço das Mulheres; Direitos Humanos<br />

das Mulheres; Mulheres e a<br />

Mídia; Mulheres e Meio Ambiente e<br />

Direitos das Meninas) quais mais<br />

precisam avançar?<br />

Nós temos um desafio urgente de<br />

construir mecanismos institucionais<br />

para assegurar que homens e mulheres<br />

sejam igualmente representados na política<br />

e na tomada de decisões, nos<br />

níveis global, regional e nacional, nos<br />

setores público e privado. A economia<br />

também é uma área de profundas desigualdades.<br />

As mulheres ainda encontram<br />

maiores dificuldades que os homens<br />

para conseguir empregos. Além<br />

disso, no mundo todo, mulheres ganham<br />

um salário de 10 a 30% menor<br />

que homens com a mesma idade e<br />

nível de instrução, o que reflete que a<br />

contribuição das mulheres para a economia<br />

é subestimada. Por exemplo:<br />

quando empregadas, as mulheres apresentam<br />

maior tendência de investir em<br />

suas famílias e comunidades. Esses esforços<br />

reduzem a fome, a pobreza e a<br />

desnutrição.<br />

Além de tudo, milhões de mulheres<br />

correm o risco de contrair doenças sexualmente<br />

transmissíveis e gravidez indesejada<br />

devido aos escassos serviços<br />

de saúde sexual e reprodutiva bem<br />

como políticas de contracepção inadequadas.<br />

Mas a violência contra as mulheres<br />

talvez seja a área de maior preocupação.<br />

Muitos países não têm políticas<br />

públicas que incentivam a mudança de<br />

SÉRGIO ALMEIDA<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


41<br />

com<strong>por</strong>tamento para que mulheres e<br />

homens tenham o direito de viver livres<br />

de violência e fazer progressos para<br />

acabar com a violência de gênero. Os<br />

presentes esforços para reduzir a violência<br />

contra as mulheres não são suficientes.<br />

É preciso ter em mente que<br />

esse problema cria desafios de curto<br />

e longo prazo, <strong>por</strong> isso a educação e<br />

as políticas públicas devem ser inovadoras<br />

e ousadas para promover o respeito<br />

de todos os direitos humanos<br />

e das mulheres.<br />

Qual balanço a ONU faz sobre a<br />

situação das mulheres no Brasil?<br />

O Brasil é um país em que a desigualdade<br />

de gênero, raça e etnia é um<br />

elemento estrutural da sociedade, <strong>por</strong><br />

isso a necessidade de se construir estratégias<br />

que promovam o combate às desigualdades.<br />

A sociedade brasileira tam -<br />

bém apresenta um perfil racista, sexista<br />

e patriarcal, o que dificulta a inserção<br />

da igualdade de gênero no senso comum.<br />

Outro problema grave é a violência<br />

contra as mulheres. Estima-se que<br />

entre 2001 e 2011 ocorreram mais de<br />

50 mil feminicídios. Por outro lado, as<br />

políticas brasileiras de cotas e combate<br />

à pobreza afetaram as mulheres positivamente,<br />

permitindo que suas famílias<br />

tenham maior acesso à alimentação, à<br />

saúde e à educação, o que é essencial<br />

para a conquista dos direitos da mulher<br />

e da igualdade de gênero. Além disso,<br />

98% dos brasileiros já conhecem a lei<br />

Maria da Penha, o que torna a população<br />

mais consciente da gravidade da<br />

violência doméstica.<br />

A sra. acredita que as reflexões<br />

sobre a Pequim+20, no momento<br />

em que os países buscam alcançar<br />

os Objetivos de Desenvolvimento<br />

do Milênio, com meta até <strong>2015</strong>,<br />

pode ser uma boa o<strong>por</strong>tunidade<br />

para estabelecer uma agenda que<br />

beneficie a luta das mulheres <strong>por</strong><br />

mais igualdade?<br />

Sim, é uma excelente o<strong>por</strong>tunidade.<br />

Uma das propostas para os Objetivos<br />

de Desenvolvimento Sustentável é justamente<br />

aprofundar o compromisso<br />

dos países em relação à igualdade de<br />

gênero, a garantia de todos os direitos<br />

humanos das mulheres e o empoderamento<br />

das mulheres. Também é uma<br />

o<strong>por</strong>tunidade para integrar a questão<br />

de gênero na agenda pós-<strong>2015</strong>, assim<br />

transversalizando essa perspectiva em<br />

todos objetivos, metas e indicadores. Estamos<br />

trabalhando no processo de consulta<br />

pública em nível nacional para<br />

assegurar que as lacunas sejam preenchidas<br />

tanto no Brasil quanto nos<br />

outros países do mundo. As mulheres<br />

são 51% da humanidade e a igualdade<br />

de gênero é um tema transversal a<br />

todas as áreas e setores, o que significa<br />

que conquistar a igualdade de gênero<br />

é essencial para atingir os Objetivos<br />

de Desenvolvimento Sustentável. A evidência<br />

de que empoderar mulheres<br />

significa empoderar a humanidade é<br />

que as economias crescem mais rápido<br />

“conquistar a<br />

igualdade de<br />

gênero é essencial<br />

para atingir os<br />

Objetivos de<br />

Desenvolvimento<br />

Sustentável”<br />

quando as famílias têm acesso garantido<br />

à saúde e à educação. A nova agenda<br />

de desenvolvimento precisa abordar a<br />

questão da desigualdade de uma maneira<br />

muito mais sistemática para preencher<br />

as lacunas entre a desigualdade<br />

de gênero e as outras áreas de desenvolvimento.<br />

Qual o papel da ONU no debate<br />

e ações sobre a Pequim+20?<br />

A ONU Mulheres está trabalhando<br />

para que a igualdade de gênero seja<br />

integralmente refletida nos Objetivos<br />

de Desenvolvimento Sustentável bem<br />

como em qualquer plataforma que venha<br />

a ser adotada. O vigésimo aniversário<br />

da Plataforma de Pequim é uma<br />

o<strong>por</strong>tunidade para renovar compromissos<br />

e interesse político, preencher<br />

as lacunas e mobilizar a população<br />

global em busca de um objetivo comum.<br />

A 59ª Sessão da Comissão sobre a Situação<br />

da Mulher (9-20 de Março de<br />

<strong>2015</strong>) foi organizada pela ONU Mulheres<br />

em Nova York para reunir Representantes<br />

de Estados-Membros, Entidades<br />

da ONU e Organizações Não-<br />

Governamentais de todos os cantos<br />

do mundo. O assunto central dessa<br />

sessão foi a Declaração e Plataforma<br />

de Ação de Pequim, incluindo os atuais<br />

desafios que afetam sua implementação<br />

e a conquista da igualdade de gênero e<br />

do empoderamento das mulheres. A<br />

comissão avalia o progresso feito desde<br />

a implementação da Declaração e Plataforma<br />

de Ação de Pequim, 20 anos<br />

após sua adoção na Quarta Conferência<br />

Mundial para as Mulheres, em 1995.<br />

A revisão, chamada de Pequim+20,<br />

também incluirá os resultados da 23ª<br />

Sessão Especial da Assembleia Geral<br />

da ONU, que determinou iniciativas e<br />

ações para a igualdade de gênero.ø<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


42<br />

HOMENAGEM<br />

POR CECÍLIA ALVIM<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

“Uma mulher<br />

impossível”<br />

Rose Marie Muraro superou diversas barreiras<br />

em defesa da emancipação feminina<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


43<br />

Uma mulher que “enxergava” à<br />

frente de seu tempo, que “via” longe,<br />

mesmo sem enxergar… Assim era Rose<br />

Marie Muraro, escritora e feminista<br />

brasileira, que faleceu em junho de<br />

2014, aos 83 anos. Intelectual que lutava<br />

pela igualdade de direitos entre<br />

homens e mulheres, Rose Marie foi<br />

reconhecida pela Lei 11.261 de 2005,<br />

durante o governo Lula, como Patrona<br />

do Feminismo Brasileiro.<br />

Rose Marie nasceu no Rio de Janeiro,<br />

em 1930, com uma visão muito<br />

baixa e que piorou ao longo dos anos<br />

até ficar cega nos últimos tempos. No<br />

entanto, essa limitação não a impediu<br />

de viver uma vida intensa e militante<br />

em prol de um mundo mais justo e<br />

igualitário. Sua trajetória sempre marcada<br />

pela defesa da emancipação feminina<br />

repercutiu fortemente no Brasil<br />

do século XX. Sua atuação no movimento<br />

feminista e sua extensa obra<br />

propagaram conceitos libertários que<br />

foram sementes de mudanças que atingiram<br />

a realidade das mulheres brasileiras<br />

desde a década de 60 até hoje.<br />

“A minha militância começou em<br />

meados da década de 40 quando tomei<br />

consciência da injustiça social”, relatou<br />

Rose Marie em um memorial, disponibilizado<br />

<strong>por</strong> sua filha, Tônia Muraro,<br />

para essa re<strong>por</strong>tagem. Rose participou<br />

do movimento estudantil desde o ensino<br />

médio. Escreveu o primeiro número<br />

do jornal Roteiro da Juventude, da Juventude<br />

Estudantil Católica (JEC). “Foi<br />

aí que me lancei no mundo. E já não<br />

me interessava mais ser feliz e sim<br />

fazer o que tinha que ser feito. Minha<br />

vida se abria para algo maior que ela<br />

mesma”, contou Rose.<br />

Em 1949, entrou para a Universidade<br />

do Brasil (hoje UFRJ) para estudar<br />

Física. “Eram cerca de 70 homens e<br />

umas dez mulheres. Fui recebida <strong>por</strong><br />

eles com grande susto <strong>por</strong>que era a<br />

mais jovem e tinha passado em primeiro<br />

lugar, vinda de um colégio de freiras<br />

desconhecido. Foi aí que tive conhecimento<br />

das outras classes sociais. Saí<br />

de um mundo elitista para um mundo<br />

misturado, <strong>por</strong>que a nossa era uma<br />

universidade pública”, relatou Rose.<br />

Inquieta militante<br />

Participou da Campanha o “Petróleo<br />

é Nosso”, na época da Fundação<br />

da Petrobras. “Eu estava começando a<br />

participar de movimentos políticos,<br />

mas ainda estava muito ligada à minha<br />

vida pessoal, <strong>por</strong>que já casada, tinha filhos<br />

pequenos a quem adorava, embora<br />

detestasse minha vida de casada”,<br />

contou, sem constrangimentos, em seu<br />

memorial.<br />

Da experiência da vida de inquieta<br />

militante para o início do trabalho<br />

como editora e difusora de novas ideias,<br />

se passaram três décadas. Em 1961,<br />

com 31 anos, começou a trabalhar na<br />

Editora Vozes. A partir de então, Rose<br />

escreveu 40 livros e editou cerca de<br />

“E já não me<br />

interessava mais<br />

ser feliz e sim fazer<br />

o que tinha que ser<br />

feito. Minha vida se<br />

abria para algo<br />

maior que ela<br />

mesma”.<br />

1.600 títulos. Atuou na Vozes <strong>por</strong> 17<br />

anos, onde foi diretora junto com o<br />

teólogo Leonardo Boff, e também na<br />

Rosa dos Tempos, única editora dedicada<br />

ao Estudo de Gênero na América<br />

Latina, entre os anos de 1990 e 2000.<br />

Em 1966 saiu o seu primeiro livro,<br />

A Mulher na Construção do Mundo<br />

Futuro, que vendeu dez mil exemplares<br />

em três meses. Em 1968, escreveu<br />

sua segunda obra: Automação e o Futuro<br />

do Homem, e em 1970, Libertação<br />

sexual da Mulher, ambas pela<br />

Editora Vozes.<br />

Vigiada pelos militares<br />

Em 1971, Rose Marie trouxe ao<br />

Brasil a estadunidense Betty Friedan,<br />

considerada uma das feministas mais<br />

influentes do século XX, vinda essa<br />

que gerou grande repercussão na opinião<br />

pública da época. “Foram três<br />

dias de loucura. Quando ela foi embora,<br />

parecia um país devastado e os militares<br />

me vigiaram durante seis meses”, comentou<br />

Rose. Segundo ela, a visita de<br />

Betty inaugurou um novo tempo na<br />

história feminista brasileira.<br />

Hildete Pereira de Melo, professora<br />

de Economia da Universidade Federal<br />

Fluminense e ex-assessora da Secretaria<br />

de Políticas para as Mulheres, conheceu<br />

Rose na década de 70, período de<br />

efervescência do feminismo no Brasil.<br />

“Ela era extremamente inteligente, alegre<br />

e arguta. E muito avançada em<br />

suas posições. Sua dificuldade física<br />

nunca a impediu de realizar uma vida<br />

política militante, baseada em uma<br />

grande erudição”, disse.<br />

Em 1975, Rose participou da fundação<br />

do Centro da Mulher Brasileira.<br />

Ainda nesse ano, os militares, <strong>por</strong><br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


causa da liderança feminista que Rose<br />

havia se tornado, proibiram seus livros<br />

classificando-os como <strong>por</strong>nográficos,<br />

embora estivessem maciçamente sendo<br />

adotados em escolas e universidades<br />

brasileiras. “Falar de mulher naquele<br />

período era difícil. A gente falava baixinho”,<br />

conta Hildete.<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Afastada da Igreja<br />

Junto de Boff, Rose colaborou para<br />

o surgimento de outro dos mais im<strong>por</strong>tantes<br />

movimentos sociais do século<br />

XX: a Teologia da Libertação. Por essa<br />

atuação libertária e pela publicação,<br />

<strong>por</strong> Rose, do livro Por uma erótica<br />

cristã, ela foi afastada da Editora Vozes<br />

em dezembro de 1986, junto com o<br />

teólogo. “Esses movimentos nasceram<br />

com o objetivo fundamental de promover<br />

a equidade de gênero, a liberdade<br />

de expressão e a democratização. Apesar<br />

de termos sido excomungados da<br />

Igreja Católica, e de termos nossos livros<br />

proibidos durante o regime militar,<br />

seguimos trabalhando incansavelmente<br />

com esses movimentos e seus conceitos<br />

até os dias atuais” relatou Rose em<br />

seu memorial.<br />

“Mesmo com sua formação religiosa,<br />

ela irradiava essa perspectiva de libertação<br />

da mulher, até mesmo na questão<br />

da sexualidade, de não suprimir os próprios<br />

desejos. Ela acreditava no amor<br />

sem amarras”, destacou Hildete Pereira.<br />

“Seu maior legado foi promover a reflexão<br />

sobre a condição feminina e a<br />

sociedade patriarcal, que oprime mulheres<br />

em todo o mundo”, completou.<br />

Em 1985, Rose foi membro fundador<br />

do Conselho Nacional dos Direitos<br />

da Mulher, órgão ligado ao governo<br />

federal, que conseguiu inserir na Constituição<br />

de 1988 alguns dos itens mais<br />

progressistas em âmbito internacional<br />

sobre a condição da mulher. Em 2003,<br />

voltou ao Conselho, nomeada pela<br />

Presidência da República, <strong>por</strong> notório<br />

saber em matéria de gênero.<br />

Valores femininos<br />

Em 1983, publicou A Sexualidade<br />

da Mulher Brasileira: corpo e classe<br />

social no Brasil; em 1990, Os seis<br />

meses em que fui homem e, em 1992,<br />

A Mulher no Terceiro Milênio. Em<br />

1999, publicou ainda Memórias de<br />

Uma Mulher Impossível, sua autobiografia.<br />

Em 2002, trabalhando novamente<br />

em parceria com Leonardo Boff,<br />

publicou Masculino/Feminino: uma<br />

nova consciência para o encontro das<br />

diferenças. Em 2010, teve seu último<br />

livro publicado: Reinventando o Capital/Dinheiro,<br />

que trazia uma visão feminina<br />

para uma nova forma de economia<br />

solidária.<br />

“Ao contrário dos países desenvolvidos,<br />

onde o movimento feminista só<br />

tratava de gênero, o Brasil lutou e precisa<br />

continuar lutando pelos três pilares<br />

da opressão de homens e mulheres:<br />

classe social, gênero e etnia. O feminino<br />

ultrapassa a mulher assim como o masculino<br />

também ultrapassa o homem.<br />

Daí a possibilidade de se construir através<br />

dos tempos, diversos femininos e<br />

diversos masculinos. Mas, na minha<br />

opinião, devido a experiência de gerar<br />

e manter a vida humana vivida pela<br />

mulher, acho que o mundo deveria caminhar<br />

para esses valores ditos “femininos”,<br />

como o cuidado, o altruísmo,<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


45<br />

se quiser reverter o processo de destruição<br />

a que foi submetido pelo patriarcado/capitalismo”,<br />

alertou Rose<br />

em seu Memorial.<br />

Coragem de transgredir<br />

Como conferencista, Rose deu mais<br />

de 1.500 palestras no Brasil e no<br />

exterior em várias instituições, sempre<br />

disseminando ideias feministas. Preocupada<br />

com a mudança possível através<br />

da educação, Rose colaborou ativamente<br />

com a formação na temática de gênero<br />

de professores da rede estadual de educação<br />

do Rio de Janeiro, entre 1998 e<br />

2003. Uma poeta e mulher visionária,<br />

que viveu do impossível, Rose sempre<br />

dizia: “entre homens e mulheres deve<br />

haver diferenças, mas não desigualdades”.<br />

E ainda: “Eu mudei a cabeça de<br />

várias gerações... Quem educa uma<br />

mulher educa uma geração inteira...” ,<br />

relata sua filha, Tonia Muraro.<br />

Rose Marie recebeu diversas condecorações<br />

<strong>por</strong> sua atuação na sociedade.<br />

Em setembro de 1999, recebeu<br />

o Troféu Teotônio Vilella como a mais<br />

im<strong>por</strong>tante editora na resistência à Ditadura<br />

Militar. Em junho de 2005, foi<br />

indicada com mais cinquenta e uma<br />

mulheres para o Prêmio Nobel da Paz.<br />

Em abril de 2014, foi condecorada<br />

pelo Itamarati com o grau de Oficial<br />

da Ordem do Rio Branco.<br />

Em 2009, fundou o Instituto Cultural<br />

Rose Marie Muraro, para conservar<br />

e difundir o seu acervo cultural. Um<br />

dos projetos do Instituto, que hoje é<br />

coordenado <strong>por</strong> Tonia Muraro, é a<br />

criação da Biblioteca Rose Marie Muraro,<br />

que pretende ser a primeira biblioteca<br />

brasileira especializada em<br />

estudos de gênero.<br />

“A maior lição que minha mãe me<br />

deu foi sua coragem de transgredir e<br />

buscar a plenitude da vida. Rose<br />

Muraro foi uma mulher transgressora<br />

desde o dia em que nasceu. Foi condenada<br />

à morte, à cegueira, a não ter<br />

filhos, a não ler e nem trabalhar, mas<br />

transgredindo as leis físicas e as do<br />

homem, aprendeu a ler sozinha, começou<br />

a escrever aos 15 anos, trabalhou<br />

desde então, teve cinco filhos, foi militante<br />

ativa e escritora de mais de<br />

quarenta títulos. Estudou e pesquisou<br />

ao longo de seus oitenta e três anos. E<br />

ainda venceu duas vezes o câncer, mas<br />

na terceira partiu deste mundo”,<br />

conta Tonia.<br />

Prêmio Rose Marie Muraro<br />

“Intelectual notável, Rose Marie foi<br />

uma mulher determinada em tudo, na<br />

luta contra a barreira da cegueira, na<br />

luta p<strong>elas</strong> suas ideias. Ela é um ícone<br />

da luta pelos direitos das mulheres”,<br />

disse a presidenta Dilma Rousseff, lamentando<br />

a sua morte, em 21 de<br />

junho do ano passado. Para homenagear<br />

a escritora e reconhecer a atuação<br />

de outras mulheres feministas históricas,<br />

foi instituído o Prêmio Rose Marie Muraro<br />

pela Secretaria de Políticas para<br />

as Mulheres, da Presidência da República.<br />

Em 28 de novembro de 2014,<br />

receberam a premiação Clara Charf,<br />

Herilda Balduino de Sousa, Lenira<br />

Maria de Carvalho, Mireya Suárez,<br />

Moema Viezzer e Neuma Aguiar.<br />

O prêmio é destinado a mulheres<br />

com mais de 75 anos que atuaram ou<br />

atuam na vida pública nacional em<br />

ações científicas, tecnológicas, culturais,<br />

educacionais ou artísticas, em gestão<br />

pública e privada, em movimentos sociais<br />

e sindicais e partidos políticos.<br />

Tem <strong>por</strong> objetivo reconhecer o papel<br />

desempenhado p<strong>elas</strong> mulheres que lutaram<br />

pela cidadania feminina, pela<br />

ampliação dos direitos humanos das<br />

mulheres e efetivação de mudanças na<br />

sociedade brasileira.ø<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


46<br />

ARTIGO<br />

POR LUCIANA GARCIA DE OLIVEIRA<br />

Em Gaza, nada a<br />

comemorar<br />

“Nós não podemos exigir que os<br />

outros nos libertem se nós não somos<br />

livres”. Foram essas as palavras expressadas<br />

<strong>por</strong> Asma al-Ghoul, uma jovem<br />

jornalista palestina cujos artigos<br />

foram, <strong>por</strong> diversas ocasiões, editados<br />

ou mesmo censurados em sua Terra<br />

Natal, a Faixa de Gaza na Palestina. O<br />

depoimento de Asma no documentário<br />

Diaries, de May Odeh, pode ilustrar<br />

bem a situação da mulher em Gaza,<br />

muito além dos prejuízos causados pelo<br />

bloqueio físico e econômico na região.<br />

Nessa obra, May Odeh ultrapassa a<br />

fronteira comum da abordagem dos filmes<br />

sobre a questão internacional da<br />

Palestina e investiga a fundo acerca<br />

das angústias e frustrações das mulheres<br />

que são obrigadas a viver sob os códigos<br />

religiosos que, <strong>por</strong> diversas vezes, são<br />

impostos contra a sua vontade.<br />

May Odeh foi muito bem sucedida<br />

ao ex<strong>por</strong> um olhar crítico à imposição<br />

política e religiosa, sem adotar vícios<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


47<br />

foto ISTOCK<br />

“Apesar do avanço<br />

nas iniciativas<br />

feministas, práticas<br />

discriminatórias<br />

prevalecem”.<br />

maniqueístas, de forma a também evitar<br />

observações de caráter discriminatório<br />

e islamofóbico. Em Diaries, o<br />

confronto ao uso do hijab (o véu islâmico)<br />

aparece em respeito ao debate<br />

sobre o modo como cada mulher lida<br />

com suas concepções religiosas particulares.<br />

Muito provavelmente, caso o<br />

cenário do filme fosse outro, nas ruas<br />

de Paris, <strong>por</strong> exemplo, a questão do<br />

código de vestimenta islâmico não<br />

seria tratada sob o ponto de vista da<br />

imposição, mas sob o ângulo do sentimento<br />

de resistência cultural.<br />

Historicamente, muito embora o<br />

grupo Hamas tenha entrado em cena<br />

na Faixa de Gaza em decorrência da<br />

primeira Intifada em 1987, foi após a<br />

vitória nas eleições de 2006 que o<br />

movimento de resistência nacional islâmico<br />

deteve formalmente o controle<br />

político, cultural e social na Faixa palestina<br />

e trouxe consigo uma agenda<br />

religiosa e militante, de modo a restringir<br />

a rotina da juventude e sobretudo das<br />

mulheres palestinas. O clima de censura<br />

política e cultural aliado ao bloqueio<br />

político e econômico imposto pelo governo<br />

de Israel desde a incidência dos<br />

ataques suicidas e o lançamento de foguetes<br />

em algumas cidades israelenses,<br />

impede até hoje que a economia na<br />

faixa palestina seja autossuficiente,<br />

pois todos os carregamentos e suprimentos<br />

humanitários atualmente passam<br />

necessariamente <strong>por</strong> minucioso<br />

controle de Israel. O aumento do índice<br />

de pobreza e miséria após o bloqueio<br />

permitiu o aparecimento de inúmeros<br />

túneis que, em sua maioria, ligam a<br />

Faixa de Gaza ao Egito com fins de<br />

comércio de alimentos, medicamentos,<br />

materiais de construção e outras utilidades.<br />

Ainda, através desses túneis irregulares<br />

muitos palestinos e palestinas<br />

de Gaza fugiam da região na esperança<br />

de obter visto para outros estados através<br />

do Egito ou na necessidade de<br />

serem atendidos nos hospitais e pronto<br />

socorros ou mesmo conseguirem estudar<br />

nas escolas e universidades tradicionais<br />

egípcias.<br />

O permanente conflito com o Estado<br />

de Israel, muito além do aumento do<br />

extremismo, tem afetado diretamente<br />

a vida de milhares de pessoas, principalmente<br />

das mulheres palestinas. O<br />

documento Social and Economic Situation<br />

of Palestinian Women – 1990-<br />

2003, produzido pela Organização das<br />

Nações Unidas (ONU) em 2004, pôde<br />

revelar <strong>por</strong> meio de estudos e dados<br />

numéricos um quadro real da situação<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


48<br />

enfrentada p<strong>elas</strong> mulheres palestinas,<br />

com atenção à Faixa de Gaza, local de<br />

grande periculosidade e muita insalubridade.<br />

Ao longo do texto é mencionado<br />

que a rotina permeada pela morte<br />

repentina de alguns membros da família,<br />

como filhos e maridos durante as chamadas<br />

operações israelenses na região,<br />

como as de julho de 2014, ocasionam<br />

traumas profundos, difíceis de serem<br />

superados. A perda abrupta de pessoas<br />

próximas torna-se ainda mais crítica<br />

quando essas mulheres passam a sobreviver<br />

sem o provedor financeiro da<br />

família, em uma situação em que são<br />

obrigadas a exercer um papel diverso<br />

daquele pela qual foram educadas.<br />

Ainda é apontado que as mulheres<br />

grávidas particularmente são o alvo<br />

mais vulnerável do conflito e das punições<br />

coletivas; a maioria das gestantes<br />

é diariamente exposta a inúmeros tipos<br />

de violência, ao estresse diário e a<br />

gases tóxicos que, em última instância,<br />

ocasionam abortos prematuros. Ao levarmos<br />

em consideração que os índices<br />

de fertilidade na Faixa de Gaza é um<br />

dos mais altos do mundo, a região tornou-se<br />

oficialmente a região mais densamente<br />

populosa do planeta. A manutenção<br />

das práticas tradicionais de<br />

casamento entre mulheres muito jovens<br />

é justificada pela sensação de segurança<br />

fornecida pelo matrimônio, sobretudo<br />

em tempos de conflitos e intensas convulsões<br />

políticas e a preferência <strong>por</strong> filhos<br />

do sexo masculino ainda é bastante<br />

prevalecente dentro de um contexto<br />

ainda muito conservador e patriarcal.<br />

Em certa medida, essas questões explicariam<br />

o alto índice de fertilidade<br />

nessa estreita faixa palestina.<br />

Normalmente o nascimento de cada<br />

criança é muito comemorado, pois entre<br />

os palestinos, cada criança que nasce<br />

faz parte de uma campanha de resistência<br />

cultural e política palestina frente<br />

à crescente ocupação territorial e à supressão<br />

da existência do estado palestino.<br />

E, diante de famílias muito numerosas,<br />

muitas mulheres passam a permanecer<br />

em casa e a viver em função dos filhos<br />

e do marido. Muito embora, atualmente<br />

exista um maior número de universitárias<br />

na Faixa de Gaza, o número ainda é inferior<br />

em comparação à região da<br />

Cisjordânia, <strong>por</strong> exemplo, cujo controle<br />

vegetativo é maior, mesmo sob a permanente<br />

ocupação militar 2 . O completo<br />

e escandaloso isolamento de Gaza tornou<br />

a região um terreno fértil para o aparecimento<br />

de fundamentalismos tendentes<br />

a limitar a vida e o cotidiano dessas<br />

mulheres.<br />

2. Os índices referentes ao aumento<br />

do controle vegetativo na<br />

Cisjordânia em detrimento da<br />

Faixa de Gaza pode ser explicado<br />

em função da Cisjordânia estar<br />

mais próxima das cidades israelenses.<br />

Mesmo sob controle militar,<br />

muitas palestinas ainda têm<br />

acesso aos hospitais israelenses,<br />

referência em inúmeros tratamentos.<br />

Ainda, muitas palestinas<br />

da Cisjordânia estudam em escolas<br />

e universidades mistas e<br />

laicas ou mesmo nas instituições<br />

israelenses, o que permite que<br />

as mulheres dessa região tenham<br />

um maior acesso a uma educação<br />

de ponta. A prioridade pela<br />

carreira profissional faz com que<br />

muitas mulheres da Cisjordânia,<br />

principalmente das grandes cidades<br />

como Ramallah, Haifa e<br />

Nablus, passem a engravidar mais<br />

tardiamente e terem menos filhos.<br />

Frente ao progressivo cerceamento<br />

da liberdade, as mulheres, consideradas<br />

maioria tanto na Faixa de Gaza como<br />

na Cisjordânia, redigiram conjuntamente<br />

uma carta oficial em 1993, pela<br />

qual puderam reafirmar solenemente<br />

pela defesa da condição de igualdade<br />

de gêneros e pela manutenção do secularismo<br />

na esfera política, frente ao<br />

tratamento dos assuntos concernentes<br />

ao gênero. No texto do documento,<br />

foram destacados trechos que aludiam<br />

à imposição religiosa em Gaza, nesse<br />

caso foi aclamado o “fim da legislação<br />

discriminatória contra as mulheres” e<br />

pelo “direito de poderem transferir a<br />

cidadania palestina para os filhos e maridos”<br />

no caso de matrimônio com homens<br />

estrangeiros. A cidadania palestina,<br />

até então, poderia tão somente<br />

ser concedida através da figura masculina,<br />

assim somente po deriam ser considerados<br />

cidadãos pa lestinos os filhos<br />

de pais palestinos ou caso a mulher<br />

estrangeira fosse casada com um homem<br />

palestino.<br />

Apesar do documento ter sinalizado<br />

um avanço nas iniciativas feministas,<br />

muitas práticas discriminatórias ainda<br />

são prevalecentes com relação às mulheres<br />

na região. Ainda é bastante<br />

comum homens se divorciarem de suas<br />

esposas de maneira unilateral e obterem<br />

preferência judicial pela guarda dos<br />

filhos. Em muitos casos, a mulher passa<br />

a viver sozinha, sem qualquer apoio financeiro<br />

e a mercê da ajuda de parentes<br />

e amigos. As denúncias sobre<br />

diversas formas de violência doméstica<br />

também são bastante frequentes, casos<br />

de estupro, incesto e outras formas de<br />

agressão e violência também figuram<br />

nas estatísticas oficiais do mapa da violência<br />

contra a mulher da Palestina na<br />

Faixa de Gaza.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


49<br />

Os impedimentos internos e externos<br />

na rotina feminina em Gaza contribuíram<br />

para que muitas mulheres<br />

passassem a exercer papel ativo dentro<br />

dos movimentos nacionalistas palestinos.<br />

Atualmente é bastante comum encontrar<br />

mulheres envolvidas em assuntos<br />

políticos ao lado dos seus maridos,<br />

filhos e irmãos, em inúmeras manifestações<br />

de rua, sit-ins, na organização<br />

de petições públicas e nos partidos<br />

políticos palestinos. A progressiva politização<br />

feminina possibilitou que as<br />

bandeiras nacionais passassem a ser<br />

diretamente relacionadas às reivindicações<br />

de gênero.<br />

Foi durante os acordos de paz de<br />

Madrid, em 1991, que muitas lideranças<br />

femininas invadiram o cenário que<br />

antes estava ocupado, em quase sua<br />

totalidade, <strong>por</strong> homens. Nessa ocasião,<br />

um conselho de mulheres apresentou<br />

ao Congresso Legislativo palestino uma<br />

proposta de fixação de uma quota mínima<br />

de um terço de mulheres no parlamento.<br />

É estimado que a militância<br />

feminina tenha aumentado vertiginosamente<br />

em decorrência da segunda<br />

Intifada, em 2000.<br />

Mesmo sob condições bastante adversas,<br />

como a falta de emprego, a<br />

maioria das mulheres na Faixa de Gaza<br />

pode ser considerada grande provedora<br />

e militante política. Geralmente ocupam,<br />

na maior parte dos casos, o setor da<br />

educação, como professoras primárias<br />

e universitárias, e o setor têxtil como<br />

costureiras. E, mesmo obtendo salários<br />

inferiores aos dos homens, ainda conseguem<br />

dis<strong>por</strong> de tempo para o ativismo<br />

político, seja nas manifestações contra<br />

a ocupação, seja <strong>por</strong> intermédio da<br />

linguagem escrita sob o ofício de escritoras,<br />

poetisas e jornalistas. Vale ressaltar<br />

que grande parte das mulheres<br />

jovens de Gaza, mesmo vivendo abaixo<br />

INTERNET<br />

do nível de pobreza, aprenderam a se<br />

comunicar em inglês e mantêm contato<br />

frequente com outras ativistas estrangeiras<br />

pela internet. Muitas inclusive<br />

são bem avaliadas em cursos no exterior<br />

e nos programas de pós-graduação,<br />

mestrado e doutorado, mundo afora.<br />

E, mesmo distante da Palestina, seguem<br />

com o ativismo político na diás<strong>por</strong>a.<br />

Diante da impossibilidade de viver<br />

dignamente no que se tornou a Faixa<br />

de Gaza, muitas mulheres passaram a<br />

viver no exílio e muitas gerações nasceram<br />

e ainda nascem no exílio, sem<br />

ao menos conhecer sua terra natal.<br />

Esse imenso refúgio passou a ser o<br />

local onde as vozes femininas ecoam<br />

pela reafirmação da identidade e pela<br />

sua existência ao mesmo tempo em<br />

que, quando sufocadas, gritam <strong>por</strong> socorro<br />

e atenção. A mulher palestina<br />

está em todos os lugares e em cada<br />

canto do mundo existe um pouco da<br />

Palestina, caberá a nós mesmos prestar<br />

atenção e evitar que essas histórias<br />

testemunhadas <strong>por</strong> tantas mulheres sejam<br />

esquecidas e a existência da Palestina<br />

continue a ser negada.ø<br />

Luciana Garcia de Oliveira<br />

Pós-graduada em Política e Relações<br />

Internacionais pela Fundação<br />

Escola de Sociologia e Política de<br />

São Paulo (FESP), mestranda no<br />

Programa de Estudos Árabes e Judaicos<br />

do Departamento de Letras<br />

Orientais da Universidade de São<br />

Paulo (DLO-USP), integrante do<br />

grupo de pesquisa “Conflitos Armados,<br />

Massacres e Genocídios da<br />

Era Contem<strong>por</strong>ânea” da Universidade<br />

Federal de São Paulo (UNI-<br />

FESP) e pesquisadora associada da<br />

Interdisciplinary Research Network<br />

on Latin America and the<br />

Arab World (RIMAAL). Email: luciana.garcia83@gmail.com.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


