Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

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Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

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Publicação mensal

independente da Empresa

Jornalística Visão Judaica Ltda.

Redação, Administração e Publicidade

visaojudaica@visaojudaica.com.br - Curitiba – PR, Brasil -

Fone/fax: 55 41 3018-8018

Diretora de Operações e

Marketing

Sheilla Figlarz

Diretor de Redação

Szyja B. Lorber

Com esta primeira edição

do jornal Visão Judaica estamos

entregando ao público leitor um

novo veículo de comunicação —

o caçula da mídia israelita brasileira

— nascido dos ideais e fruto

da concretização dos esforços

de seu grupo de editores. Há

tempos nossa comunidade vinha

sentindo falta de uma publicação

independente, moderna, abrangente,

informativa e que, ao

mesmo tempo, servisse de elo

de ligação com o círculo extracomunitário,

principalmente entre

as pessoas que têm curiosidade

ou simpatia pelos múltiplos

aspectos do judaísmo, desde a

Antigüidade até os dias de hoje.

Visão Judaica não é um órgão

informativo oficial da comunidade

como alguns poderiam

supor, mas nem por isso o jornal

deixará de fazer sua parte, colaborando,

no que for possível,

para levar a toda comunidade a

Diretora Comercial

Hana Kleiner

Diagramação e Arte Gráfica

Sonia Mari Oleskovicz

Colaboram nesta edição:

Antônio Carlos Coelho, Aristide Brodeschi, Isac Baril, Marian Krieger

Epelzwajg, Nahum Sirotsky, Osias Wurman, Salomão Figlarz, Sami

Goldstein e Yossef Dubrawsky.

Os artigos assinados não representam necessariamente a opinião do jornal

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

Uma visão abrangente

Nossa capa

divulgação das atividades e

eventos realizados pelas entidades

que a integram. Para tanto,

estamos colocando à disposição

da Kehilá o necessário espaço

para que Visão Judaica se torne

rapidamente mais um meio de

comunicação entre o público e

as organizações da nossa comunidade.

Esperamos que todos

façam bom uso deste veículo.

Longas reflexões nos conduziram

à preocupação de levar

aos membros da coletividade

uma publicação séria, com conteúdo,

e que despertasse o interesse

no debate e no intercâmbio

de idéias. Que assim seja,

com a graça de D-us. Visão Judaica

terá freqüência mensal, diagramação

dinâmica e formato

tablóide para facilitar sua leitura

e manuseio.

Não é segredo para ninguém

que judeus de todo o mundo e

de Israel vivem dias difíceis. Em

A capa reproduz o quadro cujo título é “Preparação

da Matzá”, um óleo sobre tela, de 70x60

cm, pintado por Aristide Brodeschi especialmente

para a edição inaugural de Visão Judaica.

Aristide Brodeschi nasceu em Bucareste,

Romênia. É Arquiteto e Artista Plástico e vive

em Curitiba desde 1978. Já desenvolveu trabalhos

em várias técnicas, dentre elas pintura,

gravura e tapeçaria. Recebeu premiações

por seus trabalhos no Brasil e nos EUA. Suas

obras estão espalhadas por vários países e

tem no judaísmo, uma de suas principais fontes

de inspiração.

Acendimento das velas

Em Curitiba março/abril

DIA HORA

15/3 18h14

22/3 18h07

27/3 * 18h02

28/3 * 18h55

29/3 18h00

2/4** 17h55

3/4** 18h49

5/4 18h52

12/4 17h45

* 1ª e 2ª noite de Pêssach

** 7ª e 8 ª noites de Pêssach

tempos atuais, mais de 60 anos

após o Holocausto, talvez seja

uma inusitada dificuldade. Israel

sofre sangrentos atentados todos

os dias, matando e ferindo

indiscriminadamente, crianças,

jovens, mulheres ou idosos. Ao

se defender para garantir sua

sobrevivência, logo surgem vozes

acusadoras de que Israel

seria um violento agressor que

não deseja a paz. Alguns meios

de comunicação, não se sabe

movidos por quais interesses,

colaboram para fazer vingar

essa imagem distorcida. Ao lado

disso tudo, cresce o anti-semitismo,

especialmente, aquele

que se dissemina no anonimato

da internet, mas que também se

evidencia por intermédio de

pseudo-publicações disfarçadas,

por exemplo, em jornais de

bairro, como o caso que mencionamos

nesta edição.

