Revista Elas por elas 2015

sinpro

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

Ciganas

Entre o mito e

a realidade

SER MÃE

Mães em restrição de liberdade

POLÍTICA

Longe das cotas de gênero


3

Elas por elas mesmas

Em sua oitava edição, a revista Elas

por Elas traz muitas histórias de mulheres

que vivem realidades diversas.

São ciganas, circenses, escritoras, sindicalistas,

cabeleireiras, professoras,

políticas, quadrinistas, presidiárias, feministas,

etc. Não importa quais papéis

exerçam na vida ou na sociedade, são

mulheres de fibra que enfrentam o desafio

de lutar contra o machismo, a

violência e a discriminação.

Elas por elas mesmas descrevem a

dor e a delícia de serem mulheres. E

assim, como numa colcha de retalhos

multicolorida, essas diferentes vivências

nos trazem encantamento e importantes

reflexões sobre o universo feminino.

Cabelo, imagem, maternidade, sexualidade,

educação, violência, seja qual

for o tema abordado, em todas as reportagens

há sempre uma personagem

guerreira. Uma mulher que superou

desafios, que foi à luta, que não esmorece

diante de uma sociedade que dá

passos lentos em direção à igualdade

de gênero.

Ser mãe em situação adversa é um

dos destaques dessa edição. Falamos

das mães que vivem nas ruas e convivem

com as drogas, das que são impedidas

de parir em sua própria cidade, das

que sofrem restrição de liberdade e

são obrigadas a se separar de seus

filhos, assim como daquelas que tornam

suas as crianças que outras mães não

puderam cuidar. São mulheres de coragem

e mães por vocação.

A revista traz a triste realidade das

mulheres em situação de abandono

nas ruas, assim como aborda o mundo

controverso das ciganas e das mulheres

que vivem no circo. Também debatemos

sobre a participação das mulheres no

sindicalismo e na política, um universo

onde as mulheres driblam o machismo

e sonham em ocupar cada vez mais

espaços de poder.

O feminismo também é evidenciado

por uma nova geração de mulheres na

América Latina que, a exemplo das lutadoras

do passado pela emancipação

feminina, são aguerridas e fazem a

gente acreditar que o futuro pode ser

diferente. A propósito, esse ano faz

20 anos que feministas de todo o mundo

se encontraram em Pequim para a

conferência da ONU que estabeleceu

uma plataforma de ações pela igualdade

de gênero. Nesse cenário, a violência

ainda é um dos maiores desafios a

serem enfrentados. A notícia boa é

que no Brasil a Lei Maria da Penha reduziu

em 10% os homicídios contra as

mulheres e o feminicídio se tornou

crime hediondo.

Com cada vez mais exemplos de

autoestima, beleza, raça e cultura, as

mulheres negras têm seu espaço

garantido na revista, pois suas bandeiras

são de todos/as que lutam por uma

sociedade mais justa e igualitária. Também

estamos de olho na aplicação da

lei 10.639, que determina o ensino de

história e cultura afro-brasileira e africana

em todas as escolas do país, e

recomendamos a leitura da entrevista

com a professora Mara Evaristo. Na

literatura, a história imperdível é a da

catadora de papel que virou escritora

com repercussão internacional. Carolina

de Jesus foi uma idealista que,

mesmo diante do preconceito por ser

mulher, negra e favelada não desistiu

de seus sonhos.

Com tantas histórias e exemplos,

desejamos que essa publicação seja

mais que um entretenimento. Possa

ser um material de reflexão e instrumento

para a educação e formação de

uma consciência pela igualdade e diversidade

de gênero, raça/etnia e sexo.

Boa leitura!

Revista Elas por Elas - Abril 2015


RECONHECIMENTO

Pág

7

POLÍTICA

Pág

24

DIREITOS

Pág

50

Elas por Elas recebe

menção honrosa em

prêmio nacional de

jornalismo

Longe das cotas

de gênero

Em busca de um

novo rumo

HOMENAGEM

Pág

8

Celina Arêas

Exemplo de dedicação

ENTREVISTA

Pág

38

SER MÃE

Pág

56

SINDICAL

Pela igualdade

de gênero

Pág

10

Pequim+20

Nadine Casman

HOMENAGEM

Pág

42

Mães em restrição

de liberdade

Uma mulher impossível

Rose Marie Muraro

SER MÃE

Pág

64

Mãe coragem

FEMINISMO

Feminismo na

América Latina

Pág

18

ARTIGO

Em Gaza, nada a

comemorar

Pág

46

ARTIGO

Mães de Noronha

Pág

68

Revista Elas por Elas - Abril 2015


CAPA

Pág

72

PERFIL

Pág

112

Entre o mito e a realidade

Dora Alves

REALIDADE

Pág

80

ENTREVISTA

Pág

100

LITERATURA

Pág

116

A vida no circo não

é brincadeira

Diversidade é assunto

de criança

Mara Evaristo

Uma idealista do lixo

VIOLÊNCIA

Pág

88

AUTOESTIMA

Pág

107

A gente tem uma força

que desconhece

EDUCAÇÃO

Pág

94

Debaixo dos caracóis,

muita história

pra contar

ARTIGO

Muito além do feminino

e do masculino

Pág

130

Profissão docente:

uma escolha de valor

Pág

132

POUCAS E BOAS

Pág

134

RETRATO

Revista Elas por Elas - Abril 2015


6

Departamento de Comunicação do Sinpro Minas: comunicacao@sinprominas.org.br

Diretores responsáveis: Aerton Silva e Marco Eliel de Carvalho;

Editora/Jornalista responsável: Débora Junqueira (MG05150JP);

Redação: Cecília Alvim (MG09287JP), Denilson Cajazeiro (MG09943JP),

Nanci Alves (MG003152JP e Saulo Martins (MG15509JP);

Programação visual/Diagramação: Mark Florest;

Design Gráfico: Fernanda Lourenço e Mark Florest;

Revisão: Aerton Silva e Maria Izabel Bebela Ramos

Estagiária: Pollyana Bitencourt

Foto capa: Lais Rodrigues (cigana Dara Amaral)

Conselho Editorial: Antonieta Mateus, Clarice Barreto, Lavínia Rodrigues, Maria Izabel Bebela Ramos,

Marilda Silva, Liliani Salum Moreira, Soraya Abuid, Terezinha Avelar e Valéria Morato.

Impressão: EGL-Editores Gráficos Ltda - Tiragem: 2.000:

Distribuição gratuita: Circulação dirigida

REVISTA ELAS POR ELAS

PUBLICAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE

COMUNICAÇÃO DO SINPRO MINAS

ANO VIII - Nº 8 - ABRIL DE 2015

ACESSE AS EDIÇÕES ANTERIORES EM

www.sinprominas.org.br

Elas por elas - nº 7

Diretoria Gestão 2012/2016

Adelmo Rodrigues de Oliveira, Adenilson Henrique Gonçalves, Aerton de Paulo Silva, Albanito Vaz Júnior, Alessandra

Cristina Rosa, Altamir Fernandes de Sousa, Ângelo Filomeno Palhares Leite, Aniel Pereira Braga Filho, Antonieta Shirlene

Mateus, Antonio de Pádua Ubirajara e Silva, Antonio Sergio de Oliveira Kilson, Aparecida Gregório Evangelista, Aristides

Ribas Andrade Filho, Benedito do Carmo Batista, Bruno Burgarelli Albergaria Kneipp, Carla Fenicia de Oliveira, Carlos

Afonso de Faria Lopes, Carlos Magno Machado, Carolina Azevedo Moreira, Cecília Maria Vieira Abrahão, Celina Alves

Padilha Arêas, César Augusto Machado, Clarice Barreto Linhares, Cláudia Cibele Souza Rodrigues, Clédio Matos de Carvalho,

Clóvis Alves Caldas Filho, Daniel de Azevedo Teixeira, Débora Goulart de Carvalho, Décio Braga de Souza, Dimas

Enéas Soares Ferreira, Diva Teixeira Viveiros, Edson de Oliveira Lima, Edson de Paula Lima, Eliane de Andrade, Erica

Adriana Costa Zanardi, Estefania Fátima Duarte, Fábio dos Santos Pereira, Fábio Marinho dos Santos, Fátima Amaral

Ramalho, Fernando Antonio Tomaz de Aquino Pessoa, Fernando Dias da Silva, Fernando Lucio Correia, Geraldo Magela

Ribeiro, Gilson Luiz Reis, Gislaine dos Santos Silva, Grace Marisa Miranda de Paula, Haida Viviane Palhano Arantes,

Heleno Célio Soares, Henrique Moreira de Toledo Salles, Humberto de Castro Passarelli, Idelmino Ronivon da Silva, João

Francisco dos Santos, João Marcos Netto, Jones Righi de Campos, José Carlos Padilha Arêas, José Geraldo da Cunha,

José Heleno Ferreira, José Mauricio Pereira, Josiana Pacheco da Silva Martins, Josiane Soares Amaral Garcia, Juliana

Augusta Rabelo Souza, Laércio de Oliveira Silva, Lavínia Rosa Rodrigues, Liliam Faleiro Barroso Lourenço, Liliani Salum

Alves Moreira, Luiz Antonio da Silva, Luiz Cláudio Martins Silva, Luiz Henrique Vieira Magalhães, Luliana de Castro Linhares,

Marcelo José Caetano, Marco Eliel Santos de Carvalho, Marcos Gennari Mariano, Marcos Paulo da Silva, Marcos Vinicius

Araújo, Maria Aparecida Penido de Freitas Zandona, Maria Célia da Silva Gonçalves, Maria Celma Pires do Prado Furlanetto,

Maria da Conceição Miranda, Maria da Glória Moyle Dias, Maria das Graças de Oliveira, Maria Elisa Magalhães

Barbosa, Maria Goretti Ramos Pereira, Maria Helena Pereira Barbosa, Maria Nice Soares Pereira, Marilda Silva, Marília

Ferreira Lopes, Marisa Magalhães de Souza, Mateus Júlio de Freitas, Messias Simão Telecesqui, Miguel José de Souza,

Miriam Fátima dos Santos, Moisés Arimateia Matos, Murilo Ferreira da Silva, Nalbar Alves Rocha, Nardeli da Conceição

Silva, Neilon José de Oliveira, Nelson Luiz Ribeiro da Silva, Newton Pereira de Souza, Orlando Pereira Coelho Filho, Paulo

Roberto Mendes da Silva, Paulo Roberto Vieira Junior, Pitágoras Santana Fernandes, Renata Titoneli de Aguiar, Renato

César Pequeno, Rodrigo de Paula Magalhães Barbosa, Rodrigo Rodrigues Ferreira, Rogério Helvídio Lopes Rosa, Romário

Lopes da Rocha, Rossana Abbiati Spacek, Rozana Maris Silva Faro, Sandra Lucia Magri, Sebastião Geraldo de Araújo,

Simone Esterlina de Almeida Miranda, Siomara Barbosa Candian Iatarola, Sirlane Zebral Oliveira, Terezinha Lúcia de

Avelar, Valdir Zeferino Ferreira Júnior, Valeria Nonata Teixeira, Valéria Peres Morato Gonçalves, Vera Lúcia Alfredo, Vera

Lúcia Freitas Moraes, Wagner Ribeiro, Warley Oliveira Drumond, Wellington Teixeira Gomes

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS

SEDE: Rua Jaime Gomes, 198 - Floresta - CEP: 31015.240

Fone: (31) 3115 3000 - Belo Horizonte - www.sinprominas.org.br

SINPRO CERP - Centro de Referência dos Professores da Rede Privada

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SEDES REGIONAIS:

Barbacena: Rua Francisco Sá, 60 - Centro, CEP: 36.200-068 - Fone: (32) 3331-0635; Cataguases: Rua Major Vieira,

300 - sala 04 - Centro - CEP: 36.770-060 - Fone: (32) 3422-1485; Coronel Fabriciano: Rua Moacir D'Ávila, nº 45 -

Bairro dos Professores - CEP: 35.170-014 - Fone: (31) 3841-2098; Di vinópolis: Av. Minas Gerais, 1.141 - Centro -

CEP: 35.500-010 - Fone: (37) 3221-8488; Governador Valadares: Rua Benjamin Constant, n° 653/ Térreo, Centro -

CEP: 35.010-060, Fone: (33) 3271-2458; Montes Claros: Rua Januária, 672 - Centro, CEP: 39.400-077 - Fone: (38)

3221-3973; Paracatu: Rua Getúlio de Melo Franco, 345 - sala 14- Centro - CEP: 38.600-000 - Fone: (38) 3672 1830;

Poços de Caldas: Rua Mato Grosso, nº 275 - Centro, CEP: 37.701-006 - Fone: (35) 3721-6204; Ponte Nova: Av.

Dr. Otávio Soares, 41 - salas 326 e 328, Palmeiras - CEP: 35.430-229 - Fone: (31) 3817-2721; Pouso Alegre: Rua

Dom Assis, 241 - Centro, CEP 37.550-000 - Fone: (35) 3423-3289; Sete Lagoas: Rua Vereador Pedro Maciel, 165 -

A - Bairro Nossa Sra. das Graças - (Atendimento: Quartas-feiras - 8h às 17h - Fone: 93685999 - Fernanda);

Teófilo Otoni: Rua Pastor Hollerbarch, 187/201 - Grão Pará, CEP: 39.800-148 - Fone: (33) 3523-6913;

Uberaba: Rua Alfen Paixão,105 - Mercês, CEP: 38.060-230 - Fone: (34) 3332-7494; Uberlândia: Rua Olegário Maciel,

1212 - Centro, CEP: 38.400-086 - Fone: (34) 3214-3566; Varginha: Av. Doutor Módena, 261 - Vila Adelaide,

CEP: 37.010-190 - Fone: (35) 3221-1831.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


7

RECONHECIMENTO

Elas por Elas recebe menção honrosa

em prêmio nacional de jornalismo

Em 2014, a revista Elas por Elas

do Sinpro Minas esteve mais uma vez

em evidência numa premiação nacional.

A matéria “O parto é da mulher

– movimentos denunciam a violência

e propõe mudanças para promover o

parto ativo e humanizado”, da jornalista

Maria Cecília Alvim Guimarães,

publicada na edição de 2013, recebeu

uma menção honrosa no Prêmio Nacional

de Jornalismo sobre Violência

de Gênero.

O prêmio, promovido pela Casa da

Mulher Catarina e pela Rede Feminista

de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos

Reprodutivos, de Santa Catarina, contou

com o apoio da Secretaria de Políticas

Públicas para as Mulheres da

Presidência da República. A premiação

aconteceu no dia 16 de maio de 2014,

em Florianópolis, juntamente com a

abertura do Seminário Internacional

sobre Mídia e Violência de Gênero.

“Fico muito feliz com o reconhecimento

desse trabalho que repercutiu

na minha vida pessoal. O propósito da

reportagem foi evidenciar um tipo de

violência contra a mulher, muito comum

na atualidade, mas ainda pouco conhecida

e combatida, a violência obstétrica.

Com isso, colaborar com a conscientização

das mulheres sobre o problema,

a fim de que se tornem protagonistas

de suas experiências de parto e assim,

contribuir também com a perspectiva

Premiação é comemorada em reunião do conselho editorial.

de que é possível evitar condutas inadequadas

na assistência ao parto”, explica

Cecília Alvim. Após escrever a reportagem,

a jornalista passou pela experiência

do parto natural.

Foram inscritas 82 reportagens e

15 foram selecionadas entre os primeiros

lugares de cada categoria, que receberam

R$ 5.000, e as menções

honrosas. O prêmio faz parte da Campanha

“Jornalistas dão um ponto final

na violência contra mulheres e meninas”,

desenvolvida em outros países da

América Latina e Caribe, incluindo o

Brasil. De acordo com Clair Castilhos,

secretária executiva da Rede Feminista

de Saúde, a proposta da campanha é

contribuir para que jornalistas possam

olhar para o tema da violência de gênero

com sensibilidade. “O objetivo da

campanha é dialogar com jornalistas,

de maneira que o tema não seja somente

pautado nos meios de comunicação,

mas que quando tratado,

considere as relações de gênero, os aspectos

culturais que estão ligados a

todos os atos de violência contra meninas

e mulheres”, destaca.ø

MARK FLOREST

Revista Elas por Elas - Abril 2015


8

HOMENAGEM

POR SAULO ESLLEN MARTINS

FOTO MARK FLOREST

Exemplo de dedicação

Celina Arêas recebe condecoração da Justiça do Trabalho

Revista Elas por Elas - Abril 2015


9

A diretora do Sinpro Minas e da

CTB nacional, Celina Alves Padilha

Arêas, foi condecorada com a Ordem

do Mérito Judiciário do Trabalho Ari

Rocha em 2014. A medalha é uma iniciativa

do Tribunal Regional do Trabalho

de Minas Gerais (TRT-MG) – 3ª Região

e destaca as personalidades que atuam

de forma brilhante no mundo do trabalho.

A indicação da professora e sindicalista

mineira foi feita pelo desembargador

do TRT/MG, Marcelo Lamego

Pertence. Para ele, Celina é um exemplo

de dedicação ao mundo do trabalho

e ao trabalhador. “Seriedade, competência

e compromisso são as premissas

dessa medalha e essa mulher tem esse

algo a mais que precisa ser ressaltado.

Pessoa mais indicada não haveria para

receber essa medalha”, frisou.

Celina é sindicalista desde a década

de 1980 e sua história é marcada pela

luta em defesa dos direitos dos professores(as)

e demais trabalhadores(as). Foi

diretora de Comunicação Social da Contee,

por duas gestões – de 1997 a

2000 e de 2000 a 2003 – e também

diretora de Assuntos Educacionais por

uma gestão, de 2006 a 2009.

Nascida no Vale do Jequitinhonha,

na cidade de Rubim/MG, começou a

trabalhar como professora primária, lecionando

Língua Portuguesa e Inglês.

Veio para Belo Horizonte em 1972,

quando começou a dar aulas também

no setor privado. Filiou-se ao PCdoB

em 1973, com o partido na clandestinidade,

e em 1977 ingressou na militância

sindical, participando da onda

grevista que ocupou o país em 1979.

Sua caminhada junto aos professores

culminou em dois mandatos como presidenta,

nas gestões entre 1995 a 2000.

A desembargadora Maria Laura Franco

Lima de Faria, presidente do TRT-

MG, destacou a importância do momento

como a oportunidade de reverenciar

os “cidadãos e entidades que

prestam relevantes serviços ao bem comum

e que contribuem ou contribuíram

com ações de engrandecimento da Justiça

do Trabalho e promoção das instituições

livres e da democracia”.

Para a vice-presidenta do Sinpro

Minas, Valéria Morato, a homenagem

representa o reconhecimento do trabalho

do sindicato dos professores na

pessoa da Celina. “Ela é uma grande

lutadora, foi presidente do Sinpro numa

época em que as mulheres ainda encontravam

muitas dificuldades para

ocupar espaços de poder e nem por

isso deixou de lutar pela categoria e

por melhores condições de vida para

os trabalhadores. Assim, é uma honra

para todos nós essa homenagem do

Tribunal do Trabalho”.

De acordo com Celina, a medalha

é de extrema importância para o sindicalismo

mineiro e nacional, porque

reconhece o trabalho coletivo que vem

sendo feito: “essa medalha não é individual,

ela sintetiza o trabalho do sindicato

dos professores, da Central dos

Trabalhadores e Trabalhadoras (CTB)

e de outras entidades das quais participamos.

Eu vou levar essa honraria

como um prêmio à luta coletiva dos

trabalhadores por uma sociedade mais

justa, humana e igualitária”.

Você ocupa cargos de destaque

no sindicalismo, fato que a maioria

das mulheres não alcança. O que é

preciso para que as mulheres consigam

superar o machismo e ocupar

os espaços de poder?

Quando participei pela primeira vez

da direção do Sindicato dos Professores

do Estado de Minas Gerais já atuava na

luta política e sindical. A minha história

confunde-se com a luta por mais liberdade,

democracia e direitos iguais entre

homens e mulheres. Desde minha vida

estudantil. Nem sempre estive em cargos

de “poder”. Na primeira vez que participei

da diretoria do Sinpro Minas era

suplente. Penso que espaço se conquista

com muita luta e coerência. Devemos

ter convicção que a luta pela emancipação

da mulher é uma luta de classe.

Não é fácil ocupar lugar de destaque

no regime capitalista. Somos maioria

da sociedade e não somos maioria em

nenhuma instância de poder.

Na sua opinião, quais iniciativas

podem ser eficazes para romper as

barreiras de gênero no movimento

sindical?

As mulheres não devem ter medo

de errar. Devem ter confiança em si e

cuidar da formação ideológica, além

de vencer a timidez e sempre cuidar

da autoestima.

Você acha que quando há mulheres

na direção, as questões de

gênero ganham mais ênfase nas políticas

do sindicato?

Não. Penso que não basta ser mulher,

negro ou pobre. Precisamos sim,

ganhar, no local em que atuamos, a

convicção de que a luta por direitos

iguais é cotidiana.

Você já sofreu algum preconceito

por ser mulher, dentro do movimento

sindical?

Já. Principalmente pelo patronal.

Quanto aos companheiros sindicalistas,

de uma forma velada, são muitos educados,

mas na maioria das vezes se julgam

mais capazes, mais preparados

do que nós.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


10

foto SAULO ESLLEN MARTINS

Revista Elas por Elas - Abril 2015


11

SINDICAL

POR DÉBORA JUNQUEIRA

Pela igualdade de gênero

Mesmo sub-representadas, as trabalhadoras superam

desafios e buscam mais espaços de poder

Em contraste com a crescente participação

das mulheres no mundo do

trabalho, que representa 50% da população

economicamente ativa, a luta

sindical ainda é marcadamente masculina.

É o que se pode constatar através

de pesquisas sobre as mulheres no

mercado de trabalho e no movimento

sindical. O que se vê é que a desigualdade

de gênero, presente principalmente

nos espaços de poder, se repete

nas instituições que atuam em defesa

dos/das trabalhadores/as.

Conforme levantamento do Dieese,

feito em 2009, a mulher não tem assento

em 26% das diretorias de sindicatos,

sejam urbanos ou rurais. E mesmo

quando está presente, a participação

da mulher ainda é bem menor que a

do homem. No topo da representação

sindical, ou seja, nas centrais sindicais,

as mulheres representam apenas

21,18% de suas diretorias.

“A pesar da sub-representação nas

direções, nos cargos decisórios das entidades

sindicais, a participação das

mulheres têm pavimentado uma estrada

que é longa e íngreme, haja vista, a

conquista de secretarias da mulher na

maioria dos sindicatos, federações, confederações

e centrais sindicais”, garante

a dirigente da Central dos Trabalhadores

e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Raimunda

Gomes, mais conhecida como

Doquinha. Na CTB, foi estabelecida a

cota de 30% de gênero em todos os

cargos e instâncias de direção, conforme

seu Estatuto Social e resolução aprovada

no 1º encontro nacional de mulheres

da CTB. “É uma exigência o seu cumprimento

e orientamos que os sindicatos

filiados à central apliquem o dispositivo

estatutário”, afirma. (Leia a entrevista)

“a mulher não

tem assento em

26% das diretorias

de sindicatos,

sejam urbanos

ou rurais”.

As mulheres são mais de 50% entre

os/as professores/as do ensino superior,

71% no ensino médio e 85% no ensino

fundamental, de acordo com dados da

pesquisa do Ministério da Educação,

realizada em abril de 2010. Mesmo na

categoria de trabalhadores/as em educação,

majoritariamente feminina, essa

representatividade ainda não se reflete

nas organizações sindicais educacionais.

Segundo pesquisa realizada pela Confederação

Nacional dos Trabalhadores

em Estabelecimentos de Ensino (Contee),

em 2011, entre os 1838 dirigentes que

formam as diretorias das 81 entidades

filiadas à Confederação, 60,07% são

homens e 39,93% mulheres. A diferença

torna-se ainda mais expressiva quando

se foca na participação das sindicalistas

nos cargos de presidência e coordenação

das entidades. Nestes casos, os homens

ocupam 78% dos postos de mais poder

na direção das entidades. Nos sindicatos

da região sudeste, 422 são homens

(58,6%) e 297 (41,4%) são mulheres.

Nas federações de trabalhadores/as

em educação ligadas à Contee, a situação

não é diferente. Um levantamento de

Revista Elas por Elas - Abril 2015


12

gênero feito nessas entidades mostra

que dos 218 dirigentes, 153 são homens

(70,2%) e 65 mulheres (29,8%).

“Existem diversos fatores que impedem

ou dificultam a participação das

mulheres nas esferas públicas, seja a

questão da dupla jornada de trabalho,

a segmentação das mulheres em atividades

ou funções ditas femininas, as

disparidades salariais e a ausência de

políticas públicas como creches, entre

outras. Entretanto, através da nossa vivência,

e de conversas com diversas

companheiras, podemos observar a falta

de incentivo, seja através de discursos

ou de práticas, que não favorecem o

rompimento dessas barreiras”, afirma

a professora Nara Teixeira, dirigente

da Contee, em artigo sobre a pesquisa

de gênero feita pela entidade.

MARK FLOREST

Sindicalistas mineiras

Na base do Sinpro Minas, que representa

os/as professores/as das escolas

particulares de Minas Gerais, exceto

Juiz de Fora, há 42.342 mulheres

(67%) e 20.935 (33%) homens, entre

os/as professores/as sindicalizados/as.

A representação na diretoria eleita

para a gestão 2012/2016 composta

por 129 dirigentes, 54 são mulheres

(41,8%) e 75 são homens (58,2%).

Para a vice-presidenta do Sinpro

Minas, Valéria Morato (foto), o problema

da desigualdade de gênero não é exclusivo

do movimento sindical. Ela também

entende que é uma questão que

afeta as mulheres nos espaços de poder

em geral. “A participação na vida pública,

em qualquer tipo de militância,

nos ocupa nos horários não convencionais,

exigindo a nossa participação

à noite e nos finais de semana. Não é

fácil para as mulheres conciliar as atividades

políticas e a vida familiar. Com

a predominância dos homens, é mais

difícil para a mulher ocupar os espaços

decisórios. As mulheres têm que se esforçar

mais que os homens para se estabelecer.

Quando agem de forma mais

firme são criticadas, se não se impõem,

são consideras ‘mulherzinhas’, avalia.

Valéria conta que quando entrou

no movimento sindical, há 12 anos,

não tinha a dimensão do trabalho

dentro do sindicato. “O trabalho nos

envolve 24 horas. Não tive medo de

mudar a minha vida pessoal para me

adaptar, mas entendo que muitas mulheres

têm dificuldade de fazer isso,

porque dentro de uma sociedade machista

o espaço privado ainda é considerado

prerrogativa da mulher e somos

cobradas quando não o assumimos

dentro dessa cultura”.

É consenso que a ausência de mulheres

nos espaços de poder e de decisão

significa um déficit na democracia

e uma dívida da sociedade em relação

às mulheres. A representação política

e sindical é fundamental para se avançar

na construção de uma sociedade mais

democrática e mais igualitária. É o que

também reforça a vereadora e sindicalista

Vera Lúcia Alfredo.

Vera iniciou sua militância política

na juventude quando participava da diretoria

do DCE na faculdade. Em 1979,

período importante do movimento sindical,

entrou para a diretoria do Sindicato

dos Trabalhadores em Educação

(SindUTE-MG) e em 2007, como professora

de escola privada, passou a participar

da diretoria do Sinpro Minas. Em

sua trajetória, ela conta que foi rotulada

de “largada”, “comunista” e até ouviu

que sua militância política era uma fuga

Revista Elas por Elas - Abril 2015


13

da obrigação com os serviços domésticos.

Para seguir em frente, ela teve que

superar várias barreiras para assumir a

tripla jornada de uma mulher sindicalista.

“Dava aula, fazia faculdade, cuidava

da casa, marido e filhos e ainda

participava de reuniões, assembleias e

greves. Muitas vezes, levava as crianças

junto comigo, que dormiam nos sofás

do sindicato, nem sempre preparado

para acolher as mulheres e suas necessidades.

Quando eu chegava em casa,

o meu marido reclamava muito. O fim

do casamento foi inevitável, mas não

me arrependo, gosto do que faço e me

sinto realizada”, afirma. Por outro lado,

Vera diz que nunca sentiu preconceito

por ser mulher dentro do sindicato.

“Não me intimido com os homens e sei

me impor”, declara.

Se as entidades de classe do movimento

sindical de trabalhadores lutam

por mais democracia, diversidade e

emancipação feminina, a pergunta que

se faz é se há apoio à maior participação

da mulher nas diretorias, seja por meio

de cursos de formação política ou em

outras formas de atuação que possibilitem

a inserção das mulheres nos espaços

de poder. Tema que instiga e

merece uma investigação mais ampla.

“Muitas vezes,

levava as crianças

junto comigo, que

dormiam nos sofás

do sindicato”.

Atuação das

mulheres no

movimento sindical

é invisibilizada

No artigo Práticas Invisíveis: o Movimento

Feminista e o Sindicalismo

no Brasil, de Luanda de Oliveira Lima,

mestranda em Sociologia da Universidade

Federal do Rio de Janeiro –UFRJ,

disponível na internet (https://strabalhoegenero.cienciassociais.ufg.br/up/24

5/o/LUANDA.pdf), a autora faz uma

análise sobre a participação feminina

nos movimentos de trabalhadores no

Brasil. O trabalho da pesquisadora mostra

que, apesar da intensa participação

das mulheres na vida sindical e nos movimentos

sociais no país, essa atuação

é igualmente invisibilizada e marcada

pelo falocentrismo, o que influencia na

forma como essa história é ‘‘contada”.

O texto recorda que, no final do

século XIX, embora as mulheres fossem

grande parte da classe trabalhadora,

elas não eram bem vindas nos sindicatos.

Contudo sempre estiveram presentes

no movimento operário e sindical

brasileiro, inclusive em momentoschave

como na greve geral de 1917,

que começou com tecelãs que reclamavam

dos abusos sexuais cometidos

pelos capatazes e das más condições

de trabalho.

Lutaram pela incorporação de alguns

de seus direitos na Consolidação das

Leis do Trabalho – CLT – em 1937, e

conseguiram garantir alguns importantes,

como da proteção à maternidade

e da igual remuneração. Em 1968,

nas greves de Contagem e Osasco,

marcos da resistência no período da

ditadura, é possível observar a partici-

Revista Elas por Elas - Abril 2015


14

pação de mulheres dirigentes sindicais.

Na década de 1970, com o aumento

da força de trabalho feminina, houve

também um significativo aumento das

mulheres sindicalizadas, índice que era

superior ao aumento da sua participação

no mercado de trabalho.

Ainda segundo o artigo, o mundo

do trabalho viveu nas décadas de

1980 e 1990 momentos antagônicos.

No Brasil, a década de 1980 é marcada

pela redemocratização, pela

intensa participação popular e pela

expansão do movimento sindical, que,

com mais de 700 greves vive sua

“época de ouro” (SANTANA, 2004).

A luta pela democratização das relações

de gênero persistiu e, com a

Constituição Federal de 1988, as

mulheres conquistaram importantes

vitórias no patamar político e jurídico.

Nas greves da década de 1980, como

na greve de 1988, em Volta Redonda,

as mulheres atuaram não só como

apoio, mas também ativamente nas

mobilizações, articulações e divulgação

do movimento grevista.

Já na década de 1990, a “década

neoliberal”, o mundo do trabalho vive

sua fase de enxugamento, com a reestruturação

produtiva, a flexibilização e

a precarização do emprego os sindicatos

se fragmentam, aumentando as

dificuldades e as barreiras para ampliar

a participação e as conquistas das trabalhadoras.

A autora defende a necessidade

uma atuação conjunta e articulada da

classe trabalhadora para garantir a

aplicação das Convenções 100 e 111

da Organização Internacional do Trabalho

– OIT, respectivamente acerca

do salário igual para trabalho igual e

sobre a igualdade de oportunidades

entre homens e mulheres no mercado

de trabalho.

Ela conclui que a luta das mulheres

sempre esteve diretamente ligada à

luta dos trabalhadores, no entanto,

parece estar invisível, como se estivesse

escondida sob uma “dominação

masculina” (BOURDIEU, 1999). Na

sociedade contemporânea a ideologia

predominante ainda é marcada por

uma visão masculinizada na qual a

imagem feminina é um estereótipo

sem voz (SOUZA-LOBO, 1991), a

maioria dos movimentos, seja sindical,

popular ou partidário, reproduz, de

alguma forma, essa ideologia.

INTERNET

Revista Elas por Elas - Abril 2015


15

Pela primeira vez,

SAAEMG tem

uma mulher na

presidência

O Sindicato dos Auxiliares de Administração

Escolar (SAAEMG), com

33 anos de existência e 60% de mulheres

na base, nunca havia sido presidido

por uma mulher. No dia 13 de

dezembro de 2014, o SAAEMG começou

a escrever uma nova história

com a posse da advogada Rogerlan

Augusta de Morais (foto).

Rogerlan, 46 anos, é a quinta presidente

do sindicato. Antes de assumir a

presidência, coordenou o Departamento

Jurídico durante 12 anos. Rogerlan

também fez parte da diretoria da Central

dos Trabalhadores e Trabalhadoras do

Brasil (CTB/MG) como secretária geral

até 2013. Hoje ocupa o cargo na diretoria

plena da CTB Nacional.

Elas por Elas - Como você vê a

atuação das mulheres no movimento

sindical dos Auxiliares de Administração

Escolar?

Somos a maioria da população, somos

a maioria de trabalhadores nas

instituições de ensino (em torno de

60%) e, para o mandato de 2014/2018

a categoria elegeu pela primeira vez

uma mulher para presidir o SAAEMG.

Neste mandato representamos percentual

de 42% de mulheres na diretoria e

conselho fiscal. A pretensão é que a

representação de gênero seja de 50%

o que, entendemos, confere maior legitimidade

e equidade na condução da

entidade sindical.

O SAAEMG, em várias oportunidades,

tem ressaltado a importância da

mulher para a categoria e incentivado

sua participação nas demandas do sindicato

e registrado que é um direito dela

assumir essa bandeira, que a sociedade

(machista) não faz nenhum favor em

apoiá-las. Aliás, é um dever já que lutamos

por direitos iguais em todas as

áreas e sabemos da dedicação e influência

da mulher na formação da

sociedade em todos os níveis, familiar e

profissional.

Você acredita que há preconceito

de gênero, mesmo numa categoria

majoritariamente feminina?

O aumento da participação feminina

nos postos de trabalho viabilizou

as demandas de igualdade de gênero

também no meio sindical, que antes

era predominantemente masculino.

Infelizmente, ainda há preconceito que

não se manifesta abertamente (já que

se tornou politicamente incorreto pormenorizar

a mulher). Isso ainda ocorre

por meio de piadinhas que ao serem

contestadas pelas mulheres, são justificadas

como uma brincadeira inocente

pelos homens. Sabemos que, no

fundo, é preconceito sim. Na nossa ca -

te goria esse preconceito não é tão

acentuado, pois a maioria são mulheres

que, a cada dia, mais se apoderam

do seu espaço de forma natural e

consciente.

A pretensão é que, agora, com

maior número de mulheres na diretoria,

possamos criar uma secretaria ou diretoria

de políticas para mulheres. Dessa

forma, teremos condições de pensar a

mulher no mundo do trabalho e no

meio sindical, discutindo e desenvolvendo

atividades que valorizem e defendam

ainda mais sua importância na

sociedade.

FOTO CRÉDITO

Revista Elas por Elas - Abril 2015


16

ARQUIVO PESSOAL

ENTREVISTA

RAIMUNDA GOMES

“Não há igualdade

de oportunidade

para a mulher

exercer o poder”

Para a professora e dirigente da

Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras

do Brasil (CTB), Raimunda Gomes

(Doquinha), que já esteve à frente da

Secretaria de Mulheres da entidade, a

luta não é só de uma classe contra

outra, ela é também de gênero, raça e

orientação sexual. Segundo ela, no

caso especifico das mulheres, está comprovado

que elas possuem a mesma

capacidade política e administrativa

dos homens, o que lhes falta é igualdade

de oportunidade para exercer o poder.

Ela afirma que ao romper com o

estereotipo de passiva e subserviente e

assumir o espaço público, as mulheres

disputam com seus próprios companheiros

homens e também com as

próprias mulheres, que por falta de

compreensão do papel da mulher na

sociedade patriarcal, acabam reproduzindo

a discriminação contra a mulher

no movimento sindical, criando armadilhas

para as mulheres não ascenderem

politicamente.

Doquinha acredita que há um jeito

masculino e outro feminino de fazer

sindicalismo. “Os homens pensam mais

na universalidade das lutas e as mulheres

pensam para além disso, elas conciliam

a pauta geral do movimento sindical

com as especificidades que brotam das

questões subjetivas da luta, principalmente

em relação à sua condição no

mundo do trabalho”, afirma. Confira

a entrevista.

Elas por Elas: Como você avalia

a participação das mulheres no movimento

sindical?

Determinante no processo de democratização

dos espaços e valorização

das opiniões que as mulheres possuem

acerca dos mais diversos assuntos, principalmente

seus direitos no mundo do

trabalho. A pesar da sub-representação

nas direções, nos cargos decisórios das

entidades sindicais, a participação das

mulheres tem pavimentado uma estrada

que é longa e íngreme, haja vista, a

conquista de secretarias da mulher na

Revista Elas por Elas - Abril 2015


17

maioria dos sindicatos, federações, confederações

e centrais sindicais.

Na CTB, há alguma resolução sobre

paridade de gênero ou cotas nas

gestões dos sindicatos?

Na CTB, a cota de 30% de gênero

em todas os cargos e instâncias de direção,

é cláusula pétrea, nasceu com a

central, somos uma Central Sindical de

Trabalhadores e Trabalhadoras, está em

seu Estatuto Social e, na resolução aprovada

no 1º Encontro Nacional de Mulheres

da CTB, é uma exigência o seu

cumprimento. Orientamos que os sindicatos

filiados à central apliquem o dispositivo

estatutário.

Sobre a paridade, eu diria que o assunto

ainda precisa de debate no interior

da central, para ser de fato uma conquista

e não uma imposição, a paridade exige

que os homens também estejam convencidos

da legitimidade do pleito, e

não apenas apoiem, mas, fundamentalmente,

entendam que para as mulheres

atuarem paritariamente, implicaria em

uma mudança de postura e mentalidade.

Você acredita que no sindicalismo

as mulheres no poder precisam provar

sua capacidade política e que as exigências

são maiores do que com os

homens?

Tem sido a tônica até então, aos

homens o direito de aprender fazendo

e até errar, às mulheres o dever de

fazer certo, com perfeição, o que é

muito injusto, porque a condição militante

é extremamente diferente entre

homens e mulheres. O cenário é mais

desfavorável às mulheres, pela construção

histórica do seu papel cultuado pela

sociedade machista e patriarcal, que

lhe reserva como locus de atuação o

espaço privado para um ser conciliador,

passivo e subserviente, o que, por si

só, já caracteriza discriminação de gênero.

Ao romper com esse estereótipo

e assumir o espaço público, as mulheres

disputam com seus próprios companheiros,

os homens, e são eles em

maior quantidade, mas também as próprias

mulheres, por falta de compreensão

do papel da mulher na sociedade patriarcal,

que reproduzem a discriminação

contra a mulher no movimento sindical,

criando armadilhas para as mulheres

não ascenderem politicamente.

Em síntese, a luta não é só de uma

classe contra outra, ela é também de

gênero, raça e orientação sexual, essas

ditas minorias, não aceitam mais serem

tratadas como alguém que precisa de

outro para lhe defender, estão na condição

de protagonistas da própria luta.

No caso específico das mulheres, está

comprovado que possuem a mesma

capacidade política e administrativa

dos homens, o que lhes falta é oportunidade

e igualdade de oportunidade

para exercer o poder.

Na sua opinião, há um jeito ou

um estilo diferente entre as mulheres

quando elas participam do movimento

sindical ou estão na liderança dessas

entidades?

Com certeza, como já dizia Elizabeth

Souza Lobo, há jeito masculino e um

jeito feminino de fazer sindicalismo, os

homens pensam mais na universalidade

das lutas, as mulheres pensam para

além da universalidade, elas conciliam a

pauta geral do movimento sindical com

as especificidades que brotam das questões

subjetivas da luta, principalmente,

em relação à sua condição no mundo

do trabalho.

Pela sua própria condição e feminilidade

as mulheres quando assumem

as direções das entidades criam ou recriam

ambientes que possibilitem maior

conforto e interlocução na relação de

gênero, ampliam a participação das

mulheres e pautam nas negociações

tanto salariais como políticas as questões

específicas do universo feminino. Óbvio,

que muitas mulheres ainda reproduzem

o pensamento machista ocasionado

pela ausência de formação política que

possibilita a consciência de classe e

gênero. De modo geral, as mulheres

são bastante comprometidas com a

democratização dos espaços e formação

de novas lideranças.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


foto UNE


Feminismo

na América

Latina

19

FEMINISMO

POR SAULO ESLLEN MARTINS

Uma nova geração de lutadoras ganha

espaço nos movimentos sociais e políticos

Inspiradas pelas mulheres

que, pela liberdade feminina,

queimaram sutiãs em praça

pública, lutaram pelo direito

ao voto e a favor do uso de

contraceptivos, elas estão na

cidade, no campo, escolas e

empresas, demonstrando o

seu poder. A exemplo das feministas

que fizeram história

em várias partes do mundo,

ganha força uma nova geração

de mulheres que lutam pela

emancipação feminina.

São jovens, inteligentes, trabalhadoras

e engajadas em movimentos

sociais e políticos.

Esse é um pequeno perfil das feministas

que surgem na América Latina.

Muitas delas não militam diretamente

em movimentos, essencialmente de

gênero, mas onde atuam defendem a

bandeira da igualdade de direitos entre

mulheres e homens.

A partir do olhar de mulheres em

quatro países: Brasil, Argentina, Nicarágua

e Venezuela, é possível traçar

um quadro da atuação feminista contemporânea

no continente. Elas representam

seus países e orga -

nizações, todavia, também são as

vozes de muitas estudantes, sindicalistas,

artistas, jornalistas e outras cidadãs

que compartilham desejos comuns,

entre eles a vontade de viver em

um mundo mais igualitário e menos

preconceituoso. Cada uma, a seu

modo, imprime uma nova maneira de

ser feminista. De toda forma, não estão

só nos bastidores, são protagonistas e

recebem os holofotes do trabalho que

desenvolvem.

Mulheres diferentes, que atuam em

culturas distintas, mas que compartilham

muitos sonhos em comum. Amantes

da liberdade, defensoras da equidade

de gênero, feministas por essência e

trajetória. Escritoras de suas próprias

histórias. Falam por elas mesmas o

que pensam sobre o contexto político

e a luta feminista em seus países.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


20

Virgínia Barros

Movimento estudantil

Presidenta da União Nacional dos

Estudantes no Brasil, cursou a faculdade

de Direito, em Recife. Foi presidenta da

União Estadual dos Estudantes daquele

estado. É militante da União da Juventude

Socialista (UJS) e do Partido Comunista

do Brasil (PCdoB).