50<br />

DIREITOS<br />

POR SAULO ESLLEN MARTINS<br />

fotos SAULO ESLLEN MARTINS<br />

Em busca de<br />

um novo rumo<br />

Vulneráveis às violências e perdas afetivas, essas mulheres<br />

ainda conseguem dar a volta <strong>por</strong> cima<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


51<br />

“Naquele dia, tudo parecia normal.<br />

Acordei cedo e fui para o trabalho. De<br />

lá, segui direto para a escola. Até aí,<br />

nenhuma surpresa. Mas a minha vida<br />

sofreria uma grande mudança de percurso.<br />

Em algumas horas, tudo estaria<br />

diferente. Sozinha, na rua, sem saber<br />

para onde ir”. Tudo aconteceu há mais<br />

de 30 anos, mas aquela noite ainda é<br />

viva na memória da ex-moradora de<br />

rua Anita Gomes dos Santos.<br />

O ano era 1977. Naquele fim de<br />

tarde, Anita deixou de seguir a sua<br />

rotina habitual. Ao invés de pegar o<br />

ônibus escolar e ir para casa, decidiu<br />

acompanhar uma amiga até outro<br />

ponto da cidade. Alguns acontecimentos<br />

no caminho fizeram com que ela demorasse<br />

muitas horas para chegar em<br />

sua residência, o que mudaria a sua<br />

história para sempre.<br />

“Quando cheguei, me deparei com<br />

papai na sala e um saco de linhagem<br />

no chão, contendo todas as minhas<br />

roupas e pequenos objetos. Não tive a<br />

o<strong>por</strong>tunidade de me explicar. Infelizmente,<br />

recebi uma criação muito rígida<br />

e com pouco diálogo”, lembra Anita.<br />

Foi a primeira noite fora de casa.<br />

Contudo, Anita não ficou na rua. Dormiu<br />

na casinha dos cachorros. Conta<br />

que passou a madrugada em claro,<br />

sentindo muita dor e desespero. “Minha<br />

vida era tra balho e escola. Eu era uma<br />

menina, não tinha experiência de vida.<br />

Nasci em uma família estruturada, re -<br />

ce bi uma boa educação. Quando fui<br />

expulsa de casa, eu tinha 17 anos, estudava<br />

no Colégio Comercial, na região<br />

da Pampulha e trabalhava na Escola<br />

de Engenharia. Você acredita?”, comenta,<br />

aos risos.<br />

Anita perdeu o rumo, seu mundo<br />

desmoronou. “Quando ia amanhecendo<br />

o dia, então criei coragem e sai em<br />

busca de um abrigo. Muitas <strong>por</strong>tas se<br />

fecharam. Tive uma vida de animal,<br />

dormia no meio do mato. Só consegui<br />

algum apoio quando conheci outras<br />

pessoas em situação de rua. Me acolheram,<br />

respeitaram e defenderam.<br />

Com o surgimento da Pastoral de Rua,<br />

recebi um acompanhamento social, assistência<br />

mesmo”, enfatiza.<br />

A educadora social Claudenice Rodrigues<br />

acompanha a trajetória de muitas<br />

mulheres na Pastoral de Rua de Belo<br />

Horizonte. “A maioria da população<br />

que está nas ruas é composta <strong>por</strong> homens.<br />

Aqui na Capital mineira, dos<br />

1.827 cidadãos nessa condição, cerca<br />

de 20% são mulheres. No entanto, <strong>por</strong><br />

si só, o fato de uma mulher estar na<br />

rua já é um elemento que dificulta ainda<br />

mais sua sobrevivência. O risco de sofrer<br />

algum tipo de violência é muito maior.<br />

Devemos pensar que o fato de não ter<br />

um lugar para cuidar da própria privacidade<br />

é uma agressão, <strong>elas</strong> se sentem<br />

humilhadas, expostas”, aponta.<br />

Claudenice esclarece que outra<br />

questão marcante é a degradação da figura<br />

feminina. “Quando vemos uma<br />

mulher em situação de rua, muitas<br />

vezes, ela está em um estágio muito<br />

avançado de perda da autoestima.<br />

Com a questão do aumento do uso de<br />

“Tive uma vida de<br />

de animal, dormia no<br />

meio do mato. Só<br />

consegui algum apoio<br />

quando conheci<br />

outras pessoas em<br />

situação de rua”<br />

drogas, acontece também a prostituição,<br />

para manter o vício”.<br />

A educadora lida todos os dias com<br />

esse público e consegue identificar diversos<br />

fatores que provocam essa mazela<br />

da sociedade. “Existe um mito social de<br />

que todos que estão nas ruas chegaram<br />

nesta situação <strong>por</strong> causa das drogas.<br />

São muitos e relevantes dilemas pessoais<br />

e coletivos que levam uma pessoa a<br />

morar na rua. A questão das drogas é<br />

só mais um. Os conflitos familiares, as<br />

condições socioeconômicas, o desemprego<br />

e a falta de estabilidade emocional<br />

são outros”, afirma Claudenice.<br />

Mães da Rua<br />

A vida dos moradores de rua não é<br />

nada linear, é uma população bem heterogênea<br />

e já passou <strong>por</strong> diversos períodos<br />

históricos. Entretanto, segundo<br />

relatos, em todas estas fases, as mulheres<br />

exerceram um papel central.<br />

“Nós tivemos um período em que<br />

as pessoas construíam malocas, barracas<br />

debaixo dos viadutos, onde se<br />

formavam comunidades chefiadas <strong>por</strong><br />

mulheres. Eram as chamadas Mães da<br />

Rua. Os grupos se organizavam em<br />

torno dessa mulher. Ela coordenava as<br />

ações de organização e sobrevivência<br />

e era tratada e respeitada como uma<br />

mãe. Dona Ângela, Dalva, Geralda,<br />

foram figuras marcantes para muitos”,<br />

considera a educadora social.<br />

“Não são apenas histórias tristes<br />

que moram nos relatos que ouvimos.<br />

As mulheres são bem peculiares, quando<br />

aparece uma o<strong>por</strong>tunidade de superar<br />

essa situação <strong>elas</strong> agarram, planejam<br />

e conseguem vencer, até com mais facilidade<br />

do que os homens”. É o que<br />

pensa Claudenice.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


52<br />

Anita (foto) é um bom exemplo, depois<br />

de décadas em situação de rua,<br />

conseguiu superar os desafios. Hoje,<br />

faz parte do Movimento Nacional da<br />

População em situação de Rua e ajuda<br />

outras pessoas com sua história de superação.<br />

Ela conta que na rua se tornou<br />

invisível, entrou no mundo das<br />

drogas, sofreu com a violência de um<br />

companheiro, foi separada de seus filhos,<br />

caiu no rio Arrudas e quase morreu,<br />

passou <strong>por</strong> todo tipo de<br />

humilhação. “As pessoas passam e<br />

nem te percebem. É como se você<br />

fosse um objeto jogado ali na calçada.<br />

É uma dor tão profunda que não tenho<br />

palavras para expressá-la. Quantas<br />

vezes recebi cantadas. Então eu dizia:<br />

- Você pode me levar para a sua casa<br />

para eu lavar minha roupa, tomar<br />

banho... A resposta era sempre não!<br />

Aprendi uma lição nessa caminhada.<br />

Você pode descer do topo para o<br />

fundo do poço, em uma fração de segundos.<br />

Hoje, tenho minha casa, meus<br />

lindos filhos estão comigo, mantenho<br />

um relacionamento há 20 anos com<br />

um ex-morador de rua. Recuperei a relação<br />

com meu pai e sei que ele sente<br />

orgulho de mim. Entro na casa do governador,<br />

no Palácio do Planalto. Sou<br />

uma vitoriosa. Construímos uma nova<br />

história, bem mais bonita e feliz”, sintetiza<br />

Anita.<br />

“As pessoas passam<br />

e nem te percebem.<br />

É como se você fosse<br />

um objeto jogado<br />

ali na calçada”.<br />

Políticas públicas<br />

Egídia Maria de Almeida Aiexe é advogada<br />

e atua em uma série de organizações<br />

que defendem os Direitos Humanos.<br />

O Fórum de População de Rua<br />

e o Comitê Municipal de Acompanhamento<br />

e Monitoramento da População<br />

de Rua são algumas d<strong>elas</strong>. De acordo<br />

com ela, a temática das mulheres demorou<br />

a ganhar espaço nos fóruns de<br />

discussão sobre essa parcela da população<br />

de Belo Horizonte. “Não tem sido<br />

pensada uma política para esse público.<br />

Como os números apontam para uma<br />

maioria de homens, os projetos de abrigamento,<br />

<strong>por</strong> exemplo, não são realizados<br />

para receber mulheres. Então,<br />

uma primeira questão seria criar unidades<br />

de atendimento para mulheres solteiras<br />

e casais também, ampliando esse setor.<br />

Só existem dois abrigos na cidade para<br />

<strong>elas</strong>”, complementa.<br />

A promoção de ações de assistência<br />

específicas é um outro ponto colocado<br />

pela advogada. “No abrigo <strong>elas</strong><br />

apenas dormem, é necessário criar repúblicas<br />

onde possam morar. Temos<br />

apenas a república Maria Maria que<br />

foi criada para recebê-las, mas a sua<br />

capacidade é muito reduzida. <strong>Elas</strong><br />

estão em uma zona de extrema vulnerabilidade,<br />

frisa Egídia.<br />

Drogas<br />

Uma questão muito discutida sobre<br />

os moradores de rua é o consumo de<br />

drogas. A advogada e militante Egídia<br />

Aiexe destaca, contudo, que o álcool é<br />

predominante, mas antes de qualquer<br />

droga está o conflito familiar. “Geralmente,<br />

esses rompimentos afetivos estão<br />

na raiz de muitos problemas. Em<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


53<br />

alguns casos, o álcool vem antes, em<br />

outras situações é a consequência.<br />

Nesse meio está, inclusive, a violência<br />

doméstica. É difícil dizer se foi a droga<br />

que levou uma pessoa para a rua ou se<br />

foi na rua que ela se envolveu com os<br />

entorpecentes”.<br />

Um dado relevante, fornecido pela<br />

advogada, contraria as manchetes de<br />

muitos jornais e programas de televisão:<br />

“Apenas uma parcela vai ter contato<br />

com outras substâncias ilegais, mas<br />

não é a maioria. Eles mesmos se dividem<br />

entre os que fazem uso de drogas<br />

ilegais e os demais. Os que trabalham<br />

na rua, <strong>por</strong> exemplo, geralmente consomem<br />

álcool e cigarro. Essas coisas<br />

são usadas para su<strong>por</strong>tar os sofrimentos<br />

físicos, emocionais, etc”.<br />

Claudenice Rodrigues, educadora social, acompanha<br />

a trajetória de muitas moradoras de rua em BH.<br />

Abandono<br />

O caminho de Rosângela Pires começou<br />

a se tornar sinuoso quando o<br />

marido a deixou com uma filha, em<br />

um barracão de aluguel. “Cheguei na<br />

rua com a minha menina no colo. Peguei<br />

apenas as nossas roupas e deixei<br />

os móveis para trás, para pagar o aluguel<br />

que eu devia. Conheci um pipoqueiro<br />

e ele foi a primeira pessoa que<br />

me ajudou. Eu estava desesperada,<br />

chorando. O medo tomou conta de<br />

mim. As coisas ruins não saíam da minha<br />

cabeça”.<br />

No dia seguinte Rosângela conseguiu<br />

o endereço de um albergue. Ela nem<br />

sabia o que era isso. Pensava que fosse<br />

algo parecido com uma prisão. “Fui,<br />

então, para o Tia Branca. Chegando<br />

lá, vi aquela confusão, homens e mulheres<br />

pra lá e pra cá. A minha maior<br />

preocupação era com a minha filha<br />

Amanda. Aos poucos fiquei mais tranquila,<br />

conversei com as funcionárias<br />

do lugar e passei a frequentar a casa<br />

de apoio. Só que, lá, era apenas para<br />

dormir. Eu tinha que encontrar um<br />

lugar onde eu pudesse tomar banho,<br />

lavar as roupas e fazer os cuidados<br />

com a minha filha”.<br />

Aos poucos, a ex-moradora de rua<br />

fez algumas amizades, com pessoas<br />

que já estavam na mesma situação.<br />

<strong>Elas</strong> a levaram para outras instituições.<br />

“Eu tinha que encontrar<br />

um lugar onde eu<br />

pudesse tomar banho,<br />

lavar as roupas e fazer<br />

os cuidados com a<br />

minha filha”.<br />

Depois disso, chegou a morar na casa<br />

de apoio Maria, Maria. “Nesse processo<br />

acabei colocando a minha filha na Febem,<br />

<strong>por</strong>que eu não queria deixá-la na<br />

rua. Quando ela tinha 4 anos, consegui<br />

retirá-la. Foi aí que conheci o trabalho<br />

da Pastoral de Rua. Depois de um<br />

tempo, no dia do meu aniversário, eu<br />

ganhei um presente que nem imaginava.<br />

Os assistentes sociais me perguntaram:<br />

– Rosângela, você quer um lugar para<br />

morar? Era um barracão de um cômodo<br />

na Pedreira Prado Lopes. Eu aceitei, é<br />

claro! Para mim era um palácio! Nisso,<br />

eu estou lá até hoje”.<br />

Rosângela tem uma vida normal.<br />

Mora com a filha, genro e netos. Mas<br />

ela guarda algumas marcas desse período<br />

em que esteve perdida, em busca<br />

da sua própria identidade. Contraiu o<br />

vírus HIV e deu três filhos para a adoção.<br />

Um deles morreu, <strong>por</strong> também<br />

ter desenvolvido a doença.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


54<br />

“Quando vejo uma mulher passando<br />

<strong>por</strong> tudo isso que já vivi, meu coração<br />

enche de tristeza. Às vezes, busco até<br />

ajudar, mas é difícil, tenho medo da<br />

violência que rola. Tenho dó, principalmente,<br />

quando são mulheres grávidas.<br />

Dá vontade de pegar e levar para<br />

a minha casa. Só eu sei o que passei.<br />

Não é fácil. Com muita luta, consegui<br />

sair dessa e dar um futuro digno para<br />

a minha filha. Tenho 44 anos e muito<br />

para contar”, explica Rosângela (foto).<br />

No caso dessa ex-moradora de rua,<br />

ela não teve condições financeiras e<br />

emocionais para cuidar dos filhos, <strong>por</strong><br />

isso, optou <strong>por</strong> entregá-los a alguém<br />

que lhes desse uma vida melhor. No entanto,<br />

em algumas situações, as mulheres<br />

não tiveram a chance de escolher. A<br />

perda dos filhos trouxe ainda mais sofrimento<br />

para vidas marcadas pela dor.<br />

Maternidade<br />

É difícil falar de mulheres e não<br />

mencionar a maternidade. Em 2014,<br />

duas recomendações da Promotoria<br />

da Infância do Ministério Público trouxeram<br />

novos elementos para esse debate.<br />

Os textos recomendam aos hospitais<br />

que os bebês de usuárias de<br />

álcool e outras substâncias, como a<br />

cocaína e o crack, sejam retirados das<br />

mães e encaminhados para abrigos.<br />

Até meados de janeiro deste ano, mais<br />

de 150 crianças já foram afastadas de<br />

suas mães. A população em situação<br />

de rua tem sido afetada diretamente.<br />

Formou-se um círculo, em que a<br />

mãe que vai até a maternidade pode<br />

sofrer uma medida compulsória <strong>por</strong><br />

parte da própria instituição de saúde.<br />

Com isso, o Ministério Público e o Juizado<br />

da Infância e Juventude determinam<br />

o afastamento entre mães e filhos. No<br />

hospital, a gestante passa <strong>por</strong> uma triagem<br />

de verificação. Se ela estiver em<br />

situação de rua, já é um indício de má<br />

qualidade da saúde familiar. Também é<br />

feito um questionamento sobre o histórico<br />

do uso de drogas. Se constatada a<br />

dependência, ela não vai ter chance de<br />

conviver com seus filhos.<br />

Egídia Aiexe relata que não está<br />

sendo avaliado se o uso da droga realmente<br />

incapacita essa mãe para cuidar<br />

da criança. “Pode ser que ela faça o<br />

consumo es<strong>por</strong>ádico. Está sendo feita<br />

uma generalização, violando o direito<br />

do bebê e da mãe. A questão central é<br />

o estereótipo, o preconceito que se<br />

coloca sobre a mulher. É preciso avaliar<br />

caso a caso para se chegar a uma decisão.<br />

Além do mais, o estado tem que<br />

fornecer ferramentas para que essa família<br />

consiga superar as dificuldades,<br />

que podem ser momentâneas”.<br />

O Estatuto da Criança prevê que a<br />

falta ou a insuficiência de recursos materiais<br />

não pode, <strong>por</strong> si só, determinar<br />

a perda da guarda ou do vínculo familiar.<br />

Nesses casos, essas famílias devem ser<br />

incluídas em programas de auxílio. A<br />

legislação obriga o Estado a possibilitar<br />

que aquela mãe tenha condições de<br />

cuidar do filho. Para Egídia Aiexe, o<br />

problema é que as mães não sabem<br />

disso e as assistentes sociais das maternidades<br />

também desconhecem essa<br />

informação.<br />

“Temos um outro problema que<br />

são os abrigos. É um serviço de execução<br />

indireta. São entidades que se cadastram<br />

na Prefeitura para realizar o<br />

serviço. Isso precisa ser repensado,<br />

<strong>por</strong> que essa instituição não é acompanhada<br />

pelos órgãos públicos, além<br />

disso, não participam das discussões<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


55<br />

públicas com os demais técnicos da<br />

rede para pensar soluções sobre o<br />

tema. Atua como um terceiro, com<br />

sua lógica própria e isso não é saudável<br />

para essa relação. O Município transfere<br />

a responsabilidade, o que dificulta o<br />

diálogo e o controle social sobre o serviço<br />

que é prestado”, afirma Egídia.<br />

Os principais atores dessa discussão<br />

tem sido a Defensoria Pública e o Ministério<br />

Público. “Nesse momento o<br />

MP está dividido. Uma parte tem uma<br />

visão muito autoritária e fascista. É um<br />

fato ruim <strong>por</strong>que a instituição costuma<br />

ser um defensor dos direitos humanos.<br />

Mas, a verdade é que os procuradores<br />

que tomaram essa decisão representam<br />

uma parcela da sociedade que julga<br />

essas mulheres de forma arbitrária e<br />

acredita que retirar os filhos do seu<br />

convívio é a melhor solução. Pensam<br />

como um problema de Polícia ou de<br />

Justiça e não de saúde pública ou de<br />

políticas públicas, como nós entendemos”,<br />

destaca Egídia.<br />

Em contraponto à ação do Ministério<br />

Público, a Defensoria Pública da União<br />

e do Estado de Minas Gerais, <strong>por</strong> meio<br />

de seus setores especializados em Infância<br />

e Juventude e Direitos Humanos,<br />

Coletivos e Socioambientais publicou<br />

uma recomendação conjunta no sentido<br />

de proteger essas mães e seus filhos e<br />

evitar a quebra dos laços familiares.<br />

Além disso, foi criada uma rede de profissionais<br />

que estão em debate constante<br />

sobre esses casos. O grupo reúne psicólogos,<br />

assistentes sociais, advogados,<br />

agentes de saúde, entre outros representantes<br />

envolvidos nessa causa.<br />

Uma das reivindicações desse grupo<br />

é que a Defensoria seja comunicada sobre<br />

os casos, assim como é feito com o<br />

Ministério Público. Para que o processo<br />

possa ser acompanhado desde o início.<br />

Da maneira como tem sido feito o procedimento,<br />

a Defensoria só é informada<br />

quando a criança já está no abrigo.<br />

“Estamos estudando formas legais, possivelmente<br />

uma ação civil pública, para<br />

que o Município atenda a essa mulher<br />

que realmente tem dependência química,<br />

de forma que ela não tenha que passar<br />

pela perda da criança. Queremos, ainda,<br />

dialogar com o Juizado da Infância. Estamos<br />

correndo o risco de adoções sumárias,<br />

o que pode ter ligações com o<br />

tráfico internacional de pessoas”, reivindica<br />

Egídia.<br />

Esse debate coloca em foco a situação<br />

das mulheres em situação de rua.<br />

Não é uma questão de direito individual<br />

apenas, envolve as demandas coletivas<br />

e o aspecto conservador da sociedade<br />

brasileira. Para a advogada Egídia<br />

Aiexe, a educação em direitos humanos<br />

é fundamental para mudar esse quadro<br />

de preconceito e discriminação. “Precisamos<br />

ensinar o que é democracia.<br />

Pensar a realidade considerando que<br />

ela tem vários olhares e perspectivas e<br />

que cada um vai somar em um mesmo<br />

espaço, construindo alguns consensos<br />

e promovendo o debate a todo o<br />

tempo, <strong>por</strong>que é assim que a humanidade<br />

deve caminhar”.ø<br />

“Para a advogada<br />

Egídia Aieixe, a<br />

educação em direitos<br />

humanos é<br />

fundamental para<br />

mudar esse quadro<br />

de preconceito e<br />

discriminação”.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


56<br />

SER MÃE<br />

POR CECÍLIA ALVIM<br />

fotos MARK FLOREST


57<br />

Mães em<br />

restrição de<br />

liberdade<br />

Mulheres<br />

passam a<br />

gravidez e<br />

criam filhos<br />

<strong>por</strong> um ano<br />

dentro do<br />

presídio<br />

Um muro alto pintado de rosa parece<br />

indicar algo diferente, mas um<br />

guarda fortemente armado no <strong>por</strong>tão<br />

lateral confirma: ali é mesmo um presídio<br />

feminino. Ao adentrar a instituição,<br />

no entanto, é possível perceber<br />

que lá não estão apenas mulheres, mas<br />

também crianças bem pequenas e gestantes.<br />

Roupinhas de bebê penduradas<br />

no varal secam ao sol e colorem uma<br />

cinzenta realidade: a do aprisionamento.<br />

Assim é o Centro de Referência<br />

à Gestante Privada de Liberdade,<br />

localizado em Vespasiano, região metropolitana<br />

de Belo Horizonte.<br />

Abrigando atualmente 65 mulheres,<br />

o local é destino de mulheres que<br />

tiveram envolvimento com drogas e<br />

crimes. Ali <strong>elas</strong> pagam suas penas em<br />

condições um pouco mais dignas do<br />

que em penitenciárias tradicionais. A<br />

ideia é pro<strong>por</strong>cionar um ambiente<br />

mais saudável para que as crianças se<br />

desenvolvam um pouco melhor dentro<br />

e fora da barriga, que possam ser amamentadas<br />

e reforcem o vínculo com<br />

suas mães, condutas fundamentais no<br />

primeiro ano de vida.<br />

Neste presídio não há grades nem<br />

c<strong>elas</strong>. As mulheres dormem em alojamentos<br />

coletivos e berços de ferro<br />

ficam ao lado das camas. Há desenhos<br />

nas paredes, brinquedos e utensílios<br />

infantis. Crianças estão no colo de<br />

suas mães ou de outras mulheres presas,<br />

que se ocupam do cuidado<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


enquanto as mães trabalham na oficina<br />

de fabricação de móveis ou na preparação<br />

das refeições. Para ajudar na<br />

cozinha, o histórico e o perfil da<br />

mulher são avaliados. <strong>Elas</strong> recebem<br />

uma remuneração pelo trabalho, que é<br />

gerenciado pela direção do Centro<br />

para compra de itens como fraldas e<br />

produtos de higiene. Ao trabalhar, <strong>elas</strong><br />

ocupam suas mentes e reduzem o<br />

tempo de aprisionamento. Para cada<br />

três dias trabalhados, um dia é remido<br />

em suas penas.<br />

A alimentação, segundo a direção<br />

do Centro, é definida <strong>por</strong> uma nutricionista,<br />

em função das gestantes e bebês.<br />

Atualmente, há 24 mulheres grávidas e<br />

41 crianças com suas mães. Uma d<strong>elas</strong>,<br />

no colo de sua mãe, mama e faz valer<br />

o seu direito e a recomendação da Organização<br />

Mundial de Saúde para o<br />

aleitamento exclusivo até os seis meses<br />

de idade. O direito à amamentação é<br />

cabível à mulher em qualquer situação,<br />

mesmo que ela se encontre privada de<br />

sua liberdade. Existem previsões legais<br />

na Constituição Federal, bem como na<br />

Lei de Execução Penal e no Estatuto da<br />

Criança e do Adolescente. Ainda segundo<br />

a OMS, o aleitamento deveria<br />

ser mantido até os 2 anos de idade,<br />

com alimentação complementar, realidade<br />

que o Centro não contempla integralmente.<br />

Mães 100%<br />

As grávidas recebem visitas regulares<br />

de uma equipe de saúde da Maternidade<br />

Sofia Feldman para ter<br />

acompanhamento pré-natal, e saem<br />

escoltadas para ganhar seus filhos lá.<br />

Depois, retornam com os bebês para<br />

o Centro de Referência, onde eles<br />

ficam até completar um ano de vida.<br />

Esse é um momento difícil: a separação<br />

das mães de seus pequenos.<br />

“Quando estão lá com seus filhos,<br />

antes e depois do parto, essas mulheres<br />

são mães 100% do tempo. Meses<br />

depois, quando os filhos saem, <strong>elas</strong> deixam<br />

de exercer a função de mãe, o<br />

que gera impactos imprevisíveis para<br />

<strong>elas</strong> e seus bebês”, aponta o advogado<br />

criminalista e professor universitário,<br />

Virgílio de Mattos.<br />

Essas crianças geralmente são entregues<br />

aos cuidados de outras mulheres<br />

da família: mães, irmãs, avós, tias,<br />

primas. Segundo a diretora de Segurança<br />

do Centro, Maurília da Silva<br />

Gandra, 95% das crianças ficam com<br />

seus familiares. “O Conselho Tutelar<br />

averigua, com antecedência, as pessoas<br />

indicadas pela mãe, para saber se<br />

<strong>elas</strong> têm condições socioeconômicas e<br />

psicológicas de assumir o cuidado dessas<br />

crianças”. Há bebês, <strong>por</strong>ém, que<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


não têm familiares interessados ou em<br />

condições de assumi-los. Esses têm um<br />

destino ainda mais triste e incerto: um<br />

abrigo público da região, onde serão<br />

cuidados <strong>por</strong> pessoas desconhecidas.<br />

“A criança cuja mãe não tem respaldo<br />

feminino em sua família, está fadada à<br />

exclusão”, alerta Virgílio.<br />

Embora com uma proposta positiva<br />

de melhorar o ambiente de privação de<br />

liberdade dessas mulheres-mães, o Centro<br />

de Referência à Gestante Privada de Liberdade<br />

é mais uma peça na engrenagem<br />

do sistema prisional, marcado pela lógica<br />

de severas punições previstas na legislação<br />

penal brasileira, que atinge mais<br />

fortemente mulheres e homens de classes<br />

populares, e também seus filhos. “A<br />

política de justiça social para o neoliberalismo<br />

é o encarceramento em massa.<br />

Essa lógica, oriunda dos Estados Unidos<br />

e Inglaterra, está falida há mais de 30<br />

anos”, aponta Virgílio de Mattos.<br />

Diferença de gênero<br />

Atualmente, segundo a Secretaria<br />

Estadual de Defesa Social, há 2.983<br />

mulheres presas em Minas Gerais.<br />

Além do Centro de Referência à Gestante<br />

Privada de Liberdade, há outras<br />

unidades prisionais que recebem exclusivamente<br />

mulheres em Minas Gerais:<br />

Complexo Penitenciário Feminino Estevão<br />

Pinto, Presídio Feminino José<br />

Abranches Gonçalves, Presídio de Caxambú,<br />

Ceresp Centro Sul e Presídio<br />

de Paraopeba.<br />

De acordo com os últimos dados do<br />

Departamento Penitenciário Nacional,<br />

do Ministério da Justiça, havia aproximadamente<br />

540 mil presos no país em<br />

2013, sendo mais de 32 mil mulheres.<br />

Baseados nesses dados, e no aumento<br />

expressivo de presas no país, o professor<br />

Virgílio de Mattos faz uma projeção<br />

de que em <strong>2015</strong> já haja mais de 700<br />

mil pessoas encarceradas no país, e de<br />

que apenas cerca de 8,5% d<strong>elas</strong> sejam<br />

mulheres, o que mostra uma acentuada<br />

diferença de gênero nessa questão. Segundo<br />

ele, mais de dois terços dessas<br />

mulheres estão reclusas <strong>por</strong> ações relacionadas<br />

ao comércio de drogas, muitas<br />

vezes <strong>por</strong> influência de namorados,<br />

companheiros, filhos e maridos.<br />

“Quando eles são presos, <strong>elas</strong> passam<br />

a tomar conta dos negócios”, comenta.<br />

Histórias de<br />

silêncio e sonhos<br />

Roberta*, 35 anos, conta que estava<br />

na “hora errada e no lugar errado...”<br />

Cumpre pena <strong>por</strong>que foi pega<br />

numa casa onde estavam pessoas envolvidas<br />

com o tráfico de drogas. Mãe<br />

de 10 filhos, ela diz que era usuária<br />

desde os 15 anos, e que sempre saía<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