O jornal pretende combater e

SÊDER COLETIVO

denunciar o anti-semitismo. Irá

também procurar esclarecer as

complexas questões relativas ao

Oriente Médio, contribuindo dessa

maneira para o melhor entendimento

sobre a situação existente

entre israelenses e árabes.

Da mesma forma, Visão Judaica

se propõe a retransmitir para as

atuais e às novas gerações, nossas

multimilenares cultura e tradição,

destacando sempre as

festividades e eventos religiosos.

Estamos abertos a todos. Esperamos

que o primeiro número

seja do agrado dos leitores. Nos

esforçamos bastante para isso.

Aproveitem. E desde já agradecemos

o apoio e a colaboração

de cada um, sejam eles elogio,

crítica ou sugestão. Qualquer um

deles, sem dúvida, contribuirá

para o aperfeiçoamento e o sucesso

da nossa iniciativa. Contamos

com vocês e boa leitura!

A Redação

O BEIT CHABAD estará realizando os dois sedarim (dias 27,

às 19h30 e 28 de março, 20h00). Como nossa capacidade é

limitada, estaremos fazendo reservas até o dia 22 de março.

Adesões: R$ 20,00 para adultos

R$ 10,00 para crianças

RESERVAS, COM D. MAURA:

BEIT CHABAD: RUA ÂNGELO SAMPAIO, 370

TELEFONE: 243-0818

QUEIMA DO CHAMETZ:

Quarta-feira – 27 de março, 9h30 no Beit Chabad

Datas importantes

27 de março a 4 de abril

PÊSSACH

9 de abril

DIA DO HOLOCAUSTO

12 de abril

1º DIA DE ROSH CHODESH

13 de abril

2º DIA DE ROSH CHODESH

16 de abril

YOM HAZIKARON

17 de abril

YOM HAATZMAUT


O que é

chamêts?

Em Pêssach, a Torá proíbe

possuir, consumir ou tirar proveito

de produtos comestíveis à

base de grãos fermentados (chamêts)

de um dos cinco principais

cereais (trigo, cevada, centeio,

aveia e espelta) ou de seus derivados,

mesmo em quantidade

mínima. Exemplos de alimentos

chamêts: Pães, bolos, cereais,

macarrão, cerveja, destilados, etc.

A única exceção é matsá

(pão ázimo) preparada com cuidados

especiais para Pêssach.

(Matsá fabricada para uso durante

o ano, quando as precauções

de evitar o processo de fermentação

não são tomadas, torna-se

chamêts.)

Livrando-se

do chamêts

A casa deve ser limpa por

completo e qualquer vestígio

de chamêts, inclusive migalhas,

removido antes da véspera

de Pêssach.

Muitos remédios, sprays,

cosméticos e perfumes contem

chamêts. Um rabino competente

deve ser consultado

sobre quais podem ser usados

em Pêssach.

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

Parte dos trechos foram extraídos do livro O Judaísmo Vivo

As tradições e as leis dos judeus praticantes

Pela ordem, a segunda das três festas durante o ano novo

judaico é Pêssach ou Passagem. Todos sabem que este dia

santo celebra o mais importante evento da história do povo

judeu, a redenção de sua escravidão no Egito e a sua saída

dessa terra. Do que muitas pessoas não se dão conta é que,

em muitos aspectos, ele é mais importante que o Rosh Hashaná,

que comemora a criação do mundo, ou o Iom Kipur, que

celebra o perdão de D-us a nossos pecados.