ARQUIVO UNE

O movimento estudantil é uma escola

capaz de ampliar a nossa visão da educação

e o nosso entendimento sobre o

Brasil. Eu sempre senti que o conhecimento

assimilado na sala de aula tem

limites. Temos mais possibilidades de

entender a sociedade a partir do momento

em que incorporamos a luta dos

movimentos sociais. Daí em diante,

cria-se a possibilidade de compreender

e interferir nos rumos da sociedade.

Na história brasileira, podemos fazer

referência a uma série de mulheres

que se destacaram pela luta política e

social. Contudo, uma, em especial, é

a Patrícia Galvão (Pagu). Foi uma das

figuras mais importantes do modernismo

brasileiro. Através da arte e da militância

política, ela contribuiu para um

país melhor. É uma mulher que me

inspirou com sua rebeldia e sensibilidade.

É uma história que deve ser contada

para as próximas gerações.

Outra mulher que provocou mudanças

na forma de participação das

brasileiras na política é a presidenta

Dilma. Ela tem uma trajetória marcante,

desde a juventude, quando resistiu de

forma tão brava à ditadura militar.

Abriu portas para que muitas outras

possam percorrer esse caminho.

Ainda existe resistência à participação

das mulheres em diversos espaços

de poder. Isso acontece no ambiente

das universidades, no ramo empresarial,

na área científica e também na política.

As mulheres que se destacam nas esferas

de poder, infelizmente, ainda sofrem

preconceito. Só que cada vez

mais mulheres têm vencido essas barreiras

e contribuído para naturalizar a

presença feminina nesses espaços.

As universidades brasileiras ainda

reproduzem as contradições sociais. A

estrutura destas instituições de ensino

ainda não está adaptada para a nossa

presença. Isso faz com que ainda tenhamos

casos de violência de gênero

nestes espaços. A violência é um braço

do machismo, mas não é o único.

Ainda temos muito a avançar na luta

feminista em nosso país.

Eu me considero uma feminista e a

UNE é uma entidade feminista. Nós

temos objetivos gerais em torno do

curso da luta política brasileira, em especial,

no debate sobre a universidade.

Consideramos que não é possível debater

a sociedade brasileira sem inserir

nesse contexto a luta pela emancipação

das mulheres.

Ser feminista é compreender que

homens e mulheres devem ter direitos

iguais e oportunidades compatíveis

para desenvolver suas potencialidades.

É somar à luta para fazer com que as

mulheres possam estar em um campo

que é seu de direito. Ser protagonista

na sociedade, sem nenhum tipo de resistência

e preconceito de gênero, classe,

orientação sexual ou raça. É lutar

por uma sociedade igualitária.

Diana Broggi

Movimentos populares

Graduada em psicologia, milita no

movimento Popular Pátria Grande da

Argentina e na Associação dos Trabalhadores

do Estado. Foi integrante da

Direção das Políticas de Gênero da cidade

de La Plata, província de Buenos

Aires.

Na América Latina, as expressões

dos movimentos de mulheres e feministas

são heterogêneas e amplas. O

processo histórico do feminismo não

é o mesmo na Venezuela, Argentina,

Brasil ou Nicarágua. Contudo, ainda

assim, com as diferenças e origens

próprias em cada território, há um

ARQUIVO PESSOAL

Revista Elas por Elas - Abril 2015


21

dado inegável que é o avanço na organização

e o crescimento do movimento

feminista em nossos países. Isso tem

um impacto integral, na medida em

que incorporamos a luta das mulheres

em todos os movimentos. Um exemplo

claro disso é a Marcha Mundial de Mulheres,

da qual somos parte junto a

outras organizações na Argentina. Estrategicamente

nos reunimos desde a

perspectiva feminista na luta contra a

mercantilização dos nossos corpos e a

exploração do trabalho feminino.

Hoje, temos algumas lutas que são

centrais em nosso país, tais como o

aborto legal, livre, seguro e gratuito e

o fim da violência de gênero. Nos organizamos

para conquistar direitos para

as diversas identidades de gênero, não

só para as mulheres. A partir de Pátria

Grande somos parte desse processo

na Argentina. Nos consideramos feministas

populares e apostamos no crescimento

dos movimentos para potencializar

mudanças verdadeiras em nossa

sociedade dominada pelo machismo

em um sistema capitalista e patriarcal.

Exercemos um papel de protagonistas

das organizações, articuladoras,

parte da coluna vertebral dos movimentos:

nós garantimos, e não apenas

contribuímos. Muitas vezes, tornamos

possível a vida orgânica das entidades,

levamos adiante debates e lutas que

não se limitam a reivindicações particulares.

Por isso, lutamos também pela

terra, habitação e trabalho digno. Devemos

soar o alarme acerca da invizibilização

do papel fundamental das

mulheres na história dos movimentos

e organizações em processo de luta.

Entendemos que as organizações

necessitam do feminismo para compreender

as múltiplas formas de opressão

a que estamos expostos/as e batalhar

contra elas de uma maneira integral.

O feminismo popular tem uma forte

âncora nos territórios, não é um mero

posicionamento ideológico, por causa

disso devemos construir laços de resistência

onde habitamos, isto é: escolas,

sindicatos, famílias, locais de trabalho.

O feminismo é uma ferramenta privilegiada

contra o patriarcado e o sistema

capitalista, por isso dizemos que “sem

feminismo não existe socialismo”.

Patricia Zuniga

Movimento de mulheres

no campo

Jornalista e radialista na cidade de

Carazo, Nicarágua. Faz parte do Club

Metamorfosis, uma organização que

reúne homens e mulheres na luta por

igualdade de gênero. Representa o movimento

de mulheres campesinas do

estado de Rosário e integra a Alba Movimentos

em seu país.

Em relação ao lugar que as mulheres

ocupam na Nicarágua, nos últimos

anos tivemos alguns avanços, mas

SAULO ESLLEN MARTINS

ainda existem barreiras que devem ser

destruídas. A luta árdua e contínua

para erradicar a violência de gênero é

uma delas. Contudo, os índices são

menores, pois as condições de vida

melhoraram em pequena parte, no entanto,

de forma significativa.

Considerando que 52% da população

nicaraguense é de mulheres, diversos

movimentos sociais e coletivos

de mulheres estão preocupados com a

reivindicação de direitos e com a equidade

de gênero na sociedade. Esperase,

não só que a mulher exerça seus

direitos constitucionais, mas também

que tenha voz na política e ocupe

cargos públicos importantes.

A maioria das mulheres se dedica

ao trabalho não remunerado, pois estão

ocupadas com tarefas reprodutivas e

produtivas que não lhes geram rendas,

todavia, contribuem, sobremaneira,

para que os homens possam desempenhar

funções em que ganham dinheiro.

Cuidam dos lares, dos filhos e

dos idosos.

Existem outras desigualdades que

atingem principalmente as mulheres

pobres, que geralmente vivem em condições

precárias e raras vezes têm acesso

à educação, o que limita suas opções

profissionais. Houve um crescimento

dos postos de trabalho remunerado

para a mulher, mas quando consegue

emprego em uma empresa, oficina ou

até mesmo como doméstica, ela fica

sobrecarregada com a dupla jornada

ou é obrigada a pagar outra pessoa

para cuidar de sua casa.

É preciso elaborar políticas que atinjam

homens e mulheres. Já existe uma

lei que aplica 50/50 em cargos públicos,

entretanto, o sistema capitalista e individualista

tem uma forma de poder

machista e isso nos afeta sobremaneira.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


22

Desde o momento em que ainda

usam fraldas, homens e mulheres deveriam

ter as mesmas oportunidades,

pois é em casa que as desigualdades

de gênero devem desaparecer e dessa

maneira todas as pessoas seriam educadas

para servir a sociedade.

As bandeiras de luta dos movimentos

de mulheres reivindicam principalmente

uma mudança no olhar da sociedade

que nos vê como objetos sexuais, sobretudo,

através da mídia televisiva,

onde somos coisificadas. Temos campanhas

que unem homens e mulheres

para erradicar também o assédio sexual

sofrido nas ruas.

Muitas vidas de mulheres foram

perdidas nas mãos de homens, porém,

isso não foi em vão, porque muitas

deixaram um caminho que seguimos

para avançar a cada dia, apesar de enfrentarmos

diversos desafios. No entanto,

as mulheres não podem desistir,

mas, sim, continuar lutando por seus

direitos. Como seres humanos temos

os mesmos direitos e eles devem ser

respeitados.

Vanessa Rangel

Militância política

Comunicadora popular, fotógrafa,

redatora e editora, participa da Corrente

Revolucionária Bolívar e Zamora, na

Venezuela, uma entidade dos movimentos

sociais, com intensa inserção na

esfera política.

SAULO ESLLEN MARTINS

Com a chegada do presidente Hugo

Chávez, em 1999, o governo bolivariano

ficou marcado pela preocupação

em atender as reivindicações de todos

os setores que por décadas haviam

sido excluídos e maltratados, dedicando

especial atenção à emancipação da

mulher. Em parte, isso pode ser confirmado

com a aprovação da Lei Orgânica

sobre os direitos das mulheres

a uma vida livre de violência, em 2007,

e a criação do Ministério do Poder Popular

para a Mulher e a Igualdade de

Gênero, em 2009, que tem dentro de

suas funções proteger os direitos das

mulheres e impulsionar projetos socioprodutivos.

Ao longo da história mundial, o

papel da mulher tem sido essencial

para as revoluções. Os historiadores,

seguindo o sistema patriarcal, têm se

encarregado de apagar a imagem de

todas aquelas que tiveram um papel

de protagonista. Na Venezuela isso

está mudando, o comandante Chávez

entendeu a importância da mulher em

todos os processos e compreendia a

luta pela equidade de gênero e a necessidade

de mudança desse sistema

patriarcal dentro do marco da revolução,

por isso, em diversas ocasiões se proclamou

feminista. Trouxe à tona as

histórias de mulheres guerreiras, ele

sabia que esses exemplos nos dariam

força para as batalhas que viriam.

Segundo dados oficiais, desde o início

da revolução, até 2014, a taxa de

desemprego da mulher diminuiu 9%.

Outro dado importante é o fato de

55% dos Conselhos Comunais serem

dirigidos por mulheres e 60% dos

chefes das Unidades de Batalha Bolívar

e Chávez, do Partido Socialista, são

mulheres.

Essas mudanças vão além das instituições

governamentais e dos processos

produtivos. É importante ressaltar os

números mencionados, porque demonstram

que hoje em dia a mulher

venezuelana tem um papel vital dentro

do processo revolucionário, pessoas

que anos atrás estavam dedicadas somente

ao cuidado com seus filhos e à

manutenção da casa, agora são grandes

lideranças para as comunidades em

que habitam e para o país. Exercem

suas funções com a ternura que nos

caracteriza, mas, ao mesmo tempo,

com a firmeza necessária.

Prefeitas, ministras, governadoras,

deputadas, assessoras, dirigentes de

partidos políticos, são alguns dos papéis

que atualmente são desenvolvidos. Não

tem sido fácil, sendo que nossa batalha

diária também é com essa realidade

machista latino-americana que nos persegue.

Ainda que os avanços tenham

sido significativos, existe um longo caminho

a ser percorrido. O mais importante,

contudo, é que contamos

com muitos companheiros/as que se

questionam e entendem que não se

trata de uma questão separatista, muito

antes pelo contrário, o feminismo é

uma questão complementar ao processo

revolucionário que estamos vivendo.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


23

Revista Elas por Elas - Abril 2015


24

LUCIO BERNARDO JR. /C.D

POLÍTICA

POR NANCI ALVES

Longe das

cotas de gênero

Mulheres continuam minoria

na representação política

Revista Elas por Elas - Abril 2015


25

Representando mais de 50% da

população e do eleitorado, a mulher

responde também por mais de 45%

da produção brasileira e pelo sustento

de 1/3 das famílias, mas esse protagonismo

ainda não se reflete na representação

política feminina.

De acordo com o Tribunal Superior

Eleitoral (TSE), nas eleições de 2014,

o voto feminino teve o maior peso da

história: 52% dos 142 milhões de eleitores

brasileiros são mulheres. Nas últimas

eleições, houve aumento também

da participação feminina em quase todos

os cargos, o que significa um crescimento

de 46,5% de candidatas em

comparação a 2010. A proporção de

candidatas aptas a disputar algum cargo,

em 2010, incluindo vices e suplentes,

foi de 22,43% ou 5.056 candidatas.

Já em 2014, foram 8.131 postulantes,

ou seja, 31,07% do total de 26.172

candidatos/as.

Porém, ao se considerar apenas as

candidaturas aptas, esse número cai

para 6.475 mulheres, num total de

22.530 registros, fazendo com que o

percentual de candidaturas femininas

(28,62%) ficasse abaixo da cota (30%)

garantida por lei desde 2009. Mesmo

com a campanha lançada pelo TSE,

em março de 2014, “Mulher na Política”,

vários partidos tiveram suas candidaturas

indeferidas por falta de cumprimento

da cota de gênero.

Para o cargo de deputada federal,

foram 1.755 candidatas; para deputada

estadual e distrital, foram 4.617; para

o Senado, apenas 33 mulheres e para

o governo de Estado, 20 candidatas e

44 à vice, além de 03 candidatas à

presidente e 03 a vice.

Apesar de ter crescido o número

de eleitoras e de candidatas, e ainda

que o cargo mais importante do país

seja ocupado por uma mulher, elas

permanecem minoria em termos de

representação política. O resultado do

último pleito eleitoral mostrou que o

parlamento brasileiro continua masculino,

branco e empresarial - uma realidade

difícil de se mudar no Brasil. Na

Câmara dos Deputados, houve um pequeno

aumento do número de mulheres,

mas ainda não ultrapassa os 10%.

Para o mandato que se iniciou em

2015, foram eleitas 51 deputadas federais,

o que significa uma proporção

de uma mulher para cada dez deputados

eleitos, pois são 513 cadeiras. Os estados

de Alagoas, Espírito Santo, Mato

Grosso, Paraíba e Sergipe não tiveram

nenhuma mulher eleita deputada federal.

Minas Gerais foi o estado em que as

mulheres tiveram menos destaque, sendo

que a primeira na lista de contagem

de votos aparece apenas na trigésima

quinta posição.

Nas assembleias estaduais e na Câmara

Legislativa do Distrito Federal, o

número de eleitas caiu de 139 em

2010 para 120 deputadas em 2014.

Ou seja, a representação popular nos

estados continua predominantemente

masculina, já que apenas 11,3% dos

“o parlamento

brasileiro

continua

masculino,

branco e

empresarial”

deputados estaduais e distritais são mulheres.

A bancada feminina cresceu

apenas no Ceará, Distrito Federal,

Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso

do Sul. Em 17 estados, houve diminuição

no número de candidatas eleitas.

No Senado, foram eleitas apenas

cinco mulheres para as 27 vagas disponíveis,

o que representa apenas

18,5% do total dos senadores eleitos e

13% da Casa (são 88 cadeiras), já que

outras seis senadoras cumprem mandato

até 2019 (em 2014, foi renovação de

um terço apenas).

E o pior: para governo de estado,

somente uma mulher foi eleita. Tratase

de Suely Campos (PP), em Roraima,

que, na verdade, substituiu o marido,

Neudo Campos, considerado inelegível

pela Justiça Eleitoral em função da Lei

da Ficha Limpa.

Historicamente, o número de governadoras

nunca passou de 11%. A

representatividade feminina nos governos

estaduais não é tão pequena desde

1998, quando foi eleita apenas uma

mulher governadora. Em 2002, foram

duas; em 2006, três governadoras e,

em 2010, apenas duas novamente.

Na disputa para a presidência da

República, o segundo turno se deu

entre um homem e uma mulher, mas

entre as 11 candidaturas apresentadas,

as 3 candidatas ficaram entre os 4 primeiros

colocados no primeiro turno.

De acordo com dados do TSE, Dilma

Rousseff ficou com 41,6% dos votos,

Marina Silva com 21,3% e Luciana

Genro com 1,6%. Juntas, conseguiram

somar cerca de 67 milhões de votos,

ou seja, 64,5% dos votos válidos. O

Partido dos Trabalhadores (PT) segue

como o partido que mais elege mulheres

no país (9 deputadas) seguido pelo

PMDB (7) e PSDB (5).

Revista Elas por Elas - Abril 2015


26

Quem são as novas

parlamentares?

A Secretaria de Políticas para as

Mulheres publicou, recentemente, uma

nota técnica (Mulheres nas Eleições de

2014), em que analisa a participação,

o perfil das eleitas e os constrangimentos

à sua atuação no Congresso, dada a

composição desta nova Legislatura.

Segundo o documento, diante dos

entraves à entrada das mulheres nas

arenas decisórias, algumas usam do

prestígio de suas famílias, assim como

fazem alguns homens. Assim, das 51

novas deputadas federais, 21,5% são

esposas, ex-esposas ou filhas de homens

que ocupam ou já ocuparam cargos

eletivos ou Ministérios. Entre os deputados

eleitos, 16% são herdeiros políticos.

E entre as 5 novas senadoras, 3

possuem capital delegado das famílias

que possuem tradição política contra

3 senadores dos 27 eleitos.

Das 51 deputadas eleitas, 29 exercerão

o cargo pela primeira vez, sendo

que três delas conseguiram atingir o

quociente eleitoral com seus próprios

votos, não dependendo do total de

votos de seus partidos ou coligações:

Christiane Yared (PNT/RJ), Clarissa

Garotinho (PR/RJ) e Shéridan

(PSDB/RR).

Com relação à faixa etária das eleitas,

apenas duas são consideradas jovens,

ou seja, menos de 29 anos. De

acordo com a nota técnica da SPM, a

faixa etária de maior concentração das

deputadas está entre 30 e 59 anos,

com 38 deputadas (74,55%). A mais

jovem é a deputada Brunny da Silva

do PTC/MG, com 25 anos, e a mais

velha, Luiza Erundina, com 79 anos,

em 2014. Também no Senado Federal,

das eleitas, 60% se concentra ente 30

e 59 anos. A senadora mais velha é

Maria do Carmo do DEM de Sergipe,

com 73 anos. “Acima dos 60 anos,

tem 101 homens e 11 mulheres. As

mulheres eleitas para a Câmara são

mais jovens que os homens, o que

pode significar que as gerações mais

novas de mulheres têm maior entrada

na política do que as mais velhas”, diz

o documento da SPM.

Sobre as profissões mais frequentes

entre as deputadas eleitas, estão empresárias

(11), seguido de professoras

(6), advogadas (6) e médicas (5). Ao

passo que entre as novas senadoras, há

duas advogadas, uma pedagoga, uma

empresária e uma jornalista. De acordo

com o TSE, entre as principais ocupações

das candidatas estão professoras, donas

de casa, empresárias e estudantes. “Foram

430 candidaturas de donas de casa,

mas apenas Dulce Miranda conseguiu

se eleger para o cargo de deputada federal,

pelo PMDB de Tocantins. O que

reforça a hipótese, sugerida anteriormente,

de que o recrutamento de donas

de casa serve apenas ao cumprimento

da cota”, diz a nota técnica.

“entre as

principais

ocupações das

candidatas estão

professoras,

donas de casa,

empresárias e

estudantes”

Revista Elas por Elas - Abril 2015


27

Dessa forma, sobre a escolaridade,

com nível superior completo estão

84,3% das deputadas eleitas e 80%

das senadoras. Apenas uma senadora

tem nível superior incompleto e uma

deputada não terminou o ensino fundamental.

ARQUIVO PESSOAL

Raça: desigualdade

ainda maior

Além da sub-representação de gênero,

também chamou a atenção a

grande desigualdade de “raça”/cor na

legislatura eleita neste ano. As candidaturas

ao cargo de deputada/o federal

significam 41% de candidatos do sexo

masculino e brancos, as mulheres brancas

foram 17,4%, ao passo que os homens

negros correspondem a 6,2%

das candidaturas e as mulheres negras

um percentual de apenas 3,7%.

Para o demógrafo e professor da

Escola Nacional de Ciências Estatísticas

(ENCE/IBGE), José Eustáquio Diniz

Alves, a situação é bem melhor do que

há 30 anos, antes do processo de redemocratização,

mas ainda falta um

longo caminho para se atingir a equidade

“racial” e de gênero. Uma ampla

reforma política poderia mudar o quadro

desigual das instituições representativas

da república brasileira”, afirma.

Os dados preliminares do TSE indicam

que, entre as/os 513 deputadas/os

eleitas/os, 410 (79,9%) se autodeclararam

brancas/os, 81 deputados

(15,79% ) se disseram pardas/os e 22

(4,29%), pretas/os. “O que demonstra

que os negros (pretos + pardos) ficaram

apenas com 20% dos assentos da Câmara.

Assim, os pardos e pretos estão

também sub-representados na representação

parlamentar. Nenhum candidato

que se autodeclarou como amarelo

ou índio foi eleito para a Câmara dos

Deputados para a atual legislatura. As

pessoas que se autodeclaram amarelos

(orientais) possuem os melhores níveis

educacionais, mas não conseguiram

assentos no Congresso”, afirma o

professor.

Segundo ele, outro dado alarmante

diz respeito aos povos indígenas que,

mais uma vez, foram excluídos da Câmara

dos Deputados. “As mulheres indígenas

continuam sendo o grupo social

mais discriminado do país e há 500

anos sofrem com as consequências da

colonização portuguesa em terras tupiniquins

e com a violência real e simbólica

de gênero. A população indígena sofreu

um genocídio nos primeiros 300 anos

da história do Brasil, sendo hoje o

grupo populacional em pior condição

social e o mais excluído da política e

dos espaços de poder”, reforça.

Vera Soares coordenadora da

elaboração da nota técnica da SPM.

Mais mulheres

no Poder

De acordo com a nota técnica As

Mulheres nas Eleições de 2014, da

Secretaria de Políticas para as Mulheres

(SPM), o cenário decepcionante de candidaturas

e das eleições que continuam

excluindo a mulher e, em especial a

negra e a indígena, é um indicativo da

insuficiência do sistema eleitoral e político,

presente hoje no Brasil. “Esse sistema

necessita de mudanças urgentes

para incluir de forma efetiva as mulheres

na política, não só porque os partidos

políticos são comandados por

homens, mas também porque as candidaturas

femininas não são prioritárias

em termos do recebimento de financiamento

por falta de apoio partidário”,

diz a nota.

Para a coordenadora da elaboração

da nota técnica da SPM, Vera Soares,

Revista Elas por Elas - Abril 2015


28

ainda não alcançamos a paridade de

gênero na política, nos espaços de poder,

porque a cultura brasileira é machista

e discriminatória. “Esta cultura

patriarcal que isola as mulheres do

mundo da política está refletida nos

partidos que, por sua vez, não têm a

mínima preocupação em mudar esta

realidade. Não incentivam as mulheres

a participar, não compartilham estes

espaços e não se incomodam com a

pequena representação feminina nos

poderes, pois já está naturalizada a exclusão

da mulher também no mundo

da política. Um contrassenso, pois ela

tem papel fundamental na economia e

inclusive nos movimentos sociais, dando

enorme contribuição para a transformação

deste país”, afirma.

Na avaliação de Vera Soares, não

há como votar em mulheres se elas

aparecem pouco, exatamente porque

os partidos não abrem oportunidades

iguais às oferecidas aos homens. “Os

partidos divulgam os candidatos que

querem eleger e na maioria das vezes,

aceitam as candidaturas femininas por

exigência da lei, apenas para cumprir

cotas. Assim, elas não têm visibilidade

e enfrentam muito mais dificuldades

como, por exemplo, obter recursos

para financiar suas campanhas”, destaca.

Segundo Vera Soares, a reforma

política com enfoque de igualdade entre

homens e mulheres, é o caminho para

mudar esta realidade. “Precisamos de

uma reforma política que inclua, por

exemplo, o financiamento público de

campanha e a mudança no formato

das listas de candidaturas apresentadas

pelos partidos políticos que contemple

a alternância de nomes entre homens

e mulheres, chegando à paridade entre

os sexos”, afirma. Ela reforça que é

necessário também estimular que as

definições internas dos partidos políticos

sejam tomadas em coletivos e não continuem

nas mãos dos chefes políticos,

que em geral são homens.

Vera Soares destaca ainda o papel

dos professores para a mudança dessa

realidade. “A escola, desde a educação

infantil, nas suas práticas educativas,

precisa estar atenta para não reforçar

estereótipos machistas, pois isso contribui

para o fortalecimento da política

patriarcal. E, no ensino médio, a escola

precisa ajudar as meninas a perceberem

que não precisam, necessariamente,

escolher apenas profissões que têm a

ver com cuidado e/ou educação como

enfermeiras, assistente social, professoras

e que podem ocupar espaços,

historicamente masculinos, como as

engenharias, a física, a matemática,

etc. Com certeza, a escola não é determinante,

mas pode reforçar estereótipos.

É preciso que crie um ambiente

de cultura, de respeito às diferenças,

que valorize a diversidade, uma

cultura igualitária. Com certeza, isso

vai contribuir diretamente para a igualdade

de gênero”, finaliza.

A historiadora Renata Rosa (foto) e

ex-candidata à deputada estadual por

Minas (PCdoB), em 2014, também

defende uma reforma política urgente,

pois considera que a luta por mais espaço

na política para as mulheres é

pesada e chega a ser cruel, em muitas

situações, uma vez que não só as

razões econômicas, sociais e culturais

impedem uma participação mais efetiva

NANCI ALVES

Revista Elas por Elas - Abril 2015


29

das mulheres na política. Na sua avaliação,

boa parte das mulheres desconhece

o funcionamento dos diferentes

sistemas eleitorais e as diversas maneiras

desenvolvidas para organização da participação

política no mundo. “O poder

é um domínio ainda ocupado hegemonicamente

por homens e essa condição

cria dificuldades para a disputa

feminina no processo. As mulheres

são tratadas como coadjuvantes: coordenam

as campanhas dos homens,

mobilizam, escrevem seus materiais de

divulgação, mas quando resolvem participar

como candidatas, dificilmente

têm apoio efetivo, com garantia de

tempo de TV, com financiamento necessário,

com a presença de quadros

militantes com experiência para coordenar

e acompanhar suas candidaturas.

São poucas as que podem contar com

uma estrutura básica para sustentar

sua experiência de disputa e assim fortalecer

sua atuação política de modo a

construir as bases para uma futura eleição”,

ressalta.

Desde 2009, Renata Rosa coordena

a Secretaria Estadual sobre a questão

da Mulher do PCdoB, em Minas Gerais,

e garante que “não é fácil organizar

essa luta, diante do abismo político

que naturaliza a sub-representação política

feminina e a dicotomia entre os

espaços públicos e privados para a

vida das mulheres, sem questionar suas

triplas jornadas de trabalho, o tempo

colossal gasto com o cuidado e manutenção

de seus lares, tantas vezes marcado

pela violência. Trabalho não remunerado

que sustenta e garante as

bases do sistema capitalista e da atuação

dos homens na sociedade, com suas

roupas limpas e passadas, com sua alimentação

garantida, com seus lares

administrados e seus filhos criados”.

Portanto, segundo a historiadora, o

debate sobre Reforma Política precisa

ser pensado sob o ponto de vista do

fortalecimento das mulheres neste processo.

“Reforma é uma palavra ampla

e pode nos jogar em uma armadilha.

Não desejamos qualquer Reforma, mas

uma reforma política que leve em consideração

o cotidiano feminino nas cidades

e pressuponha condições reais

de igualdade na disputa política. Desejamos

uma reforma política que elimine

a influência do poder econômico nas

eleições”, defende.

REFORMA POLÍTICA

DEMOCRÁTICA

Caminho para aumentar

a representação feminina

Alterar a desigualdade de gênero

na política é uma das propostas da

Coalizão Democrática para a Reforma

Política e Eleições Limpas. O movimento

propõe a instalação de uma

Constituinte Exclusiva para a consolidação

da mudança do sistema político

do país através de um projeto de lei de

iniciativa popular (PL nº 6.316, de

2013) encaminhado, ao Congresso.

A Coalizão reúne mais de 100 instituições

como Ordem dos Advogados do

Brasil (OAB), a Conferência Nacional

dos Bispos do Brasil (CNBB), a Central

dos Trabalhadores e Trabalhadoras do

Brasil (CTB), Conic (Conselho Nacional

de Igrejas Cristãs do Brasil), Movimento

de Combate a Corrupção Eleitoral

(MCCE), União Nacional dos Estudantes

(UNE) e Movimento dos Pequenos

Agricultores (MPA Brasil).

“A proposta é de um projeto de tramitação

ordinária, não implica em

emenda constitucional. É de iniciativa

popular, ou seja, não é de situação ou

oposição e sim algo que pretende ser

representativo de todos os segmentos

democráticos da sociedade. Procuramos

encontrar identidade em torno de

número pequeno de questões, mas que

são decisivas para destravar o processo

democrático brasileiro, para criar

um sistema de representação mais

identificado”, explica Aldo Arantes, exdeputado

na Constituinte de 1988 e

coordenador da Comissão Especial da

OAB de Mobilização para a Reforma

Política.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


30

Entre as propostas do projeto de

iniciativa popular, Aldo Arantes destaca

a que se refere ao financiamento de

campanha. “A influência do poder econômico

nas eleições, mais especificamente

o papel das empresas privadas

é um grave problema. Em 2014, o volume

de recursos foi de 5 bilhões de

reais; só para eleição de deputados federais

foi de 1 bilhão de investimento,

sendo que 77% foi contribuição de

empresa. E aí está a gravidade da situação.

A empresa contribui, mas

depois quer contrapartida”, ressalta

Aldo Arantes ao reforçar que o financiamento

de campanha por empresas

degrada o sistema político na medida

em que é o canal de corrupção eleitoral.

“O que vemos é essa situação produzir

uma mágica de conteúdo antidemocrático:

o poder do dinheiro faz com

que a minoria da sociedade, os poucos

que têm muito dinheiro, se transforme

em maioria no Congresso e a maioria,

ou seja, os professores, estudantes, trabalhadores

em geral, desempregados,

se tornem a minoria no Congresso.

Por isso, propomos a proibição do financiamento

de campanha por empresa

e propomos a adoção do financiamento

democrático: público, mas que permite

financiamento de pessoa física, desde

que limitado a R$700,00 por pessoa

e, na somatória, não mais de 40% da

contribuição pública”, explica.

Outro ponto importante do projeto

defendido pela Coalizão é o fim do sistema

de votação em lista aberta, com

a realização de eleições por um sistema

proporcional em lista pré-ordenada e

em dois turnos. “No primeiro, eleição

em torno de propostas do partido, de

ideias. E, no segundo turno, o eleitor

escolhe o seu candidato. Isso fortalecerá

ARQUIVO PESSOAL

os partidos, grandes ou pequenos, que

realmente têm representação da sociedade,

impedindo os tais partidos de

aluguel, reduzirá o custo das campanhas

e a quantidade de candidato, permitindo

uma efetiva fiscalização eleitoral. Com

base no quociente eleitoral você define

o número de candidatos e esse será o

objeto da escolha da sociedade, no segundo

turno”, explica.

E para aumentar a representação

feminina, o projeto de iniciativa popular

propõe a alternância de gênero na

composição da lista partidária, visando

garantir que 50% dos cargos sejam

ocupados por mulheres. De acordo

com Aldo Arantes, a paridade garantirá

um homem e uma mulher no primeiro

turno e, no segundo turno, o

eleitor escolhe.

Para Vic Barros, presidenta da União

Nacional dos Estudantes (UNE), uma

reforma política precisa estar sintonizada

com o problema da sub-representação

de parcelas significativas da população.

“Nós, mulheres, somos maioria da população,

mas temos pequena participação

na composição do Congresso. Os

pretos e os pardos também são maioria

e sua participação ainda é menor que a

das mulheres; assim como trabalhadores

e trabalhadoras do país. Vimos que

cresceu a bancada empresarial, do agronegócio,

etc. Precisamos de medidas,

do ponto de vista legal, que garantam

que a diversidade da nossa população

esteja representada no Congresso Nacional

por meio de uma reforma. Com

uma reforma política, acredito que daremos

um salto significativo para aproximar

o Congresso da identidade do

nosso povo”, afirma.

www.reformapoliticademocratica.org.br

Revista Elas por Elas - Abril 2015


31

Depoimentos de Deputadas Federais

Jô Moraes - PCdoB

ARQUIVO PESSOAL

Comecei minha atividade política

no movimento estudantil como participante

da Juventude Estudantil Católica.

Depois, fui presidente de Diretório

Acadêmico na Escola de Serviço Social.

Veio a ditadura e, no ambiente de perseguição,

fui presa e fiquei clandestina

por 10 anos. Quando veio a anistia,

pude retomar a atividade aberta. Naqueles

10 anos, militei no Partido Comunista

do Brasil, na ilegalidade. A

luta da juventude pela liberdade foi

muito forte em nosso país naquele período.

O cotidiano da vida política é

marcado por disfarçadas atitudes machistas.

As mulheres têm que se preparar

muito para que possam ser escutadas,

principalmente quando chegam

num ambiente novo. Quando uma mulher

fala, os homens escutam mais por

educação do que por respeito ao que

as mulheres dizem. Só depois de muito

tempo e comprovada a competência é

que elas passam a ser ouvidas. O

centro da minha luta está focada na

construção de um novo projeto nacional

de desenvolvimento que supere as desigualdades

e inclua as mulheres. Isso

exige mais espaços de poder; equidade

no trabalho; autonomia na família; e

incorporação das mulheres na economia

em melhores condições e com mais

qualificação. Esses aspectos têm que

vir acompanhados de políticas públicas

que garantam seus direitos sexuais e

reprodutivos, igualdade no trabalho e

apoio às mulheres vítimas de violência.

Todo mundo fala em reforma política,

mas há grandes diferenças nas propostas

que estão circulando. No âmbito

das demandas femininas, lutamos por

paridade e equidade, ou seja, por ter a

mesma proporção de homens e mulheres

nas cotas e vagas partidárias.

Demanda que está contemplada no

Projeto de Lei nº 6.316, de 2013,

elaborado por integrantes de mais de

uma centena de organizações da sociedade

civil, entre elas a OAB, a

CNBB, a UNE, a UBES. O mais importante

aspecto a ser garantido na

Reforma Política é livrar o voto da intervenção

do poder econômico.

dep.moraes@camara.leg.br

Bruniele Ferreira - PTC

Não venho de berço político, mas

sou casada com um ex-deputado estadual.

Vendo o exemplo do meu marido,

o compromisso que ele tinha e o belo

trabalho que ele desenvolvia, passei a

ARQUIVO PESSOAL

admirar o seu trabalho e achei que ingressando

na política poderia seguir os

seus passos e lutar por um país melhor.

Como apresentadora de TV, vivenciei

muitas situações e acredito que, por

meio da política, posso batalhar em

prol das pessoas mais carentes e mudar

o descaso com que são tratadas.

Até agora não tive obstáculos, pelo

contrário, fui muito bem recebida durante

toda a campanha, por onde passava.

Nós, parlamentares, sofremos

ataques e sabemos respeitá-los.

Sou favorável ao PL 3888, de

2012, que está pronto para ser pautado

em plenário e que proíbe o abrandamento

de pena nos casos de crimes de

violência doméstica e familiar contra

as mulheres. Além disso, a sub-representação

da mulher na política é um

fator que muito me preocupa e estarei

engajada na luta para mudar esta situação.

Tem também a PEC 590, de

2006, que obriga a Mesa Diretora da

Câmara e do Senado a ter em sua

composição ao menos uma mulher.

Considero que nós, mulheres, temos

e exercemos os mesmos direitos que

os parlamentares homens, mas é natural

que nós, mulheres, nos unamos, em

especial quando o assunto envolve as

políticas e programas direcionados para

as mulheres, como a aprovação da lei

Maria da Penha, a campanha do outubro

rosa e outros.

dep.brunny@camara.leg.br

Revista Elas por Elas - Abril 2015


32

Dâmina Pereira -PMN

Meu marido Carlos Alberto é quem

é o político. Ele já foi deputado federal

e prefeito, e eu sempre participei da

política ao lado dele. Ao mesmo tempo

ARQUIVO PESSOAL

em que acompanhei sua trajetória, me

dediquei à Secretaria de Assistência

Social de Lavras e realizei diversos trabalhos

que contribuíram bastante para

essa minha decisão de enfrentar, pela

primeira vez, uma vaga como deputada

federal. No caso da última eleição,

seria meu marido o candidato por Lavras,

mas, até mesmo por perseguições

políticas, ele decidiu não mais concorrer.

Percebendo essa injustiça e a importância

da causa, eu, como mulher,

companheira de uma vida inteira, decidi

enfrentar este novo desafio. Considero

que, apesar de concorrer na política

pela primeira vez, fui muito bem aceita,

justamente por ser mulher. Estou no

começo dos trabalhos na Câmara dos

Deputados e por enquanto também

não encontrei nenhuma rejeição. Na

Câmara dos Deputados há a Secretaria

da Mulher, que é uma estrutura institucional

que une a Bancada Feminina e

a Procuradoria da Mulher no Congresso

Nacional. Nesta Secretaria, tenho acompanhado

o trabalho das parlamentares

na luta pela promoção da igualdade de

gênero. Isto incentiva muito o meu

empenho na defesa dos nossos direitos,

na luta contra a violência doméstica,

na igualdade de salários, enfim, tantas

lutas e batalhas que nós precisamos

vencer e que, com certeza, serão causas

que irei defender. Meu dever como

parlamentar será legislar em defesa de

nossos direitos e levantar debates para

a sociedade.

dep.daminapereira@camara.leg.br

Raquel Muniz - PSC

Eu e meu marido, Ruy Muniz, hoje

prefeito de Montes Claros, fundamos

o PT em Montes Claros. Ele foi o primeiro

candidato a prefeito do PT na

cidade. Não foi eleito, mas logo depois

se elegeu vereador. Eu o acompanhei,

ajudando nos atendimentos do gabinete

e a resolver as demandas. Depois, foi

eleito deputado estadual. O ajudei neste

ARQUIVO PESSOAL

novo desafio e colaborei na cria ção/ela -

boração da Lei Estadual da Saúde do

Homem. Ruy, então, foi eleito prefeito

de Montes Claros e eu me tornei sua

chefe de gabinete, até o início de

2013. Neste período, ajudei a sanar

as demandas do município e percebi

que, como deputada federal, eu poderia

fazer muito mais pela minha região,

que é pobre. Quero mudar este quadro.

Com quase 100 mil votos, fui a deputada

federal mais votada de Minas,

além de ser a primeira mulher eleita,

pelo, norte Minas para exercer um

mandato federal. Os obstáculos foram

os normais, enfrentados por qualquer

candidato. Não me senti discriminada

por ser mulher. No entanto, sinto não

ter podido entrar antes na política,

em função das responsabilidades de

mulher, de jornada tripla de esposa,

mãe/dona de casa e profissional. É

preciso que as mulheres se conscientizem

do seu papel, que descubram que

política também é coisa de mulher e

que somos tão capazes quanto os homens.

É através da política que decidimos,

definimos que país vamos deixar

para as próximas gerações. Depois, é

preciso que os partidos apoiem as mulheres,

que não sejam apenas um número

para preencher a cota determinada

por lei. Na Comissão da Reforma

Política, da qual faço parte, vamos discutir

outras formas de ampliar a representação

feminina, como a questão do

número de cotas de mulheres a serem

eleitas, para que possamos vencer a

barreira dos 10% - 15% de representatividade

atual. Mas sem uma conscientização

das mulheres, as cotas ficarão

apenas no papel, como muitas

das nossas leis.

dep.raquelmuniz@camara.leg.br

Revista Elas por Elas - Abril 2015


33

Margarida Salomão - PT

Minha militância começou na universidade,

nos anos 1980, como professora

universitária e como liderança

sindical. Nos anos 1990, ingressei na

política acadêmica, como pró-reitora

e reitora, com um enfrentamento muito

grande aos governos tucanos e sua

concepção equivocada e perigosa sobre

o ensino superior. A partir desse

acúmulo, passei a militar também fora

ARQUIVO PESSOAL

da universidade, buscando mudanças

para além do quadro institucional. As

dificuldades de todas as mulheres militantes

que não derivam, nem são herdeiras,

de uma militância masculina.

Primeiro, tem que praticar uma quebra

de expectativa, porque o ambiente e

as relações interpessoais na política

são fundamentalmente masculinas. Em

segundo lugar, precisa convencer o

eleitorado de que, mesmo sendo mulher,

pode ser uma boa representante. A mulher

é desacreditada na política, muitas

vezes com apelo sexual, ou questionando

a sua capacidade, como o caso

das campanhas recentes extremamente

violentas sobre a Dilma e Graça Foster,

que tentam denotar que elas “não dão

conta” da função pública que assumiram.

Duas pautas são consensuais na

bancada feminina: o combate à violência

contra a mulher e a ampliação da participação

feminina nos espaços de poder.

Em relação à violência, a luta está

no campo microfísico, das microrrelações,

em casa. Por isso é necessário o

agravamento das penas e o cumprimento

da Lei Maria da Penha. Sobre

o empoderamento na política, eu defendo

a paridade de gênero. A pauta

feminina na Câmara hoje é uma pauta

subordinada, porque nós somos minoritárias

e dependemos da boa vontade

dos homens. Quando se pode ter o estupro

tratado como premiação, “você

não merece ser estuprada”, declarado

publicamente e impunemente na Câmara,

fica evidente que a nossa luta

pela garantia de direitos é enorme. Minha

contribuição é defender nossas

pautas, a ampliação e o aperfeiçoamento

dos nossos direitos, e ser contrária,

evidentemente, a todas as pautas

que tentam reintroduzir o poder patriarcal,

as quais devem reaparecer

com essa nova composição mais conservadora

da Casa.

dep.margaridasalomao@camara.leg.br

LUCIO BERNARDO JR. /C.D

Revista Elas por Elas - Abril 2015


34

Bancada Feminina da Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Rosangela de Oliveira -

PROS

Professora, orientadora e supervisora

escolar. É graduada em Pedagogia e

pós-graduada em Didática. Começou

sua carreira política em 2000, quando

foi eleita vereadora em Ipatinga (Vale

ARQUIVO PESSOAL

do Aço), reelegendo-se em 2004. Em

2010, foi eleita deputada estadual.

Participei desde cedo de movimentos

sociais e, mesmo antes de meu primeiro

mandato de vereadora em Ipatinga, já

trabalhava com entidades para a prestação

de serviços comunitários. Há

mais de 17 anos desenvolvo um projeto

social de capacitação e ensino profissionalizante

para jovens e adultos. Esse

trabalho me levou para a vida pública

porque acredito na boa política como

forma de transformar, para melhor, a

vida das pessoas. Conciliar a criação

dos filhos, de dona de casa e participação

política, realmente não é fácil.