60<br />

“A gente se apega e<br />

depois é muito<br />

duro separar do<br />

filho da gente”.<br />

de casa para “fazer uso” longe deles,<br />

para não influenciá-los. Segundo ela,<br />

nenhum tem o mesmo problema. Sua<br />

tia sempre a ajudou a criar os filhos. O<br />

mais velho tem 21 anos e o mais novo<br />

está na barriga. Ela está grávida de 8<br />

meses. O pai do neném que está sendo<br />

gestado também está preso. Enquanto<br />

tece o assento de uma bela cadeira,<br />

que será vendida pela fábrica parceira<br />

da oficina, ela sonha em tecer um futuro<br />

melhor: “Saindo daqui, quero renovar<br />

a minha vida, recuperar o tempo<br />

perdido, viver para meus filhos”.<br />

Maria*, 33 anos, também está grávida.<br />

Seu quarto filho nascerá em<br />

breve. Ficará entregue aos cuidados da<br />

família, até ela cumprir o restante de<br />

sua pena <strong>por</strong> envolvimento com drogas.<br />

Ela diz que preferiria estar em um<br />

presídio comum, onde as crianças são<br />

retiradas das mães bem antes de um<br />

ano de vida. “A gente se apega e depois<br />

é muito duro separar do filho da<br />

gente”, diz, com os olhos marejados.<br />

Pede licença da sala onde acontecia a<br />

oficina. “Preciso respirar. Passar <strong>por</strong><br />

tudo isso não é fácil...”, relata.<br />

Joana*, 20 anos, troca a fralda de<br />

uma bebezinha em cima de sua cama,<br />

e está grávida de 8 meses. Ela explica:<br />

“Essa é filha da minha irmã, que está<br />

trabalhando na oficina. Estou cuidando<br />

pra ela”. Não só ela e a irmã estão presas.<br />

Seus bebês também estão ali, dentro<br />

e fora da barriga. Outra irmã, o pai,<br />

e o cunhado estão encarcerados também.<br />

Sua história traduz a triste sina da<br />

desigualdade social e racial que penaliza<br />

famílias inteiras, sem perspectivas<br />

de futuro. É possível perceber que um<br />

número significativo de mulheres ali<br />

são negras ou morenas.<br />

Iara*, 23 anos, também é negra e<br />

está gestante. Diz que sua prima ficará<br />

com o neném quando nascer. “Ainda<br />

não falei com ela <strong>por</strong> telefone, só <strong>por</strong><br />

carta. Mas ela vai cuidar dele sim, <strong>por</strong>que<br />

gosta muito de mim”. Recém-chegada,<br />

parece mais disposta que as<br />

demais. Diz que quer que o tempo<br />

passe logo, para ela ser transferida para<br />

o presídio feminino em sua cidade, no<br />

Triângulo Mineiro, onde mora seu filho<br />

de 3 anos, que sonha poder ver com<br />

frequência. “Estou com muitas saudades<br />

dele”, diz emocionada. Ela quer<br />

tirar fotos. “Vocês vão tirar fotos da<br />

gente? É bom <strong>por</strong>que eu não tenho foto<br />

de mim grávida”, pede e se ajeita para<br />

mostrar a barriga. Ela quer ter uma recordação<br />

de uma fase que é pra ser bonita<br />

na vida da mulher, mas que é<br />

diferente no caso dela e de tantas outras<br />

que ali estão. As tradicionais fotos de<br />

mulher grávida, cheia de roupas, adereços<br />

e mimos infantis, dá lugar ao que é<br />

possível: algumas breves poses, com o<br />

uniforme branco e verde claro do Centro<br />

de Referência. Ainda assim, o momento<br />

guarda certa alegria, a da espera<br />

maternal, da vida nova que se anuncia<br />

nas curvas daquela barriga.<br />

E nas curvas da vida, um futuro melhor<br />

se aproxima para Antônia*, 34<br />

anos. Sua espera já está perto do fim.<br />

Chegou ao Centro há um ano e alguns<br />

meses para cumprir o fim de sua pena.<br />

Passou a gravidez e ganhou sua filha<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


61<br />

lá. A menina já está com 1 ano e 2<br />

meses. “Aqui é diferente de outro presídio<br />

onde estive, <strong>por</strong>que posso ficar<br />

com minha filha, cuidar dela”. Como<br />

Antônia está prestes a “ganhar a liberdade”,<br />

a direção permitiu que a menina<br />

ficasse um pouco mais para sair<br />

junto com sua mãe, prática que se repete<br />

em casos semelhantes. “Quando<br />

sair daqui quero colocar minha filha no<br />

jardim, voltar a trabalhar”. Ela conta,<br />

sorridente, que seu casamento também<br />

foi realizado ali, no fim de 2014. Uma<br />

cerimônia simples oficializou a sua<br />

união com o pai da menina, com quem<br />

já se relaciona há cerca de 7 anos. Segundo<br />

ela, o marido a visita semanalmente<br />

no presídio. Vai ver a mulher e<br />

a filha, e levar um pouco do que <strong>elas</strong><br />

precisam: itens de higiene, afeto, carinho...<br />

“Ele tá na luta comigo...”<br />

Situação diferente de boa parte das<br />

mulheres presas ali. Poucas recebem<br />

visitas de seus maridos. “Geralmente,<br />

quando o homem é preso, recebe<br />

visitas regulares de sua mulher. Já a<br />

mulher não costuma receber visitas de<br />

seu companheiro, pois muitas vezes<br />

ele está preso, com mandado de prisão<br />

ou envolvido com atividades ilegais”,<br />

analisa Virgílio.<br />

[ nomes fictícios para preservar a identidade<br />

* ]<br />

das mulheres presas.<br />

“Saindo daqui,<br />

quero renovar a<br />

minha vida,<br />

recuperar o tempo<br />

perdido, viver para<br />

meus filhos”<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


62<br />

Estigma da exclusão<br />

Uma agente penitenciária mostra<br />

um outro lado da história. Sob sua<br />

ótica, boa parte dessas mulheres não é<br />

tão maternal quanto parece. “Exercem<br />

a maternidade integralmente apenas<br />

enquanto estão aqui entregues a essa<br />

função. Do lado de fora, agem diferente,<br />

têm outras condutas que as distanciam<br />

de seus demais filhos e de uma<br />

vida tranquila”.<br />

Ainda que o Centro de Referência<br />

à Gestante Privada de Liberdade pareça<br />

uma ilha no submundo dos presídios<br />

brasileiros, uma dura realidade<br />

salta aos olhos: os filhos dessas mulheres<br />

são crianças que já nascem presas,<br />

cumprem penas <strong>por</strong> ações e crimes<br />

que não cometeram... E uma questão<br />

fica no ar: qual será o destino d<strong>elas</strong>? O<br />

que o futuro reserva para quem já<br />

nasce sob o estigma da exclusão?<br />

Enquanto algumas mulheres esperam<br />

o parto de seus bebês, outras<br />

esperam, angustiadas, o dia em que<br />

vão se separar de seus filhos, mas<br />

todas, invariavelmente, esperam pelo<br />

dia em que ganharão a tão sonhada<br />

liberdade. “Liberdade − essa palavra, /<br />

que o sonho humano alimenta: / que<br />

não há ninguém que explique / e ninguém<br />

que não entenda!”, versos da<br />

poetisa Cecília Meireles, estampados<br />

no muro rosado do pátio interno da<br />

instituição prisional.<br />

Especialista<br />

defende anistia<br />

Para Virgílio de Mattos, que é também<br />

membro da Comissão Nacional<br />

de Controle Social na Execução Penal<br />

do Ministério da Justiça, uma medida<br />

humanitária poderia mudar essa triste<br />

história das mulheres presas gestantes<br />

e mães. Uma revisão das penas impostas<br />

a <strong>elas</strong> identificaria quais poderiam<br />

cumprir penas sem restrição de liberdade,<br />

para poderem gestar e criar seus<br />

filhos longe da cadeia. “A maioria é ré<br />

primária. Mais de 75% d<strong>elas</strong> não cometeram<br />

crimes com violência ou com<br />

grave ameaça contra a pessoa. Há os<br />

casos de mulheres que cometeram crimes<br />

para se defenderem de homens<br />

violentos, para não morrerem, para<br />

não apanharem”, destaca Virgílio. De<br />

acordo com ele, mulheres sem antecedentes<br />

criminais, e que não cometeram<br />

crimes violentos, poderiam cumprir<br />

suas penas de outra forma, fora da cadeia,<br />

sem colocar em risco a sociedade<br />

e o futuro de seus filhos. “Seria possível<br />

anistiar mais de dois terços das mulheres<br />

presas, mas o preconceito faz com<br />

que todo mundo se cale e essa situação<br />

se mantenha assim...”, analisa Virgílio<br />

de Mattos.<br />

Sua proposta de uma anistia para<br />

essas presas parece utópica, mas em<br />

sua visão, deveria ser replicada de uma<br />

forma mais ampla no sistema prisional<br />

brasileiro, com cadeias superlotadas e<br />

em condições ruins de funcionamento.<br />

“A cada dia que passa, prende-se mais<br />

e mal. Muitas pessoas que estão presas<br />

poderiam estar soltas, cumprindo medidas<br />

alternativas sem restrição de liberdade,<br />

tendo a chance constante de<br />

recriar a própria vida, como é comum a<br />

todo ser humano”, vislumbra Virgílio.ø<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


“algumas mulheres<br />

esperam o parto<br />

de seus bebês,<br />

outras esperam,<br />

angustiadas, o dia<br />

em que vão se<br />

separar de seus<br />

filhos, mas todas,<br />

invariavelmente,<br />

esperam pelo dia em<br />

que ganharão a tão<br />

sonhada liberdade”.


64<br />

foto CECÍLIA ALVIM<br />

SER MÃE<br />

POR CECÍLIA ALVIM<br />

Mãe coragem<br />

Eva Maria da Silva constrói a sua família<br />

com crianças que precisam de um lar<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


65<br />

Uma história<br />

absolutamente singular.<br />

Essa é a síntese, que<br />

não diz tudo, sobre a<br />

vida de Eva ...<br />

Uma mulher que abraça<br />

muitos filhos e acolhe<br />

muitas pessoas,<br />

independentemente de<br />

idade, condição,<br />

escolhas...<br />

Há 31 anos, Eva Maria da Silva recebe<br />

em sua casa crianças, adolescentes,<br />

jovens, adultos e idosos que se encontram<br />

em situações difíceis ou que perderam<br />

suas referências familiares. Em<br />

uma nova moradia, eles têm a chance<br />

de reconstruir suas vidas, baseadas em<br />

afeto, colo de mãe e valores de família.<br />

Diferente de um abrigo convencional,<br />

onde as crianças são cuidadas <strong>por</strong><br />

funcionários, nessa casa todos são criados<br />

como filhos e netos, como parte<br />

integrante de uma família de verdade.<br />

Eva conta com simplicidade: “aqui é<br />

um lar e nós somos uma família”.<br />

Tudo começou em 1984, quando<br />

Eva, casada com Vivaldo Elias de Souza,<br />

já tinha um filho de 3 anos e outro<br />

com cerca de 6 meses. Ela trabalhava<br />

como auxiliar de enfermagem na Copasa.<br />

Ao visitar famílias de funcionários,<br />

em vilas e periferias, ela percebeu<br />

muitas histórias de sofrimento e abandono<br />

e começou a se perguntar: “Com<br />

a profissão que eu tenho, o que posso<br />

fazer a mais neste mundo?”.<br />

E desde então, Eva fez mais, muito<br />

mais do que imaginava e do que se<br />

possa acreditar. Com dois filhos pequenos,<br />

ela foi a uma creche buscar<br />

uma criança que lhe havia sido indicada<br />

para adoção. No entanto, ao chegar<br />

se deparou com um outro menino pequeno<br />

e franzino de cerca de 1 ano.<br />

“Era só cabeça e barriga. Estava desnutrido<br />

e carente. Senti que era ele.<br />

Com tempo e cuidado, ele se reestabeleceu,<br />

teve uma infância tranquila,<br />

estudou”, relata.<br />

Depois disso, ela adotou mais quatro<br />

crianças, até ter mais um filho “de barriga”,<br />

como ela chama seus três filhos<br />

biológicos, já que trata todos igualmente<br />

como seus filhos. “A comida é igual<br />

para todos. Nada é separado”, diz um<br />

dos filhos.<br />

Com um neném de colo, ela prosseguiu<br />

sua missão de cuidar dos filhos<br />

de outras pessoas. Junto com o marido,<br />

adotaram mais 11 crianças e mantiveram<br />

muitas outras sob guarda provisória,<br />

concedida pela Justiça, até que tomassem<br />

seu rumo. Vivaldo, casado com<br />

Eva há 35 anos, resume sua percepção<br />

sobre sua esposa em poucas palavras:<br />

“Ela é uma mãe no máximo do dinamismo<br />

que a vida se apresenta”.<br />

Em muitos casos, o casal conseguiu<br />

apoiar e promover a reaproximação e<br />

o retorno da pessoa à sua família de<br />

origem. No entanto, muitos ficaram,<br />

pois encontraram ali o que não tinham<br />

experimentando antes: amor de mãe,<br />

de pai, de irmãos, uma cama para<br />

dormir sossegado e sonhar com uma<br />

vida pela frente. “Quando se dissolvem<br />

os laços familiares, você percebe o<br />

medo, a fragilidade, a desconfiança entrar.<br />

As pessoas passam a acreditar que<br />

não podem mais ser amadas. E então<br />

<strong>elas</strong> precisam ter uma experiência de<br />

amor verdadeiro para voltarem a acreditar<br />

em si mesmas e seguirem adiante”.<br />

Filhos de Eva<br />

Ao todo, Eva tem 17 filhos adotados<br />

legalmente, sendo 6 deles especiais,<br />

pessoas com alguma deficiência.<br />

Sobre quantas pessoas já acolheu, parece<br />

até ter perdido a conta, mas lembra<br />

de um levantamento feito há 10<br />

anos, quando já tinham passado <strong>por</strong><br />

sua casa, <strong>por</strong> algum tempo, cerca de<br />

1380 pessoas. Depois de mais uma<br />

década, ela estima que esse número<br />

chegue hoje a 2000 pessoas que, de<br />

alguma forma, fizeram e ainda fazem<br />

parte dessa imensa família. “Sempre<br />

acolhi as pessoas que precisavam de<br />

uma casa, de uma família, e nunca tive<br />

restrições de origem, condição, idade,<br />

opção sexual. A gente tem que respeitar<br />

as pessoas. Não podemos agir com<br />

egoísmo”.<br />

Todos a consideram como mãe,<br />

<strong>por</strong>que veem nela a referência de amor<br />

incondicional e cuidado constante que<br />

as mães geralmente dedicam a seus filhos.<br />

“Para mim, ser mãe é amar e<br />

respeitar os filhos, independente de<br />

suas escolhas e de suas identidades,<br />

mas é também im<strong>por</strong> limites, incentivar<br />

para que estudem, tenham profissão,<br />

trabalhem e se desenvolvam”.<br />

Ela conta que alguns dos filhos já<br />

têm família e, destaca, com orgulho<br />

de mãe, que cinco de seus filhos especiais<br />

estão trabalhando. “Eles têm horário<br />

de trabalho, obrigações, vão de<br />

ônibus, e têm seus próprios salários.<br />

Gosto de ver eles progredindo”. Dois<br />

de seus filhos se formaram em Direito,<br />

uma em Gastronomia, e um em Ciências<br />

Contábeis, e todos os outros são<br />

sempre incentivados a estudar.<br />

Questionada sobre como manter a<br />

paz numa casa com tantas pessoas diferentes,<br />

de diversas origens e condi-<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


66<br />

ções, Eva responde com serenidade:<br />

“Aqui em casa, nós cultivamos valores<br />

como respeito, afetividade, diálogo,<br />

colaboração, espiritualidade. Resolvemos<br />

os conflitos conversando. Embora<br />

haja as diferenças, há um somatório<br />

de aprendizado”.<br />

Seu conceito de família é muito<br />

mais amplo do que vivem atualmente<br />

as famílias tradicionais, ligadas <strong>por</strong> relações<br />

sanguíneas de parentesco. Vendo<br />

a realidade de Eva, é possível perceber<br />

que, para ela, família é quem vive<br />

junto, buscando o apoio mútuo para<br />

superar as adversidades. “Família é<br />

toda a força que a gente precisa. É o<br />

apoio que as pessoas necessitam para<br />

enfrentar a vida com mais segurança”.<br />

Casa cheia de afeto<br />

Os filhos contam, com alegria, que<br />

a casa fica ainda mais cheia, quando é<br />

aniversário de alguém, ou em datas<br />

festivas como o Natal. “Vem muita<br />

gente que já passou <strong>por</strong> aqui, e que<br />

mora longe”. Um deles relata que as<br />

viagens anuais da família à praia são<br />

sempre uma festa. “Quando o ônibus<br />

chega com aquele tanto de gente, o<br />

pessoal pensa que é excursão, mas<br />

não, é uma família em férias”.<br />

Para acolher e cuidar de tanta pessoas,<br />

Eva sempre contou com a ajuda<br />

de inúmeros amigos que constantemente<br />

traziam doações e colaboravam<br />

de diferentes maneiras. Ela ressalta<br />

que nunca teve apoio de órgãos governamentais,<br />

<strong>por</strong>que não quis institucionalizar<br />

o que fazia. Sempre fez com<br />

o coração, sem outras intenções.<br />

Atualmente, a residência grande e<br />

modesta abriga 33 pessoas em 5 quartos<br />

femininos e 6 quartos masculinos.<br />

O mais novo da casa é um neto de 5<br />

anos. A obra, que não havia sido terminada,<br />

foi doada à família no ano<br />

2000 <strong>por</strong> uma associação que viu na<br />

atuação de Eva o merecimento e a necessidade<br />

de espaço para tanta gente<br />

e afeto. No entanto, foi preciso muito<br />

trabalho da família e de amigos para<br />

colocá-la em condições de ser habitada.<br />

Movida pela esperança e pelo desejo<br />

de um futuro melhor para seus filhos,<br />

como toda mãe, Eva vislumbra novos<br />

tempos em uma moradia ainda melhor.<br />

Filhos contam<br />

a diferença que<br />

Eva fez em<br />

suas vidas<br />

Sônia Maria da Silva, 51 anos,<br />

mora na casa de Eva há mais de 1<br />

ano, onde diz ter começado sua vida<br />

novamente. “Eu era alcoólatra. Vivi<br />

nas ruas <strong>por</strong> 26 anos. Depois trabalhei<br />

em casa de família. O álcool só me<br />

trouxe destruição. Já não estou mais<br />

fazendo uso dele. Aqui eu achei o meu<br />

lugar. Tenho carinho de mãe e pai.<br />

Eles cuidam de mim, e eu cuido deles.<br />

Passo boa parte das roupas da casa,<br />

principalmente dos especiais. Acho<br />

que minha velhice vai ser aqui”.<br />

Outra história que ilustra a grandeza<br />

das ações de Eva é a de seu sobrinho<br />

biológico e “filho”, Israel Williano Marcelo<br />

da Silva, de 27 anos. Sua mãe,<br />

irmã de Eva, morou na casa <strong>por</strong> alguns<br />

anos criando seus filhos e ajudando a<br />

criar as demais crianças. Há alguns<br />

anos mudou-se para o interior. Ele<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


67<br />

ficou para continuar os estudos. Com<br />

o apoio de Eva, Israel estudou e conseguiu<br />

um bom emprego. “Eva me incentivou<br />

a fazer o vestibular. Quando<br />

me preocupei sobre como ia pagar a<br />

faculdade, ela disse: Comece, que o<br />

dinheiro virá”. E veio. Uma amiga da<br />

família, que mora na Suécia, ajudou a<br />

custear a faculdade de Israel, como de<br />

outros jovens da casa. Ele diz que considera<br />

essa senhora como uma de suas<br />

três mães, além de sua mãe biológica,<br />

e de Eva, <strong>por</strong> quem ele tem muito respeito<br />

e gratidão.<br />

“Eva exerce mesmo o papel de<br />

mãe, de colocar a pessoa na sociedade,<br />

através da educação. Escola e saúde<br />

nunca faltaram para ninguém, ela sempre<br />

acompanhou de perto. Impressionante<br />

é que ela reconhece todos pela<br />

voz, até aqueles que ficam um tempo<br />

distantes”, conta. Israel afirma que Eva<br />

tem uma forma diferente de ver a vida.<br />

“Ela enxerga o que as pessoas normalmente<br />

não vêem: que todas as pessoas<br />

têm dificuldades, mas têm talentos,<br />

que só precisam de apoio, de alento,<br />

de direcionamento. Se tivesse mais<br />

pessoas no mundo com essa mentalidade,<br />

o mundo seria diferente”.<br />

Hoje, Israel é graduado em Ciências<br />

Contábeis, pós-graduado em Gestão<br />

Financeira e trabalha com consultoria<br />

de sistemas. “Graças ao voto de confiança<br />

que Eva me deu, eu tenho consciência<br />

que não sou apenas mais um,<br />

que eu tenho o meu valor e o meu<br />

lugar no mundo”.<br />

Israel viaja a trabalho constantemente,<br />

mas sempre volta para casa,<br />

para perto da sua “grande família”,<br />

como ele diz. “Gosto de estar perto<br />

dos pequenos. Vejo os olhos deles brilhando<br />

e lembro de mim, quando criança.<br />

Quero ser uma referência para<br />

eles, assim como Eva e Vivaldo foram<br />

e são para mim até hoje”. Segundo Israel,<br />

esse convívio familiar faz com<br />

que todos da casa aprendam a olhar o<br />

mundo de forma diferente. “Cresci assim<br />

e pretendo seguir minha vida com<br />

essa visão”.ø<br />

CECÍLIA ALVIM<br />

Mulher... Mãe!<br />

Que traz beleza e luz aos dias<br />

mais difíceis<br />

Que divide sua alma em duas<br />

Para carregar tamanha<br />

sensibilidade com força<br />

Que ganha o mundo<br />

com sua coragem<br />

Que traz paixão no olhar.<br />

Mulher<br />

Que luta p<strong>elas</strong> suas ideias<br />

Que dá a vida pela “família”<br />

Que ama incondicionalmente<br />

Que se arruma, se perfuma<br />

Que vence sempre o cansaço.<br />

Que chora, que ri<br />

E que sonha.<br />

Todas as mulheres (mães), beleza<br />

única, vivas, cheias de<br />

mistérios e encantos!<br />

Mulheres (mães) que deveriam<br />

ser lembradas, amadas, admiradas<br />

todos os dias.<br />

Para você, mulher,<br />

mãe tão especial.<br />

Obrigado <strong>por</strong> existir.<br />

Nós te amamos e te respeitamos,<br />

nossa querida mãe Eva!<br />

Cláudio Soares, um dos inúmeros<br />

filhos de Eva, escreveu para<br />

ela em nome dos demais irmãos<br />

no Dia das Mães de 2014<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


ARTIGO<br />

POR ANAMARIA NASCIMENTO<br />

fotos TERESA MAIA/DP/D.A.PRESS


69<br />

Mães de Noronha<br />

Gestantes do arquipélago vivem “exílio da maternidade”<br />

Numa manhã ensolarada em Fernando<br />

de Noronha, ouvi um relato que<br />

me deixou sem sono <strong>por</strong> muitos dias.<br />

Foi num passeio de barco entre a Praia<br />

da Cacimba do Padre e a Praia do Sancho<br />

que escutei de uma moradora do<br />

arquipélago um comentário natural para<br />

quem vive na principal ilha do estado<br />

de Pernambuco, mas assustador para<br />

os que vivem no continente. Numa conversa<br />

informal, ela contava ao condutor<br />

da embarcação como uma noronhense<br />

havia burlado o sistema de controle de<br />

natalidade da ilha para ter o filho em<br />

casa. Chocada com o relato brutal de<br />

violência contra as mulheres, perguntei<br />

o que aquilo significava para ela. “Não<br />

podemos ter filho aqui. Aos sete meses<br />

de gestação, somos literamente expulsas<br />

da ilha para termos o bebê no continente.<br />

Normalmente vamos para o Recife<br />

ou Natal, mas nem sempre temos<br />

familiares lá”, contou.<br />

Minha viagem de férias em Noronha<br />

não foi mais a mesma. Não conseguia<br />

esquecer o que tinha escutado e não<br />

entendia como nós, pernambucanos,<br />

morando no mesmo estado que aqu<strong>elas</strong><br />

mulheres, sequer conhecíamos aquela<br />

realidade. Retornando da folga, resolvi<br />

investigar a trajetória das mães de Noronha<br />

para o jornal onde trabalho, o<br />

Diário de Pernambuco. Após cerca<br />

de três meses de ligações, agendamento<br />

de entrevistas e recusas do governo do<br />

estado para que eu continuasse tocando<br />

a pauta, desembarquei no arquipélago<br />

para descobrir o que havia <strong>por</strong> trás da<br />

negação dos direitos das mulheres a<br />

terem os filhos perto de casa, com o<br />

apoio do marido e dos familiares.<br />

Longe de parecer um paraíso, a<br />

Noronha daqu<strong>elas</strong> mulheres não tem<br />

os atrativos que encantam os cerca de<br />

60 mil turistas que passam <strong>por</strong> lá todos<br />

os anos. O resultado dos dias dedicados<br />

a ouvir aqu<strong>elas</strong> mães foi o especial<br />

multimídia Mães de Noronha, que reuniu<br />

os depoimentos de mulheres que<br />

lutam <strong>por</strong> um único direito: o de ter os<br />

filhos perto de casa.<br />

Os partos começaram a ser proibidos<br />

em Fernando de Noronha quando<br />

a maternidade do Hospital São Lucas,<br />

o único do arquipélago foi desativado<br />

em 2004. É obrigação do poder público<br />

evitar a explosão populacional para<br />

“Não podemos ter<br />

filho aqui. Aos sete<br />

meses de gestação,<br />

somos literamente<br />

expulsas da ilha para<br />

termos o bebê no<br />

continente”.<br />

preservar o Parque Nacional Marinho<br />

de Fernando de Noronha, área que<br />

corresponde a 70% do território da<br />

ilha oceânica. Oficialmente, o estado<br />

nega que esse tenha sido o motivo da<br />

desativação da maternidade. A pequena<br />

quantidade de partos registrada <strong>por</strong><br />

ano em Fernando de Noronha é a justificativa<br />

da administração da ilha para<br />

a proibição de partos no hospital.<br />

Os espaços que já foram as salas de<br />

parto e de recém-nascidos do Hospital<br />

São Lucas estão, hoje, abarrotados de<br />

caixas com prontuários, equipamentos<br />

sem uso e cadeiras. A emergência do<br />

hospital recebe, de acordo com a Secretaria<br />

Estadual de Saúde, cerca de<br />

800 pessoas <strong>por</strong> mês. Poucos pacientes,<br />

<strong>por</strong>ém, conseguem sair de lá com um<br />

diagnóstico preciso. Faltam médicos,<br />

remédios e máquinas para realizar exames.<br />

Sem saída, muitos pacientes precisam<br />

recorrer ao Tratamento Fora do<br />

Domicílio (TFD) e viajar ao continente.<br />

A estrutura precária do hospital e a<br />

ausência de profissionais de saúde em<br />

Noronha foram denunciadas pelos próprios<br />

funcionários e <strong>por</strong> moradores da<br />

ilha. “As paredes estavam rachadas, e<br />

o teto caindo. A direção do hospital<br />

precisou tomar providências sem a<br />

ajuda do estado”, revelou uma funcionária<br />

que não quis se identificar. Nas<br />

décadas de 1960 e 1970, o atendimento<br />

era feito <strong>por</strong> médicos da Aeronáutica.<br />

Hoje, a gestão está nas mãos<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