Um rápido exame dos Dez Mandamentos dar-nos-á um

indicio. Quando D-us quis dar uma definição e uma descrição

de Si próprio ao Seu povo escolhido, Ele não disse – Eu sou o

Senhor que criou o mundo – ou – Eu sou o Senhor que perdoa

vossos pecados – O que disse foi:

GUIA DE PÊSSACH

Gentilmente cedido pela revista Chabad News

Busca do

chamêts

Alem de proceder a uma busca

em toda a casa na noite anterior

a Pêssach, o chamêts

deve ser procurado também no

escritório, carro, bolsos de roupas,

livros e maletas; sacos de

aspirador dedevem ser limpos

ou descartados; panos e esponjas

de pia devem ser descartados.

Pessoas que viajam para

outro lugar devem efetuar a busca

na noite anterior a sua saída.

Venda do

chamêts

Alimentos usados durante o

ano e utensílios não chasherizados

para Pêssach devem ser

guardados em armários; podese

designar uma parte do congelador

como chamêts para alimentos

congelados.

Todo chamêts não eliminado

deve ser vendido a um não-judeu

antes de Pêssach, pois a Lei

Judaica proíbe o uso de qualquer

chamêts na posse de um

judeu durante Pêssach, mesmo

após seu término. Por ser muito

complexa, esta venda deve ser

efetuada por um rabino competente.

Portanto, cada um deve

assinar uma procuração da ven-

- “Eu sou o Senhor teu D-us, que te tirei da terra do Egito, da

casa da escravidão”. As palavras que nos dirigiu mostram o quão

importante é o acontecimento que celebramos em Pêssach.

É evidente, então, que Pêssach merece rigorosa atenção e

observância. Por ser particularmente significativa para as

crianças, os pais judeus não as deixam comparecer a escola

no feriado, a fim de que o recordem e apreciem como uma real

mudança de sua vida cotidiana. Os mandamentos referentes a

Pêssach estão no décimo segundo capitulo do Êxodo, onde

se descreve quando ele deve ser celebrado – no décimo

quarto dia de Nissan – e como a celebração deve efetuar-se

através de uma festa, da ingestão das matsot e da retirada de

todo fermento, ou chamêts, de dentro da casa.

da de chamêts e entregá-la ao

rabino, até as 10h30 da véspera

de Pêssach.

A casherização

É aconselhável ter jogos especiais

de louças, talheres, vasilhas,

panelas, etc. reservados

exclusivamente para Pêssach.

Se necessário, certos utensílios

de uso diário podem ser chasherizados

(“tornados aptos”).

De preferência a casherização

deve ser feita na presença de um

rabino, conhecedor destas leis.

Utensílios de metal usados

diretamente no fogo (como

espetos, assadeiras, etc.) só

podem ser casherizados por

incandescência.

Utensílios nos quais o alimento

é cozido podem ser casherizados

por esterilização. Depois

de meticulosamente limpos de

qualquer sujeira ou ferrugem

devem ser enxaguados e, em

seguida, imersos por completo

num recipiente cheio d’água em

ebulição constante e imediatamente

enxaguados em água fria.

Utensílios de madeira devem

ser lixados antes da chasherização

por meio de esterilização.

Utensílios de cerâmica e porcelana

não podem ser casherizados.

O costume ashkenazi é não

casherizar utensílios de vidro.

Fogão e forno

Michael Asheri – Ed. Imago

Preparando a casa para Pêssach

O fogão deve ser limpo por

inteiro com um palito especial e

suas partes lavadas em água

corrente. Depois de limpo com

removedor de gordura, o forno

deve ser aquecido o mais quente

possível por duas horas. Também

as grelhas e partes de ferro

do fogão devem ser casherizadas

por incandescência. A

mesa do fogão e as paredes e

teto do forno devem ser revestidos

com papel alumínio grosso.

