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1982-As_CEBs_das-quais-muito-se-fala-pouco-se-sabe

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<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ...<br />

<strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>,<br />

<strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece<br />

- A TF P as descreve como são<br />

I<br />

Plinio Corrêa de Oliveira<br />

<strong>As</strong> metas <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> no contexto brasileiro<br />

II<br />

Gustavo Antonio Solimeo -<br />

Luiz Sérgio Solimeo<br />

Gêne<strong>se</strong>, organização, doutrina e ação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>


HOJE: agitação em que estão<br />

envolvi<strong>das</strong> as <strong>CEBs</strong> ...<br />

AMANHÃ: "pega-fazendeiro"?<br />

Também pega-patrão, pega-patroa?<br />

(p. 193)


EDITORA VERA CRUZ LTDA.<br />

Rua Dr. Martinica Prado, 246<br />

O l 224 - São Paulo<br />

l.ª Edição, Agosto de l 982 -<br />

12.000 exemplares<br />

Composição e Impressão<br />

Artpress - Papéis e Artes Gráficas Ltda.<br />

Rua Garibaldi, 404 - São Paulo<br />

Fotos<br />

Serviço de Imprensa da TFP, Catolicismo, Agência Folhas,<br />

Caminho Editorial Ltda., Abril Press, Mu<strong>se</strong>u da Imagem e do<br />

Som e Tribuna da Bahia. Fotos da capa: TFP e Caminho<br />

Editorial Ltda.


Índice<br />

I<br />

<strong>As</strong> metas <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> no contexto brasileiro ...................... 13<br />

Introdução - A inércia <strong>das</strong> elites sociais brasileiras, embala<strong>das</strong><br />

pela alternativa otimismo-desalento - O pre<strong>se</strong>nte estudo, um<br />

convite à ação ....................................... .......... ........... ........ .......................... 15<br />

Capítulo I - Em nossa época de caos publicitário, o alcance do<br />

esclarecimento doutrinário da TFP junto ao grande público........ ... 33<br />

Capítulo II - O IV Poder (os Meios de Comunicação Social) e o<br />

V Poder (a CNBB) coligados para reformar o Brasil: reforma<br />

rural, ref arma urhana, ref arma empresarial ............................... ... .. 45<br />

Capítulo III - A intelecção def armada do tríplice "<strong>se</strong>ntire"<br />

("cum Romano Pontifice", "cum Episcopo", "cum Parocho")<br />

favorece largamente a eficácia da ação reformista da CNBB ........... 61<br />

Capítulo IV - A Igreja no drama da autodemolição: quem são os<br />

artífices dessa autodemolição? - O papel da Sagrada Hierarquia<br />

- A Teologia da Libertação - <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> .......................................... 69


Capítulo V - <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong>, potência emergente na política nacional,<br />

visam instrumentalizar o Estado a <strong>se</strong>rviço de sua cruzada <strong>se</strong>m Cruz<br />

- Por trás e por cima <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, a CN BB - Novo apelo aos<br />

Bispos e às elites silenciosos ...... ............ ... ....... ......... .................... .......... 79<br />

Conclusão - É possível resistir à ação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>? ............................. 99<br />

II<br />

Gêne<strong>se</strong>, organização, doutrina e ação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> .......... 105<br />

Aviso Preliminar ......................................................................................... 108<br />

Capítulo I - Fisionomia <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> ......... 111<br />

l. <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> são como os discos voadores: todo mundo <strong>fala</strong> delas, mas ninguém<br />

<strong>sabe</strong> o que são ............................................................... .............................. 113<br />

2. "Comunidades de Ba<strong>se</strong>: expressão inspirada no marxismo, equivalente a<br />

soviete" - V m movimento camaleônico que finge não existir . .......... ... .... 122<br />

Origem <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> .......................................... 125<br />

Uma deputada eleita pelas <strong>CEBs</strong> .. ....... ... ... .. ...... .... .. .. .. ..... ... ... ... ... ....... .. . 126<br />

Peritos dos Encontros Nacionais de <strong>CEBs</strong> e especialistas do movimento<br />

.......................!............................................................................. 127<br />

"Vê <strong>se</strong> temos cara de <strong>se</strong>minaristas!" ...................................................... 128<br />

3. Uma KGB religiosa?.- A ditadura <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>......... 129<br />

4. Como transformar o membro da CEB num revoltado - A conscientização<br />

um processo de "baldeação ideológica inadvertida" ... ........................ ....... 133<br />

- A fome não faz revolução, mas sim a conscientização ....... ... ... ... .... .. ... . 135<br />

Um discreto treinamento de ativistas ......................:.............................. 137<br />

- Ensinar per~untando, convencer sugerindo ..... ... ... ... ... .......... .. ...... .... .. ... 138


- "Antes de organizar uma revolução, é preciso aprender a organizar um<br />

pique-nique" .. ... .... .. .............. .. .. ..... ... .. ..... .. ........... .. ... ..... ... ....... .... .......... 140<br />

Capítulo li - A Teologia da Libertação, doutrina <strong>das</strong> Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong>. - Sua meta: o comunismo. Sua filosofia:<br />

o marxismo. Sua estratégia: a luta de clas<strong>se</strong>s...... .. ................. ...... ....... 143<br />

/. <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong>, a Teologia da Libertação posta em prática.................................. 145<br />

"O que propomos não é teologia no marxismo, mas marxismo na<br />

teologia" - Textos .. ................. .... .... ................................. .. ............... . 147<br />

O mito da "ciência" marxista................................................................ 150<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> criticam a Santa Igreja e pregam uma "Igreja-Nova" iguaÜtária,<br />

herética e subversiva - Textos .... .. ... .......... ... ............... .................... .... 153<br />

A nova religião da "Igreja-Nova": "O mau ladrão também é Deus!" -<br />

Textos.............. ... ....................... .. ... .. ..... ..... .. ...... .................... .. ........... ... 158<br />

Uma Igreja autogestionária, numa sociedade autogestionária ............... 160<br />

A desigualdade de clas<strong>se</strong>s decorre da vontade de Deus......................... 161<br />

D. José Maria Pires, corifeu do movimento <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, proclama a prostituição<br />

como um verdadeiro <strong>se</strong>rviço de Deus!............................................. 163<br />

Capítulo III - <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> em ação. - No campo. - Na periferia<br />

urbana. - Na fábrica. ............................................................................... 169<br />

l. Manipular palavras e conceitos, para justificar esbulhos e violências .......... 171<br />

2. Comissão Pastoral da Terra: "Somos a Igreja no meio rural, organizada<br />

en1 Comunidades de Ba<strong>se</strong>" ........ ... ............................. .. .... .... ... ... ... .. .......... ... 175<br />

A C PT prega a violência em prosa e verso ........... ............ ... ... ... ............. 177<br />

- "Romaria da Terra" no Rio Grande do Sul - "Alto lá, esta terra<br />

tem dono!" ......... ........... ............. ... ................................ .......... .. .'... ......... 178<br />

3. Violência no campo-1 : Alagamar, teoria e prática da tensão social............. 179<br />

- Subversivos as<strong>se</strong>ssoram as <strong>CEBs</strong> .... .......................... ... ............. .. ... ... .... 183<br />

4. Vio l~ncia no campo-2: "Que tal revolução, ao invés de reforma?" .............. 185<br />

5. Violência no campo-3: Sangue na região <strong>das</strong> guerrilhas do PC do B -<br />

... E as águas do Araguaia continuam a tingir-<strong>se</strong> de vermelho ................... 187<br />

6. Violência no campo-4: "A forma concreta que toma a fé nas <strong>CEBs</strong>": as<br />

"operações pega-fazendeiro" .......... ............ .. ... ... .... ...... ...... .. ... .... .. ... ...... ... . 193


7. Reivindicar... Tensionar.. . Conscientizar .. . - Para conduzir os membros<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> ao marxismo na prática ... .. ............. .... .. ... .. .... .. .......... ... ... ......... .. . 202<br />

8. - "Temos organizado invasões de terrenos ... " .. ............. ....... ........... .. .. .. ... 207<br />

- Lições para ocupar a terra alheia - A "Cartilha do pos<strong>se</strong>iro urbano" .... ... 213<br />

9. O Movimento Contra a Carestia, um dos "braços políticos" <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> ........... 214<br />

10. Onde fracassou o PC. triunfam as Comunidades de Ba<strong>se</strong>- Um novo sindicalismo<br />

de inspiração religiosa, animado pela Teologia da Libertação ............ 217<br />

- Sindicalistas ligados às <strong>CEBs</strong> de São Paulo .... ....... ... .................... .... .... 219<br />

1 J. Por trás <strong>das</strong> greves, as Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> ............... .......... ... .. 222<br />

No ABC, os sindicalistas pertencem às <strong>CEBs</strong>. Mas não vivem dizendo... ... 223<br />

- <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong>, à esquerda do PCB ............. .................................. ... ............ 231<br />

Capítulo IV - <strong>As</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> e a política ......... 233<br />

1. Uma concepção religiosa da política e política da religião ..................... ..... 235<br />

2. Pressão religiosa para fins eleitorais - A máquina política <strong>das</strong> CEBS .. .... 241<br />

- Células marxistas? - "Temos que correr o risco" .... .. ... ... ........ .... .. ... .... 248<br />

Bibliografia - Documentação ................ ................................................ 253


Plínio Corrêa de Oliveira<br />

Presid ente do Con<strong>se</strong>lho Nacional da<br />

Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade<br />

.4s C EBs ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece<br />

- A TFP as descreve como são<br />

<strong>As</strong> metas <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong> no contexto<br />

brasileiro


Em home<br />

dores d TFP<br />

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Segmentu numericamente<br />

imenso<br />

da populaçãu hrasileira<br />

E PROVÁVEL que, à míngua<br />

de estatísticas, nã o haja<br />

nenhum brasileiro que saiba qual<br />

<strong>se</strong>ja, em nosso País, o número que<br />

atingiriam, todos somados, os proprietários<br />

de imóveis urbanos e rurais,<br />

de empresários industriais e comerciais,<br />

de acionistas e de detentores de<br />

títulos públicos e privados, bem como<br />

de donas-de-casa <strong>se</strong>rvi<strong>das</strong> por domésticas.<br />

Para os efeitos do que <strong>se</strong> exporá a<br />

<strong>se</strong>guir, a es<strong>se</strong> número, já <strong>muito</strong> consideráve<br />

l, haveria que somar ainda os<br />

que, não participando embora de qualquer<br />

<strong>das</strong> categorias acima, vivem exclusivamente<br />

do trabalho de suas mentes.<br />

Do trabalho intelectual, tomado<br />

este último adjetivo em <strong>se</strong>ntido tão<br />

amplo, que chegas<strong>se</strong> a abranger não<br />

só os portadores de diplomas universitários,<br />

<strong>se</strong>cundários ou técnicos, mas<br />

até profissionais <strong>se</strong>m estudos de habi-<br />

litação definidos, que ganham <strong>se</strong>u pão<br />

mercê da argúcia ou da agilidade de<br />

<strong>se</strong>us espíritos, de <strong>se</strong>u <strong>se</strong>nso <strong>das</strong> realidades,<br />

ou da finura de <strong>se</strong>u trato: qualidades,<br />

to<strong>das</strong> estas, intelectuais a um<br />

ou outro título. A numerosa e indispensável<br />

clas<strong>se</strong> dos corretores de imóveis,<br />

de títulos ou valores, por exemplo.<br />

Por sua mera importância numérica,<br />

tão vasto conjunto de brasileiros<br />

pode constituir no País uma grande<br />

força. A força de todos aqueles cuja<br />

missão e cujos direitos naturais o socialismo<br />

visa minguar, solapar e aviltar.<br />

E contra os <strong>quais</strong> o comunismo<br />

desfecha o golpe supremo: quanto aos<br />

direitos, negando-os do modo mais<br />

radical, e quanto à missão, esmagando-a<br />

sob a bota da chamada ditadura<br />

.do prolerariado.<br />

Mais ainda do que pelo peso do<br />

número, es<strong>se</strong> <strong>se</strong>gmento social vale pela<br />

natural e óbvia influência <strong>das</strong> funções<br />

A lém de numeroso.<br />

altamente influe111e<br />

/6


Segurança obstinada<br />

que exerce. De tal forma que, <strong>se</strong> algum<br />

ukas<strong>se</strong> malfazejo reduzis<strong>se</strong> de um<br />

momento para outro ao trabalho braçal<br />

to<strong>das</strong> essas categorias de brasileiros,<br />

o País pararia, e logo depois<br />

despenharia pelos resvaladeiros de<br />

uma decadência precipitada.<br />

Ao país a que <strong>se</strong> extinguem as<br />

elites sucede, em <strong>pouco</strong> tempo, exatamente<br />

o mesmo que a um corpo do<br />

qual <strong>se</strong> corta a cabeça.<br />

O conhecimento dessa verdade, definido<br />

em uns e nebuloso em outros,<br />

mas vivo em todos os componentes<br />

dessas elites, explica pelo menos em<br />

parte o <strong>se</strong>ntimento de estabilidade profundo<br />

e obstinado que nelas deitou<br />

raiz. Tanto mais quanto essa derrubada<br />

apocalíptica só poderia provir de<br />

uma conjuração dos que lhes são inferiores<br />

na hierarquia social. Ou <strong>se</strong>ja, do<br />

número aliás tão maior dos que vivem<br />

do trabalho manual. Mas estes, a experiência<br />

qua<strong>se</strong> diária os faz ver tão<br />

pacatos, tão estavelmente instalados<br />

na sua condição, que, com efeito, uma<br />

ofensiva geral deles contra os proprietários<br />

e os trabalhadores intelectuais,<br />

a qua<strong>se</strong> todos <strong>se</strong> afigura hipóte<strong>se</strong><br />

longínqua, e talvez até quimérica.<br />

Contudo, es<strong>se</strong> profundo <strong>se</strong>ntimento<br />

de estabilidade coexiste contraditoriamente,<br />

em <strong>muito</strong>s dos que o<br />

experimentam, com uma impressão<br />

oposta. Impressão o mais <strong>das</strong> vezes<br />

indefinida também ela, a mudar a<br />

todo momento de intensidade, conforme<br />

as notícias de cada dia, ou<br />

simplesmente <strong>se</strong>gundo os mil pequenos<br />

fatos concretos da vida quotidiana.<br />

Porém, de qualquer forma, uma<br />

impressão que dispõe a alma a encarar<br />

como inevitável a hipóte<strong>se</strong> da vitória<br />

do comunismo em nosso País, desde<br />

que <strong>se</strong> apre<strong>se</strong>ntem certas circunstân-<br />

17


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> mui/o <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, p ouco <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Noções his1óricas<br />

superficiais que,<br />

sugerem derrolis- :<br />

mo<br />

c1as ao mesmo tempo imprevisíveis,<br />

mas em nada improváveis.<br />

• • •<br />

Para tal estado de espírito prepara<br />

um fundo de quadro fortemente<br />

sugestivo, decorrente de estudos de<br />

História sumários, feitos habitualmente<br />

nos cursos de <strong>se</strong>gundo grau. Deles<br />

emerge com falsa evidência a certeza<br />

de que a Revolução Francesa derrubou<br />

o trono dos Bourbons por força<br />

de uma incontenível conjugação de<br />

fatores. Entre estes, notadamente o<br />

an<strong>se</strong>io da maioria dos espíritos por<br />

uma ordem de coisas nova, modelada<br />

<strong>se</strong>gundo a trilogia Liberdade - Igualdade<br />

- Fraternidade. E porque todos<br />

es<strong>se</strong>s fatores também existiam, <strong>se</strong> bem<br />

que em estado ainda germinativo, nos<br />

outros paí<strong>se</strong>s da Europa, lograram os<br />

exércitos da República e de Bonaparte<br />

estender a qua<strong>se</strong> todo o Continente<br />

europeu as "conquistas" da Revolução<br />

Francesa.<br />

"A qua<strong>se</strong> todo o Continente", sim.<br />

E não todo ele. Porque impávida ficava<br />

a Rússia dos Romanof s. Mas a<br />

derrota sofrida por es<strong>se</strong> país na I<br />

Guerra Mundial encerrou os dias da<br />

monarquia absoluta no último país<br />

europeu em que esta forma de governo<br />

ainda tinha vigência.<br />

Como <strong>se</strong> <strong>sabe</strong> geralmente, derrubaram<br />

por terra o trono dos Roma-<br />

nofs fatores análogos aos que haviam<br />

abatido, em fins do século XVIII , o<br />

trono dos Bourbons. Mas tais fatores<br />

vinham carregados, na Revolução<br />

Russa, de um radicalismo ainda maior.<br />

E assim, ao contrário de <strong>se</strong>us antecessores<br />

france<strong>se</strong>s de .1789, não <strong>se</strong><br />

limitou o comunismo vitorioso à instauração<br />

da liberdade, da igualdade e<br />

da fraternidade (como ele as entende)<br />

no campo político, e apenas a meias no<br />

campo social, mas <strong>se</strong> atirou por inteiro<br />

no campo sócio-econômico, extinguindo<br />

virtualmente a família, abolindo a propriedade,<br />

e implantando a ditadura do<br />

proletariado.<br />

Vistos os fatos <strong>se</strong>gundo este prisma,<br />

verdadeiro em alguns aspectos e<br />

falso em outros ( 1 ), pareceria tão inevitável<br />

a vitória do comunismo no<br />

mundo de hoje, quanto teria sido o da<br />

Revolução Francesa nos séculos<br />

XVIII e XIX. E nada <strong>se</strong> afiguraria<br />

mais normal do que ver a Rússia<br />

soviética de<strong>se</strong>mpenhando, em favor<br />

da revolução igualitária do século XX,<br />

(1) Cfr. PuN10 CoRRl:A DE ÜLJ VEIR A, Revolução<br />

e Contra-Revolução, "Catolicismo", n. 0<br />

100, Parte 1, Cap. III, 5.<br />

Com o intuito de dar à pre<strong>se</strong>nte vista pa norâmica<br />

toda a concisão possível, o autor <strong>se</strong><br />

dispensou de menciona r as provas de muitas<br />

<strong>das</strong> a firmações aqui feitas, remetendo o leitor<br />

para obras em que tais provas sã o apre<strong>se</strong>nta<strong>das</strong>.<br />

Razão pela qual cita várias vezes livros<br />

que já publicou.<br />

18


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TF P as descreve como são<br />

papel análogo ao que de<strong>se</strong>mpenhara a<br />

França em prol do igualitarismo político<br />

no século XIX.<br />

Sempre nesta perspectiva, a América<br />

do Sul estaria mais "atrasada"<br />

nesta incontenível "evolução" rumo<br />

ao comunismo. Mas este <strong>se</strong> propagaria<br />

gradualmente a nosso Continente,<br />

como no restante do mundo.<br />

Prova deste deslize rumo ao comunismo<br />

- mais marcado na Europa do<br />

que na América - <strong>se</strong>riam as leis cada<br />

vez mais socialistas da generalidade<br />

dos paí<strong>se</strong>s do Velho Mundo. Prova<br />

mais recente de to<strong>das</strong>, palpitante de·<br />

atualidade, pelo menos até há <strong>pouco</strong>,<br />

<strong>se</strong>ria a vitória da coligação socialocomunista<br />

nas eleições francesas de<br />

maio-junho de 1981 (2).<br />

De pos<strong>se</strong> do poder na França, Mitterrand<br />

<strong>se</strong> pôs a expandir desde logo o<br />

socialismo autogestionário no mundo<br />

inteiro (3).<br />

Para o PS francês, a extinção do<br />

patronato e o estabelecimento da auto<br />

gestão é apenas um complemento -<br />

Miuerrand ante a<br />

História e a atualidade<br />

(2) A cri<strong>se</strong> polonesa de fins de 1981 e, em<br />

<strong>1982</strong>, a Guerra <strong>das</strong> Malvinas, as controvérsias<br />

sobre o gasoduto europeu, bem como o avivamento<br />

da guerra no Líbano, e mais recentemente<br />

a guerra entre o Irã e o Iraque, concorreram<br />

fortemente para desviar a atenção<br />

mundial do êxito eleitoral do Partido Socialista<br />

francês.<br />

Ao mesmo tempo, o insucesso acentuado<br />

dos socialistas e comunistas nas eleições cantonais<br />

francesas de março de <strong>1982</strong> e a concomitante<br />

onda de descontentamentos contra as<br />

reformas autogestionárias impostas à França,<br />

são outros tantos fatores que concorreram<br />

para empurrar para plano <strong>se</strong>cundário o noticiário<br />

que os grandes meios de comunicação<br />

social de todo o Ocidente vinham publicando<br />

sobre a situação francesa. O que minguou<br />

naturalmente a força de impacto internacional<br />

da propaganda do socialismo autogestionário<br />

propugnado pelo PS francês.<br />

A essas circunstâncias <strong>se</strong> acresceu outra.<br />

Até então, em escala internacional, o socialismo<br />

autogestionário ainda não fôra questionado<br />

em <strong>se</strong>us últimos fundamentos filosóficos.<br />

É inegável que a Mensagem <strong>das</strong> treze TFPs<br />

intitulada O socialismo autogestionário: em<br />

vista do comunismo, barreira ou cabeça-deponte?<br />

(cfr. "Catolicismo", n. 0 373-374, janeiro-fevereiro<br />

de <strong>1982</strong>) e publicada a partir do<br />

dia 9 de dezembro de 1981 em 56 dentre os<br />

mais importantes jornais de 18 paí<strong>se</strong>s, abriu<br />

uma brecha no silêncio geral a tal respeito.<br />

Pondo em evidência a incompatibilidade do<br />

programa do PS francês com a doutrina tradicional<br />

do Supremo Magistério Eclesiástico,<br />

e questionando assim gravemente o sistema<br />

autogestionário, a Mensagem <strong>das</strong> treze<br />

TFPs concorreu para dissipar a "lua-de-mel"<br />

com a opinião pública, na qual <strong>se</strong> expandia<br />

tão favoravelmente o prestígio da autogestão.<br />

Nada disso impediu, entretanto, que o governo<br />

Mitterrand aproveitas<strong>se</strong> tal fa<strong>se</strong> de relativo<br />

recesso publicitário para ir impondo, <strong>se</strong>m<br />

excessivo ruído, novas reformas em <strong>se</strong>u país. E<br />

sobre o crescente movimento de oposições a<br />

essas reformas, os meios de comunicação social<br />

no mundo inteiro passaram a fazer inopinadamente<br />

silêncio qua<strong>se</strong> completo ...<br />

20


Parte l<br />

Introdução<br />

no âmbito interno <strong>das</strong> empresas ·- da<br />

extinção <strong>das</strong> monarquias no âmbito<br />

mais amplo do Estado (4).<br />

O chefe de Estado francês, <strong>se</strong>m<br />

embargo de múltiplos fatores contrários,<br />

<strong>se</strong> propõe a completar assim, nos<br />

paí<strong>se</strong>s que ainda não são comunistas,<br />

e já agora novamente a partir de Paris,<br />

a tarefa revolucionária mundial do socialismo<br />

autogestionário francês que Moscou<br />

não con<strong>se</strong>guiu até agora realizar (5).<br />

Em tudo isto, os lados de alma<br />

desalentados e pessimistas de tantos<br />

, (3) Cfr. PuN10 CoRRf:A DE OuvEIRA, O Socialismo<br />

autogestionário: em vista do comunismo,<br />

barreira ou cabeça-de-ponte?, Mensagem<br />

<strong>das</strong> Sociedades de Defesa da Tradição, Família<br />

e Propriedade - TFPs - do Brasil, Argentina,<br />

Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia,<br />

Equador, Espanha, Estados Unidos, França,<br />

Portugal, Uruguai e Venezuela, "Catolicismo",<br />

n. 0 373-374, janeiro-fevereiro de <strong>1982</strong>, Cap. IV,<br />

pp. 39-40.<br />

(4) Diz um repre<strong>se</strong>ntante qualificado do<br />

PS francês: "Em nossas sociedades ocidentais,<br />

a democracia é mais ou menos tolerada por<br />

toda parte. Menos na empresa. O patrão, <strong>se</strong>ja<br />

ele um industrial independente ou um alto<br />

funcionário do Estado, con<strong>se</strong>rva em mãos os<br />

poderes es<strong>se</strong>nciais. Em detrimento de todos.<br />

.... A empresa é uma monarquia de estrutura<br />

piramidal. Em cada nível, o repre<strong>se</strong>ntante da<br />

hierarquia é todo-poderoso: suas decisões são<br />

inapeláveis. O trabalhador de ba<strong>se</strong> torna-<strong>se</strong> um<br />

homem <strong>se</strong>m poderes, que não tem direito nem<br />

à iniciativa nem à palavra" (PIERRE MAUROY,<br />

Héritiers de l'Avenir, Stock, Paris, 1977, p. 276<br />

• O Sr. François Mitterrand, Presidente da<br />

França, surgiu, em maio de 1981, em con<strong>se</strong>qüência<br />

do êxito eleitoral do PS que o guindou<br />

ao Poder, como a grande vedette do socialismo<br />

no mundo inteiro. E1111e vedetismo internacional<br />

desapareceu, e ele hoje nlo tem <strong>se</strong>nlo <strong>muito</strong><br />

pequenas po1111ibilidades para e irrediaçlo do<br />

socialismo autogestionério fora da França. E<br />

dentro de França, a "lua-de-mel" com e opinilo<br />

pública, na qual <strong>se</strong> expandia tio favoravelmente<br />

e eutogestlo, também <strong>se</strong> di1111ipou. Pare um e<br />

outro feto, concorreu poderosamente a Mensagem<br />

<strong>das</strong> treze TFPs. Mitterrand tem, pois,<br />

<strong>muito</strong> com que estar perplexo, como mostra<br />

a foto.<br />

- apud PUNIO CORRf:A DE ÜLI VEIRA, op. cit.,<br />

Nota 15, p. 15).<br />

(5) O comunismo tem também como meta<br />

a autogestão. Lê-<strong>se</strong> no preâmbulo da Constituição<br />

russa que "o objetivo supremo do Estado<br />

soviético é edificar a sociedade comunista<br />

<strong>se</strong>m clas<strong>se</strong>s, na qual <strong>se</strong> de<strong>se</strong>nvolverá a autogestão<br />

social comunista" ( Constitución - Ley<br />

Fundamental - de la Un ión de Repúblicas<br />

Socialistas Soviéticas, de 7 de outubro de 1977,<br />

Editorial Progreso, Moscou, 1980, p. 5 -<br />

apud PuN10 CoRRf:A DE OuvEIRA, op. cit., Nota<br />

36, pp. 32-33).<br />

21


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhe


Parre I<br />

Introdução<br />

Otimismo e desalento<br />

<strong>se</strong> conciliam<br />

a <strong>se</strong>rviço da inércia<br />

clusivamente pela "esquerda católica"<br />

são noticia<strong>das</strong> como temíveis investi<strong>das</strong><br />

de uma maré montante de indignação<br />

popular liderada por clérigos a<br />

quem as instâncias eclesiásticas superiores<br />

não podem ou não querem refrear.<br />

,<br />

Mas, de outro lado, esta agitação<br />

esquerdista tão noticiada, <strong>pouco</strong>s a<br />

notam no âmbito concreto de sua vida<br />

diária. Deste ângulo, ela parece mais<br />

um fantasma do que uma realidade.<br />

Tanto mais quanto as manifestações<br />

de rua a que esta agitação tem dado<br />

lugar apre<strong>se</strong>ntam <strong>se</strong>mpre diminuto<br />

número de participantes. Sintoma <strong>muito</strong><br />

significativo, que a maior parte dos<br />

noticiários de imprensa mal con<strong>se</strong>gue<br />

disfarçar.<br />

<strong>As</strong>sim, a zoeira publicitária dá do<br />

perigo comunista uma imagem que<br />

parece confirmar, por alguns lados, o<br />

fundo de quadro histórico correntemente<br />

aceito, e a tendência <strong>das</strong> elites<br />

ao desânimo. E, de outro lado, as<br />

ilusões otimistas dessas mesmas elites<br />

parecem confirma<strong>das</strong> pela experiência<br />

pessoal dos que as constituem.<br />

Curiosamente, es<strong>se</strong>s dois estados<br />

de ânimo - um otimista e <strong>se</strong>guro de<br />

que a catástrofe não virá, e o outro,<br />

desalentado e pessimista - coexistem<br />

<strong>se</strong>m choques no espírito da <strong>muito</strong><br />

grande maioria <strong>das</strong> eventuais, ou futuras,<br />

vítimas do socialismo e do comunismo.<br />

É que um e outro estado de<br />

animo convergem para justificar a a­<br />

centuada disposição dessas vítimas<br />

para a inércia. Conforme o noticiário<br />

dos jornais do dia, ou as circunstâncias<br />

concretas, às vezes bastante miú<strong>das</strong>,<br />

que marcam cada hora que passa,<br />

a mesma "vítima" eventual, ora justifica<br />

sua inação ante o perigo comunista,<br />

pensando, e dizendo, que é supérfluo<br />

reagir contra ele, de tão remoto<br />

que é, por enquanto; ora alega,<br />

pelo contrário, que a reação anti-socialista<br />

e anticomunista "não adianta",<br />

"não dá" para <strong>se</strong>r feita, porque o<br />

comunismo vem mesmo.<br />

Em um e outro caso, o que preocupa<br />

o burguês é justificar a <strong>se</strong>us olhos, e<br />

dos outros, a inércia na qual <strong>se</strong> apraz.<br />

A deleitável inércia de quem quer<br />

viver, mais do que tudo, para fruir a<br />

<strong>se</strong>gurança e a fartura de sua situação,<br />

ou satisfazer as apetências e as ambições<br />

infrenes, tão características da<br />

assim chamada sociedade de consumo.<br />

* * *<br />

A descrição desta situação psicológica,<br />

freqüente em nossas elites, sugere-a<br />

antes de tudo a ob<strong>se</strong>rvação<br />

corrente da realidade.<br />

Ademais, a TFP pôde confirmá-la<br />

recentemente com exemplos numerosos<br />

e concretos, colhidos em mais ou<br />

menos todo o território nacional, ao<br />

longo da campanha de suas caravanas<br />

Preciosa experiência<br />

da TFP confirma<br />

este quadro<br />

23


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Depois de percorrer o Brasil inteiro alertando os<br />

meios rurais contra os perigos da investida<br />

agro-reformista, os propagandistas da TF P fizeram<br />

uma grande divulgaçl o do livro Sou cat6-<br />

lico: posso sar contra a RBforma Agrária? em<br />

pleno centro de Sl o Paulo, no Viaduto do Chá.<br />

Em closB, na foto, um cooperador da TFP<br />

oferece o livro a duas <strong>se</strong>nhoras.<br />

em prol da venda do livro Sou católico:<br />

posso <strong>se</strong>r contra a Reforma A­<br />

grária? (6).<br />

Foi objetivo des<strong>se</strong> livro - aliás<br />

largamente alcançado - alertar quan-<br />

(6) PuN10 CoRRtA DE OLIVEIRA E CARLOS P A­<br />

rn1c10 DEL CAMPO, Editora Vera Cruz, São<br />

Paulo, 3.• ed., 1981, 360 pp.<br />

(7) Cfr. texto publicado pelas Edições Paulinas,<br />

Coleção Documentos ·da CNBB, n. 0 17,<br />

1980, 38 pp., transcrito na íntegra em Sou<br />

católico: posso <strong>se</strong>r contra a Ref arma Agrária?<br />

1<br />

to possível a clas<strong>se</strong> dos proprietários<br />

agrícolas contra o perigo de uma reforma<br />

agrária socialista e confiscatória,<br />

em favor da qual <strong>se</strong> fazia grande<br />

zoeira no país em con<strong>se</strong>qüência da<br />

publicação do documento Igreja e problemas<br />

da terra, aprovado pela 18.ª<br />

<strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia Geral da CNBB, reunida ·<br />

em ltaici de 5 a 14 de fevereirÓ de<br />

1980 (7).<br />

Para . con<strong>se</strong>guir tal resultado, os<br />

dedicados propagandistas da TFP tiveram<br />

que <strong>se</strong> empenhar <strong>muito</strong> a fundo<br />

na campanha. Pois, freqüentemente, o<br />

estado de espírito que encontravam<br />

nos proprietários rurais correspondia<br />

ao aqui descrito. E só uma obra especialmente<br />

consagrada ao tema poderia<br />

informá-los adequadamente acerca dos<br />

perigos face aos <strong>quais</strong> <strong>se</strong> encontram,<br />

neles mobilizando assim, contra a investida<br />

agro-reformista, o espírito de<br />

24


Parte /<br />

/ I'\<br />

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··- ' "J .·{, ,,, ..,___<br />

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~=7c,;;;:;;;:,=.=:-;-:::=-~~=~~ --~--......-<br />

~ ~ ~ ;g-~ ~<br />

!111rod11çào<br />

A tomada da Bastilha no dia 14 de julho de 1789 é o grande·evento simbólico que assinala o inicio<br />

da Revolução Francesa. Nes<strong>se</strong> dia. Lula XVI registra em <strong>se</strong>u diério: "rien" (nada). Para o monarca<br />

francês. que acabou executado na guilhotina. nada aconteceu digno de nota nes<strong>se</strong> dia. É ele o<br />

slmbolo trágico <strong>das</strong> elites imprevidentes e dormentes, que não <strong>sabe</strong>m pugnar dentro da lei por<br />

<strong>se</strong>us direitos legltimos.<br />

Inércia <strong>das</strong> elites<br />

Jaz a/orça dos que<br />

a agridem<br />

iniciativa e de luta que as atividades<br />

rurais naturalmente formam no verdadeiro<br />

lavrador (8).<br />

* * *<br />

Na inércia da vítima está a força<br />

do agressor. O quadro aqui traçado<br />

faz ver que, dada a tão larga despreparação<br />

<strong>das</strong> elites responsáveis do Bra-<br />

(8) Tal tendência à inércia <strong>se</strong> mostrou <strong>muito</strong><br />

menos freqüente no Rio Grande do Sul e em<br />

Goiás.<br />

Manda a justiça acrescentar que a ampla<br />

difusão des<strong>se</strong> estado de espírito <strong>se</strong> explica, em<br />

boa parte, pelo fato de que contra ele, além da<br />

TFP, poucas vozes <strong>se</strong> têm feito ouvir.<br />

sil para enfrentar o socialismo e o<br />

comunismo, este, ainda que dispu<strong>se</strong>s<strong>se</strong><br />

de um poder pequeno, teria apreciáveis<br />

possibilidades de vencer. Pois a<br />

História ensina que o curso dos fatos<br />

des<strong>se</strong>rve <strong>se</strong>mpre aos que dormem. E<br />

por mais legítimos que <strong>se</strong>jam os direitos<br />

que tocam às elites, estes em nada<br />

as protegerão <strong>se</strong> elas <strong>se</strong> mantiverem<br />

inertes: "Dormientibus non succ~rit<br />

jus: o Direito não socorre aos que<br />

dormem".<br />

Acresce que a força de impacto da<br />

revolução social está longe de <strong>se</strong>r pequena.<br />

Ela consiste <strong>muito</strong> preponderantemente,<br />

no Brasil, como <strong>se</strong> mostrará<br />

a <strong>se</strong>guir, nas Comunidades Eclesiais<br />

de Ba<strong>se</strong> (<strong>CEBs</strong>).<br />

25


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> muiro <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Em contara com a<br />

realidade, a TFP<br />

analisa o Brasil<br />

Os aurores da Parre<br />

li do pre<strong>se</strong>nre<br />

volume<br />

A estas, qua<strong>se</strong> todos os meios de<br />

comunicação social costumam apre<strong>se</strong>ntar<br />

como um monstro de poder,<br />

próprio a desalentar os pessimistas ... e<br />

até os otimistas. A realidade dos fatos<br />

parece indicar, pelo contrário, que as<br />

Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> não<br />

têm dentro do panorama nacional,<br />

<strong>se</strong>não as meras proporções de um<br />

perigo em crescimento, porém francamente<br />

contornável. O que <strong>se</strong>gura, por<br />

<strong>se</strong>u turno, no otimismo, os inertes.<br />

Mais um fator da contradição, a<br />

qual só pode inclinar nossas elites<br />

para a confusão, a dispersão ... a<br />

inércia!<br />

* * *<br />

Os resultados a que chegou o estudo<br />

sobre as <strong>CEBs</strong>, que a TFP agora<br />

oferece ao público, é bem diverso. Eles<br />

constituem um virtual convite à ação.<br />

Aqui denuncia<strong>das</strong>, rejeita<strong>das</strong>, combati<strong>das</strong>,<br />

essas organizações não terão<br />

meios de vencer.<br />

Mas há que lutar. Pois, como <strong>se</strong><br />

verá, elas já são bastante fortes para<br />

alcançar a vitória, caso nossas elites,<br />

desinforma<strong>das</strong>, continuem a deixar-<strong>se</strong><br />

embalar na confusa alternação entre<br />

otimismo e pessimismo.<br />

De tal trabalho de informação e<br />

esclarecimento, que des<strong>se</strong> ponto de<br />

vista <strong>se</strong> poderia qualificar como de<br />

salvação nacional, aceitaram de <strong>se</strong> in-<br />

cumbir dois soc10s da TFP já com<br />

larga folha de <strong>se</strong>rviços prestados à<br />

entidade, à qual consagraram por inteiro<br />

suas robustas inteligências, <strong>se</strong>u<br />

hábito do estudo e da reflexão, sua<br />

cultura e sua generosa dedicação.<br />

Não os prende à ordem sócio-econômica<br />

vigente qualquer interes<strong>se</strong> econômico.<br />

Não figuram na categoria dos<br />

proprietários, e <strong>se</strong>u valioso trabalho<br />

intelectual foi <strong>se</strong>mpre prestado à TFP<br />

com a singela contrapartida de que<br />

esta lhes as<strong>se</strong>gura simplesmente meios<br />

de subsistência suficientes.<br />

Para efetuar es<strong>se</strong> estudo, encontravam-<strong>se</strong><br />

os dois autores em condições<br />

especialmente favoráveis. De um<br />

lado, suas leituras de há <strong>muito</strong> . os<br />

vinham pondo ao corrente do pensamento<br />

do progressismo e do "esquerdismo<br />

católico", que constituem o próprio<br />

substrato doutrinário <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>,<br />

definem as metas e inspiram, em considerável<br />

medida, os métodos destas.<br />

De outro lado, sua longa militância<br />

nas fileiras da TFP lhes havia acrescido<br />

aos conhecimentos colhidos em<br />

livro aquilo que livro nenhum poderia<br />

dar. Ou <strong>se</strong>ja, o conhecimento experimental<br />

do progressismo teológico e<br />

do "esquerdismo católico" em ação,<br />

cujas tendências e cujas táticas só a<br />

longa e acurada luta contra eles tão<br />

bem desvenda.<br />

Compulsando uma massa de documentos<br />

que não haveria exagero em<br />

26


Parte I<br />

Introdução<br />

Imponente massa<br />

d e documentos<br />

permite traçar um<br />

quadro geral <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong><br />

Objetivo da TFP<br />

ao difundir o pre<strong>se</strong>nte<br />

livro<br />

chamar de monumental, ordenandoos,<br />

analisando-os com penetrante a­<br />

cuidade, e articulando os vários aspectos<br />

fugidios que deles <strong>se</strong> desprendem,<br />

em uma larga e lúcida sínte<strong>se</strong>, puderam<br />

os dois autores traçar um quadro<br />

geral <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong>, como elas existem e <strong>se</strong> expandem<br />

no Brasil, em <strong>1982</strong>, e que constitui<br />

a Parte II do pre<strong>se</strong>nte volume.<br />

Impresso o livro pelos bons préstimos<br />

da Editora Vera Cruz, a TFP <strong>se</strong><br />

dispõe agora a divulgá-lo pelo Brasil.<br />

* * *<br />

O objetivo de tal divulgação já foi<br />

enunciado. Consiste ele em alertar para<br />

o perigo do comunismo as clas<strong>se</strong>s<br />

que este visa derrubar. Para que,<br />

assim alerta<strong>das</strong>, afinal <strong>se</strong> articulem em<br />

torno de <strong>se</strong>us chefes naturais, com o<br />

objetivo de cortar o passo ao adversário<br />

que a inércia delas vem tornando<br />

perigoso. Só com isto, já elas reduzirão<br />

o perigo a suas verdadeiras . proporções.<br />

E terão assim condições para,<br />

com árduo empenho, o fazer refluir<br />

para as dimensões mínimas, abaixo<br />

<strong>das</strong> <strong>quais</strong> não poderá decair porque<br />

lhe são propícias numerosas circunstâncias<br />

do mundo contemporâneo.<br />

O Brasil poderá assim continuar<br />

sua trajetória histórica <strong>se</strong>m conhecer as<br />

discórdias, as agitações, os morticínios<br />

em que a guerra de clas<strong>se</strong>s tem<br />

submergido tantas nações ilustres, nem<br />

as longas déca<strong>das</strong> de sujeição a taci-<br />

Para traçar um quadro geral <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, os autores da Parte li deste livro<br />

tiveram que analisar imponente massa de documentos, compreendendo, além de um número<br />

incontável de notícias de jornal e revistas. a abundantíssima literatura publicada pelo movimento.<br />

- Na foto. parte <strong>das</strong> publicações sobre as <strong>CEBs</strong> e a Teologia da Libertaçlo compulsa<strong>das</strong>.<br />

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<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> ja/a, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

O profeta Ezequiel, do Aleijadinho, no adro da<br />

igreja de Congonhas de Campo (Minas Gerais).<br />

- Essa magnifica obra da arte barroca brasileira,<br />

manifestaçl o eloqüente da fecundidade<br />

de engenho de nosso povo, é uma promessa do<br />

que o Brasil pode realizar no futuro, <strong>se</strong> for fiel<br />

às ralzes cristls de sua História e à luminosa<br />

misslo mundial que o aguarda no século XXI.<br />

turnas e estéreis ditaduras do "proletariado",<br />

que vêm submergindo crescente<br />

número de povos na degradação,<br />

na tristeza, na miséria.<br />

E, pelo contrário, afastado o perigo,<br />

nosso País, com as energias vivifica<strong>das</strong><br />

pela luta, <strong>se</strong> irá habilitando<br />

para a luminosa missão mundial que o<br />

aguarda no século XXI. Elevado ideal<br />

em que <strong>se</strong> irmanam o zelo pela Igreja e<br />

pela Cristandade, com o ardente anelo<br />

de uma cristã grandeza do Brasil.<br />

* * *<br />

O que acaba de <strong>se</strong>r dito poderia<br />

dar azo a uma objeção. A TFP estaria<br />

então promovendo, a <strong>se</strong>u modo, a<br />

luta dos que têm bens ou estudos<br />

contra os que não estudaram ou não<br />

têm bens, isto é, uma luta de clas<strong>se</strong>s?<br />

Nes<strong>se</strong> caso, a obra da TFP não <strong>se</strong>ria o<br />

contrário da que querem levar a cabo<br />

as <strong>CEBs</strong>. Pois estas ateiam a luta de<br />

clas<strong>se</strong>s dos que não têm ou não <strong>sabe</strong>m,<br />

contra os que <strong>sabe</strong>m e têm.<br />

Levando ambas as clas<strong>se</strong>s à luta entre<br />

si , TFP e <strong>CEBs</strong> <strong>se</strong>riam igualmente<br />

fa utoras des<strong>se</strong> confronto.<br />

A objeção pode impressionar espíritos<br />

superficiais. Porém ela não resiste<br />

a uma análi<strong>se</strong> objetiva dos fatos.<br />

Alertando e estimulando à reação<br />

as eventuais vítimas da agressão comunista,<br />

a TFP nem de longe tem em<br />

vista movê-las à contestação e à trans-<br />

\<br />

Tais objetivos são<br />

o contrário da luta<br />

de clas<strong>se</strong>s<br />

A TFP de<strong>se</strong>ja u­<br />

ma ordem social<br />

m odelada pela<br />

j ustiça e pela caridade<br />

28


Parte I<br />

lntrodw;iia<br />

gressão dos direitos reais dos trabalhadores,<br />

e <strong>muito</strong> menos à extinção -<br />

absurda - dessa clas<strong>se</strong>. Escrupulosamente<br />

fiel à doutrina tradicional dos<br />

Papas em matéria sócio-econômica, a<br />

entidade de<strong>se</strong>ja, pelo contrário, que<br />

cada vez mais <strong>se</strong>jam respeitados estes<br />

direitos, em uma ordem social modelada<br />

pela justiça e pela caridade, e por<br />

isto mesmo constituída de clas<strong>se</strong>s sociais<br />

distintas, hierárquicas e harmônicas<br />

(9).<br />

A reação que a TFP de<strong>se</strong>ja promover<br />

não ruma, portanto, para uma<br />

confrontação sangrenta, mas, pelo<br />

contrário, visa obviamente evitá-la.<br />

A TFP tem a inteira consciência de<br />

não estar contra a clas<strong>se</strong> dos trabalhadores<br />

manuais quando ela alerta os<br />

outros <strong>se</strong>gmentos da sociedade, mas<br />

sim contra os manejas da <strong>se</strong>ita progressista-esquerdista<br />

de há <strong>muito</strong> encastoada<br />

no <strong>se</strong>io da Igreja ( 1 O), a qual<br />

só con<strong>se</strong>guiu até o momento levar<br />

A <strong>se</strong>ita progressista-esquerdista encastoada no<br />

<strong>se</strong>io da Igreja lança os prosélitos que acaba de<br />

arregimentar, em agitações de rua que <strong>se</strong>rvem à<br />

luta de clas<strong>se</strong>s e à revolução social.<br />

consigo <strong>se</strong>tores ainda definidamente<br />

minoritários, de trabalhadores manuais.<br />

Esta <strong>se</strong>ita visa a própria extinção<br />

<strong>das</strong> clas<strong>se</strong>s sociais contra as <strong>quais</strong><br />

conspira. Se ela recruta simpatizantes<br />

em tais clas<strong>se</strong>s não é <strong>se</strong>não para que<br />

A <strong>se</strong>ita progressista-esquerdista<br />

visa<br />

a extinção <strong>das</strong><br />

clas<strong>se</strong>s e a ditadura<br />

de um só laivo<br />

de opinião: os revoltados<br />

(9) Ver em Sou católico: posso <strong>se</strong>r contra a<br />

Reforma Agrária?, p. 82, significativos textos<br />

pontifícios contendo a doutrina tradicional<br />

dos Papas sobre a hierarquia social, em oposição<br />

à doutrina marxista da luta de clas<strong>se</strong>s.<br />

( 1 O) O primeiro brado de alerta contra a<br />

<strong>se</strong>ita progressista-esquerdista foi dado no Brasil.<br />

pelo livro Em defesa da Ação Católica<br />

(PuNIO CoRRtA DE OuvEIRA, Editora Ave Maria,<br />

·são Paulo, 1943, 384 pp.), que foi objeto<br />

de uma expressiva carta de louvor escrita em<br />

nome do Papa Pio XII pelo Substituto da<br />

Secretaria de Estado da Santa Sé, Mons. J. B.<br />

Montini, mais tarde Paulo VI.<br />

Sobre o assunto, ver também a magnífica<br />

Carta Pastoral sobre problemas do Apostolado<br />

Moderno - Com endo um Catecismo de<br />

verdades oportunas que <strong>se</strong> opõem a erros contemporâneos,<br />

de D. Antonio de Castro Mayer,<br />

antigo Bispo de Campos (Editora Boa Imprensa,<br />

Campos, 1953, 144 pp.).<br />

29


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>. <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

TFP<br />

CAMPANHA OE OOH,\TIVOS<br />

PAllA OS POBRES<br />

Além de sua obra de esclarecimento doutrinário, a TFP promove o congraçamento <strong>das</strong> clas<strong>se</strong>s<br />

sociais, coletando donativos nos bairros abastados e distribuindo-os nas favelas e bairros pobres.<br />

trabalhem dentro destas, a fim de mais<br />

rápida e mais inteiramente destruí-las.<br />

É em geral este o triste trabalho dos<br />

."inocentes úteis", dos "companheiros<br />

de viagem" e dos cripto-socialistas ou<br />

criptocomunistas, bem como dos "sapos"<br />

(11).<br />

E, sobretudo, a <strong>se</strong>ita progressistaesquerdista<br />

não visa estabelecer uma<br />

cooperação justa e harmônica entre os<br />

amigos da ordem em to<strong>das</strong> as clas<strong>se</strong>s<br />

sociais, como é ensinada pelos documentos<br />

tradicionais do Supremo Ma-<br />

gistério da Igreja. Pelo contrário, ela<br />

tem por meta a ditadura de um só<br />

laivo de opinião, os revoltados que<br />

existem de alto a baixo da estrutura<br />

social, entre os <strong>quais</strong> ela simula propagandisticamente<br />

só ver os "pobres".<br />

( 11) <strong>As</strong>sim chamados, na linguagem da<br />

TFP, os burgue<strong>se</strong>s endinheirados que blasonam<br />

de adotar uma posição anti-anticomunista,<br />

porém não comunista, mas que no fundo<br />

fazem - talvez <strong>muito</strong>s deles inadvertidamente<br />

- o jogo do comunismo.<br />

30


Parte I<br />

Introdução<br />

A tristemente famosa<br />

"conscientização"<br />

Como método, de início a <strong>se</strong>ita<br />

. ,procura a persuasão dos recrutas, pelo<br />

sofisma e pela chicana, a fim de constituir<br />

o primeiro núcleo de adeptos.<br />

Isto feito , ela inicia a ação, tendo<br />

como próximo passo a promoção de<br />

descontentamento (a tristemente famosa<br />

"conscientização"). Segue-<strong>se</strong> a<br />

ação do núcleo inicial, destinada a<br />

promover a agitação, os tumultos, e<br />

por fim o caos e a revolução social.<br />

Tudo bem ao contrário da ação eminentemente<br />

suasória e ordeira visada<br />

pela TFP, de modo ininterrupto, ao<br />

longo <strong>das</strong> déca<strong>das</strong> de sua existência<br />

(12) .<br />

Em con<strong>se</strong>qüência, não há verda-/<br />

deiro paralelismo entre a ação comuna-progressista<br />

e esquerdista de um<br />

lado, e a da TFP de outro lado. Mas,<br />

pelo contrário, uma des<strong>se</strong>melhança absoluta,<br />

de espírito e de doutrinas, como<br />

de metas e de métodos.<br />

Ê nesta perspectiva que convém<br />

ver o pre<strong>se</strong>nte livro, que <strong>se</strong> alinha no<br />

que a História da reação anticomunista<br />

de nossos dias chamará a "Coleção<br />

TFP" (13).<br />

Des<strong>se</strong> melhança<br />

absoluta entre a<br />

ação da TFP e a<br />

da <strong>se</strong>ita comunaprogressista<br />

( 12) Meio século de epopéia anr icomunista,<br />

Editora Vera Cruz, São Paulo, 4.ª<br />

ed., 1981, 472 pp.<br />

( 13) O grupo de amigos de que resultou em<br />

1960 a fundação da TFP, publicara anteriormente<br />

a essa data duas obras que são o ponto<br />

de partida histórico dessa coleção. A primeira<br />

já foi mencionada: Em defesa da Ação Católica,<br />

foi o grande divisor de águas entre os<br />

militantes católicos que deram origem à TFP,<br />

e os que começaram a propaganda do progressismo<br />

teológico e do esquerdismo sócio-econômico<br />

nos meios religiosos brasileiros. Seguiu<strong>se</strong>-lhe<br />

outro livro, Revolução e Contra-Revolução<br />

(PuN10 CoRRl:A DE OuvE1RA, Boa Imprensa,<br />

1959), o qual <strong>se</strong> constituiu definitivamente<br />

no fio condutor do pensamento de to<strong>das</strong><br />

as outras obras edita<strong>das</strong> pela entidade.<br />

Fundada em I 960 a TFP, foram publica<strong>das</strong><br />

diversas obras, que o leitor encontrará<br />

relaciona<strong>das</strong> no pre<strong>se</strong>nte volume.<br />

É ademais de <strong>se</strong> registrar aqui, com o apreço<br />

devido, a importante série de documentos pastorais<br />

de D. Antonio de Castro Mayer, até há<br />

<strong>pouco</strong> Bispo de Campos, difundidos igualmente<br />

pela TFP, e todos eles relacionados,<br />

imediata ou mediatamente, com a grande controvérsia<br />

(ver elenco de obras neste volume).<br />

Também D. Geraldo de Proença Sigaud,<br />

S.V.D ., antigo Arcebispo de Diamantina, publicou<br />

a Carta Pastoral sobre a <strong>se</strong>ita comunista,<br />

<strong>se</strong>us erros, sua ação revolucionária e os<br />

deveres dos católicos na hora pre<strong>se</strong>nte ("Catolicismo",<br />

n. 0 135, março de 1962; Editora Vera<br />

Cruz, São Paulo, 1963, 176 pp., 2 edições -<br />

Total: 26 mii exemplares), e o Catecismo Anticomunista<br />

("Catolicismo", n. 0 140, agosto de<br />

1962; Editora Vera Cruz, São Paulo, 1962, 48<br />

pp., 5 edições - Total: 122 mil exemplares),<br />

que a TFP difundiu largamente por todo o Brasil.<br />

A divulgação des<strong>se</strong>s importantes documentos<br />

episcopais não foi aliás só da TFP. Também<br />

trabalharam nela as circunscrições eclesiásticas<br />

dos referidos Prelados, como pessoas<br />

<strong>das</strong> relações deles em vários lugares do Brasil.<br />

31


•<br />

Capítulo I<br />

...<br />

~<br />

•<br />


.. -----<br />

. ...--­<br />

Em nossa épo<br />

'. ..<br />

..