70<br />

da coordenadoria de saúde de Fernando<br />

de Noronha, ligada à Secretaria Estadual<br />

de Saúde de Pernambuco.<br />

Cerca de 40 mulheres de Noronha<br />

dão à luz <strong>por</strong> ano. É uma média de três<br />

partos <strong>por</strong> mês. A coordenadora de<br />

saúde do arquipélago, Fátima Souza,<br />

acredita que esses números são ínfimos<br />

frente aos riscos que as mães correriam<br />

sem um hospital de alta complexidade.<br />

“Os custos para manter uma<br />

maternidade para, no máximo, quatro<br />

partos <strong>por</strong> mês seriam muito altos.<br />

Além disso, temos um déficit de profissionais<br />

permanentes na ilha e de estrutura<br />

física”, afirmou.<br />

Ela faz as contas. Para manter a<br />

maternidade em Noronha, seriam necessários<br />

21 médicos <strong>por</strong> mês, sendo<br />

sete obstetras, sete anestesistas e sete<br />

neonatologistas. O plantão de um médico<br />

custa R$ 1,8 mil, totalizando R$<br />

151.200 apenas com a folha de pagamento<br />

desses profissionais. “Isso sem<br />

contar com os enfermeiros, técnicos<br />

de enfermagem, impostos, material<br />

médico, passagem, hospedagem e alimentação<br />

das equipes. É muito mais<br />

vantagem mandar as mulheres para o<br />

continente”, pontuou.<br />

A médica gestora garante que, no<br />

Recife, as grávidas são acompanhadas<br />

desde o desembarque até o parto. As<br />

recifenses são levadas para a casa de<br />

familiares que permaneceram na capital<br />

pernambucana. As que não têm parentes<br />

na cidade são hospedadas em<br />

um hotel pago pelo estado. “<strong>Elas</strong> são<br />

orientadas <strong>por</strong> uma equipe formada<br />

<strong>por</strong> assistente social, nutricionista e<br />

enfermeiras. Para os exames, um carro<br />

da administração faz o trans<strong>por</strong>te dessas<br />

mulheres”, explica Fátima Souza. Os<br />

depoimentos das mães, no entanto,<br />

contradiziam essa informação.<br />

Maternidade do único hospital virou depósito, após ser desativada em 2014.<br />

A cozinheira Marinalva Fonseca confidenciou<br />

que foi abandonada pelo<br />

estado quando chegou ao continente.<br />

No oitavo mês da gestação de Tayná,<br />

hoje com 4 anos, Marinalva deixou Noronha<br />

com a promessa de que seria<br />

hospedada num hotel em Boa Viagem,<br />

Zona Sul do Recife. Ao chegar à capital<br />

pernambucana, <strong>por</strong>ém, foi encaminhada<br />

para um dos quartos da Casa do Estudante,<br />

no Derby, área central da capital<br />

pernambucana. Dividia o espaço com<br />

centenas de jovens de todo o estado,<br />

mas se sentia isolada. “Passei mal numa<br />

noite e decidi voltar para casa. Pensei,<br />

já que me levaram para o Recife na<br />

base da mentira, que eu podia retornar<br />

do mesmo jeito”, relatou.<br />

Três dias depois que retornou à<br />

ilha, a auxiliar de cozinha deu à luz de<br />

parto normal, feito <strong>por</strong> uma equipe<br />

médica improvisada, no São Lucas. O<br />

Salve Aéreo que atende à ilha foi chamado.<br />

“Disseram que eu estava com<br />

restos de placenta no organismo, não<br />

me deixaram ver minha filha depois<br />

que ela nasceu”. Levada de volta ao<br />

Recife, foi atendida <strong>por</strong> médicos do<br />

Cisam, uma maternidade pública ligada<br />

à Universidade de Pernambuco (UPE).<br />

Conforme o relatório da equipe da<br />

maternidade, o parto aconteceu normalmente,<br />

sem a necessidade de internamento.<br />

“Acho que a administração<br />

quis me punir”. Thayná mora na Paraíba<br />

com a avó. Nunca conseguiu o status<br />

de moradora permanente da ilha. Já<br />

Marinalva continua em Noronha e<br />

ainda sonha com a possibilidade de<br />

viver ao lado da filha.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


71<br />

“A maior herança<br />

que um noronhense<br />

consegue deixar<br />

para o filho é a<br />

possibilidade de<br />

ele ser morador<br />

permanente<br />

da ilha”.<br />

O drama das mães de Noronha<br />

nem sempre começa no momento de<br />

deixar a ilha. Muitas vezes, os problemas<br />

só aparecem na hora do retorno. Permanecer<br />

no arquipélago nem sempre<br />

é uma opção para as mulheres que<br />

não nasceram lá e engravidam. A copeira<br />

Leyliane Silva morava em Fernando<br />

de Noronha há dois anos quando<br />

descobriu que teria que deixar para<br />

trás o sonho de construir uma família.<br />

Como residente tem<strong>por</strong>ária, Leyliane<br />

não pode voltar à ilha com a filha sem<br />

pagar a Taxa de Preservação Ambiental<br />

(TPA), valor cobrado a todo turista que<br />

visita a ilha. A taxa custava R$ 45,60<br />

<strong>por</strong> dia quando a menina nasceu (hoje<br />

o valor é R$ 51,40). Para manter a primeira<br />

filha, Beatriz Catarina, no arquipélago,<br />

ela precisaria desembolsar R$<br />

1.368,00 mensalmente.<br />

O preço para manter a família<br />

unida, no entanto, não cabia no bolso<br />

da copeira. O pai de Beatriz também é<br />

morador tem<strong>por</strong>ário da ilha e não conheceu<br />

a filha até os 4 meses. “Vamos<br />

para lá sabendo que a situação das mulheres<br />

é complicada, mas é muito difícil<br />

quando chega a nossa vez”, disse. Por<br />

conta do diagnóstico de diabetes gestacional,<br />

Leilyane viajou cedo para o continente.<br />

“A ilha é uma fantasia. Quando<br />

cheguei, achei que estava no paraíso.<br />

Com o tempo, nos damos conta de que<br />

a vida lá é mais complicada do que se<br />

possa imaginar”, revelou. Sem poder<br />

voltar para Fernando de Noronha e<br />

reencontrar o marido, Leilyane vive em<br />

Escada, município da Zona da Mata de<br />

Pernambuco.<br />

Nascer em Noronha é quase como<br />

ter um green card. Foi o que contou a<br />

mulher que ajudou quase 50 mães de<br />

Noronha a dar à luz, mas não conseguiu<br />

ter os seus perto de casa. Auxiliar de<br />

enfermagem do Hospital São Lucas<br />

de 1998 a 2007, Francinete Lins nasceu<br />

em Fernando de Noronha. Os<br />

filhos dela, Ruan e Eloá, no entanto,<br />

tiveram que nascer no Recife. Na certidão<br />

de nascimento, consta que eles<br />

são noronhenses. Filhos de nativos<br />

têm o direito de serem registrados<br />

como se tivessem nascido na ilha. “A<br />

maior herança que um noronhense<br />

consegue deixar para o filho é a possibilidade<br />

de ele ser morador permanente<br />

da ilha”, afirmou.<br />

De acordo com Francinete, há uma<br />

grande incidência de casos de depressão<br />

pós-parto entre as mulheres de Fernando<br />

de Noronha. “Não há estudo que comprove<br />

isso, mas já observei que muitas<br />

mulheres acabam tendo sintomas de<br />

depressão após terem dado à luz”, observou.<br />

No Brasil, cerca de 40% das<br />

mães desenvolvem depressão, sendo<br />

que em 10% dos casos, o problema<br />

aparece de forma mais severa. “Ficamos<br />

longe da família, do marido, de tudo<br />

para termos nossos filhos. Nossa licença<br />

maternidade começa aos sete meses<br />

de gestação. Temos que retornar ao<br />

trabalho quando o bebê ainda tem dois<br />

meses de vida, mas a única creche da<br />

ilha só aceita as crianças a partir do<br />

quarto mês. Tem como não se desesperar?”,<br />

questionou.<br />

Francinete era auxiliar do médico<br />

José de Arimathea, o último a realizar<br />

partos no arquipélago. Nos anos 1990,<br />

ele foi chamado pelo governo de Pernambuco<br />

para uma missão amplamente<br />

rejeitada <strong>por</strong> colegas de profissão: atuar<br />

em Fernando de Noronha, ilha situada<br />

a mais de 500 km do Recife, onde ele<br />

vivia. Como já estava aposentado, decidiu<br />

aceitar o convite. Mesmo não<br />

sendo ginecologista e obstetra, o médico<br />

é referência no arquipélago quando o<br />

assunto é parto. “Eu era médico generalista.<br />

Tratava desde os doentes mais<br />

simples até as pessoas que precisavam<br />

de cirurgia. De menino pequeno a gestante”.<br />

Quando chegou à ilha, não<br />

havia farmácia ou equipamentos para<br />

fazer exames. “Mandávamos buscar<br />

tudo de avião. Os medicamentos só<br />

chegavam no dia seguinte”, recorda.<br />

No ano em que ele precisou retornar<br />

ao Recife <strong>por</strong> motivos pessoais, o governo<br />

desativou a maternidade do Hospital<br />

São Lucas. “Eu mesmo sugeri<br />

que não houvesse mais parto na ilha.<br />

As poucas parteiras que atuavam lá<br />

não tinham orientação. Hoje, só se<br />

faz parto com pediatra, anestesista.<br />

Na minha época não tinha isso”, disse.<br />

Atualmente, não existem parteiras em<br />

Fernando de Noronha.<br />

Todos os relatos foram publicados<br />

numa série de re<strong>por</strong>tagens de três dias<br />

do Diário de Pernambuco, em 2013.<br />

As histórias também estão disponíveis<br />

em vídeo pelo site hotsites.diariodepernambuco.com.br/vidaurbana/2013/<br />

maes-de-noronha.ø<br />

A autora é jornalista e repórter do<br />

Diário de Pernambuco<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


72<br />

foto LAIS RODRIGUES<br />

CAPA<br />

POR SAULO ESLLEN MARTINS<br />

Entre o mito<br />

e a realidade<br />

Ciganas sonham com um futuro<br />

sem discriminação<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


73<br />

“O que era não<br />

deixa de ser;<br />

modifica. Cigano<br />

nunca deixa de<br />

ser cigano”.<br />

A tradição familiar é uma marca<br />

dos povos ciganos que carregam estigmas<br />

e mitos que aguçam o imaginário<br />

popular. No nascimento, a menina cigana<br />

já tem marcado o seu próprio<br />

destino. Valores como virgindade, casamento<br />

e maternidade fazem parte do<br />

universo dessas mulheres que sonham<br />

com um futuro sem discriminação. A<br />

adolescência é uma fronteira atravessada<br />

muito cedo pela jovem cigana, que é<br />

vigiada não só pelos seus familiares,<br />

mas também <strong>por</strong> toda a comunidade e<br />

precisa sair da escola para se casar.<br />

Quando se fala em ciganos, é preciso<br />

saber que existe uma enorme diversidade<br />

de com<strong>por</strong>tamentos que variam<br />

conforme a organização da comunidade.<br />

Fatores políticos, socioeconômicos,<br />

religiosos, regionais e familiares podem<br />

interferir em um determinado grupo,<br />

acampamento ou etnia. Não é possível<br />

fazer uma análise, classificando todos<br />

os ciganos sob a mesma ótica. Nem<br />

mesmo a condição das mulheres pode<br />

ser generalizada, sob o risco de se<br />

fazer um julgamento precipitado.<br />

Muitas perguntas ainda ficam sem<br />

resposta quando o assunto é a história<br />

dos ciganos no Brasil. No livro Ciganos<br />

em Minas Gerais, do professor Rodrigo<br />

Corrêa Teixeira, é relatado que a documentação<br />

sobre ciganos é escassa, dispersa<br />

e parcial. Sendo ágrafas, as comunidades<br />

ciganas não deixaram registros<br />

escritos sobre sua origem. Ao longo<br />

do tempo, a impressão documentada<br />

sobre eles foi construída <strong>por</strong> chefes de<br />

polícia, religiosos e viajantes, que traçaram<br />

um perfil hostil e estereotipado.<br />

De acordo com o professor Rodrigo,<br />

foram 500 anos de perseguição do<br />

próprio estado contra os ciganos. Por<br />

serem itinerantes, não eram reconhecidos<br />

como cidadãos e, <strong>por</strong> isso, arcaram<br />

com toda a sorte de injúrias sobre<br />

o seu povo. Somente com o governo<br />

Lula, foram elaboradas políticas públicas<br />

para atender às demandas dessas minorias<br />

na sociedade brasileira.<br />

“É impressionante como essas pessoas<br />

sobreviveram a tantas formas de<br />

perseguição, nos últimos séculos. Escravizados<br />

na Romênia, expulsos da<br />

Europa <strong>por</strong> causa do holocausto, destinados<br />

a vagar sem rumo. A trajetória<br />

das comunidades ciganas, que possuem<br />

fortes indícios de uma origem Hindu,<br />

foi marcada pela discriminação”, comenta<br />

Rodrigo Teixeira.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


74<br />

MARK FLOREST<br />

O professor explica que nesse universo<br />

de contradições e mitos, a imagem<br />

da mulher cigana é cheia de nuances.<br />

Enquanto o homem nega a sua identidade,<br />

em alguns casos, para fugir do<br />

preconceito, <strong>elas</strong> precisam de indumentária<br />

típica para exercer o papel<br />

de uma figura mística e enigmática,<br />

principalmente, quando o seu trabalho<br />

está voltado para as questões esotéricas<br />

como a leitura de mãos (quiromancia)<br />

e de cartas (cartomancia).<br />

Mulheres Calon<br />

vivem sob as<br />

regras da tradição<br />

“Somos muito diferentes<br />

das outras mulheres.<br />

A questão do respeito<br />

aos pais e ao esposo é<br />

uma tradição que<br />

guardamos”.<br />

Cristina Amaral<br />

Em Minas Gerais, desde a sua chegada<br />

e apesar das muitas restrições relativas<br />

à ocupação do espaço <strong>por</strong> essas<br />

comunidades ciganas, a etnia Calon resistiu<br />

e é maioria entre os acampamentos<br />

no estado. Lutam <strong>por</strong> seus direitos e<br />

pela manutenção de sua cultura.<br />

“O que era não deixa de ser; modifica.<br />

Cigano nunca deixa de ser cigano”.<br />

A frase é de Carlos Amaral,<br />

líder da comunidade de ciganos da<br />

etnia Calon, situada no bairro São Gabriel<br />

em Belo Horizonte. São cerca de<br />

100 famílias que moram no lugar há<br />

mais de 30 anos. As mudanças na<br />

forma de viver trouxeram o desafio de<br />

enfrentar as interferências culturais sofridas<br />

ao longo dos anos e manter a<br />

identidade cultural do grupo.<br />

O nomadismo deixou de ser uma<br />

necessidade. Em 2014, conquistaram<br />

a posse do terreno. Moram em barracas<br />

e casas simples em meio à metrópole,<br />

contudo, tentam manter tradições ancestrais.<br />

Na comunidade Calon são os<br />

homens que ditam as regras. Eles cuidam<br />

dos negócios e da organização<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


75<br />

coletiva. As mulheres ficam <strong>por</strong> conta<br />

da casa e dos filhos. Os casos em que<br />

<strong>elas</strong> possuem algum tipo de independência<br />

são escassos.<br />

Sandra Magalhães (foto) é um<br />

exemplo de como a tradição cigana<br />

dos Calon determina o modo de vida<br />

das mulheres. “Casei-me com 14 anos.<br />

Minha rotina se resume em cuidar da<br />

casa, dos filhos e do marido. É uma<br />

vida boa, eu não trocaria <strong>por</strong> outra.<br />

Dou aos meus filhos uma criação de<br />

acordo com o que aprendi. Todavia,<br />

acho que minha menina vai ter mais<br />

possibilidades de escolha”.<br />

Ela faz parte de uma das poucas famílias<br />

que ainda moram em barracas.<br />

Considera esse tipo de moradia uma<br />

mistura de opção e necessidade. “Possuímos<br />

tudo que se tem numa casa: televisão,<br />

aparelho de som, cama, até<br />

carro. Só não temos as paredes”,<br />

brinca Sandra.<br />

A jovem cigana não tem receio de<br />

morar em um local aberto, considerado<br />

inseguro <strong>por</strong> muitos. O que ela tem<br />

mais medo é do preconceito. “Quando<br />

preciso levar minha filha ao médico<br />

ou fazer alguma outra coisa fora do<br />

bairro, não uso minhas roupas tradicionais.<br />

Chama muita atenção, parece<br />

que sou de outro mundo. Não gosto<br />

de como os outros me olham. Meu<br />

maior sonho é o fim da discriminação<br />

contra o nosso povo”, afirma.<br />

Para Cristina Amaral, ser cigana é<br />

estar junto com uma comunidade,<br />

aprender os costumes, usar as roupas<br />

e utensílios. “Somos muito diferentes<br />

das outras mulheres. A questão do respeito<br />

aos pais e ao esposo é uma tradição<br />

que guardamos. Quem cuida de<br />

mim é o meu marido. Por isso, tudo<br />

que eu faço tem que ser com o consentimento<br />

dele”. Ela confronta esta<br />

“Meu maior sonho<br />

é o fim da<br />

discriminação<br />

contra o nosso<br />

povo”.<br />

ideia de que sair pelo mundo sem destino<br />

é ter liberdade. “Não é bem assim.<br />

Existia muita perseguição aos ciganos<br />

e as mulheres sofreram e sofrem ainda<br />

mais com o preconceito. Morar em<br />

uma casa é um sonho realizado. Quando<br />

eu vivia debaixo da lona era muito sofrimento.<br />

Todo mundo quer um pouco<br />

de conforto. A vida da minha mãe foi<br />

totalmente diferente, bem mais complicada.<br />

Ela viveu todo o tempo em<br />

barraca, sempre viajando a cavalo.<br />

Hoje, temos casa, podemos construir<br />

nossas vidas em um lugar que é nosso”,<br />

comemora Cristina.<br />

Nem todas as mulheres ciganas<br />

estão em uma situação de total dependência<br />

dos maridos. De uma geração<br />

que enfrentou muitas dificuldades, Marilene<br />

Lopes passou a maior parte da<br />

vida na estrada. Casou-se com 14<br />

anos, passou muitas humilhações, segundo<br />

ela, <strong>por</strong> que era mulher. Trabalhava<br />

para comprar comida. Nos últimos<br />

15 anos sua vida mudou. Hoje, está<br />

estabilizada e trabalha com o comércio<br />

MARK FLOREST<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


76<br />

de tecidos. “Não fico muito parada.<br />

Sou independente, viajo sozinha, gosto<br />

de ter meu próprio dinheiro. Não gosto<br />

de dar muita explicação sobre o que<br />

vou fazer. Tem hora que me dá vontade<br />

de cair no trecho de novo, vou e volto,<br />

estou muito feliz aqui”.<br />

Uma mulher experiente, mãe de<br />

quatro filhos, com um certo grau de<br />

feminismo em suas posturas, Marilene<br />

não é submissa ao seu companheiro,<br />

mas faz questão de manter alguns princípios.<br />

“Nossa tradição permite que os<br />

homens estudem até se formarem, <strong>por</strong>ém,<br />

as mulheres são retiradas da<br />

escola logo após os dez anos de idade,<br />

para que não passem a adolescência<br />

junto a outros jovens de culturas diferentes.<br />

As moças têm que se casar virgens,<br />

não podem ser desencaminhadas.<br />

Então evitamos que isso aconteça”.<br />

As meninas estudam até 12 ou 13<br />

anos, de acordo com Marilene, com<br />

essa idade já estão prontas para o matrimônio.<br />

<strong>Elas</strong> não devem buscar uma<br />

profissão. “Isso não quer dizer que<br />

sejam infelizes. Casam-se com quem<br />

gostam e levam uma vida boa. Para<br />

uma mulher fazer faculdade é muito<br />

difícil, raridade mesmo”, acredita.<br />

LAIS RODRIGUES<br />

Marilene relata apenas uma tristeza:<br />

o preconceito contra os ciganos. “Posso<br />

usar qualquer roupa, mas <strong>por</strong> causa dos<br />

meus dentes de ouro, sou reconhecida<br />

como cigana em qualquer lugar. E muitas<br />

vezes isso não é bom. As pessoas me<br />

reparam de uma maneira diferente, com<br />

medo, despeito, não sei...”.<br />

Em sua dissertação de mestrado, a<br />

professora Camila Similhana pesquisou<br />

sobre as comunidades ciganas e constatou<br />

traços machistas na cultura de<br />

algumas comunidades, durante a sua<br />

pesquisa. “Quanto às mulheres ciganas,<br />

é inegável a opressão que sofrem. Em<br />

populações ciganas tradicionais, <strong>elas</strong><br />

vivem sob o controle da sogra – que as<br />

tratam como se fossem serviçais –,<br />

são cruelmente punidas caso sejam insubordinadas,<br />

em caso de separação<br />

ou traição perdem o poder e o direito<br />

de conviver/criar seus filhos (que são<br />

considerados pertencentes à família<br />

dos maridos), têm sua vida sexual severamente<br />

controlada e são rigidamente<br />

banidas caso se unam a homens nãociganos”,<br />

opina.<br />

Uma das representações da cultura<br />

cigana que a pesquisadora destaca é a<br />

dança. Conforme relatou Camila, a<br />

dança cigana está intimamente ligada<br />

aos ritos e festas familiares e não à<br />

exibição pública, de maneira semelhante<br />

ao que ocorre em meio aos povos árabes.<br />

“Além disso, se você consultar diversas<br />

danças ciganas femininas ao redor<br />

do mundo, verá que <strong>elas</strong> não se<br />

movimentam de forma tão solta, tamanha<br />

a opressão masculina sobre<br />

<strong>elas</strong>. Em geral são passos mais contidos.<br />

Algumas ciganas, de locais específicos<br />

como a Índia, têm mais desenvoltura<br />

ao mostrar e usar o quadril. A saia e o<br />

lenço no cabelo, <strong>por</strong> exemplo, também<br />

tem suas razões: a saia demarca que a<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


77<br />

menina menstruou e entrou num processo<br />

que culminará no casamento e o<br />

lenço no cabelo é um sinal de submissão<br />

ao marido”, descreve.<br />

LAIS RODRIGUES<br />

Um outro olhar<br />

A fotógrafa Laís Rodrigues é vizinha<br />

da comunidade cigana do bairro São<br />

Gabriel. Atualmente desenvolve um<br />

trabalho que retrata o dia a dia das<br />

pessoas que moram ali, com o objetivo<br />

de dar mais visibilidade às demandas<br />

sociais. Ela conta que superou alguns<br />

preconceitos para se aproximar. “Minha<br />

família mora no bairro há 40 anos,<br />

sempre os vi e ouvi histórias sobre<br />

eles, mas precisei crescer, amadurecer,<br />

para conhecê-los de fato. Foi uma boa<br />

surpresa. Tive a certeza de que não<br />

eram nada do que falavam <strong>por</strong> aí. Primeiro,<br />

é impossível não se encantar<br />

com o quanto são receptivos. Segundo,<br />

muitos amam ser fotografados, principalmente<br />

as crianças. Eles acreditam<br />

no poder da imagem. Dizem: – Pode<br />

fotografar, claro! Ajuda a gente!<br />

Ao citar o papel das mulheres, Laís<br />

é cuidadosa. “Às vezes, evito falar<br />

muito sobre minha impressão <strong>por</strong>que<br />

venho de uma cultura diferente. Muita<br />

gente critica o fato de terem traços<br />

machistas. Descobri que muitas coisas<br />

são boatos, não existem mais. Algumas,<br />

ainda sim. E aí me pergunto se <strong>por</strong><br />

acaso esqueceram que milhares de outras<br />

sociedades também são patriarcais<br />

(pra não falar todas)”. A fotógrafa diz<br />

não se sentir no direito de julgar o<br />

modo de viver da comunidade. “Não<br />

podemos interferir, assim como não<br />

mudamos a cultura das tribos indígenas,<br />

mesmo que para nós seja algo ‘errado’.<br />

Os costumes são deles”.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


78<br />

Ciganas independentes<br />

e feministas<br />

<strong>Elas</strong> são descendentes de ciganos,<br />

mas não vivem em comunidades. Seus<br />

antepassados saíram do convívio comunitário<br />

e iniciaram uma caminhada<br />

em busca de melhores condições de<br />

vida. Cinco mulheres independentes e<br />

que tiveram a o<strong>por</strong>tunidade de concluir<br />

o ensino superior. Nenhuma d<strong>elas</strong> é casada.<br />

Vivenciaram experiências fora da<br />

cultura cigana. Juntas, são as responsáveis<br />

pela criação da Associação Internacional<br />

Maylê Sara Kali, uma organização<br />

que atua em defesa dos direitos<br />

dos ciganos, promove o resgate cultural<br />

das etnias e tem uma preocupação particular<br />

com a questão de gênero.<br />

Depois de estudar e conquistar uma<br />

profissão retornaram ao convívio com<br />

as comunidades para auxiliar na garantia<br />

de direitos como educação, saúde,<br />

entre outras conquistas sociais que não<br />

chegam aos ciganos. Fazem parte de<br />

uma geração de mulheres que não<br />

abriu mão da identidade, no entanto,<br />

está inserida no mundo convencional.<br />

Lucimara Cavalcanti é uma d<strong>elas</strong>.<br />

Especialista em Marketing, a descendente<br />

de uma família de ciganos Kalderash<br />

percebeu que poderia utilizar a<br />

dança e os costumes tradicionais para<br />

falar de diversidade e cidadania. “Desde<br />

2012, quando iniciamos a realização<br />

de um Ciclo de Debates na Universidade<br />

de Brasília, nossa atuação foi ampliada<br />

e agora conseguimos ter inserção em<br />

dezoito estados brasileiros e em outros<br />

países. Se pensarmos que nossa trajetória<br />

é marcada pela defesa dos direitos<br />

das mulheres, pelo fim da violência de<br />

gênero, respeito, igualdade e crescimento<br />

profissional, podemos dizer que<br />

somos feministas”.<br />

Em relação às mulheres ciganas,<br />

Lucimara esclarece que é im<strong>por</strong>tante<br />

ressaltar a criação de um estereótipo<br />

desde a chegada dos ciganos ao Brasil,<br />

<strong>por</strong> volta de 1500, como ressonância<br />

do que já era feito na Europa. “Não<br />

são raras as representações da cigana<br />

nas artes plásticas e na literatura européia,<br />

pautadas na ideia de uma mulher<br />

fácil, fatal, sensual, enganadora. Essas<br />

informações foram disseminadas e os<br />

ciganos nunca se levantaram para se<br />

defender”.<br />

A militante da causa cigana destaca<br />

que existem grupos familiares sustentados<br />

<strong>por</strong> mulheres através da arte de ler as<br />

mãos e da cartomancia. “Esse é um<br />

dado. No entanto, em cada família as<br />

coisas acontecem de uma maneira. Não<br />

estou dizendo que todas as ciganas são<br />

assim. Cada comunidade tem suas próprias<br />

tradições e costumes”, esclarece.<br />

De acordo com a descendente de<br />

ciganos, em muitos lugares são as<br />

mães e avós que têm a responsabilidade<br />

de manter a cultura do grupo ao qual<br />

LAIS RODRIGUES<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


79<br />

pertencem. Nesses núcleos, os homens<br />

consultam suas mulheres e <strong>elas</strong> possuem<br />

um papel im<strong>por</strong>tante na tomada de<br />

decisões. “Em outras circunstâncias<br />

<strong>elas</strong> são excluídas desse processo. Existem<br />

também casos de violência familiar.<br />

As ciganas não estão isentas dessas<br />

ocorrências”, conta Lucimara. Outro<br />

problema mencionado é o analfabetismo<br />

acentuado entre crianças e jovens. “As<br />

mulheres estão no centro dessa situação.<br />

Temos meninas lindas que não sabem<br />

ler nem escrever o próprio nome. Contudo,<br />

as escolas devem estar preparadas<br />

para receber a diversidade da nossa<br />

cultura. Além disso, é preciso incluir o<br />

ponto de vista dos ciganos nos livros<br />

didáticos”, frisa.<br />

Segundo ela, no caso dos casamentos,<br />

algumas famílias permitem<br />

que as jovens se casem após os 18<br />

anos. Eles têm entendimento que as<br />

questões biológicas e emocionais podem<br />

interferir no desenvolvimento dessas<br />

garotas. Lucimara enfoca que a cultura<br />

cigana tem muitos contextos e, em todos<br />

eles, a mulher tem um papel<br />

central, cita o exemplo de um acampamento<br />

em Joinville, Santa Catarina,<br />

onde <strong>elas</strong> estão mudando o modo de<br />

vida. São cinco irmãs que ficaram<br />

viúvas e não querem mais obedecer às<br />

ordens dos homens. Tornaram-se líderes<br />

do acampamento.<br />

É im<strong>por</strong>tante compreender que dentro<br />

de um país multicultural como o<br />

Brasil, as mulheres ciganas fazem parte<br />

do imaginário social e, mais do que<br />

isso, auxiliam na construção da identidade<br />

do povo brasileiro. Portanto, lutar<br />

contra o preconceito e a discriminação<br />

étnica é também um ato de contribuição<br />

<strong>por</strong> uma sociedade que respeita a sua<br />

história e os atores que ajudaram a<br />

construí-la.ø<br />

LAIS RODRIGUES<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


80<br />

INTERNET<br />

REALIDADE<br />

POR NANCI ALVES<br />

A vida no circo<br />

não é brincadeira<br />

Entre o picadeiro e os bastidores,<br />

a mulher se desdobra em vários papéis<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


81<br />

A arte circense, que encanta a<br />

todos, é milenar. Passou <strong>por</strong> incontáveis<br />

experiências, recebeu influências de<br />

várias culturas, mas uma realidade<br />

nunca mudou: a paixão de quem sobe<br />

no picadeiro, a alegria e acolhida do<br />

público de todas as idades e a falta de<br />

apoio dos governos.<br />

Na grande maioria, os circos tradicionais<br />

são formados <strong>por</strong> famílias que,<br />

como micro empreendedoras, aprendem<br />

e fazem de tudo. Quando entram<br />

em uma cidade significa uma vitória.<br />

Quer dizer que conseguiram o alvará<br />

de autorização da prefeitura, pagaram<br />

várias taxas e alugaram um lote, mesmo<br />

que nem sempre com preço acessível.<br />

Passada esta etapa, buscam garantir o<br />

acesso à água e energia elétrica, montam<br />

a estrutura do circo, divulgam o<br />

espetáculo em toda a região, cuidam<br />

da bilheteria e da praça da alimentação,<br />

fazem fotos durante o espetáculo para<br />

serem vendidas ao final e, claro, depois<br />

de toda esta batalha, apresentam, com<br />

alegria, suas atrações no picadeiro. E<br />

o mais impressionante é que essa rotina<br />

é diária, sem intervalo, pois a cada 15<br />

dias o circo é obrigado a se mudar<br />

para garantir um bom público.<br />

Em meio a tudo isso, a rotina da<br />

mulher circense é um verdadeiro exercício<br />

de equilíbrio na corda bamba.<br />

Exatamente <strong>por</strong> ser seu lugar de trabalho<br />

e moradia, a mulher sincroniza o<br />

papel de esposa e de mãe com a de<br />

artista, além de acumular as funções<br />

de bordadeira, costureira, divulgadora<br />

e vendedora dos alimentos que ela<br />

mesma prepara para a praça da alimentação<br />

– maçã do amor, algodão<br />

doce, pipoca, batata frita, etc.<br />

Uma rotina bem conhecida pela<br />

pernambucana Rosa Roma, que sempre<br />

viveu no circo. “Nasci de parto natural,<br />

dentro do circo. Minha mãe, Zuleide,<br />

que saiu de cena apenas para eu nascer,<br />

era dançarina e o meu pai, Orlando,<br />

palhaço de um circo dos ciganos. Sou<br />

a terceira geração de circenses em minha<br />

família, que continua a tradição<br />

<strong>por</strong> meio de meus filhos e neta. A minha<br />

mãe, aos 17 anos, conheceu<br />

meu pai e, pensando em se casar com<br />

ele, fugiu com o circo. Porém, ele já<br />

era casado e acabou ficando com duas<br />

esposas até que a primeira o largou,<br />

levando seus três filhos”, conta.<br />

Assim, minha mãe continuou com<br />

ele e tiveram seis filhos. “Na medida<br />

em que crescíamos, começávamos a<br />

trabalhar no circo também. Éramos a<br />

Trupe família Roma. Passamos <strong>por</strong> vários<br />

circos fazendo números de altura,<br />

vôo, trapézio, arame esticado”, lembra<br />

Rosa ao revelar que, desde bem pequena,<br />

se levantava às 4h30 para ensaiar:<br />

“a gente tinha que tomar um banho<br />

gelado para despertar e um pouco<br />

de vinho para não ter anemia e, só depois<br />

do ensaio, a gente tomava café”.<br />

Entre as histórias, Rosa se recorda<br />

de um acidente que marcou sua vida.<br />

Quando tinha 14 anos, durante um<br />

espetáculo, caiu do trapézio, junto com<br />

“a rotina da<br />

mulher circense<br />

é um verdadeiro<br />

exercício de<br />

equilíbrio na<br />

corda bamba.<br />

seu pai, <strong>por</strong>que uma mulher circense<br />

cortou o su<strong>por</strong>te do circo. “Ela, com<br />

ciúme, queria atingir o meu pai. A<br />

lona caiu em cima de todos, mas<br />

apenas nós dois nos machucamos muito,<br />

a ponto de ficarmos dois anos em<br />

tratamento, na cama. O dono do circo,<br />

com raiva, foi embora nos abandonando.<br />

Ficamos morando em barraca.<br />

Minha mãe teve que sustentar a família<br />

sozinha fazendo tapioca, até que chegou<br />

um novo circo na cidade e nos contratou.<br />

Ela trabalhou como bailarina, cantora,<br />

<strong>por</strong>teira, cuidávamos dos animais.<br />

Ficamos neste circo <strong>por</strong> 8 anos com<br />

todos nós trabalhando. Como tinha<br />

banda de música, comecei a cantar<br />

também”, recorda .<br />

Aos poucos, a família Roma conseguiu<br />

montar o próprio circo. “Era<br />

muito simples, tudo com lençóis e se<br />

chamava B1 (Bom e Único). Dois anos<br />

depois, já tínhamos a lona e carroça<br />

com cavalo para o trans<strong>por</strong>te. Fizemos<br />

sociedade com outras pessoas. Nossa<br />

arte era imensa, mas muito mal pagos.<br />

Quando fiz 20 anos, me casei com um<br />

homem que não era de circo, um policial<br />

militar”, conta Rosa.<br />

Nessa época, como teve que ficar<br />

na cidade do marido, largou o circo e<br />

investiu no canto. Seu marido contratou<br />

um sanfoneiro (conhecido como a Voz<br />

do Acordeon), para acompanhá-la<br />

nos shows. “Com ele, aprendi outra<br />

profissão e virei compositora. Cheguei<br />

a ser vocalista do Luiz Gonzaga. Fiz<br />

muito shows e me conheciam como<br />

Rosinha do Xaxado, diz.<br />

Rosa teve dois filhos e <strong>por</strong> um tempo<br />

deixou de cantar para cuidar da casa.<br />

Após sete anos de casada, veio a separação<br />

e o retorno ao circo. “Mas não<br />

foi fácil, pois perdi minha mãe logo em<br />

seguida. Assim, não tinha com quem<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


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Rosa Roma, sua neta Ranyelle e sua filha Ramyrez<br />