O forno autolimpante que chega

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até 500 o se chasheriza automaticamente,

ao ser limpo na temperatura

máxima até o final do ciclo.

Forno de

microondas

Deve ser inteiramente

limpo e deixado 24 horas

sem uso. Um recipiente não

usado durante 24 horas

deve ser enchido com água até

formar bastante vapor. Deve-se

repetir este processo três vezes

trocando a água a cada vez. Depois,

o interior deve ser limpo e

forrado com placa de isopor ou

qualquer outro objeto grosso

para separar o prato de comida

de Pêssach do fundo do forno.

Ao cozinhar, o alimento deve estar

totalmente coberto.

Pia

Água quente de vasilha de

chamêts não deve ser despejada

na pia durante 24 horas antes

de sua casherização. A pia

deve ser limpa meticulosamente,

inclusive o sifão.

Soda cáustica ou outro produto

desentupidor deve

ser despejado no ralo antes

da casherização.

Após a limpeza, secase

a pia. Água fervida

duma panela limpa não

usada por 24 horas deve ser

despejada sobre cada parte da

pia e torneira e, em seguida,

água fria. A pia deve então ser

enxugada e forrada com papel

alumínio grosso. Ao despejar a

água fervendo na pia de inox,

mármore ou granito, passa-se

junto um ferro incandescente em

toda a pia, sem necessidade de

forrá-la; mas é costume forrá-la.

Cubas de porcelana, cerâmica

ou esmaltadas

não podem ser casherizadas.

Devem ser

bem limpas e cobertas

por chapas (de

Pêssach) ou por duas camadas

de alumínio grosso. De preferência

não se deve jogar nada

quente nestas pias durante

Pêssach.

Geladeira,

congelador,

armários, mesas

e balcões

Todos estes devem ser limpos

por completo e esfregados

para remover quaisquer miga-

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lhas ou resíduos de comida e forradas

com papel ou plástico. A

borracha ao redor da porta da

geladeira e congelador deve ser

limpa com uma escovinha. As superfícies

que entram em contato

com comida ou utensílios quentes,

devem ser cobertas com tábua

de madeira, isopor, etc.

Liquidificador,

batedeira,

multiprocessador

As tigelas, copos e faquinhas

devem ser trocadas para uso exclusivo

de Pêssach. O motor depois

de bem limpo e envolto em

papel alumínio pode ser usado.

Toalhas e

guardanapos

As toalhas e guardanapos de

pano podem ser usados depois

de lavados com água quente,

sem engomar, após terem sido

escovados nas costuras e

bordas para retirar os possíveis

resíduos de pão.

Compras para

Pêssach

Alimentos e produtos casher

durante o ano todo são freqüentemente

inaceitáveis para Pêssach.

Atualmente, há vários alimentos

industrializados para Pêssach.

Contudo, devemos optar por

comprar apenas os com supervisão

rabínica confiável. Podem

ser usados frutas

e legumes frescos,

bem como

carne, peixe e

laticínios casher

para Pêssach.

É costume ashkenazi

não comer em Pêssach leguminosas

frescas, secas ou enlatadas,

como: arroz, milho, ervilha,

grão-de-bico, mostarda, amendoim,

feijão, soja, vagem, sementes,

etc. ou alimentos feitos com

um destes ingredientes, devido à

semelhança com o chamêts.

Os sefaradim costumam comer

arroz, escolhido sete vezes

antes de Pêssach.

Matsá Shemurá

Matsá shemurá é aquela cujo

trigo é cuidadosamente observado

para evitar contato com água

a partir da colheita (ou, no mínimo,

desde a moagem). A matsá

shemurá redonda é amassada e

moldada à mão, semelhante a

matsá original assada pelos filhos

de Israel na saída do Egito.

