solidariedade - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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solidariedade - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

I b

SOLIDARIEDA

Órgão Informativo da Solidariedade Popular

Sorocaba, Abril de 1994 Ano III

O Congresso da Institucionalização

!mmfo,mkMliiijmm

(icoiiieceiioíüífessoilíiSoIÉriÉde

fo

a Lá muito a SOLIDARIE-

DADE POPULAR vem

atuando de forma discreta na

sociedade brasileira. Desde

que foi criada em 1987, esta

entidade, que num primeiro

momento, tinha o objetivo de

apenas fazer um estudo

conjuntural do Brasil, passou

da observação passiva para a

ação. De forma voluntária, seus

membros sempre estavam

dispostos a solidarizar-se com

a causa dos deserdados, dos

explorados. Mas tinha-se (e

tem-se ainda) em mente que

não é dando esmola que se

combate a miséria, que o

assistencialismo por si só, nada

adiantaria. Um dos eixos

principais que norteiam a

entidade é exatamente conscientizar

os brasileiros de sua

cidadania, conceito que entendemos

como o direito de todos,

e não apenas alguns cidadãos

terem os direitos anunciados

na DeclaraçãoUniversal dos

Direitos Humanos da ONU.

Logo lutamos para que o

homem, mulher, a criança tenha

direito a vida, a liberdade, a

alimentação, a dignidade, a

moradia, a educação, e outros

itens que constam como

direitos fundamentais dos seres

humanos.

Neste caminhar, a SOLIDA-

RIEDADE POPULAR, vê-se

na necessidade de organizar-

se de forma mais sistemática,

assim surgiu a idéia de

institucionalizar a entidade.

Idéia que de início foi

combatida por alguns membros

que temiam uma burocratiza-

ção da mesma, preocupação

de fato cabível, quando vemos

a quantidade de ONGs que

vivem exclusivamente apro-

veitando da desgraça alheia.

Mas depois de grandes dis-

cussões resolveu-se pela

institucionalização, evitando o

burocratismo comum estatuto

o mais democrático e discutido

possível.

01* Congresso da Solidariedade

Irmãos Canuto, Jmtíça será feita?

Wg. 3

Brasil: 24 milhões de desempregados

Fome leva a loucura

PÚg.2

Entrevistas eom o padre Ricardo

Mêtende Figueira

A Prostituição infantil no Brasil

Cartas Pé***

Intercâmbio

Pág.4

Mate um Menor Infrator F*M

£ Tempo de Solidariedade Pàg.4

1*^3

Wg.2


O l s Congresso da

Solidariedade

Talvez algum cidadão da pacata Porto

Feliz, tenha estranhado o movimento que

acontecia na Escola Estadual de 1° e 2°

grau' 'Monsenhor Seckler'', é que naquele

exato local no dia 26 e 27 de fevereiro

estava se realizando o I CONGRESSO

DA SOLIDARIEDADE POPULAR O

evento contou com a participação de

representantes de várias partes do país,

como Pará, Rio de Janeiro, Mato Grosso

e Sâo Paulo.

Todas as delegações foram aco-

modadas nas salas de aula da escola e os

trabalhos convencionais e os debates

ocorreram no auditório da mesma. Na

manhã do dia 26, após um rápido café,

houve o credenciamento dos presentes,

sendo aberto oficialmente o Congresso,

onde se votou para presidir os trabalhos o

coordenador da Seção da SOLIDARIE-

DADE POPULAR de Porto Feliz SP,

Cláudio Maffei, epara secretariar o evento

Dilma Alexandre Figueiredo da seção da

Baixada Fluminense-RJ. Cada delegação

se apresentou e explicou um pouco sobre

o trabalho desenvolvido, acontecendo em

seguida a leitura de cartas de apoio

recebidas, nas quais constavam telegramas

do Comitê Rio Maria, Padre Ricardo

Rezende, do cantor popular cearense,

Pingo de Fortaleza, da OPAN (Operação

Anchieta - Entidade Indigenista), e um

fax do Deputado Federal e ganhador do

prêmio Nacional dos Direitos Humanos,

Hélio Bicudo, também foram lidas cartas

das seções que não puderam comparecer.