CARLA PORTUGAL<br />

o circo. Hoje apenas ela e uma irmã,<br />

em São Paulo, seguem a tradição da<br />

família. “Tenho 50 anos e não me<br />

vejo fora do circo. Estudei magistério,<br />

cheguei até a dar aula, mas não era<br />

isso que queria. O circo é o meu lugar.<br />

Costumo dizer que quando chegar a<br />

minha hora de partir, meu velório será<br />

dentro do circo, todos, com figurino,<br />

cantando música circense”, finaliza.<br />

De acordo com a sua filha Ramyrez,<br />

o sonho da família é ter seu próprio<br />

circo. “Estamos trabalhando para realizar<br />

este projeto ainda este ano. Eu e<br />

meu marido somos de famílias circenses<br />

tradicionais e queremos dar continuidade<br />

a esta cultura tão im<strong>por</strong>tante. Nós,<br />

nossa filha, minha tia, mãe, irmão,<br />

meu padastro, que é iluminador e sonoplasta<br />

de circo, enteados...a turma<br />

é grande e será um circo que unirá o<br />

antigo ao moderno, com muita criatividade”,<br />

conta Ramyrez.<br />

deixar as crianças. Fazia tudo sozinha e<br />

enfrentava a discriminação de estar sem<br />

marido. Muita dificuldade de ser contratada,<br />

pois muitos acham que mulher<br />

separada quer arrumar homem. Se for<br />

casada, a situação é bem melhor. Para<br />

evitar problemas de ciúme, no circo,<br />

sempre a própria esposa é a dupla do<br />

marido ou sua assistente de palco”,<br />

explica.<br />

Segundo Rosa, a cada lona levantada,<br />

mil histórias para contar. “Me recordo<br />

de uma vez, em Campina Verde,<br />

e eu já era conhecida no nordeste pela<br />

música. Uma emissora de rádio descobriu<br />

meu aniversário e me chamou para<br />

uma entrevista. Ao vivo, contei minha<br />

vida e que estava enfrentando a doença<br />

do pânico. Quando foi à noite, o circo<br />

estava lotado, como nunca. E as pessoas<br />

gritavam pelo meu nome e chamavam<br />

de guerreira, quando entrei no picadeiro.<br />

Foi emocionante”, lembra Rosa.<br />

Depois de rodar <strong>por</strong> vários circos e<br />

cidades, seus filhos, já adolescentes,<br />

foram contratados pelo circo do ator<br />

Marcos Frota, em Maceió. “Pouco depois,<br />

também trabalhei com vendas,<br />

fotografias, fui camareira e até dirigi<br />

espetáculo deste circo. Hoje minha<br />

filha, com 24 anos, está no Broadway,<br />

se casou com um globista de lá, e tem<br />

uma filha de 4 anos, Ranyelle. Estou<br />

com eles neste circo fazendo recepção,<br />

número musical com dublagem e minha<br />

neta entra junto. Tudo que faço, ela<br />

faz. E meu filho trabalha no Circo dos<br />

Sonhos, no Rio de Janeiro”, conta.<br />

Após a morte da mãe da Rosa,<br />

seus irmãos foram aos poucos, deixando<br />

Respeitável Público<br />

O sonho de ser dona do próprio<br />

circo tornou-se realidade para a família<br />

da amazonense Andréia Carvalho Atiares<br />

(40 anos). “Depois de trabalharmos<br />

a vida toda para outros, conseguimos<br />

o nosso Atiare’s Cirkus há menos de<br />

um ano. O mais im<strong>por</strong>tante para mim<br />

é mantermos a família no mesmo circo.<br />

Isso é uma vitória e uma bênção de<br />

Deus!”, diz Andréia ao afirmar que o<br />

circo é sua vida. “Comecei aprendendo<br />

a arte aos cinco anos, com balé aéreo,<br />

depois trapézio, até que fui contratada,<br />

aos 15 anos, pelo Big Circo. Aos 18<br />

anos, fui para o Gran Dallas Lincoln<br />

Circos e, ao fazermos uma apresentação<br />

na Bolívia, conheci meu marido,<br />

Raomir Atiares, que já era trapezista.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


83<br />

Ele foi contratado pelo circo onde eu<br />

trabalhava e depois de um ano, nos<br />

casamos. Trabalhamos em vários circos<br />

ao longo da nossa vida (Real Brasil,<br />

Las Vegas, Circo Castelli, Gran Circo<br />

Popular do Brasil, Circo Mundo Mágico,<br />

etc), viajamos com eles para Colômbia,<br />

Peru, Bolívia, além de várias regiões<br />

do Brasil. Conheci muita gente e fiz<br />

amigos, apesar de sermos itinerantes.<br />

Hoje as redes sociais ajudam muito a<br />

manter esta amizade”, conta.<br />

No Atiares Cirkus, o espetáculo é<br />

feito pelo marido de Andréia, os três<br />

filhos do casal, dois sobrinhos e artistas<br />

contratados, de acordo com o lugar<br />

onde vão. Segundo Andréia, ela só<br />

deixou o picadeiro recentemente. “Mesmo<br />

grávida, atuava nos espetáculos.<br />

Só depois do sétimo mês de gravidez,<br />

quando a barriga aparecia muito é<br />

que eu parava de fazer o trapézio.<br />

Hoje, assim como meu marido, faço<br />

mil acrobacias para manter o circo,<br />

mas deixei o picadeiro, pois não tenho<br />

tempo para ensaiar. Sempre fui feliz<br />

no circo e não trocaria minha história<br />

com a de ninguém. Claro que fico<br />

cansada, pois lavo roupa, cuido da<br />

limpeza da nossa casa (os trailers),<br />

costuro, divulgo o circo na cidade durante<br />

o dia e, na hora do espetáculo, assumo<br />

a bilheteria e, em seguida, a<br />

praça de comida. Além da correria do<br />

dia para levar e buscar filho na escola.<br />

Isso quando a gente não tem também<br />

que correr atrás da Secretaria de Educação<br />

para conseguir vaga na escola,<br />

pois existem diretores que nos negam<br />

este direito. Mas o mais difícil é conseguir<br />

entrar nas cidades, pois as prefeituras<br />

fazem de tudo para nos impedir.<br />

Sem falar no custo do aluguel do lote,<br />

pois as cidades não têm lugar específico<br />

para circos. Aqui, onde estamos, pagamos<br />

R$4.000,00 para apenas três<br />

semanas”, desabafa.<br />

O filho mais velho, Roamir Júnior,<br />

20 anos, diz que poder ter o circo foi<br />

a realização de um sonho e que seus<br />

pais são um exemplo para ele. Ao<br />

falar da mãe, ele conta que ela é o<br />

pilar da família. “Se precisar de alguma<br />

coisa, pode ter certeza que ela vai<br />

saber – desde um remédio para algum<br />

problema a um conselho, além, é claro,<br />

do carinho e do colo”, diz.<br />

Amor e circo<br />

Assim como na vida de Rosa Roma,<br />

na história de Andréia Atiares (foto)<br />

também tem caso de gente que fugiu<br />

para se casar com circense. “Quando<br />

eu tinha dois anos, minha tia fugiu<br />

para se casar com o filho do dono de<br />

um circo que ficou um tempo em minha<br />

cidade. Assim, quando eu fiz cinco anos,<br />

sempre passava as férias com eles. Meu<br />

tio me ensinou tudo. Aos 15 anos, a<br />

história se inverteu: eu, contratada, vivia<br />

no circo e ia passar as férias com minha<br />

família”, lembra.<br />

Outra fuga romântica que gerou<br />

uma família tradicional do circo é a vivida<br />

<strong>por</strong> antepassados dos Irmãos Simões.<br />

Mas a história de amor que<br />

sabem de cor é a dos seus pais, sr. Francisco<br />

e dona Rita de Freitas Simões. Ao<br />

se apaixonar, em meados do século<br />

XX, pelo moço bonito do circo, o violinista,<br />

trapezista e também Palha -<br />

ço Beija Flor, dona Rita, hoje com 75<br />

anos, não teve dúvidas. Abriu mão do<br />

seu conforto da cidade de Lima<br />

Duarte e, com consentimento dos pais,<br />

NANCI ALVES<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


84<br />

casou-se, se tornando-se artista também,<br />

ao mesmo tempo em que foi dona<br />

de casa e mãe de 13 filhos. Com certeza,<br />

uma vida de muita luta e resignação.<br />

Hoje, viúva, avó de 20 netos e 5<br />

bisnetos, ela relembra com emoção toda<br />

sua história. “Eu fui artista todo tempo,<br />

parando somente quando os filhos já estavam<br />

grandes, mas nunca sofri preconceitos<br />

<strong>por</strong> ser mulher de circo.<br />

Como era familiar, éramos bem recebidos.<br />

Mas enfrentamos muitas dificuldades<br />

para sermos um circo tradicional,<br />

itinerante. Falta de conforto, água, luz,<br />

problemas com as escolas para filhos...<br />

Várias vezes, o caminhão estragava e<br />

tínhamos que dormir na estrada de<br />

terra, mas fomos felizes. No início, alugávamos<br />

casas em cada lugar que chegávamos<br />

<strong>por</strong> uns três meses. Depois,<br />

passamos a usar os trailers”, afirma<br />

dona Rita, que diz sentir saudades de<br />

tudo que viveram”. Depois de muitos<br />

anos, fixaram residência em Contagem<br />

(MG), onde os filhos e, agora, até os<br />

netos fazem espetáculos.<br />

Uma família de quatro gerações de<br />

circo e muita história para contar. Para<br />

Patrícia Simões, filha de dona Rita,<br />

fazer circo sempre foi uma paixão. “Comecei<br />

ainda criança, fui equilibrista e<br />

dançarina. Hoje sou auxiliar de mágico<br />

e apresento dança do ventre”, conta.<br />

Também para a nora da dona Rita, Marta<br />

Simões, o circo é “fascinante e vai<br />

sequestrando as pessoas”. Atualmente,<br />

trabalha com estética, mas foi artista<br />

circense <strong>por</strong> muitos anos. “Desde o namoro,<br />

já participava dos espetáculos<br />

com malabares, mágica, esquetes humoradas,<br />

etc. Claro que para minha família<br />

foi uma surpresa e meus pais ficaram<br />

inseguros pela vida nômade que<br />

é a do artista circense. Mas o circo foi<br />

um divisor de água em minha vida.<br />

Aprendi a conviver com uma cultura<br />

diferente da minha, um desafio positivo.<br />

Mudei a forma de enxergar o outro.<br />

Consigo olhar para uma pessoa e ver<br />

sua história”, conta Marta.<br />

Na família da dona Rita, todos<br />

aprenderam muito, até cozinhar e cuidar<br />

da casa. Para seu filho Lindomar,<br />

um aprendizado para toda vida. “Há<br />

anos, eu faço nossos figurinos. Até a<br />

ter fé aprendi com minha mãe. Posso<br />

dizer que a mulher é fundamental no<br />

circo. Além da beleza feminina, que é<br />

im<strong>por</strong>tante no picadeiro, ela é ótima<br />

para administrar também.”, diz.<br />

MARK FLOREST<br />

Dona Rita Simões entre sua filha Patrícia, a neta Yhaninha e, à direita a nora Marta Simões.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


85<br />

Um olhar<br />

de fora<br />

da lona<br />

Falta de políticas<br />

públicas aumenta<br />

os desafios das<br />

artistas circenses<br />

DIVULGAÇÃO<br />

A estimativa é que ainda existam no<br />

Brasil mais de dois mil circos itinerantes.<br />

Só em Minas Gerais, há cerca de cem.<br />

É o que fala a presidenta da Rede de<br />

Apoio ao Circo (RAC) e autora da obra<br />

Encircopédia - Dicionário Crítico Ilustrado<br />

do Circo no Brasil, Sula Kyriacos<br />

Mavrudis(foto). “Trabalhamos com estimativas<br />

<strong>por</strong>que, infelizmente, o circo e<br />

as famílias circenses não entram na<br />

contagem do IBGE. Na hora do censo,<br />

o pesquisador pula o circo e vai para a<br />

próxima casa. Isso é um desrespeito<br />

com eles. Como não são levados em<br />

conta, não existe também uma política<br />

pública que cuide dessa parcela da população.<br />

Assim, se enfrentam, <strong>por</strong> exemplo,<br />

uma tempestade e perdem seu<br />

equipamento de trabalho, não terão<br />

amparo legal. Não podem participar<br />

de qualquer outro programa de assistência<br />

social como receber a cesta básica<br />

das prefeituras ou o Bolsa Família e<br />

nem participar de projetos culturais <strong>por</strong><br />

meio da lei de isenção fiscal <strong>por</strong>que<br />

não têm endereço fixo”, revela.<br />

Assim, da mesma forma, a mulher<br />

circense não pode, <strong>por</strong> exemplo, fazer<br />

o pré-natal nos hospitais públicos das<br />

cidades onde chega para uma tem<strong>por</strong>ada.<br />

“A circense é uma guerreira,<br />

pois é uma educadora sem ter tido<br />

acesso à escola, ensina valores e profissão<br />

a partir do que aprendeu no<br />

circo com suas famílias. E ela sabe<br />

brigar pelos direitos dos filhos, <strong>por</strong><br />

atendimento em hospital, pela vaga<br />

na escola. É comum ter que ir para a<br />

“O circo e as<br />

famílias circenses<br />

não entram na<br />

contagem do<br />

IBGE”.<br />

Delegacia de Ensino cobrar o cumprimento<br />

da Lei 6533/78, quando diretores<br />

não aceitam seus filhos na sala<br />

de aula”, explica.<br />

Mesmo compartilhando as responsabilidades<br />

da casa e do picadeiro, a<br />

mulher circense ainda enfrenta o machismo<br />

e sofre com preconceito <strong>por</strong><br />

onde passa. “Mas, em geral, não sofre<br />

violência doméstica, <strong>por</strong>que os familiares<br />

estão juntos, no trailer ao lado. Nunca<br />

vi usuários de droga e não tem alcóolatras,<br />

a não ser alguns que vêm de<br />

fora. Já vi até separação de casal, mas<br />

muitas vezes, continuam no mesmo<br />

circo. Os casamentos são mais longos<br />

e a relação familiar é boa, pois vivem<br />

e trabalham juntos. Existe uma cumplicidade<br />

profissional, de criar, ensaiar<br />

e executar juntos, números acrobáticos<br />

com precisão”, conta Sula Mavrudis.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


86<br />

Apoio aos circenses<br />

Na avaliação de Sula Mavrudis, a<br />

falta de políticas públicas para o circo<br />

e a falta de legislação específica, em<br />

todos os níveis, que garantam o direito<br />

ao trabalho, saúde, educação e moradia<br />

têm gerado frustação e, consequentemente,<br />

abandono da profissão <strong>por</strong><br />

parte de muitos circenses, impactando<br />

na vida das famílias. “É triste ver circenses,<br />

para sobreviver, fazendo outras<br />

atividades que não as que aprenderam<br />

pela sua tradição familiar e que, ao<br />

longo da história, lutam sozinhos para<br />

preservar. Isso é uma degradação do<br />

status”, denuncia.<br />

Segundo Sula Mavrudis, muitos deixaram<br />

de ser itinerantes e, mesmo com<br />

residência fixa, tentam viver de sua<br />

arte, realizando apresentações avulsas<br />

ou oficinas de circo em escolas, clubes<br />

e eventos em geral. E este tem sido um<br />

dos papéis da Rede de Apoio aos Circos<br />

– além de lutar <strong>por</strong> acesso a políticas<br />

públicas, ajuda as famílias circenses a<br />

conseguirem retomar suas atividades.<br />

Para isso, há muitos anos, fazem uma<br />

reunião com todos os circenses interessados,<br />

às primeiras quartas-feiras do<br />

mês, na sede da RAC. Atualmente, são<br />

60 circos integrantes da Rede.<br />

As novas gerações de circenses,<br />

desanimadas com a falta de apoio<br />

legal, sonham em ser contratadas <strong>por</strong><br />

um circo estrangeiro como os da França,<br />

Portugal, Las Vegas, onde os circenses<br />

são mais valorizados. Para a<br />

coordenadora da RAC, a conclusão é<br />

clara: “O Brasil precisa, urgente, de<br />

políticas públicas para o circo. A técnica<br />

é eterna, mas não o circo. Ele e suas<br />

famílias tradicionais estão em risco de<br />

extinção, pois sempre foram esquecidas<br />

pelos governantes”.<br />

Circo contem<strong>por</strong>âneo<br />

A arte milenar experimenta agora<br />

uma ramificação chamada de circo contem<strong>por</strong>âneo.<br />

Os novos artistas aprendem<br />

em escolas e não mais com a<br />

família, como antigamente. A primeira<br />

escola de circo surgiu no Rio de Janeiro<br />

em 1982, chamada Escola Nacional de<br />

Circo. Em todo o país, escolas e projetos<br />

sociais ensinam as técnicas circenses<br />

e, quando formados, os jovens que<br />

participaram criam grupos e passam a<br />

se apresentar ao público. É o que<br />

viveu, <strong>por</strong> exemplo, a mineira Luciana<br />

Menin(foto) que fez sua formação em<br />

Belo Horizonte e Londres, com balé,<br />

teatro e circo. Depois, já em São Paulo,<br />

trabalhou em espaço aberto <strong>por</strong> muito<br />

tempo com o Circo Amarillo. Após<br />

dez anos assim, e já casada com o argentino<br />

Pablo Nordio, se uniram a sete<br />

ASACAMPOS<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


87<br />

artistas e criaram o Circo Zanni, com<br />

lona que os possibilita fazer um espetáculo<br />

para 480 pessoas. Depois de tentarmos<br />

bilheteira <strong>por</strong> algum tempo,<br />

partimos para o trabalho com tem<strong>por</strong>ada<br />

paga, espetáculos vendidos. Por<br />

ser caro o trans<strong>por</strong>te de tudo, ficamos<br />

mais em São Paulo e viajamos para pequenas<br />

tem<strong>por</strong>adas. Não somos de<br />

circo tradicional e, assim, temos residência<br />

fixa”, conta Luciana que é mãe<br />

de Guido, de um ano, e Gael, de 5.<br />

Segundo ela, não existe rotina em<br />

sua vida, mas considera que descansa<br />

muito quando está no picadeiro. “Meus<br />

filhos sempre me acompanham e, às<br />

vezes, até entram em cena. Um trabalho<br />

que me possibilita isso é ótimo. Não<br />

vejo dificuldades em ser mãe e profissional<br />

de circo, mas preciso reconhecer<br />

que existe machismo em nossa sociedade<br />

e as circenses rompem isso, exercendo<br />

profissões como trapezista, malabarista,<br />

palhaça, administradoras, etc.<br />

As artistas de circo trabalham normalmente,<br />

como toda mulher que exerce<br />

alguma profissão, diante de situações<br />

como oscilações hormonais, cólicas<br />

menstruais ou quando está amamentando<br />

e o leite suja o figurino, em<br />

cena. São situações com as quais precisamos<br />

saber lidar “, conta.<br />

Luciana Menin diz que o circo é a<br />

sua vida. “Apesar de não ser de família<br />

circense, conversando com minha avó,<br />

descobri que a bisavó dela, também<br />

Luciana, que era russa, fugiu do circo<br />

para se casar, deixando a tradição.<br />

Minha avó ficou emocionada ao me<br />

ver entrando para o mundo do circo,<br />

como que retomando esta história.<br />

Acho mesmo que nasci para fazer isso.<br />

A primeira vez que subi no trapézio<br />

parecia que já tinha feito antes, nunca<br />

tive resistência”, conta Luciana<br />

ao acrescentar que o seu sonho é chegar<br />

o dia em que toda a família, o casal<br />

e os filhos, formarem a trupe para<br />

“cair no mundo com o circo”.<br />

Outra atriz mineira que também<br />

atuou em um circo contem<strong>por</strong>âneo é<br />

Teuda Bara, do Grupo Galpão de Teatro.<br />

Por quatro anos (2002/06) atuou<br />

em Kà, espetáculo do Cirque du Soleil.<br />

Após passar alguns meses em Montreal<br />

(Canadá) para formação, foi morar em<br />

Las Vegas (EUA), onde apresentava o<br />

espetáculo duas vezes ao dia. “Me admirei<br />

quando fui convidada, pois minha<br />

história é com teatro de rua. Foi muito<br />

bom, mas muito diferente de tudo. As<br />

atrações são modernas e trazem muitas<br />

novidades tecnológicas. A única coisa<br />

comum e que não muda, em todo o<br />

mundo, é o palhaço”, conta.<br />

Segundo Teuda(foto), outra grande<br />

vivência foi fazer a Dona Zaira no<br />

filme O Palhaço, de Selton Mello (fo -<br />

to). “Além de ser uma linda personagem<br />

e uma bela história, pude viver<br />

como se fosse realmente artista circense.<br />

Muito emocionante. E depois do filme,<br />

fui convidada várias vezes para participar<br />

de eventos ou manifestações sobre<br />

circo. Dói saber e perceber que o circo<br />

tradicional está sendo minado no Brasil.<br />

As prefeituras estão dizimando o circo.<br />

Sempre que posso falo isso com as<br />

autoridades com as quais encontro <strong>por</strong><br />

aí. O circo está abaixo da linha da miséria.<br />

Por tantos problemas, os grandes<br />

circos vão se acabando e sobrevivendo<br />

apenas os pequenos, de uma ou outra<br />

família. As prefeituras falam que o<br />

circo vai tirar o dinheiro da cidade.<br />

Uma total falta de entendimento. Eles<br />

também consomem na cidade e, muito<br />

mais im<strong>por</strong>tante, trazem cultura, diversão<br />

e arte”, afirma.ø<br />

Rede de Apoio ao Circo - RAC<br />

Rua da Bahia, 1.148 - sala 1910 - Centro<br />

Cep: 30160-906 - Belo Horizonte - MG<br />

Brasil - TeleFax: (31) 3224.4743<br />

satedmg@satedmg.org.br<br />

DIVULGAÇÃO O PALHAÇO/ BANANEIRA FILMES<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


88<br />

foto CECÍLIA ALVIM<br />

VIOLÊNCIA<br />

POR CECÍLIA ALVIM<br />

"A gente tem uma<br />

força que desconhece"<br />

A história de uma professora da rede particular que<br />

deu um basta na violência doméstica


89<br />

A violência doméstica parece ser<br />

realidade somente nas periferias da<br />

cidade, entre as classe populares. No<br />

entanto, cada vez mais se sabe que<br />

mulheres de todas as classes sociais,<br />

inclusive com formação acadêmica,<br />

são vítimas de violência <strong>por</strong> parte de<br />

seus companheiros.<br />

Formada em Letras e professora<br />

há 40 anos, Helena (nome fictício) foi<br />

vítima da agressividade de seu ex-marido.<br />

Após 34 anos de relacionamento,<br />

sendo dez de namoro e 24 de casamento,<br />

ela deu um basta na violência<br />

que a fez sofrer durante anos, e se separou<br />

do marido. “Depois que criei<br />

coragem e saí de casa, comecei a me<br />

cuidar, a gostar de mim de novo”.<br />

Segundo Helena, não foi fácil<br />

tomar essa atitude. Ela sempre achava<br />

que as coisas iam mudar e tinha vergonha<br />

de pedir ajuda. “Era difícil falar<br />

sobre o assunto, eu me sentia uma fracassada,<br />

querendo me reerguer, mas<br />

sem saber como”. Foi então que, um<br />

dia, ela viu uma notícia na televisão<br />

sobre uma mulher que havia levado<br />

inúmeras facadas de seu marido e decidido<br />

dar um fim à violência. “Eu<br />

pensei: vou ter a força dessa mulher.<br />

Entendi que era preciso ter coragem<br />

de denunciar, de falar sobre o assunto,<br />

<strong>por</strong>que isso inibe quem quer fazer o<br />

mal e dá força a quem precisa sair<br />

dessa situação. Por isso, aceitei dar<br />

este depoimento”.<br />

A primeira vez em que foi agredida<br />

fisicamente pelo ex-marido, ficou com<br />

o rosto todo machucado e roxo. Perdeu<br />

parte dos dentes, e o rumo da<br />

vida... Passou a viver então sob o<br />

domínio do medo. Ele ameaçou que se<br />

ela contasse para alguém, poderia<br />

fazer algo contra seus pais. Ela ficou<br />

apavorada, e resolveu se preparar para<br />

mudar de vida. “A superação não vem<br />

de fora para dentro, vem de dentro<br />

para fora. É cômodo ser a vítima, mas<br />

é difícil sair desse lugar. É preciso acordar<br />

para o fato de que condutas<br />

agressivas <strong>por</strong> parte de companheiros,<br />

não são normais, e não devem ser<br />

toleradas”.<br />

Continuou vivendo na mesma casa<br />

que ele, mas dormia em outro quarto,<br />

com seus dois filhos pequenos, de<br />

<strong>por</strong>ta trancada. “Ele raramente foi um<br />

pai presente e carinhoso. Nessa<br />

época, os meninos passaram a ter<br />

medo dele”. Helena saía para trabalhar<br />

com receio de que pudesse ser alvo de<br />

violência. “Existe a Lei Maria da<br />

Penha, mas na rua você está sozinha.<br />

A gente não se sente protegida”,<br />

conta. “A cada dia que passava, eu<br />

chegava em casa e me sentia uma vitoriosa.<br />

Eu achava que ia morrer,<br />

mas não parei pela minha fé”.<br />

Houve tempos de alguma convivência<br />

em casa, mas nunca mais<br />

confiou naquele que lhe jurou amor<br />

“Existe a Lei<br />

Maria da Penha,<br />

mas na rua você<br />

está sozinha.<br />

A gente não se<br />

sente protegida”<br />

sem fim no altar, até <strong>por</strong>que ele não<br />

era mais a mesma pessoa que havia<br />

conhecido anos antes. Cerca de três<br />

anos depois do primeiro episódio de<br />

violência extrema, foi comunicar ao<br />

marido que queria se separar, e novamente<br />

ele a agrediu. “Dessa vez, eu já<br />

estava mais preparada. Consegui me<br />

defender, e os danos foram menores.<br />

Meus filhos já estavam maiores e ajudaram<br />

a me proteger. Nesse dia, eles<br />

me falaram: – Chega, mãe”.<br />

Segundo Helena, duas ocasiões extremas<br />

de violência e muitos episódios<br />

de com<strong>por</strong>tamentos estranhos, agressões<br />

verbais, manifestações de ciúme<br />

e de sentimento de posse a fizeram<br />

chegar à conclusão de que não era possível<br />

mais viver daquela forma. Então<br />

ela tomou fôlego, foi até a Delegacia<br />

de Polícia e registrou boletim de ocorrência.<br />

Juntou algumas roupas suas e<br />

de seus filhos e foi para a casa da mãe,<br />

onde vive até hoje, reorganizando a<br />

própria vida. O ex-marido não aceitou<br />

a separação consensual, que teve que<br />

ser litigiosa, e só terminou de se resolver<br />

recentemente.<br />

Atualmente, ela leciona em uma<br />

escola particular de Belo Horizonte, é<br />

sindicalizada ao Sinpro Minas, e dá<br />

também aulas particulares para complementar<br />

a renda. Cuida dos filhos e<br />

caminha pela vida com um sorriso<br />

aberto, que traduz a beleza de quem<br />

redescobriu a própria força de mulher<br />

guerreira que é.” Ele me magoou<br />

muito, mas eu não quis perder a minha<br />

alegria de viver. Nunca pensei em dar<br />

o troco, mas sim em superar, sendo<br />

uma pessoa melhor. A gente tem uma<br />

força que desconhece. Hoje, sou uma<br />

pessoa mais forte e totalmente apaixonada<br />

<strong>por</strong> mim, pela minha força e fé,<br />

e é isso que me move...”<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


90<br />

Jovens reproduzem machismo<br />

nas redes sociais<br />

Pesquisa<br />

“Violência contra a mulher:<br />

o jovem está ligado?”<br />

Os jovens aprovam a Lei Maria da<br />

Penha e percebem a existência do machismo<br />

no país. É o que aponta a pesquisa<br />

Violência contra a mulher: o jovem<br />

está ligado?, realizada pelo Instituto<br />

Avon em parceria com o Data Popular<br />

e divulgada em dezembro de 2014 durante<br />

o Fórum Fale sem Medo, em<br />

São Paulo. No entanto, boa parte desses<br />

jovens “reproduzem com<strong>por</strong>tamentos<br />

que subjugam a autonomia e os direitos<br />

das mulheres e que estão na raiz de diferentes<br />

formas de violência física, moral<br />

e psicológica contra mulheres de todas<br />

as idades”, alerta informe do Instituto<br />

Patrícia Galvão, organização que foi<br />

consultora da pesquisa.<br />

Os entrevistados responderam questões<br />

sobre diversos temas, entre eles<br />

relacionamentos virtuais, sexualidade,<br />

Lei Maria da Penha e violência nos relacionamentos.<br />

Entre os temas que ganharam<br />

espaço na pesquisa estão a<br />

cyber vingança e os relacionamentos<br />

afetivos em tempos de redes sociais.<br />

O estudo comprova que “o ciúme em<br />

excesso, a submissão e a necessidade<br />

de controlar o parceiro – até mesmo<br />

sobre o que vestir ou postar nas redes<br />

sociais – são comuns nos relacionamentos<br />

entre os jovens”.<br />

“A pesquisa deixa muito claro que<br />

os jovens têm dificuldade em entender<br />

o que é violência. Essa falta de percepção<br />

permite a perpetuação dos atos de<br />

agressão e da desigualdade de gênero.<br />

A pesquisa mostra como tudo isso é<br />

naturalizado na sociedade”, explicou<br />

Jacira Melo, diretora executiva do Instituto<br />

Patrícia Galvão, durante o Fórum.<br />

“A sociedade precisa superar as<br />

discriminações e propagar novos<br />

valores de igualdade, sem machismo,<br />

racismo e homofobia”, apontou a<br />

secretária de Enfrentamento à Violência<br />

contra as Mulheres da Secretaria<br />

de Políticas para as Mulheres,<br />

Aparecida Gonçalves. Ela destacou<br />

que o Ligue 180 recebe em<br />

média 22 mil ligações <strong>por</strong> dia de<br />

mulheres pedindo ajuda e, a cada<br />

5 minutos, uma mulher é<br />

agredida no Brasil, mesmo após<br />

oito anos da publicação da Lei<br />

Maria da Penha.<br />

Para mudar este cenário, os especialistas<br />

presentes ao evento recomendaram<br />

como fundamentais<br />

“ações e políticas públicas que envolvam<br />

a educação e a mídia, para<br />

disseminar valores de igualdade e<br />

respeito e mostrar que é papel de<br />

toda a sociedade enfrentar as discriminações<br />

e reverter a banalização<br />

de todas as formas de violência”,<br />

destacou o informe do Instituto.<br />

“Ações e políticas<br />

que envolvam a<br />

educação e a mídia<br />

podem disseminar<br />

valores como<br />

igualdade e<br />

respeito”<br />

Fonte: Data Popular/Instituro Avon<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