É assada sob estrita supervisão

rabínica para evitar qualquer

possibilidade de fermentação e

com a intenção da mitsvá. A matsá

shemurá feita à

mão deve ser usada,

pelo menos,

em ambas as noites

do sêder para

as três matsot na

travessa do sêder

ou, no mínimo, para a

do centro.

Matsá Sheruyá

Sheruyá é matsá ou farinha

de matsá misturada com líquidos.

Exemplos de sheruyá incluem

kneidalech, matsá-brei e bolos

de Pêssach feitos com farinha

de matsá. Muitas comunidades

observam o costume

de não comer

sheruyá durante

os primeiros sete

dias de Pêssach,

deixando as

matsot cobertas

(dentro de um

guardanapo ou

saco plástico) durante

a refeição. A razão para

esta precaução é que, se mesmo

uma pequena quantidade de

matsá que contenha farinha que

não foi bem misturada com água

poderá fermentar quando entrar

em contato com a água.

No oitavo dia,

entretanto, fazse

questão de

embeber as

matsot. Nossos

sábios permitiram

comer sheruyá

no oitavo dia de

Pêssach como uma demonstração

da união entre todos

os judeus, apesar dos costumes

variarem durante os primeiros

sete dias.

PREPARANDO O

SÊDER

As principais mitsvot do sêder

são:

• Comer matsá;

• Narrar a história do Êxodo

ao recitar a Hagadá;

• Explicar o significado dos três

itens: pêssach (cordeiro pascal),

matsá e maror (ervas amargas);

• Beber quatro taças de vinho

tinto doce (para as crianças

pode ser servido suco de uva);

• Comer maror;

• Recitar o Halel (Cânticos

de Louvor).

A travessa

do sêder

Três matsot devem ser

colocadas sobre a mesa

dentro de um pano com divisões

(ou uma matsá é

colocada em cima da outra,

com guardanapos entre

elas). As três matsot simbolizam

os três tipos de judeus:

cohen, levi e yisrael. Outro motivo

é para que restem duas

matsot inteiras mesmo quando

a matsá central é quebrada,

como em todo Shabat e Iom Tov

quando deve haver lêchem

mishnê (dois pães) na mesa.

Por cima das três matsot (cobertas)

são colocados seis itens. Isto

constitui a keará (travessa do sêder).

• Zerôa – O pescoço de frango

grelhado simboliza o Cordeiro

Pascal trazido ao Templo Sagrado

na véspera de Pêssach.

A carne do pescoço é removida

e o osso queimado. O zerôa não

é comido no sêder.

• Betsá – O ovo cozido representa

o sacrifício chaguigá

trazido ao Templo Sagrado nas

Festas de Peregrinação (Pêssach,

Shavuot e Sucot). O ovo cozido

(normalmente servido aos

enlutados durante a shiva) lembra

o Templo Sagrado destruído, pelo

qual ainda choramos em

Tish’á Beav (o primeiro

dia de Pêssach

sempre coincide

com o dia da semana

de Tish’á

Beav). Costuma-se

iniciar a

refeição do sêder

com o ovo cozido mergulhado na

água salgada: a água salgada

simboliza o Mar Vermelho, que os

judeus cruzaram a caminho da liberdade,

e o ovo, o povo judeu, por

ser o único alimento que, quanto

mais tempo permanece na água

quente, mais duro fica.

• Maror – As ervas amargas

simbolizam a amarga escravidão

do povo judeu no Egito. Como

maror pode-se usar raiz-forte

crua e descascada, folhas de

endivia, talos ou folhas de alface

romana ou a combinação destes.

• Charosset – A mistura de

maçãs, pêras, nozes liquidifica-


das ou raladas, misturadas com

uma pequena quantidade de vinho

tinto, lembra a argamassa usada

no Egito para fabricar tijolos.