A era da Propaganda<br />

e O M O extraordinário incremento<br />

da imprensa, abriu<strong>se</strong><br />

para a Humanidade, no ·século XIX,<br />

a era da Propaganda. Cada vez menos,<br />

os movimentos profundos dos povos<br />

nasceram de impulsos, tendências ou<br />

formais de<strong>se</strong>jos· concebidos nas cama<strong>das</strong><br />

profun<strong>das</strong> <strong>das</strong> psicologias nacionais.<br />

E, cada vez mais, os movimentos<br />

coletivos vêm <strong>se</strong>ndo induzidos, de fora<br />

para dentro, pela Propaganda .. Em outros<br />

termos, mais e mais os povos <strong>se</strong><br />

· foram tornando massas (1).<br />

No momento em que a excelência<br />

dos recursos psicológicos e técnicos<br />

chegava a uma perfeição que certamente<br />

Gutenberg nem <strong>se</strong>quer imaginava,<br />

Marconi deu ao mundo a rádiocomunicação.<br />

E quando esta <strong>se</strong> achava<br />

em franca via ascensional, apareceu,<br />

por sua vez, uma rival que haveria<br />

de reduzir fortemente a influência<br />

da imprensa e do rádio, monopolizando<br />

para si a liderança da propaganda<br />

política, ideológica, ou econômica. É<br />

a televisão. E vai <strong>se</strong> afirmando agora a<br />

Imprensa, rádio,<br />

TV: o que virá depois?<br />

( I) O processo é assim descrito por Pio XII:<br />

"O Estado não contém em si e não reúne<br />

mecanicamente num dado território uma aglomeração<br />

amorfa de indivíduos. Ele é, e na realidade<br />

deve <strong>se</strong>r, a unidade orgânica e organizadora<br />

de um verdadeiro povo.<br />

Povo e multidão amorfa, ou, como <strong>se</strong> costuma<br />

dizer, 'massa', são dois conceitos diversos. O<br />

povo vive e <strong>se</strong> move por vida própria; a massa é<br />

de si inerte, e não pode <strong>se</strong>r movida <strong>se</strong>não por<br />

fora. O povo vive da plenitude da vida dos<br />

homens que o compõem, cada um dos <strong>quais</strong> -<br />

em <strong>se</strong>u próprio posto e a <strong>se</strong>u próprio modo - é<br />

uma pessoa consciente <strong>das</strong> próprias responsabilidades<br />

e <strong>das</strong> próprias convicções. A massa,<br />

ao invés, espera o impulso defora.fáciljoguete<br />

nas mãos de quem quer que desfrute <strong>se</strong>us<br />

instintos ou impressões, pronta a <strong>se</strong>guir, vez por<br />

vez, hoje esta, amanhã aquela bandeira. Da<br />

34


Parte I<br />

Capítulo I<br />

cação <strong>se</strong> verifica igualmente no tocante<br />

à perfeição <strong>das</strong> comunicações. E<br />

também no gradual aprimoramento<br />

da sua já exímia capacidade de informar.<br />

Neste <strong>se</strong>ntido, a imprensa, o<br />

rádio e a televisão, todos em contínuo<br />

progresso, <strong>se</strong> completam de maneira a<br />

pôr à disposição do homem uma a­<br />

bundância de idéias e de imagens espantosa.<br />

Para informar, impressionar<br />

e persuadir o homem, atingiram es<strong>se</strong>s<br />

meios de comunicação um poder<br />

maior, em muitas circunstâncias, do<br />

Para inf armar, impressionar<br />

e persuadir,<br />

um poder<br />

maior do que os<br />

mais salie111es potentados<br />

do passado<br />

era da cibernética. Pode-<strong>se</strong> supor que<br />

esta última encerre o ciclo <strong>das</strong> grandes<br />

invenções a <strong>se</strong>rviço da Propaganda.<br />

Porém, à vista dos progressos da<br />

chamada transpsicologia, ainda nebulosos,<br />

insólitos e desconcertantes, é<br />

possível que novas formas de comunicação<br />

entre os homens conduzam a<br />

meios de propaganda ainda insuspeitáveis,<br />

ainda mais céleres, mais drásticos.<br />

Em uma palavra, mais terríveis ...<br />

A marcha ascensional que <strong>se</strong> nota<br />

na celeridade dos meios de comuniexuberância<br />

de vida de um verdadeiro povo a<br />

vida <strong>se</strong> difunde, abundante, rica, no Estado e<br />

em todos os <strong>se</strong>us órgãos, infundindo-lhes com<br />

vigor incessantemente renovado a consciência<br />

da própria responsabilidade, o verdadeiro <strong>se</strong>nso<br />

do bem comum. Da f orça elementar da<br />

massa, habilmente manejada e utilizada, o<br />

Estado pode também <strong>se</strong>rvir-<strong>se</strong>: nas mãos ambiciosas<br />

de um só ou de vários que as tendências<br />

egoísticas tenham agrupado artificialmente,<br />

o mesmo Estado pode, com apoio da massa,<br />

reduzida a não mais que uma simples máquina,<br />

impor <strong>se</strong>u arbítrio à parte melhor do<br />

verdadeiro povo: em con<strong>se</strong>qüência, o interes<strong>se</strong><br />

comum fica gra vemente e por largo tempo<br />

atingido e a f erida é bem freqüentemente de<br />

cura difícil" (Radiomensagem de Natal de<br />

1944, Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità<br />

Pio X II, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol.<br />

VI , pp. 238-239).<br />

35


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, p ouco <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Poder público e<br />

Propaganda: interação<br />

que o dos mais salientes potentados<br />

do passado. Pois tais meios, sobretudo<br />

<strong>se</strong> conjugados a <strong>se</strong>rviço de uma<br />

mesma idéia, ou de um mesmo interes<strong>se</strong>,<br />

poderp influenciar mais o curso<br />

dos acontecimentos do que um monarca,<br />

um diplomata, um guerreiro,<br />

ou um filósofo.<br />

Tal o poder da Propaganda -<br />

ideológica, política ou simplesmente<br />

comercial - no respectivo campo.<br />

A Propaganda, em caminhada assim<br />

ascensional, produziu uma con<strong>se</strong>qüência<br />

óbvia, para a qual os meios de<br />

comunicação social <strong>pouco</strong> chamam a<br />

atenção, et pour cau<strong>se</strong>.<br />

* * *<br />

Ei-la. Dado que os movimentos<br />

<strong>das</strong> massas marcam hoje em dia os<br />

rumos para as nações, e os meios de<br />

comunicação social marcam os rumos<br />

<strong>das</strong> massas, no mundo contemporâneo<br />

cabe a es<strong>se</strong>s meios uma função<br />

rectrix, a qual, numa curiosa interação,<br />

<strong>se</strong> por um lado pode menos do<br />

que a soberania estatal, por outro lado<br />

pode <strong>muito</strong> mais do que ela. Pois os<br />

potentados da Propaganda exercem<br />

nas mentalidades da ba<strong>se</strong> ou da cúpula<br />

do mundo contemporâneo uma forma<br />

sui generis de poder, a qual tem<br />

algo de um "papado" laico.<br />

R óbvio que a comunicação social<br />

condiciona a fundo o Poder público,<br />

pois que <strong>se</strong> vai tornando cada vez mais<br />

difícil aos políticos galgarem o poder,<br />

exercê-lo e nele <strong>se</strong> manterem <strong>se</strong>m o<br />

apoio da Propaganda. Um ob<strong>se</strong>rvador<br />

acrescentaria que a Propaganda moderna<br />

exerce, além destas, uma forma<br />

de domínio sobre as massas, de natureza<br />

imponderável, incompletamente<br />

estudado, mas profundamente real. É<br />

um certo poder sugestivo e hipnótico,<br />

que va:i <strong>muito</strong> além da ação suasória<br />

da imprensa racionalista dos antigos<br />

tempos.<br />

A inter-relação entre Poder e Propaganda<br />

é óbvia nas democracias, em<br />

que tudo <strong>se</strong> decide por via de votações,<br />

e estas, por sua vez, são condiciona<strong>das</strong><br />

a fundo pela Propaganda.<br />

De outro lado, o Poder público, cada<br />

vez mais "social", e com isto cada vez<br />

mais próximo da onipotência, pode<br />

sujeitar a Propaganda a formas de<br />

pressão múltiplas, às <strong>quais</strong> só heróis e<br />

santos <strong>sabe</strong>m resistir. E estes <strong>se</strong> vão<br />

tornando cada vez mais raros em nosso<br />

mundo massificado (2).<br />

(2) Um exemplo ainda recente: a Mensagem<br />

<strong>das</strong> treze TFPs sobre o socialismo autogestionário<br />

francês, publicada <strong>se</strong>m maior dificuldade<br />

em 56 dentre os principais jornais de<br />

I 8 paí<strong>se</strong>s, não o pôde <strong>se</strong>r na França, ao que<br />

tudo indica, por pressões do governo socialocomunista<br />

- que entretanto procura apre<strong>se</strong>ntar-<strong>se</strong><br />

como bonachão e de "face humana" -<br />

sobre os <strong>se</strong>is maiores diários de Paris não<br />

36


~<br />

~<br />

~<br />

/<br />

/ ,,.<br />

/. ;<br />

,.,.<br />

.,<br />

A .Propaganda moderna exerce sobre 88 massas um certo poder sugestivo e hipnótico que vai<br />

<strong>muito</strong> além da açlo suasória da imprensa racionalista dos antigo11 tempo .<br />

,,,. ~<br />

-;:.


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

A Propag anda<br />

nos regimes totalitários<br />

Capitalis m o e<br />

Propaganda<br />

Mas tais formas de pressão, e outras<br />

ainda, existem também nos regimes<br />

totalitários, nos <strong>quais</strong> o Estado <strong>se</strong><br />

apossa da Propaganda tiranicamente,<br />

e <strong>se</strong> transforma no propagandista de si<br />

mesmo. <strong>As</strong>sim, o póder político de<br />

Hitler foi filho da Propaganda. Mas<br />

ele a confiscou depois em <strong>se</strong>u proveito<br />

próprio. Onipotente para elevá-lo<br />

até às nuvens, a Propaganda teve de<br />

cair de joelhos ante ele, logo que esta<br />

elevação <strong>se</strong> consumou. E ele, desconfiado<br />

ante esta onipotência genuflexa,<br />

resolveu jugulá-la e devorá-la antes<br />

que ela, reerguida de sua episódica<br />

prostração, tomas<strong>se</strong> a iniciativa de<br />

jugular e devorar o monstro que tinha<br />

gerado.<br />

* * *<br />

Claro fica que a Propaganda, <strong>se</strong>mpre<br />

poderosa, raras vezes é autônoma.<br />

Pois, ou está nas mãos da iniciativa<br />

privada, ou do Estado.<br />

No caso concreto do Brasil, detém-na<br />

a iniciativa privada. E graças a<br />

Deus. Pois pior <strong>se</strong>ria que a detives<strong>se</strong> o<br />

Estado.<br />

declaradamente socialistas ou comunistas (cfr.<br />

PuN10 CoRR~A DE OuvEIRA, Na França: o punho<br />

estrangulando a rosa, Comunicado <strong>das</strong><br />

treze Sociedades de Defesa da Tradição, Famíli<br />

a e Propriedade, publicado em 30 jornais de<br />

14 paí<strong>se</strong>s. - Ver "Catolicismo", n. 0 376, abril<br />

de <strong>1982</strong>).<br />

Mas a iniciativa privada, no caso,<br />

existe sob a forma do macrocapitalismo,<br />

pois só a este é dado reunir os<br />

recursos necessários para manter um 1<br />

jornal, uma rádio, ou uma TV, em<br />

proporções de <strong>se</strong>nsibilizar o País inteiro.<br />

E máxime uma cadeia destes sistemas<br />

entrelaçados.<br />

Em con<strong>se</strong>qüência, qua<strong>se</strong> ninguém<br />

<strong>se</strong> pode beneficiar da Propaganda <strong>se</strong>m<br />

o apoio do macrocapitalismo.<br />

Experimentou-o duramente, no período<br />

de 1935 a 1960, o grupo de<br />

amigos do qual haveria de nascer a<br />

TFP. Para ele, todos os jornais estavam<br />

fechados. Se um ou outro con<strong>se</strong>ntia<br />

em publicar alguma notícia por<br />

ele pedida, essa saía qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>mpre com<br />

dimensões e paginação que mais lhe<br />

traziam desprestígio que prestígio. <strong>As</strong><br />

livrarias - dóceis complementos <strong>das</strong><br />

grandes máquinas de propaganda a-<br />

tuais - <strong>se</strong> lhe aceitavam os livros, em<br />

geral <strong>pouco</strong> os expunham, e qua<strong>se</strong> não<br />

os vendiam. Fundada em 1960 a TFP,<br />

só <strong>muito</strong> aos <strong>pouco</strong>s esta situação<br />

sofreu modificação digna de registro,<br />

em alguns raros, e aliás prestigiosos,<br />

órgãos de imprensa.<br />

Dura experiência<br />

da TFP<br />

Mas, ao mesmo tempo, o macrocapitalismo<br />

publicitário, <strong>se</strong>mpre <strong>muito</strong><br />

aberto para to<strong>das</strong> as formas de<br />

propaganda esquerdista, também <strong>se</strong><br />

foi abrindo amplamente para sucessivos<br />

e espetaculares estrondos publicitl<br />

A<br />

38


Pane l<br />

Capitulo I<br />

--<br />

O fenômeno <strong>das</strong> "patrulhas ideológicas" - a denúncia de cuja existência agitou os meios de<br />

comunicação social anos atrás - n o é entretanto um fenômeno novo. Sentiu-lhe as con<strong>se</strong>qüências<br />

jé desde 1936, o grupo de amigos do qual haveria de nascer, em 1960, a TFP. Era como<br />

<strong>se</strong> uma "censura branca" impedis<strong>se</strong> de dar destaque a qualquer noticia sobre ele. Fundada a TFP,<br />

só <strong>muito</strong> aos <strong>pouco</strong>s essa situação sofreu alguma modificação digna de registro.<br />

O contato com a<br />

rua - <strong>As</strong> caravanas<br />

tários contra a TFP. Aos <strong>quais</strong> esta<br />

foi, a liás, resistindo i"mpávida.<br />

Decididamente, o macrocapitalismo<br />

publicitário, grosso modo considerado,<br />

<strong>se</strong> tem mostrado infenso à TFP.<br />

* * *<br />

Então a pergunta inevitavelmente<br />

<strong>se</strong> põe. Quais as possibilidades deste<br />

livro, que já nasce órfão de propaganda?<br />

Essas possibilidades <strong>se</strong>m dúvida<br />

não são tão grandes como de<strong>se</strong>járamos.<br />

Mas, em todo caso, as<strong>se</strong>guram<br />

ao livro uma repercussão <strong>muito</strong> ponderável.<br />

Mostra-o, aliás, a história de<br />

vários deles (3).<br />

(3) Cfr. Meio século de epopéia anticomunista,<br />

Editora Vera Cruz, São Paulo, 4.ª ed.,<br />

1981.<br />

39


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> nwiw <strong>se</strong>.<strong>fala</strong>. <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descre ,·e como são<br />

Versando temas da<br />

mais viva atualidade,<br />

a TFP con<strong>se</strong>gue<br />

interessar<br />

largos <strong>se</strong>tores da<br />

opinião por temas<br />

doutrinários<br />

Os liv ros editados e difundidos<br />

pela TFP têm todos um caráter doutrinário.<br />

Mas os temas sobre que versam<br />

são <strong>se</strong>mpre de viva atualidade.<br />

Pois <strong>se</strong> relacionam com problemas<br />

sucessivamente preponderantes, da<br />

grande cri<strong>se</strong> processiva - a um tempo<br />

religiosa, cultural, social e econômica<br />

- pela qual vão passand o todos os<br />

paí<strong>se</strong>s católicos, nas últimas déca<strong>das</strong>.<br />

E entre eles o mais populoso e mais<br />

extenso, que é o Brasil.<br />

Em virtude dessa atualidade, torna-<strong>se</strong><br />

possível interessar por temas<br />

doutrinários - e de alto porte - os<br />

<strong>se</strong>tores populacionais ha bilitados a deles<br />

tomarem conhecimento, mas que<br />

até aqui a vida contemporânea, terrivelmente<br />

absorvente, manteve afastados<br />

de leituras tais.<br />

<strong>As</strong>sim, a oferta de livros, não ao<br />

público restrito que freq üenta as livrarias,<br />

mas ao grande público que <strong>se</strong><br />

encontra nas praças e vias públicas,<br />

nos locais de trabalho e nas residências,<br />

toma condições de viabil idade.<br />

Foi o que intuiu a TFP quando,<br />

ademais da boa cooperação que lhe<br />

proporcionou em 1960, para o contato<br />

com as livrarias, a empresa distribuidora<br />

Palácio do Livro, enviou caravanas<br />

de sócios e cooperadores a percorrerem<br />

todo o Brasil, oferecendo a obra<br />

Ref arm a Agrária - Questão de Consciência.<br />

Com isto, tornou-<strong>se</strong> o livro,<br />

em <strong>pouco</strong> tempo, um best-<strong>se</strong>ller nacional.<br />

De então para cá, o recurso às<br />

ca rava nas <strong>se</strong> aprimorou na T FP, a<br />

qual fez des<strong>se</strong> método de propaganda,<br />

<strong>As</strong> cara1•anas da<br />

TFP percorrem o<br />

Brasil de pom a a<br />

pomo<br />

Para furar o cerco do macrocapitalismo publicitário e levar a sua voz até os mais recônditos ri ncões<br />

do Pais, a T FP organizou um si stema de caravanas de propagandistas que percorrem constantemente<br />

as imensidões de nosso território, vendendo aa obras da ent idade diretamente ao público.<br />

Dai o enorme sucesso e as grandes t iragens <strong>das</strong> publicações da TFP.<br />

40


Parte I<br />

Recurso eficiente<br />

para furar o bloqueio<br />

do macrocapitalismo<br />

publicitário<br />

Partidos políticos<br />

e <strong>CEBs</strong><br />

o <strong>se</strong>u grande recurso face ao sistemático<br />

cerceamento que sofria do macrocapitalismo<br />

publicitário, afirmando<br />

assim o direito de manifestar <strong>se</strong>u pensamento,<br />

<strong>se</strong>m embargo <strong>das</strong> pressões<br />

dos poderosos, e da limitação de <strong>se</strong>us<br />

recursos financeiros ( 4 ).<br />

Daí, como já foi dito, a <strong>muito</strong><br />

apreciável tiragem <strong>das</strong> obras da<br />

TFP (5).<br />

* * *<br />

No momento em que as atenções<br />

do público <strong>se</strong> vão voltando cada vez<br />

mais para as <strong>CEBs</strong>, num panorama<br />

em que os partidos políticos legais e<br />

(4) <strong>As</strong> caravanas da TFP já percorreram,<br />

desde 1970 (quando tiveram início), 2.629.553<br />

km rodados, o que equivale a 65 voltas em<br />

torno da Terra, ou a qua<strong>se</strong> quatro viagens de<br />

ida e volta à Lua! No contato direto com o<br />

público em 14.142 visitas a cidades de porte<br />

grande, médio ou pequeno de todo o território<br />

nacional, foram vendidos pelos propagandistas<br />

da TFP cerca de 4.500.000 exemplares<br />

<strong>das</strong> diversas publicações edita<strong>das</strong> ou patrocina<strong>das</strong><br />

pela entidade.<br />

(5) Entre as páginas desve volume, o leitor<br />

encontrará a relação <strong>das</strong> obras difundi<strong>das</strong> pela<br />

TFP, com o respectivo número de edições e<br />

tiragens. Estas são impressionantes, da<strong>das</strong> as<br />

circunstâncias de nosso País de tão e tão<br />

poucas livrarias, no qual, excetua<strong>das</strong> as obras<br />

didáticas, os livros de que <strong>se</strong> tirem mais de 5<br />

mil exemplares são considerados como <strong>muito</strong><br />

difundidos.<br />

ilegais deixam ver <strong>se</strong>mpre mais a exigüidade<br />

de sua estatura e de <strong>se</strong>u sopro<br />

vital, as Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong><br />

estão <strong>se</strong>ndo vistas por crescente<br />

número de brasileiros como a potência<br />

eleitoral emergente, que nos grandes<br />

prélios deste ano dará rumo aos<br />

destinos do Brasil.<br />

<strong>As</strong>sim, é de esperar que considerável<br />

número de brasileiros <strong>se</strong> empenhe<br />

em <strong>sabe</strong>r o que são essas organizações.<br />

Para informá-los, os autores da<br />

Parte II do pre<strong>se</strong>nte livro foram colher<br />

os dados esclarecedores, por assim<br />

dizer dos próprios lábios delas, isto é,<br />

dos escritos em que elas <strong>se</strong> autodefinem<br />

para <strong>se</strong>us aderentes e para o<br />

público. Esta é, de longe, a principal<br />

fonte de suas informações. Completam-nas<br />

notícias de jornais e revistas<br />

inteiramente insuspeitos de distorcer<br />

os fatos em detrimento <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>. E<br />

tudo isto de tal sorte que, a queixar-<strong>se</strong><br />

alguma Comunidade de Ba<strong>se</strong> do que<br />

aqui vem dito, poderiam os autores<br />

responder, com as palavras da Escritura:<br />

"De ore tua te judico: julgo-te<br />

<strong>se</strong>gundo as palavras de tua boca" (Lc.<br />

XIX, 22).<br />

Entidade es<strong>se</strong>ncialmente extrapartidária,<br />

de nenhum modo pretende<br />

a TFP favorecer ou combater, com<br />

este livro, qualquer partido ou grupo<br />

político. Pelo contrário, a todos ela<br />

presta indiscriminadamente <strong>se</strong>rviço<br />

quando os ajuda a conhecer com quem<br />

Capítulo /<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong>: julga<strong>das</strong><br />

pelas palavras<br />

que elas m esmas<br />

proferem<br />

A atuação da TFP<br />

não tem qualquer<br />

intuito p olíticopartidário<br />

41


<strong>As</strong> C EBs ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>. <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

<strong>As</strong> operações "pega-fazendeiro"<br />

-<br />

"peg(J-parrão" -<br />

"pega-locador"<br />

<strong>se</strong> aliam, <strong>se</strong> <strong>se</strong> apoiarem nas <strong>CEBs</strong>, e a<br />

quem combatem, caso <strong>se</strong> coloquem na<br />

liça em campo oposto ao delas. E,<br />

talvez, o <strong>se</strong>rviço mais assinalado ela o<br />

preste a es<strong>se</strong>s eventuais aliados <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong>. Pois em política, como em<br />

qualquer outro terreno, não raras vezes<br />

as alianças feitas <strong>se</strong>m as informações<br />

necessárias prejudicam a prazo<br />

médio ou longo - quando não a<br />

prazo imediato - mais do que <strong>muito</strong><br />

golpe rude do adversário. Mostra-o<br />

especialmente a História <strong>das</strong> grandes<br />

Revoluções.<br />

* * *<br />

E é uma verdadeira Revolução (no<br />

<strong>se</strong>ntido lato da palavra), com sérias<br />

possioilidades de <strong>se</strong> tornar <strong>muito</strong> grande,<br />

que as <strong>CEBs</strong> preparam. Já começam<br />

a ecoar nas profundidades de<br />

nossos <strong>se</strong>rtões os brados-slogans "pega-fazendeiro"<br />

( cfr. Parte II, Cap.<br />

111, 6). Está na linha de pensamento<br />

e de ação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, como na.<br />

linha de <strong>se</strong>u dinamismo "místico" e­<br />

xasperado, que a es<strong>se</strong>s brados <strong>se</strong> sigam<br />

ou <strong>se</strong> juntem, dentro de não<br />

<strong>muito</strong> tempo, os de "pega-patrão",<br />

"pega-patroa", "pega-locador", "pegadirigente".<br />

"Pega", enfim, todo mundo<br />

que agora dorme indolente um<br />

letargo profundo, embalado alternativamente<br />

pelo desalento e pelo otimismo.<br />

Segundo a doutrina da Igreja, a condição de<br />

freira, esposa de Jesus Cristo, é superior à da<br />

esposa e mie de familia. Nlo assim para as<br />

<strong>CEBs</strong>, que vêem com maus olhos o papel da<br />

freira tradicional. e preferem a freira guerrilheira,<br />

que pega o fuzil para participar de lutas<br />

de "libertação nacional", como na revolução<br />

sandiniste da Nicarágua.<br />

42


Parte I<br />

Capítulo I<br />

A s <strong>CEBs</strong> também<br />

atacam a família<br />

Aliás, não é só a propriedade que é<br />

duramente atacada pelas Comunidades<br />

de Ba<strong>se</strong>, mas também a instituição<br />

da família. <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong>, como fica demonstrado<br />

na Parte II deste trabalho,<br />

subvertem a fundo esta instituição, e<br />

tendem à supressão dela por inutilidade.<br />

Com efeito, as <strong>CEBs</strong> proclamam<br />

como excelsa a missão que pode ter<br />

a prostituta ( cfr. Parte II, Cap.<br />

II, 2), superior até à da freira. Ora,<br />

<strong>se</strong> de um ladó a condição de freira,<br />

<strong>se</strong>gundo a doutrina da Igreja, é superior<br />

até a da esposa e mãe de família,<br />

e de outro lado a "oblação"que a mulher<br />

perdida faz de si mesma é mais completa<br />

que a <strong>das</strong> Religiosas, ela fica ipso<br />

facto num plano superior ao da mãe<br />

de família.<br />

Esta conclusão, contrária ao <strong>se</strong>nso<br />

moral de todos os povos, em todos os<br />

séculos, <strong>se</strong> coaduna bem com a doutrina<br />

socialista. Pois <strong>se</strong>, do ponto de<br />

vista do socialismo, a prostituta <strong>se</strong>rve<br />

à coletividade, ela é por assim dizer<br />

um patrimônio de todos. A esposa é<br />

ao mesmo tempo "proprietária" e<br />

"propriedade" do esposo. Ela constitui<br />

o bem, não da coletividade, mas<br />

tão-só de um indivíduo. E, como tal,<br />

deve desaparecer no mundo coletivista.<br />

Quiçá, quando estiverem <strong>se</strong>ndo de<strong>se</strong>nvolvi<strong>das</strong><br />

as operações "pega-fazendeiro",<br />

"pega-patrão" etc., o Brasil<br />

ainda <strong>se</strong>ja forçado a pre<strong>se</strong>nciar a operação,<br />

quão mais censurável, "pegaespqsa".<br />

E é contra esta imensa e espantosa<br />

Revolução que o pre<strong>se</strong>nte livro previne.<br />

Dep ois da operaç<br />

ã o "" p ega-fa ­<br />

zendeiro", a operação<br />

'"pega-esposa<br />

".?<br />

43


,.,,<br />

l<br />

·Capítulo II t ~ \ - 1<br />

- -<br />

...


A CNBB<br />

A CONFERBNCIA Nacional<br />

dos Bispos do Brasil<br />

(CNBB), órgão instituído pela Santa<br />

Sé, no ano de 1952 - talvez como<br />

prenúncio <strong>das</strong> tendências à colegialidade,<br />

tãÓ pronuncia<strong>das</strong> no Concílio<br />

Vaticano II (1962-1965) - tem por<br />

fim coligar em todo o território nacio-­<br />

nal a ação dos Bispos diocesanos (em<br />

número de 233) e dos respectivos Bispos<br />

Coadjutores e Auxiliares em exercício<br />

(ao todo 55), bem como dos três<br />

Ordinários para os -fiéis de Ritos O-<br />

rientais (dados do Diretório Litúrgico<br />

de <strong>1982</strong>). Também fazem parte integrante<br />

da CNBB os 62 Bispos resignatários<br />

residentes no País, totalizando<br />

assim 353 Bispos com direito a voz e<br />

voto no organismo episcopal ( 1 ).<br />

Promove a CNBB uma imensa<br />

transformação soc10-econômica de<br />

<strong>se</strong>ntido <strong>muito</strong> marcadamente esquerdista.<br />

Constituem pontos capitais dessa<br />

reforma, a <strong>muito</strong>s títulos inquestionavelmente<br />

revolucionária, uma re-<br />

Sua obra revolucionária:<br />

as reformas<br />

( 1) Os Bispos resignatários só não podem<br />

votar nas deliberações de que <strong>se</strong> origine obrigação<br />

jurídica (c~r. Estatutos da Con_ferênéia<br />

Nacional dos Bispos do Bras1l, artigos 2. 0<br />

e 10).<br />

. (2) Cfr. PuN10 CoRRtA DE OuvEIRA E<br />

CARLOS PATR1c10 DEL CAMPO, Sou católico:<br />

posso <strong>se</strong>r contra a Reformá Agrária?, Editora<br />

Vera Cruz, São Paulo, terceira edição, página<br />

91.<br />

(3) Cfr. PuN10 CoRHA DE OuvEIRA E CAR­<br />

LOS PATR1c10 DEL CAMPO, Sou Católico: posso<br />

<strong>se</strong>r contra a Reforma Agrária?, Editora Vera<br />

Cruz, São Paulo, 3.ª ed ., p. 109.<br />

(4) É o que declara enfaticamente o Sr.<br />

Cardeal D. Vicente Scherer, antigo Arcebispo<br />

de Porto Alegre:<br />

"Os grandes proprietários, proclamamo-lo<br />

<strong>se</strong>m cessar, devem conformar-<strong>se</strong> com a redução<br />

dos <strong>se</strong>us haveres. A dis<strong>se</strong>minação da pro-<br />

46


Dobre de finados<br />

para a clas<strong>se</strong> dos<br />

fazendeiros ...<br />

modelação da estrutura fundiária rural<br />

do País. Tal remodelação tende,<br />

em última análi<strong>se</strong>, à divisão de to<strong>das</strong><br />

as propriedades rurais grandes e médias<br />

em propriedades com dimensão<br />

suficiente para que cada uma <strong>se</strong>ja<br />

integralmente trabalhada pelas mãos<br />

do respectivo proprietário e de sua<br />

família, no máximo com o auxílio<br />

estritamente esporádico de algum coadjuvante<br />

efêmero (2). O que importa<br />

num dobre de finados para a clas<strong>se</strong><br />

dos fazendeiros.<br />

Tanto mais que estes receberão, na<br />

melhor hipóte<strong>se</strong>, uma indenização nitidamente<br />

inferior ao pre<strong>se</strong>nte valor<br />

venal de suas propriedades (3), com<br />

o que terão de aceitar a degradação<br />

(no <strong>se</strong>ntido etimológico do termo) social<br />

con<strong>se</strong>qüente (4).<br />

A CNBB promete engajar-<strong>se</strong> também<br />

em uma reforma fundiária urbana<br />

que, a <strong>se</strong>r logicamente deduzida<br />

dos princípios norteadores da Reforma<br />

Agrária, deve abrir campo para<br />

duas medi<strong>das</strong> es<strong>se</strong>nciais: a extinção do<br />

. . . da clas<strong>se</strong> dos<br />

p roprie1áriosde<br />

imóveis urbanos<br />

priedade é um postulado fundamental de uma<br />

ordem social aceitável e justa" ("Correio do<br />

Povo", Porto Alegre, 3-1-62).<br />

"No <strong>se</strong>tor rural, entre as formas de distribuição<br />

da propriedade está em primeiro<br />

lugar a reforma agrária. . . . . Se nas desapropriações<br />

na ref arma agrária a compensação <strong>se</strong><br />

faz pelo valor real, em <strong>se</strong> tratando de latifúndios,<br />

continuará a mesma desigualdade de<br />

fortuna e ela <strong>se</strong> estenderá a outro <strong>se</strong>tor.fora do<br />

agrário, pela inversão do preço fabuloso obti-<br />

do em propriedades imobiliárias urbanas"<br />

("Correio do Povo", 12-11-68).<br />

O ilustre Purpurado, note-<strong>se</strong>, é uma <strong>das</strong><br />

figuras do Episcopado mais freqüentemente<br />

apre<strong>se</strong>nta<strong>das</strong> como moderado. Muitos de <strong>se</strong>us<br />

admiradores timbram até em lhe dar o qu'!llificativo<br />

de "direitista", indefensável à vista<br />

destes e de outros textos do Prelado.<br />

Se essa é a moderação nas fileiras da<br />

CNBB, o leitor bem pode ver o que nela é o<br />

extremismo.<br />

47


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

inquilinato, em favor dos locatários<br />

transformados em proprietários dos<br />

espaços que ocupam, e uma redistribuição<br />

do espaço, de sorte que cada<br />

pessoa, empresa ou família, só ocupe a<br />

área arbitrada como vitalmente necessária<br />

pela repartição pública encarregada.<br />

De maneira que haja área construída<br />

suficiente para todos (5).<br />

.. . da clas<strong>se</strong> dos Não é difícil entrever que a CNBB<br />

empresários preconize ainda uma reforma empre-<br />

sarial análoga às reformas agrária e<br />

urbana que pleiteia.<br />

* * *<br />

Ü quadro que assim <strong>se</strong> patenteia<br />

aos olhos dos brasileiros causa espan- três Poderes ?.,<br />

to. Pois ele nos desvenda a situação de<br />

um Estado declarado implicitamente<br />

em situação de minoridade pela CN-<br />

BB. Isto é, de carência de <strong>sabe</strong>doria,<br />

M inoridade d os<br />

(5) No documento Igreja e problemas da<br />

terra, aprovado pela 18.ª <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia Geral da<br />

CNBB, em 1980, o órgão episcopal tratava de<br />

modo específico da Reforma Agrária, e prometia<br />

para breve um outro estudo consagrado<br />

especialmente ao solo urbano. Entretanto, na<br />

19.ª <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia Geral, realizada em fe ve reiro<br />

de 198 1 ( quando <strong>se</strong> achava no prelo , pronto<br />

para sair, o livro Sou católico: posso <strong>se</strong>r contra<br />

a Reforma Agrária?), o tema não foi tratado.<br />

Debateu-o a 20.ª <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia, de 9 a 18 de<br />

fevereiro de <strong>1982</strong>, confirmando inteiramente<br />

os receios aqui enunciados e já manifestados<br />

no livro supra-citado (p. 100).<br />

O documento Solo urbano e ação pastoral<br />

(Coleção Documentos da CNBB, n. 0 23, Edições<br />

Paulinas, São Paulo, <strong>1982</strong>, 48 pp.), aprovado<br />

pelos Bispos brasileiros nessa ocasião,<br />

relativiza ao máximo o direito de propriedade,<br />

pondo em xeque o próprio título jurídico<br />

legítimo de propriedade e tentando justificar as<br />

ocupações e mes mo as invasões de terras: " No<br />

caso de muitas ocupações lentas e até nas<br />

'invasões', o título legítimo de propriedade,<br />

derivado e <strong>se</strong>cundário, deve <strong>se</strong>r j ulgado diante<br />

do direito fundamental e primário de morar,<br />

decorrente <strong>das</strong> necessidades vitais <strong>das</strong> pessoas<br />

humanas" (doe. cit., n. 0 79) . Ê <strong>muito</strong> significativo<br />

que o documento da CNBB ponha<br />

aspas na palavra "in vasões", como <strong>se</strong> não<br />

fos<strong>se</strong>m de fato in vasões! Sobre o que pe nsar<br />

destas, ver Parte II, Cap. III, 8.<br />

E, adiante, o documento continua: "Tendo<br />

pre<strong>se</strong>nte a lição de João Paulo li, <strong>se</strong>gundo [sic]<br />

a qual sobre toda propriedade particular pesa<br />

uma hipoteca social, concluimos que o direit o<br />

natural à moradia tem primazia sobre a lei<br />

positiva que preside à apropriação do solo.<br />

Apenas um título jurídico sobre uma propriedade<br />

não pode <strong>se</strong>r um valor absoluto, acima<br />

<strong>das</strong> necessidades humanas de pessoas que não<br />

têm onde instalar <strong>se</strong>u lar" (doe. cit. , n.º 84).<br />

Falar de falta de lugar para <strong>se</strong> instalar num<br />

país com 8,5 milhões de quilômetros quadrados,<br />

60% dos <strong>quais</strong> inteiramente desocupados<br />

(terras devolutas), é realmente assombroso!<br />

Quanto tal relativização do direito de propriedade<br />

discrepa da doutrina tradicional da<br />

Igreja, é fácil ve r comparando-<strong>se</strong> com os bem<br />

conhecidos textos pontifícios sobre a matéria<br />

(cfr. PuN10 CoRR!'.A DE OuvEIRA E CARLOS PA­<br />

TR1c 10 DEL CAMPO, Sou católico: posso <strong>se</strong>r contra<br />

a Reforma Agrária?, Editora Vera Cruz,<br />

48


Parte I<br />

Capítulo li<br />

Reunidos em ltaici, em fevereiro deste ano, os Bispos aprovam o documento Solo urbano e ação<br />

pastoral. que preconiza uma Reforma Urbana, irmã gêmea da Reforma Agréria socialista e<br />

confiscatória pleiteada no documento Igreja e problemas da terra.<br />

São Paulo, 3. ª cd., 198 1, pp. 156- 160; 180- 182).<br />

Mas o documento da CNBB, citando a<br />

Gaudium et Spes (n. 0 69), chega ao ponto de<br />

invocar o princípio de extrema necessid ade<br />

para as "pessoas que não têm onde instalar <strong>se</strong>u<br />

lar ": "Aquele, porém, que <strong>se</strong> encontrar em<br />

extrema necessidade, tem direito a tomar, dos<br />

bens dos outros, o que necessita" (doe. cit.,<br />

n. 0 83).<br />

Por isso, é preciso fazer "uma reforma urbana<br />

que leve a cidade à condição de um espaço<br />

de convivência solidária" (doe. cit., n. 0 99).<br />

O documento, entretanto, embora sugira<br />

uma série de med i<strong>das</strong> a curto prazo (tópicos<br />

119 a 130) não delineia os contornos concretos<br />

dessa Reforma Urba na. Mas ao constatar<br />

que ela "esbarra em diversos obstáculos jurídicos"<br />

(doe. cit., n. 0 99), preconiza um "Estatuto<br />

do Solo Urbano" símile do "Estatuto da<br />

Terra", cujo caráter socialista e confiscatório<br />

foi oportunamente denunciado · pela TFP ( cfr.<br />

Manifesto ao povo brasileiro sobre a Reforma<br />

Agrária, de 24 de dezembro de 1964, in Sou<br />

católico: posso <strong>se</strong>r contra a Reforma Agrária ?,<br />

pp. 239-244).<br />

Ao fazer es<strong>se</strong> precônio, o documento da<br />

CNBB <strong>se</strong> insurge até contra as atuais decisões<br />

da Magistratura, que continua aplica ndo o<br />

Código Civil promulgado em 1916: "De fato,<br />

nossa legislação que regula a pos<strong>se</strong> e uso do<br />

solo urbano revela uma profunda inadequação<br />

à realidade atual, inadequação ba<strong>se</strong>ada nwria<br />

superada. concepção do direito de propriedade,<br />

concepção privatista de um direito absoluto<br />

<strong>se</strong>m nenhuma responsabilidade social. É a<br />

concepção de nosso Código Civil, promulgado<br />

em 1916, quando o Brasil não chegava a ter 5<br />

milhões de pessoas como população urbana,<br />

mas concepção que predomina ainda nas decisões<br />

de nossa Magistratura, mesmo quando a<br />

própria Constituição de 1969 confirmou o<br />

principio da função social da propriedade (art.<br />

49


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

A mesa que presidiu a 20.• <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia Geral da CNBB. em ltaici: D . Ivo Lorscheiter (centro). D.<br />

Clemente J. Carlos lsnard (esquerda). D . Luciano Mendes de Almeida (direita), respectivamente<br />

Presidente, Vice-Presidente e Secretário do organismo episcopal.<br />

160. Ili). Tal princípio, entretanto. que de<br />

certo modo foi explicitado na elaboração de<br />

um Estatuto da Terra Rural. paradoxalmente,<br />

num país que <strong>se</strong> urbaniza rapidamente, não<br />

levou ainda à promulgação de um Estatuto do<br />

Solo Urbano, que consta <strong>se</strong>r objeto de um<br />

projeto do governo" (doe. cit., n. 0 100).<br />

Se isto não <strong>se</strong> fizer, o documento acena<br />

com a revolução social: "A aceleração do<br />

processo de urbanização está transferindo para<br />

a cidade uma carga conflitual, que poderá<br />

assumir as dimensões de uma confrontação<br />

entre os <strong>muito</strong>s que têm <strong>pouco</strong> a perder e os<br />

<strong>pouco</strong>s que têm <strong>muito</strong> a perder" (doe. cit., n. º<br />

113). "Recusar-<strong>se</strong> ao trabalho por essas reformas,<br />

capazes de conduzir a uma mudança<br />

global da sociedade, significa, na prática, provocar<br />

a radicalização do processo de mudança"<br />

(doe. cit., n. 0 115).<br />

Mas não <strong>se</strong> pen<strong>se</strong> que os Bispos brasileiros<br />

que aprovaram o documento contentar-<strong>se</strong>-ão<br />

com meras refo rmas. Eles querem uma mudança<br />

global do sistema sócio-político-económico<br />

vigente: "A implementação <strong>das</strong> reformas<br />

necessárias não deve induzir à ilusão de que<br />

estas <strong>se</strong>jam suficientes. Para eliminar a situação<br />

de injustiça estrutural, importa visar a<br />

novos m odelos de organização da cidade, o<br />

que exige, por sua vez, mudança do m odelo<br />

sócio-político-econômico vigente" ( doe. cit.,<br />

n. 0 116).<br />

Qual é o sistema que os Bispos propõem<br />

para <strong>se</strong>r instaurado no lugar do atual? O documento<br />

não o diz. Será talvez um meio termo<br />

entre o sistema capitalista ocidental e o sistema<br />

comunista soviético. O socialismo autogestionário<br />

a pregoado por M itterrand, por exemplo<br />

... (cfr. Parte II, Cap. IV, 1 e 2).<br />

50


Parre I<br />

Capiwlo li<br />

Uma objeção em<br />

favor da CNBB<br />

de força e de poder para tomar conhecimento<br />

de <strong>se</strong>us próprios problemas,<br />

encontrar-lhes a solução e, por fim,<br />

resolvê-los efetivamente. Por isto, à<br />

CNBB caberia supletivamente fazê-lo.<br />

- "Fazê-lo"? Não haverá exagero<br />

na afirmação, uma vez que a CNBB<br />

não pretende impor a Reforma Agrária<br />

ex auctoritate propria, mas apela,<br />

pelo contrário, para os três Poderes<br />

do Estado, a fim de que a implantem?<br />

Onde então a usurpação de poderes<br />

que o órgão eclesiástico nacional por<br />

excelência estaria tendendo a praticar<br />

em relação ao Estado? Em que fica<br />

cerceado pela CNBB o exercício pleno.<br />

<strong>das</strong> atribuições conferi<strong>das</strong> pela Constii:uição<br />

aos três Poderes da Repú-<br />

blica, a <strong>sabe</strong>r, o Executivo, o Legislativo<br />

e o Judiciário?<br />

Na ordem da mera especulação<br />

jurídica, nada há que objetar a tal.<br />

Mas a ordem jurídica não contém em<br />

si toda a realidade dos fatos .<br />

Um exemplo, aliás apenas incompletamente<br />

adequado, o deixa ver<br />

bem. O poder dos órgãos de comunicação<br />

social sobre a opinião pública<br />

- proclamada como soberana pelos<br />

Estados modernos - é tal, que lhes<br />

confere uma larga participação na fixação<br />

dos rumos do país. Por isso,<br />

tomados em <strong>se</strong>u conjunto, têm eles<br />

sido cognominados, talvez não <strong>se</strong>m<br />

algum exagero, o IV Poder (6). Mas<br />

em tal designação é fácil perceber que<br />

O IV Poder: os<br />

Meios de Comunicação<br />

Social<br />

(6) Quem, parece, lançou no Brasi l a expressão<br />

foi o grande pensador católico Carlos<br />

de Laet, Presidente da Academia Brasileira de<br />

Letras, em conferência feita no dia 8 de maio<br />

de 1902, no Círculo Católico da Mocidade do<br />

Rio de Janeiro:<br />

"Tirania da imprensa! Sim, tirania da imprensa<br />

... Agora está lan çaâa a palavra, le mot<br />

est lancé ... Nescit vox missa reverti, não volta<br />

atrás o que já <strong>se</strong> dis<strong>se</strong>, e remédio não tenho<br />

<strong>se</strong>não justificar a minha te<strong>se</strong>.<br />

Senhores, uma <strong>das</strong> grandes singularidades<br />

dos tempos atuais, é que os povos vivem a<br />

combater fantasmas de tiranias, e indiferentes<br />

às tiranias verdadeiras. <strong>As</strong> revoluções derribam<br />

m onarcas, que às vezes são magnânimos<br />

pastores de povos. Antigamente cortavam-lhes<br />

as cabeças, mas hoje nem <strong>se</strong>quer essa honra<br />

lhes fazem : contentam-<strong>se</strong> com despedi-los, fa-<br />

zam-nos embarcar a desoras, porque <strong>sabe</strong>m<br />

que já p oucos são os reis cônscios da sua<br />

missão providencial e do <strong>se</strong>u dever de resistência<br />

... Por outro lado, apregoa-<strong>se</strong> a tirania<br />

do capital; e, adversa a todo capitalista e a<br />

cada empresário, está uma turba fremente<br />

prestes a tumultuar, quando julga menoscabados<br />

os <strong>se</strong>us direitos ... E todavia, <strong>se</strong>nhores, o<br />

povo ainda não compreendeu que uma <strong>das</strong><br />

maiores tiranias que o conculcam é a da<br />

imprensa; e, longe de compreendê-lo. antes a<br />

reputa uma salvaguarda dos <strong>se</strong>us interes<strong>se</strong>s e a<br />

vindicatriz dos <strong>se</strong>us direitos. É contra este<br />

sofisma que ora me insurjo.<br />

Que é tirania, <strong>se</strong>nhores? Omnis definitio<br />

periculosa, diziam os escolásticos; mas creio<br />

não errar definindo tirania - o indebito e<br />

opressivo poder exercido por um, ou por<br />

<strong>pouco</strong>s, contra a grande maioria dos <strong>se</strong>us<br />

51


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>. <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

A CNBB. o v Poder<br />

a parte da realidade, apanhada com<br />

viveza e agilmente expressa, é <strong>muito</strong><br />

maior do que a parte do exagero.<br />

Pode-<strong>se</strong> dizer que, a <strong>se</strong>u modo,<br />

existe incontestavelmente o IV Poder.<br />

A <strong>se</strong>u modo, também, a CNBB <strong>se</strong><br />

vai erigindo em um V Poder. Em<br />

razão do profundo espírito de fé reinante<br />

na imensa maioria dos brasileiros,<br />

do papel moderado, mas legítimo,<br />

exercido pela Igreja ao longo de toda<br />

a História do País, do enorme embasamento<br />

de instituições dos mais variados<br />

gêneros, bem como dos <strong>muito</strong>s<br />

haveres de que a Igreja dispõe, exerce<br />

ela sobre a opinião pública uma influência<br />

capaz de disputar galhardamente<br />

a primazia aos Meios de Comunicação<br />

Social. E, conforme <strong>se</strong>jam as<br />

circunstâncias, de lhes tomar vitoriosamente<br />

a dianteira.<br />

Nessas condições, desde que ela<br />

queira pesar de modo preponderante<br />

na fixação dos rumos nacionais, tem<br />

ela meios para fazê-lo. Ou, pelo menos,<br />

para tentar fazê-lo com fortes<br />

probabilidades de êxito.<br />

Isto, que é tão óbvio, ainda <strong>se</strong><br />

acentua, nos dias que passam, em<br />

virtude de uma circu·nstância que, por<br />

certo, atrairá fortemente a atenção<br />

dos futuros historiadores, <strong>se</strong> bem que<br />

pareça passar hoje mais ou menos<br />

despercebida às diversas elites tão profundamente<br />

postas em letargia.<br />

Tal circunstância consiste em que,<br />

por coincidência que não <strong>se</strong>ria fácil<br />

explicar, o IV Poder - o dos Meios<br />

de Comunicação Social - em última<br />

análi<strong>se</strong> passa por uma fa<strong>se</strong> de unanimidade<br />

impressionante. De modo geral,<br />

os impulsos dados à Nação pelos<br />

<strong>se</strong>us componentes sopram no mesmo<br />

<strong>se</strong>ntido. Se entre eles há variantes de<br />

matiz, estas habitualmente não redundam<br />

em polêmica tão rija e profunda<br />

que prejudique a convergência de todos<br />

numa mesma direção. Essa ob<strong>se</strong>r-<br />

Quandoo JVeo v<br />

Poder coincidem<br />

conterrâneos. Ora, esta definição maravilhosamente<br />

quadra ao chamado poder da imprensa.<br />

Sim, ela é o poder de <strong>pouco</strong>s sobre a massa<br />

popular. Contai o número imenso de homens<br />

que não figuram, que não podem figurar na<br />

imprensa, uns porque lhes faltam aptidões,<br />

outros por negação a es<strong>se</strong> gênero de atividade,<br />

outros porque não têm dinheiro ou relações que<br />

lhes abram as portas dos jornais; contai, por<br />

outra parte, o minguado número de jornalistas,<br />

- e dizei-me <strong>se</strong> não <strong>se</strong> trata de uma<br />

verdadeira oligarquia, do temeroso predomínio<br />

de um pugilo, de um grupinhq de hoinens<br />

sobre a qua<strong>se</strong> totalidade dos <strong>se</strong>us concidadãos.<br />

E que poder exerce es<strong>se</strong> grupo minúsculo?<br />

Enorme.<br />

A imprensa pode, efetivamente, influir no<br />

governo de um país, constituindo aquilo que já<br />

<strong>se</strong> chamou - o quarto poder do Estado " ( O<br />

frade estrangeiro e outros escritos, Edição da<br />

Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro.<br />

1953, pp. 80-81).<br />

52


Parte I<br />

Capitulo ••<br />

vação poucas exceções teria a registrar.<br />

É certo que, nesta caminhada em<br />

conjunto, nem todos estão a igual<br />

distância da meta última. Enquanto<br />

nenhum - ou qua<strong>se</strong> tanto - faz<br />

oposição proporcionadamente afincada<br />

à contínua hipertrofia dos poderes<br />

do Estado, e <strong>muito</strong>s pelo contrário a<br />

favorecem, apenas alguns <strong>pouco</strong>s <strong>se</strong><br />

dizem de quando em vez anti-socialistas.<br />

Mas como o termo "socialismo"<br />

é dos mais ambíguos do vocabulário<br />

científico como do político, esta posição<br />

não impede que es<strong>se</strong>s mesmos órgãos<br />

fomentem, de um ou outro modo,<br />

a invasão contínua dos poderes do<br />

Estado na esfera privada. De onde<br />

decorre que vem <strong>se</strong>ndo deploravelmente<br />

insuficiente sua oposição a es<strong>se</strong><br />

fenômeno, o qual - <strong>muito</strong> notadamente<br />

a partir da Presidência do General<br />

Ernesto Gei<strong>se</strong>l - tomou proporções<br />

alarmantes (7).<br />

Ora, ruma genericamente no mesmo<br />

<strong>se</strong>ntido a CNBB, isto é, o V Poder.<br />

Os Meios de Comunicação Social têm sido<br />

denominados, talvez nlio <strong>se</strong>m algum exagero. o<br />

IV Poder, devido à sua capacidade de impressionar<br />

a opiniilo pública e assim influir sobre os<br />

destinos do Pais. Mas é fácil perceber que, em<br />

tal designação. a parte de realidade. apanhada<br />

coni viveza e agilmente expressa. é <strong>muito</strong> maior<br />

que a parte de exagero.<br />

(7) Em outubro de 1979, o Governo do<br />

General Figueiredo criou a Secretaria de Controle<br />

<strong>das</strong> Empresas Estatais (SEST), dependente<br />

da Secretaria do Planejamento. O objetivo<br />

da SEST era fazer um levantamento do<br />

complexo <strong>das</strong> empresas dÓ Estado e proceder a<br />

um efetivo controle dos respectivos orçamentos<br />

e planos de de<strong>se</strong>nvolvimento.<br />

Posteriormente, em julho de 1981, a Presidência<br />

da República baixou um decreto constituindo<br />

urna Comissão Ministerial para estu-<br />

53


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> .. . <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />


Parte l<br />

Capítulo li<br />

Pressão de cúpula<br />

do I V e do V Poder<br />

Pressão de ba<strong>se</strong><br />

algum modo <strong>se</strong> pode dizer que tudo os<br />

une, nada os <strong>se</strong>para (8).<br />

• • •<br />

Diante dessa impressionante coligação<br />

dos Poderes extra-oficiais mas<br />

efetivos, a pressão de cúpula sobre os<br />

três Poderes oficiais tem condições de<br />

êxito óbvias.<br />

A coligação de esforços do IV e V<br />

Poderes entrou por <strong>muito</strong> na produção<br />

do declínio da influência militar<br />

na V República, iniciada em 1964, e<br />

sobre a qual as eleições de novembro<br />

deste ano dirão <strong>se</strong> continuará a existir.<br />

Estas ob<strong>se</strong>rvações não incluem a­<br />

plauso nem censura. São mera constatação<br />

dos fatos. Introduzido o Brasil nas<br />

vias da abertura, e restaurado em qua<strong>se</strong><br />

toda a sua amplitude o poder do<br />

voto popular, competia aos Poderes<br />

extra-oficiais completar sua ação por<br />

meio de uma pressão de ba<strong>se</strong>. O IV<br />

Poder tem feito o possível para <strong>se</strong><br />

expandir, e assim <strong>se</strong> capacitar para<br />

realizar sua parte da tarefa. Mas, cumpre<br />

registrar, <strong>pouco</strong> está a <strong>se</strong>u alcance<br />

fazer ainda, para crescer nesta direção.<br />

Pelo contrário, ao V Poder sobravam<br />

<strong>muito</strong>s meios de expandir-<strong>se</strong>, a<br />

fim de agir sobre a opinião pública, e<br />

por meio desta sobre o eleitorado.<br />

Com o que realizaria, já agora de<br />

baixo para cima, sua pressão de ba<strong>se</strong><br />

sobre os três Poderes oficiais.<br />

O grande instrumento que vai <strong>se</strong>ndo<br />

posto em prática pela CNBB para<br />

isto são as Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong>.<br />

* * *<br />

Diante de tão clara intervenção da<br />

CNBB em assuntos de competência<br />

(8) Não vai nesta ·descrição da pre<strong>se</strong>nte<br />

atitude do IV e V Poderes qualquer animadversão<br />

para com os Meios de Comunicação<br />

Social ou a CNBB enquanto tais. Vai, isto sim ,<br />

a manifestação de um profundo desacordo<br />

com os rumos que, consid erados em bl oco, e<br />

salvas ce rtas exceções, um e outro Poder vão<br />

<strong>se</strong>guindo no cumprimento de suas altas missões.<br />

Es<strong>se</strong> desacordo, aqui expresso em linguagem<br />

<strong>se</strong>rena e cortês, está ba<strong>se</strong>ado numa ob<strong>se</strong>r­<br />

·vação desinteressada e cristã da realidade nacional.<br />

E, ademais, <strong>se</strong> apóia em documentação<br />

opulenta, no que diga res peito às <strong>CEBs</strong>. Des<strong>se</strong><br />

modo, este livro não fa z <strong>se</strong>não ajudar o IV e o V<br />

Poder a verem a realidade.<br />

Caso um ou outro Poder <strong>se</strong> molestas<strong>se</strong> com<br />

quanto aqui fica dito, empreendend o, por e­<br />

xemplo, alguma campanha difamatória como<br />

vindita contra a TFP, deixaria pairar dúvid as<br />

sobre a autenticidade <strong>das</strong> co nvicções liberais e<br />

ecumênicas de que <strong>se</strong> desvanece. Pois o exercício<br />

do direito de discordar tem sid o o /eitm<br />

otiv de grande número de pronunciamentos<br />

de um e outro nos últimos anos. E <strong>se</strong>ria<br />

pasmoso que negas<strong>se</strong>m es<strong>se</strong> direito quando <strong>se</strong><br />

trata de discordar deles ...<br />

55


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

V<br />

Abandonando sua esfera própria que consiste<br />

em ensinar, governar e santificar - docere,<br />

regere et sanctificare - as almas, incontáveis<br />

membros da Hierarquia e do Clero <strong>se</strong> embrenham<br />

por problemas específicos da ordem temporal,<br />

cedendo gostosamente, para reivindicações<br />

dessa natureza, não só o adro dos templos,<br />

mas o próprio recinto sagrado.<br />

especificamente temporal, caberia perguntar<br />

em nome de que princípio, de<br />

que lei, ela o faz?<br />

De lei nenhuma, pois desde 1890 o<br />

Estado brasileiro é laico (9), e não vê<br />

na Igreja <strong>se</strong>não uma entidade privada,<br />

como tantas outras, e ipso facto destituída<br />

de qualquer função no campo<br />

do Direito Público, ainda que meramente<br />

supletiva ( 1 O).<br />

Mas acima de to<strong>das</strong> as normas<br />

legais paira um princípio: "Salus popu/i<br />

suprema !ex esto: que a salvação<br />

do povo <strong>se</strong>ja a suprema lei" (Lei <strong>das</strong><br />

XII Tábuas, cfr. Cícero, De legibus,<br />

III, 9). Se o país, falto de instituições<br />

ou de autoridades temporais adequa<strong>das</strong>,<br />

não encontras<strong>se</strong>, em uma gravíssima<br />

cri<strong>se</strong>, outro recurso <strong>se</strong>não voltar<strong>se</strong><br />

para a Igreja, esta não extravasaria<br />

da missão a ela confiada pelo Divino<br />

Fundador, atendendo ao apelo da nação,<br />

e <strong>se</strong> incumbindo - na menor<br />

Em nome de que<br />

p rin cípio, de que<br />

lei. a CNBBintervém<br />

em matéria<br />

especif icamente<br />

temporal?<br />

Violação da distinção<br />

entre Poder<br />

esp iritual e<br />

Poder temporal<br />

(9) A <strong>se</strong>paração da Igreja e do Estado foi<br />

estabelecida pelo Decreto II 9-A, do Governo<br />

Provisório, em 7 de janeiro de 1890. A Constituição<br />

de 24 de fevereiro de I 891 confirmou a<br />

<strong>se</strong>paração.<br />

( l O) Aqui é feita apenas uma constatação<br />

do fato. A doutrina da Igreja preconi za, entretanto,<br />

a união entre os dois Poderes, cujos<br />

frutos são descritos magnificamente por Leão<br />

XIII, na Encíclica lmmortale Dei, de 1. 0 de<br />

novembro de 1885: "Tempo houve em que a<br />

filosofia do Evangelho governava os Estados.<br />

Nessa época, a influência da <strong>sabe</strong>doria cristã e<br />

a sua virtude divina penetravam as leis, as<br />

instituições, os costumes dos povos, to<strong>das</strong> as<br />

categorias e to<strong>das</strong> as relações da sociedade<br />

civil. Então a Religião instituída por Jesus<br />

Cristo, solidamente estabelecida no grau de<br />

dignidade que lhe é devido, em toda parte era<br />

florescente, graças ao favor dos Príncipes e à<br />

proteção legitima dos Magistrados. Então o<br />

Sacerdócio e o Império estavam ligados entre<br />

si por uma feliz concórdia e pela permuta<br />

amistosa de bons oficias. Organizada assim, a<br />

sociedade civil deu frutos superiores a toda<br />

56


Pane l<br />

É indispensável<br />

perguntar <strong>se</strong> os fatos<br />

j ustificam essa<br />

intervenção<br />

medida possível, mas também em toda<br />

a medida do necessário - da direção<br />

da "res publica". Atitude toda ela<br />

flagrante e gravemente excecional, que<br />

só poderia durar o tempo estritamente<br />

necessário. Pois, por <strong>pouco</strong> que a<br />

Igreja excedes<strong>se</strong>, em tal caso, os limites<br />

mínimos de atuação e de duração<br />

há <strong>pouco</strong> mencionados, começaria a<br />

violar a distinção entre Poder espiritual<br />

e Poder temporal, instituída por<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo (11).<br />

Sem negar, portanto, a possibilidade<br />

histórica de uma situação crítica<br />

excecional que colocas<strong>se</strong> a CNBB na<br />

contingência de assumir tal encargo, é<br />

lícito, mais do que . isso, é indispensável,<br />

perguntar <strong>se</strong> tal é a pre<strong>se</strong>nte<br />

configuração dos fatos.<br />

Em termos mais incisivos, mas ante<br />

os <strong>quais</strong> não é possível recuar, é o<br />

caso de indagar <strong>se</strong> os três Poderes<br />

oficiais - Executivo, Legislativo e<br />

Judiciário - <strong>se</strong> encontram em tão<br />

avançado declínio que os dois Poderes<br />

extra-oficiais - os Meios de Comunicação<br />

Social e a CNBB (IV e V<br />

Poderes) - possam e até devam exercer,<br />

em relação a eles, papel análogo ao<br />

dos todo-poderosos prefeitos de palácio<br />

na França medieval, ante a dinastia<br />

merovíngia decadente. Como bem<br />

" .,,<br />

f/ST<br />

expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá,<br />

consignada com o está em inúmeros documentos<br />

que artificio algum dos adversários<br />

poderá corromper ou obscurecer" (Acta Sanctae<br />

Sedis, Typografia Polyglotta S.C. de<br />

Propaganda Fide, 1885, vai. XVIII , p. 169).<br />

Contrastand o com essa descrição, Mons.<br />

Angelo Dell'Acq ua, Substituto da Secretaria<br />

de Estado da Santa Sé, sublinha o fato de que<br />

"em con<strong>se</strong>qüência do agnosticismo religioso<br />

dos Estados" ficou "amortecido ou qua<strong>se</strong> perdido<br />

na sociedade moderna o <strong>se</strong>ntir da Igreja"<br />

(Carta ao Cardeal D. Carlos Carmelo de Vas-<br />

concellos Motta, então Arcebispo de São Paulo,<br />

a propósito do Dia Nacional de Ação de<br />

Graças de 1956).<br />

Sobre o assunto, ve r também PuN10 CoR­<br />

RtA DE ÜLIV EIRA, Acordo com o regime comunista:<br />

para a Igreja, esperan ça ou autodemo/ição.?,<br />

Editora Vera Cruz, São Paulo, 10.ª ed.,<br />

pp. 111-113.<br />

( 11) O tema <strong>das</strong> relações entre o Poder<br />

es piritual e o Poder temporal é la rgamente<br />

explanado no livro Sou católico: posso <strong>se</strong>r<br />

contra a Reforma Agrária ?, Cap. IV, pp. 67 a 75 .<br />

57


~<br />

\<br />

'<br />

O pre<strong>se</strong>nte livro é um apelo para que as elites em letargo despertem de <strong>se</strong>u sono e abram 011 olhos<br />

para a situaçlo em que abobadamente <strong>se</strong> vl o deixando enlear. Se nlo o fizerem, nlo restaré outro<br />

remédio <strong>se</strong>nlo pedir a Deus que tenha pena do Brasil. .. à vista do que possa acontecer. O sacrllego<br />

atentado contra e venerével Imagem de Nossa Senhora Aparecida, no dia 16 de maio de 1978,<br />

permanece como um aviso sombrio para o nosso Pais. A TFP foi <strong>das</strong> poucas organizações que<br />

tomou realmente a sério es<strong>se</strong> sinal, e promoveu uma peregrinaçlo de desagravo ao Santuério da<br />

Padroeira do Brasil.<br />

58


Parte I<br />

Capítulo li<br />

Tal situação de nenhum<br />

modo <strong>se</strong><br />

configura no Brasil<br />

atual<br />

O que podem fazer<br />

os três Poderes?<br />

Fechar as<br />

<strong>CEBs</strong>? Cercear a<br />

CNBB?<br />

<strong>se</strong> <strong>sabe</strong>, por detrás do diáfano velame<br />

do poder merovíngio em vias de extinção,<br />

era de fato o poder emergente dos<br />

prefeitos de palácio que decidia tudo.<br />

Tal situação de nenhum modo <strong>se</strong><br />

configura no Brasil atual. De sorte<br />

que a relação roi fainéant-prefeito de<br />

palácio só teria condições de <strong>se</strong> formar<br />

caso os detentores dos Poderes I, II e<br />

III qui<strong>se</strong>s<strong>se</strong>m livremente resignar-<strong>se</strong> a<br />

uma passividade "merovíngia" diante<br />

da avançada dos Poderes IV e V.<br />

Mas - objetará alguém - o que<br />

podem os três Podere~ oficiais neste<br />

momento de convergência dos dois<br />

Poderes extra-oficiais? Fechar, por e­<br />

xemplo, as Comunidades de Ba<strong>se</strong>?<br />

Cercear a liberdade da CNBB e dos<br />

Meios de Comunicação Social?<br />

Tudo isso <strong>se</strong>ria pelo menos inábil e<br />

até contraproducente (12).<br />

(12) Cfr. PuNJO C oRR~A DE OuvEJR A, A<br />

Igreja ante a escalada da ameaça comunista -<br />

Apelo aos Bispos Silenciosos, Editora Vera<br />

Cruz, São Paulo, 4.ª ed., 1977, p. 82; PUNJO<br />

C ORR~A DE ÜUVE JRA E C ARLOS PATR JCJO DEL<br />

C AM PO, Sou católico: posso <strong>se</strong>r contra a Ref<br />

orma Agrária?, Editora Vera Cruz, São Paulo,<br />

3.ª ed ., 198 1, p. 72.<br />

Bastará que as elites dirigentes do<br />

País despertem de <strong>se</strong>u letargo e abram<br />

os olhos para a situação, na qual<br />

abobadamente <strong>se</strong> vão deixando enlear,<br />

para que a fina <strong>se</strong>nsibilidade<br />

tática dos Poderes extra-oficiais os<br />

faça tomar outros rumos. E também<br />

para que os Poderes oficiais encontrem<br />

ambiente para <strong>se</strong> defender de<br />

modo cômodo, embora dentro da estrita<br />

conformidade com as leis vigentes.<br />

O pre<strong>se</strong>nte livro é um apelo para<br />

que abram os olhos as elites em letargo.<br />

E estas, em rigor de justiça, só<br />

podem ver nele um gesto de colaboração<br />

da TFP, um testemunho de<br />

apreço ao prestígio que elas têm junto<br />

ao País, e à nobre missão natural que<br />

lhes cabe no organismo social.<br />

Só poderá este livro desagradar<br />

aos que não queiram <strong>se</strong>r despertados<br />

de <strong>se</strong>u delicioso sonho. Ou, então, a<br />

quem não de<strong>se</strong>je que eles abram os<br />

olhos. Se estes últimos forem <strong>muito</strong>s,<br />

e con<strong>se</strong>guirem manter em letargo as<br />

elites nacionais, não restará outro remédio<br />

<strong>se</strong>não pedir a Deus que tenha<br />

pena do Brasil. ..<br />

Pois só Ele pode salvar uma nação<br />

cujas elites optam pelo sono.<br />

Que as elites despertem<br />

de <strong>se</strong>u letargo<br />

59


I<br />

entrRE curo<br />

CGC\'9Slõ.,<br />

Sent IRe cum ·<br />

R om~JJO Pont1~<br />

"<br />

rc-e,<br />

SentIR€ çum<br />

ep1scopo.<br />

. .<br />

~.<br />

belíssimas máximas.<br />

•<br />

A,té elas<br />

adem <strong>se</strong>r entendi<strong>das</strong> de modo de or


A intelecção def armada do tríplice "<strong>se</strong>ntire"<br />

("cum Romano Pontífice", "cum Episcopo", "cum Parocho")<br />

favorece largamente<br />

a eficácia da<br />

ação reformista<br />

da CNBB


~<br />

Pressão de cúpula<br />

e pressão de ba<strong>se</strong><br />

<strong>se</strong> conjugam<br />

E NATURAL que um leitor<br />

embalado no letargo atrás<br />

descrito, <strong>se</strong> sinta em pre<strong>se</strong>nça de um<br />

como que pesadelo, ao ler os Capítulos<br />

anteriores. Pesadelo tanto mais<br />

desagradável quanto apre<strong>se</strong>nta desde<br />

logo, aos olhos dele, vários aspectos<br />

de óbvia verossimilhança com a realidade,<br />

no que toca à pressão de cúpula<br />

dos dois Poderes extra-oficiais sobre<br />

os três oficiais. Mas também de <strong>se</strong>nsí- ,<br />

vel inverossimilhança em <strong>muito</strong> do que<br />

foi dito sobre a pressão de ba<strong>se</strong> promovida<br />

pela CNBB atr~vés <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>.<br />

Com ef eíto, não é fácil imaginar<br />

que, simplesmente por meio <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>,<br />

possa a CNBB levar a uma avançada<br />

geral contra o regime de propriedade<br />

atualmente em vigor, a imensa massa<br />

dos trabalhadores manuais do Brasil.<br />

E isto em tempo bastante curto para<br />

favorecer as grandes reformas sócioeconômicas<br />

cuja urgência o V Poder<br />

proclama com insistência.<br />

Demonstrar a viabilidade de tal<br />

tarefa é pois es<strong>se</strong>ncial para que, por<br />

sua vez, pareça viável o conjunto do<br />

plano reformista arvorado pelo V Poder,<br />

e o leitor sinta que não está diante<br />

de uma quimera. E assim reaja.<br />

Da demonstração disto <strong>se</strong> de<strong>se</strong>mpenharam<br />

Gustavo Antonio Solimeo<br />

e Luiz Sergio Solimeo com profundidade,<br />

acerto e esmero, como o leitor<br />

comprovará na Parte II do pre<strong>se</strong>nte<br />

trabalho. Aqui apenas toca dar uma<br />

vista sumária do contexto no qual <strong>se</strong> ·<br />

in<strong>se</strong>re a impressionante realidade descrita<br />

na Parte II, a fim de assim<br />

encaminhar o leitor para outras considerações<br />

ainda.<br />

* * *<br />

<strong>As</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong><br />

são grupos recrutados o mais <strong>das</strong> vezes<br />

por elementos do Clero <strong>se</strong>cular e<br />

Provas: a Parte II<br />

do pre<strong>se</strong>nte trabalho<br />

62


A influência do<br />

Clero: o "<strong>se</strong>ntire<br />

cum Romano<br />

Pontífice"<br />

regular, por Ordens e Congregações<br />

religiosas femininas, entre os católicos<br />

mais atraídos pelo tema religioso, que<br />

precisamente por o <strong>se</strong>rem, <strong>se</strong> acercam<br />

sponte sua dos repre<strong>se</strong>ntantes qualificados<br />

da Igreja.<br />

A própria posição religiosa des<strong>se</strong>s<br />

fiéis os torna peculiarmente receptivos<br />

a todo ensinamento, a toda diretriz<br />

emanada da Autoridade eclesiástica.<br />

Compenetrados, a justo título, dos<br />

dogmas do Primado do Soberano<br />

Pontífice e da Infalibilidade Papal,<br />

definidos por Pio IX em 1870, no<br />

Concílio Vaticano I, a deficiente formação<br />

religiosa deles leva-os entretanto<br />

a atribuir a estes dogmas uma<br />

extensão que de fato eles não têm (1).<br />

(1) A Constituição Pastor Aeternus, do<br />

Concílio Vaticano 1, estabelece as condições<br />

necessárias para o exercício da infalibilidade<br />

nas definições pontifícias. O Papa é infalível<br />

"quando <strong>fala</strong> ex cathedra. isto é, quando, no<br />

uso de sua prerrogativa de Doutor e Pastor de<br />

rodos os cristãos, e por sua suprema autoridade<br />

apostólica, define a doutrina que em<br />

matéria de Fé e Moral deve <strong>se</strong>r sustentada por<br />

toda a Igreja" (DENZINGER-ÜMBERG, Enchiridion<br />

Symbolorum, Herder, Barcelona, ed. 24,<br />

1946, n. 0 1839).<br />

São quatro, porta nto, as condições necessárias<br />

para que haja um pronuncia mento infalível<br />

do Papa ( classificado por teólogos como<br />

Magistério Pontifício extraordinário):<br />

1. 0 ) que ó Papa fale como Doutor e Pastor<br />

universal;<br />

2. 0 ) que u<strong>se</strong> da plenitude de sua autoridade<br />

apostólica;<br />

3. 0 ) que manifeste a vontade de definir;<br />

4. 0 ) que trate de Fé e Moral.<br />

Faltando uma dessas quatro condições, o<br />

pronunciamento papal não é por si próprio<br />

infalível.<br />

Mas o ensinamento pontifício infalível pode<br />

dar-<strong>se</strong> ainda no Magi tério ordinário (isto é,<br />

o Magistério comum do Papa, em que cada<br />

pronunciamento não é de si infalível, como<br />

sucede geralmente nas Encíclicas, Alocuções<br />

etc.). <strong>As</strong>sim, quando uma larga série de Papas<br />

ensina a toda a Igreja, constantemente e por


Parte I<br />

Capítulo III<br />

"Sentire cum<br />

Episcopo", "<strong>se</strong>ntire<br />

cum Parocho"<br />

dade. Que, analogamente, todos os<br />

Bispos, na mais perfeita união com o<br />

Papa, não fazem <strong>se</strong>não acatar com a<br />

mais entusiasmada e perfeita meticu-<br />

Ademais, compenetrados, também a<br />

justo título, da santidade da Igreja,<br />

imaginam tais fiéis importar em ato de<br />

impiedade o simples admitir que o<br />

relacionamento entre o Papa e os Bispos,<br />

os Bispos e o Clero, e, de modo<br />

geral, o procedimento deste para com<br />

os fiéis, possa não corresponder <strong>muito</strong><br />

exatamente ao que <strong>se</strong>ria ideal.<br />

Daí decorre imaginarem eles que<br />

to<strong>das</strong> as intenções do Sumo Pontífice,<br />

todo o <strong>se</strong>u modo de considerar a realidade<br />

pre<strong>se</strong>nte, e todos os <strong>se</strong>us atos<br />

concretos <strong>se</strong> beneficiam da infalibililongo<br />

tempo, a mesma doutrina como integrante<br />

da Doutrina revelada, deve-<strong>se</strong> admitir a<br />

infalibilidade de ta l Magistério, pois, do contrá<br />

rio, induziria a Igreja em erro (cfr. J osEPH us<br />

A. DE ALDAMA S.J., Mariologia, in Sacrae<br />

Theologiae Summa, BAC, Matriti, 1961. vol.<br />

III , p. 41 8).<br />

Segundo a fórmula clássica de São Vicente<br />

de Lerins, o católico deve crer naquilo que foi<br />

ensinado <strong>se</strong>mpre, em todos os luga res e por<br />

todos: "quod <strong>se</strong>mper, quod ubique, quod ab<br />

omnibus". Pois falharia a assistênci a do Espírito<br />

Santo à Igreja <strong>se</strong> uina doutrina ensinada<br />

sob essas três condições pudes<strong>se</strong> <strong>se</strong>r falsa.<br />

Os teólogos enumeram ainda vários outros<br />

casos em que pode ocorrer um ensinamento<br />

infalível do Papa: as canonizações (<strong>se</strong>mpre), a<br />

Liturgia, as leis eclesiásti cas, a a provação de<br />

Regras de Ordens e Congregações religiosas.<br />

O que <strong>se</strong> diz do ensinamento pa pa l, a plica<strong>se</strong><br />

também ao ensinamento unâ nime dos Bispos<br />

em união com o Papa. <strong>As</strong>sim, o pronunciamento<br />

solene dos Bispos em união com o<br />

Papa - Magisrério Universal exrraordinário<br />

- é ta mbém por si próprio infalível. Entreta<br />

nto. no Magisrério Un iversal ordinário, isto<br />

é, no Magistério comum d os Bispos em união<br />

com o Pa pa, cada pronuncia mento não é de si<br />

infa lível.<br />

Ê possíve l que a lgum documento pontifício<br />

o u conciliar <strong>se</strong> oponha frontalmente a<br />

ensinamentos infalíve is do passado? Ê evidente<br />

que, <strong>se</strong> o novo pronuncia mento é ta mbém<br />

infa lível, ta l o posição não pode existir. Mas <strong>se</strong><br />

não o é, a utores de peso - como São Roberto<br />

Bellarmino, Suarez, Melchior Cano, Domingos<br />

Soto - encaram tal hipóte<strong>se</strong> como teologicamente<br />

possível. E é ma nifesto que o cató-<br />

1ico deveria então perma necer fiel à doutrina<br />

infalíve l. Essa hipóte<strong>se</strong> leva ria os estudiosos à<br />

questão multi-<strong>se</strong>cula r, em que <strong>se</strong> empenhara m<br />

es pecia lmente os ma io res teólogos dos Tempos<br />

Modernos, da poss ibilidade de um Papa herege<br />

(cfr. AR NA LDO V . XAVIER DA SILVEIRA, Qual<br />

a auroridade dourrinária dos documenros p onrifícios<br />

e conciliares?, "Catolicismo", n.ú 202.<br />

outubro de 1967).<br />

65


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

A ré com o sacristão<br />

...<br />

losidade todos os ensinamentos e ordens<br />

emana<strong>das</strong> de Roma. E que o<br />

mesmo fazem os Sacerdotes em relação<br />

aos Bispos, e as Religiosas em<br />

relação aos Sacerdotes.<br />

Essa concepção, <strong>se</strong>m dúvida louvável<br />

quanto ao espírito de fé do qual<br />

procede, tem como recíproca que toda<br />

palavra de um Sacerdote, e até mesmo<br />

de uma Freira, deve <strong>se</strong>r acatada como<br />

<strong>se</strong> fos<strong>se</strong> da própria Igreja!<br />

Dessa maneira, a máxima santa e<br />

verdadeira do "<strong>se</strong>ntire cum Romano<br />

Pontífice" - maneira excelente de<br />

"<strong>se</strong>ntire cum Ecclesia" - é <strong>muito</strong> simplisticamente<br />

(simploriamente, talvez<br />

fos<strong>se</strong> melhor dizer) transposta para<br />

todo e qualquer ato pessoal do Papa.<br />

E depois, analogamente, para o escalão<br />

imediato: "<strong>se</strong>ntire cum Episcopo".<br />

E ainda para o escalão paroquial:<br />

"<strong>se</strong>ntire cum Parocho".<br />

"Sentire" até com o sacristão, dis<strong>se</strong><br />

certa vez um católico praticante, que<br />

exerce de modo idôneo uma função<br />

profissional de responsabilidade, tem<br />

traquejo da vida, e olhos para ver. ..<br />

* * *<br />

podem facilmente levá-los às posições<br />

ideológicas mais inespera<strong>das</strong>. E até às<br />

mais dissonantes com o que é o ensino<br />

tradicional e infalível da Santa Igreja<br />

(2).<br />

A ação normal do Clero vai de<br />

fato <strong>muito</strong> além dos simpáticos núcleos<br />

de fervorosos. Por meio de <strong>se</strong>rmões,<br />

da confissão, <strong>das</strong> múltiplas relações<br />

pessoais a que o exercício do Sacerdócio<br />

dá lugar, é-lhe possível influenciar<br />

uma quantidade indefinida de pessoas.<br />

E sua ação é ainda mais ampliada<br />

pelas escolas de todo grau, orfanatos,<br />

instituições de caridade e outras<br />

obras manti<strong>das</strong> e dirigi<strong>das</strong> pela Igreja.<br />

Em todo es<strong>se</strong> público, muitas pessoas<br />

há que, mais fervorosas ou menos,<br />

supõem entretanto que a plena fide-­<br />

lidade à Igreja consiste em praticar<br />

es<strong>se</strong>s três "<strong>se</strong>ntire" exatamente como<br />

acima descritos. O que, por sua vez,<br />

leva a que junto a um número <strong>muito</strong><br />

grande de pessoas, o prestígio da Igreja<br />

- certamente menor do que entre<br />

os fervorosos, mas nem por isto inexistente<br />

- possa <strong>se</strong>r instrumentalizado<br />

pela ação de um Sacerdote ou de<br />

Influência de amp<br />

litude indefinida<br />

Lurra o v Poder<br />

Com a imensa influência que es<strong>se</strong><br />

tríplice e hipertrofiado "<strong>se</strong>ntire" lhes<br />

confere sobre a maior parte dos mais<br />

ardorosos dentre <strong>se</strong>us fiéis , o Sacerdote<br />

ou a Religiosa inteiramente afinados<br />

com as diretrizes da CNBB<br />

(2) Ou <strong>se</strong>ja, as definições impostas a todos<br />

os católicos pelo Supremo Magistério, bem como<br />

o ensinamento uniforme do <strong>se</strong>u Magistéri<br />

o ordinário e universal no decurso dos séculos<br />

(cfr. OENZINGER-UMBERG, Enchiridion Symbolorum,<br />

Herder, Barcelona, ed. 24, 1946, n. ºs<br />

1683 e 1792).<br />

66


Capítulo l/1<br />

A influência normal do Clero, que <strong>se</strong> exerce por<br />

meio de <strong>se</strong>rmões, da confissão, <strong>das</strong> múltiplas<br />

relações pessoais a que o exercício do Sacerdócio<br />

dé lugar, é acrescida pela verdadeira<br />

"reciclagem" doutrinéria e psicológica imposta<br />

pela CNBB à massa da população através da<br />

obrigatoriedade dos cursos de preparação para<br />

noivos e para padrinhos de batizado.<br />

uma Freira. Por vezes até mediante<br />

um simples con<strong>se</strong>lho, uma palavra,<br />

um aceno ...<br />

Pode-<strong>se</strong> compreender facilmente a<br />

que espantosas con<strong>se</strong>qüêccias conduz<br />

em nossos dias o "jogo" des<strong>se</strong> tríplice<br />

"<strong>se</strong>ntire", entendido com tais imprecisões<br />

e extensão; e qual a amplitude<br />

indefinida dos círculos de influência<br />

que um Sacerdote pode desta maneira<br />

exercer.<br />

Tal influência é ainda acrescida<br />

pela verdadeira "reciclagem" doutrinária<br />

e psicológica imposta pela CN­<br />

BB à massa da população, pela obrigatoriedade<br />

dos cursos de preparação<br />

para noivos, como para padrinhos-de<br />

batizado.<br />

Nes<strong>se</strong>s cursos, as doutrinas progressistas<br />

e esquerdistas podem <strong>se</strong>r<br />

livremente inculca<strong>das</strong> em nome da<br />

Religião, em pessoas que tinham anteriormente<br />

uma formação católica tradicional.<br />

Quem não <strong>se</strong>gue tais cursos fica<br />

em situação análoga à de um excomungado,<br />

pois sofre a punição de não<br />

poder casar-<strong>se</strong>, de não poder <strong>se</strong>r padrinho<br />

de batizado etc. ( cf r. Parte II,<br />

Cap. 1, 3).<br />

Es<strong>se</strong> draconianismo religioso é e­<br />

xatamente o contrário do ecumenismo<br />

tão freqüente na "esquerda católica" e<br />

nos meios progressistas. E - note-<strong>se</strong><br />

- deixa a Igreja em situação confusa.<br />

Pois enquanto têm caído vertiginosamente<br />

os costumes, e as leis discriminatórias<br />

entre católicos e hereges vão<br />

desaparecendo, cada vez mais <strong>se</strong> vai<br />

apertando o cerco contra os que permanecem<br />

fiéis à doutrina tradicional.<br />

O que, tudo, favorece largamente a<br />

ação reformista da CNBB.<br />

A "reciclagem"<br />

doutrinária e psicológica<br />

imposta<br />

aos fiéis<br />

67


A maior cri<strong>se</strong> da<br />

História da Igreja<br />

J o ã o Paulo li:<br />

"foram difundi<strong>das</strong><br />

verdadeiras heresias"<br />

C OMO ninguém<br />

Igreja atravessa em nossos<br />

dias a maior cri<strong>se</strong> de sua venerável<br />

existência, vinte vezes <strong>se</strong>cular. E nessa<br />

cri<strong>se</strong> estão compreendidos, não só fiéis,<br />

como também Religiosos de ambos os<br />

<strong>se</strong>xos, Sacerdotes, e altos Prelados ( I ).<br />

Tal realidade encontra eco em mais<br />

de um documento pontifício. João<br />

Paulo II assim descreveu a desolação<br />

hoje reinante na Igreja: "É necessário<br />

admitir realisticamente e com profundá-<br />

e <strong>se</strong>ntida <strong>se</strong>nsibilidade que os cristãos<br />

hoje, em grande parte, <strong>se</strong>ntem-<strong>se</strong><br />

perdidos, confusos, perplexos e até<br />

ignora, a<br />

(1) Quanto a essa cri<strong>se</strong> no Brasil, cfr. Pu­<br />

NIO CoRRl:.A DE OuvEIRA, A Igreja ante a escalada<br />

da ameaça comunista - Apelo aos Bispos<br />

Silenciosos, Editora Vera Cruz, São Paulo, 4.•<br />

ed., 1977; PuN10 C o RR l:.A DE OuvEIRA, Tribalismo<br />

indígena, ideal comuna-missionário para o<br />

Brasil no século XXI, Editora Vera Cruz, São<br />

Paulo, 7.• ed., 1979.<br />

desiludidos: foram divulga<strong>das</strong> prodigamente<br />

idéias contrastantes com a<br />

Verdade revelada e desde <strong>se</strong>mpre ensinada;<br />

foram difundi<strong>das</strong> verdadeiras<br />

heresias, no campo dogmático e moral,<br />

criando dúvi<strong>das</strong>, confusões e rebeliões;<br />

alterou-<strong>se</strong> até a Liturgia; imersos<br />

no 'relativismo' intelfctual e moral<br />

e por con<strong>se</strong>guinte no permissivismo,<br />

os cristãos sãc tentados pelo ateísmo,<br />

pelo agnosticismo, pelo iluminismo<br />

vagamente moralista, por um cristianismo<br />

sociológico, <strong>se</strong>m dogmas definidos<br />

e <strong>se</strong>m moral objetiva" (Alocução<br />

de 6 de fevereiro de 1981, aos<br />

Re_ligiosos e Sacerdotes participantes<br />

do I Congresso nacional italiano sobre<br />

o tema Missões ao povo para os anos<br />

80, "L'Os<strong>se</strong>rvatore Romano", 7-2-81).<br />

João Paulo II parece não fazer<br />

<strong>se</strong>não comentar anteriores afirmações<br />

de Paulo VI. Em Alocução aos alunos<br />

do Seminário Lombarda, em 7 de<br />

dezembro de 1968, dis<strong>se</strong> o Pontífice: A<br />

Paulo VI:" A Igreja<br />

é golpeada também<br />

pelos que dela<br />

fazem parte"<br />

70


Igreja atravessa hoje um momento de<br />

inquietude. Alguns praticam a autocrítica,<br />

dir-<strong>se</strong>-ia até a autodemolição.<br />

É como uma perturbação interior, a­<br />

guda e complexa, que ninguém teria<br />

esperado depois do Concílio. Pensava-<strong>se</strong><br />

num florescimento, numa expansão<br />

<strong>se</strong>rena dos conceitos amadurecidos<br />

na grande as<strong>se</strong>mbléia conciliar.<br />

Há ainda este aspecto na Igreja, o do<br />

florescimento. Mas posto que 'bonum<br />

ex integra causa, malum ex quocumque<br />

defectu', fixa-<strong>se</strong> a atenção mais<br />

especialmente sobre o aspecto doloroso.<br />

A Igreja é golpeada também<br />

pelos que dela fazem parte (/n<strong>se</strong>gnamenti<br />

di Paolo VI, Tipografia Poliglotta<br />

Vaticana, vol. VI, p. 1188 -<br />

destaques nossos; as palavras não são<br />

textuais do Pontífice e sim do resumo<br />

que delas apre<strong>se</strong>nta a Poliglotta Vaticana).<br />

Paulo VI volta ao tema na Alocução<br />

Resistite fortes in fide, de 29 de<br />

junho de 1972 (as palavras textuais do<br />

Pontífice são apenas as cita<strong>das</strong> entre<br />

aspas no resumo da Alocução apre<strong>se</strong>ntado<br />

pela Poliglotta):<br />

Referindo-<strong>se</strong> à situação da Igreja<br />

de hoje, o Santo Padre afirma ter a<br />

<strong>se</strong>nsação de que "por alguma fissura<br />

tenha entrado a fumaça de Satanás no<br />

templo de Deus". Há a dúvida, a<br />

incerteza, o complexo dos problemas,<br />

a inquietação, a insatisfação, o confronto.<br />

Não <strong>se</strong> confia mais na Igreja;<br />

confia-<strong>se</strong> no primeiro profeta profano<br />

[ estranho à Igreja] que nos venha f a­<br />

lar, por meio de algum jornal ou<br />

movimento social, a fim de correr<br />

atrás dele e perguntar-lhe <strong>se</strong> tem a<br />

fórmula da verdadeira v,da. E não<br />

nos damos conta de já a possuirmos<br />

e <strong>se</strong>rmos mestres dela. Entrou a dúvida<br />

em nossas consciências, e entrou<br />

por janelas que deviam estar abertas<br />

à luz. Da ciência, que é feita para<br />

nos oferecer verdades que não af as-<br />

Paulo VI: ~a fumaça<br />

de Satanás<br />

no templo de<br />

Deustt<br />

71


A bela Imagem da<br />

Virgem <strong>das</strong> Légrim<br />

as, da Basflica de<br />

Sl o Joio de Deus<br />

em Granada (E spanha),<br />

verteu lágrimas<br />

de sangue, no<br />

dia 13 de m eio deste<br />

ano. Possam es<br />

sas lágrimas de<br />

Rainha e Mie penetrar<br />

os nossos co­<br />

\ º _ rações, e fazer-nos<br />

\ ~ encarar com uma<br />

· , { ) <strong>se</strong>riedade superla-<br />

• • tiva a gravidade dos<br />

1 1<br />

· fenômenos da au-<br />

, : todemolíção" da<br />

Igreja e da penetraçlo<br />

da "fumaça de<br />

Satanás no Templo<br />

de Deus".<br />

tam de Deus, mas nos fazem procurá-10<br />

ainda mais, e ainda mais intensamente<br />

glorificá-10, veio pelo contrário<br />

a crítica, veio a dúvida. Os<br />

cientistas são aqueles que mais pensada<br />

e dolorosamerzte curvam a fronte.<br />

E acabam por revelar: "Não <strong>se</strong>i,<br />

não <strong>sabe</strong>mos, não podemos <strong>sabe</strong>r". A<br />

escola torna-<strong>se</strong> um local de prática da<br />

confusão e de contradições, às vezes<br />

absur<strong>das</strong>. Celebra-<strong>se</strong> o progresso para<br />

melhor poder demoli-lo com as mais<br />

estranhas e radicais revoluções, para<br />

negar tudo aquilo que <strong>se</strong> conqÚistou,<br />

para voltar a <strong>se</strong>r primitivos, depois de<br />

ter exaltado tanto os progressos do<br />

mundo moderno.<br />

Também na Igreja reina este estado<br />

de incerteza. Acreditava-<strong>se</strong> que,<br />

depois do Concilio, viria um dia ensolarado<br />

para a História da Igreja. Veio,<br />

pelo contrário, um dia cheio de nuvens,<br />

de tempestade, de escuridão, de<br />

indagação, de ince,:teza. Pregamos o<br />

ecumenismo, e nos afastamos <strong>se</strong>mpre<br />

mais uns dos outros. Procuramos cavar<br />

abismos, em vez de soterrá-los.<br />

Como aconteceu isto? O Papa confia<br />

aos pre<strong>se</strong>ntes um pensamento <strong>se</strong>u:<br />

o de que tenha havido a intervenção<br />

de um poder adverso. O <strong>se</strong>u nome é<br />

diabo, este misterioso <strong>se</strong>r a que também<br />

alude São Pedro em sua Epístola<br />

[ que o Pontífice comenta na Alocução].<br />

Tantas vezes, por outro lado,<br />

retorna no Evangelho, nos próprios<br />

lábios de Cristo, a menção a este<br />

inimigo dos homens. "Cremos - ob<strong>se</strong>rva<br />

o Santo Padre - que alguma<br />

coisa de preternatural veio ao mundo<br />

justamente para perturbar, para sufocar<br />

os frutos do Concilio Ecumênico,<br />

e para impedir que a Igreja prorrompes<strong>se</strong><br />

num hino de alegria por ter<br />

readquirido a plenitude da consciência<br />

de si" (/n<strong>se</strong>gnamrnti di Paolo VI,<br />

Tipografia Poliglotta Vaticana, vol.<br />

X, pp. 707-709).<br />

Se a Sagrada Hierarquia reagis<strong>se</strong><br />

unânime, compacta e claramente, contra<br />

essa situação trágica, o quadro da<br />

realidade religiosa contemporânea <strong>se</strong><br />

nos apre<strong>se</strong>ntaria límpido e simples de<br />

72


Parte l<br />

Capítulo I V.<br />

Personalidades dL1<br />

Hierarquia cooperam<br />

com o invasor<br />

da cidadela sagrada<br />

descrever: os Hierarcas resistindo como<br />

um torreão fortificado da cidadela<br />

sagrada, ajudados por número maior<br />

ou menor de leigos, de um lado; e, de<br />

outro lado, os invasores que irromperam<br />

muralhas a dentro, e empenham<br />

todos os <strong>se</strong>us esforços no assalto<br />

supremo.<br />

Basta correr os olhos sobre a Cristandade<br />

de nossos dias para perceber<br />

desde logo que tal não é o quadro. E<br />

que, a <strong>se</strong> utilizar a metáfora do torreão<br />

e da cidadela, deve-<strong>se</strong> dizer que<br />

partes do torreão também já estão em<br />

mãos do adversário. Ou <strong>se</strong>ja, personalidades<br />

da Sagrada Hierarquia -<br />

ressalva<strong>das</strong> as intenções! - cooperam<br />

com o mvasor.<br />

É fácil avaliar que desolador efeito<br />

isso pode ter especificamente no Brasil.<br />

Considere-<strong>se</strong> que todo personagem<br />

hierárquico constitui, para incontáveis<br />

católicos brasileiros, a imagem fidelíssima<br />

do Romano Pontífice, e <strong>se</strong> aquilatará<br />

a que prodigiosa confusão conduz<br />

inevitavelmente, em nossos dias, o<br />

princípio do tríplice "<strong>se</strong>ntire".<br />

* * *<br />

Teologia da Uber- Ao <strong>se</strong>rviço dessa confusão está u-<br />

tação ma corrente de teologia, dita "da libertação".<br />

Não é este o lugar de lhe expor<br />

na íntegra o conteúdo doutrinário.<br />

Basta dizer sumariamente que, a­<br />

lentada na Conferência do Episcopa-<br />

Uma igreja <strong>se</strong>midestrulda. A destruição é triste.<br />

Quanto m ais a autodestruiçilol<br />

73


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>. <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Em sua Alocução de abertura da Ili Conferência do Episcopado Latino-Americano em Puebla<br />

(México), Joi o Paulo .li condenou a doutrina da Teologia da Libertação que apre<strong>se</strong>nta No110<br />

Senhor Jesus Cri_sto "como po/ltico, revolucionário, como o subversivo de Nazaré".<br />

do latino-americano em Medellin, em<br />

1968 (2), e explicitada pelos teólogos<br />

Gustavo Gutiérrez e Hugo <strong>As</strong>smann,<br />

ela <strong>se</strong> expandiu largamente em círculos<br />

teológicos de todo o mundo. E que<br />

sua doutrina procura dar fundamento<br />

na Sagrada Escritura, aos erros veiculados<br />

por duas correntes doutrinárias<br />

distintas, mas intimamente conjuga<strong>das</strong><br />

entre si.<br />

Uma é constituída pelo progressismo<br />

no campo da Teologia, da Filosofia<br />

e da Moral, com os con<strong>se</strong>qüentes<br />

reflexos entre os estudiosos do Direito<br />

Canônico, da História Eclesiástica etc.<br />

E a outra pelo esquerdismo no campo<br />

Pr ogressism o ­<br />

esquerdismv<br />

(2) Afirma o PE. 8 ATIISTA MoNDIN (professor<br />

na Pontifícia Universidade Urbaniana de<br />

Roma e colaborador habitual de "L'Os<strong>se</strong>rvatore<br />

Romano"): "O primeiro impulso para a<br />

elaboração de uma teologia da libertação foi<br />

dado pela célebre conferência do episcopado<br />

latino-americano realizada em Medel/ín em<br />

1968. Naquela circunstância a Igreja da América<br />

do Sul lançou as ba<strong>se</strong>s da teologia da<br />

libertação" ( Os teólogos da libertação, Edições<br />

Paulinas, São Paulo, 1980, p. 30).<br />

No mesmo <strong>se</strong>ntido escreve RA UL VmALEs,<br />

na revista "Concilium": "Foi no encontro do<br />

CELAM, em Mede/lín (1968) que a teologia da<br />

liberração adquiriu o <strong>se</strong>u direito de cidadania.<br />

Se não é possível afirmar que nasceu naquela<br />

ocasião, devemos todavia notar que esta circunstância<br />

marcou sua acolhida oficial e deu o<br />

impulso ao futuro movimento e trabalho teológico<br />

na prospectiva da libertação .... É, pois,<br />

a partir de Mede/lín que o empenho, a reflexão<br />

teológica e a mesma produção literária<br />

sobre o tema da libertação não só <strong>se</strong> tornam<br />

explícitas como também <strong>se</strong> intensificam" (Acquisizioni<br />

e compiti dei/a teologia latinoamericana,<br />

"Concilium", n. 0 4, 1974, p. 154<br />

- apud PE. BATIISTA MoNDIN, op. cit., p. 30,<br />

nota 9).<br />

74


Parte/<br />

A Teologia da Libertação<br />

a <strong>se</strong>rviço<br />

da autodemolição<br />

da sociologia católica, também com<br />

reflexos con<strong>se</strong>qüentes nos estudos de<br />

Economia e de Política promovidos<br />

sob a influência católica, bem como<br />

na vida, no pensamento e na ação <strong>das</strong><br />

correntes políticas denomina<strong>das</strong> "democratas-cristãs",<br />

"socialistas cristãs",<br />

"socialistas católicas" etc.<br />

* * *<br />

A doutrina da Teologia da Libertação<br />

foi condenada <strong>se</strong>m rebuços por<br />

João Paulo II em sua Alocução de<br />

Puebla (3). Não obstante, ela continua<br />

a <strong>se</strong> expandir tranqüilamente por todo<br />

o Brasil.<br />

Tal "teologia" põe ao alcance dos<br />

vários escalões eclesiásticos que a quei-<br />

Em que pe<strong>se</strong> a advertência<br />

de Joi o<br />

Paulo li, a Teologia<br />

da Libertação continua<br />

fazendo suas<br />

devastações: na<br />

Revolução Sandinista<br />

da Nicarágua,<br />

cujo caráter marxista<br />

nAo chegou a<br />

<strong>se</strong>r disfarçado, a<br />

participação de freiras<br />

foi ostensiva,<br />

como esta que ajuda<br />

um guerrilheiro<br />

ferido em Matagalpa.<br />

(3) São palavras do Pontífice:<br />

"Circulam hoje em <strong>muito</strong>s lugares - o fenômeno<br />

não é novo - 'releituras' do Evangelho,<br />

resultado de especulações teóricas mais do<br />

que de autêntica meditação da palavra de Deus<br />

e de um verdadeiro compromisso evangélico.<br />

Elas causam confusão ao <strong>se</strong> apartarem dos<br />

critérios centrais da Fé da Igreja, caindo-<strong>se</strong><br />

ademais na remeridade de comunicá-las, à<br />

maneira de cateque<strong>se</strong>, às comunidades cristãs.<br />

Em alguns casos, ou <strong>se</strong> silencia a divindade<br />

de Cristo, ou <strong>se</strong> incorre de/ato em formas<br />

de interpretação conflitantes com a Fé da<br />

Igreja. Cristo <strong>se</strong>ria apenas um 'profeta', um<br />

anunciador do Reino e do amor de Deus,<br />

porém não o verdadeiro Filho de Deus, nem<br />

<strong>se</strong>ria portanto o centro e o objeto da própria<br />

mensagem evangélica.<br />

Em outros casos <strong>se</strong> pretende mostrar a<br />

Jesus como comprometido politicamente, como<br />

um lutador contra a dominação romana e<br />

contra os poderes e, inclusive, como implicado<br />

na luta de clas<strong>se</strong>s. Esta concepção de<br />

Cristo como político, revolucionário, como o<br />

subversivo de Nazaré, não <strong>se</strong> compagina com a<br />

cateque<strong>se</strong> da Igreja. Confundindo o pretexto<br />

insidioso dos acusadores de Jesus com a atitude<br />

de Jesus mesmo - bem diversa - <strong>se</strong> aduz<br />

como causa de sua mbrte o de<strong>se</strong>nlace de um<br />

conflito político e <strong>se</strong> silencia a vontade de<br />

entrega do Senhor, e ainda a consciência de<br />

sua missão redentora" (ln<strong>se</strong>gnamenti di Giovanni<br />

Paolo li, Libreria Editrice Vaticana, vol.<br />

II, 1979, pp. 192-193).<br />

E mais.adiante: "Percebe-<strong>se</strong>, às vezes, certo<br />

mal-estar relacionado com a própria interpre-<br />

75


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> muiro <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

ram usar, os textos da Escritura que,<br />

por ela interpretados, podem <strong>se</strong>rvir de<br />

ba<strong>se</strong> para a atuação dos elementos<br />

afinados com o programa reformista<br />

da CNBB. E pode, assim, transformar<br />

os leigos em artífices dessa reforma,<br />

na medida mesma em que eles <strong>se</strong>Jam<br />

<strong>se</strong>nsíveis à voz da Igreja!<br />

Tantas potencialidades de ação suscita<strong>das</strong><br />

ou estimula<strong>das</strong> pelo progressismo<br />

pedem, por sua própria natureza,<br />

uma organização que dê, no<br />

tação da natureza e da missão da Igreja. A lu-·<br />

de-<strong>se</strong>, por exemplo, à <strong>se</strong>paração que alguns<br />

estabelecem entre Igreja e Reino de Deus. Este,<br />

esvaziado de <strong>se</strong>u conteúdo total. é entendido<br />

em <strong>se</strong>ntido mais bem <strong>se</strong>cularista: não <strong>se</strong> chegaria<br />

ao Reino pela Fé e pela pertencença à<br />

Igreja, mas pela simples mudança estrutural e<br />

pelo compromisso sócio-político. Onde há um<br />

certo tipo de compromisso e de praxis pela<br />

j ustiça, ali estaria iá pre<strong>se</strong>nte o Reino. Esquece-<strong>se</strong>,<br />

deste modo. que 'a Igreja .... recebe a<br />

missão de anunciar o Reino de Cristo e de<br />

Deus, e instaurá-lo em todos os povos, e<br />

constitui na terrà o germe e o princípio des<strong>se</strong><br />

Reino' (Lumen Gentium, n. 0 5)" (op. cit., p.<br />

197 - cfr. também PUNIO CoRRÍ:A DE ÜLIVEIRA,<br />

A mensagem de Puebla: notas e comentários, "Folha<br />

de S. Paulo", 26-3-79; 7, 14 e 26-4-79; 19-5-79).<br />

plano concreto, unidade de metas e de<br />

métodos aos clérigos e fiéis engajados<br />

no empreendimento de "reformar o<br />

Brasil".<br />

Esta organização é constituída pelas<br />

<strong>CEBs</strong>.<br />

* * *<br />

Tudo isto faz ver quanto de <strong>se</strong>iva<br />

vital circula nas <strong>CEBs</strong>. A Parte II do<br />

pre<strong>se</strong>nte trabalho mostra a doutrina<br />

dis<strong>se</strong>minada por estas, sua organização,<br />

<strong>se</strong>us métodos para recrutamento<br />

de aderentes, e para a ação des<strong>se</strong>s<br />

aderentes sobre o conjunto do corpo<br />

social.<br />

Ourro insrrumen-<br />

10 de autodemolição:<br />

as <strong>CEBs</strong> -<br />

sua eficácia<br />

76


Parte I<br />

Capiwlo I V<br />

<strong>As</strong>sim o leitor poder~ inteirar-<strong>se</strong><br />

da envergadura do organismo enquanto<br />

tal, e da eficácia de que é dotada a<br />

sutil e complicada metodologia que a<br />

este cabe pôr em ação. E, con<strong>se</strong>qüentemente,<br />

de to<strong>das</strong> as possibilidades de<br />

êxito que as <strong>CEBs</strong> levam consigo, anima<strong>das</strong><br />

e apoia<strong>das</strong> que são pela CNBB<br />

em todo o território nacional.<br />

O leitor poderá tomar conhecimento,<br />

na mesma Parte II deste trabalho,<br />

de algo do histórico <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> no<br />

Brasil, e dos resultados que estas proclamam<br />

ter alcançado.<br />

77


.....<br />

Capítulo V<br />

1 . .<br />

. ........ ,., . .<br />

:1 ·· 11ti . .,.::<br />

,~. : ..<br />

• ; . ~~;. . • : i · ! -


:. .. . --<br />

-<br />

.. . . .<br />

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A Teologia da Lib<br />

erra çã o. " reinterpreta"<br />

as Escrituras<br />

...<br />

e<br />

OMO <strong>se</strong> viu (cfr. Parte I,<br />

Cap. IV), está na Teologia<br />

da . Libertação a motivação religiosa<br />

da dedicação que os membros de primeiro,<br />

de <strong>se</strong>gundo, e até de terceiro<br />

escalão - Bispos, Sacerdotes e leigos<br />

- votam às <strong>CEBs</strong>. Se eles recrutam,<br />

articulam, organizam e dão impulso a<br />

estas, é es<strong>se</strong>ncialmente porque, em via<br />

de regra, numa primeira etapa <strong>se</strong> lhes<br />

persuadiu de que a doutrina da Igreja<br />

em matéria social - e, con<strong>se</strong>qüentemente,<br />

a atuação da Igreja face às<br />

situações sócio-econômicas contemporâneas<br />

- mudou, por efeito de uma<br />

interpretação mais fina, sutil e plástica<br />

dada à Sagrada Escritura por<br />

João XXIII e Paulo VI, e que João<br />

Paulo II vem continuando a de<strong>se</strong>nvolver<br />

( l).<br />

Mas aos que caminharam mais<br />

longe nessa trajetória, as coisas <strong>se</strong><br />

apre<strong>se</strong>ntam posteriormente de outra<br />

manein. Medellin e Puebla denunciaram<br />

uma "realidade" vista enquanto<br />

situação de pecado, de opressão e<br />

Medellin e Puebla<br />

(1) De que modo possa dar-<strong>se</strong> isto <strong>se</strong>m<br />

prejuízo da coerência entre Papas e Papas -<br />

imprescindível, J,'l que uns e outros são mestres<br />

autorizados e, conforme as circunstâncias,<br />

até infalíveis do inva riável ensinamento de<br />

Nosso Senhor J es us Cristo ("Jesus Christus<br />

heri et hodie, ip<strong>se</strong> et in saecula: Jesus Cristo<br />

ontem e hoje, ele mesmo <strong>se</strong>mpre por todos os<br />

séculos", Heb. XIII, 8) - é esta uma objeção<br />

<strong>das</strong> mais embaraçosas para a Teologia da<br />

Libertação como para as <strong>CEBs</strong>, que não afir-<br />

mam categoricamente que os Papas tradicionais<br />

erraram. O .único meio de <strong>se</strong> de<strong>se</strong>mbaraçar<br />

desta dificuldade consiste em escamoteála.<br />

E, por sua vez, o único meio de escamoteála<br />

consiste em qualificar como mera diferença<br />

de matizes o contraste entre os ensinamentos<br />

sócio-econômicos tradicionais da Igreja e os da<br />

Teologia da Libertação. Formulação vaga, e<br />

por isto mesmo ambígua, especialmente inaceitável<br />

em <strong>se</strong> tratando de matéria que não<br />

permite a menor ambiguidade. Ora, o que<br />

80


de injustiça estrutural. Esta "visão da<br />

realidade" <strong>se</strong>rve de ba<strong>se</strong> para a interpretação<br />

da doutrina católica e para a<br />

fixação do rumo da Igreja, o qual só<br />

pode <strong>se</strong>r um: combater a situação de<br />

pecado institucionalizadu nas estruturas<br />

sócio-políticas, econômicas e culturais<br />

da América Latina.<br />

Tornando essa "realidade" assim<br />

arbitrária e simplisticamente descrita<br />

como "lugar social" a partir do. qual <strong>se</strong><br />

devem interpretar as Sagra<strong>das</strong> Escrituras,<br />

es<strong>se</strong>s neo-exegetas deduzem que<br />

a Igreja não deve manter o statu quo<br />

atual, corrigindo-o apenas no necessário,<br />

pois nisso ela continuaria a pregar<br />

uma "religião alienante". Pelo contrário,<br />

ela deve <strong>se</strong>r revolucionária, pregando<br />

uma religião libertadora, cuja<br />

ação específica é, na prática, a derrocada<br />

do statu quo atual.<br />

Essa é a interpretação que a Teologia<br />

da Libertação faz de Medellin.<br />

Segundo ela, a realidade atual, conflitiva,<br />

dialética, marcada pela luta o­<br />

pressor x oprimido, dá origem a uma<br />

A Teologia da Libertação<br />

induz a<br />

Jazer política p or<br />

razões religiosas<br />

vem a <strong>se</strong>r precisamente um "matiz", em<br />

matéria como esta? A própria palavra matiz<br />

comporta tantas matizações... Entretanto,<br />

qualquer <strong>se</strong>ntido que <strong>se</strong> lhe dê, cumpre ponderar<br />

que nenhum há que <strong>se</strong> ajuste a diferenças<br />

- ·melhor <strong>se</strong>ria dizer contradições -<br />

tão evidentes como as que existem entre a<br />

Teologia da Libertação e o ensino tradicional<br />

do Supremo Magistério da Igreja. A gravidade<br />

de tal contradição fê-la notar João Paulo II em<br />

sua já citada alocução de Puebla, na abertura<br />

da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano<br />

(cfr. Parte I, Cap. IV, Nota<br />

3).<br />

Nada disto impediu, entretanto, como foi<br />

lembrado (Parte I, Cap. IV), que a Teologia da<br />

Libertação tives<strong>se</strong> continuado a vicejar e até a<br />

prosperar impunemente nas <strong>CEBs</strong>, a ponto de<br />

constituir a grande motivação es<strong>se</strong>ncial de <strong>se</strong>us<br />

dirigentes e de <strong>se</strong>us militantes, os <strong>quais</strong>, por<br />

sua vez, a vão inoculando gradualmente, e de<br />

início implicitamente, nos respectivos recrutas.<br />

81


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> mui10 <strong>se</strong> <strong>fala</strong>. <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Revolução religiosa<br />

e revolução a-<br />

1éia<br />

Mais eficaz a revolução<br />

religiosa<br />

nova interpretação da Escritura, do<br />

Dogma, da Moral, e portanto da Justiça.<br />

Em virtude dessa reinterpretação,<br />

a Teologia da Libertação induz a fazer<br />

política por razões religiosas (prática<br />

da justiça, amor de Deus, libertação<br />

do mundo sujeito ao pecado) e chega à<br />

<strong>se</strong>guinte conclusão: visto sob o prisma<br />

político, o amor de Deus é, por sua vez.<br />

um ato político, e <strong>se</strong> pratica pelas reformas<br />

de estrutura ( cf r. Parte II, Cap. li, 1 ).<br />

.• * *<br />

Tudo isto ponderado, e dada a<br />

grande afinidade do pensamento só:..<br />

cio-econômico existente entre as <strong>CEBs</strong><br />

e as correntes socialistas ou comunistas<br />

do Brasil ou de qualquer outro<br />

país, é-<strong>se</strong> levado a concluir que, grosso<br />

modo, a revolução sócio-econômica<br />

promovida por estas e a <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> são<br />

uma só.<br />

Diferencia-as apenas a natureza<br />

<strong>das</strong> respectivas motivações filosóficas<br />

e religiosas. O dirigente, militante ou<br />

recruta <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> deduz da Religião<br />

(reinterpretada pela Teologia da Libertação)<br />

as l'Onclusões sócio-econômicas<br />

que o PC e o PS deduzem da<br />

irreligião. Essa revolução religiosa e a<br />

revolução atéia têm, no mais, tudo ou<br />

qua<strong>se</strong> tudo para <strong>se</strong> irmanarem largamente<br />

no campo da ação.<br />

Entretanto, esta fundamentação religiosa<br />

da revolução confere às <strong>CEBs</strong>,<br />

Na foto, um circulo de estudos do IV Encontro<br />

lntereclesial de <strong>CEBs</strong>, realizado em ltaici, em<br />

abril deste ano. - A motivaçllo fundamentalmente<br />

religiosa <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> lhes dá uma possibilidade<br />

de êxito que o comunismo nl o tem. Este<br />

fez vencer uma revoluçllo atéia, derrubou igrejas<br />

(como esta, ao lado, no Vietnll), mas nllo<br />

matou a Religião. <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong>, pelo contrário,<br />

fazem uma revolução em nome da Religillo, e<br />

trabalham pela vitória - no próprio interior da<br />

Igreja - do laicismo pregado pela Teologia da<br />

Libertação.<br />

no mundo de hoje, características próprias<br />

e vantagens específicas, que a<br />

revolução atéia não possui. Cumpre<br />

dizer aqui uma palavra sobre o tema.<br />

A motivação religiosa da subversão<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> lhes dá uma possibilidade<br />

de êxito, pelo menos a longo prazo,<br />

que Lênin não teve.<br />

82


Parti! l<br />

Capitulo V<br />

Com efeito, este fez vencer uma<br />

revolução atéia, porém não matou a<br />

Religião. E nem incutiu na alma popular<br />

verdadeira apetência pela ordem<br />

coletivista. A prova disso é a contínua<br />

repressão policial exercida na Rússia<br />

contra a expansão religiosa, bem como<br />

contra a propagação de qualquer<br />

doutrina contrária ao comunismo.<br />

Pelo contrário, as <strong>CEBs</strong> fazem u­<br />

ma revolução em nome da Religião, e<br />

trabalham para a vitória de um !aicismo<br />

( ou <strong>se</strong>ja, de uma forma de ateísmo),<br />

pregado pela Teologia da Libertação<br />

(cfr. Parte II, Cap. II, !).<br />

* * *<br />

<strong>As</strong>sim posta no devido realce a motivação<br />

fundamentalmente religiosa<br />

da revolução que as <strong>CEBs</strong> querem<br />

promover, pode-<strong>se</strong> afirmar que esta<br />

constitui uma guerra psicológica revolucionária<br />

movida contra as elites do<br />

País.<br />

A guerra psicológica pode <strong>se</strong>r <strong>muito</strong><br />

sumariamente definida como um<br />

conjunto de operações psicológicas<br />

destina<strong>das</strong> a atuar sobre o ânimo do<br />

adversário, de sorte a levá-lo à capitulação<br />

antes mesmo que qualquer<br />

operação o tenha derrotado pela força.<br />

A guerra psicológica pode <strong>se</strong>r conduzida,<br />

quer contra um inimigo externo,<br />

quer contra o adversário interno.<br />

Ela as<strong>se</strong>gura ao atacante as vantagens<br />

da vitória <strong>se</strong>m os esforços, os<br />

gastos e os riscos da guerra.<br />

A guerra psicológica pode <strong>se</strong>r de<strong>se</strong>nvolvida<br />

simultaneamente com a<br />

guerra convencional (2).<br />

A guerra psicológica<br />

revolucionaria<br />

m ovida p elas<br />

<strong>CEBs</strong><br />

(2) A existência da guerra psicológica é<br />

reconhecida tanto por especialistas do Ocidente,<br />

como por comunistas:<br />

Diz o Marechal soviético Nikolay Bulganin:<br />

"A guerra moderna é uma guerra psico-<br />

83


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Não exclui avioléncia<br />

Não <strong>se</strong> pens·e, aliás, que· a guerra<br />

psicológica exclui inteiramente o emprego<br />

da força. Pois a intimidação do<br />

adversário faz parte de tal guerra, e<br />

certas operações de força ("invasões de<br />

terras", sabotagens, atentados, <strong>se</strong>q üestros,<br />

motins etc.) podem intimidar, e<br />

levar à capitulação a clas<strong>se</strong> social que<br />

<strong>se</strong> queira derrubar. ·<br />

<strong>As</strong>sim vistas as coisas, pode-<strong>se</strong> a­<br />

firmar que a lqnga série de desordens<br />

de todo gênero, e até mesmo de guerlógica,<br />

devendo as Forças Arma<strong>das</strong> <strong>se</strong>rvir apenas<br />

para deter um ataque armado ou, eventualmente,<br />

para ocupar o território conquistado<br />

por ação psicológica" (apud H ERMES DE<br />

AR AÚJO OLI VEIR A, Guerra revolucionária, Biblioteca<br />

do Exército Editora, Rio de Janeiro,<br />

1965, p. 60).<br />

T ERENCE H. Q uALTE R, da Universidade de·<br />

Waterloo (Iowa), Estados Unidos, ob<strong>se</strong>rva:<br />

"Originariamente, a guerra psicológica era planejada<br />

como uma preliminar da ação militar,<br />

com o objetivo de desmoralizar os soldados<br />

inimigos antes que o ataque f as<strong>se</strong> lançado, ou<br />

como auxiliar da ação militar, apressando e<br />

reduzindo os crlS/os da vitória. Hoje ela <strong>se</strong><br />

tornou um substituto da ação militar . .... Uma<br />

derrota na guerra fria poderia <strong>se</strong>r tão real e tão<br />

definitiva quanto uma derrota militar, e, certamente,<br />

<strong>se</strong>ria <strong>se</strong>guida da derrota militar" (Propaganda<br />

and Psycho/ogical Warfare, Random<br />

Hou<strong>se</strong>, New York, 1965, pp. XII-XIII).<br />

O G ENERAL HuM BERTO B. MARTIN S, Comandante<br />

da Academia Militar de Portugal, assim<br />

a apre<strong>se</strong>nta: "Uma nova arma <strong>se</strong>creta foi encontrnda<br />

e é habilmente manejada pelos que<br />

rilhas <strong>se</strong>m qualquer forma <strong>se</strong>na de<br />

êxito, de<strong>se</strong>nrola<strong>das</strong> na América do Sul<br />

no fim da década de 50 até meados da<br />

década de 70, não passaram de operações<br />

de guerra psicológica revolucionária<br />

destina<strong>das</strong> a intimidar as elites, e<br />

fazê-las capitular ante revoluções arma<strong>das</strong><br />

de esquerda, que ao longo des<strong>se</strong><br />

período aqui e lá foram intenta<strong>das</strong>.<br />

Sobre este assunto é altamente coneludente<br />

o livro lzquierdismo en la<br />

lglesia: companero de ruta dei comupretendem<br />

alcançar a sua total hegemonia na<br />

Europa e na Ásia. <strong>As</strong> técnicas letais, ba<strong>se</strong>a<strong>das</strong><br />

fundamentalmente no estudo dos recursos de<br />

manobra psicológica <strong>das</strong> massas, são magistralmente<br />

reuni<strong>das</strong> em sistemas de forças convergentes<br />

que visam o aniquilamento da estrutura<br />

moral, econômica e militar <strong>das</strong> nações<br />

visa<strong>das</strong> en cada fa<strong>se</strong>" (Prefácio do livro de<br />

HERMES DE ARAÚJO OLIVEIRA, Guerra revolucionária,<br />

Biblioteca do Exército Editora, Rio<br />

de Janeiro, 1965, p. 21 ).<br />

É do especialista francês Maurice Mégret a<br />

ob<strong>se</strong>rvação de que "de Clau<strong>se</strong>witz a Lênin, a<br />

evolução <strong>das</strong> técnicas e o progresso <strong>das</strong> ciências<br />

psicológicas conspiraram para conferir à<br />

guerra psicológica os poderes qua<strong>se</strong> mágicos<br />

de uma 'arte da subversão" (La guerra psicológica,<br />

Editorial Paidós, Buenos Aires, 1959,<br />

p. 31).<br />

Outro conhecido especialista francês, Ro­<br />

GER M UCCHIELI, acrescenta:<br />

"A concepção clássica fazia da subversão e<br />

da guerra psicológica uma máquina de guerra<br />

entre outras, durante o tempo <strong>das</strong> hostilidades,<br />

o show 1upama,o<br />

f '9<br />

-<br />

84


Parte 1<br />

Capítulo V<br />

A violência, no caso<br />

concreto <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong><br />

nismo en la larga aventura de los<br />

fracasos y de las metamorfosis, em<br />

que a TFP do Uruguai mostra como o<br />

terrorismo tupamaro não passou de<br />

um show, com a participação cúmplice<br />

dr importantes <strong>se</strong>tores da Hierarquia<br />

e do Clero daquele país, para<br />

nele instaurar um regime socialo-comunista.<br />

A violência repre<strong>se</strong>nta algum papel<br />

na guerra psicológica revolucionária<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>? Prova-o largamente o<br />

estudo de<strong>se</strong>nvolvi


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Chegará até a<br />

guerra civil?<br />

Basta que essa engrenagem conquiste,<br />

um <strong>pouco</strong> por toda parte,<br />

alguns <strong>se</strong>gmentos da massa, ainda<br />

que minoritários, para que a guerra<br />

psicológica revolucionária tenha<br />

êxito.<br />

Com efeito, bem adestrados, os<br />

componentes destes <strong>se</strong>gmentos podem<br />

dar aos olhos do grande público -<br />

por meio de manifestações de massa,<br />

de operações de sabotagem e de violência<br />

de várias ordens etc. - a impressão<br />

de que toda a massa operária<br />

está convulsionada. Reforçada essa<br />

impressão pelo noticiário <strong>se</strong>nsacionalista<br />

de tantos meios de comunicação<br />

social, as elites indolentes <strong>se</strong> <strong>se</strong>ntirão<br />

propensas a concessões ditas prudentes,<br />

e por fim à capitulação.<br />

Pode a guerra psicológica revolucionária<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> degenerar em guerra<br />

civil? Isso depende da <strong>se</strong>dução que<br />

ela consiga exercer nos escalões inferiores<br />

<strong>das</strong> Forças Arma<strong>das</strong>. Bem como<br />

da confusão e do desalento em que<br />

consigam pôr elementos dos mais altos<br />

escalões, à vista do show bem<br />

organizado de um operariado "inteiro"<br />

revoltado contra a ordem sócioeconômica<br />

vigente.<br />

* * *<br />

A guerra psicológica revolucionária<br />

constitui hoje em dia, como acaba<br />

de <strong>se</strong>r lembrado (cfr. Nota 2 deste<br />

Capítulo), uma arma absolutamente<br />

equiparada às demais pelos entendidos.<br />

De<strong>se</strong>ncadeada em nome da Religião,<br />

pode ela <strong>se</strong>r definida como uma<br />

cruzada? - Sim, uma estranha cruzada<br />

<strong>se</strong>m Cruz.<br />

Entretanto, uma guerra es<strong>se</strong>ncialmente<br />

subversiva dos verdadeiros elementos<br />

de ordem vigentes na sociedade,<br />

não é uma cruzada, mas antes<br />

uma contra-cruzada.<br />

A contra-cruzada <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> falta<br />

aliás ... a característica religiosa. Pois,<br />

de<strong>se</strong>ncadeada, é verdade, por eclesiásticos,<br />

o fim dela não é religioso, mas<br />

estritamente temporal. De espírito es<strong>se</strong>ncialmente<br />

ecumênico, ela não visa o<br />

triunfo da Religião Católica sobre as<br />

igrejas e correntes que <strong>se</strong> lhe opõem,<br />

mas tão-só de uma justiça social concebida<br />

à maneira da Teologia da Libertação,<br />

dentro do âmbito meramente ·<br />

temporal. Ademais, essa concepção de<br />

justiça social <strong>se</strong> aparenta bastante -<br />

como há <strong>pouco</strong> foi lembrado - com<br />

a do próprio comunismo ...<br />

Nessa cruzada <strong>se</strong>m Cruz, Nosso<br />

Senhor Jesus Cristo é mencionado<br />

com certa freqüência pelas <strong>CEBs</strong>. Mas<br />

não como o Homem-Deus, e sim como<br />

um chefe revolucionário, um tanto<br />

guru, bem exatamente <strong>se</strong>gundo a interpretação<br />

marxista da figura e do<br />

papel histórico do Messias, apre<strong>se</strong>n-<br />

Guerra psicológica<br />

revolucionária<br />

de<strong>se</strong>ncadeada em<br />

nome da Religião ...<br />

... mas com um<br />

fim não religioso,<br />

e sim estritamente<br />

temporal<br />

Cruzada <strong>se</strong>m Cruz


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> mui/o <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Cruzada reformis-<br />

tada pela Teologia da Lil;>ertação (cfr.<br />

Parte 1, Cap. IV, Nota 3).<br />

* * *<br />

Es<strong>se</strong>ncíalmente, as <strong>CEBs</strong> consti-<br />

. ra e polírica tuem uma cruzada política. Cruzada<br />

<strong>se</strong>m Cruz, como acaba de <strong>se</strong>r dito,<br />

pois <strong>se</strong>m embargo do <strong>se</strong>u fundamento<br />

religioso, e de apre<strong>se</strong>ntarem com linguagem<br />

"místic_a" os fundamentos éticos<br />

<strong>das</strong> transformaçõ.es sociais que<br />

propugnam, elas concebem de modo<br />

inteiramente <strong>se</strong>cularizado o "Reino de<br />

Deus" que visam implantar. Cruzada<br />

política, que não exclui a passagem da<br />

luta cívica legal para o campo da<br />

violência, <strong>se</strong>mpre que não haja outro<br />

meio para implantar as reformas visa<strong>das</strong>.<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> introduzem, pois, no panorama<br />

político brasileiro, uma alteração<br />

fundamental. Em tal panorama<br />

só figuravam até aqui ·abertamente os<br />

partidos políticos. Estes têm em comum<br />

com as <strong>CEBs</strong> o fato de que<br />

fazem da política <strong>se</strong>u campo próprio<br />

de ação. Mas eles têm de diverso <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong> duas características: l) de nenhum<br />

modo, e nem no mais extremo<br />

Alreração fundamenral<br />

no panorama<br />

polírico brasileiro<br />

Manifestaçlo em frente à .Igreja Matriz de Sl o Bernardo do Campo-SP.<br />

88


Parte l<br />

Capítulo V<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong>parecem<br />

<strong>se</strong>r a própria Igrej<br />

a em ação na política<br />

A "libertação" que<br />

as <strong>CEBs</strong> preconizam<br />

do <strong>se</strong>u horizonte, visam a violência; 2)<br />

haurem toda a sua força de <strong>se</strong>us próprios<br />

quadros.<br />

Pelo contrário, como até aqui <strong>se</strong><br />

viu e em <strong>se</strong>guida ainda melhor <strong>se</strong> verá,<br />

as <strong>CEBs</strong> vivem de uma força institucionalmente<br />

alheia ao campo da política;<br />

ou <strong>se</strong>ja, a CNBB. Entidade que,<br />

es<strong>se</strong>ncialmente repre<strong>se</strong>ntativa do Episcopado<br />

nacional, pertence ipso facto à<br />

ordem espiritual e não à ordem temporal.<br />

A importância da primeira característica<br />

( espiritual) é óbvia. Uma palavra<br />

cabe sobre o alcance da <strong>se</strong>gunda<br />

( extra-temporal).<br />

Com efeito, é <strong>se</strong>u caráter religioso<br />

que atrai às <strong>CEBs</strong> o apoio, o fomento<br />

e o prestígio da CNBB. E como esta<br />

última tem a repre<strong>se</strong>ntação do Episcopado,<br />

concretamente as <strong>CEBs</strong> <strong>se</strong> beneficiam<br />

do apoio, do fomento e do<br />

prestígio da própria Igreja. Ao que<br />

lhes parece dar oficialmente um título,<br />

o próprio qualificativo de "eclesiais",<br />

pelo qual a linguagem corrente entende<br />

"eclesiásticos".<br />

Em suma, tudo nelas parece indicar,<br />

ao nosso País altamente católico,<br />

que elas são a própria Igreja em ação<br />

na política.<br />

Aliás,é bem o'que pensa da Igreja e<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> a Teologia da Libertação.<br />

Cumpre à Igreja libertar as massas da<br />

situação injusta em que <strong>se</strong> encontram.<br />

Para isto as <strong>CEBs</strong> as "conscientizam",<br />

isto é, lhes dão consciência de que<br />

sofrem injustiças, lhes incutem de<strong>se</strong>jos<br />

de libertar-<strong>se</strong> destas e as aglutinam de<br />

modo a poderem operar a libertação<br />

que almejam. Mas esta libertação, <strong>se</strong>gundo<br />

as <strong>CEBs</strong>, só pode decorrer de<br />

leis que reformem as atuais estruturas<br />

sócio-econômicas. E como as leis só<br />

podem <strong>se</strong>r muda<strong>das</strong> pelo concurso dos<br />

poderes Executivo, Legislativo e Judiciário,<br />

o único modo do qual dispõem<br />

as <strong>CEBs</strong> para tornar efetiva a de<strong>se</strong>jada<br />

libertação consiste em contar com legisladores<br />

federais, estaduais e municipais<br />

que adotem o programa delas.<br />

Em te<strong>se</strong>, as <strong>CEBs</strong> poderiam contentar-<strong>se</strong><br />

em exercer uma influência<br />

meramente ideológica sobre os legisladores<br />

e os detentores do Executivo,<br />

ou candidatos a tal. Esta influência<br />

ideológica poderia não assumir caráter<br />

partidário, e portanto também não<br />

constituir uma incursão eclesial ( ou<br />

eclesiástica), no campo específico da<br />

política. Por exemplo, foi o que fez a<br />

Liga Eleitoral Católica - LEC - nos<br />

anos 30. Ela apontava ao eleitorado<br />

algumas reivindicações, de ordem a­<br />

liás es<strong>se</strong>ncialmente religiosa, a <strong>se</strong>rem<br />

aceitas pelos candidatos que qui<strong>se</strong>s<strong>se</strong>m<br />

o <strong>se</strong>u apoio (3). Porém, não inter-<br />

(3) Nas eleições para a <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia Constituinte<br />

de 1933-1934, as "reivindicações católicas"<br />

mínimas foram o ensino religioso nas<br />

escolas públicas, a indissolubilidade do vinculo<br />

'<br />

Ao contrário da<br />

LEC. cujas reivindicações<br />

eram es<strong>se</strong>ncialmente<br />

religiosas<br />

...<br />

89


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> fal~. <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

.. :o programa <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong> afeta matérias<br />

de competência<br />

do Estado<br />

vinha de modo algum na estrutura do<br />

Estado, nem da sociedade civil.<br />

Aos deputados eleitos em razão de<br />

terem sido recomendados pela LEC<br />

era simples e claro o dever a <strong>se</strong>guir.<br />

Pelo contrário, o programa <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong> afeta a qua<strong>se</strong> totalidade <strong>das</strong><br />

matérias sobre as <strong>quais</strong> é competente a<br />

ação legislativa do Estado, já que ele<br />

visa uma reforma completa da sociedade.<br />

E por isto condiciona toda a<br />

atividade do -legislador. <strong>As</strong>sim, para<br />

este <strong>se</strong> ver quite com as <strong>CEBs</strong> não lhe<br />

basta votar <strong>se</strong>gundo o de<strong>se</strong>jo delas em<br />

alguns <strong>pouco</strong>s pontos, -como eram as<br />

chama<strong>das</strong> "reivindicações católicas"<br />

dos anos 30. Ser-lhe-á ainda necessário<br />

. ter o espírito e a doutrina <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong>, consultar a todo momento os<br />

dirigentes destas, em suma, aceitar<br />

que estes últimos lhe sirvam de bos<strong>se</strong>s;<br />

diria um crítico pejorativo: de "gurus".<br />

Mais uma vez, não <strong>se</strong> vê como as<br />

reformas <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> possam <strong>se</strong>r transforma<strong>das</strong><br />

em lei, <strong>se</strong>m o concurso de<br />

numerosos vereadores, deputados estaduais<br />

e federais, <strong>se</strong>nadores e, mais<br />

ainda, governadores e o próprio presidente<br />

da República. Para reformar o<br />

País tão amplamente como de<strong>se</strong>jam as<br />

<strong>CEBs</strong>, elas precisam governar o Brasil.<br />

conjugal, as capelanias religiosas junto às Forças<br />

Arma<strong>das</strong>, nos hospitais, penitenciárias e<br />

outros estabelecimentos públicos. Foram to<strong>das</strong><br />

introduzides na Constituição de 1934.<br />

Em uma palavra, precisam entrar<br />

na política.<br />

• • •<br />

Diante deste quadro, e dada a<br />

anemia em que estão nossos partidos<br />

políticos, o que resta a estes fazer?<br />

Em vista da atual lei eleitoral, as<br />

<strong>CEBs</strong> não podem <strong>se</strong> transformar em<br />

partido político. Resta-lhes tão-só entrar<br />

nos vários partidos, ter candidatos<br />

em todos, e coordenar a todos<br />

para reformar cabalmente o Brasil.<br />

· Por sua vez, os partidos políticos <strong>se</strong><br />

<strong>se</strong>ntirão assim como que constrangidos<br />

a entrar nas <strong>CEBs</strong>. Ou <strong>se</strong>ja, a inscrever<br />

nas fileiras destas o maior<br />

número de adeptos, a galgarem dentro<br />

delas os cargos de direção etc., de sorte<br />

que os interes<strong>se</strong>s regionais e pessoais<br />

que as clas<strong>se</strong>s políticas corporificam<br />

possam instrumentalizar quanto possível<br />

o elã, o prestígio e a força eleitoral<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>. A instrumentalização dos<br />

partidos políticos pela Religião (leia-<strong>se</strong><br />

Teologia da Libertação) e pela Igreja<br />

(leia-<strong>se</strong> CNBB-<strong>CEBs</strong>) trará como corolário<br />

a instrumentalização <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>,<br />

da CNBB e da Religião pelos partidos<br />

políticos.<br />

Em suma, <strong>se</strong>ria uma convulsão o<br />

caos:··<br />

'<br />

~ COIJ?- maior amplitude do que<br />

à pnmeua VlSta <strong>se</strong> pode imaginar.<br />

Para que <strong>se</strong> compreenda a amplitude<br />

que o fenômeno possa ter é pre-<br />

M atreira instrumentalização<br />

da<br />

p"olítica e da Religião<br />

Convulsão e caos<br />

90


Parte I<br />

Capítulo V<br />

A Liga Eleitoral Católica - LEC - criada pelo Episcopado brasileiro, na década de 30, respeitava<br />

claram ente a diatinçlo entre a esfera tempora l e a eapirit ual, pois, embora destinada a orientar o<br />

eleitorado católico, suas reivindicações eram de natureza es<strong>se</strong>ncialmente religiosa. - Na foto, a<br />

bancada paulista na Constit uint e de 1934 (na primeira fila, <strong>se</strong>nta<strong>das</strong>, as eapoaaa de alguns<br />

deputados), na qual oa deputados eleitos com o apoio doa católicos tiveram decisiva atuaçlo para<br />

o triunfo <strong>das</strong> chama<strong>das</strong> "reivindicações católicas": o ensino religioso nas eacolaa, a indiaaolubilidade<br />

do vinculo conjugal e aa capelaniaa religiosas.<br />

ciso considerar que esta peculiar decorrência<br />

da Teologia da Libertação<br />

em nossos meios não <strong>se</strong> dará apenas<br />

nos lugares em que haja <strong>CEBs</strong> organiza<strong>das</strong><br />

e dota<strong>das</strong> de vitalidade. Bastará<br />

que o Vigário esteja pessoalmente<br />

persuadido <strong>das</strong> te<strong>se</strong>s da Teologia da<br />

Libertação, ou que simplesmente <strong>se</strong>ja<br />

propenso a estas, para que sua influência<br />

sobre os fiéis, acionando o<br />

possante mecanismo do tríplice "<strong>se</strong>ntire"<br />

(cfr. Parte I, Cap. III), descarregue<br />

em favor dos candidatos <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong>, apre<strong>se</strong>ntados pelos vários partidos<br />

políticos, o peso eleitoral,<strong>se</strong>mpre<br />

considerável, de que a Igreja dispõe<br />

nas várias paróquias.<br />

Quantos são os Sacerdotes brasileiros<br />

pró-<strong>CEBs</strong>? O número deles<br />

não é nada pequeno. Mas <strong>se</strong>u total<br />

constitui uma incógnita. Só o que <strong>se</strong><br />

<strong>sabe</strong>, por <strong>se</strong>r óbvio para todos, é que o<br />

número dos que combatem as <strong>CEBs</strong> é<br />

minúsculo. .. Ora, quando em um de-<br />

91


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Neste ponto cabe uma palavra so-<br />

bre os "moderados úteis", cujo papel é<br />

especialmente importante na ofensiva<br />

revolucionária da "esquerda católica"<br />

na atual conjuntura.<br />

Com efeito, a guerra psicológica<br />

revolucionária <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> está apenas<br />

em <strong>se</strong>us primórdios, aliás vigorosos.<br />

Em con<strong>se</strong>qüência, ela ainda não pode<br />

dirigir inteiramente a <strong>se</strong>u talante as<br />

elites sociais que de<strong>se</strong>ja derrubar. Por<br />

isso, cumpre-lhe tranqüilizar, sobre os<br />

cometimentos <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, os elementos<br />

de elite cuja contra-ofensiva ainda poderia<br />

<strong>se</strong>r perigosa.<br />

Para esta delicada tarefa, são de<br />

muita utilidade os simpatizantes da<br />

"esquerda católica" que, por <strong>se</strong> terem<br />

deixado persuadir de uma suposta i­<br />

nocuidade <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, e por terem um<br />

temperamento moderado, capaz de<br />

tranqüilizar os sobressaltos esporádicos<br />

dos elementos indolentes <strong>das</strong> elites,<br />

previnem qualquer contra-golpe<br />

destas.<br />

o papel dos "moderados<br />

úteis"<br />

terminado campo - no caso o religioso<br />

- os combatentes de um lado<br />

são numerosos, organizados e cheios<br />

de elã, e de outro lado os que <strong>se</strong> lhes<br />

opõem são <strong>pouco</strong>s, tantas vezes esparsos<br />

e tímidos, não há dúvida de que os<br />

primeiros <strong>se</strong> tornarão donos do<br />

campo.<br />

* • •<br />

Na realidade, porém, os "moderados<br />

úteis" costumam <strong>se</strong>r "companheiros<br />

de viagem" <strong>das</strong> esquer<strong>das</strong> mais<br />

ousa<strong>das</strong>, até o fim do caminho. Ou<br />

<strong>se</strong>ja, tranqüilizam até onde é possível,<br />

o centro e a direita, acerca <strong>das</strong> ousadias<br />

da esquerda. E quando já não é<br />

mais possível, cruzam os braços, e <strong>se</strong><br />

põem a considerar de maneira ostensivamente<br />

benévola a esquerda descabelada,<br />

em sua marcha terminal furibunda.<br />

Um exemplo: o que significa precisamente<br />

"Comunidade Eclesial de Ba<strong>se</strong>"?<br />

É esta uma pergunta a que a<br />

grande maioria do público não <strong>sabe</strong><br />

dar resposta. E para a qual um brasileiro<br />

explicavelmente sobressaltado<br />

pode pedir a ajuda de um "moderado<br />

útil". Este dificilmente lhe contará a<br />

verdade, dita com de<strong>se</strong>nvoltura por D.<br />

Miguel Balaguer, Bispo de Tacuarembó<br />

(Uruguai). Isto é, que "comunidade<br />

de ba<strong>se</strong>" é expressão equivalente a<br />

soviet (cfr. Parte II, Cap. I, 2).<br />

A voz pública cognominou o Sr.<br />

Arcebispo de Recife, D. Helder Câmara,<br />

de "Arcebispo Vermelho". É de<br />

crer que ela só não alcunhou de "Cardeais<br />

Vermelhos", o Sr. D. Paulo Evaristo<br />

Arns e o Sr. D. Aloisio Lorscheider,<br />

porque tal implicaria em redundância,<br />

<strong>se</strong>ndo o vermelho a cor<br />

tradicional do cardinalato.<br />

O Sr. Cardeal D. Eugenio Sales e o<br />

Sr. Cardeal D. Avelar Brandão Vilela<br />

Prelados "vermelhos"<br />

e Prelados<br />

"moderados"<br />

92


Parle I<br />

Capí1ulo V<br />

são mais bem tidos por centristas.<br />

Mas, <strong>se</strong>gundo fazem ver os efeitos <strong>das</strong><br />

suas operações na última década, <strong>se</strong><br />

parecem bem mais com os "moderados<br />

úteis".<br />

O Sr. Cardeal D. Vicente Scherer<br />

costuma <strong>se</strong>r tido por direitista. Entretanto,<br />

suas declarações favoráveis à<br />

Reforma Agrária beneficiam mais a<br />

esta última do que to<strong>das</strong> as do Sr.<br />

Cardeal-Arcebispo de São Paulo. Pois<br />

o primeiro, tido por direitista, passa<br />

ipso facto por insuspeito. E como, ao<br />

mesmo tempo, ele preconiza uma Reforma<br />

Agrária <strong>se</strong>m violência, isto o<br />

faz passar por direitista "equilibrado"<br />

ou "moderado". Compreende-<strong>se</strong> assim<br />

quanto suas declarações agro-reformistas<br />

"modera<strong>das</strong>" ( cfr. Parte I, Cap.<br />

II, Nota 4) <strong>se</strong>rvem, por isso mesmo, a<br />

causa da Reforma Agrária.<br />

* • •<br />

Por tudo quanto foi visto, não há<br />

dúvida de que as <strong>CEBs</strong>, <strong>muito</strong> e mui-<br />

<strong>As</strong> CE&, po1ência<br />

emergente na<br />

política<br />

Prelados "vermelhos" e Prelados "moderados":<br />

D. Vicente Scherer D. Helder Cllmara D. Eugênio Sales D . Avelar Brandlo Vilela<br />

93


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> .. . <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Ins trum entalização<br />

do Estado<br />

pelas CE&<br />

to mais do que o PC, são a grande<br />

potência emergente na política brasileira.<br />

Quem tome em linha de conta a<br />

amplitude total dos planos reformistas<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, não pode imaginar que<br />

o âmbito da ação política do movimento<br />

<strong>se</strong> limite à conquista de algumas<br />

cadeiras parlamentares, de alguns<br />

mandatos de vereador ou de prefeito,<br />

ou mesmo de alguma pasta ministerial.<br />

A tríplice reforma rural, urbana e<br />

empresarial visada pela CNBB, pelas<br />

<strong>CEBs</strong>, ou de modo mais amplo pela<br />

"esquerda católica", <strong>se</strong> algum dia implantada,<br />

trará como con<strong>se</strong>qüência a<br />

reforma pelo menos parcial do Código<br />

Civil, do Código Comercial, dos Códigos<br />

de Processo Civil e Penal, e de<br />

qua<strong>se</strong> toda a vastíssima legislação ordinária<br />

em vigor no País. Com a corolária<br />

reforma de um <strong>se</strong>m-número de<br />

leis, regulamentos, portarias etc.<br />

Sem to<strong>das</strong> essas modificações, a<br />

tríplice reforma rural, urbana e industrial<br />

constituirá tão-só letra morta.<br />

Ora, todo este imenso labor reformista<br />

só pode <strong>se</strong>r levado a cabo <strong>se</strong> nele<br />

<strong>se</strong> engajarem a fundo todos os órgãos<br />

do Estado.<br />

Portanto, ou o Estado <strong>se</strong>rá todo<br />

ele instrumentalizado pelas <strong>CEBs</strong>, ou<br />

os intuitos reformistas destas <strong>se</strong>rão<br />

vãos.<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> não podem, portanto,<br />

deixar de tender para instrumentalizar<br />

inteiramente o Estado brasileiro, a<br />

<strong>se</strong>rviço de sua cruzada <strong>se</strong>m Cruz.<br />

* * *<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong>? À primeira vista, sim.<br />

Mas o que são elas <strong>se</strong>não um conjunto<br />

de brasileiros por sua vez dependentes<br />

da CNBB, em virtude do mecanismo<br />

do tríplice "<strong>se</strong>ntire"? Por trás<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, por cima delas está a CNBB.<br />

Mas, por sua vez, o que é a CNBB?<br />

Em te<strong>se</strong>, ela é a estruturação jurídica<br />

do Episcopado nacional (cfr. Parte I,<br />

Cap. li). Na realidade, ela é o dispositivo<br />

jurídico cujos corpos de direção<br />

a "esquerda católica" - ou mais precisamente<br />

a esquerda eclesiástica -<br />

utiliza para <strong>se</strong> impor à maioria dos<br />

Bispos, os <strong>quais</strong> docilmente mantêm o<br />

silêncio em suas reuniões, votam como<br />

a esquerda quer que votem (4), e<br />

(4) Sobre como são estudados, debatidos~<br />

votados e aprovados os documentos nas <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléias<br />

Gerais da CNBB dá um impressionante<br />

depoimento o Sr. D . Alberto Gaudêncio<br />

Ramos, Arcebispo de Belém do Pará (o<br />

Arcebispo trata especificamente do documento<br />

Igreja e problemas da terra, aprovado na 18.ª<br />

<strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia Geral, em fevereiro de 1980; os<br />

subtítulos são nossos):<br />

Como <strong>se</strong> estuda. - "De ínício, devo esclarecer<br />

como são aprovados es<strong>se</strong>s documentos da<br />

CNBB. Algum tempo antes da <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia,<br />

cada bispo recebe um ante-projeto do assunto<br />

a <strong>se</strong>r tratado. Confesso de minha parte, que<br />

Por trás e por cima<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, a<br />

CNBB<br />

A maioria silen·<br />

ciosa do Episcopado<br />

94


Parte I<br />

Capitulo V<br />

A votaçlo doa documentos debatidos nas Auembléiaa da CNBB é feita, item por item, mediante o<br />

levantamento de cartões verdes (aprovaçlo), amarelos (aprovaçlo com emen<strong>das</strong>) ou vermelhos<br />

(rejeiçlo). Segundo D. Alberto Gaudêncio Ramos, Arcebispo de Belém do Par6, na pressa que<br />

geralmente caracteriza o final <strong>das</strong> <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléias, "• tendllncia tf p•r• •prov•r tudo o que •p•r11ç•"·<br />

raras vezes disponho de tempo para estudá-lo<br />

a Jundo. Qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>mpre o faço já durante a<br />

viagem de avião. E como eu procedem <strong>muito</strong>s<br />

outros bispos atarefados".<br />

".... A comissão que, a <strong>se</strong>u [próprio] critério,_<br />

aceita ou recusa". - "Aberta a as<strong>se</strong>mbléia, os<br />

diversos temas vão <strong>se</strong>ndo expostos sucintamente<br />

por um relator, depois do que todos vão<br />

para os "grupos integrados", constituídos de<br />

bispos, sacerdotes, religiosas e leigos, dos mais<br />

diversos pontos do Brasil. Uma comissão especialmente<br />

designada recolhe as ob<strong>se</strong>rvações<br />

que procedem dos diversos círculos e elabora<br />

nova redação, que depois é mimeografada e<br />

distribuída. Em plenário, <strong>muito</strong>s solicitam a<br />

palavra para elucidar alguns pontos, pedir<br />

correções, dar ênfa<strong>se</strong> a outros pontos: eté.<br />

Tanto essas intervenções orais como as escritas<br />

são encaminha<strong>das</strong> à comissão que exaustivamente<br />

<strong>se</strong>leciona e agrupa as opiniões similares<br />

e, a <strong>se</strong>u critério, as aceita ou recusa. Novos<br />

círculos de estudo são Jeitos, já agora constituídos<br />

pelos bispos de um mesmo regional".<br />

Como <strong>se</strong> vota. - "Há ainda debates em<br />

plenário para destaques ou correções, e a<br />

aprovação é feita, item por item, mediante o<br />

levantamento de um cartão verde, amarelo ou<br />

vermelho. Os <strong>se</strong>cretários dos Regionais con-<br />

95


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

saem dos bem conhecidos colóquios<br />

de ltaici precisamente como entraram:<br />

isto é, <strong>se</strong>m manifestar alegria, nem<br />

esperança, como também não pesar<br />

ou apreensão.<br />

O que pensa essa maioria a respeito<br />

de quanto <strong>se</strong> passa aos olhos<br />

dela, em nome dela, e <strong>se</strong>m que <strong>se</strong><br />

perturbe o silêncio dela?<br />

O Brasil inteiro gostaria de <strong>sabe</strong>r.<br />

Um veemente Apelo para que ela explicas<strong>se</strong>,<br />

ou pelo menos para que a­<br />

bandonas<strong>se</strong> <strong>se</strong>u invencível mutismo,<br />

teve larga acolhida no País... porém<br />

não tirou do <strong>se</strong>u silêncio os Bispos<br />

Silenciosos (5).<br />

Diante des<strong>se</strong> per<strong>se</strong>verante silêncio,<br />

uma só pergunta resta. <strong>As</strong> numerosas<br />

A maioria silenciosa<br />

na esfera civil<br />

tam as exibições dos cartões e vão levar o<br />

resultado, em voz baixa, à mesa da <strong>se</strong>cretaria,<br />

e nisso pode haver uma margem de equívocos<br />

ou distrações".<br />

Na pressa final ... "a tendência é para aprovar<br />

tudo o que apareça". - "A aprovação de tão<br />

importantes documentos é feita, qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>mpre<br />

de afogadilho, quando <strong>muito</strong>s bispos já partiram<br />

de madrugada, quando todos estão fatigados<br />

e alguns olhando os relógios, já de olho<br />

no ônibus para a rodoviária ou para o aeroporto<br />

... Está claro que, nestas circunstâncias, a<br />

tendência é para aprovar tudo o que aparece.<br />

Saímos todos de lá <strong>se</strong>m termos o texto<br />

definitivo, pois algumas modificações são introduzi<strong>das</strong><br />

na última hora, e o conjunto ainda<br />

está submetido a um aperfeiçoamento redacional".<br />

Críticas. - "Não <strong>se</strong> pode, por con<strong>se</strong>guinte<br />

afirmar que <strong>se</strong> compreende 'a atitude dos<br />

bispos que, a exemplo de D. Luciano, <strong>se</strong><br />

eximiram de assiná-lo'. Ninguém assinou documentos.<br />

Apenas <strong>se</strong> firmaram as folhas de<br />

pre<strong>se</strong>nça. Seria difícil obter unanimidade de<br />

pensamento, em questões não doutrinárias, de<br />

perto de 230 cabeças. Por isso o meu combativo<br />

e inteligente amigo, D. Luciano Cabral<br />

pode afirmar, talvez, que não concorda com<br />

to<strong>das</strong> as expressões, com todos os argumentos,<br />

até mesmo, com todos os acontecimentos aludidos.<br />

Eu também levantei o meu cartão vermelho,<br />

a alguns pontos, mas fui vencido pela<br />

maioria.<br />

Está agora o documento <strong>se</strong>ndo bombardeado<br />

pelos economistas, pelos capitalistas,<br />

pelos agrônomos, pelos governantes ou por<br />

outras pessoas competentes. Cumpre não esquecer<br />

que não pretendem os bispos dar lições<br />

técnicas aos entendidos" . ... .<br />

Mão à palmatória. - "Podemos dar a mão à<br />

palmatória reconhecendo as deficiências de um<br />

trabalho feito da maneira acima relatada. Porém,<br />

mesmo que haja algum dado inexato, que<br />

nem todos os latifundiários mereçam nossas<br />

censuras, esperamos que, pelo menos, o documento<br />

valha como um alerta aos que porventura<br />

erraram, e como um protesto aos<br />

abusos que realmente estão <strong>se</strong>ndo cometidos<br />

em algumas partes do país" (artigo Terra a<br />

terra, na <strong>se</strong>cção "Recanto do Pastor", "Voz de<br />

Nazaré", 16-3-80, 1.8 página).<br />

(5) Cfr. PuNio CoRRtA DE OuvEJRA, A Igreja<br />

ante a escalada da ameaça comunista -<br />

Apelo aos Bispos Silenciosos, Editora Vera<br />

96


Parte I<br />

Capítulo V<br />

entidades de clas<strong>se</strong>, os partidos políticos,<br />

os órgãos de comunicação social,<br />

as personalidades em evidência,<br />

às <strong>quais</strong> caberia pre<strong>se</strong>rvar a esfera<br />

temporal dessa instrumentalização pela<br />

esquerda eclesiástica encastelada na<br />

CNBB, manterão elas também o silêncio<br />

a es<strong>se</strong> respeito, no qual - salvas as<br />

honrosas exceções - <strong>se</strong> encontram?<br />

<strong>As</strong>sim favorecida simultaneamente<br />

pelo duplo mutismo dos silenciosos na<br />

esfera espiritual e na esfera temporal,<br />

avançará a esquerda eclesiástica até a<br />

instrumentalização do próprio Brasil?<br />

Seja-nos licito esperar que não.<br />

Pois, possivelmente, na esfera temporal<br />

<strong>muito</strong>s silêncios <strong>se</strong> expliquem pela<br />

inadvertência acerca dessa tão inverossímil<br />

e entretanto tão real instrumentalização<br />

do País. Possa a publicação<br />

do pre<strong>se</strong>nte livro abrir os olhos<br />

às elites nacionais para que intervenham<br />

a tempo.<br />

Se tiverem savoir Jaire, poderão<br />

intervir com êxito, <strong>se</strong>m em nada desdourar<br />

a Santa Igreja, nem violar os<br />

direitos sagrados a que sua divina<br />

missão faz jus.<br />

Esperança de que<br />

este livroabra,por<br />

fim, os olhos<br />

Cruz, São Paulo, 1976, 4 edições, 51 mil<br />

exemplares.<br />

Só não mantiveram silêncio sobre este livro<br />

Bispos nada silenciosos. <strong>As</strong>sim, o Sr. Cardeal<br />

Arns publicou duas notas oficiais de protesto,<br />

uma delas conjuntamente com <strong>se</strong>us oito Bispos-Auxiliares.<br />

Também <strong>se</strong> pronunciaram o<br />

Sr. D. Ivo Lorscheiter, Bispo de Santa Maria,<br />

então Secretário-Geral da CNBB, e o próprio<br />

Secretariado-Geral do órgão episcopal; e, por<br />

fim, a Arquidioce<strong>se</strong> de Olinda e Recife, da qual<br />

é Arcebispo D. Helder Câmara, que emitiu<br />

duas notas contrárias ao livro. Nos diversos<br />

comunicados de imprensa com que o autor do<br />

livro respondeu a essas notas ponderou que<br />

elas constituiam invariavelmente mero protesto,<br />

<strong>se</strong>m qualquer documentação ou refutação.<br />

Não obstante, até hoje nenhuma refutação<br />

veio a lume.<br />

Quanto aos Srs. Bispos que já eram silenciosos<br />

antes da publicação do Apelo, ao que<br />

consta continuaram tais enquanto es<strong>se</strong>s fatos<br />

<strong>se</strong> davam, e tais continuam até o pre<strong>se</strong>nte<br />

momento.<br />

97


Conclusão<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>?


P e rigo p o nde-.<br />

rável, mas contornável<br />

A s e lit e s têm<br />

meios para encontrar<br />

uma pronta e<br />

justa solução dos<br />

problemas nacionais<br />

T UDO quanto foi aqui visto<br />

mostra que as <strong>CEBs</strong><br />

constituem pre<strong>se</strong>ntemente um perigo<br />

<strong>muito</strong> ponderável, mas ao mesmo tem- ·<br />

po inteiramente contornável.<br />

Muito ponderável es<strong>se</strong> perigo o é,<br />

não apenas pelo que as <strong>CEBs</strong> já são,<br />

como sobretudo pelo que podem vir a<br />

<strong>se</strong>r no dia de amanhã, <strong>se</strong> Íhes for<br />

deixado livre o campo para progredir.<br />

Mas, igualmente, es<strong>se</strong> perigo <strong>se</strong>rá <strong>muito</strong><br />

controlável <strong>se</strong> as elites brasileiras,<br />

as <strong>quais</strong> as <strong>CEBs</strong> têm em mira, compreenderem<br />

a necessidade de começar<br />

quanto antes uma ação visando contê-las.<br />

De que natureza <strong>se</strong>ria tal ação? A<br />

TFP não cabe dar diretrizes nem traçar<br />

programas para as clas<strong>se</strong>s a que<br />

ela aqui alerta. Sobram a estas os<br />

recursos de inteligência, os relacionamentos<br />

sociais e políticos e as disponibilidades<br />

econômicas para arquite-<br />

tar e pôr em prática uma larga campanha<br />

de esclarecimento do País sobre<br />

os problemas que as <strong>CEBs</strong> levantam,<br />

as imputações que as <strong>CEBs</strong> a elas<br />

fazem, e os pontos de vista <strong>das</strong> mesmas<br />

elites sobre o que convém ao País<br />

fazer, dentro da justiça e da paz, para<br />

a pronta_ sol':1ção dos grandes problemas<br />

nac1ona1s.<br />

A tal propósito, a TFP de<strong>se</strong>ja registrar<br />

somente um ponto. Por enquanto,<br />

a forte maioria <strong>das</strong> massas<br />

trabalhadoras ainda não está atingida<br />

pela detração sistemática que as <strong>CEBs</strong><br />

movem contra as elites. O ódio de<br />

clas<strong>se</strong>s ainda não existe entre nós.<br />

Pelo contrário, os trabalhadores manuais<br />

são <strong>se</strong>nsíveis aos esclarecimentos<br />

que lhes queiram dar as elites<br />

nacionais. Portanto, toca a estas dirigir-<strong>se</strong><br />

a eles o quanto antes. Pois já<br />

amanhã, com o crescimento <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong>, talvez <strong>se</strong>ja tarde demais ... (1).<br />

Os trabalhadores<br />

manuais ainda não<br />

estão atingidos pelo<br />

ódio de clas<strong>se</strong>s...<br />

mas com o<br />

crescimento <strong>das</strong><br />

CE&, amanhã talvez<br />

<strong>se</strong>ja tarde demais!<br />

100


Contributo especial<br />

da TFP: as<br />

<strong>CEBs</strong> não estão<br />

em consonância<br />

com os ensinam<br />

e n tos tradicionais<br />

da Igreja<br />

Para es<strong>se</strong> esclarecimento, a TFP<br />

dá aqui <strong>se</strong>u contributo. E este é de<br />

importância fundamental.<br />

Com efeito, <strong>se</strong>ndo fundamentalmente<br />

religioso o motivo pelo qual as<br />

<strong>CEBs</strong> con<strong>se</strong>guem aglutinar e mobilizar<br />

as massas, nada é mais próprio<br />

para obstar tal mobilização e aglutinação,<br />

<strong>se</strong>não mostrar que as <strong>CEBs</strong><br />

rião são consonantes com os ensmamentos<br />

tradicionais dos Romanos<br />

Pontífices, e que a luta de clas<strong>se</strong>s<br />

fomentada pelas <strong>CEBs</strong> é condenada<br />

pela Igreja. E, principalmente, que o<br />

fatal sistema do tríplice "<strong>se</strong>ntire", como<br />

o apre<strong>se</strong>nta entre nós uma longa<br />

tradição de ignorância religiosa, exagera<br />

a um grau qua<strong>se</strong> inimaginável o<br />

que a Igreja ensina sobre os sagrados<br />

deveres de obediência do fiel à Hierarquia<br />

Eclesiástica.<br />

A demonstração deste último ponto,<br />

a TFP a tem feito de modo explícito<br />

ou implícito, e com grande<br />

(1) Tal estado de ânimo, a luta pela vida<br />

nas grandes cidades não o con<strong>se</strong>guiu eliminar.<br />

Tam<strong>pouco</strong> o con<strong>se</strong>guiu o fluxo imigratório<br />

torrencial que <strong>se</strong> despejou sobre o Brasil no<br />

último quartel do século passado e no primeiro<br />

quartel deste século, e aqui fixou a pre<strong>se</strong>nça de<br />

etnias e de tradições tão diversas.<br />

A consonância des<strong>se</strong> tradicional e per<strong>se</strong>verante<br />

estado de ânimo brasileiro com os<br />

preceitos e con<strong>se</strong>lhos do Evangelho, deixa ver<br />

em que larga medida ele resulta da influência<br />

cristã. Nada pois mais eficaz para eliminá-lo<br />

do que o trabalho metódico de, por influência<br />

da CNBB, nele incutir precisamente o<br />

oposto, isto é, as ardências desordena<strong>das</strong> do<br />

ódio de clas<strong>se</strong>s e do espírito revolucionário.<br />

Para isto, a Teologia da Libertação, tão<br />

dis<strong>se</strong>minada nas Comunidades de Ba<strong>se</strong>, cria<br />

to<strong>das</strong> as condições favoráveis. E o ódio de<br />

clas<strong>se</strong>s, por sua vez, leva à violência.<br />

Sobre o caráter marxista da Teologia da<br />

Libertação, poucas dúvi<strong>das</strong> pode haver (cfr.<br />

101


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Profeta Joel, do Aleijadinho, em Congonhas do<br />

Campo, Minas Gerais.<br />

abundância de documentação, ao longo<br />

dos <strong>se</strong>us 22 anos de luta. Da riqueza<br />

dessa argumentação, dá provas o<br />

fato de que, sobre vários assuntos<br />

bn relação à TFP.<br />

o adversário não<br />

teme difamar.<br />

Mas teme discutir<br />

Parte II, Cap. II, 1). O "povo de Deus",<br />

do qual tanto <strong>se</strong> <strong>fala</strong> na "esquerda católica", é<br />

entendido como <strong>se</strong>ndo constituído especificamente<br />

pelos pobres, os <strong>quais</strong> formariam ex<br />

natura propria o Corpo Místico de Cristo (cfr.<br />

Parte II, ibidem). O "povo de Deus", os oprimidos,<br />

<strong>se</strong>riam o novo Messias (cfr. Parte II,<br />

ibidem).<br />

Por fim, os ricos são qualificados como o<br />

opróbrio da terra e os malfeitores máximos<br />

102<br />

correlatos, a TFP já tem, public a e<br />

largamente difundida no País, t da<br />

uma biblioteca (2), além de opulen s<br />

coleções dos órgãos de imprensa "L<br />

gionário" e "Catolicismo", em que <strong>se</strong>u<br />

pensamento está expresso.<br />

Quanto ao valor lógico da argumentação<br />

contida nessas obras, <strong>fala</strong><br />

de modo concludente o fato de que<br />

elas têm suscitado <strong>muito</strong>s aplausos,<br />

mas também <strong>muito</strong>s ódios. Es<strong>se</strong>s ó­<br />

dios <strong>se</strong> têm manifestado em campanhas<br />

de difamação e estrondos publicitários<br />

de dimensões ciclópicas. Nunca,<br />

porém, em contra-argumentações<br />

de qualquer espécie, Em relação à<br />

TFP, o adversário não teme difamar,<br />

embora ele saiba de antemão que suas<br />

falsas imputações acabarão rolando<br />

pelo solo à míngua de provas. O que o<br />

adversário teme, isso sim, é discutir.<br />

A não <strong>se</strong>r tal campanha de difamação,<br />

é difícil conjecturar qual possa<br />

<strong>se</strong>r a réplica do "esquerdismo católico"<br />

ao pre<strong>se</strong>nte livro. Pois a argumentação<br />

e a documentação produzicontra<br />

a sociedade (cfr. Parte II, ibidem):<br />

gênero de crime que o socialismo tende a<br />

considerar o maior e qua<strong>se</strong> o único, a contrario<br />

<strong>se</strong>nsu da ordem individualista e capitalista,<br />

a qual considera qua<strong>se</strong> exclusivamente os crimes<br />

contra o indivíduo.<br />

(2) Ver neste volume a relação <strong>das</strong> obras<br />

divulga<strong>das</strong> pela TFP.<br />

\


Parte l<br />

Conclusão<br />

Como a TFP, que<br />

as elites nacionais<br />

entrem na liça com<br />

as armas pacíficas<br />

e legais<br />

Confiança em<br />

Nossa Senhora de<br />

Fátima<br />

Se as elites não<br />

aruarem, não foi<br />

por falta de quem<br />

as alertas<strong>se</strong><br />

<strong>das</strong> na Parte II não deixam margem a<br />

qualquer réplica.<br />

Lançando este livro, a TFP mais<br />

uma vez entra na liça de combate.<br />

Nesta, ela usa as armas pacíficas e<br />

legais próprias a controvérsias de alto<br />

nível, e incita as elites do país a que,<br />

por sua vez, façam o mesmo com não<br />

menor destemor.<br />

A TFP não reclama para si proeminências<br />

nem lideranças. Ela reconhece<br />

de público que, nessa batalha,<br />

ela não deve <strong>se</strong>r <strong>se</strong>não uma <strong>das</strong> componentes<br />

do grande front anti-socialista<br />

e anticomunista a <strong>se</strong> organizar. E<br />

conclui esta parte de <strong>se</strong>u livro-manifesto,<br />

pedindo a Nossa Senhora de<br />

Fátima, a qual já em I 917 alertou o<br />

mundo para o perigo do comunismo,<br />

que ajude nossas clas<strong>se</strong>s dirigentes a<br />

saírem de <strong>se</strong>u Ietargo, e a exercerem<br />

efetivamente sua missão de orientadoras<br />

de todo o corpo social. Se não o<br />

fizerem, a História alegará um dia que<br />

as massas foram transvia<strong>das</strong> porque<br />

as elites desdenharam de as orientar.<br />

Mas registrará igualmente - convém<br />

ainda uma vez dizê-lo - que não<br />

faltou quem as alertas<strong>se</strong> na hora extrema.<br />

A TFP cumpre aqui es<strong>se</strong> dever,<br />

movida por <strong>se</strong>u amor à Igreja, à civilização<br />

cristã e à querida Pátria brasileira.<br />

Mais do que isso não pode ela<br />

fazer!<br />

Em Fátima, em 1917, Nossa Senhora advertiu<br />

que, <strong>se</strong> os homens nlio <strong>se</strong> emen<strong>das</strong><strong>se</strong>m, "a<br />

Rússia espalharia <strong>se</strong>us erros pelo mundo".<br />

Nossos olhos <strong>se</strong> voltam para os do Mlie de<br />

Deus, pedindo a Elo que ajude os clas<strong>se</strong>s dirigentes<br />

a solrem de <strong>se</strong>u letargo e a resistirem,<br />

dentro da lei e do ordem, à penetraçlio insidiosa<br />

dos erros do comunismo, principalmente nos<br />

meios católicos.<br />

103


• ,itúri.a d,, 1~<br />

fhX" t D\ utru1 cnt"ruz.Hh.ü • m~UTr ia do tfcilonufo<br />

ntr la e t!1rt1l1 ta<br />

a, ít nri•~ltitoral pmpon:iona no l'S<br />

•rnplo rnrw diphH11'1li e prol)3l(llndi~tic.os<br />

1 · ra Íot'rem.entoda ~ rr.a p111.it"oló«ir.a re,·olu('ionár1a1<br />

no interiordt lodo,. os naroe<br />

Socialismo Autogestionário:<br />

Hoje, França - Amanhã, o Mundo?


Designados de modo diverso na linguagem<br />

corrente - guerra f ria, política da mão estendida,<br />

coexistência pacífica. queda <strong>das</strong> barreiras ideológicas.<br />

détente, Ostpolitik alemã, Ostpolitik vaticana,<br />

def esa dos direitos humanos (fórmula Carter<br />

). eurocomunismo, comunism o de'face humana<br />

etc. - os esforços diplomáticos para caracterizar<br />

as difíceis relações entre as p otências de aquém e<br />

além cortina de f erro, deixam ver, em <strong>se</strong>u todo,<br />

algo de <strong>muito</strong> claro: eles exprimem o de<strong>se</strong>jo de<br />

explorar em favor do imperialism o soviético a<br />

larga ansiedade dos homens diante do perigo de<br />

uma catástrof e atômica eventualmente resultante<br />

do malogro total da diplomacia, e da irrupção de<br />

uma Ili Guerra Mundial.<br />

Esta perspectiva sinistra leva incontáveis pessoas<br />

no mundo inteiro a sonhar com uma fórmula<br />

sócio-econômica de meio termo entre o comunismo<br />

e o capitalism o. Pois o encontro dessa<br />

fórmula importaria - imaginam eles - na extirpação<br />

de uma <strong>das</strong> causas mais ativas da tensão<br />

Leste-Oeste, ou <strong>se</strong>ja, o desacordo ideológico entre<br />

comunistas e não-comunistas.<br />

Bem entendido, para que essa fórmula evitas<strong>se</strong><br />

ef etivamente o tão receado perigo, <strong>se</strong>ria necessário<br />

que não contives<strong>se</strong> em <strong>se</strong>u bojo princípios tão<br />

contrários à ordem natural e à justiça - ou m ais<br />

até - quanto os que caracterizam o supercapita­<br />

/ism o, o socialismo e o comunismo. Pois a paz é<br />

fruto da justiça: "opus justitiae pax" (Isaías 32, 17)<br />

era o lema do Pontificado do pranteado Pio X II.<br />

Injustiças e desordens institucionais ainda mais<br />

agu<strong>das</strong> do que as do Ocidente hodierno só poderão<br />

agra var o grande conflito em perspectiva.<br />

Uma <strong>das</strong> f órmulas m ais antinaturais e mais<br />

injustas para a pretensa con vergência entre o<br />

Ocidente e o Oriente é o socialism o autogestionário<br />

francês, vitorioso com as eleições presidenciais<br />

e legislativas do ano passado.<br />

É o que uma análi<strong>se</strong> acurada do tema faz ver.<br />

<strong>As</strong> Sociedades de Defesa da Tradição. Família<br />

e Propriedade - TFPs - de. treze paí<strong>se</strong>s (Argentina,<br />

Bolívia. Brasil, Canadá, Chile, Colôm bia.<br />

Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Portugal,<br />

Uruguai e íYenezuela) dirigiram, em conjunto,<br />

ao público <strong>das</strong> respectivas nações. uma<br />

Mensagem intitulada O socialismo autogestionário:<br />

em vista do comunismo, barreira ou cabeçade-ponte?<br />

Uma fra<strong>se</strong> colocada em epígrafe destaca:<br />

O duplo jogo do socialismo francês: na<br />

estratégia gradualidade - na meta rad icalidade.<br />

A Mensagem, de autoria do Prof Plinio Corrêa<br />

de Oliveira, Presidente do Con<strong>se</strong>lho Nacional<br />

da TFP brasileira. foi publicada em 47 grandes<br />

jornais da América do Norte, Europa e A mérica<br />

do Sul. a partir do dia 9 de dezembro do ano<br />

passado.<br />

<strong>As</strong> TFPs são entidades anticom unistas. coirmãs<br />

e autônomas. inspira<strong>das</strong> nos documentos tradicionais<br />

dos Papas. A primeira delas f oi f undada<br />

em São Paulo, Brasil, pelo ex-deputado fede ral.<br />

professor universitário,


I<br />

t<br />

•<br />

h<br />

P11. •10 CoR Ri:A DE O 1..1vEJRA nasceu em São<br />

Paulo, Brasil, em 1908. Diplomado pela Faculdade<br />

de Direito da Uni ve rsidade de São Paulo,<br />

fo i Professor de História da Civilização no<br />

Colégio Universitário da mesma Universidade.<br />

Em <strong>se</strong>guida assumiu a Cátedra de História<br />

Moderna e Contemporânea nas Faculdades<br />

São Bento e Sedes Sapientiae da Pontifícia<br />

Universidade Católica de São Paulo.<br />

Destacou-<strong>se</strong> desde jovem como orador, co n­<br />

ferencista e jornalista católico. Colaborou durante<br />

anos no <strong>se</strong>manário católico "Legionário",<br />

do qual foi diretor. At ualmente escreve para o<br />

mensário "Catolicismo" e para a "Folha de<br />

S. Paulo", um dos diários de maior circulação<br />

no Brasil. É a utor de vários livros.<br />

Em l 960, fundou a Sociedade Brasileira de<br />

Defesa da Tradição, Família e Propriedade -<br />

TFP, e tem sido, desde então, Presidente d o<br />

Con<strong>se</strong>lho Nacional da entidade. Inspira<strong>das</strong> em<br />

Revolução e Contra-Revolução e em outras<br />

obras do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, TFPs<br />

e associações congêneres <strong>se</strong> de<strong>se</strong>nvolveram<br />

igualmente em doze paí<strong>se</strong>s <strong>das</strong> Améri cas e da<br />

Europa.<br />

ill aill a11r~1,1ia<br />

A Mensagem <strong>das</strong> treze TFPs faz detida análi<strong>se</strong><br />

d o socialismo autogestioná rio francês, que iniciou<br />

vigoroso processo de expansão internacional com<br />

a ascensão de François Mitterrand à Presidência<br />

da República Fra ncesa.<br />

Com abunda ntes citações de documentos oficiais<br />

do PS, a Mensagem sustenta que o socialismo<br />

autogestionário - ao contrário do que<br />

<strong>muito</strong>s imaginam - não constitui uma modalidade<br />

do esquerdismo, avançada <strong>se</strong>m dú vid a, mas<br />

bonacheirona e gradualista. A Mensagem põe em<br />

evidência que o programa autogestionário visa a<br />

desagregação da sociedade atual em corpúsculos<br />

autônomos, dotados de uma qua<strong>se</strong> soberania, o<br />

que redundará na implantação da utopia anárquica<br />

na França.<br />

Essa utopia, entretanto, o socialismo autogestionário<br />

não a reconhece como desordenada e caótica.<br />

Verdadeira escola filosófica substancialmente<br />

marxista, e portanto também evolucionista, o<br />

socia lismo francês espera promover, com a gra-<br />

III


1<br />

1<br />

1<br />

1<br />

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1 "i -b-i , _ 1 1 ,. , ._<br />

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• _].a.<br />

s. •• .,.-<br />

1<br />

"<br />

1.,1<br />

••<br />

'<br />

dual aplicação da reforma a utogestionária, uma<br />

transformação fundamental, não só da empresa<br />

industrial, comercial e rural, como também da<br />

família, da escola, e de toda a vida socia l. Mais<br />

ainda, ele pretende influir a fundo na própria vida<br />

individual, modelando a <strong>se</strong>u gosto os la ze res e o<br />

próprio arranjo interior <strong>das</strong> casas.<br />

Caos na família<br />

De outra parte, es<strong>se</strong>ncialmente laico, ele visa<br />

. admitir, em termo último, tão-só a escola autogestionária<br />

laica, à qua l os pais devem entregar<br />

<strong>se</strong>us filhos logo que completem dois anos de idade.<br />

A escola privada religiosa, ele visa aboli-la enquanto<br />

propriedade individual, e enquanto religiosa.<br />

A essa reforma geral, não poderia ficar alheia a<br />

família. A Mensagem mostra que o programa do PS<br />

equipara inteiramente o casamento à união livre<br />

entre os <strong>se</strong>xos, e reivindica a equivalência entre a<br />

união heteros<strong>se</strong>xual e a união homos<strong>se</strong>xual. Feminista<br />

ao ·extremo, o socialismo autogestionário exige,<br />

ademais, para a mulher, a inteira equivalência com o<br />

homem, inclusive na responsabilidade como no fardo<br />

dos trabalhos com que ela tenha que arcar.<br />

Acabar com o patrão<br />

A empresa, no final da evolução autogestionária,<br />

não tem patrão. A direção dela cabe, em<br />

última instância, à as<strong>se</strong>mbléia geral dos trabalhadores.<br />

Esta tem o direito de tomar periodicamente<br />

conhecimento de to<strong>das</strong> as atividades empresariais.<br />

Nem <strong>se</strong>quer o <strong>se</strong>gredo industrial lhe pode <strong>se</strong>r<br />

oculto. Os dirigentes da empresa são eleitos pela<br />

as<strong>se</strong>mbléia dos trabalhadores, a qual é soberana<br />

no que diz respeito às atividades empresariais.<br />

Como <strong>se</strong> vê - e os documentos do PS o<br />

afirmam <strong>se</strong>m rebuços - uma reforma tão completa<br />

da sociedade supõe uma reforma igualmente<br />

completa do próprio homem. É em função da<br />

•<br />

natureza humana assim reformada, que o socialismo<br />

autogestionário reclama não <strong>se</strong>r qualificado<br />

de utópico.<br />

A gradualidade<br />

O PS não espera realizar esta reforma total,<br />

da sociedade e do homem, em um só salto,<br />

mas por transformações sucessivas. Um dos meios<br />

es<strong>se</strong>ncia is pa ra pôr em movimento e levar a termo<br />

essa reforma do homem e da sociedade é a luta de<br />

clas<strong>se</strong>s. Negando não só o princípio de autoridade<br />

como toda hierarquia, o PS abre campo para ess<br />

luta, na empresa levantando os operários contra<br />

os patrões, e os dirigidos contra os dirigentes. Na<br />

família, suscitando a luta dos filhos contra os pais .<br />

Na escola, entre os alunos e mestres. E assim por<br />

diante.<br />

O programa do PS não nega a liberdade de<br />

funcionamento da fgreja. Mas esta - comenta a<br />

Mensagem - ficará reduzida a viver numa sociedade<br />

inteiramente laicizada até nos <strong>se</strong>us menores<br />

aspectos, que, enquanto tal, não tomará em qualquer<br />

linha de conta as obrigações do homem para<br />

com Deus, nem os princípios da ordem na tural<br />

delineados na Lei que Deus revelou a Moisés. Ela<br />

fica , pois, estranha à ordem civil, que tomará um<br />

rumo oposto ao ensinamento dela.<br />

"Liberté - Egalité - Fraternité"<br />

O socialismo autogestionário francês <strong>se</strong> proclama<br />

inteiramente coerente com a trilogia da Revolução<br />

de 1789: "Liberdade - Igualdade - Fraternidade".<br />

Para ele, a abolição do patronato na<br />

empresa é a con<strong>se</strong>qüência lógica da instauração da<br />

república. Ele aponta no patrão um pequeno rei<br />

que remanesce no interior da empresa, e no rei o<br />

grande patrão que a república democrática eliminou.<br />

Entre a vitória final do socialismo autogestionário<br />

e a Revolução Francesa, ele traça toda<br />

•.. •-<br />

. ."<br />

.Ili ··*"<br />

• l


•,JI<br />

uma genealogia de revoluções: 1848, 1871 e a<br />

Sorbonne-1968.<br />

A Encíclica de João Paulo II Laborem Exerc:en!i<br />

é uma versão católica do socialismo a utogestionário<br />

francês? Compreende-<strong>se</strong> o alcance da<br />

pergunta. especialmente na perspectiva católica,<br />

que é a <strong>das</strong> TFPs. Também este assunto vem abotdado<br />

na Mensagem.<br />

Mitterrand difunde a<br />

autogestão pelo mundo<br />

A que título <strong>se</strong> ocupam as TFPs de uma<br />

problemática à primeira vista toda ela francesa , e<br />

ant a qual, portanto, só competiria à TFP francesa<br />

tomar posição? A Mensagem põe em realce o<br />

imperialismo doutrinário <strong>muito</strong> marcante que caracteriza<br />

a política exterior do PS, e portanto<br />

também do atual governo francês. Ela mostra que<br />

a expansão internacional do socialismo autogestionário<br />

é meta relevante da diplomacia do Sr.<br />

François Mitterrand. E que o melhor meio para<br />

defender <strong>se</strong>us paí<strong>se</strong>s contra o que qualificam de<br />

agressão ideológica_ socialista consiste em revelarlhes<br />

a ve rdadeira face do socialismo autogestionário,<br />

conhecida pelos militantes do PS, não<br />

porém pelo grande público não socialista.<br />

No que diz respeito à França, a Mensagem<br />

demonstra que a vitória socialista nas eleições de<br />

maio-junho do ano passado não resultou de um<br />

aumento do eleitorado de esquerda. mas da desorientação<br />

do eleitorado católico, do qual uma<br />

parcela ponderável votou por Mitterrand, e do<br />

grande número de abstenções que houve no eleitorado<br />

não socialista, resultado de uma campanha<br />

conduzida <strong>se</strong>m o empenho necessário pelos partidos<br />

de centro-direita.<br />

Abrir todos os olhos também na França, à<br />

verdadeira fisionomia da autogestão, parece às<br />

TFPs <strong>se</strong>r o meio mais útil para que a população<br />

'<br />

francesa, recusando <strong>se</strong>u apoio ao socialismo. obste<br />

a que o prestígio político e cultural dessa nação<br />

<strong>se</strong>ja empregado a <strong>se</strong>rviço da agressão ideológica<br />

autogestionária.<br />

A Mensagem <strong>se</strong> encerra com um belo texto em<br />

que o Papa São Pio X afirma sua esperança de que<br />

a França venha a reluzir no mundo com todo o<br />

brilho cristão que lhe compete como filha primogénita<br />

e bem-a mada da Igreja .<br />

Uma Mensagem ampla, efeitos<br />

<strong>muito</strong> mais amplos ainda<br />

Ao encerrar o resumo da Mensagem <strong>das</strong> treze<br />

TFPs à opinião pública do Ocidente, é impossível<br />

evitar que aflore ao espírito de <strong>muito</strong>s leitores a<br />

<strong>se</strong>guinte pergunta: - Transcorreram oito me<strong>se</strong>s<br />

da divulgação inicial des<strong>se</strong> substancioso documento<br />

... Que efeitos produziu ele? - A resposta<br />

não é fácil de condensar numa sínte<strong>se</strong> como<br />

a pre<strong>se</strong>nte. Pois foram tantos, que só <strong>muito</strong> esquematicamente<br />

enunciados podem aqui caber.<br />

Distingamos entre efeitos dentro da França e<br />

fora da França. E, para maior comodidade do<br />

leitor, comecemos por estes últimos:<br />

a) Fora da França. - A correspondência que<br />

afluiu às Sedes ou Bureaux <strong>das</strong> TFPs indicados<br />

nos cupons para pedidos é a bem dizer incontável.<br />

Anda pelos milhares de cupons e cartas. A <strong>muito</strong><br />

grande maioria delas pede exemplares para distribuição<br />

entre parentes, amigos ou colegas, ou para<br />

bibliotecas de Universidades. Mui tas contêm, ademais,<br />

palavras de caloroso a poio. Uma minoria<br />

qua<strong>se</strong> insignificante exprime desacordo, geralmente<br />

em termos ultrajosos. E qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>mpre <strong>se</strong>m<br />

assinatura ou endereço.<br />

Além da correspondência, foram numerosos os<br />

telefonemas, uma certa parcela dos <strong>quais</strong> proveniente<br />

de órgãos de imprensa interessados em<br />

entrevistas ou declarações do autor da Mensagem,


1-'<br />

1. ,\ promessa<br />

2. A d ,ivid:i 3. A f'l'alidacle lamento<br />

1<br />

1<br />

- 1111<br />

t<br />

Prof. Plínio Corrêa de Oliveira; outros era m de<br />

pessoas que cumprimentavam efusiva mente pela<br />

publicação da Mensagem e pedi a m mais exemplares<br />

pa ra distribuir, e enfi m uma minoria que não<br />

po upava insultos e desaforos, gera lmente a nônimos<br />

.<br />

Parece legítimo afirmar que em todo o Ocidente<br />

o socia lismo, fa ceiro de sua propaganda nos<br />

vários paí<strong>se</strong>s, e dos sucessos que em <strong>muito</strong>s vinha obtendo,<br />

passou a uma posição de discrição e re<strong>se</strong>rva.<br />

Algo mudou na matização político-ideológica<br />

do Ocidente tomado como um todo.<br />

Também fora do Ocidente ecoou a Mensagem<br />

com uma amplitude surpreendente. Entre as missivas<br />

recebi<strong>das</strong>, diversas procedem de pa í<strong>se</strong>s da<br />

África, da Ásia e da Oceania, como África do Sul,<br />

Argélia, Bofutatswana, Botswana, Camarões,<br />

Gâmbia,Gana, Ilhas Maurício, Lesoto, Marrocos,<br />

Namíbia , Nepal, Rodésia, Senegal , Siskei, Suazilândia,<br />

T ranskei, Tunísia, Venda, Arábia Saudita,<br />

Bangladesh, Chipre, Kuwait, Israel, Turquia, China<br />

comunista, Coréia do Sul, Filipinas, Formosa,<br />

Hong Kong, Japão, Macau, Malásia, Rússia, Singapura,<br />

Tailâ ndia, Austrália, Nova Ca ledónia,<br />

Nova Zelândia.<br />

Nos pa í<strong>se</strong>s detrás da cortina de ferro, ao que<br />

conste , qua<strong>se</strong> não houve repercussões. Explica-<strong>se</strong>.<br />

A cortina de fe rro ... é cortina de fe rro!<br />

b) Na França. - O ocorrido na França surpreendeu,<br />

desconcertou... os otimistas, os ingênuos.<br />

E deixou em po:;1çao contrafeita, ta nto os<br />

socialo-comunistas decla rados, quanto os inocentes<br />

úteis.<br />

<strong>As</strong> coisas <strong>se</strong> passaram como <strong>se</strong> o governo<br />

socialista de Mitterrand, receoso da divulgaçã o da<br />

Me nsage m, ti ves<strong>se</strong> optado por empregar contra<br />

ela os métodos ditatoriais característicos dos regimes<br />

comunistas.<br />

Dado que o socia lis mo autogesti oná ri o fra ncês<br />

<strong>se</strong> ga ba de democrá tico e liberal em matéri a<br />

política. natural era que a Me nsagem, publicada<br />

<strong>se</strong>m mai or dific uldade na grande imprensa democrática<br />

de todo o Ocidente, ta mbém não encontras<strong>se</strong><br />

óbice em <strong>se</strong>r reproduzida nos principais<br />

diá rios fra nce<strong>se</strong>s do ce nt ro e da dire ita. Para es<strong>se</strong><br />

efeito, as treze l'FPs <strong>se</strong> dirigira m a <strong>se</strong>is dos maiores<br />

quotidia nos parisien<strong>se</strong>s. E de todos recebera m<br />

<strong>se</strong>ca e inexplicável recusa. Um dos mais importantes<br />

des<strong>se</strong>s jorna is chegara mesmo a contratar a<br />

publicação, rompendo o contrato <strong>pouco</strong> depois,<br />

de ma neira a brupta. A conduta unâ ni me dessas<br />

fo lhas é ta nto mais inexplicável q ua nto a Mensagem<br />

constitui ma téria paga de vulto, que nenhuma<br />

agência publicitá ria recusaria .<br />

<strong>As</strong>sim impedida de <strong>se</strong> difund ir no rma lmente<br />

em solo francês, as treze TFPs tiveram que <strong>se</strong><br />

contenta r com uma divulgação postal fei ta do<br />

modo mais a mplo possíve l <strong>se</strong>gundo o moderno<br />

sistema do mass mailing.<br />

Foram distribuídos assim 300 mil exempla res<br />

1'<br />

1<br />

' '<br />

• 1<br />

. ·•<br />

1


da Mensagem. A distribuição suscitou a bundante<br />

e calorosa correspondência. E, <strong>se</strong>gund o vá ri os<br />

ob<strong>se</strong>rvadores, teve reflexo <strong>se</strong>nsível na derrota espetacula<br />

r sofrida pela coligação governamental<br />

socialo-comunista nas recentes eleições cantonais<br />

francesas. ·<br />

Em 24 jornais de onze paí<strong>se</strong>s as treze TFPs<br />

publicaram o Comunicado Na França: o punho<br />

estrangulando a rosa, em que denunciam à opinião<br />

mundia l a presumível interferência do governo<br />

socialista francês no estranho e despótico<br />

cerceamento da liberdade de opinião delas.<br />

De fato, por força do regime socialista que está<br />

<strong>se</strong>ndo implantado na França, todo proprietário de<br />

empresa pode <strong>se</strong> r privado dos <strong>se</strong> us direitos pelo<br />

governo, rebaixado a mero funcionário, ou até<br />

expulso da empresa. Com essa espada de Dâ mocles<br />

suspensa sobre a cabeça, é ilusória a independência<br />

de qualquer proprietário de jorna l em<br />

relação ao Poder público. Es<strong>se</strong> Comunicado, que<br />

por sua vez suscitou intensa correspondência, contribuiu<br />

<strong>muito</strong> <strong>se</strong> nsivelmente para desiludir o grande<br />

público <strong>das</strong> promessas liberais do regime socialista.<br />

Esta constatação é de. grande a lcance. Pois<br />

abstração fei ta da promessa de liberdade, só res ta<br />

no regime a utogestioná ri o o que ele tem de afim<br />

com o comunismo.<br />

* * *<br />

A Mensagem <strong>das</strong> treze TFPs sobre o socialismo<br />

a utogestionário va i assim abrindo <strong>se</strong>u caminho<br />

largamente pelo mundo afora. E, ao lo ngo<br />

deste tudo tem encontrado: ódios furibundos,<br />

críticas infunda<strong>das</strong>, omissões inexplicáveis, velhas<br />

e luminosas solidariedades que nunca <strong>se</strong> deixaram<br />

desonrar pelo medo incontáveis adesões novas,<br />

algumas <strong>das</strong> <strong>quais</strong> inespera<strong>das</strong> e magníficas.<br />

D e,. tudo isto - e do que ainda acontecer - <strong>se</strong><br />

escreverá um dia a História. A História épica de<br />

um dos supremos esforços empreendidos "in signo<br />

Crucis" a fim de evitar à civilização ocidental<br />

agonizante, o soçobro fina l para o qual esta <strong>se</strong> vai<br />

deixando rolar.<br />

...<br />

<strong>As</strong> treze TFPs recomendam empenhadamente dos documentos tradicionais do Supremo Magisque<br />

os leitores deste resumo tomem conhecimento tério da Igreja.<br />

do texto integral da Mensagem aqui referida, de Textos da Mensagem em inglês, francês, aleautoria<br />

do Prof. 'Plinio Corrêa de Oliveira, a qual mão, português, espanhol e italiano podem <strong>se</strong>r<br />

constitui uma análi<strong>se</strong> particularmente penetrante e facilmente obtidos mediante carta ou envio de<br />

documentada do socialismo autogestionário à luz cupom dos interessados à<br />

Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade<br />

Rua Dr. Martinico Prado, 246 - 01224 - S. Paulo - Tel.: (011) 221-8755<br />

.,<br />

•<br />

Por favor, envie-me gratuitamente:<br />

exemplares do texto integral da Mensagem "O socialismo aurogestionário: em vista do<br />

comunismo. barreira ou cabeça-de-ponte?<br />

exemplares do resumo "Socialismo Autogestionário: Hoje, França - Amanhã, o Mundo .?"<br />

em D português D inglês D francês D alemão O es panhol O italiano<br />

D De<strong>se</strong>jaria maiores informações sobre as TFPs .<br />

D Anexo envio minha contribuição para ajudar o custo desta publicidade.<br />

Nome<br />

Endereço<br />

C idade<br />

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Envie este cupom para: TFP - Rua Dr. Martinico Prado, 246 - 01224 - São Paulo


'!' ., . ...<br />

'1.<br />

33 ,5 m i~hões de exemplares<br />

em 155 pub ~icaç - es de 69 paí<strong>se</strong>s<br />

'f /<br />

A Mensagem, o Comunicado, e um amplo resumo de ambos os documentos, foram publicados<br />

nos <strong>se</strong>gu intes jornais: nos ESTADOS UNIDOS, Washington Post, The New York Tim es, !Vali<br />

, Street Joumal, Los Angeles Tim es, Dallas Morn i11.g News e L '!talo-americano de Los A ngeles;<br />

no CANADÁ, The Globe a nd Ma il de. Toronto, La Pres<strong>se</strong> de Montréal e Speakup de Toronto:<br />

na ALENfANHA , Fra11kf11rter A /lgem eine Zeitung de, Frankfurt, Hamb urger Abendb latt, Suddew sche<br />

Zeitung de Munique e Die We lt de Hamburgo; na Á USTRFA , Die Pres<strong>se</strong> e Groschenblatt de<br />

Viena: na INGLA TERRA, Th e Ob<strong>se</strong>rver, The Daily Telegraph e Th e Guardian de Londres;<br />

em PORTUGAL , Comércio do Porto, Diário de Noticias e O Dia de Lisboa· na ESPANHA,<br />

La Vanguardia de Barcelona e Hoja dei Lunes de Madrid, Barcelona, Bilbao, Sevilha e Va /éncia,<br />

Sur de Málaga, Suroeste de Sevilha, Odiei de H11elb a, Cordoba, E/ Mundo Financiero e Servieio<br />

de Madrid; na FRANÇA , lnternational Hera/d Tribune e Rivarol de Paris; na IRLANDA, lrisch<br />

!ndependent e Irisch Times de Dublin; na ITÁLIA , li Tempo de Roma, li Giomale Nuovo<br />

de Milão , Giomale di Sicilia de Palermo e Gazzetta dei Sud de Messina; no LUXEMBURGO,<br />

Luxemburger Wort; na SUJÇA , La Tribune de Genéve de Genebra: 110 BRASIL , Folha de<br />

S. Paulo, Última Hora do Rio de Janeiro, A Tarde de Salvador, Estado de Minas de Belo<br />

Horizonte, Jornal do Commércio de Recife, O Estado do Paraná de Curitiba, O Popular de<br />

Goiânia e Jornal de Santa Catarina de Blumenau, Correio do Po vo, Zero Hora de Porto A legre,<br />

J \ ,Peu tsche Zeitung e Brasil Post de S. Paulo , O Mo nitor Campista de Campos, A República<br />

7 / de Natal, Diário de Natal, A Provincia do Pará de Belém, O Jornal de Uniguaiana, O Estado<br />

/ do Maranhão de S.Luis, Gazeta de Alagoas de Maceió e Letras em Marcha do Rio de Janeiro ;<br />

na ARGENTINA, La Nación de Buenos A ires, Mendoza e Los A ndes de /vlendoza, La Nueva Pro11incia<br />

de Bahia Bianca, Diário de Cuyo de San Juan , E! Sol de Caramarca, Cios Polski, Precisiones<br />

e La Palabra Ucronia de Buenos A ires e Nueva Jornada de Gal. Madariaga; no CHILE, El<br />

Mercurio de Santiago; 11 0 URUGUAI, El Pais de Montevidéu; na BOL{VIA. E! Diário de La<br />

Paz e E! :Mundo de Santa Cn1z; no EQUA DOR , E! Tiempo e E! Comercio de Quito, e E!<br />

Universo de Guayaquil; na COLÔMBIA. El Tiempo de Bogotá, E/ Pais de Ca/i, E/ Colombiano<br />

de Medellin , Diario de la Frontera d e Cucutá e Diario dei Hui/a de Neiua; na VENEZUELA,<br />

1/ Diário de Caracas, El Universal e E/ /l'tfundo de Caracas, E/ Impulso de Barquisimeto e Panorama<br />

de Maracaibo; no PERU, E/ Comercio de Lima; 110 PARAGVAI, Hoy e ABC de <strong>As</strong>sunção;<br />

na COSTA RICA, La Nación de San Jo<strong>se</strong>; na AUSTRÁLIA, Sydney Hera/d, The A ustralian<br />

de Sidney e The Me lb oume Age; nas FILIPINAS, The Times Journal de Manilha; na ÃFRJCA<br />

DO SUL , The Star, Th e Citizen, Th e Sunday Tim es e Rapport de Johanesburgo e The A rgus<br />

da Cidade do Cabo.<br />

Além destes, o Resumo dos documentos foi publicado também nas edições especiais de SELEÇÕES<br />

DE READER 'S DIGEST, que circulam em 65 poi<strong>se</strong>s <strong>das</strong> Américas, Europa, Ásia, África e Oceania.<br />

,<br />

r<br />

~1:<br />

- 1<br />

,. -<br />

11<br />

Pessoas indica<strong>das</strong> para receber o resumo<br />

"Socialismo Autogestionário: Hoje, França - Amanhã, o Mundo?"<br />

Nome<br />

Endereço<br />

Cidade:<br />

Nome<br />

Endereço<br />

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Nome<br />

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Código Postal<br />

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País<br />

Telefone<br />

País


Gustavo Antonio Solimeo<br />

Luiz Sérgio Solimeo<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece<br />

- A TFP as descreve como são<br />

II<br />

Gêne<strong>se</strong>, organização,<br />

doutrina e<br />

ação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>


OS AUTORES deste trabalho, em vinte anos<br />

de convívio fecundo com o Professor Plínio Corrêa de<br />

Oliveira, dele receberam admirável exemplo de virtude e de<br />

destemor, na polêmica contra a investida do progressismo.<br />

E além do exemplo, possante estímulo para o estudo e a<br />

pesquisa; ao que <strong>se</strong> soma lucidíssima orientação concreta com<br />

a qual o Mestre abriu as vias para os discípulos.<br />

Tal é a monta do que receberam, e ainda de modo<br />

particular para a elaboração do pre<strong>se</strong>nte trabalho,<br />

que um dever de justiça e de reconhecimento os leva a<br />

afirmar de público a parte eminente do Mestre,<br />

no estudo que <strong>se</strong> <strong>se</strong>gue ..


AVISO PRELIMINAR<br />

AS COMUNIDADES Eclesiais de Ba<strong>se</strong> são<br />

aqui estuda<strong>das</strong> em <strong>se</strong>u conjunto, enquanto um<br />

movimento.<br />

É preciso que fique claro que não <strong>se</strong> pretende<br />

atribuir a toda e qualquer Comunidade de Ba<strong>se</strong> os<br />

erros -de doutrina e desvios de conduta apontados<br />

neste trabalho, nem tam<strong>pouco</strong> negar a pre<strong>se</strong>nça<br />

nelas de gente de boa-fé. Haverá, certamente,<br />

Comunidades que não merecem tais reparos. Não<br />

são elas, entretanto, que dão a tônica e repre<strong>se</strong>ntam<br />

o dinamismo do movimento. Por outro lado,<br />

o movimento não pode <strong>se</strong>r visto como um conjunto<br />

de <strong>CEBs</strong> inarticula<strong>das</strong> entre si. Pelo contrário,<br />

ele constitui uma vasta rede que favorece o<br />

intercâmbio de pessoas e publicações, tornando<br />

assim fácil a propagação dos erros de doutrina e<br />

desvios de conduta aqui apontados. Uma vez que<br />

tais Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> aceitam o<br />

rótulo (embora possam por vezes não aceitar por<br />

inteiro o conteúdo), cabe a elas desfazer perante o<br />

público os equívocos a que tal situação <strong>se</strong> presta.<br />

Pois o que aparece como <strong>se</strong>ndo a doutrina, os<br />

métodos e a atuação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, quer no noticiário<br />

e nos comentários da grande imprensa, quer nas<br />

publicações católicas de um modo geral, quer nos<br />

trabalhos de especialistas (inclusive em Estudos da<br />

CNBB), assim como nos documentos provenientes<br />

<strong>das</strong> próprias Comunidades e, sobretudo, dos Encontros<br />

nacionais e internacionais já realizados ·no<br />

País, é o que vem denunciado nestas páginas.<br />

<strong>As</strong> diferenças de matizes de opinião e de<br />

conduta dentro do movimento podem <strong>se</strong>r explica<strong>das</strong><br />

pelas próprias diferenças de feitio pessoal,<br />

de temperamento, de grau de adesão de <strong>se</strong>us membros.<br />

Mas podem <strong>se</strong>r vistas também como uma<br />

decorrência da própria natureza camaleônica do<br />

movimento, bem como do caráter gradualista de<br />

sua metodologia. Des<strong>se</strong> modo, coexistem em <strong>se</strong>u<br />

<strong>se</strong>io desde Comunidades num estágio incipiente do<br />

processo de conscientização - volta<strong>das</strong> mais para<br />

as práticas estritamente religiosas e con<strong>se</strong>rvando<br />

ainda uma fisionomia tradicional -, até aquelas<br />

num estágio mais avançado do mesmo processo,<br />

para as <strong>quais</strong> a prática religiosa e a prática política<br />

<strong>se</strong> confundem.<br />

O pre<strong>se</strong>nte trabalho, ao traçar o perfil do<br />

movimento <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> em <strong>se</strong>u conjunto, denunciando-lhe<br />

os erros e o perigo que ele repre<strong>se</strong>nta,<br />

visa não somente a alertar a opinião pública,<br />

especialmente a católica, m :tS também a ajudar a<br />

todos quantos militam de boa-fé no movimento,<br />

desconhecendo a sua verdadeira natureza, a hete-<br />

108


Parte li<br />

rodoxia de suas doutrinas, bem como suas metas<br />

últimas, no plano político-social e religioso.<br />

* * *<br />

<strong>As</strong> páginas que <strong>se</strong> <strong>se</strong>guem são apenas o resumo<br />

de alguns dos principais capítulos de um trabalho<br />

<strong>muito</strong> mais extenso (cerca de 500 páginas) que está<br />

<strong>se</strong>ndo lançado pela Editora Vera Cruz em edição<br />

mimeografada, sob o título <strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong><br />

<strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece - A TFP as descreve<br />

como são - Comentários e documentação totim.<br />

Nes<strong>se</strong> trabalho, as afirmações aqui conti<strong>das</strong> -<br />

além de outras que não constam destas páginas -<br />

são esteia<strong>das</strong> em uma abundância de documentação,<br />

uma riqueza de fatos e um de<strong>se</strong>nvolvimento<br />

doutrinário que a exigüidade do pre<strong>se</strong>nte<br />

volume não poderia conter.<br />

Para a elaboração do estudo completo foram<br />

compulsados, cuidadosamente classificados e analisados<br />

214 livros, 153 monografias, ensaios e artigos<br />

especializados; 67 relatórios <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> para os<br />

Encontros Nacionais e 52 outros relatórios; 437<br />

cartilhas e folhetos publicados ou distribuídos por<br />

I 77 entidades diversas; coleções dos principais<br />

órgãos da imprensa nacional, religiosa e leiga, no<br />

período I 975-<strong>1982</strong>; alguns milhares de recortes<br />

avulsos de cerca de 100 jornais e revistas de todos<br />

os quadrantes do País, ademais de dezenas de<br />

documentos eclesiásticos sobre o tema. A pesquisa<br />

e estudo de toda essa documentação (a liás já retirada<br />

de qualquer <strong>se</strong>de da TFP e guardada em<br />

lugar inatingível por qualquer operação "pegaarquivo"<br />

... ) levou cerca de quatro anos, de 1978<br />

até a pre<strong>se</strong>nte data.<br />

Na impossibilidade - por razões de espaço -<br />

de dar conhecimento aqui de toda essa documentação,<br />

os Autores limitaram-<strong>se</strong> a apre<strong>se</strong>ntar as<br />

refe rências bibliográficas indispensáveis para documentar<br />

de modo suficiente as afirmações conti<strong>das</strong><br />

nestas páginas. O leitor interessado na bibliografia<br />

mais completa, ou de<strong>se</strong>joso de um maior<br />

aprofundamento no estudo do fe nômeno <strong>das</strong> Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, está convidado a<br />

recorrer ao volume mimeografado, contendo o<br />

resultado completo dessa pesquisa. Sobretudo estão<br />

convidados a tal aqueles dos leitores que<br />

qui<strong>se</strong>rem impugnar as apreciações e conclusões do<br />

pre<strong>se</strong>nte volume.<br />

(*) Os destaques em negrito constantes desta parte do<br />

trabalh o são dos Autores.<br />

Nota da Editora: O referido volume mimeografado<br />

- "<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong><br />

<strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece - A TFP as descreve<br />

como são - Comentários e documentação<br />

totais" - poderá <strong>se</strong>r adquirido na Editora<br />

Vera Cruz Ltda., à Rua Dr. Martinico Prado,<br />

246, CEP 01224, São Paulo. Tel. (011)<br />

221-8755, ramal 247.<br />

109


• Celebraçlo durante o 4 . 0 Encontro Nacional de Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong> no antigo noviciado dos<br />

Padres Jesultas, em ltaici-SP, abril de 1981.<br />

112


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> são como disc s voadores: todo mundo<br />

<strong>fala</strong> delas, mas ninguém <strong>sabe</strong> o que são<br />

O PE. JACQUES Loew (superior dos padresoperários<br />

france<strong>se</strong>s de Osasco-SP), não <strong>se</strong>m algum<br />

humor, anos atrás, comparava as Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong> com os "discos voadores": todo o<br />

mundo <strong>fala</strong> deles, mas ninguém <strong>sabe</strong> ao certo do<br />

que <strong>se</strong> trata ...<br />

E, realmente, para a maioria dos brasileiros,<br />

ainda hoje, as <strong>CEBs</strong> continuam a <strong>se</strong>r "objetos nãoidentificados".<br />

O que <strong>se</strong> compree;1de, pois um de<br />

<strong>se</strong>us principais divulgadores, o Pe. José Marins,<br />

diz que as <strong>CEBs</strong>, <strong>se</strong> não são <strong>se</strong>cretas, são ao menos<br />

discretas e podem adotar qualquer nome, ou<br />

nenhum nome ...<br />

Parece ter chegado a hora de tirá-las do<br />

anonimato, de identificá-las apre<strong>se</strong>ntando a sua<br />

fisionomia.<br />

Como nascem as Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong><br />

<strong>As</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> não brotam<br />

do chão da noite para o dia, como' cogumelos<br />

depois da chuva. Tam<strong>pouco</strong> nascem por geração<br />

espontânea.<br />

Elas são, ao contrário, o resultado de um<br />

longo, sistemático e persistente trabalho de cerca<br />

de 100 mil agentes pastorais (Bispos, Padres, freiras,<br />

leigos engajados) que atuam por todo o País,<br />

mas concentram <strong>se</strong>us esforços de modo especial<br />

em certas áreas, como a periferia dos grandes<br />

centros urbanos e a zona rural (!).<br />

A motivação para a formação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> é<br />

<strong>se</strong>mpre religiosa: as pessoas participam delas,<br />

primeiro e antes de tudo, por causa da religião e<br />

não por objetivos educacionais, profissionais ou<br />

políticos. Até mesmo as motivações não religiosas<br />

que podem aparecer no surgimento de algumas<br />

<strong>CEBs</strong> (de caráter assistencial ou social, por exemplo)<br />

só têm efetividade porque introduzi<strong>das</strong> por<br />

pessoas ou instituições liga<strong>das</strong> à Igreja.<br />

A iniciativa da criação <strong>das</strong> Comunidades de<br />

Ba<strong>se</strong> cabe qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>mpre ao clero e aos agentes<br />

pastorais, os <strong>quais</strong> procuram aproveitar nes<strong>se</strong><br />

( 1) A expressão e a figura do "agente de pastoral", ou<br />

simplesmente "agente pastoral" são de criação relativamente<br />

recente. A expressão não tem a precisão da terminologia<br />

eclesiástica tradicional, <strong>se</strong>ndo ao contrário vaga e ambígua,<br />

usada ao sabor <strong>das</strong> conveniências. Em <strong>se</strong>ntido amplo, abrange<br />

todos aqueles que <strong>se</strong> dedicam a atividades pastorais, <strong>se</strong>jam<br />

Bispos, Padres, Irmãos, Freiras, <strong>se</strong>minaristas ou simples leigos.<br />

Em <strong>se</strong>ntido restrito, designa os "leigos engajados", de ambos os<br />

113


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

<strong>se</strong>ntido as atividades e estruturas religiosas já<br />

existentes (reza do terço, novenas, Campanha da<br />

Fraternidade; capelas, associações tradicionais,<br />

movimentos). Tais elementos são reenfocados<br />

numa perspectiva "libertadora".<br />

Há também uma outra razão para a proliferação<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>: em certas dioce<strong>se</strong>s, sobretudo no<br />

Interior, o indivíduo é obrigado a pertencer a<br />

alguma Comunidade de Ba<strong>se</strong> para poder participar<br />

da vida religiosa local, inclusive para receber<br />

os Sacramentos. Isso força muita gente, não raro a<br />

contragosto, a participar <strong>das</strong> atividades comunitárias.<br />

Como já <strong>se</strong> dis<strong>se</strong>, antigas associações e movimentos<br />

(Congregações Marianas, Apostolado da<br />

Oração, Vicentinos, Legião de Maria, ou, mais à<br />

esquerda; Cursilhos, TLC, Movimento Familiar<br />

Cristão) foram trabalhados pelos agentes pastorais<br />

e transformados em Comunidades de Ba<strong>se</strong>, con<strong>se</strong>rvando<br />

embora as antigas denominações. Ficaram,<br />

já <strong>se</strong> vê, apenas os velhos rótulos, <strong>se</strong>ndo o<br />

conteúdo bem outro ...<br />

<strong>se</strong>xos, especialmente treinados em Institutos de pastoral, ou<br />

instituições análogas, para o trabalho de conscientização <strong>das</strong><br />

populações dos bairros periféricos e da zona rural. Tais agentes<br />

vivem exclusiva ou predominantemente de <strong>se</strong>u trabalho pastoral,<br />

<strong>se</strong>ndo sustentados pelas paróquias, prelazias, dioce<strong>se</strong>s ou<br />

organismos eclesiásticos, inclusive ligados à CNBB, como a<br />

Comissão Pastoral da Terra-CPT e o Con<strong>se</strong>lho Indigenista<br />

Missionário-CIMI, por exemplo. Com frequência, são bolsistas<br />

ou estagiários de instituições européias, norte-americanas e<br />

canaden<strong>se</strong>s de ajuda ao Terceiro Mundo. Grande parte dos<br />

sacerdotes que deixaram o ministério continuam a exercer<br />

atividades religiosas na qualidade de agentes pastorais remunerados.<br />

Nem todos es<strong>se</strong>s agentes pastorais são católicos: por<br />

exemplo, são frequentes os protestantes entre os agentes<br />

pastorais na CPT. Basta citar os luteranos ainda há <strong>pouco</strong><br />

envolvidos em conflito sangrento de terras em Rondônia,<br />

integrantes da CPT da Prelazia de Ji-Puaná.<br />

A iniciativa da criaçlo de <strong>CEBs</strong> cabe qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>mpre aos<br />

bem treinados agentes pastorais, os <strong>quais</strong> <strong>se</strong> aproveitam<br />

<strong>das</strong> estruturas e associações religiosas jé existentes. -<br />

Encontro de agentes pastorais e animadores de Comunidades<br />

de Ba<strong>se</strong>·em ltaquera, Zona Leste de Slo Paulo.<br />

O que slo as Comunidades<br />

Ecleslals de Ba<strong>se</strong><br />

<strong>As</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> - <strong>CEBs</strong><br />

são pequenos grupos de caráter religioso, organizados<br />

por iniciativa do clero e de agentes pastorais,<br />

em torno <strong>das</strong> paróquias e capelas.<br />

Cada CEB tem 10, 30 ou 50 membros, ou até<br />

mais, como ocorre em cidades do interior e na<br />

zona rural, onde 100, 200 e mais pessoas <strong>se</strong> reúnem<br />

aos domingos para a Missa ou o "culto". Nes<strong>se</strong><br />

caso, costuma <strong>se</strong>r dividida em grupos menores<br />

conhecidos por "grupos de ba<strong>se</strong>", "grupos d;<br />

oração", "grupos de reflexão", "círculos bíblicos" e<br />

outras denominações (a terminologia varia <strong>muito</strong>).<br />

114


Parte li<br />

Capítulo I -<br />

l<br />

Os grupos de ba<strong>se</strong> têm suas reuniões próprias, uma<br />

vez por <strong>se</strong>mana, havendo mensalmente uma reunião<br />

conjunta de toda a Comunidade, a "as<strong>se</strong>mbléia",<br />

"plenário" ou "grupão".<br />

O mais comum é chamar de CEB ao conjunto<br />

de vários des<strong>se</strong>s grupos de ba<strong>se</strong> reunidos em torno<br />

de uma capela ou de um centro comunitário (dez,<br />

em média). Mas acontece também de <strong>se</strong> dar essa<br />

denominação a cada um des<strong>se</strong>s pequenos grupos,<br />

o que pode ocasionar confusões, sobretudo quando<br />

<strong>se</strong> trata de avaliar o número de Comunidades<br />

existentes em algum lugar. Cada paróquia ou<br />

capela pode abranger um <strong>se</strong>m-número de Comunidades.<br />

<strong>As</strong> várias <strong>CEBs</strong> de uma paróquia, bairro ou<br />

<strong>se</strong>tor são assisti<strong>das</strong> e coordena<strong>das</strong> por um agente<br />

ou uma equipe pastoral, que faz a ligação delas<br />

entre si e com o Vigário.<br />

Em alguns casos o grupo de CEB toma algum<br />

nome (é freqüente a denominação Comunidade<br />

Cristo Libertador ou Comunidade Cristo Ressuscitado),<br />

mas em geral são conheci<strong>das</strong> pelo Padroeiro<br />

da matriz ou capela ( Comunidade Santo<br />

Antonio, Comunidade Nossa Senhora Aparecida),<br />

ou simplesmente pelo nome do lugar ( Comunidade<br />

do Parque Cocaia). Seus membros referem<strong>se</strong><br />

a elas apenas por "a Comunidade".<br />

um ou outro pequeno comerciante, alguma professora,<br />

e apo<strong>se</strong>ntados; na zona rural, são assalariados,<br />

pos<strong>se</strong>iros, parceiros ou arrendatários, pequenos<br />

proprietários, e <strong>se</strong>us familiares.<br />

<strong>As</strong> Comunidades organizam-<strong>se</strong>, pelo comum,<br />

<strong>se</strong>gundo um critério geográfico. Às vezes, entretanto,<br />

agrupam-<strong>se</strong> por idade ou categoria profissional<br />

e ambiental: grupo de jovens, de emprega<strong>das</strong><br />

domésticas, lavadeiras, soldados, favelados,<br />

internos de sanatórios, presidiários e até ... prostitutas!<br />

(De que há indícios nas Dioce<strong>se</strong>s de Juazeiro-BA,<br />

Rio Branco-AC, Lins-SP e Crateús-CE,<br />

por exemplo). Há também <strong>CEBs</strong> de índios (tais<br />

os xocós da Dioce<strong>se</strong> de Propriá-SE, os <strong>quais</strong><br />

invadiram terras da família do prefeito de Porto<br />

da Folha, tempos atrás).<br />

Os membros <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> slo recrutados nas cama<strong>das</strong> mais<br />

simples da população. em geral as mais religiosas da<br />

sociedade. E por sua atraçlo religiosa que aderem ao<br />

movimento. - Reunilo da Comunidade de Mangueirinha<br />

(Recife).<br />

Quem slo os membros <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong><br />

De modo geral as <strong>CEBs</strong> são homogêneas<br />

quanto ao nível cultural e sócio-econômico dos<br />

participantes: membros de uma família, vizinhos,<br />

colegas de <strong>se</strong>rviço, moradores da mesma rua ou<br />

bairro, freqüentadores da mesma paróquia ou<br />

capela. Na periferia urbana são, na maioria,<br />

donas-de-casa, operários, pequenos funcionários,<br />

empregados do comércio e do <strong>se</strong>tor de <strong>se</strong>rviços,<br />

115


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

A direção da CEB: "Um grupinho<br />

que age na surdina, planeja e<br />

decide, mas <strong>se</strong>m aparecer ... "<br />

Algumas Comunidades de Ba<strong>se</strong> apre<strong>se</strong>ntam<br />

uma organização interna de caráter mais ou menos<br />

convencional, com presidente, <strong>se</strong>cretário, tesoureiro.<br />

A maior parte delas, porém, rejeita es<strong>se</strong>s<br />

esquemas formais, <strong>muito</strong> <strong>pouco</strong> de acordo com o<br />

igualitarismo que <strong>se</strong>rpeia no movimento, e apre<strong>se</strong>ntam<br />

uma direção colegiada, sob a forma de<br />

equipes. Contudo, os dirigentes - <strong>se</strong>jam indivíduos<br />

ou equipes - não passariam de meros intérpretes<br />

da vontade geral da Comunidade, na qual<br />

residiria todo o poder e toda a autoridade,<br />

conforme a utopia autogestionária.<br />

A direção ostensiva cabe aos bem treinados<br />

monitores (também chamados animadores, coordenadores<br />

ou líderes), que vivem fazendo cursos<br />

de técnicas de liderança, de direção, de trabalho<br />

em comum e de dinâmica de grupo, em centros de<br />

treinamento <strong>das</strong> dioce<strong>se</strong>s e prelazias. Na realidade,<br />

quem de fato orienta e dirige a CEB é .um<br />

grupinho, o qual "age na surdina", "planeja e<br />

decide, mas <strong>se</strong>m aparecer" - como <strong>se</strong> pode ler em<br />

relatório do Regional Nordeste-! da CNBB.<br />

Mas a atuação des<strong>se</strong> grupinho, chamado "grupo<br />

fermento" (por trás do qual, obviamente, está o<br />

Padre, a freira, o agente pastoral) é feita com<br />

<strong>muito</strong> jeito, para que os membros todos tenham a<br />

ilusão de estar participando da co-gestão da CEB,<br />

e de que esta <strong>se</strong> governa a si própria <strong>se</strong>m<br />

interferência externa; ou <strong>se</strong>ja, é autogerida. Com<br />

propósito, o Pe. Pascoal Rangel comenta que os<br />

membros da CEB evidentemente repetirão o que<br />

clérigos ou agentes bem treinados lhes ensinarão a<br />

dizer, já que estão criticamente desarmados. Mas,<br />

à força de repetir, não acabarão por acreditar que<br />

foram eles mesmos que chegaram por si sós<br />

àquelas conclusões? Este é, aliás, um dos principais<br />

artifícios empregados no processo de conscientização.<br />

O grande objetivo <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>:<br />

a conscientização<br />

A grande maioria dos agentes pastorais considera<br />

a conscientização como o grande objetivo e a<br />

principal função <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong>. Ela ocupa em torno de dois terços dos<br />

esforços dos agentes pastorais e demais animadores;<br />

para ela são aproveita<strong>das</strong> to<strong>das</strong> as atividades<br />

internas e externas <strong>das</strong> Comunidades: cultos<br />

e celebrações; reuniões de reflexão, de discussão e<br />

ação; mutirões de trabalho; lazer comunitário;<br />

campanhas e movimentos reivindicatórios e de<br />

pressão sobre as autoridades.<br />

Ver-Julgar-agir ... como<br />

querem os agentes pastorais<br />

O local de reunião varia conforme as circunstâncias:<br />

pode <strong>se</strong>r a igreja, o salão paroquial, a<br />

capela, o centro comunitário, a creche, a escola ou<br />

um simples galpão; em <strong>muito</strong>s lugares as celebrações<br />

e reuniões realizam-<strong>se</strong> cada vez na casa de um<br />

dos participantes; também não faltam aquelas ao<br />

ar livre, à sombra acolhedora de alguma árvore ou<br />

numa discreta clareira da mata.<br />

<strong>As</strong> reuniões <strong>se</strong>guem qua<strong>se</strong> <strong>se</strong>mpre por toda a<br />

parte o esquema ver-julgar-agir. Depois de orações<br />

e cânticos, o monitor, animador ou coordenad.or<br />

pergunta como foi a <strong>se</strong>mana em casa, no bairro,<br />

no trabalho e os participantes fazem <strong>se</strong>u relato.<br />

Escolhe-<strong>se</strong> uma ou duas questões considera<strong>das</strong>·<br />

116


Parte li<br />

mais importantes e pros<strong>se</strong>gue-<strong>se</strong> a reunião em<br />

torno delas. Ou <strong>se</strong>não o monitor apre<strong>se</strong>nta um<br />

problema ( deficiência dos transportes ou pos<strong>se</strong> da<br />

terra, por exemplo) e pede que cada um relate suas<br />

experiências pessoais a respeito. Isso constitui o<br />

ver. Passa-<strong>se</strong> a <strong>se</strong>guir ao debate do "porquê" dos<br />

problemas levantados, à discussão <strong>das</strong> "causas": é<br />

o julgar. - O que Deus acha disso? Vai-<strong>se</strong> então à<br />

Bíblia e toma-<strong>se</strong> uma passagem que apre<strong>se</strong>nte<br />

<strong>se</strong>melhança ou analogia com a situação descrita e<br />

faz-<strong>se</strong> a aplicação. Por fim vem o agir: combina-<strong>se</strong><br />

a ação concreta para resolver o problema ou<br />

mudar a situação: mutirão para construir o centro<br />

comunitário, manifestação de protesto diante da<br />

Prefeitura, formação de uma chapa de oposição<br />

para concorrer às eleições no sindicato. Ou ainda<br />

uma "operação pega-fazendeiro".<br />

Não é difícil perceber o quanto tal método <strong>se</strong><br />

presta à manipulação da gente mais simples e<br />

totalmente confiante no que lhe vem do Padre,<br />

pelos bem adestrados monitores e agentes pastorais,<br />

os <strong>quais</strong> conduzem o debate para a direção<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> rumam para um mundo <strong>se</strong>m atrativos, todo.ele<br />

prético, funcional, laico e igualiürio. Aos <strong>pouco</strong>s, as<br />

igrejas vlo aendo substituldaa por "Centros Comuniürios"<br />

como o da Comunidade Cristo Libertador, de Macapé.<br />

Capítulo l - 1<br />

que lhes convém, levantam as questões que lhes<br />

interessam e têm <strong>se</strong>mpre à mão o texto bíblico<br />

adequado aos <strong>se</strong>us objetivos, interpretados, naturalmente,<br />

numa perspectiva "libertadora" ( existem<br />

já prontos verdadeiros "receituários" para as mais<br />

diversas · situações).<br />

Da discussão sobre a falta de água, luz,<br />

transporte ou a alta do custo de vida, para a<br />

contestação do regime sócio-político e econômico<br />

vigente o passo é pequeno (e os animadores,<br />

suficientemente habilidosos para provocá-lo). Por<br />

isso Frei Beto (apontado como um dos principais<br />

articuladores do movimento) diz que as <strong>CEBs</strong> têm<br />

um caráter pastoral que é político, enquanto faz<br />

emergir a "consciência crítica". E que querer<br />

"despolitizá-las" é privá-las des<strong>se</strong> caráter "pastoral<br />

libertador".<br />

"Ceder uma parte do <strong>se</strong>u EU,<br />

substltuldo por um NOS<br />

envolvente e conglomerante ... "<br />

<strong>As</strong> reuniões <strong>se</strong>manais são de importância vital<br />

para as Comunidades: elas é que garantem a<br />

coesão do grupo, o inter-relacionamento dos<br />

participantes, a troca de informações e experiências.<br />

Numa palavra, elas é que fazem surgir o<br />

espírito comunitário.<br />

Papel importante cabe às convivências - atividades<br />

sociais visando à maior integração do<br />

indivíduo na Comunidade e a aproximação entre<br />

os participantes dela: almoços, pas<strong>se</strong>ios, piqueniques,<br />

bailes. Não menos importantes são os<br />

jomaizinhos e boletins mimeografados, tanto para<br />

a vida interna da CEB, como para o intercâmbio<br />

com as demais.<br />

Além <strong>das</strong> reuniões regulares e <strong>das</strong> celebrações,<br />

as <strong>CEBs</strong> de<strong>se</strong>nvolvem um <strong>se</strong>m-número de ativi-<br />

117


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

dades comunitárias, de caráter religioso (cateque<strong>se</strong>,<br />

cursos bíblicos, equipes de liturgia, de<br />

canto, de preparação para os sacramentos etc.);<br />

social (trabalho coletivo, cursos de alfabetização,<br />

corte e costura, de leis etc.); e econômicas (roças<br />

comunitárias, farmácias comunitárias, compras<br />

comunitárias, caixa comum etc.),<br />

O comunitarismo exacerbado é característica<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>: pretende-<strong>se</strong> fazer com que os participantes<br />

ponham toda a sua vida em comum,<br />

desde as preocupações religiosas, sociais e econômicas,<br />

até as familiares e o próprio lazer. Mesmo<br />

os problemas mais íntimos e pessoais devem <strong>se</strong>r<br />

apre<strong>se</strong>ntados, debatidos e resolvidos na Comunidade.<br />

Inclusive cas 0<br />

os de adultério, como refere<br />

Frei Clodovis Boff em livro sobre as <strong>CEBs</strong> do Acre.<br />

Como escreve um autor, é preciso que o indivíduo<br />

"ceda uma parte do <strong>se</strong>u EU, fazendo com<br />

que <strong>se</strong>ja substituído por um NÓS envolvente e<br />

conglomerante ... "<br />

Em lugar do pão e do vinho, cacau,<br />

cafê, peixe, polvilho de mandioca ...<br />

<strong>As</strong> celebrações e o culto constituem o centro da<br />

vida <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>.<br />

Segundo o espírito e as doutrinas do movimento,<br />

a liturgia da Comunidade deve refletir a<br />

<strong>As</strong> celebrações nao <strong>CEBs</strong> as<strong>se</strong>melham-<strong>se</strong> a autênticos culto protest antes, quando não descambam para rituais<br />

grotescos. Os textos "litúrgicos" têm <strong>se</strong> mpre um caráter conscientizador e "libertador". - "Celebração da Eucaristia"<br />

(<strong>se</strong>m Padre), .na Comunidade de Barro do Vento, Taué-CE.<br />

118


Parte II<br />

Capítulo I -<br />

J<br />

vida de <strong>se</strong>us membros. Por con<strong>se</strong>guinte, está cada<br />

vez mais <strong>se</strong>ndo confiada a eles a elaboração dos<br />

textos litúrgicos, dos cânticos e do roteiro <strong>das</strong><br />

celebrações.<br />

E o que <strong>se</strong> tem pre<strong>se</strong>nciado são atos que <strong>se</strong><br />

as<strong>se</strong>melham a autênticos cultos protestantes ( quando<br />

não descambam para rituais com conotações<br />

fetichistas).<br />

Em tais atos - como no Protestantismo -<br />

ocupa papel preponderante, quando não exclusivo,<br />

a chamada "Celebração da Palavra", a qual<br />

pode consistir na leitura de um texto bíblico, de<br />

uma carta de protesto às autoridades ou de uma<br />

poesia subversiva de D. Pedro Casaldáliga. Às<br />

vezes <strong>se</strong> resume na discussão dos "problemas<br />

do ·povo".<br />

Quanto às "Celebrações da Eucaristia", o que<br />

<strong>se</strong> entende por tal nas <strong>CEBs</strong> não difere <strong>muito</strong>, <strong>se</strong><br />

em algo difere, do que por tal <strong>se</strong> entende nas <strong>se</strong>itas<br />

protestantes que não a aboliram de todo. Fica<br />

relegado a plano <strong>se</strong>cundário, quando não é negado<br />

implícita ou explicitamente, o caráter sacrifical da<br />

Santa Missa, reduzida a mera refeição ( o "ágape"<br />

ou "Ceia do Senhor", dos protestantes), a uma<br />

"janta", como prosaicamente a qualifica um livrinho<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> da Prelazia de São Félix do<br />

Araguaia, que tem por finalidade precisamente<br />

responder à pergunta contida no título: Missa, o<br />

que é? (Livrinho que, <strong>se</strong>ja dito de passagem, foi<br />

publicado pela Editora Vozes, de Petrópolis, e<br />

largamente difundido por todo o País). Adiante o<br />

livrinho ensina: "A missa é uma refeição. Jesus<br />

escolheu para esta refeição pão e vinho, porque era<br />

a comida que tinha em toda casa do povo dele,<br />

feito o arroz, a farinha e o café aqui para nós".<br />

Se a Missa é uma simples refeição e <strong>se</strong> o pão e o<br />

vinho foram utilizados por Jesus por <strong>se</strong>rem a<br />

comida do <strong>se</strong>u povo, porque, então, não utilizar<br />

nas "Celebrações da Eucaristia" aquilo que constitui<br />

a comida do nosso povo - o arroz, a farinha,<br />

o café?<br />

Ora, é precisamente o que <strong>se</strong> faz.<br />

Em celebrações no norte do Espírito Santo, as<br />

espécies eucarísticas foram substituí<strong>das</strong> por cacau,<br />

café, garrote, peixe e polvilho de mandioca,<br />

conforme o produto predominante na região. Na<br />

Paraíba, fez-<strong>se</strong> a partilha do cuscuz, para simbolizar<br />

a fração da hóstia.<br />

E os textos "litúrgicos" apre<strong>se</strong>ntam <strong>se</strong>mpre um<br />

aspecto "conscientizador" e "libertador", porejando<br />

o espírito de revolta e a luta de clas<strong>se</strong>s.<br />

A vasta "periferia" dos "simpatizantes"<br />

e "aliados" e a "massa de manobra"<br />

Em grande número de paróquias, especialmente<br />

em bairros periféricos, pequenas cidades e<br />

capelas rurais, as atividades religiosas do lugar<br />

constituem praticamente um prolongamento da<br />

atuação <strong>das</strong> Comunidades de Ba<strong>se</strong>. Pois os <strong>se</strong>us<br />

membros é que preparam e conduzem as celebrações,<br />

novenas, festa do Padroeiro, procissões e<br />

outras manifestações da chamada "religiosidade<br />

popular", as <strong>quais</strong> oferecem excelente ocasião para<br />

o trabalho de recrutamento e de conscientização<br />

da massa,dos fiéis. O mesmo <strong>se</strong> dá com os cursos<br />

de preparação para o Batismo, a Primeira Comunhão,<br />

o Casamento, dos <strong>quais</strong> são, via de regra, os<br />

responsáveis.<br />

<strong>As</strong> atividades externas mais importantes <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong> são as campanhas de mobilizaçio popular<br />

para promover 'alguma reivindicaçio: reúnem na<br />

igreja, capela ou centro comunitário os moradores<br />

do bairro, favela ou zona rural para tratar de<br />

algum problema local (água, luz, esgoto, pos<strong>se</strong> da<br />

terra, sindicalismo) e em torno des<strong>se</strong> ponto de<strong>se</strong>n-<br />

119


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

volvem um intenso trabalho de conscientização da<br />

população. Alguns acabam por integrar-<strong>se</strong> na<br />

CEB; outros passam a constituir os "simpatizantes"<br />

ou "aliados"; uma boa parte, <strong>se</strong>m o <strong>sabe</strong>r<br />

(e, não raro, <strong>se</strong>m o querer), acaba constituindo<br />

importante "massa de manobra" <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>. Por<br />

essa forma o movimentq <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais<br />

de Ba<strong>se</strong> vai formando em torno de si uma<br />

vasta periferia ou coroa, da qual elas são o núcleo<br />

ou cerne duro.<br />

A "maquina" <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong><br />

O movimento <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> passa a dispor, assim,<br />

de poderosa "máquina" de atuação, cujas peças<br />

são os organismos por elas criados ou infiltrados:<br />

clubes de mães; movimentos de reivindicações <strong>das</strong><br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> atingem <strong>se</strong>tores refratários à pregação comunista<br />

direta: pacatos chefes de familia, tranqüilas donasde-casa.<br />

ordeiros trabalhadores. - Concentração de<br />

1. 0 de maio de 1978 no Colégio Santa Maria (S ão Paulo):<br />

não faltaram os punhos cerrados. conhecido gesto comunista.<br />

periferias (água, luz, transporte, creches, posto de<br />

saúde, luta contra os loteamentos clandestinos);<br />

grupos de rua; grupos de quarteirão; grupos de<br />

música e teatro; comissões de visitas; Movimento<br />

Contra a Carestia; Movimento de Favelas; <strong>As</strong><strong>se</strong>mbléia<br />

do Povo; Oposição Sindical; Sociedade de<br />

Amigos de Bairro etc.<br />

São ainda as <strong>CEBs</strong> que animam entidades<br />

eclesiásticas mais amplas, como a Comissão Pastoral<br />

da Terra, Pastoral Operária, Comissões de<br />

Justiça e Paz, Centros de Defesa dos Direitos<br />

120


Parte li<br />

Humanos e outras. Elas é que fornecem os<br />

ativistas em nível de ba<strong>se</strong>, <strong>se</strong>m os <strong>quais</strong> essas<br />

entidades, de modo geral, não passariam de_<br />

simples rótulos.<br />

Com tudo isso, as Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong> vão salpicando de descontentamento e de<br />

revolta os ambientes em que <strong>se</strong> movem. Elas<br />

transformam as doutrinas marxistas da Teologia<br />

da Libertação em práxis miúda, atingindo por essa<br />

forma <strong>se</strong>tores da população refratários à pregação<br />

comunista direta.<br />

Instrumentalização de uma<br />

confiança Ingênua<br />

Por <strong>se</strong>u caráter religioso e sua constituição<br />

peculiar, mobilizam em prol da luta pela derrubada<br />

<strong>das</strong> atuais estruturas, um número, mas<br />

sobretudo um tipo de pessoas normalmente avessas<br />

a qualquer militância política: pacatos chefes<br />

Capítulo I - /<br />

de família, tranqüilas donas-de-casa, operários<br />

ordeiros e homens simples da roça.<br />

Isto ocorre em virtude da confiança irrestrita<br />

no Padre, que caracteriza o brasileiro comum. Tal<br />

confiança - em si mesma louvável - é entretanto<br />

nas mais <strong>das</strong> vezes deformada por uma<br />

compreensão inexata da infalibilidade pontifícia, a<br />

qual é indevidamente estendida para os Bispos,<br />

Sacerdotes e até mesmo religiosas.<br />

Para o católico brasileiro comum, o Padre é a<br />

encarnação da própria Igreja. Ele toma suas<br />

palavras e suas atitudes como <strong>se</strong>ndo <strong>se</strong>mpre e<br />

indiscutivelmente a expressão fiel, autêntica e<br />

completa do pensamento da Igreja, por mais<br />

estranhas, heterodoxas e chocantes que <strong>se</strong>jam.<br />

E o Clero engajado nas <strong>CEBs</strong> - negador de<br />

to<strong>das</strong> as infalibilidades e de to<strong>das</strong> as autoridades<br />

- <strong>sabe</strong> explorar essa deformação em proveito da<br />

Revolução no <strong>se</strong>io da Igreja e da sociedade (cfr.<br />

Parte 1).<br />

Referências: CNBB, Pastoral Social, Estudos da CNBB-10,<br />

São Paulo, 1976; IDEM, Comunidades: Igreja na Ba<strong>se</strong>, Estudos<br />

da CNBB-3, São Paulo, 1975; IDEM, Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong> no Brasil, Estudos da CNBB-23, São Paulo, 1979; FREI<br />

ALMIR RIBEIRO GUIMARÃES OFM, Comunidade de Ba<strong>se</strong> no<br />

Brasil: uma nova maneira de <strong>se</strong>r em Igreja, Vozes, Petrópolis,<br />

1979; PE. JosÉ MARINS, Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> na<br />

América Latina, in "Concilium", n. 0 104, 1975; IDEM, Comunidade<br />

Eclesial de Ba<strong>se</strong>: prioridade pastoral, Paulinas, São<br />

Paulo, 1976; PAUL SINGER e VINICIUS CALDEIRA BRANDT (org.),<br />

.São Paulo: o Povo em movimento, Vozes-CEBRAP, Petrópolis-São<br />

Paulo, 1980; FREI BETo, O que é Comunidade Eclesial de<br />

Ba<strong>se</strong>, Ed. Brasilien<strong>se</strong>, São Paulo, 1981; PE. ROGÉRIO AucrNo<br />

PIME, Comunidade, líder, paróquia, Paulinas, São Paulo, 1977;<br />

FREI CLOD0VIS BoFF OSM, Deus e o homem no inferno verde<br />

- Quatro me<strong>se</strong>s de convivência com as <strong>CEBs</strong> do Acre,<br />

Vozes, Petrópolis, 1980; IDEM, A influência política <strong>das</strong> Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong> (<strong>CEBs</strong>), in "SEDOC", janeirofevereiro<br />

1979; CNBB-REGIONAL oo NORDESTE-!, XVI Encontro<br />

da Comissão Episcopal Regional N E-/, Teresina, janeiro 1980,<br />

Anexo 2; CNBB-REGJONAL SuL-2, Manual sobre as Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, Vozes, Petrópolis, 2.• ed., 1977;<br />

EQUIPE DE REDAÇÃO DAS DIOCESES DE CARATINGA, TEÓFILO 0-<br />

TONI, DIVINÔPOLIS E ARAÇUAI, Abra a poria - cartilha do Povo<br />

de Deus, Paulinas, 2.ª ed., 1979; PE. RAUL M0TTA DE ÜLIVEIRA,<br />

Manual <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, Editora Dom<br />

Carlota, Caratinga, 1978; PE. G. DEELEN SSCC, La /g/esia ai<br />

encuentro dei pueb/o en América Latina: las comunidades de<br />

ba<strong>se</strong> en Brasil, in "Boletin Pro Mundi Vita", abril/junho 1980<br />

(Bruxelas); PE. J. KERKHOFS SJ, Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong><br />

en América Latina, in "Boletin Pro Mundi Vita", <strong>se</strong>tembro<br />

1976; PE. JEsus ANDRÉS VELA SJ, Las Comunidades de Ba<strong>se</strong> y<br />

una lglesia Nueva, Editorial Guadalupe, Buenos Aires 1971 ·<br />

Relatórios e depoimentos dos Encontros Nacionais de Comu'.<br />

nidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, publicados em "SEDOC", maio<br />

1975, _outubro 1976, novembro 1976, outubro 1978, janeirofevereiro<br />

1979, <strong>se</strong>tembro 1981; PE. DOMINIQUE BARBÉ, En e/<br />

futuro, las Comunidades de Ba<strong>se</strong>, Studium, Madrid, 1974<br />

(prólogo de Jacques Loew).<br />

121


"Comunidade de Ba<strong>se</strong>.<br />

. .<br />

marxismo, equz<br />

OM MIGUEL Balaguer, Bispo de Tacuarembó<br />

(Uruguai), tem uma curiosa explicação<br />

quanto à origem da expressão "Comunidades de<br />

Ba<strong>se</strong>". Falando da necessidade de pequenas comunidades,<br />

acrescenta: "Agora elas foram batiza<strong>das</strong><br />

com o nome de 'comunidades de ba<strong>se</strong>'; expressão<br />

inspirada na terminologia marxista, equivalente a<br />

soviete; mas isso não é motivo para rejeitá-la.<br />

Tínhamos o nome já escolhido para uma criança<br />

que cuidávamos que nasces<strong>se</strong> o quanto antes".<br />

Pois bem, o estudo da história, da doutrina e<br />

da atuação <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong><br />

mostra que a inspiração marxista não fica apenas<br />

no nome ...<br />

Por outro lado, a declaração do Bispo uruguaio<br />

- que qua<strong>se</strong> choca pela franqueza - desfaz<br />

um dos mitos mais cuidadosamente alimentados<br />

pelo movimento <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>: o mito da espontaneidade.<br />

Espontaneidade que é apre<strong>se</strong>ntada como<br />

sinal da ação do Espírito.<br />

O mito da espontaneidade<br />

<strong>As</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> têm verdadeira<br />

necessidade de não aparecer aos olhos do<br />

grande público - e, mais ainda, de <strong>se</strong>us próprios<br />

membros - como um movimento organizado.<br />

Isso por razões tanto doutrinárias, quanto estratégicas.<br />

Por um lado, as próprias <strong>CEBs</strong> <strong>se</strong> autodefinem<br />

como "uma Igreja que nasce do povo pelo<br />

Espírito de Deus". Testemunho dessa ação do<br />

Espírito <strong>se</strong>ria o caráter espontâneo de sua origem e<br />

formação, no qual <strong>se</strong> deveria ver um "sinal dos<br />

tempos".<br />

Elas corresponderiam a um processo espontâneo<br />

e desarticulado, suscitado pelo "Espírito", ao<br />

mesmo tempo, em várias partes do mundo,<br />

sobretudo na América Latina. Cada Comunidade<br />

<strong>se</strong>ria um grupo autônomo e soberano, autogerido,<br />

nascido da realidade local. Elas são apre<strong>se</strong>nta<strong>das</strong><br />

des<strong>se</strong> modo ao grande público, e é possível que<br />

como tais apareçam aos olhos de não <strong>pouco</strong>s de<br />

<strong>se</strong>us membros de ba<strong>se</strong>, os <strong>quais</strong> talvez até acreditem<br />

<strong>se</strong>r os protagonistas dessa "no.va maneira de<br />

<strong>se</strong>r Igreja" ... (Na realidade, por trás des<strong>se</strong> aparente<br />

igualitarismo e democratismo radical, está um<br />

grupo de gente bem treinada, que manipula os<br />

cordéis ... ).<br />

Por outro lado, pretendem <strong>se</strong>r já a realização, a<br />

um tempo, do modelo da nova Igreja e da nova<br />

sociedade: <strong>se</strong>m estruturas, <strong>se</strong>m organização, <strong>se</strong>m<br />

autoridade, em conformidade com a utopia autogestionária<br />

que está no bojo de sua doutrina.<br />

122


Parte li<br />

O mito da espontaneidade é assim <strong>muito</strong><br />

importante para a legitimação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> aos olhos<br />

do público e de <strong>se</strong>us próprios membros. Pois, <strong>se</strong><br />

elas nascem espontaneamente, por moção do<br />

Espírito, quem pode contestar sua fisionomia, sua<br />

doutrina e <strong>se</strong>us métodos?<br />

Um movimento que não é<br />

<strong>se</strong>creto, mas é "discreto"<br />

Mas quem acompanha com atenção o noticiário<br />

da imprensa e estuda a abundante documentação<br />

concernente a elas, acaba constatando<br />

que por toda a parte as <strong>CEBs</strong> apre<strong>se</strong>ntam as<br />

mesmas características fundamentais, as mesmas<br />

doutrinas, os mesmos objetivos, os mesmos métodos<br />

de recrutamento, formação e atuação, e até<br />

um jargão próprio.<br />

Por outro, realizaram-<strong>se</strong> no País quatro Encontros<br />

Nacionais e dois Internacionais de Comunidades<br />

de Ba<strong>se</strong>, além de numerosos encontros<br />

inter-diocesanos, regionais etc. Tudo isso, evidentemente,<br />

exige planejamento, organização, coordenação,<br />

financiamento etc.<br />

Não parece, pois, infundado concluir que, in<br />

concreto e independentemente de estruturas de<br />

caráter organizacional cuja existência <strong>se</strong> possa<br />

identificar, as Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong><br />

constituem um movimento coeso e solidário, bastante<br />

disciplinado, não só de caráter nacional, mas<br />

até internacional. E tanto é assim, que autores<br />

insuspeitos (por <strong>se</strong>rem mentores ou simpatizantes<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>), inclusive publicações da própria<br />

CNBB, referem-<strong>se</strong> a elas como o "movimento <strong>das</strong><br />

Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>" (em que pe<strong>se</strong>m as<br />

tími<strong>das</strong> re<strong>se</strong>rvas de D. Eugênio Salles com relação<br />

ao 4. 0 Encontro Nacional - re<strong>se</strong>rvas, aliás, de<br />

caráter meramente disciplinar, <strong>se</strong>m qualquer refe-<br />

Frei Betto (à esquerda). cúmplice do terrorista comunista<br />

Marighela. é um dos principais articuladores <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong> em nlvel nacional. - Durante a famosa "Noite<br />

Sandinista", realizada em São Paulo em 19B0. ele<br />

confabula com o Pe. D'Escoto, Chanceler da Nicarágua.<br />

rência de ordem doutrinária ou metodológica).<br />

Como, entretanto, caracterizar um movimento<br />

que, <strong>se</strong> não é <strong>se</strong>creto, é pelo menos discreto? E que,<br />

ademais, pode adotar qualquer nome, ou nenhum<br />

nome, conforme afirmações do Pe. José Marins,<br />

um de <strong>se</strong>us principais teóricos e expoentes em nível<br />

internacional?<br />

Quem dirige o movimento <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>?<br />

Em princípio, cada Bispo é responsável pelas<br />

<strong>CEBs</strong> de sua dioce<strong>se</strong> e cada Vigário p~las de sua<br />

123


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> mu110 <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

paróquia. E, de fato, <strong>se</strong>m <strong>se</strong>u conhecimento e<br />

aprovação, ao menos tácita, elas não podem <strong>se</strong>r<br />

forma<strong>das</strong> (1).<br />

Mas uma pergunta fica: quem as coordena em<br />

nível interdiocesano, estadual, regional e nacional?<br />

E mundial?<br />

Ao contrário de outros movimentos religiosos,<br />

as <strong>CEBs</strong> não têm uma direção central ostensiva,<br />

nem responsáveis conhecidos em escalões mais<br />

elevados, menos ainda em nível nacional.<br />

Nem por isso deixa de haver uma coordenação<br />

geral do movimento comunitário, a qual, <strong>se</strong><br />

passa despercebida ao grande público (e talvez à<br />

maioria dos próprios membros <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> ... ), não é<br />

menos real e efetiva.<br />

A unidade do movimºento é garantida, em larga<br />

medida, pelos inúmeros encontros, as<strong>se</strong>mbléias e<br />

reuniões em todos os níveis; pelos cursos de<br />

formação e treinamento de líderes e agentes pastorais;<br />

pelo intenso intercâmbio de pessoas e de<br />

publicações (dados recentes <strong>fala</strong>m em mais de três<br />

milhões de exemplares mensais, só de boletins<br />

mimeografados). O que supõe a existência de um<br />

organi~mo coordenador, composto por pessoas<br />

coni autoridade, acata<strong>das</strong> e respeita<strong>das</strong> pelas<br />

Comunidades de t.odo o País.<br />

- Quem <strong>se</strong>rão essas pessoas?<br />

Um conjunto de Bispos, Padres, freiras, agentes<br />

pastorais, teólogos, sociólogos, pastores protestantes,<br />

têm acompanhado mais de perto as<br />

Comunidades de Ba<strong>se</strong>, participando inclusive de<br />

<strong>se</strong>us Encontros nacionais ou internacionais. Se-<br />

rão eles os dirigentes nacionais do movimento?<br />

A suposição não é descabida, pois, em concreto,<br />

suas diretrizes teóricas e práticas é que têm orientado<br />

as <strong>CEBs</strong> brasileiras.<br />

Centenas de centros espalhados por todo o Brasil<br />

produzem uma infinidade de folhetos, cartilhas e boletins,<br />

num esforço de "conscientizar" as " ba<strong>se</strong>s" e as<strong>se</strong>gurar<br />

a unidade de doutrinas, de métodos e de objetivos<br />

do movimento <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>.<br />

(1) Em 1975, Paulo VI estabeleceu na Exortação Apostólica<br />

Eva ngelii Nuntiandi as condições para que uma "comunidade<br />

de ba<strong>se</strong>" pudes<strong>se</strong> <strong>se</strong>r considerada "eclesial" e não mera entidade<br />

sociológica. Entre essas condições está a união com a H ierarquia<br />

(Doe. cit., n. 0 58).<br />

124


Parte II<br />

Origem <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong><br />

A S PRIMEIRAS Comunidades de Ba<strong>se</strong> teriam<br />

surgido no Brasil pelos fins dos anos 50,<br />

com os "catequistas populares" estabelecidos<br />

por D. Agnelo Rossi em Barra do Paraí, e com<br />

os grupos de "educação de ba<strong>se</strong>" do Movimento<br />

de Natal, criado anos antes por D. Eugênio Salle<strong>se</strong><br />

D . Nivaldo Monte, então jovens sacerdotes.<br />

Em nível nacional, o Plano de Emergência<br />

da CNBB ( 1962) as<strong>se</strong>ntou os <strong>se</strong>us fundamentos<br />

e o primeiro Plano de Pastoral de Conjunto<br />

. (1965) já menciona explicitamente as "Comunidades<br />

de Ba_<strong>se</strong>". Nos anos <strong>se</strong>guintes passaram<br />

a constituir uma <strong>das</strong> prioridades da pastoral da<br />

CNBB. <strong>As</strong>sim ampara<strong>das</strong> pelo Episcopado, elas<br />

começaram a <strong>se</strong> multiplicar por toda a parte,<br />

sobretudo depois da Conferência de Medellin<br />

( 1968), quando foram considera<strong>das</strong> opção prioritária<br />

para a pastoral em todo o Continente.<br />

100 mil <strong>CEBs</strong>, 2,5 milhões de membros?<br />

- Qual o número total de <strong>CEBs</strong> no Brasil?<br />

Quantas pessoas militam no movimento?<br />

Duas perguntas que nem a própria CNBB <strong>sabe</strong><br />

responder. Ou diz que não <strong>sabe</strong>. Pois os Bispos<br />

responsáveis devem informar-<strong>se</strong> a respeito.<br />

Em 1974, um levantamento feito pelo CERIS<br />

(espécie de IBGE eclesiástico) dava o total de 40<br />

mil <strong>CEBs</strong> em todo o Brasil, <strong>se</strong>m informar,<br />

contudo, o número de participantes. Em 1980,<br />

para atender a um pedido de informação do<br />

Vaticano, o mesmo CERIS fez uma projeção, que<br />

deu como resultado 80 mil <strong>CEBs</strong> no País; também<br />

Capítulo I - 2<br />

não aparece o total de membros. Para hoje não há<br />

dados oficiais. <strong>As</strong> estimativas veicula<strong>das</strong> pela<br />

imprensa religiosa e leiga variam de 80 a 90 ou até<br />

100 mil <strong>CEBs</strong>, totalizando um contingente de 2 a<br />

2,5 milhões de pessoas conscientiza<strong>das</strong>. Frei Leonardo<br />

e Frei Clodovis Boff chegam a <strong>fala</strong>r em 4<br />

milhões de membros, o que constitui evidente<br />

exagero.<br />

Faltam meios para controlar essas estimativas<br />

e para avaliar, ainda que por aproximação, o<br />

número de <strong>CEBs</strong> existentes, bem como o total de<br />

<strong>se</strong>us membros. Entretanto, mais do que a falta de<br />

dados estatísticos atualizados, o que torna difícil<br />

avaliar o contingente <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> é o caráter discreto<br />

do movimento, e <strong>se</strong>u aspecto camaleônico, que ora<br />

toma um nome, ora outro, ora nenhum, agindo no<br />

anonimato ou por trás de biombos e facha<strong>das</strong>.<br />

"Pressão de ba<strong>se</strong>" <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> e<br />

"pressão de cúpula" da CNBB<br />

Quaisquer que <strong>se</strong>jam os números, o certo é que<br />

as Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> repre<strong>se</strong>ntam um<br />

contingente ponderável de pessoas. Ainda que<br />

minoritário face à população total do País, e<br />

pequeno para os objetivos que <strong>se</strong> propõe, es<strong>se</strong><br />

contingente é, no entanto, suficientemente grande<br />

para promover uma agitação que permita à<br />

CNBB, a certos <strong>se</strong>tores políticos e da imprensa<br />

apre<strong>se</strong>ntá-las como uma força irresistível, ante a<br />

qual é preciso ceder. Para repre<strong>se</strong>ntarem o show<br />

da pressão de ba<strong>se</strong> que permita à CNBB exercer a<br />

verdadeira pressão de cúpula sobre as clas<strong>se</strong>s<br />

dirigentes, no <strong>se</strong>ntido de forçar a aprovação <strong>das</strong><br />

reformas de estruturas (Reforma Agrária, Reforma<br />

Urbana, Reforma Empresarial e outras), que<br />

eliminem a propriedade privada e conduzam o<br />

País rumo ao socialismo autogestionário.<br />

125


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Uma deputada eleita pelas <strong>CEBs</strong><br />

''N O DIA 15 de novembro de 1971 duas<br />

freiras foram dar um curso sobre renovação da<br />

Igreja nesta paróquia [Nossa Senhora <strong>das</strong><br />

Graças, Vila Remo, São Paulo]. Nes<strong>se</strong> dia<br />

passaram o filme 'O valor da pessoa humana',<br />

mostrando que todo mundo tem valor, que<br />

todos têm que ter um papel na sociedade. A<br />

proposta <strong>das</strong> freiras: que não <strong>se</strong> ficas<strong>se</strong> somente<br />

neste encontro mas que continuas<strong>se</strong> em outros<br />

trabalhos. Fundar o Clube <strong>das</strong> Mães, por<br />

exemplo . ....<br />

"Ficou marcado para to<strong>das</strong> as quintas-feiras<br />

nova reunião. Uma <strong>das</strong> freiras, Irmã Verónica,<br />

saiu. Outra, Irmã Angélica, continuou com o<br />

trabalho. A té que um dia ela teria de receber<br />

[emitir] o voto perpétuo e ficar no convento.<br />

Reuniu a comunidade e fez a proposta: deveria<br />

voltar para sua Ordem ou ficar com as mães?<br />

Depois dessa reunião, ela desistiu de <strong>se</strong>r freira.<br />

Hoje está casada, tem um filho e no mês que<br />

vem nascerá o <strong>se</strong>gundo filho. Essa moça é<br />

deputada estadual, e <strong>se</strong>u nome é Irma Passoni"<br />

("O São Paulo", 10-5-79).<br />

E é preciso reconhecer que as Comunidades de<br />

Ba<strong>se</strong> encontram-<strong>se</strong> espalha<strong>das</strong> por todo o Brasil,<br />

fazendo <strong>se</strong>ntir sua ação nos mais diversos aspectos<br />

da vida nacional: religioso, político, sindical,<br />

educacional, tanto nas capitais corno no interior,<br />

nos bairros, nas favelas, no campo e até nas<br />

profundezas da <strong>se</strong>lva amazônica.<br />

· No ano passado, as depredações de ônibus em<br />

Salvador e as invasões de terrenos urbanos em<br />

várias capitais alarmaram a opinião pública. O<br />

caso dos padres france<strong>se</strong>s acusados de incitarem<br />

ao crime os "pos<strong>se</strong>iros" do Araguaia, ou o dos<br />

colonos de Ronda Alta, no Rio Grande do Sul,<br />

apenas ilustram essa atuação multiforme <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong>, na qual não faltou correr o sangue.<br />

Referências: Além <strong>das</strong> referências do capítulo anterior, ver: D.<br />

MIGUEL BALAGUER, Carta ai Presbiterio, in "Vida Pastoral",<br />

Montevidéo, 45 (1975); lsMAR DE ·ouvEIRA SOARES, Comum·­<br />

cação Libertadora, in "Familia Cristã", <strong>se</strong>tembro 1980; "Veja",<br />

2-7-80 e 17-12-80; "Isto é", 29-4-81; P E. EDUARDO HooRNAERT,<br />

Os perigos que ameaçam as <strong>CEBs</strong>, in "SEDOC", outubro<br />

1976, col. 276.<br />

126


Parte II Capítulo l - 2<br />

Peritos dos Encontros Nacionais dé <strong>CEBs</strong> e<br />

especialistas do movimento<br />

Frei Leonardo Boff OFM. - Professor no<br />

Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis,<br />

Redator da "Revista Eclesiástica Brasileira" e<br />

da revista teológica internacional "Concilium".<br />

Um dos mais prolíficos mentores <strong>das</strong>· <strong>CEBs</strong>,<br />

<strong>se</strong>us escritos versam especialmente acerca da<br />

eclesialidade <strong>das</strong> Comunidades de Ba<strong>se</strong>. Ministra<br />

cursos para Bispos, Padres, freiras, agentes<br />

pastorais leigos e líderes de <strong>CEBs</strong> por todo o<br />

País. Expoente da Teologia da Libertação em<br />

nível internacional.<br />

Frei Gilberto Gorgulho OP. - Professor de<br />

Sagrada Escritura na Faculdade de Teologia N.<br />

Sra. da <strong>As</strong>sunção e Coordenador de Pastoral<br />

na Arquidioce<strong>se</strong> de São Paulo, responsável<br />

pelas <strong>CEBs</strong>. .<br />

Pe. José Oscar Beozzo. - Diretor do Instituto<br />

Teológico de Lins. Sociólogo. (Essa dioce<strong>se</strong><br />

é um dos grandes centros nacionais de<br />

irradiação de Comunidades de Ba<strong>se</strong>). Encarregado<br />

de coordenar a preparação do 4. 0 Encontro<br />

Nacional. D.<br />

Frei Beto (Carlos Alberto Libãnio Christo).<br />

- Religioso dominicano; apesar de ter os<br />

estudos necessários, não quis ordenar-<strong>se</strong> Sacerdote,<br />

ficando como uma espécie de irmão leigo . .<br />

Passou quatro anos na prisão, condenado pela<br />

Justiça por envolvimento com a guerrilha<br />

urbana de Carlos Marighela, que ensangi.lentou<br />

, o País. Ào sair da prisão, foi trabalhar junto às<br />

_Comunidades de Ba<strong>se</strong> da Arquidioce<strong>se</strong> de<br />

Vitória. Coordenou o 4.° Congresso Internacional<br />

Ecumênico de Teologia (Congresso de<br />

Taboão da Serra) e a "Noite Sandinista". Inte:­<br />

grante da Pastoral Operária · da Dioce<strong>se</strong> de<br />

Santo André, teve papel de destaque na articulação<br />

<strong>das</strong> greves metalúrgicas do ABC em<br />

1980. Faz ainda visitas de "as<strong>se</strong>ssoramento<br />

pastoral" a <strong>CEBs</strong> de dioce<strong>se</strong>s e pi-e~azias. Publicou<br />

alguns trabalhos de ca ráter teórico-prático.<br />

Apontado como o principal articulador do t<br />

movimento em nível nacional. •<br />

Pe. Eduardo Hoornaert. - Belga. Professor<br />

no Instituto Teológico de Recife. Especialista<br />

em História Eclesiástica, a qual está reescrevendo,<br />

<strong>se</strong>gundo a "ótica do· oprimido".<br />

Moos. Gérard Cambrón. - Canaden<strong>se</strong>. É<br />

considerado um dos maiores especialistas em<br />

Comunidades de Ba<strong>se</strong>, junto às <strong>quais</strong> atua, há<br />

vários anos; no Maranhão.<br />

Frei Carlos Mesters O. Carm. - Holandês.<br />

Exegeta "oficial" do movimento. Percorre todo<br />

o País ministrando cursos para agentes pastorais,<br />

líderes e membros <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, sobre Sagrada<br />

Escritura, <strong>se</strong>ndo o principal divulgador do<br />

mét_odo de "reflexão bíblica" adotado por elas e<br />

autor de diversos rote)ros para tal fim ( os<br />

Círculos Bíblicos), além de outras obras. ,<br />

Pe. João Batista Libânio SJ. - <strong>As</strong><strong>se</strong>ssor da<br />

CRB-Conferência dos Religiosos do Brasil;<br />

membro do Centro .João XXIII (dos Jesuítas<br />

e.. . -+-1_~1<br />

127


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

do Rio, que presta as<strong>se</strong>ssoria à CNBB) e<br />

professor na PUC carioca. Especialista nos<br />

aspectos -teológicos da metodologia <strong>das</strong> Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong>.<br />

Frei Clodovis Boff OSM. - Professor no<br />

Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis.<br />

Leciona <strong>se</strong>is me<strong>se</strong>s por ano," passando os outros<br />

<strong>se</strong>is junto às <strong>CEBs</strong> da Prelazia do Acre e Purus.<br />

Tem vários trabalhos publicados sobre Comunidades<br />

de Ba<strong>se</strong>, especialmente sobre a participação<br />

destas na política, e sobre Teologia da<br />

Libertação.<br />

; ,<br />

L<br />

Jether Pereira Ramalho. - Sociólogo e<br />

pastor protestante. Membro do CEDI-Centro<br />

Ecumênico de Documentação e Informação,<br />

cuja revista "Tempo e Pre<strong>se</strong>nça" é um dos<br />

porta-vozes da Teologia da Libertação e <strong>das</strong><br />

Comunidades de Ba<strong>se</strong>, embora mantida por<br />

instituição metodista.<br />

Pedro <strong>As</strong>sis Oliveira Ribeiro. - Sociólogo<br />

do CERIS-Centro de Estatísticas Religiosas e<br />

Investigações Sociais, órgão anexo à CNBB.<br />

· Colaborador da "Revista Eclesiástica Brasileira".<br />

11Vê <strong>se</strong> temos cara de <strong>se</strong>minaristas!"<br />

Ü s SEMINARISTAS estão <strong>se</strong>ndo, cada<br />

vez mais, formados no contexto <strong>das</strong> Comunidades<br />

de Ba<strong>se</strong>. É o caso, por exemplo, de<br />

Deville Alonço de 29 anos e Wilson de Oliveira<br />

Salles, 26 anos, <strong>se</strong>minaristas da Região Episcopal<br />

Belém, da Capital paulista. Eles repre<strong>se</strong>ntam<br />

bem o novo tipo de Padre que está<br />

surgindo na "Igreja-nova-que-,nasce-do-povo",<br />

como <strong>se</strong> pode ver por estas palavras suas a uma<br />

revista de inícios de 1979:<br />

"Deville - Uma boa pergunta a fazer é<br />

<strong>sabe</strong>r <strong>se</strong> somos <strong>se</strong>minaristas. Somos <strong>se</strong>culares,<br />

não pertencemos a ordens ou congregações.<br />

Devemos total e irrestrita obediência ao nosso<br />

bispo. Espera um <strong>pouco</strong>, corta o total e irrestrita.<br />

Devemos obediência ao bispo. Somos<br />

'leigos engajados', eu já dis<strong>se</strong>. Olha para nós e<br />

vê <strong>se</strong> temos cara de clérigos, noviços, essas<br />

coisas . .... Nós nos matamos nas comunidades<br />

de ba<strong>se</strong> . .... Nossa formação é na prática, junto<br />

ao povo, sofrendo com ele. ....<br />

Wilson - .... Aquilo que nós, os <strong>se</strong>culares,<br />

os leigos engajados e alguns outros padres<br />

regulares <strong>muito</strong> conscientes pretendemos, é a<br />

evangelização a partir da realidade concreta,<br />

numa ótica marxista mesmo" ("Brasil Reportagem",<br />

ano 1, n.º 2, 1979, p. 16; "O São<br />

Paulo", 30-11-79, pp. l e 5).<br />

128


A ditadura <strong>das</strong> Comunidatles Eclesiais de Ba<strong>se</strong><br />

OUCO SE FALA sobre um dos aspectos<br />

mais terríveis do movimento <strong>das</strong> Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, que é a verdadeira ditadura<br />

religiosa que ele vai instaurando por toda a parte.<br />

Em <strong>muito</strong>s lugares começa ( ou já vai adiantada)<br />

verdadeira per<strong>se</strong>guição religiosa contra as pessoas<br />

refratárias às <strong>CEBs</strong>.<br />

Sanções religiosas e sociais<br />

Para levar os recalcitrantes, os omissos ou<br />

passivos, ao engajamento comunitário onde, através<br />

da conscientização, terão suas mentalidades<br />

muda<strong>das</strong>, o clero engajado lançou mão do mais<br />

eficiente instrumento de coação de que <strong>se</strong> possa<br />

dispor: as sanções religiosas.<br />

E para tornar efetivas tais sanções, vão-<strong>se</strong><br />

criando dispositivos de controle dos fiéis, algo<br />

assim como uma Gestapo ou KGB do progressismo<br />

e da esquerda católica, que fazem lembrar as<br />

temíveis polícias políticas do regime nazista e do<br />

soviético.<br />

Des<strong>se</strong> modo, por qua<strong>se</strong> todo o País, mas<br />

sobretudo nas zonas mais isola<strong>das</strong> do Interior,<br />

dificilmente alguém poderá participar dos Sacramentos<br />

ou de qualquer atividade religiosa - como<br />

<strong>se</strong>jam, Batismo, Crisma ou Primeira Comunhão<br />

dos filhos, <strong>se</strong>r padrinho d1~ Batismo ou Crisma, ou<br />

simplesmente testemunha de casamento - <strong>se</strong> não<br />

pertence r a alguma Comunidade de Ba<strong>se</strong> e não<br />

obtiver dela a autorização escrita para ta l.<br />

Vê-<strong>se</strong> bem como tal "excomunhão" religiosa<br />

implica müítas vezes em autêntica "excomunhão<br />

social" do indivíduo. Tal o caso do Batismo,<br />

Crisma e, sobretudo, Casamento, atos religiosos<br />

que constituem ao mesmo tempo acontecimentos<br />

sociais, de aproximação entre parentes e amigos. É<br />

preciso ter isso pre<strong>se</strong>nte para avaliar a força de tais<br />

sanções religiosas, principalmente nas pequenas localidades,<br />

onde todos <strong>se</strong> conhecem e <strong>se</strong> relacionam.<br />

A mercê dos lideres comunittírios<br />

Na Dioce<strong>se</strong> de São Mateus-ES, por exemplo,<br />

exige-<strong>se</strong> para tudo um Atestado de Residência<br />

Religiosa, fornecido apenas sob condições <strong>se</strong>veríssimas,<br />

entre as <strong>quais</strong> está o compromisso de<br />

participar nos grupos de reflexão pelo menos uma<br />

vez por <strong>se</strong>mana, e mais a <strong>se</strong>guinte coação moral e<br />

política: "10. Aceita a caminhada da Igreja Católica<br />

nesta Dioce<strong>se</strong>, que escolheu caminhar com os<br />

pobres e aceita a conscientização sobre problemas<br />

sociais e a orientação sobre a política?" Esta é uma<br />

<strong>das</strong> condições para cuja ob<strong>se</strong>rvância as instruções<br />

129


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> .. . <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

aos dirigentes <strong>das</strong> Comunidades pedem a maior<br />

vigilância e o maior rigor.<br />

O candidato ao atestado preenche um questionário,<br />

sob as vistas dos líderes. Mandam-lhe<br />

voltar dentro de algum tempo, para <strong>sabe</strong>r <strong>se</strong> foi<br />

aprovado ou não. Nes<strong>se</strong> intervalo, os líderes<br />

<strong>se</strong> reúnem com a Equipe de levantamento da<br />

vivência cristã, a qual procede a investigações sobre<br />

a vida do candidato, para decidir <strong>se</strong> ele satisfaz ou<br />

não às exigências requeri<strong>das</strong> para o fornecimento<br />

do atestado. Se concluírem que sim, fornecem-lhe o<br />

papel, assinado por pelo menos quatro dirigentes.<br />

Se considerarem que a pessoa não está em<br />

condições de receber o atestado - dizem as<br />

instruções -, os líderes não poderão assinar. Em<br />

vez de assinar, cada um escreverá "em ob<strong>se</strong>rvação",<br />

e explicarão ao interessado que o caso dele<br />

não está maduro ainda, e que dentro de alguns<br />

me<strong>se</strong>s, com a boa vontade dele em "caminhar com<br />

a Comunidade", o caso dele poderá <strong>se</strong>r resolvido,<br />

dentro do possível...<br />

Quando <strong>se</strong> dá o caso, o atestado é feito em duas<br />

vias, ficando a primeira com o Coordenador da Vivência<br />

Cristã, para o Padre conferir no dia da visita.<br />

"Não afrouxar o laço!"<br />

Frei Beto, <strong>fala</strong>ndo a respeito da mesma<br />

questão no Acre, adverte: "Os monitores devem<br />

estar bem atentos para não afrouxar o laço e<br />

considerar a pre<strong>se</strong>nça dos pais em 3 ou 4 reuniões<br />

como pertença e participação na comunidade . ....<br />

Isso vai durar até que o povo esteja conscientil.ado".<br />

A ditadura do "flchArlo"<br />

Na Paróquia de Itarana-ES (Arquidioce<strong>se</strong> de<br />

Vitória), resolveu-<strong>se</strong>, a partir de 1966, adotar o<br />

esquema de Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>. Decidiu-<strong>se</strong><br />

que o Batismo <strong>se</strong>ria celebrado tão-somente<br />

na comunidade e exclusivamente de gente da<br />

comunidade "que tives<strong>se</strong> os compromissos"; os<br />

padrinhos só poderiam <strong>se</strong>r igualme nte pessoas da<br />

comunidade e que "cump ris<strong>se</strong>m também os compromissos".<br />

Entre os compro missos exigidos estava:<br />

"Conscientização num círculo bíblico <strong>se</strong>manal".<br />

A Primeira Comunhão foi retardada para os<br />

15 ou 16 anos, <strong>se</strong>ndo levado mais em consideração<br />

o compromisso assumido pelo candidato. Cada<br />

aluno do Catecismo tem sua ficha, "que é zelada<br />

com muita atenção".<br />

Aliás, o sistema de fichas está <strong>muito</strong> em uso em<br />

qua<strong>se</strong>_ to<strong>das</strong> as paróquias que, como a de Itarana,<br />

adotaram o regime ditatorial <strong>das</strong> Comunidades<br />

de Ba<strong>se</strong>. Cada membro da Comunidade tem uma<br />

ficha na qual são anotados os progressos ou<br />

retrocessos no engajamento comunitário, para<br />

acompanhamento pelos agentes pastorais e pelo<br />

Vigário. Em Itarana chama-<strong>se</strong> também "fichário"<br />

à equipe que cuida da atualização <strong>das</strong> fichas e que<br />

exerce a coordenação (na verdade um férreo<br />

controle) da Comunidade.<br />

Não é demais insistir o quanto tais dispositivos de<br />

controle dos fiéis <strong>se</strong> as<strong>se</strong>melham aos organismos de<br />

vigilância e repressão dos regimes totalitários.<br />

Os famosos "curslnhos preparat6rlos"<br />

Frei Marcos Sassatelli, dominicano da Arquidioce<strong>se</strong><br />

de Goiânia, informa que nas <strong>CEBs</strong> locais o<br />

batismo é administrado apenas duas ou três vezes<br />

por ano, quando a Comunidade acha que os<br />

interessados estão preparados; o mesmo <strong>se</strong> dá com<br />

o casamento. Na mesma Arquidioce<strong>se</strong> (como, de<br />

resto, por toda a parte) insiste-<strong>se</strong>, nos cursos de<br />

preparação aos Sacramentos ( os famosos . "cursi-<br />

130


Capítulo l - 3<br />

O sacramento augusto que introduz o homem na Santa<br />

Igreja Católica Apostólica Romana, é ministrado em ato<br />

es<strong>se</strong>ncialmente religioso. Para realçar sua importência,<br />

a Igreja <strong>se</strong>mpre lançou mi o de todos os recursos da arte.<br />

- Na foto. bela Pia Batismal da Igreja de Santa Cecllia,<br />

em Slo Paulo.<br />

nhos preparatórios"!), que <strong>se</strong> deve exigir mais <strong>das</strong><br />

pessoas, "principalmente em relação à vivência<br />

comunitária e à conscientização sobre o papel do<br />

cristão no mundo de hoje".<br />

Tem havido algumas reações a essa verdadeira<br />

ditadura eclesiástica, a essa verdadeira per<strong>se</strong>guição<br />

religiosa contra os refratários às <strong>CEBs</strong>. Mas são<br />

reações isola<strong>das</strong> e, na maior parte, de alcance<br />

apenas local, visto como a estrutura eclesiástica<br />

brasileira, em to<strong>das</strong> as suas instâncias, dá mão<br />

Contrastando com a tradição da Igreja. para batizar <strong>se</strong>us<br />

filhos hoje, os pais encontram cada vez maior dificuldade.<br />

têm que <strong>se</strong> sujeitar cada vez maia às exigências <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong>. Estas <strong>se</strong> <strong>se</strong>rvem des<strong>se</strong> Sacramento de salvaçlo -<br />

como doa demais Sacramentos - para fina de conacientizaçlo.<br />

- Cartazes informam os fiéis sobre "curainhoa"<br />

de batizado e casamento.<br />

firme ao movimento <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong>. <strong>As</strong>sim, ou os fiéis <strong>se</strong> submetem, ou ficam<br />

privados dos Sacramentos. E não são <strong>pouco</strong>s os<br />

que abandonam a Igreja e perdem a Fé ...<br />

Exemplo pungente<br />

Um exemplo pungente da eficácia dessas sanções<br />

religiosas, para obter a conscientização do<br />

indivíduo e <strong>se</strong>u engajamento no movimento comu-<br />

131


Depois de andar léguas para<br />

batizar o filho, um pobre pai é<br />

informado pelo Padre que,<br />

" ssm uma carta da Comunid•<br />

d11 ", ele não poderia batizar...<br />

A Comunidade exigiu<br />

um ano de participação nas<br />

reuniões, para dar a cartel. ..<br />

nitário, dessa pressão sobre o povo simples e <strong>se</strong>m<br />

defesa, é narrada por Frei Beto, a quem Dom<br />

Moacir Grechi encomendou um as<strong>se</strong>ssoramento<br />

pastoral na sua Prelazia do Acre e Purus. Conta o<br />

cúmplice do terrorista Carlos Marighela:<br />

"Um pai foi procurar o padre na casa paroquial,<br />

na cidade. 'O que quer o <strong>se</strong>nhor?', perguntou<br />

o padre. 'Vim pedir que o <strong>se</strong>nhor batize o meu<br />

filho'. 'Onde é que você mora?'. 'Moro no <strong>se</strong>ringai<br />

Montevidéo', respondeu o pobre homem. O padre<br />

olhou o <strong>se</strong>ringueiro e perguntou: 'Trouxe a carta<br />

do monitor de <strong>se</strong>u <strong>se</strong>ringai, assinada pelos membros<br />

da comunidade?' O homem respondeu: 'Não<br />

<strong>se</strong>nhor. Nem sabia que tinha de trazer esta carta'.<br />

'Só posso batizar <strong>se</strong>u filho - explicou o padre -<br />

tendo nas mãos esta carta'.<br />

"O homem regressou ao <strong>se</strong>ringai. Procurou o<br />

monitor: 'Queria levar meu filho para o padre<br />

batizar. Você pode me dar a carta para o padre?' O<br />

monitor explicou: '<strong>As</strong>sinada só por mim, a carta<br />

não vale. Para valer, tem que ter pelo menos 5<br />

assinaturas. Mas o pessoal só assina depois que<br />

você e sua mulher já tiverem pelo menos I ano de<br />

participação na comunidade'. Ao fim des<strong>se</strong> ano de<br />

participação, o <strong>se</strong>ringueiro não precisou levar o<br />

filho ao padre: havia tomado consciência de que o<br />

batismo pelo monitor tinha o mesmo valor" -<br />

conclui Frei Beto.<br />

Mas não era só: o pobre <strong>se</strong>ringueiro tinha<br />

mudado sua mentalidade, sua visão da Igreja e do<br />

mundo.<br />

Referências: DIOCESE DE SÃO MATEUS-PAROQUIA DE BARRA DE s.<br />

FRA NC1sco-ES, Folha de prova, exame, ao Atestado de Residência<br />

Religiosa, mimeografado, s. d.; IDEM, Um Caminho(Normas<br />

e Instruções para lideres de Comunidades), dezembro 1978,<br />

mimeografado, pp. 6-9; IDEM, Atestado de Residência Religiosa<br />

- Folhas de Instruções aos responsáveis, mimeografado, s. d.,<br />

n.ºs 4 e 9; FREI ALBERTO LIBÃN EO CHRISTO (FREI BETO), O canto<br />

do galo - Relatório pastoral de uma visita à Prelazia do Acre e<br />

Purus, Secretariado da Pastoral Arquidiocesano-SP AR, Goiânia,<br />

mimeografado, p. 11 , transcrito da "Revista Eclesiástica<br />

Brasileira", junho 1977; Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> -<br />

Uma Igreja que nasce do povo - Encontro de Vitória-ES,<br />

Vozes, Petrópolis, 1975, pp. 38-41 , 52, 69-70, 79; FREI M ARcos<br />

SASSATELLI, Comunidade de Ba<strong>se</strong>, in "Revista da Arquidioce<strong>se</strong>",<br />

Goiânia, <strong>se</strong>tembro 1976, p. _ 633; " Revista da<br />

Arquidioce<strong>se</strong>", Goiânia, julho 1976, p. 493; CNBB-SuL II,<br />

Manual sobre as Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, Vozes<br />

Petrópolis, 2.• edição, 1977, pp. 72-73, 77; FREI BETo, Batism~<br />

de Sangue - Os dominicanps e a morte de Marighela<br />

Civilização Brasileira, Rio, <strong>1982</strong>.<br />

'<br />

132


A PRESENTA-SE neste capítulo, de modo<br />

esquemático e numa visão de conjunto, a evolução<br />

psicológica e doutrinária do indivíduo, desde o<br />

momento em que é atraíçlo para a CEB, até ao<br />

final do processo, quando já está completamente<br />

integrado no movimento, aceitando suas doutrinas<br />

e objetivos, e participando de suas atividades.<br />

Semelhante evolução bem poderia <strong>se</strong>r qualificada<br />

de "baldeação ideológica inadvertida", <strong>se</strong>gundo<br />

a expressão cunhada pelo Prof. Plínio Corrêa<br />

de Oliveira para designar certa técnica de persuasão<br />

implícita e sub-reptícia, utilizada pelo comunismo<br />

internacional. Com efeito, há não poucas<br />

analogias entre um processo e outro ( l ).<br />

a) Atração através da religião<br />

l) Aproveitando a religiosidade do nosso povo<br />

(sua prática religiosa, sua simpatia para com a<br />

religião e <strong>se</strong>us repre<strong>se</strong>ntantes), os ·agentes pastorais<br />

aproximam a pessoa, da Comunidade de Ba<strong>se</strong>,<br />

atraindo-a para uma prática mais intensa da vida<br />

religiosa.<br />

(1) PLINIO CoRRtA DE OLIVEIRA, Baldeação Ideológica<br />

Inadvertida e Diálogo, Editora Ve ra Cruz, São Paulo, 4.• ed .,<br />

1974.<br />

2) A participação num grupo religioso leva a<br />

pessoa a <strong>se</strong>ntir-<strong>se</strong> valorizada, amparada e orientada<br />

em meio ao anonimato e ao caos da vida<br />

moderna. Ela tende a abrir-<strong>se</strong>, a <strong>se</strong> tornar <strong>se</strong>mpre<br />

mais sociável nes<strong>se</strong> grupo que <strong>se</strong> lhe mostra<br />

propício e acolhedor.<br />

3) Essa tendência a maior sociabilidade dos<br />

neófitos <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> é exacerbada pela supervalorização<br />

dos aspectos "comunitários" não só da<br />

prática religiosa, como de to<strong>das</strong> as demais atividades<br />

(sociais, culturais, profissionais, familiares e<br />

até de lazer). Aos <strong>pouco</strong>s, vai-<strong>se</strong> formando uma<br />

"consciência comunitária". A opinião prevalente<br />

na comunidade passa a <strong>se</strong>r a regra do bem pensar,<br />

bem <strong>se</strong>ntir, bem agir.<br />

4) À medida que a pessoa <strong>se</strong> integra dessa<br />

forma na vida da Comunidade, ao mesmo tempo<br />

que vai participando <strong>das</strong> atividades e recebendo<br />

encargos, <strong>se</strong>us mecanismos de defesa e de censura<br />

vão <strong>se</strong> desmobilizando, e ela vai ficando menos ela<br />

mesma, e mais permeável às influências do grupo e<br />

de <strong>se</strong>us mentores. Dissolve-<strong>se</strong> nele.<br />

b) Doutrinação sub-reptfcia<br />

1) A desmobilização e permeabilização psicológica<br />

torna o indivíduo mais suscetível à doutrinação.<br />

133


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

1<br />

A TFP as descreve como são<br />

2) Esta não é feita de modo formal e explícito,<br />

mas de maneira sutil e sub-reptícia.<br />

3) Por um sistema de afirmações apre<strong>se</strong>nta<strong>das</strong><br />

sob forma interrogativa, de debates discreta e jeitosamente<br />

orientados, e de dúvi<strong>das</strong> sutilmente<br />

levanta<strong>das</strong>, a pessoa vai tendo sua mentalidade<br />

alterada, suas certezas abala<strong>das</strong>, suas convicções<br />

gradualmente transforma<strong>das</strong>, <strong>se</strong>m que <strong>se</strong> dê conta<br />

disso. Vai respondendo <strong>se</strong>mpre mais, de acordo<br />

com o que lhe foi sugerido, e reagindo conforme o<br />

de<strong>se</strong>jado. Mas ela crê, não obstante, que tudo<br />

corresponde aos <strong>se</strong>us próprios pensamentos e<br />

<strong>se</strong>ntimentos e que chegou por si mesma às<br />

conclusões a que foi induzida.<br />

e) Critica da "religião antiga" e<br />

apre<strong>se</strong>ntação da Igreja-nova<br />

Em sua beleza simples, cheia de graça e de nobreza, a<br />

Capela do Outeiro da Glória, no Rio, repre<strong>se</strong>nta bem o<br />

tipo de religiosidade que as <strong>CEBs</strong> combatem: a elevaçlo<br />

da alma para o sublime, o sagrado, pera Deus.<br />

1) Dessa maneira vai-<strong>se</strong> fazendo a crítica da<br />

"religião antiga" e a apre<strong>se</strong>ntação da Igreja-nova.<br />

E o paciente vai tendo operada em si a mais<br />

profunda <strong>das</strong> transformações que <strong>se</strong> possa dar na<br />

mente humana: uma radical tra_rv,formação religiosa.<br />

De um antípoda ele passa para outro.<br />

2) Insinua-<strong>se</strong>-lhe aos <strong>pouco</strong>s, que ao contrário<br />

da Igreja-nova, a "Igreja antiga" não dava oportunidade<br />

ao povo: ele não era consultado, tudo era<br />

feito pelo Vigário, que era uma espécie de patrão<br />

na esfera religiosa.<br />

3) Estabelece-<strong>se</strong> assim um paralelo entre a<br />

Igreja "antiga" e a sociedade civil: em ambas o<br />

pobre não tinha "voz nem vez". Só os ricos, os<br />

poderosos, mandavam e eram ouvidos.<br />

4) Afirma-<strong>se</strong> que a Igreja "antiga" só <strong>se</strong> preocupava<br />

com o pecado individual, e não com a injustiça<br />

social. Por isso era alienante; impedia o<br />

"pequeno" de sair de sua situação de opressão<br />

134


Parte li<br />

nesta terra, acenando-lhe como ficha de consolação<br />

a felicidade no Céu ...<br />

5) Apre<strong>se</strong>nta-<strong>se</strong> então como <strong>se</strong>ndo a verdadeira<br />

Igreja, aquela que <strong>se</strong> empenha em "libertar"<br />

o homem de todo o mal, decorrência do pecado, já<br />

aqui nesta terra.<br />

d) Mudança da visão da religião<br />

I) Mostra-<strong>se</strong> então que a "verdadeira" prática<br />

da religião consistiria na luta contra o "pecado<br />

social", o "pecado institucionalizado" nas "estruturas<br />

de dominação"; que a "raiz de todo o<br />

pecado" <strong>se</strong> encontraria nas estruturas capitalistas,<br />

"fruto do egoísmo". <strong>As</strong>sim, não pode haver<br />

harmonia entre as clas<strong>se</strong>s, porque não pode haver<br />

harmonia entre o egoísta explorador e o pobre<br />

explorado, entre o oprimido e o opressor.<br />

Ser católico <strong>se</strong>ria aceitar essa concepção revolucionária<br />

da doutrina da Igreja e da prática <strong>das</strong><br />

virtudes cristãs individuais (relega<strong>das</strong> para o<br />

<strong>se</strong>gundo plano <strong>se</strong> não inteiramente olvida<strong>das</strong>), e<br />

praticar a fundo a grande virtude cristã por<br />

excelência, que consiste em <strong>se</strong>r revolucionário e em<br />

fazer na prática a revolução socialista e comunista.<br />

2) Es<strong>se</strong> teria sido o ensinamento do próprio<br />

Cristo, ao fazer a "opção pelos pobres", pelos<br />

"oprimidos", pelos "marginalizados". Ele <strong>se</strong> teria<br />

encarnado na luta de clas<strong>se</strong>s, para vencer o pecado<br />

e instaurar o Reino de Deus. Teria sido morto<br />

pelos imperialistas da época (os romanos) com a<br />

cumplicidade do clero (pontífices e doutores da<br />

Lei) e dos chefes do povo (Sinédrio), que não<br />

queriam perder <strong>se</strong>us privilégios.<br />

3) O Reino de Deus, embora só <strong>se</strong> realize em<br />

sua plenitude no fim dos tempos, começaria já,<br />

"aqui e agora", nesta terra, pelo estabelecimento<br />

de uma sociedade <strong>se</strong>m clas<strong>se</strong>s e <strong>se</strong>m dominações.<br />

Capítulo I - 4<br />

A fome não faz revolução,<br />

mas sim a conscientização<br />

O PRÓPRIO ex-<strong>se</strong>cretário-geral do PCB,<br />

Luís Carlos Prestes, dá-<strong>se</strong> bem conta da necessidade<br />

da conscientização política para levar o povo<br />

à revolução. Declarou ele em Porto Alegre: "O<br />

povo está cada vez mais para a esquerda em<br />

con<strong>se</strong>qüência da inflação, mas a fome não faz<br />

revolução e, sim, a conscientização política"<br />

("O Estado de S. Paulo", 27-12-80).<br />

O chefe comunista ensina assim a tantos<br />

magnatas do capitalismo que <strong>se</strong> prezam de<br />

"modernos" e marxistas, que a boa ordenação<br />

dos assuntos econômicos não basta para pôr<br />

dique à expansão comunista.<br />

e) Transformação <strong>das</strong> mentalidades<br />

pela consclentlzação<br />

I) Ao mesmo tempo que lhe é incutida uma<br />

religião nova, revolucionária, sua mentalidade é<br />

modificada mediante um processo de conscientização:<br />

procura-<strong>se</strong> provocar no indivíduo e no<br />

grupo a consciência <strong>das</strong> desvantagens de sua<br />

situação na sociedade e a necessidade de participar<br />

em sua alteração.<br />

2) Essa conscientização começa em geral com<br />

uma "pesquisa" na qual <strong>se</strong> faz o "levantamento da<br />

realidade" do bairro, da região etc. Entrevistando<br />

os moradores, colhendo dados, os participantes da<br />

135


O OI NHE IRO<br />

Ou <strong>se</strong>ja o CAPITAL. Da, vem<br />

o nome de SISTEI\A CAPITA­<br />

LISTA, que é o ti po de soci<br />

edade em que a gente vi-<br />

Um anticapitalismo virulento e <strong>se</strong>m matizes caracteriza<br />

as cartilhas e folhetos em uso nas Comunidades Eclesiai!l<br />

de Ba<strong>se</strong>.<br />

Comunidade vão-<strong>se</strong> conscientizando de sua situação<br />

de carência.<br />

3) Identifica<strong>das</strong> as carências, deficiências e<br />

irregularidades <strong>das</strong> <strong>quais</strong> a vida moderna está<br />

cheia, passa-<strong>se</strong> à "análi<strong>se</strong>" dessa situação. Os<br />

agentes pastorais, monitores ou líderes da Comunidade<br />

conduzem o "debate", por meio <strong>das</strong> perguntas<br />

conscientizadoras, para "descobrir" as "raízes<br />

do mal". Chega-<strong>se</strong> à conclusão de que to<strong>das</strong><br />

essas mazelas são fruto não de situações conjunturais<br />

<strong>muito</strong> complexas (como a grande concentração<br />

urbana, por exemplo), da insuficiência de<br />

recursos ou de circunstâncias adversas (rudeza do<br />

..<br />

'i: "<br />

'õ<br />

t'.)<br />

..<br />

...<br />

"õ<br />

t'.)<br />

.,<br />

"0<br />

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e .,<br />

u<br />

ti:<br />

u<br />

clima, pobreza do solo etc.), mas sim a con<strong>se</strong>qüência<br />

inevitável de um "sistema de pecado".<br />

4) A mentalidade do membro da Comunidade<br />

de Ba<strong>se</strong> torna-<strong>se</strong>, assim, tensa, reivindicativa,<br />

inconformada, revoltada contra sua situação. Passa<br />

de uma "consciência ingênua" para uma "consciência<br />

crítica"; ou <strong>se</strong>ja: "toma consciência" da<br />

"situação · de opressão" em que vive na atual<br />

sociedade de clas<strong>se</strong>s.<br />

5) Não basta, porém, "tomar consciência" de<br />

que é oprimido e querer sair dessa situação. É<br />

preciso empenhar-<strong>se</strong> pessoalmente na luta, pois<br />

"ninguém liberta ninguém", e cada um deve <strong>se</strong>r o<br />

"agente de sua própria libertação", começando por<br />

modificar-<strong>se</strong> a si mesmo, livrando-<strong>se</strong> de uma<br />

mentalidade "alienada". "conformista" .<br />

f) Mobilização para a ação<br />

reivindicativa e de protesto<br />

1) Uma vez detectada a carência local (falta de<br />

posto de saúde, transportes, água encanada, asfa<br />

lto etc.), tem início a mobilização para a ação.<br />

2) Esta ação ad extra constitui um poderoso<br />

fator de conscientização dos próprios membros<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, como também de toda a população do<br />

bairro, a qual, por repercussão, vai adquirindo o<br />

mesmo estado de espírito tenso e reivindicativo<br />

dos membros da Comunidade, tornando-<strong>se</strong> facilmente<br />

manipulável.<br />

3) A luta pelas "reivindicações populares"<br />

altera por completo a vida dos integrantes <strong>das</strong><br />

Comunidades de Ba<strong>se</strong>. O comportamento dessas<br />

pessoas simples, que antes nunca tinham tido<br />

atuação além do âmbito de suas modestas relações<br />

familiares e de vizinhança, fica profundamente<br />

modificado. <strong>As</strong> numerosas concentrações, as<strong>se</strong>m-<br />

136


Parte li<br />

bléias de moradores, coleta de assinaturas, visitas<br />

a jornais; o contato com gente importante (advogados,<br />

políticos, autoridades); a oportunidade de<br />

<strong>fala</strong>r, de repetir de forma escachoante a enorme<br />

quantidade de slogans e fra<strong>se</strong>s-feitas que assimilaram,<br />

tudo isso tem o efeito de retirá-los - pelo<br />

menos quando fazem agitação social - do prosaísmo<br />

da vida quotidiana: <strong>se</strong>ntem-<strong>se</strong> agora valorizados,<br />

importantes, paladinos de uma causa<br />

político-religiosa.<br />

4) A ação é, pois, indispensável para a plena<br />

integração do indivíduo na CEB, para despertar<br />

nele o prurido contestatório <strong>das</strong> estruturas reli-<br />

Um discreto treinamento<br />

de ativistas<br />

''A A TIVIDADE de J. [Pe. José Mahon,<br />

criador da Pastoral Operária do ABC] não pára<br />

por aí, apoiando somente as <strong>CEBs</strong> e a Pastoral O­<br />

perária. Ele também é pároco, e não de uma só<br />

paróquia, mas de duas . .... Quando os operários<br />

<strong>das</strong> paróquias que J. assume aprendem a <strong>se</strong><br />

expressar · em público, a dirigir, e a avaliar<br />

reuniões ou celebrações, eles estão aprendendo<br />

(<strong>muito</strong>s deles já aprenderam) sua profissão de<br />

'<strong>se</strong>r gente'. E essa 'profissão' vão aplicá-la na<br />

<strong>As</strong>sociação de Amigos de Bairro, no sindicato<br />

ou na oposição sindical, e também, porque não,<br />

num partido político que esteja realmente nas<br />

mãos dos trabalhadores" (F1LH0s DA CARIDADE,<br />

Os Filhos da Caridade na Dioce<strong>se</strong> de Santo<br />

André, Oficinas <strong>das</strong> Edições L,oyola, São Paulo,<br />

1980, pp. 13-14).<br />

Capítulo 1- 4<br />

giosas e sociais, para manter acesa a "chama<br />

sagrada" da luta pela libertação de to<strong>das</strong> as<br />

opressões. Nesta altura, pode-<strong>se</strong> dizer, o processo<br />

tornou-<strong>se</strong> irreversíve l: dificilmente a vítima dele<br />

quererá e con<strong>se</strong>guirá voltar ao estado anterior, de<br />

simples operário, ordeiro lavrador, pacato chefe<br />

de família ou tranqüila dona-de-casa de subúrbio,<br />

preocupados unicamente com os mil probleminhas<br />

concretos que constituem a vida prosaica de todos<br />

os dias ...<br />

g) "Leitura consclentlzadora" da Blblla<br />

1) A ilusão de <strong>se</strong>rem paladinos de uma luta<br />

sagrada de caráter libertador é exacerbada nos<br />

membros <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> pelo<br />

verdadeiro fundamentalismo bíblico (2) que vige<br />

no movimento.<br />

(2) O fund11mentalismo bíblico é uma postura diante da Bíblia,<br />

que vê nos Livros Sagrados - entendidos antes de tudo<br />

em <strong>se</strong>u <strong>se</strong>ntido literal - a única e suprema fonte de todo o <strong>sabe</strong>r<br />

e de toda a autoridade. Inspira a maioria <strong>das</strong> <strong>se</strong>itas protestantes<br />

do tipo "pentecostalista" e de fundo milenarist11.<br />

Os milen11rist11s, interpreta ndo erradamente uma passagem<br />

do livro do A poca lip<strong>se</strong> (Ap. 20, l-6), esperam uma nova vinda<br />

de Nosso Senhor Jesus C risto, que reina ria direta mente, em<br />

pessoa, durante mil a nos, instaurando uma fe licidade completa<br />

na terra. Condenada como herética, a idéia do milênio é co ntinuamente<br />

retoma da por <strong>se</strong>itas religiosas ó u filosóficas (mesmo,<br />

a <strong>se</strong>u modo, <strong>se</strong>itas a téias como é o caso do ma rxismo), as qua is<br />

põem sua espera nça num estágio de perfeição d a humanidade<br />

q ue e liminaria toda dor, todo sofrimento, fazendo reinar um~<br />

fe licidade perfeita sobre a terra (cfr. Les Religions, verbetes<br />

Fondamenralisres e Milenarisme; JULES MONNEROT, Sociologie<br />

de la Révolurion, 2.eme panie, Les millenium sur la rerre et<br />

les terreurs de l'h isroire, Fayard, Paris, l 969; PE. GEORGES M.<br />

M. CoTI1ER OP. Marxisme et messianisme, in "Ateísmo e D iálogo",<br />

Bolletino del Segretariato per i non credenti, Città de!<br />

Vaticano, <strong>se</strong>ttembre 1974).<br />

137


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

2) Com efeito, a Bíblia vai ocupando cada vez<br />

mais papel preponderante na vida <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>,<br />

vindo a constituir-<strong>se</strong> no único ponto de referência,<br />

na instância última e soberana, olvidado e posto<br />

de lado o Magistério da Igreja.<br />

3) Nos "círculos bíblicos", "cultos dominicais",<br />

"reuniões de reflexão" e outras, adota-<strong>se</strong> o<br />

método chamado "integração Bíblia-vida": toma<strong>se</strong><br />

um texto bíblico e faz-<strong>se</strong> a comparação com a<br />

situação atual; ou o inverso: parte-<strong>se</strong> de um fatõ de<br />

hoje e procura-<strong>se</strong> a <strong>se</strong>melhança com algum episódio<br />

bíblico. Subjacente a es<strong>se</strong> método está o<br />

princípio de que Deus Se revela do mesmo modo<br />

tanto na Bíblia quanto nos acontecimentos; de que<br />

é Palavra de Deus tanto o que está na Sagrada<br />

Escritura quanto o que acontece agora. Então a<br />

Bíblia precisa <strong>se</strong>r entendida à luz dos acontecimentos<br />

atuais, e os acontecimentos atuais dev~m<br />

<strong>se</strong>r interpretados à luz da Bíblia.<br />

4) Conclusão des<strong>se</strong> princípio é que <strong>se</strong> Deus<br />

inspirou e iluminou os Patriarcas, Profetas e<br />

outros personagens bíblicos, do mesmo modo Ele<br />

inspira e ilumina os homens de hoje. Essa posição<br />

fundamentalista leva <strong>muito</strong>s integrantes <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong><br />

a mitificarem suas vi<strong>das</strong>, identificando-<strong>se</strong> com os<br />

personagens bíblicos e considerando-<strong>se</strong>, como eles,<br />

investidos de uma missão sagrada e guiados<br />

diretamente por Deus.<br />

5) Isto conduz, naturalmente, ao mais completo<br />

livre-exame e abre caminho para to<strong>das</strong> as<br />

divagações - portanto também para to<strong>das</strong> as<br />

aberrações doutrinárias e desvios de personalidade.<br />

ln concreto no caso <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> gera um<br />

fanatismo messiânico e milenarista.<br />

6) A esta distorção acresce a "leitura dialética<br />

da Bíblia": as Sagra<strong>das</strong> Escrituras devem <strong>se</strong>r li<strong>das</strong><br />

a partir de uma posição classista - o "lugar social<br />

do pobre", isto é, a partir da "ótica do oprimido".<br />

Ensinar perguntando,<br />

convencer sugerindo ...<br />

O CERNE da conscientização consiste em<br />

fazer com que as pessoas tenham a impressão<br />

de que são elas que estão chegando por si<br />

mesmas às conclusões ou posições que lhes são<br />

sugeri<strong>das</strong>, e não percebam que estão tendo sua<br />

mentalidade, temperamento ou opinião modificados<br />

por sugestões vin<strong>das</strong> de fora. Um dos<br />

artifícios mais eficazes para alcançar tal resultado<br />

consiste em introduzir sob forma interrogativa<br />

o assunto que <strong>se</strong> quer tratar e, através de<br />

questões sucessivas, ir conduzindo os espíritos<br />

para os pontos de vista do agente de pastoral.<br />

<strong>As</strong> perguntas, na verdade, já contêm implicitamente<br />

sua resposta, ou ao menos elementos<br />

dela, indicando o tom, o rumo que ela deve<br />

tomar. A interrogação está qua<strong>se</strong> que apenas na<br />

forma, pois de fato as perguntas apre<strong>se</strong>ntam<br />

afirmações, suscitam dúvi<strong>das</strong>, levantam suspeitas<br />

etc. Tudo sob o pretexto de procurar obter o<br />

"con<strong>se</strong>nso grupal", apontado como <strong>se</strong>ndo a<br />

resultante <strong>das</strong> opiniões dos membros do grupo.<br />

Na verdade, es<strong>se</strong> con<strong>se</strong>nso grupal não é <strong>se</strong>não o<br />

objetivo previamente estabelecido pelo agente<br />

pastoral, introduzido sob forma de perguntasafirmações.<br />

O con<strong>se</strong>nso grupal constitui um dos<br />

elementos de pressão psicológica mais poderosos<br />

sobre os membros de um grupo, pois em <strong>se</strong>u<br />

nome faz-<strong>se</strong> os recalcitrantes aceitarem determinado<br />

ponto de vista ou resolução, sob pena de<br />

<strong>se</strong> marginalizarem. Es<strong>se</strong> artifício é <strong>muito</strong> utilizado<br />

nas técnicas de Dinâmica de Grupo, nas<br />

<strong>quais</strong> os agentes pastorais são altamente treinados.<br />

138


Parte li<br />

Outrora Deus inspirou os judeus oprimidos na<br />

luta contra os egípcios opressores, libertando-os<br />

do cativeiro mediante a atuação conscientizadora<br />

de Moisés. Hoje também, o povo (os pobres, os<br />

marginalizados) está oprimido pelo cativeiro <strong>das</strong><br />

estruturas capitalistas. A missão da Igreja, como a<br />

de Moisés, é a de conscientizar o povo para que<br />

ele, uma vez despertado, lute pela sua libertação,<br />

destruindo as estruturas de pecado do regime<br />

capitalista.<br />

7) <strong>As</strong>sim, <strong>se</strong>ria o próprio Deus quem inspiraria<br />

diretamente toda a agitação político-social<br />

promovida pelas Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>.<br />

o que faz com que elas não recuem diante de<br />

nenhuma lei ou autoridade, civil ou religiosa. -<br />

Com efeito, que lei ou pessoa, por mais augusta<br />

que <strong>se</strong>ja, pode querer interpor-<strong>se</strong> à vontade do<br />

próprio Deus, manifestada nas <strong>CEBs</strong>?<br />

h) Papel "legltlmador" do Bispo<br />

Capítulo I - 4<br />

1) Em geral ao ingressarem no movimento, os<br />

fiéis não <strong>se</strong> dão conta dos erros e desvios dele.<br />

Entretanto, à medida que o processo conscientizador<br />

avança, o <strong>se</strong>nso católico leva-os a perceber<br />

as discrepâncias entre o que ouvem e pre<strong>se</strong>nciam,<br />

e a doutrina católica tradicional. Muitos abandonam<br />

desde logo o movimento, tornando-<strong>se</strong>, em<br />

não <strong>pouco</strong>s casos, hostis a ele. Alguns, desconfiados,<br />

<strong>se</strong> não rompem abertamente, tendem a<br />

retrair-<strong>se</strong>. Outros, enfim, perplexos, procuram<br />

conciliar as novidades com o que aprenderam no<br />

catecismo. Pode instalar-<strong>se</strong> neles um conflito interno,<br />

uma situação de angústia, ou até de de<strong>se</strong>spero.<br />

2) Para fazer frente a <strong>se</strong>melhantes situações, o<br />

movimento dispõe de poderoso recurso de legiti-<br />

Conscientizada, u­<br />

m a oradora <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong> dis<strong>se</strong>mina em<br />

torno de si a conscientiza<br />

ç ão. -<br />

Manifestação do<br />

Movimento Contra<br />

a Carestia em<br />

São Paulo, em 1978


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... d~ <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

11<br />

Antes de organizar uma revolução,<br />

é preciso aprender a organizar um pique-nique,,<br />

o PE. DOMINIQUE Barbé, padre-operário<br />

francês, coordena a Pastoral Operária da Região<br />

Episcopal de Osasco e integra a da Arquidioce<strong>se</strong><br />

de São Paulo. Grande propulsor de<br />

<strong>CEBs</strong> em bairros operários, traça o retrato de<br />

uma delas - a de Vila Yolanda - em um livro<br />

traduzido para vá rios idiomas. No texto abaixo,<br />

extraído do mencionado livro, o Pe. Barbé<br />

deixa claro como as atividades mais correntes,<br />

inclusive a Liturgia, podem <strong>se</strong>r utiliza<strong>das</strong> como<br />

eficiente adestramento para a atuação revolucionária:<br />

,.<br />

sário, evidentemente, para defender uma causa<br />

justa. . ... Luís, Renato e Francisco dirigem a<br />

missa há <strong>se</strong>is me<strong>se</strong>s. Não é certo que <strong>se</strong> aprendem<br />

a <strong>fala</strong>r e a ler em público quando estão na<br />

Igreja, o farão com mais de<strong>se</strong>nvoltura em outras<br />

ocasiões? Isso pode <strong>se</strong>r-lhes de grande utilidade".<br />

E mais adiante: "Com o mesmo grupo<br />

de jovens descobrimos que antes de pensar em<br />

organizar a revolução, era preciso <strong>sabe</strong>r organizar<br />

um pique-nique. Querem a revolução ... .<br />

nós lhes propomos um pique-nique e .... juntos<br />

descobrimos que <strong>se</strong> qui<strong>se</strong>rem ter no dia de<br />

amanhã responsabilidades políticas, tomar parte<br />

nas mudanças de estruturas sociais, levar a<br />

bom termo uma greve justa, é preciso passar<br />

humildemente pela organização de um piquenique.<br />

Ê assim que <strong>se</strong> aprende a paciência, a<br />

longanimidade, o domínio de si e a estratégia da<br />

ação" (DoMINIQUE BARBI:, En E/ Futuro, Las<br />

Comunidades de Ba<strong>se</strong>, Studium, Madrid, 1974,<br />

pp. 58-59).<br />

"Depois de ter estudado, durante três me<strong>se</strong>s,<br />

todos os textos da ressurreição, uma equipe<br />

redige o folheto de que <strong>fala</strong>mos, que vem a <strong>se</strong>r a<br />

sínte<strong>se</strong> de suas descobertas. A ninguém escap'a<br />

que, <strong>se</strong> são capazes de compor o texto de um<br />

jornalzinho, aprenderam ao mesmo tempo a<br />

escrever uma petição, uma carta, uma reivindicação<br />

coletiva, no dia em que isto for necesmação:<br />

o aval dos Bispos tranqüiliza as pessoas<br />

quanto à catolicidade <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, sua fidelidade à<br />

Igreja. Pois <strong>se</strong> radicou no espírito de nosso povo,<br />

como corolário aliás gratuito da infalibilidade<br />

papal, a convicção da infalibilidade do Bispo em<br />

sua união com o Papa. De onde o fiel imagina que<br />

haveria de sua parte impiedade e até dúvida na Fé,<br />

<strong>se</strong> não aceitas<strong>se</strong> como indiscutível tudo quanto o<br />

Bispo pensa. E até tudo quanto ele faz. De onde, <strong>se</strong><br />

o Bispo dá aval às <strong>CEBs</strong>, fá-lo em consonância<br />

com o pensamento e as diretrizes do Papa. E<br />

portanto o fiel pode aceitar como católico tudo o<br />

que as <strong>CEBs</strong> dizem, mesmo que em oposição ao<br />

ensinamento tradicional da Igreja. Pois o Bispo<br />

não tem lapso em sua fidelidade ao Papa. E este<br />

não erra ...<br />

3) É, pois, a crença na infalibilidade da Igreja,<br />

que leva o indivíduo a <strong>se</strong> engajar num processo<br />

140


Parte li<br />

que, <strong>se</strong>m isso, reJe1taria. Daí a importância da<br />

pre<strong>se</strong>nça do Bispo não só no começo do processo,<br />

mas em todo o <strong>se</strong>u de<strong>se</strong>nvolvimento - pessoalmente<br />

ou por interpostos agentes pastorais, que <strong>se</strong><br />

<strong>sabe</strong> gozarem de sua confiança. Igual papel<br />

exercem, a fortiori, órgãos de cúpula do episcopado:<br />

CNBB, CELAM etc., ao apoiarem as <strong>CEBs</strong>.<br />

1) Um método cientificamente<br />

estudado e aplicado<br />

l) Todo este método é estudado cientificamente<br />

e elaborado a partir <strong>das</strong> experiências da<br />

Ação Católica, do "método Paulo Freire" ("pedagogia<br />

libertadora"), e outras técnicas psicológicas<br />

e sociais, por peritos altamente especializados,<br />

<strong>se</strong>ndo aplicado por pessoal <strong>muito</strong> bem treinado.<br />

2) Embora es<strong>se</strong> método possa <strong>se</strong>r aplicado em<br />

nível individual, ele é concebido para <strong>se</strong>r utilizado<br />

sobretudo em grupos.<br />

3) Sua grande eficácia, aliás, está em <strong>se</strong>r<br />

aplicado a grupos: um número suficientemente<br />

grande, de modo a permitir a pressão do grupo<br />

sobre o indivíduo, impedindo que <strong>se</strong> ressaltem as<br />

individualidades, e <strong>se</strong> imponham aos demais; mas<br />

Capítulo / - 4<br />

não tão grande, de forma a impedir que o indivíduo<br />

<strong>se</strong> mantenha alheio ao processo, isolando-<strong>se</strong><br />

dentro do grupo.<br />

4) Mediante dinâmicas de grupo e outras técnicas<br />

psico-sociais, o indivíduo vai-<strong>se</strong> tornando cada<br />

vez mais dependente do conjunto e incapaz de<br />

pensar, querer ou agir por si mesmo. Vai-<strong>se</strong><br />

tornando cada vez mais mero fragmento do grupo<br />

e menos ele próprio. <strong>As</strong>sim, o grupo todo caminha<br />

junto, dando os passos decisivos que cada indivíduo,<br />

isoladamente, talvez não des<strong>se</strong>. O dinamismo<br />

coletivo arrasta o indivíduo, mas ele não <strong>se</strong> dá<br />

conta disso e, ao fim da caminhada, julgará ter<br />

andado com as próprias pernas ...<br />

5) <strong>As</strong> etapas do processo não são estanques,<br />

mas <strong>se</strong> interpenetram. O processo alimenta-<strong>se</strong> a si<br />

mesmo: na medida em que a pessoa vai-<strong>se</strong><br />

azedando temperamentalmente, cresce nela o prurido<br />

de reivindicações e protestos; na medida em<br />

que tal prurido aumenta, ela <strong>se</strong> torna mais aberta à<br />

luta de clas<strong>se</strong>s; na medida em que <strong>se</strong> atira à luta de<br />

clas<strong>se</strong>s toma-<strong>se</strong> mais propensa a aceitar as transformações<br />

doutrinárias, e assim por diante. A<br />

"conscientização" de<strong>se</strong>ncadeia a ação e a ação<br />

reforça a "conscientização".<br />

141


144<br />

• Padres. freiras. agentes pastorais e membros <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong><br />

aplaudem os expoentes mundiais da Teologia da libertação<br />

e os chefes da guerrilha nicaragüen<strong>se</strong>. durante a<br />

"Noite Sandinista", no teatro da Universidade Católica<br />

de São Paulo. Em destaque: D. Casaldáliga veste o uniforme<br />

de guerrilheiro com que foi pre<strong>se</strong>nteado na ocasião.


D • MOACIR GRECHI, Bispo-Prelado do<br />

Acre e Purus e um dos principais mentores nacionais<br />

do movimento <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais<br />

de Ba<strong>se</strong>, definiu as <strong>CEBs</strong> como "a parte<br />

concreta da Teologia da Libertação". E D. Valdir<br />

Calheiros, Bispo de Volta Redonda-RJ, outro de<br />

<strong>se</strong>us próceres ( organizador do 1. 0 Encontro Latino-Americano<br />

e presidente do 4. 0 Encontro<br />

Nacional de <strong>CEBs</strong>), considera as Comunidades de<br />

Ba<strong>se</strong> como "a Teologia da Libertação posta em<br />

prática". Frei Leonardo Boff, por <strong>se</strong>u lado, afirma<br />

que a vinculação entre Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong> e Teologia da Libertação não é casual, mas<br />

necessária. "<strong>As</strong> comunidades eclesiais e a teologia<br />

da libertação - diz ele - são dois momentos de<br />

um mesmo prõcesso de mobilização do povo", as<br />

primeiras repre<strong>se</strong>ntando "a prática da libertação<br />

popular" e a <strong>se</strong>gunda "a teoria dessa prática".<br />

<strong>CEBs</strong>-TL, um nexo que não é casual<br />

Não é, pois, mera coincidência que os principais<br />

mentores <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong><br />

em nosso País <strong>se</strong>jam precisamente os mais notórios<br />

repre<strong>se</strong>ntantes nacionais da Teologia da<br />

Libertação-TL. Basta citar, entre outros, os irmãos<br />

Frei Leonardo e Frei Clodovis Boff, Frei<br />

•<br />

Beto, Frei Carlos Mesters, Frei Gilberto Gorgulho,<br />

o Pe. J. B. Libânio SJ e o Pe. Eduardo<br />

Hoornaert.<br />

Também não foi por simples casualidade que o<br />

IV Congresso Internacional Ecumênico de Teologia<br />

reuniu em Taboão da Serra-SP, em fevereiro<br />

de 1980, os principais expoentes mundiais da TL,<br />

especialmente os latino-americanos (Pe. Gustavo<br />

Gutiérrez, Pe. Jon Sobrino, Pe. Pablo Richard,<br />

Pe. Ronaldo Mufioz, pastor J. Míguez-Bonino)<br />

para - juntamente com <strong>se</strong>us colegas nacionais e<br />

militantes de <strong>CEBs</strong> - debater o tema Eclesiologia<br />

<strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>.<br />

Teologia da Libertação,<br />

doutrina rellglosa que explica<br />

a atuação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong><br />

A Teologia da Libertação é, portanto, o<br />

conteúdo da doutrina religiosa <strong>das</strong> Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong> (1). Tal doutrina religiosa modela<br />

todo o programa <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, sua atuação externa e<br />

(1) Alguém poderia objetar não <strong>se</strong>r admissível que as<br />

doutrinas da Teologia da Libertação circulem nas <strong>CEBs</strong><br />

porque a TL foi condenada por João Paulo II em Puebla.<br />

Em primeiro lugar, cabe responder que a vi nculação entre<br />

<strong>CEBs</strong> e Teologia da Libertação, aqui apontada, é afirmada por<br />

145


<strong>As</strong> C EBs ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> muiro <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TF P as descreve como são<br />

sua vida interna; dá a justificação moral a suas<br />

metas de igualitarismo religioso, social, político e<br />

econômico; confere impulso e força de impacto à<br />

atuação dos corifeus e mentores maiores e menores<br />

do movimento, desde Cardeais e Bispos até<br />

agentes pastorais leigos e simples monitores de<br />

<strong>CEBs</strong> perdi<strong>das</strong> pela imensidão de nosso território.<br />

Teologia da Libertação e Comunidades Eclesiais<br />

de Ba<strong>se</strong> constituem, convém acentuar, dois<br />

momentos de um mesmo processo: a teoria e a<br />

prática da "libertação popular". A TL esclarece a<br />

atuação <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>, de modo que atividades<br />

aparentemente <strong>se</strong>m gravidade, inócuas ou até<br />

louváveis, <strong>se</strong> vistas sob a luz da TL, ganham novo<br />

significado. A TL aponta o horizonte para onde<br />

devem caminhar as <strong>CEBs</strong> e estas realizam o<br />

programa da TL.<br />

<strong>As</strong>sim, para formar uma idéia clara da verdadeira<br />

fisionomia <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong> e para compreender a fundo a sua atuação,<br />

torna-<strong>se</strong> indispensável conhecer, ainda que nas<br />

suas linhas gerais , os princípios básicos da Teologia<br />

da Libertação.<br />

Da Redenção sobrenatural,<br />

A "libertação" polltlca<br />

A Teologia da Libertação põe inteiramente na<br />

sombra (quando não despreza de todo) o ponto<br />

central da libertação operada por Nosso Senhor<br />

Jesus Cristo, qual <strong>se</strong>ja, o resgate da dívida da<br />

Humanidade para com a justiça divina ofendida,<br />

efetuado por meio de sua Paixão e Morte na Cruz.<br />

Resgate que só Ele poderia realizar, uma vez que a<br />

ofensa feita ao Deus infinito, pelo pecado original,<br />

só poderia <strong>se</strong>r resgatada pelo próprio Deus.<br />

Portanto, nossa libertação da tirania do demônio,<br />

do pecado e da morte eterna - com to<strong>das</strong> as<br />

con<strong>se</strong>qüências de ordem social, terrena - foi uma<br />

libertação sobrenatural, um dom gratuito da mi<strong>se</strong>ricórdia<br />

divina, à qual os homens devem associar<strong>se</strong><br />

por suas boas obras.<br />

mentores nacionais do movimento <strong>das</strong> Comunidades de Ba<strong>se</strong>,<br />

em declarações contemporâneas ou posteriores a Puebla. Por<br />

outro lado, os erros doutrinários e desvios de conduta são<br />

denunciados no pre<strong>se</strong> nte trabalho com apoio em abundante<br />

documentação, provinda <strong>das</strong> fontes mais idôneas, ou <strong>se</strong>ja,<br />

escritos dos principais ideólogos do movimento e textos<br />

elaborados pelas próprias <strong>CEBs</strong>.<br />

Ora, os erros a í encontrados foram bem caracterizados e<br />

condenados por João Paulo II , no discurso de inauguração da<br />

Conferência de Puebla, como mostrou o Prof. Plinio Corrêa de<br />

Oliveira em lúcidos artigos publicados na imprensa diária nos<br />

me<strong>se</strong>s de março e abril de 1979.<br />

Ademais, a afirmação de que a TL foi condenada por João<br />

Paulo em Puebla é categoricamente co ntestada por prelados<br />

altamente colocados na cúpula do órgão que <strong>fala</strong> em nome dos<br />

Srs. Bispos brasileiros: D. Ivo Lorsc heiter, presidente da CN BB<br />

e D. Luciano Mendes de Almeida, <strong>se</strong>cretário, além de outros<br />

Prelados, como D. Cândido Padim, de Bauru.<br />

A declaração de D. Ivo Lorscheiter (a qual, diga-<strong>se</strong> de<br />

passagem, não prima pela lógica) foi feita a Frei Betto, o qual<br />

indagou <strong>se</strong> o Pontífice havia condenado a Teologia da<br />

Libertação. O presidente da CNBB foi enfático: "De jeito<br />

nenhum. O Papa apenas chamou a arenção para o risco de<br />

alguns abusos. A Teologia da Liberraçíio já foi incorporada à<br />

dourrina oficial da Igreja (sic!), arravés da Evangelii Nuntiandi,<br />

onde Paulo VI, <strong>se</strong>m negá-la (sic!) rambém adverte sobre alguns<br />

exageros que podem <strong>se</strong>r comeridos em <strong>se</strong>u nome". Não é fácil<br />

entender a afirmação de que um Pa pa incorporou determinada<br />

teologia à doutrina da Igreja, apenas porque não a negou (sic!).<br />

e além disso fe z advertências contra possíveis exageros em<br />

nome dela. Mas, o que vem ao caso é que D. Ivo (como<br />

também D. Luciano e D. Padim) conteste que a TL tenha sid o<br />

condenada.<br />

O que importa em admitir que ela tem li vre curso, não só<br />

nas Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, como em todos os<br />

a mbientes católicos. De resto, basta entra r em uma li vra ri a<br />

religiosa para constatar que é precisamente o que ocorre. O u<br />

então, folhear documentos da própria CNBB ...<br />

146


Parte li Capítulo li - 1<br />

Frei Leonardo Boff<br />

11<br />

0 que propomos não é teologia<br />

no marxismo#<br />

mas marxismo na teologia"<br />

- Textos -<br />

FREI LEONARDO BoFF: "A teologia da libertação<br />

.... relê e interpreta a realidade social<br />

conflitiva. E aqui aflora o problema: importa<br />

conhecer de modo o mais científico possível<br />

esta realidade/ .... A opção política, ética e<br />

evangélica prévia em favor dos pobres contra a<br />

sua pobreza ajuda a escolher aquele instrumental<br />

que faça justiça aos reclamos de dignidade<br />

por parte dos explorados. Neste momento de<br />

racionalidade e objetividade, o teólogo pode <strong>se</strong><br />

utilizar do aporte da teoria marxista da história<br />

. .... O que propomos não é teologia dentro<br />

do marxismo, mas marxismo (materialismo<br />

histórico) dentro da teologia" ( I ).<br />

PE. ALFONSO GARCIA RuBio (analisando a<br />

TL): "Uma vez que o marxismo é ciência, do<br />

ponto de vista cristão não há problema algum<br />

em adotá-lo" (2).<br />

PE. JuAN Luis SEGUNDO SJ: "O marxismo<br />

pretende evidenciar a mentira social, e para isso<br />

elaborou um instrumental analítico científico. É<br />

algo de que deve regozijar-<strong>se</strong> o cristão, como<br />

deve alegrá-lo o fato deste instrumental <strong>se</strong>r<br />

empregado também para manifestar a ideologização<br />

da própria Igreja e da reflexão teológica.<br />

Purifica-<strong>se</strong>, assim, a Igreja, coisa de que<br />

ela <strong>se</strong>mpre tem necessidade" (3).<br />

PE. FRANCISCO T ABORDA SJ: "O meu ideal é<br />

o que está no evangelho, a fraternidade e o<br />

amor, mas o evangelho não me dá o instrumental<br />

científico de análi<strong>se</strong> da realidade . .... A<br />

análi<strong>se</strong> marxista da realidade é uma aquisição<br />

<strong>das</strong> ciências sociais" (4).<br />

Lmz ALBERTO GôMEZ DE SouzA: "Para a<br />

teologia da libertação não existe, atualmente,<br />

outra reflexão teórica melhor que o marxismo,<br />

que está in<strong>se</strong>rido na práxis da realidade" (5).<br />

(1) Marxismo na Teologia, in "Jornal do Brasil",<br />

6-4-80.<br />

(2) Teologia da Libertação: Política ou Profetismo?,<br />

Edições Loyola, São Paulo, 1977, p. 243.<br />

(3) Resumido pelo PE. A. G. RueIO, op. cit., p. 227.<br />

(4) "Jornal do Brasil", 24-8-80.<br />

(5) Apud PE. RoGER VEKEMANS SJ, Expansión mundial<br />

de la Teología de la liberación latinoamericana, in Socialismo<br />

y Socialismos en América Latina, Secretariado General<br />

dei CELAM, Bogotá, 1977, p. 276.<br />

147


A s <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve com o são<br />

A concepção marxista adotada pela Teologia da Libertação,<br />

e corrente nas <strong>CEBs</strong>, vê no "pobre" o verdadeiro<br />

"messias" e "redentor" da humanidade. - Este "crucifixo",<br />

estampado pelo "Boletim da CPT" (Comissão<br />

Pastoral da Terra, ligada à CNBB), está inteiramente de<br />

acordo com tal concepção.<br />

_.,<br />

A TL, deixando de lado a noção do resgate,<br />

transforma a Redenção (do latim Redemptio, que<br />

quer dizer resgate) , numa libertação como outra<br />

qualquer, à qual <strong>se</strong> pode chegar por outros meios<br />

que não o pagamento de um débito contraído. De<br />

onde, o papel de Nosso Senhor Jesus Cristo ficar<br />

inteiramente esvaziado de sua importância fundamental,<br />

o mesmo acontecendo com o caráter da<br />

gratuidade do dom recebido.<br />

A libertação assume para a TL um caráter<br />

eminentemente político - e não sobrenatural -<br />

<strong>se</strong>gundo o qual o próprio Cristo é visto apenas<br />

como um líder popular que foi morto ao tentar<br />

sacudir o jugo do Império Romano e o dos chefes<br />

da Sinagoga. Do mesmo modo a ação dos<br />

Profetas, especialmente de Moisés, são apre<strong>se</strong>nta<strong>das</strong><br />

como lutas políticas para libertar o povo <strong>das</strong><br />

opressões. A causa de to<strong>das</strong> as opressões, que até<br />

hoje dominam o povo, <strong>se</strong>gundo a TL, são as<br />

desigualdades políticas, econômicas, sociais e inclusive<br />

religiosas. Uma vez elimina<strong>das</strong> essas desigualdades,<br />

<strong>se</strong> con<strong>se</strong>guirá libertar afinal o homem,<br />

e nisso consiste a verdadeira redenção da Hunanidade.<br />

Marxismo e luta de clas<strong>se</strong>s<br />

Transformado o conceito de redenção, a TL<br />

passa a utilizar uma filosofia que está inteiramente<br />

de acordo com a nova concepção. Ou <strong>se</strong>ja, é<br />

no marxismo que ela vai buscar uma nova<br />

explicação para a salvação dos homens e os meios<br />

estratégicos para. con<strong>se</strong>gui-la. O Pe. Battista Mondin,<br />

professor na Pontifícia Universidade Urbaniana<br />

de Roma, comenta: "O princípio arquitetônico<br />

[da TL] é constituído pelo mistério da<br />

libertação da Humanidade realizado por Cristo: o<br />

princípio hermenêutico [interpretativo] é a filo-<br />

]48


Parte li<br />

Cap ítulo li - /<br />

sofia marxista da libertação . .. .. E a estratégia para<br />

con<strong>se</strong>guir a libertação é a proposta por Marx, a<br />

luta de clas<strong>se</strong>s".<br />

Uma vez adotados os novos conceitos, utilizada<br />

a estratégia da luta de clas<strong>se</strong>s, quem é que<br />

substitui a Cristo, como o redentor da Humanidade?<br />

O proletariado: "messias" e "redentor"<br />

A resposta de Marx é clara: o único elemento<br />

capaz de salvar os homens da situação de opressão<br />

em que <strong>se</strong> encontram na sociedade de clas<strong>se</strong>s,<br />

fundada na propriedade privada e na livre iniciativa,<br />

é a clas<strong>se</strong> do proletariado. Segundo o autor<br />

de O Capital, o proletariado resulta de um sistema<br />

de opressão, no qual a riqueza de uns é fruto<br />

necessário da exploração de outros. Como ele<br />

nega a legitimidade do lucro, a riqueza só pode <strong>se</strong>r<br />

obtida mediante o roubo dos trabalhadores, a<br />

exploração de <strong>se</strong>u trabalho pelo mecanismo da<br />

mais-valia.<br />

Para Marx, no momento em que essa clas<strong>se</strong>, o<br />

proletariado, empobrecida, despojada, marginalizada,<br />

<strong>se</strong> unir e quebrar o jugo dos exploradores,<br />

ela destruirá o próprio mecanismo da exploração,<br />

fonte do egoísmo que, <strong>se</strong>gundo ele, é a propriedade<br />

privada. Com isso, o proletariado não<br />

somente <strong>se</strong> libertará a si mesmo, mas libertará,<br />

redimirá, os próprios opressores.<br />

O "pobre" <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> ê o<br />

"proletariado-redentor" de Marx<br />

O marxismo considera, portanto, o proletariado<br />

como o verdadeiro "messias", conforme têm<br />

demonstrado vários autores, entre os <strong>quais</strong> o<br />

Os sofrimentos inenarráveis de Nosso Senhor Jesus<br />

Cristo em 1ua Paixlo e Morte na Cruz, preço de noa 18<br />

Redençlo, estio expre1ao1 com a veneraçlo e o carinho<br />

da piedade criatl tradicional neste belo crucifixo, venerado<br />

na Sede principal da TFP, em Slo Paulo.<br />

149


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>. <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Karl Marx<br />

O mito da "ciência,, marxista<br />

A TEOLOGIA da Libertação afirma partir<br />

dos dados da realidade para a sua elaboração<br />

teológica, ao inverso da Teologia tradicional,<br />

que parte dos dados da Revelação.<br />

Entretanto, argumentam, o Evangelho não<br />

oferece nenhum critério científico para a análi<strong>se</strong><br />

da realidade. Logo, é preciso buscá-lo nas<br />

ciências sociais. E concluem que o método<br />

científico mais apto para tal análi<strong>se</strong> é aquele<br />

oferecido pelo materialismo histórico: a análi<strong>se</strong><br />

marxista.<br />

Ora, pretender que o marxismo <strong>se</strong>ja uma<br />

ciência é, em rigor de lógica, um absurdo. Pois<br />

como "provas" do acertado de suas conclusões<br />

ele só apre<strong>se</strong>nta suas próprias premissas teóricas.<br />

Por outro lado, os fundamentos doutrinários<br />

do marxismo não são dedutíveis por via<br />

lógica, a partir de pressupostos bem demonstrados,<br />

mas são mera decorrência de afirmações<br />

gratuitas, toma<strong>das</strong> como <strong>se</strong> fos<strong>se</strong>m dados revelados.<br />

Como a partir do absurdo tudo é<br />

possível, uma vez aceitas como váli<strong>das</strong> essas<br />

afirmações, pode-<strong>se</strong> construir todo um sistema<br />

com aparência de correção lógica, no qual umas<br />

afirmações vão <strong>se</strong>rvindo de "prova" e de<br />

sustentação às outras.<br />

O Pe. Baldomero Ortoneda, jesuíta espanhol,<br />

auxiliado por uma equipe e orientado por<br />

especialistas, deu-<strong>se</strong> ao trabalho de analisar do<br />

ponto de vista da filosofia e <strong>das</strong> ciências<br />

naturais, os princípios básicos do marxismoleninismo.<br />

Ao cabo de 700 páginas de comparação<br />

<strong>das</strong> afirmações (mais de 15 mil) de cerca<br />

de 900 autores comunistas, com os dados da<br />

biologia, da química, da física, da geologia e<br />

<strong>das</strong> matemáticas, além da filosofia, constata a<br />

existência de perto de 400 erros de caráter<br />

científico, 600 erros de raciocínio e 200 erros<br />

filosóficos. O que desqualifica totalmente qualquer<br />

sistema (cfr. BALDOMERO 0RTONEDA, Principias<br />

Fundamentales dei Marx ismo-Leninismo,<br />

México-Madrid, 1974).<br />

Por con<strong>se</strong>guinte, a análi<strong>se</strong> marxista da<br />

realidade não é <strong>se</strong>não a adaptação da realidade<br />

aos pressupostos apriorísticos do materialismo<br />

histórico. <strong>As</strong>sim, a realidade não é investigada<br />

<strong>se</strong>gundo a objetividade dos fatos, mas<br />

interpretada e adaptada às conclusões prévias<br />

da doutrina.<br />

150


Parte II<br />

dominicano suíço Fr. Georges M.M. Cottier e o<br />

sacerdote espanhol Pe. Gregorio Rodríguez de<br />

Yurre.<br />

Ora, nos escritos dos teólogos da libertação e<br />

em documentos emanados <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> ou a elas<br />

destinados, o modo como é apre<strong>se</strong>ntado o "pobre"<br />

(ou o "povo", já que nes<strong>se</strong> contexto um equivale<br />

ao outro), identifica-o inteiramente com a concepção<br />

marxista do "proletariado". Portanto, do<br />

"messias" e "redentor"!<br />

- Como <strong>se</strong> opera essa rotação de conceitos?<br />

Ainda aqui, pela adoção do marxismo.<br />

A Teologia da Libertação toma o conceito de<br />

"pobre" de grande significado bíblico, e o reduz a<br />

uma categoria meramente sócio-política, a de<br />

"clas<strong>se</strong> oprimida", própria à análi<strong>se</strong> marxista,<br />

<strong>se</strong>gundo a qual a sociedade <strong>se</strong> divide em burguesia<br />

e proletariado, opressores e oprimidos. Dessa<br />

forma, o "pobre" da TL equivale ao "proletariado"<br />

de Marx.<br />

A "clas<strong>se</strong> oprimida": "Povo de Deus",<br />

destlnatãrlo da mensagem evangélica<br />

Outro conceito bíblico interpretado do mesmo<br />

modo é o de "povo de Deus". Ele deixa de<br />

constituir uma realidade religiosa, para <strong>se</strong> transformar<br />

numa categoria meramente sociológica,<br />

entendida igualmente num <strong>se</strong>ntido classista, equivalente<br />

também a proletariado (o "povo", por<br />

excelência, <strong>se</strong>gundo Marx). O mesmo <strong>se</strong> dá com<br />

tantos outros conceitos.<br />

É ao pobre - tomado nessa acepção - que <strong>se</strong><br />

destina a mensagem evangélica, lê-<strong>se</strong> em documentos<br />

<strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> e escritos de teólogos da libertação.<br />

Não, porém, em virtude de suas disposições<br />

pessoais, de abertura, de aceitação dessa mensagem,<br />

mas unicamente em razão de sua situação de<br />

Capíwlo II - /<br />

"despojamento", que o identifica com o proletariado<br />

da concepção marxista.<br />

Es<strong>se</strong> "pobre", es<strong>se</strong> "povo", entendido como<br />

"clas<strong>se</strong> oprimida", é pura e simplesmente tomado<br />

como <strong>se</strong>ndo o "Povo de Deus". Ou <strong>se</strong>ja, como a<br />

própria Igreja. "Se não <strong>se</strong> é povo, como <strong>se</strong>r povo<br />

de Deus?", pergunta-<strong>se</strong> num relatório para o 2. 0<br />

Encontro Nacional de <strong>CEBs</strong>.<br />

Des<strong>se</strong> modo, "ou a libertação vem pelo povo,<br />

ou não há libertação", sintetiza a Mensagem de<br />

Natal de 1978 da Dioce<strong>se</strong> de Goiás.<br />

Nem podia <strong>se</strong>r de outra forma: não é o "povo",<br />

o "pobre", o "oprimido", o novo "r,1essias", o novo<br />

"redentor", colocado pela Teologia da Libertação<br />

no centro do mistério da sal~ação?<br />

A "Igreja-que-nasce-do-povo", igreja<br />

marxista da Teologia da Libertação<br />

Conferido ao pobre es<strong>se</strong> caráter messiânico,<br />

compreende-<strong>se</strong> que <strong>se</strong> fale em "uma Igreja que<br />

nasce do povo" (slogan dos dois primeiros encontros<br />

nacionais de <strong>CEBs</strong>): o "pobre", o "povo",<br />

enquanto "redentor" da humanidade, substitui-<strong>se</strong><br />

a Nosso Senhor Jesus Cristo. Por con<strong>se</strong>guinte, a<br />

Igreja, em vez de nascer do lado aberto do<br />

Salvador morto na Cruz, nasce do sofrimento e da<br />

luta des<strong>se</strong> "povo-pobre-redentor", éle sua "práxis<br />

libertadora".<br />

O que faz inteiramente <strong>se</strong>ntido com todos os<br />

pressupostos da Teologia da Libertação, com sua<br />

adoção da análi<strong>se</strong> marxista.<br />

<strong>As</strong>sim, não há como fugir à conclusão: a<br />

"Igreja-que-nasce-do-povo", as <strong>CEBs</strong>, não são<br />

<strong>se</strong>não a "Igreja" marxista da Teologia da Libertação.<br />

E sua finalidade não pode <strong>se</strong>r outra <strong>se</strong>não<br />

"ajudar a construir uma sociedade mais igualitária,<br />

cuja matéria possa tornar mais viável e con-<br />

151


A s <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

ereto o Reino de Deus neste mundo", na expressão<br />

de Frei L. Boff. Ou <strong>se</strong>ja, buscar a sociedade<br />

<strong>se</strong>m clas<strong>se</strong>s da utopia comunista.<br />

A linguagem de duplo <strong>se</strong>ntido<br />

- Mas como fazer aceitar pelos católicos es<strong>se</strong><br />

novo conteúdo de antigos conceitos?<br />

Pela utilização de um artifício <strong>muito</strong> sutil: a<br />

·linguagem de duplo <strong>se</strong>ntido.<br />

Os teólogos da libertação, os mentores de<br />

<strong>CEBs</strong> e progressistas em geral, empregam uma<br />

linguagem aparentemente bíblica, cheia de citações<br />

escriturísticas, que são toma<strong>das</strong>, pelo leitor<br />

menos atento, em <strong>se</strong>u <strong>se</strong>ntido natural e próprio,<br />

quando na realidade têm uma significação marxista<br />

camuflada.<br />

É, em grande medida, graças ao emprego dessa<br />

linguagem de duplo <strong>se</strong>ntido, que tais eclesiásticos e<br />

agentes pastorais têm levado <strong>muito</strong>s fiéis a concordarem<br />

com propostas aparentemente sadias, mas<br />

de fato revolucionárias, que certamente teriam<br />

rejeitado <strong>se</strong> tives<strong>se</strong>m entendido o verdadeiro <strong>se</strong>ntido<br />

da linguagem que ouviam.<br />

Referências: Livros - PE. BATTISTA MoNDIN, Os Teólogos da<br />

libertação, Ed ições Paulinas, 1980; P E. A. G. R ue10, Teologia<br />

da Libertação: Política ou Profe1ismo?, Edições Loyola, São<br />

Paulo, 1977; PE. GusTAVO GuTlfRREZ, Teologia da Libertação,<br />

Vozes, Petrópolis, 1975; FREI LEONARDO BoFF OFM, Jesus<br />

Cristo Libertador, Vozes, Petrópolis, 1974, 4.ª edição; IDEM,<br />

Teologia desde e/ cautiverio, lndo-America n Press Service,<br />

Bogotá, 1975; FREI CLODov1s BoFF OSM, Comunidade Eclesial<br />

- Comunidade Política, Vozes, Petrópolis, 1978; PE. ÁLVARO<br />

BARREIRO SJ, Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong> e a Evangelização<br />

dos Pobres, Edições Loyola, São Paulo, 1979; PE. GR E­<br />

GORIO RODRIGUEZ DE YuRRE, E/ Marxismo, BAC, Madrid,<br />

1979, 2 volumes. Artigos - FR EI LEONARDO BoFF OFM, Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong> e Teologia da Libertação, in "Convergência"<br />

{Revista da Conferência dos Religiosos do Brasil),<br />

Frei Carlos Mesters<br />

é o principal divulgador<br />

do método de<br />

reflexão bíblica empregado<br />

nas Comunidades<br />

Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong>.<br />

<strong>se</strong>tembro 1981; IDEM, Marxismo na Teologia, in "Jornal do<br />

Brasil", 6-4-80; ID EM, Igreja Povo que <strong>se</strong> Liberta, in "Revista<br />

Eclesiástica Brasileira", <strong>se</strong>tembro 1978; PE. J. B. L1BÃN10 SJ,<br />

Congresso Internacional Ecumênico de Teologia. in "Revista<br />

Eclesiástica Brasileira", março 1980; PE. J . KERKHOFs SJ. Las<br />

comunidades de ba<strong>se</strong> en la lglesia , in "Boletin Pro Mundi<br />

Vita" (Bruxelas), <strong>se</strong>tembro 1976; PE. G. D EELEN SSCC. La lglesia<br />

ai enwentro dei pueblo en América Latina: las comunidades<br />

de ba<strong>se</strong> en Brasil, "Boletín Pro Mundi Vita", abril/junho<br />

1980; PE. GEORGES COTTIER OP, Marxisme e1 Messianism e, in<br />

"Ateísmo e Dialogo" (Bolletino dei Segretariato per i non<br />

credenti, Città deli Vaticano), <strong>se</strong>ttembre 1974; MARIA Jos~<br />

SARNO, Pobre, Teologia e Libertação. in "O São Paulo",<br />

2-10-8 1; HUGO <strong>As</strong>SMANN , A memória dos pobres como revelação<br />

de Deus, in "O São Paulo", 10-4-8 1; "The Ch urch of the<br />

Poor" - Latin America's comunidades de ba<strong>se</strong> keep growing.<br />

"Time", May 7, 1979; "Movimento". 29-1-79; Natal: A Igreja<br />

vo lra a <strong>fala</strong>r de jusriça, in "Jornal da Tarde". São Paulo,<br />

25-12-78; PUNIO Co RRéA DE OLIVEIRA, A mensagem de Puebla:<br />

noras e comenrários, in "Folha de S. Paulo", 26-3; 7, 14, 26-4 e<br />

19-5-79. Documentos - Dowmentojinal do Congresso Internacional<br />

Ecumênico de Teologia (Congresso de Taboão da<br />

Se"rra-SP), in "Revista Eclesiásti ca Brasileira", março 1980;<br />

Carta aos Cristãos que vivem e celebram sua fé nas Comunidades<br />

Cristãs Populares dos paí<strong>se</strong>s e regiões pobres do<br />

mundo {Congresso de Taboão da Serra-SP), ibidem.<br />

]52


Parte II<br />

Cap ítulo II -<br />

I<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> criticam<br />

a Santa Igreja e pregam<br />

uma "/greja-No"!fa"<br />

igualitária, herética e<br />

subversiva - Textos<br />

NO 1. 0 ENCONTRO Nacional <strong>das</strong> Comunidades<br />

Eclesiais de Ba<strong>se</strong> (Vitória-1975), <strong>fala</strong>-<strong>se</strong> na<br />

"Igreja nova que nasce no meio do povo, principalmente<br />

através <strong>das</strong> comunidades eclesiais de<br />

ba<strong>se</strong>", e procura-<strong>se</strong> "delinear <strong>se</strong>u perfil", descobrir<br />

suas "características futuras".<br />

Essa "Igreja- Nova" é incompatível com a verdadeira<br />

Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo - a<br />

Santa Igreja Católica Apostólica Romana - , a<br />

qual é apre<strong>se</strong>ntada pelas <strong>CEBs</strong> e pela Teologia da<br />

Libertação como uma Igreja "opressora" e "alienadora".<br />

Os textos abaixo - extraídos de documentos<br />

de encontros de <strong>CEBs</strong> ou de obras e declarações de<br />

"teólogos da libertação" - <strong>se</strong>rvem para ilustrar o<br />

modo injurioso como é tratada a Igreja tradicional<br />

e para apre<strong>se</strong>ntar algumas características dessa<br />

'' Igreja-nova-que-nasce-do-povo·'.<br />

A. Critica da Igreja tradicional<br />

A "Igreja de ontem"<br />

era alienante<br />

2. 0 Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Relatório<br />

<strong>das</strong> Comunidades de Ribeirão Bonito e Cascalheira<br />

- Prelazia de S. Felix-MT): "A Igreja de<br />

ontem, o povo julgava que os padres eram donos<br />

da salvação. Ela tem culpa de nós não enxergar e<br />

não ter uma vida melhor. .. .. Antigamente os<br />

padres pregavam o <strong>se</strong>rmão e rezavam o terço<br />

inteiro sozinho. E <strong>se</strong>mpre querendo <strong>sabe</strong>r <strong>se</strong> o<br />

povo sabia as orações. .... Espancavam, queria<br />

surrar o povo e o colocar em sujeição. Eles eram<br />

ricos como os tubarões e não tinham comunidade<br />

com o povo. Naquele tempo o camarada era atrasado<br />

e os padres eram sabidos. O povo era besta e<br />

153


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

os padres iam <strong>se</strong> prevalecendo da bestagem do<br />

povo. Eles não davam orientação" (1).<br />

Luta revolucionãria para<br />

libertar-<strong>se</strong><br />

de uma religião alienante<br />

Pe. Gustavo Gutiérrez: "O homem latinoamericano<br />

ao tomar parte em sua própria libertação,<br />

.... na lura revolucionária liberta-<strong>se</strong> de<br />

algum modo da tutela de uma religião alienante<br />

que tende à con<strong>se</strong>rvação da ordem" (2).<br />

A "Igreja tradicional"<br />

não testemunha<br />

a palavra e a vida de Jesus<br />

2. 0 Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Mensagem<br />

da Igreja de Goiás - Dioce<strong>se</strong> de Goiás Velho):<br />

"Perante o · Evangelho, a Igreja tradicional <strong>se</strong><br />

apre<strong>se</strong>nta como um terreno que precisa mesmo de<br />

destaca. Continua funcionando, mas parece que<br />

alguma coisa impede que testemunhe a palavra e a<br />

vida de Jesus" (3).<br />

Afastava de Jesus<br />

"O tronco é Jesus Cristo e só ele. Muitos<br />

querem outro tronco, ou <strong>se</strong>ja o padre ou <strong>se</strong>ja<br />

algum santo. E na Igreja tradicional, os padres<br />

agiam de um modo que favorecia este engano" (4).<br />

E opressora e impede a<br />

caminhada da "Igreja-Nova"<br />

3. 0 Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Conclusões<br />

do Relatório <strong>das</strong> Comunidades do Estado de São<br />

Paulo): "A Igreja antiga está ao lado do capitalismo.<br />

O domínio da Igreja tradicional impede a<br />

caminhada da nova, porque é bem diferente. A<br />

Igreja tradicional não acredita no povo, tem medo<br />

do povo, medo de perder o trono. Regime ditatorial:<br />

tudo é decidido de cima e o povo simplesmente<br />

acompanha".<br />

"Sinais de escravidão: uma Igreja que concentra<br />

toda a estrutura de poder: político, econômico<br />

e cultural .... não fez uma opção pelo pobre ....<br />

apre<strong>se</strong>nta · a leitura do Evangelho a partir do<br />

opressor; transfere a Deus os problemas ( Deus<br />

quer assim ... ; <strong>se</strong>mpre haverá pobres ... ; quanto<br />

mais <strong>se</strong> sofre aqui ... ;) ... . <strong>se</strong> julga a única capaz de<br />

ensinar a verdade" (5).<br />

Prega um Deus alienador<br />

3. 0 Encontro Nacional de <strong>CEBs</strong> (Relato dos<br />

participantes <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>): [Quem está adubando a<br />

raiz do mal]: "É a própria religião que existe e que<br />

bota umas coisas na cabeça do pessoal. Uma fama<br />

que foi colocada na cabeça do pessoal de como é<br />

Deus: um Deus alienador" (6).<br />

B. Perfil da Igreja Nova <strong>das</strong><br />

<strong>CEBs</strong>-Teologia da Libertação<br />

Nasce através <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong><br />

I.º Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Relatório do<br />

Encontro): "O objetivo do encontro foi delinear o<br />

perfil e descobrir as características futuras da<br />

Igreja nova, que nasce no meio do povo, principalmente<br />

através <strong>das</strong> Comunidades Eclesiais de<br />

Ba<strong>se</strong>" (7).<br />

154


Parte II<br />

Capítulo li -<br />

I<br />

E uma "Igreja-povo",<br />

·que não fica cega<br />

fitando o Evangelho<br />

2. 0 Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Mensagem<br />

da Igreja de Goiás): "Nossa Igreja é para quem<br />

quer e não para quem pode". "E do povo e não do<br />

dinheiro". "Está com o povo e não por cima do<br />

povo". "É um compromisso com a vida e não com<br />

a religião". "Não fica cega fitando o Evangelho,<br />

mas vê sua claridade nas coisas da vida". "Enxerga<br />

como o pecado <strong>se</strong> arruma na organização da<br />

sociedade e <strong>sabe</strong> que só vencerá na mudança".<br />

"Uma Igreja que <strong>se</strong> coloca decididamente a<br />

<strong>se</strong>rviço do povo aos <strong>pouco</strong>s <strong>se</strong> transforma numa<br />

Igreja-povo". "Se não <strong>se</strong> é povo, como <strong>se</strong>r povo de<br />

Deus?" (8).<br />

Uma Nova Igreja, <strong>se</strong>m<br />

religião, <strong>se</strong>m hierarquia,<br />

com outro evangelho<br />

2. 0 Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Comunidades<br />

de Ribeirão Bonito e Cascalheira - Prelazia<br />

de São Félix do Araguaia): "Hoje a Igreja volta ao<br />

tempo de Cristo, está mostrando o verdadeiro<br />

caminho cristão. .. .. Estamos aqui formando a<br />

Nova Igreja". "Deus não quer a terra, nem o céu<br />

para uns <strong>pouco</strong>s só. Tubarão, egoísta, não tem vez<br />

no reino de Deus. Quem tudo quer para si está<br />

fora do reino de Deus". "A glória do Pai é assim:<br />

ninguém mais alto, ninguém mais baixo".<br />

"Prescindir da religião e partir mais para a fé .<br />

Prescindir de nossa religião e partir mais para a<br />

mensagem central de evangelho: Anúncio de Deus<br />

como pai, anúncio da salvação. Confronto de<br />

nosso evangelho com o evangelho do povo em fa<strong>se</strong><br />

de antigo testamento" (9).<br />

Outra Igreja,<br />

que <strong>se</strong> compromete com<br />

a mudança de estruturas,<br />

econômica, social e polltica<br />

3. 0 Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Relatório<br />

<strong>das</strong> Comunidades do Estado de São Paulo): "Outra<br />

Igreja [a Igreja-Nova <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong>] é a que <strong>se</strong><br />

compromete com a mmlança de estruturas econômica,<br />

social e política; alimenta a fé, que dá<br />

coragem e fundamento para a luta (ex.: grupos<br />

CPT, CIMI ... ); revê a própria história e relê a<br />

Bíblia através da situação do oprimido" (10).<br />

Organizar os trabalhadores,<br />

missão da Igreja<br />

3. 0 Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Relatório do<br />

Encontro): "Os Padres ligam a Igreja com os<br />

pobres . .... A gente tá refletindo sobre o Evangelho,<br />

sobre Política e tentando organizar os<br />

trabalhadores (Goiás)" ( 11).<br />

Igreja e movimento popular,<br />

uma s6 realidade<br />

Congresso de Taboão da Serra (Documento<br />

Final): "Na luta do povo, a Igreja redescobre<br />

<strong>se</strong>mpre mais a sua identidade e a sua missão<br />

próprias. - A corrente cristã no interior do<br />

movimento popular e a renovação da Igreja a<br />

partir de sua opção pelos pobres são um movimento<br />

eclesial único e específico. Este movimento<br />

eclesial vai configurando diferentes tipos de comunidades<br />

eclesiais de ba<strong>se</strong> onde o povo encontra um<br />

155


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> f ala. p ouco <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve co n:o são<br />

espaço de resistência, de luta e de esperança frente<br />

à dominação. A li os pobres celebram sua f é em<br />

Cristo libertador e descobrem a dimensão p olítica<br />

da caridade" ( 12).<br />

Igreja: povo<br />

a <strong>se</strong>rviço do povo<br />

Frei Gilberto Gorgulho OP: "A Igreja simplesmente<br />

é um povo a <strong>se</strong>rviço do próprio povo. A pre<strong>se</strong>nça<br />

e ação pastoral da Igreja alcança uma dimensão<br />

pastoral que de<strong>se</strong>mboca no campo p olítico" ( 13).<br />

Função da "Igreja-Nova":<br />

acabar com o<br />

medo do comunismo<br />

Pe. Ernesto Cardenal (Pergunta do repórter<br />

Peter Klein: Isto quer dizer que o trabalho de um<br />

cristão ou de um padre no Terceiro Mundo deve<br />

<strong>se</strong>r transmitir o conhecimento do comunismo ao<br />

povo, ti rar-lhe o medo do comunism o?): "R . Sim.<br />

O p roblema é acabar com o medo diante do comunism<br />

o; <strong>se</strong>r um elem ento de mudança e de reforma.<br />

e ajudar na construção do socialism o na A m érica<br />

Latina, até alcançar a p az e realizar a construção<br />

do socialism o. Isto f eito, p artir para a construção<br />

da sociedade.final comunista, isto é, a fundação do<br />

'reino do amor'" (14).<br />

Papel do Episcopado:<br />

favorecer a Revolução<br />

Pe. Alfonso Garcia Rubio: " O que espera a<br />

Teologia da libertação da Hierarquia eclesiástica.?<br />

Que <strong>se</strong> dessolidarize ef etivamente do sistema imperante,<br />

e que admita, de fato, no <strong>se</strong>u interior.<br />

op ções claramente revolucionárias . .. .. Na grande<br />

maioria dos paí<strong>se</strong>s latino-americanos ... . significa<br />

normalmente a op ção p olítica de esquerda uma<br />

op ção contra o sistema dominante, considerado<br />

com o opressor e anti-humano" ( 15).<br />

«A missão dá Igreja é pregar o comunismo»<br />

O pensam enlo de Er11esto Carde,uu- padre, poeta. guerrilheiro e. agoru<br />

m iniJtro da &J·,CIJ+(J() do lfOt.ro g 01Xmo da N icanigJUJ.<br />

1 ,1 11! , n ,1 1 MI p r lmr1r ;t tard a do r,1, 1àu r<br />

1.11, , ,1 11· • u l u ç 1 u ~<br />

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l.lltra h,ra -lntt'rtssa •m t' 1 hlt ral ura a<br />

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lia mt)ma n111n t ,ra l Omo 1n1rrr.ua a pots 11<br />

,m.. proll'l;u


Parte li<br />

Sacramentos: ações<br />

libertadoras e celebrações<br />

conscieniizadoras nas <strong>CEBs</strong><br />

Pe. Juan Luis Segundo SJ (resumido pelo Pe.<br />

A. G. Rubio): "Os sacramentos, ou constituem<br />

'uma celebração conscientizadora e motivadora da<br />

ação libertadora do homem na história' ou contribuem<br />

para a desumanização do homem . .... <strong>As</strong>sim<br />

como em toda verdadeira conscientização há<br />

<strong>se</strong>mpre uma dimensão comunitária, dado que o<br />

diálogo é absolutamente indispensável (ninguém<br />

<strong>se</strong> conscientiza nem <strong>se</strong> liberta sozinho), assim<br />

também uma prática sacramental libertadora tem<br />

necessidad€. de comunidades eclesiais reais, comunidades<br />

de ba<strong>se</strong>" (16).<br />

2. 0 Encontro <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Mensagem da Igreja<br />

de Goiás): "O batismo só tem <strong>se</strong>ntido <strong>se</strong> for<br />

recebido dentro de uma comunidade . .... Reparamos<br />

que o batismo era desperdiçado por toda<br />

parte . .... Fomos examinar os outros sacramentos<br />

e deu no mesmo resultado. .... 'Terá <strong>se</strong>ntido<br />

celebrar o sacramento numa sociedade que tem<br />

por lei o capital e o lucro, o que leva a desprezar as<br />

pessoas?' .... A Igreja de Goiás resolveu diminuir a<br />

celebração dos sacramentos para dar mais tempo e<br />

atenção à evangelização" (17).<br />

Novo Santo:<br />

o militante polltico<br />

Frei Leonardo Boff OFM: "Nas comunidades<br />

de ba<strong>se</strong> criou-<strong>se</strong> a situação para um outro tipo de<br />

santidade, aquela do militante. Mais que lutar<br />

contra as próprias paixões (é uma luta permanente),<br />

luta-<strong>se</strong>, politicamente, contra a espoliação e<br />

geração de mecanismos de acumulação excludente<br />

"Eu me sinto, vestido<br />

de guerrilheiro,<br />

como me poderia<br />

<strong>se</strong>ntir paramentado<br />

de Padre", diz D.<br />

Casaldéliga, ao vestir<br />

o unifonne guerrilheiro<br />

com que foi<br />

pre<strong>se</strong>nteado na<br />

" Noite Sandinista",<br />

em São Paulo.<br />

e no esforço de construir relações mais comunitárias<br />

e equilibra<strong>das</strong>" ( 18).<br />

"Em contraposição ao santo cristão - um<br />

ob<strong>se</strong>rvante, um asceta - nas ba<strong>se</strong>s surge outro<br />

tipo: o militante, solidário às lutas do povo,<br />

surgem santos operrírios, de gravata" ( 19).<br />

NOTA":<br />

(1) "SEDOC", novembro 1976, col. 565.<br />

(2) Teologia da libertação, Vozes, Petrópolis, 1975, p. 67.<br />

(3) "SEDOC", novembro de 1976, col. 501.<br />

(4) Idem, col. 518.<br />

(5) Idem, outubro 1978, col. 329.<br />

(6) Idem, col. 433.<br />

(7) Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>: uma Igreja que nasce<br />

do povo, Vozes, Petrópolis, 1975, p. 11.<br />

(8) "SEDOC", novembro 1976, cols. 515, 523.<br />

(9) Idem, cols. 565, 567.<br />

(10) Idem, outubro 1978, col. 329.<br />

(11) Ibidem, col. 419.<br />

(12) Documento Final do Congresso Ecumênico Internacional<br />

de Teologia, n.ºs 20 e 21.<br />

(13) "Folhetim", 28-1-79, p. 6.<br />

(14) "O Estado de S. Paulo", 19-1-79.<br />

( 15) Teologia da libertação: Política ou Profetismo?. Edições<br />

Loyola, São Paulo, 1977, p. 31.<br />

(16) Idem, p. 157.<br />

(17) "SEDOC", novembro 1976, cols. 501-502.<br />

( 18) Características da Igreja encarnada nas clas<strong>se</strong>s subalternas,<br />

in "SEDOC', janeiro-fevereiro 1979, col. 841.<br />

(19) "O Estado de S. Paulo", 29-2-80.<br />

157


<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

A nova religião da 11 lgreja-Nova":<br />

"O mau ladrão também é Deus"<br />

- Textos -<br />

Mistura de concepções heréticas modernistas<br />

com as idéias-força marxistas de luta de clas<strong>se</strong>s e<br />

de domínio da economia (o modo de produção)<br />

sobre to<strong>das</strong> as demais atividades do homem,<br />

inclusive a religiosa, a Teologia da Libertação -<br />

doutrina que anima o movimento <strong>das</strong> Comunidades<br />

de Ba<strong>se</strong> - acaba <strong>se</strong>ndo praticamente uma<br />

transposição do marxismo em termos religiosos. A<br />

coletânea de textos que <strong>se</strong> <strong>se</strong>gue - extraídos de<br />

documentos ou de obras e declarações de próceres<br />

dessa corrente - apre<strong>se</strong>nta diferentes aspectos<br />

dessa nova religião.<br />

Deus: o homem. lnterpretaçlo<br />

marxista da Santlsslma Trindade<br />

Pe. Gustavo Gutiérrez: "No encontro com os<br />

homens dá-<strong>se</strong> nosso encontro com o Senhor . .... É<br />

conhecida esta poesia de León Felipe, da qual<br />

<strong>muito</strong> gostava 'Che' Guevara . .... 'Amo-te, Cristo/<br />

. . .. Tu nos ensinaste que o homem é Deus ... / Um<br />

pobre Deus crucificado como tu / e aquele que<br />

está à tua esquerda no Gólgota / o mau ladrão /<br />

também é Deus!' " (1).<br />

D. Alfonso López Trujillo (referindo-<strong>se</strong> à<br />

Teologia da Libertação): "Conhecem-<strong>se</strong> ensaios de<br />

uma 'Teologia Trinitária marxista', nos <strong>quais</strong> as<br />

Cf]tegorias: política, economia, sociedade, <strong>se</strong>rvem<br />

de fundamento e de manifestação <strong>das</strong> p essoas<br />

Trinitárias ... " (2).<br />

Palxlo de Cristo: palxlo do povo, vitima<br />

do capltallsmo e da Igreja tradlclonal<br />

Pe. Antonio Haddad SSS: "Mas hoje a Igreja<br />

tenta mostrar que essa morte de Cristo tão<br />

chorada e lamentada na 6. ª f eira da Paixão é<br />

também a morte do povo. O povo que morre nas<br />

crueldades da luta diária pela sobrevivência.<br />

E <strong>se</strong> o Cristo continua morrendo hoje e o povo<br />

também .. . quem são os assassinos?<br />

• Mata o Cristo e o povo quem apóia os<br />

empresários do A BC e não ouve os operários.<br />

• Mata o Cristo e o povo quem quer manter o<br />

sistema capitalista brasileiro.<br />

• Mata o Cristo e o povo quem continua<br />

defendendo uma Igreja tradicionalista desligada<br />

dos problemas do mesmo povo. . ...<br />

E o povo deve descobrir neste dia de luto para<br />

a humanidade que esta morte ainda vai <strong>se</strong>r fonte<br />

de nova vida como foi a do Cristo. É o sangue do<br />

operário, do marginalizado e do injustiçado que<br />

vai fazer desta terra brasileira um País onde aqueles<br />

que são maioria tomarão o <strong>se</strong>u destino nas<br />

mãos" (3).<br />

Frei Leonardo Boff OFM: "Tenho para mim<br />

que a morte de Jesus foi humana, provocada pelos<br />

antagonismos que havia em sua época" (4).<br />

Demõnlo: o lucro, o capltallsmo<br />

Pe. Juan Luis Segundo SJ: "Quando <strong>se</strong> batiza<br />

uma criança, o ritual prescreve algumas orações<br />

para expulsar o demônio da criança .... porque<br />

não ensaiar uma terceira possibilidade: chamar<br />

pelo nome e sobrenome es<strong>se</strong> demônio que <strong>se</strong> quer<br />

158


Parte li<br />

expulsar? .... Se <strong>se</strong> trata de uma criança pobre,<br />

porque não dizer: 'Sai daí espírito imundo do<br />

capitalismo' . .... Se <strong>se</strong> trata de um rico, porque não<br />

dizer: 'Sai desta criança, espírito imundo do<br />

lucro' " (5).<br />

Socorro Guerrero (Repre<strong>se</strong>ntante <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> da<br />

Nicarágua no Congresso de Taboão da Serra): "O<br />

capitalismo é o pior, o maior inimigo. É aquilo que<br />

chamamos o diabo, na Bíblia. Porque o diabo em<br />

si, não existe, mas o capitalismo sim, existe" (6).<br />

Pecado Original: a propriedade privada<br />

Congresso de Teologia de Taboão da Serra<br />

(Documento final): "O Deus em que acreditamos é<br />

Capírulo li - 1<br />

o Deus da Vida, da liberdade e da justiça. Ele criou<br />

'a terra e tudo que nela existe' a <strong>se</strong>rviço do homem<br />

e da mulher, para que eles vivam, comuniquem a<br />

vida e transformem esta terra em lar para todos os<br />

<strong>se</strong>us filhos. O pecado do homem que <strong>se</strong> apropria<br />

da terra e assassina <strong>se</strong>u irmão não destrói o<br />

desígnio de Deus (Gn. 2-4) (1). Por isso Ele chama<br />

Abraão para <strong>se</strong>r o pai de um povo (Gn. 12ss) e<br />

( 1) A passagem citada do documento final do Congresso de<br />

Taboão da Serra pretende apre<strong>se</strong>ntar um resumo da história da<br />

criação, da ruptura da aliança entre Deus e o homem pelo<br />

pecado original, e a renovação dessa aliança por meio de<br />

Abraão e Moisés. Ora, a única referência ao pecado que<br />

rompeu a aliança entre Deus e o homem vem nas palavras: "O<br />

pecado do homem que <strong>se</strong> apropria da terra e assassina <strong>se</strong>u<br />

Para Marx. o prole·­<br />

tariado carrega a<br />

cruz de todos os<br />

sofrimentos da humanidade,<br />

<strong>se</strong>ndo<br />

por isso o verdade<br />

iro "redentor"<br />

doa homens. Esta<br />

ilustraçlo de uma<br />

"Via-Sacra" estampada<br />

em "O<br />

Slo Paulo" - órglo<br />

da Arquidioce<strong>se</strong><br />

paulistana -<br />

mostra como, introduzida<br />

pela Teologia<br />

da Libertaçlo.<br />

essa concepçlo<br />

tornou-<strong>se</strong> corrente<br />

nos meios católicos.<br />

OfAOP.'IULO<br />

------------- - -- -<br />

Experiências pastorais na Se1nana Santa<br />

A ~ de Bo,. ~ Hr- o 1f'Olw,tu,o cb ho>Qllol, ~ Ir,<br />

~ ~i;"~~ (~:.::-:,·:~~,. , ... 11-<br />

W .wno yio.liXfO dJ lr1tf11.t.. dl;i~<br />

do o p,,cuoo da • >0 '3CID, oco,,,.<br />

q.. o ...o,o, pon., do P0PUbl6o ,~ ,om pgln u o , W p,, \.IO, 1n«"tt \<br />

""-1,o, loton,Jo~D,mlc'IH--<br />

1,oi~'!:"" "-)l. r~l)lo,f1C6o l» l rabalho.liof.nr.<br />

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cii anca "° bamo.<br />

"Riil d-ci q.. e.brrm o , oo p,u,~cn<br />

So,,to, ludo Otl)rrN (_,., Wfl'Cl,., ' •<br />

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<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> ... <strong>das</strong> <strong>quais</strong> <strong>muito</strong> <strong>se</strong> <strong>fala</strong>, <strong>pouco</strong> <strong>se</strong> conhece -<br />

A TFP as descreve como são<br />

Uma Igreja autogestionária,<br />

numa sociedade autogestionária<br />

HÁ UNIDADE de pensamento na Revolução:<br />

propagada no Estado, ela filtra para a Igreja,<br />

e propagada na Igreja filtra para o E_st~do.<br />

O Pe. Domingos Barbé mostra a mt1ma<br />

conexão que existe entre a implantaç~o da<br />

autogestão na sociedade e na Igreja: "E coisa<br />

estranha e contraditória, pedir para a sociedade<br />

civil a autonomia, a autogestão, a democracia,<br />

a socialização, inclusive do poder e, ao mesmo<br />

tempo, não deixar as <strong>CEBs</strong> <strong>se</strong>rem autônomas,<br />

<strong>se</strong> 'autogerirem' mesmo no que diz respeito à sua<br />

vida eucarística" (Artigo O ministério Eucarístico<br />

e as Comunidades Eclesiais de Ba<strong>se</strong>, in "O<br />

São Paulo", 20-2-81, p. 4).<br />

<strong>As</strong> <strong>CEBs</strong> não de<strong>se</strong>jam, portanto, reformar<br />

apenas o Estado e a est_r~tura política, -~as<br />

· também as estruturas soc1a1s e mesmo rehgio­<br />

. sas <strong>se</strong>gundo <strong>se</strong>u ideal de igualitarismo radical.<br />

Reforma portanto da Igreja e da sociedade civil<br />

conjuga<strong>das</strong> entre si, para cria_r um _mun~o novo,<br />

um "Reino de Deus" que <strong>se</strong> 1dent1ficana com a<br />

1 sociedade <strong>se</strong>m clas<strong>se</strong>s e "autogerida" da etapa<br />

; final do comunismo.<br />

irmão". A fra<strong>se</strong> que "assassina <strong>se</strong>u irmão" só pode referir-<strong>se</strong> à<br />

morte de Abel por Caim, relatada no Gênesis. Entreta~t_o, o<br />

fratiddio praticado por Caim deu-<strong>se</strong> depois do p~ca.do ongmal;<br />

logo, não pode <strong>se</strong>r relacionado com ele; ademais, ocorreu por<br />

inveja e nada tem a ver com o que, no texto dos teólogos da<br />

libertação, o antecede: a "apropriação da terra". Logo, o<br />

pecado do homem, o pecado original, só pode entender-<strong>se</strong><br />

como <strong>se</strong>ndo a "apropriação da terra". Ora, os Capítulos 2 a 4<br />

M oisés para libertar este povo da opressão, fazer<br />

com ele uma aliança e encaminhá-lo à terra<br />

prometida (txodo, Deuteronômio)" (7).<br />

Pecado atual: o capltallsmo<br />

Mensagem às Comunidades de Ba<strong>se</strong> (Congresso<br />

de Teologia de Taboão da Serra): " ... . nos organizemos<br />

numa luta comum para tirar o pecado do<br />

mundo, o grande pecado social do sistema capitalista<br />

que mata a vida de tantos irmãos" (8).<br />

3. 0 Encontro Nacional <strong>das</strong> <strong>CEBs</strong> (Conclusões):<br />

"Toda essa opressão que chega sobre nós tem sua<br />

raiz no pecado: . .. . Es<strong>se</strong> grande pecado é agora<br />

social e <strong>se</strong> chama sistema capitalista" (9).<br />

Redenção: libertação s6cio-polf tlca<br />

Pe. Gustavo Gutiérrez: "O pecado exige uma<br />

libertação radical, mas esta inclui necessariamente<br />

uma libertação política" (10).<br />

Frei Leonardo Boff OFM: "A salvação é um<br />

conceito englobante. Não <strong>se</strong> restringe às libertações<br />

sócio-econômicas e políticas. Mas não <strong>se</strong><br />

realiza também <strong>se</strong>m elas" ( I I ).<br />

Pe. Alfonso Garcia Rubio: "No contexto latino-americano<br />

[os teólogos da libertação] atribuem<br />

às tendências revolucionárias importância prioritária<br />

à libertação política. Nesta vive o cristão o<br />

amor a Deus e ao próximo, .... empenhando-<strong>se</strong><br />

do livro do Gênesis, narram a criação do homem, a queda<br />

original fruto da desobediência a Deus, e a morte de Abel por<br />

Caim. Nem uma palavra é dita sobre o "pecado da apropriação<br />

da terra". Quem considera a "apropriação da terra"<br />

como uma espécie de "pecado original" são os comunistas, que<br />

dizem que o "comunismo primitivo" terminou por causa da<br />

apropriação dos meios de produção (repre<strong>se</strong>ntada principalmente<br />

pela terra) surgindo assim a sociedade de clas<strong>se</strong>s.<br />

160


Parte li<br />

Capitulo li -<br />

I<br />

vontade de Deus<br />

o ENSINAMENTO do Magistério tradicional<br />

da Igreja a respeito da diversidade de<br />

clas<strong>se</strong>s vem expresso de modo claro e inequívoco<br />

nesta passagem do Papa Bento XV: "Os<br />

que ocupam situações inferiores quanto à<br />

posição social e à fortuna devem convencer-<strong>se</strong><br />

bem de que a diversidade de clas<strong>se</strong>s na sociedade<br />

vem da própria natureza, e-de que <strong>se</strong> deve<br />

procurá-la, em última análi<strong>se</strong>, na vontade de<br />

Deus: 'porque ela criou os grandes e os pequenos'<br />

(Sap. 6, 8), para o maior bem dos indivíduos<br />

e da sociedade. Essas pessoas humildes<br />

devem compenetrar-<strong>se</strong> desta verdade: qualquer<br />

que <strong>se</strong>ja a melhora que obtenham para a sua<br />