91<br />

Lei Maria da Penha reduziu em 10% os<br />

homicídios contra as mulheres<br />

ROBERTO STUCKERT FILHO<br />

O Instituto de Pesquisa Econômica<br />

Aplicada (Ipea) divulgou no dia 04 de<br />

março em Brasília um estudo sobre a<br />

efetividade da Lei Maria da Penha<br />

(LMP) e outro sobre a institucionalização<br />

das políticas protetivas à mulher. No<br />

primeiro artigo os pesquisadores do<br />

Instituto utilizaram dados do Sistema<br />

de Informações sobre Mortalidade do<br />

SUS e um método conhecido como<br />

‘modelo de diferenças em diferenças’,<br />

para estimar a existência de efeitos da<br />

lei na redução de homicídios de mulheres<br />

brasileiras. “A LMP fez diminuir<br />

em cerca de 10% a taxa de homicídio<br />

contra as mulheres dentro das residências.<br />

Isto implica dizer que a Lei foi<br />

responsável <strong>por</strong> evitar milhares de<br />

casos de violência doméstica no país”.<br />

O estudo apontou ainda que a Lei<br />

Maria da Penha “modificou o tratamento<br />

do Estado em relação aos casos<br />

envolvendo violência doméstica, através<br />

de três canais: aumentou o custo da<br />

pena para o agressor; aumentou o<br />

empoderamento e as condições de segurança<br />

para que a vítima pudesse denunciar;<br />

e aperfeiçoou os mecanismos<br />

jurisdicionais, possibilitando que o sistema<br />

de justiça criminal atendesse de<br />

forma mais efetiva os casos envolvendo<br />

violência doméstica”.<br />

No segundo artigo os pesquisadores<br />

fizeram um mapeamento inédito dos<br />

serviços protetivos para as mulheres<br />

em situação de risco que foram institucionalizados<br />

no território brasileiro. Segundo<br />

a análise, houve um “crescente<br />

processo de expansão das Redes de<br />

Atendimento e Enfrentamento no Brasil,<br />

ainda que, nesse momento inicial de<br />

implantação, os serviços estejam concentrados,<br />

majoritariamente, nas regiões<br />

metropolitanas dos estados”.<br />

Uma iniciativa positiva de expansão<br />

da rede de enfrentamento à violência<br />

é o Projeto Casa da Mulher Brasileira,<br />

que consiste na construção de<br />

um complexo, em cada capital do País,<br />

que com<strong>por</strong>tará todos os serviços especializados<br />

para atender as mulheres<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


92<br />

em situação de violência, incluindo delegacia,<br />

juizado, defensoria, promotoria,<br />

equipes psicossociais e de orientação<br />

para emprego e renda, além de brinquedoteca<br />

e área de convivência.<br />

“Hoje a mulher vai à delegacia e<br />

fica quatro, cinco horas esperando.<br />

Até sair a medida protetiva, demora<br />

48 horas. Depois ela tem que ir ao juizado,<br />

demora mais um dia. Depois na<br />

defensoria. Então, ela termina tirando<br />

cinco dias para poder cuidar disso. Na<br />

Casa, vai ser um dia só”, ressaltou a<br />

secretária de Enfrentamento à Violência<br />

da SPM/PR, Aparecida Gonçalves.<br />

Em fevereiro de <strong>2015</strong>, a presidenta<br />

Dilma Rousseff participou da inauguração<br />

da primeira Casa da Mulher Brasileira,<br />

em Campo Grande, Mato Grosso do<br />

Sul. A previsão do Governo Federal é<br />

de implantar, até 2016 uma Casa em<br />

cada capital do País, até 2016, exceto<br />

Recife, que não aderiu ao programa.<br />

Campanha educativa<br />

A Campanha Quem ama, abraça<br />

ocupou-se, em 2013/14, com “o fortalecimento<br />

do espaço escolar como<br />

campo privilegiado para reflexão e<br />

superação das diferentes formas de<br />

violência contra a mulher – simbólicas<br />

ou explícitas – presentes no cotidiano<br />

das crianças e jovens”. Segundo a<br />

Campanha, “a função social da escola<br />

é extremamente relevante pela possibilidade<br />

de que, ao disseminar valores<br />

através de sua atuação pedagógica,<br />

pode instrumentalizar crianças e jovens<br />

para o exercício real da cidadania” e<br />

para a superação das desigualdades de<br />

gênero.<br />

O site www.quemamaabraca.org.br<br />

disponibiliza informações, atividades,<br />

clipes musicais e jogos que professores<br />

podem utilizar com seus alunos para<br />

promover a conscientização e a discussão<br />

sobre o enfrentamento à violência<br />

contra as mulheres.<br />

“Quem ama, ajuda. Quem ama,<br />

agrada. Dá carinho e dá calor.<br />

Quem ama, cuida. Quem ama,<br />

abraça. Não maltrata o seu amor.”<br />

Trecho do clip da Campanha, que teve a participação<br />

de vários artistas<br />

Feminicídio<br />

agora é crime<br />

hediondo<br />

A presidenta Dilma Rousseff sancionou<br />

no dia 9 de março, a Lei do<br />

Feminicídio. Com isso, passou a ser<br />

considerado crime hediondo o assassinato<br />

de mulheres decorrente de violência<br />

doméstica ou de discriminação<br />

de gênero. O anúncio de que a lei<br />

seria sancionada foi feito no último dia<br />

8 de março, em comemoração ao Dia<br />

Internacional da Mulher, em um pronunciamento<br />

realizado na rádio e TV.<br />

A lei que tipifica o feminicídio como<br />

homicídio qualificado e o inclui no rol<br />

de crimes hediondos é considerada <strong>por</strong><br />

especialistas ouvidas pela Agência Brasil,<br />

um avanço na luta pelos direitos das<br />

mulheres. Para a representante da<br />

ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman,<br />

a aprovação do projeto representa<br />

avanço político, legislativo e social.<br />

“Temos falado há muito tempo da<br />

im<strong>por</strong>tância de dar um nome a esse<br />

crime. A aprovação coloca o Brasil<br />

como um dos 16 países da América<br />

Latina que identificam o crime com<br />

nome próprio”, disse.<br />

O texto modifica o Código Penal<br />

para incluir o crime – assassinato de<br />

mulher <strong>por</strong> razões de gênero – entre<br />

os tipos de homicídio qualificado. Prevê<br />

também o aumento da pena em um<br />

terço se o assassinato acontecer durante<br />

a gestação ou nos três meses posteriores<br />

ao parto; se for contra adolescente<br />

menor de 14 anos ou contra uma pessoa<br />

acima de 60 anos ou, ainda, contra<br />

uma pessoa com deficiência. A pena é<br />

agravada também quando o crime for<br />

cometido na presença de descendente<br />

ou ascendente da vítima.<br />

O projeto de Lei 8305/14 do Senado<br />

foi elaborado pela Comissão Parlamentar<br />

Mista de Inquérito (CPMI) da<br />

Violência contra a Mulher. Na justificativa<br />

do projeto de lei, a CPMI destacou<br />

que, de 2000 a 2010, 43,7 mil mulheres<br />

foram assassinadas no Brasil,<br />

sendo que mais de 40% das vítimas<br />

foram mortas dentro de suas casas,<br />

muitas pelos companheiros ou ex-companheiros.<br />

Além disso, a comissão informou<br />

que a estatística colocou o<br />

Brasil na sétima posição mundial de<br />

assassinatos de mulheres.ø<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


93<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


94<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Professora Marli Pereira realiza Chá da Vovó com seus alunos.<br />

EDUCAÇÃO<br />

POR CECÍLIA ALVIM<br />

Profissão docente:<br />

uma escolha de valor<br />

Prêmios valorizam iniciativas de professoras que fazem a diferença<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


95<br />

O ofício do professor e da professora<br />

é ensinar, despertar o interesse dos<br />

alunos pelos saberes e acontecimentos<br />

do mundo, desenvolver atividades que<br />

façam aflorar a criatividade e o gosto<br />

pela vida, transmitir conhecimentos e<br />

valores humanos que acompanhem os<br />

alunos pelos caminhos que forem trilhar...<br />

Mesmo sendo uma profissão antiga,<br />

os mestres têm sempre que renovar<br />

o propósito de educar, para que suas<br />

práticas se adaptem às mudanças e<br />

demandas dos novos tempos. Diante<br />

disso, novos projetos surgem e trazem<br />

novos ares para o cotidiano escolar.<br />

Algumas dessas práticas, então, tornam-se<br />

conhecidas através de prêmios<br />

promovidos para incentivar os professores<br />

a aprimorar sua atuação em sala<br />

de aula. Um desses prêmios foi promovido<br />

em 2014 pelo Sinpro<br />

Minas, Nandyala Livraria & Editora,<br />

Sind-Ute, entre outras entidades. O<br />

Prêmio Educa Minas para a Diversidade<br />

destacou ações pedagógicas voltadas<br />

para o respeito à diversidade étnico-racial,<br />

desenvolvidas <strong>por</strong> professores<br />

da Educação Básica de escolas<br />

privadas e públicas de Minas Gerais.<br />

A iniciativa premiou docentes que<br />

fazem acontecer a Lei 10.639 em suas<br />

escolas. Essa lei, que tornou obrigatório<br />

o ensino da História e Cultura Afrobrasileira<br />

no ensino fundamental e médio<br />

desde 2003, foi atualizada pela<br />

Lei 11.645/2008, que acrescentou o<br />

ensino da História e Cultura Indígena<br />

no currículo escolar. Em 2013, essa<br />

legislação foi alterada pela Lei de Diretrizes<br />

e Bases da Educação Nacional<br />

(Lei 12.796).<br />

Doze anos depois da aprovação da<br />

lei 10.639, ainda pouco se faz para<br />

que ela se torne realidade em boa parte<br />

das escolas brasileiras. Para a diretora<br />

“Premiar é valorizar<br />

quem já está fazendo,<br />

para que outros<br />

professores<br />

acompanhem e<br />

vençam as resistências<br />

à temática no<br />

ambiente escolar”.<br />

do Sinpro Minas, Terezinha Avelar, a<br />

temática deve permear o projeto político-pedagógico<br />

das instituições de ensino<br />

ao longo de todo o ano. “Essa discussão<br />

deve envolver todos os professores,<br />

pois não pode ser responsabilidade de<br />

uma pessoa somente. Muitas vezes, se<br />

espera ou se delega essa iniciativa a<br />

professoras negras”. Para ela, o Prêmio<br />

Educa Minas realça o papel do/a professor/a<br />

na implementação da lei. “Premiar<br />

é valorizar quem já está fazendo,<br />

para que outros professores acompanhem<br />

e vençam as resistências à temática<br />

no ambiente escolar”.<br />

Em Minas Gerais, doze professores/as<br />

da rede particular, filiados/as<br />

ao Sinpro, tiveram seus projetos de<br />

implementação da Lei 10.639 reconhecidos<br />

pelo Prêmio Educa Minas.<br />

Um desses projetos premiados foi desenvolvido<br />

pela professora Fernanda<br />

Gontijo de Abreu, e mais seis professores,<br />

em uma escola de Belo Horizonte,<br />

dentro do Projeto Institucional<br />

desenvolvido ao longo de 2013.<br />

O tema central do projeto foi a<br />

presença do negro na brasilidade. “Considerávamos<br />

urgente problematizar a<br />

presença do negro no Brasil, que<br />

parece cada vez mais se esquecer da<br />

sua história, e que ainda mantém arraigadas<br />

e dissimuladas posturas de<br />

preconceito, exclusão e dominação<br />

quando o assunto é a questão racial, a<br />

liberdade e a igualdade de o<strong>por</strong>tunidades”,<br />

destacou a professora Fernanda<br />

Gontijo. O projeto se desdobrou em<br />

ações pedagógicas nas áreas de Ciências,<br />

História, Geografia, Artes, Português,<br />

Música e Literatura. O trabalho<br />

desenvolvido pela professora Fernanda<br />

na área de Língua Portuguesa foi a<br />

produção de um jornal com artigos de<br />

interesse dos alunos sobre o tema.<br />

Além disso, eles realizaram pesquisas<br />

orientadas pelos professores, assistiram<br />

filmes, visitaram a Comunidade Quilombola<br />

de Mangueira, localizada no<br />

bairro Aarão Reis, a Casa África (centro<br />

cultural e consulado do Senegal em<br />

BH), e participaram de uma palestra e<br />

atividade de capoeira coletiva com o<br />

Mestre João Angoleiro e alguns capoeiristas.<br />

Como resultado, os alunos<br />

produziram diversos trabalhos plásticos,<br />

literários e científicos, que ficaram expostos<br />

até a primeira etapa de 2014,<br />

e receberam visitas da comunidade escolar,<br />

além de moradores do bairro.<br />

Para Fernanda Gontijo, o projeto<br />

gerou aprendizado para todos os<br />

envolvidos, inclusive para os professores.<br />

“Eu mais aprendi do que ‘ensinei’,<br />

o que é muito bom. Um trabalho que<br />

investe no desenvolvimento do pensamento<br />

crítico, e não dogmático,<br />

mobiliza saberes para todos os que<br />

estejam verdadeiramente envolvidos<br />

com a proposta”. Ela conta que o projeto<br />

a fez reviver e resgatar as mais<br />

inspiradoras experiências de sua infância<br />

e adolescência dentro do ambiente<br />

escolar. “Ao discutir o tema da negritude<br />

na brasilidade, vieram à tona<br />

também os temas implícitos da liberdade,<br />

justiça, valorização e dignidade<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


96<br />

humana, o que ressignificou para mim<br />

toda uma temática profissional e<br />

humana”, relata Fernanda.<br />

De acordo com ela, os problemas<br />

que envolvem a questão racial no Brasil<br />

e no mundo refletem a história de dominação<br />

e saqueamento de direitos e<br />

bens culturais do povo negro, disseminada<br />

ao longo de muitos séculos. “É<br />

preciso muito trabalho e o amplo acesso<br />

a uma educação de qualidade para transformar<br />

o que se naturalizou historicamente.<br />

O professor é, <strong>por</strong> isso, peçachave<br />

no percurso da transformação e<br />

justiça social ao investir em um trabalho<br />

diferenciado em sala de aula, mesmo<br />

em condições adversas”, observa.<br />

Riqueza africana<br />

Professora Fernanda Gontijo realiza visita à Casa África.<br />

Outra iniciativa reconhecida pelo<br />

Prêmio Educa Minas é a da professora<br />

Aline Tadeu Lopes, também em uma<br />

escola particular da capital. Ela desenvolveu<br />

o projeto Cultura Afro-brasileira<br />

e Africana com alunos de diferentes<br />

idades do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental.<br />

Diversas atividades apresentaram<br />

um pouco da riqueza que o continente<br />

africano trouxe para o Brasil.<br />

As crianças participaram de brincadeiras<br />

de origem africana, de contação de histórias,<br />

de peça teatral, de exposição de<br />

t<strong>elas</strong> do artista Marcial Ávila com o<br />

tema Anjos Negros, de conversa com<br />

pessoas de origem angolana, que levaram<br />

à escola esculturas e informações sobre<br />

a cultura e a comida do país, e também<br />

assistiram a uma apresentação de dança<br />

afro com o Grupo Bataka. Ela conta<br />

que os alunos gostaram muito do projeto,<br />

que foi também premiado no prêmio<br />

Inovações Pedagógicas, do Sesc.<br />

Aline conta que, desde que cursou<br />

Pedagogia, se preocupou em aprofundar<br />

na temática, e <strong>por</strong> isso, fez sua monografia<br />

sobre a Lei 10.639. Para ela, a<br />

educação é um instrumento para a construção<br />

de uma sociedade anti-racista.<br />

“Cabe a nós, professoras e professores,<br />

promover atividades voltadas para a<br />

questão étnico-racial, pois é assim que<br />

construiremos uma educação voltada<br />

para o respeito e valorização do negro<br />

na sociedade brasileira”, destaca.<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Professoras<br />

são maioria nas<br />

escolas<br />

brasileiras<br />

Outra premiação, em escala nacional,<br />

também repercute iniciativas de<br />

professoras que resolveram fazer diferente<br />

em suas escolas e assim fizeram<br />

a diferença na vida de inúmeros alunos.<br />

É o Prêmio Professores do Brasil,<br />

cuja cerimônia de sua 8ª edição foi<br />

realizada em dezembro de 2014, na<br />

cidade de São Paulo. Promovido pelo<br />

Ministério da Educação, o prêmio reconhece<br />

iniciativas de professores da<br />

educação básica pública. “O prêmio<br />

atende a uma das metas do Plano Nacional<br />

de Educação, a valorização dos<br />

professores. Necessitamos de ações<br />

que tornem os educadores motivados<br />

e comprometidos. Com acesso a planos<br />

de carreira, salários atrativos, formação<br />

inicial e continuada de qualidade, reconhecimento<br />

de seu papel social e<br />

referência para a nossa sociedade”,<br />

aponta o documento final do Prêmio.<br />

Em 2014, concorreram 6.808 projetos,<br />

e apenas 39 professores foram<br />

premiados <strong>por</strong> suas iniciativas. O resultado<br />

confirma a participação majoritária<br />

das mulheres na educação. Foram<br />

32 professoras e apenas sete professores<br />

premiados. No universo mais<br />

amplo das escolas públicas brasileiras,<br />

as mulheres são mesmo maioria. Segundo<br />

dados do Instituto Nacional de<br />

Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio<br />

Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da<br />

Educação, em 2013, havia 2.148.023<br />

professores na educação básica, e,<br />

deste total, 1.724.653 eram mulheres.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


97<br />

IMAGEM TV ESCOLA<br />

Em Minas Gerais, há 186.184 mulheres<br />

e apenas 37.329 homens nas<br />

salas de aula das escolas públicas. Duas<br />

dessas mulheres foram vencedoras da<br />

oitava edição do Prêmio Professores<br />

do Brasil 2014. É o caso de Marli Pereira<br />

da Silva Morais, professora na Escola<br />

Municipal Gil Brasileiro da Silva,<br />

em Itapagipe, no Triângulo Mineiro.<br />

Ela recebeu o prêmio pelo projeto “Mala<br />

Viajante”, desenvolvido com 24 alunos<br />

do 4º ano do Ensino Fundamental.<br />

A cada semana escolar do ano de<br />

2014, um aluno levou para casa uma<br />

divertida mala com livros para serem<br />

lidos com a família, além de uma cópia<br />

do projeto e de fichas para os pais entenderem<br />

a proposta e avaliarem a leitura.<br />

Deu tão certo que, depois de envolver<br />

os pais, o projeto alcançou também<br />

as avós. Inspirado pela dona<br />

Benta, avó dos personagens principais<br />

do Sítio do Picapau Amarelo, de<br />

Monteiro Lobato, e pelo livro A colcha<br />

de retalhos, de Conceil Corrêa da<br />

Silva e Nye Ribeiro, que narra a relação<br />

entre avó e neto, o sub-projeto “Aprendi<br />

com a vovó” trouxe a sabedoria das<br />

mulheres mais velhas da família para<br />

dentro da sala de aula.<br />

Histórias e valores<br />

Cada aluno foi convidado a trazer<br />

um retalho significativo de casa e a<br />

contar a história daquele pedaço de<br />

pano, muitas vezes cedido <strong>por</strong> avós ou<br />

mães. Os retalhos transformaram-se<br />

em uma colorida colcha de retalhos,<br />

que passou a forrar a mesa da sala.<br />

Com empenho de todos, foi então realizado<br />

o Chá da Vovó, com a presença<br />

das avós e de seus quitutes e receitas.<br />

Algumas d<strong>elas</strong> disseram nunca terem<br />

sido chamadas na escola dos netos<br />

para participar como avós, e que se<br />

sentiram felizes pela homenagem recebida.<br />

A partir da leitura dos livros da<br />

mala e das atividades relacionadas, os<br />

alunos desenvolveram diferentes tipos<br />

de texto, reforçaram o aprendizado de<br />

valores como respeito e colaboração,<br />

e passaram a contar com a participação<br />

mais ativa da família em sua<br />

vida escolar.<br />

A professora Marli conta que ficou<br />

contente em desenvolver o projeto e<br />

<strong>por</strong> ter sua iniciativa valorizada pelo<br />

Prêmio Professores do Brasil. “A so-<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


98<br />

ciedade passa a te olhar com mais respeito,<br />

a escola cresce e os alunos ficam<br />

mais confiantes e mais motivados, enfim,<br />

todos ganham”, relata. Segundo<br />

ela, ser professora não é uma tarefa<br />

fácil, mas é gratificante. “Gosto muito<br />

do que faço. O que eu sei fazer é dar<br />

aula. Quando você vê que uma ação<br />

sua fez a diferença na vida das pessoas,<br />

é a melhor realização, é um prêmio.<br />

Apesar dos desafios, eu ainda acredito<br />

muito na educação”, completa Marli.<br />

Aula de cidadania<br />

Outra professora mineira reconhecida<br />

pelo Prêmio Professores do Brasil<br />

é Soraya Amaral Nantes de Castilho.<br />

Ela é professora de Química na Escola<br />

Estadual Benedito Ferreira Calafiori,<br />

em São Sebastião do Paraíso, no Sul<br />

de Minas. Seu projeto Ditão em ação:<br />

descarte de pilhas e baterias foi desenvolvido<br />

com cerca de 200 alunos<br />

do 3º ano do Ensino Médio.<br />

Ao longo de 2013, eles recolheram<br />

cerca de 400 quilos de pilhas e baterias<br />

e cuidaram do envio do material para<br />

uma empresa de reciclagem. O projeto<br />

nasceu quando a professora Soraya<br />

constatou o desconhecimento dos alunos<br />

sobre o funcionamento e a composição<br />

desses produtos e, principalmente,<br />

sobre como descartá-los no fim<br />

de sua vida útil. Foi preciso então estudar<br />

a teoria, assistir a vídeos e colocar<br />

em prática as ideias que surgiram. Os<br />

alunos construíram, então, baterias rudimentares<br />

com limões e batatas, criaram<br />

panfletos sobre reciclagem e uma<br />

música sobre o descarte correto de pilhas<br />

e baterias. Também criaram coletores<br />

(papa-pilhas) e hoje há dezenas<br />

deles espalhados pela cidade.<br />

Soraya Amaral conta que o projeto<br />

mudou sua forma de atuar na escola e<br />

na vida. “Hoje me sinto cada vez mais<br />

responsável pelos problemas ambientais<br />

ao meu redor. Continuo procurando<br />

parcerias para ampliar o projeto a fim<br />

de informar, sensibilizar e aumentar a<br />

consciência ambiental de novos alunos<br />

e da população”, relata. Assim, ela<br />

continua a incentivar a criação de mais<br />

postos de recolhimento de pilhas e baterias<br />

em sua cidade. “Precisamos evitar<br />

o descarte na natureza de metais pesados,<br />

tão prejudiciais à sustentabilidade<br />

do planeta e à saúde da humanidade”,<br />

observa. Com sua visão consciente, a<br />

professora Soraya dá uma aula de cidadania.<br />

“O papel do professor é garantir<br />

a aprendizagem, criar possibilidades<br />

de construção do conhecimento,<br />

transmitir valores, atitudes e habilidades,<br />

mas, sobretudo, acreditar no potencial<br />

dos alunos, permitindo-lhes crescer<br />

como pessoas, como cidadãos e como<br />

futuros trabalhadores”, completa.<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Professora<br />

conta que foi<br />

influenciada <strong>por</strong><br />

outras mulheres<br />

a seguir a<br />

profissão<br />

Fernanda Gontijo de Abreu (foto),<br />

professora de Língua Portuguesa de<br />

uma escola particular de BH, escolheu<br />

a profissão inspirada <strong>por</strong> sua mãe professora<br />

e <strong>por</strong> sua rica vivência com<br />

suas professoras desde a infância. Por<br />

sua atuação diferenciada e integrada à<br />

equipe de professores da escola, ela<br />

recebeu o Prêmio Educa Minas para<br />

a Diversidade, em dezembro de 2014.<br />

Nessa entrevista, ela conta um pouco<br />

de sua trajetória no ambiente escolar,<br />

expõe sua crença no papel transformador<br />

da educação, e repercute os<br />

desafios encontrados p<strong>elas</strong> professoras<br />

para exercer a profissão.<br />

Como surgiu o interesse pela<br />

profissão?<br />

Desde criança, tenho um envolvimento<br />

especial com o ambiente escolar.<br />

Um dos motivos é o fato de eu ser<br />

filha de professora. Minha mãe lecionou<br />

<strong>por</strong> anos no ensino infantil do tradicional<br />

Instituto de Educação de Belo Horizonte<br />

em uma época em que ali se apostava<br />

na ampla formação do aluno: refirome,<br />

obviamente, não apenas à formação<br />

cognitiva, mas a que também<br />

levava seriamente em conta a emoção,<br />

a sociabilidade e o desenvolvimento<br />

dos valores éticos, o que fazia a equipe<br />

docente investir criteriosamente no<br />

saber lúdico e inventivo, na alegria da<br />

convivência na escola, na leitura crítica<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


99<br />

e aprofundada desde a alfabetização,<br />

respeitando-se a gradual, mas profunda<br />

inserção da criança no mundo da escrita<br />

e da leitura.<br />

Como a instituição em que minha<br />

mãe trabalhou foi a mesma em que estudei<br />

até a 4ª série, tive o privilégio de<br />

ter professores(as) que lecionavam com<br />

criatividade, bom humor e muita dedicação.<br />

Lembro-me, <strong>por</strong> exemplo, com<br />

grande carinho, da professora de matemática<br />

da 3ª série – a Margô –, que,<br />

vejam bem!, ensinava matemática com<br />

poesia, apresentando a cada aula um<br />

novo poema do qual os alunos deveriam<br />

descobrir, pela sugestão da rima,<br />

a última palavra. Esta prática levavanos<br />

a refletir, antes de simplesmente<br />

“aprender” a matéria, sobre o tema a<br />

ser trabalhado dentro do conteúdo matemático<br />

proposto.<br />

Não tenho dúvidas, <strong>por</strong>tanto, de<br />

que a maneira como pratico a minha<br />

profissão, que já vai para mais de 10<br />

anos, está intimamente ligada à minha<br />

passagem na infância <strong>por</strong> escolas que<br />

souberam transmitir-me uma sólida ética<br />

de ensino-aprendizagem, fazendo-me<br />

entender o espaço do conhecimento<br />

como lugar de autonomia do pensamento,<br />

de aprimoramento social e humano<br />

contínuos. Quando na adolescência,<br />

já no colegial, passei <strong>por</strong> uma<br />

escola de linha conteudista, a semente<br />

da leitura crítica já havia germinado em<br />

mim. O que eu fazia o tempo todo era<br />

questionar em silêncio, embora não tivesse<br />

dificuldade para apreender os<br />

conteúdos repassados, o papel social<br />

de uma instituição que priorizava os resultados,<br />

a quantidade e a velocidade<br />

de apreensão dos conteúdos em detrimento<br />

da assimilação cautelosa e consistente<br />

do conhecimento, criando nos<br />

alunos parâmetros de pensamentos consonantes<br />

com o ritmo acelerado, massificado<br />

e descartável das informações<br />

presentes em um mundo cujo principal<br />

valor é o capital e o consumo. Mesmo<br />

nesse período de minha vida estudantil,<br />

o ambiente escolar era instigante para<br />

mim pelo esforço solitário que eu fazia<br />

para questioná-lo, compará-lo, compreendê-lo.<br />

Acho que é <strong>por</strong> isso que<br />

até hoje estou na escola... como professora<br />

e como aluna, pois, mesmo trabalhando,<br />

jamais parei de estudar.... E<br />

sim, as instituições de ensino ainda continuam<br />

sendo para mim, em muitos aspectos,<br />

espaços cheios de incoerências<br />

e que devem ser repensados em sua<br />

forma de agir, ensinar, amar...<br />

Quais os desafios para conciliar<br />

a docência com a vida pessoal e a<br />

família?<br />

É um desafio constante, já que<br />

todo(a) professor(a) trabalha muito também<br />

fora da sala de aula, fazendo planejamentos,<br />

preparando atividades, estudando,<br />

tratando da burocracia que<br />

uma escola exige... O trabalho é muito<br />

e a família acaba se acostumando e<br />

aprendendo a lidar com isso. De toda<br />

forma, acredito que, como todo trabalho<br />

que é feito com empenho, a compensação<br />

é dada pelo efeito que vemos<br />

ocorrer em nosso público, no setor social<br />

ao qual servimos. Isso é muito gratificante!<br />

Quando percebo que os alunos<br />

estão crescendo como seres humanos<br />

e pensantes, e que pude contribuir um<br />

pouco para isso, fico feliz e já me sinto<br />

recompensada <strong>por</strong> meu investimento.<br />

E a família, quando nos percebe fortes<br />

e integrados com o que realizamos<br />

profissionalmente, se inspira nesse<br />

vigor e acaba procurando caminhos<br />

de realização também.<br />

O esforço e os desafios são imensos<br />

(na profissão de professor, isso é histórico<br />

e já há muito é uma questão a<br />

ser definida politicamente), mas é preciso<br />

não abrir mão de uma vida saudável,<br />

com tempo para lazer e convivência<br />

com aqueles que prezamos. Porém,<br />

acredito que a principal fonte de revitalização<br />

venha mesmo do próprio trabalho<br />

feito em consonância com o que<br />

acreditamos.ø<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


100<br />

foto BRUNO CARVALHO<br />

ENTREVISTA<br />

MARA EVARISTO<br />

<strong>por</strong> DENILSON CAJAZEIRO<br />

Diversidade é<br />

assunto de criança<br />

Especialista defende a abordagem das relações<br />

étnico-raciais desde a educação infantil<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


101<br />

Autora de livros que trabalham a<br />

identidade afrodescendente e a diversidade,<br />

Mara Evaristo se dedica há<br />

mais de 20 anos a promover as relações<br />

étnico-raciais na educação infantil. “Embora<br />

não saibam o que é racismo, as<br />

crianças têm atitudes discriminatórias”,<br />

aponta a educadora e especialista no<br />

tema, em entrevista à <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong>.<br />

Atualmente, Mara Evaristo é também<br />

coordenadora do Núcleo de Relações<br />

Étnico-Raciais da Secretaria Municipal<br />

de Educação de Belo Horizonte. Uma<br />

de suas principais tarefas é acompanhar<br />

a aplicação da lei 10.639, aprovada<br />

em 2003, que determina o ensino da<br />

história e cultura afro-brasileira e africana<br />

em todas as escolas do país, públicas e<br />

particulares. No cargo, sabe bem que<br />

um dos principais desafios para introduzir<br />

o assunto nas escolas é mudar a<br />

cultura que permeia o ambiente escolar.<br />

“A gente percebe que, no início do<br />

ano, nas reuniões escolares, fala-se de<br />

tudo, de alimentação, de fralda, mas<br />

sobre relações humanas não se fala.<br />

Quando se fala da lei, da diversidade,<br />

muita gente diz que tem de cuidar da<br />

autoestima da criança negra. O que<br />

vejo é que a criança negra nasce com a<br />

autoestima lá em cima. O que tem de<br />

cuidar é das outras pessoas, para não a<br />

prejudicarem. Porque quem causa danos<br />

são os outros. As crianças nascem bem<br />

com <strong>elas</strong> mesmas”, ressalta.<br />

Além das atividades na Secretaria,<br />

Mara Evaristo desenvolve oficinas voltadas<br />

para professores sobre a construção<br />

da identidade p<strong>elas</strong> crianças e<br />

defende que o trabalho com o tema<br />

tem de estar presente no cotidiano escolar.<br />

Não basta ser algo pontual, de<br />

curta duração. “É preciso garantir a<br />

diversidade ao longo do ano, o tempo<br />

todo, não é só um projeto para ser<br />

feito no mês da consciência negra.<br />

Isso é que vai fazer a diferença”, afirma.<br />

Confira a entrevista.<br />

Como começou seu trabalho com<br />

as relações étnico-raciais na educação<br />

infantil?<br />

Em 1995, ingressei na carreira do<br />

magistério e comecei a me preocupar,<br />

principalmente quando trabalhava com<br />

literatura, com os alunos negros que<br />

não se identificavam com os personagens,<br />

não tinham tanta empatia. Então<br />

comecei a trabalhar com eles recriando<br />

histórias. Naquela época tinha a tradição<br />

dos contos de fadas no processo de alfabetização,<br />

e comecei a provocá-los,<br />

perguntando como seria se aqu<strong>elas</strong> histórias<br />

acontecessem no território onde<br />

moravam. Refazíamos imagem, texto,<br />

e eu percebia um interesse maior <strong>por</strong><br />

parte deles a partir dessa intervenção.<br />

Quanto tive filhos, começou o processo<br />

da minha vivência da educação na condição<br />

de família. O mais velho foi para<br />

a educação infantil, com três anos, e<br />

na escola dele tinham poucos alunos<br />

negros. E lá que vivi pela primeira vez<br />

a percepção de como as crianças de<br />

dois, três, quatro anos vão percebendo<br />

“É preciso garantir<br />

a diversidade ao<br />

longo do ano,<br />

tempo todo,<br />

não é só um<br />

projeto para ser<br />

feito no mês da<br />

consciência negra”.<br />

as diferenças de tratamento. Meu filho,<br />

com outros [colegas], viveu algumas situações<br />

de discriminação. A escola foi<br />

muito bacana nesse processo, <strong>por</strong>que<br />

desenvolveu um projeto para trabalhar<br />

com alunos, principalmente brancos,<br />

que manifestavam essa discriminação,<br />

para que eles entendessem o que era a<br />

cor da pele. Pensamos em trabalhar<br />

com crianças de três anos a melanina.<br />

E aí nós pesquisamos e encontramos<br />

uma experiência americana que trabalhava<br />

leite com achocolatado. Mostramos<br />

para os meninos que a pigmentação da<br />

pele tem elementos com a mesma atuação<br />

que o achocolatado no leite. Quanto<br />

mais chocolate na mistura, mais escuro<br />

o leite, e da mesma forma a pele. Eles<br />

queriam entender se <strong>por</strong> dentro também<br />

era escuro, e achamos que uma opção<br />

interessante seria trabalhar com maçãs.<br />

As frutas foram descascadas, e a meninada<br />

identificou que <strong>por</strong> baixo da casca<br />

a cor era semelhante, e com essas vivências<br />

eles conseguiram perceber as<br />

diferenças. Vi como isso provocou um<br />

impacto positivo nas relações que meu<br />

filho e os colegas construíram dentro<br />

da escola. Embora não saibam o que é<br />

racismo, as crianças têm atitudes discriminatórias.<br />

Vi também o quanto as famílias<br />

e a escola têm responsabilidade<br />

neste momento na formação da criança,<br />

<strong>por</strong>que é ali que você vai trabalhar a<br />

questão da diferença, da semelhança,<br />

do respeito. A partir dessa experiência<br />

pessoal, comecei a montar uma oficina<br />

para professores sobre a construção da<br />

identidade p<strong>elas</strong> crianças. Quando comecei,<br />

as professoras negavam muito<br />

que houvesse discriminação. Diziam que<br />

na escola todo mundo era igual, que<br />

discriminação era coisa de adulto e as<br />

crianças nem percebiam isso. Era o<br />

discurso do senso comum.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


102<br />

Da democracia racial?<br />

É, da democracia racial. Quando<br />

ele não chegava nesse lugar, era um<br />

discurso que caminhava mais para a<br />

questão religiosa, que o trabalho com<br />

as crianças tinha de valorizar as diferenças,<br />

e que se <strong>elas</strong> não fossem bonitas<br />

aos olhos dos coleguinhas, não precisavam<br />

se preocupar, <strong>por</strong>que aos olhos<br />

de Deus <strong>elas</strong> eram. Então havia esses<br />

dois movimentos. A gente não imagina,<br />

quando estamos dispostos a enxergar,<br />

o que as crianças estão falando sobre<br />

as diferenças. Ouvi, na época do Natal,<br />

que anjo preto era só do mal, que<br />

preto era pivete, roubava, que todo ladrão<br />

é preto, maconheiro, então os<br />

personagens [dos livros] não poderiam<br />

ser pretos. Houve a situação de uma<br />

professora que levou para a sala dois<br />

bonecos, e a diferença entre eles era a<br />

cor. Uma criança queria o boneco negro,<br />

virou pra outra e disse: ‘me dá<br />

esse boneco aí?’. A coleguinha não<br />

sabia qual e perguntou. Ela respondeu:<br />

‘me dá esse aí com rostinho de faxineiro’.<br />

Não quer dizer que todas as<br />

crianças falavam dessa forma, mas foi<br />

assustador perceber que em todas as<br />

instituições de ensino houve alguma<br />

informação que mostrava o quanto era<br />

natural para três, quatro anos, as crianças<br />

manifestarem formas de tratamento<br />

tão discriminatórias. Outro dado que<br />

chamou atenção da gente foi a rejeição<br />

à cor preta, de como ela está associada<br />

no imaginário da criança a algo ruim.<br />

“Combater o racismo<br />

não tem de acontecer<br />

no lugar onde existe<br />

racismo. É você<br />

trabalhar o tempo<br />

todo com valorização<br />

e respeito à<br />

diversidade”.<br />

MARK FLOREST<br />

Qual a im<strong>por</strong>tância de se trabalhar<br />

com esse tema com as crianças<br />

no ambiente escolar?<br />

Eu vi o que um bom trabalho sobre<br />

relações étnico-raciais faz com várias<br />

crianças. Quando você chega a uma<br />

escola onde essa criança se identifica<br />

no material, nas histórias que são contadas,<br />

nos murais, nos filmes, no professor,<br />

isso faz uma extrema diferença.<br />

Belo Horizonte tem escola hoje [da<br />

rede privada] que não contrata professor<br />

negro. Isso é seríssimo. Essa informação<br />

é fruto de um processo de formação e<br />

diálogo com os conselheiros municipais<br />

de educação. Não existe na ficha da escola<br />

que não pode contratar, mas essa<br />

percepção de que a escola não contrata<br />

é concreta, e isso é muito sério.<br />

Uma professora já nos relatou<br />

que tentou aplicar a lei 10.639 na<br />

escola em que trabalhava, e a direção<br />

disse que não havia necessidade, já<br />

que lá não existia criança negra.<br />

O que é uma visão superequivocada.<br />

Porque a LDB [Lei de Diretrizes e Base<br />

da Educação], quando traz a obrigatoriedade,<br />

não diz que é somente em escolas<br />

onde há alunos negros. Se fosse<br />

assim, a gente teria de pensar que tudo<br />

relacionado à Europa é somente em<br />

escolas que têm alunos brancos. As<br />

pessoas precisam ampliar o conhecimento<br />

sobre a legislação. Combater o<br />

racismo não tem de acontecer no lugar<br />

onde existe racismo. É você trabalhar o<br />

tempo todo com a valorização e o respeito<br />

à diversidade. Meus filhos podem<br />

não conviver com muçulmanos, mas<br />

eles precisam aprender a respeitar a<br />

religião, a fé muçulmana, para que<br />

quando encontrem com um muçulmano,<br />

o tratem de forma respeitosa. Isso faz<br />

parte das relações étnico-raciais. Outro<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


