E que eu não caia sem antes ter entesado a última ... - cpvsp.org.br

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E que eu não caia sem antes ter entesado a última ... - cpvsp.org.br

^:K)j?<br />

Eu era a Saúde dos olhos,<br />

penetrantes como flechas..<br />

E nós te mergulhamos<br />

nos vírus, nos bacilos,<br />

nas pestes importadas<br />

Teu povo reduzimos<br />

a um povo de doentes,<br />

a um povo de defuntos<br />

Missa da Terra Sem Males<br />

E que eu não caia sem antes ter entesado a última seta,<br />

sem que meu arco seja passado a outro bravo,<br />

que eu caia apontando para o sol nascente,<br />

de onde por mais tenebrosa que tenha sido a noite,<br />

há de romper a aurora...<br />

Scílla Franco


v///ji^mzí<br />

E^a#dl l^i1or*_<br />

Muito obrigado pelas<br />

notícias e pelo boletim<br />

TUPARI. Encontrei um<br />

artigo da Geralda Soares<br />

e outro da Genilma Boe-<br />

hler no boletim — duas<br />

amigas muito boas de<br />

mim — parece que o<br />

mundo é menor do que<br />

achamos! .<br />

Michele Wolf, Áustria<br />

Aos amigos do GTME<br />

Não sei exatamente quem tem<br />

se interessado em me enviar o<br />

boletim que vocês editam,<br />

mas confesso que tem sido<br />

motivo de inspiração para<br />

meu trabalho.<br />

Falo regularmente para alunos<br />

da USP - Cidade Universitária<br />

e tenho usado a publicação<br />

para instruir algumas pales-<br />

tras. Obrigado pela atenção...<br />

FALANDO DE SA UDE<br />

Na área de saúde, programas preservacionistas preconizam o<br />

uso de plantas medicinais ou a integração dos pajés nas curas. As<br />

comunidades indígenas, quanto a elas, reivindicam melhorias na<br />

qualidade dos serviços de saúde e de ensino. Os índios não espe-<br />

ram dos brancos que lhes reensinem suas tradições, mas querem<br />

dominar o português, a matemaática e outras ténicas habitualmen-<br />

te monopolizadas pelos brancos. Não se iludem com as conces-<br />

sões feitas a seus saberes tradicionais quando são relegados à con-<br />

dição de enfeites culturais e quando se acompanham de evidente<br />

ineficácia no combate às epidemias.<br />

Luís Donisete Benzi Grupioni • "índios no Brasil", pág. 132, SMC, SP<br />

... O progressivo e quase total esvaziamento das ações de saú-<br />

de da FUNAI ao nível das aldeias é um dos problemas cruciais<br />

com que se defrontam as comunidades indígenas de todo o país.<br />

... O acesso ao Sistema Único de Saúde em seus diferentes ní-<br />

veis de complexidade, em tortuoso curso de implantação no país,<br />

continha sendo apenas teórico para a maior parte da população in-<br />

dígena. Além disso ainda não está esclarecido como serão desen-<br />

volvidas as ações de saúde nas comunidades indígenas e de que<br />

forma será assegurado o respeito às características culturais e prá-<br />

ticas tradicionais dos diferentes grupos, sem deixar de lado os be-<br />

nefícios da medicina ocidental.<br />

... Deve-se ressaltar, no entanto, que embora as organizações<br />

não-governamentais possam desenvolver algumas ações comple-<br />

mentares, não cabe a elas assumirem responsabilidades e progra-<br />

mas que são da alçada do Governo Federal. É importante que o<br />

envolvimento de entidades não-governamentais em projetos e pro-<br />

gramas de saúde não leve a um<br />

maior esvaziamento das ações<br />

do governo federal e que as jus-<br />

tas reivindicações do índio por<br />

melhores condições de vida e<br />

saúde não sejam desviadas dos<br />

órgãos governamentais respon-<br />

sáveis para as entidades não-go-<br />

vernamentais...<br />

Publicado pela Unidade de Saú-<br />

de e Meio Ambiente. Departa-<br />

mento de Medicina Preventina.<br />

Escola Paulista de Medicina.<br />

Vol. 2-n 0 2-Jun/92.<br />

TUPARI MARÇO/93<br />

Não sei como, mas se eu pu-<br />

der ser útil de alguma forma<br />

para o GTME, gostaria que<br />

me incluíssem nos seus pla-<br />

nos. Luto pelo ideal indígena<br />

desde 1^52, quando iniciamos<br />

a missa. rpdas Cobras, en-<br />

tre os Caingangues/Guaranis<br />

pela Igreja Metodista.<br />

Abraços sinceros do compa-<br />

nheiro.<br />

Geraldo Esteves<br />

Paz e Justiça!<br />

Recebi o Tupari do mês de<br />

dezembro e está ótimo.<br />

Estou enviando um cheque de<br />

Cr$ 50.000,00 para você<br />

mandar mais uns cinco jor-<br />

nais, pois quero enviar para<br />

alguns colegas.<br />

Gostaria de saber o valor de<br />

novas assinaturas.<br />

No mês de março irei passar<br />

uns meses com os "Pataxós"<br />

na Bahia. Depois enviarei<br />

aquele artigo que prometi so-<br />

bre "Povo de Deus faz Histó-<br />

ria lutando pelas Organiza-<br />

ções Indígenas".<br />

Um fraternal abraço do servo<br />

menor Ademário (Taiguã) - pastor IPU<br />

Formosa, GO<br />

Prezados/as amigos/as,<br />

Parabéns a toda equipe GT-<br />

ME que faz o TUPARI, pelo<br />

ri 0 41 de dez/92, agradeço pe-<br />

lo envio do "novo mundo no-<br />

vo"<br />

Abraços,<br />

on Silva - CIMI/Pernambuco<br />

MEDICINA KRENAK<br />

A medicina indíscna<br />

ensiaadã aos Krenak por<br />

Joaquim Grande.<br />

Relato de Sônia Krenak.<br />

"Quando ele era novo e<br />

eu era criança, era muito<br />

difícil tomar remédio de<br />

médico lá. Ele fazia pra<br />

DÓS.<br />

DOR DE BARRIGA:<br />

(Mal do estômago)<br />

Esfregava a folha dn melão<br />

de São Caetano bem e.sfrepa-<br />

dinho. Espremia dentro de uni<br />

. • , ■ ■ , ■•■■■■■■<br />

pitadinba de sal. Esse remédio<br />

fazia a gente vomitar mdo que<br />

estava dentro da barriga. Curava<br />

na hora.<br />

DOR DE BARRIGA:<br />

Arrancava a buta, raspava,<br />

cortava os pedacinho e botava<br />

na água. Quando aquilo lava<br />

bem amargando, dava prá to-<br />

mar. Buta é bom prá emagre-<br />

cer, faz abortar.<br />

GRIPE:<br />

Folha de fedegoso com folha<br />

de laranja. Fazia chá. Tudo<br />

que era adjunto do mato. de<br />

tlorzinha que ele soubesse que<br />

era remédio, ele pegava e fa-<br />

zia xarope prá gripe. E dava<br />

nós. Nunca levou nós no mé-<br />

dico prá tomar remédio. Nós<br />

tratava com remédio do mato.<br />

GRIPE:<br />

Tudo enquanto é tlor de laran-<br />

malmequcr etc juntava e dava<br />

sber."<br />

PRA VOCÊ REFLE-<br />

TIR:<br />

cê sabe fazer remédios<br />

EXPEDIENTE<br />

O Tupari é o Informativo trimestral do Grupo de Trabalho Missionário Evangélico -GTME. Está destinado a velcula-<br />

ção interna de Informações sobre os povos Indígenas e os trabalhos missionários de solidariedade.<br />

Avenida dos Trabalhadores, 3.419 - Bairro Carumbé<br />

Caixa Postal 642<br />

78.005-970 - Cuiabá-MT - Brasil<br />

Fax/Telefone: (065) 322-7476<br />

Equipe de Redação:<br />

Arllndo Leite,<br />

Jaider Batista da Silva<br />

Rubens Selbel e<br />

Vllli FritzSeilert.<br />

Dlagramação/paginação: Cláudio Castro<br />

Composição, Fotollto e Impressão:<br />

Central Gráfica e Editora Centro Oeste Ltda<br />

Rua Cursino do Amarante, 881 - Fone 321-3215 - Cuiabá-MT<br />

...Este boletim é elaborado a par-<br />

tir das contribuições de amigos e<br />

amigas dos povos indígenas, que<br />

enviam, de todas as partes do<br />

País, textos, notícias, poemas, in-<br />

formações, criticas e sugestões.<br />

A todos/ as somos muito agra-<br />

decidos.


MARÇO/93 TUPARI<br />

TEOLOGIA<br />

Aprender a dançar com o espírito<br />

Você está querendo a história<br />

do Alama; eu vou contar. Não tu-<br />

do, senão a gente vai amanhecer<br />

aqui hoje, né? Mas a história dele<br />

é muito importante. Era um ho-<br />

mem que era o nosso pastor, quan-<br />

do todos os Gavião eram crentes.<br />

Era o grande pastor. Chegava<br />

aqui, ele dizia que a gente não po-<br />

dia beber, não podia namorar e tu-<br />

do aquilo, né? E todo mundo che-<br />

gava e olhava para ele e falava:<br />

"Pô, esse homem está falando a<br />

palavra de Deus, certo, né? Vamos<br />

respeitar ele, vamos obedecer a pa-<br />

lavra de Deus". Ele passou mais<br />

ou menos lutando e ensinando o<br />

povo Gavião. Um dia ele fez uma<br />

roça e lá, depois da derrubada, no<br />

tempo da queimada, ele tocou fogo<br />

na roça. Aí já estava pronto para<br />

plantar e ele começou a carregar<br />

muda de banana para plantar na ro-<br />

ça dele. Aí, quando ele estava car-<br />

regando a muda de banana, ele viu<br />

um bicho que o seringueiro chama<br />

jacami, um pássaro grande. Aí o<br />

bichinho chegou bem perto dele<br />

assim, piando e ele perguntou:<br />

"Por que esse bicho está manso<br />

assim?". Aí ele jogou um pedaço<br />

de pau para bater na cabeça desse<br />

pássaro e o pau não pegou na cabe-<br />

ça dele. Aí, na mesma hora, apare-<br />

ceu um daqueles porcões-do-mato,<br />

bem grande mesmo. Ele estava de-<br />

sarmado. Aí ele lembrou: "Eu sei<br />

que você é Satanás. É você que es-<br />

tá me tentando, está estragando a<br />

minha vida. Eu sei que você é Sa-<br />

tanás". Aí ele cortou o pau pafa<br />

bater no porco, mas ele não tinha<br />

forças mais para cortar pau para<br />

matar o porco. Aí faltou a luz da<br />

vista dele. Como quando a luz apa-<br />

ga, ninguém enxerga mais. Acon-<br />

teceu igual com a luz da vista. Aí<br />

ele voltou para casa. Voltou, pe-<br />

gou a espingarda meio tonto e vol-<br />

tou lá. Não encontrou nem jacami<br />

nem porco. Aí ele começou a tre-<br />

mer. Na mesma hora, ele pegou<br />

febre. Deitou. Falou que viu um<br />

bicho, e a mulher dele começou a<br />

chorar. Eu não sei como é que<br />

branco fala, né? Eu sei mais ou<br />

menos, que é Pai-da-Mata, não sei<br />

se é bem isso que chama. Os ín-<br />

dios têm vários nomes. Eu conhe-<br />

ço assim, como Pai-da-Mata. Eu<br />

não sei se vocês falam assim. Aí<br />

ela disse: "Pode ser Pai-da-Mata<br />

que machucou meu marido". Aí<br />

ele tomou remédio, foi no hospital<br />

da Funai, lá no posto mesmo, lá na<br />

aldeia, tomou remédio. Nada sa-<br />

rou. O homem estava piorando.<br />

Diminuía a febre, outra hora ia pa-<br />

ra quarenta graus, e assim vai in-<br />

do. E nada. O homem não sarou.<br />

Aí passei um rádio, e a Funai man-<br />

dou o avião buscar ele. Ele entrou<br />

no avião e foi para Porto Velho.<br />

Ficou em Porto Velho, e acho que,<br />

mais ou menos uma semana de-<br />

pois, dizem que o Pai-da-Mata<br />

chegou, de novo, lá na Casa do ín-<br />

dio. Tá em Porto Velho e é tudo<br />

cercado. Lá tem muro, tem guarda<br />

no portão para índio não sair fora<br />

de hora. E o índio sumiu, desapa-<br />

receu. Não sei para onde foi, né?<br />

E a Funai ficou com medo. Não<br />

passou rádio para nós dizendo o<br />

que aconteceu. Dez dias depois,<br />

nós ficamos sabendo que o índio<br />

fugiu da Casa do índio. Ai' eu fui<br />

atrás dele em Porto Velho, e nem<br />

rastro nem nada a gente encontrou.<br />

Voltamos para a aldeia. Queima-<br />

ram roupa, queimaram casa, quei-<br />

maram tudo. Estragaram a roça<br />

dele — sempre que um índio mor-<br />

re, estragam tudo. E, aí, é engra-<br />

çado mesmo. Despois de quatro<br />

meses, ele apareceu na casa dele.<br />

Ele chegou. Seis horas da manhã.<br />

Ele estava lá no meio do pessoal.<br />

Todo mundo queria ver ele — ín-<br />

dio ao redor das casas e lá vem es-<br />

se tal de Alama: um homem que<br />

mudou. Ele ficou tão diferente,<br />

trouxe o arco na mão. Rapaz, era<br />

uma coisa diferente. Não era assim<br />

como nós estamos agora. O cara<br />

mudou, emagreceu. Ficamos mais<br />

ou menos um mês lutando com<br />

aquele homem. Ele contando histó-<br />

ria de como aconteceu, como o<br />

Pai-da-Mata carregou ele. Ele en-<br />

trou dizendo, né? Como aqui que<br />

tem o metrô debaixo da terra, tem<br />

outra estrada debaixo da terra, pa-<br />

ra viver lá embaixo. Como vocês<br />

têm metrô para entrar no buraco e<br />

sair de lá do outro lado, né? Igual<br />

tatu. Uma hora ele estava debaixo<br />

da terra, outra hora debaixo da<br />

água, outra hora lá no outro canto,<br />

e lá ele viu o pai dele. O pai dele<br />

já tinha morrido há muito tempo.<br />

Ele conhecia o pai dele. Quando o<br />

pai dele viu ele, veio abraçar, mas<br />

não deixou ele abraçar. Ele não<br />

era morto, mas ele era vivo mes-<br />

mo, pessoalmente, conhecendo es-<br />

píritos. Ele viu o pai dele, ele viu a<br />

mãe dele, ele viu o primo dele,<br />

que morreu, viu todo o pessoal de<br />

lá. Ele dançou junto com o espíri-<br />

to, vivia com o espírito, comia co-<br />

mida de espírito. Tudo ele contou.<br />

Contam a história até hoje. Bom, a<br />

gente não tem prova para dizer que<br />

ele viveu com o espírito, né? Mas,<br />

da nossa parte, ele é um homem<br />

sério. Ele nunca mentiu. Então,<br />

por isso que os Gavião estão acre-<br />

ditando que ele não é homem men-<br />

tiroso, estamos acreditando que ele<br />

conta tudo para nós como vive. Ele<br />

aprendeu a viver junto com espíri-<br />

to. Aprendeu a dançar com espíri-<br />

to. Tudo isso ele aprendeu. E hoje<br />

ele é grande pajé nosso.<br />

Narrativa de Sebirope Gavião ■<br />

(Extraída do livro "O índio On-<br />

tem, Hoje e Amanhã" Edusp,<br />

SP)<br />

índio, da Missão Maynas, dançando na Igreja<br />

"A função da Arte 12"<br />

O pastor Miguel Brun me contou que há alguns anos esteve<br />

com os índios do Chaco paraguaio. Ele formava parte de uma<br />

missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique<br />

que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto<br />

e calado, escutou sem prestanejar a propaganda religiosa que le-<br />

ram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou,<br />

os missionários ficaram esperando.<br />

O cacique levou um tempo. Depois opinou:<br />

— Você coca. E coca bastante, e coca bem.<br />

E sentenciou:<br />

— Mas onde você coca não coca.<br />

(Eduardo Galeano. O Livro dos Abraços, p. 28. - Ed. LPM. Porto<br />

Alegre, 1991.)


O governo brasileiro realiza<br />

mais uma operação policia-<br />

lesca destinada a forjar as apa-<br />

rências do que pretende chamar<br />

política indigenista. A nova ope-<br />

ração de retirada de garimpeiros<br />

invasores da área ianomâmi de-<br />

verá repetir fracassos registrados<br />

nos governos Sarney e Collor.<br />

Sem tratar da questão em todos<br />

seus componentes sócio-econô-<br />

micos, ela é inócua.<br />

Não se pretende realizar a de-<br />

fesa de garimpeiros. Pelo contrá-<br />

rio, a imediata retirada dos inva-<br />

sores é uma imposição da lei e<br />

do respeito à vida dos indígenas<br />

ameaçados pelas doenças do ho-<br />

mem dito civilizado.<br />

O caso ianomâmi, por sua di-<br />

mensão e complexidade, torna-se<br />

emblemático. Eles são o último<br />

grande povo indígena das Améri-<br />

cas a viver em estado primitivo,<br />

enfrentando seus primeiros con-<br />

tatos com o homem branco.<br />

Para se compreender a atual<br />

situação deve-se rever alguns fa-<br />

tos. A invasão de garimpeiros foi<br />

iniciada em 1986, crescendo as-<br />

sustadoramente até 1988, quando<br />

então somava cerca de 40 mil ho-<br />

mens. No final do governo Sar-<br />

ney, em 1989, foi realizada a<br />

primeira suposta operação de re-<br />

tirada de garimpeiros, sem resul-<br />

tados concretos. Atento às com-<br />

panhas nacional e internacional<br />

em defesa dos direitos humanos,<br />

Collor, ao assumir a presidência,<br />

em 1990, decide fazer desta<br />

questão indígena seu emblema<br />

mercadológico.<br />

Foram então realizadas mais<br />

três operações de retirada dos ga-<br />

rimpeiros. Apenas a última de-<br />

las, em março de 1992, pouco<br />

antes da ECO-92, desintrusou to-<br />

talmente a área. Ironicamente, a<br />

nova reinvasão da área ianomâmi<br />

iniciou-se meses depois, em ju-<br />

nho, ainda durante a ECO-92.<br />

Portanto, desde 1988 reali-<br />

zam-se tentativas infrutíferas de<br />

retriada dos garimpeiros. Sua<br />

persistência em ali permanecer é<br />

reflexo do investimento de capi-<br />

tal feito ao longo desses anos,<br />

quando foram construídas cerca<br />

de 120 pistas de pouso em meio à<br />

selva para possibilitar a entrada<br />

de milhares de homens, seu sus-<br />

tento e a operação de centenas de<br />

motores-bomba a diesel.<br />

A incrível capacidade opera-<br />

cional dos garimpeiros explica-se<br />

pelo fato de eles, historicamente,<br />

produzirem mais ouro do que as<br />

empresas de mineração. Tal si-<br />

TUPARI MARÇO/93<br />

USL KJL.nKJ<br />

A encenação ianomâmi<br />

tuação deve se inverter já em<br />

1993, com o esgotamento das re-<br />

servas de ouro nas áreas "garim-<br />

páveis".<br />

Os fatos de Roraima represen-<br />

tam somente<br />

um microcos- ^^^' mil '^^^ m<br />

mo do proble-<br />

ma causado<br />

pelo garimpo<br />

em diversas re-<br />

giões do país.<br />

Calcula o<br />

DNPM existi-<br />

rem 400 mil ^^^^ m ' m ^ m<br />

garimpeiros, principalmente nos<br />

Estados do Norte, no cálculo dos<br />

póprios garimpeiros, eles somam<br />

um milhão. É um contingente<br />

que ou aceita trabalhar em regi-<br />

me de semi-escravidão em busca<br />

do metal ou insere-se no lumpe-<br />

Novamente, o governo<br />

desperdiça o dinheiro<br />

público e usa os índios<br />

para fazer populismo<br />

sinato urbano.<br />

Não é dele, certamente, o lu-<br />

cro fabuloso do garimpo. Ele<br />

pertence a cerca de 100 empresá-<br />

rios que se apropriam do traba-<br />

lho, da saúde e<br />

da própria vida<br />

do garimpeiro.<br />

O benefício so-<br />

cial dessa ati-<br />

vidade não é<br />

refletido na so-<br />

ciedade, que,<br />

ao contrário,<br />

^■^"^■■ , ■ sofre com os<br />

efeitos inflacionários da atividade<br />

garimpeira sobre sua economia<br />

tradicional.<br />

É claro que não haveria em<br />

Roraima esse quadro de explora-<br />

ção sem apoio político munici-<br />

pal, estadual e federal. No âmbi-<br />

Pista de pouso para aviões do garimpo - Alto MucaJaí-RR<br />

to federal, o garimpo sustenta-se<br />

no Executivo e no Legislativo.<br />

A maioria dos parlamentares<br />

do Norte insiste semanalmente<br />

em fazer discursos de coloração<br />

verde-nacionalista de apoio vela-<br />

do ao garimpo. Como já demons-<br />

trou a Folha, são deputados e se-<br />

nadores, na sua maioria, naturais<br />

de outros Estados e que migra-<br />

ram para o Norte por oportunis-<br />

mo eleitoral. Além do apoio polí-<br />

tico, os garimpeiros contam ain-<br />

da com o respaldo de militares,<br />

especialmente do Exército. O<br />

"Projeto Calha Norte", dentro<br />

do conjunto do pensamento estra-<br />

tégico militar, prega a necessida-<br />

de de uma "vivificação", ou<br />

"humanização" da fronteira nor-<br />

te, que seria propiciada pelos ga-<br />

rimpeiros.<br />

Existe ainda o apoio indireto<br />

do Ministério da Justiça, que não<br />

solicitou a verba orçamentária<br />

necessária para demarcar as ter-<br />

ras indígenas em 1993, nem mes-<br />

mo para a adequada operação de<br />

seu órgão indígena, a Fundação<br />

Nacional do índio. Vai recair so-<br />

bre o governo Itamar a responsa-<br />

bilidade pelo descumprimento do<br />

artigo 67 das Disposições Transi-<br />

tórias dà Constituição, que deter-<br />

mina estarem todas as terras indí-<br />

genas do país demarcadas até ou-<br />

tubro deste ano. Também não<br />

existe, da parte do Executivo,<br />

qualquer negociação com o Le-<br />

gislativo para normatizar a mine-<br />

ração empresarial em terras indí-<br />

genas, prevista na Constituição e<br />

tema de 17 projetos de lei atual-<br />

mente em tramitação no Con-<br />

gresso.<br />

Portanto, sem uma saída para<br />

a exploração mineral racional das<br />

riquezas existentes nas áreas in-<br />

dígenas, e sem a vontade política<br />

de garantir aos grupos indígenas<br />

seus direitos constitucionais, de<br />

nada adiantará mais uma opção<br />

de retirada de garimpeiros da<br />

área ianomâmi. A situação vivida<br />

pelo povo ianomâmi, como tam-<br />

bém por outros indígenas, requer<br />

ação imediata do Estado. Sem<br />

uma ação global estará se repe-<br />

tindo mais um desperdício do di-<br />

nheiro público, às custas da utili-<br />

zação populista da imagem indí-<br />

gena.<br />

TUGA ANGERAMI, 42, é deputa-<br />

do federal pelo PSDB de São<br />

Paulo. Foi presidente da Comis-<br />

são de Defesa do Consumidor,<br />

Melo Ambiente e Minorias, da<br />

Câmara dos Deputados.<br />

Publicado na Folha de S. Paulo,<br />

03/03/93


MARÇO/93 TUPARI<br />

CASO MARÇAL<br />

10 ANOS DE IMPUNIDADE<br />

HÁ DEZ ANOS, O LÍDER<br />

MARÇAL TUPA-I FOI ASSASSINADO<br />

E A JUSTIÇA BRASILEIRA,<br />

ATÉ HOJE AINDA NAO REALIZOU<br />

O JULGAMENTO DOS ACUSADOS.<br />

1 - A VIDA DE MARÇAL TUPÃ-I<br />

Marcai Tupã-I nasceu no dia 24 de de-<br />

zembro de 1920, na região de Doura-<br />

dos, Estado do Mato Grosso do Sul,<br />

Brasil. Desempenhou nas aldeias fun-<br />

ções de professor de crianças órfãs<br />

("nhanderoga"), enfermeiro e intér-<br />

prete, pois além de dominar todo os<br />

dialetos de sua língua guarani, falava o<br />

português e o inglês. Considerado um<br />

dos índios mais intelectualizados do sé-<br />

culo, foi porta-voz e representante de<br />

nações indígenas na ONU. Proferiu<br />

muitas palestras na Universidade de S.<br />

Paulo e na Associação Brasileira de<br />

Imprensa. Participou de inúmeros se-<br />

minários nacionais e internacionais,<br />

sempre falando em benefício de seus<br />

irmãos indígenas. Foi um dos fundado-<br />

res e primeiro vice-presidente da<br />

União das Nações Indígenas (UNI).<br />

Nos últimos anos de vida. Marcai ca-<br />

nalizou toda a sua capacidade em favor<br />

da demarcação da área indígena de Pi-<br />

rakuá, município de Bela Vista, Mato<br />

Grosso do Sul.<br />

"Meu nome é Tupã-I. Este é meu no-<br />

me, meu verdadeiro nome. Meu nome<br />

de batismo pelo ritual guarani. Quando<br />

era pequeno, fui batizado por cacique.<br />

Não sou um homem grande, sou pe-<br />

quenino. Sou da Tribo Guarani. Falo<br />

meu idioma e meu dialeto com cari-<br />

nho" (Marcai)<br />

2 - SUA LUTA FINAL<br />

Foi por volta dos anos 70 que Marcai<br />

começou a se destacar como lutador<br />

pela causa indígena e aí começaram<br />

seus problemas com fazendeiros, com<br />

a FUNAI (Fundação Nacional do índio<br />

— órgão governamental) e com o Go-<br />

verno. Passou a ser considerado "sub-<br />

versivo" e "revolucionário", sendo<br />

constantemente transferido de uma<br />

área indígena para outra. Nos últimos<br />

anos de vida. Marcai decidiu mudar-se<br />

para Pirakuá, em defesa de seus irmã-<br />

os.<br />

A comunidade indígena de Pirakuá es-<br />

tava passando por momentos difíceis,<br />

pois o fazendeiro vizinho. Libero<br />

Monteiro de Lima considerava que sua<br />

fazenda abrangia também a área de Pi-<br />

raKuá. Este fazendeiro tentou subornar<br />

Marcai com uma oferta de Cr$<br />

5.000.000,00, valor da época, o que<br />

não foi aceito, o mesmo acontecendo<br />

com Lázaro Morei, capitão da Aldeia<br />

Indígena de Pirakuá, e finalmente Li-<br />

bero Monteiro de Lima fez uma denún-<br />

cia à polícia de invasão de sua proprie-<br />

dade pelos índios guarani. Marcai foi<br />

simplesmente irredutível na luta pela<br />

permanência dos índios em Pirakuá. A<br />

situação se agravou e as autoridades<br />

governamentais não tomaram provi-<br />

dências. Em setembro de 1983, o líder<br />

indígena fez sua última palestra na As-<br />

sociação Brasileira de Imprensa e ali<br />

gravou sua última mensagem, falando<br />

como quem se despedia: "Sou uma<br />

pessoa marcada para morrer, mas por<br />

uma causa justa a gente morre".<br />

3 - SUA MORTE<br />

No dia 25 de novembro de 1983, às 20<br />

horas, quando se recolhida para dor-<br />

mir. Marcai Tupã-I foi assassinado no<br />

interior de seu rancho, a poucos metros<br />

da enfermaria da FUNAI, na Aldeia<br />

Campestre, Município de Antônio Jo-<br />

ão, Mato Grosso do Sul. Foram cinco<br />

tiros fatais, calibre 38, um deles atin-<br />

gindo sua boca. Mais tarde, foi consta-<br />

tado que pelo menos uma das balas foi<br />

disparada pela arma encontrada em<br />

posse de Ròmulo Gamarra.<br />

(Texto elaborado pelo Fórum<br />

Marcai, de Campo Grande, MS).<br />

Maria Helena Brancher<br />

CHOREI.<br />

Durante os debates comandados por<br />

Junina, falam terenas, falam Kadi-<br />

weus, falam Kaiuás, falam carajás,<br />

falam guatós, falam Xavantes, mas<br />

quando fala o índio guarani — Mar-<br />

cai de Sousa, que em sua língua<br />

tem um nome mais digno — Tupã-i<br />

(pequeno Deus), me arrebento em<br />

lágrimas.<br />

ÍNDIOS SOMOS NÓS<br />

De que fala esse índio miúdo, de<br />

óculos, com quase 60 anos? Fala da<br />

mesma coisa que os outros falam,<br />

mas fala diferente; mais fundo e<br />

mais forte. Pertence à tradição gua-<br />

rani e realiza aquilo que Pierre<br />

Clastres anotou ao estudá-los no li-<br />

vro Sociedade contra o Estado:<br />

"uma transmutação lingüística do<br />

universo cotidiano, em um Grande<br />

Falar que se chegou a pensar que<br />

era uma língua secreta".<br />

O que Tupâ-i fala não tem, contu-<br />

do, nenhum mistério. E a história<br />

do extermínio das nações indíge-<br />

nas. E, de repente, não são aqueles<br />

índios que ali vejo. Somos nós to-<br />

dos, índios de segunda classe, já<br />

distanciados de nossas tradições e<br />

costumes e perdidos na história.<br />

Aqueles índios somos nós partici-<br />

pando das reuniões internacionais<br />

com banqueiros e mendigando em-<br />

préstimo e ajuda financeira. Aque-<br />

les índios somos nós, nas assem-<br />

bléias internacionais do lado escuro<br />

e incômodo dos países do "terceiro<br />

mundo".<br />

ALDEIA PADRÃO<br />

Estou numa aldeia dos terenas em<br />

Limão Verde, há uns 20 quilôme-<br />

tros de Aquidauana. Mais um pou-<br />

co e poderia chegar ao Paraguai e à<br />

Bolívia. Há um churrasco para ín-<br />

dios e autoridades no encerramento<br />

dessa Semana do índio.<br />

O lugar é esplêndido. E como nós<br />

índios brasileiros estamos tão con-<br />

taminados da cultura americana,<br />

não posso fugir à comparação: pa-<br />

rece cenário de filme americano,<br />

pois tem até aquelas serras de ro-<br />

chas velhas ao fundo.<br />

O presidente da Funai, vendo o fa-<br />

buloso artesanato da índia Romana<br />

(terena) e os vasos dos kadiweus,<br />

enfatiza: Essa é a aldeia padrão, to-<br />

da aldeia tem que ser daqui pra me-<br />

lhor, olha que beleza! Nós temos<br />

que aprender com os índios! E su-<br />

gere que se faça um selo de chum-<br />

bo da Funai para autenticar as pe-<br />

ças de artesanato.<br />

Acho que uma aldeia padrão, den-<br />

tro de um sentido moderno de res-<br />

peito antropológico ao índio, não<br />

deveria ter nenhuma igreja dentro<br />

de seu espaço. Impor ali uma reli-<br />

gião, seja qual for, é uma violên-<br />

cia. A Igreja, que já se penitenciou<br />

de tantos erros, deveria urgente<br />

corrigir este também. Manter-se à<br />

distância e com respeito. Dar<br />

exemplo aos invés de catequizar.<br />

Os protestantes também, principal-<br />

mente quando envolvidos com sus-<br />

peitas missões estrangeiras.<br />

Não é de hoje que religiosos sensí-<br />

veis confessam que, do ponto de<br />

vista moral e religioso, os índios<br />

sempre foram superiores aos inva-<br />

sores. É só ler Jean de Lery ou<br />

qualquer viajante que por aqui<br />

aportou e que tenha escrito com o<br />

mínimo de caráter e honestidade. É<br />

só consultar os missionários mais<br />

sensíveis, que muitos deles é que<br />

acabam-se convertendo aos índios.<br />

IDEOLOGIA TERENA<br />

De alguma maneira aqueles ín-<br />

dios ali reunidos espelham algumas<br />

realidades do Brasil. O guarani, ti-<br />

po Marcai de Sousa, é o intelectual.<br />

Estranhamente ele aprendeu e de-<br />

senvolveu seu vocabulário em por-<br />

tuguês lendo Seleções. E de repente<br />

surge essa questão: Como pode um<br />

leitor guardar o vocabulário e não<br />

se contaminar com a ideologia do<br />

texto?<br />

Na verdade, muitos índios, muitas<br />

tribos têm operado esse milagre:<br />

usam a gramática do branco mas<br />

continuam a fazer um discurso fun-<br />

damentalmente indígena: A isso<br />

Oswald de Andrade e outros teóri-<br />

cos chamariam muito apropriada-<br />

mente de "antropofagia cultural".<br />

Mas muitos terenas são diferentes.<br />

Se os ' guaranis desenvolveram<br />

aquele mito segundo o qual se dan-<br />

çassem noite e dia, poderiam se tor-<br />

nar tão leves que seus pés sairiam<br />

do chão e os levariam à Terra sem<br />

Males, já os terenas têm os pés no<br />

chão.<br />

Pior. Deixaram-se envolver de tal<br />

modo pelos missionários e pelos<br />

"valores ocidentais", que hoje es-<br />

forçam-se por concorrer com o<br />

branco. Querem escolas, querem<br />

diplomas. Já há terenas políticos,<br />

burocratas e bolsistas nos Estados<br />

Unidos.<br />

Não há como recriminá-los. Opta-<br />

ram por isto para fugir à extinção<br />

ou ao aviltamento completo. Des-<br />

confio, no entanto, que mais do que<br />

uma tribo, os terenas são uma sín-<br />

drome. Depois de muita morte e<br />

destruição, vão optando, vão sendo<br />

cooptados para sobreviverem. Mui-<br />

tos falam o português melhor que<br />

nós. Tão estrangeiros quanto Rui<br />

Barbosa que, em Londres, botou<br />

uma placa na porta de sua casa:<br />

"Ensina-se inglês".<br />

Terenas somos todos nós nos esfor-<br />

çando por mostrar ao estangeiro<br />

que podemos ser até mais estrangei-<br />

ros que eles em nossa própria terra,<br />

absorvendo mitos e costumes ao<br />

mesmo tempo que exportamos nos-<br />

sas riquezas e nos endividamos até<br />

a alma. Somos uns índios às aves-<br />

sas. Não somente somos "atraí-<br />

dos" pelos colonizadores graças a<br />

uma série de "intermediários" e<br />

"indigenistas". Também os "atraí-<br />

mos" para que tragam seus capi-<br />

tais, a poluição e p peste atômica<br />

que nos dizimará a todos.<br />

Terenas somos nós correndo mer-<br />

cados africanos e do "terceiro<br />

mundo" revendendo quinquilharias<br />

das multinacionais. Terenas somos<br />

nós dentro de discotecas e butiques,<br />

compristas desesperados nas aveni-<br />

das do mundo. Terena é o ministro<br />

demonstrando ao gringo que pode<br />

acreditar em nós, porque somos um<br />

país (ou uma tribo) "viável". Que<br />

podem investir em nós que não os<br />

decepcionaremos.<br />

Afonso Romano Sanfana é<br />

poeta, mineiro, de tradição<br />

metodista. Este texto é com-<br />

posto de extratos de seu li-<br />

vro Política e Paixão.


6 TUPARI MARÇO/93<br />

■■ : ■ : :B; ;<br />

Na semana (je 14 a 20 de dezembro<br />

ocorreram importantes encontros de<br />

evangélicos envolvidos na questão indígena.<br />

De todas as partes do país vieram os meto-<br />

distas, que se encontraram nos dias 17 e 18<br />

na sede da OPAN, em Cuiabá; os luteranos,<br />

de 14 a 18, na Casa de Retiros da IECLB na<br />

Chapada dos Guimarães e no mesmo local,<br />

somando-se os anglicanos e presbiterianos<br />

unidos e independentes, aconteceu a assem-<br />

bléia do GTME, com um total de 70 pessoas<br />

presentes.<br />

A celebração da abertura foi coordenada<br />

pelo bispo Almir dos Santos. Após a Santa<br />

Ceia todas as pessoas se apresentaram. Os<br />

representanes das Igrejas e das entidades<br />

parceiras se apresentaram e fizeram suas<br />

saudações.<br />

Foram feitos os relatos de área, destacan-<br />

do-se as questões mais relevantes, como as<br />

dificuldades e desafios de 92 e as perspecti-<br />

vas para o próximo ano. Roque Simão apre-<br />

sentou o trabalho da área do Rio Mequéns.<br />

Disse que há pormenorizadas informações<br />

nos arquivos do GTME; destacou 92 como<br />

ano de conflitos, com seqüestro de índios e<br />

ensaio de guerra armada, contra os brancos.<br />

Ao mesmo tempo há uma crescente cons-<br />

ciência de identidade entre os Sakyrabiar,<br />

foi feita a autodemarcação do território,<br />

com ajudas da Igreja Unida do Canadá e da<br />

Igreja Evangélica da Baviera. Houve sensí-<br />

vel redução na venda de madeira e busca de<br />

alternativas econômicas, com muitos índios<br />

desenvolvendo a prática seringueira. Está<br />

mais claro hoje que a venda de mogno não<br />

era provocada pela fome ou outra necessida-<br />

de. Vendia-se por vender, sem importar a<br />

quantidade de dinheiro recebido. O contrato<br />

fez com que o dinheiro, pouco ou muito se<br />

tornasse uma necessidade em si. Há uma<br />

busca de maior autonomia dos índios, inclu-<br />

sive frente à FUNAI. É um processo de dis-<br />

tanciamento, abandono dos vínculos com a<br />

FUNAI e com a sociedade envolvente. Após<br />

a autodemarcação há uma tentativa de se lo-<br />

calizar os parentes dispersos e trazê-los para<br />

a área. Para 93, com o trablaho sendo assu-<br />

mido pela Igreja Anglicana existe a possibi-<br />

lidade de chegar novos indigenistas e a<br />

maior necessidade é de alguém que auxilie<br />

na questão da saúde.<br />

Lúcio e Ingret falaram do trabalho da IE-<br />

CLB entre os Kaingang (RS). É uma popu-<br />

lação de 12 mil pessoas em aldeias espalha-<br />

das num raio de 350 km. Alguns guarani<br />

moram também nessas aldeias. Em 92 hou-<br />

ve avanço na organização das lideranças in-<br />

dígenas. Lutou-se por uma proposta de saú-<br />

de que respeitasse os conhecimentos e práti-<br />

cas tradicionais de tratamento. Há um<br />

esforço na formação de novos professores<br />

bilíngües e discute-se o rumo da educação<br />

indígena. No debate político estão ligando a<br />

posse da terra à cidadania e houve, durante<br />

o ano, recuperação de terras como os 375 ha<br />

de Irai, com ocupação, demarcação oficial e<br />

muita luta. Há pouco engajamento de evan-<br />

gélicos na solidariedade aos índios e uma<br />

história ainda por clarear, dos conflitos ar-<br />

mados entre índios e colonos evangélicos na<br />

região. Devido à existência de muitas igre-<br />

jas entre os Kaingang, discute-se hoje os ru-<br />

mos para uma igreja indígena.<br />

A ação metodista entre os Krenak foi<br />

apresentada pelo Keller Apolinário. Há um<br />

grupo Ecumênico de Solidariedade, com<br />

pessoas das diversas cidades da região. Com<br />

apoio do Conselho Mundial de Igrejas foi<br />

publicado um livro sobre os Krenak. Este<br />

ano, com o auxílio da igreja está se forman-<br />

do a primeira professora Krenak e há um es-<br />

forço pela contratação dela pelo estado, para<br />

dar aula na escola da aldeia. Diariamente o<br />

grupo providencia o reforço alimentar para<br />

os adolescentes Krenak que estudam no gi-<br />

násio da cidade de Resplendor. A poluição<br />

do Rio Doce tem provocado muitas doenças.<br />

Para 93 prevê-se um empenho para que o<br />

Supremo Tribunal julgue o processo das ter-<br />

ras Krenak, demarcadas desde 1921 e ocu-<br />

O QUE ACONTECE NO GTME<br />

XI Assembléia do GTME<br />

padas por 52 fazendeiros e posseiros titula-<br />

dos pelo estado de Minas.<br />

Pelo projeto da IECLB entre os Zoró e<br />

Cinta Larga (RO) falou o Tressmann. Apon-<br />

tou pessoas da FUNAI, lideranças indígenas<br />

e políticos que fomentam as negociações<br />

com madeireiros. Mesmo nos locais onde<br />

não há venda da madeira, ela é roubada, sa-<br />

queada. Um bom acontecimento foi a homo-<br />

logação do território<br />

Zoró. O que mais<br />

impressiona é que<br />

as lideranças indíge-<br />

nas mais afeitas ao<br />

capitalismo, as que<br />

facilitam os negó-<br />

cios ilegais da ma-<br />

deira, são os Cinta-<br />

larga 'missiona-<br />

dos", os alcançados<br />

pela "evangeliza-<br />

ção" das Novas<br />

Tribos. Esses já in-<br />

vadiram 40 km<br />

adentro da área Zo-<br />

ró para o saque de<br />

madeira. Os preços<br />

são um descalabro:<br />

3 ou 4 toras de<br />

mogno por 2 ou 3<br />

sacos de arroz, por<br />

exemplo. Para 93,<br />

Tressmann está em-<br />

penhado em desen-<br />

volver a grafia da<br />

língua Zoró. O Pro-<br />

jeto dará ênfase à<br />

medicina natural que foi quase destruída pe-<br />

los antigos missionários. Dificilmente a ven-<br />

da de madeira vai se acabar, devido à de-<br />

pendência já criada. A APIR - Articulação<br />

dos Povos Indígenas de Rondônia e Norte<br />

do MT é uma articulação fraca, que tende a<br />

legitimar os negócios com madeira das áreas<br />

indígenas.<br />

Leyi Marques, relatou a situação dos<br />

Kaiowá (MS). Com as denúncias, nos meios<br />

de comunicação, do suicídio e da miséria<br />

Dona Áurea, com seus 80 anos e forte<br />

lembrança do serviço aos Kaiowá<br />

As terras mais férteis dos Xokleng (SC)<br />

foram inundadas por uma barragem. Foi ini-<br />

ciada a indenização dessas áreas, ao mesmo<br />

tempo em que há luta por se firmar neste<br />

território e conquistar outras partes. A pas-<br />

tora Cledes Markus cita, por exemplo, a rei-<br />

vindicação feita pelos cafiizos (Xokleng<br />

mestiços com negros) de uma terra fora da<br />

área já demarcada. De imediato, é dada co-<br />

Geniima Boehier mo certa a demarca-<br />

ção da terra dos ca-<br />

fuzos e o refloresta-<br />

mento da área<br />

Xokleng.<br />

O pastor Nelson<br />

Deick, da IECLB,<br />

falou da missão en-<br />

tre os Kulina (AC e<br />

AM) nas suas 3 áre-<br />

as tradicionais às<br />

margens do Rio Ju-<br />

ruá. Apresentou a<br />

situação atual das<br />

terras e o trabalho<br />

de acompanhamento<br />

da autodemarcação<br />

feito em conjunto<br />

com a OPAN. Mos-<br />

trou como se dá a<br />

organização dos<br />

Kulina na aldeia,<br />

nas assembléias e a<br />

organização que al-<br />

cança todas as al-<br />

deias do Rio Juruá.<br />

Na área da educa-<br />

ção a contribuição<br />

ocorre na assessoria e reciclagem do profes-<br />

sorado. São ministrados cursos de saúde,<br />

coletivamente, pois não há enfermeiras. In-<br />

centiva-se a medicina natural, mas há o uso<br />

de alopáticos e vacinas. As maiores preocu-<br />

pações são com a tuberculose e com a febre<br />

tifóide. Para 93 a luta será pelo reconheci-<br />

mento legal das terras autodemarcadas e pe-<br />

lo resgate da cultura.<br />

Saulo Bino é metodista e estuda teologia<br />

Rubens Seibel<br />

Coordenadores da Celebração de abertura da assembléia<br />

dos Kaiowá, o governo viu-se pressionado a<br />

demarcar as terras. Foram demarcadas, nes-<br />

te ano 8 áreas, sendo que 4 já estão total-<br />

mente em posse dos índios. A Missão Tape-<br />

porã, da Igreja Metodista está apostando em<br />

iniciativas econômicas que possibilitem aos<br />

índios trabalhar e morar nessas áreas. Há<br />

uma valorização das propostas e iniciativas<br />

que surgem entre os próprios Kaiowá e não<br />

dos intermediários (Igrejas e grupos de<br />

apoio) ganham força e significado as formas<br />

próprias de organização e mobilização. Mu-<br />

itas das áreas só têm sido demarcadas após<br />

ocupação e muita luta.<br />

no ITEBA, em Salvador (BA). Disse que o<br />

grupo de apoio aos Kiriri nasceu do curso<br />

ministrado pelo GTME sobre a questão indí-<br />

gena, para o pessoal do programa Teologia<br />

para o Desenvolvimento, da IPU. Há um es-<br />

forço de divulgação da situação vivida por<br />

este povo, como por exemplo, o incêndio<br />

criminoso da escola da aldeia e a invasão de<br />

metade da área indígena.<br />

Ralf, pastor luterano em Boa Vista (RR),<br />

denunciou a recente invasão de garimpeiros<br />

(mais de 6.000) na área já demarcada e ho-<br />

mologada dos Yanomami. Disse que a so-<br />

ciedade roraimense está profundamente divi-<br />

dida frente à situação. Políticos, fazendei-<br />

ros, a imprensa e os partidos estão unidos<br />

contra os índios. A FUNAI alega não ter<br />

condições financeiras para fiscalizar e impe-<br />

dir a entrada de garimpeiros. A Igreja Cató-<br />

lica fica como única porta-voz dos que de-<br />

fendem os direitos indígenas.<br />

Ao trabalho com os Makuxi (RR) falou o<br />

secretário de expansão missionária da I. Me-<br />

todista, James W. Goodwin. A pastora Ma-<br />

ria Madalena foi para Boa Vista organizar<br />

os metodistas que estavam dispersos por lá e<br />

acabou se envolvendo na Aldeia Bala, com<br />

os Makuxi. Hoje a Igreja se preocupa em<br />

desenvolver ações solidárias, respeitando a<br />

cultura deste povo.<br />

O pastor Donald Thomas é da Igreja Uni-<br />

da do Canadá e está a serviço da Igreja Me-<br />

todista aqui no Brasil, já há quase 30 anos.<br />

Ele e sua esposa, dona Iná, desenvolvem um<br />

trabalho com os Guarani (mais ou menos<br />

150 de Aracruz (ES). Estão empenhados em<br />

facilitar a venda de artesanato e consegui-<br />

ram que fosse reativado o quiosque na orla<br />

marítima de Vitória, onde são feitas as ven-<br />

das, em fins-de-semana. Também, com a li-<br />

derança da aldeia, estão negociando com a<br />

Aracruz Celulose, a doação de essências na-<br />

tivas para o reflorestamento. Com os Tupi-<br />

nikim (mais 2000), vizinhos da área guara-<br />

ni, não há um envolvimento direto. Preocu-<br />

pam-se com a perda de identidade cultural<br />

do grupo, pois a área é cortada por estradas.<br />

O Secretário executivo do COMIN-IE-<br />

CLB, rev. Arteno Spellmeier falou da pre-<br />

sença de Dóris Kieslich entre os Tremembé.<br />

(CE). Já foi feita a identificação e delimita-<br />

ção da área. A inércia da Justiça facilitou o<br />

assassinato de líderes indígenas pelos fazen-<br />

deiros da região. No entanto, o maior obstá-<br />

culo já foi vencido ■» o reconhecimento dos<br />

Tremembé enquanto povo indígena e seu di-<br />

reito ao território.<br />

Foi lembrado ainda o envolvimento da co-<br />

munidade metodista "Vida e Missão", de<br />

Fortaleza (CE), com os índios Tapeba, e o<br />

intercâmbio entre o Centro Comunitário<br />

Metodista de Belo Horizonte e as mulheres<br />

pataxó. Apostando no resgate cultural e na<br />

organização própria, as mulheres pataxó<br />

passam períodos do ano no Centro Comuni-<br />

tário aprendendo o artesanato com algodão,<br />

e agora vão tentar estabelecer um centro de<br />

tecelagem na aldeia. Mulheres da periferia,<br />

que trabalham no Centro Comunitário irão à<br />

aldeia para auxiliar na organização deste tra-<br />

balho.<br />

No sábado à noite houve uma apresenta-<br />

ção musical, com o Glaucos, da UFMT,<br />

Humberto Maiztegui, do RS e Keller Apoli-<br />

nário, do ES.<br />

A manhã de domingo foi aberta com uma<br />

oração ministrada pela Sílvia Schünemann.<br />

Foram dadas divesas informações sobre o<br />

acerto de contas das passagens e da anuali-<br />

dade. Foi apresentada uma carta da Associa-<br />

ção Habitai para a Humanidade, que abre a<br />

possibilidade de apoiar a construção de mo-<br />

radias em aldeias. Houve então um painel<br />

com o pastor presbiteriano Lúcio Flores,<br />

que é índio Terena e com o líder indígena<br />

Bakairi, Estevão Carlos Taukane. Lúcio su-<br />

geriu que outros índios poderiam estar pre-<br />

sentes e apresentou sua tese, que está sendo<br />

desenvolvida para o mestrado, sobre o suicí-<br />

dio entre os KaioWá. Pesquisa a influência<br />

teológica (reino de Deus, paraíso, etc) nes-<br />

tes suicídios. Estevão foi criado numa aldeia<br />

sob influência de missionários católicos e<br />

evangélicos (Summer Institute). Separou o<br />

tempo recente da história dos índios no Bra-<br />

sil entre o primeiro momento em que é de-<br />

senvolvida uma política indigenista e a partir<br />

do surgimento da UNI, a efetivação de uma<br />

política indígena, ainda frágil. Aponta a cul-<br />

tura como o terreno de solução dos proble-<br />

mas indígenas.<br />

Após o primeiro intervalo da manhã a<br />

plenária dividiu-se em grupos para elabora-<br />

ção de propostas de ação e diretrizes para<br />

93. Depois as sugestões foram reunidas em<br />

plenária.<br />

Um grupo de leigas e pastoras de diversas<br />

igrejas ministrou a oração e benção de des-<br />

pedida. Os relatórios diversos podem ser so-<br />

licitados ao GTME.


MARÇO/93 TUPARI<br />

SAÚDE INDÍGENA: ESPERANÇA E DESAFIO<br />

O ano de 1993 será um<br />

ano muito importante<br />

para os Povos Indígenas que<br />

habitam o território abrangido<br />

pelo que se convencionou<br />

chamar de Estado Brasileiro.<br />

Em primeiro lugar, este é o<br />

Ano Internacional dos Povos<br />

Indígenas, instituído pela<br />

ONU, como um reconheci-<br />

mento simbólico a estas na-<br />

ções que tiveram seus direitos<br />

historicamente negados. Em<br />

segundo lugar, este é o ano da<br />

Demarcação das Terras Indí-<br />

genas no país, uma vez que a<br />

Constituição Federal estipula<br />

o prazo até outubro deste ano<br />

para que todas as terras ocu-<br />

padas pelos povos indígenas<br />

estejam demarcadas. Em ter-<br />

ceiro lugar, este é o ano da II<br />

Conferência Nacional Especí-<br />

fica de Saúde Indígena, espa-<br />

ço conquistado pelas Organi-<br />

zações Indígenas e seus alia-<br />

dos, e que poderá representar<br />

um marco na luta dos povos<br />

indígenas pela conquista de<br />

uma saúde melhor para as<br />

suas comunidades.<br />

A situação atual da Saúde<br />

Indígena no país é calamitosa.<br />

A incidência de doenças au-<br />

menta assustadoramente, a<br />

mortalidade é elevada na<br />

maioria das comunidades, al-<br />

guns povos apresentam risco<br />

real de extermínio, e a situa-<br />

Cristina Ávila<br />

Mulher e criança da nação Xerente<br />

ção assistencial atingiu um ní-<br />

vel extremo de ineficácia e<br />

inoperância. Os dados oficiais<br />

do órgão indigenista falam na<br />

morte de setecentos índios no<br />

país no último ano. Só entre<br />

os lanomami, a mortalidade<br />

foi superior a cento e cinqüen-<br />

ta pessoas, e os índios Deni,<br />

habitantes do Rio Xeruã no<br />

Amazonas, assistiram um sur-<br />

to de sarampo e suas compli-<br />

cações, provocarem a morte<br />

de sessenta e quatro pessoas,<br />

na sua maioria crianças e ado-<br />

lescentes, o que significa per-<br />

to de 20% do seu povo. A<br />

questão da Saúde tem sido le-<br />

vantada em todos os Encon-<br />

CUIDAR DA SAÚDE,<br />

CUIDAR DA ALMA<br />

Além de cuidar da minha ca-<br />

sa, sou rezador dos guarani...<br />

quando alguém fica doente vem<br />

pra cá... se tem dor de barriga...<br />

se está machucado... vem e eu<br />

curo com reza e remédios do ma-<br />

to... mas a gente não reza só<br />

porque está doente, isso não!...<br />

rezador também é ajudante de<br />

Nhanderú, que é uma espécie de<br />

pajé muito poderoso... Não pos-<br />

so dizer que sou Nhanderú, estou<br />

aprendendo ainda... Um ajudante<br />

de Nhanderú trabalha para apren-<br />

der a rezar, é o que eu faço... é<br />

miiito difícil saber todas as coi-<br />

sas, conhecer as ervas e tudo<br />

mais... ser rezador é ser um pou-<br />

co como médico, como quem<br />

salva... e é ser aquele que ajuda<br />

a manterá paz...<br />

Tudo é serviço de Deus... Só<br />

Ele pode fazer assim... As pesso-<br />

as estão falando que os suicídios<br />

acontecem porque tem feitiço na<br />

aldeia... não tem nada!... o que<br />

falta é reza... o nhandeva precisa<br />

voltar a rezar do jeito que era an-<br />

tes, sem o branco... só rezando<br />

as coisas melhoram... a gente<br />

precisa voltar a conversar... sem<br />

reza, os nhandeva estão ficando<br />

cada vez mais calados... agora<br />

eles falam duas, três palavras e<br />

ficam quietos... o nhandeva pre-<br />

cisa falar... Sem a fala, o nhan-<br />

deva é como morte... Quando al-<br />

guém morre a palavra sai... sai,<br />

não sai?... Nós temos, como diz<br />

o outro, espírito... então quando<br />

a gente morre, o espírito sai e fi-<br />

ca só o corpo, e o corpo sem o<br />

espírito apodrece em 24 horas...<br />

palavra é alma... saiu a alma, a<br />

pessoa está morta...<br />

Nenito Nandeva ■ (no livro Can-<br />

to de Morte Kaiowá, Ed. Loyola)<br />

tros e Assembléias dos Povos<br />

Indígenas, e aos poucos co-<br />

meçam a surgir as propostas<br />

concretas para o enfrentamen-<br />

to deste problema.<br />

Durante a IX Conferência<br />

Nacional de Saúde, que ocor-<br />

reu em Brasília no mês de<br />

agosto do ano que. passou, as<br />

Organizações Indígenas e en-<br />

tidades de apoio conseguiram<br />

importantes conquistas, que<br />

assinalam na direção de uma<br />

Política de Saúde efetivamen-<br />

te voltada às necessidades dos<br />

povos indígenas do país. Foi<br />

aprovada uma moção pela<br />

convocação imediata da Co-<br />

missão Intersetorial de Saúde<br />

Indígena, no âmbito do Minis-<br />

tério da Saúde, e que passou a<br />

se reunir mensalmente a partir<br />

de setembro, formada por re-<br />

presenantes dos órgãos ofi-<br />

ciais, das entidades de apoio à<br />

causa indígena e dos represen-<br />

tantes das Organizações Indí-<br />

genas (Conselho de Articula-<br />

ção dos Povos e Organizações<br />

Indígenas do Brasil). Também<br />

foi aprovada a proposta de<br />

convocação, no prazo de oito<br />

meses, da 11 Conferência Na-<br />

cional Específica de Saúde In-<br />

dígena, para uma ampla dis-<br />

cussão da problemática da<br />

Saúde Indígena no país, e for-<br />

ma de pressão para que se to-<br />

mem as medidas políticas ne-<br />

cessárias ao enfrentamento<br />

desta situação. As organiza-<br />

ções indígenas reivindicam re-<br />

presentação paritária nesta<br />

Conferência.<br />

Finalmente, foi aprovada<br />

no plenário da IX Conferência<br />

a seguinte proposição em rela-<br />

ção à Saúde Indígena:<br />

"É assegurado no Sistema<br />

Único de Saúde (SUS) aten-<br />

ção integral à saúde dos Povos<br />

Indígenas, de forma diferen-<br />

ciada, em função ds especifi-<br />

cidades étnico-culturais e da<br />

situação sanitária, com garan-<br />

tia de seus Sistemas Tradicio-<br />

nais de Saúde, por meio da<br />

criação de Distritos Sanitários<br />

Especiais Indígenas, direta-<br />

mente ligados ao Ministério<br />

da Saúde e administrados por<br />

Conselhos Indígenas de Saú-<br />

de."<br />

Esta proposta tem sido ob-<br />

jeto de amplas discussões nos<br />

Encontros Indígenas de Saú-<br />

de, que têm ocorrido em vá-<br />

rios pontos do país, e deverá<br />

ser o tema central da Confe-<br />

rência Específica de Saúde In-<br />

dígena. Também a situação<br />

dos Agentes Indígenas de Saú-<br />

de, que se encontram extre-<br />

mamente desassistidos tanto<br />

no que se refece à sua forma-<br />

ção quanto no apoio ao seu<br />

trabalho, merecerá um desta-,<br />

que especial no temário desta<br />

Conferência.<br />

Paulo Daniel Moraes, é médico,<br />

assessor de Saúde do CIMI Re-<br />

gional Norte 1, em Manaus, AM.<br />

E de origem metodista.<br />

LUTA POR SAÚDE PARA OS KANAMARI<br />

Propostas para ação no I o<br />

semestre de 93:<br />

— Participar da Campanha<br />

Contra a Gonorréia.<br />

Grande parte dos índios da<br />

região, homens e mulheres,<br />

tem tido problemas sérios com<br />

doenças venéreas, sendo que a<br />

proximidade de algumas aldeias<br />

com a cidade torna isso mais<br />

grave.<br />

É que em toda a região há<br />

muitos casos de gonorréia, tan-<br />

to na zona urbana como entre a<br />

população ribeirinha.<br />

A presença de agentes de<br />

saúde metodistas e luteranos<br />

viabilizará junto à equipe indi-<br />

genista da OPAN (Operação<br />

Anchieta) e buscando o apoio<br />

da Prefeitura de Eirunepé e do<br />

FNS (Fundação Nacional de<br />

Saúde) a promoção de uma<br />

Campanha de Combate à Go-<br />

norréia na região.<br />

A urgência se dá pela gravi-<br />

dade do caso, tendo-se estimati-<br />

va da Prefeitura de que na re-<br />

gião para cada 12 pessoas uma<br />

está com gonorréia. Há inci-<br />

dência de casos de cegueira e<br />

deficiência física entre os re-<br />

cém nascidos Kanamari que su-<br />

põe-se ser devido à gonorréia.<br />

— Verificar junto ao FNS<br />

sobre como se pode dar o tra-<br />

balho de vacinação que não<br />

vem sendo executado há alguns<br />

anos e que precisa ser retoma-<br />

do.<br />

— Também desempenhar a<br />

função de encaminhar pacientes<br />

para atendimento em Eirunepé<br />

ou, em casos graves, em Rio<br />

Branco.<br />

Marcos Wesley e Silas Moraes


8 TUPARI MARÇO/93<br />

Para Curar as Nações<br />

APOCALIPSE 21-22<br />

^^ ' O Anjo mostrou para mim um rio de água viva;<br />

**■£ era brilhante como cristal; o rio brotava do tro-<br />

no de Deus e do Cordeiro. 2 No meio da praça, de ca-<br />

da lado do rio, estão plantadas árvores da vida; elas<br />

dão fruto doze vezes por ano; todo mês elas frutifi-<br />

cam; suas folhas servem para curar as nações.<br />

Um pajé orienta seu povo - Aquarela de E. Goodall (7842-3)<br />

A narrativa bíblica anuncia para o fu-<br />

turo um tempo de saúde plena. As pala-<br />

vras do anúncio nos lembram, no entan-<br />

to, outras narrativas, do passado. Esta<br />

idealização do mundo como um jardim,<br />

um paraíso livre de doenças e maldições<br />

freqüenta insistentemente os registros da<br />

chegada dos europeus à América. Acos-<br />

tumados às pestes e epidemias de lá, nada<br />

lhes parecia mais puro, belo e saudável<br />

que o novo mundo encontrado.<br />

Aquela gente que chegava, vinha deci-<br />

dida a trazer salvação.para os povos "en-<br />

contrados". E é curioso que na língua la-<br />

tina, da religião destes europeus, salva-<br />

ção — saúde e vida são termos que se<br />

juntam sob um mesmo vocábulo: salus.<br />

Ou seja, uma só palavra expressa salva-<br />

ção, saúde e vida, conceitos que, na<br />

"modernidade" inaugura pelas conquis-<br />

tas passaram a ter significados díspares e<br />

até opostos. Assim, a "salvação" trazida<br />

da Europa não implicou em afirmação da<br />

saúde e da vida, mas no seu oposto.<br />

Passados 500 anos, os teimosos sobre-<br />

viventes da conquista ainda padecem des-<br />

sa inversão do salus. As enfermidades<br />

dos povos originais tornam-se assuntos<br />

recorrentes nos noticiários do país:<br />

— Dois índios Tukano foram, da Ama-<br />

zônia para á construção da Kari-Oca, no<br />

rio, na preparação para a Eco-92 e foram<br />

surpreendidos pela malária contraída na<br />

viagem;<br />

— Na volta da Kari-Oca, José Krenak<br />

— o Zé Moleza, H— 30 anos, precisou<br />

recorrer aos serviços médicos em hospi-<br />

tais de Gov. Valadares, MG, por causa<br />

de uma apendicite. Tratado como indi-<br />

gente, sem companhia e sem que seu po-<br />

vo soubesse, José morreu após ser sub-<br />

metido a três cirurgias;<br />

— Cercados pela Aracruz Celulose, os<br />

Guarani de Boa Esperança, ES, apresen-<br />

tam alto índice de doenças respiratórias.<br />

Vítima de insuficiência respiratória agu-<br />

da, morreu, em fins de agosto, o cacique<br />

João dos Santos. Em suas palavras finais.<br />

colhidas pela imprensa, pediu ao seu po-<br />

vo para se manter afastado da cultura dos<br />

brancos, principalmente da cachaça e das<br />

brigas;<br />

— Dados da FUNAI indicam que o có-<br />

lera já atinge os Karapató, de Alagoas.<br />

— Pesquisadores, financiados pela<br />

Fundação Mc Arthur, dos EUA, fazem<br />

um levantamento sobre a situação da saú-<br />

de das populações indígenas do Mato<br />

Grosso e Rondônia e já apontam como<br />

conseqüências da aculturação: 45% das<br />

crianças Tupi-Mondé estão desnutridas<br />

(índice duas vezes maior que o do nor-<br />

deste); a estatura das crianças destes po-<br />

vos está diminuindo por causa da desnu-<br />

trição; 70% das mulheres Suruí sofrem<br />

de inflamações genitais; os Xavante, com<br />

a introdução do açúcar, sofrem, cada vez<br />

mais, os problemas de obesidade e os<br />

Nambiquara são atingidos pela tuberculo-<br />

se, desnutrição e malária.<br />

— O Brasil registrada 7 milhões de ca-<br />

sos de malária anualmente na década de<br />

50. Em 1970 esta cifra foi reduzida a 50<br />

mil. Agora ultrapassa, tragicamente, o<br />

meio milhão. Em meio ao pessimismo<br />

dos números, é de se registrar a seriedade<br />

do trabalho desenvolvido na área Tapira-<br />

pé, perto de S. Félix do Araguaia, MT,<br />

onde os casos caíram de 124 em 1991,<br />

para 20 no ano seguinte. Os Tapirapé,<br />

que já beiraram a extinção hoje se conso-<br />

lidam como povo e se preparam para o<br />

futuro. O tratamento da malária é feito<br />

com chás, banhos com plantas, além das<br />

orientações da SUCAM. Trocaram, com<br />

sucesso, o inseticida usado na borrifação:<br />

do DDT para o Piretróide e entre os pró-<br />

prios índios há monitores de saúde, trei-<br />

nados na microscopia de malária.<br />

Assustado com o que representa para<br />

os povos nativos desta terra, o contato<br />

com as moléstias trazidas pelos "cristã-<br />

os", o TUPARI abre a discussão e deseja<br />

que um entendimento mais amplo da si-<br />

tuação permitida às nossas Igrejas e aos<br />

grupos de solidariedade aos índios, ações<br />

mais conseqüentes.<br />

SAÚDE PARA OS KAIOWA<br />

Esses dois itens abaixo fazem parte<br />

do projeto de assistência à saúde<br />

das populações indígenas, elaborado<br />

pela coordenação regional da F.N.S.<br />

(Fundação Nacional de Saúde). Embo-<br />

ra apresente pontos bastante interessan-<br />

tes (a equipe visitou as áreas, conver-<br />

sou com os índios, etc) o projeto até o<br />

presente momento não conseguiu efeti-<br />

var-se por problemas de disputa de<br />

competência entre os órgãos públicos<br />

(F.N.S., governo do Estado do Mato<br />

Grosso do Sul, FUNAI, Prefeituras) e<br />

por falta de recursos. O impasse conti-<br />

nua e a situação crítica de saúde persis-<br />

te nas áreas Guarani.<br />

O programa da F.N.S., é avançado<br />

no sentido de relacionar a saúde com o<br />

ambiente de vida, ou seja, meio onde<br />

existem as condições e recursos natu-<br />

rais para a sobrevivência física (orgâni-<br />

ca) e cultural de um determinado grupo<br />

social humano, onde os indivíduos nas-<br />

cem, crescem, interagem, se reprodu-<br />

zem e morrem. Todo o ambiente que<br />

cerca e oferece as condições propícias<br />

à produção e reprodução dos indiví-<br />

duos e da sociedade. Por enquanto<br />

continua no papel, embora haja um<br />

acordo entre a F.N.S. ei Missão Cai-<br />

uá para repasse de recursos e prestação<br />

de serviços.<br />

A concepção de Saúde<br />

Embora seja óbvio, é necessário<br />

explicar que o grupo não entende saúde<br />

como a mera ausência de doença, os<br />

apenas como um estado de bem-estar<br />

físico e psíquico.<br />

E sabido que para que as condições<br />

de saúde estejam asseguradas faz-se<br />

mister uma série de outros quesitos es-<br />

senciais à dignidade humana. Assim, é<br />

preciso ter presente que isoladamente<br />

não serão alcançadas as condições de<br />

saúde dos grupos, caso não sejam ga-<br />

rantidos: habitação, nutrição, vestuá-<br />

rio, educação, produção, acesso à terra<br />

(via demarcação), etc.<br />

Dessa forma, apesar de este projeto<br />

não comportar a previsão do atendi-<br />

mento às necessidades que escapem da<br />

concepção clássica de saúde, é preciso<br />

ter claro que se não forem atendidas,<br />

este projeto terá um alcance, quando<br />

muito, paliativo.<br />

A integridade das Ações de Saúde<br />

Para além da idéia de integralida-<br />

de que permeia as preocupações dos<br />

agentes envolvidos com a questão da<br />

saúde pública no Brasil, a qual pressu-<br />

Volta do trabalho, na aldeia Xikrin<br />

põe a garantia do atendimento a todas<br />

as necessidades da população que de-<br />

verão ser integral e integradamente<br />

atendidas, há outros aspectos no caso<br />

dos grupos indígenas.<br />

Como vimos no item anterior, con-<br />

ceito de saúde deve ter presente a satis-<br />

fação das demais necessidades do gru-<br />

po sob pena de, em não sendo conside-<br />

radas, tornar-se impossível alcança-lo.<br />

Do mesmo modo, a integralidade das<br />

ações de saúde, no caso das popula-<br />

ções indígenas, deve buscar a harmo-<br />

nização entre as alternativas que a cul-<br />

tura abrangente pode oferecer e o re-<br />

pertório cultural do grupo abarcando<br />

desde o xamamismo até o uso das er-<br />

vas enquanto medicamentos.<br />

A integralidade das ações poderá<br />

exigir a revisão conceituai clássica de<br />

saneamento capaz para lidar com fenô-<br />

menos rurais ou urbanos da sociedade<br />

abrangente, porém, insuficiente para<br />

dar conta de determinadas realidades<br />

indígenas. Afinal, para que garantir<br />

água em boas condições de potabilida-<br />

de, adequada destinação dos dejetos e<br />

correto tratamento do lixo entre alguns<br />

grupos Guarani, se não se intervir na<br />

sugidade do corpo? Se não se intervir<br />

na forma como se relacionam com ani-<br />

mais domésticos promovendo toda sor-<br />

te de zoonozes?<br />

De que valerão as tentativas de se<br />

controlarem os surtos de escabiose ca-<br />

so aquelas questões não tenham sido<br />

resolvidas?<br />

E a endêmica tuberculose entre os<br />

Guarani. Será possível tratá-la com su-<br />

cesso, sem se intervir na questão nutri-<br />

cional? Bastará a reitersção repetitiva<br />

das práticas preconizadas pelo Progra-<br />

ma Nacional de Controle da Tubercu-<br />

lose para se dar conta do problema?<br />

Como se vê, não será possível a<br />

simples tutilização dos modelos de al-<br />

teração, mormente aqueles consubs-<br />

tanciados nos programas do Ministério<br />

da Saúde, para prestar assistência à<br />

saúde das populações indígenas. E<br />

preciso que se enfrente o desafio de<br />

frente, sabendo que a integralidade das<br />

ações é fator fundamental para o su-<br />

cesso do trabalho. Logo, toda a criati-<br />

vidade será necessária para que, sob<br />

estes paradigmas se construam mode-<br />

los, de fato, voltados para a satisfação<br />

do conjunto de necessidade apresenta-<br />

das pelas populações indígenas.


MARÇO/93 TUPARI 9<br />

COEXISTÊNCIA DAS MEDICINAS<br />

TRADICIONAL E OCIDENTAL<br />

Medicina Indígena e assistência médica: comentário sobre o projeto de Saúde Sumi de Rondônia. 1<br />

Kulina - povo mensagem à margem do grande rio<br />

Betty Mindlin<br />

Um contraste marcante entre<br />

a medicina na sociedade indus-<br />

trial e a indígena é que aquela se<br />

ocupa do corpo e da saúde, mas<br />

até agora, pelo menos, não enve-<br />

redou para investigar a morte e a<br />

vida futura. Para os índios, este é<br />

um aspecto fundamental da etio-<br />

logia e da cura das doenças, cau-<br />

sadas por espíritos, evitadas por<br />

vezes pela força das almas dos<br />

parentes mortos. A nossa ciência<br />

médica, que cessa na morte ou a<br />

ignora, só pode ser vista pelos<br />

índios como absurdamente insu-<br />

ficiente.<br />

Para os Sumi, são espíritos va-<br />

riados, das águas, dos céus, do<br />

mato, que causam as doenças e<br />

têm o poder de curá-las. As pes-<br />

soas gravemente doentes viajam<br />

(em sonhos, ou suas almas é que<br />

vão — ao país dos mortos, pelo<br />

caminho cheio de perigos que os<br />

que morrem devem percorrer.<br />

Ficam numa situação intermediá-<br />

ria, em que ainda podem ser cha-<br />

mados de volta à terra e à vida<br />

pelos pajés ou pelo apelo de pa-<br />

rentes muito próximos. Em espe-<br />

cial os filhos pequenos são um<br />

chamado vigoroso. Os múltiplos<br />

espíritos são invocados pelos pa-<br />

jés para impedir a morte e trazer<br />

de volta à vida os pacientes. Os<br />

seres sobrenaturais, cada um<br />

com uma história própria, com<br />

um canto só seu, são ao mesmo<br />

tempo os salvadores e os agentes<br />

da doença.<br />

Provocadas por tantos seres,<br />

não se sabe bem por quê, as<br />

doenças são também o resultado<br />

de infrações a numerosos tabus e<br />

regras de conduta. Não obedecer<br />

às muitas reclusões necessárias<br />

(no parto, na menarca, nas mes-<br />

truações, no luto); comer alimen-<br />

tos proibidos nessa situação de<br />

Heiner Heine<br />

passagem: ter relações sexuais<br />

em épocas proibidas, como por<br />

exemplo os homens quando têm<br />

filhos recém nascidos, os pajés<br />

em iniciação; aproximar-se das<br />

parturientes ou de recém nasci-<br />

dos, tidos como perigo gravíssi-<br />

mo exceto para parentes imedia-<br />

tos; todas essas quebras de con-<br />

duta são consideradas causa<br />

infalível de doenças.<br />

Sobre o corpo, a biologia, as<br />

funções vitais, os índios tem co-<br />

nhecimentos muito grandes, mas<br />

com explicações bastante dife-<br />

rentes das nossas. Uma idéias so-<br />

bre concepção.. Os Surui, por<br />

exemplo, julgam que vários ho-<br />

mens podem ser simultaneamente<br />

pais de uma criança, que o feto<br />

se forma aos poucos da mistura a<br />

que contribuem a mulher e os<br />

homens com quem teve encon-<br />

tros amorosos em todo o período<br />

da gravidez.<br />

Quando as equipes de saúde<br />

dos projetos de assistência médi-<br />

ca se defrontam com tantas cren-<br />

ças fascinantes, misteriosas, das<br />

quais só vislumbram relances ou<br />

a superfície, não é fácil saber co-<br />

mo orientar-se. Agentes de saúde<br />

— como também os índios — os-<br />

cilam em pêndulo, diariamente,<br />

entre universos afastados.<br />

Será possível a coexistência<br />

deste complexo sistema de expli-<br />

cação de saúde, doença, cura,<br />

por nós tão mal conhecido, com<br />

a ciência e a assistência que os<br />

nossos médicos levam às aldeias<br />

ou oferecem nas cidades?<br />

Os projetos de saúde em área<br />

indígena — como também outras<br />

ações de apoio aos índios — en-<br />

frentam um dilema. Propõem-se<br />

a manter a saúde da população<br />

dentro de um quadro de respeito<br />

à autonomia e às escolhas da co-<br />

munidade, de reforço à cultura e<br />

ao saber indígenas. Representam<br />

ao mesmo tempo uma interferên-<br />

cia marcada nas tradições, usan-<br />

do todo um outro sistema de co-<br />

nhecimento, valorizando médi-<br />

cos, enfermeiras e formas de<br />

cura bem distintas das indígenas,<br />

alheias à farmacopéia e remédios<br />

do mato, às regras e tabus da vi-<br />

da quotidiana na maloca, ao po-<br />

der dos pajés.<br />

São duas sociedades diferentes<br />

que se encontram e deveriam mi-<br />

rar-se com curiosidade, analisan-<br />

do a si mesmas e à outra sem et-<br />

nocentrismo, sem acreditar ape-<br />

nas na própria perspectiva,<br />

tentando compreender a alterida-<br />

de.<br />

Não se trata de polemizar so-<br />

bre o que é ciência em oposição<br />

ao que é magia, ou de escolher<br />

um verdadeiro sistema de cura.<br />

nem de questionar a existência<br />

ou não do sobrenatural, proble-<br />

ma metafísico insolúvel. O que é<br />

preciso é saber o que significa na<br />

sociedade indígena o sistema de<br />

saúde, como se liga à identidade<br />

e à afirmação do grupo e a todos<br />

os aspectos da vida material e es-<br />

piritual. E fundamental compre-<br />

ender o que pensam os outros pa-<br />

ra podermos melhor transmitir,<br />

por nossa vez, o que pensamos.<br />

No projeto de saúde Surui,<br />

que começou há apenas dois<br />

anos, a urgência de salvar vidas,<br />

de criar um sistema eficaz de<br />

atendimetno, a necessidade de<br />

solucionar as muitas emergên-<br />

cias, torna lenta uma troca ou in-<br />

vestigação aprofundada das tradi-<br />

ções. Seria preciso um esforço<br />

continuado, reconhecido como<br />

desejável, de compreender a<br />

etiologia indígena das doenças,<br />

de seguir o conhecimento indíge-<br />

na sobre botânica e uso de plan-<br />

tas, por exemplo.<br />

A equipe de saúde tem, no en-<br />

tanto, conversado muito com a<br />

comunidade sobre o valor das<br />

tradições. Mantêm-se bem nítida<br />

a separação entre a ação médica<br />

e a tribal — não se trata de mis-<br />

turar as duas, mesmo porque<br />

pouco sabemos sobre as formas<br />

indígenas; mas de insistir um<br />

respeito mútuo, de não apresen-<br />

tar uma como superior à outra, e<br />

até de indicar em alguns casos<br />

como são coerentes.<br />

Assim, no aspecto de sanea-<br />

mento e higiene, por exemplo, a<br />

obediência às regras de compor-<br />

tamento tradicionais Surui apenas<br />

reforça a conduta que os nossos<br />

médicos recomendam. Tradicio-<br />

nalmente, os Surui apenas be-<br />

biam uma espécie de de sopa fer-<br />

mentada e fervida^ nunca água; a<br />

bebida era sempre cuidadosa-<br />

mente conservada em panelas da<br />

cerâmica tampadas. Nada melhor<br />

para as atuais recomendações<br />

médicas contra águas poluídas,<br />

moscas, animais tocando a comi-<br />

da das pessoas. Com a desorga-<br />

nização da vida tribal, a bebida<br />

tradicional está sendo pouco usa-<br />

da, é trocada por sucos artifi-<br />

ciais, refrigerantes, qualquer<br />

água; há desleixo quanto às tam-<br />

pas. Tanto para a nutrição como<br />

para a higiene, o ideal seria vol-<br />

tar ao sistema antigo.<br />

Também a reclusão tradicional<br />

dos doentes ou de parturientes<br />

evita a propagação de doenças<br />

infecciosas. Vez ou outra algum<br />

médico em visita à área Surui re-<br />

clamava das belas malocas da fa-<br />

mília extensa — com fogo embai-<br />

xo de cada rede, com a fumaça<br />

atravessando o teto de palha —<br />

como sendo um terreno fértil pa-<br />

ra a tuberculose: esquecendo<br />

que, se diagnosticada prontamen-<br />

te a doença, o tuberculoso jamais<br />

estaria misturado ao resto da fa-<br />

mília, permanecendo sozinho nu-<br />

ma pequena maloca.<br />

Estes são apenas exemplos.<br />

Claro que a quebra de regras tra-<br />

dicionais tem efeitos caóticos,<br />

em especial sobre a alimentação.<br />

Em contato com alimentos indus-<br />

trializados, comprados na cidade,<br />

os índios deixam de ter um pa-<br />

drão coerente de alimentação,<br />

abandonam a nutritiva sopa dos<br />

tempos antigos, não mais passam<br />

horas ciscando frutos ou larvas<br />

na coleta pelo mato, quase não<br />

caçam, comem menos proteínas<br />

e ficam sujeitos à subnutrição.<br />

Torna-se necessário discutir o<br />

valor calórico e nutritivo da dieta<br />

anterior e posterior ao contato<br />

com a cidade.<br />

Nem sempre, porém, os hábi-<br />

tos e crenças da aldeia são com-<br />

patíveis com os nosos, alguns<br />

provocando^os uma recusa moral<br />

inevitável. É o caso do infanticí-<br />

dio, existente em alguns grupos,<br />

que pode se dever a muitas cau-<br />

sas, como quando há crianças re-<br />

sultantes de incesto ou gêmeos,<br />

transgressão das normas de com-<br />

portamento da aldeia considerada<br />

gravíssima, a antropofagia ces-<br />

sou de existir; mas dificilmente,<br />

se ainda perdurasse, seríamos ca-<br />

pazes de resistir à interferência.<br />

Em outros casos, é preciso con-<br />

versar com a comunidade para<br />

que os médicos possam agir. Há<br />

grupos em Rondônia, por exem-<br />

plo, que interrompem o trata-<br />

mento prescrito pelos médicos,<br />

mesmo o da malária ou tubercu-<br />

lose, quando os pajés estão em<br />

ação.


10 TUPARI MARÇO/93<br />

O contato com as nossas ex-<br />

plicações científicas, mesmo se<br />

mantivermos forte atitude de res-<br />

peito e curiosidade pelo sitema<br />

indígena, certamente há de modi-<br />

ficar o que pensam. Nos casos de<br />

esterilidade, por ex., uma vez<br />

bem demonstradas as nossas ex-<br />

plicações sobre concepção, difi-<br />

cilmente manterão sem crítica<br />

suas teorias. É surprendente, no<br />

entanto, ver alguns grupos indí-<br />

genas na região acusarem-se mu-<br />

tuamente de feitiçaria em epide-<br />

mias de sarampo ou malária,<br />

mesmo depois de muito ouvir a<br />

explicação médica de como se<br />

apanham essas doenças, de no-<br />

tar, p. ex., a quantidade de ano-<br />

felinos.<br />

Seria possível estender bastan-<br />

te a descrição da junção intrigan-<br />

te, instigante, de pedaços de dois<br />

sistemas tão completamente dife-<br />

rente.<br />

De todo modo, é preciso pre-<br />

servar a idéia da relatividade dos<br />

valores e culturas. Contribuiria<br />

para isso lembrar, por exemplo,<br />

que para a maioria de nós a me-<br />

dicina é um mito e não ciência,<br />

(quantos cientistas sociais sabe-<br />

rão descrever o corpo humano ou<br />

a etiologia das doenças?), mono-<br />

pólio de poucos tanto no saber<br />

como no acesso à cura, na socie-<br />

dade desigual, mais ainda cheia<br />

de iniqüidade no Brasil. Em<br />

grande parte por razões sociais, a<br />

saúde é privilégio de poucos e as<br />

vitórias da ciência beneficiam<br />

apenas minorias. Ponderações<br />

como essas nos levam a relativi-<br />

zar e questionar a nossa suposta<br />

superioridade na prática da assis-<br />

tência médica.<br />

A consciência da complexida-<br />

de do confronto dos dois siste-<br />

mas de conhecimento não signifi-<br />

ca aceitar indiscriminadamente,<br />

ou simultaneamente, formas de<br />

conduta de um e de outro. Por<br />

exemplo, os monitores/agentes<br />

de saúde treinados nos projetos<br />

deveriam ser pajés ou aprendizes<br />

de pajé ou, ao contrário, serem<br />

escolhidos pelos critérios da me-<br />

dicina urbana? Devemos usar os<br />

remédios da floresta, como subs-<br />

titutos ou em conjunto com os da<br />

indústria química?<br />

Com a nossa ignorância do<br />

mundo indígena, e até que os ín-<br />

dios consigam nos explicar quem<br />

são e o que pensam, é preciso<br />

cuidado ao fundir as dus "ciên-<br />

cias", para não agirmos às ce-<br />

gas. Enquanto nada sabemos,<br />

melhor não nos aventurarmos,<br />

como aprendizes de feiticeiros,<br />

no uso das ferramentas alheias:<br />

mais vale talvez tentarmos expli-<br />

car e utilizar aquilo que julgamos<br />

saber, respeitando e interferindo<br />

o mínimo possível nas outras for-<br />

mas. E neste percurso, procurar<br />

aprofundar cada vez mais a com-<br />

preensão global da sociedade in-<br />

dígena, até mesmo para no traba-<br />

lho de apoio nos movermos com<br />

mais segurança.<br />

Antes de misturarmos as pres-<br />

crições, seria preciso aprender<br />

com elas, saber o que significam<br />

para nós, diferentemente do que<br />

significam para a comunidade.<br />

Por exemplo, será o efeito dos<br />

remédios usados na aldeia, do<br />

nosso ponto de vista, químico ou<br />

mágico, ou seja ligado ao con-<br />

junto das regras sociais? Quando<br />

os índios consideram o amen-<br />

doim como abortivo, por exem-<br />

plo, isso significa que há uma<br />

propriedade abortiva no amen-<br />

doim, ou que esta é uma das re-<br />

gras de classificação social? Que<br />

efeitos são os que consideramos<br />

psicológicos?<br />

O passo inicial mais ao nosso<br />

alcance é a equipe de saúde pro-<br />

curar tomar contato com a cultu-<br />

ra do grupo indígena em que<br />

atua. Em seguida, promover pes-<br />

quisas sobre variados aspectos do<br />

conhecimento tradicional, desde<br />

o uso das plantas até as explica-<br />

ções das doenças. A pesquisa em<br />

si já é uma afirmação cultural, ao<br />

mostrar a importância que atribu-<br />

imos ao saber da comunidade.<br />

Para finalizar este comentário<br />

tão resumido sobre um assunto<br />

tão vasto e difícil, seria bom<br />

lembrar que a medicina indígena,<br />

por milênios, serviu à humanida-<br />

de, funcionando bastante bem,<br />

enquanto a nossa é relativamente<br />

recente. Dizem os primeiros cro-<br />

nistas e viajantes que os índios<br />

eram macróbios: havia poucas<br />

febres e doenças infeccioasa, me-<br />

nos ainda as psicológicas e ner-<br />

vosas.<br />

E com as nossas doenças, com<br />

as imensas mudanças que a nossa<br />

sociedade lhes trouxe, que os ín-<br />

dios lidam mal: a malária, a be-<br />

bida alcoólica, a tuberculose, os<br />

garimpos são exemplos. E nós,<br />

lidaremos bem? Certamente hou-<br />

ve grandes invenções tecnológi-<br />

cas médicas no nosso tempo,<br />

houve um aumento da vida média<br />

em muitos países; mas também<br />

surgiram novas doenças e males,<br />

muitos decorrentes da concentra-<br />

ção urbana. Se deixamos de lado<br />

um conceito exíguo de saúde e<br />

doença para passar a uma con-<br />

cepção mais ampla do que estas<br />

significam na sociedade, os ín-<br />

dios terão muitas lições funda-<br />

mentais a nos dar.<br />

Pesquisadora, da Coordenação<br />

do IAM A, Instituto de Antropo-<br />

logia e Meio Ambiente, São Pau-<br />

lo.<br />

1 Projeto de Saúde Surui, coor-<br />

denado por Maria do Carmo<br />

Barcellos, representante do LA-<br />

MA em Rondônia e presidente<br />

do CERNIC, Centro de Recu-<br />

peração Neurológica Infantil<br />

de Caçoai.<br />

Do Boletim da Unidade de<br />

Saúde e Meio Ambiente da<br />

Escola Paulista de Medicina,<br />

Vol 2, n° 2, com permissão).<br />

ENCONTRO DE EUROPEUS E AMERICANOS<br />

FEZ A UNIFICAÇÃO GENÉTICA DO PLANETA<br />

Jí/Iais do que massacrar índios,<br />

-'-'-■• como enfatizam historiadores<br />

revisionistas, ou espalhar a fé cristã,<br />

como Coiomnbo diz, as viagens<br />

transaiânticas inauguradas em 1492<br />

tiveram como conseqüência a unifi-<br />

cação genética do planeta.<br />

Os genes que cruzaram o mar nas<br />

duas direções modificaram o mundo<br />

tanto quanto a artilharia ou o modo<br />

de produção capitalista.<br />

Alguns genes tiveram um papel<br />

direto na história, aqueles que cons-<br />

tituem os micróbios causadores de<br />

doenças. Não há dúvidas do papel<br />

que doenças estranhas podem ter na<br />

dizimação de nativos não expostos a<br />

ela. Até hoje índios brasileiros sem<br />

contato prévio com os descendentes<br />

dos colonizadores podem morrer de<br />

resfriado.<br />

Há provas que algumas tribos na-<br />

tivas da América perderam até 90%<br />

de seus habitantes depois de contata-<br />

das pelos brancos e negros que vie-<br />

ram de Europa e África. A lista de<br />

doenças é extensa: não havia nem<br />

malária, nem varíola, nem tifo, nem<br />

sarampo, nem febre amarela. Nesse<br />

aspecto, sem dúvida o continente era<br />

o paraíso que os historiadores multi-<br />

culturalistas críticos da "descober-<br />

ta" gostam de descrever.<br />

O intercâmbio certamente alterou<br />

a biodiversiade do planeta. Não só<br />

pessoas colonizaram a América; fau-<br />

Tia^e~fkira vieram junto. Colombo e<br />

sucessores deram sua mãozinha na<br />

universalização da seleção natural<br />

darwiniana, o processo pelo qual as<br />

espécies vivas mais aptas sobrevi-<br />

vem em um dado ambiente e deixam<br />

descendência. Barreiras geográficas<br />

são um dos fatores que moldam a<br />

evolução das espécies. As caravelas<br />

quebraram uma das barreiras, e en-<br />

tre os que melhor aproveitaram estão<br />

os vírus e bactérias causadores de<br />

doenças.<br />

"A genética das populações pode<br />

então ser vista como um ramo espe-<br />

cializado da epidemiologia", disse-<br />

ram os pesquisadores George Wil-<br />

liams e Randolph Nesse, defendendo<br />

uma maior atenção aos princípios da<br />

adaptação das espécies ao ambiente<br />

no estudo das doenças.<br />

Homens e micróbios "co-evo-<br />

luem". Há uma perene corrida ar-<br />

mamentista entre parasita e seu hos-<br />

pedeiro, cada um adaptando armas<br />

bioquímicas complexas. O sistema<br />

imune, de defesa do organismo, foi<br />

evoluindo em resposta a ameaças de<br />

bactérias e vírus. A febre, por exem-<br />

plo, é uma maneira de derrotar bac-<br />

térias "cozinhando-as" em uma<br />

temperatura mais alta.<br />

Há doenças que persistem em pe-<br />

quenas populações, mas há outras<br />

que precisam de um grande número<br />

de vítimas para se propagarem, cau-<br />

sando epidemias. Os biólogos acre-<br />

ditam que várias delas surgem de mi-<br />

cróbios existentes em animais do-<br />

mesticados. A população de<br />

micróbios europeus era mais varia-<br />

da, provavelmente porque havia<br />

maior gama de animais domésticos<br />

que serviram de reservatório para a<br />

evolução dos agentes patogênicos.<br />

SAIBA COMO É O CICLO DA MALÁRIA<br />

Mosquitos transmitem • capam panstas itravés


MARÇO/93 TUPARI 11<br />

O problema do suicídio en-<br />

tre os Kaiowá começa a<br />

adquirir índices preocupantes<br />

em meados da década de 70<br />

quando chama a atenção das<br />

instituições que atuam entre<br />

os Kaiowá de Mato Grosso do<br />

Sul. Entretanto, em 1991 os<br />

casos de suicídio aumentaram<br />

na área de Dourados, atraindo<br />

a atenção da mídia nacional e<br />

internacional.<br />

Não há consenso entre os<br />

indigenistas e estudiosos do<br />

assunto, sobre as causas que<br />

levam os Kaiowá ao suicídio e<br />

os motivos atribuídos. Formu-<br />

lações do senso comum, va-<br />

riam principalmente entre:<br />

perda do espaço físico (terra),<br />

reação às religiões pentecos-<br />

tais, excesso de bebida alcoó-<br />

lica, imposição do trabalho<br />

como bóia-fria nas fazendas<br />

da região, perda da cultura e<br />

desestruturação da organiza-<br />

ção familiar. Quase todos re-<br />

J^^Su^djOud^<br />

O SUICíDIO KAIOWA<br />

J-C&r^yükün ajvrr^cuixiJicxfD-<br />

conhecem o encadeamento de<br />

vários fatores gerando uma si-<br />

tuação crítica ao limite extre-<br />

mo do suicídio.<br />

Grande número de repórte-<br />

res, psicólogos, psiquiatras,<br />

etc, ascendem curiosamente à<br />

área Kaiowá de Dourados<br />

buscando insistentemente nos<br />

índios uma resposta para as<br />

causas do suicídio. Furtam-se<br />

assim, de questionar as insti-<br />

tuições de sua própria socie-<br />

dade sobre a responsabilidade<br />

das mesmas nesta situação crí-<br />

tica.<br />

Cabe perguntarmos, até que<br />

ponto a atuação das organiza-<br />

ções indigenistas não estão<br />

voltadas para si próprias, vi-<br />

sando ações imediatistas e in-<br />

teresses políticos principal-<br />

mente naquelas de caráter go-<br />

vernamental: federal, estadual<br />

e municipal? Até que ponto<br />

estas ações não contribuem<br />

para manutenção dos Kaiowá<br />

na deplorável condição em<br />

que se encontram, à mercê de<br />

ações salvacionistas de cunho<br />

governamental, religioso ou<br />

filantrópico? Já que não con-<br />

vivemos em nossa região com<br />

o flagelo da seca teríamos<br />

uma versão similar mais tími-<br />

da, mas igualmente maléfica:<br />

a indústria do suicídio? Até<br />

que ponto estas ações não<br />

mantêm os laços estabeleci-<br />

dos, perpetuando uma situa-<br />

ção de inferioridade onde os<br />

benefícios alcançados são<br />

sempre conjunturais, contin-<br />

gentes e passageiros?<br />

Podemos nos perguntar ain-<br />

da em que medida interessa de<br />

fato à maioria das instituições<br />

indigenistas conhecer a reali-<br />

dade vivida pelos Kaiowá e<br />

considerar essa mesma reali-<br />

dade na formulação de seus<br />

projetos, se a maoria delas ne-<br />

ga o caráter de alteridade à<br />

sociedade Kaiowá atuando na<br />

perspectiva da integração ou<br />

conversão religiosa?<br />

A repercursão da divulga-<br />

ção na imprensa dos casos de<br />

suicídio provocou a prolifera-<br />

ção de iniciativas de progra-<br />

mas de apoio criando para os<br />

Kaiowá um quadro complexo<br />

e extremamente confuso; pro-<br />

gramas foram iniciados geran-<br />

do grande expectativa e não<br />

tiveram seqüência (por exem-<br />

plo, "Nosso índio, Um Cida-<br />

dão" — governo do M.S., e<br />

Fundação Nacional de Saúde).<br />

Outros nem sairam do papel.<br />

É urgente uma mudança no<br />

enfoque e tratamento dispen-<br />

sados à questão do suicídio.<br />

Talvez a trave ainda esteja no<br />

nosso olho e o bárbaro não se-<br />

ja nesse caso, o "outro".<br />

Levi Marques Pereira é antropó-<br />

logo. Trabalha há 12 anos com<br />

os Guarani — Kaiowá e Nhan-<br />

deva. É metodista.<br />

(z££z_


12 TUPARI MARÇO/93<br />

A COLONIZAÇÃO NO BRASIL<br />

E OS INDÍGENAS DIANTE DOS 500 ANOS DA AMÉRICA Luclano Andrade/JB<br />

A colonização na história in-<br />

dígena atual é uma reali-<br />

dade gritante. Ela se ma-<br />

nifesta na forma de invasão terri-<br />

torial, assassinatos, dominação<br />

política, além dos métodos mais<br />

sutis, porém não menos eficien-<br />

tes processos de extermínio, co-<br />

mo o etnocídio e o genocídio.<br />

Segundo os dados da Funda-<br />

ção Nacional do índio (FUNAI)<br />

até o mês de setembro de 92<br />

morreram 700 índios por falta de<br />

assistência governamental em<br />

áreas indígenas, contra os mais<br />

de 350 "assassinatos" verifica-<br />

dos em 91, envolvendo conflitos<br />

de terras e suas conseqüências,<br />

de acordo com o quarto levanta-<br />

mento anual do Conselho Indige-<br />

nista Missionário (CIMI), agên-<br />

cia da Igreja Católica anexa à po-<br />

derosa Conferência Nacional dos<br />

Bispos do Brasil.<br />

Mesmo na vigência da Consti-<br />

tuição cidadã de 88, que prevê<br />

demarcação de terras até 93 e<br />

diante dos 500 anos de coloniza-<br />

ção da América, os povos indíge-<br />

nas do Brasil permanecem na<br />

condição de meros posseiros e<br />

não proprietários de suas terras.<br />

Tal situação tem sido principal<br />

obstáculo na luta indígena pela<br />

auto-determinação, dificultando<br />

o reconhecimento de seus direi-<br />

tos ancestrais sobre os territórios<br />

que sempre habitaram, enquanto<br />

suas pátrias, já que o proprietário<br />

titular continua sendo a União.<br />

Neste sentido, as bases da co-<br />

lonização indígena estão lançadas<br />

e tendem a estruturar-se cada vez<br />

mais através da dominação políti-<br />

ca. Este processo acontece de<br />

imediato quando os índios e seus<br />

povos passam a sofrer restrições<br />

e controles consubstanciados na<br />

incenssante perda do direito so-<br />

bre o seu próprio destino, pas-<br />

sando a ser governados pelos co-<br />

lonizadores.<br />

Mas também isto acontece por<br />

meio de mecanismos específicos,<br />

tais como a destruição da organi-<br />

zação política indígena, negação<br />

dos direitos políticos, proibição<br />

de eleger seus líderes políticos,<br />

proibição de ter a própria justiça,<br />

impedidos de ter indentidade po-<br />

lítica própria e, em conseqüên-<br />

cia, a obrigação de adotar a na-<br />

cionalidade do colonizador.<br />

A colonização do índio, por-<br />

tanto, é a expressão acabada de<br />

domínio dos povos indígenas por<br />

meio de mecanismos espúrios de<br />

decretos e leis feitos pelos não-<br />

índios ou colonizador. Assim, o<br />

chamado Estatuto do índio acaba<br />

sendo o mais notório exemplo de<br />

que lança mão a aludida colon-<br />

ziação para estender os seus ten-<br />

táculos. Tais mecanismos são le-<br />

vados à prática, hoje como no<br />

passado, através de órgãos de co-<br />

lonização que atendem pelos<br />

pomposos nomes de Diretório<br />

dos índios (Séc. XVII), Serviço<br />

de Proteção aos índios (SPI,<br />

)910), e a Fundação Nacional do<br />

índio, criada em 1967.<br />

A colonização indígena, numa<br />

perspectiva mais sutil, é o geno-<br />

cídio praticado contra a vida dos<br />

povos indígenas e se manifesta<br />

com a introdução de doenças fa-<br />

tais para os índios, como a gripe,<br />

o sarampo, a tuberculose, a va-<br />

ríola, etc. Mas também o é crime<br />

de lesa humanidade quando prati-<br />

cados com armas de fogo, como<br />

as utilizadadas pelos antigos e<br />

modernos bandeirantes para ex-<br />

terminar o índio; ou através de<br />

"guerras justas", práticas muito<br />

difundidas pelos representantes<br />

da Igreja, para deter o desenvol-<br />

vimento da luta indígena.<br />

A colonização indígena é tam-<br />

bém o processo de transferência<br />

compulsória imposto aos mem-<br />

bros de um determinado povo in-<br />

dígena. No Brasil, inúmeros po-<br />

vos continuam sofrendo os danos<br />

e as agruras da transferêcia for-<br />

çada, que também é uma forma<br />

de genocídio. Entre estes compe-<br />

te lembrar o caso do povo Kaia-<br />

by do rio Teles Pires, no Estado<br />

de Mato Grosso. Removida de<br />

uma rica região de recursos natu-<br />

rais, essa nação indígena há mui-<br />

to vem lutando para reaver o seu<br />

antigo habitai, mas sem muito<br />

sucesso.<br />

Foi com os índios conhecidos<br />

como Kreen-Akarore, entretanto,<br />

que o processo de colonização<br />

anti-indígena mostrou sua face<br />

mais cruel, obrigando os Kreen-<br />

Manifestação Kayapó, em Brasília contra depósito de lixo atômico<br />

Akarore a abandonar seu territó-<br />

rio tradicional (73) do Peixoto de<br />

Azevedo em Mato Grosso, para<br />

sobreviver de migalhas em terras<br />

de outros povos indígenas do<br />

Xingu nesse mesmo Estado.<br />

Deslumbrado com o processo<br />

de atração de índios autônomos<br />

ou isolados, em nome da integra-<br />

ção nacional (política indigenista-<br />

colonialista também adotada pe-<br />

los irmãos Villas-Boas nos anos<br />

60 e 70), o atual ocupante da<br />

presidência da Fundação Nacio-<br />

nal do índio em Brasília, Sidney<br />

Ferreira Possuelo, é identificado<br />

entre outros, como o principal<br />

articulador do plano de operação-<br />

retirada dos índios Kren-Akaro-<br />

re.<br />

Os raios de abrangência da co-<br />

lonização do índio não param por<br />

aí, já que se desdobram em vá-<br />

rios matizes como o de extermí-<br />

nio cultural imposto pelos coloni-<br />

zadores portugueses no início da<br />

invasão. Este método garantiu o<br />

alastramento de seu efeito devas-<br />

tador com a introjeção de ele-<br />

mentos culturais novos que re-<br />

dundaram no incremento do cha-<br />

mado processo de etnocídio.<br />

Neste último caso, em particu-<br />

lar, a figura nefasta da coloniza-<br />

ção tem exibido sua forte marca<br />

registrada, uma vez que está di-<br />

retamente vinculada com a impo-<br />

sição repressiva e a proibição de<br />

os índios viverem dentro de seus<br />

padrões culturais tradicionais.<br />

Em suma, imposição da cultura<br />

do colonizador através da reli-<br />

gião, organização econômica e<br />

política.<br />

Com efeito a colonização indí-<br />

gena numa versão mais atualiza-<br />

da continua acontecendo através<br />

de garimpeiros, castanheiros,<br />

madeireiros, gateiros e empresas<br />

de financiamentos espalhadas pe-<br />

lo país, assim como por meio de<br />

antropólogos, missionários e. ou-<br />

tros especialistas educados nos<br />

centros acadêmicos não-indíge-<br />

nas, que funcionam ao mesmo<br />

tempo como canal e extensão de<br />

filosofia do sistema colonialista.<br />

Mas ao que tudo indica, para<br />

os povos indígenas, o processo<br />

de descolonização, apesar de tu-<br />

do já começou. E na luta destes<br />

povos por sua libertação total de<br />

domínio colonial, importante pa-<br />

pel pode caber à antropologia,<br />

embora esta tenha sido uma tra-<br />

dicional aliada do colonialismo e<br />

imperialismo.<br />

Eivada de caráter colonialista,<br />

será necessário antes descoloni-<br />

zar a antropologia brasileira, o<br />

que exigirá dos antropólogos, se-<br />

gundo o professor titular de an-<br />

tropologia da Universidade Fede-<br />

ral de Paraíba, Dr. Francisco<br />

Moonen, uma revisão de suas te-<br />

orias alienadas e alienadoras, co-<br />

mo também de sua prática indi-<br />

genista.<br />

Quanto a nós outros, índios e<br />

líderes indígenas, quando isto de<br />

fato acontecer, será o momento<br />

ideal de firmar uma poderosa<br />

aliança como todos aqueles ver-<br />

dadeiramente identificados com<br />

os anseios e perspectivas do mo-<br />

derno movimento de libertação<br />

indígena.<br />

Estevão Carlos Taukane é índio<br />

Bakairi (MT), um dos fundado-<br />

res da União das Nações Indí-<br />

genas (UNI), é de formação<br />

evangélica.


MARÇO/93 TUPARI 13<br />

5 de outubro de 1993:<br />

Prazo limite para demarcação das Terras Indígenas<br />

"Esta perto o fim do grande sofrimento. Não podemos viver sem pei-<br />

xe, sem buriti, sem babaçu e sem cerrado. Não podemos viver sem terra<br />

e, principalmente, sem onça. Seria uma vida triste e sem cor".<br />

Kadagári Bororó<br />

Como está a situação das terras indígenas no Brasil,<br />

hoje?<br />

Território brasileiro... 8.511.965 Kni2<br />

Extensão total das 510 áreas indígenas conhecidas 896.698 Km2<br />

ou 10,49% do território nacional<br />

Deste total, 257 áreas já estão demarcadas 411.446 Km2<br />

e253 estão a demarcar 485.252 Kin2<br />

(FUNAI, 1992)<br />

O que diz a Constituição Federal?<br />

Título IX -Das Disposições Constitucionais Gerais<br />

Ato das Disposições Constitucionais Transitórias<br />

Art. 67. A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco<br />

anos a partir da promulgação da Constituição.<br />

Encontro dos Povos Indígenas, Altamira, 88<br />

No ano Internacional dos Povos Indígenas,<br />

Tome nota:<br />

As 10 Campeãs no Abuso Contra as Ter-<br />

ras dos índios<br />

Survival International<br />

A organização indigenista britânica Survival intemational<br />

organizou uma lista com os nomes das 10 empresas que<br />

lideram os abusos contra as terras tradicionais dos povos<br />

indígenas, em todo o mundo. Eis a lista:<br />

1. RTZ (Grã-Bretanha)<br />

A RTZ é a maior mineradora do mundo. É responsável<br />

pela devastação das terras e de muitas nações indígenas.<br />

Nos EUA, a Flambeau Cooper Mine, subsidiária da RTZ,<br />

está construindo uma mina em Wisconsin em terras dos<br />

índios Chippewa, destinadas à caça e à pesca. Pessoas<br />

atingidas pela construção da mina: 5 mil.<br />

Outra subsidiária da RTZ — a Tinto Holdings Canada Lt-<br />

da. — tem mina de urânio em terras dos índios Anishna-<br />

be, em Ontário, Canadá. No Panamá, cerca de 100 mil<br />

índios Guaymi estão sendo prejudicados por um projeto<br />

2. Hansor<br />

Cerca de 10.100 índios Navajo do Arizona, Estados Uni-<br />

dos, sofrem as conseqüências de um projeto mineral da<br />

Peabody, uma subsidiuária da Hanson.<br />

wit Gold (Grã-Bretanha)<br />

Esta empresa de mineração de ouro prejudica, com seus<br />

projetos, segundo a Survival, indígenas dos Estados Uni-<br />

dos (Shoshone) e na Austrália. São cerca de 10 mil pesso-<br />

as, atingidas.<br />

4. Maxus (Dallas, KVA)<br />

Os 1600 Waorani, grupo mais vulnerável entre os índios<br />

do Equador, sofrem os efeitos do projeto da Maxus, que<br />

constrói uma rodovia e um oleoduto no coração de seu<br />

território, já bastante poluído.<br />

Esta multinacional japonesa causa danos às terras dos ín-<br />

dios Lubicon Cree da região de Alberta, no Canadá, com<br />

a exploração de petróleo.<br />

6. Ministério da Defesa (Grã-Bretanha)<br />

Os exercícios militares das forças aéreas da Grã-Bretanha,<br />

com apoio de suas congêneres da Alemanha e da Holan-<br />

da, prejudicam os direitos do povo Innu, na região penin-<br />

sular de Québec-Labrador, no Canadá. Os Irmu são um<br />

povo caçador que não está podendo fazer isto para sobre-<br />

viver. São 10 mil pessoas atingidas pelo alcoolismo e^por<br />

um crescente índice de suicídios.<br />

A radiação ligada à exploração de urânio por parte desta<br />

empresa norte-americana está contaminando as reservas<br />

de águas da nação Havasupai, na região do Grand Ca-<br />

nyon, no Arizona. Para este povo, a área de Red Butte —<br />

onde fica a mina — é o local sagrado em que viveram<br />

seus ancestrais.<br />

8. Shdl (Uoh nda e Grã-Brefanha)<br />

Um projeto de gás natural da Shell na região do rio Cami-<br />

sea, no Peru, causa inquietação aos 15.500 índios Machi-<br />

guenga e Kugapakori, extremamente vulneráveis. Os indí-<br />

genas exigem participar de todas as discussões sobre o<br />

impacto ambiental desse projeto. A Shell está também en-<br />

volvida em umprojeto numa área de 2 milhões de hectares<br />

no Parque Nacional Manu, no Peru, onde vivem índios<br />

Machiguenga, Yamanahua e Nahua.<br />

9. Exxon (EUA)<br />

■;.' : '. . . : ■ ;■.■; ■ ; . ; . ■ : ■ ■ ■:<br />

A Exxon é dona de 50% das ações de uma mina de carvão<br />

a céu aberto na terra dos índios, Wayuu, no extremo norte<br />

da Colômbia, numa área de 37 mil hectares. É a maior<br />

mina de carvão da América do Sul. A saúde dos 100 mil<br />

Wayuu está sendo afetada pela poeira e pelo clima cada<br />

vez mais cedo. Os estoques de peixe também são afetdos.<br />

Na Amazônia equatoriana, outros povos também são atin-<br />

gidos pela atuação da Exxon (são os índios Waorani, Qui-<br />

chua, Siona, Secoya e Cofan). A mesma coisa ocorre com<br />

índios dos EUA e Canadá.<br />

Esta companhia opera a maior mina de urânio do mundo<br />

— a Key Lake Mine, em Sarkatchewan, nos Estados Uni-<br />

dos. Em 1984, a mina liberou 100 milhões de litros de<br />

água contaminada com o radium-226 nas áreas dos índios<br />

Dene e Cree.<br />

Da revista Véspera, da AGEN, 4 , /ouf. 92.


14 TUPARI MARÇOI93<br />

05 ÍNDIOS ESPERAVAM COLOMBO<br />

Uma entrevista de Jiirg Altwegg<br />

com Claude Lévi-Strauss. Nas-<br />

cido em Bruxelas em 1908, Levi<br />

Strauss estudou Direito e Filosofia an-<br />

tes de se dedicar à Etnologia. É consi-<br />

derado estruturalista. Em 1959 foi cha-<br />

mado para trabalhar no Collége de<br />

France, e em 1973 foi eleito para a<br />

Academia Francesa. A tradução do ori-<br />

ginal alemão foi feita por Tobias Baes-<br />

ke).<br />

J. A.: Há 500 Anos Colombo chegou<br />

à América. Como os indígenas o recebe-<br />

ram?<br />

L. Strauss: De braços abertos, isso nós<br />

sabemos. Nós o sabemos do próprio Co-<br />

lombo. Ele estava surpreso, a recepção<br />

cordial o deixou perplexo. O comporta-<br />

mento dos conquistadores foi bem outro.<br />

J. A.: Por que essa recepção cordial?<br />

L. Strauss: Nos mitos cósmicos dos<br />

indígenas o espaço para o branco de certa<br />

maneira já estava previsto. A maneira co-<br />

mo os indígenas se entendiam, pressupu-<br />

nha que existissem não indígenas. Com<br />

isso fica compreensível a atitude miste-<br />

riosa dos indígenas do México e Peru.<br />

Quando os brancos chegaram, estavam<br />

sendo esperados.<br />

J. A.: Como o senhor chega a este<br />

ponto de vista?<br />

L. Strauss: Eu me ocupei durante qua-<br />

renta anos com o pensamento filosófico e<br />

religioso dos indígenas nas duas Améri-<br />

cas. Motiva-me a pergunta, se atrás de<br />

seus multifacetados mitos não se poderia<br />

achar uma inspiração conjunta. Um prin-<br />

cípio, que definisse a visão do mundo dos<br />

indígenas. E eu cheguei à conclusão de<br />

que existe este pano-de-fundo: existe uma<br />

ideologia dos contrastes. Não como em<br />

Hegel, onde a tese e a antítese deságuam<br />

numa síntese, porém um dualismo que<br />

nunca se desfaz, cujos elementos nunca<br />

são iguais e também nunca em equilíbrio.<br />

Eles lutam, porém sempre por este equilí-<br />

brio. Uma disputa assim movimenta o<br />

mundo, é o seu motor. Essa consciência<br />

fez os indígenas supor que para eles de-<br />

veria existir uma complementação, um<br />

oposto, igual como os bons pressupõem a<br />

existência dos maus, como os fortes e os<br />

fracos se exigem mutuamente, como há<br />

amigos e inimigos. O lugar dos brancos<br />

estava previsto em todas as mitologias in-<br />

dígenas do mesmo modo. Com isso fica<br />

compreensível sua atitude no momento do<br />

descobrimento, uma atitude em tudo dife-<br />

rente a da animosidade. Por que vinte mil<br />

Incas armados ficaram paralisados peran-<br />

te cento e sessenta Espanhóis, por que os<br />

Astecas se ajoelharam perante Cortês?<br />

Eles se comportavam como se lhes espe-<br />

rassem, mais: como se eles os tivessem<br />

reconhecido.<br />

J. A.: Existem também exemplos para<br />

esta interpretação após o descobrimento?<br />

L. Strauss: Sim. Por exemplo, em de-<br />

terminadadas tribos no Canadá. Entre<br />

eles e os canadenses descendentes de eu-<br />

ropeus crescem muitos conflitos, porém<br />

eles sempre asseguraram que nunca resis-<br />

tiram à chegada dos brancos, mas somen-<br />

te ao fato de que foram excluídos. Esta<br />

consciência ainda está presente. Nos<br />

meus estudos de antropologia, cheguei a<br />

uma interpretação de que os indígenas<br />

nunca tiveram a intenção de desistir das<br />

suas diferenças. Eles não queriam, de<br />

maneira nenhuma, se adaptar aos invaso-<br />

res. Eles teriam — e nisto consiste para<br />

mim a supremacia das religiões politeís-<br />

tas sobre as monoteístas - aberto um es-<br />

paço para o credo ocidental, ao lado das<br />

próprias crenças, e o teriam tolerado.<br />

J. A.; Religiões que adoram várias di-<br />

vindades são mais abertas?<br />

L. Strauss: Quando a gente necessa-<br />

riamente quer tirar uma conclusão gene-<br />

ralizádora, então seria realmente esta.<br />

Para a humanidade nada é tão perigoso<br />

como o monoteísmo. Pode-se reconstituir<br />

isto até o surgimento das religiões judaica<br />

e cristã. O monoteísmo tem vantagens.<br />

Ele possibilita os progressos da razão e<br />

da ciência — a um alto preço: suas des-<br />

vantagens são a intolerância, o imperia-<br />

lismo e a perigosa certeza de deter uma<br />

única e absoluta verdade e razão.<br />

J. A.: Os indígenas se interessaram pe-<br />

la mitologia dos homens brancos?<br />

L. Strauss: Muito fortemente. No no-<br />

roeste americano os indígenas, desde o<br />

século XIX, mantiveram estreitos conta-<br />

tos com os canadenses de fala francesa<br />

que viajavam como mercadores de pele.<br />

Os nativos eram, em relação n eles, aber-<br />

tos e curiosos, o seu pensamento foi in-'<br />

fluencidado pelo que contavam estes via-<br />

jantes. Eles integraram seu patrimônio de<br />

experiências até um certo ponto em sua<br />

mitologia.<br />

J. A.: E o contrário — como foi rece-<br />

bido na Europa o ser e o pensar indíge-<br />

nas?<br />

dos brancos depois que eles foram recebi-<br />

dos pelos indígenas de braços abertos?<br />

L. Strauss: Eles destruíram tudo. Eu<br />

me lembro de uma visita a um museu de<br />

Viena, onde estão os tesouros dos Aste-<br />

cas, que Albrecht Dürer tanto admirou. E<br />

eu me perguntei: o que teria acontecido,<br />

se os europeus não tivessem desprezado e<br />

massacrado os indígenas, mas os tives-<br />

sem respeitado e reconhecido com iguais.<br />

Se ao invés do massacre houvesse sido<br />

feita uma aliança entre os poderosos rei-<br />

nados da Espanha, México e Peru? Nós<br />

estaríamos, hoje, vivendo em um mundo<br />

completamente diferente. Esta pergunta,<br />

que naturalmente não tem nenhum inte-<br />

resse prático, porque é puramente espe-<br />

culativa produz em mim não um senti-<br />

mento de injustiça, porém de perda, uma<br />

grande e irreparável perda. Por isso eu<br />

não gosto de falar sobre o descobrimento<br />

de um Novo Mundo — se trata de uma<br />

invasão, de um assalto. Incomensuráveis<br />

tesouros de criação humana foram destru-<br />

ídos. O que nos resta são cacos que nós<br />

etnólogos colecionamos. Os conquistado-<br />

res destruíram tudo.<br />

Funcionários do SPI recebem presentes dos índios 1944<br />

L. Strauss: Nos anos imediatamento<br />

após o descobrimento da América o oci-<br />

dente se interessou muito pouco sobre is-<br />

to. O historiador Lucien Febvre mostrou<br />

isto tomando como exemplo o poeta Ra-<br />

belais. A antigüidade tinha sido recém re-<br />

descobera, a este processo — é a Renas-<br />

cença — ainda estava em vigor. O que se<br />

acreditava saber sobre o novo mundo não<br />

era nada novo: já na antigüidade se tinha<br />

descrito os bárbaros do mesmo modo.<br />

Deveria-se esperar a volta dos descobri-<br />

dores e suas descrições para começar as<br />

prórpias reflexões. Montaigne foi dos<br />

primeiros a fazer isto. Ele era muito me-<br />

nos etnocentrista que seus contemporâne-<br />

os. Os preconceitos e chavões, que ainda<br />

encontramos em Rabelais lhes são desco-<br />

nhecidos. Pela primeira vez na história da<br />

cultura ocidental, em Montaigne, a Etno-<br />

logia se toma instrumento de crítica aos<br />

usos e costumes — também dos próprios.<br />

Mas, Montaigne entrou em um doloroso<br />

dilema. De um lado ele estava convicto,<br />

baseado em seus conhecimentos etnológi-<br />

cos, de que todas as civilizações têm o<br />

mesmo valor. Este relativismo cultural o<br />

conduziu, entretanto, a um ceticismo e<br />

pessimismo radicais. Se todos os compor-<br />

tamentos são equivalentes, temos que de-<br />

sistir de querer conduzir-nos como seres<br />

humanos normais e morais, ou nos deci-<br />

dimos pelos valores da sociedade em que<br />

se vive simplesmente porque assim é<br />

mais prático, sem convicção real. Mas,<br />

Montaigne achou mais sábio não tirar ne-<br />

nhuma conclusão de seu dilema.<br />

J. A.: Como o senhor julga a conduta<br />

J. A.: Ao descobrimento seguia-se o<br />

colonialismo, em que medida a sua ciên-<br />

cia, a etnologia, está entrelaçada com<br />

ele?<br />

L. Strauss: A curiosidade etnológica é<br />

algo antigo. Ela existia nos gregos, em<br />

Heródoto, que se interessava por usos e<br />

costumes dos povos de que ele contava.<br />

Ela se desenvolveu mais durante o Renas-<br />

cimento, verdadeiramente mais com as<br />

grandes viagens de descobrimento do que<br />

com o começo do colonialismo. Na época<br />

da Rabelais e Montaigne não se pode fa-<br />

lar de colonialismo na França. Foi dife-<br />

rente em Portugal e na Espanha. Contudo<br />

não existem dúvidas de que a Etnologia<br />

se desenvolveu no século XVUI, mais<br />

ainda no século XIX, à sombra do colo-<br />

nialismo. Era a presença de administra-<br />

dores, missionários e militares que deram<br />

oportunidade aos etnólogos de pesquisa-<br />

rem no próprio local. A perspectiva colo-<br />

nialista facilitou que, os assim chamados<br />

povos primitivos se tomassem objeto do<br />

pensamento teórico, eles não eram sujei-<br />

tos, porém objetos, do domínio colonia-<br />

lista; assim forma considerados. Existe<br />

porém o outro aspecto. Desde o começo,<br />

foram os etnólogos os primeiros a criticar<br />

o colonialimso e suas conseqüências. Fo-<br />

ram eles que tomaram algumas medidas<br />

de proteção aos usos, crenças e institui-<br />

ções, que a dominação estrangeira destru-<br />

ía. É de se agradecer aos seus esforços<br />

que os povos que desde então consegui-<br />

ram sua liberdade possam achar a lem-<br />

brança do seu passado. Existem relações<br />

complicadas. O desenvolvimento da Et-<br />

nologia foi favorecido pelo colonialismo,<br />

mas ao mesmo tempo ela o denunciou e<br />

lutou contra os seus crimes.<br />

J. A.: Pode o 500° ano de descobri-<br />

mento da América através de Colombo<br />

conduzir a uma reavivação ou ao menos a<br />

uma nova escala de valores?<br />

L. Strauss: Não. O que o ocidente<br />

destruiu, está definitivamente perdido. Eu<br />

tenho esperança de qualquer maneira, de<br />

que o jubileu seja ocasião para um refle-<br />

xão. 1492 foi para a humanidade um<br />

acontecimento de importância capital.<br />

Frente a isto, o envio de astronautas à<br />

lua, que é um deserto estéril, é de total<br />

insignificância. Mas não existe motivo al-<br />

gum para se festejar 1492 como algo glo-<br />

rioso. Nós não devemos de modo algum<br />

nos fazer ilusões, mesmo se existe uma<br />

mudança de consciência em ambas as<br />

partes da América sobre a cultura indíge-<br />

na. Ela é aí reconhecida como crescente<br />

forma de resistência contra a civilização<br />

ocidental dos Estados Unidos. No diag-<br />

nóstico do aniquilamento das culturas an-<br />

tigas isto não muda nada.<br />

J. A.: O "Pensamento selvagem" dos<br />

indígenas poderia ter protegido a humani-<br />

dade da destruição do meio ambiente, pe-<br />

la qual sempre a técnica racional e a ciên-<br />

cia foram responsabilizadas?<br />

L. Strauss: Naturalmente existe no<br />

"pensamento selvagem" um certo equilí-<br />

brio entre a natureza e o homem". Ele<br />

não é o senhor da criação, que tudo se<br />

pode permitir. Porém, houve no passado<br />

da civilização ocidental, épocas de espe-<br />

taculares disseminações científicas e de<br />

progresso técnico, que não conduziam a<br />

uma devastação do planeta. A miséria de<br />

nosso mundo tem uma outra razão: a ex-<br />

plosão demográfica do gênero humano.<br />

Nos dizem que o número de habitantes<br />

terrestres em alguma época não vai au-<br />

mentar, sim, de que possivelmente vá di-<br />

minuir — de alguma maneira. Mas, em<br />

vinte anos, se continuar dessa maneira,<br />

vai dobrar mais uma vez. Também se ela<br />

chegar a ura máximo que, quem sabe não<br />

mais ultrapasse; este máximo — eu pen-<br />

so, que este máximo suportável já foi ul-<br />

trapassado há dois ou três séculos atrás.<br />

Era um luxo para todos os seres viventes,<br />

quando somente 2 ou 3 bilhões de pessoas<br />

povoavam o planeta. Este objetivo não se<br />

pode mais colocar nem como utopia. Em<br />

comparação com a catástrofe demográfica<br />

a mina do comunismo é sem importância.<br />

J. A.: O pensamento mítico sobrevive-<br />

rá?<br />

L. Strauss: Sim. Os mitos voltam<br />

constantemente — principalmente ali, on-<br />

de menos se espera. Por exemplo, nas<br />

ciências. Os cientistas naturalmente não<br />

pensam em mitos, mas se hoje eles se<br />

voltam para os leigos, e isto nós somos<br />

praticamente todos, eles se vêem força-<br />

dos a descobrir novos mitos, pois o que<br />

eles têm a dizer é de tal modo fantástico e<br />

contradiz qualquer racionalidade humana,<br />

que a gente só pode fazê-lo compreensí-<br />

vel com outros mitos. Por isso, temos<br />

que continuar a nos ocupar do pensamen-<br />

to mítico. Ele aparece em cada época da<br />

História de modo diferente, mas a huma-<br />

nidade nunca vai poder abrir mão dele.<br />

Hoje realmente o diálogo com os cientis-<br />

tas lhe confere nova atualidade.<br />

J. A.: Agrada-lhe o mundo em que vi-<br />

vemos?<br />

L. Strauss: Nunca fiz segredo de que<br />

não sou feliz no meu século. Um senti-<br />

mento elevado, que poderia ter algo a ver<br />

com o que os outros chamam o sagrado<br />

eu experimento ao observar fascinado<br />

uma planta ou um animal. Por isso me<br />

entristece tudo o que ameaça a sua sobre-<br />

vivência e multiplicação.


MARÇO/93 TUPARI 15<br />

1. "Nós somos a Terra"<br />

— A luta dos Povos Indígenas<br />

no Brasil por seus direitos hu-<br />

manos<br />

Violação dos direitos humanos<br />

dos Povos Indígenas do conti-<br />

nente americano<br />

Londres, Anistia Internacional,<br />

1992, 31 e 64 páginas respecti-<br />

vamente<br />

São duas publicações da Anistia<br />

Internacional, conhecida enti-<br />

dade de luta pelos direitos hu-<br />

manos.<br />

A primeira trata das violações<br />

dos direitos dos povos indíge-<br />

nas no Brasil nos últimos anos,<br />

em quatro seções: — "índio é<br />

Terra"; — O sacrifício dos di-<br />

reitos humanos no altar do pro-<br />

gresso; — Porque os abusos<br />

continuam; — Conclusões e<br />

Recomendações.<br />

O título da segunda publicação<br />

expressa com clareza o assunto<br />

do qual se ocupa em cinco se-<br />

ções: — As violações cometi-<br />

das contra os Povos Indígenas;<br />

— Ninguém está seguro/as víti-<br />

mas dos abusos; — A proteção<br />

dos Povos Indígenas: teoria e<br />

prática; — Campanhas pelos di-<br />

reitos dos Povos Indígenas; —<br />

Conclusões e Recomendações.<br />

Este material pode ser obtido<br />

nos seguintes endereços (escri-<br />

tórios da Seção brasileira da<br />

Anistia Internacional):<br />

Rua Vicente Leporace, 883<br />

Campo Belo<br />

São Paulo - SP<br />

04619-032<br />

tel.: (011)542-9819<br />

fax:(011)61-5995<br />

Rua Fernando Machado, 991<br />

Centro<br />

Porto Alegre - RS<br />

90010-321<br />

tel.: (051)225-0712<br />

fax: (051) 225-0712<br />

2. GRUPIONI, Luís Doni-<br />

sete Benzi (organizador)<br />

índios no Brasil<br />

São Paulo, Secretaria Munici-<br />

pal de Cultura, 1992, 279 pági-<br />

nas<br />

No âmbito dos debates e even-<br />

tos que marcaram os 500 anos<br />

de chegada dos europeus às ter-<br />

ras americanas, a Secretaria<br />

Municipal de Cultura de São<br />

Paulo desenvolveu um projeto<br />

cultural intitulado "500 anos:<br />

Caminhos da Memória — Tri-<br />

lhas do Futuro", que incluiu a<br />

exposição "índios no Brasil:<br />

alteridade, diversidade e diálo-<br />

go cultural".<br />

O livro acima indicado relata as<br />

atividades desenvolvidas pela<br />

Secretaria, sob o título "Os ín-<br />

dios e a Secretaria Municipal<br />

de Cultura", especialmente no<br />

que diz respeito à citada expo-<br />

sição, nas primeiras 36 pági-<br />

nas. A seguir, reúne uma série<br />

de 16 artigos de importantes<br />

autores, que ajudam a construir<br />

uma visão de conjunto comple-<br />

ta e atualizada sobre a realidade<br />

indígena brasileira. Tais artigos<br />

estão divididos em três seções:<br />

— A descoberta da América e o<br />

encontro com o Outro; — Di-<br />

versidade cultural das socieda-<br />

des indígenas; — índios do pre-<br />

sente e do futuro.<br />

No final do livro encontra-se<br />

um inventário dos artefatos e<br />

obras da exposição, e a identifi-<br />

cação dos autores que contribu-<br />

íram com matérias para o mes-<br />

mo.<br />

3. ZWETSCH, Roberto<br />

Ervino<br />

Com as melhores intenções —<br />

Trajetórias missionárias lutera-<br />

nas diante do desafio das comu-<br />

nidades indígenas, 1960 - 1990<br />

(dissertação de mestrado)<br />

São paulo. Faculdade de Teolo-<br />

gia N a S a da Assunção, 1993,<br />

536 páginas<br />

Recebemos do companheiro<br />

Roberto, cópia de sua alentada<br />

dissertação de mestrado, em<br />

que analisa as "trajetórias mis-<br />

sionárias realizadas por missio-<br />

nários e missionárias luteranos<br />

as junto a três comunidades in-<br />

dígenas: Rikbáktsa (MT), Kain-<br />

gáng (RS) e Madija/Kulina<br />

(AC), no período de 1960 a<br />

1990." (pág. 40). Tal análise<br />

foi realizada a partir da seguin-<br />

te perspectiva, segundo Rober-<br />

to: "... colocando-me de forma<br />

crítica diante dos impasses vivi-<br />

dos pelas comunidades indíge-<br />

nas hoje, e procurando avaliar<br />

a ação missionária desde a<br />

perspectiva do outro, o indíge-<br />

na, tanto quanto isto è humana<br />

e intelectualmente possível,<br />

queria responder até que ponto<br />

foram os missionários e missio-<br />

nárias permeáveis/impermeá-<br />

veis ao mundo/cosmovisão/cul-<br />

tura/vida indígena." (págs. 8-<br />

9).<br />

O trabalho se desdobra em três<br />

capítulos: 1. Os luteranos e a<br />

questão indígena; 2. Trajetórias<br />

missionárias: caminhos, desca-<br />

minhos e aprendizagens; 3. A<br />

prática e a teologia missioná-<br />

rias. Em busca de critérios teo-<br />

lógicos libertadores.<br />

4. SILVA, Mareio Ferrei-<br />

ra da<br />

Romance de primas e primos:<br />

uma etnografria do parentesco<br />

Waimiri-Atroari (tese de douto-<br />

rado)<br />

Rio de Janeiro, Universidade<br />

Federal do Rio de Janeiro/Mu-<br />

seu Nacional, 1993, 400 pági-<br />

nas<br />

O amigo e colaborador Mareio<br />

Silva enviou-nos sua tese de<br />

doutorado, que apresenta e dis-<br />

cute uma etnografia do paren-<br />

tesco Waimiri-Atroari, povo in-<br />

dígena que habita a divisa dos<br />

Estados do Amazonas e Rorai-<br />

ma. "Este trabalho é o fruto de<br />

uma pesquisa de campo de oito<br />

meses e meio desenvolvida en-<br />

tre os Waimiri-Atroari, no vale<br />

do Camanaú, afluente da mar-<br />

gem esquerda do Rio Negro<br />

(AM)." (pág. 7).<br />

5. CASTRO, Eduardo Vi-<br />

veiros de<br />

Araweté — O povo de Ipixuna<br />

São Paulo, CEDI, 1992, 192<br />

páginas<br />

"Este livro é o sumo de uma<br />

FORMAÇÃO<br />

extensa pesquisa antropológica<br />

sobre um povo indígena da<br />

Amazônia brasileira contempo-<br />

rânea, os Araweté: seu modo<br />

de vida, sua visão de mundo,<br />

sua história, seus desafios do<br />

presente e perspectivas de futu-<br />

ro." (da I a "orelha" do livro).<br />

6. VIDAL, Lux<br />

Grafismo Indígena<br />

São Paulo, Studio Nobel/FA-<br />

PESP/EDUSP, 1992, 296 pági-<br />

nas<br />

14 pesquisadores reuniram seus<br />

trabalhos no campo das artes<br />

gráficas indígenas, apresentan-<br />

do nessa publicação as manifes-<br />

tações de tal natureza em 11<br />

povos indígenas brasileiros e<br />

uni colombiano/equatoriano. O<br />

livro traz, ainda, um estudo so-<br />

bre registros rupestres e um ar-<br />

tigo sobre antropologia estética<br />

como conclusão.<br />

Essa obra toma acessível ao lei-<br />

tor "uma rica iconografia apli-<br />

cada em diferentes suportes:<br />

pedra, cerâmica, entrecasca,<br />

papel e, com maior freqüência,<br />

o corpo humano, onde obvia-<br />

mente os aspectos estético e se-<br />

miótico são os mais aparen-<br />

tes." (pág. 14).<br />

7. SIQUEIRA, Jaime Gar-<br />

cia<br />

Arte e técnicas Kadiwéu<br />

São Paulo, Secretaria Munici-<br />

pal de Cultura, 1992, 125 pági-<br />

nas<br />

Este álbum "foi produzido no<br />

contexto das atividades do<br />

Acervo Plínio Ayrosa do De-<br />

partamento de Antropologia da<br />

Universidade de São Paulo em<br />

1987." (pág. 7). O objetivo<br />

principal do álbum é tomar<br />

acessível aos próprios índios in-<br />

formações sobre aspectos de<br />

sua cultura que se encontram<br />

dispersos em museus do Brasil<br />

e do exterior.<br />

Encontro de Iniciação ■ Porto Alegre/RS ■24-25 de abril<br />

Encontro de Iniciaçáo ■ Pimenta Bueno/RO ■ 1 o -02.de maio/:<br />

Encontro de Iniciação -Rio de Janeiro/RJ -12-13 de junho


16 TUPARI MARÇO/93<br />

MEMÓRIA/DENÚNCIA<br />

Quinhentos anos de ofensa,<br />

Quinhentos anos de horror,<br />

Quinhentos anos sofrendo<br />

Nas mãos do branco opressor.<br />

Quinhentos anos de guerra,<br />

Quinhentos anos de dor.<br />

Quinhentos anos lutando<br />

Pr'a não perder seu valor.<br />

Desde o princípio esta terra<br />

Já tinha seu morador.<br />

O povo que aqui vivia<br />

Era seu dono e senhor.<br />

Tinha seus mitos, costumes,<br />

Tinha sua lei, sua fé,<br />

Mas o invasor tomou tudo,<br />

A terra e a vida, até!<br />

Chega de morte, desgraça.<br />

Chega de ofensa, de horror!<br />

Basta com tal genocídio!<br />

Basta de guerra e de dor!<br />

índio não quer caridade<br />

Só seu direito a viver,<br />

Com a mesma dignidade<br />

Que todo mundo quer ter!<br />

íLeira e Música: Sérgio Marcus Pinto Lopes.<br />

Dispomos da música/partitura na sede do GTMEj<br />

Crianças Krenak, 1911<br />

GTME<br />

Grupo de Trabalho Missionário Evangélico<br />

Em Solidariedade aos Povos Indígenas<br />

Av. dos Trabalhadores, 3.419<br />

Cx. Postal 642 - CEP 78005-970 - Cuiabá-MT<br />

Fax/Fone: (065} 322-7476<br />

"EURECA! SÃO OUTROS 500"<br />

Lá vêm Ameríndios: Astecas...<br />

... guerreiros Tupinambás...<br />

Por entre as ricas florestas<br />

da América no apogeu...<br />

Muito longe do mau europeu<br />

Curumim no seu carnaval<br />

Feliz 'inda não ultrajado<br />

Não tinha chegado Cabral.<br />

(lá vem, lá vem)<br />

Lá vem, lá vem, lá vem<br />

A bandeira do Movimento<br />

Meninos e Meninas de Rua.<br />

Com o Estatuto na mão<br />

Lá vem, lá vem, lá vem.<br />

500 anos depois<br />

Escutem os seus argumentos<br />

"EURECA": são outros quinhentos<br />

(lá vem, lá vem)<br />

Lá vem, lá vem, lá vem<br />

A bandeira do Movimento<br />

Crianças e caras-pintadas<br />

com o Estatuto na mão<br />

Lá vem, lá vem, lá vem.<br />

500 anos depois<br />

Escutem os seus argumentos<br />

"EURECA"! são outros quinhentos.<br />

Um dia ancorou caravela<br />

E com ela a dominação<br />

O metal abundante revela<br />

Pilhagem e inquisição<br />

Catequese pretexto cristão<br />

Para dependência servil<br />

índio, negro, criança: escravos...<br />

... entre a cruz e a espada: BRASIL!<br />

(Autoria: Daniel Vieira Ramos Filho. Foi apresentado como samba-enredo do Blo-<br />

co Eureca - Eu reconheço o Estatuto da Criança e do Adolescente, no carnaval de<br />

São Bernardo do Campo, SP. O bloco é formado pelas crianças do Movimento de<br />

Meninos e Meninas de Rua).<br />

CESEP - CENTRO ECUHENIC0 DE EMANGELIZA-/'<br />

CA0 E EDUCAÇÃO POPULAR<br />

f<br />

CX. POSTAL, é5.83í<br />

3A0 PAULO - SP<br />

0Í390<br />

RASIL

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