Por outro lado, culturalmente ainda

enfrentamos muitos preconceitos, mas

estamos aqui para mudar essa história.

Considero que a reforma política com

a ampliação da participação da mulher

nos espaços de poder é a pauta mais

importante atualmente. Isso terá repercussão

em todas as demais pautas

e dará empoderamento para que as

mulheres reivindiquem, com mais força,

melhores condições de trabalho, saúde,

educação, etc. O que estamos realizando

na Assembleia de Minas é um fato histórico

e trará muitos resultados positivos.

Não basta apenas conquistar o espaço

como vereadora, prefeita, deputada,

presidente ou gestora de uma grande

empresa. É preciso atuar com vigor

nesses espaços e buscar o avanço na

igualdade de gênero.

dep.rosangela.reis@almg.gov.br

Geisa Gomes - PT

Assistente Social. Foi presidente da

Fundação CDCA (Centro de Desenvolvimento

da Criança e do Adolescente),

entre 2001 e 2008. É graduada em

ARQUIVO PESSOAL

Serviço Social e pós-graduada em Gestão

de Responsabilidade Social. É viúva do

ex-prefeito de Varginha, Mauro Teixeira,

eleito em 2000 e reeleito em 2004.

No ano 2000, meu saudoso esposo,

Mauro Teixeira, foi eleito prefeito de

Varginha, no Sul de Minas. Já tinha

participado de trabalhos em movimentos

de igreja e senti que seria uma oportunidade

de realizar o que tanto almejava:

um trabalho social e voluntário voltado

para crianças, adolescentes e famílias

em situação de risco social. Este trabalho

me encantou e me motivou a entrar

para a política. Acredito nas boas práticas

das políticas públicas como forma de

emancipação humana. O universo político

é constituído em seu grande percentual

por homens. A mulher tem que

provar a sua capacidade empreendedora

e fazer-se respeitar. Felizmente tive o

reconhecimento do meu trabalho de

forma incondicional. Todos me respeitam,

mas reconheço que existe um preconceito

arraigado contra a mulher na

política. Por isso precisamos buscar uma

maior participação e ter uma representatividade

verdadeira, cumprindo as cotas

de forma adequada e não apenas simbólica.

Apoio todas as pautas das mulheres.

São tantas! O assunto é amplo,

mas a representatividade dos movimentos

femininos precisa ser aumentada para

que tenhamos poder de reivindicação.

No meu mandato, pretendo apoiar as

causas femininas de várias formas.

dep.geisa.teixeira@almg.gov.br

Revista Elas por Elas - Abril 2015


35

Marília Campos - PT

ARQUIVO PESSOAL

Psicóloga. Militante do PT desde a

década de 1980. Nessa época, em

Uberlândia, iniciou a militância social

como integrante do movimento estudantil

e foi uma das fundadoras do PT

e da CUT na região. Presidiu o Sindicato

dos Bancários de Belo Horizonte

por dois mandatos (1990 e 1995). Foi

candidata a deputada estadual em 1998

e tornou-se vereadora por Contagem

em 2000. Em 2004, foi eleita a primeira

mulher a governar a cidade,

sendo reeleita em 2008.

Comecei no movimento estudantil.

Estávamos saindo do regime militar e

minha luta foi motivada para superar

os traumas desse regime. Os ambientes

e os espaços de poder são dominados

pelo mundo masculino. Então, isso,

por si só, é um constrangimento. Há o

jeito de fazer do masculino e o jeito de

fazer do feminino. E isso gera sempre

um certo conflito. Por isso que essa diversidade

é democrática, traz o debate

e contribui para consolidar um processo

democrático. A outra questão é que

ser mãe, dona de casa, ir a uma reunião

na escola do filho, estar na vida política

e no mercado de trabalho é bastante

complexo. Mas sempre fomos acostumadas

a trabalhar e isso é um desgaste

permanente, mas que, com a solidariedade

dos companheiros, com a divisão

de tarefas, se torna possível. Apoio

toda e qualquer pauta que lute contra

a discriminação, que seja de interesse

coletivo, que ajude a emancipar as mulheres,

que lute contra o preconceito e

a favor da inclusão das mulheres no

mercado de trabalho, nas políticas públicas

ou na política. Elas precisam

trabalhar, estudar, precisam de creches

e escolas infantis para seus filhos.

Quero lutar para que, no orçamento

do Estado, estejam incluídas rubricas

orçamentárias que promovam as mulheres.

E a polêmica referente ao corpo

da mulher, como o aborto, para mim,

é uma questão de saúde pública. Esse

tem que ser um direito assegurado à

mulher. Se ela fizer essa escolha, que

faça e tenha apoio do poder público.

dep.marilia.campos@almg.gov.br

Celise Laviola - PMDB

ARQUIVO PESSOAL

Advogada. Servidora aposentada

da Assembleia de Minas, é formada

em História, Filosofia e Direito e especializada

em Direito Público. Assumiu,

em 2015, seu primeiro mandato como

deputada estadual. Natural de Belo

Horizonte, é filha de José Laviola

Matos, que foi vice-prefeito e prefeito

de Conselheiro Pena, além de deputado

estadual em Minas Gerais por seis legislaturas

consecutivas. É cunhada do

ex-deputado estadual do PMDB José

Henrique (1956-2013).

Estou no meu primeiro mandato eletivo.

Mas minha família tem uma história

política muito bonita, pautada no trabalho

para o povo, sempre com transparência

e dedicação. Com o falecimento do

meu cunhado, minha família e o nosso

partido decidiu que meu nome seria o

mais viável para substituí-lo. Para ser

sincera, tenho que dizer que o fato de

ser mulher não foi obstáculo na minha

campanha. Meu partido me acolheu

com muito carinho e o os eleitores da

nossa região também. Como parlamentar

pretendo discutir e buscar soluções para

as demandas femininas, atenta aos problemas

da mulher e com um olhar

isento, sem discriminações.

dep.celise.laviola@almg.gov.br

Revista Elas por Elas - Abril 2015


36

Mirian Cristina - PT

ARQUIVO PESSOAL

Professora de história com MBA

em Gestão Pública e Responsabilidade

Fiscal. Filiada ao PT desde 2005, foi

secretária de Formação do partido em

Santa Luzia. Em 2012, foi candidata a

prefeita desse município pelo mesmo

partido, ficando em 2º lugar na disputa.

É irmã do deputado federal Miguel Corrêa

(PT) e atuou como coordenadora

de campanha do parlamentar desde o

primeiro mandato, a partir de 2007.

Em 2004, ingressei na vida política

e, a partir daí, fui coordenadora de diversas

campanhas do PT. Com isso,

me veio uma vontade muito grande de

fazer parte disso, mas de dentro, com

voz ativa. Fui candidata a prefeita de

Santa Luzia em 2012, onde obtive excelente

votação. Muitas vezes enfrentei

o machismo e o preconceito de alguns

homens que ainda acham que política

não é lugar de mulher, mas enfrentei,

principalmente, as dificuldades de ser

mãe e muitas vezes ter que deixar meu

filho aos cuidados de outras pessoas

para trabalhar e fazer política. A igualdade

de oportunidades, de salário, o

fim da violência doméstica e principalmente

das mulheres serem o que quiserem

sem o estigma do machismo. A

luta por mais espaço das mulheres na

política é essencial, para isso a política

de cotas será um grande avanço para

as mulheres já que democratizará o

acesso de nós, mulheres, aos cargos

políticos.

dep.cristina.correa@almg.gov.br

Ione Pinheiro - PMDB

Empresária. Assume em 2015 seu

primeiro mandato na Assembleia Legislativa

de Minas Gerais. Irmã do presidente

da ALMG e deputado estadual

ARQUIVO PESSOAL

Dinis Pinheiro, foi chefe de gabinete

durante o primeiro mandato do parlamentar,

na 13ª Legislatura, a partir de

1995. Também ocupou cargo semelhante

quando o outro irmão, Toninho

Pinheiro, se tornou prefeito do município

mineiro de Ibirité.

As motivações para ingressar na

vida política retomam a minha história

de vida. Tomo como exemplo os meus

pais, para quem o trabalho e o servir

ao bem comum sempre estiveram presentes.

Sedimentada nesse alicerce familiar,

percorri o caminho que me

trouxe a esse momento atual. Como

em toda profissão, a vida política requer

compromisso, renúncias e o aprendizado

da conciliação. Ser mãe, esposa,

trabalhadora é sempre um desafio para

qualquer pessoa, e para a mulher, pela

grande expectativa de transformação

e superação de preconceitos, a missão

é mais árdua. Diante dessa realidade,

na Assembleia, buscamos ocupar o

nosso espaço, por meio da bancada

feminina, e apresentamos à Mesa Diretora

a proposta de criação de uma

comissão especial para promover a

participação da mulher na política. A

minha atuação está pautada na verdade

e transparência, o meu engajamento

em medidas que alcancem melhorias

para todos, a minha disposição em

ouvir e conhecer cada vez a necessidade

do outro, certamente me conduzirão a

lutar para que não só a mulher, mas

todos indistintamente possam ascender

à condição de dignidade com a superação

das dificuldades que ainda remanescem

em nossa sociedade.

dep.ione.pinheiro@almg.gov.br

Revista Elas por Elas - Abril 2015


37

Arlete Gonçalves - PTN

Participo da vida política há muitos

anos, sendo que nosso grupo político

elegeu pela terceira vez o meu irmão,

Wellington Magalhães, vereador de Belo

Horizonte. Minha motivação para entrar

ARQUIVO PESSOAL

na vida política foi o fortalecimento

desse grupo, que trabalha sério em prol

da qualidade de vida do nosso povo.

Trabalhando sempre muito próximo

à comunidade, nunva tive problemas

quanto à discriminação por ser mulher

e garanto que, na base, as mulheres

são muito ativas. A campanha eleitoral

é que é um grande obstáculo. Disputei

duas eleições e enumero a desigualdade

de financiamento, as distâncias territoriais

e a infidelidade partidária como grandes

desafios para se chegar até aqui.

Não considero que uma parlamentar,

pelo fato de ser mulher, tenha obrigatoriamente

atuação dferenciada da atuação

de um político do sexo masculino.

Acho que depende do perfil de atuação

de cada parlamentar. Algumas mulheres,

inclusive, militam em setores dominados

por homens e se dão muito

bem. No setor social e comunitário

em que milito, não vejo diferença na

atuação de homens e mulheres. Já no

que diz respeito aos mandatos eletivos,

principalmente no Executivo, as oportunidades

ainda são desiguais. Acredito

que, agora com mandatos voltados

preferencialmente à defesa dos direitos

das mulheres, nós temos muito mais

a acrescentar do que eles.

Coloco meu mandato à disposição

de todas as causas justas que venham

a evidenciar a grande contribuição que

as mulheres podem e irão acrescentar,

não só na política, mas também em

todas as áreas de desenvolvimento de

um país melhor".ø

LÚCIO BERNARDO JB/C.D

Revista Elas por Elas - Abril 2015


8 de março de 2015 - Comemorações pelo Dia da Mulher em Nova York

foto UN WOMEN - J CARRIER


39

Pequim+20

Igualdade de gênero: uma promessa

ainda não cumprida

ENTREVISTA

NADINE GASMAN

Duas décadas após a 4ª Conferência

Mundial sobre a Mulher, realizada

em Pequim (Beijing), em 1995, os desafios

para a igualdade de gênero em

todo o mundo continuam. “É possível

identificar um progresso significante

nas diferentes áreas de preocupação da

Plataforma de Pequim, porém ainda

não é suficiente. Ainda há muitos desafios

a serem superados para conquistar

a igualdade política, econômica e

social de gênero”, afirma a representante

da ONU Mulheres no Brasil, Nadine

Gasman.

A Conferência Mundial sobre a Mulher

de Pequim teve a presença de

17.000 participantes, 30.000 pessoas

assistiram ao fórum de ONGs e resultou

em um acordo entre 189 governos

que adotaram a Declaração e a Plataforma

de Ação de Pequim de 1995. A

Plataforma prevê ações pela igualdade

de gênero e eliminação da discriminação

contra mulheres e meninas. O docu-

mento lista 12 pontos prioritários de

trabalho, além de ações detalhadas

para alcançar seus objetivos estratégicos.

Uma promessa ainda não cumprida,

segundo a ONU Mulheres, que coordena

a Campanha Pequim+20.

Para Nadine Gasman, a violência

contra a mulher é um dos maiores desafios

a serem enfrentados. “Os presentes

esforços para reduzir a violência

contra as mulheres não são suficientes.

É preciso ter em mente que esse problema

cria desafios de curto e longo

prazo, por isso a educação e as políticas

públicas devem ser inovadoras e ousadas

para promover o respeito de todos os

direitos humanos e das mulheres”.

Uma comissão com representantes

de várias partes do mundo revisa a Declaração

e Plataforma de Ação de Pequim

e faz um balanço sobre os avanços

e desafios para a igualdade de gênero

e o empoderamento das mulheres, desde

a implementação do documento.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


40

Elas por Elas - 20 anos após a

histórica 4º Conferência Mundial de

Mulheres, em Pequim, quais os avanços

e desafios para a igualdade de

gênero e empoderamento das mulheres

no mundo e no Brasil?

É possível identificar um progresso

significante nas diferentes áreas de

preocupação da Plataforma de Pequim,

porém ainda não é suficiente. Ainda

há muitos desafios a serem superados

para conquistar a igualdade política,

econômica e social de gênero. A Plataforma

de Pequim permanece muito

atual no sentido de orientar os governos

e as sociedades a conquistar a

igualdade substantiva e eliminar a discriminação

contra mulheres e meninas.

Mas, infelizmente, nenhum país

atingiu esse objetivo até hoje. As mulheres

ainda ganham salários menores

que os dos homens de mesma idade e

nível de instrução e estão mais propensas

a empregos de baixa qualidade.

No mundo, um terço das mulheres já

sofreu violência física ou sexual e 800

mulheres morrem por dia durante o

parto devido à falta de assistência médica

adequada ou porque não têm direitos

reprodutivos garantidos.

Das doze áreas temáticas que

foram abordadas na Plataforma de

Ação de Pequim (Mulheres e pobreza;

Educação e Capacitação de Mulheres;

Mulheres e Saúde; Violência

contra a Mulher; Mulheres e Conflitos

Armados; Mulheres e Economia;

Mulheres no Poder e na liderança;

Mecanismos institucionais para o

Avanço das Mulheres; Direitos Humanos

das Mulheres; Mulheres e a

Mídia; Mulheres e Meio Ambiente e

Direitos das Meninas) quais mais

precisam avançar?

Nós temos um desafio urgente de

construir mecanismos institucionais

para assegurar que homens e mulheres

sejam igualmente representados na política

e na tomada de decisões, nos

níveis global, regional e nacional, nos

setores público e privado. A economia

também é uma área de profundas desigualdades.

As mulheres ainda encontram

maiores dificuldades que os homens

para conseguir empregos. Além

disso, no mundo todo, mulheres ganham

um salário de 10 a 30% menor

que homens com a mesma idade e

nível de instrução, o que reflete que a

contribuição das mulheres para a economia

é subestimada. Por exemplo:

quando empregadas, as mulheres apresentam

maior tendência de investir em

suas famílias e comunidades. Esses esforços

reduzem a fome, a pobreza e a

desnutrição.

Além de tudo, milhões de mulheres

correm o risco de contrair doenças sexualmente

transmissíveis e gravidez indesejada

devido aos escassos serviços

de saúde sexual e reprodutiva bem

como políticas de contracepção inadequadas.

Mas a violência contra as mulheres

talvez seja a área de maior preocupação.

Muitos países não têm políticas

públicas que incentivam a mudança de

SÉRGIO ALMEIDA

Revista Elas por Elas - Abril 2015


41

comportamento para que mulheres e

homens tenham o direito de viver livres

de violência e fazer progressos para

acabar com a violência de gênero. Os

presentes esforços para reduzir a violência

contra as mulheres não são suficientes.

É preciso ter em mente que

esse problema cria desafios de curto

e longo prazo, por isso a educação e

as políticas públicas devem ser inovadoras

e ousadas para promover o respeito

de todos os direitos humanos

e das mulheres.

Qual balanço a ONU faz sobre a

situação das mulheres no Brasil?

O Brasil é um país em que a desigualdade

de gênero, raça e etnia é um

elemento estrutural da sociedade, por

isso a necessidade de se construir estratégias

que promovam o combate às desigualdades.

A sociedade brasileira tam -

bém apresenta um perfil racista, sexista

e patriarcal, o que dificulta a inserção

da igualdade de gênero no senso comum.

Outro problema grave é a violência

contra as mulheres. Estima-se que

entre 2001 e 2011 ocorreram mais de

50 mil feminicídios. Por outro lado, as

políticas brasileiras de cotas e combate

à pobreza afetaram as mulheres positivamente,

permitindo que suas famílias

tenham maior acesso à alimentação, à

saúde e à educação, o que é essencial

para a conquista dos direitos da mulher

e da igualdade de gênero. Além disso,

98% dos brasileiros já conhecem a lei

Maria da Penha, o que torna a população

mais consciente da gravidade da

violência doméstica.

A sra. acredita que as reflexões

sobre a Pequim+20, no momento

em que os países buscam alcançar

os Objetivos de Desenvolvimento

do Milênio, com meta até 2015,

pode ser uma boa oportunidade

para estabelecer uma agenda que

beneficie a luta das mulheres por

mais igualdade?

Sim, é uma excelente oportunidade.

Uma das propostas para os Objetivos

de Desenvolvimento Sustentável é justamente

aprofundar o compromisso

dos países em relação à igualdade de

gênero, a garantia de todos os direitos

humanos das mulheres e o empoderamento

das mulheres. Também é uma

oportunidade para integrar a questão

de gênero na agenda pós-2015, assim

transversalizando essa perspectiva em

todos objetivos, metas e indicadores. Estamos

trabalhando no processo de consulta

pública em nível nacional para

assegurar que as lacunas sejam preenchidas

tanto no Brasil quanto nos

outros países do mundo. As mulheres

são 51% da humanidade e a igualdade

de gênero é um tema transversal a

todas as áreas e setores, o que significa

que conquistar a igualdade de gênero

é essencial para atingir os Objetivos

de Desenvolvimento Sustentável. A evidência

de que empoderar mulheres

significa empoderar a humanidade é

que as economias crescem mais rápido

“conquistar a

igualdade de

gênero é essencial

para atingir os

Objetivos de

Desenvolvimento

Sustentável”

quando as famílias têm acesso garantido

à saúde e à educação. A nova agenda

de desenvolvimento precisa abordar a

questão da desigualdade de uma maneira

muito mais sistemática para preencher

as lacunas entre a desigualdade

de gênero e as outras áreas de desenvolvimento.

Qual o papel da ONU no debate

e ações sobre a Pequim+20?

A ONU Mulheres está trabalhando

para que a igualdade de gênero seja

integralmente refletida nos Objetivos

de Desenvolvimento Sustentável bem

como em qualquer plataforma que venha

a ser adotada. O vigésimo aniversário

da Plataforma de Pequim é uma

oportunidade para renovar compromissos

e interesse político, preencher

as lacunas e mobilizar a população

global em busca de um objetivo comum.

A 59ª Sessão da Comissão sobre a Situação

da Mulher (9-20 de Março de

2015) foi organizada pela ONU Mulheres

em Nova York para reunir Representantes

de Estados-Membros, Entidades

da ONU e Organizações Não-

Governamentais de todos os cantos

do mundo. O assunto central dessa

sessão foi a Declaração e Plataforma

de Ação de Pequim, incluindo os atuais

desafios que afetam sua implementação

e a conquista da igualdade de gênero e

do empoderamento das mulheres. A

comissão avalia o progresso feito desde

a implementação da Declaração e Plataforma

de Ação de Pequim, 20 anos

após sua adoção na Quarta Conferência

Mundial para as Mulheres, em 1995.

A revisão, chamada de Pequim+20,

também incluirá os resultados da 23ª

Sessão Especial da Assembleia Geral

da ONU, que determinou iniciativas e

ações para a igualdade de gênero.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


42

HOMENAGEM

POR CECÍLIA ALVIM

ARQUIVO PESSOAL

“Uma mulher

impossível”

Rose Marie Muraro superou diversas barreiras

em defesa da emancipação feminina

Revista Elas por Elas - Abril 2015


43

Uma mulher que “enxergava” à

frente de seu tempo, que “via” longe,

mesmo sem enxergar… Assim era Rose

Marie Muraro, escritora e feminista

brasileira, que faleceu em junho de

2014, aos 83 anos. Intelectual que lutava

pela igualdade de direitos entre

homens e mulheres, Rose Marie foi

reconhecida pela Lei 11.261 de 2005,

durante o governo Lula, como Patrona

do Feminismo Brasileiro.

Rose Marie nasceu no Rio de Janeiro,

em 1930, com uma visão muito

baixa e que piorou ao longo dos anos

até ficar cega nos últimos tempos. No

entanto, essa limitação não a impediu

de viver uma vida intensa e militante

em prol de um mundo mais justo e

igualitário. Sua trajetória sempre marcada

pela defesa da emancipação feminina

repercutiu fortemente no Brasil

do século XX. Sua atuação no movimento

feminista e sua extensa obra

propagaram conceitos libertários que

foram sementes de mudanças que atingiram

a realidade das mulheres brasileiras

desde a década de 60 até hoje.

“A minha militância começou em

meados da década de 40 quando tomei

consciência da injustiça social”, relatou

Rose Marie em um memorial, disponibilizado

por sua filha, Tônia Muraro,

para essa reportagem. Rose participou

do movimento estudantil desde o ensino

médio. Escreveu o primeiro número

do jornal Roteiro da Juventude, da Juventude

Estudantil Católica (JEC). “Foi

aí que me lancei no mundo. E já não

me interessava mais ser feliz e sim

fazer o que tinha que ser feito. Minha

vida se abria para algo maior que ela

mesma”, contou Rose.

Em 1949, entrou para a Universidade

do Brasil (hoje UFRJ) para estudar

Física. “Eram cerca de 70 homens e

umas dez mulheres. Fui recebida por

eles com grande susto porque era a

mais jovem e tinha passado em primeiro

lugar, vinda de um colégio de freiras

desconhecido. Foi aí que tive conhecimento

das outras classes sociais. Saí

de um mundo elitista para um mundo

misturado, porque a nossa era uma

universidade pública”, relatou Rose.

Inquieta militante

Participou da Campanha o “Petróleo

é Nosso”, na época da Fundação

da Petrobras. “Eu estava começando a

participar de movimentos políticos,

mas ainda estava muito ligada à minha

vida pessoal, porque já casada, tinha filhos

pequenos a quem adorava, embora

detestasse minha vida de casada”,

contou, sem constrangimentos, em seu

memorial.

Da experiência da vida de inquieta

militante para o início do trabalho

como editora e difusora de novas ideias,

se passaram três décadas. Em 1961,

com 31 anos, começou a trabalhar na

Editora Vozes. A partir de então, Rose

escreveu 40 livros e editou cerca de

“E já não me

interessava mais

ser feliz e sim fazer

o que tinha que ser

feito. Minha vida se

abria para algo

maior que ela

mesma”.

1.600 títulos. Atuou na Vozes por 17

anos, onde foi diretora junto com o

teólogo Leonardo Boff, e também na

Rosa dos Tempos, única editora dedicada

ao Estudo de Gênero na América

Latina, entre os anos de 1990 e 2000.

Em 1966 saiu o seu primeiro livro,

A Mulher na Construção do Mundo

Futuro, que vendeu dez mil exemplares

em três meses. Em 1968, escreveu

sua segunda obra: Automação e o Futuro

do Homem, e em 1970, Libertação

sexual da Mulher, ambas pela

Editora Vozes.

Vigiada pelos militares

Em 1971, Rose Marie trouxe ao

Brasil a estadunidense Betty Friedan,

considerada uma das feministas mais

influentes do século XX, vinda essa

que gerou grande repercussão na opinião

pública da época. “Foram três

dias de loucura. Quando ela foi embora,

parecia um país devastado e os militares

me vigiaram durante seis meses”, comentou

Rose. Segundo ela, a visita de

Betty inaugurou um novo tempo na

história feminista brasileira.

Hildete Pereira de Melo, professora

de Economia da Universidade Federal

Fluminense e ex-assessora da Secretaria

de Políticas para as Mulheres, conheceu

Rose na década de 70, período de

efervescência do feminismo no Brasil.

“Ela era extremamente inteligente, alegre

e arguta. E muito avançada em

suas posições. Sua dificuldade física

nunca a impediu de realizar uma vida

política militante, baseada em uma

grande erudição”, disse.

Em 1975, Rose participou da fundação

do Centro da Mulher Brasileira.

Ainda nesse ano, os militares, por

Revista Elas por Elas - Abril 2015


causa da liderança feminista que Rose

havia se tornado, proibiram seus livros

classificando-os como pornográficos,

embora estivessem maciçamente sendo

adotados em escolas e universidades

brasileiras. “Falar de mulher naquele

período era difícil. A gente falava baixinho”,

conta Hildete.

ARQUIVO PESSOAL

Afastada da Igreja

Junto de Boff, Rose colaborou para

o surgimento de outro dos mais importantes

movimentos sociais do século

XX: a Teologia da Libertação. Por essa

atuação libertária e pela publicação,

por Rose, do livro Por uma erótica

cristã, ela foi afastada da Editora Vozes

em dezembro de 1986, junto com o

teólogo. “Esses movimentos nasceram

com o objetivo fundamental de promover

a equidade de gênero, a liberdade

de expressão e a democratização. Apesar

de termos sido excomungados da

Igreja Católica, e de termos nossos livros

proibidos durante o regime militar,

seguimos trabalhando incansavelmente

com esses movimentos e seus conceitos

até os dias atuais” relatou Rose em

seu memorial.

“Mesmo com sua formação religiosa,

ela irradiava essa perspectiva de libertação

da mulher, até mesmo na questão

da sexualidade, de não suprimir os próprios

desejos. Ela acreditava no amor

sem amarras”, destacou Hildete Pereira.

“Seu maior legado foi promover a reflexão

sobre a condição feminina e a

sociedade patriarcal, que oprime mulheres

em todo o mundo”, completou.

Em 1985, Rose foi membro fundador

do Conselho Nacional dos Direitos

da Mulher, órgão ligado ao governo

federal, que conseguiu inserir na Constituição

de 1988 alguns dos itens mais

progressistas em âmbito internacional

sobre a condição da mulher. Em 2003,

voltou ao Conselho, nomeada pela

Presidência da República, por notório

saber em matéria de gênero.

Valores femininos

Em 1983, publicou A Sexualidade

da Mulher Brasileira: corpo e classe

social no Brasil; em 1990, Os seis

meses em que fui homem e, em 1992,

A Mulher no Terceiro Milênio. Em

1999, publicou ainda Memórias de

Uma Mulher Impossível, sua autobiografia.

Em 2002, trabalhando novamente

em parceria com Leonardo Boff,

publicou Masculino/Feminino: uma

nova consciência para o encontro das

diferenças. Em 2010, teve seu último

livro publicado: Reinventando o Capital/Dinheiro,

que trazia uma visão feminina

para uma nova forma de economia

solidária.

“Ao contrário dos países desenvolvidos,

onde o movimento feminista só

tratava de gênero, o Brasil lutou e precisa

continuar lutando pelos três pilares

da opressão de homens e mulheres:

classe social, gênero e etnia. O feminino

ultrapassa a mulher assim como o masculino

também ultrapassa o homem.

Daí a possibilidade de se construir através

dos tempos, diversos femininos e

diversos masculinos. Mas, na minha

opinião, devido a experiência de gerar

e manter a vida humana vivida pela

mulher, acho que o mundo deveria caminhar

para esses valores ditos “femininos”,

como o cuidado, o altruísmo,

Revista Elas por Elas - Abril 2015


45

se quiser reverter o processo de destruição

a que foi submetido pelo patriarcado/capitalismo”,

alertou Rose

em seu Memorial.

Coragem de transgredir

Como conferencista, Rose deu mais

de 1.500 palestras no Brasil e no

exterior em várias instituições, sempre

disseminando ideias feministas. Preocupada

com a mudança possível através

da educação, Rose colaborou ativamente

com a formação na temática de gênero

de professores da rede estadual de educação

do Rio de Janeiro, entre 1998 e

2003. Uma poeta e mulher visionária,

que viveu do impossível, Rose sempre

dizia: “entre homens e mulheres deve

haver diferenças, mas não desigualdades”.

E ainda: “Eu mudei a cabeça de

várias gerações... Quem educa uma

mulher educa uma geração inteira...” ,

relata sua filha, Tonia Muraro.

Rose Marie recebeu diversas condecorações

por sua atuação na sociedade.

Em setembro de 1999, recebeu

o Troféu Teotônio Vilella como a mais

importante editora na resistência à Ditadura

Militar. Em junho de 2005, foi

indicada com mais cinquenta e uma

mulheres para o Prêmio Nobel da Paz.

Em abril de 2014, foi condecorada

pelo Itamarati com o grau de Oficial

da Ordem do Rio Branco.

Em 2009, fundou o Instituto Cultural

Rose Marie Muraro, para conservar

e difundir o seu acervo cultural. Um

dos projetos do Instituto, que hoje é

coordenado por Tonia Muraro, é a

criação da Biblioteca Rose Marie Muraro,

que pretende ser a primeira biblioteca

brasileira especializada em

estudos de gênero.

“A maior lição que minha mãe me

deu foi sua coragem de transgredir e

buscar a plenitude da vida. Rose

Muraro foi uma mulher transgressora

desde o dia em que nasceu. Foi condenada

à morte, à cegueira, a não ter

filhos, a não ler e nem trabalhar, mas

transgredindo as leis físicas e as do

homem, aprendeu a ler sozinha, começou

a escrever aos 15 anos, trabalhou

desde então, teve cinco filhos, foi militante

ativa e escritora de mais de

quarenta títulos. Estudou e pesquisou

ao longo de seus oitenta e três anos. E

ainda venceu duas vezes o câncer, mas

na terceira partiu deste mundo”,

conta Tonia.

Prêmio Rose Marie Muraro

“Intelectual notável, Rose Marie foi

uma mulher determinada em tudo, na

luta contra a barreira da cegueira, na

luta pelas suas ideias. Ela é um ícone

da luta pelos direitos das mulheres”,

disse a presidenta Dilma Rousseff, lamentando

a sua morte, em 21 de

junho do ano passado. Para homenagear

a escritora e reconhecer a atuação

de outras mulheres feministas históricas,

foi instituído o Prêmio Rose Marie Muraro

pela Secretaria de Políticas para

as Mulheres, da Presidência da República.

Em 28 de novembro de 2014,

receberam a premiação Clara Charf,

Herilda Balduino de Sousa, Lenira

Maria de Carvalho, Mireya Suárez,

Moema Viezzer e Neuma Aguiar.

O prêmio é destinado a mulheres

com mais de 75 anos que atuaram ou

atuam na vida pública nacional em

ações científicas, tecnológicas, culturais,

educacionais ou artísticas, em gestão

pública e privada, em movimentos sociais

e sindicais e partidos políticos.

Tem por objetivo reconhecer o papel

desempenhado pelas mulheres que lutaram

pela cidadania feminina, pela

ampliação dos direitos humanos das

mulheres e efetivação de mudanças na

sociedade brasileira.ø

ARQUIVO PESSOAL

Revista Elas por Elas - Abril 2015


46

ARTIGO

POR LUCIANA GARCIA DE OLIVEIRA

Em Gaza, nada a

comemorar

“Nós não podemos exigir que os

outros nos libertem se nós não somos

livres”. Foram essas as palavras expressadas

por Asma al-Ghoul, uma jovem

jornalista palestina cujos artigos

foram, por diversas ocasiões, editados

ou mesmo censurados em sua Terra

Natal, a Faixa de Gaza na Palestina. O

depoimento de Asma no documentário

Diaries, de May Odeh, pode ilustrar

bem a situação da mulher em Gaza,

muito além dos prejuízos causados pelo

bloqueio físico e econômico na região.

Nessa obra, May Odeh ultrapassa a

fronteira comum da abordagem dos filmes

sobre a questão internacional da

Palestina e investiga a fundo acerca

das angústias e frustrações das mulheres

que são obrigadas a viver sob os códigos

religiosos que, por diversas vezes, são

impostos contra a sua vontade.

May Odeh foi muito bem sucedida

ao expor um olhar crítico à imposição

política e religiosa, sem adotar vícios

Revista Elas por Elas - Abril 2015


47

foto ISTOCK

“Apesar do avanço

nas iniciativas

feministas, práticas

discriminatórias

prevalecem”.

maniqueístas, de forma a também evitar

observações de caráter discriminatório

e islamofóbico. Em Diaries, o

confronto ao uso do hijab (o véu islâmico)

aparece em respeito ao debate

sobre o modo como cada mulher lida

com suas concepções religiosas particulares.

Muito provavelmente, caso o

cenário do filme fosse outro, nas ruas

de Paris, por exemplo, a questão do

código de vestimenta islâmico não

seria tratada sob o ponto de vista da

imposição, mas sob o ângulo do sentimento

de resistência cultural.

Historicamente, muito embora o

grupo Hamas tenha entrado em cena

na Faixa de Gaza em decorrência da

primeira Intifada em 1987, foi após a

vitória nas eleições de 2006 que o

movimento de resistência nacional islâmico

deteve formalmente o controle

político, cultural e social na Faixa palestina

e trouxe consigo uma agenda

religiosa e militante, de modo a restringir

a rotina da juventude e sobretudo das

mulheres palestinas. O clima de censura

política e cultural aliado ao bloqueio

político e econômico imposto pelo governo

de Israel desde a incidência dos

ataques suicidas e o lançamento de foguetes

em algumas cidades israelenses,

impede até hoje que a economia na

faixa palestina seja autossuficiente,

pois todos os carregamentos e suprimentos

humanitários atualmente passam

necessariamente por minucioso

controle de Israel. O aumento do índice

de pobreza e miséria após o bloqueio

permitiu o aparecimento de inúmeros

túneis que, em sua maioria, ligam a

Faixa de Gaza ao Egito com fins de

comércio de alimentos, medicamentos,

materiais de construção e outras utilidades.

Ainda, através desses túneis irregulares

muitos palestinos e palestinas

de Gaza fugiam da região na esperança

de obter visto para outros estados através

do Egito ou na necessidade de

serem atendidos nos hospitais e pronto

socorros ou mesmo conseguirem estudar

nas escolas e universidades tradicionais

egípcias.

O permanente conflito com o Estado

de Israel, muito além do aumento do

extremismo, tem afetado diretamente

a vida de milhares de pessoas, principalmente

das mulheres palestinas. O

documento Social and Economic Situation

of Palestinian Women – 1990-

2003, produzido pela Organização das

Nações Unidas (ONU) em 2004, pôde

revelar por meio de estudos e dados

numéricos um quadro real da situação

Revista Elas por Elas - Abril 2015


48

enfrentada pelas mulheres palestinas,

com atenção à Faixa de Gaza, local de

grande periculosidade e muita insalubridade.

Ao longo do texto é mencionado

que a rotina permeada pela morte

repentina de alguns membros da família,

como filhos e maridos durante as chamadas

operações israelenses na região,

como as de julho de 2014, ocasionam

traumas profundos, difíceis de serem

superados. A perda abrupta de pessoas

próximas torna-se ainda mais crítica

quando essas mulheres passam a sobreviver

sem o provedor financeiro da

família, em uma situação em que são

obrigadas a exercer um papel diverso

daquele pela qual foram educadas.

Ainda é apontado que as mulheres

grávidas particularmente são o alvo

mais vulnerável do conflito e das punições

coletivas; a maioria das gestantes

é diariamente exposta a inúmeros tipos

de violência, ao estresse diário e a

gases tóxicos que, em última instância,

ocasionam abortos prematuros. Ao levarmos

em consideração que os índices

de fertilidade na Faixa de Gaza é um

dos mais altos do mundo, a região tornou-se

oficialmente a região mais densamente

populosa do planeta. A manutenção

das práticas tradicionais de

casamento entre mulheres muito jovens

é justificada pela sensação de segurança

fornecida pelo matrimônio, sobretudo

em tempos de conflitos e intensas convulsões

políticas e a preferência por filhos

do sexo masculino ainda é bastante

prevalecente dentro de um contexto

ainda muito conservador e patriarcal.

Em certa medida, essas questões explicariam

o alto índice de fertilidade

nessa estreita faixa palestina.

Normalmente o nascimento de cada

criança é muito comemorado, pois entre

os palestinos, cada criança que nasce

faz parte de uma campanha de resistência

cultural e política palestina frente

à crescente ocupação territorial e à supressão

da existência do estado palestino.

E, diante de famílias muito numerosas,

muitas mulheres passam a permanecer

em casa e a viver em função dos filhos

e do marido. Muito embora, atualmente

exista um maior número de universitárias

na Faixa de Gaza, o número ainda é inferior

em comparação à região da

Cisjordânia, por exemplo, cujo controle

vegetativo é maior, mesmo sob a permanente

ocupação militar 2 . O completo

e escandaloso isolamento de Gaza tornou

a região um terreno fértil para o aparecimento

de fundamentalismos tendentes

a limitar a vida e o cotidiano dessas

mulheres.

2. Os índices referentes ao aumento

do controle vegetativo na

Cisjordânia em detrimento da

Faixa de Gaza pode ser explicado

em função da Cisjordânia estar

mais próxima das cidades israelenses.

Mesmo sob controle militar,

muitas palestinas ainda têm

acesso aos hospitais israelenses,

referência em inúmeros tratamentos.

Ainda, muitas palestinas

da Cisjordânia estudam em escolas

e universidades mistas e

laicas ou mesmo nas instituições

israelenses, o que permite que

as mulheres dessa região tenham

um maior acesso a uma educação

de ponta. A prioridade pela

carreira profissional faz com que

muitas mulheres da Cisjordânia,

principalmente das grandes cidades

como Ramallah, Haifa e

Nablus, passem a engravidar mais

tardiamente e terem menos filhos.

Frente ao progressivo cerceamento

da liberdade, as mulheres, consideradas

maioria tanto na Faixa de Gaza como

na Cisjordânia, redigiram conjuntamente

uma carta oficial em 1993, pela

qual puderam reafirmar solenemente

pela defesa da condição de igualdade

de gêneros e pela manutenção do secularismo

na esfera política, frente ao

tratamento dos assuntos concernentes

ao gênero. No texto do documento,

foram destacados trechos que aludiam

à imposição religiosa em Gaza, nesse

caso foi aclamado o “fim da legislação

discriminatória contra as mulheres” e

pelo “direito de poderem transferir a

cidadania palestina para os filhos e maridos”

no caso de matrimônio com homens

estrangeiros. A cidadania palestina,

até então, poderia tão somente

ser concedida através da figura masculina,

assim somente po deriam ser considerados

cidadãos pa lestinos os filhos

de pais palestinos ou caso a mulher

estrangeira fosse casada com um homem

palestino.

Apesar do documento ter sinalizado

um avanço nas iniciativas feministas,

muitas práticas discriminatórias ainda

são prevalecentes com relação às mulheres

na região. Ainda é bastante

comum homens se divorciarem de suas

esposas de maneira unilateral e obterem

preferência judicial pela guarda dos

filhos. Em muitos casos, a mulher passa

a viver sozinha, sem qualquer apoio financeiro

e a mercê da ajuda de parentes

e amigos. As denúncias sobre

diversas formas de violência doméstica

também são bastante frequentes, casos

de estupro, incesto e outras formas de

agressão e violência também figuram

nas estatísticas oficiais do mapa da violência

contra a mulher da Palestina na

Faixa de Gaza.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


49

Os impedimentos internos e externos

na rotina feminina em Gaza contribuíram

para que muitas mulheres

passassem a exercer papel ativo dentro

dos movimentos nacionalistas palestinos.

Atualmente é bastante comum encontrar

mulheres envolvidas em assuntos

políticos ao lado dos seus maridos,

filhos e irmãos, em inúmeras manifestações

de rua, sit-ins, na organização

de petições públicas e nos partidos

políticos palestinos. A progressiva politização

feminina possibilitou que as

bandeiras nacionais passassem a ser

diretamente relacionadas às reivindicações

de gênero.

Foi durante os acordos de paz de

Madrid, em 1991, que muitas lideranças

femininas invadiram o cenário que

antes estava ocupado, em quase sua

totalidade, por homens. Nessa ocasião,

um conselho de mulheres apresentou

ao Congresso Legislativo palestino uma

proposta de fixação de uma quota mínima

de um terço de mulheres no parlamento.

É estimado que a militância

feminina tenha aumentado vertiginosamente

em decorrência da segunda

Intifada, em 2000.

Mesmo sob condições bastante adversas,

como a falta de emprego, a

maioria das mulheres na Faixa de Gaza

pode ser considerada grande provedora

e militante política. Geralmente ocupam,

na maior parte dos casos, o setor da

educação, como professoras primárias

e universitárias, e o setor têxtil como

costureiras. E, mesmo obtendo salários

inferiores aos dos homens, ainda conseguem

dispor de tempo para o ativismo

político, seja nas manifestações contra

a ocupação, seja por intermédio da

linguagem escrita sob o ofício de escritoras,

poetisas e jornalistas. Vale ressaltar

que grande parte das mulheres

jovens de Gaza, mesmo vivendo abaixo

INTERNET

do nível de pobreza, aprenderam a se

comunicar em inglês e mantêm contato

frequente com outras ativistas estrangeiras

pela internet. Muitas inclusive

são bem avaliadas em cursos no exterior

e nos programas de pós-graduação,

mestrado e doutorado, mundo afora.

E, mesmo distante da Palestina, seguem

com o ativismo político na diáspora.

Diante da impossibilidade de viver

dignamente no que se tornou a Faixa

de Gaza, muitas mulheres passaram a

viver no exílio e muitas gerações nasceram

e ainda nascem no exílio, sem

ao menos conhecer sua terra natal.

Esse imenso refúgio passou a ser o

local onde as vozes femininas ecoam

pela reafirmação da identidade e pela

sua existência ao mesmo tempo em

que, quando sufocadas, gritam por socorro

e atenção. A mulher palestina

está em todos os lugares e em cada

canto do mundo existe um pouco da

Palestina, caberá a nós mesmos prestar

atenção e evitar que essas histórias

testemunhadas por tantas mulheres sejam

esquecidas e a existência da Palestina

continue a ser negada.ø

Luciana Garcia de Oliveira

Pós-graduada em Política e Relações

Internacionais pela Fundação

Escola de Sociologia e Política de

São Paulo (FESP), mestranda no

Programa de Estudos Árabes e Judaicos

do Departamento de Letras

Orientais da Universidade de São

Paulo (DLO-USP), integrante do

grupo de pesquisa “Conflitos Armados,

Massacres e Genocídios da

Era Contemporânea” da Universidade

Federal de São Paulo (UNI-

FESP) e pesquisadora associada da

Interdisciplinary Research Network

on Latin America and the

Arab World (RIMAAL). Email: luciana.garcia83@gmail.com.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


50

DIREITOS

POR SAULO ESLLEN MARTINS

fotos SAULO ESLLEN MARTINS

Em busca de

um novo rumo

Vulneráveis às violências e perdas afetivas, essas mulheres

ainda conseguem dar a volta por cima

Revista Elas por Elas - Abril 2015


51

“Naquele dia, tudo parecia normal.

Acordei cedo e fui para o trabalho. De

lá, segui direto para a escola. Até aí,

nenhuma surpresa. Mas a minha vida

sofreria uma grande mudança de percurso.

Em algumas horas, tudo estaria

diferente. Sozinha, na rua, sem saber

para onde ir”. Tudo aconteceu há mais

de 30 anos, mas aquela noite ainda é

viva na memória da ex-moradora de

rua Anita Gomes dos Santos.

O ano era 1977. Naquele fim de

tarde, Anita deixou de seguir a sua

rotina habitual. Ao invés de pegar o

ônibus escolar e ir para casa, decidiu

acompanhar uma amiga até outro

ponto da cidade. Alguns acontecimentos

no caminho fizeram com que ela demorasse

muitas horas para chegar em

sua residência, o que mudaria a sua

história para sempre.

“Quando cheguei, me deparei com

papai na sala e um saco de linhagem

no chão, contendo todas as minhas

roupas e pequenos objetos. Não tive a

oportunidade de me explicar. Infelizmente,

recebi uma criação muito rígida

e com pouco diálogo”, lembra Anita.

Foi a primeira noite fora de casa.

Contudo, Anita não ficou na rua. Dormiu

na casinha dos cachorros. Conta

que passou a madrugada em claro,

sentindo muita dor e desespero. “Minha

vida era tra balho e escola. Eu era uma

menina, não tinha experiência de vida.

Nasci em uma família estruturada, re -

ce bi uma boa educação. Quando fui

expulsa de casa, eu tinha 17 anos, estudava

no Colégio Comercial, na região

da Pampulha e trabalhava na Escola

de Engenharia. Você acredita?”, comenta,

aos risos.

Anita perdeu o rumo, seu mundo

desmoronou. “Quando ia amanhecendo

o dia, então criei coragem e sai em

busca de um abrigo. Muitas portas se

fecharam. Tive uma vida de animal,

dormia no meio do mato. Só consegui

algum apoio quando conheci outras

pessoas em situação de rua. Me acolheram,

respeitaram e defenderam.

Com o surgimento da Pastoral de Rua,

recebi um acompanhamento social, assistência

mesmo”, enfatiza.

A educadora social Claudenice Rodrigues

acompanha a trajetória de muitas

mulheres na Pastoral de Rua de Belo

Horizonte. “A maioria da população

que está nas ruas é composta por homens.

Aqui na Capital mineira, dos

1.827 cidadãos nessa condição, cerca

de 20% são mulheres. No entanto, por

si só, o fato de uma mulher estar na

rua já é um elemento que dificulta ainda

mais sua sobrevivência. O risco de sofrer

algum tipo de violência é muito maior.

Devemos pensar que o fato de não ter

um lugar para cuidar da própria privacidade

é uma agressão, elas se sentem

humilhadas, expostas”, aponta.

Claudenice esclarece que outra

questão marcante é a degradação da figura

feminina. “Quando vemos uma

mulher em situação de rua, muitas

vezes, ela está em um estágio muito

avançado de perda da autoestima.

Com a questão do aumento do uso de

“Tive uma vida de

de animal, dormia no

meio do mato. Só

consegui algum apoio

quando conheci

outras pessoas em

situação de rua”

drogas, acontece também a prostituição,

para manter o vício”.

A educadora lida todos os dias com

esse público e consegue identificar diversos

fatores que provocam essa mazela

da sociedade. “Existe um mito social de

que todos que estão nas ruas chegaram

nesta situação por causa das drogas.

São muitos e relevantes dilemas pessoais

e coletivos que levam uma pessoa a

morar na rua. A questão das drogas é

só mais um. Os conflitos familiares, as

condições socioeconômicas, o desemprego

e a falta de estabilidade emocional

são outros”, afirma Claudenice.

Mães da Rua

A vida dos moradores de rua não é

nada linear, é uma população bem heterogênea

e já passou por diversos períodos

históricos. Entretanto, segundo

relatos, em todas estas fases, as mulheres

exerceram um papel central.

“Nós tivemos um período em que

as pessoas construíam malocas, barracas

debaixo dos viadutos, onde se

formavam comunidades chefiadas por

mulheres. Eram as chamadas Mães da

Rua. Os grupos se organizavam em

torno dessa mulher. Ela coordenava as

ações de organização e sobrevivência

e era tratada e respeitada como uma

mãe. Dona Ângela, Dalva, Geralda,

foram figuras marcantes para muitos”,

considera a educadora social.

“Não são apenas histórias tristes

que moram nos relatos que ouvimos.

As mulheres são bem peculiares, quando

aparece uma oportunidade de superar

essa situação elas agarram, planejam

e conseguem vencer, até com mais facilidade

do que os homens”. É o que

pensa Claudenice.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


52

Anita (foto) é um bom exemplo, depois

de décadas em situação de rua,

conseguiu superar os desafios. Hoje,

faz parte do Movimento Nacional da

População em situação de Rua e ajuda

outras pessoas com sua história de superação.

Ela conta que na rua se tornou

invisível, entrou no mundo das

drogas, sofreu com a violência de um

companheiro, foi separada de seus filhos,

caiu no rio Arrudas e quase morreu,

passou por todo tipo de

humilhação. “As pessoas passam e

nem te percebem. É como se você

fosse um objeto jogado ali na calçada.

É uma dor tão profunda que não tenho

palavras para expressá-la. Quantas

vezes recebi cantadas. Então eu dizia:

- Você pode me levar para a sua casa

para eu lavar minha roupa, tomar

banho... A resposta era sempre não!

Aprendi uma lição nessa caminhada.

Você pode descer do topo para o

fundo do poço, em uma fração de segundos.

Hoje, tenho minha casa, meus

lindos filhos estão comigo, mantenho

um relacionamento há 20 anos com

um ex-morador de rua. Recuperei a relação

com meu pai e sei que ele sente

orgulho de mim. Entro na casa do governador,

no Palácio do Planalto. Sou

uma vitoriosa. Construímos uma nova

história, bem mais bonita e feliz”, sintetiza

Anita.

“As pessoas passam

e nem te percebem.

É como se você fosse

um objeto jogado

ali na calçada”.

Políticas públicas

Egídia Maria de Almeida Aiexe é advogada

e atua em uma série de organizações

que defendem os Direitos Humanos.

O Fórum de População de Rua

e o Comitê Municipal de Acompanhamento

e Monitoramento da População

de Rua são algumas delas. De acordo

com ela, a temática das mulheres demorou

a ganhar espaço nos fóruns de

discussão sobre essa parcela da população

de Belo Horizonte. “Não tem sido

pensada uma política para esse público.

Como os números apontam para uma

maioria de homens, os projetos de abrigamento,

por exemplo, não são realizados

para receber mulheres. Então,

uma primeira questão seria criar unidades

de atendimento para mulheres solteiras

e casais também, ampliando esse setor.

Só existem dois abrigos na cidade para

elas”, complementa.

A promoção de ações de assistência

específicas é um outro ponto colocado

pela advogada. “No abrigo elas

apenas dormem, é necessário criar repúblicas

onde possam morar. Temos

apenas a república Maria Maria que

foi criada para recebê-las, mas a sua

capacidade é muito reduzida. Elas

estão em uma zona de extrema vulnerabilidade,

frisa Egídia.

Drogas

Uma questão muito discutida sobre

os moradores de rua é o consumo de

drogas. A advogada e militante Egídia

Aiexe destaca, contudo, que o álcool é

predominante, mas antes de qualquer

droga está o conflito familiar. “Geralmente,

esses rompimentos afetivos estão

na raiz de muitos problemas. Em

Revista Elas por Elas - Abril 2015


53

alguns casos, o álcool vem antes, em

outras situações é a consequência.

Nesse meio está, inclusive, a violência

doméstica. É difícil dizer se foi a droga

que levou uma pessoa para a rua ou se

foi na rua que ela se envolveu com os

entorpecentes”.

Um dado relevante, fornecido pela

advogada, contraria as manchetes de

muitos jornais e programas de televisão:

“Apenas uma parcela vai ter contato

com outras substâncias ilegais, mas

não é a maioria. Eles mesmos se dividem

entre os que fazem uso de drogas

ilegais e os demais. Os que trabalham

na rua, por exemplo, geralmente consomem

álcool e cigarro. Essas coisas

são usadas para suportar os sofrimentos

físicos, emocionais, etc”.

Claudenice Rodrigues, educadora social, acompanha

a trajetória de muitas moradoras de rua em BH.

Abandono

O caminho de Rosângela Pires começou

a se tornar sinuoso quando o

marido a deixou com uma filha, em

um barracão de aluguel. “Cheguei na

rua com a minha menina no colo. Peguei

apenas as nossas roupas e deixei

os móveis para trás, para pagar o aluguel

que eu devia. Conheci um pipoqueiro

e ele foi a primeira pessoa que

me ajudou. Eu estava desesperada,

chorando. O medo tomou conta de

mim. As coisas ruins não saíam da minha

cabeça”.

No dia seguinte Rosângela conseguiu

o endereço de um albergue. Ela nem

sabia o que era isso. Pensava que fosse

algo parecido com uma prisão. “Fui,

então, para o Tia Branca. Chegando

lá, vi aquela confusão, homens e mulheres

pra lá e pra cá. A minha maior

preocupação era com a minha filha

Amanda. Aos poucos fiquei mais tranquila,

conversei com as funcionárias

do lugar e passei a frequentar a casa

de apoio. Só que, lá, era apenas para

dormir. Eu tinha que encontrar um

lugar onde eu pudesse tomar banho,

lavar as roupas e fazer os cuidados

com a minha filha”.

Aos poucos, a ex-moradora de rua

fez algumas amizades, com pessoas

que já estavam na mesma situação.

Elas a levaram para outras instituições.

“Eu tinha que encontrar

um lugar onde eu

pudesse tomar banho,

lavar as roupas e fazer

os cuidados com a

minha filha”.

Depois disso, chegou a morar na casa

de apoio Maria, Maria. “Nesse processo

acabei colocando a minha filha na Febem,

porque eu não queria deixá-la na

rua. Quando ela tinha 4 anos, consegui

retirá-la. Foi aí que conheci o trabalho

da Pastoral de Rua. Depois de um

tempo, no dia do meu aniversário, eu

ganhei um presente que nem imaginava.

Os assistentes sociais me perguntaram:

– Rosângela, você quer um lugar para

morar? Era um barracão de um cômodo

na Pedreira Prado Lopes. Eu aceitei, é

claro! Para mim era um palácio! Nisso,

eu estou lá até hoje”.

Rosângela tem uma vida normal.

Mora com a filha, genro e netos. Mas

ela guarda algumas marcas desse período

em que esteve perdida, em busca

da sua própria identidade. Contraiu o

vírus HIV e deu três filhos para a adoção.

Um deles morreu, por também

ter desenvolvido a doença.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


54

“Quando vejo uma mulher passando

por tudo isso que já vivi, meu coração

enche de tristeza. Às vezes, busco até

ajudar, mas é difícil, tenho medo da

violência que rola. Tenho dó, principalmente,

quando são mulheres grávidas.

Dá vontade de pegar e levar para

a minha casa. Só eu sei o que passei.

Não é fácil. Com muita luta, consegui

sair dessa e dar um futuro digno para

a minha filha. Tenho 44 anos e muito

para contar”, explica Rosângela (foto).

No caso dessa ex-moradora de rua,

ela não teve condições financeiras e

emocionais para cuidar dos filhos, por

isso, optou por entregá-los a alguém

que lhes desse uma vida melhor. No entanto,

em algumas situações, as mulheres

não tiveram a chance de escolher. A

perda dos filhos trouxe ainda mais sofrimento

para vidas marcadas pela dor.

Maternidade

É difícil falar de mulheres e não

mencionar a maternidade. Em 2014,

duas recomendações da Promotoria

da Infância do Ministério Público trouxeram

novos elementos para esse debate.

Os textos recomendam aos hospitais

que os bebês de usuárias de

álcool e outras substâncias, como a

cocaína e o crack, sejam retirados das

mães e encaminhados para abrigos.

Até meados de janeiro deste ano, mais

de 150 crianças já foram afastadas de

suas mães. A população em situação

de rua tem sido afetada diretamente.

Formou-se um círculo, em que a

mãe que vai até a maternidade pode

sofrer uma medida compulsória por

parte da própria instituição de saúde.

Com isso, o Ministério Público e o Juizado

da Infância e Juventude determinam

o afastamento entre mães e filhos. No

hospital, a gestante passa por uma triagem

de verificação. Se ela estiver em

situação de rua, já é um indício de má

qualidade da saúde familiar. Também é

feito um questionamento sobre o histórico

do uso de drogas. Se constatada a

dependência, ela não vai ter chance de

conviver com seus filhos.

Egídia Aiexe relata que não está

sendo avaliado se o uso da droga realmente

incapacita essa mãe para cuidar

da criança. “Pode ser que ela faça o

consumo esporádico. Está sendo feita

uma generalização, violando o direito

do bebê e da mãe. A questão central é

o estereótipo, o preconceito que se

coloca sobre a mulher. É preciso avaliar

caso a caso para se chegar a uma decisão.

Além do mais, o estado tem que

fornecer ferramentas para que essa família

consiga superar as dificuldades,

que podem ser momentâneas”.

O Estatuto da Criança prevê que a

falta ou a insuficiência de recursos materiais

não pode, por si só, determinar

a perda da guarda ou do vínculo familiar.

Nesses casos, essas famílias devem ser

incluídas em programas de auxílio. A

legislação obriga o Estado a possibilitar

que aquela mãe tenha condições de

cuidar do filho. Para Egídia Aiexe, o

problema é que as mães não sabem

disso e as assistentes sociais das maternidades

também desconhecem essa

informação.

“Temos um outro problema que

são os abrigos. É um serviço de execução

indireta. São entidades que se cadastram

na Prefeitura para realizar o

serviço. Isso precisa ser repensado,

por que essa instituição não é acompanhada

pelos órgãos públicos, além

disso, não participam das discussões

Revista Elas por Elas - Abril 2015


55

públicas com os demais técnicos da

rede para pensar soluções sobre o

tema. Atua como um terceiro, com

sua lógica própria e isso não é saudável

para essa relação. O Município transfere

a responsabilidade, o que dificulta o

diálogo e o controle social sobre o serviço

que é prestado”, afirma Egídia.

Os principais atores dessa discussão

tem sido a Defensoria Pública e o Ministério

Público. “Nesse momento o

MP está dividido. Uma parte tem uma

visão muito autoritária e fascista. É um

fato ruim porque a instituição costuma

ser um defensor dos direitos humanos.

Mas, a verdade é que os procuradores

que tomaram essa decisão representam

uma parcela da sociedade que julga

essas mulheres de forma arbitrária e

acredita que retirar os filhos do seu

convívio é a melhor solução. Pensam

como um problema de Polícia ou de

Justiça e não de saúde pública ou de

políticas públicas, como nós entendemos”,

destaca Egídia.

Em contraponto à ação do Ministério

Público, a Defensoria Pública da União

e do Estado de Minas Gerais, por meio

de seus setores especializados em Infância

e Juventude e Direitos Humanos,

Coletivos e Socioambientais publicou

uma recomendação conjunta no sentido

de proteger essas mães e seus filhos e

evitar a quebra dos laços familiares.

Além disso, foi criada uma rede de profissionais

que estão em debate constante

sobre esses casos. O grupo reúne psicólogos,

assistentes sociais, advogados,

agentes de saúde, entre outros representantes

envolvidos nessa causa.

Uma das reivindicações desse grupo

é que a Defensoria seja comunicada sobre

os casos, assim como é feito com o

Ministério Público. Para que o processo

possa ser acompanhado desde o início.

Da maneira como tem sido feito o procedimento,

a Defensoria só é informada

quando a criança já está no abrigo.

“Estamos estudando formas legais, possivelmente

uma ação civil pública, para

que o Município atenda a essa mulher

que realmente tem dependência química,

de forma que ela não tenha que passar

pela perda da criança. Queremos, ainda,

dialogar com o Juizado da Infância. Estamos

correndo o risco de adoções sumárias,

o que pode ter ligações com o

tráfico internacional de pessoas”, reivindica

Egídia.

Esse debate coloca em foco a situação

das mulheres em situação de rua.

Não é uma questão de direito individual

apenas, envolve as demandas coletivas

e o aspecto conservador da sociedade

brasileira. Para a advogada Egídia

Aiexe, a educação em direitos humanos

é fundamental para mudar esse quadro

de preconceito e discriminação. “Precisamos

ensinar o que é democracia.

Pensar a realidade considerando que

ela tem vários olhares e perspectivas e

que cada um vai somar em um mesmo

espaço, construindo alguns consensos

e promovendo o debate a todo o

tempo, porque é assim que a humanidade

deve caminhar”.ø

“Para a advogada

Egídia Aieixe, a

educação em direitos

humanos é

fundamental para

mudar esse quadro

de preconceito e

discriminação”.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


56

SER MÃE

POR CECÍLIA ALVIM

fotos MARK FLOREST


57

Mães em

restrição de

liberdade

Mulheres

passam a

gravidez e

criam filhos

por um ano

dentro do

presídio

Um muro alto pintado de rosa parece

indicar algo diferente, mas um

guarda fortemente armado no portão

lateral confirma: ali é mesmo um presídio

feminino. Ao adentrar a instituição,

no entanto, é possível perceber

que lá não estão apenas mulheres, mas

também crianças bem pequenas e gestantes.

Roupinhas de bebê penduradas

no varal secam ao sol e colorem uma

cinzenta realidade: a do aprisionamento.

Assim é o Centro de Referência

à Gestante Privada de Liberdade,

localizado em Vespasiano, região metropolitana

de Belo Horizonte.

Abrigando atualmente 65 mulheres,

o local é destino de mulheres que

tiveram envolvimento com drogas e

crimes. Ali elas pagam suas penas em

condições um pouco mais dignas do

que em penitenciárias tradicionais. A

ideia é proporcionar um ambiente

mais saudável para que as crianças se

desenvolvam um pouco melhor dentro

e fora da barriga, que possam ser amamentadas

e reforcem o vínculo com

suas mães, condutas fundamentais no

primeiro ano de vida.

Neste presídio não há grades nem

celas. As mulheres dormem em alojamentos

coletivos e berços de ferro

ficam ao lado das camas. Há desenhos

nas paredes, brinquedos e utensílios

infantis. Crianças estão no colo de

suas mães ou de outras mulheres presas,

que se ocupam do cuidado

Revista Elas por Elas - Abril 2015


enquanto as mães trabalham na oficina

de fabricação de móveis ou na preparação

das refeições. Para ajudar na

cozinha, o histórico e o perfil da

mulher são avaliados. Elas recebem

uma remuneração pelo trabalho, que é

gerenciado pela direção do Centro

para compra de itens como fraldas e

produtos de higiene. Ao trabalhar, elas

ocupam suas mentes e reduzem o

tempo de aprisionamento. Para cada

três dias trabalhados, um dia é remido

em suas penas.

A alimentação, segundo a direção

do Centro, é definida por uma nutricionista,

em função das gestantes e bebês.

Atualmente, há 24 mulheres grávidas e

41 crianças com suas mães. Uma delas,

no colo de sua mãe, mama e faz valer

o seu direito e a recomendação da Organização

Mundial de Saúde para o

aleitamento exclusivo até os seis meses

de idade. O direito à amamentação é

cabível à mulher em qualquer situação,

mesmo que ela se encontre privada de

sua liberdade. Existem previsões legais

na Constituição Federal, bem como na

Lei de Execução Penal e no Estatuto da

Criança e do Adolescente. Ainda segundo

a OMS, o aleitamento deveria

ser mantido até os 2 anos de idade,

com alimentação complementar, realidade

que o Centro não contempla integralmente.

Mães 100%

As grávidas recebem visitas regulares

de uma equipe de saúde da Maternidade

Sofia Feldman para ter

acompanhamento pré-natal, e saem

escoltadas para ganhar seus filhos lá.

Depois, retornam com os bebês para

o Centro de Referência, onde eles

ficam até completar um ano de vida.

Esse é um momento difícil: a separação

das mães de seus pequenos.

“Quando estão lá com seus filhos,

antes e depois do parto, essas mulheres

são mães 100% do tempo. Meses

depois, quando os filhos saem, elas deixam

de exercer a função de mãe, o

que gera impactos imprevisíveis para

elas e seus bebês”, aponta o advogado

criminalista e professor universitário,

Virgílio de Mattos.

Essas crianças geralmente são entregues

aos cuidados de outras mulheres

da família: mães, irmãs, avós, tias,

primas. Segundo a diretora de Segurança

do Centro, Maurília da Silva

Gandra, 95% das crianças ficam com

seus familiares. “O Conselho Tutelar

averigua, com antecedência, as pessoas

indicadas pela mãe, para saber se

elas têm condições socioeconômicas e

psicológicas de assumir o cuidado dessas

crianças”. Há bebês, porém, que

Revista Elas por Elas - Abril 2015


não têm familiares interessados ou em

condições de assumi-los. Esses têm um

destino ainda mais triste e incerto: um

abrigo público da região, onde serão

cuidados por pessoas desconhecidas.

“A criança cuja mãe não tem respaldo

feminino em sua família, está fadada à

exclusão”, alerta Virgílio.

Embora com uma proposta positiva

de melhorar o ambiente de privação de

liberdade dessas mulheres-mães, o Centro

de Referência à Gestante Privada de Liberdade

é mais uma peça na engrenagem

do sistema prisional, marcado pela lógica

de severas punições previstas na legislação

penal brasileira, que atinge mais

fortemente mulheres e homens de classes

populares, e também seus filhos. “A

política de justiça social para o neoliberalismo

é o encarceramento em massa.

Essa lógica, oriunda dos Estados Unidos

e Inglaterra, está falida há mais de 30

anos”, aponta Virgílio de Mattos.

Diferença de gênero

Atualmente, segundo a Secretaria

Estadual de Defesa Social, há 2.983

mulheres presas em Minas Gerais.

Além do Centro de Referência à Gestante

Privada de Liberdade, há outras

unidades prisionais que recebem exclusivamente

mulheres em Minas Gerais:

Complexo Penitenciário Feminino Estevão

Pinto, Presídio Feminino José

Abranches Gonçalves, Presídio de Caxambú,

Ceresp Centro Sul e Presídio

de Paraopeba.

De acordo com os últimos dados do

Departamento Penitenciário Nacional,

do Ministério da Justiça, havia aproximadamente

540 mil presos no país em

2013, sendo mais de 32 mil mulheres.

Baseados nesses dados, e no aumento

expressivo de presas no país, o professor

Virgílio de Mattos faz uma projeção

de que em 2015 já haja mais de 700

mil pessoas encarceradas no país, e de

que apenas cerca de 8,5% delas sejam

mulheres, o que mostra uma acentuada

diferença de gênero nessa questão. Segundo

ele, mais de dois terços dessas

mulheres estão reclusas por ações relacionadas

ao comércio de drogas, muitas

vezes por influência de namorados,

companheiros, filhos e maridos.

“Quando eles são presos, elas passam

a tomar conta dos negócios”, comenta.

Histórias de

silêncio e sonhos

Roberta*, 35 anos, conta que estava

na “hora errada e no lugar errado...”

Cumpre pena porque foi pega

numa casa onde estavam pessoas envolvidas

com o tráfico de drogas. Mãe

de 10 filhos, ela diz que era usuária

desde os 15 anos, e que sempre saía

Revista Elas por Elas - Abril 2015


60

“A gente se apega e

depois é muito

duro separar do

filho da gente”.

de casa para “fazer uso” longe deles,

para não influenciá-los. Segundo ela,

nenhum tem o mesmo problema. Sua

tia sempre a ajudou a criar os filhos. O

mais velho tem 21 anos e o mais novo

está na barriga. Ela está grávida de 8

meses. O pai do neném que está sendo

gestado também está preso. Enquanto

tece o assento de uma bela cadeira,

que será vendida pela fábrica parceira

da oficina, ela sonha em tecer um futuro

melhor: “Saindo daqui, quero renovar

a minha vida, recuperar o tempo

perdido, viver para meus filhos”.

Maria*, 33 anos, também está grávida.

Seu quarto filho nascerá em

breve. Ficará entregue aos cuidados da

família, até ela cumprir o restante de

sua pena por envolvimento com drogas.

Ela diz que preferiria estar em um

presídio comum, onde as crianças são

retiradas das mães bem antes de um

ano de vida. “A gente se apega e depois

é muito duro separar do filho da

gente”, diz, com os olhos marejados.

Pede licença da sala onde acontecia a

oficina. “Preciso respirar. Passar por

tudo isso não é fácil...”, relata.

Joana*, 20 anos, troca a fralda de

uma bebezinha em cima de sua cama,

e está grávida de 8 meses. Ela explica:

“Essa é filha da minha irmã, que está

trabalhando na oficina. Estou cuidando

pra ela”. Não só ela e a irmã estão presas.

Seus bebês também estão ali, dentro

e fora da barriga. Outra irmã, o pai,

e o cunhado estão encarcerados também.

Sua história traduz a triste sina da

desigualdade social e racial que penaliza

famílias inteiras, sem perspectivas

de futuro. É possível perceber que um

número significativo de mulheres ali

são negras ou morenas.

Iara*, 23 anos, também é negra e

está gestante. Diz que sua prima ficará

com o neném quando nascer. “Ainda

não falei com ela por telefone, só por

carta. Mas ela vai cuidar dele sim, porque

gosta muito de mim”. Recém-chegada,

parece mais disposta que as

demais. Diz que quer que o tempo

passe logo, para ela ser transferida para

o presídio feminino em sua cidade, no

Triângulo Mineiro, onde mora seu filho

de 3 anos, que sonha poder ver com

frequência. “Estou com muitas saudades

dele”, diz emocionada. Ela quer

tirar fotos. “Vocês vão tirar fotos da

gente? É bom porque eu não tenho foto

de mim grávida”, pede e se ajeita para

mostrar a barriga. Ela quer ter uma recordação

de uma fase que é pra ser bonita

na vida da mulher, mas que é

diferente no caso dela e de tantas outras

que ali estão. As tradicionais fotos de

mulher grávida, cheia de roupas, adereços

e mimos infantis, dá lugar ao que é

possível: algumas breves poses, com o

uniforme branco e verde claro do Centro

de Referência. Ainda assim, o momento

guarda certa alegria, a da espera

maternal, da vida nova que se anuncia

nas curvas daquela barriga.

E nas curvas da vida, um futuro melhor

se aproxima para Antônia*, 34

anos. Sua espera já está perto do fim.

Chegou ao Centro há um ano e alguns

meses para cumprir o fim de sua pena.

Passou a gravidez e ganhou sua filha

Revista Elas por Elas - Abril 2015


61

lá. A menina já está com 1 ano e 2

meses. “Aqui é diferente de outro presídio

onde estive, porque posso ficar

com minha filha, cuidar dela”. Como

Antônia está prestes a “ganhar a liberdade”,

a direção permitiu que a menina

ficasse um pouco mais para sair

junto com sua mãe, prática que se repete

em casos semelhantes. “Quando

sair daqui quero colocar minha filha no

jardim, voltar a trabalhar”. Ela conta,

sorridente, que seu casamento também

foi realizado ali, no fim de 2014. Uma

cerimônia simples oficializou a sua

união com o pai da menina, com quem

já se relaciona há cerca de 7 anos. Segundo

ela, o marido a visita semanalmente

no presídio. Vai ver a mulher e

a filha, e levar um pouco do que elas

precisam: itens de higiene, afeto, carinho...

“Ele tá na luta comigo...”

Situação diferente de boa parte das

mulheres presas ali. Poucas recebem

visitas de seus maridos. “Geralmente,

quando o homem é preso, recebe

visitas regulares de sua mulher. Já a

mulher não costuma receber visitas de

seu companheiro, pois muitas vezes

ele está preso, com mandado de prisão

ou envolvido com atividades ilegais”,

analisa Virgílio.

[ nomes fictícios para preservar a identidade

* ]

das mulheres presas.

“Saindo daqui,

quero renovar a

minha vida,

recuperar o tempo

perdido, viver para

meus filhos”

Revista Elas por Elas - Abril 2015


62

Estigma da exclusão

Uma agente penitenciária mostra

um outro lado da história. Sob sua

ótica, boa parte dessas mulheres não é

tão maternal quanto parece. “Exercem

a maternidade integralmente apenas

enquanto estão aqui entregues a essa

função. Do lado de fora, agem diferente,

têm outras condutas que as distanciam

de seus demais filhos e de uma

vida tranquila”.

Ainda que o Centro de Referência

à Gestante Privada de Liberdade pareça

uma ilha no submundo dos presídios

brasileiros, uma dura realidade

salta aos olhos: os filhos dessas mulheres

são crianças que já nascem presas,

cumprem penas por ações e crimes

que não cometeram... E uma questão

fica no ar: qual será o destino delas? O

que o futuro reserva para quem já

nasce sob o estigma da exclusão?

Enquanto algumas mulheres esperam

o parto de seus bebês, outras

esperam, angustiadas, o dia em que

vão se separar de seus filhos, mas

todas, invariavelmente, esperam pelo

dia em que ganharão a tão sonhada

liberdade. “Liberdade − essa palavra, /

que o sonho humano alimenta: / que

não há ninguém que explique / e ninguém

que não entenda!”, versos da

poetisa Cecília Meireles, estampados

no muro rosado do pátio interno da

instituição prisional.

Especialista

defende anistia

Para Virgílio de Mattos, que é também

membro da Comissão Nacional

de Controle Social na Execução Penal

do Ministério da Justiça, uma medida

humanitária poderia mudar essa triste

história das mulheres presas gestantes

e mães. Uma revisão das penas impostas

a elas identificaria quais poderiam

cumprir penas sem restrição de liberdade,

para poderem gestar e criar seus

filhos longe da cadeia. “A maioria é ré

primária. Mais de 75% delas não cometeram

crimes com violência ou com

grave ameaça contra a pessoa. Há os

casos de mulheres que cometeram crimes

para se defenderem de homens

violentos, para não morrerem, para

não apanharem”, destaca Virgílio. De

acordo com ele, mulheres sem antecedentes

criminais, e que não cometeram

crimes violentos, poderiam cumprir

suas penas de outra forma, fora da cadeia,

sem colocar em risco a sociedade

e o futuro de seus filhos. “Seria possível

anistiar mais de dois terços das mulheres

presas, mas o preconceito faz com

que todo mundo se cale e essa situação

se mantenha assim...”, analisa Virgílio

de Mattos.

Sua proposta de uma anistia para

essas presas parece utópica, mas em

sua visão, deveria ser replicada de uma

forma mais ampla no sistema prisional

brasileiro, com cadeias superlotadas e

em condições ruins de funcionamento.

“A cada dia que passa, prende-se mais

e mal. Muitas pessoas que estão presas

poderiam estar soltas, cumprindo medidas

alternativas sem restrição de liberdade,

tendo a chance constante de

recriar a própria vida, como é comum a

todo ser humano”, vislumbra Virgílio.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


“algumas mulheres

esperam o parto

de seus bebês,

outras esperam,

angustiadas, o dia

em que vão se

separar de seus

filhos, mas todas,

invariavelmente,

esperam pelo dia em

que ganharão a tão

sonhada liberdade”.


64

foto CECÍLIA ALVIM

SER MÃE

POR CECÍLIA ALVIM

Mãe coragem

Eva Maria da Silva constrói a sua família

com crianças que precisam de um lar

Revista Elas por Elas - Abril 2015


65

Uma história

absolutamente singular.

Essa é a síntese, que

não diz tudo, sobre a

vida de Eva ...

Uma mulher que abraça

muitos filhos e acolhe

muitas pessoas,

independentemente de

idade, condição,

escolhas...

Há 31 anos, Eva Maria da Silva recebe

em sua casa crianças, adolescentes,

jovens, adultos e idosos que se encontram

em situações difíceis ou que perderam

suas referências familiares. Em

uma nova moradia, eles têm a chance

de reconstruir suas vidas, baseadas em

afeto, colo de mãe e valores de família.

Diferente de um abrigo convencional,

onde as crianças são cuidadas por

funcionários, nessa casa todos são criados

como filhos e netos, como parte

integrante de uma família de verdade.

Eva conta com simplicidade: “aqui é

um lar e nós somos uma família”.

Tudo começou em 1984, quando

Eva, casada com Vivaldo Elias de Souza,

já tinha um filho de 3 anos e outro

com cerca de 6 meses. Ela trabalhava

como auxiliar de enfermagem na Copasa.

Ao visitar famílias de funcionários,

em vilas e periferias, ela percebeu

muitas histórias de sofrimento e abandono

e começou a se perguntar: “Com

a profissão que eu tenho, o que posso

fazer a mais neste mundo?”.

E desde então, Eva fez mais, muito

mais do que imaginava e do que se

possa acreditar. Com dois filhos pequenos,

ela foi a uma creche buscar

uma criança que lhe havia sido indicada

para adoção. No entanto, ao chegar

se deparou com um outro menino pequeno

e franzino de cerca de 1 ano.

“Era só cabeça e barriga. Estava desnutrido

e carente. Senti que era ele.

Com tempo e cuidado, ele se reestabeleceu,

teve uma infância tranquila,

estudou”, relata.

Depois disso, ela adotou mais quatro

crianças, até ter mais um filho “de barriga”,

como ela chama seus três filhos

biológicos, já que trata todos igualmente

como seus filhos. “A comida é igual

para todos. Nada é separado”, diz um

dos filhos.

Com um neném de colo, ela prosseguiu

sua missão de cuidar dos filhos

de outras pessoas. Junto com o marido,

adotaram mais 11 crianças e mantiveram

muitas outras sob guarda provisória,

concedida pela Justiça, até que tomassem

seu rumo. Vivaldo, casado com

Eva há 35 anos, resume sua percepção

sobre sua esposa em poucas palavras:

“Ela é uma mãe no máximo do dinamismo

que a vida se apresenta”.

Em muitos casos, o casal conseguiu

apoiar e promover a reaproximação e

o retorno da pessoa à sua família de

origem. No entanto, muitos ficaram,

pois encontraram ali o que não tinham

experimentando antes: amor de mãe,

de pai, de irmãos, uma cama para

dormir sossegado e sonhar com uma

vida pela frente. “Quando se dissolvem

os laços familiares, você percebe o

medo, a fragilidade, a desconfiança entrar.

As pessoas passam a acreditar que

não podem mais ser amadas. E então

elas precisam ter uma experiência de

amor verdadeiro para voltarem a acreditar

em si mesmas e seguirem adiante”.

Filhos de Eva

Ao todo, Eva tem 17 filhos adotados

legalmente, sendo 6 deles especiais,

pessoas com alguma deficiência.

Sobre quantas pessoas já acolheu, parece

até ter perdido a conta, mas lembra

de um levantamento feito há 10

anos, quando já tinham passado por

sua casa, por algum tempo, cerca de

1380 pessoas. Depois de mais uma

década, ela estima que esse número

chegue hoje a 2000 pessoas que, de

alguma forma, fizeram e ainda fazem

parte dessa imensa família. “Sempre

acolhi as pessoas que precisavam de

uma casa, de uma família, e nunca tive

restrições de origem, condição, idade,

opção sexual. A gente tem que respeitar

as pessoas. Não podemos agir com

egoísmo”.

Todos a consideram como mãe,

porque veem nela a referência de amor

incondicional e cuidado constante que

as mães geralmente dedicam a seus filhos.

“Para mim, ser mãe é amar e

respeitar os filhos, independente de

suas escolhas e de suas identidades,

mas é também impor limites, incentivar

para que estudem, tenham profissão,

trabalhem e se desenvolvam”.

Ela conta que alguns dos filhos já

têm família e, destaca, com orgulho

de mãe, que cinco de seus filhos especiais

estão trabalhando. “Eles têm horário

de trabalho, obrigações, vão de

ônibus, e têm seus próprios salários.

Gosto de ver eles progredindo”. Dois

de seus filhos se formaram em Direito,

uma em Gastronomia, e um em Ciências

Contábeis, e todos os outros são

sempre incentivados a estudar.

Questionada sobre como manter a

paz numa casa com tantas pessoas diferentes,

de diversas origens e condi-

Revista Elas por Elas - Abril 2015


66

ções, Eva responde com serenidade:

“Aqui em casa, nós cultivamos valores

como respeito, afetividade, diálogo,

colaboração, espiritualidade. Resolvemos

os conflitos conversando. Embora

haja as diferenças, há um somatório

de aprendizado”.

Seu conceito de família é muito

mais amplo do que vivem atualmente

as famílias tradicionais, ligadas por relações

sanguíneas de parentesco. Vendo

a realidade de Eva, é possível perceber

que, para ela, família é quem vive

junto, buscando o apoio mútuo para

superar as adversidades. “Família é

toda a força que a gente precisa. É o

apoio que as pessoas necessitam para

enfrentar a vida com mais segurança”.

Casa cheia de afeto

Os filhos contam, com alegria, que

a casa fica ainda mais cheia, quando é

aniversário de alguém, ou em datas

festivas como o Natal. “Vem muita

gente que já passou por aqui, e que

mora longe”. Um deles relata que as

viagens anuais da família à praia são

sempre uma festa. “Quando o ônibus

chega com aquele tanto de gente, o

pessoal pensa que é excursão, mas

não, é uma família em férias”.

Para acolher e cuidar de tanta pessoas,

Eva sempre contou com a ajuda

de inúmeros amigos que constantemente

traziam doações e colaboravam

de diferentes maneiras. Ela ressalta

que nunca teve apoio de órgãos governamentais,

porque não quis institucionalizar

o que fazia. Sempre fez com

o coração, sem outras intenções.

Atualmente, a residência grande e

modesta abriga 33 pessoas em 5 quartos

femininos e 6 quartos masculinos.

O mais novo da casa é um neto de 5

anos. A obra, que não havia sido terminada,

foi doada à família no ano

2000 por uma associação que viu na

atuação de Eva o merecimento e a necessidade

de espaço para tanta gente

e afeto. No entanto, foi preciso muito

trabalho da família e de amigos para

colocá-la em condições de ser habitada.

Movida pela esperança e pelo desejo

de um futuro melhor para seus filhos,

como toda mãe, Eva vislumbra novos

tempos em uma moradia ainda melhor.

Filhos contam

a diferença que

Eva fez em

suas vidas

Sônia Maria da Silva, 51 anos,

mora na casa de Eva há mais de 1

ano, onde diz ter começado sua vida

novamente. “Eu era alcoólatra. Vivi

nas ruas por 26 anos. Depois trabalhei

em casa de família. O álcool só me

trouxe destruição. Já não estou mais

fazendo uso dele. Aqui eu achei o meu

lugar. Tenho carinho de mãe e pai.

Eles cuidam de mim, e eu cuido deles.

Passo boa parte das roupas da casa,

principalmente dos especiais. Acho

que minha velhice vai ser aqui”.

Outra história que ilustra a grandeza

das ações de Eva é a de seu sobrinho

biológico e “filho”, Israel Williano Marcelo

da Silva, de 27 anos. Sua mãe,

irmã de Eva, morou na casa por alguns

anos criando seus filhos e ajudando a

criar as demais crianças. Há alguns

anos mudou-se para o interior. Ele

ARQUIVO PESSOAL

Revista Elas por Elas - Abril 2015


67

ficou para continuar os estudos. Com

o apoio de Eva, Israel estudou e conseguiu

um bom emprego. “Eva me incentivou

a fazer o vestibular. Quando

me preocupei sobre como ia pagar a

faculdade, ela disse: Comece, que o

dinheiro virá”. E veio. Uma amiga da

família, que mora na Suécia, ajudou a

custear a faculdade de Israel, como de

outros jovens da casa. Ele diz que considera

essa senhora como uma de suas

três mães, além de sua mãe biológica,

e de Eva, por quem ele tem muito respeito

e gratidão.

“Eva exerce mesmo o papel de

mãe, de colocar a pessoa na sociedade,

através da educação. Escola e saúde

nunca faltaram para ninguém, ela sempre

acompanhou de perto. Impressionante

é que ela reconhece todos pela

voz, até aqueles que ficam um tempo

distantes”, conta. Israel afirma que Eva

tem uma forma diferente de ver a vida.

“Ela enxerga o que as pessoas normalmente

não vêem: que todas as pessoas

têm dificuldades, mas têm talentos,

que só precisam de apoio, de alento,

de direcionamento. Se tivesse mais

pessoas no mundo com essa mentalidade,

o mundo seria diferente”.

Hoje, Israel é graduado em Ciências

Contábeis, pós-graduado em Gestão

Financeira e trabalha com consultoria

de sistemas. “Graças ao voto de confiança

que Eva me deu, eu tenho consciência

que não sou apenas mais um,

que eu tenho o meu valor e o meu

lugar no mundo”.

Israel viaja a trabalho constantemente,

mas sempre volta para casa,

para perto da sua “grande família”,

como ele diz. “Gosto de estar perto

dos pequenos. Vejo os olhos deles brilhando

e lembro de mim, quando criança.

Quero ser uma referência para

eles, assim como Eva e Vivaldo foram

e são para mim até hoje”. Segundo Israel,

esse convívio familiar faz com

que todos da casa aprendam a olhar o

mundo de forma diferente. “Cresci assim

e pretendo seguir minha vida com

essa visão”.ø

CECÍLIA ALVIM

Mulher... Mãe!

Que traz beleza e luz aos dias

mais difíceis

Que divide sua alma em duas

Para carregar tamanha

sensibilidade com força

Que ganha o mundo

com sua coragem

Que traz paixão no olhar.

Mulher

Que luta pelas suas ideias

Que dá a vida pela “família”

Que ama incondicionalmente

Que se arruma, se perfuma

Que vence sempre o cansaço.

Que chora, que ri

E que sonha.

Todas as mulheres (mães), beleza

única, vivas, cheias de

mistérios e encantos!

Mulheres (mães) que deveriam

ser lembradas, amadas, admiradas

todos os dias.

Para você, mulher,

mãe tão especial.

Obrigado por existir.

Nós te amamos e te respeitamos,

nossa querida mãe Eva!

Cláudio Soares, um dos inúmeros

filhos de Eva, escreveu para

ela em nome dos demais irmãos

no Dia das Mães de 2014

Revista Elas por Elas - Abril 2015


ARTIGO

POR ANAMARIA NASCIMENTO

fotos TERESA MAIA/DP/D.A.PRESS


69

Mães de Noronha

Gestantes do arquipélago vivem “exílio da maternidade”

Numa manhã ensolarada em Fernando

de Noronha, ouvi um relato que

me deixou sem sono por muitos dias.

Foi num passeio de barco entre a Praia

da Cacimba do Padre e a Praia do Sancho

que escutei de uma moradora do

arquipélago um comentário natural para

quem vive na principal ilha do estado

de Pernambuco, mas assustador para

os que vivem no continente. Numa conversa

informal, ela contava ao condutor

da embarcação como uma noronhense

havia burlado o sistema de controle de

natalidade da ilha para ter o filho em

casa. Chocada com o relato brutal de

violência contra as mulheres, perguntei

o que aquilo significava para ela. “Não

podemos ter filho aqui. Aos sete meses

de gestação, somos literamente expulsas

da ilha para termos o bebê no continente.

Normalmente vamos para o Recife

ou Natal, mas nem sempre temos

familiares lá”, contou.

Minha viagem de férias em Noronha

não foi mais a mesma. Não conseguia

esquecer o que tinha escutado e não

entendia como nós, pernambucanos,

morando no mesmo estado que aquelas

mulheres, sequer conhecíamos aquela

realidade. Retornando da folga, resolvi

investigar a trajetória das mães de Noronha

para o jornal onde trabalho, o

Diário de Pernambuco. Após cerca

de três meses de ligações, agendamento

de entrevistas e recusas do governo do

estado para que eu continuasse tocando

a pauta, desembarquei no arquipélago

para descobrir o que havia por trás da

negação dos direitos das mulheres a

terem os filhos perto de casa, com o

apoio do marido e dos familiares.

Longe de parecer um paraíso, a

Noronha daquelas mulheres não tem

os atrativos que encantam os cerca de

60 mil turistas que passam por lá todos

os anos. O resultado dos dias dedicados

a ouvir aquelas mães foi o especial

multimídia Mães de Noronha, que reuniu

os depoimentos de mulheres que

lutam por um único direito: o de ter os

filhos perto de casa.

Os partos começaram a ser proibidos

em Fernando de Noronha quando

a maternidade do Hospital São Lucas,

o único do arquipélago foi desativado

em 2004. É obrigação do poder público

evitar a explosão populacional para

“Não podemos ter

filho aqui. Aos sete

meses de gestação,

somos literamente

expulsas da ilha para

termos o bebê no

continente”.

preservar o Parque Nacional Marinho

de Fernando de Noronha, área que

corresponde a 70% do território da

ilha oceânica. Oficialmente, o estado

nega que esse tenha sido o motivo da

desativação da maternidade. A pequena

quantidade de partos registrada por

ano em Fernando de Noronha é a justificativa

da administração da ilha para

a proibição de partos no hospital.

Os espaços que já foram as salas de

parto e de recém-nascidos do Hospital

São Lucas estão, hoje, abarrotados de

caixas com prontuários, equipamentos

sem uso e cadeiras. A emergência do

hospital recebe, de acordo com a Secretaria

Estadual de Saúde, cerca de

800 pessoas por mês. Poucos pacientes,

porém, conseguem sair de lá com um

diagnóstico preciso. Faltam médicos,

remédios e máquinas para realizar exames.

Sem saída, muitos pacientes precisam

recorrer ao Tratamento Fora do

Domicílio (TFD) e viajar ao continente.

A estrutura precária do hospital e a

ausência de profissionais de saúde em

Noronha foram denunciadas pelos próprios

funcionários e por moradores da

ilha. “As paredes estavam rachadas, e

o teto caindo. A direção do hospital

precisou tomar providências sem a

ajuda do estado”, revelou uma funcionária

que não quis se identificar. Nas

décadas de 1960 e 1970, o atendimento

era feito por médicos da Aeronáutica.

Hoje, a gestão está nas mãos

Revista Elas por Elas - Abril 2015


70

da coordenadoria de saúde de Fernando

de Noronha, ligada à Secretaria Estadual

de Saúde de Pernambuco.

Cerca de 40 mulheres de Noronha

dão à luz por ano. É uma média de três

partos por mês. A coordenadora de

saúde do arquipélago, Fátima Souza,

acredita que esses números são ínfimos

frente aos riscos que as mães correriam

sem um hospital de alta complexidade.

“Os custos para manter uma

maternidade para, no máximo, quatro

partos por mês seriam muito altos.

Além disso, temos um déficit de profissionais

permanentes na ilha e de estrutura

física”, afirmou.

Ela faz as contas. Para manter a

maternidade em Noronha, seriam necessários

21 médicos por mês, sendo

sete obstetras, sete anestesistas e sete

neonatologistas. O plantão de um médico

custa R$ 1,8 mil, totalizando R$

151.200 apenas com a folha de pagamento

desses profissionais. “Isso sem

contar com os enfermeiros, técnicos

de enfermagem, impostos, material

médico, passagem, hospedagem e alimentação

das equipes. É muito mais

vantagem mandar as mulheres para o

continente”, pontuou.

A médica gestora garante que, no

Recife, as grávidas são acompanhadas

desde o desembarque até o parto. As

recifenses são levadas para a casa de

familiares que permaneceram na capital

pernambucana. As que não têm parentes

na cidade são hospedadas em

um hotel pago pelo estado. “Elas são

orientadas por uma equipe formada

por assistente social, nutricionista e

enfermeiras. Para os exames, um carro

da administração faz o transporte dessas

mulheres”, explica Fátima Souza. Os

depoimentos das mães, no entanto,

contradiziam essa informação.

Maternidade do único hospital virou depósito, após ser desativada em 2014.

A cozinheira Marinalva Fonseca confidenciou

que foi abandonada pelo

estado quando chegou ao continente.

No oitavo mês da gestação de Tayná,

hoje com 4 anos, Marinalva deixou Noronha

com a promessa de que seria

hospedada num hotel em Boa Viagem,

Zona Sul do Recife. Ao chegar à capital

pernambucana, porém, foi encaminhada

para um dos quartos da Casa do Estudante,

no Derby, área central da capital

pernambucana. Dividia o espaço com

centenas de jovens de todo o estado,

mas se sentia isolada. “Passei mal numa

noite e decidi voltar para casa. Pensei,

já que me levaram para o Recife na

base da mentira, que eu podia retornar

do mesmo jeito”, relatou.

Três dias depois que retornou à

ilha, a auxiliar de cozinha deu à luz de

parto normal, feito por uma equipe

médica improvisada, no São Lucas. O

Salve Aéreo que atende à ilha foi chamado.

“Disseram que eu estava com

restos de placenta no organismo, não

me deixaram ver minha filha depois

que ela nasceu”. Levada de volta ao

Recife, foi atendida por médicos do

Cisam, uma maternidade pública ligada

à Universidade de Pernambuco (UPE).

Conforme o relatório da equipe da

maternidade, o parto aconteceu normalmente,

sem a necessidade de internamento.

“Acho que a administração

quis me punir”. Thayná mora na Paraíba

com a avó. Nunca conseguiu o status

de moradora permanente da ilha. Já

Marinalva continua em Noronha e

ainda sonha com a possibilidade de

viver ao lado da filha.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


71

“A maior herança

que um noronhense

consegue deixar

para o filho é a

possibilidade de

ele ser morador

permanente

da ilha”.

O drama das mães de Noronha

nem sempre começa no momento de

deixar a ilha. Muitas vezes, os problemas

só aparecem na hora do retorno. Permanecer

no arquipélago nem sempre

é uma opção para as mulheres que

não nasceram lá e engravidam. A copeira

Leyliane Silva morava em Fernando

de Noronha há dois anos quando

descobriu que teria que deixar para

trás o sonho de construir uma família.

Como residente temporária, Leyliane

não pode voltar à ilha com a filha sem

pagar a Taxa de Preservação Ambiental

(TPA), valor cobrado a todo turista que

visita a ilha. A taxa custava R$ 45,60

por dia quando a menina nasceu (hoje

o valor é R$ 51,40). Para manter a primeira

filha, Beatriz Catarina, no arquipélago,

ela precisaria desembolsar R$

1.368,00 mensalmente.

O preço para manter a família

unida, no entanto, não cabia no bolso

da copeira. O pai de Beatriz também é

morador temporário da ilha e não conheceu

a filha até os 4 meses. “Vamos

para lá sabendo que a situação das mulheres

é complicada, mas é muito difícil

quando chega a nossa vez”, disse. Por

conta do diagnóstico de diabetes gestacional,

Leilyane viajou cedo para o continente.

“A ilha é uma fantasia. Quando

cheguei, achei que estava no paraíso.

Com o tempo, nos damos conta de que

a vida lá é mais complicada do que se

possa imaginar”, revelou. Sem poder

voltar para Fernando de Noronha e

reencontrar o marido, Leilyane vive em

Escada, município da Zona da Mata de

Pernambuco.

Nascer em Noronha é quase como

ter um green card. Foi o que contou a

mulher que ajudou quase 50 mães de

Noronha a dar à luz, mas não conseguiu

ter os seus perto de casa. Auxiliar de

enfermagem do Hospital São Lucas

de 1998 a 2007, Francinete Lins nasceu

em Fernando de Noronha. Os

filhos dela, Ruan e Eloá, no entanto,

tiveram que nascer no Recife. Na certidão

de nascimento, consta que eles

são noronhenses. Filhos de nativos

têm o direito de serem registrados

como se tivessem nascido na ilha. “A

maior herança que um noronhense

consegue deixar para o filho é a possibilidade

de ele ser morador permanente

da ilha”, afirmou.

De acordo com Francinete, há uma

grande incidência de casos de depressão

pós-parto entre as mulheres de Fernando

de Noronha. “Não há estudo que comprove

isso, mas já observei que muitas

mulheres acabam tendo sintomas de

depressão após terem dado à luz”, observou.

No Brasil, cerca de 40% das

mães desenvolvem depressão, sendo

que em 10% dos casos, o problema

aparece de forma mais severa. “Ficamos

longe da família, do marido, de tudo

para termos nossos filhos. Nossa licença

maternidade começa aos sete meses

de gestação. Temos que retornar ao

trabalho quando o bebê ainda tem dois

meses de vida, mas a única creche da

ilha só aceita as crianças a partir do

quarto mês. Tem como não se desesperar?”,

questionou.

Francinete era auxiliar do médico

José de Arimathea, o último a realizar

partos no arquipélago. Nos anos 1990,

ele foi chamado pelo governo de Pernambuco

para uma missão amplamente

rejeitada por colegas de profissão: atuar

em Fernando de Noronha, ilha situada

a mais de 500 km do Recife, onde ele

vivia. Como já estava aposentado, decidiu

aceitar o convite. Mesmo não

sendo ginecologista e obstetra, o médico

é referência no arquipélago quando o

assunto é parto. “Eu era médico generalista.

Tratava desde os doentes mais

simples até as pessoas que precisavam

de cirurgia. De menino pequeno a gestante”.

Quando chegou à ilha, não

havia farmácia ou equipamentos para

fazer exames. “Mandávamos buscar

tudo de avião. Os medicamentos só

chegavam no dia seguinte”, recorda.

No ano em que ele precisou retornar

ao Recife por motivos pessoais, o governo

desativou a maternidade do Hospital

São Lucas. “Eu mesmo sugeri

que não houvesse mais parto na ilha.

As poucas parteiras que atuavam lá

não tinham orientação. Hoje, só se

faz parto com pediatra, anestesista.

Na minha época não tinha isso”, disse.

Atualmente, não existem parteiras em

Fernando de Noronha.

Todos os relatos foram publicados

numa série de reportagens de três dias

do Diário de Pernambuco, em 2013.

As histórias também estão disponíveis

em vídeo pelo site hotsites.diariodepernambuco.com.br/vidaurbana/2013/

maes-de-noronha.ø

A autora é jornalista e repórter do

Diário de Pernambuco

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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foto LAIS RODRIGUES

CAPA

POR SAULO ESLLEN MARTINS

Entre o mito

e a realidade

Ciganas sonham com um futuro

sem discriminação

Revista Elas por Elas - Abril 2015


73

“O que era não

deixa de ser;

modifica. Cigano

nunca deixa de

ser cigano”.

A tradição familiar é uma marca

dos povos ciganos que carregam estigmas

e mitos que aguçam o imaginário

popular. No nascimento, a menina cigana

já tem marcado o seu próprio

destino. Valores como virgindade, casamento

e maternidade fazem parte do

universo dessas mulheres que sonham

com um futuro sem discriminação. A

adolescência é uma fronteira atravessada

muito cedo pela jovem cigana, que é

vigiada não só pelos seus familiares,

mas também por toda a comunidade e

precisa sair da escola para se casar.

Quando se fala em ciganos, é preciso

saber que existe uma enorme diversidade

de comportamentos que variam

conforme a organização da comunidade.

Fatores políticos, socioeconômicos,

religiosos, regionais e familiares podem

interferir em um determinado grupo,

acampamento ou etnia. Não é possível

fazer uma análise, classificando todos

os ciganos sob a mesma ótica. Nem

mesmo a condição das mulheres pode

ser generalizada, sob o risco de se

fazer um julgamento precipitado.

Muitas perguntas ainda ficam sem

resposta quando o assunto é a história

dos ciganos no Brasil. No livro Ciganos

em Minas Gerais, do professor Rodrigo

Corrêa Teixeira, é relatado que a documentação

sobre ciganos é escassa, dispersa

e parcial. Sendo ágrafas, as comunidades

ciganas não deixaram registros

escritos sobre sua origem. Ao longo

do tempo, a impressão documentada

sobre eles foi construída por chefes de

polícia, religiosos e viajantes, que traçaram

um perfil hostil e estereotipado.

De acordo com o professor Rodrigo,

foram 500 anos de perseguição do

próprio estado contra os ciganos. Por

serem itinerantes, não eram reconhecidos

como cidadãos e, por isso, arcaram

com toda a sorte de injúrias sobre

o seu povo. Somente com o governo

Lula, foram elaboradas políticas públicas

para atender às demandas dessas minorias

na sociedade brasileira.

“É impressionante como essas pessoas

sobreviveram a tantas formas de

perseguição, nos últimos séculos. Escravizados

na Romênia, expulsos da

Europa por causa do holocausto, destinados

a vagar sem rumo. A trajetória

das comunidades ciganas, que possuem

fortes indícios de uma origem Hindu,

foi marcada pela discriminação”, comenta

Rodrigo Teixeira.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


74

MARK FLOREST

O professor explica que nesse universo

de contradições e mitos, a imagem

da mulher cigana é cheia de nuances.

Enquanto o homem nega a sua identidade,

em alguns casos, para fugir do

preconceito, elas precisam de indumentária

típica para exercer o papel

de uma figura mística e enigmática,

principalmente, quando o seu trabalho

está voltado para as questões esotéricas

como a leitura de mãos (quiromancia)

e de cartas (cartomancia).

Mulheres Calon

vivem sob as

regras da tradição

“Somos muito diferentes

das outras mulheres.

A questão do respeito

aos pais e ao esposo é

uma tradição que

guardamos”.

Cristina Amaral

Em Minas Gerais, desde a sua chegada

e apesar das muitas restrições relativas

à ocupação do espaço por essas

comunidades ciganas, a etnia Calon resistiu

e é maioria entre os acampamentos

no estado. Lutam por seus direitos e

pela manutenção de sua cultura.

“O que era não deixa de ser; modifica.

Cigano nunca deixa de ser cigano”.

A frase é de Carlos Amaral,

líder da comunidade de ciganos da

etnia Calon, situada no bairro São Gabriel

em Belo Horizonte. São cerca de

100 famílias que moram no lugar há

mais de 30 anos. As mudanças na

forma de viver trouxeram o desafio de

enfrentar as interferências culturais sofridas

ao longo dos anos e manter a

identidade cultural do grupo.

O nomadismo deixou de ser uma

necessidade. Em 2014, conquistaram

a posse do terreno. Moram em barracas

e casas simples em meio à metrópole,

contudo, tentam manter tradições ancestrais.

Na comunidade Calon são os

homens que ditam as regras. Eles cuidam

dos negócios e da organização

Revista Elas por Elas - Abril 2015


75

coletiva. As mulheres ficam por conta

da casa e dos filhos. Os casos em que

elas possuem algum tipo de independência

são escassos.

Sandra Magalhães (foto) é um

exemplo de como a tradição cigana

dos Calon determina o modo de vida

das mulheres. “Casei-me com 14 anos.

Minha rotina se resume em cuidar da

casa, dos filhos e do marido. É uma

vida boa, eu não trocaria por outra.

Dou aos meus filhos uma criação de

acordo com o que aprendi. Todavia,

acho que minha menina vai ter mais

possibilidades de escolha”.

Ela faz parte de uma das poucas famílias

que ainda moram em barracas.

Considera esse tipo de moradia uma

mistura de opção e necessidade. “Possuímos

tudo que se tem numa casa: televisão,

aparelho de som, cama, até

carro. Só não temos as paredes”,

brinca Sandra.

A jovem cigana não tem receio de

morar em um local aberto, considerado

inseguro por muitos. O que ela tem

mais medo é do preconceito. “Quando

preciso levar minha filha ao médico

ou fazer alguma outra coisa fora do

bairro, não uso minhas roupas tradicionais.

Chama muita atenção, parece

que sou de outro mundo. Não gosto

de como os outros me olham. Meu

maior sonho é o fim da discriminação

contra o nosso povo”, afirma.

Para Cristina Amaral, ser cigana é

estar junto com uma comunidade,

aprender os costumes, usar as roupas

e utensílios. “Somos muito diferentes

das outras mulheres. A questão do respeito

aos pais e ao esposo é uma tradição

que guardamos. Quem cuida de

mim é o meu marido. Por isso, tudo

que eu faço tem que ser com o consentimento

dele”. Ela confronta esta

“Meu maior sonho

é o fim da

discriminação

contra o nosso

povo”.

ideia de que sair pelo mundo sem destino

é ter liberdade. “Não é bem assim.

Existia muita perseguição aos ciganos

e as mulheres sofreram e sofrem ainda

mais com o preconceito. Morar em

uma casa é um sonho realizado. Quando

eu vivia debaixo da lona era muito sofrimento.

Todo mundo quer um pouco

de conforto. A vida da minha mãe foi

totalmente diferente, bem mais complicada.

Ela viveu todo o tempo em

barraca, sempre viajando a cavalo.

Hoje, temos casa, podemos construir

nossas vidas em um lugar que é nosso”,

comemora Cristina.

Nem todas as mulheres ciganas

estão em uma situação de total dependência

dos maridos. De uma geração

que enfrentou muitas dificuldades, Marilene

Lopes passou a maior parte da

vida na estrada. Casou-se com 14

anos, passou muitas humilhações, segundo

ela, por que era mulher. Trabalhava

para comprar comida. Nos últimos

15 anos sua vida mudou. Hoje, está

estabilizada e trabalha com o comércio

MARK FLOREST

Revista Elas por Elas - Abril 2015


76

de tecidos. “Não fico muito parada.

Sou independente, viajo sozinha, gosto

de ter meu próprio dinheiro. Não gosto

de dar muita explicação sobre o que

vou fazer. Tem hora que me dá vontade

de cair no trecho de novo, vou e volto,

estou muito feliz aqui”.

Uma mulher experiente, mãe de

quatro filhos, com um certo grau de

feminismo em suas posturas, Marilene

não é submissa ao seu companheiro,

mas faz questão de manter alguns princípios.

“Nossa tradição permite que os

homens estudem até se formarem, porém,

as mulheres são retiradas da

escola logo após os dez anos de idade,

para que não passem a adolescência

junto a outros jovens de culturas diferentes.

As moças têm que se casar virgens,

não podem ser desencaminhadas.

Então evitamos que isso aconteça”.

As meninas estudam até 12 ou 13

anos, de acordo com Marilene, com

essa idade já estão prontas para o matrimônio.

Elas não devem buscar uma

profissão. “Isso não quer dizer que

sejam infelizes. Casam-se com quem

gostam e levam uma vida boa. Para

uma mulher fazer faculdade é muito

difícil, raridade mesmo”, acredita.

LAIS RODRIGUES

Marilene relata apenas uma tristeza:

o preconceito contra os ciganos. “Posso

usar qualquer roupa, mas por causa dos

meus dentes de ouro, sou reconhecida

como cigana em qualquer lugar. E muitas

vezes isso não é bom. As pessoas me

reparam de uma maneira diferente, com

medo, despeito, não sei...”.

Em sua dissertação de mestrado, a

professora Camila Similhana pesquisou

sobre as comunidades ciganas e constatou

traços machistas na cultura de

algumas comunidades, durante a sua

pesquisa. “Quanto às mulheres ciganas,

é inegável a opressão que sofrem. Em

populações ciganas tradicionais, elas

vivem sob o controle da sogra – que as

tratam como se fossem serviçais –,

são cruelmente punidas caso sejam insubordinadas,

em caso de separação

ou traição perdem o poder e o direito

de conviver/criar seus filhos (que são

considerados pertencentes à família

dos maridos), têm sua vida sexual severamente

controlada e são rigidamente

banidas caso se unam a homens nãociganos”,

opina.

Uma das representações da cultura

cigana que a pesquisadora destaca é a

dança. Conforme relatou Camila, a

dança cigana está intimamente ligada

aos ritos e festas familiares e não à

exibição pública, de maneira semelhante

ao que ocorre em meio aos povos árabes.

“Além disso, se você consultar diversas

danças ciganas femininas ao redor

do mundo, verá que elas não se

movimentam de forma tão solta, tamanha

a opressão masculina sobre

elas. Em geral são passos mais contidos.

Algumas ciganas, de locais específicos

como a Índia, têm mais desenvoltura

ao mostrar e usar o quadril. A saia e o

lenço no cabelo, por exemplo, também

tem suas razões: a saia demarca que a

Revista Elas por Elas - Abril 2015


77

menina menstruou e entrou num processo

que culminará no casamento e o

lenço no cabelo é um sinal de submissão

ao marido”, descreve.

LAIS RODRIGUES

Um outro olhar

A fotógrafa Laís Rodrigues é vizinha

da comunidade cigana do bairro São

Gabriel. Atualmente desenvolve um

trabalho que retrata o dia a dia das

pessoas que moram ali, com o objetivo

de dar mais visibilidade às demandas

sociais. Ela conta que superou alguns

preconceitos para se aproximar. “Minha

família mora no bairro há 40 anos,

sempre os vi e ouvi histórias sobre

eles, mas precisei crescer, amadurecer,

para conhecê-los de fato. Foi uma boa

surpresa. Tive a certeza de que não

eram nada do que falavam por aí. Primeiro,

é impossível não se encantar

com o quanto são receptivos. Segundo,

muitos amam ser fotografados, principalmente

as crianças. Eles acreditam

no poder da imagem. Dizem: – Pode

fotografar, claro! Ajuda a gente!

Ao citar o papel das mulheres, Laís

é cuidadosa. “Às vezes, evito falar

muito sobre minha impressão porque

venho de uma cultura diferente. Muita

gente critica o fato de terem traços

machistas. Descobri que muitas coisas

são boatos, não existem mais. Algumas,

ainda sim. E aí me pergunto se por

acaso esqueceram que milhares de outras

sociedades também são patriarcais

(pra não falar todas)”. A fotógrafa diz

não se sentir no direito de julgar o

modo de viver da comunidade. “Não

podemos interferir, assim como não

mudamos a cultura das tribos indígenas,

mesmo que para nós seja algo ‘errado’.

Os costumes são deles”.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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Ciganas independentes

e feministas

Elas são descendentes de ciganos,

mas não vivem em comunidades. Seus

antepassados saíram do convívio comunitário

e iniciaram uma caminhada

em busca de melhores condições de

vida. Cinco mulheres independentes e

que tiveram a oportunidade de concluir

o ensino superior. Nenhuma delas é casada.

Vivenciaram experiências fora da

cultura cigana. Juntas, são as responsáveis

pela criação da Associação Internacional

Maylê Sara Kali, uma organização

que atua em defesa dos direitos

dos ciganos, promove o resgate cultural

das etnias e tem uma preocupação particular

com a questão de gênero.

Depois de estudar e conquistar uma

profissão retornaram ao convívio com

as comunidades para auxiliar na garantia

de direitos como educação, saúde,

entre outras conquistas sociais que não

chegam aos ciganos. Fazem parte de

uma geração de mulheres que não

abriu mão da identidade, no entanto,

está inserida no mundo convencional.

Lucimara Cavalcanti é uma delas.

Especialista em Marketing, a descendente

de uma família de ciganos Kalderash

percebeu que poderia utilizar a

dança e os costumes tradicionais para

falar de diversidade e cidadania. “Desde

2012, quando iniciamos a realização

de um Ciclo de Debates na Universidade

de Brasília, nossa atuação foi ampliada

e agora conseguimos ter inserção em

dezoito estados brasileiros e em outros

países. Se pensarmos que nossa trajetória

é marcada pela defesa dos direitos

das mulheres, pelo fim da violência de

gênero, respeito, igualdade e crescimento

profissional, podemos dizer que

somos feministas”.

Em relação às mulheres ciganas,

Lucimara esclarece que é importante

ressaltar a criação de um estereótipo

desde a chegada dos ciganos ao Brasil,

por volta de 1500, como ressonância

do que já era feito na Europa. “Não

são raras as representações da cigana

nas artes plásticas e na literatura européia,

pautadas na ideia de uma mulher

fácil, fatal, sensual, enganadora. Essas

informações foram disseminadas e os

ciganos nunca se levantaram para se

defender”.

A militante da causa cigana destaca

que existem grupos familiares sustentados

por mulheres através da arte de ler as

mãos e da cartomancia. “Esse é um

dado. No entanto, em cada família as

coisas acontecem de uma maneira. Não

estou dizendo que todas as ciganas são

assim. Cada comunidade tem suas próprias

tradições e costumes”, esclarece.

De acordo com a descendente de

ciganos, em muitos lugares são as

mães e avós que têm a responsabilidade

de manter a cultura do grupo ao qual

LAIS RODRIGUES

Revista Elas por Elas - Abril 2015


79

pertencem. Nesses núcleos, os homens

consultam suas mulheres e elas possuem

um papel importante na tomada de

decisões. “Em outras circunstâncias

elas são excluídas desse processo. Existem

também casos de violência familiar.

As ciganas não estão isentas dessas

ocorrências”, conta Lucimara. Outro

problema mencionado é o analfabetismo

acentuado entre crianças e jovens. “As

mulheres estão no centro dessa situação.

Temos meninas lindas que não sabem

ler nem escrever o próprio nome. Contudo,

as escolas devem estar preparadas

para receber a diversidade da nossa

cultura. Além disso, é preciso incluir o

ponto de vista dos ciganos nos livros

didáticos”, frisa.

Segundo ela, no caso dos casamentos,

algumas famílias permitem

que as jovens se casem após os 18

anos. Eles têm entendimento que as

questões biológicas e emocionais podem

interferir no desenvolvimento dessas

garotas. Lucimara enfoca que a cultura

cigana tem muitos contextos e, em todos

eles, a mulher tem um papel

central, cita o exemplo de um acampamento

em Joinville, Santa Catarina,

onde elas estão mudando o modo de

vida. São cinco irmãs que ficaram

viúvas e não querem mais obedecer às

ordens dos homens. Tornaram-se líderes

do acampamento.

É importante compreender que dentro

de um país multicultural como o

Brasil, as mulheres ciganas fazem parte

do imaginário social e, mais do que

isso, auxiliam na construção da identidade

do povo brasileiro. Portanto, lutar

contra o preconceito e a discriminação

étnica é também um ato de contribuição

por uma sociedade que respeita a sua

história e os atores que ajudaram a

construí-la.ø

LAIS RODRIGUES

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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INTERNET

REALIDADE

POR NANCI ALVES

A vida no circo

não é brincadeira

Entre o picadeiro e os bastidores,

a mulher se desdobra em vários papéis

Revista Elas por Elas - Abril 2015


81

A arte circense, que encanta a

todos, é milenar. Passou por incontáveis

experiências, recebeu influências de

várias culturas, mas uma realidade

nunca mudou: a paixão de quem sobe

no picadeiro, a alegria e acolhida do

público de todas as idades e a falta de

apoio dos governos.

Na grande maioria, os circos tradicionais

são formados por famílias que,

como micro empreendedoras, aprendem

e fazem de tudo. Quando entram

em uma cidade significa uma vitória.

Quer dizer que conseguiram o alvará

de autorização da prefeitura, pagaram

várias taxas e alugaram um lote, mesmo

que nem sempre com preço acessível.

Passada esta etapa, buscam garantir o

acesso à água e energia elétrica, montam

a estrutura do circo, divulgam o

espetáculo em toda a região, cuidam

da bilheteria e da praça da alimentação,

fazem fotos durante o espetáculo para

serem vendidas ao final e, claro, depois

de toda esta batalha, apresentam, com

alegria, suas atrações no picadeiro. E

o mais impressionante é que essa rotina

é diária, sem intervalo, pois a cada 15

dias o circo é obrigado a se mudar

para garantir um bom público.

Em meio a tudo isso, a rotina da

mulher circense é um verdadeiro exercício

de equilíbrio na corda bamba.

Exatamente por ser seu lugar de trabalho

e moradia, a mulher sincroniza o

papel de esposa e de mãe com a de

artista, além de acumular as funções

de bordadeira, costureira, divulgadora

e vendedora dos alimentos que ela

mesma prepara para a praça da alimentação

– maçã do amor, algodão

doce, pipoca, batata frita, etc.

Uma rotina bem conhecida pela

pernambucana Rosa Roma, que sempre

viveu no circo. “Nasci de parto natural,

dentro do circo. Minha mãe, Zuleide,

que saiu de cena apenas para eu nascer,

era dançarina e o meu pai, Orlando,

palhaço de um circo dos ciganos. Sou

a terceira geração de circenses em minha

família, que continua a tradição

por meio de meus filhos e neta. A minha

mãe, aos 17 anos, conheceu

meu pai e, pensando em se casar com

ele, fugiu com o circo. Porém, ele já

era casado e acabou ficando com duas

esposas até que a primeira o largou,

levando seus três filhos”, conta.

Assim, minha mãe continuou com

ele e tiveram seis filhos. “Na medida

em que crescíamos, começávamos a

trabalhar no circo também. Éramos a

Trupe família Roma. Passamos por vários

circos fazendo números de altura,

vôo, trapézio, arame esticado”, lembra

Rosa ao revelar que, desde bem pequena,

se levantava às 4h30 para ensaiar:

“a gente tinha que tomar um banho

gelado para despertar e um pouco

de vinho para não ter anemia e, só depois

do ensaio, a gente tomava café”.

Entre as histórias, Rosa se recorda

de um acidente que marcou sua vida.

Quando tinha 14 anos, durante um

espetáculo, caiu do trapézio, junto com

“a rotina da

mulher circense

é um verdadeiro

exercício de

equilíbrio na

corda bamba.

seu pai, porque uma mulher circense

cortou o suporte do circo. “Ela, com

ciúme, queria atingir o meu pai. A

lona caiu em cima de todos, mas

apenas nós dois nos machucamos muito,

a ponto de ficarmos dois anos em

tratamento, na cama. O dono do circo,

com raiva, foi embora nos abandonando.

Ficamos morando em barraca.

Minha mãe teve que sustentar a família

sozinha fazendo tapioca, até que chegou

um novo circo na cidade e nos contratou.

Ela trabalhou como bailarina, cantora,

porteira, cuidávamos dos animais.

Ficamos neste circo por 8 anos com

todos nós trabalhando. Como tinha

banda de música, comecei a cantar

também”, recorda .

Aos poucos, a família Roma conseguiu

montar o próprio circo. “Era

muito simples, tudo com lençóis e se

chamava B1 (Bom e Único). Dois anos

depois, já tínhamos a lona e carroça

com cavalo para o transporte. Fizemos

sociedade com outras pessoas. Nossa

arte era imensa, mas muito mal pagos.

Quando fiz 20 anos, me casei com um

homem que não era de circo, um policial

militar”, conta Rosa.

Nessa época, como teve que ficar

na cidade do marido, largou o circo e

investiu no canto. Seu marido contratou

um sanfoneiro (conhecido como a Voz

do Acordeon), para acompanhá-la

nos shows. “Com ele, aprendi outra

profissão e virei compositora. Cheguei

a ser vocalista do Luiz Gonzaga. Fiz

muito shows e me conheciam como

Rosinha do Xaxado, diz.

Rosa teve dois filhos e por um tempo

deixou de cantar para cuidar da casa.

Após sete anos de casada, veio a separação

e o retorno ao circo. “Mas não

foi fácil, pois perdi minha mãe logo em

seguida. Assim, não tinha com quem

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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Rosa Roma, sua neta Ranyelle e sua filha Ramyrez

CARLA PORTUGAL

o circo. Hoje apenas ela e uma irmã,

em São Paulo, seguem a tradição da

família. “Tenho 50 anos e não me

vejo fora do circo. Estudei magistério,

cheguei até a dar aula, mas não era

isso que queria. O circo é o meu lugar.

Costumo dizer que quando chegar a

minha hora de partir, meu velório será

dentro do circo, todos, com figurino,

cantando música circense”, finaliza.

De acordo com a sua filha Ramyrez,

o sonho da família é ter seu próprio

circo. “Estamos trabalhando para realizar

este projeto ainda este ano. Eu e

meu marido somos de famílias circenses

tradicionais e queremos dar continuidade

a esta cultura tão importante. Nós,

nossa filha, minha tia, mãe, irmão,

meu padastro, que é iluminador e sonoplasta

de circo, enteados...a turma

é grande e será um circo que unirá o

antigo ao moderno, com muita criatividade”,

conta Ramyrez.

deixar as crianças. Fazia tudo sozinha e

enfrentava a discriminação de estar sem

marido. Muita dificuldade de ser contratada,

pois muitos acham que mulher

separada quer arrumar homem. Se for

casada, a situação é bem melhor. Para

evitar problemas de ciúme, no circo,

sempre a própria esposa é a dupla do

marido ou sua assistente de palco”,

explica.

Segundo Rosa, a cada lona levantada,

mil histórias para contar. “Me recordo

de uma vez, em Campina Verde,

e eu já era conhecida no nordeste pela

música. Uma emissora de rádio descobriu

meu aniversário e me chamou para

uma entrevista. Ao vivo, contei minha

vida e que estava enfrentando a doença

do pânico. Quando foi à noite, o circo

estava lotado, como nunca. E as pessoas

gritavam pelo meu nome e chamavam

de guerreira, quando entrei no picadeiro.

Foi emocionante”, lembra Rosa.

Depois de rodar por vários circos e

cidades, seus filhos, já adolescentes,

foram contratados pelo circo do ator

Marcos Frota, em Maceió. “Pouco depois,

também trabalhei com vendas,

fotografias, fui camareira e até dirigi

espetáculo deste circo. Hoje minha

filha, com 24 anos, está no Broadway,

se casou com um globista de lá, e tem

uma filha de 4 anos, Ranyelle. Estou

com eles neste circo fazendo recepção,

número musical com dublagem e minha

neta entra junto. Tudo que faço, ela

faz. E meu filho trabalha no Circo dos

Sonhos, no Rio de Janeiro”, conta.

Após a morte da mãe da Rosa,

seus irmãos foram aos poucos, deixando

Respeitável Público

O sonho de ser dona do próprio

circo tornou-se realidade para a família

da amazonense Andréia Carvalho Atiares

(40 anos). “Depois de trabalharmos

a vida toda para outros, conseguimos

o nosso Atiare’s Cirkus há menos de

um ano. O mais importante para mim

é mantermos a família no mesmo circo.

Isso é uma vitória e uma bênção de

Deus!”, diz Andréia ao afirmar que o

circo é sua vida. “Comecei aprendendo

a arte aos cinco anos, com balé aéreo,

depois trapézio, até que fui contratada,

aos 15 anos, pelo Big Circo. Aos 18

anos, fui para o Gran Dallas Lincoln

Circos e, ao fazermos uma apresentação

na Bolívia, conheci meu marido,

Raomir Atiares, que já era trapezista.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


83

Ele foi contratado pelo circo onde eu

trabalhava e depois de um ano, nos

casamos. Trabalhamos em vários circos

ao longo da nossa vida (Real Brasil,

Las Vegas, Circo Castelli, Gran Circo

Popular do Brasil, Circo Mundo Mágico,

etc), viajamos com eles para Colômbia,

Peru, Bolívia, além de várias regiões

do Brasil. Conheci muita gente e fiz

amigos, apesar de sermos itinerantes.

Hoje as redes sociais ajudam muito a

manter esta amizade”, conta.

No Atiares Cirkus, o espetáculo é

feito pelo marido de Andréia, os três

filhos do casal, dois sobrinhos e artistas

contratados, de acordo com o lugar

onde vão. Segundo Andréia, ela só

deixou o picadeiro recentemente. “Mesmo

grávida, atuava nos espetáculos.

Só depois do sétimo mês de gravidez,

quando a barriga aparecia muito é

que eu parava de fazer o trapézio.

Hoje, assim como meu marido, faço

mil acrobacias para manter o circo,

mas deixei o picadeiro, pois não tenho

tempo para ensaiar. Sempre fui feliz

no circo e não trocaria minha história

com a de ninguém. Claro que fico

cansada, pois lavo roupa, cuido da

limpeza da nossa casa (os trailers),

costuro, divulgo o circo na cidade durante

o dia e, na hora do espetáculo, assumo

a bilheteria e, em seguida, a

praça de comida. Além da correria do

dia para levar e buscar filho na escola.

Isso quando a gente não tem também

que correr atrás da Secretaria de Educação

para conseguir vaga na escola,

pois existem diretores que nos negam

este direito. Mas o mais difícil é conseguir

entrar nas cidades, pois as prefeituras

fazem de tudo para nos impedir.

Sem falar no custo do aluguel do lote,

pois as cidades não têm lugar específico

para circos. Aqui, onde estamos, pagamos

R$4.000,00 para apenas três

semanas”, desabafa.

O filho mais velho, Roamir Júnior,

20 anos, diz que poder ter o circo foi

a realização de um sonho e que seus

pais são um exemplo para ele. Ao

falar da mãe, ele conta que ela é o

pilar da família. “Se precisar de alguma

coisa, pode ter certeza que ela vai

saber – desde um remédio para algum

problema a um conselho, além, é claro,

do carinho e do colo”, diz.

Amor e circo

Assim como na vida de Rosa Roma,

na história de Andréia Atiares (foto)

também tem caso de gente que fugiu

para se casar com circense. “Quando

eu tinha dois anos, minha tia fugiu

para se casar com o filho do dono de

um circo que ficou um tempo em minha

cidade. Assim, quando eu fiz cinco anos,

sempre passava as férias com eles. Meu

tio me ensinou tudo. Aos 15 anos, a

história se inverteu: eu, contratada, vivia

no circo e ia passar as férias com minha

família”, lembra.

Outra fuga romântica que gerou

uma família tradicional do circo é a vivida

por antepassados dos Irmãos Simões.

Mas a história de amor que

sabem de cor é a dos seus pais, sr. Francisco

e dona Rita de Freitas Simões. Ao

se apaixonar, em meados do século

XX, pelo moço bonito do circo, o violinista,

trapezista e também Palha -

ço Beija Flor, dona Rita, hoje com 75

anos, não teve dúvidas. Abriu mão do

seu conforto da cidade de Lima

Duarte e, com consentimento dos pais,

NANCI ALVES

Revista Elas por Elas - Abril 2015


84

casou-se, se tornando-se artista também,

ao mesmo tempo em que foi dona

de casa e mãe de 13 filhos. Com certeza,

uma vida de muita luta e resignação.

Hoje, viúva, avó de 20 netos e 5

bisnetos, ela relembra com emoção toda

sua história. “Eu fui artista todo tempo,

parando somente quando os filhos já estavam

grandes, mas nunca sofri preconceitos

por ser mulher de circo.

Como era familiar, éramos bem recebidos.

Mas enfrentamos muitas dificuldades

para sermos um circo tradicional,

itinerante. Falta de conforto, água, luz,

problemas com as escolas para filhos...

Várias vezes, o caminhão estragava e

tínhamos que dormir na estrada de

terra, mas fomos felizes. No início, alugávamos

casas em cada lugar que chegávamos

por uns três meses. Depois,

passamos a usar os trailers”, afirma

dona Rita, que diz sentir saudades de

tudo que viveram”. Depois de muitos

anos, fixaram residência em Contagem

(MG), onde os filhos e, agora, até os

netos fazem espetáculos.

Uma família de quatro gerações de

circo e muita história para contar. Para

Patrícia Simões, filha de dona Rita,

fazer circo sempre foi uma paixão. “Comecei

ainda criança, fui equilibrista e

dançarina. Hoje sou auxiliar de mágico

e apresento dança do ventre”, conta.

Também para a nora da dona Rita, Marta

Simões, o circo é “fascinante e vai

sequestrando as pessoas”. Atualmente,

trabalha com estética, mas foi artista

circense por muitos anos. “Desde o namoro,

já participava dos espetáculos

com malabares, mágica, esquetes humoradas,

etc. Claro que para minha família

foi uma surpresa e meus pais ficaram

inseguros pela vida nômade que

é a do artista circense. Mas o circo foi

um divisor de água em minha vida.

Aprendi a conviver com uma cultura

diferente da minha, um desafio positivo.

Mudei a forma de enxergar o outro.

Consigo olhar para uma pessoa e ver

sua história”, conta Marta.

Na família da dona Rita, todos

aprenderam muito, até cozinhar e cuidar

da casa. Para seu filho Lindomar,

um aprendizado para toda vida. “Há

anos, eu faço nossos figurinos. Até a

ter fé aprendi com minha mãe. Posso

dizer que a mulher é fundamental no

circo. Além da beleza feminina, que é

importante no picadeiro, ela é ótima

para administrar também.”, diz.

MARK FLOREST

Dona Rita Simões entre sua filha Patrícia, a neta Yhaninha e, à direita a nora Marta Simões.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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Um olhar

de fora

da lona

Falta de políticas

públicas aumenta

os desafios das

artistas circenses

DIVULGAÇÃO

A estimativa é que ainda existam no

Brasil mais de dois mil circos itinerantes.

Só em Minas Gerais, há cerca de cem.

É o que fala a presidenta da Rede de

Apoio ao Circo (RAC) e autora da obra

Encircopédia - Dicionário Crítico Ilustrado

do Circo no Brasil, Sula Kyriacos

Mavrudis(foto). “Trabalhamos com estimativas

porque, infelizmente, o circo e

as famílias circenses não entram na

contagem do IBGE. Na hora do censo,

o pesquisador pula o circo e vai para a

próxima casa. Isso é um desrespeito

com eles. Como não são levados em

conta, não existe também uma política

pública que cuide dessa parcela da população.

Assim, se enfrentam, por exemplo,

uma tempestade e perdem seu

equipamento de trabalho, não terão

amparo legal. Não podem participar

de qualquer outro programa de assistência

social como receber a cesta básica

das prefeituras ou o Bolsa Família e

nem participar de projetos culturais por

meio da lei de isenção fiscal porque

não têm endereço fixo”, revela.

Assim, da mesma forma, a mulher

circense não pode, por exemplo, fazer

o pré-natal nos hospitais públicos das

cidades onde chega para uma temporada.

“A circense é uma guerreira,

pois é uma educadora sem ter tido

acesso à escola, ensina valores e profissão

a partir do que aprendeu no

circo com suas famílias. E ela sabe

brigar pelos direitos dos filhos, por

atendimento em hospital, pela vaga

na escola. É comum ter que ir para a

“O circo e as

famílias circenses

não entram na

contagem do

IBGE”.

Delegacia de Ensino cobrar o cumprimento

da Lei 6533/78, quando diretores

não aceitam seus filhos na sala

de aula”, explica.

Mesmo compartilhando as responsabilidades

da casa e do picadeiro, a

mulher circense ainda enfrenta o machismo

e sofre com preconceito por

onde passa. “Mas, em geral, não sofre

violência doméstica, porque os familiares

estão juntos, no trailer ao lado. Nunca

vi usuários de droga e não tem alcóolatras,

a não ser alguns que vêm de

fora. Já vi até separação de casal, mas

muitas vezes, continuam no mesmo

circo. Os casamentos são mais longos

e a relação familiar é boa, pois vivem

e trabalham juntos. Existe uma cumplicidade

profissional, de criar, ensaiar

e executar juntos, números acrobáticos

com precisão”, conta Sula Mavrudis.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


86

Apoio aos circenses

Na avaliação de Sula Mavrudis, a

falta de políticas públicas para o circo

e a falta de legislação específica, em

todos os níveis, que garantam o direito

ao trabalho, saúde, educação e moradia

têm gerado frustação e, consequentemente,

abandono da profissão por

parte de muitos circenses, impactando

na vida das famílias. “É triste ver circenses,

para sobreviver, fazendo outras

atividades que não as que aprenderam

pela sua tradição familiar e que, ao

longo da história, lutam sozinhos para

preservar. Isso é uma degradação do

status”, denuncia.

Segundo Sula Mavrudis, muitos deixaram

de ser itinerantes e, mesmo com

residência fixa, tentam viver de sua

arte, realizando apresentações avulsas

ou oficinas de circo em escolas, clubes

e eventos em geral. E este tem sido um

dos papéis da Rede de Apoio aos Circos

– além de lutar por acesso a políticas

públicas, ajuda as famílias circenses a

conseguirem retomar suas atividades.

Para isso, há muitos anos, fazem uma

reunião com todos os circenses interessados,

às primeiras quartas-feiras do

mês, na sede da RAC. Atualmente, são

60 circos integrantes da Rede.

As novas gerações de circenses,

desanimadas com a falta de apoio

legal, sonham em ser contratadas por

um circo estrangeiro como os da França,

Portugal, Las Vegas, onde os circenses

são mais valorizados. Para a

coordenadora da RAC, a conclusão é

clara: “O Brasil precisa, urgente, de

políticas públicas para o circo. A técnica

é eterna, mas não o circo. Ele e suas

famílias tradicionais estão em risco de

extinção, pois sempre foram esquecidas

pelos governantes”.

Circo contemporâneo

A arte milenar experimenta agora

uma ramificação chamada de circo contemporâneo.

Os novos artistas aprendem

em escolas e não mais com a

família, como antigamente. A primeira

escola de circo surgiu no Rio de Janeiro

em 1982, chamada Escola Nacional de

Circo. Em todo o país, escolas e projetos

sociais ensinam as técnicas circenses

e, quando formados, os jovens que

participaram criam grupos e passam a

se apresentar ao público. É o que

viveu, por exemplo, a mineira Luciana

Menin(foto) que fez sua formação em

Belo Horizonte e Londres, com balé,

teatro e circo. Depois, já em São Paulo,

trabalhou em espaço aberto por muito

tempo com o Circo Amarillo. Após

dez anos assim, e já casada com o argentino

Pablo Nordio, se uniram a sete

ASACAMPOS

Revista Elas por Elas - Abril 2015


87

artistas e criaram o Circo Zanni, com

lona que os possibilita fazer um espetáculo

para 480 pessoas. Depois de tentarmos

bilheteira por algum tempo,

partimos para o trabalho com temporada

paga, espetáculos vendidos. Por

ser caro o transporte de tudo, ficamos

mais em São Paulo e viajamos para pequenas

temporadas. Não somos de

circo tradicional e, assim, temos residência

fixa”, conta Luciana que é mãe

de Guido, de um ano, e Gael, de 5.

Segundo ela, não existe rotina em

sua vida, mas considera que descansa

muito quando está no picadeiro. “Meus

filhos sempre me acompanham e, às

vezes, até entram em cena. Um trabalho

que me possibilita isso é ótimo. Não

vejo dificuldades em ser mãe e profissional

de circo, mas preciso reconhecer

que existe machismo em nossa sociedade

e as circenses rompem isso, exercendo

profissões como trapezista, malabarista,

palhaça, administradoras, etc.

As artistas de circo trabalham normalmente,

como toda mulher que exerce

alguma profissão, diante de situações

como oscilações hormonais, cólicas

menstruais ou quando está amamentando

e o leite suja o figurino, em

cena. São situações com as quais precisamos

saber lidar “, conta.

Luciana Menin diz que o circo é a

sua vida. “Apesar de não ser de família

circense, conversando com minha avó,

descobri que a bisavó dela, também

Luciana, que era russa, fugiu do circo

para se casar, deixando a tradição.

Minha avó ficou emocionada ao me

ver entrando para o mundo do circo,

como que retomando esta história.

Acho mesmo que nasci para fazer isso.

A primeira vez que subi no trapézio

parecia que já tinha feito antes, nunca

tive resistência”, conta Luciana

ao acrescentar que o seu sonho é chegar

o dia em que toda a família, o casal

e os filhos, formarem a trupe para

“cair no mundo com o circo”.

Outra atriz mineira que também

atuou em um circo contemporâneo é

Teuda Bara, do Grupo Galpão de Teatro.

Por quatro anos (2002/06) atuou

em Kà, espetáculo do Cirque du Soleil.

Após passar alguns meses em Montreal

(Canadá) para formação, foi morar em

Las Vegas (EUA), onde apresentava o

espetáculo duas vezes ao dia. “Me admirei

quando fui convidada, pois minha

história é com teatro de rua. Foi muito

bom, mas muito diferente de tudo. As

atrações são modernas e trazem muitas

novidades tecnológicas. A única coisa

comum e que não muda, em todo o

mundo, é o palhaço”, conta.

Segundo Teuda(foto), outra grande

vivência foi fazer a Dona Zaira no

filme O Palhaço, de Selton Mello (fo -

to). “Além de ser uma linda personagem

e uma bela história, pude viver

como se fosse realmente artista circense.

Muito emocionante. E depois do filme,

fui convidada várias vezes para participar

de eventos ou manifestações sobre

circo. Dói saber e perceber que o circo

tradicional está sendo minado no Brasil.

As prefeituras estão dizimando o circo.

Sempre que posso falo isso com as

autoridades com as quais encontro por

aí. O circo está abaixo da linha da miséria.

Por tantos problemas, os grandes

circos vão se acabando e sobrevivendo

apenas os pequenos, de uma ou outra

família. As prefeituras falam que o

circo vai tirar o dinheiro da cidade.

Uma total falta de entendimento. Eles

também consomem na cidade e, muito

mais importante, trazem cultura, diversão

e arte”, afirma.ø

Rede de Apoio ao Circo - RAC

Rua da Bahia, 1.148 - sala 1910 - Centro

Cep: 30160-906 - Belo Horizonte - MG

Brasil - TeleFax: (31) 3224.4743

satedmg@satedmg.org.br

DIVULGAÇÃO O PALHAÇO/ BANANEIRA FILMES

Revista Elas por Elas - Abril 2015


88

foto CECÍLIA ALVIM

VIOLÊNCIA

POR CECÍLIA ALVIM

"A gente tem uma

força que desconhece"

A história de uma professora da rede particular que

deu um basta na violência doméstica


89

A violência doméstica parece ser

realidade somente nas periferias da

cidade, entre as classe populares. No

entanto, cada vez mais se sabe que

mulheres de todas as classes sociais,

inclusive com formação acadêmica,

são vítimas de violência por parte de

seus companheiros.

Formada em Letras e professora

há 40 anos, Helena (nome fictício) foi

vítima da agressividade de seu ex-marido.

Após 34 anos de relacionamento,

sendo dez de namoro e 24 de casamento,

ela deu um basta na violência

que a fez sofrer durante anos, e se separou

do marido. “Depois que criei

coragem e saí de casa, comecei a me

cuidar, a gostar de mim de novo”.

Segundo Helena, não foi fácil

tomar essa atitude. Ela sempre achava

que as coisas iam mudar e tinha vergonha

de pedir ajuda. “Era difícil falar

sobre o assunto, eu me sentia uma fracassada,

querendo me reerguer, mas

sem saber como”. Foi então que, um

dia, ela viu uma notícia na televisão

sobre uma mulher que havia levado

inúmeras facadas de seu marido e decidido

dar um fim à violência. “Eu

pensei: vou ter a força dessa mulher.

Entendi que era preciso ter coragem

de denunciar, de falar sobre o assunto,

porque isso inibe quem quer fazer o

mal e dá força a quem precisa sair

dessa situação. Por isso, aceitei dar

este depoimento”.

A primeira vez em que foi agredida

fisicamente pelo ex-marido, ficou com

o rosto todo machucado e roxo. Perdeu

parte dos dentes, e o rumo da

vida... Passou a viver então sob o

domínio do medo. Ele ameaçou que se

ela contasse para alguém, poderia

fazer algo contra seus pais. Ela ficou

apavorada, e resolveu se preparar para

mudar de vida. “A superação não vem

de fora para dentro, vem de dentro

para fora. É cômodo ser a vítima, mas

é difícil sair desse lugar. É preciso acordar

para o fato de que condutas

agressivas por parte de companheiros,

não são normais, e não devem ser

toleradas”.

Continuou vivendo na mesma casa

que ele, mas dormia em outro quarto,

com seus dois filhos pequenos, de

porta trancada. “Ele raramente foi um

pai presente e carinhoso. Nessa

época, os meninos passaram a ter

medo dele”. Helena saía para trabalhar

com receio de que pudesse ser alvo de

violência. “Existe a Lei Maria da

Penha, mas na rua você está sozinha.

A gente não se sente protegida”,

conta. “A cada dia que passava, eu

chegava em casa e me sentia uma vitoriosa.

Eu achava que ia morrer,

mas não parei pela minha fé”.

Houve tempos de alguma convivência

em casa, mas nunca mais

confiou naquele que lhe jurou amor

“Existe a Lei

Maria da Penha,

mas na rua você

está sozinha.

A gente não se

sente protegida”

sem fim no altar, até porque ele não

era mais a mesma pessoa que havia

conhecido anos antes. Cerca de três

anos depois do primeiro episódio de

violência extrema, foi comunicar ao

marido que queria se separar, e novamente

ele a agrediu. “Dessa vez, eu já

estava mais preparada. Consegui me

defender, e os danos foram menores.

Meus filhos já estavam maiores e ajudaram

a me proteger. Nesse dia, eles

me falaram: – Chega, mãe”.

Segundo Helena, duas ocasiões extremas

de violência e muitos episódios

de comportamentos estranhos, agressões

verbais, manifestações de ciúme

e de sentimento de posse a fizeram

chegar à conclusão de que não era possível

mais viver daquela forma. Então

ela tomou fôlego, foi até a Delegacia

de Polícia e registrou boletim de ocorrência.

Juntou algumas roupas suas e

de seus filhos e foi para a casa da mãe,

onde vive até hoje, reorganizando a

própria vida. O ex-marido não aceitou

a separação consensual, que teve que

ser litigiosa, e só terminou de se resolver

recentemente.

Atualmente, ela leciona em uma

escola particular de Belo Horizonte, é

sindicalizada ao Sinpro Minas, e dá

também aulas particulares para complementar

a renda. Cuida dos filhos e

caminha pela vida com um sorriso

aberto, que traduz a beleza de quem

redescobriu a própria força de mulher

guerreira que é.” Ele me magoou

muito, mas eu não quis perder a minha

alegria de viver. Nunca pensei em dar

o troco, mas sim em superar, sendo

uma pessoa melhor. A gente tem uma

força que desconhece. Hoje, sou uma

pessoa mais forte e totalmente apaixonada

por mim, pela minha força e fé,

e é isso que me move...”

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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Jovens reproduzem machismo

nas redes sociais

Pesquisa

“Violência contra a mulher:

o jovem está ligado?”

Os jovens aprovam a Lei Maria da

Penha e percebem a existência do machismo

no país. É o que aponta a pesquisa

Violência contra a mulher: o jovem

está ligado?, realizada pelo Instituto

Avon em parceria com o Data Popular

e divulgada em dezembro de 2014 durante

o Fórum Fale sem Medo, em

São Paulo. No entanto, boa parte desses

jovens “reproduzem comportamentos

que subjugam a autonomia e os direitos

das mulheres e que estão na raiz de diferentes

formas de violência física, moral

e psicológica contra mulheres de todas

as idades”, alerta informe do Instituto

Patrícia Galvão, organização que foi

consultora da pesquisa.

Os entrevistados responderam questões

sobre diversos temas, entre eles

relacionamentos virtuais, sexualidade,

Lei Maria da Penha e violência nos relacionamentos.

Entre os temas que ganharam

espaço na pesquisa estão a

cyber vingança e os relacionamentos

afetivos em tempos de redes sociais.

O estudo comprova que “o ciúme em

excesso, a submissão e a necessidade

de controlar o parceiro – até mesmo

sobre o que vestir ou postar nas redes

sociais – são comuns nos relacionamentos

entre os jovens”.

“A pesquisa deixa muito claro que

os jovens têm dificuldade em entender

o que é violência. Essa falta de percepção

permite a perpetuação dos atos de

agressão e da desigualdade de gênero.

A pesquisa mostra como tudo isso é

naturalizado na sociedade”, explicou

Jacira Melo, diretora executiva do Instituto

Patrícia Galvão, durante o Fórum.

“A sociedade precisa superar as

discriminações e propagar novos

valores de igualdade, sem machismo,

racismo e homofobia”, apontou a

secretária de Enfrentamento à Violência

contra as Mulheres da Secretaria

de Políticas para as Mulheres,

Aparecida Gonçalves. Ela destacou

que o Ligue 180 recebe em

média 22 mil ligações por dia de

mulheres pedindo ajuda e, a cada

5 minutos, uma mulher é

agredida no Brasil, mesmo após

oito anos da publicação da Lei

Maria da Penha.

Para mudar este cenário, os especialistas

presentes ao evento recomendaram

como fundamentais

“ações e políticas públicas que envolvam

a educação e a mídia, para

disseminar valores de igualdade e

respeito e mostrar que é papel de

toda a sociedade enfrentar as discriminações

e reverter a banalização

de todas as formas de violência”,

destacou o informe do Instituto.

“Ações e políticas

que envolvam a

educação e a mídia

podem disseminar

valores como

igualdade e

respeito”

Fonte: Data Popular/Instituro Avon

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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Lei Maria da Penha reduziu em 10% os

homicídios contra as mulheres

ROBERTO STUCKERT FILHO

O Instituto de Pesquisa Econômica

Aplicada (Ipea) divulgou no dia 04 de

março em Brasília um estudo sobre a

efetividade da Lei Maria da Penha

(LMP) e outro sobre a institucionalização

das políticas protetivas à mulher. No

primeiro artigo os pesquisadores do

Instituto utilizaram dados do Sistema

de Informações sobre Mortalidade do

SUS e um método conhecido como

‘modelo de diferenças em diferenças’,

para estimar a existência de efeitos da

lei na redução de homicídios de mulheres

brasileiras. “A LMP fez diminuir

em cerca de 10% a taxa de homicídio

contra as mulheres dentro das residências.

Isto implica dizer que a Lei foi

responsável por evitar milhares de

casos de violência doméstica no país”.

O estudo apontou ainda que a Lei

Maria da Penha “modificou o tratamento

do Estado em relação aos casos

envolvendo violência doméstica, através

de três canais: aumentou o custo da

pena para o agressor; aumentou o

empoderamento e as condições de segurança

para que a vítima pudesse denunciar;

e aperfeiçoou os mecanismos

jurisdicionais, possibilitando que o sistema

de justiça criminal atendesse de

forma mais efetiva os casos envolvendo

violência doméstica”.

No segundo artigo os pesquisadores

fizeram um mapeamento inédito dos

serviços protetivos para as mulheres

em situação de risco que foram institucionalizados

no território brasileiro. Segundo

a análise, houve um “crescente

processo de expansão das Redes de

Atendimento e Enfrentamento no Brasil,

ainda que, nesse momento inicial de

implantação, os serviços estejam concentrados,

majoritariamente, nas regiões

metropolitanas dos estados”.

Uma iniciativa positiva de expansão

da rede de enfrentamento à violência

é o Projeto Casa da Mulher Brasileira,

que consiste na construção de

um complexo, em cada capital do País,

que comportará todos os serviços especializados

para atender as mulheres

Revista Elas por Elas - Abril 2015


92

em situação de violência, incluindo delegacia,

juizado, defensoria, promotoria,

equipes psicossociais e de orientação

para emprego e renda, além de brinquedoteca

e área de convivência.

“Hoje a mulher vai à delegacia e

fica quatro, cinco horas esperando.

Até sair a medida protetiva, demora

48 horas. Depois ela tem que ir ao juizado,

demora mais um dia. Depois na

defensoria. Então, ela termina tirando

cinco dias para poder cuidar disso. Na

Casa, vai ser um dia só”, ressaltou a

secretária de Enfrentamento à Violência

da SPM/PR, Aparecida Gonçalves.

Em fevereiro de 2015, a presidenta

Dilma Rousseff participou da inauguração

da primeira Casa da Mulher Brasileira,

em Campo Grande, Mato Grosso do

Sul. A previsão do Governo Federal é

de implantar, até 2016 uma Casa em

cada capital do País, até 2016, exceto

Recife, que não aderiu ao programa.

Campanha educativa

A Campanha Quem ama, abraça

ocupou-se, em 2013/14, com “o fortalecimento

do espaço escolar como

campo privilegiado para reflexão e

superação das diferentes formas de

violência contra a mulher – simbólicas

ou explícitas – presentes no cotidiano

das crianças e jovens”. Segundo a

Campanha, “a função social da escola

é extremamente relevante pela possibilidade

de que, ao disseminar valores

através de sua atuação pedagógica,

pode instrumentalizar crianças e jovens

para o exercício real da cidadania” e

para a superação das desigualdades de

gênero.

O site www.quemamaabraca.org.br

disponibiliza informações, atividades,

clipes musicais e jogos que professores

podem utilizar com seus alunos para

promover a conscientização e a discussão

sobre o enfrentamento à violência

contra as mulheres.

“Quem ama, ajuda. Quem ama,

agrada. Dá carinho e dá calor.

Quem ama, cuida. Quem ama,

abraça. Não maltrata o seu amor.”

Trecho do clip da Campanha, que teve a participação

de vários artistas

Feminicídio

agora é crime

hediondo

A presidenta Dilma Rousseff sancionou

no dia 9 de março, a Lei do

Feminicídio. Com isso, passou a ser

considerado crime hediondo o assassinato

de mulheres decorrente de violência

doméstica ou de discriminação

de gênero. O anúncio de que a lei

seria sancionada foi feito no último dia

8 de março, em comemoração ao Dia

Internacional da Mulher, em um pronunciamento

realizado na rádio e TV.

A lei que tipifica o feminicídio como

homicídio qualificado e o inclui no rol

de crimes hediondos é considerada por

especialistas ouvidas pela Agência Brasil,

um avanço na luta pelos direitos das

mulheres. Para a representante da

ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman,

a aprovação do projeto representa

avanço político, legislativo e social.

“Temos falado há muito tempo da

importância de dar um nome a esse

crime. A aprovação coloca o Brasil

como um dos 16 países da América

Latina que identificam o crime com

nome próprio”, disse.

O texto modifica o Código Penal

para incluir o crime – assassinato de

mulher por razões de gênero – entre

os tipos de homicídio qualificado. Prevê

também o aumento da pena em um

terço se o assassinato acontecer durante

a gestação ou nos três meses posteriores

ao parto; se for contra adolescente

menor de 14 anos ou contra uma pessoa

acima de 60 anos ou, ainda, contra

uma pessoa com deficiência. A pena é

agravada também quando o crime for

cometido na presença de descendente

ou ascendente da vítima.

O projeto de Lei 8305/14 do Senado

foi elaborado pela Comissão Parlamentar

Mista de Inquérito (CPMI) da

Violência contra a Mulher. Na justificativa

do projeto de lei, a CPMI destacou

que, de 2000 a 2010, 43,7 mil mulheres

foram assassinadas no Brasil,

sendo que mais de 40% das vítimas

foram mortas dentro de suas casas,

muitas pelos companheiros ou ex-companheiros.

Além disso, a comissão informou

que a estatística colocou o

Brasil na sétima posição mundial de

assassinatos de mulheres.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


93

Revista Elas por Elas - Abril 2015


94

ARQUIVO PESSOAL

Professora Marli Pereira realiza Chá da Vovó com seus alunos.

EDUCAÇÃO

POR CECÍLIA ALVIM

Profissão docente:

uma escolha de valor

Prêmios valorizam iniciativas de professoras que fazem a diferença

Revista Elas por Elas - Abril 2015


95

O ofício do professor e da professora

é ensinar, despertar o interesse dos

alunos pelos saberes e acontecimentos

do mundo, desenvolver atividades que

façam aflorar a criatividade e o gosto

pela vida, transmitir conhecimentos e

valores humanos que acompanhem os

alunos pelos caminhos que forem trilhar...

Mesmo sendo uma profissão antiga,

os mestres têm sempre que renovar

o propósito de educar, para que suas

práticas se adaptem às mudanças e

demandas dos novos tempos. Diante

disso, novos projetos surgem e trazem

novos ares para o cotidiano escolar.

Algumas dessas práticas, então, tornam-se

conhecidas através de prêmios

promovidos para incentivar os professores

a aprimorar sua atuação em sala

de aula. Um desses prêmios foi promovido

em 2014 pelo Sinpro

Minas, Nandyala Livraria & Editora,

Sind-Ute, entre outras entidades. O

Prêmio Educa Minas para a Diversidade

destacou ações pedagógicas voltadas

para o respeito à diversidade étnico-racial,

desenvolvidas por professores

da Educação Básica de escolas

privadas e públicas de Minas Gerais.

A iniciativa premiou docentes que

fazem acontecer a Lei 10.639 em suas

escolas. Essa lei, que tornou obrigatório

o ensino da História e Cultura Afrobrasileira

no ensino fundamental e médio

desde 2003, foi atualizada pela

Lei 11.645/2008, que acrescentou o

ensino da História e Cultura Indígena

no currículo escolar. Em 2013, essa

legislação foi alterada pela Lei de Diretrizes

e Bases da Educação Nacional

(Lei 12.796).

Doze anos depois da aprovação da

lei 10.639, ainda pouco se faz para

que ela se torne realidade em boa parte

das escolas brasileiras. Para a diretora

“Premiar é valorizar

quem já está fazendo,

para que outros

professores

acompanhem e

vençam as resistências

à temática no

ambiente escolar”.

do Sinpro Minas, Terezinha Avelar, a

temática deve permear o projeto político-pedagógico

das instituições de ensino

ao longo de todo o ano. “Essa discussão

deve envolver todos os professores,

pois não pode ser responsabilidade de

uma pessoa somente. Muitas vezes, se

espera ou se delega essa iniciativa a

professoras negras”. Para ela, o Prêmio

Educa Minas realça o papel do/a professor/a

na implementação da lei. “Premiar

é valorizar quem já está fazendo,

para que outros professores acompanhem

e vençam as resistências à temática

no ambiente escolar”.

Em Minas Gerais, doze professores/as

da rede particular, filiados/as

ao Sinpro, tiveram seus projetos de

implementação da Lei 10.639 reconhecidos

pelo Prêmio Educa Minas.

Um desses projetos premiados foi desenvolvido

pela professora Fernanda

Gontijo de Abreu, e mais seis professores,

em uma escola de Belo Horizonte,

dentro do Projeto Institucional

desenvolvido ao longo de 2013.

O tema central do projeto foi a

presença do negro na brasilidade. “Considerávamos

urgente problematizar a

presença do negro no Brasil, que

parece cada vez mais se esquecer da

sua história, e que ainda mantém arraigadas

e dissimuladas posturas de

preconceito, exclusão e dominação

quando o assunto é a questão racial, a

liberdade e a igualdade de oportunidades”,

destacou a professora Fernanda

Gontijo. O projeto se desdobrou em

ações pedagógicas nas áreas de Ciências,

História, Geografia, Artes, Português,

Música e Literatura. O trabalho

desenvolvido pela professora Fernanda

na área de Língua Portuguesa foi a

produção de um jornal com artigos de

interesse dos alunos sobre o tema.

Além disso, eles realizaram pesquisas

orientadas pelos professores, assistiram

filmes, visitaram a Comunidade Quilombola

de Mangueira, localizada no

bairro Aarão Reis, a Casa África (centro

cultural e consulado do Senegal em

BH), e participaram de uma palestra e

atividade de capoeira coletiva com o

Mestre João Angoleiro e alguns capoeiristas.

Como resultado, os alunos

produziram diversos trabalhos plásticos,

literários e científicos, que ficaram expostos

até a primeira etapa de 2014,

e receberam visitas da comunidade escolar,

além de moradores do bairro.

Para Fernanda Gontijo, o projeto

gerou aprendizado para todos os

envolvidos, inclusive para os professores.

“Eu mais aprendi do que ‘ensinei’,

o que é muito bom. Um trabalho que

investe no desenvolvimento do pensamento

crítico, e não dogmático,

mobiliza saberes para todos os que

estejam verdadeiramente envolvidos

com a proposta”. Ela conta que o projeto

a fez reviver e resgatar as mais

inspiradoras experiências de sua infância

e adolescência dentro do ambiente

escolar. “Ao discutir o tema da negritude

na brasilidade, vieram à tona

também os temas implícitos da liberdade,

justiça, valorização e dignidade

Revista Elas por Elas - Abril 2015


96

humana, o que ressignificou para mim

toda uma temática profissional e

humana”, relata Fernanda.

De acordo com ela, os problemas

que envolvem a questão racial no Brasil

e no mundo refletem a história de dominação

e saqueamento de direitos e

bens culturais do povo negro, disseminada

ao longo de muitos séculos. “É

preciso muito trabalho e o amplo acesso

a uma educação de qualidade para transformar

o que se naturalizou historicamente.

O professor é, por isso, peçachave

no percurso da transformação e

justiça social ao investir em um trabalho

diferenciado em sala de aula, mesmo

em condições adversas”, observa.

Riqueza africana

Professora Fernanda Gontijo realiza visita à Casa África.

Outra iniciativa reconhecida pelo

Prêmio Educa Minas é a da professora

Aline Tadeu Lopes, também em uma

escola particular da capital. Ela desenvolveu

o projeto Cultura Afro-brasileira

e Africana com alunos de diferentes

idades do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental.

Diversas atividades apresentaram

um pouco da riqueza que o continente

africano trouxe para o Brasil.

As crianças participaram de brincadeiras

de origem africana, de contação de histórias,

de peça teatral, de exposição de

telas do artista Marcial Ávila com o

tema Anjos Negros, de conversa com

pessoas de origem angolana, que levaram

à escola esculturas e informações sobre

a cultura e a comida do país, e também

assistiram a uma apresentação de dança

afro com o Grupo Bataka. Ela conta

que os alunos gostaram muito do projeto,

que foi também premiado no prêmio

Inovações Pedagógicas, do Sesc.

Aline conta que, desde que cursou

Pedagogia, se preocupou em aprofundar

na temática, e por isso, fez sua monografia

sobre a Lei 10.639. Para ela, a

educação é um instrumento para a construção

de uma sociedade anti-racista.

“Cabe a nós, professoras e professores,

promover atividades voltadas para a

questão étnico-racial, pois é assim que

construiremos uma educação voltada

para o respeito e valorização do negro

na sociedade brasileira”, destaca.

ARQUIVO PESSOAL

Professoras

são maioria nas

escolas

brasileiras

Outra premiação, em escala nacional,

também repercute iniciativas de

professoras que resolveram fazer diferente

em suas escolas e assim fizeram

a diferença na vida de inúmeros alunos.

É o Prêmio Professores do Brasil,

cuja cerimônia de sua 8ª edição foi

realizada em dezembro de 2014, na

cidade de São Paulo. Promovido pelo

Ministério da Educação, o prêmio reconhece

iniciativas de professores da

educação básica pública. “O prêmio

atende a uma das metas do Plano Nacional

de Educação, a valorização dos

professores. Necessitamos de ações

que tornem os educadores motivados

e comprometidos. Com acesso a planos

de carreira, salários atrativos, formação

inicial e continuada de qualidade, reconhecimento

de seu papel social e

referência para a nossa sociedade”,

aponta o documento final do Prêmio.

Em 2014, concorreram 6.808 projetos,

e apenas 39 professores foram

premiados por suas iniciativas. O resultado

confirma a participação majoritária

das mulheres na educação. Foram

32 professoras e apenas sete professores

premiados. No universo mais

amplo das escolas públicas brasileiras,

as mulheres são mesmo maioria. Segundo

dados do Instituto Nacional de

Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio

Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da

Educação, em 2013, havia 2.148.023

professores na educação básica, e,

deste total, 1.724.653 eram mulheres.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


97

IMAGEM TV ESCOLA

Em Minas Gerais, há 186.184 mulheres

e apenas 37.329 homens nas

salas de aula das escolas públicas. Duas

dessas mulheres foram vencedoras da

oitava edição do Prêmio Professores

do Brasil 2014. É o caso de Marli Pereira

da Silva Morais, professora na Escola

Municipal Gil Brasileiro da Silva,

em Itapagipe, no Triângulo Mineiro.

Ela recebeu o prêmio pelo projeto “Mala

Viajante”, desenvolvido com 24 alunos

do 4º ano do Ensino Fundamental.

A cada semana escolar do ano de

2014, um aluno levou para casa uma

divertida mala com livros para serem

lidos com a família, além de uma cópia

do projeto e de fichas para os pais entenderem

a proposta e avaliarem a leitura.

Deu tão certo que, depois de envolver

os pais, o projeto alcançou também

as avós. Inspirado pela dona

Benta, avó dos personagens principais

do Sítio do Picapau Amarelo, de

Monteiro Lobato, e pelo livro A colcha

de retalhos, de Conceil Corrêa da

Silva e Nye Ribeiro, que narra a relação

entre avó e neto, o sub-projeto “Aprendi

com a vovó” trouxe a sabedoria das

mulheres mais velhas da família para

dentro da sala de aula.

Histórias e valores

Cada aluno foi convidado a trazer

um retalho significativo de casa e a

contar a história daquele pedaço de

pano, muitas vezes cedido por avós ou

mães. Os retalhos transformaram-se

em uma colorida colcha de retalhos,

que passou a forrar a mesa da sala.

Com empenho de todos, foi então realizado

o Chá da Vovó, com a presença

das avós e de seus quitutes e receitas.

Algumas delas disseram nunca terem

sido chamadas na escola dos netos

para participar como avós, e que se

sentiram felizes pela homenagem recebida.

A partir da leitura dos livros da

mala e das atividades relacionadas, os

alunos desenvolveram diferentes tipos

de texto, reforçaram o aprendizado de

valores como respeito e colaboração,

e passaram a contar com a participação

mais ativa da família em sua

vida escolar.

A professora Marli conta que ficou

contente em desenvolver o projeto e

por ter sua iniciativa valorizada pelo

Prêmio Professores do Brasil. “A so-

Revista Elas por Elas - Abril 2015


98

ciedade passa a te olhar com mais respeito,

a escola cresce e os alunos ficam

mais confiantes e mais motivados, enfim,

todos ganham”, relata. Segundo

ela, ser professora não é uma tarefa

fácil, mas é gratificante. “Gosto muito

do que faço. O que eu sei fazer é dar

aula. Quando você vê que uma ação

sua fez a diferença na vida das pessoas,

é a melhor realização, é um prêmio.

Apesar dos desafios, eu ainda acredito

muito na educação”, completa Marli.

Aula de cidadania

Outra professora mineira reconhecida

pelo Prêmio Professores do Brasil

é Soraya Amaral Nantes de Castilho.

Ela é professora de Química na Escola

Estadual Benedito Ferreira Calafiori,

em São Sebastião do Paraíso, no Sul

de Minas. Seu projeto Ditão em ação:

descarte de pilhas e baterias foi desenvolvido

com cerca de 200 alunos

do 3º ano do Ensino Médio.

Ao longo de 2013, eles recolheram

cerca de 400 quilos de pilhas e baterias

e cuidaram do envio do material para

uma empresa de reciclagem. O projeto

nasceu quando a professora Soraya

constatou o desconhecimento dos alunos

sobre o funcionamento e a composição

desses produtos e, principalmente,

sobre como descartá-los no fim

de sua vida útil. Foi preciso então estudar

a teoria, assistir a vídeos e colocar

em prática as ideias que surgiram. Os

alunos construíram, então, baterias rudimentares

com limões e batatas, criaram

panfletos sobre reciclagem e uma

música sobre o descarte correto de pilhas

e baterias. Também criaram coletores

(papa-pilhas) e hoje há dezenas

deles espalhados pela cidade.

Soraya Amaral conta que o projeto

mudou sua forma de atuar na escola e

na vida. “Hoje me sinto cada vez mais

responsável pelos problemas ambientais

ao meu redor. Continuo procurando

parcerias para ampliar o projeto a fim

de informar, sensibilizar e aumentar a

consciência ambiental de novos alunos

e da população”, relata. Assim, ela

continua a incentivar a criação de mais

postos de recolhimento de pilhas e baterias

em sua cidade. “Precisamos evitar

o descarte na natureza de metais pesados,

tão prejudiciais à sustentabilidade

do planeta e à saúde da humanidade”,

observa. Com sua visão consciente, a

professora Soraya dá uma aula de cidadania.

“O papel do professor é garantir

a aprendizagem, criar possibilidades

de construção do conhecimento,

transmitir valores, atitudes e habilidades,

mas, sobretudo, acreditar no potencial

dos alunos, permitindo-lhes crescer

como pessoas, como cidadãos e como

futuros trabalhadores”, completa.

ARQUIVO PESSOAL

Professora

conta que foi

influenciada por

outras mulheres

a seguir a

profissão

Fernanda Gontijo de Abreu (foto),

professora de Língua Portuguesa de

uma escola particular de BH, escolheu

a profissão inspirada por sua mãe professora

e por sua rica vivência com

suas professoras desde a infância. Por

sua atuação diferenciada e integrada à

equipe de professores da escola, ela

recebeu o Prêmio Educa Minas para

a Diversidade, em dezembro de 2014.

Nessa entrevista, ela conta um pouco

de sua trajetória no ambiente escolar,

expõe sua crença no papel transformador

da educação, e repercute os

desafios encontrados pelas professoras

para exercer a profissão.

Como surgiu o interesse pela

profissão?

Desde criança, tenho um envolvimento

especial com o ambiente escolar.

Um dos motivos é o fato de eu ser

filha de professora. Minha mãe lecionou

por anos no ensino infantil do tradicional

Instituto de Educação de Belo Horizonte

em uma época em que ali se apostava

na ampla formação do aluno: refirome,

obviamente, não apenas à formação

cognitiva, mas a que também

levava seriamente em conta a emoção,

a sociabilidade e o desenvolvimento

dos valores éticos, o que fazia a equipe

docente investir criteriosamente no

saber lúdico e inventivo, na alegria da

convivência na escola, na leitura crítica

Revista Elas por Elas - Abril 2015


99

e aprofundada desde a alfabetização,

respeitando-se a gradual, mas profunda

inserção da criança no mundo da escrita

e da leitura.

Como a instituição em que minha

mãe trabalhou foi a mesma em que estudei

até a 4ª série, tive o privilégio de

ter professores(as) que lecionavam com

criatividade, bom humor e muita dedicação.

Lembro-me, por exemplo, com

grande carinho, da professora de matemática

da 3ª série – a Margô –, que,

vejam bem!, ensinava matemática com

poesia, apresentando a cada aula um

novo poema do qual os alunos deveriam

descobrir, pela sugestão da rima,

a última palavra. Esta prática levavanos

a refletir, antes de simplesmente

“aprender” a matéria, sobre o tema a

ser trabalhado dentro do conteúdo matemático

proposto.

Não tenho dúvidas, portanto, de

que a maneira como pratico a minha

profissão, que já vai para mais de 10

anos, está intimamente ligada à minha

passagem na infância por escolas que

souberam transmitir-me uma sólida ética

de ensino-aprendizagem, fazendo-me

entender o espaço do conhecimento

como lugar de autonomia do pensamento,

de aprimoramento social e humano

contínuos. Quando na adolescência,

já no colegial, passei por uma

escola de linha conteudista, a semente

da leitura crítica já havia germinado em

mim. O que eu fazia o tempo todo era

questionar em silêncio, embora não tivesse

dificuldade para apreender os

conteúdos repassados, o papel social

de uma instituição que priorizava os resultados,

a quantidade e a velocidade

de apreensão dos conteúdos em detrimento

da assimilação cautelosa e consistente

do conhecimento, criando nos

alunos parâmetros de pensamentos consonantes

com o ritmo acelerado, massificado

e descartável das informações

presentes em um mundo cujo principal

valor é o capital e o consumo. Mesmo

nesse período de minha vida estudantil,

o ambiente escolar era instigante para

mim pelo esforço solitário que eu fazia

para questioná-lo, compará-lo, compreendê-lo.

Acho que é por isso que

até hoje estou na escola... como professora

e como aluna, pois, mesmo trabalhando,

jamais parei de estudar.... E

sim, as instituições de ensino ainda continuam

sendo para mim, em muitos aspectos,

espaços cheios de incoerências

e que devem ser repensados em sua

forma de agir, ensinar, amar...

Quais os desafios para conciliar

a docência com a vida pessoal e a

família?

É um desafio constante, já que

todo(a) professor(a) trabalha muito também

fora da sala de aula, fazendo planejamentos,

preparando atividades, estudando,

tratando da burocracia que

uma escola exige... O trabalho é muito

e a família acaba se acostumando e

aprendendo a lidar com isso. De toda

forma, acredito que, como todo trabalho

que é feito com empenho, a compensação

é dada pelo efeito que vemos

ocorrer em nosso público, no setor social

ao qual servimos. Isso é muito gratificante!

Quando percebo que os alunos

estão crescendo como seres humanos

e pensantes, e que pude contribuir um

pouco para isso, fico feliz e já me sinto

recompensada por meu investimento.

E a família, quando nos percebe fortes

e integrados com o que realizamos

profissionalmente, se inspira nesse

vigor e acaba procurando caminhos

de realização também.

O esforço e os desafios são imensos

(na profissão de professor, isso é histórico

e já há muito é uma questão a

ser definida politicamente), mas é preciso

não abrir mão de uma vida saudável,

com tempo para lazer e convivência

com aqueles que prezamos. Porém,

acredito que a principal fonte de revitalização

venha mesmo do próprio trabalho

feito em consonância com o que

acreditamos.ø

ARQUIVO PESSOAL

Revista Elas por Elas - Abril 2015


100

foto BRUNO CARVALHO

ENTREVISTA

MARA EVARISTO

por DENILSON CAJAZEIRO

Diversidade é

assunto de criança

Especialista defende a abordagem das relações

étnico-raciais desde a educação infantil

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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Autora de livros que trabalham a

identidade afrodescendente e a diversidade,

Mara Evaristo se dedica há

mais de 20 anos a promover as relações

étnico-raciais na educação infantil. “Embora

não saibam o que é racismo, as

crianças têm atitudes discriminatórias”,

aponta a educadora e especialista no

tema, em entrevista à Elas por Elas.

Atualmente, Mara Evaristo é também

coordenadora do Núcleo de Relações

Étnico-Raciais da Secretaria Municipal

de Educação de Belo Horizonte. Uma

de suas principais tarefas é acompanhar

a aplicação da lei 10.639, aprovada

em 2003, que determina o ensino da

história e cultura afro-brasileira e africana

em todas as escolas do país, públicas e

particulares. No cargo, sabe bem que

um dos principais desafios para introduzir

o assunto nas escolas é mudar a

cultura que permeia o ambiente escolar.

“A gente percebe que, no início do

ano, nas reuniões escolares, fala-se de

tudo, de alimentação, de fralda, mas

sobre relações humanas não se fala.

Quando se fala da lei, da diversidade,

muita gente diz que tem de cuidar da

autoestima da criança negra. O que

vejo é que a criança negra nasce com a

autoestima lá em cima. O que tem de

cuidar é das outras pessoas, para não a

prejudicarem. Porque quem causa danos

são os outros. As crianças nascem bem

com elas mesmas”, ressalta.

Além das atividades na Secretaria,

Mara Evaristo desenvolve oficinas voltadas

para professores sobre a construção

da identidade pelas crianças e

defende que o trabalho com o tema

tem de estar presente no cotidiano escolar.

Não basta ser algo pontual, de

curta duração. “É preciso garantir a

diversidade ao longo do ano, o tempo

todo, não é só um projeto para ser

feito no mês da consciência negra.

Isso é que vai fazer a diferença”, afirma.

Confira a entrevista.

Como começou seu trabalho com

as relações étnico-raciais na educação

infantil?

Em 1995, ingressei na carreira do

magistério e comecei a me preocupar,

principalmente quando trabalhava com

literatura, com os alunos negros que

não se identificavam com os personagens,

não tinham tanta empatia. Então

comecei a trabalhar com eles recriando

histórias. Naquela época tinha a tradição

dos contos de fadas no processo de alfabetização,

e comecei a provocá-los,

perguntando como seria se aquelas histórias

acontecessem no território onde

moravam. Refazíamos imagem, texto,

e eu percebia um interesse maior por

parte deles a partir dessa intervenção.

Quanto tive filhos, começou o processo

da minha vivência da educação na condição

de família. O mais velho foi para

a educação infantil, com três anos, e

na escola dele tinham poucos alunos

negros. E lá que vivi pela primeira vez

a percepção de como as crianças de

dois, três, quatro anos vão percebendo

“É preciso garantir

a diversidade ao

longo do ano,

tempo todo,

não é só um

projeto para ser

feito no mês da

consciência negra”.

as diferenças de tratamento. Meu filho,

com outros [colegas], viveu algumas situações

de discriminação. A escola foi

muito bacana nesse processo, porque

desenvolveu um projeto para trabalhar

com alunos, principalmente brancos,

que manifestavam essa discriminação,

para que eles entendessem o que era a

cor da pele. Pensamos em trabalhar

com crianças de três anos a melanina.

E aí nós pesquisamos e encontramos

uma experiência americana que trabalhava

leite com achocolatado. Mostramos

para os meninos que a pigmentação da

pele tem elementos com a mesma atuação

que o achocolatado no leite. Quanto

mais chocolate na mistura, mais escuro

o leite, e da mesma forma a pele. Eles

queriam entender se por dentro também

era escuro, e achamos que uma opção

interessante seria trabalhar com maçãs.

As frutas foram descascadas, e a meninada

identificou que por baixo da casca

a cor era semelhante, e com essas vivências

eles conseguiram perceber as

diferenças. Vi como isso provocou um

impacto positivo nas relações que meu

filho e os colegas construíram dentro

da escola. Embora não saibam o que é

racismo, as crianças têm atitudes discriminatórias.

Vi também o quanto as famílias

e a escola têm responsabilidade

neste momento na formação da criança,

porque é ali que você vai trabalhar a

questão da diferença, da semelhança,

do respeito. A partir dessa experiência

pessoal, comecei a montar uma oficina

para professores sobre a construção da

identidade pelas crianças. Quando comecei,

as professoras negavam muito

que houvesse discriminação. Diziam que

na escola todo mundo era igual, que

discriminação era coisa de adulto e as

crianças nem percebiam isso. Era o

discurso do senso comum.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


102

Da democracia racial?

É, da democracia racial. Quando

ele não chegava nesse lugar, era um

discurso que caminhava mais para a

questão religiosa, que o trabalho com

as crianças tinha de valorizar as diferenças,

e que se elas não fossem bonitas

aos olhos dos coleguinhas, não precisavam

se preocupar, porque aos olhos

de Deus elas eram. Então havia esses

dois movimentos. A gente não imagina,

quando estamos dispostos a enxergar,

o que as crianças estão falando sobre

as diferenças. Ouvi, na época do Natal,

que anjo preto era só do mal, que

preto era pivete, roubava, que todo ladrão

é preto, maconheiro, então os

personagens [dos livros] não poderiam

ser pretos. Houve a situação de uma

professora que levou para a sala dois

bonecos, e a diferença entre eles era a

cor. Uma criança queria o boneco negro,

virou pra outra e disse: ‘me dá

esse boneco aí?’. A coleguinha não

sabia qual e perguntou. Ela respondeu:

‘me dá esse aí com rostinho de faxineiro’.

Não quer dizer que todas as

crianças falavam dessa forma, mas foi

assustador perceber que em todas as

instituições de ensino houve alguma

informação que mostrava o quanto era

natural para três, quatro anos, as crianças

manifestarem formas de tratamento

tão discriminatórias. Outro dado que

chamou atenção da gente foi a rejeição

à cor preta, de como ela está associada

no imaginário da criança a algo ruim.

“Combater o racismo

não tem de acontecer

no lugar onde existe

racismo. É você

trabalhar o tempo

todo com valorização

e respeito à

diversidade”.

MARK FLOREST

Qual a importância de se trabalhar

com esse tema com as crianças

no ambiente escolar?

Eu vi o que um bom trabalho sobre

relações étnico-raciais faz com várias

crianças. Quando você chega a uma

escola onde essa criança se identifica

no material, nas histórias que são contadas,

nos murais, nos filmes, no professor,

isso faz uma extrema diferença.

Belo Horizonte tem escola hoje [da

rede privada] que não contrata professor

negro. Isso é seríssimo. Essa informação

é fruto de um processo de formação e

diálogo com os conselheiros municipais

de educação. Não existe na ficha da escola

que não pode contratar, mas essa

percepção de que a escola não contrata

é concreta, e isso é muito sério.

Uma professora já nos relatou

que tentou aplicar a lei 10.639 na

escola em que trabalhava, e a direção

disse que não havia necessidade, já

que lá não existia criança negra.

O que é uma visão superequivocada.

Porque a LDB [Lei de Diretrizes e Base

da Educação], quando traz a obrigatoriedade,

não diz que é somente em escolas

onde há alunos negros. Se fosse

assim, a gente teria de pensar que tudo

relacionado à Europa é somente em

escolas que têm alunos brancos. As

pessoas precisam ampliar o conhecimento

sobre a legislação. Combater o

racismo não tem de acontecer no lugar

onde existe racismo. É você trabalhar o

tempo todo com a valorização e o respeito

à diversidade. Meus filhos podem

não conviver com muçulmanos, mas

eles precisam aprender a respeitar a

religião, a fé muçulmana, para que

quando encontrem com um muçulmano,

o tratem de forma respeitosa. Isso faz

parte das relações étnico-raciais. Outro

Revista Elas por Elas - Abril 2015


103

ponto é trabalhar com a história e

cultura africana e afro-brasileira, e isso

não necessariamente é trabalhar com o

racismo. Porque não vou restringir o

trabalho sobre a história de um continente

a um período histórico. Você

tem uma África antes e uma África

pós-escravidão. Temos escritores africanos,

cientistas, uma diversidade cultural

imensa para apresentar, da mesma

forma que o continente europeu tem.

O trabalho tem de pensar, e principalmente

na educação infantil, que as

crianças nem sabem sobre o racismo.

Na verdade o que essas crianças precisam

conhecer nessa idade é sobre seu

corpo, sua pele, seu cabelo. A criança

negra precisa ter seu cabelo valorizado.

As crianças precisam saber que o cabelo

crespo não é duro, apresentar de uma

forma que o valorize. Crianças que tem

a possibilidade de ver o cabelo crespo

de diversas formas, independentemente

de serem negras ou brancas, passam a

perceber a beleza também nessa estética.

não pode. A gente percebe que, no

início do ano, nas reuniões escolares,

fala-se de tudo, de alimentação, de

fralda, mas sobre relações humanas

não se fala. Quando se fala da lei, da

diversidade, muita gente diz que tem

de cuidar da autoestima da criança

negra. O que vejo é que a criança

negra nasce com uma autoestima lá

em cima. O que tem de cuidar é das

outras pessoas, para não prejudicarem

essa autoestima. Porque quem causa

os danos são os outros. As crianças

nascem bem com elas mesmas.

De modo geral, o sistema educacional

tem reproduzido esse quadro?

Acho que ainda estamos saindo da

fase da negação. Rosa Margarida, que

é uma pesquisadora que gosto muito,

diz que primeiro passamos pela fase

da negação, do “aqui não existe racismo”.

Hoje você não tem um profissional

que seja pesquisador e que diga

que não existe racismo no sistema educacional.

Em todas as escolas você vai

ter essa concretude. O segundo passo

passa pelas pessoas identificarem qual

a responsabilidade que elas têm nesse

processo, porque a tendência é achar

assim: mas eu não sou culpado por

isso, ou isso aconteceu foi no passado

e não tem jeito de fazer mais nada.

Tem sim, a escola e a gestão que se

propõe a trazer todos os profissionais

para esse processo terão um impacto

considerável para a maioria das crianças.

E para os professores darem conta

BRUNO CARVALHO

A importância estaria nesse campo

da diversidade, do respeito às

diferenças?

Exatamente. Com um cuidado: não

deixar passar as situações em que a

criança, mesmo sem perceber o dano,

discrimina. Se você chega hoje em

uma instituição de ensino infantil, não

há nenhuma parede pichada. Porque

seja uma criança de dois anos, um

ano, se ela rabiscar a parede, alguém

fala que não pode. As crianças aprendem

a chamar por apelidos, chamar

de macaco, de cabelo pixaim, porque

encontram permissividade. Nessas

situações de discriminação, mesmo

que ela tenha três, quatro anos, a

escola tem de pontuar sobre o tratamento

respeitoso, o que pode e o que

Revista Elas por Elas - Abril 2015


104

de fazer isso, a lei é muito sábia, porque

ela chama os movimentos sociais.

Então as escolas precisam se aproximar

dos movimentos sociais. E vejo

que muitas escolas têm uma ideia completamente

equivocada de movimentos

sociais. Elas não conseguem identificar,

por exemplo, que um movimento estético,

como a gente está tendo um

boom aqui em Belo Horizonte sobre o

cabelo crespo, é político. Você está dizendo

que seu país politicamente coloca

um lugar para quem tem cabelo

crespo. Há alguns lugares em que todas

as pessoas de cabelo crespo têm de

estar com ele liso, preso ou escondido,

porque parece que não se encaixa em

algumas funções. Você não vê alguma

pessoa de cabelo crespo solto num

banco, dificilmente vê alguém que

ocupa a função de comissário de bordo

usando o cabelo crespo. Em determinados

restaurantes, os gerentes, esses

cargos de alto poder, não se enxerga

as pessoas com cabelo crespo. Então

esse trabalho pra mim começa na educação

infantil, mas não pensando no

futuro, pensando no presente da

criança, mas isso para mim vai ter um

impacto considerável no futuro.

Essa questão do cabelo é uma

questão de fato política, não é?

É uma ação política e não é um

movimento só do Brasil. Mencionei

aqui porque a gente está vendo isso

forte em Belo Horizonte. Acompanho

também pelo Facebook o que os movimentos

estão fazendo. Tem o movimento

de crespas e cacheadas, tem o

encrespa geral, são eventos em que

elas convidam as mulheres a primeiro

valorizar o cabelo natural. Isso não significa

que você não possa mais relaxar

ou alisar, mas é um movimento que

vai lutar contra esse engessamento,

essa visão de que a única forma apresentável

de cabelo é a lisa.

Contra esse padrão de beleza

também?

Sim, e de beleza que vai para um

patamar que significa também como se

fosse conhecimento. A ideia da mulher

intelectual é de uma mulher que, embora

não tenha vaidade, se apresenta com

um cabelo liso, o protótipo da mulher

cientista, da pesquisadora. Se você olha

uma pessoa com o cabelo crespo, solto

e alto, o primeiro olhar é: aquela pessoa

não é cientista, não tem conhecimento

pra isso, se não o cabelo dela não

estaria daquele jeito. Vi a discussão nas

redes sociais acerca de um bloco [carnavalesco]

em Juiz de Fora sobre empregadas

domésticas. São homens negros,

que pintam o rosto de preto, passam

batom para parecer que o lábio

está grosso e colocam uma peruca de

cabelo crespo. É uma caricatura grosseira

e isso é visto como algo divertido. Pra

nós, a nossa pele, boca e cabelo não

querem ser motivo de chacota. Se pra

eles é uma brincadeira, pra nós é muito

agressivo, pois aquela apresentação está

inferiorizando tudo que tem a ver com

a identidade da mulher negra. Li as crí-

Revista Elas por Elas - Abril 2015


105

ticas que tanto defendiam o bloco, dizendo

que é uma tradição na cidade,

quanto as que criticavam. Achei interessante

uma pessoa da cidade dizer

que nunca tinha parado para pensar

sob essa perspectiva e que ela acha que

a tradição não é impossível de mudar

se é algo ofensivo. Se a gente pensar,

alguns anos atrás a tradição era a família

definir com quem as mulheres iam se

casar, ou com quem o homem ia se casar.

Fruto da discussão e de quanto

perceber que isso ia contra os direitos,

essa tradição foi mudada. O Brasil tem

uma tradição de discriminação. As pessoas

precisam se desarmar um pouco,

BRUNO CARVALHO

sair da zona de conforto. Há outras

formas de brincar o carnaval sem ofender

outras pessoas. É um passo que a gente

precisa dar. Muita gente que hoje eu

falo que parou de negar o racismo

ainda vê o racismo no outro, mas não

consegue perceber que sua prática sustenta

o racismo. Enquanto tiver bloco

caracterizando a mulher negra dessa

forma, teremos dificuldades para acessar

lugares de emprego, porque as pessoas

vão nos olhar como essa caricatura representada.

Quais atividades a sra. sugeriria

para quem tem interesse em trabalhar

com o assunto?

Há atividades que às vezes as famílias

buscam pouco. Em Belo Horizonte,

há dois museus que trabalham com a

história e cultura africana e afro-brasileira.

Um é o Museu de Artes e Ofícios,

que tem a trilha afro-brasileira, aberta

ao público. Você pode apresentar isso

para que a criança aprenda um pouco

de história, saber como as pessoas trabalhavam

no passado, criavam os instrumentos,

comparar como era antes

e como é hoje. O outro é o Memorial

Minas Gerais Vale, que também tem

um percurso que vai mostrar a resistência

negra, trabalhar a questão da

oralidade, a presença negra no continente

africano e aqui no Brasil. Para

uma criança pequena, a abordagem

não vai entrar tanto no processo da

escravidão, mas você vai encontrar lá

um Milton Nascimento, um Renegado

em painéis grandes. É isso que a criança

precisa perceber, que negros e brancos

contribuem culturalmente, politicamente

e cientificamente para o país. E não

restringir só a negros e brancos, temos

também os ciganos, os indígenas urbanos.

Onde estão essas pessoas, quais

atividades elas fazem ao longo do ano?

Temos festas indígenas, ciganas. É uma

forma de a criança perceber a vida

social dessas pessoas e se aproximar.

O desafio pra mim é o adulto querer

fazer esse movimento de conhecer.

Porque você tem espaços fantásticos

para isso. Além disso, tem um movimento

também importante que é desenvolver

o senso crítico. Se a criança

está assistindo a um filme ou desenho

que inferioriza a mulher ou a coloca

num papel ridículo, é preciso conversar

com a criança, começar a desenvolver

nela a análise do que está recebendo,

para ela não aceitar que, por exemplo,

só pelo fato de um conteúdo chegar

pelo livro aquilo é real, é o correto. Eu

penso que você precisa fazer também

um movimento de abrir sua casa. Vou

deixar uma pergunta para quem está

lendo: quantas pessoas negras frequentaram

sua casa no ano passado? E de

que forma? Foi para limpar ou numa

relação de amizade? Quantos amigos

negros você tem? E quantos brancos?

Como você pode estimular esse convívio?

Em relação à educação, o primeiro

passo é estudar. A gente só vai ser

bom professor se permanecer estudando

ao longo da vida e se fizer um

investimento para conhecer novas brincadeiras,

jogos, a discussão em torno

da linguagem. Que as pessoas tenham

essa atenção e responsabilidade para

trabalhar com a diversidade, porque

hoje as diretrizes para a educação

infantil vão dizer que este é um dos pilares

da educação infantil: o trato da

diversidade, o respeito à identidade e

a promoção da equidade. É preciso

garantir a diversidade ao longo do ano,

o tempo todo, não é só um projeto

para ser feito no mês da consciência

negra. Isso é que vai fazer a diferença.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


AUTOESTIMA

POR NANCI ALVES

foto MARK FLOREST


107

Debaixo dos

caracóis,

muita história

pra contar

Cabelo, símbolo de feminilidade, é motivo de alegrias e sofrimentos

O cabelo tem sido o causador de

alegrias e tristezas entre as mulheres,

que, em geral, gastam tempo e dinheiro

em busca de um visual atraente. Por

outro lado, a falta do cabelo, pelos mais

variados motivos, traz sofrimento, mas,

acima de tudo, desperta a solidariedade

entre mulheres em todo o Brasil.

O simples fato de um cabelo fora

dos padrões da moda pode provocar

atitudes de isolamento. Certamente,

você conhece alguma mulher que já

deixou de ir a uma festa porque o

cabelo não estava bonito. Entre as

adolescentes, esse dilema pode se

tornar ainda maior. Ana Luísa, de 16

anos, garante que já perdeu vários encontros

com amigos porque não deu

tempo de arrumar bem o cabelo. Isso

implica hidratar, lavar, escovar ou

pranchar seus cabelos. “Conheço garotas

que pensam diferente e gostam

do cabelo com volume, colorido ou

com dreads, mas todas investem em

algum visual que as fazem se sentir bonitas.

Eu gosto do meu cabelo bem

liso. Assim me sinto mais feminina.

Quando acho que está feio, me sinto

insegura, não quero sair e muito menos

aparecer em fotografias”, conta.

Em termos de estatísticas, Ana Luísa

faz parte de um grupo que é a maioria

em nosso país - 63% das brasileiras

gostariam de ter cabelos lisos; sendo

que menos de 20% realmente têm e

42% os alisam. É o que apontou uma

pesquisa realizada pela L’Oréal, que

mostrou, ainda, que o cabelo das brasileiras

é uma mistura de três categorias:

oriental, afro e caucasiano. As que alisam

suas madeixas, em geral, querem

reduzir volume e, para isso, buscam

produtos que tenham resultado imediato,

independentemente das possíveis

consequências, como dani ficar seriamente

os fios.

A designer gráfico, Fernanda Lourenço

(foto), passou por uma experiência

marcante em sua vida. Por usar química

para relaxamento desde os 13 anos de

idade, já não sabia mais como era seu

cabelo. “Foi uma surpresa e uma

grande alegria redescobrir meus cachos.

Por causa da moda, comecei a relaxar

meu cabelo na adolescência. Depois,

passei a fazer escova progressiva, também

por muitos anos. Até que um dia,

quando já não estava gostando do aspecto

do meu cabelo e também por incentivo

de uma amiga, comecei a pensar

na possibilidade de voltar a usá-lo natural.

Foi um processo. Deixei a progressiva

quando vi uma reportagem falando

sobre os males, para saúde, do excesso

da química. Porém, o mantinha liso

com escovação. Quando me decidi por

cortar o cabelo, tive medo, pois não

sabia como ele estaria. Depois que

cortei curto e deixei secar naturalmente,

foi uma surpresa maravilhosa e, hoje,

eu estou apaixonada com meu cabelo,

me sinto mais feminina”, relata Fernanda

Revista Elas por Elas - Abril 2015


108

Ana Luísa gosta de manter seus cabelos lisos.

que diz investir em shampoo, cremes e

hidratantes específicos para manter os

cabelos naturais com a aparência que

deseja.

A pesquisa intitulada “Brasileiras e

os Cabelos”, realizada pelo Ibope, em

parceria com a Unilever (2011) aponta,

entre outros dados, que as mulheres

gastam, em média, 35 minutos diários

apenas cuidando dos fios. Foram ouvidas

400 mulheres das classes A, B e C

- nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro,

Recife e Porto Alegre. E o resultado

mostra que o cabelo é parte essencial

no ritual de beleza da brasileira:

37% das entrevistadas usam creme de

pentear e de tratamento; 72% afirmam

gostar de cuidar do cabelo; 74% acham

que com o cabelo bonito se sentem

confiantes e para 37% ir ao salão é

uma necessidade.

Influência da mídia

A questão cultural é, muitas vezes,

estimulada ou reforçada pela mídia.

Em novelas ou comerciais, que sempre

ditam modas, o cabelo é mesmo algo

muito destacado e valorizado. Para a

NANCI ALVES

psicóloga clínica e professora da PUC

Minas, Ada Ferreira, moda significa

seguir a tendência. “Agora é a vez dos

cabelos lisos, mas se de uma hora para

outra a mídia apresentar cabelos crespos

como a sensação do momento, pode

ser que pessoas que hoje tenham cabelos

lisos, busquem modificá-lo para

ficar na moda. Todas querem se sentir

bem. Para a mulher, o cabelo representa

a sensualidade, a feminilidade. Ter um

cabelo bonito e bem cuidado é muito

importante para a autoestima”, diz.

Porém, na própria mídia que dita

modas, a valorização do cabelo, às

vezes, carrega uma discriminação contra

quem está fora do padrão exigido. A

professora Carolina dos Santos de Oliveira,

em sua tese de mestrado, realizou

uma análise crítica do discurso da

revista adolescente Atrevida, enfocando

a imagem de adolescentes negras na

publicação. “Nos exemplares avaliados

do período do recorte 2001 a 2005

pode-se perceber uma incipiente inclusão

das imagens de adolescentes negras,

no entanto ainda no lugar de quem

precisa ser moldado, modificado e domado,

sendo o cabelo uma característica

muito explorada, por ser um sinal diacrítico

marcadamente racial”, afirma.

Na sua avaliação, o Brasil precisa

de iniciativas de educação libertária

para amenizar essa bagagem da “boa

aparência” imposta às mulheres. “A sociedade

não pode alimentar essa indústria

que causa sofrimentos e impõe

uma doma ao corpo feminino e com

mais imperatividade ao corpo feminino

negro”. Porém, Carolina Oliveira acredita

que a escola não pode ser a única

responsabilizada por esta mudança.

“Entendo a escola, da forma como ela

se configura hoje, como uma reprodutora

da sociedade, com pouco ou ne-

Revista Elas por Elas - Abril 2015


109

nhum poder transformador, as próprias

professoras e professores com suas

próprias demandas, dúvidas, necessidades...

penso que a carga de responsabilidade

da escola por promover mudanças

também precisa ser diminuída.

Entendo a educação como algo maior

que apenas a escolarização e as revistas

como espaço educativo, assim como

tantos outros como: igrejas, clubes, televisão,

movimentos sociais, sindicatos,

etc...”, acrescenta.

Perda do cabelo

O cabelo faz parte da nossa identidade

e reflete, portanto, nossas transformações

internas. Assim, se estamos

com problemas hormonais, emocionais

ou de outra ordem, muitas vezes, o

cabelo denuncia, podendo ficar mais

seco, rebelde ou até sofrer quedas − o

que causa, ainda, maior desconforto

nas mulheres.

De acordo com a psicóloga Ada

Ferreira, perder o cabelo interfere na

autoestima. Segundo ela, muitas mulheres

podem desistir dos contatos so-

ciais, familiares, profissionais ao enfrentarem

as mudanças com a perda

parcial ou total de cabelo ocasionada

pela idade, por hereditariedade, por

um tratamento de saúde ou mesmo por

um tratamento de beleza”, afirma.

A reação de cada mulher vai depender

do que ela está vivendo e de

como consegue enfrentar sua realidade.

“Já atendi pacientes que estavam no

pré-operatório de uma cirurgia neurológica

e sofriam muito por pensar

na possibilidade de acordar após a cirurgia

e não ter mais o cabelo. Outras,

por saberem da mudança, se preparam

antes, cortando o cabelo bem curto ou

até mesmo raspando a cabeça”, conta

Ada Ferreira, que considera normal

esse sofrimento.

“Vivemos numa sociedade que cultua

o cabelo como algo importante; a indústria

de cosméticos lança a cada dia

novos produtos e nós, consumidores,

queremos estar na moda. Então, perder

os cabelos é sinal também de impotência,

ainda mais se a perda for ocasionada

por um tratamento de saúde.

Para enfrentar este problema, a mulher

precisa trabalhar sua autoestima, buscando

um suporte psicoterápico, lidando

com as questões emocionais que podem

surgir e conversando também com as

pessoas que estão mais próximas. Claro

que cada mulher vai enfrentar sua mudança

de uma forma, não é possível

esperar que todas enfrentem da mesma

maneira. Mas, estar aberta para falar

dos medos, angústias, anseios já é um

caminho para o enfrentamento e a

aceitação”, avalia.

Foi o que fez S.M, de 43 anos, ao

longo de um tratamento de quatro

anos, à espera de uma transfusão de

medula, feita recentemente, com sucesso.

Segundo ela, foram várias as experiências

vivenciadas, incluindo a queda

de cabelo por duas vezes. “Raspei o cabelo

antes que ele começasse a cair,

pois é horrível a sensação. Tive momentos

de não querer aparecer em público,

outros de curtir o uso de chapéu,

lenços variados e até andar com a

careca de fora. Tudo dependia do meu

humor no dia. Não foi fácil e posso

dizer que além de buscar fortalecer a

espiritualidade e a alimentação, a psicoterapia

foi fundamental para me dar

um suporte nesta fase,” conta.

“Raspei o cabelo

antes que ele

começasse a cair,

pois é horrível a

sensação”

LUCIANA CAPIBERIBE

Rosinete Rodrigues, Maria do Socorro, Deputada Janete Capiberibe e Tereza

Revista Elas por Elas - Abril 2015


110

ARQUIVO PESSOAL

Ronizia corta seu cabelo para doar às vítimas de escalpelamento.

Depois de dois anos fazendo a primeira

fase de quimioterapia, seus

cabelos nasceram brancos. “Tomei um

susto, mas depois foi voltando ao normal.

Teve uma fase muito engraçada,

pois saía de peruca e via as pessoas

com cabelos naturais iguais aos meus.

Era a tal chapinha. Aí, vi que eu não

estava tão estranha assim. Aliás, algumas

vezes teve gente que me

perguntou qual tinta eu usava nos

meus cabelos. Eu me divertia com isso

e acabei usando por um bom tempo,

sem grilos, pois vi que o natural das

mulheres era tão artificial quanto a

minha peruca”, lembra.

Solidariedade feminina

Perder os cabelos de forma definitiva,

por um acidente, é um trauma vivido

por centenas de meninas e

mulheres das regiões ribeirinhas da

Amazônia. São as vítimas de escalpelamento,

a perda do couro ca be -

ludo, que acontece dentro de pequenas

embarcações ribeirinhas. Estes barcos

navegam com um eixo, que liga a hélice

ao motor, exposto, sem proteção, facilitando,

que em um movimento ines-

perado, puxem os cabelos compridos.

A forte rotação do motor arranca todo

ou parte do couro cabeludo, inclusive

sobrancelhas, orelhas e, dependendo

do caso, grande parte da pele do rosto

e do pescoço. Um grave pro ble -

ma que causa deformações e, em alguns

casos, até a morte. As principais

vítimas são meninas e adolescentes, a

maioria entre os 5 e os 16 anos, seguido

de mulheres dos 17 aos 30 anos

e, por último, acima de 31 anos.

Uma das das vítimas, Rosinete Rodrigues,

sofreu o acidente quando tinha

20 anos, no Pará. Foram dois anos de

cicatrização e muitas dificuldades para

conviver com as pessoas, pois tinha inclusive

vergonha. “Quem vive isso, passa

a se isolar, com medo da discriminação

e do preconceito”, afirma Rosinete que,

ao longo do tempo, descobriu que poderia

recorrer a políticas públicas. Assim,

há mais de 10 anos, ela e um pequeno

grupo de mulheres com a mesma história

de vida começaram a buscar ajuda para

todas. Nasceu, em 2007, a Associação

de Mulheres Ribeirinhas Vítimas de Escalpelamento

da Amazônia, que já conseguiu

beneficiar 119 pessoas acidentadas.

Rosinete já foi presidente da Associação,

que oferece às mulheres apoio

psicológico e profissional, dentro de

um processo de ressocialização. Com

apoio da Associação, me formarei, este

ano, em Pedagogia. Ela oferece também

cursos como corte e costura, artesanato

e produção de perucas como incentivo

à geração de renda e à nossa independência

econômica", conta. Segundo Rosinete,

os cabelos recebidos de doações

viram perucas não só para as vítimas

de escalpelamento, mas também para

mulheres em tratamento de câncer.

A antropóloga Maria Ronízia Gonçalves,

de Rio Branco (AC), deixou

seus cabelos crescerem por um ano

para fazer a doação, após se inteirar

dessa realidade. “Fiquei impressionada

com a história que ouvi. Pesquisei na

internet, li várias matérias sobre o assunto

e vi o sofrimento e a reação

dessas mulheres, se organizando e superando

suas dificuldades. Deixei meu

cabelo crescer e, quando tive a oportunidade

de ir à Macapá, a trabalho,

fiz a doação em um salão que faz este

trabalho voluntariamente. Fiquei feliz

por perceber que há uma mobilização

da sociedade local em torno da questão",

conta Ronízia Gonçalves que incentivou

outras pessoas, por meio das redes

sociais.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


111

Reconhecendo que nunca teve muito

apego ao cabelo, porque sabe que

cresce de novo, Ronízia imagina que se

o perdesse sentiria muita falta. “Acredito

que também teria vergonha de sair de

casa, pois sei que o cabelo é um

símbolo da vaidade feminina. Então,

colocando-me no lugar das mulheres

que perdem, de forma tão violenta, o

couro cabeludo. Me doeu na alma só de

imaginar o sofrimento delas”, relata.

O que chamou a atenção de Ronízia

Gonçalves foi o fato das mulheres se

organizarem e, a partir de algo

ruim, construirem uma nova realidade

para elas e suas famílias. “Elas não

permaneceram como vítimas, elas reagiram!

Muitas delas ganharam novas

profissões, superaram o trauma, fizeram

cirurgias reparadoras da face, conseguiram

leis que tratam da questão. Enfim,

tudo isso me motivou a doar os

meus cabelos”, diz.

O pedido de solidariedade que chegou

aos ouvidos e ao coração da antropóloga

de Rio Branco saiu de

Brasília, na voz da jornalista Mara Régia

Di Perna(foto), que há 34 anos é responsável

pelo Viva Maria, programa

pioneiro na mobilização das mulheres

na luta por seus direitos, e, há mais de

20 anos, navega os rios da Amazônia

nas ondas da rádio Nacional com o Programa

Natureza Viva. “Minha militância

por essa causa começou em 2007,

quando fiz matéria sobre uma mobilização

no Congresso Nacional, em prol

da lei que a deputada Janete Capiberibe

(PSB/AP) estava querendo aprovar

para evitar que os acidentes continuassem

vitimando o povo das águas. Felizmente,

hoje, a lei 11970/2009, que

obriga a instalação de uma proteção

sobre o eixo, o motor e as partes móveis

das embarcações, é uma realidade.

Mas, como apenas a lei não conseguiu

impedir que novos acidentes continuassem

acontecendo, por ocasião do primeiro

mutirão de cirurgias reparadoras

que aconteceu, em 2012, em Macapá,

resolvemos criar uma campanha de mobilização

em torno do apoio às vítimas

que precisavam não só de cabelos para

a produção de perucas, mas também de

máquinas de costura capazes de dar

conta do trabalho”, conta.

Segundo Mara Régia, a resposta

diante da campanha vem de todos os

cantos e o rádio tem sido fundamental,

pois consegue alcançar as pessoas que

se encontram em situação de isolamento.

“Sempre recebemos doações

de cabelos. O trabalho da cabeleireira

Maria Vanilza, que tem um salão de

beleza no Guará, cidade de Brasília, e

faz os cortes de graça quando o objetivo

é doar os cabelos para as vítimas do

acidente, também tem ajudado muito.

Em dezembro, estive em Macapá para

a entrega de uma mecha de cabelos

de um metro e meio de comprimento

doada por uma jovem de 14 anos que

nunca havia cortado os cabelos. Sem

dúvida, o caso dessa “Rapunzel” e´ o

maior indicador de sucesso de nossa

campanha”, afirma.

Para a jornalista, “como as digitais,

o cabelo é traço de identidade e, ao

mesmo tempo, traduz, melhor do que

as palavras, nosso jeito de ser e nossa

personalidade. Por isso, tem uma relação

tão direta com a nossa autoestima.

Sem falar da festa que faz no nosso

imaginário, desde os tempos de Sansão

e Dalila. Arriscaria dizer que ele é o espelho

da alma da gente. Tanto assim

que, em prosa e verso, se faz presente

na nossa MPB como um tema recorrente”,

completa Mara Régia.ø

AGÊNCIA BRASIL

Revista Elas por Elas - Abril 2015


112


113

PERFIL

POR POLLYANA BITENCOURT

foto MARK FLOREST

Dora Alves

Uma vida dedicada a elevar a autoestima através dos cabelos

“Não abra mão dos seus sonhos,

eles podem se tornar realidade, é só a

gente ter persistência e determinação”,

recomenda a cabeleireira Dora Alves.

É com um brilho de esperança nos

olhos e uma crença de que tudo é possível,

que ela conta a sua história, enquanto

arruma o seu salão-escola, no

bairro Maria Goretti, em Belo Horizonte.

Nascida na periferia da capital mineira,

ela aprendeu desde pequena a

lidar com as adversidades da pobreza.

O pai morreu quando ela tinha apenas

oito anos. A mãe saía para trabalhar e

como filha mais velha, cuidava dos

quatro irmãos. “Eu tenho uma origem

humilde, cresci numa favela lá no bairro

1º de Maio, perto da Praça Troca

Égua, um lugar sofrido demais da conta,

mas dentro de mim, sempre tive o desejo

de mudar o rumo da minha história”,

conta.

Atualmente, Dora tem uma vida dedicada

ao seu salão de beleza, especializado

em cabelos afro e também coordena

um projeto onde ensina pessoas

carentes a profissão de cabeleireiro/a.

Os primeiros passos na profissão

foram ensinados pela mãe. “Foi ela

quem me ensinou a fazer as tranças,

os topetes e penteados no nosso cabelo’,

conta. Uma experiência marcante

aos oito anos determinou seu futuro.

“Eu passei pasta [creme alisante à base

de soda cáustica] no meu cabelo e ele

caiu. Toda negra sonha em balançar o

cabelo e eu não tinha consciência da

minha negritude ainda”, justifica. A

partir daí, ela começou as suas pesquisas

sobre cremes para deixar os cabelos

bonitos. “Eu ia lá no fundo do quintal,

apanhava ora pro nobis, folha de abacate,

entre outras experiências para

tornar mais prático o cuidado com o

cabelo”, diz.

Todo o conhecimento adquirido

hoje é fruto dessas pesquisas. Autodidata,

ela aprendeu na prática e hoje

tem até uma linha de produtos de

beleza que leva o seu nome. “Eu fazia

teste no meu cabelo e no dos meus filhos,

depois passei para os vizinhos e

comecei a ficar conhecida no bairro”,

descreve.

Aos 11 anos, ela conheceu aquele

que viria a ser o pai de seus filhos. Casou-se

aos 16 e teve seus dois filhos,

que foram criados dentro do salão de

beleza. “A minha filha quis aprender a

profissão muito novinha, o meu filho

também aprendeu e aí eles saíam comigo

para ensinar o ofício nas escolas, nos

abrigos e nos morros da cidade”, conta.

Solidariedade

O trabalho social sempre fez parte

da vida de Dora, uma mulher forte e

destemida, que possui um jeito único

de lidar com as pessoas ao seu redor.

Foi ela quem deu o primeiro emprego

para vários meninos e meninas na primeira

banca de revistas que existiu em

sua região. Junto com o marido ela

também abriu uma mercearia, mas o

negócio não deu certo. “Quebrei de

primeira porque quando chegavam

pessoas necessitadas, meu coração partia

e eu deixava a pessoa levar sem pagar”,

afirma.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


114

Esse desejo em ajudar tornou-se

mais concreto, quando ela, em 2007,

fundou a Associação Projeto Meninas

de Dora. A iniciativa é fruto do trabalho

voluntário feito por ela há mais de

40 anos. “Eu fui sonhando e não abri

mão do meu sonho, foi acontecendo...”,

emociona-se ao contar. O

“Meninas de Dora”, como é conhecido,

prepara jovens e adultos para

exercerem a sua condição de sujeito,

gerando renda a partir do seu trabalho.

São ofertados cursos de cabeleireiro,

oficinas para o cabelo afro, cursos de

cosméticos e outros. Sempre com o

objetivo de elevar a autoestima dessas

pessoas, para que elas acreditem no

potencial de construir uma vida de

sucesso.

Reconhecimento

Em 2012, o trabalho dela foi reconhecido

nacionalmente. O projeto foi

eleito a melhor ação social do estado

de Minas Gerais e concorreu à melhor

do Brasil. Dora acredita que, assim

como ela mudou o rumo de sua vida,

ela tem a missão de mudar o destino

de vários meninos e meninas que cruzam

o seu caminho. “Acredito que,

assim como eu, uma mulher negra de

origem humilde que construiu uma história

de vitórias, qualquer um também

pode alcançar seus sonhos”.

Mas nem tudo são flores na vida

desta guerreira. Para poder manter o

projeto social, ela conta, não só com a

renda do salão, mas também com a

ajuda de amigos e pessoas solidárias.

“Já fiz pirulito pra vender, trabalhei

em casa de família, é preciso muito esforço

pra gente poder manter essa trajetória”,

esclarece.

Apesar de toda a ajuda que recebe,

ela acredita que o projeto precisa de

um movimento para obter mais recursos

e poder atender mais gente. Atualmente

mais de 300 pessoas estão inscritas

para os cursos, mas o espaço físico

atual só permite que 10 pessoas tenham

aulas, com isso eles trabalham apenas

com cinco turmas. A iniciativa espera

conseguir um espaço maior, onde eles

possam ampliar as turmas e atender a

todos. A dedicação ao projeto e a vontade

de ensinar é tanta que, apesar

das dificuldades enfrentadas, Dora não

pensa em desistir.

Grande incentivadora da cultura negra,

além do trabalho no projeto, Dora

também visita escolas e faz palestras.

A iniciativa nas instituições de ensino

começou antes mesmo da Lei 10.639,

que decretou a obrigatoriedade do ensino

da Cultura Afro-Brasileira no

ensino fundamental e médio. “Hoje,

eu vou às escolas e falo com os meninos

‘vocês têm computador, livros, material

e tudo que precisam, então, respeitem

os professores’. Para ela, o trabalho

dos/as professores/as é fundamental

para a formação das pessoas. “Eu

acho que a classe teria que ser mais

bem paga, porque o médico, o cabeleireiro,

o advogado, todos dependem

do professor”, acredita.

“Eu acho que a

mulher tem que ser

livre, se ela quer ter

cabelo black, ótimo,

agora se quer um

cabelo liso, que

tenha”.

Ela comemora os resultados positivos

do seu trabalho. “Eu converso

muito com os meninos. Eu tenho

resultados bacanas de trabalhos que a

gente desenvolve nas escolas e, a partir

daquele momento, os jovens

mudam de postura”.

Incentivadora da cultura afro, Dora

acredita na liberdade da mulher em

escolher o cabelo que quer ter. “Eu

acho que a mulher tem que ser livre, se

ela quer ter cabelo black, ótimo, agora,

se quer um cabelo liso, que tenha um

cabelo assim por opção e não por

obrigação”.

Referência como cabeleireira em

Belo Horizonte e no país, Dora já fez

o cabelo da atriz Débora Falabella no

espetáculo Noites Brancas. Trabalhou

também na produção dos atores do filme

Pequenas Histórias, que teve a

participação da atriz Patrícia Pillar,

além dos filmes Batismo de Sangue e

Uma onda no ar.

Hoje ela tem um quadro permanente

no Memorial de Minas do Vale, na

Praça da Liberdade. Foi eleita cidadã

do mundo em 2010, escolhida entre

as cinco melhores cabeleireiras de

Minas na Feira Mineira da Beleza em

1999 e coleciona prêmios e homenagens

por todo o país.

Contudo, para Dora, o seu maior

reconhecimento vem dos meninos e

meninas que ela ajuda. “Eu fico muito

emocionada, patrimônio pra mim é

isso, quando ouço ‘eu quero ser igual

a você, aprender a profissão, ter um

cabelo igual ao seu’, então isso pra

mim é fantástico”, declara.

Hoje, aos 60 anos de idade, Dora

diz que quer projetar uma nova fase

em sua vida. “Quero começar um novo

capítulo na minha história. Sou a menina

negra que sonhei ser”, conclui.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


115

Revista Elas por Elas - Abril 2015


INTERNET


117

LITERATURA

por DÉBORA JUNQUEIRA

Uma idealista do lixo

A obra de Carolina Maria de Jesus revela a condição e força

das mulheres negras relegadas por uma sociedade elitista

Quando fazia uma reportagem na

favela Canindé, que havia em São Paulo,

na década de 50, o jornalista Audálio

Dantas se deparou com textos de uma

catadora de papel e não teve dúvida

de que aqueles manuscritos precisavam

ser conhecidos. O texto escrito em

letra de forma em cadernos reutilizados,

era a obra Quarto de Despejo – Diário

de uma favelada, da escritora Carolina

Maria de Jesus. Mesmo tendo escrito

um best seller traduzido em 13 idiomas,

além de outras obras, a escritora ainda

é pouco (re)conhecida.

“Nem escritor transfigurador poderia

arrancar tanta beleza triste daquela miséria

toda. Nem repórter de exatidão

poderia retratar tudo aquilo no seco

escrever. Foi por isso que eu disse

assim para Carolina Maria de Jesus, lá

mesmo, na horinha que lia trechos de

seu diário: eu prometo que tudo isto

que você escreveu sairá num livro”,

escreveu Audálio Dantas, na apresentação

de Quarto de despejo, de 1960.

Segundo ele, não foi preciso ler mais

de três folhas para ver que havia en-

contrado algo de muito valor. Por dois

anos, acompanhou Carolina na edição

de seus livros e guarda em casa alguns

de seus cadernos, para quem ainda

duvide da autoria.

Mineira de Sacramento, negra e

semianalfabeta, Carolina de Jesus mudou-se

para São Paulo aos 17 anos.

Foi empregada doméstica, teve três filhos,

mas manteve-se solteira. Quando

foi descoberta como escritora, em

1958, tinha 43 anos. Morreu pobre e

praticamente esquecida, em 1977. Em

14 de março de 2014 foi comemorado

o seu centenário de vida.

“Nem escritor

transfigurador

poderia arrancar

tanta beleza triste

daquela miséria

toda”.

“A experiência e a vivência da autora

como mulher, negra e favelada é revelada

todo o tempo em seus textos: o racismo

que sofria e via outros sofrerem; a condição

de mulher e pobre, mãe solteira

de três filhos, que sempre era relegada

pela sociedade machista e elitista da

época e de ainda hoje”, opina a professora

Aline Arruda, pesquisadora da Universidade

Federal de Minas Gerais. (Leia

a entrevista).

Em cadernos encontrados no lixo,

ela relatava seu cotidiano. Além de

Quarto de Despejo, a autora publicou

Casa de Alvenaria, Pedaços de Fome

e Provérbios. Postumamente, em 1982,

foi lançado na França, Diário de Bitita,

que chegou ao Brasil em 1986, e ainda

há manuscritos inéditos na Biblioteca

Nacional, no Rio de Janeiro, um tesouro

para a literatura e pesquisadores. Muitos

deles precisam de restauração, para

que essa vasta obra desconhecida não

se perca. A obra completa de Carolina

está em 58 cadernos que somam 5.000

páginas de texto, sendo sete romances,

60 textos curtos e 100 poemas, além

Revista Elas por Elas - Abril 2015


118

de quatro peças de teatro e de 12 letras

para marchas de Carnaval.

Raffaela Andréa Fernandez desenvolve

uma pesquisa de doutorado na

Unicamp com base nos manuscritos de

Carolina. Segundo ela, a história da

autora representa milhares de mulheres

negras, faveladas, mães solteiras, que

ainda encontram poesia no dia a dia.

Em entrevista concedida à revista Caros

Amigos (nº 206-2014) ela avalia que

Carolina de Jesus revela uma outra história,

‘a história menor’ que precisa

ouvida. “Os problemas sociais delineados

por Carolina estão na sua temática, na

materialidade do papel escrito de seus

cadernos reutilizados, encardidos, tirados

das latas de lixo, a escrita ‘deficiente’

que não corresponde aos intentos da

gramática institucional de uma sociedade

que não lhe deu a oportunidade de

avançar e, mesmo com todas essas defasagens,

essa grande autora nos mostra

que aquele que se inquieta diante das

‘atrocidades sociais’ jamais se manterá

calado”, afirma.