103<br />

ponto é trabalhar com a história e<br />

cultura africana e afro-brasileira, e isso<br />

não necessariamente é trabalhar com o<br />

racismo. Porque não vou restringir o<br />

trabalho sobre a história de um continente<br />

a um período histórico. Você<br />

tem uma África antes e uma África<br />

pós-escravidão. Temos escritores africanos,<br />

cientistas, uma diversidade cultural<br />

imensa para apresentar, da mesma<br />

forma que o continente europeu tem.<br />

O trabalho tem de pensar, e principalmente<br />

na educação infantil, que as<br />

crianças nem sabem sobre o racismo.<br />

Na verdade o que essas crianças precisam<br />

conhecer nessa idade é sobre seu<br />

corpo, sua pele, seu cabelo. A criança<br />

negra precisa ter seu cabelo valorizado.<br />

As crianças precisam saber que o cabelo<br />

crespo não é duro, apresentar de uma<br />

forma que o valorize. Crianças que tem<br />

a possibilidade de ver o cabelo crespo<br />

de diversas formas, independentemente<br />

de serem negras ou brancas, passam a<br />

perceber a beleza também nessa estética.<br />

não pode. A gente percebe que, no<br />

início do ano, nas reuniões escolares,<br />

fala-se de tudo, de alimentação, de<br />

fralda, mas sobre relações humanas<br />

não se fala. Quando se fala da lei, da<br />

diversidade, muita gente diz que tem<br />

de cuidar da autoestima da criança<br />

negra. O que vejo é que a criança<br />

negra nasce com uma autoestima lá<br />

em cima. O que tem de cuidar é das<br />

outras pessoas, para não prejudicarem<br />

essa autoestima. Porque quem causa<br />

os danos são os outros. As crianças<br />

nascem bem com <strong>elas</strong> mesmas.<br />

De modo geral, o sistema educacional<br />

tem reproduzido esse quadro?<br />

Acho que ainda estamos saindo da<br />

fase da negação. Rosa Margarida, que<br />

é uma pesquisadora que gosto muito,<br />

diz que primeiro passamos pela fase<br />

da negação, do “aqui não existe racismo”.<br />

Hoje você não tem um profissional<br />

que seja pesquisador e que diga<br />

que não existe racismo no sistema educacional.<br />

Em todas as escolas você vai<br />

ter essa concretude. O segundo passo<br />

passa p<strong>elas</strong> pessoas identificarem qual<br />

a responsabilidade que <strong>elas</strong> têm nesse<br />

processo, <strong>por</strong>que a tendência é achar<br />

assim: mas eu não sou culpado <strong>por</strong><br />

isso, ou isso aconteceu foi no passado<br />

e não tem jeito de fazer mais nada.<br />

Tem sim, a escola e a gestão que se<br />

propõe a trazer todos os profissionais<br />

para esse processo terão um impacto<br />

considerável para a maioria das crianças.<br />

E para os professores darem conta<br />

BRUNO CARVALHO<br />

A im<strong>por</strong>tância estaria nesse campo<br />

da diversidade, do respeito às<br />

diferenças?<br />

Exatamente. Com um cuidado: não<br />

deixar passar as situações em que a<br />

criança, mesmo sem perceber o dano,<br />

discrimina. Se você chega hoje em<br />

uma instituição de ensino infantil, não<br />

há nenhuma parede pichada. Porque<br />

seja uma criança de dois anos, um<br />

ano, se ela rabiscar a parede, alguém<br />

fala que não pode. As crianças aprendem<br />

a chamar <strong>por</strong> apelidos, chamar<br />

de macaco, de cabelo pixaim, <strong>por</strong>que<br />

encontram permissividade. Nessas<br />

situações de discriminação, mesmo<br />

que ela tenha três, quatro anos, a<br />

escola tem de pontuar sobre o tratamento<br />

respeitoso, o que pode e o que<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


104<br />

de fazer isso, a lei é muito sábia, <strong>por</strong>que<br />

ela chama os movimentos sociais.<br />

Então as escolas precisam se aproximar<br />

dos movimentos sociais. E vejo<br />

que muitas escolas têm uma ideia completamente<br />

equivocada de movimentos<br />

sociais. <strong>Elas</strong> não conseguem identificar,<br />

<strong>por</strong> exemplo, que um movimento estético,<br />

como a gente está tendo um<br />

boom aqui em Belo Horizonte sobre o<br />

cabelo crespo, é político. Você está dizendo<br />

que seu país politicamente coloca<br />

um lugar para quem tem cabelo<br />

crespo. Há alguns lugares em que todas<br />

as pessoas de cabelo crespo têm de<br />

estar com ele liso, preso ou escondido,<br />

<strong>por</strong>que parece que não se encaixa em<br />

algumas funções. Você não vê alguma<br />

pessoa de cabelo crespo solto num<br />

banco, dificilmente vê alguém que<br />

ocupa a função de comissário de bordo<br />

usando o cabelo crespo. Em determinados<br />

restaurantes, os gerentes, esses<br />

cargos de alto poder, não se enxerga<br />

as pessoas com cabelo crespo. Então<br />

esse trabalho pra mim começa na educação<br />

infantil, mas não pensando no<br />

futuro, pensando no presente da<br />

criança, mas isso para mim vai ter um<br />

impacto considerável no futuro.<br />

Essa questão do cabelo é uma<br />

questão de fato política, não é?<br />

É uma ação política e não é um<br />

movimento só do Brasil. Mencionei<br />

aqui <strong>por</strong>que a gente está vendo isso<br />

forte em Belo Horizonte. Acompanho<br />

também pelo Facebook o que os movimentos<br />

estão fazendo. Tem o movimento<br />

de crespas e cacheadas, tem o<br />

encrespa geral, são eventos em que<br />

<strong>elas</strong> convidam as mulheres a primeiro<br />

valorizar o cabelo natural. Isso não significa<br />

que você não possa mais relaxar<br />

ou alisar, mas é um movimento que<br />

vai lutar contra esse engessamento,<br />

essa visão de que a única forma apresentável<br />

de cabelo é a lisa.<br />

Contra esse padrão de beleza<br />

também?<br />

Sim, e de beleza que vai para um<br />

patamar que significa também como se<br />

fosse conhecimento. A ideia da mulher<br />

intelectual é de uma mulher que, embora<br />

não tenha vaidade, se apresenta com<br />

um cabelo liso, o protótipo da mulher<br />

cientista, da pesquisadora. Se você olha<br />

uma pessoa com o cabelo crespo, solto<br />

e alto, o primeiro olhar é: aquela pessoa<br />

não é cientista, não tem conhecimento<br />

pra isso, se não o cabelo dela não<br />

estaria daquele jeito. Vi a discussão nas<br />

redes sociais acerca de um bloco [carnavalesco]<br />

em Juiz de Fora sobre empregadas<br />

domésticas. São homens negros,<br />

que pintam o rosto de preto, passam<br />

batom para parecer que o lábio<br />

está grosso e colocam uma peruca de<br />

cabelo crespo. É uma caricatura grosseira<br />

e isso é visto como algo divertido. Pra<br />

nós, a nossa pele, boca e cabelo não<br />

querem ser motivo de chacota. Se pra<br />

eles é uma brincadeira, pra nós é muito<br />

agressivo, pois aquela apresentação está<br />

inferiorizando tudo que tem a ver com<br />

a identidade da mulher negra. Li as crí-<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


105<br />

ticas que tanto defendiam o bloco, dizendo<br />

que é uma tradição na cidade,<br />

quanto as que criticavam. Achei interessante<br />

uma pessoa da cidade dizer<br />

que nunca tinha parado para pensar<br />

sob essa perspectiva e que ela acha que<br />

a tradição não é impossível de mudar<br />

se é algo ofensivo. Se a gente pensar,<br />

alguns anos atrás a tradição era a família<br />

definir com quem as mulheres iam se<br />

casar, ou com quem o homem ia se casar.<br />

Fruto da discussão e de quanto<br />

perceber que isso ia contra os direitos,<br />

essa tradição foi mudada. O Brasil tem<br />

uma tradição de discriminação. As pessoas<br />

precisam se desarmar um pouco,<br />

BRUNO CARVALHO<br />

sair da zona de conforto. Há outras<br />

formas de brincar o carnaval sem ofender<br />

outras pessoas. É um passo que a gente<br />

precisa dar. Muita gente que hoje eu<br />

falo que parou de negar o racismo<br />

ainda vê o racismo no outro, mas não<br />

consegue perceber que sua prática sustenta<br />

o racismo. Enquanto tiver bloco<br />

caracterizando a mulher negra dessa<br />

forma, teremos dificuldades para acessar<br />

lugares de emprego, <strong>por</strong>que as pessoas<br />

vão nos olhar como essa caricatura representada.<br />

Quais atividades a sra. sugeriria<br />

para quem tem interesse em trabalhar<br />

com o assunto?<br />

Há atividades que às vezes as famílias<br />

buscam pouco. Em Belo Horizonte,<br />

há dois museus que trabalham com a<br />

história e cultura africana e afro-brasileira.<br />

Um é o Museu de Artes e Ofícios,<br />

que tem a trilha afro-brasileira, aberta<br />

ao público. Você pode apresentar isso<br />

para que a criança aprenda um pouco<br />

de história, saber como as pessoas trabalhavam<br />

no passado, criavam os instrumentos,<br />

comparar como era antes<br />

e como é hoje. O outro é o Memorial<br />

Minas Gerais Vale, que também tem<br />

um percurso que vai mostrar a resistência<br />

negra, trabalhar a questão da<br />

oralidade, a presença negra no continente<br />

africano e aqui no Brasil. Para<br />

uma criança pequena, a abordagem<br />

não vai entrar tanto no processo da<br />

escravidão, mas você vai encontrar lá<br />

um Milton Nascimento, um Renegado<br />

em painéis grandes. É isso que a criança<br />

precisa perceber, que negros e brancos<br />

contribuem culturalmente, politicamente<br />

e cientificamente para o país. E não<br />

restringir só a negros e brancos, temos<br />

também os ciganos, os indígenas urbanos.<br />

Onde estão essas pessoas, quais<br />

atividades <strong>elas</strong> fazem ao longo do ano?<br />

Temos festas indígenas, ciganas. É uma<br />

forma de a criança perceber a vida<br />

social dessas pessoas e se aproximar.<br />

O desafio pra mim é o adulto querer<br />

fazer esse movimento de conhecer.<br />

Porque você tem espaços fantásticos<br />

para isso. Além disso, tem um movimento<br />

também im<strong>por</strong>tante que é desenvolver<br />

o senso crítico. Se a criança<br />

está assistindo a um filme ou desenho<br />

que inferioriza a mulher ou a coloca<br />

num papel ridículo, é preciso conversar<br />

com a criança, começar a desenvolver<br />

nela a análise do que está recebendo,<br />

para ela não aceitar que, <strong>por</strong> exemplo,<br />

só pelo fato de um conteúdo chegar<br />

pelo livro aquilo é real, é o correto. Eu<br />

penso que você precisa fazer também<br />

um movimento de abrir sua casa. Vou<br />

deixar uma pergunta para quem está<br />

lendo: quantas pessoas negras frequentaram<br />

sua casa no ano passado? E de<br />

que forma? Foi para limpar ou numa<br />

relação de amizade? Quantos amigos<br />

negros você tem? E quantos brancos?<br />

Como você pode estimular esse convívio?<br />

Em relação à educação, o primeiro<br />

passo é estudar. A gente só vai ser<br />

bom professor se permanecer estudando<br />

ao longo da vida e se fizer um<br />

investimento para conhecer novas brincadeiras,<br />

jogos, a discussão em torno<br />

da linguagem. Que as pessoas tenham<br />

essa atenção e responsabilidade para<br />

trabalhar com a diversidade, <strong>por</strong>que<br />

hoje as diretrizes para a educação<br />

infantil vão dizer que este é um dos pilares<br />

da educação infantil: o trato da<br />

diversidade, o respeito à identidade e<br />

a promoção da equidade. É preciso<br />

garantir a diversidade ao longo do ano,<br />

o tempo todo, não é só um projeto<br />

para ser feito no mês da consciência<br />

negra. Isso é que vai fazer a diferença.ø<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


AUTOESTIMA<br />

POR NANCI ALVES<br />

foto MARK FLOREST


107<br />

Debaixo dos<br />

caracóis,<br />

muita história<br />

pra contar<br />

Cabelo, símbolo de feminilidade, é motivo de alegrias e sofrimentos<br />

O cabelo tem sido o causador de<br />

alegrias e tristezas entre as mulheres,<br />

que, em geral, gastam tempo e dinheiro<br />

em busca de um visual atraente. Por<br />

outro lado, a falta do cabelo, pelos mais<br />

variados motivos, traz sofrimento, mas,<br />

acima de tudo, desperta a solidariedade<br />

entre mulheres em todo o Brasil.<br />

O simples fato de um cabelo fora<br />

dos padrões da moda pode provocar<br />

atitudes de isolamento. Certamente,<br />

você conhece alguma mulher que já<br />

deixou de ir a uma festa <strong>por</strong>que o<br />

cabelo não estava bonito. Entre as<br />

adolescentes, esse dilema pode se<br />

tornar ainda maior. Ana Luísa, de 16<br />

anos, garante que já perdeu vários encontros<br />

com amigos <strong>por</strong>que não deu<br />

tempo de arrumar bem o cabelo. Isso<br />

implica hidratar, lavar, escovar ou<br />

pranchar seus cabelos. “Conheço garotas<br />

que pensam diferente e gostam<br />

do cabelo com volume, colorido ou<br />

com dreads, mas todas investem em<br />

algum visual que as fazem se sentir bonitas.<br />

Eu gosto do meu cabelo bem<br />

liso. Assim me sinto mais feminina.<br />

Quando acho que está feio, me sinto<br />

insegura, não quero sair e muito menos<br />

aparecer em fotografias”, conta.<br />

Em termos de estatísticas, Ana Luísa<br />

faz parte de um grupo que é a maioria<br />

em nosso país - 63% das brasileiras<br />

gostariam de ter cabelos lisos; sendo<br />

que menos de 20% realmente têm e<br />

42% os alisam. É o que apontou uma<br />

pesquisa realizada pela L’Oréal, que<br />

mostrou, ainda, que o cabelo das brasileiras<br />

é uma mistura de três categorias:<br />

oriental, afro e caucasiano. As que alisam<br />

suas madeixas, em geral, querem<br />

reduzir volume e, para isso, buscam<br />

produtos que tenham resultado imediato,<br />

independentemente das possíveis<br />

consequências, como dani ficar seriamente<br />

os fios.<br />

A designer gráfico, Fernanda Lourenço<br />

(foto), passou <strong>por</strong> uma experiência<br />

marcante em sua vida. Por usar química<br />

para relaxamento desde os 13 anos de<br />

idade, já não sabia mais como era seu<br />

cabelo. “Foi uma surpresa e uma<br />

grande alegria redescobrir meus cachos.<br />

Por causa da moda, comecei a relaxar<br />

meu cabelo na adolescência. Depois,<br />

passei a fazer escova progressiva, também<br />

<strong>por</strong> muitos anos. Até que um dia,<br />

quando já não estava gostando do aspecto<br />

do meu cabelo e também <strong>por</strong> incentivo<br />

de uma amiga, comecei a pensar<br />

na possibilidade de voltar a usá-lo natural.<br />

Foi um processo. Deixei a progressiva<br />

quando vi uma re<strong>por</strong>tagem falando<br />

sobre os males, para saúde, do excesso<br />

da química. Porém, o mantinha liso<br />

com escovação. Quando me decidi <strong>por</strong><br />

cortar o cabelo, tive medo, pois não<br />

sabia como ele estaria. Depois que<br />

cortei curto e deixei secar naturalmente,<br />

foi uma surpresa maravilhosa e, hoje,<br />

eu estou apaixonada com meu cabelo,<br />

me sinto mais feminina”, relata Fernanda<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


108<br />

Ana Luísa gosta de manter seus cabelos lisos.<br />

que diz investir em shampoo, cremes e<br />

hidratantes específicos para manter os<br />

cabelos naturais com a aparência que<br />

deseja.<br />

A pesquisa intitulada “Brasileiras e<br />

os Cabelos”, realizada pelo Ibope, em<br />

parceria com a Unilever (2011) aponta,<br />

entre outros dados, que as mulheres<br />

gastam, em média, 35 minutos diários<br />

apenas cuidando dos fios. Foram ouvidas<br />

400 mulheres das classes A, B e C<br />

- nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro,<br />

Recife e Porto Alegre. E o resultado<br />

mostra que o cabelo é parte essencial<br />

no ritual de beleza da brasileira:<br />

37% das entrevistadas usam creme de<br />

pentear e de tratamento; 72% afirmam<br />

gostar de cuidar do cabelo; 74% acham<br />

que com o cabelo bonito se sentem<br />

confiantes e para 37% ir ao salão é<br />

uma necessidade.<br />

Influência da mídia<br />

A questão cultural é, muitas vezes,<br />

estimulada ou reforçada pela mídia.<br />

Em nov<strong>elas</strong> ou comerciais, que sempre<br />

ditam modas, o cabelo é mesmo algo<br />

muito destacado e valorizado. Para a<br />

NANCI ALVES<br />

psicóloga clínica e professora da PUC<br />

Minas, Ada Ferreira, moda significa<br />

seguir a tendência. “Agora é a vez dos<br />

cabelos lisos, mas se de uma hora para<br />

outra a mídia apresentar cabelos crespos<br />

como a sensação do momento, pode<br />

ser que pessoas que hoje tenham cabelos<br />

lisos, busquem modificá-lo para<br />

ficar na moda. Todas querem se sentir<br />

bem. Para a mulher, o cabelo representa<br />

a sensualidade, a feminilidade. Ter um<br />

cabelo bonito e bem cuidado é muito<br />

im<strong>por</strong>tante para a autoestima”, diz.<br />

Porém, na própria mídia que dita<br />

modas, a valorização do cabelo, às<br />

vezes, carrega uma discriminação contra<br />

quem está fora do padrão exigido. A<br />

professora Carolina dos Santos de Oliveira,<br />

em sua tese de mestrado, realizou<br />

uma análise crítica do discurso da<br />

revista adolescente Atrevida, enfocando<br />

a imagem de adolescentes negras na<br />

publicação. “Nos exemplares avaliados<br />

do período do recorte 2001 a 2005<br />

pode-se perceber uma incipiente inclusão<br />

das imagens de adolescentes negras,<br />

no entanto ainda no lugar de quem<br />

precisa ser moldado, modificado e domado,<br />

sendo o cabelo uma característica<br />

muito explorada, <strong>por</strong> ser um sinal diacrítico<br />

marcadamente racial”, afirma.<br />

Na sua avaliação, o Brasil precisa<br />

de iniciativas de educação libertária<br />

para amenizar essa bagagem da “boa<br />

aparência” imposta às mulheres. “A sociedade<br />

não pode alimentar essa indústria<br />

que causa sofrimentos e impõe<br />

uma doma ao corpo feminino e com<br />

mais imperatividade ao corpo feminino<br />

negro”. Porém, Carolina Oliveira acredita<br />

que a escola não pode ser a única<br />

responsabilizada <strong>por</strong> esta mudança.<br />

“Entendo a escola, da forma como ela<br />

se configura hoje, como uma reprodutora<br />

da sociedade, com pouco ou ne-<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


109<br />

nhum poder transformador, as próprias<br />

professoras e professores com suas<br />

próprias demandas, dúvidas, necessidades...<br />

penso que a carga de responsabilidade<br />

da escola <strong>por</strong> promover mudanças<br />

também precisa ser diminuída.<br />

Entendo a educação como algo maior<br />

que apenas a escolarização e as revistas<br />

como espaço educativo, assim como<br />

tantos outros como: igrejas, clubes, televisão,<br />

movimentos sociais, sindicatos,<br />

etc...”, acrescenta.<br />

Perda do cabelo<br />

O cabelo faz parte da nossa identidade<br />

e reflete, <strong>por</strong>tanto, nossas transformações<br />

internas. Assim, se estamos<br />

com problemas hormonais, emocionais<br />

ou de outra ordem, muitas vezes, o<br />

cabelo denuncia, podendo ficar mais<br />

seco, rebelde ou até sofrer quedas − o<br />

que causa, ainda, maior desconforto<br />

nas mulheres.<br />

De acordo com a psicóloga Ada<br />

Ferreira, perder o cabelo interfere na<br />

autoestima. Segundo ela, muitas mulheres<br />

podem desistir dos contatos so-<br />

ciais, familiares, profissionais ao enfrentarem<br />

as mudanças com a perda<br />

parcial ou total de cabelo ocasionada<br />

pela idade, <strong>por</strong> hereditariedade, <strong>por</strong><br />

um tratamento de saúde ou mesmo <strong>por</strong><br />

um tratamento de beleza”, afirma.<br />

A reação de cada mulher vai depender<br />

do que ela está vivendo e de<br />

como consegue enfrentar sua realidade.<br />

“Já atendi pacientes que estavam no<br />

pré-operatório de uma cirurgia neurológica<br />

e sofriam muito <strong>por</strong> pensar<br />

na possibilidade de acordar após a cirurgia<br />

e não ter mais o cabelo. Outras,<br />

<strong>por</strong> saberem da mudança, se preparam<br />

antes, cortando o cabelo bem curto ou<br />

até mesmo raspando a cabeça”, conta<br />

Ada Ferreira, que considera normal<br />

esse sofrimento.<br />

“Vivemos numa sociedade que cultua<br />

o cabelo como algo im<strong>por</strong>tante; a indústria<br />

de cosméticos lança a cada dia<br />

novos produtos e nós, consumidores,<br />

queremos estar na moda. Então, perder<br />

os cabelos é sinal também de impotência,<br />

ainda mais se a perda for ocasionada<br />

<strong>por</strong> um tratamento de saúde.<br />

Para enfrentar este problema, a mulher<br />

precisa trabalhar sua autoestima, buscando<br />

um su<strong>por</strong>te psicoterápico, lidando<br />

com as questões emocionais que podem<br />

surgir e conversando também com as<br />

pessoas que estão mais próximas. Claro<br />

que cada mulher vai enfrentar sua mudança<br />

de uma forma, não é possível<br />

esperar que todas enfrentem da mesma<br />

maneira. Mas, estar aberta para falar<br />

dos medos, angústias, anseios já é um<br />

caminho para o enfrentamento e a<br />

aceitação”, avalia.<br />

Foi o que fez S.M, de 43 anos, ao<br />

longo de um tratamento de quatro<br />

anos, à espera de uma transfusão de<br />

medula, feita recentemente, com sucesso.<br />

Segundo ela, foram várias as experiências<br />

vivenciadas, incluindo a queda<br />

de cabelo <strong>por</strong> duas vezes. “Raspei o cabelo<br />

antes que ele começasse a cair,<br />

pois é horrível a sensação. Tive momentos<br />

de não querer aparecer em público,<br />

outros de curtir o uso de chapéu,<br />

lenços variados e até andar com a<br />

careca de fora. Tudo dependia do meu<br />

humor no dia. Não foi fácil e posso<br />

dizer que além de buscar fortalecer a<br />

espiritualidade e a alimentação, a psicoterapia<br />

foi fundamental para me dar<br />

um su<strong>por</strong>te nesta fase,” conta.<br />

“Raspei o cabelo<br />

antes que ele<br />

começasse a cair,<br />

pois é horrível a<br />

sensação”<br />

LUCIANA CAPIBERIBE<br />

Rosinete Rodrigues, Maria do Socorro, Deputada Janete Capiberibe e Tereza<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