No dia 27 houve a Assembléia para

discussão e aprovação do estatuto e da

Diretoria que ficou constituída pelos

seguintes membros fundadores:

Presidente - Cláudio Maffei (seção

Porto Feliz SP); Vice-Presidente - Joel

Alves Celestino (seção Salto SP);

Secretário - Elias Enrique Moreira (seção

Vargem Grande Paulista SP); Suplente

de Secretário - Rafael Eduardo da Silva

Diniz (seção Sorocaba SP); Tesoureiro -

German Varela Castrillon Júnior (seção

Sorocaba SP); Suplente de Tesoureiro -

Dilma Alexandre Figueredo (seção São

João do Meriti). Foi eleito juntamente

com a Diretoria um Conselho Fiscal de

três membros: Silvio César Medeiros

Vieira (seção Rondonópolis MT),

Claudionor Vieira Baús (seção Porto Feliz

SP) e Marcos Donizete Fabiano (seção

Salto SP).

Após a posse da Diretoria ocorreu

uma discussão sobre o planejamento de

um cronograma nacional para a entidade

que ficou da seguinte maneira;

19/04 - Dia do índio - protesto contra as

violações dos direitos dos povos

indígenas, e pela demarcação de suas

terras;

01/05 - Dia do Trabalhador;

25/07 - Dia do Trabalhador Rural;

07/09 - Semana da Pátria - eventos

demonstrando a falta de democracia e

independência do Brasil, mostrando que

a verdadeira libertação do país só será

real quando todo o povo tiver sua

dignidade garantida;

02/10 - Dois anos da chacina do

carandiru; em São Paulo, planejar

eventosde protestos contra as chacinas

que ocorrem no país;

20/11-DiadaConsciêciaNegra-planejar

eventos protestando contra a

discriminação racial;

10/12 - Dia Universal dos Direitos

humanos.

Após as considerações de cada

elemento presente ao Congresso foi este

encerrado ao som de Geraldo Vandré.

Assim ficou institucionalizada nossa

entidade, a SOLIDARIEDADE POPULAR

IRMÃOS CANUTO,

JUSTIÇA SERÁ FEITA?

A vida tem suas ciladas e muitas

tem sido armadas contra lavradores.

Em rio Maria-PA, Orlando, José e

Paulo, filhos de João Canuto, fo-

ram seqüestrados em 1991 por

quatro pistoleiros. Dois além de

jagunços, eram policiais militares.

Onando sobreviveu ferido, seus

irmãos morreram. O pai que era

presidente do Sindicadto dos

Trabalhadores Rurais, também foi

assassinado e Carlos Cabral,

cunhado e atual presidente deste

Sindicato escapou, baleado na

perna, vítima de um atentado.

No sul paraense não houve

sequer um Húri para os crimes do

latifúndio que torturou, utilizou de

mão de obra escrava e assassinou

mais de 200 homens, mulheres e,

mesmo, crianças nos derradeiros

últimos 14 anos. Está na hora de se

por um fmal neste espetáculo de

terror. Teremos em Belém o

primeiro julgamento de um crime

do sul do Para, em 28 de abril. Irá ao

banco dos réus Ubiratam Ubirajara,

expulso agora da PM, onde era

soldado, estava também preso, mas

deixaram escapar, o sargento Edson

Matos. Não foram presos os outros

dois pistoleiros e sequer pronun-

ciados pela justiça os fazendeiros

responsáveis pela autoria inte-

lectual.

Para nós é só o primeiro ato.

devemos conseguir a condenação

não só de Ubiratam, mas de todos

os que teceram conspirações de

morte ou as cometeram.

Comitê Rio Maria

BRASIL:

SOLIDARIEDADE

2,4 MILHÕES DE DESEMPREGADOS

Além dos 2,4milhões de desempregados, o brasil

possui cerca de 20 milhões (equivalente à poulação

do Peru) de subtrabalhadores, ou seja, pessoas que

estão desempregadas, que recebem menos de um

salánominimoouquenadarecebempelo seu trabalho,

Para ser mais exato: 5,2 milhões trabalham e não são

remunerados, 12,3 milhões recebem menos de um

salário e 1S milhões recebem entre um e dois salários

iníi limos.

Estes são alguns dos dados fornecidos dos dados

fornecidos pdo IBGE a pedido do sociólogo Herbert

de Souza, o Betinho, que transformou a hita contra o

desemprego na nova bandeira de lutadesua campanha.

Apraneira vista poderíamos conacluir que o país

passa por uma grande crise econômica, mas isto não

é verdade, pois o Brasil é o detentor do 9 PIB (Produto

Interno Bruto) mundial.

Na realidade o que estes dados mostram é a

terrível situação imposta aos trabalhadores, não só do

Brasil mas dos países do terceiro mundo, por uma

classe empresarial e política desumana e vinculada a

interesses internacionais.

Parte desta realidade pode ser constatada ainda

por outros dados apresentados por Betiidio na ação da

cidadania contra a Fome e a

Miséria pela Vida: há no

mercado de trabalho 1,9

milhões de crianças entre 10 e

13 anos, 31 milhões dos 62

milhões de brasileiros ocupados

não contribuem com a

previdência, a média salarial

da mulher negra ou parda é a

metade d* renda das mulheres

brancas, no Piauí (um dos

estados mais pobres da União)

o trabalho escravo, ou semi

escrava, é a rotina para cerca de 233% dos seus

trabalhadores, que trabalham em troca de comida e

abrigo. E o caso do Piauiense Pedro Bezerra de Meto

que não recebe salário e em troca do trabalho tem

casa para morar e uma pequena faixa de terra para

plantar o que come. Melo trabalha desde os 10 anos

e nunca pode ir i escola.'A casa vive há seis anos tem

50 metros quadrados e três cômodos - sala. quarto e

cozinha. Melo em oito filhos, mas só cinco moram

com ele. A mulher foi embora há oito anos. "Eu era

doente. Ela uma mulher nova, foi embora. "As três

filhas também se foram. Melo acredita que se ganhasse

um salário mínimo pormês poderia comprar um casa

em Altos e realizar seus três sonhos: ver os filhos em

boa situação para ser amparado quando não Puder

mais trabalhar, morar em altos e ter o que comer.

Meio é ura retrato dos 5 milhões de brasileiros que

trabalham sem remuneração.

Infelizmente será muito difícil para o betinho,

conseguir sensibilizar so donos do poder neste pais,

que controlam o mercado de trabalho e tanto fazem

paraa que a reforma Agrária não aconteça. Mas por

outro lado, a mobilização de toda a sociedade nunca

foi tão necessária.

FOME LEVA A LOUCURA

A miséria que atinge cerca de um

quarto da População de Ouricuri (PE)

fez surgir casos de loucura atribuídos

a má alimentação.

Os "loucos da fome", como são

conhecidos, concentram-se na zona ru-

ral, onde os efeitos da seca são

devastadores.

O hospital regional, referência para

os que procuram auxílio na cidade,

registrou em 93 cerca de seis casos por

semana de demência causados pela

fome.

Em sua grande maioria as vítimas

são jovens entre 14 e 21 anos. Eles

apresentam sintomas como delírio e

perdem a capacidade de orientação

durante as crises.

Juarez Coriolano da Silva, 44,

diretor do hospital regional informou

que com a desativação do departamento

psiquiátrico do hospital há três anos, é

obrigado a encaminhar os doentes a

clínicas psiquiátricas de Crato (CE) e

Serra Talhada (PE). Nas clínicas, os

"loucos da fome" passam de uma

semana a 35 dias em tratamento.

Recebem alimentação e a maioria se

recupera. Mas segundo a psicóloga da

casa de Saúde de Crato, Meifran

Milsont, "eles retomam por não ter

condições de comprar medicamentos e

se alimentar".

Milsont acredita que ao chegar a

determinado estágio da loucura alguns

pacientes podem ficar

permanentemente comprometidos.

A lavradora Maria Isabel

Conceição, 45, que mora na zona rural

do município costuma alimentar seus

nove filhos com cacto, conhecido na

região por palma. A planta é utilizada

pelos fazendeiros como ração para

gado.

Ela serve o cacto cozido, cortado

em pequenos cubos e misturados com

arroz ou farinha de milho.

Luiz Pereira de Oliveira, 37, perdeu

a lavoura com a seca. Para escapar da

fome ele caça lagartos, cavando astocas

onde os animais se escondem. A carne

do réptil reforça a alimentação das

famílias de Ouricurie o couro curtido é

vendido na cidade.

Ouricuri fica a 632 Km de recife e

possui uma população de 61988

pessoas e 7721 famílias indigentes.

Enquanto as campanhas contra a

fome não conseguem dar conta da

miséria que reina no sertão, os grandes

latifundiários continuam a engordar o

seu gado e seu bolso levando os menos

afortunados (literalmente) à loucura.


SOLIDARIEDADE

Pe. Ri-

c a r d o

Rezende

Figueira,

vigário de

Rio Maria-

PA e fre-

qüentador

assíduo das

listas de

homens

marcados

para morrer

no sul do

Pará tomou-se um símbolo vivo dos

trabalhadores rurais dessa região.

Conhecido interna-cionalmente pela sua

luta contra o trabalho escravo em fazendas

da região, Pe. Ricardo tem denunciado

constantemente a violência sofrida por

pequenos lavradores no sul do Pará. Nas

palestras e seminários de estudos em países

da Europa e nos Estados Unidos, nas

entrevistas à imprensa nacional e

internacional, nos livros publicados no Brasil

e no exterior a denúncia tem sido sistemática.

Rezende tem sido uma voz sólida e

permanente a falar em nome dos lavradores

e a denucniar a opressão.

Em 1992 fez uma denúncia formal contra

o governo brasileiro no plenário da ONU em

Genebra, a convite da Federação

Internacional dos Direitos Humanos com

sede em Paris, e também apresentou em

nome da CPT (Comissão Pastoral da Terra)

duas petições contra o governo brasileiro na

Comissão dos Direitos Humanos da OEA.

No ano passado voltou novamente a

Washington para acompanhar o andamento

das petições na OEA.

Autor de "A JUSTIÇA DO LOBO"

(Vozes, 1985, esgotado) e "RIO MARIA,

O CANTO DA TERRA" (Vozes, 1992),

escreveu com outros autores os livros

"POETAS DO ARAGUAIA" (Cedi, 1983)

e "IGREJA E QUESTÃO AGRARIA"

(Loyola, 1985).

Ricardo Rezende concedeu esta

entrevista à Solidariedade Popular em

21.03.94, pouco antes de voltar aos Estados

Unidos onde estará Lançando seu livro " Rio

Maria, o canto da terra."

7. SOLIDAR: Como o Sr. vê a questão dos

Direitos Humanos no Brasil?

RICARDO: Vejo como uma das

Pe. Ricardo Rezende, o

dispossuídos no sul

bandeiras que devem ser empunhados de

forma mais urgente. O Brasil tem convivido

com desrespeito contínuos e a impunidade é

uma ofensa aos homens, mulheres e crianças

vítimas de arbítrios os mais variados. Fico

feliz quando encontro tanto no país, como

no exteior, grupos que voluntariamente

dedicam parte importante do seu tempo por

esta causa. Temos que construir uma nação

onde o direito e a cidadania sejam o

cotidiano, a normalidade.

2. SOLIDAR: Onde o Sr. identifica os

maiores focos de desrespeito aos Diretos

Humanos no país?

RICARDO: Ele atinge a população mais

carente economicamente e, dentro desta, a

população negra é a primeira a ser atingida.

O número de negros que mora em condições

desumanas, que são presos ilegalmente,

assassinados com requintes de crueldade,

impedidos de penetrar no mundo do

conhecimento ilustrado etc. Mas não atinge

apenas aos negros. Os de outra cor, sendo

pobres, também são vítimas de trabalho

escravo, prostituição, dormem nas ruas. Há

discriminações e desrespeitos em todos os

níveis: é a empregada doméstica que não

pode entrar no elevador social do edifício

onde trabalha, o aidético que é demitido do

trabalho por preconceito, a mulher que é

espancada, o preso que é torturado, grupos

de assassinos matam nas cidades e no campo,

crianças e adultos...

3. SOLIDAR: No campo, como está a

questão dos Direitos Humanos?

RICARDO: Passa à léguas do campo.

A noção mínima de respeito não existe. Há

latifúndios, pertencentes aos velhos coronéis

ou a empresas modernas, que tratam as

pessoas da roça com toda crueldade. Não se

respeita qualquer lei trabalhista. Centenas

são aquelas que trabalham sem carteira

assinada, sem garantia de férias, décimo

terceiro etc. Há ainda o sistema de barracão,

onde em vez de dinheiro o trabalhador recebe

gêneros alimentícios majorados nos preços,

provocando um endividamento progressivo

e se tomam cativos destas dívidas. Muitas

vezes há violência fisica. Se alguém tenta

escapar, pode ser capturado, espancado e até

morto. Outros assassinados na luta pela

posse da terra, ou na organização sindical.

4. SOLIDAR AReformaAgráriaresolveria

os conflitos do campo?

RICARDO: A Reforma Agrária é um

conjunto de medidas que fariam desaparecer

a longo prazo os problemas da fome, do

abastecimento, do emprego do país e, mesmo,

dos conflitos com tanta violência. Por outro

lado sabemos que é um processo penoso. A

oligarquia rural tem se mostrado

extremamente truculenta e atrasada. Não

quer perder sequer os anéis.

5. SOLIDAR: Por que o sul do Pará

apresenta números tão alarmantes quanto

ao número de camponeses mortos no

campo?

RICARDO: Por um conjunto de fatores:

é área de penetração recente; o governo

montou um programa financiado pela

SUDAM que incentivou e financiou a

concentração fundiária e a destruição do

meio ambiente, através das derrubadas

imensas para se plantar capim, pois jamais

houve apuração séria do trabalho escravo,

dos homicídios ou julgamento dos

responsáveis. O conflito da terra não se deu

por acidente. Fez parte de um plano de

governo de ocupação do espaço. Há uma

coincidência: onde há grandes projetos

governamentais, há tamb-im grandes

conflitos.

6. SOLIDAR: Qual o papel dos Comitês Rio

Maria no Brasil e no exterior?

RICARDO: Logo após o assassinato

de Expedito Ribeiro, na época presidente do

Sindicato dos Trabalhadores Rurais,

convocamos representantes dos diversos

municípios do Sul do Pará e decidimos pela

criação dos Comitês. Havia um número tão

grande de camponeses assassinados na

região que era o momento de por um basta

nisso. Um dos mecanismos seria fazer

funcionar uma equipe de advogados que

priorizariam os casos mais dramáticos e

escandalosos, pois seria impossível

labutarmos com todos os casos. Para se ter

uma idéia: o latifúndio matou de maio 1980

a dezembro de 1993,204 pessoas. No nível

jurídico também desencadeamos operações

de pressões: três pronunciamentos na ONU,

em Genebra, e uma petição na O.E.A, em

Washington. Mas as pressões passam pela

instância das organizações não

governamentais também. Os diversos

comitês Rio Maria do país e do exterior

passaram a suscitar e tecer solidariedade

para cornos lavradores, fazer campanhas de

cartas às autoridades no sentido de agilizar

os inquéritos e processos jurídicos. O livro

A PROSTITUIÇÃO INFANTIL NO BRASIL

Em São Paulo meninas prostitutas

estão sendo usadas por traficantes para

venderem drogas. Viciadas em crack

(derivada da cocaína) elas recebem esta

perigosa droga em troca do serviço pelo

transporte do entorpecente.

No Nordeste, destaca-se o

pomoturismo, suiços, franceses e alemães

vem ao Brasil para aproveitar dos pacotes

turísticos que incluiriam uma passagem

de vinda e duas de ida, sendo que a

passagem extra seria para levar uma

prostituta. Muitas dessas garotas viveriam

na condição de escravas na Europa, sendo

que alguns pornoturistas querendo

recuperar o dinheiro acabam empres-

tando-as mediante o pagamento de seus

amigos. Outros acabam caindo nas mãos

de gigolôs e não mais conseguem sair.

No Ceará turistas estrangeiros alugam

casas luxuosas, atraindo garotas. Em

Recife usam-se hotéis de cinco estrelas,

quanto mais jovens, a prostituta, maior é

o preço.

Na Amazônia é comum a prática de

escravização de meninas, principalmente

junto aos garimpos. Nesta região elas

também são utilizadas, por traficantes de

drogas, lá existe como agravante a

proximidade com os centros produtores

da drogas.

No Rio de Janeiro, acontece a

prostituição de meninos, são envolvidos

garotos de até 11 anos de idade. Só que as

denúncias na maioria das vezes são raras,

pois as testemunhas, afirmam, em

depoimentos sigilosos, que seriam mortas

caso revelassem o nome dos agenciadores.

Em São Paulo as pessoas que tentam

ajudar as prostitutas a mudar de destino,

correm perigo e são freqüentemente

ameaçados de morte. A violência é o traço

marcante, sendo qüè a policia quando não

participa acaba sendo conivente com a

situação. Em São Paulo, existe denúncias

que garotas sofrem ataques de policias

civis, militares e de guardas metropo-

litanos, enquanto que na Amazônia existe

provas do envolvimento da polícia com

traficantes de meninas.

Essas i nformações fazem parte da mior

investigação produzida no país sobre

prostituição infantil, comandada por uma

CPI? Comissão Parlamentar de Inquérito),

que depois de 9 meses de depoimentos e

viagens, apresenta um diagnóstico sobre

o assunto, essa CPI constatou que meninas

de 8 anos já estão vendendo seu corpo.

Durante as investigações, por exemplo,

constatou-se que uma menina num

garimpo na Amazônia, teve sua cabeça

iecepada por um garimpieiro, pelo motivo

dela ter-se recusado a fazer sexo.

Arauto dos

do Pará

Rio Maria Canto da Terra foi publicado

neste espírito. Como conseqüência a região

se tomou um símbolo do problema fundiário

e provocou discussão sobre a Reforma

Agrária no país.

7. SOLIDAR: No exterior qual a visão que

se tem dos problemas fundiários do pais?

RICARDO: Em geral se sabe pouco

sobreoBrasil, cuja capital pxxferia ser Buenos

Aires. Mas há, pxjr outro lado, inúmeros

grupws ligados aos direitos humanos e ao

meio ambiente que são muito melhor

informados que a grande parte do pwvo

brasileiro. Encontrei alemão, norte-

americano, inglês, fiancês etc. apaixonado

por nossa terra. Estudam o pxatuguês, leêm

sobre nosso país, publicam cadernos,

boletins, revistas sobre questões relativas às

violações dos direitos humanos, questões de

terra, índios, etc. Na França participai de

uma programação de 40 grupos de

Documentação e Informação do Terceiro

Mundo que queriam discutir e fazer discutir

os 500 anos da invasão em nosso continente.

São em geral pessoas de grande boa vontade

e espírito de solidariedade que

voluntariamente se dedicam à esta causa.

8. SOLIDAR: Qual a importância de

entidades, como a SOLIDARIEDADE

POPULAR, lutarem em defesa dos

DIREITOS HUMANOS?

RICARDO: São importantes.

Tornaram-se como a consciência da

sociedade, ao colocarem o dedo na ferida, ao

cutucarem os pxxieres que se decompuseram

em arbítrio, violência, descaso. São um sopiro

de oxigênio que reforçam os que militam em

fronteiras de morte e medo, lutando pela

vida e p)elo direito. Para isto é necessário

muita fé. Aliás, frei Betto com muita

felicidade afirma que o contrário do medo

não é a coragem, mas a fé. Ou a fé num

projeto utópico de sociedadeehomem,aoalém

disso, num Deus que quer Homens e Mulheres

livres de todas as opressões libertos.

9. SOLIDAR: O que teria para dizer às

seções da SOLIDARIEDADE POPULAR?

RICARDO: Que tenho muita estima

pela SOLIDARIEDADE POPULAR.

Conheço diversos de seus membros, pxw

quem tenho profundo respeito e admiração.

Quero dizer ainda que a hora é de bastante

teimosia, de arribar a esperança e insistir.

CARTAS

Rio Maria, 21.03.94

Recebam minhas congratulações

pelo Congresso. Quero expressar aos

companheiros a minha convicção de

que a implantação da SOLIDA-

RIEDADE POPULAR corresponde a

mais justa e solidária.

Permaneço ao inteiro dispor para

integrar-me na direção apontada que

se configura numa esperança, que

aos poucos se vai concretizando, de

uma participação mais profunda do

povo na realização de seus ideais de

dignidade e cidadania

cordialmente

Hélio Bicudo Dep. Federai


SOLIDARIEDADE

POPULAR SEÇÃO

SOROCABA

Rua Venezuela, 451 - Barcelona

CEP 18.025-190 Sorocaba SP

SOLIDARIEDADE

POPULAR SEÇÃO

RONDONÓPOLIS

Caixa Postal-237

CEP 78.700-970

Rondonópolis - MT

SOLIDARIEDADE

POPULAR SEÇÃO

BAIXADA

FLUMINENSE

Rua Lili, 463 Comendador

Soares

CEP 26.275460 Nova Iguaçu - RJ

SOLIDARIEDADE

POPULAR SEÇÃO SP

Rua Coatinga, 126 - Jardim

Umarizal

CEP 05756-340 São Paulo SP

SOLIDARIEDADE

SEÇÃO VITORIA DA

CONQUISTA

Rua Mario Vasconselos, 117

Bairro Sumaré

CEP 45.100-000 Vitória da

Conquista BA

Mate um menor infrator

Por mais incrível que possa

parecer este não é um anúncio

fictício. Este anúncio foi publicado

em Londrina PR no Jornal "Hot

List" do dia 06/03/94, que é de

propiedade de Marcelo Pereira, 25

anos, que foi indiciado sob acusação

de "incitação ao crime". Marcelo

negou a participação de comercian-

tes da região dos "Cinco

Conjuntos" (zonaNorte de Londri-

na) na elaboração do anúncio, que

no entanto aprece assinado pelos

'' comerciante vitimados''.

Marcelo disse a policia que o

objetivo era intimidar os menores

infratores.

O Hot List, com 2,7 mil

exemplares circula nos cinco

conjuntos (região conhecida como

cincão ), região com 110 mil

habitantes e onde aincidência de

SOLIDARIEDADE

CfcMDrAMp.. CLÁUDtOMAFFfi

fiqtdMRMMbr CERMAN V. C. Jft.

ttAUOKMORV.MUS

CoMonMbresr RICARDO «. PIGUEIRA

fiftcxspfc; OtoLUComunicaçOt»

M»: KAMAAÚ

Tiragem: t.00O«Mmipiar«a

assaltos é uma das maiores de

londrina.

O anúncio pede para que a

população'' colabore com a melho-

ria do cincão: mate um menor

infrator".

O delegado chefe da polícia civil

de Londrina, Clóvis Galvão Gomes

disse que os comerciantes que

anunciam no Hot List serão ouvidos

no inquérito "pois pode haver parti-

cipação de empresários na sandice''.

Segundo SandraFreitas Coelho,

do Conselho Tutelar da Criança e

do Adolescente de Londrina, a

ultima pesquisa sobre menores

apontava 230 crianças e adoles-

centes vivendo nas ruas da cidade.

Somente onde a miséria , o

desamparo e a incompetência do

estadoreinam, é que atos insanos

como este podem acontecer.

RECADO

SOLIDARIEDADE

É TEMPO DE SOLIDARIEDADE

Extermínio de crianças, assas-

sinatos de Sindicalistas, violência

contra quem ocupa terras na cidade

e no campo.

Noticias como essa são despe*

jadas nos nossos olhos todas os

dias através dosjomais, das rádios

e dós canais de televisão. Passam

espremidas entre um terremoto em

algum pais distante e a chegada de

algum Ídolo do cinema ou cantor

de Rock no Brasil. Chegam,

chocam, e já no próximo minuto

são completamente esquecidas.

Parecem querer nos convecer

que esses problemas só acontecem

no breve espaço em que aparecem

na tela da televisão, sendo logo

depois substiutidas pelas imagens

coloridas dos anúncios.

Só que, apesar dos esforços dos

meios de comunicações para nos

anestesiar, esses fatos continuam

depois do horário nobre, e de

maneira muito mais violenta do

que imaginamos. Os pais e os

irmãos das crianças que já foram

assassinadas continuam sob a

mesmamira criminosa. Asfamílias

dos trabalhadores assassinados

não tem como providenciar o seu

sustento. Os companheiros que

substituem esses lideres estão

marcados para morrer.

O Brasil vive uma guerra civil

camuflada, onde a lei do mais forte

se impõe na ponta do revólver.

Saber disso épermanecer inerte,

é um crime tão grande quanto o

daqueles que puxam o gatilho na

meadas crianças brasileiras. Será

possível que anorde convívio com

a injustiça e o individualismo, com

a miséria, destruíram nossa

cepacidadede indignação?

SOLIDARIEDADE

ASSINATURAS

Anual; 6URVs

Semestral: 3 URVs

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA:

R Venezuela, 451 - Barcelona

CEP 18025-190

Sorocaba - SP

Hoje, mais do que nunca, é

preciso que nos esforcemos pata

recuperar algo que em nosso pais

parece perdido: a dignidade do ser

humano! O direito que todo homem

tem ao mínimo necessário para a

sua sobrevivência: um te toe comida

todos os dias.

Pensamos que um caminho para

isso é a formação de Seções da

Solidariedade Popular. Seções que

se proponham a denunciar e

esclarecer todas essas agressões,

que atingem tantos brasileiros*

Seções que mobilitem as pessoas

para ações concretas de solida-

riedade.

Organizar abaixo-assinados,

conseguir indicações para empre"

gos, dar assistência médica ou

jurídicaoumesmorecolher doações

de remédios, roupas ou alimentos

são algumas das inúmeras ações

que a SOLIDARIEDADE POPU-

LAR pode realizar. E são apenas

algumas, das inúmeras formas de

demonstrarmos nossa solidarie-

dade* Todas essas ações, se não

resolverem os problemas que

enfrentamos, ao menos contribuirão

para tomar a vida de suas vítimas

um pouco mais suportável.

Portanto, mãos à obra! Organize

uma seção da SOLIDARIEDADE

POPULAR em sua cidade ou região.

E se você sentitsse uma ando-

rinha solitária nos tempos de

invernoquevivemos, confie em que

há muitos que pensam como você. E

que o trabalho conjunto de todas

essas andorinhas espalhadas pelo

Brasilfaráchegar o verãoesperado.

Rafael Eduardo da Silva Diniz

r

L

(SeçOo Sorocaba)

n

j

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