A pesquisadora em literatura, Estela

Santos, faz uma crítica sobre a escritora,

em artigo publicado no blog Homo Literatus

(www.homoliteratus.com). “Alguns

escritores já escreveram sobre o

cotidiano miserável das favelas, mas a

grande maioria o fez de uma perspectiva

de fora, isto é, sem viver, de fato em

uma favela. Em Quarto de Despejo temos

uma perspectiva diferente: quem

escreve é alguém que viveu na favela: a

perspectiva é de Carolina Maria de

Jesus, moradora da, agora, antiga favela

do Canindé de São Paulo, uma catadora

de papel e de outras sucatas, uma

mulher negra, pobre, mãe, escritora e

favelada”.

Segundo ela, “o diário de Carolina é

uma espécie de literatura-verdade, que

Manuscritos inéditos da escritora encontram-se na

Biblioteca Naciona, no Rio de Janeiro.

relata a cruel e triste vida na favela. Sua

linguagem é, ao mesmo tempo, simples

e rebuscada: simples pela forma que escreveu

algumas palavras, aproximandose

da linguagem oral (como ‘iducada’) e

rebuscada pelas palavras altamente cultas

que utiliza (como ‘funestas’). Seu diário

comove leitores devido a sensibilidade

como conta os acontecimentos durante

os anos que morou em Canindé. Percebemos

que tudo que é narrado, Carolina

sentiu, viu, vivenciou”.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


119

ENTREVISTA

ALINE ARRUDA

Pesquisadora

acredita que

Carolina tinha um

projeto literário

A professora do Instituto Federal

Sul de Minas Gerais (IFSULDEMINAS)

Aline Arruda, doutoranda em Literatura

Brasileira na Faculdade de Letras da

Universidade Federal de Minas Gerais

(UFMG), desenvolve estudos sobre Carolina

Maria de Jesus e prepara uma

edição comentada de um romance inédito

dela. Ela acredita que, pelo fato

de ter escrito obras de vários gêneros,

a escritora tinha um projeto literário, é

o que a sua tese vai tentar provar.

Como você despertou interesse

em estudar os escritos de Carolina?

Eu já havia lido o livro dela mais famoso,

Quarto de Despejo, quando

ainda era adolescente e fiquei muito

impressionada com ele, com a história

de Carolina, com os relatos descritos

POLLYANA BITENCOURT

em seu diário. Depois, no mestrado,

comecei a me interessar por escritoras

negras, estudei uma contemporânea

de Carolina, Conceição Evaristo, também

mineira, que sempre me disse ser

influenciada pela escritora de Sacramento.

Dessa forma retomei meus estudos

sobre ela no final do mestrado e

ao descobrir seus inéditos, na Biblioteca

Nacional, decidi fazer meu projeto de

doutorado sobre ela.

Porque ela ainda é pouco estudada

na academia? Qual crítica predomina

sobre sua obra?

Apesar da abertura acadêmica sobre

as obras de autores ditos “marginais”

ou pertencentes à chamada “minoria”,

ainda há muito preconceito sobre eles.

No caso de Carolina, ela estudou menos

de dois anos na escola, morava em

uma favela, era mulher negra, ou seja,

reúne várias condições “marginais” e

por isso muitos não acreditam que o

que ela escreveu é literatura. Valorizam

apenas o que chamamos na academia

de cânone literário, autores clássicos.

E desde que Quarto de Despejo foi

publicado, em 1960, há quem duvide

que foi Carolina de Jesus quem o escreveu,

muitos disseram na época e

mesmo depois, mais recentemente,

que o jornalista Audálio Dantas, considerado

o “descobridor” dela, havia escrito

o diário, o que é uma calúnia,

uma bobagem, pois os manuscritos estão

aí para quem quiser comprovar. É

realmente inesperado que alguém como

Carolina faça literatura e publique livros.

Como o fato de ela ser mulher,

negra e favelada reflete em sua obra?

No caso dos diários e da autobiografia,

esses aspectos estão entranhados,

a experiência e a vivência da autora

como mulher, negra e favelada é revelada

todo o tempo em seus textos: o

racismo que sofria e via outros sofrerem;

a condição de mulher e pobre, mãe

solteira de três filhos, que sempre era

relegada pela sociedade machista e elitista

da época e de ainda hoje. Tudo

isso foi relatado em seus diários e

textos autobiográficos.

Porque o primeiro livro Quarto

de Despejo vendeu mais de um milhão

de cópias em todo o mundo, enquanto

o segundo chegou apenas a 10 mil

exemplares? Houve um sensacionalismo

em função da sua origem?

Há muitas respostas possíveis para

esse esquecimento da autora. Acredito

que houve sim um sensacionalismo em

torno da “favelada que escreveu um

diário”, mas também uma curiosidade

em torno de um livro que conta o dia a

dia da favela “de dentro”, de um ponto

de vista interno. Houve uma reação

impertinente da imprensa da época

também e talvez a inocência e a inexperiência

de Carolina diante do sucesso

súbito, além de sua postura, pessoal e

na escrita, crítica e franca, que certamente

não agradou a muitos, especialmente

no contexto político da época.

Qual o fato da vida dela ou de

sua obra chama mais sua atenção?

Muitos fatos me chamam a atenção,

mas principalmente o de que uma mulher

com origem humilde e uma vida

tão difícil tenha escrito uma obra extensa

que abrange vários gêneros como

diário, teatro, romance, conto, poesia,

provérbios, autobiografia... é admirável

a dedicação e a consciência que ela tinha.

Além de escritora, era dançarina

e compositora, seus sambas também

refletem sua vida.

Revista Elas por Elas - Abril 2015


120

Memórias do

jornalista Audálio

Dantas

Para o jornalista Audálio Dantas, a

catadora Carolina sempre quis ser descoberta

e reconhecida como uma escritora.

Ele acredita que, no primeiro

contato, ela imaginava que ele era um

repórter e queria chamar atenção.

“Quando estava na favela Canindé

para cobrir a inauguração de um playground,

me deparei com uma mulher

gritando para os adultos que usavam

os brinquedos, dizendo que ia colocar

o nome deles em seu livro. A minha

curiosidade de repórter fez com que

eu fosse até a casa dela e visse o seu

diário iniciado em 1955. Era uma descrição

muito forte e verdadeira. Nenhum

repórter conseguiria escrever como

quem vivencia aquela situação de pobreza,

de dentro pra fora”, conta.

O jornalista propôs que o jornal publicasse

alguns trechos do manuscrito

que ele selecionou sem mexer na forma,

somente fazendo uma introdução. “Essa

foi a reportagem mais importante da

minha vida, afirma. Mais tarde ele descobriu

que, antes de encontrar-se com

Carolina, no próprio jornal Folha de S.

Paulo onde trabalhava, havia uma pequena

matéria sobre ela, intitulada poetiza

negra. “Parece que aquelas poucas linhas

haviam sido publicadas para o repórter

se livrar da insistência dela para a publicação

de suas poesias”, relembra.

Juntamente com o sucesso da publicação,

vieram também as críticas.

“Ela tinha vocação, lia muito. Sendo

semianalfabeta – estudou somente dois

anos – assimilava as coisas do jeito

dela. Dona de uma personalidade forte,

sabia que tinha valor”, revela. Segundo

Audálio, Carolina se considerava uma

escritora, mas não possuía o instrumental

cultural para escrever dentro

das normas e isso gerava críticas.

Segundo ele, a escritora faleceu

frustrada pelo sucesso de seu primeiro

livro não ter se repetido nos demais.

“Sua personalidade difícil, diferenciada

e excepcional criava certos problemas

pra ela. O que também me impediu de

ajudá-la mais”, desabafa o jornalista,

hoje com 82 anos.

INTERNET

Revista Elas por Elas - Abril 2015


121

“… As oito e meia da noite

eu ja estava na favela

respirando o odor dos

excrementos que mescla

com o barro podre. Quando

estou na cidade tenho a

impressão que estou na

sala de visita com seus

lustres de cristais, seus

tapetes de viludos,

almofadas de sitim. E

quando estou na favela

tenha a impressão que sou

um objeto fora do uso,

digno de estar num quarto

de despejo”. (Quarto de

Despejo, 2007, p.38).

"O livro... me fascina.

Eu fui criada no mundo.

Sem orientação materna.

Mas os livros guiou os meus

pensamentos. Evitando os

abismos que encontramos

na vida. Bendita as horas

que passei lendo. Cheguei a

conclusão que é o pobre

quem deve ler. Porque o

livro, é a bussola que ha de

orientar o homem no porvir

(...)" (Meu estranho diário,

1996, p. 167).

"O homem que cultiva o ódio

racial é um imbecil" – (Provérbios.

São Paulo: Editor Áquila,

1963).

Trechos de obras da escritora

Carolina de Jesus

Comentários

críticos sobre obras

de Carolina

Fugindo aos cânones do que se considera

“literatura” em meios acadêmicos,

Quarto de Despejo é mais do que um

simples depoimento; trata-se de uma

obra em que, a despeito das condições

materiais e culturais de sua autora, constrói-se

uma forte e única representação

da dinâmica social urbana, vista pelo

ângulo dos que são lançados à margem.

Carolina Maria de Jesus escreve para

denunciar a favela e para sair dela; escreve

também para, diferenciando-se

dos outros moradores, lutar contra o

rebaixamento a que estão sujeitos os

miseráveis, num momento em que se

anuncia novo salto modernizador de

São Paulo e do Brasil.

Em Casa de Alvenaria, notam-se

mais explicitamente as contradições da

autora quanto ao que deseja para si

mesma e para sua família. Também

ficam patentes suas hesitações com relação

aos anseios por reconhecimento

público ou ao repúdio pelos mecanismos

sociais que dificultam o trajeto

profissional como escritora. Essa conjunção,

por vezes discrepante, ajuda a

entender as razões pelas quais essa

obra é considerada pouco significativa

e muito voltada para o trajeto instável

de um indivíduo. Confinada à forma do

diário, Carolina Maria de Jesus parece

se sentir compelida a repetir uma fórmula,

cujo efeito não tem a força de revelação

de Quarto de Despejo. A

figura da ex-favelada não desperta interesse,

porque ela e sua obra são objeto

de atenção apenas enquanto

revelam a face negativa do desenvolvimentismo;

já as oscilações ideológicas

da mulher que, famosa, busca a atenção

da imprensa e do público não trazem

à época elementos que se julguem

significativos.

Diário de Bitita, publicado após

a morte da autora, resgata a força literária

da produção de Carolina Maria

de Jesus. Trata-se de memórias da infância

e da adolescência, em Sacramento

e nas fazendas onde trabalha

como colona, bem como de seus primeiros

tempos em Franca. Nesta obra,

os temas da injustiça social, da opressão,

do preconceito contra os negros, dos

abusos dos poderosos são apresentados

a partir da perspectiva daquela que os

viveu. Apesar de suas condições materiais,

Carolina Maria de Jesus lutou

para conquistar dignidade e para se

constituir como alguém que resiste à

exploração e à desumanização. A obra

testemunha a história dessa luta e da

opressão a que estão confinados os

pobres no Brasil das primeiras cinco

décadas do século XX.ø

Fonte: Enciclopédia de Literatura/Itau Cultural,

citado por FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção

e organização). Carolina Maria de Jesus - a voz

dos não têm a palavra. Templo Cultural Delfos,

maio/2014. Disponível no link. http://www.elfikurten.com.br/2014/05/carolina-maria-de-jesus.html

(acessado em 6/02/2015).

Revista Elas por Elas - Abril 2015


122

DO LIVRO MAGRA DE RUIM

CULTURA

POR DENILSON CAJAZEIRO

Um novo olhar sobre as HQs

Mulheres conquistam espaço e redesenham a

representação feminina nas histórias em quadrinhos


123

Esqueça as heroínas sensuais, com

roupas justíssimas e curvas à mostra,

ou mesmo inseguras, frágeis, à espera

de serem salvas. Pouco a pouco, a representação

feminina nas histórias em

quadrinhos tem sido redesenhada pelas

próprias mulheres, que a cada dia ganham

terreno num campo ainda marcado

pela presença masculina. Por meio da

internet ou de feiras e produções independentes,

bancadas por financiamentos

coletivos, elas passaram a dar maior visibilidade

às suas produções, muitas

vezes à margem do circuito comercial.

Uma dessas iniciativas que projetam

o trabalho feito por elas surgiu há quatro

anos, quando a jornalista Mariamma

Fonseca, leitora de HQs desde a infância,

decidiu criar um blog com informações

sobre mulheres quadrinistas e temas

afins, voltado para as amantes do assunto.

A ideia nasceu depois que Mariamma

sentiu certo incômodo durante

uma aula do curso de artes visuais, em

que a turma era formada só por homens.

Curiosa por saber quais mulheres atuavam

no universo dos quadrinhos, perguntou

ao professor, que não soube

respondê-la. Procurou na internet e

também teve dificuldade de encontrar.

Daí a decisão de reunir na web produções

feitas somente por elas. A iniciativa

deu tão certo que o blog logo virou um

site, o Lady’s Comics, cujo slogan é

HQ não é só pro seu namorado.

“Tivemos um retorno muito rápido.

Muitas leitoras se identificaram e apoiaram

a iniciativa. Inicialmente a ideia

era dar visibilidade. Acabou que virou

uma rede de apoio para encontrar referências,

debater o tema e também

uma forma de empoderar as meninas,

fazer com que elas se sintam acolhidas

e motivadas a trabalhar com isso. Procuramos

também incentivar a leitura de

“As mulheres

sempre foram

representadas

de forma

estereotipadas”.

quadrinhos”, revela Mariamma Fonseca,

que hoje cuida do site junto com outras

duas amigas, Samanta Coan e Samara

Horta, também apaixonadas por HQs.

Além de entrevistas com as mulheres

que transitam pela arte sequencial,

o site reúne informações de lançamentos

e encontros e artigos sobre a presença

feminina no universo das HQs.

Em um deles, elas criticam o depoimento

de ninguém menos que Maurício

de Souza, criador da Turma da

Mônica. Ao responder a reclamação

do público sobre a falta das mulheres

no mercado, na edição de 2013 da

Feira do Livro de Frankfurt, ele teria

dito que a “mulher ainda não tem essa

liberdade sem vergonha que homem

tem, de trabalhar sem horários, voltar

para casa tarde. Tem outras obrigações

além do trabalho, tem que cuidar da

casa, dos filhos. Quadrinho exige

muito tempo de dedicação”.

Numa espécie de editorial, elas logo

rebateram: “fica claro cada vez mais

que já passou da hora de se discutir a

invisibilidade das quadrinistas no Brasil.

Sem vitimismo, o fato é: temos muitas

quadrinistas produzindo. Temos autoras,

roteiristas, coloristas, arte-finalistas e

todas as ‘istas’ que envolvem os quadrinhos

brasileiros. E elas dão duro

(assim como todos da área) para terem

seus trabalhos reconhecidos, divulgados

e vistos. Ainda assim, insistem em

dizer que somos poucas, que não nos

interessamos ou que não somos competentes

para isso. Estamos cansadas

de ser ignoradas”.

A reação delas ecoou e, no ano seguinte,

foi promovido o primeiro encontro

de mulheres quadrinistas do

Brasil, em Belo Horizonte, para debater

a presença delas no mercado editorial

e os padrões estéticos presentes nas

histórias em quadrinhos. “As mulheres

sempre foram representadas de forma

estereotipada. Sempre foi peitão e

bundão, porque por um bom tempo o

mercado era feito basicamente por homens.

A representação tem de ter uma

pesquisa profunda. Não pode ser feita

sem entender o universo feminino”,

explica Mariamma Fonseca.

Uma polêmica dessa natureza chegou

recentemente à indústria dos quadrinhos.

Em agosto passado, a Marvel

Comics pediu desculpas publicamente,

em um comunicado oficial, após a

capa de uma edição da Mulher-Aranha

feita pelo italiano Milo Manara ter sido

recebida com críticas, em função da

pose erótica da protagonista. O editor-chefe

da empresa justificou-se e

disse que a capa de Manara não seria

a principal, mas sim uma edição limitada

para colecionadores.

“A gente tem esse problema. Parece

que toda personagem tem de ser jovem,

bonita, magra, branca e gostosa. É

muito redutor e acaba gerando esse

problema de identificação e afastando

leitoras desse universo”, pondera Ana

Luiza Koehler, uma das curadoras do

Festival Internacional de Quadrinhos

(FIQ/BH). Aliás, ela é a primeira mulher

Revista Elas por Elas - Abril 2015


124

a exercer essa função no evento, criado

há 18 anos. Arquiteta de formação, a

ilustradora pretende lançar neste ano

sua primeira HQ, intitulada Beco do

Rosário, em que a narrativa se passa

na década de 20, em Porto Alegre, e

traz uma personagem negra como protagonista

– Vitória Azambuja, uma escritora

que vai colocar seu talento a

serviço dos que estão sendo despejados

de suas casas para a abertura das grandes

avenidas. “Acho que o principal

desafio é quebrar esta barreira do mercado,

que tenta nos inserir em um

nicho, de que história feita por mulher

é apenas para mulher. Fazemos histórias

para todo mundo”, afirma.

Polêmicas à parte, é fato que elas

têm conquistado mais espaço até mesmo

no mercado editorial, ainda que timidamente,

graças ao talento e à divulgação

na internet. Bianca Pinheiro ilustra bem

isso. Depois de ganhar visibilidade na

web, a ilustradora e quadrinista recebeu

o convite da editora Nemo para publicar

um de seus trabalhos, o Bear, a simpática

história da pequena Raven que, após

se perder de seus pais, encontra o urso

Dimas, que a ajuda na sua busca. O

livro já está no segundo volume. “A

gente aprende desde cedo que não há

mulheres nos quadrinhos. Mas a arte é

do ser humano, independentemente de

gênero. Então, se há algum papel [dela

no universo dos quadrinhos], é o de

inspirar outras mulheres, para mostrar

ao mundo o nosso trabalho também”,

opina. Bianca Pinheiro também retomou

na internet o projeto Pequenas satisfações

humanas, com a publicação diária

de um desenho com pequenos prazeres,

e publicou neste ano, de forma

alternativa, outro HQ, o Dora, em que

uma mãe tenta defender a filha da acusação

de ter matado quinze pessoas.

Fernanda Torquato seguiu o mes -

mo caminho. Depois de publicar seus

trabalhos na internet, a quadrinista lançou

pela mesma editora, no início deste

ano, o Gata Garota, história inspirada

em dois dos cinco gatos de estimação

que cria em casa. “As mulheres estão

se interessando mais e produzindo

mais, e as grandes editoras estão preocupadas

em publicar histórias feitas por

nós porque precisam atender à demanda

crescente de leitoras”, avalia

Samanta Coan. Segundo a pesquisa-

dora e historiadora Natânia Nogueira,

apesar dos obstáculos, o cenário é promissor

para as mulheres, sejam elas

leitoras ou profissionais da arte se -

quencial. “A sociedade é muito injusta

em relação ao trabalho feminino.

Ainda há muita resistência, mas a participação

das mulheres está crescendo

bastante. Até na área da pesquisa. Temos

uma associação de pesquisadores.

Dos 43 membros, 15 são mulheres, e

a tendência é aumentar”, c ome mora

Natânia Nogueira.

Samara Horta, Mariamma Fonseca e Samanta Coan, do Lady’s Comics.

POLLYANA BITENCOURT

Revista Elas por Elas - Abril 2015


125

ENTREVISTA

GABRIELA MASSON

Masturbação

é um ato de

autonomia

da mulher

Quadrinista defende a

emancipação feminina

na exploração da

própria sexualidade

ARQUIVO PESSOAL

Gabriela Masson desenha desde

criança, mas foi só há pouco tempo,

cerca de dois anos, que começou a trabalhar

com quadrinhos. A motivação

surgiu durante o curso na Faculdade de

Artes Plásticas da Universidade de Brasília,

ainda em fase de conclusão. Hoje,

a quadrinista, de 25 anos, assina como

Lovelove6 seus trabalhos, que circulam

bem e ganham projeção na web.

“Considero estar sendo muito bom

e produtivo para mim. Recebo muitos

e-mails de pessoas que leram e de pessoas

que começam a produzir e me

falam que foi por inspiração de um

quadrinho meu. As vendas também são

um parâmetro para entender se está

dando certo”, afirma Gabriela Masson.

Feminista, ela está finalizando a impressão

de uma de suas principais produções,

a história em quadrinho Garota

Siririca – bancada por um financiamento

coletivo –, cuja personagem é

uma garota viciada em se masturbar.

“Acho que existe um protagonismo na

mulher quando ela decide explorar a

sua própria sexualidade. Hoje até penso

que masturbação é um ato de autonomia,

um ato político de emancipação

importante para a mulher”, defende a

jovem, autora também do zine Ética

do Tesão na Pós-Modernidade, volumes

1 e 2, entre outros trabalhos.

Confira abaixo a entrevista.

Quem é a Garota Siririca e

como surgiu a ideia de criá-la?

A Garota Siririca é uma menina

viciada em masturbação, que passa os

dias fazendo isso e acaba envolvendo

as amigas dela em sua obsessão. Ela

surgiu a partir das minhas próprias experiências,

a princípio, e depois, para

desenvolvê-la, passei a conversar com

muitas outras mulheres a respeito de

sexualidade, masturbação e feminismo.

Eu pesquiso muito a respeito da vulva

e de sexualidade também. Muito a respeito

do feminismo e converso muito

com minhas amigas. Outras mulheres

me mandam emails voluntariamente

contanto histórias engraçadas. Tudo

isso me ajuda bastante a criar. Daí a

Garota Siririca foi virando outras

coisas. Hoje considero que é uma história

especialmente sobre relações lésbicas.

Toca muito no tema de amizade

entre mulheres também.

Por que escolher falar sobre

sexo e para as mulheres?

Um pouco antes de começar a fazer

a Garota Siririca, procurei conhecer o

que estava acontecendo nos quadrinhos

nacionais. Reparei que tinha uma au-

Revista Elas por Elas - Abril 2015


126

sência muito grande de personagens

que fossem mulheres construídas numa

perspectiva feminista. A maneira como

as mulheres são representadas nos quadrinhos,

tanto nacional quanto mundialmente,

é um problema. Geralmente

apela-se para estereótipos desprezíveis,

humilhantes e, quando percebi isso,

tive muita vontade de desenvolver essa

personagem que estava faltando, que

eu mesma gostasse de me identificar.

Paralelo a isso estava acontecendo coisas

em minha vida, em relação à masturbação

é à minha sexualidade. Percebi que

faltava muito espaço para ter um diálogo

a respeito disso. Aí meio que juntei as

duas coisas. Resolvi tentar trabalhar

essa ausência de uma personagem representativa

e essa ausência de diálogo

a respeito de masturbação, feminismo

e sexualidade nos quadrinhos.

Porque masturbar ainda é um

tabu entre as mulheres, não é?

Muito grande. Acho que especialmente

no círculo social de classe média,

com acesso ao Facebook, talvez uma

pequena parcela de garotas jovens já

esteja falando muito mais a respeito

disso. Mas em geral, na sociedade, é

um grande tabu. Conheci histórias bem

tristes, de mulheres que sentem nojo

do próprio corpo. Isso acaba as levando

a se submeter a algumas relações muito

nocivas quando vem o momento de se

relacionar sexualmente.

Em que medida o feminismo

ajudou a Garota Siririca?

Acho que se eu não fosse feminista

e tivesse decidido fazer algum tipo de

quadrinho erótico, nunca sairia algo

como a Garota Siririca. Antes de me

tornar feminista, já lia quadrinhos eróticos

e gostava muito. Acho que eu

iria reproduzir muito do que tem sido

feito nacionalmente aí, uma abordagem

da sexualidade muito heterossexual,

heretocentrada, geralmente homofóbica,

lesbofóbica, transfóbica.

Como você definiria a sexualidade

hoje?

Existem muitas formas de expressar

e praticar a sexualidade, mas acho que

se tem algo que poderia generalizar é

que todas elas são fluidas, apesar de

muitas pessoas engessarem a sua sexualidade

em algum momento. Acredito

que isso não é natural...

Engessar em que sentido?

Por exemplo, acreditar, ao longo

da educação que a sociedade dá pra

gente, que o homem é necessariamente

heterossexual. O cara acredita com todas

as forças que é isso mesmo, que

ele nasceu para ser hétero e será hétero

até o fim da vida. Acho que essa é

uma visão muito engessada da sexualidade

e uma maneira conservadora de

lidar com o próprio corpo e com as

pessoas. Acho que a sexualidade é naturalmente

fluida. Mas aí depende do

moral da pessoa e o quanto ela está

disposta a deixar fluir sua sexualidade

e descobrir como se sente melhor praticando

isso.

Você disse em entrevista que a

gente vive em uma situação de extremo

cerceamento do próprio corpo.

Gostaria que falasse mais a

respeito disso.

A ausência de diálogo a respeito

de sexualidade, de educação sexual,

masturbação, especialmente voltada

para mulheres que nasceram com vulvas

e se identificam como mulheres, trabalha

Revista Elas por Elas - Abril 2015


127

no sentido de tirar toda intimidade que

a mulher poderia ter com o próprio

corpo. Ao longo do nosso amadurecimento

sexual, na verdade a gente

acaba perdendo a intimidade com o

próprio corpo. Eu vejo isso se refletir

na vida delas quando há mulheres com

trinta anos dizendo que odeiam se

masturbar, que gostam mesmo é de

sexo, mas que nunca tiveram um orgasmo,

só se relacionam com homens

e têm tendência a entrar em relacionamentos

abusivos. Acho que tudo isso é

realmente um fruto objetivo de toda

essa falta de diálogo que existe, desse

cerceamento do conhecimento e das

possibilidades que a mulher pode ter

para desenvolver a sexualidade dela.

Você também já disse que sexo

é política. Em que medida sexo é

política?

Quis dizer que a maneira como nós

praticamos o sexo se reflete politicamente

na maneira como agimos socialmente.

Acho que existe um protagonismo

na mulher quando ela decide

explorar a sua própria sexualidade.

Hoje até penso que masturbação é um

ato de autonomia, um ato político de

emancipação importante para a mulher.

A partir daí a gente afirma muitas

coisas. Uma mulher que começa a se

masturbar na intimidade de casa, não

tenho dúvida de que a maneira como

ela vai se comportar no mundo vai ser

diferente, a partir dessa experiência

que tem como ela mesma. Inclusive

acho que pode ser político sim quando

mulheres se relacionam sexualmente

com mulheres. Simbolicamente e politicamente

é muito forte a mensagem.

E entendo que existem mulheres que

preferem se relacionar apenas com

mulheres por questões políticas, motivadas

pelos contextos sociais que às

vezes são muito opressores e violentos.

Então quando falo que sexo é política,

quero dizer que se a mulher se propõe

a ser protagonista da própria sexualidade

e não se submeter aos preconceitos

e a relações abusivas, a partir

da relação sexual que ela tem com ela

mesma e com as pessoas em volta

dela, age politicamente de uma forma

diferente no mundo.

No entanto esse não é o quadro

atual. É possível alterá-lo?

Bom, não sei, na verdade. Acho

que o movimento feminista está fazendo

avanços maravilhosos no Brasil e no

mundo em termos de sexualidade, de

direitos de reprodução, mas todo esse

avanço gera uma reação muito forte,

muito violenta. Acho que essa mudança

está acontecendo também especialmente

entre mulheres jovens, de classe

média, mas sim, tenho esperanças. A

gente precisa é de mulheres mais

velhas, inseridas em outros contextos,

que estejam interessadas em conversar

a respeito dessas questões, numa perspectiva

feminista com suas amigas,

com as mulheres mais próximas delas.

Aí é possível o feminismo começar a

brotar e ter um efeito maior nos contextos

sociais.

“Ao longo do nosso

amadurecimento

sexual, acabamos

perdendo a

intimidade com o

próprio corpo”.

Sobre o trabalho das mulheres

quadrinistas, você também acredita

que elas têm hoje mais visibilidade

e espaços?

A gente está conquistando, construindo

espaços. Acho que tem pouco

a ver com nossos colegas quadrinistas

homens reconhecerem o valor dos

nossos quadrinhos ou do nosso movimento.

Inclusive a gente entra muito

em conflito. Apesar de estar conseguindo

me aproximar desses lugares

superdominados por homens, acredito

cada vez mais que só vai dar certo

mesmo se for uma coisa entre as mulheres.

Essa é a grande resposta. Fazendo

feira, colocando a mão na

massa, fazendo quadrinho, recorrendo

a financiamento coletivo, criando grupos

para conversar sobre quadrinhos,

dar oficinas uma para a outra, acho

que é assim. Pelo que tenho observado,

desde que comecei a fazer quadrinhos,

tem sido assim. Não foi

porque os caras acharam massa, porque

até hoje eles não acham. Nem sei

se é o caso de esperarmos que a indústria

e os meios de comunicação

mudem a cabeça. Estou mais apostando

em criar novos espaços com

essas mulheres que querem fazer e não

depender dessa galera para aparecer e

vender nossas coisas. E o que gosto

mais em toda a cena de quadrinhos

entre as mulheres é exatamente essa

visão feminista, que ainda bem que a

grande maioria de nós compartilha,

ainda que haja algumas desavenças em

alguns detalhes. Acho que não adianta

mais mulheres fazendo quadrinhos se

essas mulheres não são feministas.

Para fazer mudanças em direção à promoção

da igualdade e respeito pela

mulher, tem de ser feminista, se não a

coisa não anda.ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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Miriam Alves, do coletivo Bloco das Pretas: “a arte educa e sensibiliza a sociedade”.

foto DENILSON CAJAZEIRO

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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CULTURA NEGRA

por DENILSON CAJAZEIRO

Arte e resistência

Por meio de intervenções artísticas, mulheres colocam em

pauta a agenda feminista

Literatura, música, teatro, dança,

performance e outras formas de arte e

cultura feitas por mulheres tomaram

conta de vários espaços do centro e

da periferia de Belo Horizonte e região

metropolitana, entre os dias 6 e 8 de

março deste ano. As cerca de 130

apresentações foram gratuitas e fizeram

parte da mostra Diversas – feminismo,

arte e resistência, evento promovido

por grupos e coletivos de mulheres.

O evento, que também contou com

oficinas em ocupações urbanas sobre

feminismo e rodas de conversa, propôs

o debate, por meio das intervenções artísticas,

de temas da pauta feminista,

como a violência contra as mulheres, a

participação delas no mercado de trabalho,

a mercantilização do corpo, a

sexualidade e os direitos reprodutivos, a

luta das mulheres negras, entre outros.

Um dos coletivos que participou da

mostra foi o Bloco das Pretas, criado

há três anos dentro da Universidade

Federal de Minas Gerais (UFMG) e

formado por cerca de 25 mulheres.

Atualmente, uma das principais intervenções

do grupo é o sarau poético,

que reúne música, expressão corporal

e poesia. “A expressão corporal é

muito definidor da mulher negra. Quando

tratamos do racismo e do machismo,

isso está no corpo dela, além do aspecto

cultural mesmo, pois as mulheres negras

têm uma expressão muito forte”, afirma

a integrante do coletivo e estudante de

Pedagogia Miriam Gomes Alves, para

quem a arte é uma maneira de sensibilizar

as pessoas. “Às vezes, só pela

discussão teórica não se consegue sensibilizar

todos os sujeitos. A arte tem

esse caráter de sensibilizar e educar a

sociedade”.

Em vários espaços públicos da cidade,

as integrantes do grupo já se

apresentaram e discutiram temas como

a invisibilidade da religião de matriz

africana ou a violência obstétrica. Na

mostra Diversas, o grupo apresentou

um sarau com o tema apropriação cultural,

em que lançou um olhar crítico

sobre o uso de elementos da cultura

negra no Carnaval de Belo Horizonte

deste ano, e ministrou oficinas na ocupação

Guarani Kaiowá sobre gênero

e identidade. “Somos mulheres negras

da periferia e queremos trabalhar com

grupos periféricos, por meio das intervenções,

do empoderamento da mulher

negra e do incentivo à escrita. O

objetivo é sair do espaço acadêmico e

ir para a periferia”, revela.

Outro coletivo que participou da

mostra e propôs a discussão sobre a

pauta racial foi o Negras Ativas. Criado

em 2003, o grupo desenvolve atividades

artísticas, culturais e formativas, a partir

da valorização dos saberes das mulheres

negras nas comunidades. O trabalho

mais recente delas foi o documentário

A arte de ser, exibido na mostra, que

aborda a inserção de jovens mulheres

na cena do hip-hop de Belo Horizonte.

“Aos poucos, as meninas estão quebrando

os estereótipos e rompendo a

cultura machista que há no hip-hop”,

aponta Joseli Rosa de Souza, integrante

do Negras Ativas. “Entendemos que

com a arte conseguimos trazer mais

mulheres para a discussão. A arte pode

possibilitar a construção de uma política

diferenciada. É uma forma de denunciar

usando a arte”, afirma.

O grupo também promoveu durante

a mostra uma roda de conversa, em

que discutiram as bandeiras das mulheres

negras e divulgaram a agenda da Marcha

das Mulheres Negras deste ano – a estadual

será em 13 de maio, na Praça

Sete, no Centro de Belo Horizonte, e a

nacional será em Brasília, em 18 de

novembro. “Marcharemos em homenagem

às nossas ancestrais e em defesa

da cidadania plena das mulheres negras

brasileiras”, defendem as entidades que

participam do comitê organizador da

Marcha, em texto publicado no site da

atividade (www.2015marchamulheresnegras.com.br).ø

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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ARTIGO

POR MÁRCIA MENDONÇA

foto ASSOCIATED PRESS

Muito além do

feminino e do masculino

Moda: um campo no qual representações e

simbolismos ganham dimensão

Revista Elas por Elas - Abril 2015


131

Uma bela discussão sobre gênero.

Novo diretor-criativo da Gucci, Alessandro

Michele, passou por prova de

fogo na grife ao apresentar, em janeiro

deste ano, em Milão, a coleção masculina

de inverno 2016, propondo que

o homem use roupas com influência

do guarda-roupa feminino. E mais, colocou

mulheres desfilando suas criações

masculinas na passarela.

Miuccia Prada trouxe também para

sua coleção 2016, jaquetas curtas e

calças afuniladas, endossando a ideia.

Para ela, há uma evolução nesse movimento,

e a moda masculina, muito

previsível e limitada, vem buscando

novas influências, e a tendência é a de

que o feminino e o masculino se aproximem

cada vez mais.

Para o estilista brasileiro João Pimenta,

“estamos tão avançados que

não faz sentido discutirmos o que é

masculino e o que é o feminino hoje”.

Até o momento nenhuma novidade.

Não é de hoje que a moda flerta com a

discussão sobre gênero e sobre a histórica

interface entre masculino e feminino.

Coco Chanel, no início da década

de 1920, apropriou-se de suéteres, terninhos,

casacos, calças−peças exclusivamente

masculinas, para criar looks

que tornaram-se atemporais, dando

início à relação entre mulheres e a alfaiataria,

muito presente nas vestimentas

femininas durante a Segunda Guerra

Mundial e cada vez mais em destaque

na contemporaneidade. Chanel rompeu

com a rigidez do traje feminino e imprimiu

um estilo de se vestir mais simples,

e que chamamos hoje de minimalista.

Em 1930, a atriz Marlene Dietrich

provocou enorme frisson ao usar um

modelo de terno e gravata no filme

Marrocos, de Josef Von Stenberg.

Dietrich acabou por ditar moda no

período entreguerras (1914-1918 e

1939-1945), provocando grande discussão

sobre o reposicionamento da

mulher e sua afirmação na sociedade

moderna.

Nos anos 50, o rock influenciou a

moda e levou para o guarda-roupa

feminino e masculino a calça jeans e a

camiseta. Na década seguinte, nova

explosão, com Mary Quant e o surgimento

da minissaia, Yves Saint

Laurent com o smoking feminino,

Paco Rabane e suas criações futuristas.

Da segunda metade do século XX

até os dias atuais, foram, e são, muitos

os estilistas que dialogoram e interpretaram

– e que dialogam, cada vez mais

–, com o feminino/masculino. Muitas

são as reinvenções, apropriações e assimilações

na moda, e a androginia –

ou inversão de gêneros, ou a soma

dos dois ou nenhum dos dois –, tamanha

é a discussão e reflexão sobre o

assunto que tem se intensificado cada

vez mais nesse campo.

Para a feminista Judith Butler, “o

gênero deixou de ser uma identidade

estável, ou lugar de agenciamento do

qual as ações procedem. O gênero é

uma identidade tenuemente constituída

por meio da repetição estilizada de

atos, gestos, performances variadas

que constroem a ilusão de self com a

sexualidade definida”.

Nessa perspectiva, recorremos ao

filme Orlando, realizado em 1992, pela

cineasta inglesa Sally Potter, como forma

de tematizarmos o assunto. O ponto de

partida do filme é a obra homônima

Orlando, de autoria da escritora inglesa

Virgínia Woolf. Nascido homem, o lorde

Orlando, após séculos de existência e

desventuras (a obra de Woolf situa-se

em quatro séculos, do século XVI ao

início do século XX), acorda, num belo

dia, mulher. É ordenado pela Rainha

Elizabeth I a permancer eternamente

jovem, e sai de sua condição de aristocrata

para dândi, dama, andrógino. Sua

mudança mais radical é sua transformação

sexual, seguida de seus relacionamentos,

afetos, desacertos. Woolf criou

uma das obras mais instigantes da literatura

mundial sobre a discussão do gênero,

adaptada de maneira extremamente

original por Potter.

A escolha de Tilda Swinton para

viver Orlando é mais do que acertada,

pois é uma das atrizes mais andróginas

que o cinema já teve. Em 2013, estrelou

campanha da marca Chanel e foi fotografada

por Karl Lagerfeld. Para o

papel da Rainha Elizabeth I, o ator

Quentin Crisp foi escalado por Sally

Potter. O figurino, assinado por Sandy

Powell, é surpreendente, afinal, abrange

quatro séculos, épocas e estilos distintos,

como o rococó, o clássico e o moderno.

É impecável ainda na direção de arte e

fotografia, e chegou a ser indicado a

dois Oscar, o de Melhor Direção de

Arte e Melhor Figurino.

Orlando nos conduz a uma discussão

pertinente que permeia arte, gênero,

moda, sexualidade e corpo, e que nos

leva a refletir quanto a moda e a subjetividade

são indissociáveis, e comportam

ambiguidades, paradoxalidades, ideologias

e identidades múltiplas. Pensar a

moda, neste contexto, é observar, analisar

seus discursos, sua multiplicidade de cenários

e de propostas, cada vez mais

mutantes e feéricas, deixando de lado

seu ar de frivolidade, tornando-se, um

campo no qual as representações, os

simbolismos, os questionamentos e os

dilemas ganham dimensão. Afinal, a

moda pensa além do feminino e do

masculino.ø

Márcia Mendonça é historiadora,

professora e jornalista

Revista Elas por Elas - Abril 2015


132

POUCAS E BOAS

Homens em prol dos direitos das mulheres

No ano passado a ONU lançou,

em Nova York, a campanha He-

ForShe. Criada para mobilizar homens

e meninos em prol dos direitos

das mulheres e da igualdade de gênero,

a campanha tem como principal

divulgadora a atriz e embaixadora

da Boa Vontade da ONU

Mulheres, Emma Watson.

O pontapé inicial da campanha

foi dado na sede das Nações Unidas

em setembro de 2014. No evento

do lançamento global, os homens

foram colocados como ativistas

fundamentais para acabar com as

desigualdades enfrentadas diariamente

por todas as mulheres.

Até setembro de 2015, a campanha

pretende mobilizar um bilhão

de homens e meninos ao

redor do mundo como defensores

e agentes da transformação. No

site heforshe.org é possível também

encontrar um mapa em

tempo real que mede o envolvimento

dos homens com a iniciativa

em todo o mundo.

INTERNET

Mulheres no Poder

http://www.mulheresnopoder.com.br

Homens pelo fim da violência

contra as mulheres

http://www.homenspelofimdaviolencia.com.br

Titularidade para as

mulheres nos

programas sociais

Entrou em vigor no ano passado

a Lei nº 13.014. Agora,

assim como no Bolsa Família,

outros programas assistenciais

e de transferência de renda do

governo federal adotarão o

pagamento preferencial à mulher

responsável pela unidade

familiar.

A lei alterou a Lei Orgânica

da Assistência Social (Lei

8.742/1993) que dispõe sobre

a organização da assistência

social e a Lei 12.512/2011 que

institui o Programa de Apoio à

Conservação Ambiental e o

Programa de Fomento às Atividades

Produtivas Rurais.

Tribunal do RJ

tem a primeira

desembargadora negra

Aos 69 anos de idade, Ivone Ferreira

Caetano, titular da 1ª Vara da

Infância da Juventude e do Idoso

tornou-se a primeira desembargadora

negra do estado do Rio de Janeiro.

Segunda mulher negra do

Brasil a ocupar o cargo de magistrada,

ela foi escolhida entre 16

juízes que concorriam ao cargo,

sendo eles nove mulheres e sete

homens.

Com uma trajetória de vida de

superação e luta contra o preconceito,

Ivone é filha de uma lavadeira

que criou sozinha onze filhos. A juíza

começou a faculdade de direito aos

25 anos, apenas ingressando na escola

de magistratura aos 49 anos.

Geledes

http://www.geledes.org.br/

Blogueiro negras

http://blogueirosnegras.org

Laço branco

http://lacobrancobrasil.blogspot.com.br

Revista Elas por Elas - Abril 2015


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LIVROS

Backlash: o contra-ataque

na guerra não declarada às

mulheres

Autora:

Susan Faludi

Editora Rocco

A década de 1980

deflagrou um implacável

contraataque

às conquistas

femininas, que

opera em dois níveis:

convencer as mulheres de que seus

sentimentos de angústia e insatisfação

são resultado do excesso de independência,

ao mesmo tempo em que destrói

gradativamente os mínimos avanços

que as mulheres realizaram no trabalho,

na política e em sua forma de pensar.

Susan Faludi, prêmio Pulitzer de jornalismo,

mostra como a imprensa se ocupou

em repercutir essas mensagens ao

dar um cunho moralista às notícias e

reportagens, e manipular estatísticas.

O segundo sexo

Autora: Simone

de Beauvoir

Editora Nova

Fronteira

Provedora, vassala,

acolhedora. Não

importa como se

apresenta, o lugar

da mulher sempre foi definido pelo homem.

Este configura a posição central

na sociedade. O homem que tomou

para si a definição de ‘ser humano’ relega

à mulher uma posição secundária,

um papel de coadjuvante na História.

Foi a partir dessa constatação e da

pergunta ‘o que é uma mulher?’, que a

filósofa existencialista Simone de Beauvoir

deu início à sua reflexão para escrever

O segundo sexo.

O mito da beleza

Autora:

Naomi Wolf

Editora Rocco

Para mostrar co -

mo a indústria da

beleza e o culto à

bela fêmea manipulam

imagens que

minam a resistência psicológica e material

femininas, reduzindo as conquistas

de 20 anos de lutas a meras ilusões,

Naomi Wolf escreveu um livro com dados

estatísticos.

Em O mito da beleza, Naomi enfrenta o

que ela acredita ser a única trincheira

ainda por derrubar para que a mulher