110<br />

ARQUIVO PESSOAL<br />

Ronizia corta seu cabelo para doar às vítimas de escalpelamento.<br />

Depois de dois anos fazendo a primeira<br />

fase de quimioterapia, seus<br />

cabelos nasceram brancos. “Tomei um<br />

susto, mas depois foi voltando ao normal.<br />

Teve uma fase muito engraçada,<br />

pois saía de peruca e via as pessoas<br />

com cabelos naturais iguais aos meus.<br />

Era a tal chapinha. Aí, vi que eu não<br />

estava tão estranha assim. Aliás, algumas<br />

vezes teve gente que me<br />

perguntou qual tinta eu usava nos<br />

meus cabelos. Eu me divertia com isso<br />

e acabei usando <strong>por</strong> um bom tempo,<br />

sem grilos, pois vi que o natural das<br />

mulheres era tão artificial quanto a<br />

minha peruca”, lembra.<br />

Solidariedade feminina<br />

Perder os cabelos de forma definitiva,<br />

<strong>por</strong> um acidente, é um trauma vivido<br />

<strong>por</strong> centenas de meninas e<br />

mulheres das regiões ribeirinhas da<br />

Amazônia. São as vítimas de escalpelamento,<br />

a perda do couro ca be -<br />

ludo, que acontece dentro de pequenas<br />

embarcações ribeirinhas. Estes barcos<br />

navegam com um eixo, que liga a hélice<br />

ao motor, exposto, sem proteção, facilitando,<br />

que em um movimento ines-<br />

perado, puxem os cabelos compridos.<br />

A forte rotação do motor arranca todo<br />

ou parte do couro cabeludo, inclusive<br />

sobrancelhas, orelhas e, dependendo<br />

do caso, grande parte da pele do rosto<br />

e do pescoço. Um grave pro ble -<br />

ma que causa deformações e, em alguns<br />

casos, até a morte. As principais<br />

vítimas são meninas e adolescentes, a<br />

maioria entre os 5 e os 16 anos, seguido<br />

de mulheres dos 17 aos 30 anos<br />

e, <strong>por</strong> último, acima de 31 anos.<br />

Uma das das vítimas, Rosinete Rodrigues,<br />

sofreu o acidente quando tinha<br />

20 anos, no Pará. Foram dois anos de<br />

cicatrização e muitas dificuldades para<br />

conviver com as pessoas, pois tinha inclusive<br />

vergonha. “Quem vive isso, passa<br />

a se isolar, com medo da discriminação<br />

e do preconceito”, afirma Rosinete que,<br />

ao longo do tempo, descobriu que poderia<br />

recorrer a políticas públicas. Assim,<br />

há mais de 10 anos, ela e um pequeno<br />

grupo de mulheres com a mesma história<br />

de vida começaram a buscar ajuda para<br />

todas. Nasceu, em 2007, a Associação<br />

de Mulheres Ribeirinhas Vítimas de Escalpelamento<br />

da Amazônia, que já conseguiu<br />

beneficiar 119 pessoas acidentadas.<br />

Rosinete já foi presidente da Associação,<br />

que oferece às mulheres apoio<br />

psicológico e profissional, dentro de<br />

um processo de ressocialização. Com<br />

apoio da Associação, me formarei, este<br />

ano, em Pedagogia. Ela oferece também<br />

cursos como corte e costura, artesanato<br />

e produção de perucas como incentivo<br />

à geração de renda e à nossa independência<br />

econômica", conta. Segundo Rosinete,<br />

os cabelos recebidos de doações<br />

viram perucas não só para as vítimas<br />

de escalpelamento, mas também para<br />

mulheres em tratamento de câncer.<br />

A antropóloga Maria Ronízia Gonçalves,<br />

de Rio Branco (AC), deixou<br />

seus cabelos crescerem <strong>por</strong> um ano<br />

para fazer a doação, após se inteirar<br />

dessa realidade. “Fiquei impressionada<br />

com a história que ouvi. Pesquisei na<br />

internet, li várias matérias sobre o assunto<br />

e vi o sofrimento e a reação<br />

dessas mulheres, se organizando e superando<br />

suas dificuldades. Deixei meu<br />

cabelo crescer e, quando tive a o<strong>por</strong>tunidade<br />

de ir à Macapá, a trabalho,<br />

fiz a doação em um salão que faz este<br />

trabalho voluntariamente. Fiquei feliz<br />

<strong>por</strong> perceber que há uma mobilização<br />

da sociedade local em torno da questão",<br />

conta Ronízia Gonçalves que incentivou<br />

outras pessoas, <strong>por</strong> meio das redes<br />

sociais.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


111<br />

Reconhecendo que nunca teve muito<br />

apego ao cabelo, <strong>por</strong>que sabe que<br />

cresce de novo, Ronízia imagina que se<br />

o perdesse sentiria muita falta. “Acredito<br />

que também teria vergonha de sair de<br />

casa, pois sei que o cabelo é um<br />

símbolo da vaidade feminina. Então,<br />

colocando-me no lugar das mulheres<br />

que perdem, de forma tão violenta, o<br />

couro cabeludo. Me doeu na alma só de<br />

imaginar o sofrimento d<strong>elas</strong>”, relata.<br />

O que chamou a atenção de Ronízia<br />

Gonçalves foi o fato das mulheres se<br />

organizarem e, a partir de algo<br />

ruim, construirem uma nova realidade<br />

para <strong>elas</strong> e suas famílias. “<strong>Elas</strong> não<br />

permaneceram como vítimas, <strong>elas</strong> reagiram!<br />

Muitas d<strong>elas</strong> ganharam novas<br />

profissões, superaram o trauma, fizeram<br />

cirurgias reparadoras da face, conseguiram<br />

leis que tratam da questão. Enfim,<br />

tudo isso me motivou a doar os<br />

meus cabelos”, diz.<br />

O pedido de solidariedade que chegou<br />

aos ouvidos e ao coração da antropóloga<br />

de Rio Branco saiu de<br />

Brasília, na voz da jornalista Mara Régia<br />

Di Perna(foto), que há 34 anos é responsável<br />

pelo Viva Maria, programa<br />

pioneiro na mobilização das mulheres<br />

na luta <strong>por</strong> seus direitos, e, há mais de<br />

20 anos, navega os rios da Amazônia<br />

nas ondas da rádio Nacional com o Programa<br />

Natureza Viva. “Minha militância<br />

<strong>por</strong> essa causa começou em 2007,<br />

quando fiz matéria sobre uma mobilização<br />

no Congresso Nacional, em prol<br />

da lei que a deputada Janete Capiberibe<br />

(PSB/AP) estava querendo aprovar<br />

para evitar que os acidentes continuassem<br />

vitimando o povo das águas. Felizmente,<br />

hoje, a lei 11970/2009, que<br />

obriga a instalação de uma proteção<br />

sobre o eixo, o motor e as partes móveis<br />

das embarcações, é uma realidade.<br />

Mas, como apenas a lei não conseguiu<br />

impedir que novos acidentes continuassem<br />

acontecendo, <strong>por</strong> ocasião do primeiro<br />

mutirão de cirurgias reparadoras<br />

que aconteceu, em 2012, em Macapá,<br />

resolvemos criar uma campanha de mobilização<br />

em torno do apoio às vítimas<br />

que precisavam não só de cabelos para<br />

a produção de perucas, mas também de<br />

máquinas de costura capazes de dar<br />

conta do trabalho”, conta.<br />

Segundo Mara Régia, a resposta<br />

diante da campanha vem de todos os<br />

cantos e o rádio tem sido fundamental,<br />

pois consegue alcançar as pessoas que<br />

se encontram em situação de isolamento.<br />

“Sempre recebemos doações<br />

de cabelos. O trabalho da cabeleireira<br />

Maria Vanilza, que tem um salão de<br />

beleza no Guará, cidade de Brasília, e<br />

faz os cortes de graça quando o objetivo<br />

é doar os cabelos para as vítimas do<br />

acidente, também tem ajudado muito.<br />

Em dezembro, estive em Macapá para<br />

a entrega de uma mecha de cabelos<br />

de um metro e meio de comprimento<br />

doada <strong>por</strong> uma jovem de 14 anos que<br />

nunca havia cortado os cabelos. Sem<br />

dúvida, o caso dessa “Rapunzel” e´ o<br />

maior indicador de sucesso de nossa<br />

campanha”, afirma.<br />

Para a jornalista, “como as digitais,<br />

o cabelo é traço de identidade e, ao<br />

mesmo tempo, traduz, melhor do que<br />

as palavras, nosso jeito de ser e nossa<br />

personalidade. Por isso, tem uma relação<br />

tão direta com a nossa autoestima.<br />

Sem falar da festa que faz no nosso<br />

imaginário, desde os tempos de Sansão<br />

e Dalila. Arriscaria dizer que ele é o espelho<br />

da alma da gente. Tanto assim<br />

que, em prosa e verso, se faz presente<br />

na nossa MPB como um tema recorrente”,<br />

completa Mara Régia.ø<br />

AGÊNCIA BRASIL<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


112


113<br />

PERFIL<br />

POR POLLYANA BITENCOURT<br />

foto MARK FLOREST<br />

Dora Alves<br />

Uma vida dedicada a elevar a autoestima através dos cabelos<br />

“Não abra mão dos seus sonhos,<br />

eles podem se tornar realidade, é só a<br />

gente ter persistência e determinação”,<br />

recomenda a cabeleireira Dora Alves.<br />

É com um brilho de esperança nos<br />

olhos e uma crença de que tudo é possível,<br />

que ela conta a sua história, enquanto<br />

arruma o seu salão-escola, no<br />

bairro Maria Goretti, em Belo Horizonte.<br />

Nascida na periferia da capital mineira,<br />

ela aprendeu desde pequena a<br />

lidar com as adversidades da pobreza.<br />

O pai morreu quando ela tinha apenas<br />

oito anos. A mãe saía para trabalhar e<br />

como filha mais velha, cuidava dos<br />

quatro irmãos. “Eu tenho uma origem<br />

humilde, cresci numa favela lá no bairro<br />

1º de Maio, perto da Praça Troca<br />

Égua, um lugar sofrido demais da conta,<br />

mas dentro de mim, sempre tive o desejo<br />

de mudar o rumo da minha história”,<br />

conta.<br />

Atualmente, Dora tem uma vida dedicada<br />

ao seu salão de beleza, especializado<br />

em cabelos afro e também coordena<br />

um projeto onde ensina pessoas<br />

carentes a profissão de cabeleireiro/a.<br />

Os primeiros passos na profissão<br />

foram ensinados pela mãe. “Foi ela<br />

quem me ensinou a fazer as tranças,<br />

os topetes e penteados no nosso cabelo’,<br />

conta. Uma experiência marcante<br />

aos oito anos determinou seu futuro.<br />

“Eu passei pasta [creme alisante à base<br />

de soda cáustica] no meu cabelo e ele<br />

caiu. Toda negra sonha em balançar o<br />

cabelo e eu não tinha consciência da<br />

minha negritude ainda”, justifica. A<br />

partir daí, ela começou as suas pesquisas<br />

sobre cremes para deixar os cabelos<br />

bonitos. “Eu ia lá no fundo do quintal,<br />

apanhava ora pro nobis, folha de abacate,<br />

entre outras experiências para<br />

tornar mais prático o cuidado com o<br />

cabelo”, diz.<br />

Todo o conhecimento adquirido<br />

hoje é fruto dessas pesquisas. Autodidata,<br />

ela aprendeu na prática e hoje<br />

tem até uma linha de produtos de<br />

beleza que leva o seu nome. “Eu fazia<br />

teste no meu cabelo e no dos meus filhos,<br />

depois passei para os vizinhos e<br />

comecei a ficar conhecida no bairro”,<br />

descreve.<br />

Aos 11 anos, ela conheceu aquele<br />

que viria a ser o pai de seus filhos. Casou-se<br />

aos 16 e teve seus dois filhos,<br />

que foram criados dentro do salão de<br />

beleza. “A minha filha quis aprender a<br />

profissão muito novinha, o meu filho<br />

também aprendeu e aí eles saíam comigo<br />

para ensinar o ofício nas escolas, nos<br />

abrigos e nos morros da cidade”, conta.<br />

Solidariedade<br />

O trabalho social sempre fez parte<br />

da vida de Dora, uma mulher forte e<br />

destemida, que possui um jeito único<br />

de lidar com as pessoas ao seu redor.<br />

Foi ela quem deu o primeiro emprego<br />

para vários meninos e meninas na primeira<br />

banca de revistas que existiu em<br />

sua região. Junto com o marido ela<br />

também abriu uma mercearia, mas o<br />

negócio não deu certo. “Quebrei de<br />

primeira <strong>por</strong>que quando chegavam<br />

pessoas necessitadas, meu coração partia<br />

e eu deixava a pessoa levar sem pagar”,<br />

afirma.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


114<br />

Esse desejo em ajudar tornou-se<br />

mais concreto, quando ela, em 2007,<br />

fundou a Associação Projeto Meninas<br />

de Dora. A iniciativa é fruto do trabalho<br />

voluntário feito <strong>por</strong> ela há mais de<br />

40 anos. “Eu fui sonhando e não abri<br />

mão do meu sonho, foi acontecendo...”,<br />

emociona-se ao contar. O<br />

“Meninas de Dora”, como é conhecido,<br />

prepara jovens e adultos para<br />

exercerem a sua condição de sujeito,<br />

gerando renda a partir do seu trabalho.<br />

São ofertados cursos de cabeleireiro,<br />

oficinas para o cabelo afro, cursos de<br />

cosméticos e outros. Sempre com o<br />

objetivo de elevar a autoestima dessas<br />

pessoas, para que <strong>elas</strong> acreditem no<br />

potencial de construir uma vida de<br />

sucesso.<br />

Reconhecimento<br />

Em 2012, o trabalho dela foi reconhecido<br />

nacionalmente. O projeto foi<br />

eleito a melhor ação social do estado<br />

de Minas Gerais e concorreu à melhor<br />

do Brasil. Dora acredita que, assim<br />

como ela mudou o rumo de sua vida,<br />

ela tem a missão de mudar o destino<br />

de vários meninos e meninas que cruzam<br />

o seu caminho. “Acredito que,<br />

assim como eu, uma mulher negra de<br />

origem humilde que construiu uma história<br />

de vitórias, qualquer um também<br />

pode alcançar seus sonhos”.<br />

Mas nem tudo são flores na vida<br />

desta guerreira. Para poder manter o<br />

projeto social, ela conta, não só com a<br />

renda do salão, mas também com a<br />

ajuda de amigos e pessoas solidárias.<br />

“Já fiz pirulito pra vender, trabalhei<br />

em casa de família, é preciso muito esforço<br />

pra gente poder manter essa trajetória”,<br />

esclarece.<br />

Apesar de toda a ajuda que recebe,<br />

ela acredita que o projeto precisa de<br />

um movimento para obter mais recursos<br />

e poder atender mais gente. Atualmente<br />

mais de 300 pessoas estão inscritas<br />

para os cursos, mas o espaço físico<br />

atual só permite que 10 pessoas tenham<br />

aulas, com isso eles trabalham apenas<br />

com cinco turmas. A iniciativa espera<br />

conseguir um espaço maior, onde eles<br />

possam ampliar as turmas e atender a<br />

todos. A dedicação ao projeto e a vontade<br />

de ensinar é tanta que, apesar<br />

das dificuldades enfrentadas, Dora não<br />

pensa em desistir.<br />

Grande incentivadora da cultura negra,<br />

além do trabalho no projeto, Dora<br />

também visita escolas e faz palestras.<br />

A iniciativa nas instituições de ensino<br />

começou antes mesmo da Lei 10.639,<br />

que decretou a obrigatoriedade do ensino<br />

da Cultura Afro-Brasileira no<br />

ensino fundamental e médio. “Hoje,<br />

eu vou às escolas e falo com os meninos<br />

‘vocês têm computador, livros, material<br />

e tudo que precisam, então, respeitem<br />

os professores’. Para ela, o trabalho<br />

dos/as professores/as é fundamental<br />

para a formação das pessoas. “Eu<br />

acho que a classe teria que ser mais<br />

bem paga, <strong>por</strong>que o médico, o cabeleireiro,<br />

o advogado, todos dependem<br />

do professor”, acredita.<br />

“Eu acho que a<br />

mulher tem que ser<br />

livre, se ela quer ter<br />

cabelo black, ótimo,<br />

agora se quer um<br />

cabelo liso, que<br />

tenha”.<br />

Ela comemora os resultados positivos<br />

do seu trabalho. “Eu converso<br />

muito com os meninos. Eu tenho<br />

resultados bacanas de trabalhos que a<br />

gente desenvolve nas escolas e, a partir<br />

daquele momento, os jovens<br />

mudam de postura”.<br />

Incentivadora da cultura afro, Dora<br />

acredita na liberdade da mulher em<br />

escolher o cabelo que quer ter. “Eu<br />

acho que a mulher tem que ser livre, se<br />

ela quer ter cabelo black, ótimo, agora,<br />

se quer um cabelo liso, que tenha um<br />

cabelo assim <strong>por</strong> opção e não <strong>por</strong><br />

obrigação”.<br />

Referência como cabeleireira em<br />

Belo Horizonte e no país, Dora já fez<br />

o cabelo da atriz Débora Falabella no<br />

espetáculo Noites Brancas. Trabalhou<br />

também na produção dos atores do filme<br />

Pequenas Histórias, que teve a<br />

participação da atriz Patrícia Pillar,<br />

além dos filmes Batismo de Sangue e<br />

Uma onda no ar.<br />

Hoje ela tem um quadro permanente<br />

no Memorial de Minas do Vale, na<br />

Praça da Liberdade. Foi eleita cidadã<br />

do mundo em 2010, escolhida entre<br />

as cinco melhores cabeleireiras de<br />

Minas na Feira Mineira da Beleza em<br />

1999 e coleciona prêmios e homenagens<br />

<strong>por</strong> todo o país.<br />

Contudo, para Dora, o seu maior<br />

reconhecimento vem dos meninos e<br />

meninas que ela ajuda. “Eu fico muito<br />

emocionada, patrimônio pra mim é<br />

isso, quando ouço ‘eu quero ser igual<br />

a você, aprender a profissão, ter um<br />

cabelo igual ao seu’, então isso pra<br />

mim é fantástico”, declara.<br />

Hoje, aos 60 anos de idade, Dora<br />

diz que quer projetar uma nova fase<br />

em sua vida. “Quero começar um novo<br />

capítulo na minha história. Sou a menina<br />

negra que sonhei ser”, conclui.ø<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


115<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


INTERNET


117<br />

LITERATURA<br />

<strong>por</strong> DÉBORA JUNQUEIRA<br />

Uma idealista do lixo<br />

A obra de Carolina Maria de Jesus revela a condição e força<br />

das mulheres negras relegadas <strong>por</strong> uma sociedade elitista<br />

Quando fazia uma re<strong>por</strong>tagem na<br />

favela Canindé, que havia em São Paulo,<br />

na década de 50, o jornalista Audálio<br />

Dantas se deparou com textos de uma<br />

catadora de papel e não teve dúvida<br />

de que aqueles manuscritos precisavam<br />

ser conhecidos. O texto escrito em<br />

letra de forma em cadernos reutilizados,<br />

era a obra Quarto de Despejo – Diário<br />

de uma favelada, da escritora Carolina<br />

Maria de Jesus. Mesmo tendo escrito<br />

um best seller traduzido em 13 idiomas,<br />

além de outras obras, a escritora ainda<br />

é pouco (re)conhecida.<br />

“Nem escritor transfigurador poderia<br />

arrancar tanta beleza triste daquela miséria<br />

toda. Nem repórter de exatidão<br />

poderia retratar tudo aquilo no seco<br />

escrever. Foi <strong>por</strong> isso que eu disse<br />

assim para Carolina Maria de Jesus, lá<br />

mesmo, na horinha que lia trechos de<br />

seu diário: eu prometo que tudo isto<br />

que você escreveu sairá num livro”,<br />

escreveu Audálio Dantas, na apresentação<br />

de Quarto de despejo, de 1960.<br />

Segundo ele, não foi preciso ler mais<br />

de três folhas para ver que havia en-<br />

contrado algo de muito valor. Por dois<br />

anos, acompanhou Carolina na edição<br />

de seus livros e guarda em casa alguns<br />

de seus cadernos, para quem ainda<br />

duvide da autoria.<br />

Mineira de Sacramento, negra e<br />

semianalfabeta, Carolina de Jesus mudou-se<br />

para São Paulo aos 17 anos.<br />

Foi empregada doméstica, teve três filhos,<br />

mas manteve-se solteira. Quando<br />

foi descoberta como escritora, em<br />

1958, tinha 43 anos. Morreu pobre e<br />

praticamente esquecida, em 1977. Em<br />

14 de março de 2014 foi comemorado<br />

o seu centenário de vida.<br />

“Nem escritor<br />

transfigurador<br />

poderia arrancar<br />

tanta beleza triste<br />

daquela miséria<br />

toda”.<br />

“A experiência e a vivência da autora<br />

como mulher, negra e favelada é revelada<br />

todo o tempo em seus textos: o racismo<br />

que sofria e via outros sofrerem; a condição<br />

de mulher e pobre, mãe solteira<br />

de três filhos, que sempre era relegada<br />

pela sociedade machista e elitista da<br />

época e de ainda hoje”, opina a professora<br />

Aline Arruda, pesquisadora da Universidade<br />

Federal de Minas Gerais. (Leia<br />

a entrevista).<br />

Em cadernos encontrados no lixo,<br />

ela relatava seu cotidiano. Além de<br />

Quarto de Despejo, a autora publicou<br />

Casa de Alvenaria, Pedaços de Fome<br />

e Provérbios. Postumamente, em 1982,<br />

foi lançado na França, Diário de Bitita,<br />

que chegou ao Brasil em 1986, e ainda<br />

há manuscritos inéditos na Biblioteca<br />

Nacional, no Rio de Janeiro, um tesouro<br />

para a literatura e pesquisadores. Muitos<br />

deles precisam de restauração, para<br />

que essa vasta obra desconhecida não<br />

se perca. A obra completa de Carolina<br />

está em 58 cadernos que somam 5.000<br />

páginas de texto, sendo sete romances,<br />

60 textos curtos e 100 poemas, além<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


118<br />

de quatro peças de teatro e de 12 letras<br />

para marchas de Carnaval.<br />

Raffaela Andréa Fernandez desenvolve<br />

uma pesquisa de doutorado na<br />

Unicamp com base nos manuscritos de<br />

Carolina. Segundo ela, a história da<br />

autora representa milhares de mulheres<br />

negras, faveladas, mães solteiras, que<br />

ainda encontram poesia no dia a dia.<br />

Em entrevista concedida à revista Caros<br />

Amigos (nº 206-2014) ela avalia que<br />

Carolina de Jesus revela uma outra história,<br />

‘a história menor’ que precisa<br />

ouvida. “Os problemas sociais delineados<br />

<strong>por</strong> Carolina estão na sua temática, na<br />

materialidade do papel escrito de seus<br />

cadernos reutilizados, encardidos, tirados<br />

das latas de lixo, a escrita ‘deficiente’<br />

que não corresponde aos intentos da<br />

gramática institucional de uma sociedade<br />

que não lhe deu a o<strong>por</strong>tunidade de<br />

avançar e, mesmo com todas essas defasagens,<br />

essa grande autora nos mostra<br />

que aquele que se inquieta diante das<br />

‘atrocidades sociais’ jamais se manterá<br />

calado”, afirma.<br />

A pesquisadora em literatura, Estela<br />

Santos, faz uma crítica sobre a escritora,<br />

em artigo publicado no blog Homo Literatus<br />

(www.homoliteratus.com). “Alguns<br />

escritores já escreveram sobre o<br />

cotidiano miserável das fav<strong>elas</strong>, mas a<br />

grande maioria o fez de uma perspectiva<br />

de fora, isto é, sem viver, de fato em<br />

uma favela. Em Quarto de Despejo temos<br />

uma perspectiva diferente: quem<br />

escreve é alguém que viveu na favela: a<br />

perspectiva é de Carolina Maria de<br />

Jesus, moradora da, agora, antiga favela<br />

do Canindé de São Paulo, uma catadora<br />

de papel e de outras sucatas, uma<br />

mulher negra, pobre, mãe, escritora e<br />

favelada”.<br />

Segundo ela, “o diário de Carolina é<br />

uma espécie de literatura-verdade, que<br />

Manuscritos inéditos da escritora encontram-se na<br />

Biblioteca Naciona, no Rio de Janeiro.<br />

relata a cruel e triste vida na favela. Sua<br />

linguagem é, ao mesmo tempo, simples<br />

e rebuscada: simples pela forma que escreveu<br />

algumas palavras, aproximandose<br />

da linguagem oral (como ‘iducada’) e<br />

rebuscada p<strong>elas</strong> palavras altamente cultas<br />

que utiliza (como ‘funestas’). Seu diário<br />

comove leitores devido a sensibilidade<br />

como conta os acontecimentos durante<br />

os anos que morou em Canindé. Percebemos<br />

que tudo que é narrado, Carolina<br />

sentiu, viu, vivenciou”.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


119<br />

ENTREVISTA<br />

ALINE ARRUDA<br />

Pesquisadora<br />

acredita que<br />

Carolina tinha um<br />

projeto literário<br />

A professora do Instituto Federal<br />

Sul de Minas Gerais (IFSULDEMINAS)<br />

Aline Arruda, doutoranda em Literatura<br />

Brasileira na Faculdade de Letras da<br />

Universidade Federal de Minas Gerais<br />

(UFMG), desenvolve estudos sobre Carolina<br />

Maria de Jesus e prepara uma<br />

edição comentada de um romance inédito<br />

dela. Ela acredita que, pelo fato<br />

de ter escrito obras de vários gêneros,<br />

a escritora tinha um projeto literário, é<br />

o que a sua tese vai tentar provar.<br />

Como você despertou interesse<br />

em estudar os escritos de Carolina?<br />

Eu já havia lido o livro dela mais famoso,<br />

Quarto de Despejo, quando<br />

ainda era adolescente e fiquei muito<br />

impressionada com ele, com a história<br />

de Carolina, com os relatos descritos<br />

POLLYANA BITENCOURT<br />

em seu diário. Depois, no mestrado,<br />

comecei a me interessar <strong>por</strong> escritoras<br />

negras, estudei uma contem<strong>por</strong>ânea<br />

de Carolina, Conceição Evaristo, também<br />

mineira, que sempre me disse ser<br />

influenciada pela escritora de Sacramento.<br />

Dessa forma retomei meus estudos<br />

sobre ela no final do mestrado e<br />

ao descobrir seus inéditos, na Biblioteca<br />

Nacional, decidi fazer meu projeto de<br />

doutorado sobre ela.<br />

Porque ela ainda é pouco estudada<br />

na academia? Qual crítica predomina<br />

sobre sua obra?<br />

Apesar da abertura acadêmica sobre<br />

as obras de autores ditos “marginais”<br />

ou pertencentes à chamada “minoria”,<br />

ainda há muito preconceito sobre eles.<br />

No caso de Carolina, ela estudou menos<br />

de dois anos na escola, morava em<br />

uma favela, era mulher negra, ou seja,<br />

reúne várias condições “marginais” e<br />

<strong>por</strong> isso muitos não acreditam que o<br />

que ela escreveu é literatura. Valorizam<br />

apenas o que chamamos na academia<br />

de cânone literário, autores clássicos.<br />

E desde que Quarto de Despejo foi<br />

publicado, em 1960, há quem duvide<br />

que foi Carolina de Jesus quem o escreveu,<br />

muitos disseram na época e<br />

mesmo depois, mais recentemente,<br />

que o jornalista Audálio Dantas, considerado<br />

o “descobridor” dela, havia escrito<br />

o diário, o que é uma calúnia,<br />

uma bobagem, pois os manuscritos estão<br />

aí para quem quiser comprovar. É<br />

realmente inesperado que alguém como<br />

Carolina faça literatura e publique livros.<br />

Como o fato de ela ser mulher,<br />

negra e favelada reflete em sua obra?<br />

No caso dos diários e da autobiografia,<br />

esses aspectos estão entranhados,<br />

a experiência e a vivência da autora<br />

como mulher, negra e favelada é revelada<br />

todo o tempo em seus textos: o<br />

racismo que sofria e via outros sofrerem;<br />

a condição de mulher e pobre, mãe<br />

solteira de três filhos, que sempre era<br />

relegada pela sociedade machista e elitista<br />

da época e de ainda hoje. Tudo<br />

isso foi relatado em seus diários e<br />

textos autobiográficos.<br />

Porque o primeiro livro Quarto<br />

de Despejo vendeu mais de um milhão<br />

de cópias em todo o mundo, enquanto<br />

o segundo chegou apenas a 10 mil<br />

exemplares? Houve um sensacionalismo<br />

em função da sua origem?<br />

Há muitas respostas possíveis para<br />

esse esquecimento da autora. Acredito<br />

que houve sim um sensacionalismo em<br />

torno da “favelada que escreveu um<br />

diário”, mas também uma curiosidade<br />

em torno de um livro que conta o dia a<br />

dia da favela “de dentro”, de um ponto<br />

de vista interno. Houve uma reação<br />

impertinente da imprensa da época<br />

também e talvez a inocência e a inexperiência<br />

de Carolina diante do sucesso<br />

súbito, além de sua postura, pessoal e<br />

na escrita, crítica e franca, que certamente<br />

não agradou a muitos, especialmente<br />

no contexto político da época.<br />

Qual o fato da vida dela ou de<br />

sua obra chama mais sua atenção?<br />

Muitos fatos me chamam a atenção,<br />

mas principalmente o de que uma mulher<br />

com origem humilde e uma vida<br />

tão difícil tenha escrito uma obra extensa<br />

que abrange vários gêneros como<br />

diário, teatro, romance, conto, poesia,<br />

provérbios, autobiografia... é admirável<br />

a dedicação e a consciência que ela tinha.<br />

Além de escritora, era dançarina<br />

e compositora, seus sambas também<br />

refletem sua vida.<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


120<br />

Memórias do<br />

jornalista Audálio<br />

Dantas<br />

Para o jornalista Audálio Dantas, a<br />

catadora Carolina sempre quis ser descoberta<br />

e reconhecida como uma escritora.<br />

Ele acredita que, no primeiro<br />

contato, ela imaginava que ele era um<br />

repórter e queria chamar atenção.<br />

“Quando estava na favela Canindé<br />

para cobrir a inauguração de um playground,<br />

me deparei com uma mulher<br />

gritando para os adultos que usavam<br />

os brinquedos, dizendo que ia colocar<br />

o nome deles em seu livro. A minha<br />

curiosidade de repórter fez com que<br />

eu fosse até a casa dela e visse o seu<br />

diário iniciado em 1955. Era uma descrição<br />

muito forte e verdadeira. Nenhum<br />

repórter conseguiria escrever como<br />

quem vivencia aquela situação de pobreza,<br />

de dentro pra fora”, conta.<br />

O jornalista propôs que o jornal publicasse<br />

alguns trechos do manuscrito<br />

que ele selecionou sem mexer na forma,<br />

somente fazendo uma introdução. “Essa<br />

foi a re<strong>por</strong>tagem mais im<strong>por</strong>tante da<br />

minha vida, afirma. Mais tarde ele descobriu<br />

que, antes de encontrar-se com<br />

Carolina, no próprio jornal Folha de S.<br />

Paulo onde trabalhava, havia uma pequena<br />

matéria sobre ela, intitulada poetiza<br />

negra. “Parece que aqu<strong>elas</strong> poucas linhas<br />

haviam sido publicadas para o repórter<br />

se livrar da insistência dela para a publicação<br />

de suas poesias”, relembra.<br />

Juntamente com o sucesso da publicação,<br />

vieram também as críticas.<br />

“Ela tinha vocação, lia muito. Sendo<br />

semianalfabeta – estudou somente dois<br />

anos – assimilava as coisas do jeito<br />

dela. Dona de uma personalidade forte,<br />

sabia que tinha valor”, revela. Segundo<br />

Audálio, Carolina se considerava uma<br />

escritora, mas não possuía o instrumental<br />

cultural para escrever dentro<br />

das normas e isso gerava críticas.<br />

Segundo ele, a escritora faleceu<br />

frustrada pelo sucesso de seu primeiro<br />

livro não ter se repetido nos demais.<br />

“Sua personalidade difícil, diferenciada<br />

e excepcional criava certos problemas<br />

pra ela. O que também me impediu de<br />

ajudá-la mais”, desabafa o jornalista,<br />

hoje com 82 anos.<br />

INTERNET<br />

<strong>Revista</strong> <strong>Elas</strong> <strong>por</strong> <strong>Elas</strong> - Abril <strong>2015</strong>


121<br />

“… As oito e meia da noite<br />

eu ja estava na favela<br />

respirando o odor dos<br />

excrementos que mescla<br />

com o barro podre. Quando<br />

estou na cidade tenho a<br />

impressão que estou na<br />

sala de visita com seus<br />

lustres de cristais, seus<br />

tapetes de viludos,<br />

almofadas de sitim. E<br />

quando estou na favela<br />

tenha a impressão que sou<br />

um objeto fora do uso,<br />

digno de estar num quarto<br />

de despejo”. (Quarto de<br />

Despejo, 2007, p.38).<br />

"O livro... me fascina.<br />

Eu fui criada no mundo.<br />

Sem orientação materna.<br />

Mas os livros guiou os meus<br />

pensamentos. Evitando os<br />

abismos que encontramos<br />

na vida. Bendita as horas<br />

que passei lendo. Cheguei a<br />

conclusão que é o pobre<br />

quem deve ler. Porque o<br />

livro, é a bussola que ha de<br />

orientar o homem no <strong>por</strong>vir<br />

(...)" (Meu estranho diário,<br />

1996, p. 167).<br />

"O homem que cultiva o ódio<br />

racial é um imbecil" – (Provérbios.<br />

São Paulo: Editor Áquila,<br />

1963).<br />

Trechos de obras da escritora<br />

Carolina de Jesus<br />

Comentários<br />

críticos sobre obras<br />

de Carolina<br />

Fugindo aos cânones do que se considera<br />

“literatura” em meios acadêmicos,<br />

Quarto de Despejo é mais do que um<br />

simples depoimento; trata-se de uma<br />

obra em que, a despeito das condições<br />

materiais e culturais de sua autora, constrói-se<br />

uma forte e única representação<br />

da dinâmica social urbana, vista pelo<br />

ângulo dos que são lançados à margem.<br />

Carolina Maria de Jesus escreve para<br />

denunciar a favela e para sair dela; escreve<br />

também para, diferenciando-se<br />

dos outros moradores, lutar contra o<br />

rebaixamento a que estão sujeitos os<br />

miseráveis, num momento em que se<br />

anuncia novo salto modernizador de<br />

São Paulo e do Brasil.<br />

Em Casa de Alvenaria, notam-se<br />

mais explicitamente as contradições da<br />

autora quanto ao que deseja para si<br />

mesma e para sua família. Também<br />

ficam patentes suas hesitações com relação<br />

aos anseios <strong>por</strong> reconhecimento<br />

público ou ao repúdio pelos mecanismos<br />

sociais que dificultam o trajeto<br />

profissional como escritora. Essa conjunção,<br />

<strong>por</strong> vezes discrepante, ajuda a<br />

entender as razões p<strong>elas</strong> quais essa<br />

obra é considerada pouco significativa<br />

e muito voltada para o trajeto instável<br />

de um indivíduo. Confinada à forma do<br />

diário, Carolina Maria de Jesus parece<br />

se sentir compelida a repetir uma fórmula,<br />

cujo efeito não tem a força de revelação<br />

de Quarto de Despejo. A<br />

figura da ex-favelada não desperta interesse,<br />

<strong>por</strong>que ela e sua obra são objeto<br />

de atenção apenas enquanto<br />

revelam a face negativa do desenvolvimentismo;<br />

já as oscilações ideológicas<br />

da mulher que, famosa, busca a atenção<br />

da imprensa e do público não trazem<br />

à época elementos que se julguem<br />

significativos.<br />

Diário de Bitita, publicado após<br />

a morte da autora, resgata a força literária<br />

da produção de Carolina Maria<br />

de Jesus. Trata-se de memórias da infância<br />

e da adolescência, em Sacramento<br />

e nas fazendas onde trabalha<br />

como colona, bem como de seus primeiros<br />

tempos em Franca. Nesta obra,<br />

os temas da injustiça social, da opressão,<br />

do preconceito contra os negros, dos<br />

abusos dos poderosos são apresentados<br />

a partir da perspectiva daquela que os<br />

viveu. Apesar de suas condições materiais,<br />

Carolina Maria de Jesus lutou<br />

para conquistar dignidade e para se<br />

constituir como alguém que resiste à<br />

exploração e à desumanização. A obra<br />

testemunha a história dessa luta e da<br />

opressão a que estão confinados os<br />

pobres no Brasil das primeiras cinco<br />

décadas do século XX.ø<br />

Fonte: Enciclopédia de Literatura/Itau Cultural,<br />

citado <strong>por</strong> FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção