Revista Elas por elas 2017

sinpro

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

Ocupação:

substantivo

feminino

O protagonismo das mulheres nas ocupações

estudantis contra os ataques à educação

Longe de casa

Refugiadas buscam reconstruir

suas vidas no Brasil

Da lama à luta

Mulheres atingidas por um dos maiores

crimes socioambientais do país reescrevem

uma nova história de vida


A resistência

das mulheres

2017 será destaque na história do Brasil

como um ano de intensas lutas

O Dia Internacional da Mulher foi

marcado por manifestações em todo

o mundo. No Brasil, o movimento #8M

Eu Paro tornou-se um marco nos atos

de resistência contra o golpe jurídico,

parlamentar, midiático e misógino,

ocorrido no país em 2016. Mulheres

combativas gritaram “Fora Temer” de

canto a canto do Brasil. Elas também

foram protagonistas nas ocupações estudantis

contra a reforma do Ensino

Médio e os ataques à educação. Estiveram

à frente da maior greve geral já

realizada no país, que aconteceu no

centenário da histórica greve de 1917,

quando as mulheres também tiveram

um importante papel. Neste ano também

comemoramos os 100 anos da

Revolução Russa, deflagrada a partir

de protestos de mulheres em uma indústria

têxtil, que trouxe, junto a outros

inúmeros direitos dos trabalhadores,

muitas conquistas feministas.

Se ao longo da história, a trajetória

de luta das mulheres mostra a sua capacidade

de resistência, agora, mais

que nunca, é preciso encher-se de co-

ragem e lutar como uma mulher para

barrar os retrocessos políticos e sociais.

Assim como fizeram as senadoras

que ocuparam a mesa do Senado

para tentar barrar a votação da reforma

trabalhista.

A elite que serve ao capital quer

enfraquecer a luta coletiva, atacando

os sindicatos e os movimentos sociais

que ocupam as ruas e resistem às investidas

neoliberais.

Com o governo Temer, medidas

como o congelamento dos recursos

para áreas da saúde e educação, assim

como a terceirização irrestrita de serviços,

a reforma trabalhista e o retrocesso

nas políticas para as mulheres

já causaram um grande atraso social,

político e econômico.

É importante frisar que a retirada

de direitos e políticas retrógradas aumentam

a desigualdade de gênero. Portanto,

precisamos exigir a retomada

das propostas que visam à superação

das desigualdades relacionadas às mulheres

na educação, saúde, trabalho,

cultura e esporte. E só um governo

com um programa progressista e eleito

democraticamente pelo voto pode fazer

isso. Portanto, que ecoe, além do Fora

Temer, o grito pelas Diretas já!

É nesse contexto que lançamos a

10ª edição da revista Elas por Elas.

Agradecemos a colaboração de todas e

todos que contribuem, ano a ano, para

que essa publicação seja um importante

instrumento do Sindicato dos

Professores do Estado de Minas Gerais

e possa incentivar as reflexões e lutas

pela eliminação de todas as formas

de discriminação de gênero, raça,

etnia e classe.

Essa edição da Elas por Elas traz

várias pautas instigantes para que possamos

aprofundar o debate nas questões

de gênero. Continuaremos a lutar

por ações e políticas que promovam

avanços nas pautas de igualdade de

gênero, raça, etnia e classe. A força

está na unidade, mobilização e luta!

Boa leitura!

Valéria Morato

Presidenta do Sinpro Minas

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

3


ESPECIAL

Elas por Elas: 10 anos

Revista se consolida como um espaço

de debate qualificado sobre gênero

Pág 6

CAPA

Ocupação:

substantivo

feminino

O protagonismo das

mulheres nas ocupações

estudantis contra os

ataques à educação

Pág 30

HOMENAGEM

Comenda Clara Zetikin

Honraria do Sinpro Minas à

mulheres de luta

ARTIGO

O hiato de gênero no

desempenho em

Matemática: o caso

de Belo Horizonte

Pág 38

MEIO AMBIENTE

Da lama à luta

Mulheres atingidas por um

dos maiores crimes socioambientais

do país reescrevem uma nova

história de vida

Pág 12

DIREITOS HUMANOS

Longe de casa

Refugiadas buscam reconstruir

suas vidas no Brasil

POLÍTICA

Golpe misógino

Retirada de direitos e

políticas retrógradas aumentam

a desigualdade de gênero

Pág 52

Pág 16

Pág 42

ARTIGO

Violência de gênero

contra as mulheres:

os desafios do cuidado

Pág 60

Revista Elas por Elas - Agosto 2017


RACISMO

A solidão sentida na pele

Afetividade e relacionamentos interraciais

na pauta do feminismo negro

COMPORTAMENTO

Pelo direito de

envelhecer dignamente

Mulheres ressignificam o

envelhecimento feminino

ARTIGO

Carmen Miranda,

novas representações

e narrativas na

contemporaneidade

Pág 106

PERFIL

Elza Soares: uma mulher

do fim do mundo

Pág 110

Pág 64

Pág 86

MEMÓRIA

Gilse Cosenza deixa

legado de resistência

FEMINISMO

Quem tem medo da

linguagem não-sexista?

Manual mostra como a linguagem

pode reforçar ou combater

estereótipos de gênero

GENERO

Pela visibilidade lésbica

Elas querem ocupar os espaços na

sociedade para reivindicar respeito

e o fim da lesbofobia

Pág 96

CULTURA

As minas do hip hop

Elas ocupam cada vez mais

espaço na cena urbana e protestam

contra o machismo

Pág 116

Pág 74

POUCAS E BOAS

INTERNET

Pág 120

ARTIGO

Aborto:uma

questão além do

bem e do mal

Pág 82

Pág 100

LIVROS

FILMES

RETRATO

Pág 121

Pág 122

Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Departamento de Comunicação do Sinpro Minas: comunicacao@sinprominas.org.br

Diretores responsáveis: Aerton Silva, Clarice Barreto e Gilson Reis;

Editora/Jornalista responsável: Débora Junqueira (MG05150JP);

Redação: Carina Santos (MG13115JP), Cecília Alvim (MG09287JP),

Denilson Cajazeiro (MG09943JP), e Nanci Alves (MG003152JP;

Projeto gráfico e Diagramação: Mark Florest;

Revisão: Aerton Silva

Foto capa: Rovena Rosa - Agência Brasil

Conselho Editorial: Antonieta Mateus, Clarice Barreto, Lavínia Rodrigues, Maria Izabel Bebela Ramos,

Marilda Silva, Liliani Salum Moreira, Luliane Linhares, Soraya Abuid, Terezinha Avelar e Valéria Morato.

Impressão: EGL-Editores Gráficos Ltda - Tiragem: 2.000:

Distribuição gratuita: Circulação dirigida

REVISTA ELAS POR ELAS

PUBLICAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE

COMUNICAÇÃO DO SINPRO MINAS

ANO XI - Nº 10 - AGOSTO DE 2017

ACESSE AS EDIÇÕES ANTERIORES EM

www.sinprominas.org.br

Elas por elas - nº 9

Diretoria Gestão 2016/2020

Adelmo Rodrigues de Oliveira, Aerton de Paulo Silva, Albanito Vaz Júnior, Alessandra Cristina Rosa, Alexandre Durann

Matos, Alina Machado Moreira, Altamir Fernandes de Sousa, Ângela Maria da Silva Gomes, Ângelo Filomeno Palhares Leite,

Antonieta Shirlene Mateus, Antônio Marcos das Chagas, Aparecida Gregório Evangelista da Paixão, Arnaldo Oliveira Júnior,

Beatriz Claret Torres, Braulio Pereira dos Santos, Bruno Burgarelli Albergaria Kneipp, Camillo Rodrigues Júnior, Carla Fenícia

de Oliveira, Carlos Afonso de Faria Lopes, Carlos Magno Machado, Carlos Roberto Schutte Junior, Carolina Azevedo

Moreira, Cecilia Maria Vieira Abrahão, Celina Alves Padilha Arêas, Cid Indalécio Moreira Alves, Clarice Barreto Linhares,

Claudia Nunes dos Santos Silva, Clédio Matos de Carvalho, Clovis Alves Caldas Filho, Décio Braga de Souza, Diogo Oliveira,

Edson de Oliveira Lima, Edson de Paula Lima, Eduardo Arreguy Campos, Eliana Assunção Franco Codignole, Fábio dos

Santos Pereira, Fabio Marinho dos Santos, Fátima Amaral Ramalho, Fernando Dias da Silva, Fernando Lucio Correia, Filipe

Luis dos Santos, Francine Fernandes Cruz, Franz Lima Petrucelli, Geraldo Fabio Alves de Souza, Gilson Luiz Reis, Gisele

Andrea Satrapa Oliveira, Grace Marisa Miranda de Paula, Guilherme Caixeta Borges, Haida Viviane Palhano Arantes,

Handerson Correa Gomes, Heber Paulino Pena, Hélcia Amélia de Menezes Quintão Simplício, Helena Vicentina Flores, Heleno

Célio Soares, Henrique Moreira de Toledo Salles, Hermes Honório da Costa, Hugo Gonçalves Soares, Humberto de Castro

Passarelli, Idelmino Ronivon da Silva, Inez Grigolo Silva, Isabela Maria Oliveira Catrinck, Jaderson Teixeira, Jaqueline

Rodrigues Gouveia Gomes, Jefferson Costa Guimarães, João Francisco dos Santos, Jones Righi de Campos, José Carlos

Padilha Arêas, Josiana Pacheco da Silva Martins, Josiane Soares Amaral Garcia, Juvenal Lima Gomes, Kelly Angelina dos

Reis Oliveira, Kenya de Jesus Sodre, Leila Lucia Gusmão de Abreu, Leonardo Alves Rocha, Lilian Aparecida Ferreira de Melo,

Liliani Salum Alves Moreira, Luiz Antonio da Silva, Luiz Carlos da Silva, Luiz Claudio Martins Silva, Luliana de Castro Linhares,

Marco Antonio Ramos, Marcos Antonio de Oliveira, Marcos Gennari Mariano, Marcos Paulo da Silva, Marcos Vinícius Araújo,

Maria Célia Silva Gonçalves, Maria Cristina Teixeira do Vale, Maria da Conceição Miranda, Maria da Glória Moyle Dias, Maria

Elisa Magalhães Barbosa, Maria Luiza de Castro, Mariana Helena Moreira Nascimento, Marilda Silva, Marilia Ferreira Lopes,

Mario Roberto Martins de Souza Silva Braga, Marta Betânia Pereira Pimenta, Mateus Júlio de Freitas, Messias Simão

Telecesqui, Miguel Jose de Souza, Miriam Fátima dos Santos, Moises Arimateia Matos, Mônica Junqueira Cardoso Lacerda,

Nalbar Alves Rocha, Nelson Luiz Ribeiro Da Silva, Newton Pereira de Souza, Orlando Pereira Coelho Filho, Paola Notari

Pasqualini, Patricia de Oliveira Costa, Petrus Ferreira Ricetto, Pitágoras Santana Fernandes, Ricardo de Albuquerque

Guimarães, Robson Jorge de Araújo, Rockefeller Clementino da Silva, Rodrigo Rodrigues Ferreira, Rodrigo Souza de Brito,

Rogerio Helvídio Lopes Rosa, Rossana Abbiati Spacek, Rozana Maris Silva Faro, Sandra Lúcia Magri, Sandra Maria Nogueira

Vieira, Sebastião Geraldo de Araújo, Silvio Rodrigo de Moura Rocha, Simone Esterlina de Almeida Miranda, Siomara Barbosa

Candian Iatarola, Sirlane Zebral Oliveira, Sirley Trindade Vilela Lewis, Tarcisio Fonseca da Silva, Telma Patrícia de Moraes

Santos, Teodoro José Eustáquio de Oliveira, Terezinha Lúcia de Avelar, Thais Claudia D’Afonseca da Silva, Uldelton Paixão

Espírito Santo, Umbelina Angélica Fernandes, Valéria Peres Morato Gonçalves, Vera Cruz Spyer Rabelo, Vera Lucia Alfredo,

Virgínia Ferreira Ramos e Wellington Teixeira Gomes,

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS

SEDE: Rua Jaime Gomes, 198 - Floresta - CEP: 31015.240 - Fone: (31) 3115 3000

Belo Horizonte/MG - www.sinprominas.org.br

SINPRO CERP - Centro de Referência dos Professores da Rede Privada

Rua Tupinambás, 179 - Centro - CEP: 30.120-070 - BH - Fone: (31) 3274 5091

REGIONAIS:

Barbacena: Rua Silva Jardim, 425 - Boa Morte - CEP: 36201-004 - Fone: (32) 3331-0635; Cataguases:

Rua Major Vieira, 300 - sala 04 - Centro - CEP: 36770-060 - Fone: (32) 3422-1485; Coronel Fabriciano:

Rua Moacir D'Ávila, 45 - Bairro dos Professores - CEP: 35170-014 - Fone: (31) 3841-2098; Di vinópolis: Av:

Amazonas, 1.060 - Sidil - CEP: 35500-028 - Fone: (37) 3221-8488; Governador Valadares: Rua Benjamin

Constant, 653 - Térreo - Centro - CEP: 35010-060 - Fone: (33) 3271-2458; Montes Claros: Rua Januária,

672 - Centro - CEP: 39400-077 - Fone: (38) 3221-3973; Paracatu: Rua Olhos D’água, 92 - Centro - CEP:

38600-000 - Fone: (38) 3672-1830; Patos de Minas: Rua José Paulo Amorim, 150 - Guanabara - CEP:

38701-174 - Fone: (34) 3823-8249; Poços de Caldas: Rua Mato Grosso, 275 - Centro, CEP: 37701-006 -

Fone: (35) 3721-6204; Ponte Nova: Av. Dr. Otávio Soares, 41 - salas 326 e 328 - Palmeiras - CEP: 35430-

229 - Fone: (31) 3817-2721; Pouso Alegre: Rua Dom Assis, 241 - Centro - CEP: 37550-000 - Fone: (35) 3423-

3289; Sete Lagoas: Rua Vereador Pedro Maciel, 165 - Nossa Senhora das Graças - CEP: 35700-477 - Fone:

(31) 3772-4591; Teófilo Otoni: Rua Dr. Manoel Esteves, 323 - sala 404 - Centro - CEP: 39800-090 - Fone:

(33) 3523-6913; Uberaba: Rua Alfen Paixão, 105 - Mercês - CEP: 38060-230 - Fone: (34) 3332-7494; Uberlândia:

Rua Olegário Maciel, 1212 - Centro - CEP: 38400-086 - Fone: (34) 3214-3566; Varginha: Av. Doutor

Módena, 261 - Vila Adelaide - CEP: 37010-190 - Fone: (35) 3221-1831.

6 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


POR

Especial

Débora Junqueira

Elas por Elas:

10 anos

Revista se consolida como um espaço de

debate qualificado sobre gênero

Da efervescência de ideias da diretoria

do Sinpro Minas, durante um seminário

de planejamento de início de

gestão, surgiu a iniciativa de editar

uma publicação produzida pelo Sindicato

dos Professores que abordasse

a temática gênero com um viés educativo,

progressista e classista. Em abril

de 2007, nasceu a primeira edição da

revista Elas por Elas, com periodicidade

anual. A revista também passou a fazer

parte das ações do Sinpro Minas pelo

Dia Internacional da Mulher e das lutas

do sindicato em apoio à emancipação

feminina, que vão além desta data histórica.

Para o sindicato, as questões

que envolvem a igualdade de gênero

devem ser pautadas todos os dias.

Em 2017, a revista Elas por Elas

completa 10 anos de existência. Para a

diretoria do Sinpro Minas a revista se

firmou como uma publicação importante

para divulgar as lutas feministas

e aprofundar o debate sobre as

questões de gênero, cumprindo um

papel educativo.

Nas reportagens da revista, feministas,

especialistas e mulheres anônimas

contam, decifram e pro ble -

matizam temas relacionados às

questões de gênero. Elas por elas mesmas

revelam as suas angústias, alegrias

e lutas formando um rico conteúdo

valorizado por uma diagramação

primorosa. Em sua pauta, a revista

sempre aborda temas como educação,

trabalho, política, feminismo, questões

étnico-raciais, violência doméstica,

saúde, beleza, comportamento, arte e

história, com ênfase no protagonismo

das mulheres para superar os desafios

de uma sociedade machista, patriarcal

e capitalista. Com conteúdos que retratam

profundas reflexões sobre

gênero na contemporaneidade, a

revista tem o objetivo de incentivar estudos,

debates e inspirações para

atitudes comprometidas com os ideais

de uma sociedade mais justa e igualitária.

Dessa forma, o Sinpro Minas

contribui para disseminar novas

ideias, reflexões e incentivar atitudes

e políticas que têm como objetivo a

emancipação de gênero.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

7


A revista Elas por Elas já foi reconhecida

com premiações nacionais de

jornalismo e tornou-se, ao longo dos

anos, um importante instrumento de

comunicação e de formação não só para

o professorado, mas para toda a sociedade.

Além de ser distribuída em mãos

para os professores e professoras e disponibilizada

em bibliotecas de várias

escolas privadas, a revista circula entre

as entidades representativas de gênero,

mundo político e sindical, nacionalmente,

e até mesmo em eventos fora do país,

sendo distribuída em eventos sobre educação

e trabalho. Em junho de 2015, a

revista foi divulgada em encontro internacional

de comunicadores, realizado

em Nova Yok, promovido pela rede Images

and Voices of Hope (IVOH) que estuda

e incentiva mídias construtivas.

Construção coletiva

Assim como as mulheres que, a

cada dia, constroem a sua história e

vencem desafios, a Elas por Elas se

consolida numa caminhada que conta

com a dedicação e a contribuição de

muitas pessoas. Além da equipe de

jornalistas, designer e diretores do Departamento

de Comunicação do Sinpro

Minas, há um conselho editorial composto

por diretoras e funcionárias do

Sinpro Minas e convidadas.

“A revista Elas por Elas é uma importante

iniciativa do Sinpro Minas. A publicação

possibilita condições para

que a entidade paute as questões de

gênero de forma sistemática e dê

maior visibilidade para as lutas feministas”,

opina a professora Lavínia

Rosa Rodrigues, ex-diretora do Sinpro

Minas e membro do Conselho Editorial

da revista.

Prêmio Nacional de Jornalismo

Abdias Nascimento – Promovido pela

Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)

– Reportagens finalistas nas categorias

Mídia Alternativa e Gênero:

2011 - “Os desafios da profissão e da

organização sindical das empregadas

domésticas” - Débora Junqueira.

2012 - “A pobreza no Brasil é feminina,

negra e jovem” - Débora Junqueira - “Estatuto

da Igualdade Racial” - Cecília Alvim

2013 - “Fora das capas de revistas” -

Débora Junqueira

Prêmio Nacional de Jornalismo

sobre Violência de Gênero” – Promovido

pela Rede Feminista de Saúde,

Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos,

de Santa Catarina:

2014 - Menção honrosa - Reportagem

“O parto é da mulher – movimentos

denunciam a violência e propõem mudanças

para promover o parto ativo e

humanizado” - Cecília Alvim

“Na época em que a revista foi criada,

não se discutia gênero como hoje,

no entanto, essa era uma necessidade

para uma instituição classista como o

Sindicato dos Professores. Ainda, havia

a perspectiva do Brasil ter pela primeira

vez uma mulher na Presidência da República,

o que realmente ocorreu em

2010. Ao longo dos anos, a revista ampliou

suas pautas que atingem questões

sociais e políticas e de classe, com uma

abordagem moderna e fontes renomadas.

É o tipo de revista que até os homens

se interessam em ler e discutir

os variados temas propostos. Acredito

que a publicação cumpre aquele ideal

inicial de ver o sindicato contribuindo

para um debate reflexivo e educativo

sobre as questões de gênero”, avalia a

professora Carla Fenícia, diretora do

Sinpro Minas, uma das idealizadoras

da Elas por Elas.

Sempre presente nas lutas feministas,

a deputada federal Jô Moraes

(PCdoB) é uma fonte frequente na revista.

“Acompanho a trajetória da revista

Elas por Elas desde a sua primeira edição.

A revista se destaca por trazer não

só a opinião de especialistas, mas por

abordar os dilemas reais de mulheres

anônimas e guerreiras que superam o

machismo e a desigualdade de gênero

no dia a dia. Como mulher e parlamentar

que atua em defesa das mulheres também

fui fonte da revista por várias vezes

e é muito bom poder contribuir com

uma publicação de tanta qualidade e,

ainda, produzida por um sindicato tão

atuante como o Sinpro Minas. Considero

merecidas as premiações que a revista

já recebeu e parebenizo a toda equipe

pelo trabalho desenvolvido ao longo

desses anos”, afirma Jô Moraes.

8 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


“A revista foi uma importante decisão

da direção do Sinpro Minas para dar

uma visão classista sobre as diversidades

sociais, com uma abordagem sobre o

movimento sindical e político que dificilmente

tem espaço em outras publicações.

É fundamental conceber as

questões de gênero como uma questão

de classe”, avalia a diretora do Sinpro

Minas e secretária de formação da Central

dos Trabalhadores e Trabalhadoras

do Brasil (CTB), professora Celina Arêas.

“A Elas por Elas é de uma qualidade

editorial magnífica, bem produzida,

bonita, com contéudo muito relevante

que aborda ativismo político, participação

das mulheres no mercado de

trabalho, a inserção da educação no

processo da construção do protagonismo

feminimo. Esse é um mérito

inegável da revista que mantém um

conteúdo crítico de múltiplas dimensões

da vida das mulheres. Ainda mais,

feito por um sindicato de professores

que tem em sua maioria mulheres professoras

que podem ter um conteúdo

para discutir em sala de aula ou ter a

qualidade de uma informação baseada

em dados. Eu desejo a Elas por Elas

pelo menos mais uns 50 anos de existência,

porque precisamos de conteúdos

midiáticos alternativos para as mulheres

e a Elas por Elas cobre essa lacuna

que ainda temos no Brasil”, ressalta

a professora Marlise Matos, pesquisadora

do Núcleo de Estudos sobre

a Mulher (Nepem/UFMG).

A militante feminista Bebela Ramos

acredita que fortalecer publicações como

a revista Elas por Elas deveria ser atitude

obrigatória dos que anseiam e defendem

a igualdade entre os gêneros. “A revista,

além de visualmente (graficamente) ser

muito bonita, é de um conteúdo atual,

forte e diversificado. O tema educação,

sempre presente nas pautas da revista,

faz de maneira lúcida o importante elo

entre a maior categoria formada por

mulheres e sua representação sindical.

Quarenta anos como feminista me legitima

dizer que a revista Elas por Elas

é uma publicação que se insere no grupo

dos mais completos exemplares sobre

o assunto, no Brasil”, afirma.

A secretária de Imprensa e Comunicação

da CTB, Raimunda Gomes (Doquinha)

também ressalta a importância

da revista Elas por Elas ser um veículo

de comunicação que aborda questões

gerais do mundo do trabalho, cotidiano

da sociedade, e específicas de gênero,

pela ótica das mulheres. “Nesse momento

de complexidade das relações

políticas, econômicas e sociais pelas

quais passa a sociedade brasileira, ter

uma publicação como a revista Elas

por Elas circulando em todo território

nacional é garantir a disputa ideológica

da comunicação hegemônica com outra

narrativa, mais ampla e democrática e

de luta”, afirma.

Como militante do movimento feminista,

a professora e diretora do Sinpro

Minas, Terezinha Avelar considera

a revista um importante instrumento

para dialogar com a sociedade sobre as

pautas de gênero. “A revista Elas por

Elas é dinâmica, pois os temas sendo

recorrentes, a pauta é abordada com

profundidade e mostra a evolução do

debate que acontece no movimento feminista

sobre as diversas questões que

afetam a sociedade”, comenta. Segundo

ela, quando a revista é distribuída em

eventos, as pessoas elogiam a iniciativa

do Sindicato dos Professores. “As pessoas

sempre destacam a qualidade da revista

e parabenizam o Sinpro Minas”, conta.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

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10 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Revista Elas por Elas - Agosto 2017

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12 Revista Elas por Elas - Agosto 2017

Internet


POR

homenagem

Débora Junqueira

Comenda

Clara Zetkin

Honraria do Sinpro Minas à mulheres de luta

Desde 2012, o Sindicato dos Professores

do Estado de Minas Gerais homenageia

com a Comenda Clara Zetkin

mulheres que contribuem para dar visibilidade,

mobilizar e fortalecer a luta

pelos direitos, participação política e

igualdade de gênero, na perspectiva da

conquista de uma sociedade justa e

igualitária. A trajetória da alemã Clara

Zetkin (1857-1933), uma figura histórica

do feminismo por sua atuação como

jornalista, professora e militante política,

inspirou a diretoria do sinpro Minas a

escolher o seu nome para a comenda

criada no dia 13 de fevereiro de 2012.

Para a presidenta do Sinpro Minas,

Valéria Morato, é muito importante

para o Sindicato dos Professores conceder

a Comenda Clara Zetkin para

mulheres valorosas que, nas mais diversas

áreas de atuação, muito contribuem

para uma sociedade mais igualitária

e humana. “Numa sociedade em

que as mulheres ganham salários menores,

possuem tripla jornada de trabalho,

sofrem violência doméstica e

enfrentam uma série de adversidades,

reconhecer os esforços dessas guerreiras

que, além dos desafios diários,

desenvolvem um trabalho de destaque

na sociedade, é uma contribuição do

Sinpro Minas para fortalecer as lutas

pela igualdade de gênero”, afirma.

Como é registrado na história, Clara

Zetkin foi uma notável mulher que dedicou

sua vida à luta pela igualdade de

oportunidades para as mulheres, o direito

ao voto e à libertação da mulher

trabalhadora. Em 1891, fundou a revista

A Igualdade, formada por mulheres,

que teve vigência até 1917, e se converteu

no meio de expressão oficial da Internacional

de Mulheres Socialistas. Foi

uma revolucionária que, em 1910, durante

uma conferência internacional

de mulheres socialistas, em Copenhague,

lançou a ideia de um dia internacional

da mulher, o dia 8 de março. No

ano seguinte um milhão de mulheres

foram às ruas, no seu dia, na Europa e

nos Estados Unidos da América.

Em 1920, por seu duro trabalho

para convocar um movimento de mulheres

socialistas de diferentes países,

tornou-se presidenta do Movimento

Internacional de Mulheres Socialistas

e deputada do Partido Comunista Alemão.

Por sua disposição em deter o

avanço do nazismo, a elegeram presidenta

da Associação de Solidariedade

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

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Socorro Vermelho e representante do

Reichstag (Parlamento alemão). Porém,

quando em 1933 Hitler assumiu o poder,

ela teve que se exilar novamente. Nessa

oportunidade, escolheu a União Soviética,

lugar onde passou os últimos

dias de sua vida revolucionária. Morreu

em 20 de junho de 1933, em Moscou,

Rússia, aos 76 anos de idade. Seu corpo

foi enterrado nas muralhas do Kremlin,

ao lado dos heróis da revolução.

A indicação das homenageadas que

recebem a Medalha Clara Zetkin é feita

pelas mulheres que compõem o Conselho

Editorial da revista Elas por Elas

e referendado pela diretoria do Sinpro

Minas. A professora Lavínia Rosa Rodrigues

(foto) faz parte do Conselho.

Diretora do Sinpro Minas à época, ela

foi a idealizadora da Comenda. Segundo

ela, a escolha do nome da feminista

Clara Zetkin para a Comenda surgiu

na sequência das comemorações pelos

100 anos do Dia Internacional da Mulher,

ocorrido em 2010. “A Comenda

Clara Zetkin reafirma a importância

da luta que as feministas protagonizaram

no início do século XX por mais

direitos e que as mulheres continuam

fazendo até hoje para o avanço da igualdade

de gênero”, afirma.

“Desde a retomada do Sindicato em

1979, as diretorias da entidade sempre

tiveram a tradição de promover homenagens

em datas especiais. O sindicato

também tem um papel ativo nas questões

que envolvem gênero, desde a participação

nos debates da Constituinte,

origem de direitos como licença maternidade

e outros, assim como nas

conferências sobre gênero e lutas feministas.

Desde 2007, fazemos o lançamento

das edições da revista Elas

por Elas, tendo a oportunidade de reconhecer

as contribuições de pessoas

de destaque nas lutas pelos direitos das

mulheres. A partir de 2012, a entrega

da Medalha foi incorporada aos eventos

em homenagem às mulheres”, conta.

Para Lavínia, na sociedade de classes

em que vivemos, valorizar a mulher é

fortalecer toda a classe trabalhadora.

“O Sinpro Minas exerce um importante

papel quando valoriza mulheres de

luta. A Comenda Clara Zetkin é também

uma homenagem à toda categoria docente,

que é majoritariamente feminina”,

ressalta.

Desde a criação da Comenda Clara

Zetkin, mais de 100 mulheres já receberam

a medalha oferecida pelo Sinpro

Minas. Escolhidas entre mulheres dos

mais variados setores da sociedade,

por se destacarem nas lutas pelos direitos

das mulheres, em defesa da igualdade

de gênero e com grandes histórias

de superação. São professoras, domésticas,

médicas, motoristas, advogadas,

donas de casa, trabalhadoras do campo

ou da cidade, lésbicas, transgênero,

atrizes, prostitutas, jovens e idosas...

Mulheres que carregam dentro de si e

em suas ações a esperança de um mundo

com mais igualdade de gênero e de

classe e menos opressão.

Homenageadas de 2012 a 2016

2012: Amanda Miranda Cunha de

Moura, Célia de Lélis Moreira, Cleonice

Ramos da Silva, Dalila Andrade Oliveira,

Dorila Piló Veloso, Eliete de Oliveira

Soares, Eni de Faria Sena, Fabrícia

Roza Souza Rodrigues , Graziela da

Costa Moreira Souza, Iara Martins dos

Santos, Jacqueline Cavaca Soares

Pontes, Jovita Levy, Lusia Ribeiro, Marcia

Cristina Gonçalves Braga, Márcia

Luciene Nascimento, Maria Alves de

Souza, Maria Cecília Magalhães Gomes,

Maria da Consolação Rocha, Marta de

Freitas, Renata Adriana Rosa, Sandra

de Fátima Pereira Tosta, Santuza Abras,

Seuza Matos Marques e Sonia Soares

de Oliveira.

Mark Florest

14 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Mark Florest

2013: Adana Kambeba, Ana Maria

Prestes Rabelo, Andreia da Consolação

Diniz, Antonia Maria da Rocha Montenegro,

Carolina dos Santos de Oliveira,

Daniela Matheus de Vasconcelos, Elaine

de Fátima Ferreira Barros, Elaine Maria

de Miranda, Fátima Silva Risério, Inês

Peixoto, Lea Soutk, Lídia Viber, Mairyara

Barbosa Loureiro Silveira, Márcia

de Cássia Gomes , Márcia Randi, Maria

Bernadeth Teixeira Fazito, Maria Cristina

Leão, Maria de Lourdes Rocha de

Lima, Maria Ester, Maria Nicolina Felga

Soares, Sônia Lansky, Samira Zaidan,

Umbelina Angélica Fernandes.

2014: Célia Martins da Silva, Érica

Coelho, Eva Joana , Eva Maria da Silva,

Ginet Camué Collazo, Ivone Maria de

Oliveira, Jaqueline Morelo, Jurema Beatriz

Figueiredo (Jô do jaqueline), Kátia

Firmino Duarte, Margaret de Freitas

Assis Rocha, Maria de Freitas Chagas,

Maria Helena Diniz, Maria Luiza Kfoury

Pereira, Maria Rita Fenandes de Figueiredo,

Marisa Vieira da Silva – Marisa

Nzinga, Niurka Maren Maren, Nívea

Mônica da Silva, Rogerlan Augusta de

Morais, Shirlene Sabino, Sirley Soares

Soalheiro e Wilma Henriques.

2015: Ângela Maria da Silva Gomes,

Anne Carolina de Morais, Beatriz da

Silva Cerqueira, Dora Alves, Eli Izabel

Rodrigues Santana , Evangelina Castilho

Duarte, Gracinha Horta, Íris Maria da

Costa Amâncio Kamwa, Ivone Maria

Vieira Santos, Márcia Mendonça, Maria

do Socorro - Jô Moraes, Milta Ferreira

de Aguiar, Mônica Aguiar, Pollyana do

Amaral Ferreira, Sandra Regina Goulart

Almeida, Sara Aparecida da Costa, Sula

Kyriacos Mavrudis.

2016: Ana Isabel Lemos, Conceição

Rosière, Daniela Fernandes Alves , Daniele

Caldas , Eliete Sandra Moura Rodrigues,

Elizabeth Fleury, Eulália Regina

Pires de Freitas Mendes , Geysa Maria

Emilia Lima Moreira, Ísis Medeiros,

Janaina da Mata , Júnia Roman Carvalho,

Kleide Ventura de Souza, Laurelle

Carvalho de Araújo , Libernina Andrade,

Maria de Fátima Diniz Ribas, Maria

do Rosário Bento , Maria Nazaret Teles

Silva , Maria Tereza dos Santos, Nardeli

da Conceição Silva e Sandra Margareth

Silvestrini de Souza.;

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

15


Bárbara Dias


POR

POLÍTICA

Nanci Alves

Golpe

misógino

Retirada de direitos e políticas retrógradas

aumentam a desigualdade de gênero

Logo após a aprovação do pedido

inconstitucional de impeachment da

presidenta Dilma Rousseff, o governo

ilegítimo de Michel Temer publicou

Medida Provisória (nº 726), no Diário

Oficial da União (12/05/2016), que extinguiu

o Ministério das Mulheres, da

Igualdade Racial, da Juventude e dos

Direitos Humanos, a Secretaria Especial

de Políticas de Promoção da Igualdade

Racial (Seppir) e o Conselho

Nacional de Promoção da Igualdade

Racial (CNPIR), sendo absorvidos pelo

recém-criado Ministério da Justiça e

da Cidadania. Ao compor seu primeiro

ministério, Michel Temer também excluiu

as mulheres – que não ficavam

de fora de ministérios desde a ditadura,

no governo de Ernesto Geisel

(1974/1979). Seu gabinete foi formado

exclusivamente por homens (brancos),

diferente do de Dilma Rousseff que

contou com 14 ministras.

Estes fatos já seriam suficientes para

avaliar que retirar a presidenta do poder

era apenas o primeiro passo para acabar

com os direitos do povo brasileiro, em

especial os mais pobres, negros, indígenas,

idosos e mulheres e enfraquecer

os movimentos sociais e sindical. Essas

primeiras medidas foram vistas por várias

lideranças como uma manifestação

de discriminação e de promoção da desigualdade

de gênero.

E, logo a seguir, começam a ser implementadas

políticas que visam retirar

direitos fundamentais, garantidos pela

Constituição e por outras leis como a

Consolidação das Leis de Trabalho

(CLT), Estatuto do Idoso, do Indígena,

etc. Portanto, com um governo e um

congresso misógino, o Brasil caminha

de volta a um passado sombrio e apresenta

uma cruel realidade em que a

desigualdade é tratada com naturali-

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

17


Denilson Cajazeiro

reformas trabalhista e previdenciária,

além da proposta aprovada de terceirização

geral. “Um governo machista

e patriarcal”, reforça.

Marlise Matos destaca a terceirização

irrestrita do trabalho como um dos

mais graves problemas que vai afetar

as mulheres no mercado de trabalho.

“Tínhamos acabado de aprovar, no governo

Dilma, uma segunda abolição da

escravidão com a PEC das Empregadas

Domésticas, em que se estabelece direitos

para a categoria que mais envolve

mulheres no mundo do trabalho – infelizmente

ainda muito feminilizado

no Brasil. E aí, logo na sequência, quando

conseguimos inserir uma massa

enorme de mulheres na formalização

dos direitos trabalhistas vai haver uma

flexibilização destes direitos? E elas serão

a ponta mais frágil deste sistema,

como outras trabalhadoras do setor informal,

pois serão brutalmente atingidas

por perdas de direitos significativos

como descanso semanal remunerado,

férias, 13º salário, ascensão e planejamento

de carreira. E claro, as mais vulneráveis

são as negras, pobres e as trabalhadoras

rurais”, destaca.

dade e a ausência feminina nos espaços

de poder passa a ser política de governo.

Uma clara destruição de políticas

públicas, implementadas principalmente

nos governos Lula e Dilma, em

defesa das mulheres, dos afro-descendentes,

dos indígenas, quilombolas, da

população LGBT, etc.

Democracia em risco

Para diversas lideranças de movimentos

feministas, sociais e sindicais,

a democracia no Brasil está abalada,

pois ao afetar drasticamente direitos

conquistados com muita luta (inclusive

com prisão e/ou morte de muitos/as

trabalhadores/as), o governo desestabiliza

o princípio fundamental da democracia

que é o exercício da cidadania.

Na avaliação da coordenadora do

Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre

a Mulher da UFMG (NEPEM), Marlise

Matos (foto), o golpe foi contra a democracia

e, especialmente, contra todas

as mulheres, pois é um golpe misógino

– primeiro, contra a primeira mulher

que chegou à presidência deste país e,

depois, contra todas nós, a partir das


O golpe foi contra a

democracia e, especialmente,

contra todas

as mulheres”

18 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Para implementar todas essas mudanças

retrógradas, este governo tem

como sustentação um Congresso Nacional

extremamente conservador que

atende aos interesses de bancadas religiosas,

da bala e ruralista. Na avaliação

do presidente nacional da Rede pelo

Constitucionalismo Democrático Latino-Americano,

José Luiz Quadros

de Magalhães (foto), a presença da exdeputada

Fátima Pelaes (PMDB-AP) na

Secretaria das Mulheres reafirma a

visão conservadora no trato das questões

referentes aos direitos das mulheres

e aos direitos de diversidade em

geral. “A deputada já se manifestou diversas

vezes sobre a proibição do

aborto em qualquer situação, incluindo

as situações previstas em nossa legislação,

há muito tempo, como por exemplo

na gravidez decorrente de estupro

e no risco de vida da gestante, e, ainda,

na gestação de feto anencefálico, já admitido

pelo STF”, afirma.

José Luiz Quadros de Magalhães,

que é também professor de Direito

Constitucional na UFMG, afirma que

a retirada de direitos é sempre uma

violência. Ele destaca a inconstitucionalidade

das várias medidas e propostas

do governo ilegítimo de Michel Temer.

“Além de igualar a idade de aposentadoria

para homens e mulheres e retirar

a pensão de milhares de viúvas, medidas

como o congelamento de gastos

com Previdência, Saúde, Educação, durante

20 anos é uma medida de uma

crueldade e irresponsabilidade atroz,

além, de claro, absolutamente inconstitucional.

A Constituição Federal estabelece

limites ao poder de reforma

da Constituição, chamado de Poder

Constituinte Derivado. O artigo 6º, parágrafo

4º incisos I a IV, proíbe a deliberação

de emendas tendentes a abolir

os direitos individuais e suas garantias,

a democracia, a separação de poderes

e o federalismo. Uma emenda que congela

os gastos com direitos sociais compromete

o exercício destes direitos,

que são garantia de exercício dos direitos

individuais”, afirma.

Segundo o professor, a partir do

princípio da indivisibilidade dos direitos

fundamentais, podemos afirmar que

não há liberdade sem dignidade. “Para

que as pessoas possam exercer os seus

direitos individuais e políticos de liberdade,

é necessário que sejam garantidos

meios para o seu exercício, e

estes meios são os direitos sociais e

econômicos. De forma bem clara: ninguém

é livre passando fome, doente,

desempregado e sem educação e moradia.

Este governo e esta maioria parlamentar

conservadora são um aten -

tado à democracia e aos direitos humanos”,

ressalta.

Os vários golpes dados contra a

classe trabalhadora, por meio de leis e

medidas provisórias que desrespeitam

a própria Constituição Federal, mudam

a perspectiva de melhorias na vida de

todo o povo, especialmente das mulheres.

Na avaliação da presidenta da

Raphael Armando Calixto

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

19


União Brasileira de Mulheres (UBM) e

integrante do Conselho Nacional dos

Direitos das Mulheres, Lúcia Rincon,

as conquistas avançam em períodos

democráticos e este golpe institucional,

jurídico, parlamentar e midiático se

caracteriza pela falta de consulta ao

povo, por autoritarismo. E, em regimes

de governos autoritários, as conquistas

não avançam e, pior, podem trazer ou

reforçar outros problemas.

Medidas de retirada de direitos podem

ser um estímulo a atitudes de discriminação

contra a mulher. Para Lúcia

Rincon, o autoritarismo, o conservadorismo

e a concepção de uma sociedade

hierárquica, sustentada por forças

policiais, respalda o patriarcado e a

ideia, ainda majoritária na sociedade,

de que as mulheres são objetos do

poder dos homens e que devem se submeter

e não havendo submissão, a violência

está justificada. “Não temos dúvida

de que as políticas que acolhiam

a mulher vítima de violência e divulgavam

os seus direitos e possibilidade

enquanto ser humano vão desaparecer

facilitando a manutenção e intensificação

da violência”, ressalta.

Nos movimentos sociais a luta contra

as medidas do governo é forte, mas

existe um sentimento de impotência,

já que grande parcela do legislativo e

do judiciário participam do golpe. Muitos

acreditam que existe o risco de enfraquecer

o movimento feminista, as

associações, grupos e movimentos que

lutam pela igualdade de gênero. Na

avaliação de Lúcia Rincon, “podemos

ter perdas de engajamento político e

de atendimento às organizações sociais

e ao movimento feminista – que vinha

atuando como parceiro do Estado na

mobilização das mulheres, dos povos,

dos setores que lutam pela igualdade

Paulo Pinto

20 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


de gênero”. Ela alerta para o fato de

que os movimentos sociais sofrem,

desde o golpe, pressão de rua, agressões

via mídias sociais, etc. Um fato triste e

que demarca essa realidade foram as

manifestações feitas, pelos setores e

organizações de direita e que respaldaram

o golpe, na ocasião da morte

de dona Marisa, esposa do Lula. Um

total desrespeito.”

Além da discriminação, a mulher

sofrerá violência patrimonial com as

medidas do governo Temer. É o que

afirma a senadora Vanessa Grazziotin

-PCdoB-AM (foto) ao se referir à reforma

da Previdência que retira direitos

antigos como idade menor do que a

do homem para se aposentar, e a pensão

das milhares de viúvas que já contam

com uma aposentadoria, em geral, de

um salário mínimo. “A gente pode e

deve considerar esta retirada de direitos

como uma forma de violência política.

No caso, uma violência patrimonial,

como aquela a que a Lei Maria da Penha

se refere, só que o agressor é o próprio

Estado”, afirma.

Internet


A gente pode e

deve considerar

esta retirada de

direitos como uma

forma de violência

política”

Na avaliação da senadora, que é

também procuradora da Mulher no

Senado, o Brasil tem hoje um Congresso

bastante conservador, com

uma pauta dirigida a desconstruir o

que o movimento de mulheres alcançou

com muita luta desde a redemocratização,

ainda na década de 1980.

“As ações da Procuradoria Especial da

Mulher no Senado procuram aproximar

as parlamentares da bancada feminina

das mulheres em cada cidade

e em cada estado, buscando apoio nas

entidades sindicais, nos movimentos

organizados para resistir e mesmo impedir

a perda de direitos”, afirma.

Por trás do golpe

O presidente nacional da Rede pelo

Constitucionalismo Democrático Latino-Americano,

José Luiz Quadros de

Magalhães, chama a atenção para o fato

de que o governo Temer desempenha

um papel no jogo internacional de

poder. “Assim como na Argentina e a

maioria parlamentar de direita na Venezuela,

assistimos a um desmonte dos

direitos sociais, dos direitos de diversidade

e a entrega das riquezas, mais uma

vez, às empresas poderosas do Norte.

Este governo veio para isso: entregar

nossas riquezas, manter a colonialidade

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

21


Lidyane Ponciano

nos interessa – eles o atacam sob o

nome de 'ideologia de gênero'. Esses

conflitos os conservadores, golpistas

acham que são inventados pelas feministas!”,

desabafa.

Ameaça à profissão

docente

Para atender aos interesses do capital,

o governo aprovou a reforma trabalhista

em julho deste ano. Como

alerta a presidenta do Sindicato dos

Professores do Estado de Minas Gerais

(Sinpro Minas), Valéria Morato (foto),

o ataque aos/as trabalhadores/as é uma

marca evidente do capitalismo. “Essa

reforma desmonta a CLT e a Justiça do

Trabalho. Uma das mudanças é permitir

que gestantes e lactantes trabalhem em

condições insalubres”, afirma.

Valéria Morato afirma que tentam

implantar no Brasil uma grande virada

econômica e ideológica, “em que os

do ser, do saber e do poder. A ideologia

neoliberal, reciclada, sempre culpou o

indivíduo pela sua miséria. Para esta

ideologia de direita, o problema não é o

sistema econômico político e social, o

problema é com o indivíduo. Isso naturaliza

a desigualdade e fortalece o ridículo

argumento do mérito, em um

mundo onde apenas oito homens possuem

a mesma riqueza que 3,6 bilhões

de pessoas que compõem a metade

mais pobre do mundo”, diz.

Segundo Quadros, sustentar esta

insanidade talvez seja mais ridículo

do que, quando no lugar do “mérito”,

existia o argumento do “sangue azul”

dos nobres. Expressiva parte do nosso

Congresso conservador acredita nesta

absurda história da “meritocracia” e

sustentam que pessoas podem deter

bilhões em propriedades enquanto bilhões

não possuem nada. Esta ideologia

é diariamente posta na cabeça das pessoas

pela TV, pelo cinema, especialmente

norte-americano, pelos jornais

e revistas. Inclusive, os mesmos parlamentares

acreditam que suas fortunas

decorrem do seu mérito”, afirma.

A senadora Vanessa Grazziotin também

repudia a narrativa de incentivo

à visão liberal de que a riqueza é uma

recompensa para o 'mérito'. “Isso é

muito antigo: a defesa de uma suposta

'meritocracia', como justificativa dos

privilégios existentes. Acho que é importante

refletir que há um tipo de

conflito que estes golpistas não acham

'natural' de jeito nenhum, e que muito


A reforma trabalhista

permitirá

que gestantes e

lactantes trabalhem

em condições

insalubres”

22 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


trabalhadores arcam com a responsabilidade

por suas aposentadorias e

pensões, buscando a previdência privada,

assim como fazem com a saúde

e educação privada”. Por isso, segundo

Valéria Morato, o governo vem com

esta ofensiva contra a organização

dos/as trabalhadores/as. “Isso tudo

tem reflexos nas negociações coletivas.

O ataque ao financiamento do

movimento sindical é essencialmente

o ataque à luta coletiva, que é a luta

que resiste e que pressiona. E por isso,

em 2016, sem nenhum alarde, mas

com tudo em mente, o Congresso

Nacional reduziu em 50% o orçamento

de custeio da Justiça do Trabalho, tornando-a

mais morosa, dificultando o

acesso dos/as trabalhadores/as. A

ideia central do golpe é essa: menos

estado, menos governo, mais empenho

individual, cada um por si,

mercado para tudo. Resistiremos e

lutaremos”, ressalta.

Já o desmonte da Previdência prejudicará

todo/a trabalhador/a, principalmente

os/as professores/as que hoje

têm regime especial. A realidade atual

em que a professora se aposenta aos

25 de contribuição e o professor, aos

30 anos, acaba. “Se passar a proposta

de 49 anos de contribuição ininterrupta,

ninguém se aposentará. Imagina

o que é uma professora da educação

infantil estar em sala de aula aos 65

anos de idade?”, questiona Valéria Morato.

Ela ressalta que a reforma trabalhista

vai impactar a profissão docente.

“Com ela, o contrato por tempo determinado

passa de 90 dias para 9 meses.

Ora, 9 meses é exatamente o período

letivo. É o fim dos direitos dos educadores.

Para os donos de escolas privadas,

melhor contratar por tempo determinado

do que com carteira assinada

e com os direitos garantidos pela CLT,

como é hoje. É um desmonte também

da educação que começou com a reforma

da educação básica e a terceirização”,

afirma.

O secretário de Previdência, Aposentados

e Pensionistas da CTB Nacional

(Central dos Trabalhadores e

Trabalhadoras do Brasil), Pascoal Carneiro,

afirma que o desmonte da Previdência

tem o objetivo de estimular a

previdência privada. “Esta é a vontade

dos banqueiros que têm acordos com

o governo golpista. Daí veio a a escolha

do secretário da Previdência, ou seja,

ligado à inicitiva privada, para decretar

o fim da Previdência que, diferente do

que nos querem fazer acreditar, nunca

foi deficitária”, diz.

Pacote de maldades

“As reformas trabalhista e previdenciária

são um pacote de maldades contra

a soberania nacional, o povo brasileiro.

Tudo que está dentro é negativo, principalmente

para as mulheres do campo”.

É o que afirma a diretora de finanças

da Federação dos Trabalhadores na

Agricultura do Estado de Minas Gerais

(Fetaemg) Maria Rita Fernandes de Figueiredo.

“Falta de consideração humana

subir o teto da idade mínima. Todos

começam muito cedo no campo, ajudando

os pais. E a mulher, além da roça,

tem a casa. Ela se levanta antes de todo

mundo e, desde pequena, aprende a

cuidar da horta, das criações, da casa,

da comida, da saúde de todos, dos irmãos

Mark Florest

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

23


Mark Florest

menores (depois, cuida dos filhos) e

ainda trabalha na roça. Nós, pequenos

agricultores, enfrentamos todo tipo de

situação: bichos peçonhentos e outros,

chuva, sol, sereno, poeira, etc. Muitas

vezes a gente roda até 70 quilômetros

para colocar nosso produto no mercado.

Toda uma engenharia de luta diária e

que a mulher está ali. Se a mudança for

feita como estão divulgando, a trabalhadora

rural não conseguirá mais se

aposentar”, afirma.

Sobre a ameaça de desvincular o

reajuste da aposentadoria ao reajuste

do salário mínimo, Maria Rita afirma

que será um impacto enorme no campo

e na economia de todo o país, pois a

aposentadoria será cada vez menor.

“Este dinheiro é distribuído com muita

gente. O aposentado no campo investe

em sua propriedade, ajuda filhos, netos

com material de escola, transporte.

Uma rede de desenvolvimento importante

para a sociedade. Aposentadoria

é o maior benefício de garantia de direito

e de justiça social, de distribuição

de renda, geração de emprego, da cidadania

das mulheres”, afirma.

A trabalhadora rural acrescenta que

mexer na CLT é também gravíssimo.

Salário, jornada de 8 horas e férias são

direitos conquistados há anos, com

muita luta. Mexer na jornada de trabalho

deveria ser para reduzi-la e não

aumentá-la. Aumentar a jornada no

campo é impossível, é escravidão. Nem

máquina suporta uma carga de 10 ou

12 horas, quanto mais o ser humano!

Se o patrão vai ganhar mais lucro, sabemos

que o trabalhador vai correr

mais risco de morte, doenças físicas e

emocionais, além de mutilações. Se o

governo pensa em fazer reformas, deveria

fazer reforma agrária e demarcação

das terras indígenas, no lugar

24 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


de entregar as terras de divisas do

nosso país para empresas estrangeiras,

como está fazendo”, protesta.

A falta de demarcação de terras indígenas,

agravada nesse governo, também

resulta em mais problemas para

as mulheres. É o que afirma a coordenadora

da Associação das Guerreiras

Indígenas de Rondônia (AGIR), Maria

Leonice Tupari, do povo Tupari (RO).

“Os governos anterirores fizeram pouco.

Poderiam ter avançado, mas sabemos

que o Congresso também impedia.

Infelizmente, o governo Temer veio

para derrubar tudo. As reformas afetam

a todos no país, mas sofremos ainda

mais com a questão da falta de demarcação

de nossas terras. Principalmente

nós, mulheres, somos afetadas diretamente.

Hoje a maioria das liderenças

que estão na luta pela retomada da

terra para os povos indígenas que foram

expulsos de seus territórios, é mulher.

Muitas perdem a vida nesta luta. Além

disso, os fazendeiros, madeireiros e

garimpeiros estão dentro de nosso território.

Como enfrentá-los, se não tem

Nanci Alves


As reformas afetam

a todos no país, mas

sofremos ainda mais

com a questão da falta

de demarcação de

nossas terras.”

mulher à frente deste tipo de negócio?

Um governo sem política de demarcação

ajuda aumentar a violência. Não

só a luta pela terra, mas a presença do

não indígena. Um impacto muito grande

na nossa cultura, pois eles trazem

doenças, drogas, prostituição, aliciam

nosso povo, etc”, alerta.

Maria Leonice Tupari (foto), que

é também multiplicadora do projeto

Vozes das Mulheres Indígenas (parceria

com a ONU Mulheres), reforça que,

“mais do que nunca, é hora de união

entre todos: indígenas, movimento social,

quilombolas, etc. Nós, mulheres,

vamos para as ruas gritar que estamos

vivas e que vamos lutar sempre”, afirma.

Caminhos para a

resistência

A resistência é também o caminho

apontado pela presidenta nacional da

Unegro (União de Negros pela Igualdade),

Ângela Guimarães. Ela afirma

que o conjunto de retrocessos apresentados

pelo governo golpista é mais

feroz do que os oito anos da época neoliberal

de Fernando Henrique Cardoso.

“Temer e sua quadrilha estão correndo

para fazer a entrega das nossas riquezas.

A praticamente dissolução da Secretaria

de Políticas para as Mulheres,

a falta de uma política nacional de

apoio à mulher em situação de violência

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

25


impacta, diretamente, na vida das mulheres

negras. Temos que lembrar que

nestes últimos anos aumentou em 54%

a violência doméstica sobre as mulheres

negras. Além disso, o crescimento do

desemprego e da violência pela atuação

da polícia e das forças armadas nas

ruas tem vitimado sobretudo a população

negra. Quando não vitima diretamente

a mulher negra, vitima seus

filhos, netos, sobrinhos, impactando

na sua vida e de sua família”, afirma.

Ângela Guimarães (foto) destaca

ainda as graves consequências da PEC

55/2016 (que congela por 20 anos os

investimentos na saúde e na educação)

para a mulher negra. “A gente fica sem

perspectivas de presente e de futuro

com este governo. A mulher negra é a

base da pirâmide social, é quem está

no subsolo em relação ao desenvolvimento.

Mas situações adversas vimos

enfrentando desde que o primeiro navio

negreiro aporta aqui, no Brasil; nunca

Nanci Alves

desistimos de lutar. Vamos vencer o

período do facismo, com muita luta e

organização nos movimentos, nas ruas,

nas redes, contra a retirada de direitos.

Precisamos rufar nossos tambores contra

as reformas da Previdência e trabalhista

que querem nos ver trabalhando

sem direito a férias, descanso

remunerado, a curtir a família e até

sem a aposentadoria. Contra o retorno

à escravidão, as mulheres negras seguem

em marcha”, afirma.

Como já denunciado por muitos

movimentos feministas, a reforma da

Previdência pode representar uma elitização

e masculinização dos benefícios

previdenciários, voltando a refletir a

extrema desigualdade do mercado de

trabalho. Mesmo com toda luta dos

movimentos, o salário das mulheres,

no Brasil, de acordo com um estudo

feito por um grupo de trabalho no Instituto

de Pesquisa Econômica Aplicada

(Ipea), e divulgado em feveiro de 2017,

corresponde a 70% do recebido pelos

homens, em média. E as mulheres têm

uma jornada semanal de 55 horas, enquanto

os homens, 47 horas. Um estudo

do Fórum Econômico Mundial, publicado

em 2015, aponta que o mundo alcançará

a igualdade de gênero no mercado

de trabalho somente em 2095.

Neste estudo, o Brasil está na posição

124, entre 142 países, no ranking de

igualdade de salários por gênero. Baseado

nestes dados, fica claro que a

desculpa do governo de que igualar a

idade para aposentadoria tem sido uma

tendência no mundo moderno é sem

sentido, pois está baseada em países

ricos, longe da nossa realidade.

Isso sem levar em consideração, a

vida dentro de casa. A mulher foi para

a vida pública, mas em geral, o homem

não assumiu sua parcela no trabalho

26 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


doméstico – casa e filhos. O Instituto

de Pesquisa Econômica Aplicada

(Ipea) constatou que, enquanto as mulheres

gastam, em média, 26,6 horas

semanais com serviços de casa, os homens

gastam 10,5 horas. Portanto, o

governo não poderia desconsiderar

que o tempo menor de aposentadoria

para a mulher existia como forma de

compensar estas desigualdades que

ainda persistem.

Quais caminhos precisam ser feitos

pela sociedade para defender a retomada

de direitos, em especial da

mulher mais pobre e negra? Esta é a

pergunta que todas as pessoas precisam

se fazer diariamente. Para o presidente

nacional da Rede pelo

Constitucionalismo Democrático Latino-Americano,

José Luiz Quadros de

Magalhães, é urgente entender o que

está acontecendo para partirmos para

pequenas e diárias ações transformadoras.

“A compreensão é o primeiro

passo para acabar com aquilo que sustenta

o sistema: a crença no próprio

sistema. Enquanto acreditarmos no

capitalismo, na sua inevitabilidade, e

logo, na impossibilidade de derrotá-lo,

ele continuará liquidando vidas”,

afirma. “O caminho é a organização

social; a resistência e o combate às políticas

de concentração de riqueza, de

eliminação de direitos e de subordinação

aos interesses econômicos das

grandes corporações que dominam o

governo e o Congresso brasileiro. As

micro-revoluções diárias em todas as

cidades e bairros e formação de redes

cada vez maiores em todo o mundo

podem vencer este macro poder aparentemente

indestrutível”, diz.

Para a diretora de finanças da Fetaemg,

Maria Rita Figueiredo (foto),

mais do que nunca é hora de resistir.

“Estamos convocando trabalhadores/as

de todos os lugares, cidades pequenas e

grandes, o campo. O mal que está aí vai

atingir todas as categorias. É preciso

união de forças para fazermos a mudança

necessária para a garantia da manutenção

dos direitos já conquistados. Deveríamos

estar lutando para avançar e,

hoje, temos que lutar para assegurar o

que que já tínhamos”, finaliza.

A luta organizada por meio dos sindicatos,

organizações feministas, progressistas,

salas de aula, também é o

que defende a presidenta da UBM,

Lúcia Rincon. “Uma luta que vá para

as ruas, que se contraponha nos parlamentos,

que façamos a consciência

política no cotidiano, em todos os espaços,

discutindo com as pessoas a

importância de uma sociedade democrática

para construir uma vida em

condições de igualdade para homens

e mulheres garantindo, assim, a emancipação

humana.;

Mark Florest

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

27


Rovena Rosa - Agência Brasil


POR

Educação

Carina Santos

Ocupação:

substantivo

feminino

O protagonismo das mulheres nas ocupações

estudantis contra os ataques à educação

No último ano, uma das mais fortes

reações ao golpe contra a presidenta

Dilma Rousseff foi a onda de ocupações

de escolas que se espalhou por todo

país em defesa da educação e contra

retrocessos políticos. E na crista dessa

onda, foram as mulheres que protagonizaram

o movimento que deixou marcas

na história brasileira.

Para abordar esse tema, marquei

com minha entrevistada numa praça.

Fiquei observando todas aquelas pessoas,

tentando adivinhar quem seria a

jovem que eu ainda só conhecia virtualmente.

Sentei em um dos bancos

pensando sobre a importância dessa

reportagem. De repente se aproxima

uma menina negra, de roupas largas e

mochila nas costas. Nos apresentamos.

Reparei o piercing no nariz dela, pensando

que eu ainda quero ter coragem

de colocar um. Começamos a prosa.

Eu, com o dobro da idade dela, sentia

que naquela tarde era ela quem tinha

muito a me ensinar.

Girlene Boato, estudante secundarista

e diretora da União Colegial de

Minas Gerais - UCMG, é uma entre

tantas mulheres que assumiram a linha

de frente das ocupações das escolas,

movimento que se espalhou por todo

o Brasil no ano passado, logo após o

governo ilegítimo de Michel Temer ter

assumido a Presidência e anunciado

uma série de medidas que atacam diretamente

a educação, como o projeto

da Escola sem partido, a reforma do

Ensino Médio e a PEC 55. Em Minas

Gerais foram mais de 150 escolas ocupadas

e em todo Brasil, mais de 1000.

A estudante conta que quando começou

a ver tantas mulherese LGBT (Lésbicas,

Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais

e Transgêneros) participando do movimento,

pensou: eu tenho que fazer

parte disso. “Primeiro porque isso vai

fazer parte da minha história, da história

do meu país. E a ocupação era

um espaço em que eu me sentia bem,

me sentia livre, me sentia igual a todo

mundo. Lá a gente debatia sobre ho-

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

29


Carina Santos

mofobia, sobre machismo, sobre o feminismo

emancipacionista, lá eu me

sentia abraçada”, recorda.

Girlene (foto) conta que grande

parte das ocupações foi puxada por

mulheres e por pessoas LGBT. Hoje,

se assume como lésbica e destaca que

esse protagonismo reflete a realidade

das pessoas que sempre sentiram na

pele a opressão. “Antes disso eu não

tinha consciência dessas coisas, não

sabia sobre o machismo, me considerava

hétero. Eu era tudo que não sou

agora. Com minha aproximação do

movimento estudantil, das ocupações,

eu vi que precisava mudar o meu jeito,

mudar o que eu era, pra poder mudar

a sociedade”, afirma.

E as ocupações deixaram mesmo

essa prova de uma construção subjetiva

e ao mesmo tempo política, característica

aliada a um protagonismo feminino.

Girlene, que no ano passado

estudava no Estadual Central, em Belo

Horizonte, conta que lá também as

mulheres estavam à frente. Com três

lideranças femininas consecutivas no

grêmio estudantil, foi criada uma relação

de respeito devido ao pulso firme

na construção do movimento. Sobre a

divisão de tarefas, a estudante conta

que as mulheres não estavam só na

cozinha, contrariando às máximas machistas

que apontam esse lugar como

único e exclusivo do sexo feminino. “A

gente tava era puxando assembleia geral,

fazendo diálogo com a direção. Era

todo mundo fazendo tudo. No Estadual

Central mesmo, quem ficava na cozinha

era um homem. Ele que estava ligado

nas coisas que estavam faltando, como

que era melhor preparar a comida”,

diz. Uma geração experimentando uma

sociedade tão sonhada. Os olhos de

Girlene brilhavam enquanto contava

30 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


orgulhosa que o espaço da ocupação

foi de empoderamento para muitas

mulheres. “A gente tinha debate sobre

a cultura do estupro, por exemplo, em

que meninas participavam e falavam

sobre situações de abuso que sofreram.

Foi muito bonito ver que as mulheres

estão se libertando”, refletiu.

As cadeiras não eram enfileiradas

e as disciplinas comunicavam com o

que a realidade apontava para as(os)

estudantes. Um portal de novos conhecimentos

e conversas que deram

um banho no modelo muitas vezes autoritário

que a escola reproduz. Girlene

conta que havia muitas rodas de conversa

e, na maioria delas, mulheres

eram chamadas para mediar ou palestrar.

“A gente tinha consciência que

não podia manter essa lógica de que

só homens falam sobre certos assuntos”,

ressaltou. Na diversidade de atividades,

também eram as mulheres que muitas

vezes estavam à frente para cantar rap

ou recitar poesia.

"Além de pobre

A gente é preto

E suspeito de ter construído o

Brasil

Pra hoje o Temer governar?

Será que matam a gente com

medo da gente cobrar?

O resultado do trabalho do proletário

tá no bolso do Bolsonaro

Tá na conta do patrão

Ninguém morre por causa do

baseado

A gente morre baseado na

lógica do capital

E eles morrem de medo da

revolução.”

Os versos são trecho da poesia “Trago

verdades”, da estudante Bruna Helena

(foto), mais uma que estava na trincheira

do movimento em Minas Gerais.

Sua poesia também dialoga com a essência

das ocupações, que fizeram dos

pátios espaços de encontros, saraus,

trocas culturais que se misturavam com

as análises políticas. Ela, como presidenta

da União Brasileira dos Estudantes

Secundaristas (UBES), teve a oportunidade

de conhecer diversas escolas

ocupadas e também reafirma a força

da participação das mulheres. “Não sei

exatamente o porquê. Parece que a

gente já nasce com mais disposição

para a luta, saca? Por exemplo, você

passa em uma sala de aula chamando

para alguma atividade, por exemplo um

debate sobre a reforma do Ensino Médio,

de dez pessoas que se interessam em

participar daquilo, sete são mulheres.

Eu acho que tem a ver com a força da

gente e porque somos mais oprimidas

nos espaços. Eu acho que a gente tende

a se rebelar mais quando a gente é mais

oprimida”, destaca.

Bruna conta que o feminismo estava

presente nas ocupações de uma forma

teórica, com a realização de diversos

debates, e também na forma como

muitas mulheres passaram a se identificar

como feministas, trazendo isso

para as ações cotidianas.

Por mais que as ocupações tenham

representado uma potente experiência

de desconstrução de padrões e fortalecimento

do feminismo, é inegável

Carina Santos

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

31


que o machismo também estava ali

presente, assim como em todos os espaços,

já que a sociedade patriarcal

ainda cultiva a erva daninha da opressão

de gênero.

Bruna conta que o machismo era

sim perceptível. Como exemplo, compartilhou

a experiência de uma ocupação

na zona oeste de Belo Horizonte,

composta só por mulheres e homens

gays. A estudante diz que sempre escutavam

com relação a essa escola:

"Nossa, vocês dormem aqui sozinhas?”

ou então “como que o pai de vocês

deixa esse tanto de menina aqui na

escola?”, questionamentos que não

eram comuns em escolas com muitos

homens. "Parece que as pessoas tinham

a impressão que as meninas estavam

mais inseguras. E elas sempre diziam:

“a gente sabe se proteger”. Mas infelizmente

a gente passou por várias situações

nessa escola em específico em

que a segurança das meninas ficava

mesmo ameaçada e elas mesmas já

passaram a sentir mais medo", relata.

A estudante também detalha que a

igualdade de tarefas foi uma conquista,

pois muitos homens queriam realizar

atividades que foram culturalmente

construídas como sendo de homens,

no caso da segurança, por exemplo.

"E na escola rola um machismo institucional

também. Geralmente, o diretor

tem mais dificuldade de respeitar uma

liderança quando ela é mulher", destaca.

Bruna reflete que isso é consequência

de uma construção histórica, já

que é tão difícil a legitimidade de uma

liderança mulher. "É diferente eu dizer

"sou a Bruna, presidenta da UBES" ao

invés de dizer "sou o Bruno, presidente

da UBES". As pessoas duvidam muito

das mulheres e por isso eu acho que é

mais difícil", comenta.

Girlene também concorda que havia

manifestação de machismo nos espaços.

Segundo ela, já aconteceu de um

rapaz falar mal de uma menina porque

ela não quis ficar com ele. “Aí nós chamamos

ele e falamos: cara, você tá errado,

vamos conversar aqui. O que a

gente tá errando aqui na ocupação? É

preciso fazer mais debates sobre a

pauta feminista?", recorda.

O processo de vivência e de trocas

certamente aflorou as contradições,

mas também permitiu um espaço em

que essas opressões fossem debatidas.

Segundo Girlene, havia um entendimento

de que o machismo é um problema

social, já que somos todas(os)

criadas(os) nesse modelo que além de

machista, é racista e homofóbico. Por

isso a ideia era desconstruir para construir

de novo. "Nosso intuito não era

crucificar, nem condenar ninguém.

Nosso intuito era mesmo a desconstrução",

reafirma.

Para Bruna, a resistência exige

mais das mulheres. "Os homens sempre

foram os protagonistas do movimento

estudantil e agora as mulheres

estão vindo com tudo, arrebentando a

banca e não teve como segurar. E


agora as mulheres

estão vindo com

tudo, arrebentando

a banca”

agora a gente impõe esse respeito que

deixaram de dar pra gente há muito

tempo", pontua.

Girlene enfatiza também a importância

de seguir construindo a luta feminista

em todos os espaços possíveis,

ampliando assim as possibilidades de

uma consciência anti-machista. "Tem

uma frase que eu gosto muito que diz

que “sozinho a gente pode até ir mais

rápido, mas com a companhia de alguém

a gente vai mais longe.” Por isso

é importante que os homens também

32 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Rovena Rosa - Agência Brasil

Meninas foram protagonistas nas ocupações estudantis

estejam presentes sim nos debates feministas,

porque quem vai estar sendo

desconstruído ali são eles", defende.

Um protagonismo

que viralizou

"A minha pergunta inicial é: de

quem é a escola? A quem a escola pertence?".

Essas foram as primeiras

palavras da estudante secundarista

Ana Júlia Ribeiro quando discursou

na Assembleia Legislativa do Paraná,

em outubro do ano passado. Ela

estava lá para falar sobre a legitimidade

das ocupações, em um momento

em que a grande mídia e os setores

conservadores atacavam ferozmente o

movimento.

O discurso de Ana Júlia durou cerca

de dez minutos e foi um marco na luta

em defesa da educação. Era uma fala

humana, sem medo de demonstrar

que ali as palavras saíam do coração.

O choro e o nervosismo logo deram

lugar para um olhar firme e uma postura

de quem sentia a importância de

estar naquela tribuna, geralmente ocupada

por homens brancos. Durante

sua fala, Ana Júlia lembrava que a reforma

do Ensino Médio não era a única

reivindicação do movimento: “Tem

também a chamada Lei da Mordaça

ou Escola Sem Partido. É uma afronta:

uma ‘escola sem partido’ é uma escola

sem senso crítico, é uma escola racista,

é uma escola homofóbica. É falar para

os estudantes que querem formar um

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

33


Internet

está. O que me inspirou, afinal, foi o

sonho de ter uma educação pública, de

qualidade", afirma. A estudante também

destaca que as mulheres eram a

linha de frente no movimento do Paraná,

estado que teve mais ocupações

no Brasil, mais de 800. "Acho que as

mulheres se envolveram mais por

sempre estar em uma situação de desigualdade

e nunca serem protagonistas,

mas agora a situação muda um

pouco e isso é importante. Também

acho que essa sede revolucionária vem

muito da mulher, do feminismo", comenta.

Ana relata que a pauta feminista

também estava muito presente

na sua escola e que uma das regras era

respeitar as mulheres, sem reproduzir

atitudes machistas. "O feminismo estava

ali nas questões debatidas: uma

educação mais libertadora, uma educação

que previna esses problemas

que temos como o machismo, racismo,

desigualdades", completa.

Sobre o histórico dia do discurso

na Assembleia, Ana Júlia (foto) conta

que estava extremamente nervosa, que

não sabia como falaria. "Claro que eu

exército de não-pensantes, que só ouve

e baixa a cabeça, e não somos isso. Em

pleno 2016 querem nos colocar um

projeto desse? Isso nos insulta, nos

humilha e diz que não temos capacidade

de pensar por nós próprios, mas

não vamos baixar a cabeça.”

Rapidamente o vídeo viralizou nas

redes sociais. O impacto desse discurso

ajudou a traduzir amplamente o protagonismo

feminino nas escolas espalhadas

pelo país. É como se naquela

tribuna fosse possível ver todas as adolescentes

demonstrando o poder de

uma geração que está disposta a transformar

o curso da história.

Ana Júlia foi entrevistada em diversos

meios de comunicação e, claro,

também atacada pelos mesmos conservadores

que atacam as ocupações.

Mas após aquele discurso, sua voz continua

ecoando por aí, inspirando e

emocionando muita gente.

A estudante conta que a inspiração

ao entrar para o movimento das ocupas,

como ela intimamente se refere às

ocupações, foi em ver todos se envolverem

por um objetivo bem claro, que

era a luta contra a reforma do Ensino

Médio e a PEC 55. "A gente já vive em

uma situação de educação precarizada

e não queria ver isso pior do que já


A gente já vive em

uma situação de educação

precarizada e

não queria ver isso

pior do que já está”

34 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


me vi coagida no meio daquele tanto

de homens, não só por serem homens,

mas também por estarem ocupando

cargo de poder e porque eu sabia que

eu era minoria ali dentro. Eu sabia que

as pessoas não iam concordar com o

que eu ia falar. Eu sabia que o que eu ia

falar ia ser repudiado. Mas meu sentimento

depois foi inexplicável. É um

acúmulo de tanta coisa que nem eu

sei", relata.

A estudante reconhece que o papel

da sua geração na atual conjuntura é

extremamente importante. "A mulher

tá se colocando mais, não tem mais

essa coisa de ter que ficar em casa,

casar e ter filhos. A gente ainda tem

muito o que fazer, tem muito adolescente

homem machista. Então é

muito importante cada atitude dentro

da escola, de contestar cada ação

opressora", afirma.

Mídia Ninja

Um golpe contra

as mulheres

A forma como a experiência de cada

uma dessas mulheres que ocuparam

as escolas se relaciona com o contexto

político brasileiro contribui muito para

entender de onde vem a semente desse

protagonismo.

Lúcia Rincon, coordenadora-geral

da União Brasileira de Mulheres (UBM),

analisa que as ocupações foram uma

reação em defesa de uma educação de

qualidade e que isso tem relação direta

com a luta pela igualdade de gênero.

Segundo ela, as estatísticas apontam

uma presença cada vez maior das mulheres

em diferentes tipos de profissão

e a reforma do ensino médio ameaça a

continuidade desse avanço. "É uma reforma

que limita a colocação futura

no mercado de trabalho, além de comprometer

escolhas que tenham como

base disciplinas que serão eliminadas,

como História, por exemplo", reflete.

Para Lúcia, é importante lembrar

que para ocupar os mesmos espaços

e ganhar o mesmo salário, as mulheres

precisam ter oito anos a mais de estudo

que os homens. "Então a ocupação das

escolas nasce de uma rebeldia, em

uma perspectiva de vida e de realização

social colocada pela juventude", analisa.

Outro fato é que a chamada "primavera

feminista" nas ocupações foi também

uma resposta a um golpe dado à

primeira presidenta eleita no Brasil.

Para a estudante Bruna Helena, o governo

de Michel Temer foi fruto de um

golpe machista e misógino. "Já vivemos

em um país em que é mais difícil

para as mulheres. E esse governo começou

de uma forma machista e assustadora",

destaca Bruna.

Girlene também lamenta o impacto

desse golpe para a vida das mulheres.

Segundo ela, se a população deu um

passo atrás no governo golpista, as mulheres

deram dois, três ou mais. A estudante

diz que percebeu que o golpe

era mais um ataque às mulheres por

deslegitimar a única presidenta mulher

que tivemos. "Eu me senti atacada com

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

35


o golpe e não vou silenciar mais. E outras

mulheres sentiram isso, mas não

vamos ficar na defensiva. E a nossa

forma de atacar não é como a deles.

Nossa forma é construindo ocupações,

despertando consciências", ressalta.

Ocupar e resistir

- o aprendizado que fica

Se o governo ilegítimo de Temer

focou em medidas contra o povo brasileiro,

as sementes deixadas pelo movimento

das ocupações fortalecem e

inspiram resistência. As escolas voltaram

com suas carteiras enfileiradas

e o futuro é incerto para a educação

pública e de qualidade.

Girlene lamenta que as medidas

contra a educação tenham sido aprovadas,

como a reforma do Ensino

Médio e a PEC 55, mas também fala

sobre sua esperança: "Agora eu entro

na sala de aula e penso: agora eu sou o

que eu sempre quis ser, mesmo ainda

vivendo nessa mesma sociedade.

Trago um sentimento de continuar lutando

para que outras mulheres sintam

isso também. Sem falar na alegria

de ser reconhecida por ter ajudado a

construir a ocupação. Estamos nos

dando as mãos pra continuar desconstruindo

e fazendo um mundo melhor

pra todo mundo", reflete.

A voz da estudante de Curitiba Ana

Júlia também ecoou esperança ao falar

sobre o que as ocupações deixaram

como aprendizado. "A ocupa me ensinou

a trabalhar em conjunto, me ensinou

que as coisas têm que ser feitas em

grupo, me ensinou que nós podemos

alcançar uma educação pública, de

qualidade, me ensinou a prestar mais

atenção nas coisas, a ver um lado político

em tudo. Coisa mais maravilhosa

do mundo foi ocupar a escola", recorda.

Bruna também reconhece o legado

das ocupações na construção de uma

sociedade menos desigual e menos

machista. "As gerações passadas lutaram

pela libertação das mulheres e

agora a gente vive uma geração em que

as mulheres já se sentem mais livres,

pelo menos as meninas que são feministas.

Eu diria que a gente tá rejuvenescendo

o debate e isso é importantíssimo",

conclui.

Começando a escrever esta reportagem,

por várias vezes, quase me referia

às estudantes entrevistadas como meninas,

assim como normalmente são

chamadas as adolescentes. Mas o tempo

desse trabalho foi suficiente para perceber

que ser mulher, independente

da idade, brota junto com a força e com

a desconstrução diária de uma sociedade

tão opressora. “Não se nasce mulher,

torna-se mulher”. A famosa frase de Simone

de Beauvoir é dedicada a essas

milhares de estudantes, que se tornaram

ainda mais mulheres na luta em defesa

de uma educação libertadora.;


As gerações passadas

lutaram pela libertação

das mulheres

e agora a gente

vive uma geração em

que as mulheres já se

sentem mais livres

36 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Mídia Ninja

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

37


POR

ARTIGO

Viviene Adriana Xavier

O hiato de gênero no

desempenho em Matemática:

o caso de Belo Horizonte

38 Revista Elas por Elas - Agosto 2017



Durante cerca de

450 anos, o trato de

gênero na educação

brasileira favoreceu

os homens.”

As mulheres lutaram e, portanto,

acumularam ao longo de séculos conquistas

históricas. No campo educacional,

a respeito da equidade entre

homens e mulheres, existem diferenças

expressivas entre a escolaridade das

mulheres e dos homens brasileiros.

No século 19, nós, mulheres, ainda buscávamos

acesso à educação e, hoje, somos

maioria nas universidades e possuímos

maior nível de escolaridade do

que os homens.

Durante cerca de 450 anos, o trato

de gênero na educação brasileira favoreceu

os homens. Mas, na segunda

metade do século XX, houve uma reversão

e as mulheres ultrapassaram

seus congêneres masculinos em termos

de anos médios de escolaridade. Na

década de 1960, os homens tinham escolaridade

média de 1,9 ano e as mulheres

1,7 ano. Já na década de 2000,

as mulheres chegaram a 5,5 anos e os

homens não passaram de 5,1 anos. 1

Do ensino fundamental ao superior,

no que concerne ao acesso, à permanência,

à frequência escolar, à média

de anos de estudos e a outros aspectos,

a virada do hiato de gênero 2 foi favorável

às mulheres. Contudo, paradoxalmente,

quando comparadas com os homens

nos resultados do desempenho em Matemática,

nota-se uma inversão a favor

destes. Essa relação convida-nos a refletir

sobre as relações de gênero e o

desempenho em Matemática.

A opção teórica feita foi por definir

o conceito de gênero 3 como elemento

constitutivo das relações sociais, baseado

em diferenças percebidas entre

os sexos e como sendo um modo de

significar relações de poder. O conceito

de gênero é aqui compreendido enquanto

categoria analítica, vendo como

as identidades são construídas historicamente

através dos discursos e como

diferentes sentidos são atribuídos à

diferença sexual.

A Organização para Cooperação e

Desenvolvimento Econômico (OCDE,

2016) com base em dados do Programa

Internacional de Avaliação de Alunos

(Pisa), indica que meninas possuem

melhor desempenho em Leitura e os

meninos possuem performance superior

em Matemática. O relatório mostra

que em todos os países os meninos

superam as meninas na prova de Matemática

e que a diferença é de oito

pontos a mais para eles.

O público alvo desse Programa são

jovens de 15 anos que vivem em 65 países.

Quanto às possíveis causas das diferenças

de desempenho, o relatório

aponta que elas podem ser atribuídas

menos à capacidade e mais às diferenças

de autoconfiança de homens e mulheres

durante o processo de aprendizagem.

Estas diferenças também foram

encontradas na realidade brasileira,

tendo o relatório da OCDE apontado

uma distância de 15 pontos nos resultados

de desempenho nas provas do

PISA, em que os meninos alcançaram

385 pontos e as meninas, 370.

Todavia, devido à extensão do território

brasileiro e às disparidades sociais

e econômicas encontradas, torna-se

necessário realizar investigações

que interroguem estes resultados e

possam alargar a discussão. Neste sentido,

o objetivo deste estudo foi o de

mapear e comparar as escolas públicas

estaduais de ensino fundamental em

Belo Horizonte quanto ao hiato de gênero,

em relação ao desempenho em

Matemática, a partir dos resultados da

Prova Brasil.

Este estudo utilizou os microdados

produzidos pelo Sistema de Avaliação

da Educação Básica (Saeb), especificamente

a Prova Brasil, de 2005, 2007,

2009, 2011, 2013 e 2015. Ao longo das

seis edições foram encontradas 121 escolas

públicas estaduais que realizaram

consecutivamente de 2005 a 2015 as

avaliações da Prova Brasil, portanto foram

estas unidades escolares alvo desse

estudo. A análise do desempenho em

Matemática, a partir dos dados da Prova

Brasil indica que do 5º para o 9º ano

existe uma diferença crescente do hiato

de gênero 4 , sendo assim o 9º foi anteposto

referência neste estudo.

Com esses dados foram construídas

trajetórias para buscar compreender

o hiato de gênero no desempenho

em Matemática. Ao longo das seis edições

a trajetória das médias de meninos

e meninas indica que os meninos

ao longo das seis edições invariavelmente

obtiveram desempenho superior

ao das meninas. Conforme

demonstrado no gráfico.

Tanto as meninas quanto os meninos,

entre as edições de 2005 a 2013,

possuíram trajetória crescente, com

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

39


TRAJETÓRIA DAS MÉDIAS DE DESEMPENHO EM MATEMÁTICA DE MENINOS E MENINAS

EDIÇÃO PROVA BRASIL 2005 A 2015

260,0635

261,6183

265

254,5247

253,4177

254,5920

246,7871

247,0762

249,8255

252,4688

251,0908

248,8121

243,8459

240

2005 2007 2009 2011 2013 2015

Fonte: elaboração própria com dados da Prova Brasil 2005 a 2015

destaque para este último. Na edição

de 2013, ambos os sexos tiveram decréscimo

na média de desempenho,

contudo, comparativamente, os meninos

caíram de 261,6 para 253,4 perfazendo

uma queda de 8 pontos, já as meninas

tiveram uma queda de 1 ponto. Na edição

de 2015, os meninos registram uma média

com uma pequena elevação quando

comparada ao ano anterior, já as meninas

possuem uma média menor do que

a registrada em 2013 saíram de 251,0

para 248,8 em 2015.

No entanto, para que possamos verificar

o hiato de gênero no desempenho

em Matemática entre meninos e

meninas ao longo das edições da Prova

Brasil de modo mais apurado, este estudo

realizou uma observação da trajetória

das escolas.

Nas seis edições, as 121 escolas tiveram

suas trajetórias classificadas em

seis tipos, como consta na Tabela ao

lado. Ao longo das edições, 30 escolas

foram identidades sem dados em uma

ou mais edições da Prova Brasil, portanto

não foram consideradas nesta

análise visto que o interesse era a trajetória

ao longo do período.

As escolas que possuem uma trajetória

considerada “consistentemente

positiva” são as que, ao longo das seis

edições da Prova Brasil, apresentaram

uma diferença no desempenho em Matemática

favorável aos meninos. A trajetória

que possui a maior incidência

é a “Negativa em uma edição”, registrada

em 34% das escolas analisadas, o que

significa dizer que nessas escolas os

meninos, em apenas uma das edições,

tiveram desempenho inferior ao das

meninas. Por outro lado, as escolas

em que as trajetórias foram no maior

número de vezes negativas para os meninos

foram classificadas como “Negativa

em quatro edições”, perfazendo

apenas 7% do total das unidades escolares

analisadas.

TRAJETÓRIA DAS ESCOLAS

PÚBLICAS ESTADUAIS DE BELO

HORIZONTE QUANTO À DIFERENÇA

NO DESEMPENHO EM

MATEMÁTICA ENTRE MENINOS

E MENINAS - 2005 A 2015

Trajetória

Total

Consistentemente

positiva 9%

Diferença negativa

em uma edição 34%

Diferença negativa

em duas edições 31%

Diferença negativa em

três edições 19%

Diferença negativa em

quatro edições 7%

Total 100

Fonte: elaboração própria com dados da

Prova Brasil 2005 a 2015

40 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Ao analisarmos essa diferença por

unidade escolar observamos que nenhuma

das escolas apresenta uma tendência

de queda consistente da diferença.

Ao longo das edições analisadas,

todas as escolas apresentam oscilações

de quedas e aumentos das diferenças

entre meninos e meninas. Um aspecto

interessante que poderá ser analisado

em estudos futuros é o efeito de fatores

sociais e escolares no desempenho

desses alunos relacionando o hiato de

gênero a outros indicadores sociais das

escolas analisadas.

As escolas com trajetória “Constantemente

positiva” e “Negativa em

quatro edições” são de especial interesse,

porque se espera possivelmente

encontrar nestas escolas um número

de evidências quanto às características

que possam levar a uma maior ou menor

igualdade de gênero no desempenho

em Matemática.

Mapear o hiato de gênero no desempenho

em Matemática constitui-se como

um elemento para compreender como

essa diferença no desempenho de gêneros

guarda uma relação importante

com a proeminência da Matemática na


Diferença no desempenho

em Matemática

entre gêneros

possui relação

com os arranjos

sociais.”

atualidade dentro e fora do espaço escolar,

bem como o sucesso em Matemática

é socialmente aceito como uma

expressão de desenvolvimento do pensamento

lógico e racional.

Para Walkerdine a diferença desse

desempenho de meninos e meninas

possui relação com a maneira como

ambos internalizam e naturalizam seus

papéis sociais, enfatizam que expectativas

relacionadas a funções sociais

supostas, típicas de meninos e meninas,

desempenham papel importante no

processo social de construção de diferenças

de desempenho em Matemática.

Nessa perspectiva a diferença no

desempenho em Matemática entre gêneros

não está pautada em capacidades

cognitivistas, sua base possui relação

com os arranjos sociais. Uma outra interpretação

possível seria a perspectiva

cognitiva: Souza e Fonseca a criticam

por considerar que essa visão corrobora

com a ideia de que as mulheres possuem

desempenho inferior ao dos homens

em Matemática, porque possuem habilidades

menores no desenvolvimento

do pensamento lógico e matemático.

O hiato de gênero no desempenho

em Matemática precisa ser compreendido

em um contexto o processo de

socialização dos sujeitos que frequentam

os bancos escolares não estão isentos

de relações desiguais construídas

socialmente entre homens e mulheres,

em uma sociedade que historicamente

tem favorecido os homens.

Contudo, isto não significaria dizer

que o que acontece no espaço escolar

não possua o efeito de atenuar ou acentuar

essas desigualdades. Especialmente

ao refletirmos sobre a prática dos docentes,

sujeitos que estão na linha de

frente do processo educacional que ao

desempenharem sua função, carregam

todos os valores e crenças a respeito

dos papéis de gênero em que podem,

por consequência, reforçar ou romper

expectativas quanto a esses papéis.;

1 - ROSEMBERG, F.; MADSEN, N. Educação formal,

mulheres e gênero no Brasil Contemporâneo. In:

O Progresso das Mulheres no Brasil 2003–2010 /

Organização: Leila Linhares Barsted, Jacqueline

Pitanguy – Rio de Janeiro: CEPIA; Brasília: ONU

Mulheres, 2011.

2 - Segundo Rosemberg e Madsen (2011) no Brasil,

a expressão consagrada tem sido hiato de gênero

apesar de, conceitualmente, ser mais apropriada

á expressão hiato de sexo por lidar com variáveis

que buscam captar o sexo biológico entre as duas

opções de resposta, seu oposto, e o desejável,

seria a paridade de oportunidades.

3 - SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de

análise histórica. Educação e Realidade. Porto

Alegre, vol. 20, nº 2, jul./dez. 1995.

LOURO, G. L. Educação e Gênero: a escola e a produção

do feminino e do masculino. In: Reestruturação

Curricular: teoria e pratica no cotidiano escolar.

Petrópolis: Vozes, 1995.

4 - ALVES, M. T. G.; SOARES, J.F.; XAVIER, F.P. Desigualdades

Educacionais no Ensino Fundamental

de 2005 a 2013: hiato entre grupos sociais. Revista

Brasileira de Sociologia, vol. 04, n. 07, jan. / jun.

2016. Disponível em: . Acesso

em 04 abril 2017

5 - WALKERDINE, V. Ciência, Razão e a Mente Feminina.

In: Revista Educação & Realidade, Porto

Alegre, v. 32, n.1, p. 07-24, jan. / jun. 2007.

6 - SOUZA, M.C.R.F.; FONSECA, M.C.F.R. Relações

de gênero, Educação Matemática e discurso: enunciados

sobre mulheres, homens e matemática.

Belo Horizonte, autêntica, 2010.

Viviene Adriana Xavier - Mestranda em

Educação pela FaE/UFMG

vivieneadriana@gmail.com

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

41


DIREITOS HUMANOS

POR

Débora Junqueira

Longe

de casa

Refugiadas buscam reconstruir suas vidas no Brasil

Para salvar suas vidas ou preservar

direitos fundamentais como a liberdade,

milhares de pessoas saem dos

lugares em que pertencem para buscar

refúgio, mesmo que esse deslocamento

signifique muito sofrimento ou até

mesmo risco de morte. Ao longo da

história, conflitos, guerras e até mesmo

desastres climáticos provocaram o deslocamento

de pessoas pelo mundo

numa corrente migratória que fez a

humanidade ser o que é. Mas, atualmente,

o problema dos grupos de re-

fugiados tornou-se um fenômeno bastante

preocupante em vários aspectos

como a gravidade dos conflitos internos

em diversos países que envolvem a

geopolítica mundial, pela questão dos

desrespeitos aos direitos humanos e

pelo impacto da presença dos refugiados

nas nações que os recebem.

A questão dos/as refugiados/as ganhou

grande repercussão na mídia

quando passou a afetar o continente

Europeu. Nos notíciários, chocam as

cenas de pessoas que buscam sair de

seus países a qualquer custo em embarcações

lotadas e porões de navios.

Muitas mortas no mar ou presas em

campos de refugiados dependendo de

ajuda humanitária. Segundo dados de

2015 da ONU, pelo menos 870 mil pessoas

cruzaram o Mediterrâneo – vindas

da Turquia ou de países no norte da

África – e pelo menos 2.800 não concluíram

as travessias.

Certamente a cena mais marcante

dos últimos tempos foi a do corpo de

um menino sírio de três anos boiando

42 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Istock

numa praia turca. O pai do menino foi

o único sobrevivente da família, e voltou

à Síria para enterrar os dois filhos e a

esposa. A imagem correu o mundo,

virou polêmica se devia ou não ter sido

mostrada, mas de alguma forma chamou

a atenção para o sofrimento de crianças,

mulheres e famílias inteiras que sofrem

as consequências de problemas políticos

e/ou religiosos em seus países, na maioria

das vezes agravados pelo intervencionismo

imperialista.


“A batalha que se

trava na Síria é por

uma nova ordem

mundial...

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

43



É comum as

mulheres deixarem

o país com

as crianças.”

Victor Moriyama

O principal motivo da chegada de

pessoas refugiadas ao continente

europeu são os conflitos na África e no

Oriente Médio, principalmente na

Síria, que desde 2011 já deixou mais de

400 mil mortos, 4,9 milhões de refugiados,

mais de 6,3 milhões de

deslocados internos e suas principais

cidades em ruínas, sendo a maior

crise de refugiados que o mundo já

testemunhou. “A batalha que se trava

na Síria é por uma nova ordem mundial

— Não nos iludamos: o que

estamos presenciando no Oriente

Médio e na Síria em particular é a consolidação

na prática do que vimos

chamando de um novo mundo, multipolar

e não mais unipolar, até hoje sob

a égide e o comando dos Estados Unidos”,

explica Lejeune Mirhan —

sociólogo, escritor e arabista.

Segundo Lejeune, ao contrário

do que se noticia, não há uma guerra

civil na Síria e sim países como Arábia

Saudita, Catar e Turquia, com apoio

dos EUA, atuando para derrubar o

governo de Bashar al-Assad, que é

anti-imperialista e a favor da Palestina.

“A imprensa se refere a ele como

ditador, mas ele está no poder há

onze anos e há dois anos foi reeleito

com a maioria dos votos. Sua popularidade

é alta, acima de 83%”, explica.

O sociólogo conta que na cidade de

Allepo, três mil indústrias foram desmontadas

pelos terroristas que, segundo

ele, não são rebeldes e sim

mercenários. “São grupos que recebem

altos soldos para morrer na Síria.

Eles também cometem abuso sexual

contra as mulheres sírias.”, relata.

Segundo ele, é comum as mulheres

deixarem o país com as crianças em

embarcações perigosas para a Europa

e seus maridos ficarem.

44 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Vidas

refugiadas

Segundo o relatório “Mulher Sozinha

– a Luta pela Sobrevivência das

Refugiadas Sírias”, divulgado em 2014

pelo Alto Comissariado das Nações

Unidas para Refugiados (ACNUR), mulheres

e crianças eram quase 80% dos

2,8 milhões de sírios que já haviam

sido registrados como refugiados. Na

Síria, uma em cada quatro famílias de

refugiados é chefiada por uma mulher.

Conforme o relatório da organização

não-governamental Anistia Internacional,

publicado em janeiro de 2016,

mulheres e meninas são vítimas de

violência, ataques, exploração e assédio

sexual em todas as etapas da jornada

da Turquia até a Grécia e, depois, cruzando

os Bálcãs. O destino delas, assim

como da maioria dos que buscam asilo

na Europa, é a Alemanha. “Muitas disseram

que em quase todos os países

pelos quais passaram, viveram abusos

físicos e exploração financeira, foram

assediadas e pressionadas a ter relações

sexuais com traficantes de pessoas,

agentes de segurança e outros refugiados”,

detalha o relatório. A falta de infraestrutura

adequada também coloca

as mulheres em risco. Num centro de

recepção de refugiados na Alemanha,

não havia banheiro e chuveiro femininos,

e as mulheres eram obrigadas a

dividir as instalações com homens.

A situação de violência contra as

mulheres refugiadas é mais um dos

graves aspectos dessa tragédia de terríveis

proporções que impõe desafios

para toda a humanidade. “Quem mais

sofre numa guerra e sobre quem a

gente nunca fala são as mulheres. São

elas que perdem os filhos, que sofrem

o reflexo da perseguição ao marido,

que ficam vulneráveis ao estupro e outras

formas de violência e são elas que

ficam invisibilizadas”, ressalta a advogada

Gabriela Cunha Ferraz, coordenadora

do CLADEM/Brasil (Comitê da

América Latina e Caribe para a Defesa

dos Direitos das Mulheres). Pensando

nessas mulheres, Gabriela idealizou

junto com o fotojornalista Victor Moriyama

o projeto Vidas Refugiadas, que

busca dar visibilidade e voz às mulheres

que pedem refúgio e vivem hoje no

Brasil. O projeto, que tem o apoio da

Agência da ONU para Refugiados (AC-

NUR) e da Organização Internacional

do Trabalho (OIT), também inclui uma

exposição de fotografias itinerante.

Segundo Gabriela, em territórios

que experimentam situações de guerra

e conflito armado, as mulheres são

sempre as que sofrem as mais graves

violações “Como exposição da sua casa,

da sua família e do seu próprio corpo

Istock

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

45


que, não raramente, passa a ser mera

moeda de troca no conflito. A objetificação

dessas mulheres passa, muitas

vezes, desapercebida pelas autoridades

internacionais e poucas providências

são tomadas para garantir a manutenção

da sua dignidade. Em busca de salvar

sua própria vida, essa mulher precisa

fugir e é levada a tomar decisões

duras, envolvendo a manutenção da

sua liberdade, o futuro dos filhos e a

preservação da sua família”. (Leia a entrevista

completa)


Essa mulher

precisa fugir e é

levada a tomar

decisões duras.”

Victor Moryyama

“Refugiada não

é terrorista”

A professora síria Mayada (foto) é

uma das oito mulheres do projeto Vidas

Refugiadas. Ela era diretora de Departamento

na Universidade de Damasco,

na Síria. 50 anos, casada e mãe de dois

adolescentes, é refugiada reconhecida

pelo Governo Brasileiro desde 2014.

Conforme depoimento para o site do

projeto (disponível em www.vidasrefugiadas.com.br),

a motivação que acelerou

a fuga da família de Mayada da

Siria foi o brutal assassinato de um

professor de educação física da Universidade

de Damasco, à queima roupa,

na saída do trabalho e na frente dos

estudantes. Logo depois desse triste

episódio, no dia em que sua filha mais

velha prestaria vestibular, elas presenciaram,

uma sequência de corpos mortos,

expostos, ao longo da estrada. No

caminho, a jovem teve uma crise nervosa

e não conseguiu concluir sua prova.

Sem enxergar outra possibilidade,

a família da Mayada simplesmente

fechou a porta da casa e foi embora,

deixando todos os seus pertences e

bens materiais para trás. A única certeza

do momento era que precisavam

salvar suas vidas e queriam se manter

o mais longe possível daquele cenário

de guerra e constante instabilidade.

Assim, em 2013, os quatro chegaram

em São Paulo, onde foram informados

que sua casa, em Damasco, havia sido

bombardeada e completamente destruída.

Hoje, tentam reerguer sua vida,

aprender um novo idioma, ingressar

em uma Universidade e trabalhar. “A

refugiada não é terrorista. Queremos

trabalhar e viver como seres humanos”,

afirma em seu depoimento para

o site do projeto.

46 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


“O Brasil me escolheu”

Outra mulher refugiada no Brasil

acolhida pelo Projeto Vidas Refugiadas

é Sylvie (foto), vinda da República Democrática

do Congo (RDC), advogada,

34 anos, casada e mãe de 4 filhos. É

refugiada reconhecida pelo Governo

Brasileiro desde 2014. Ao ser perguntada

sobre como havia escolhido o

Brasil para viver, ela disse: “o Brasil é

que me escolheu” e contou sobre como

saiu às pressas do Congo. Ela embarcou

clandestinamente em um navio, salva

pela solidariedade da tripulação. Na

fuga, não houve tempo para recuperar

sua filha mais velha, que estava na escola

e ficou sob os cuidados da sua

mãe. Por não ver a luz do sol, nunca

soube dizer quantos dias durou sua

viagem. Ao desembarcar, Silvye não

foi informada do local onde estava e

não podia imaginar que havia cruzado

o Oceano Atlântico. Perplexa em razão

da quantidade de pessoas brancas que

viu na rua e desorientada por não poder

se comunicar em francês, descobriu

que havia chegado ao Brasil. Sem ter

outra opção, Silvye dormiu dois dias

na rua, com seus filhos, até encontrar

um compatriota que a encaminhou

para pedir ajuda em uma organização

não governamental do centro de São

Paulo. Segundo ela, a maior dificuldade,

além da falta de dinheiro, foi a língua.

Sylvie era casada com um militante

político, quando recebeu, pelo telefone,

a notícia da prisão arbitrária do marido,

soube que precisava fugir do país porque,

a partir daquele momento, toda

sua família havia sido colocada em real

perigo de vida. Já no Brasil, conseguiu

reunir toda a família e teve mais um

filho. “Estava sendo atendida em uma

ONG, quando ouvi falarem o nome do

meu marido. Nos reencontramos e,

hoje, vivemos juntos com nossos filhos.

Foi um milagre!”.

A República Democrática do Congo

(RDC) vive intensas conturbações políticas

desde o início do seu processo

de independência da Bélgica, em 1960.

Chacinas, estupros de mulheres e os

sequestros de crianças tornaram-se

armas de guerra no Congo. É o maior

e mais sangrento conflito desde a 2ª

Guerra, sendo considerado o holocausto

africano. A região leste da RDC se mantém

ativa numa guerra que já dura três

décadas, envolvendo milícias armadas,

diferentes grupos étnicos e o exército

dos países fronteiriços.

De acordo com o Comitê Nacional

para os Refugiados (Conare), o Brasil

possuia, até abril de 2016, 8.863 refugiados

reconhecidos, de 79 nacionalidades

distintas (28,2% deles são mulheres)

– incluindo refugiados reassentados.

Os principais grupos são compostos

por nacionais da Síria (2.298),

Angola (1.420) e Colômbia (1.100). Re-

Victor Moryyama

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

47


Istock

pública Democrática do Congo (968) e

Palestina (376). Isso sem contar populações

em situação análoga ao refúgio,

como os haitianos, vítimas de desastres

naturais e da pobreza.

O número total de solicitações de

refúgio aumentou mais de 2.868% entre

2010 e 2015 (de 966 solicitações em

2010 para 28.670 em 2015). Em setembro

de 2013, o Conare publicou a Resolução

nº.17, que autorizou as missões diplomáticas

brasileiras a emitir visto especial

a pessoas afetadas pelo conflito na Síria,

diante do quadro de graves violações

de direitos humanos. Em 21 de setembro

de 2015, a resolução teve sua duração

prorrogada por mais dois anos.

Com a mudança para o governo ilegítimo

de Michel Temer, ainda não há

uma definição concreta da política de

acolhida dos/as refugiados/as. O Brasil

está aberto para receber os/as refugiados/as,

mas não oferece estrutura necessária.

Responsabilidade que acaba

na mão de organizações não-governamentais.

O Instituto de Reintegração

do Refugiado – Brasil (Adus), ONG que

atua em São Paulo e Curitiba, tem projetos

com aulas de português, inserção

no mercado de trabalho, acompanhamento

individual e acolhimento do/a

refugiado/a considerando suas diversas

necessidades, saúde mental, orientação

jurídica, cultura e empreendedorismo.

Segundo Carla Mustafa, diretora de

Relações com Refugiados do Adus, o

processo de adaptação envolve diversos

fatores culturais, socioeconômicos, religiosos,

psicológicos e jurídicos. “Questões

como documentação, moradia,

saúde, educação e emprego estão entre

as maiores dificuldades enfrentadas

pelos/as refugiados/as que tentam se

integrar no país. Aprender a língua

portuguesa é um desafio que o/a refu-

48 Revista Elas por Elas - Agosto 2017



A violência nas mais

diversas formas é

um dos fatores que

motiva a solicitação

de refúgio.”

Victor Moryyama

giado/a precisa ultrapassar para poder

se inserir na sociedade e ter mais oportunidades.

Além disso, a discriminação,

o racismo, a xenofobia e a intolerância

religiosa também são obstáculos para

a integração”, esclarece.

Para Carla, as mulheres refugiadas

enfrentam problemas não apenas pelas

diferenças culturais, mas porque a discriminação

de gênero também é algo

presente na sociedade brasileira. Quanto

às mulheres, segundo ela, a violência

nas mais diversas formas é um dos fatores

que motiva a solicitação de refúgio,

pois, juridicamente, só pode ser considerado

refugiado quem sofre ou teme

sofrer algum tipo de perseguição em

razão de raça, religião, nacionalidade,

grupo social, opiniões políticas ou graves

violações de direitos humanos. “Refugiado

é alguém forçado a sair de seu

país por motivos de perseguição que

busca proteção jurídica em outro país

para garantir sua sobrevivência. Por

esta razão, refúgio é um instituto internacional

de proteção de direitos humanos

reconhecido por 147 países, incluindo

o Brasil. Já num contexto diverso,

migrante é aquele que busca a

mobilidade por vontade própria motivada

por fatores econômicos, profissionais,

pessoais, entre outros, mas não

porque é perseguido ou corre risco de

vida. Partindo-se desta premissa, a saída

do país de origem do/a refugiado/a é

algo inevitável, independentemente das

condições socioeconômicas”, explica.

O Brasil é signatário dos principais

tratados internacionais de direitos humanos

e é parte da Convenção das Nações

Unidas de 1951 sobre o Estatuto

dos Refugiados e do seu Protocolo de

1967. O país promulgou, em julho de

1997, a sua lei de refúgio (nº 9.474/97),

contemplando os principais instrumentos

regionais e internacionais sobre

o tema. A lei adota a definição ampliada

de refugiado, estabelecida na Declaração

de Cartagena de 1984, que considera

a “violação generalizada de direitos

humanos” como uma das causas de

reconhecimento da condição de refugiado.

Em maio de 2002, o país ratificou

a Convenção das Nações Unidas de

1954 sobre o Estatuto dos Apátridas

(pessoas que não possuem nacionalidade

ou cidadania legal) e, em outubro

de 2007, iniciou seu processo de adesão

à Convenção da ONU de 1961 para a

Redução dos Casos de Apatridia.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

49


ENTREVISTA

Gabriela Ferraz

Arquivo pessoal

“Refugiadas

herdam a

invisibilidade

da mulher

brasileira”

O que é o Projeto Vidas Refugiadas

e qual a motivação para a sua

criação?

O Projeto Vidas Refugiadas nasceu da

necessidade de colocarmos as mulheres

no centro da problemática do refúgio.

Sempre que falamos em deslocamento

de pessoas, evidenciamos a presença

majoritária dos homens. Porém, no

Brasil, as mulheres refugiadas já somam

30% nas estatísticas e esse universo

precisa ser visibilizado desde a perspectiva

da garantia dos direitos da mulher

e seu processo de integração. O

projeto começou a ser desenhado em

encontros femininos que fazíamos para

conversar e trocar experiências. A

partir desses encontros, decidimos que

deveríamos contar algumas histórias

no intuito de sensibilizar a sociedade

brasileira para o tema da mulher refugiada.

E, com base neste objetivo, percebemos

que a fotografia seria um

lindo veículo para transmitir a mensagem

da tolerância e do respeito.

Por que o recorte de gênero?

Como disse, as mulheres refugiadas

acabam herdando a invisibilidade da

mulher brasileira. O deslocamento forçado

é sempre um drama, mas, no

caso das mulheres, a situação piora. É

a mulher que perde os filhos e os maridos

nos combates. É a mulher que

sofre as mais bárbaras violações de direitos

humanos, incluindo violações

ao seu próprio corpo, no país de origem,

no trânsito e no país de acolhida. Precisamos

ser vigilantes porque o Brasil

ainda não viveu uma ruptura do seu

machismo estrutural e isso reflete diretamente

nas políticas públicas de

atenção às mulheres refugiadas. Nós

queremos falar de gênero porque essas

mulheres, além de serem exemplos de

vida, têm muito para falar.

50 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Quem são as mulheres refugiadas e

o que elas relatam sobre os dramas

vividos em seus países ?

As mulheres refugiadas sao guerreiras.

Mulheres que atravessaram oceanos,

continentes, em busca de salvar suas

vidas e a dos seus filhos. Mulheres que

sentiram medo — como todas nós, e

precisaram se deslocar deixando sua

vida e sua história para trás. Cada mulher

do projeto tem uma história diferente

de perseguição. Algumas delas

fugiram de casamentos forçados, outras

de situações de violência generalizada

como acontece na Síria ou no Congo,

outras por questões políticas e, ainda,

por razões religiosas. Todas viveram

situações absurdas de violência e, hoje,

tentam recomeçar a vida da forma que

a vida se apresenta.

Como você evidencia os preconceitos

por que passam as refugiadas? Ocorre

somente pelo fato de serem mulheres

ou também por questões culturais

e religiosas?

O grande problema não são as questões

culturais ou religiosas. O problema do

Brasil é o racismo e o machismo que

estão entranhados na nossa sociedade

e no seio das nossas instituições. O

país não viveu sua ruptura e, com isso,

segue repetindo os mesmos padrões

de comportamento que leva à desigualdade,

à segregação e a diversas formas

de violência. As refugiadas são,

em sua maioria, negras e, por isso, sofrem

duplamente. Não podemos falar

em integraçao de refugiados sem falar

em racismo.

Por que essas pessoas escolheram o

Brasil para viver?

Quando falamos em refúgio, não falamos

em escolha. Diferente de um imigrante

— que consegue fazer um planejamento

mínimo, antes de se deslocar, a refugiada

é aquela que precisou sair do seu país

de origem levando muito pouco, ou quase

nada, na bagagem. A refugiada vai

chegar aonde conseguir ir e, de preferência,

o mais longe possível do seu

país de origem. O Brasil passou a ser

uma possibilidade de rota quando a Europa

passou a fechar suas fronteiras.

As pessoas seguem se deslocando, o

número de guerras aumenta e as estatísticas

se agravam. Se uma parte do

mundo fecha os olhos para o problema,

outra parte vai precisar acolher essa

população de forma mais intensa. Apesar

de não ser uma escolha propriamente

dita, todas as refugiadas sempre

narram que o Brasil se tornou uma opção

por não haver histórico de guerra.

Como você avalia as políticas públicas

para a integração dos refugiados

no Brasil?

As políticas públicas de integração de

refugiados são claramente insuficientes.

No ano de 2015 e começo de 2016, conseguimos

avançar em algumas pautas

que favoreceram a integração de pessoas

em deslocamento no nosso país

como, por exemplo, o acesso às universidades

e ao Pronatec. Porém, hoje,

posso dizer que estamos retrocedendo

no pouco que avançamos. As políticas

estão paralisadas e não acompanham

o dinamismo do fluxo de pessoas. Hoje,

um solicitante de refúgio aguarda, em

média, 3 a 4 anos, apenas para receber

seu documento porque o Ministério

da Justiça não designa um orçamento

digno e uma equipe capacitada e dedicada

à análise destes casos. Atualmente,

o processo de refúgio nao é uma pauta

levada a sério no Brasil. Veja bem! Eu

estou falando apenas do direito fundamental

a receber uma identificação,

sem entrar na disputa dos direitos sociais

e econômicos que, diga-se de passagem,

também devem ser integralmente

assegurados. Infelizmente, ainda

não saimos do estágio da proteção aos

refugiados e, por isso, não conseguimos

avançar nas políticas de integração

que, na lógica natural, deveriam ser

um passo posterior.

Quais os efeitos desse projeto para

as mulheres que vocês deram voz?

Há algum relato de reconstrução da

vida ou identidade?

Cada mulher tem a sua dificuldade.

Aos poucos vamos conseguindo avançar,

mas o processo é lento e sofrido.

O primeiro passo é obter a documentação

de refugiada no Brasil. Das 8 mulheres

do projeto, ainda temos duas

que ainda não receberam um posicionamento

do Ministério da Justiça e

aguardam decisão. Outro passo é tentar

garantir o equilíbrio emocional dessas

mulheres, através de atendimentos de

saúde mental que são oferecidos por

amigos voluntários que se solidarizam

com a causa. Outra fase é tentar aproximar

as famílias que, durante a fuga,

se perderam. Neste sentido, no ano

passado conseguimos trazer a filha de

uma delas ao Brasil e, hoje, lutamos

para conseguir os vistos para os filhos

da nigeriana Nckechinyere Jonathan.

O processo de se readaptar em um

novo país é penoso, mas, aos poucos,

elas estão conseguindo vencer por si

próprias e se estabelecer enquanto

mulheres, profissionais e mães.;

Gabriela Ferraz - Advogada, militante, mestra em

Direitos Humanos pela Universidade de Estrasburgo,

coordenadora nacional do Comitê Latino Americano

para Defesa do Direito da Mulher CLADEM/Brasil e

realizadora do Projeto Vidas Refugiadas.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

51


Carina Santos


A tragédia

ainda não

terminou”

52 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


MEIO AMBIENTE

POR

Carina Santos

Da lama

à luta

Mulheres atingidas por um dos maiores crimes

socioambientais do país reescrevem uma nova história de vida

Após atravessar mais de 140 quilômetros,

eu e o motorista Samuel saímos

de Belo Horizonte e chegamos a Barra

Longa, município próximo a

Mariana/MG, uma das tantas comunidades

atingidas pelo “tsunami” de

lama, em novembro de 2015. Era um

sábado ensolarado e já na entrada da

cidade as moradoras Simone e Odete

nos esperavam. O sol forte iluminava

essas mulheres e o sorriso em cada

rosto. Senti que para elas era uma missão

estar ali, abertas a contar uma história,

ainda tão escamoteada pela grande

mídia: o rompimento das barragens

da mineradora Samarco e suas acionistas

Vale e BHP Billiton é considerado

um dos maiores crimes socioambientais

da história e suas marcas ainda

estão presentes em milhares de vidas

impactadas pela tragédia.

Nos abraçamos e eu disse o quanto

a cidade me parecia bonita. Simone

logo nos disse: “Acho que a primeira

coisa que vocês precisam ver é o que a

Samarco fez com aquela lama toda.

Isso a Globo não mostra.” Quase dois

anos depois do crime, nos deparamos

com grandes montes de lama de rejeitos.

O cheiro, a cor, a poeira e os grandes

caminhões circulando deixaram a

certeza de que a tragédia ainda não

terminou. Parecia cenário, mas era

real. A lama ainda assombra a vida

dessas pessoas. Simone e Odete contaram

que a Samarco fez de tudo para

limpar o centro da cidade, para passar

uma imagem de que tudo estava resolvido.

“O que eles fizeram foi trazer a

lama pra cá, que é a região mais vulnerável

da cidade. Então os mais pobres

têm que sofrer com essa lama?”, questiona

Odete. O espaço é o Parque de

Exposições do município, uma área

grande onde se realizavam eventos.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

53


Com a saúde da filha afetada, Simone luta por indenizações.

Carina Santos

disse que desde que levaram a lama

para lá, as(os) moradoras(es) perderam

a liberdade que tinham no lugar, sobretudo

as mulheres, já que majoritariamente

são homens de outras cidades

que trabalham para a Samarco. Por

fim, Ana Paula desabafa que a única

coisa que a empresa propõe é pagar

um aluguel para as pessoas do local.

“Não quero me separar das outras famílias.

Aqui a gente vive como comunidade,

sempre tínhamos encontro neste

espaço. Meu filho jogava bola aqui

com outros meninos. Não quero me

separar das pessoas daqui”, afirmou.

Ana Paula não quis tirar fotos e respeitei.

Mas a imagem dessa mulher

era marcante. Um lindo rosto negro,

aquele olhar profundo quando olhava

o entorno do seu lugar, uma voz de

calmaria e de força. Quantas memórias

de Ana Paula e daquela gente a lama

da Samarco ainda soterra? Qual o sabor

daquelas verduras desde que a poeira

invadiu o lar dessa família? O que é

ser mulher neste cenário em que a

tragédia é revivida a cada instante?

Em torno vivem famílias, que hoje

convivem a poucos metros dos rejeitos

e de tudo que eles trazem. Onde havia

festas, encontros, futebol e alegria,

agora é depósito de lama.

Passamos em frente a uma das casas

e uma mulher estava ali sentada. Seu

olhar estava distante, em direção ao

varal cheio de roupas estendidas. “Ana

Paula, quer falar com a repórter? Vem

dizer das coisas que vocês estão passando

aqui!”, gritou Simone. Ela se demonstrando

um pouco tímida desceu

o terreiro e só aceitou falar. Não queria

filmagem, nem fotografia. Disse que tinha

muita roupa no varal porque só

pode lavar aos sábados, quando os funcionários

da Samarco não estão trabalhando

ali. Durante a semana, segundo

ela, é tanta poeira subindo que não vale

a pena. Suja tudo de novo. Em pouco

tempo de conversa, Ana Paula Santos

contou que como dona de casa seu serviço

tem triplicado. “Preciso limpar a

casa várias vezes, é muita poeira que

fica aqui”, afirmou. A grande horta que

ela cultiva na entrada da casa também

pega toda essa poeira, mas é uma produção

necessária para a subsistência

da família. “Eu não sou reconhecida

pela Samarco como atingida, então não

recebo nada. Preciso da horta para colher

parte do alimentos, como eu já

fazia antes”, conta. Ana Paula também

No fundo no quintal

Saindo de perto de toda aquela

lama, Odete nos convidou à sua casa.

Na entrada, estava sua mãe Dona Francisca

e o pai, Seu João, observando a

rua em uma cadeira de balanço. Lado

a lado. Cada um com seus 88 anos, há

mais de 60 anos casados. Dona Francisca

logo começou a me contar que na

região tinha muita capivara e que é

uma carne muito gostosa. Também

me disse que depois de tanta lama na

cidade ela teve uma alergia muito forte

e que seu corpo coçava muito. “Tive

que cuidar com a erva de bicho, você

54 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


conhece? A gente tá vivendo igual

índio para sarar das coisas”, contou

com um sorriso. Descendo para conhecer

o quintal da casa, Odete me

contou que depois da tragédia seus

pais passaram por uma confusão mental

muito grande, de ansiedade, desespero.

Ainda hoje Odete precisa estar

atenta aos cuidados deles, além de cuidar

das suas próprias angústias deixadas

com o crime da Samarco.

O Rio do Carmo, um dos formadores

do Rio Doce, passa no fundo do

quintal de Odete. Enquanto víamos a

água turva descendo, ela se lembrava

que ali eles sempre faziam churrasco

e pescavam aos finais de semana, os

netos brincavam na beira da água e a

alegria era garantida. Retrato comum

em um lugar onde o rio faz parte da

construção histórica e afetiva de quem

mora ali. Assim como no fundo do

quintal de Odete, em vários outros

quintais o rio era vivo, como um membro

da família. Rio do alimento, do

lazer, da limpeza, da relação com a natureza.

O rio está morto e em cada

casa se sente um clima de adeus.

Quando perguntei do quintal, os

olhos dela brilhavam olhando para

aquele pedaço de terra ainda cheio de

minério: “Aqui eu plantava tanta coisa.

Tinha minha horta, acerola, inhame,

quiabo, chuchu, graviola e até lichia”,

detalhou. Disse-me que está tentando

plantar de novo, mas que nessa terra

ela sabe que as plantas não vão vingar.

Indignada, mostrou-me um ramo do

pezinho de laranja, ainda pequeno e

aparentemente sem força. “Tá vendo

as folhas enferrujadas? Essa terra adoece

as plantas”, disse.

Odete também revelou que antes da

tragédia ela já passava por um princípio

de depressão. Depois daquele novembro


Essa terra

adoece as

plantas”

Carina Santos

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

55


de 2015, a doença se agravou e hoje ela

toma mais do dobro de remédios para

dar conta. “É muito difícil conviver com

isso. Me dá muita tristeza não ter a

vida que a gente tinha aqui antes. Eu tô

tendo que ter muita força para seguir”,

lamentou. Nota-se a tristeza, mas a cada

instante com essas mulheres eu percebia

também a esperança. A caminhada sob

um sol forte mostrava-me o quanto elas

representam muitas das atingidas que

estão na luta por seus direitos e por

suas memórias.

Carina Santos

Bordando resistências

Passando pelo centro da cidade,

um faixa estendida na sacada da varanda

dizia: “Indignação! Casa de 1923,

tombada pelo patrimônio. Descaso da

Samarco.” A casa é da artesã Maria

Aparecida Lanna (foto), mais conhecida

como Pice. Ela nos recebeu e mostrou

as trincas nas paredes, provocadas

pelo alto fluxo de caminhões e uso de

maquinaria na região. Contando sobre

o dia da tragédia, Pice relatou que a

lama invadiu seu quintal e emocionada

disse que é muito triste reviver essa

cena. O acontecido impactou seu trabalho

como bordadeira e também o

trabalho que ela desenvolvia com mulheres

de outras comunidades próximas.

“O trabalho teve que parar porque

não tinha como elas atravessarem a

ponte para chegar aqui. Foi um impacto

muito grande. Eu ficava desesperada

sem saber o que ia acontecer”, relata.

Pice também conta que depois da tragédia

a Samarco colocou tapumes em

torno das casas e não era possível conversar

com os vizinhos, com as pessoas

com quem sempre houve uma relação

próxima, já que o centro da cidade

virou um canteiro de obras, repleto de

pessoas desconhecidas. Emocionada,

lembrou de como esses dias pós-tragédia

foram traumáticos.

Assim como as demais mulheres,

Pice traz no olhar a indignação e tristeza

com tudo que ocorreu e ainda

ocorre. Mas foi nesta casa, junto também

à Simone e Odete, que eu descobri

a força histórica que as mulheres de

Barra Longa carregam. “Aqui em Barra

Longa as mulheres aprenderam a ser

muito independentes. São poucas as

mulheres que deixam de fazer alguma

coisa por causa do marido. Eu não conheço.

Se você quer fazer alguma coisa

na cidade, procura as mulheres. Toda

ação que tem aqui são as mulheres

que tomam a frente e os homens respeitam”,

ressaltou. Elas afirmaram que

o bordado acabou construindo uma

independência e protagonismo na vida

das mulheres, já que sempre estavam

reunidas, além de fortalecer a própria

geração de renda e romper com a dependência

financeira.

Sobre a arte do bordado, Pice, que

já tem seu trabalho reconhecido internacionalmente,

disse que sempre

foi influenciada pelas histórias da própria

cidade. As paisagens, versos e frases

que remetem à atmosfera do lugar

são fontes de inspiração. E para ela,

seguirá sendo. A tragédia deixou marcas,

mas não vai abalar seu trabalho.

“A lama não vai chegar ao meu bordado.

Vou continuar bordando as coisas boas

da nossa cidade”, enfatizou.

56 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


As mãos dessas mulheres agora

também bordam resistências. O

tempo muitas vezes dividido entre os

afazeres de casa e o artesanato, hoje é

um tempo que se concilia com a mobilização

em busca de direitos. Seguindo

a caminhada pela cidade, conhecemos

Marta Rôla Mol (foto), professora

aposentada, que fortalece a trincheira

das mulheres impactadas. Conta que

começou a participar das reuniões organizadas

pelo Movimento de Atingidos

e Atingidas por Barragens (MAB)

por querer mudar a situação da cidade,

ajudando também outras pessoas que

foram mais impactadas. O MAB ampliou

a luta na cidade e ela afirma que

a maioria das pessoas que hoje participam

ativamente da comissão local é

formada por mulheres. “Homem tem

mais dificuldade de conciliar as coisas,

fala que tá cansado depois do trabalho,

que tem outras coisas para fazer. Aí a

gente assume mesmo”, comenta.

E a teoria de Marta foi mesmo se demonstrando

real. Algumas casas à

frente, Simone apresentou-me à dona

Eva, mais uma mulher que borda resistência

frente às ações da Samarco. Eva

Helena, dona de casa, perdeu tudo com

a chegada da lama. Segundo ela, não

houve tempo de salvar nada. Debruçada

sobre a janela antiga, contou que

mora nessa casa alugada e que é difícil

se acostumar. “A gente fica com o emocional

abalado. Tenho muita saudade

de onde eu vivia, de como eu vivia”, afirmou.

Mais tristeza transformada em

força. Eva participa ativamente das reuniões

porque quer ter sua casa reconstruída.

Quando eu me preparava para

fotografá-la, vejo se aproximando uma

menina de olhos grandes e sorriso

largo. Era sua neta Larissa, de 14 anos.

E confirmando mais uma vez a teoria

de Marta, Larissa também já participa

da mobilização local e conta da sua alegria

em frequentar as reuniões e participar

das ações do comitê das/os

atingidas/os. “Eu gosto demais de participar,

de saber mais sobre as coisas

que estão acontecendo. Também tenho

saudade da minha casa e quero voltar


pra lá,” ressaltou. A casa de Eva e Larissa

ainda está sendo reconstruída

pela Samarco, mas elas demonstram o

incômodo com relação à demora, lembrando

que a tragédia já vai completar

dois anos. Tempo demais para a saudade,

certamente ausente nas contas e

planilhas da mineradora.

Companheira me ajuda, que eu não posso andar só.

Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor"

Carina Santos

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

57


Eva e a neta Larissa participam das mobilizações contra a Samarco.

O sol que ardia durante o dia agora

já era suave. O dia se despedia. O pôr

do sol coloria o rio sujo e, em meio a

tanta revolta, aquela luz alaranjada das

cinco trazia esperança e alegria. A parada

final seria na casa da Simone, anfitriã

com quem comecei as primeiras

conversas, ainda por telefone. Chegando

à sua rua, senti o mesmo cheiro

forte de onde a lama está depositada.

Ela me contou que a Samarco está

usando os rejeitos para calçar as ruas

da cidade, como uma forma de “recompensar”

os males. Mas os males só

têm se multiplicado. Simone contou

que sua filha Sofia, de dois anos, tem

tido problemas respiratórios sérios

desde que essas obras começaram.

Buscou os atestados médicos em que

estava relatado que as complicações

pulmonares eram recorrentes da inalação

de substâncias como o minério.

“Foi uma luta cuidar do tratamento da

minha filha e a Samarco não me reconhece

como afetada. Não recebo nem

um real deles”, afirmou.

Simone também relata que a tragédia

impactou seu emocional, sua

casa em si não foi afetada pela lama,

mas dos seus familiares sim. Além dos

objetos que se foram, também muita

memória. “Na casa da minha vó tínhamos

fotos de tantos momentos, da nossa

história, tudo se perdeu. Minha família

sempre tão unida hoje quase não

se encontra todo mundo. Os que foram

afetados a Samarco mandou para outros

lugares. Foi uma separação”, lamenta.

Para ela, a questão psicológica é muito

marcante e gera preocupação. “Eu nunca

achei que teria que tomar remédio

controlado na vida. Depois de tudo que

aconteceu, eu tive sim que tomar. Ficava

muito ansiosa, triste, foi difícil lidar

com aquilo.”

Enquanto Simone contava-me sobre

os impactos, Sofia pedia o colo da

mãe.Amamentando a filha, disse-me

o quanto quer continuar lutando por

seus direitos e pelos direitos das pessoas

que sofreram com essa tragédia.

“A Samarco é uma criminosa, nós temos

que seguir mobilizadas nesta luta, as

coisas não podem ficar assim como

eles querem.”

A professora reforçou a preocupação

com as mulheres afetadas. Segundo ela,

os casos de alcoolismo aumentaram e

isso repercute em mais casos de violência

doméstica. Além disso, enfatiza

que com o grande número de homens

que trabalham para a Samarco na cidade,

os casos de assédio contra as mulheres

têm aumentado. Para ela, a sobrecarga

também é visível. “Nós mulheres, já estamos

neste lugar do cuidado. Com

tudo isso, ficamos mais atentas com a

família, com os filhos”, afirma.

Simone Silva, professora de Artes

e Odete Cassiano, dona de casa. Duas

mães, trabalhadoras que fizeram da

tristeza, luta e hoje integram o MAB,

conscientizando e ajudando intensamente

na mobilização da comunidade.

Já anoitecendo e me despedindo, per-

58 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


cebi que de fato o dia foi uma missão

para essas mulheres, compromisso de

revelar que o crime da Samarco não

pode ser só resumido a números. É

um crime contra memórias, sentimentos,

intimidades e cotidianos. Um crime

que não deve ser só relembrado em

datas específicas. Ele está presente a

cada instante, em cada olhar.

Essas mulheres dedicaram todo

um dia para compartilhar suas histórias

e dar voz a outras mulheres que

também assumem essa batalha contra

a tirania da mineradora Samarco e de

toda a tragédia que continua escorrendo

com a lama ao longo de todo o

Rio Doce. E assim como elas, milhares

de mulheres que vivem a dor de um rio

morto, encontram forças para reconstruir

uma história de protagonismo e

igualdade.

“Dossiê mulheres na lama e luta”

Em maio deste ano, as jornalistas

Isis Medeiros e Agatha Azevedo

escreveram para a rede Jornalistas

Livres o “Dossiê mulheres na

lama e na luta”, que demonstra o

quanto as mulheres seguem sendo

as mais afetadas pela tragédia.

De uma forma geral, os impactos

já começam com a construção das

barragens. O texto revela que “segundo

o Movimento dos Atingidos

por Barragens (MAB), existem relatos

de norte a sul do país que mostram

problemas como perda dos trabalhos

geradores de renda, desagregação

da comunidade, aumento da prostituição

e da violência e diversos outros

impactos particularmente graves

para as mulheres. A mesma constatação

apareceu em 2010 em um relatório

do Conselho de Defesa dos

Direitos da Pessoa Humana [atual

Conselho Nacional de Direitos Humanos]

sobre violações de direitos

na construção de barragens: ‘As mulheres

são atingidas de forma particularmente

grave e encontram maiores

obstáculos para recomposição

de seus meios e modos de vida’, diz

o documento.”

Além de já sofrerem com a construção

de barragens, milhares de

mulheres ao longo da Bacia do Rio

Doce hoje continuam sofrendo com o

rompimento da barragem de Fundão.

Entre tantos casos de violação às mulheres,

o dossiê destaca a política patriarcal

da Samarco e de outras empresas

envolvidas com relação ao gerenciamento

das indenizações. O texto

destaca:

“O promotor Guilherme Meneghin

conta que somente no município de

Mariana, 345 cartões de compensação

foram distribuídos às famílias atingidas

em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.

Destes, ele calcula que em 20% dos

casos a Samarco “agiu com irresponsabilidade,

repassando o cartão e a

chefia da família para o homem, ao

contrário do que recomendamos”. Letícia

Oliveira, membro da coordenação

estadual do MAB (Movimento dos Atingidos

por Barragens) em Minas Gerais,

reforça a situação de desigualdade. “As

mulheres foram as mais atingidas, muitas

passaram a ser dependentes dos

maridos, pois os cartões com verba de

manutenção são destinados ao chefe

da família, desconsiderando a mulher.”

As jornalistas listaram no dossiê

algumas das principais violações contra

as mulheres ocorridas com a tragédia:

Caso de aborto: Grávida sofre

aborto durante avalanche de lama,

e ele não foi considerado uma morte

ou sequer relacionado com o rompimento

da barragem

Água contaminada, relatos de

doenças, coceiras, alergias de pele

e respiratórias, dores de estômago,

de cabeça, infecção no útero. (As

mulheres têm mais essa preocupação

com os filhos).

Cartão entregue aos homens

— não reconhecimento das mulheres

no processo indenizatório. Além

de inúmeras outras ainda não reconhecidas

como atingidas pela mineradora.

Em Barra longa (MG): aumento

do número de homens trabalhando

dentro da cidade, nos espaços

onde antes as mulheres tinham

maior liberdade de circulação. Casos

de estupro, aumento da violência

contra as mulheres e da prostituição

foram relatados nos municípios

onde se concentram os trabalhadores

das obras de contenção da

Samarco/ Vale / BHP.

Violação da privacidade e

intimidade: meninas e mulheres

que tiveram que usar peças íntimas

doadas.;

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

59


Istock

POR

ARTIGO

Mariana Hasse

Violência de gênero

contra as mulheres: os

desafios do cuidado integral

60 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


A violência de gênero distingue um

tipo de opressão e de crueldade construída

nas relações interpessoais que

é reproduzida no cotidiano. Esse tipo

de violência, apesar de dizer respeito

a todas as pessoas, incide, principalmente,

sobre as mulheres.

Desde os anos 1960, os movimentos

feministas vêm denunciando a violência

contra as mulheres como uma violação

grave de direitos humanos. Com isso,

lentamente, algo que até então era tratado

apenas como sendo da esfera privada,

passou a ser discutido publicamente,

e assumido como um problema

do Estado. Essa difusão garantiu ao

tema da violência, considerado um

grave problema de saúde pública, uma

conotação política.

No Brasil, pesquisas indicam que 4

em cada 10 mulheres já passaram por

um episódio de violência — em grande

parte das vezes, perpetrada pelo seu

próprio parceiro. Relatório com dados

sobre os homicídios no país mostra

que a cada duas horas uma mulher

morre, 80% das vezes agredida pelo

atual ou ex-companheiro. A proporção

de mulheres assassinadas pelo

parceiro é 7 vezes maior do que a

proporção de homens assassinados

por suas companheiras.

O número de homicídios de mulheres

– crime tipificado como ‘feminicídio’ 1

– aumentou 17,2% no Brasil na última

década, quase o dobro do aumento de

assassinatos de homens no mesmo período.

A maioria dessas mulheres vivem

situações crônicas e acabam morrendo

em decorrência de episódios de violência

previsíveis e evitáveis.

Nas últimas décadas, muito se avançou

no enfrentamento do problema.

O principal marco desse processo é a

Lei 11.340 em 2006, resultado de muitos


Mais da metade

das mulheres em

situação de violência

procuram por

ajuda.”

anos de luta dos movimentos feministas.

Conhecida como ‘Lei Maria da Penha’,

ela tipifica a violência doméstica

contra as mulheres, oferece penas mais

duras aos agressores e maior proteção

judicial e policial às mulheres em situação

de violência.

No bojo da maior produção de conhecimento

científico sobre o tema,

surgiram conselhos da condição feminina

e de direitos da mulher, assim

como coordenadorias das mulheres

em diversos municípios. Nesse período,

também se desenvolveram diversos

serviços que atendem mulheres em situação

de violência.

Por ter incorporado a demanda

feminista por um atendimento em

rede, a Lei Maria da Penha prevê que

as mulheres tenham acesso a serviços

que funcionem de maneira articulada

uns com os outros. Busca-se com isso,

garantir o acesso a um cuidado integral,

ou seja, que identifique e cuide

dos diversos aspectos que geram e

resultam da violência.

Devido à complexidade do fenômeno,

não é possível que apenas um serviço

e/ou setor atenda a tais necessidades

de forma integral. Por isso, a

atuação em rede se constitui como

uma das estratégias mais relevantes

para lidar com uma questão multifacetada

como essa.

Portanto, para enfrentar situações

de violência é fundamental que haja

uma atuação articulada entre serviços

de saúde (unidades de saúde, hospitais),

da assistência social (CREAS, casas abrigo),

de segurança pública (Delegacias

de Defesa da Mulher, IML), do sistema

de justiça (defensorias públicas, fóruns)

e da educação (escolas). É a partir do

apoio oferecido por essa rede que as

mulheres em situação de violência poderão

enfrentar a problemática vivida.

Apesar de bastante relevante, essa

estratégia é desafiadora uma vez que

a qualidade do cuidado oferecido, especialmente

no que se refere ao encorajamento,

informações precisas, não

julgamento e respeito às decisões da

mulher, ainda precisa melhorar em

todos os setores.

Ao contrário do que se acredita,

mais da metade das mulheres em situação

de violência procuram por ajuda.

Porém, como as suas necessidades ultrapassam

o que é oferecido pelos serviços

aos quais elas têm acesso, muitas

acabam desistindo desse processo.

Estudos mostram que o que é oferecido

por muitos desses serviços não

favorece a emancipação das mulheres,

pois há poucas ações além das abordagens

individuais. Dessa forma, perde-se

a dimensão de que, como a origem

da violência tem origens sociais, o seu

enfrentamento também precisa abordar

os aspectos envolvidos em sua

(re)produção.

Em tais serviços muitas práticas

também são cercadas de preconceitos

de gênero que prejudicam as condições

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

61


de acolhimento, escuta e diálogo que

poderiam ser estabelecidos entre profissionais

e mulheres. Padrões tradicionais

sobre o papel das mulheres (cuidadoras,

responsáveis, amáveis) e dos

homens (provedores, agressivos) são

multiplicados sem problematização.

Ademais, processos de trabalho burocráticos,

fragmentados e destituídos

de sentido dificultam que as relações

de trabalho gerem transformações.

Além disso, a cultura da prevenção

da violência ainda é escassa no Brasil.

Como não se cuida da origem do problema

os serviços ficam sobrecarregados

e a qualidade do cuidado oferecido

diminui.

Nesse contexto, muitos serviços

acabam reproduzindo a lógica da violência

através de dominação e cerceamento

das mulheres. Como a absorção

das demandas dos movimentos sociais

depende de muitas disputas éticas e

políticas, as mudanças ocorrem de forma

lenta e cíclica.

O isolamento e fragmentação dos

serviços e sua consequente sobrecarga,

geram nos profissionais sentimentos

de importância e desamparo diante

dos complexos casos de violência. Alienados

de seu trabalho e tomados por

preconceitos, os profissionais encontram

muita dificuldade em atuar de

forma articulada.

Divulgação Governo RS

Por isso, apesar da grande quantidade

de serviços existentes, muitas

mulheres ainda não conseguem encontrar

a ajuda que necessitam para

lidar com o problema da violência.

Os esforços das mulheres na busca

por ajuda serão mais efetivos quanto

melhor forem as respostas encontradas.

Por isso, a qualidade do cuidado recebido

é fundamental – encorajamento,

informações precisas, não julgamento

e respeito às decisões da mulher contribuem

para a continuidade da rota

de cuidado, enquanto o descaso, a burocracia

e a dificuldade de acesso são

grandes inibidores.

A violência, como negação da condição

de sujeito das mulheres, alijando-as

de seus referenciais de linguagem,

lugar e sentido social de si e de suas

possibilidades só pode ser enfrentada

a partir de uma construção coletiva,

partilhada entre as mulheres e os próprios

trabalhadores.;

1 - O feminicídio – ou femicídio - se refere às

mortes de mulheres decorrentes de conflitos de

gênero, ou seja, pelo simples fato de serem mulheres.

Estes crimes geralmente decorrem de situações

de abusos domiciliares, ameaças ou intimidação,

violência sexual ou situações de desigualdade de

poder com o homem.

Mariana Hasse - Psicóloga sanitarista, professora

da Faculdade de Medicina da Universidade Federal

de Uberlândia.

62 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Revista Elas por Elas - Agosto 2017

63


Mark Florest


“Tenho com quem

transar, mas não tenho

com quem me

relacionar. Sem ter

um namorado, me

vejo no lugar de uso.

Antes, pensava que

isso era um problema

meu, talvez porque

o meu cabelo

não fosse bonito…”


POR

RACISMO

Débora Junqueira

A solidão

sentida na pele

Afetividade e relacionamentos interraciais na

pauta do feminismo negro

“Tenho com quem transar, mas não

tenho com quem me relacionar. Sem

ter um namorado, me vejo no lugar de

uso. Antes, pensava que isso era um

problema meu, talvez porque o meu

cabelo não fosse bonito...”. Esse depoimento

é da enfermeira e educadora

Nath Sol (foto) que diz sentir na pele

o peso do olhar social sobre as mulheres

negras. “Hoje tenho a consciência de

que o problema de solidão das mulheres

negras ocorre em função de um contexto

histórico e acredito que isso somente

poderá mudar com as próximas

gerações se esse assunto, que é uma

ferida profunda, for debatido com toda

a sociedade”, afirma.

Nath, 31 anos, conta que diante da

dificuldade em compreender o motivo

de não conseguir parceiros para relacionamentos

afetivos mais duradoros,

passou a fazer psicoterapia e a participar

de conversas sobre o feminismo

negro. “Os homens querem transar

com a mulher negra que carrrega consigo

o estereótipo de gostosa e boa de

cama. No entanto, para um relacionamento

sério, eles não costumam se interessar

tanto. Esse racismo tem a ver

com os resquícios da escravidão. A menina

branca com o mesmo poder aquisitivo

que eu é vista como mais rica e

os homens, quando estão em um patamar

social maior escolhem uma mulher

loira para se relacionar, como sinal

de status. A mulher negra só é escolhida

no final da festa”, desabafa.

“Consigo expressar sobre a minha

solidão na internet. Participo de um

grupo no Facebook (fechado) só com

mulheres negras que discutem esse

tema e expressam suas angústias, abusos

e casos de rejeição. Ser mal recebida

numa loja por ser negra não é fácil. O

grupo é uma tentativa de acolhimento”,

conta, citando que há outros grupos

na internet como o Afrodengo e o Pretinder,

que focam na paquera virtual

entre pessoas negras.

O Censo de 2010 revelou que as

mulheres negras são as que menos se

casam, sendo a maioria na categoria

de “celibato definitivo”, ou seja, que

nunca tiveram um cônjuge. Uma análise

de dados do Censo de 1960-1980, feita

pela pesquisadora Elza Berquió, já constatava

esse fenômeno. No texto Nupcialidade

da população negra no Brasil

(nº 11/1987), do Núcleo de Estudos de

População (NEPO/ Unicamp) a autora

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

65


elata que, em relação à união, as mulheres

brancas são aquelas que mais

se casam se comparada com as mulheres

negras (pretas e pardas), sendo

as negras a maioria entre as mulheres

solteiras, viúvas e separadas. Outro aspecto

importante encontrado na pesquisa

revelou que as mulheres negras

são as que se casam (uniões consensuais)

mais tardiamente e com menor

intensidade se comparado às mulheres

brancas, aos homens brancos e negros.

O que confirma, segundo a autora, um

alto índice de celibato entre as pretas

e pardas, mesmo havendo um excesso

de homens no grupo racial negro. Berquió

atribui este fator ao excesso de

mulheres no grupo racial branco, mas

tal argumento torna-se insuficiente

para se entender as preferências afetivas

na opinião da pesquisadora Ana

Cláudia Lemos, autora da tese de doutorado

em Ciências Sociais (disponível

em https://goo.gl/DcQWaC) Branca

para casar, mulata para f..., negra para

trabalhar: escolhas afetivas e significados

de solidão entre mulheres negras

em Salvador, Bahia.

Coletivo Amapoa

Construção social

Na tese são citados diversos dados

e argumentos que comprovam a existência

de um fenômeno social que envolve

os relacionamentos interraciais.

“Em relação aos relacionamentos interraciais,

as pesquisas citadas pela

autora demonstravam que a miscigenação

tem sido mais realizada por

parte dos homens negros com parceiras

brancas ou com mulheres de pele clara

do que ao contrário, ou seja, as negras

quando se casam, casam-se dentro do

seu próprio grupo racial. Outro elemento

importante encontrado é de

que as escolhas matrimoniais entre os

grupos raciais diferenciados dar-seiam

conforme o status social. Homens

negros têm preferência por se casar

com mulheres brancas cujo status social

é inferior ao seu, ou seja, homens

negros que adquiriram algum tipo de

prestígio social, econômico ou educacional

casavam-se com mulheres brancas

pobres, com baixo grau de instrução”,

explica a autora.

“Os ditos populares 'branca para

casar, mulata para f.... e negra para trabalhar',

que foram evocados e legitimados

na obra freyreana [Casa Grande

& Senzala, de Gilberto Freyre], funcionam

como elementos estruturantes

das práticas sociais e afetivas dos indivíduos.

Tanto assim que a miscigenação

brasileira é uma prática cultural

que se realiza muito mais pela preferência

afetivo-conjugal de homens negros

por mulheres brancas, do que ao

contrário, como atestam alguns estudos,

o que contraria o modelo freyreano

de uma democratização das

relações sexual–raciais no Brasil.

Como foi visto, para alguns autores, a

miscigenação foi uma violência física

66 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


e simbólica, característica da ordem

escravocrata”, conclui Lemos.

Ana Cláudia Lemos afirma que as

mulheres negras investigadas nos estudos

tentaram burlar a solidão, isto é,

a ausência de parceiros, atribuindolhes

significações produzidas numa

rede de emaranhados de categorias que

denotam maneiras de pensar e de negociar

às suas escolhas, na busca por

outros caminhos e novos espaços sociais.

“Esses espaços se materializaram no

trabalho, na família, na política, na comunidade,

no bairro, na escola, no sindicato,

na religião; produziram novas

redes de relações sociais, redefinindoas,

quebrando tabus, lutando contra a

opressão, politizando os seus corpos

por meio de novos contextos”, diz.

Divulgação

Nem bela, nem recatada

“As mulheres negras têm dificuldades

de formar um lar e encontrar

um amor”, afirma a professora Johanna

Monagreda, pesquisadora no Núcleo

de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher

(Nepem/ UFMG). “Por mais que pareça


Construíram-se

estereótipos como

se o corpo da mulher

negra fosse público,

de fácil acesso.”

banal, amar é uma parte constitutiva

do ser, mas com todos os estereótipos

que há sobre a mulher negra é muito

mais difícil pra ela encontrar um parceiro,

se casar e formar um lar. Existe

um conjunto de ideias sobre a mulher

negra, construídos na escravidão, como

parte da estratégia de dominação. Construíram-se

estereótipos como se o corpo

da mulher negra fosse público, de

fácil acesso. A mulher negra não é considerada

bela, nem recatada, nem do

lar. Então elas sofrem por serem consideradas

pessoas de um corpo fácil,

como se você não precisasse se comprometer”,

analisa. Para combater isso,

Johanna acredita que, como os espaços

de ignorância são preenchidos com

preconceitos e estereótipos, portanto,

“é necessário reconhecer a problemática

com uma conversa franca sem a

negação desses estereótipos”.

Para a feminista e mestra em filosofia,

Djamila Ribeiro (foto), a concepção

racista da sociedade faz com

que as mulheres negras sejam rejeitadas.

No depoimento em vídeo (TV Boitempo

– junho/16) sobre relações interraciais

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

67


Marcha das Mulheres Negras contra o racismo e a violência, 2015

e a solidão da mulher, ela discute a delicada

questão das relações interraciais

da perspectiva do feminismo negro.

Djamila explica que existe um processo

histórico que desumaniza a mulher negra

e a coloca como um sujeito que não

é digno de ser amado e, ainda, que as

mulheres negras não querem ser vistas

somente como parceiras sexuais. Sobre

os relacionamentos interraciais, ela

acredita que existe uma construção social

e que esse tema não pode ser discutido

no campo individual.

“Desde o período colonial, a mulher

negra é objetificada e ultrassexualizada.

A miscigenação brasileira

é fruto de estupro dessas mulheres.

Ao mesmo tempo, a mulher branca é

colocada como a bonita, o padrão de

beleza e a que merece ser amada. O

homem negro absorve os valores

dessa sociedade e os internaliza como

verdade, portanto, vai achar que estar

com uma mulher branca vai dar a ele

um certo status. Ninguém pode dizer

que as pessoas não podem se amar e

se relacionar. A gente não está falando

do indivíduo e sim que existe

uma estrutura que faz com que as

mulheres negras sejam preteridas.

Quando você tem um grupo tão

grande que não se casa, então o problema

não é individual. É um problema

estrutural. O gosto é

construído, portanto existe um sujeito

que é construído para ser amado

e o que não é. Não queremos impedir

os relacionamentos interraciais. Às

vezes, a reação de uma mulher negra

quando vê um homem negro com

uma mulher branca pode ser entendida

como raiva, de certa forma, elas

sentem uma rejeição. É preciso entender

que existe uma construção social

em cima disso e de forma alguma

68 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


a gente pode discutir isso no campo

do indivíduo”, explica a feminista.

No artigo “Por que as mulheres negras

são minoria no mercado matrimonial”,

publicado no site Geledés em

21/05/2015, a autora Clarice Fortunato

Araújo, pesquisadora da Universidade

Federal de Santa Catarina – UFSC, cita

várias fontes para ampliar a discussão

sobre o tema dos relacionamentos interraciais.

Para ela, a oficialização da

união é importante, não apenas por

questões afetivas, mas, principalmente,

por questões legais, como planejamento

familiar, divisões de bens,

Lula Marques

entre outros. Ainda que a mulher, para

ser feliz, não tenha que, necessariamente,

se casar dentro dos padrões tradicionais,

quando ela faz esta opção, a

cor da sua pele não deveria ser uma

desvantagem nesse processo.

“A reflexão mais importante que

fica é que a mulher negra precisa se libertar

e celebrar essa liberdade, entendendo

que são bonitas, atraentes,

fortes, inteligentes e poderosas, mas

esse poder e força estão intrinsecamente

ligados ao fato de ser mulher

negra. E, como mulheres, merecem

ser amadas e respeitadas, independentemente

da sua cor. Enfim, a mulher

negra, que se sente no dilema de

ser preterida, não tem que passar por

um processo de embranquecimento

para ser aceita. O que precisa urgentemente

mudar é a cultura, pois esta não

representa um povo e suas diversidades.

Um país tão grande, plural e com

realidades tão distintas não deve ser

compreendido em um padrão colonialista,

escravocrata e arcaico”, opina.


A mulher

negra precisa

se libertar. e

celebrar essa

liberdade”

Feminismo

negro:

visibilidade

para a

opressão de

gênero e raça

A discussão sobre os relacionamentos

interraciais se soma às mais diversas

pautas do feminismo negro. Movimento

social protagonizado por mulheres negras

para dar visibilidade às suas causas

e reivindicar seus direitos.

No Brasil, o Feminismo Negro iniciou-se

na década de 1970, a partir de

uma forte demanda das mulheres negras

feministas. Como descreve a escritora

Jarid Arraes no artigo “Feminismo

Negro: sobre minorias dentro

da minoria” (publicado no site da Revista

Fórum), o movimento negro tinha

sua face sexista, as relações de gênero

funcionavam como fortes repressoras

da autonomia feminina e impediam

que as ativistas negras ocupassem posições

de igualdade junto aos homens

negros; por outro lado, o movimento

feminista tinha sua face racista, preterindo

as discussões de recorte racial

e privilegiando as pautas que contemplavam

somente as mulheres brancas.

Segundo ela, as necessidades das mulheres

negras são muito peculiares e

sem que seja feita uma profunda análise

do racismo brasileiro, é impossível

atender às urgências do grupo.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

69


“O problema da mulher negra se encontrava

na falta de representação pelos

movimentos sociais hegemônicos. Enquanto

as mulheres brancas buscavam

equiparar direitos civis com os homens

brancos, mulheres negras carregavam

nas costas o peso da escravatura, ainda

relegadas à posição de subordinadas;

porém, essa subordinação não se limitava

à figura masculina, pois a mulher

negra também estava em posição servil

perante a mulher branca. A partir dessa

percepção, a conscientização a respeito

das diferenças femininas foi ganhando

cada vez mais corpo. Grandes nomes

da militância feminina negra foram fazendo

história, a exemplo de Lélia Gonzalez

e Sueli Carneiro. A atenção e a

produção de conteúdos foram dedicadas

a discussões de raça e classe, buscando

romper uma zona de conforto que o

ativismo feminista branco cultivava, especialmente

aquele que limitava sua

ótica aos problemas das mulheres de

boa condição financeira e acesso à educação”,

analisa Jarid.

A pesquisadora e membro do programa

Ações Afirmativas da UFMG,

Vanda Lúcia Praxedes, explica que, a

partir da década de 80, houve uma organização

mais sistemática dos grupos

de mulheres negras. Ela considera um

dos marcos do feminismo negro, o III

Encontro Feminista Latino-Americano

e do Caribe, realizado em Bertioga-SP,

em 1985, quando as mulheres negras

questionaram o papel da questão racial

e começaram a enfatizar a importância

de pensar essa temática com a questão

de gênero. Em 1988, houve avanços

com a constituinte no Brasil e depois

com a III Conferência Mundial contra

o Racismo, a Discriminação Racial, a

Xenofobia e formas Conexas de Intolerância

(Durban, 2001).

“O feminismo negro traz para o movimento

feminista um grande questionamento

que eu chamo de deslocamento

teórico epistemológico, trazendo

o conceito de intersecionalidade. Não

se pode pensar a primazia de uma

opressão sobre a outra. A interseção

entre gênero e raça é fundamental para

compreender a diferença entre as mulheres.

Há vários elementos que diferenciam

as mulheres negras e brancas.

Do ponto de vista do trabalho a trajetória

delas é muito diferente. As negras

são mais desrespeitadas e desvalorizadas

se observadas as condições objetivas

de existência. Na educação, por

exemplo no ensino superior, as condições

das professoras negras e brancas

são diferenciadas. A negra sofre com

o racismo institucional, com dificuldade

de acesso aos cargos de chefia”, explica.

Para Natália Alves, militante feminista

e pesquisadora da UFMG, o feminismo

negro traz uma visibilidade fundamental

para a opressão de gênero e

racial. “Na década de 60, a partir da segunda

onda do feminismo, as mulheres

negras que participavam desse movimento

disseram: somos todas mulheres,

mas a questão de raça, renda e classe é

uma diferença entre nós”, ressalta. A

feminista lembra que muitas mulheres

usaram o emprego de outras mulheres,

como no serviço doméstico onde há

predominância de mulheres negras e

pobres, para poder se emancipar.

Marcelo Casal/AgBrasil

70 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


O peso da cor nas estatísticas

Mercado de trabalho

Enquanto mulheres brancas lutam

para que seus salários sejam equiparados

aos salários dos homens

brancos, as mulheres negras recebem

ainda menos (- 40%). Outra

face perversa do racismo atrelado

ao sexismo é a jornada tripla de

trabalho. As trabalhadoras se distanciam

de seus lares e filhos para

que possam prover sustento, muitas

vezes cuidando dos filhos das

mulheres com melhor condição

financeira, e, por não possuírem

os recursos, não podem contratar

alguém para prestar assistência

às crianças e fazer manutenção

em suas próprias casas. As creches

não atendem à demanda e

as funções das mulheres pobres

se acumulam.

Educação

Conforme o censo do ensino superior,

há um entrada majoritária

de mulheres em relação aos homens

no ensino superior, mas permanece

uma diferença de entrada

de mulheres brancas e negras,

que são minoria. Na universidade

há um número pequeno de professoras

negras, mesmo com muitas

mulheres professoras.

Aborto e direitos

reprodutivos

No Brasil, o aborto é legal e gratuito

somente se a gravidez for

gerada por um estupro, causar

risco de morte para a mãe ou no

caso do feto ser anencéfalo. Apesar

disso, mulheres negras e pobres

encontram resistência do

sistema de saúde, sendo coagidas

por equipes médicas e por religiosos

de suas comunidades. Por

não contarem com suporte e não

terem recursos financeiros que

paguem clínicas particulares, muitas

dessas mulheres jamais conseguem

realizar o aborto. Por causa

das complicações geradas por

abortos clandestinos, as mulheres


As negras são

mais de 60% das

vítimas de feminicídio,

exatamente

porque

não contam com

assistência adequada

e estão

mais vulneráveis

aos abusos

das próprias autoridades.

negras morrem em números altíssimos

e também estão mais

vulneráveis ao indiciamento criminal,

caso sobrevivam.

Violência doméstica

e sexual

Os homicídios de mulheres negras

aumentaram 54% em dez anos no

Brasil. Em contraposição, no mesmo

período, de 2003 a 2013, o número

de assassinatos de mulheres

brancas caiu 9,8%. Esses dados

fazem parte do Mapa da Violência

2015: Homicídios de Mulheres no

Brasil, um estudo da Faculdade

Latino-Americana de Ciências Sociais.

As negras são mais de 60%

das vítimas de feminicídio, exatamente

porque não contam com

assistência adequada e estão mais

vulneráveis aos abusos das próprias

autoridades.

Padrão de beleza

e mídia

Cabelos lisos e loiros, narizes finos,

bochechas rosadas, olhos azuis

e axilas claras são alguns exemplos

de como a estética ocidental

celebra características brancas

como melhores e mais belas. Por

causa dessa padronização, atrizes

negras são minoria absoluta e

quase nunca são convidadas para

estrelarem na televisão.

Fontes: IBGE, IPEA e OIT. Artigo de Jarid Arraes:

Feminismo Negro: sobre minorias dentro da minoria

(Revista Fórum)

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

71


Racismo e

sexismo não

escolhem

lugar

Mark Florest

A professora Ângela Gomes (foto)

lembra que uma das primeiras bandeiras

do movimento feminista negro

foi a melhoria das condições de trabalho

das empregadas domésticas. “Não

há como a gente fazer um feminismo

que coloque nas ruas e no mercado de

trabalho as mulheres, tendo uma segunda

mulher escravizada dentro de

casa”, sentencia.

Ela lembra, ainda, de outras lutas

como a do fim da exigência da “boa

aparência” na seleção de trabalho. “Esse

quesito representava uma estética racista

em um país que enaltece a aparência

de pele clara e cabelo pra baixo

e nariz fino”, explica. Em 1978, o movimento

negro unificado conseguiu que

o racismo fosse considerado um crime

inafiançável.

Ângela ressalta que, no mercado de

trabalho, as mulheres negras ganham

40% menos que as brancas nas mesmas

condições e com curso superior. “Quantas

chefes ou médicas negras você já

teve na vida? Sexismo de mercado,

simbólico, continua considerando que

as mulheres negras são escravas e não

que foram escravizadas. E pensam que

o lugar dela é só no trabalho doméstico,

com um salário inferior”, afirma.

“Hoje as mulheres negras, principalmente

do ponto de vista político,

estão mais organizadas em fóruns e

articulações, assim como no movimento

negro unificado, que é um dos primeiros

movimentos contra o racismo

e o capitalismo e que evidencia que o

Brasil tem uma ferida aberta e uma

dívida histórica com os negros desse

país oriundos da África”, afirma.

Conforme afirma o sociólogo Carlos

Hasenbalg, pesquisador argentino

nas áreas de relações raciais, estratificação

social e mobilidade social, há

um legado escravista como por exemplo

o analfabetismo maciço e a concetração

demográfica dos escravos, no

entanto, isso não é um fator determinante

para a subordinação social dos

negros. Ele afirma serem o racismo e a

discriminação social os fatores principais

para tal subordinação. Para o

autor, a discriminação e o preconceito

têm uma relação funcional com a preservação

dos privilégios (ganhos materiais

e simbólicos) que os brancos

obtêm da desqualificação competitiva

dos não brancos.

A realidade é que a organização das

mulheres negras tem conseguido unir

as lutas contra o racismo e o sexismo

com o objetivo de dar visibilidade às

questões de etnia e gênero. Dentro de

um contexto onde o capitalismo restringe

grandes mudanças para a redução

das desigualdades, esse movimento

é fundamental para avanços

civilizatórios.;

72 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Aqui você ouve, durante 24 horas, música de

qualidade e fica em sintonia com temas atuais sobre

educação, trabalho, política, cidadania, meio ambiente,

cultura e pautas sociais. Um espaço com muita

participação dos professores.

www.sinprominas.org.br/radio-sinpro/

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

73


Internet


POR

FEMINISMO

Débora Junqueira

Quem tem medo

da linguagem

não-sexista?

Manual mostra como a linguagem pode reforçar

ou combater estereótipos de gênero

Como expressar uma linguagem

que não reproduza o machismo da sociedade?

A partir dessa preocupação

é possível constatar a grafia de “x” ,“@”

ou “a/o” para representar as letras que

marcam os gêneros feminino e masculino

em alguns textos escritos. Na

expressão oral, o machismo, que costuma

transparecer em frases cotidianas,

também pode ser combatido com expressões

que tiram o gênero feminino

da invisibilidade.

A discussão sobre esse tema não é

nova no universo feminista, mas o uso

de alternativas para quebrar os preconceitos

de gênero a partir da linguagem

não-sexista ainda gera polêmica

e desconforto. Um exemplo foi quando

Dilma Rousseff tomou posse e pediu

para ser chamada de presidenta. Alguns

veículos da mídia se recusaram a usar

o termo e a criticaram, dizendo que

era coisa de feminista, mesmo com

linguistas explicando que o uso estava

correto. A palavra “presidenta“ foi dicionarizada

desde 1812 e é mais antiga

e tradicional em português que a forma

neutra “a presidente“, apenas dicionarizada

a partir de 1940.

No Sinpro Minas, também logo após

a atual presidenta Valéria Morato tomar

posse e enviar uma comunicado por

e-mail, assinando como “presidenta”,

um sindicalizado retornou o e-mail

questionando o uso do termo. O Sinpro

Minas, assim como outras entidades

sindicais do país, utilizam a linguagem

não-sexista com o objetivo de dar visibilidade

às questões de gênero.

O Sinpro é filiado à Central dos Trabalhadores

e Trabalhadoras do Brasil

(CTB). A única central sindical brasileira

que expõe no próprio nome a

afirmação de gênero. “A linguagem

pode ser usada para reforçar padrões

de comportamento tipicamente patriarcais

dentro de uma sociedade em

sua maioria composta por mulheres,

ou para libertar as mulheres, explicitando

suas diferenças. Neste sentido,

aconteceu o debate sobre o nome da

Central quando a entidade estava para

ser criada. Foi importante incluir essa

questão para mostrar que a trabalha-

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

75


dora não estaria só na condição de representada,

mas, sim de protagonista”,

afirma Ivânia Pereira da Silva, secretária

de gênero da CTB.

Segundo ela, a Central, além de

afirmar sua identidade de classe, também

reafirma o seu compromisso com

a emancipação feminina no rumo à

igualdade de gênero. “No início, incluir

‘trabalhadora’ no nome da Central

causou estranheza e resistência. Alguns

até falaram que a entidade não

‘decolaria’ porque o nome era muito

grande, mas a CTB completou seus

dez anos de fundação, cumprindo um

papel relevante e propulsor da unidade

da classe trabalhadora para o enfrentamento

ao Capital e às ameaças

antidemocráticas. E conquistamos espaços

importantes como uma titularidade

do Conselho Nacional dos

Direitos da Mulher”, afirma.

Segundo Ana Maria Colling (foto),

doutora em História do Brasil, organizadora

do Dicionário Crítico de Gênero

(UFGD, 2015), um dos campos privilegiados

de luta por igualdade e de difícil

mudança na relação de poder entre os

sexos, construído historicamente, é o

campo da linguagem, que ocupa um

lugar central na resistência às mudanças.

“Falar de 'eles' é falar de eles e

elas, mas falar de 'elas' jamais é falar

de eles e elas”, opina a pesquisadora

no artigo “Substituição de marcadores

de gênero na linguagem escrita busca

diminuir preconceitos”, publicado no

Jornal Zero Hora (03/10/15).

No artigo, a autora cita que no colégio

Pedro II do Rio de janeiro, o “x”

no lugar das letras “a” e “o” já está presente

nos avisos institucionais em murais

e cabeçalhos de provas. Demanda

que partiu do grêmio estudantil com a

Arquivo pessoal

aceitação de alguns professores que

incorporaram as mudanças em suas

provas. “Tenho clareza que o “x” e a

“@” não irão modificar as relações de

poder entre os sexos e nem irão acabar

de vez com a desqualificação de um

em relação ao outro. Mas tenho a esperança

de que o uso da linguagem

não-sexista possa contribuir como um

alerta para a desigualdade. Saber que

existe um eu e que existe um outro,

que pode ser de gênero diferente do

meu, já é um primeiro passo” conclui.

Estudos sobre o tema têm mostrado

que a linguagem pode ser utilizada

para reforçar estereótipos impostos

culturalmente. A linguagem sexista,

utilizada de forma irrestrita, impõenos

que o masculino (homem) é empregado

como norma, ficando o feminino

(mulheres) incluído como referência

ao discurso masculinizado. Diante

da importância da linguagem como

terreno para marcar a equidade de gênero

fica a pergunta. Como colocar em

prática um tipo de linguagem que recuse

o masculino como um termo neutro

para substituir o feminino?

Manual da linguagem

não-sexista

Editado pelo Governo do Rio Grande

do Sul e Secretaria Especial para as

Mulheres, em 2014, o “Manual para o

uso não sexista da linguagem - O que

bem se diz bem se entende” traz inúmeras

dicas de como fazer isso e traz

o entendimento de que a linguagem é

um dos agentes de socialização de gênero

mais importantes ao moldar nosso

pensamento e transmitir uma discriminação

por motivo de sexo. O Manual

afirma que a língua tem um valor sim-

76 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


ólico enorme, pois o que não se nomeia

não existe, e durante muito tempo,

ao utilizar uma linguagem androcêntrica

e sexista, as mulheres não existiram

e foram discriminadas.

“Foi nos ensinado que a única opção

é ver o mundo com olhos masculinos,

mas essa opção oculta os olhos femininos.

Não é, portanto, incorreto, ou

uma repetição, nomear em masculino

e feminino, isso não supõe uma duplicação

da linguagem posto que, como

afirmam Carmen Alario et alii, duplicar

é fazer uma cópia igual a outra e esse

não é o caso. É simplesmente um ato

de justiça, de direitos, de liberdade. É

necessário nomear as mulheres, torná-las

visíveis como protagonistas de

suas vidas e não vê-las apenas no papel

de subordinadas ou humilhadas. É necessária

uma mudança no uso atual

da linguagem de forma que apresente

Ivânia (esquerda) em evento com a participação do presidente

da CTB (Adilson Araújo)

Arquivo pessoal


É necessário

nomear as mulheres,

torná-las visíveis

como protagonistas

de suas vidas”

equitativamente as mulheres e os homens.

E para isso, qualquer língua, ao

estar em contínua mudança, oferece

inúmeras possibilidades”, resume a

apresentação do manual, elaborado a

partir do Manual da Red de Educación

Popular Entre Mujeres de Latinoamérica

y Caribe – REPEM-LAC.

Conforme define o documento, na

atualidade não existe qualquer sociedade

no mundo onde mulheres e homens

recebam um tratamento equitativo, pois

se constata uma discriminação generalizada

para elas em todos os âmbitos

da sociedade. Essa discriminação, sustentada

unicamente no fato de ter nascido

com um determinado sexo (mulher),

atravessa categorias sociais como

o nível socioeconômico, a idade ou a

etnia à que se pertença e se transmite

por meio de formas mais ou menos

sutis que impregnam nossa vida.

Linguagem como

construção social

A avaliação é que uma das formas

mais sutis de transmitir essa discriminação

é através da língua, que não

só reflete, mas também transmite e

reforça os estereótipos e papéis considerados

adequados para mulheres e

homens em uma sociedade. O Manual

traz algumas frases cotidianas que demonstram

isso. Quem nunca escutou

“mulher no volante, perigo constante”,

“os filhos são o que suas mães fizeram

deles”, “em briga de marido e mulher

não se mete a colher” e “mulher não

fica velha, fica loira”. “Existe um uso

sexista da língua na expressão oral e

escrita (nas conversações informais e

nos documentos oficiais) que transmite

e reforça as relações assimétricas, hierárquicas

e não equitativas que se dão

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

77


entre os sexos em cada sociedade e

que é utilizado em todos os seus âmbitos.

Mas a linguagem não é algo natural

e sim uma construção social e

histórica, que varia de uma cultura

para outra, que se aprende e que se

ensina, que forma nossa maneira de

pensar e de perceber a realidade, o

mundo que nos rodeia e o que é mais

importante: pode ser modificada”, destaca

o Manual.

Segundo a pesquisadora Teresa

Meana, citada no “Manual para o uso

não sexista da linguagem”, o androcentrismo

é o enfoque nas pesquisas e estudos

de uma única perspectiva: a do

sexo masculino. Supõe, segundo esta

autora, “considerar os homens como o

centro e a medida de todas as coisas. Os

homens são considerados, assim, os

sujeitos de referência e as mulheres

seres dependentes e subordinados a

eles”. Esse androcentrismo se manifesta

graças à desigualdade na ordem

das palavras, no conteúdo semântico

de certos vocábulos ou no uso do masculino

como genérico para ambos os

sexos. Fazendo referência a isso, é preciso

assinalar que o que não se nomeia

não existe e utilizar o masculino como

genérico tornou invisível a presença

das mulheres na história, na vida cotidiana,

no mundo. Basta analisar frases

como: “Os homens lutaram na revolução

francesa por um mundo mais justo,

marcado pela liberdade, igualdade e

fraternidade”. E as mulheres? Onde

ficam nessa luta? Não nos enganemos:

quando se utiliza o genérico está se

pensando nos homens e não é certo

que ele inclua as mulheres. A esse respeito,

Teresa Meana diz que “não sabemos

se atrás da palavra homem se está

pretendendo englobar as mulheres. Se

for assim, elas ficam invisíveis e se não

for assim, ficam excluídas”.

Outro aspecto que merece reflexão,

são as zombarias, piadas e depreciações

da proposta sobre a linguagem nãosexista.

No texto, os autores lembram

que há quem se dedique a fazer brincadeiras

como: “Os empregados e as

empregadas, baianos e baianas, estão

insatisfeitos e insatisfeitas, por serem

convidados e convidadas, e inclusive

obrigados e obrigadas, a declarar-se

católicos e católicas”. Ou alguma autoridade

que, querendo ser engraçado

ou parecer feminista, ao fazer seu discurso

diz que vai falar em feminino e

fala de si mesmo como se fosse mulher.

Evidentemente, quando o Senhor presidente

se refere a si mesmo dizendo

“eu estou surpreendida” o que produz

são risos e um desprezo pelo tema que

não corresponde de maneira alguma

com o respeito às pessoas, sua diferença

e seus direitos”.

O Manual destaca que o que se pretende

ao promover um uso não-sexista

da linguagem, não é que se inverta o

uso do masculino pelo feminino. “Nenhuma

feminista quer impor aos homens

a invisibilidade, a desvalorização

ou a discriminação que as mulheres

têm sofrido. Trata-se simplesmente de

promover uma linguagem adequada à

realidade sem negar qualquer pessoa”.

Internet

Cristina Kirchner, Michelle Bachelet e Dilma Rousseff, mulheres

no cargo de presidenta na América Latina.

78 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Mudanças sugeridas

pelo Manual para o uso não

sexista da linguagem

IFG

• Não usar o feminino para a questão

privada ou que denote posse das mulheres:

“a mulher do Pedro”; “deu a mão de

sua filha”. As pessoas não se possuem,

explica.

• Não usar frases estereotipadas que consolidem

papéis tradicionais: “a galinha

protege seus pintinhos”; “se queria

trabalhar, por que teve filhos?”

• Não usar o masculino como universal:

“o mundo é dos homens”; “a origem do

homem”; “os jovens de hoje”.

• Não manifestar fórmulas de tratamento

que implicam inferioridade, menosprezo

ou desvalorização: “Médicos e enfermeiras

que deixam seu lar para ajudar

as pessoas no Haiti”

• Evitar o silêncio que é a invisibilidade e

deixar de usar supostos genéricos que

são masculinos.

“Serviços ao cidadão, Direitos do Cidadão,

Direitos do Consumidor”.

“Os estudiosos acreditam que, uma

vez que o homem da Idade da Pedra

ainda...”

• Não incorrer em estereotipia e/ou

saltos semânticos começando a falar em

masculino como se fosse genérico e continuar

com uma frase que se refere só ao

masculino.

“O gaúcho gosta de churrasco, chimarrão,

fandango, trago e mulher”.

“Os indígenas que trabalham a terra

contam com a ajuda das mulheres

da comunidade”.

A explicação é que as coisas nomeadas

pela língua possuem um gênero

gramatical que não tem relação alguma

com o sexo das pessoas. Assim, as palavras

lua, casa, serra têm gênero feminino

e as palavras lar, mato, planeta

são masculinas. Inclusive há palavras

que se podem usar no masculino e feminino

indistintamente como rádio,

atleta, fã. Também é óbvio que as palavras

que denominam mulheres e homens

têm coincidência entre gênero

gramatical e o sexo das pessoas às quais

nomeia: professora, camponesa, cidadã,

meninas - o gênero feminino coincide

com o sexo da pessoa nomeada.

O documento conclui que se há palavras

adequadas para nomear cada

pessoa, usar o masculino para nomear

as mulheres é, no mínimo, ocultar a

realidade. “Mas, além disso, há que

dizer às pessoas que resistem a falar

com propriedade, e preferem o costume

e o uso tradicional da língua que, segundo

as regras gramaticais, tampouco

é correto utilizar o masculino para se

referir ao feminino. Há toda uma série

de matizes, opções e exceções que formam

parte da gramática normativa

para que a linguagem seja precisa e

adequada, isto é, clara, transparente,

não discriminatória e inclusiva. Não

podemos argumentar a favor do uso

do masculino como neutro ou genérico,

primeiro porque não existem substantivos

neutros para as pessoas. E segundo,

e mais importante, porque manter

em uso qualquer forma irreal de

representação do mundo, da vida cotidiana

e das pessoas, é tendenciosa e

prejudicial para o conjunto da sociedade,

uma vez que constrói no imaginário

coletivo ideias e imagens falsas

do seu entorno”.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

79


Genéricos reais são:

Em lugar de:

Os meninos

Os homens

Os cidadãos

Os trabalhadores

Os professores

Os eleitores

Os jovens

Os homens

Redação excludente

Os indígenas terão crédito

Os jovens que desejam estudar

Os interessados em participar

Os maiores de idade receberão uma

Os meninos terão atenção médica

Utilizar:

As crianças / A infância

A população / O povo

A cidadania

O pessoal

O professorado / O corpo docente

O eleitorado

A juventude

A humanidade

Redação inclusiva

A população indígena terá crédito

A juventude que deseja estudar

As pessoas interessadas em

participar

As pessoas maiores receberão uma

As crianças terão atenção médica,

ou as meninas e os meninos terão

atenção médica

Recomendações de

uso da linguagem

não-sexista

– Não usar formas sexistas

ou androcêntricas. Tornar

visíveis as mulheres e, portanto,

não usar o masculino

como genérico (o masculino

é masculino, não é

genérico).

– Quando se fizer uma oferta

de emprego deve aparecer

o feminino e o masculino.

Preferentemente, como

uma ação positiva,

colocar sempre primeiro

o feminino e depois o

masculino.

– Enquanto a linguagem

continuar carregada de estereótipos,

não convém dissimular

a visibilidade das

mulheres. Por isso é importante

evitar as barras diagonais:

“oferece-se trabalho a

costureira/o”. Não se devem

usar parênteses “buscamos

um(a) advogado(a)”.

Nesse mesmo sentido é

preciso eliminar os símbolos

que não são legíveis ou

que não é verdadeiramente

representação do feminino:

querid@s amig@s ou todxs

juntxs.

Fonte: Manual para uso não sexista

da linguagem -

www.spm.rs.gov.br

80 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


OUTUBRO ROSA AINDA ESTÁ LONGE,

MAS NUNCA É CEDO

Essa luta é de todas e todos

CUIDE-SE, AME-SE!

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

81


POR

ARTIGO

Véronique Durand

Aborto:

uma questão

além do

bem

e do

mal


O aborto é definido como a interrupção,

antes do termo, do processo

de gestação, ou seja do desenvolvimento

que começa com a concepção pela fecundação

de um óvulo por um espermatozoide,

formando assim um ovo

que continua pelo crescimento do embrião

e depois do feto e que finaliza,

no termo, pelo nascimento de um novo

indivíduo da espécie.

Nasci na França, em 1958. Em 1974,

a então ministra da saúde, Simone Veil,

foi encarregada pelo Presidente da República

de propor um projeto de lei

para descriminalizar o aborto. Os debates

na Assembleia Legislativa duraram

três dias e duas noites; foram muito

tempestuosos; ela foi agredida verbalmente

durante todo o tempo, mas não

se ausentou, nem respondeu aos ataques.

Terminou a fala dizendo: “quero

compartilhar uma convicção de mulher.

Peço desculpas por fazê-lo frente a essa

Assembleia quase exclusivamente composta

por homens: nenhuma mulher

recorre ao aborto com alegria no coração.

Basta ouvir as mulheres...”

Então cresci com essa ideia de direito

adquirido, no campo da saúde e

da saúde reprodutiva, e considero a

Interrupção Voluntária de Gravidez

um direito da mulher. Até descobrir

que, em vários países, é crime. Nenhuma

mulher pensa em abortar. O aborto

é a solução última quando não se tem

outra solução. É a resposta a uma gravidez

impossível.

Falamos de aborto a risco quando

a gravidez é interrompida por pessoas

que não têm competências necessárias

ou quando o aborto é praticado num

ambiente onde as normas médicas mínimas

não são aplicadas. Esses abortos

a risco dizem respeito a uma mulher

sobre duas. (OMS)

Aconteceriam 20 milhões de abortos

a riscos a cada ano, no mundo. É muito

difícil medir a mortalidade como consequência

de um aborto ilegal. 97% deles

seriam em países em desenvolvimento

(World Health Organization, 2004).

No Brasil, mais de 2.000 mulheres

abortam todos os dias. A legislação

que criminaliza o procedimento é do

Código Penal de 1940, e é incompatível

com o direito de igualdade de gênero

garantido às mulheres na Constituição

de 1988. Hoje, abortar é crime.

O que diz a lei?

O decreto lei 2848/40 declara no

artigo 140: A mulher grávida que der

consentimento ao aborto praticado por

terceiro ou que, por fato próprio ou

alheio, se fizer abortar, é punida com

pena de prisão até 3 anos.

Toda mulher cuja gravidez não foi

desejada e que não pode ter acesso ao

aborto seguro encontra-se exposta ao

risco. As mulheres pobres têm uma

probabilidade maior de sofrer um


No Brasil, mais

de 2.000 mulheres

abortam todos

os dias.”

aborto a risco do que as que têm como

pagar. Além disso, o aborto é praticado

em um estágio tardio da gravidez,

assim a proporção de óbito e de traumas

aumenta.

Na maioria dos casos, as mulheres

sem renda, confrontadas a uma gravidez

não desejada, provocam elas mesmas

o próprio aborto ou consultam

uma pessoa que não tem formação

médica, colocando assim a sua saúde

em perigo e aumentando o risco de

internação por causa das complicações.

O fato de poder recorrer a um aborto

seguro e com preço razoável terá também

consequências sobre a situação

financeira dessas mulheres e/ou da

sua família e pode ser considerado

como um eixo de luta contra a pobreza.

Os riscos associados aos abortos

têm a ver com o caráter legal desse

ato: assim, segundo a OMS, nos países

em desenvolvimento, o risco de mortalidade

depois de um aborto é de 4 a

6 óbitos para 100.000 casos de abortos

legais e de 100 a 1000 para 100.000

casos de abortos ilegais (WHO, 2004).

O aborto é uma resposta a uma gravidez

“não prevista” ou “não desejada”.

Trata-se então de compreender porque

essa gravidez é percebida dessa forma e

porque a mulher deseja interrompê-la.

São muito raras as situações em

que as mulheres que desejam uma gravidez

abortam; a não ser que sejam

obrigadas pelo autor dessa gravidez

ou no caso de políticas governamentais

que incitam a limitar a descendência.

Os motivos mais frequentemente mencionados

no caso de aborto provocado

são a necessidade de espaçar no tempo

ou limitar os nascimentos, depois vêm

as dificuldades econômicas e as razões

ligadas à escolaridade ou ao trabalho.

Outro motivo são as dificuldades na

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

83


Métodos e

riscos do aborto

clandestino

Os abortos clandestinos são

realizados fora do ambiente

médico, com métodos da Idade

Média:

° uso de produtos químicos;

° perfuração do ovo com agulhas

ou objetos cortantes;

° absorção de plantas;

° tomada de grandes quantidades

de remédios;

° chutes na barriga e exercícios

físicos violentos;

° na América Latina em geral e

no Brasil em particular usase

o misoprostol, remédio destinado

inicialmente para tratar

úlcera. O risco desse remédio

é que a pessoa toma em casa,

sozinha e podem acontecer

complicações.

Esses métodos arriscados

frequentemente trazem

relação de casal ou para fazer aceitar

complicações, tais como:

uma gravidez, entre outras coisas por

° infecções;

causa da idade da jovem.

° septicemia;

Acontece também, no caso de ausência

ou fracasso da contracepção, o

° hemorragias;

medo das reações parentais ou familiais,

em relação a uma gravidez con-

° esterilidade posterior;

° rasgo das paredes do útero; siderada como inaceitável (moças solteiras

ou que supostamente não deveriam

ter relações sexuais), e os pro-

° morte.

blemas relacionais (desentendimento,

negação de paternidade, parceiros ocasionais,

gravidez adúltera) explicam

algumas interrupções de gravidez. A

ausência de contracepção pode ser explicada

pelo fato de que as mulheres

não pensavam ser expostas ao risco

de gravidez ou não imaginavam ter relações

sexuais. O uso de uma contracepção

contínua pode parecer supérfluo

às mulheres que têm uma sexualidade

irregular. A contracepção com o uso

84 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


de preservativo é uma solução para essas

mulheres, mas é difícil, principalmente

para as jovens, impor o uso

desse tipo de prevenção. É fundamental

não esquecer que lidar com as questões

de sexualidade é lidar com o íntimo e

que, apesar de programas de informação,

de prevenção, essas relações fogem

do “razoável”.

Quando eu trabalhava com adolescentes

grávidas em Recife, as meninas

José Cruz - ABR

sempre falavam que não tinham preservativos

com elas, com medo do rapaz

achar que ela “só pensa em transar”.

Elas são confrontadas à dificuldade na

negociação de uma prevenção das suas

relações sexuais, principalmente no

caso de parceiros mais velhos. Os meninos,

questionados da mesma forma

sobre a sexualidade, falavam que “o

problema é da menina... Ela que pode

engravidar... Ela que tem que se prevenir”.

Sem falar dos rapazes que recusam

o uso do preservativo.

A questão da sexualidade vai muito

além do ato sexual; tem a ver com a

identidade, com os comportamentos

esperados por jovens mulheres e homens;

com o desejo da menina de se

sentir desejada; com o medo de dizer

não e ser rejeitada, com o prazer nem

sempre. Relações sexuais, além da gravidez,

podem trazer doenças para quem

não se previne.

Recorrer ao aborto clandestino é

revelador de vários outros problemas

aos quais as mulheres estão confrontadas.

Dessa forma, os direitos reprodutivos

das mulheres assim como foram

definidos na Conferência do Cairo

e que enfatizam a possibilidade de

levar uma sexualidade sem risco e de

decidir livremente o momento para

ter os seus filhos não estão sendo respeitados.

Além dos benefícios em termos

de saúde pública, essas leis devem

ser revisitadas para respeitar os direitos

das mulheres a controlar a fecundidade

e se beneficiar de uma melhor saúde

reprodutiva.

Uma gravidez não prevista representa,

na maioria dos casos, para essas

jovens, o medo de rejeição familiar, do

parceiro ou da sociedade, e também

implica abandono da escola além de

comprometer os projetos de vida: o

adiamento da primeira maternidade

pelo aborto é uma boa ilustração disso.

A falta de autonomia de decisão, mas

também de autonomia financeira, as

constrangem a recorrer a métodos baratos

de aborto que apresentam riscos

para a própria saúde.

Sugerimos para evitar os abortos,

uma educação sexual de qualidade, a

prevenção das gravidezes indesejadas

graças à contracepção eficiente, incluindo

a pílula “do dia seguinte” e o

acesso ao aborto seguro e legal.

Para abrir o debate, diria que as

leis que negam o aborto legalizado são

o reflexo de uma decisão moral e religiosa;

não se trata de decisão tomada

do ponto de vista médico nem dos direitos

da mulher. Na realidade, são as

mulheres pobres, privadas de assistência,

de informação, de acesso à

saúde que sofrem esse efeito perverso.

A questão está sendo colocada em termos

religiosos, do bem e do mal, enquanto

o debate precisa acontecer num

contexto laico, ético, de saúde pública,

que garanta os direitos das pessoas.;

Véronique Durand – É doutora em Antropologia,

mestre em Literatura e Cultura Comparada e

mestre em Etnologia. Professora, pesquisadora e

militante. Seu trabalho é voltado para a reflexão e

atuação sobre relações de gênero, desigualdade e

violência.

veronique.marie.durand@gmail.com

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

85


Internet


COMPORTAMENTO

POR

Cecília Alvim

Pelo direito

de envelhecer

dignamente

Mulheres ressignificam o envelhecimento feminino

Envelhecemos... Envelhecendo todas

estamos. Assim como o fim é certo,

o passar do tempo também é. Não há

escolha, mas há caminhos. Envelhecer

pode ser uma experiência de sofrimento

pela perda da juventude, mas

também pode ser uma experiência de

alegria pelo reencontro consigo mesma

e com sonhos esquecidos tempos atrás.

Se recriar, se ressignificar para experimentar

um outro tempo da vida, é

caminhar para uma maturidade saudável,

caminho possível para a antropóloga

Mirian Goldenberg, pesquisadora

e escritora do livro A bela velhice, inspirado

nos escritos de Simone de Beauvoir.

“Chamei de “bela velhice” essa forma

de experimentar o processo de envelhecimento.

Afinal, quem disse que

não existe liberdade, felicidade e beleza

nesta fase da vida?”, reflete Goldenberg.

No entanto, a história e a realidade

mostram que envelhecer não é um processo

tão simples nas sociedades contemporâneas.

A filósofa francesa,

Simone de Beauvoir (foto), em sua

obra A Velhice, publicada em 1970, aborda

o envelhecimento como um processo

não apenas biológico, mas cultural. Ela

critica a marginalização vivida pelos

idosos no mundo desenvolvido, traça

um panorama do envelhecimento como

uma fase difícil da vida, mas também

desafia os leitores a mudar essa visão,

ao destacar que a essência das pessoas

não muda com a idade. "Dentro de mim,

está a Outra − isto é, a pessoa que sou

vista de fora − que é velha: e essa Outra

sou eu", disse a filósofa.

Beauvoir, Goldenberg e tantas outras

mulheres falam de um momento da

vida que gera muitos receios e angústias.

Os padrões de beleza impostos pela sociedade

da imagem em que vivemos,

ditam que não é bonito envelhecer, e

que bom mesmo é aprender a driblar

os efeitos do tempo. Para isso, existem

tinturas, cosméticos, cirurgias plásticas,

botox, e mil e um tratamentos para

rugas e para disfarçar as mudanças no

corpo. Isso faz com que elas, muitas

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

87


vezes, para serem aceitas e reconhecidas

se submetam aos ditames da moda,

dando continuidade a um ciclo de aprisionamento

da mulher ao longo da vida,

reflexo de uma cultura machista que

impregna todos os tempos do viver.

“A sociedade é menos tolerante com

o envelhecimento feminino. Um exemplo

disso é que os homens podem ter

cabelos grisalhos e serem vistos como

charmosos. Já as mulheres passam a

ser vistas como desleixadas. Tem que

ser corajosa para optar por deixá-los

grisalhos”, afirma Antonieta Shirlene,

professora e diretora do Departamento

de Professores Aposentados do Sinpro

Minas (Deasinpro). Ela conta que passou

alguns dias sem pintar os cabelos,

e ouviu vários comentários. “De 15 pessoas

que falaram sobre isso comigo,

nenhuma valorizou os meus cabelos

brancos. Todas queriam de alguma

forma me incentivar a tingi-los”.

Sob a ótica do capital

Para Catarina Brandão, jornalista e

feminista que mora em Brasília, a obsessão

feminina pela juventude eterna

só mostra o quanto o valor social da

mulher ainda está atrelado à sua capacidade

de seduzir e reproduzir. “E a capacidade

de seduzir declina brutalmente

depois que perdemos a de reproduzir,

independente do tempo que consigamos

manter a fachada de juventude. Jovens

ou “velhas”, o fato é que estamos sob

permanente controle.”

Esse controle diz também de outra

realidade. Como para o sistema capitalista,

vale quem produz, as mulheres

que já trabalharam muito e então passam

a experimentar outros sentidos

para a vida na velhice, passam a parecer

invisíveis aos olhos de uma sociedade

de consumo e de aparências, assim

como outros grupos da sociedade que

são colocados à margem desse sistema.

“Os mitos e estereótipos que caracterizam

a velhice como dependente,

como sinônimo de sofrimento e ausência

de beleza física, estão aos poucos

sendo reinterpretados. O capitalista já

percebeu que não é estratégico reproduzir

tais mitos e estereótipos. A velhice

é fonte de possibilidades

mercadológicas e, nesse sentido, é

fonte de realização da mais-valia. A rotação

do capital e a renovação dos seus

ciclos no processo produtivo dependem,

além da exploração de força de

trabalho na esfera produtiva, do consumo

das mercadorias”, afirma Aniele

Zanardo Pinholato, pesquisadora falecida

em 2014, em sua dissertação de

Mestrado pela UFES.

Para o professor José Eustáquio

Diniz Alvez, doutor em Demografia, o

Brasil está passando por uma grande

mudança na estrutura etária, com um

recorte acentuado de gênero. A cada

ano cresce o número de pessoas com

mais de 60 anos de idade no país.

No ano 2000, havia 14,2 milhões de

idosos (8,1% da população). No ano

2040, o número de pessoas idosas de -

ve chegar a 54,2 milhões, alcançando

23,6% da população total do Brasil,

segundo estimativas da Divisão de

População da ONU.

Ele destaca também o crescimento

da proporção de mulheres na população

idosa. Em 1980, a quantidade de homens

acima de 60 anos era de 3,64 milhões,

para 4 milhões de mulheres. A estimativa

da ONU para 2040 aponta um número

de 23,99 milhões de homens e

30,19 milhões de mulheres, uma diferença

de 6,2 milhões de mulheres em

88 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


elação à população idosa masculina.

Este processo é conhecido como “feminização

do envelhecimento”.

“Um dos desafios desse processo é

possibilitar a participação das mulheres

idosas no convívio social, evitando o

isolamento e fortalecendo a autoestima

e a autonomia feminina. A sociedade

brasileira precisa saber aproveitar o

potencial dessas mulheres, que possuem

altos níveis educacionais e ricas

experiências de trabalho e de vida”,

aponta José Eustáquio.

Falar desse tema parece ainda ser

tabu, ou ao menos um grande desafio.

Miriam Fátima dos Santos (fot0),

professora e diretora do Deasinpro,

afirma que a sociedade cria expressões

como terceira idade, melhor idade,

feliz idade, com a intenção de amenizar

e de tentar tornar mais leve essa fase

da vida, mas não é isso o que acontece.

“São termos que acentuam a dificuldade

da sociedade lidar com o envelhecimento

como realmente é. Mas sabemos

que é possível viver um tempo de senescência,

de envelhecimento natural

com dignidade, que é diferente da senilidade,

em que a pessoa se entrega à

tristeza e ao adoecimento”, diz Miriam.

Para Antonieta Shirlene (foto), a

forma de envelhecer tem a ver com valores

e visões muito pessoais. “Não há

uma idade cronológica tão precisa. Depende

de uma decisão que a pessoa vai

tomar a partir de um certo momento

da vida, de como vai encarar o futuro a

partir dali”.

Já Luliana de Castro Linhares

(foto), também professora e diretora

do Deasinpro, diz que “na medida em

que você vai envelhecendo, as pessoas

passam a te ver pela aparência, pela

embalagem, e não vêem mais quem

você realmente é, sua essência que não

muda com o tempo”. Mas ela demonstra

sua satisfação em ter alcançado essa

etapa da vida, e de seguir em frente

realizando a vida e os sonhos. “Envelhecer

é prêmio, sem comprar bilhete

de loteria. Me inveje, porque eu cheguei

até aqui. Tô chegando e tô indo”.

Essas e outras mulheres demonstram

que a visão de envelhecimento

vem mudando ao longo do tempo. “Há

pouco tempo atrás, a mulher ia envelhecendo

e passava a ser vista como

Fotos: Mark Florest

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

89


Cecília Fernandes, de BH, em ensaio fotográfico aos 100 anos.

uma senhorinha, com roupa antiga,

voltada só para a família, e, muitas

vezes com um pensamento de que a

vida já acabou. Mas o lugar da velhice

mudou. As velhices agora são muitas.

O melhor é aceitar a idade, o seu

tempo”, diz Miriam.

Para essas professoras aposentadas,

há uma grande mudança no processo

de envelhecimento feminino, que elas

dizem perceber mais claramente da

década de 1980 até hoje, com a ascensão

em grande escala das mulheres ao mercado

de trabalho, que trouxe mais autonomia

a elas; com as mudanças culturais,

inclusive no modo das mulheres

mais velhas se vestirem, viverem suas

escolhas e sua sexualidade; na aceitação

social disso, com o aumento da expectativa

de vida, devido aos cuidados com

a saúde; e no progressivo aumento da

participação das mulheres na vida social

e política do país.

Alvos de uma

sociedade machista

Um símbolo forte dessa mudança

foi a eleição da presidenta Dilma Rousseff

em 2010, aos 63 anos de idade,

com quase 56 milhões de votos. “Ela

não ficou dentro de casa, mas ocupou

espaços públicos, até ser eleita para o

mais alto cargo da sociedade quando

se tornou presidenta do Brasil. Ela é

um exemplo para mim. Simboliza essa

nova teoria do envelhecimento, de uma

Ivna Sá para Mulheres

mulher incansável, que superou inúmeros

desafios e, apesar de tudo, não

se entrega”, destaca Miriam.

Para ela, o golpe contra Dilma em

2016 foi um golpe contra todas as mulheres.

“Alcançamos o mercado de trabalho,

vencemos adversidades, mas ainda

somos alvo de uma sociedade machista

e preconceituosa com as mulheres

e com o envelhecimento feminino”.

Ao envelhecerem, às mulheres passam

a ser negados uma série de direitos.

Embora o Estatuto do Idoso, que completa

14 anos de existência em 2017,

determine que o “envelhecimento é

um direito personalíssimo e a sua proteção

um direito social” a ser assegurado

pelo Estado, o que se vê na realidade

é o descumprimento dessa assertiva,

já que grande parte da população

idosa enfrenta o abandono e várias

barreiras para viver bem nos dias atuais,

especialmente os(as) mais pobres.

Sancionado pelo ex-presidente Lula

em 2003, o Estatuto do Idoso prevê que

é “obrigação do Estado, garantir à pessoa

idosa a proteção à vida e à saúde, mediante

efetivação de políticas sociais públicas

que permitam um envelhecimento

saudável e em condições de dignidade”.

Para Antonieta Shirlene, o Estatuto trouxe

ganhos também para as mulheres.

“Temos uma legislação que nos assegura

direitos e a que podemos recorrer”.

Em seu discurso no dia da sanção

do Estatuto, Lula disse que esse instrumento

de cidadania precisaria da

adesão de toda a sociedade para se

transformar, de fato, em direitos na

vida das pessoas idosas.

“A partir de hoje, a dignidade do

idoso passa a ser um compromisso civilizatório

do povo brasileiro. É possível,

sim, viver, amar, sorrir e criar com

dez, vinte, cinqüenta, oitenta, cem

90 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


anos. Porque o que nos separa da felicidade

não é o tempo vivido, mas justamente

o oposto: a espoliação do tempo

de viver. Esse é o desafio de todas

as idades, portanto, um desafio de

todos nós. A espoliação mais perversa

de um ser humano é aquela que rouba

do adulto o tempo de usufruir do seu

trabalho com justiça e subtrai do idoso

o tempo da serenidade e da fruição da

experiência acumulada, na convivência

com os seus. Quando não o relega ao

abandono e ao esquecimento”, destacou

o ex-presidente.

Mark Florest

Golpe: negação de direitos

Após um ciclo de conquistas sociais,

vividas durante os governos de Lula e

Dilma, que beneficiaram o conjunto da

população, e também os idosos e as

mulheres, estamos diante de um tempo

de retrocessos. As medidas do governo

ilegítimo de Michel Temer ameaçam


A reforma da

Previdência afeta

especialmente

as mulheres.”

os direitos da população em geral e, de

forma direta, as políticas sociais voltadas

para a pessoa idosa, implementadas

nos governos anteriores. “O processo

de envelhecimento com dignidade foi

privilegiado nas gestões Lula e Dilma”,

afirma Antonieta Shirlene.

Com a aprovação da PEC 55 no fim

de 2016, o corte de recursos para a

saúde e para a educação, coloca em

risco também a seguridade social, que

assiste a milhares de idosos, em especial

os mais pobres. Outra grave medida é

a reforma da Previdência, em curso

no Congresso Nacional, que ameaça o

direito de milhões de brasileiros e brasileiras

de terem uma aposentadoria

digna agora e no futuro. E afeta especialmente

as mulheres, pela proposta

de aumento da idade e do tempo de

contribuição, medida que desconsidera

toda a imensa colaboração das mulheres

na criação dos filhos e da família e

na manutenção das tarefas domésticas,

ainda muito relegadas a elas. Além da

reforma trabalhista, que representa

grandes prejuízos para as mulheres

trabalhadoras ao longo da vida.

A reforma da Previdência faz parte

também da política neoliberal vigente

de gerar lucros para os grandes grupos

econômicos, pois propaga o déficit e o

fim da Previdência pública ao mesmo

tempo que empurra boa parte da sociedade

para planos de previdência

privada. Assim, tudo indica que pessoas

idosas serão incentivadas a comprar

planos de aposentadoria privada, e

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

91


Arquivo pessoal

das lutas pelos direitos das professoras

do setor privado de ensino. A organização

das professoras aposentadas é importante

porque nossa categoria é majoritariamente

feminina e também está

envelhecendo”, afirmam as diretoras.

aquelas que não têm recursos para pagar,

que representam a maior parte da

sociedade, ficarão sujeitas a uma velhice

sem direitos e sem dignidade.

“Na lista de tantos direitos que ainda

nos faltam, precisamos incluir também

o direito de envelhecer impunemente”,

afirma a jornalista Catarina Brandão.

Resistência

das trabalhadoras

Para fazer frente a essas medidas,

as trabalhadoras aposentadas também

estão em luta pela democracia e por

seus direitos. “A união de todos para

barrar os retrocessos nos direitos sociais,

trabalhistas e previdenciários, o

que vai atingir a qualidade de vida das

pessoas, é consenso entre as diretoras

do Departamento de Professores Aposentados

do Sinpro Minas, Antonieta,

Miriam e Luliana.

Fundado em 30 de agosto de 2002,

o Deasinpro promove a integração das

professoras e professores aposentados

em torno de ações e lutas. Em seus 15

anos de existência, realizou vários debates,

cursos e atividades culturais,

educacionais e de lazer para essa importante

parte da categoria docente.

“Fomos impactadas pelas ideias feministas

da década de 60, pelos movimentos

de trabalhadores que se fortaleceram

da década de 80 em diante,

pelo sindicalismo classista do qual fazemos

parte, e participamos ativamente

Por uma vida ativa

Romper com os estigmas relacionados

ao envelhecimento e vislumbrar

outras possibilidades de vida é como

recriar o próprio mundo, a partir de

outros valores, como a valorização da

diversidade, da beleza verdadeira e de

saberes próprios a cada idade.

“É um tempo de conviver e conversar

não só com os pares de idade, mas

com todas as pessoas; criar alternativas

saudáveis para viver; realizar projetos

e sonhos; de voltar a fazer coisas

que você gostava e ficaram esquecidas

com o tempo; de fazer boas leituras”,

dizem as professoras aposentadas a

respeito das escolhas que têm feito em

suas vidas.

A antropóloga Mirian Goldenberg

(foto) é também professora da Universidade

Federal do Rio de Janeiro, e autora

de vários livros, entre eles A Bela Velhice,

Coroas, Corpo, Envelhecimento e Felicidade

e Velho é Lindo!. Desde 2007, realiza

uma pesquisa intitulada Corpo, Envelhecimento

e Felicidade, com 1.700 homens

e mulheres moradores da cidade

do Rio de Janeiro. Seu foco de análise

são as representações, as expectativas

e os medos associados à velhice.

Em artigo na Folha, Goldenberg comenta

que as mulheres com mais de

60 anos que foram entrevistadas destacaram

que, “com a maturidade, puderam

se libertar das obrigações familiares

e sociais para investir tempo,

92 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


energia e dinheiro em seus projetos

de vida. Muitas resolveram fazer coisas

que sempre quiseram e não puderam

porque não tinham tempo para si mesmas:

estudar, cantar, dançar, viajar,

sair com as amigas − e inúmeros outros

projetos de vida”.

Para Antonieta Shirlene, a jornada

tripla e a contribuição financeira da

mulher trabalhadora no sustento da

família dificulta a realização de vários

projetos ao longo da vida. “Muitas

vezes, a mulher ao se aposentar continua

a auxiliar os familiares com seus

recursos. É comum um filho ou um

neto precisar de apoio ou de ajuda financeira,

e ela novamente abrir mão

de realizar coisas para si. Temos que

estar atentas para não descuidarmos

de nós mesmas nessa fase”.

Para Goldenberg, boa parte das

mulheres passa a vivenciar a velhice

como um tempo de mais liberdade. “O

homem não passa por essa ruptura,

porque ele sempre foi livre. Então ele

entende mais como uma continuidade”.

Enquanto elas passam a valorizar

mais a vida livre e as amizades, eles

passam a dar maior valor à família durante

a velhice.

Istock

Sonhos adormecidos

A professora Miriam Fátima conta

que, depois que se aposentou, optou

por manter atividades variadas, como

estudos, trabalhos, atividades artísticas

e políticas. “Uma alternativa saudável

para mim foi resgatar os trabalhos manuais,

que eu aprendi há muito tempo.

Eu estou bordando uma colcha junto

com outras mulheres que será uma homenagem

a uma mulher que admiramos,

e eu estou numa felicidade com isso”.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

93


Internet

Uma vida com

propósitos

Senhora de 74 anos

costurou e levou

vestidos para

crianças na África

É nessa temporada da vida que algumas

mulheres conseguem dedicar

algum tempo e recursos, frutos do trabalho

anterior, para realizar sonhos

adormecidos. Luliana decidiu fazer viagens

com um cunho histórico para visitar

lugares que ela conhecia somente

através dos livros, fotos e aulas de história,

disciplina que lecionou por vários

anos. Esteve no sul da Espanha e da

França para conhecer a história viva

daqueles lugares às margens do mar

Mediterrâneo. “Me emocionei em cada

lugar, pois em tudo eu via aquilo que

eu ensinava aos alunos em sala de aula.

Agora eu quero ver com meus olhos o

que eu li e ensinei sobre Constantinopla”.

Antonieta conta, entusiasmada, que

também decidiu tirar da gaveta um antigo

projeto. Ela participou da Brigada

Internacional 1º de maio em Cuba, onde

realizou trabalho voluntário e conheceu

a realidade e a cultura do país. “Foi uma

experiência única participar desse movimento

de solidariedade ao povo cubano.

Esse projeto estava na minha programação

há uns 10 anos e só agora

consegui realizá-lo. Deixei tudo por uns

dias, as responsabilidades, a casa, o namorado,

o filho. Já trabalhei o suficiente

para me dedicar a esse sonho. E agora

tive condições e maturidade para aproveitar

melhor essa experiência”.

Desenvolver projetos é o que dá sustentabilidade

à vida nessa idade, e que

contribui para uma visão de envelhecimento

mais justa. “Sinto que já estou

devolvendo minha sabedoria para os

netos, compartilhando com eles o que

aprendi da vida”, diz Miriam Fátima.

“Hoje eu valorizo a ousadia e a insubordinação,

como valores que eu

cultivei ao longo da vida, que me possibilitaram

alcançar a autonomia com

que vivo até hoje. O plano que meu pai

tinha para mim não era tão ousado

quanto aquilo que me tornei. E olho

para minha netinha de um ano e meio

e digo: − Viva. Realize. Seja insubordinada”,

relata Luliana, emocionada.

Costurar vestidos para meninas da

África. Essa ideia que surgiu pequena

se tornou um feito grandioso. Edmea

Pires Murta sonhou em fazer e enviar

1000 vestidinhos para o continente

africano, mas ao conversar com um

amigo, descobriu que ela mesma poderia

ir até lá entregar o resultado de

suas tecituras.

Durante um ano, ganhou o apoio

de diversas pessoas e, junto com outras

mulheres, costurou mais de 2 mil peças

de roupa, que foi pessoalmente entregar

para centenas de crianças de Guiné

Bissau em outubro de 2016. Na companhia

do amigo padre e de uma religiosa,

viajou durante horas, visitou localidades

e viu de perto o sofrimento

do povo guineense e a alegria de meninos

e meninas que receberam as

roupas e o carinho que ela levou nas

malas, caixas e no coração. “Foi um

sonho realizado”, relata. Mesmo assim,

ela diz que queria ter levado mais doações.

“O que levamos foi um grãozinho

de areia para um caminhão de necessidades.

Vimos escolas que estavam

há 3 meses sem merenda para seus

alunos. É uma realidade muito triste,

mas é um povo lindo!”

Edmea tem 74 anos e é uma mulher

cheia de dons e de simpatia. Criou 5

filhos, dois deles com deficiência, e

hoje convive também com os netos e

94 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


com a comunidade. É um retrato dessa

tendência das mulheres envelhecerem

e continuarem sonhando e realizando

ações que beneficiam também a coletividade.

Antes do projeto que a levou

à África, ela já costurava e ensinava

outras pessoas a costurar e desenvolver

atividades manuais. Em sua casa no

bairro Copacabana, em Belo Horizonte,

ela tem um cômodo onde é possível

ver fitas, botões, panos, retalhos, tintas

e outros itens que enchem de cor e

vida seu quintal.

Entre o quartinho de costura e sua

casa, há um amplo pátio onde um grande

número de pessoas se reúne algumas

vezes na semana para realizar atividades

físicas e encontros que promovem

a saúde e o bem-estar, especialmente

de mulheres idosas. Como não havia

espaço para isso no centro de saúde,

que fica nas proximidades, ela ofereceu

a sua casa, e assim, muitas mulheres

se beneficiam do seu espaço criativo e

cheio de alegria. Para todo lado, se vê

pinturas suas, flores e plantas, que Edmeia

cultiva com ternura.

Cerca de 80 pessoas frequentam as

atividades que acontecem em sua casa,

entre elas a ginástica terapêutica chinesa

Lian Gong, exercícios da Academia

da Cidade, e o grupo da Terceira Idade,

que se reúne para fazer trabalhos manuais

e conviver. “Chegam muitas mulheres

desanimadas, tristes, que vivem

só tomando remédio. Com as atividades

que fazem, saem daqui rindo, felizes,

e com isso melhoram até a saúde”.

Mesmo realizando tudo isso, Edmea

não pára e continua a acolher as pessoas

e a desenvolver novas ideias. Já está

arrecadando e costurando roupas de

cama para destinar em breve a um

hospital carente de recursos no Vale

do Jequitinhonha.

Questionada sobre como encara a

passagem do tempo, ela diz que não

fica reclamando das dificuldades e que

vive “rindo e inventando”. “Eu estou

achando a velhice uma fase muito boa.

É quando a gente pára pra ver as coisas.

O passado machuca muito. Então, para

que olhar para o passado? Vamos viver

o dia de hoje, o presente”.;

Joel Júnior

Edmea Murta visitou Guiné Bissau, na África, onde distribuiu roupas para crianças.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

95


Paulo Pinto


POR

GÊNERO

Denilson Cajazeiro

Pela visibilidade

lésbica

Elas querem ocupar os espaços na sociedade para

reivindicar respeito e o fim da lesbofobia

Um relatório sobre a violência homofóbica

no Brasil, produzido pela Secretaria

de Direitos Humanos da

Presidência da República, mostrou

que as mulheres lésbicas aparecem

entre as principais vítimas nas denúncias

feitas aos órgãos oficiais. Os casos

mais comuns foram, na ordem, de violência

psicológica, discriminação e

violência física. O levantamento mostra

que, mesmo com o aumento das

denúncias, a realidade ainda é assustadora.

Em espaços públicos ou privados,

a chamada lesbofobia persiste

como um grave problema social no

país, e a falta de políticas públicas

mais efetivas para combater essa violência

provoca um quadro de restrições

de direitos humanos.

Para muitos especialistas, a visibilidade

é uma das principais formas de

gerar avanços em relação ao tema.

Quanto maior for a projeção do assunto

na sociedade, de forma não estereotipada,

menor será a barreira do preconceito

e da discriminação. “A invisibilidade

da orientação sexual lésbica

é algo que acho grave e que pode surgir

da forma mais sutil naquele conhecido

questionamento: 'mas você nunca sentiu

desejo por um homem?', no qual o

interlocutor não a enxerga como uma

lésbica e sim como uma mulher bissexual,

no máximo. Falar de visibilidade

lésbica, a meu ver, não é só falar que

elas existem. É afirmar que elas existem

e que são detentoras de direitos, os

quais devem ser respeitados e protegidos.

É respeitar a sua orientação sexual,

seu corpo, seu espaço, sua voz”,

defende a advogada e militante Ticiane

Figueiredo, em publicação no “Blogueiras

Feministas”.

Segundo ela, as mulheres lésbicas

desafiam cotidianamente a lógica patriarcal,

heteronormativa e capitalista

da sociedade atual, e as várias formas

de violência que elas sofrem são uma

resposta a essa postura que exercem

cotidianamente. Uma tentativa de apagar

a identidade delas, pontua a advogada.

“De todas as formas de apagar a

identidade lésbica, o 'estupro corretivo'

se mostra o mais odioso, porque consiste

em uma prática criminosa na qual

o agressor acredita que poderá mudar

a orientação sexual da lésbica através

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

97


da violência sexual. Isso porque, para

eles, ao praticarem tal ato, elas vão

'aprender a gostar de homem'. O que

não poderia ser mais desprezível e desumano”,

afirma Ticiane Figueiredo.

Muitas vezes, esse cenário de invisibilidade

e os casos de violência começam

no ambiente familiar, quando

pais ou outros parentes não aceitam a

orientação sexual da filha e se recusam

a discutir o assunto e a reconhecer

seus direitos. “Dentro de casa essas

mulheres estão expostas ao controle

de sua sexualidade. Então, uma mulher

lésbica sofre cárcere em casa para que

não possa se relacionar”, denuncia a

advogada feminista e militante Rute

Alonso, em entrevista publicada no

site da Agência Patrícia Galvão, em que

reflete, entre outros temas, sobre o papel

da mídia ao noticiar casos de violência.

“Uma coisa importante é que a

violência seja divulgada em sua complexidade,

e não apenas como algo para

impressionar a população. A mídia

deve pensar qual será o efeito de uma

informação que é veiculada de forma

por vezes rasa, reforçando o senso comum,

os estereótipos, o que está posto

na sociedade como se fosse o adequado”,

pondera a advogada.

Outra iniciativa considerada fundamental

é a discussão do tema no ambiente

escolar. O debate sobre o assunto

em sala de aula enfrenta forte resistência

de grupos conservadores na sociedade,

inclusive da atual gestão do Ministério

da Educação (MEC). Para se ter uma

ideia, a equipe atual, sob o comando do

ministro Mendonça Filho (DEM), indicado

pelo governo Temer, cortou a homofobia

da lista de preconceitos que

devem ser combatidos com a educação,

ao divulgar o texto da Base Nacional

Comum Curricular – documento com

uma orientação dos conteúdos a serem

adotados nas escolas públicas e particulares

brasileiras. As expressões “identidade

de gênero” e “orientação sexual”

foram extraídas da versão entregue ao

Conselho Nacional de Educação. Uma

medida que, para pesquisadores do

tema, pode ajudar a aumentar os índices

de abandono escolar, pelo fato de os jovens

homossexuais não se sentirem

bem no interior das escolas. “Temos

um índice que não é divulgado para a

sociedade que é o adoecimento e o suicídio

das adolescentes, por não estarem

confortáveis com os papéis moldados

pela sociedade”, afirma a ativista e educadora

social Jozeli Rosa.

Apesar da pressão dos grupos conversadores,

ela avalia que a abordagem

do assunto na escola tende a se tornar

inevitável, como uma demanda da própria

juventude. “Eu acho que os jovens

estão com a cabeça muito mais aberta

para compreender e respeitar, e às vezes

muitos professores não acompanham

isso. Nao entendem. A gente

percebe que muitas vezes a comunidade

escolar não consegue acompanhar

esses avanços”, opina Jozeli Rosa, para

quem o diálogo é o primeiro passo para

acabar com a lesbofobia e com outros

tipos de preconceito. “Não se dialoga

com crianças e adolescentes os direitos

sexuais enquanto direitos humanos.

Por mais que as pessoas digam que

hoje não há mais tabu sobre a sexualidade,

percebemos o preconceito diariamente.

Mas temos tido avanços,

apesar de pequenos, que são resultado

de muita resistência e luta dos movimentos

sociais e das mulheres lésbicas.

Há alguns anos jamais estaríamos tendo

esse diálogo aqui. O que pedimos é

respeito e direito, e a escola precisa

fazer isso”.

Mercado de trabalho

Uma recente iniciativa para ampliar

a visibilidade das lésbicas surgiu

no Rio de Janeiro. Após uma conversa

numa rede social, um grupo de amigas

decidiu criar o “Indique uma Sapa”,

uma rede de solidariedade para ajudálas

a conseguir vagas no mercado de

trabalho e a oferecer serviços de profissionais

liberais, como advogadas,

jornalistas, ilustradoras, tatuadoras,

entre outras. “O objetivo do grupo é

criar uma economia solidária e uma

98 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Paulo Pinto

rede de afeto entre sapatonas. Porque

percebemos que muitas de nós estão

desempregadas por causa do preconceito”,

explica Ana Claudino, uma das

criadoras do grupo, que funciona no

facebook e pelo site do coletivo “Sapa

Roxa” (https://goo.gl/Z6rWTQ). Até o

momento, mais de duas mil mulheres

estão cadastradas.

“A maioria dos altos cargos dentro

das empresas é ocupada por homens

cis, (O termo cis refere-se concordância

entre a identidade de gênero de um

indivíduo com sexo biológico) brancos

e heterossexuais. Numa entrevista de

emprego, por exemplo, se uma mulher

falar que é lésbica ou mesmo que se

perceba a sua sexualidade e performance

de gênero, a probabilidade dela

não ser contratada na empresa é alta.

Muitas entrevistas de trabalho perguntam

até a religião da pessoa e se

ela namora ou não. Tudo isso são estratégias

para manter o preconceito”,

critica Ana Claudino, que revela já ter

sofrido discriminação em uma entrevista

de emprego. “A entrevistadora,

quando viu que eu sou negra e lésbica,

alegou que eu estava mentindo sobre

meu currículo. Meu currículo estava

bom para a vaga até ela olhar para

mim. Também não fui efetivada numa

empresa após a supervisora descobrir

que eu sou lésbica”, afirma. Enquanto

as políticas públicas não saem do papel

e o debate sobre a lesbofobia não ganha

o devido alcance na sociedade, elas seguem

na batalha cotidiana por respeito

e visibilidade. “Estamos na resistência

constante para demarcar território e

exigir uma sociedade mais humana”,

pontua Jozeli Rosa.;

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

99


Mark Florest


Percebi que por meio

do vestuário eu dava

voz às mulheres do

hip hop. A gente tem

de lembrar que tratase

de uma moda machista,

desde o início,

em 1973”.

Lorena, estilista e empreendedora


POR

CULTURA

Denilson Cajazeiro

As minas

do hip hop

Elas ocupam cada vez mais espaço na cena urbana

e protestam contra o machismo

A cena do hip hop já não é mais a

mesma. Nas pistas, palcos, duelos de

rappers ou nos grafites espalhados pelos

muros das cidades, é fácil perceber

que as mulheres estão cada vez mais

presentes. Entre uma rima e outra,

elas travam uma batalha diária pela

visibilidade e contra o machismo, em

uma cultura urbana ainda marcada

pela forte presença masculina.

“Para lidar com o machismo, você

tem de chutar a porta, entrar e mostrar

eficiência”, define a produtora cultural

Soraia Silva, mais conhecida como Totty,

responsável por organizar grandes eventos

de hip hop na capital. O primeiro

deles foi em 2003, que reuniu mais de

quatro mil pessoas em uma praça no

Vale do Jatobá, na região do Barreiro,

em Belo Horizonte. “Tenho certeza que,

se algo desse errado naquele dia, a culpa

seria minha, pois era a única mulher

na produção”, conta Totty.

Para a rapper mineira Ohana Santana,

a participação delas no movimento

tem sido cada vez maior, em

razão da crescente consciência das

mulheres. “Estamos cada vez mais nos

entendendo e conseguindo trabalhar

nossa imagem dentro dessa cultura,

que é machista. Tem sido um pouco

mais fácil, porque temos tomado a

frente”, afirma Ohana, que revela já ter

enfrentado situações de preconceito,

como ser convidada por um rapper

para cantar somente um refrão ou escutar

de um homem o pedido para engrossar

a voz e usar roupa larga, antes

de uma apresentação. “Ser feminina

era algo que não podia no hip hop”.

O primeiro contato de Ohana com

o movimento começou em 2007, quando

decidiu usar o cabelo de forma natural,

sem alisá-lo, e foi buscar referências

na cultura negra. “Comecei a me enxergar

de outra maneira, fora desse

lugar da mídia eurocêntrica”. Um ano

depois, ela participou do duelo de MCs

que ocorre semanalmente debaixo do

viaduto Santa Tereza, no centro de Belo

Horizonte, e desde então passou a frequentar

os eventos. “Hip hop pra mim

é estilo de vida", define a rapper.

Nascido no subúrbio de Nova Iorque,

em meados da década de 70, o hip hop

surgiu como forma de denúncia das

desigualdades. Nos guetos, os jovens

versavam sobre o racismo, a pobreza,

a violência e outras carências sociais.

Há um bom tempo que a cultura já ga-

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

101


nhou projeção para fora das periferias,

mas os problemas persistem nesses

espaços. "O hip hop veio do espaço periférico

e significa resistência. Hoje há

um movimento de mercado que tenta

capturá-lo. Há muitas pessoas dentro

da cultura sem qualquer perspectiva

da realidade. Todos têm o direito de

curtir, mas eu não danço porque é modinha.

Direciono minha luta para a

mulher negra, o jovem dentro da quebrada",

destaca a educadora social Sheila

Santana Bacelar.

Em oficinas e grupos que lidera, ela

utiliza a dança para despertar a consciência

e provocar reflexões sobre

temas como violência e sexualidade. A

intenção é aproveitar os movimentos

corporais para mudar os olhares sobre

o feminino. "O nosso corpo, que o

tempo todo é sexualizado na sociedade,

está aqui para dizer algo, passar

uma mensagem. Não é fácil uma mulher

subir no palco e não ser vista

como frágil ou um corpo sexual.

Temos de nos fortalecer para estar lá.

Dizer que não somos um alvo a ser

buscado. É trampo, velho", revela

Sheila, que há 15 anos se dedica profissionalmente

à dança como forma de se

expressar na sociedade.

Ela considera que, mesmo com o

avanço das mulheres, atuar na cena

do hip hop ainda é algo difícil. Até

2013, por exemplo, ela se vestia nos

"rolês" como os homens, para não ser

Carolina Ayala

ignorada. "Hoje não faço isso. Tenho

outro ponto de vista, que se baseia na

resistência de ser mulher; me reconheço

como mulher negra e me considero

uma pessoa que faz o mesmo

que os caras. Mas mesmo assim ainda

hoje é uma cultura machista. Não me

sinto representada e acolhida nos rolês

que os caras fazem", afirma.

E foi justamente por meio da moda

que Lorena dos Santos decidiu atuar.

Estilista e empreendedora, ela fundou

a marca "Lolita às avessas", especializada

em produzir roupas para as mulheres

do movimento. "As poucas mulheres

que tinham acesso ao hip hop

precisavam se fantasiar de homem

para incomodar um pouco menos os

caras que estavam nessa cena. Ou seja,

elas não podiam se externar. Tinham

de vestir boné, calça larga, tênis, blusão,

casaco. Com muito custo elas conseguiam

colocar brinco e batom. Isso foi

muito forte, principalmente nas décadas

de 70 e 80. Na década de 90, houve

uma mudança nisso, um grito de liberdade,

que para mim se relaciona

com o feminismo. E aí vamos percebendo

uma evolução, e as mulheres

passam a usar brincos, saias, pulseiras.

Hoje, se ela usar uma peça masculina

é porque gosta e não por imposição".

A relação dela com o hip hop começou

em 2002, depois de participar de

um evento de rap. "Sempre transitei

pela blackmusic, mas quando vi

aquela tribo, a estética daquelas pessoas,

aquilo mexeu comigo", revela Lorena,

cuja primeira referência estética

veio da avó materna, Elza Lima. "Ela

sempre foi muito criativa para se vestir",

relembra Lorena, que também é

formada em moda e figurino. Nos desfiles

e ensaios fotográficos das coleções

que lança, ela faz questão de

102 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


colocar em cena mulheres comuns, e

não modelos. A última coleção, por

exemplo, foi batizada de "Protagonistas"

e reuniu mulheres com forte atuação

nas comunidades em que moram.

"A moda cria essa possibilidade de

mostrar que a beleza não é só eurocêntrica.

Trazemos a diversidade para

vestir os corpos da mulher periférica,

e sempre vi a moda como uma oportunidade

de me comunicar e protestar,

de falar coisas que as pessoas não querem

falar", afirma a estilista.

Mark Florest

Resistência estética

Outra expressão artística da cena

hip hop, o grafite ganha cada vez mais

admiradoras e já figura até em exposições

nas grandes galerias do mundo.

Essa forma de manifestação em espaços

públicos ganhou força no Brasil ainda

nos anos 80 e hoje em dia faz parte do

modo de vida de muitas jovens. Tanto

nos Estados Unidos e Europa como


Às vezes uma rapper

faz uma música

contra o machismo

e aí um homem diz:

'lá vem vocês falando

disso novamente'.

Estamos falando

porque ainda não foi

resolvido”.

Totty, produtora cultural

Totty, muitas vezes, a única mulher na produção de um evento de Hip Hop.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

103


Sheila Bacelar: Não é fácil para uma mulher

subir no palco e ser vista como frágil.

Denilson Cajazeiro

aqui, a atuação das mulheres sempre

foi presente, no entanto foi somente

mais recentemente que o protagonismo

feminino ganhou projeção.

Apesar dos estudos publicados sobre

o tema trazerem referências, em

maioria, à participação masculina, Nicholas

Ganz foi um dos poucos autores

que se ocuparam em retratar a participação

feminina na arte de rua. Em

seu livro “Graffiti Woman”, ele reuniu

128 grafiteiras dos cinco continentes,

sendo que oito são brasileiras. Na pesquisa

“Meninas do grafite: adolescência,

identidade e gênero nas culturas juvenis

contemporâneas”, a autora Viviane Magro

analisa as experiências vividas por

grupos de adolescentes e jovens grafiteiras

em Campinas. Para a pesquisadora,

as experiências educativas não

formais no grafite são estratégias privilegiadas

de desenvolvimento, que as

ajudam a minimizar impactos negativos

da exclusão social e a elaborar vivências

afirmativas de si mesmas, evitando outros

meios como os da criminalidade,

drogas e violência.

Em outro artigo, a pesquisadora da

Universidade Federal da Bahia Margarida

Morena investigou a participação

das mulheres grafiteiras nos espaços

públicos de Salvador. Ela procurou observar

como as artistas construíram a

imagem do feminino nos muros da cidade.

No trabalho, a autora revela a inquietude

diante da falta de reflexões

sobre o tema a partir do conceito de

gênero. “Pouco ou nada se sabe sobre

a presença da mulher, enquanto artista,

grafiteira. Por outro lado, pensar o grafite

sob a perspectiva das teorias de

gênero faz emergir a necessidade de

pensar o lugar da mulher nessa prática,

ao mesmo tempo em que se propõe

uma reflexão paralela sobre a mulher

104

Revista Elas por Elas - Agosto 2017


no espaço público. Debruçar-me sobre

essas tensões, que apontam a mulher

grafiteira como duplamente transgressora,

já que além do ato de grafitar,

que por si só já toma de assalto e intervém

nos espaços públicos, a faz

transitar por ambientes naturalizados

como pertencentes do masculino, me

faz vislumbrar a possibilidade de uma

investigação singular que pode resultar

em um trabalho importante para compreender

os percursos empreendidos

pelas mulheres na conquista do espaço

público”, comenta Margarida Morena.

Na avaliação da grafiteira Letícia

Perera, é justamente esse ato de transgressão

por elas praticado que incomoda

a sociedade. “Por que é tão espantoso

ver uma mulher na cultura

hip hop? Porque a mulher foi criada

para não sair de casa. É estranho para

a sociedade ver uma mulher numa situação

de transgressão, de contestação”,

opina Perera, também formada em artes

visuais. Desde que começou a grafitar,

em 2003, ela conta que já enfrentou

inúmeras situações de preconceito

de gênero. Em uma delas, um homem

passou de carro e gritou: ‘vai lavar vasilha,

mulher!’. “Tenho certeza de que

se fosse um cara ninguém passaria e

diria para ele lavar banheiro. Felizmente

isso tem mudado. Não me sinto menor

quando faço uma pintura com um homem.

A mulher em geral lida muito

com isto, com a questão de ter de

provar sua capacidade. Eles não acreditam

que ela possa ser competente.

Hoje, acho os trabalhos das mulheres

muito mais expressivos. A cena feminina

cresceu muito, inclusive em qualidade”,

destaca Perera, para quem o

hip hop é uma forma de resistência

dos sujeitos que estão na cidade, como

forma de reafirmarem sua existência.

Para a grafiteira Criola (fot0), a

pintura no cenário urbano expressa

uma vontade de mudar a realidade social

e cultural ao seu redor. “Assim como

qualquer mulher em uma sociedade

patriarcal e machista, eu infelizmente

não posso ter a liberdade e direito de

andar a noite sozinha sem correr o

risco de ser violentada, por exemplo.

Isso interfere no fato de que eu não

tenho a liberdade de pintar de madrugada,

como a maioria dos homens. Preconceito

todas nós sofremos, todos os

dias. Enquanto o meu corpo não for

respeitado pela sociedade, o preconceito

irá existir diante das mulheres”, desabafa

a artista visual, cujos trabalhos que retratam

as mulheres negras são reconhecidos

em todo o país.

“Pintar mulheres negras nas ruas

é um ato político, mais do que propriamente

estético. É tudo uma questão

de coragem. Chutar a porta e falar: eu

posso! Meu corpo está num lugar público,

mas ele não é público. Eu exijo

respeito. É uma maneira de mostrar o

seu posicionamento para a sociedade.

Eu não quero que os meus descendentes

passem pelo que eu passei. Eu vou

lutar, agora, com as armas que eu tenho

nas minhas mãos, no caso é o spray e

a arte”, avisa Criola.;

Débora Junqueira

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

105


Internet

POR

ARTIGO

Márcia Mendonça

Carmen Miranda, novas

representações e narrativas

na contemporaneidade

106

Revista Elas por Elas - Agosto 2017


No ano em que se comemora o centenário

do primeiro samba gravado no

Brasil – Pelo Telefone, de janeiro de

1917 –, Carmen Miranda, uma das mais

emblemáticas personagens do século

20, merece ser lembrada e redescoberta.

Compreender o fenômeno Carmen

Miranda implica analisar

discursos, narrativas, subjetividades e

a corporeidade.

Sua trajetória como cantora ocorre

na década de 1930. A artista ganhou

fama por meio do rádio, inicialmente,

com a música Taí (Pra você gostar de

mim), tornando-se a intérprete mais

famosa da década no país. Como atriz,

atuou em diversos filmes rodados no

Brasil e nos Estados Unidos. Sua imagem

de sucesso no exterior atendia

aos interesses políticos norte-americanos

no período que se compreende

como a Política da Boa Vizinhança.

Dona de um estilo próprio, a artista

reinventou a fantasia da baiana por

meio de batas, babados, turbantes, bijuterias,

plataformas e balangandãs,

lançando moda, criando o estilo Miranda

Look, que tanto sucesso fez nas

vitrines novaiorquinas. Na cultura brasileira,

a artista foi importante referência

para o Tropicalismo e até mesmo

para o movimento LGBT (Lésbicas,

Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais

e Transgêneros).

O surgimento da artista ocorre num

contexto em que o governo Vargas, a

partir da década de 1930, dá início à

construção de uma identidade nacional.

Nesse período, vários elementos que

representavam as camadas populares

passam a ser incorporados a essa representação.

Tratava-se de um momento

de tensão em torno de certa

negociação da identidade nacional, tendo

como agentes transformadores o


A artista foi

importante

referência para o

Tropicalismo e até

mesmo para o

movimento

LGBT”

Estado e alguns poucos grupos sociais,

especialmente uma parcela da intelectualidade

e do nascente segmento

urbano. Uma identidade redimensionada

via nascente cultura de massa.

Dona de uma performance singular,

na qual está presente a imagem da mulher

sedutora, da mulher continente,

“inscrita no âmbito da irracionalidade”,

de uma corporeidade extravagante e

sexualizada, a artista introduziu como

elemento de composicão de sua personagem

aspectos da cultura popular,

como por exemplo a figura do malandro,

e as utilizou em suas apresentações.

Carmen Miranda se inseria em um

contexto aberto a novas significações.

Ao compor sua personagem, Carmen

selecionou determinados elementos

desse traje típico, como o pano da costa,

de origem africana; o Bonfim, lembrando

o candomblé; o rosário de ouro, a Igreja

Católica, além de acrescentar outros

elementos como fios de contas no pescoço,

o abdômen nu, o uso de cores

fortes nas roupas, o turbante com cestas

de frutas. Tratava-se de um símbolo da

“brasilidade”, “síntese” do Brasil, representante

das camadas populares

brasileiras em seu convívio supostamente

harmônico com as elites. A baiana

“branqueada” e “exótica” fora, finalmente,

aceita nos espaços sociais elitizados

do Rio de Janeiro no final da década

de 1930, tornando-se uma coqueluche

nos bailes das elites brasileiras.

Mas a consagração da artista veio a

partir de 1939, quando, após uma apresentação

no Cassino da Urca, um empresário

norte-americano a contrata

para fazer espetáculos na Broadway.

Carmen faz sucesso meteórico, atua

em 14 filmes nos Estados Unidos, torna-se

a representante cultural da Política

da Boa Vizinhança, transforma-se

na Bombshell, e passa a ser o segundo

maior cachê pago nos Estados Unidos.

No entanto, os personagens interpretados

pela atriz nestes filmes traziam,

em sua maioria, representações de uma

América Latina desprovida de racionalidade,

todas perfeitamente adequadas

às diretrizes ideológicas norte-americanas,

além de narrativas marcadas

pela diversidade musical (rumba, mambo,

samba estilizado), pela ideia de uma

América marcada pelo exotismo, por

paraísos tropicais e pela ausência de

trabalho. A imagem de mulher sedutora,

“mulher continente”, “inscrita no âmbito

da irracionalidade”, dona de uma

corporeidade extravagante e sexualizada,

é explorada à exaustão. Tal imagem

atendia plenamente ao jogo de interesses

norte-americano, sendo o cinema

o veículo imprescindível à consolidação

dos interesses políticos. Como

analisa a professora e pesquisadora

Eneida de Souza:

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

107


A relação amorosa entre a cultura latino-americana

e a do norte começa a

tomar corpo, seja através da figura feminina

representativa da América Latina

e construída pelo imaginário do período,

seja pela edução armada pelo conquistador

do norte no diálogo com a glamourosa

e sexy mulher tropical. Carmen

Miranda ocupa o lugar simbólico desse

diálogo, estampado pelos meios de comunicação

de massa, e contriubi para a

alegorização do território por meio da

expressão de uma imagam lúdica e liberada

da mulher.

Internet

Ao exacerbar todos os elementos

de sua composição visual, vistos nos

filmes hollywoodianos, Carmen Miranda

foi tornando-se, com o tempo,

uma figura artificializada, caricata, grotesca,

chegando à bizarrice. Suas performances,

marcadas pelo excesso e

pelo exagero, passaram a ser apropriadas

pelo “colonizador’, com objetivo

de tansformá-la em mais um sub-produto

cultural. A partir da leitura crítica

da música O que é que a baiana tem,

observa-se um jogo de sedução presente

na letra, brincando com a ideia de desnudamento

dos segredos da baiana e

de uma corporeidade erótica, num jogo

de perguntas e respostas, sempre a indagar,

a sugerir que algo está faltando,

como podemos observar no refrão “Mas

o que é que a baiana tem”.

Dona de uma corporeidade e performance

diversificadas, pode-se ainda

pensar em Carmen Miranda numa

perspectiva mais ampla, na qual a cultura

se faz presente. Se entendemos a

cultura como uma linguagem de signos

que acompanha, retrata e simboliza

transformações, ela deve ser pensada

também como reflexo do conjunto de

mudanças e hibridismos que nela estão

presentes. Dentro da cultura, a moda

é um campo no qual a reapropriação e

a ressignificação dos signos presentes

nas vestimentas de Carmen Miranda

se apresentaram de forma intensa, fornecendo

alimento ao imaginário social

brasileiro e internacional, ao mesmo

tempo em que sua figura aglutinou representações

sobre noções de diferença,

alteridade e identidade.

Mas a rica indumentária da artista

ficou, no entanto, restrita, nas décadas

de 1940 e de 1950, às vitrines novaiorquinas,

influenciando a moda de lá, e

suas criações foram assimiladas e/ou

recuperadas no Brasil por meio de releituras

e ressignificações a partir da

década de 1980. A permanência da artista

na contemporaneidade vem se

perpetuando por meio da construção

de novas narrativas e discursos, de estilos

diversos. A originalidade e os elementos

de suas vestimentas passaram

a ser vistos nas coleções das grifes

Prada, Dolce&Gabana, Versace, Farm,

Salinas, Rosa Chá, Salinas, Alexandre

Herchcovitch, Pedro Lourenço, Charlotte

Olympia, entre outras marcas, todas

inspiradas nas criações da artista.

108

Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Nesse sentido, torna-se importante

compreender como as roupas usadas

por Carmen Miranda, tão criticadas e

vistas de forma depreciativa no início

de suas aparições, passaram a ganhar

vigor e notoriedade, influenciando diversas

gerações, estilistas e artistas nacionais

e do pop internacional, atingindo

o estatuto de moda, atraindo nichos

como gays e artistas, possibilitando

uma gama de reapropriações. Poderíamos

dizer que Carmen Miranda foi uma

artista da modernidade, pré-tropicalista,

pré-multimídia, pré-pop, capaz de adaptar-se

a todas as mídias emergentes do

período, do disco ao rádio, do cinema à

TV e ainda presentes na contemporaneidade.

Poderíamos ainda dizer que a

artista aparece como uma espécie de

Madonna dos anos de 1930 em apresentações

e performances, e no sentido

de que soube aproveitar como ninguém

todas as linguagens da mídia, influenciando

diversas gerações nos campos

da moda e do comportamento.

Analisar a corporeidade em Carmen

Miranda enquanto um elemento

transgressor e potencializado por suas

criações, com repercussões nos dias

atuais, é pensar na transgressão enquanto

um elemento do erotismo.

Como afirma o escritor francês George

Bataille, “o erotismo encontra-se vinculado

à transgressão; a transgressão

faz parte do erotismo”.

Na questão de gênero, pode-se pensar

também na artista como uma criadora

de identidades múltiplas, como,

por exemplo, recuperando símbolos diversos

e controversos ligados aos trópicos,

mas também ligados a outras

formas de representação. Um exemplo

disso é a relação que se estabeleceu

entre gays e a artista, com o surgimento

da Banda da Carmen Miranda, em 1984,

no Rio de Janeiro, criada pelo figurinista

Célio Bacellar. Posteriormente, na década

seguinte, e ainda no Rio de Janeiro,

surge outro bloco, o Bloco das Drags.

Como aponta Correa (2011, p. 144):

(...) a indumentária mais usada pelas

drags queens que incorporam Carmen

Miranda é a baiana, pela qual ficou famosa

e cuja estilização extravagante a

aproximava da ideia de brasilidade já

absorvida pelo público norte-americano

(...) com a maquiagem carregada e gestos

elaborados, esse exagero visual tornouse

a referência essencial para as drags,

fenômeno dos anos 90, confirmando a

associação da imagem de Carmen às

manifestações performáticas das comunidades

gays já nos anos 70. O riso,

o deboche, o grotesco e a ironia, usados

em sua performance como atriz, também

fazem parte da construção da persona

Carmen Miranda, símbolo das subculturas

gays (...).

Ao analisar o percurso pelo qual

suas vestimentas, adornos, adereços

colares, braceletes de ouro, de prata

ou de latão, brincos, pencas de balangandãs,

turbantes, sandálias, pulseiras,

anéis com origem estética da cultura

africana tornaram-se, num dado momento

histórico, parte constituidora

de um determinado modo de representação

da identidade da cultura brasileira,

e como, posteriormente, na

contemporaneidade, sua imagem forneceu

elementos para a compreensão

de uma identidade múltipla e multirracial;

a tropicalidade, servindo de mediação

discursiva entre duas matrizes

culturais; o gestual e a corporeidade

transgressores de sua figura, dotada

de intensa complexidade, apresentando

sinais da mais radical alteridade (dos

imaginários do corpo, tão presentes

ao longo do século como nos dias

atuais); o estatuto de imagem cult, principalmente

após o cantor Caetano Veloso

a ter saudado como símbolo máximo

do Tropicalismo, no final dos

anos de 1960.

O mito Carmen Miranda é marcado

por intensa circularidade e atravessa

décadas. É interessante observar como

os movimentos a partir de uma artista

estilizada, tão ao gosto de segmentos

da elite brasileira, e em seguida apropriada

pelos Estados Unidos, alvo de

críticas por parte de nacionalistas brasileiros

de esquerda, levam à retomada

da artista como um mito pelos tropicalistas,

no final dos anos de 1960 até

alcançar o estatuto de cult na contemporaneidade.;

Referências bibliográficas:

CORREA, Gustavo Borges. As Várias Faces de

Carmen Miranda: O Caso das Drag Queens no

Carnaval Carioca. In: Seminário Circuitos da Cultura

Popular, Anais Eletrônicos. Rio de Janeiro:

UFRJ/IFCS, 2010. p. 269-287.

SOUZA, Eneida Maria de. Do kitsch ao cult. In: CA-

VALCANTE, Berenice; STARLING, Heloisa Maria

Murgel; EISEMBERG, José (orgs). Decantando a

República: Inventário histórico e político da canção

popular moderna brasileira. Rio de Janeiro:

Nova Fronteira; São Paulo: Fundação Perseu

Abramo. v. 2. p. 76.

Márcia Mendonça – Professora universitária e pesquisadora

- Graduada em História e Comunicação

(Jornalismo). Mestre em Artes Visuais – EBA/ UFMG.

Leciona em programas de graduação e pós-graduação

nas áreas de Cinema, História e Moda.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

109


ATEBEMG


PERFIL

POR

Cecília Alvim

Elza Soares:

uma mulher do fim do mundo


Na avenida deixei lá

A pele preta e a minha voz

Na avenida deixei lá

A minha fala, minha opinião

A minha casa, minha solidão

...

Mulher do fim do mundo

Eu sou

Eu vou

Até o fim

Cantar”

Trechos de: Mulher do

fim do mundo

(Romulo Fróes e Alice Coutinho)

Elza nos toca com sua vida e sua

música. Numa entrevista exclusiva à

revista Elas por Elas, essa mulher ímpar

conta sua história e nos inspira com

seu grande coração que já superou inúmeras

adversidades.

Elza Soares nasceu na favela da

Moça Bonita, na capital carioca. Aos

doze anos de idade, por ordens do pai,

casou-se com Lourdes Antônio Soares,

conhecido como Alaúrdes, e cerca de

um ano depois deu à luz seu primeiro

filho, João Carlos.

Como tinha o sonho de cantar e

precisava comprar remédios para seu

filho recém-nascido, aos treze anos decidiu

participar do programa de Ary

Barroso na Rádio Tupi, e fez sua primeira

apresentação ao vivo no auditório

da emissora, que era a maior de seu

tempo. Em princípio não foi levada a

sério, por seu jeito humilde de falar e

se vestir. O apresentador perguntou,

então, de que planeta ela viera, ao que

respondeu: “Do mesmo planeta seu,

seu Ary. O Planeta Fome”. A partir daquele

momento ninguém mais riu e

Elza cantou Lama, e encantou a todos.

Sua carreira, entretanto, só foi iniciada

alguns anos depois. Antes disso,

trabalhou como lavadeira e como operária

em uma fábrica de sabão. Aos 21

anos, ficou viúva, com filhos para criar.

Porém, seguiu em seu propósito de

vida, que era cantar. Cantou na Orquestra

de Bailes Garan, no Teatro João

Caetano, na temporada de uma peça

teatral na Argentina, na Rádio Mauá,

na Rádio Tupi e depois trabalhou como

crooner de uma boate carioca.

Seu primeiro disco foi lançado em

1960, pela Odeon, e por meio da faixatítulo

“Se acaso você chegasse” alcançou

logo grande sucesso. Já Bossa Negra

foi lançado em 1961. No ano seguinte,

integrou a comitiva de artistas brasileiros

que representaram o país durante

a Copa do Mundo de Futebol, no Chile.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

111


Nesse período, Elza já havia iniciado

um romance com Garrincha, jogador

de destaque na competição e que garantiu

a taça para a seleção brasileira.

Essa relação lhe gerou muita perseguição.

Na época, Garrincha era casado

e Elza foi acusada de ser uma destruidora

de lares, passando a sofrer constantes

ameaças, que não se interromperam

mesmo durante o período em

que a união entre os dois foi oficializada.

Casaram-se em 1968, porém após Elza

ser ameaçada de morte por meio de

um bilhete anônimo, em 1970, o casal

resolve sair do país com destino à Itália.

Nesse mesmo ano, lança o aclamado

Elza Pede Passagem e é homenageada

pelo conselho de música popular do

Museu da Imagem e do Som, do Rio

de Janeiro, com o título de Embaixatriz

do Samba.

Entre as décadas de 1960 e 1970, vivenciou

o auge de sua carreira. Desde

o seu primeiro registro fonográfico até

o ano de 1982, lançou em média um

disco por ano, alguns deles trazendo

parcerias de sucesso, como exemplo a

que resultou na trilogia Elza, Miltinho

e Samba (1967, 1968 e 1969) e com o baterista

Wilson das Neves (1968). Durante

a década de 1970, realizou, ainda, turnês

pela Europa e pelos Estados Unidos.

Contudo, esse período foi também

marcado pela dor. Seu companheiro,

Garrincha, já enfrentava problemas

com alcoolismo e as tentativas de Elza

de desviá-lo da rota dos bares eram

criticadas pelos amigos do ex-jogador.

Sua mãe morre no ano de 1969 após

um acidente de carro em que sua filha

Sara, Garrincha e ela também saíram

feridos. Acredita-se que Garrincha dirigia

alcoolizado.

No começo dos anos de 1980, após

16 anos de casamento, não suportando

mais a luta contra a doença do marido,

os casos de violência doméstica que

sofria e na busca de proteger o filho,

Garrinchinha, de um ambiente familiar

conturbado, Elza separa-se do

“gênio de pernas tortas”, que falece um

ano depois.

Apenas três anos mais tarde, um

novo acidente de carro marca profundamente

sua vida. Aos nove anos de

idade, morre Garrinchinha, seu filho

caçula. Desnorteada e sentindo a dor

da perda de mais um filho, Elza decide

sair do Brasil, em turnês pela Europa

e pelos Estados Unidos.

Retorna ao Brasil em 1995. Dois

anos depois, lança o álbum Trajetória,

desta vez totalmente dedicado ao samba.

Sua carreira só ganha novo fôlego

na década posterior, após a BBC de


Cadê meu celular?

Eu vou ligar pro 180

Vou entregar teu nome

E explicar meu endereço

Aqui você não entra mais

Eu digo que não te

conheço

E jogo água fervendo

Se você se aventurar

Cê vai se arrepender de levantar

a mão pra mim”

Trechos de: Maria da Vila Matilde

(Douglas Germano)

Londres a descrevê-la como “a cantora

do milênio” e a revista Time Out, como

“uma mistura explosiva de Tina Turner

com Célia Cruz”. Em 2002, lança Do

Cóccix até o Pescoço, que conta com

músicas de Caetano Veloso, Chico Buarque,

Jorge Ben Jor e outros grandes

compositores da música popular brasileira.

Por este trabalho, Elza foi indicada

ao Grammy Latino. Em 2007, a

artista interpreta o Hino Nacional Brasileiro

na cerimônia de abertura dos

Jogos Pan-Americanos, sediados no

Rio de Janeiro.

Em 2015, Elza lança seu primeiro

disco de músicas inéditas, A Mulher do

Fim do Mundo, que recebeu o Grammy

Latino no ano seguinte. O espetáculo

traz a cantora sentada em um trono

metálico em meio a um cenário cercado

por mil sacos plásticos de lixo. Do

alto das suas seis décadas de carreira,

Elza Soares leva aos palcos uma

"ópera" emocional que retrata as mazelas

da sociedade. As canções compostas

pelos paulistas José Miguel

Wisnik, Romulo Fróes e Celso Sim

falam sobre sexo, racismo, transsexualidade,

violência doméstica, narcodependência,

crise da água e morte.

Em 2017, Elza Soares se apresenta

nos principais palcos brasileiros e participa

do prestigiado festival Primavera

Sound, em Barcelona, e do festival NY

Summerstage. “Elza Soares é uma artista

viva, corajosa e, acima de tudo,

não tem medo de nada! Nada é moderno

demais para ela. Nenhuma dissonância

a assusta, nenhuma distorção

a intimida. Com sua fome do novo, se

transforma sempre. É uma das pessoas

mais generosas e humanas que já tive

a oportunidade de conhecer”, afirma

o produtor do espetáculo e baterista

Guilherme Kastrup.

112 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


ENTREVISTA

“Sou

inconformada,

não me

calo”

ATEBEMG

Elza, como foi sua vida de menina?

Como era seu relacionamento com

seus familiares e a comunidade?

Eu vim da comunidade Moça Bonita,

subúrbio do Rio. Tive origem humilde

e desde criança entendi que tinha que

lutar muito para mudar a minha situação.

Como sempre fui muito levada,

nunca me conformei com o pouco. Eu

era o chamego do meu pai, Seu Avelino,

grande homem. Ele trabalhava na pedreira

e minha mãe, Rosária, lavava

roupa para fora. Quando criança meu

sonho era trabalhar para viver uma vida

melhor. Sempre fui muito atrevida e

nunca tive medo de nada. Para mim

não existe NÃO!

Você teve que se casar e foi mãe ainda

menina. Como foi viver uma adolescência

e juventude já com tantos desafios?

Eu era muito menina, não tinha noção

da responsabilidade, para mim era como

brincar de boneca. Me casei cedo porque

fui levar almoço para meu pai na pedreira,

no caminho me distraí e fui caçar

louvadeus, encontrei um rapaz, meu pai

me viu saindo do mato com um rapaz e

me obrigou a casar acreditando que algo

havia acontecido entre nós. Somente

mais tarde, quando fiquei viúva que eu

entendi o peso da responsabilidade.

A maternidade para você foi uma experiência

rica, mas difícil pela perda

de quatro dos seus sete filhos. Mas o

que te trouxe de melhor?

Ser mãe é um dom divino. Amo meus

filhos, até hoje são minhas crianças. Foram

os momentos mais lindos da minha

vida. As perdas deles também foram os

piores momentos que já vivi, não desejo

a ninguém. Os desafios me trouxeram

força. Sempre aprendemos algo!

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

113


Quando surgiu o desejo e a oportunidade

de começar a cantar? O que a

música significa para você?

Eu via a Bibina, minha irmã mais velha

que eu, cantar. Ela era cantora lírica,

era a cantora da família, mas morreu

jovem, morreu de amor, época em que

se morria por amor. Eu entendi que

tinha uma voz diferente ainda muito

jovem. A necessidade me fez cantora,

porque ouvi no rádio que Ary Barroso

dava prêmio em dinheiro para quem

passasse pelo teste do gongo. Como eu

precisava de dinheiro para sustentar

meus filhos, já viúva, fui lá, e o fim da

história todos vocês já sabem... A música

para mim é o remédio da alma!

Como foi conciliar a vida de mãe,

dona de casa e trabalhadora, com o

ofício de cantar?

Sempre fui muito inquieta. Nunca tive

medo de trabalho, nunca tive medo de

nada. Era uma loucura, porque além

dos meus filhos, também criei as filhas

do Mané. Era muita criança para dar

conta, mas consegui conciliar tudo!

No mercado de trabalho em geral, a

mulher ganha menos e enfrenta grandes

desafios. Isso se reflete no cenário

musical com as mulheres cantoras e

artistas? Você viveu isso, e ainda “briga

por justiça e por respeito”, como

diz sua música?

O mercado de trabalho é muito ingrato

com nós, mulheres. Se for negra, pior

ainda!Sou inconformada, não me calo!

Brigo sempre por justiça e respeito. E

sigo fazendo a minha arte. Só faço o

que gosto e acredito.

Quais preconceitos e violências sofreu

em sua vida, por ser mulher e negra,

que poderia compartilhar conosco?

Porque as mulheres brasileiras são

vítimas de violência e discriminação

ainda hoje?

A primeira vez que vi e sofri preconceito

foi quando fui com minha mãe na casa

de uma família buscar a roupa que

minha mãe lavava para eles, e o porteiro

não deixou ela subir pelo elevador social.

Ali eu entendi o que era preconceito!

Nossa sociedade é machista, por isso a

mulher ainda sofre com violência e discriminação.

Mas não podemos calar,

denunciar sempre! Denuncie Now! Não

podemos aceitar.

A música “Maria de Vila Matilde” divulga

o Ligue 180 e convoca para o

combate à violência contra a mulher.

Você considera que a música deve ser

um instrumento de conscientização

e resistência à violência e à opressão

de gênero?

Claro. Esse é o papel do artista que questiona

a sociedade em que vive! O artista

tem o poder de conscientizar e alertar.

Como cantora, tento cumprir esse papel.

“A carne mais barata do mercado é a

carne negra”, diz a música “A carne”.

Quais os caminhos para mudar essa

realidade? Você acha que a escola e

as professoras têm um papel importante

nesse debate?

Se você não mudar, nada muda. Esse é

o primeiro passo para definitivamente

mudar algo que nos incomoda. Educação

é essencial para o povo. O que seria de

todos nós se não existissem os professores?

A música “A carne” também fala sobre

padrões e estereótipos impostos às

mulheres. “E esse país vai deixando

todo mundo preto, e o cabelo esticado”.

O que é beleza pra você?

Beleza é autoestima. É você se sentir

em paz consigo mesma...

Você declarou que votou em Dilma.

Você acha que o impeachment, que

muitos consideram como golpe, teve

a ver com machismo?

Preciso mesmo responder?

Na história recente do país, milhares

de pessoas saíram da condição de miséria

e fome, uma realidade que você

conheceu, não é mesmo? Você considera

que as políticas sociais que mudaram

esse cenário, estão em risco

neste momento?

Estamos vivendo um momento de muita

dificuldade. Está tudo muito estranho,

muito esquisito... Mas tenho muita fé

que conseguiremos nos salvar.

Para você, o que significa ser uma

“mulher do fim do mundo”? Com esse

álbum e outros, você ganhou muitos

prêmios e recebeu reconhecimento

nacional e internacional. O que ainda

almeja alcançar?

A Mulher do Fim do Mundo sou eu e

todas as mulheres que batalham dia

após dia. A Mulher do Fim do Mundo

não se cala, briga por sua liberdade e

espaço... Almejo que Deus permita que

eu cante até o fim!

Quais são seus sonhos para as mulheres

e para o país? Como as mulheres

podem ser protagonistas de

uma outra história?

Meu sonho é que todas as mulheres sejam

respeitadas, valorizadas, que conquistem

de uma vez por todas sua liberdade

e dignidade. Não precisa se

preocupar em ser protagonista. Viva e

escreva sua história todos os dias quando

abrir a janela da vida!;

114 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Cineclube Joaquim

Pedro de Andrade

Terças-feiras, às 19 horas

Rua Tupinambás 179, 14º andar, Centro - BH

Informações: 3115-3000 - 3274-5091

sinprominas@sinprominas.org.br

ENTRADA FRANCA

A mostra de cinema do cineclube Joaquim Pedro de Andrade é uma realização mensal

com quatro exibições às terças-feiras, sempre às 19 horas, com debates após as exibições.

As sessões especiais acontecem às 14 horas, quando há demanda do público

específico: escolas, associações, movimentos sociais entre outros segmentos da

sociedade. 40% da programação durante o ano é de filmes brasileiros.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

115


Arquivo Sinpro Minas


“A vida vale a

pena se a gente

tiver força de

lutar, alegria

de viver e prazer

de amar”

116 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


POR

MEMÓRIA

Débora Junqueira

Gilse Cosenza

deixa legado de

resistência

Márcia, Ceci, Léa, Tânia, Lia, Cecília.

Independentemente do codinome usado

na clandestinidade, Gilse Westin

Cosenza possuía a coragem de muitas

mulheres em uma só. Uma guerreira

que ficou encantada no dia 28 de maio

de 2017. “Quem luta, não morre, fica

encantada”, disse na sua última entrevista

à equipe do programa de TV Extra-Classe,

produzido pelo Sinpro Minas,

que foi ao ar pela Rede Minas, em

fevereiro deste ano. Para o Sindicato

dos Professores, a militante política

Gilse Cosenza sempre foi considerada

uma figura especial e recebeu muitas

homenagens em vida. Uma delas foi

na comemoração pelo Dia Internacional

da Mulher, em 2007, quando ganhou

uma singela placa confeccionada em

pedra com alguns dizeres gravados.

Na visita à casa dela para a entrevista,

a placa estava lá em destaque na

estante, entre outras tantas que ela

também recebeu como reconhecimento

por sua luta de resistência contra a

ditadura e em defesa dos direitos do

povo brasileiro. Aliás, resistência foi o

nome do programa que deu início à

série de reportagens para destacar pessoas

de luta como essa guerreira. A

escolha de seu nome como entrevistada

foi unanimidade. Afinal, Gilse, desde

a sua militância estudantil contra a ditadura,

lutas na clandestinidade e em

defesa das mulheres, atuação como dirigente

do PCdoB e como membro da

Comissão de Anistiados, sempre foi

um exemplo de mulher coragem.

Já na produção da entrevista, a jornalista

Cecília Alvim, que bateu um

longo papo com a Gilse, ficou impressionada

com as suas histórias de superação.

“Ela me contou sobre o que

passou no período da ditadura, de como

entrou na clandestinidade, de como

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

117


teve que se virar para viver e se esconder

dos militares, de como conseguiu

sobreviver à tortura psicológica a respeito

do paradeiro de sua filha enquanto

estava na prisão, de como criou suas

filhas em diferentes lugares enquanto

prestava um grande serviço à nação

de lutar contra um regime ditatorial e

pela restauração da ordem democrática”,

relata Cecília.

Antes de chegarmos à casa dela,

fiquei pensando que ia encontrar uma

mulher debilitada pelos graves problemas

de saúde que a atingiram nos

últimos anos. No entanto, ela estava

sorridente como sempre, falante e animada

em contar todos os detalhes das

lutas e glórias da sua existência. No

quarto dos fundos, a cama já estava

cheia de álbuns de fotos e livros que

ela nos mostrou, detalhando cada

lugar e momento. Eram tantas histórias

que podíamos ter planejado um

documentário, mas tive a difícil tarefa

de explicar a ela o pouco tempo que

dispúnhamos em um programa de TV

com menos de 30 minutos. E com

humildade e a experiência de quem já

deu muitas entrevistas, ela disse: “eu

vou falando e vocês me interrompam

ou cortam depois”. E realmente o trabalho

de edição da gravação, feito pelo

jornalista Denilson Cajazeiro, não foi

fácil, tamanha a riqueza de seu depoimento.

Mas o resultado foi um belo

programa que pode ser conferido na

TV Sinpro (www.sinprominas.org.br/-

programa-extra-classe).

Militante estudantil contra a ditadura,

Gilse participou de grupos como

o Juventude Estudantil Católica (JEC),

Juventude Universitária Católica (JUC)

e Ação Popular (AP), organização de

combate à ditadura. Era caloura no

curso de Serviço Social, da PUC Minas,

quando veio o golpe. Ao se formar, em

1967, já na clandestinidade, não pôde

colar o grau, com medo de ser pega pela

repressão naqueles anos de chumbo.

Na entrevista ao Programa Extra-

Classe, Gilse também falou sobre a

imagem da mulher na sua época. “Para

ser considerada moça de família, a mulher

deveria aprender prendas domésticas

e ter como objetivo fazer um bom

casamento. Ou seja, aprender a obedecer

ao pai para ser obediente ao marido”,

explicou. Ela contou que teve

que fugir de casa para cursar a universidade.

De lá pra cá, tornou-se feminista

e viveu como uma mulher livre. Um

episódio que mostra a sua coragem e

irreverência aconteceu no Congresso

Nacional há alguns anos. Como só era

permitida entrada de mulheres de saia

e ela estava de calças compridas, não

titubeou, aproveitou que estava com

uma blusa mais comprida, tirou as calças

na frente dos seguranças mesmo e

entrou no prédio. Gilse foi coordenadora

nacional da União Brasileira de

Mulheres (UBM) nos anos 1990.

Segundo ela, durante a ditadura, o

momento mais difícil foi a tortura psicológica

em relação à sua filha Juliana.

Gilse estava presa e era torturada para

delatar companheiros, o que nunca

fez. Chegaram a fazer uma simulação

como se tivessem pegado a filha ainda

bebê, colocando uma banheira rosa

com pedras de gelo e ameaçando fazer

coisas terríveis com a criança. Ela contou

que começou a notar que estavam

demorando muito para trazer a menina

e gritou: “Vocês não pegaram a

minha filha, nem vão pegar.” Depois

disso foi espancada, mas descobriu,

pela raiva dos repressores, que tudo

não passava de um blefe. Mais tarde,

na cadeia, enquanto lia o jornal, descobriu

que a filha Juliana estava bem. O

recado veio na charge do cartunista

Henfil, cunhado de Gilse, que usava os

personagens Fradim e Graúna para

fazer uma crítica velada à ditadura e

enviar notícias aos presos políticos.

“Na luta contra a ditadura, o povo

brasileiro foi vitorioso. Também considero-me

vitoriosa, consegui fazer a

luta na clandestinidade e criar duas

filhas maravilhosas”, disse emocionada.

Anos depois, Gilse estava presente também

nas lutas contra o golpe que retirou

da presidência uma outra mulher de

luta que também resistiu à ditadura,

Dilma Rousseff. Ela orgulhou-se em

dizer que suas filhas e netas também

estavam lutando e ocupando as ruas

neste outro momento da história da

frágil democracia brasileira. Um legado

que, como ela mesma disse, a ditadura

não conseguiu impedir.

Para finalizar, recitou o poema da

amiga e militante Loreta Valadares

“Quando eu me for, se eu me for, vão

até onde eu não fui, caminhos do ilimitado,

a face inédita do futuro, sem

fronteiras, sem inimigos. Encontre os

meios da liberdade, e vão tão longe

quanto possam, limiares de um outro

mundo, sem oprimidos, sem classe. E

quando as novas veredas do socialismo

forem percorridas, lembrem-se

de que fui até o impossível freio, só que

me faltou tempo”. Emocionada, abraçou

a jornalista Carina Santos, que

também fazia a entrevista e produzia

a gravação.

Tantas palavras ditas por Gilse com

potencial revolucionário, com tanto

sentimento e verdade, que não serão

esquecidas. Uma história de dor e superação,

de amor ao país e à sua família...

uma história que vai viver para

sempre em nossa memória.;

118 Revista Elas por Elas - Agosto 2017


Revista Elas por Elas - Agosto 2017

119


POUCAS E BOAS

INTERNET

Campanha incentiva produção

de bonecas negras

Rede Mulher e Mídia

http://mulheremidia.org.br/

A população negra representa 53,6%

dos/as brasileiros/as, segundo dados

do IBGE, mas as bonecas não retratam

essa diversidade. Durante uma arrecadação

de brinquedos para doação em

Salvador, três amigas – Ana Marcilio,

Mylene Alves e Raquel Rocha – receberam

bonecas de diversas marcas, variados

tamanhos, mas com uma semelhança:

todas eram brancas. O incômodo

com esse fato virou inspiração para

que criassem a campanha Cadê nossa

boneca?, que tem o apoio da organização

sem fins lucrativos Avante – Educação

e mobilização social.

A fanpage Cadê nossa boneca? possui

mais de 26,7 mil curtidas, centenas

de bonequeiras cadastradas no álbum

Onde achar a sua boneca negra, além

do mapa colaborativo no site, com notificações

sobre lojas e produtoras em

todo o país onde se encontram ou

não bonecas pretas. Atualmente,

somente 3% das lojas virtuais de

brinquedo disponibilizam bonecas

negras, de acordo com uma pesquisa

realizada pela equipe da Campanha.

Visite: Facebook.com/cadenossaboneca

Entranhas

www.entranhas.org

Empoderamento de meninas pelo esporte

Na puberdade, em função das pressões

sociais e dos estereótipos de gênero,

a autoestima das meninas tende a cair

duas vezes mais do que a dos meninos, e

49% das meninas abandonam a prática

esportiva, porcentagem seis vezes maior

em comparação com os meninos. Nessa

fase da vida, os estereótipos de gênero e

a linha que divide o que é considerado

adequado às meninas e aos meninos começa

a ficar muito mais evidente. Enquanto

as meninas são submetidas a um

controle e uma vigilância muito mais severa

sobre seu corpo e sexualidade, há

também uma objetificação muito maior

de seus corpos pela sociedade e pelas

diversas representações midiáticas.

Diante dessa realidade, a ONU

Mulheres e o Comitê Olímpico Internacional

criaram em 2016 o programa

Uma Vitória Leva à Outra, que tem

como objetivo criar espaços seguros

para que meninas de 10 a 14 anos

possam praticar esportes, se conhecer

melhor e adquirir habilidades para a

vida. O programa acontece no município

do Rio de Janeiro.

As meninas conversam e aprendem

sobre autoestima e liderança;

saúde e direitos sexuais e reprodutivos;

empoderamento e eliminação da violência

contra as mulheres e meninas

e educação financeira.

Visite: www.onumulheres.org.br

Mulher no Cinema

www.mulhernocinema.com

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Revista Elas por Elas - Agosto 2017


LIVROS

FILMES

Mirela e o Dia Internacional da Mulher

Autora: Ana Prestes

Editora: Lacre, 2016

Essa é a história de uma menina de 8 anos que recebe na

escola a tarefa de fazer uma pesquisa sobre o significado do

dia da mulher. Esse episódio aconteceu com a filha da autora.

Ao perceber que na biblioteca da escola da filha não tinha

nada sobre o assunto destinado ao público infantil e tampouco

nas livrarias, resolveu escrever um livro sobre o tema.

Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes

Autora: Elena Favilli e Francesca Cavallo

Editora: Vreditoras, 2017

O livro aborda a vida de 100 mulheres extraordinárias do

passado e do presente, ilustradas por 60 artistas mulheres

do mundo inteiro. Com textos que remetem ao estilo de

conto de fadas, muitas das histórias começam com o clássico

“Era uma vez”, pois, segundo a própria autora – Favalli –, a

ideia é dar a sensação de um conto de fadas moderno, para

embalar o sono das pequenas antes de dormir

Mulheres, Raça e Classe

Autora: Ângela Davis

Editora: Boitempo, 2016

Dorina - Olhar para o Mundo - O filme

resgata a trajetória de Dorina de Gouvêa

Nowill (1919 - 2010) em sua jornada de

consciência e transformação para os

deficientes visuais. Idealizado pela neta

de Dorina, a atriz Martha Nowill, foi

produzido pela Girafa Filmes, Dezenove

Som e Imagem e Mil Folhas. É o primeiro

documentário brasileiro da HBO com

audiodescrição. Disponível na internet.

Ôrí – A história dos movimentos negros

no Brasil entre 1977 e 1988 é contada

no documentário Ôrí, lançado pela cineasta

e socióloga Raquel Gerber. Tendo

como fio condutor a vida da historiadora

e ativista, Beatriz Nascimento, o filme

traça um panorama social, político e

cultural do país, em busca de uma identidade

que contemple também as populações

negras, e mostrando a importância

dos quilombos na formação

da nacionalidade.

Nessa obra, Davis analisa as estruturas racistas, sexistas e

classistas que ordenam nossa sociedade, considerando como

essas questões se entrelaçam. A autora traça um poderoso

panorama histórico e crítico das imbricações entre a luta

anticapitalista, a luta feminista, a luta antirracista e a luta

antiescravagista, passando pelos dilemas contemporâneos

da mulher.

Para educar crianças feministas – Um manifesto

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Editora: Companhia das Letras, 2017

O livro traz conselhos simples e precisos de como oferecer

uma formação igualitária a todas as crianças, o que se inicia

pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. Um manifesto

com quinze sugestões de como criar filhos dentro de

uma perspectiva feminista.

Lute como uma Menina - Documentário

sobre o protagonismo feminino no movimento

de secundaristas que abalou

São Paulo em 2015. O ativismo autônomo

dos secundaristas, não ligados a

organizações tradicionais, obrigou o estado

a recuar da imposição de um projeto

de “reorganização” que implicaria

no fechamento de centenas de salas

de aula e levou à queda de um secretário

da Educação. Disponível no Youtube.

Revista Elas por Elas - Agosto 2017

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RETRATO

Marcello Casa

Marisa Letícia Lula da Silva

Uma mulher guerreira. Aos 9 anos, já trabalhava

como babá. Aos 13, embalava bombons

numa fábrica de chocolates. Em 1980, já casada

com o ex-presidente Lula, liderou uma

passeata de mulheres em protesto contra

prisões na ditadura. Sempre um esteio para a

família, a ex-primeira dama suportou maledicências

e ataques que envolveram até a sua

morte em 3/02/2017 em função de um AVC.


A noite não adormece nos olhos das mulheres

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

a lua fêmea, semelhante nossa,

em vigília atenta vigia

a nossa memória.

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

há mais olhos que sono

onde lágrimas suspensas

virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

vaginas abertas

retêm e expulsam a vida

donde Ainás, Nzingas, Ngambeles

e outras meninas luas

afastam delas e de nós

os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá

jamais nos olhos das fêmeas

pois do nosso sangue-mulher

de nosso líquido lembradiço

em cada gota que jorra

um fio invisível e tônico

pacientemente cose a rede

de nossa milenar resistência.

Conceição Evaristo

(Em memória de Beatriz Nascimento)


AGOSTO 2017

NÚMERO 10

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