• Carpas – A cebola crua (ou

a batata cozida) é mergulhada

A celebração do Pêssach tem

duração de oito dias e deve ser

feita na casa de todo judeu. Esta

festa, acompanhada pela leitura

em voz alta da Hagadá, cumpre

o mandamento contido em

Ex. 13, 8: “E naquele mesmo dia

farás saber a teu filho, dizendolhe:

Isto é pelo que o Senhor fez

por mim, quando sai do Egito”.

Enquanto em outros feriados

a festa que celebra o dia pode

ser iniciada a qualquer hora

após o pôr-do-sol, até mesmo

bem tarde da noite, o sêder de

Pêssach deve ter inicio assim

que fica escuro, de modo que as

crianças não fiquem cansadas e

adormeçam antes do sêder terminar.

O sêder inteiro é, realmente,

feito em beneficio das

crianças, e por isso elas devem

sentar-se à mesma mesa

que os adultos. Fazer os filhos

sentar em uma mesa separada,

como se faz algumas vezes

em outras celebrações, é

proibido em Pêssach.

A mesa de Pêssach deve ser

posta com um par de candelabros,

uma toalha especial e o

mais belo serviço de talheres,

cristais e louça que a família

possua e as coisas necessárias

para celebrar o próprio sêder.

Comidas e bebidas são trazidas

posteriormente.

Se possível, devem-se colocar

almofadas nas cadeiras, mas

especialmente na do condutor

do sêder. Isto se destina a permitir-lhe

reclinar-se enquanto

bebe as quatro taças de vinho,

a fim de mostrar a sua libertação

da escravidão.

Todo lugar deve ter também

uma Hagadá, a fim de que todos

possam tomar parte na recitação,

ou segui-la.

Em muitas famílias, o condutor

da cerimônia, usa um kitel

branco, tanto em sinal de jubilo

como para lembrar que a vida é

na água salgada para despertar

a curiosidade das crianças.

• Chazêret – Mais ervas amargas

para serem ingeridas no “sanduíche”

(item corêch do sêder).

• Água salgada – Um pote

O Sêder

curta. À frente do condutor fica

o prato do sêder. Sobre este prato

são colocados os seguintes

cinco alimentos (a ordem de seu

arranjo no prato varia de família

para família): ovo ( betsá - cozido

e assado no forno), um osso

assado (zerôa), ervas amargas

(maror), pasta de maçã e nozes

(charosset), batatas cozidas ou

salsinha (karpás). É também colocada

uma tigela com água e

sal para mergulhar a salsinha e

o pano com três divisórias para

a colocação das três matsot.

Embora seja costume recitar

a Hagadá em hebraico, é perfeitamente

admissível lê-la em

qualquer língua. Na realidade

existe um trecho que começa por

“Rabban Gamaliel costumava

dizer...”, que tem de ser lida de

modo que os presentes à mesa

compreendam. Ela explica os

aspectos essenciais do sêder,

sendo importante que todos saibam

quais são eles.

A refeição de Pêssach começa,

pelo menos entre os ashkenazim,

comendo-se um ovo cozido

num prato de água salgada.

O segundo prato é geralmente

guefilte fish, que muitas

pessoas imaginam ser uma invenção

estritamente judaica.

Na realidade os chineses também

o conhecem, e os japoneses

possuem uma versão dele

chamada kamaboko. O terceiro

prato é a sopa com bolas de

matsá ou com macarrão feito

de ovos ou de farinha de batata.

Serve-se então o prato principal

e seus acompanhamentos

e por fim a sobremesa.

Um costume universalmente

praticado deve ser aqui mencionado.

No inicio do sêder, coloca-se

uma grande taça de prata

(se houver; se não, qualquer

copo com pé) sobre a mesa e a

deixa vazia até que o terceiro

dos quatro copos de vinho seja

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

com água salgada deve ser

preparado de véspera; lembra

as lágrimas que os judeus derramaram

com o trabalho pesado

no Egito.

bebido, após a refeição. Feito

isso, ela é então enchida para

Elias, o Profeta (Eliahu Hanavi);

o celebrante abandona a mesa

e vai até a porta da frente, abrea,

e recita a D-us uma súplica

para que destrua os Seus inimigos

e os de Seu povo, Israel. A

porta é aberta para que Elias

possa entrar, porque será ele

quem anunciará a chegada do

Messias. Em algumas famílias,

a taça de Elias é enchida no começo

do sêder.

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Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

Receitas com grife

Estas receitas foram gentilmente cedidas por Vera Sasson, filha de Dna. Bertha Guelmann Scliar z”l

Dna. Bertha z”l nasceu em 25 de junho de 1915 em Curitiba.

Estudou no Colégio Americano e depois foi interna do

Colégio Cajuru, onde aprendeu artes e idiomas. Ela falava

fluentemente inglês e francês e tinha mãos de fada: bordava,

fazia tapeçaria, pintava porcelanas e a sua grande paixão era

a cozinha; fazia realmente delicias.

Pão de Pêssach Souflê de claras com

nozes e damascos

Modo de fazer:

Ingredientes:

Colocar numa caçarola a água,

1 copo de óleo sal, azeite e levar ao fogo. Quando

3 copos de abrir fervura, retirar do fogo e adici-

água fria

onar de uma vez só toda a farinha.

3 copos de Mexer bem e levar ao fogo novamen-

farinha de te, sempre mexendo até formar uma

matsá

bola, aparecendo o fundo da pane-

peneirada la. Retirar do fogo e deixar esfriar.

1 colher de

Bater os ovos inteiros e juntar a

café de sal massa já fria e misturar bem.

3 ovos

Untar uma assadeira com um pouco

de óleo e polvilhar com farinha de

matsá. Passar o azeite nas mãos e

fazer bolas pequenas com a massa,

colocando bem afastadas na forma pois elas crescem.

Colocar em forno bem quente e quando estiver crescido

baixar o forno no mínimo. Assar durante 1 hora.

Quando aconteciam os bazares da Wizo, da qual era grande

ativista, seus quitutes eram disputados e faziam grande

sucesso. Dizem que uma de suas netas, Sheila, herdou as

habilidades culinárias da avó.

Bertha foi casada com Manoel Scliar z”l e teve três filhas e

sete netos. Faleceu em 30 de julho de 1995 aos 80 anos.

Modo de fazer:

Ingredientes: Deixar os damascos de molho durante

10 claras 1 hora ou mais. Cozinhar na mesma água

para amolecer. Acrescente o açúcar a gos-

5 colheres de

to e deixe esfriar.

sopa de açúcar

Bater as claras em neve, adicionar o

100 g de

açúcar e em seguida os damascos picados

damasco

e as nozes. Numa frigideira derreta açúcar

1 xícara de a vontade e quando estiver em ponto de cal-

nozes picadas da despejar sobre as claras batidas, batendo

mais um pouco para misturar bem.

Caramelar uma forma bem grande de

pudim que tenha uma tampa. Derramar a mistura dentro da

forma e tampar (se não tiver uma tampa, cubra com papel

alumínio) e em banho Maria, sobre o fogão, deixar cozinhar

por 50 minutos. Desenformar ainda quente deixando na forma

sobre o suflê até este esfriar.

Tatiana Shaposhnikov

ucraniana de Odessa

e que migrou para Israel

em 1987 é uma das

deres do time de vôlei

do Rexona. Tali, como é

conhecida, conquistou

com habilidade técnica e

carisma, o carinho das

colegas e da grande torcida

curitibana do Rexona.

Campeão da primeira

etapa da Super Liga

nacional, o Rexona teve

em Tali uma das principais

jogadoras do time, com destaque

na competição.

Com 25 anos e 1,83 metro de altura,

tem orgulho de Israel e de ser

israelense. Domina o inglês, o hebraico,

o russo, o italiano e agora

também o português. Jogou pela

seleção israelense por três temporadas

(94 a 96). Atuou no Hisamitsu

(Japão), no CJD Berlin (Alemanha),

no Warsi Palermo e no Reggio

Calabria (Itália).

Tali, que saiu de um país (Israel)

com pouco mais de 24 mil km 2 e chegou

num país-continente como o Brasil,

com mais de 8 milhões de km 2 , evidentemente

que ficou impressionada

com as dimensões e as belezas naturais.

A adaptação foi rápida, inclusive

assimilando já o português. Gosta do

povo brasileiro e adora Curitiba.

Quanto a Israel, Tali, é claro,

Lazanha

de Pêssach

Modo de fazer:

Ingredientes:

Refogar o fran-

1 frango médio go em pedaços

1 cebola grande com todos os tem-

1 kg de tomates

peros. Desossar e

desfiar. Molhar as

1 dente de alho

folhas de matsá

folhas de matsá com água. Colo-

sal, pimenta, louro car num pirex um

pouco de azeite e

fixar as folhas de

matsá e alternar

com frango e molho. A ultima

camada deve ser de molho.

Levar ao forno para

aquecer e servir em seguida.

Tali nasceu na Ucrânia, é cidadã

israelense e curitibana de coração

Isac Baril

preocupa-se com a situação

de instabilidade,

com a segurança e a

economia do país. E

como todo israelense

espera para breve uma

definição política, trazendo

a paz esperada

por judeus e árabes. Ela

admira o bom relacionamento

entre árabes e

judeus aqui no Brasil e

tem certeza que isso

ocorrerá em Israel.

Arad, uma cidade

com 15 mil habitantes, nas proximidades

do Mar Morto é onde reside

sua família (pai, mãe e irmão).

Tali namora Vladislav, com quem

pretende casar-se. Ele é russo e

vive em Jerusalém.

Seu contrato com o Rexona termina

com a atual temporada da

Super Liga, mas espera ficar jogando

outros campeonatos, embora

saiba das dificuldades em manterse

pelos problemas financeiros que

sempre ocorrem entre as temporadas.

Tali é judia convicta e praticante.

Sente muito não poder ir à sinagoga,

principalmente no Cabalat

Shabat, pois o calendário profissional

a impede, porque as competições

são realizadas principalmente

nos sábados. Outro exemplo de sua

fé foi comprovada, quando Tali nos

saudou pelo telefone com um caloroso

Chag Sameach. Era Purim.


Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

A contagem do Omer

O período do Omer, que dura

sete semanas e se estende até Shavuot,

inicia-se na segunda noite de

Pêssach. Quarenta e nove dias separam

estas duas datas e a Torá

nos manda contar este período. A

contagem é conhecida como Sefirat

HaOmer.

Esta contagem inicia-se com a

saída do Egito e representa os 49

graus de ascensão espiritual realizados,

no deserto, pelos hebreus.

Segundo o Talmud, no Egito os filhos

de Israel haviam perdido não

apenas a sua liberdade como também

a sua espiritualidade.

Encontravam-se no mais baixo

nível de espiritualidade e os 49 dias

serviram de preparo espiritual para

que estivessem aptos a receber a

Torá no Monte Sinai, a razão fundamental

do êxodo.

Este período de transição, que

se iniciou com a saída do Egito, foi

um tempo de profunda preparação

para que, gradativamente, cada um

pudesse “crescer” e alcançar o nível

de espiritualidade necessário.

Era uma tarefa enorme a ser

cumprida – fazer com que uma população

escravizada e oprimida,

que vivera centenas de anos sob a

influência do paganismo egípcio,

alcançasse os altos graus de espiritualidade

necessários para receber

a Lei.

D-us mostrou a Moisés como

realizá-la. A cada dia, cada um dos

Filhos de Israel deveria mudar só

uma pequena faceta do de seu caráter.

Deveria refinar um traço particular

de sua personalidade. Assim,

a cada dia cresceria um pouco, até

chegar à elevação necessária para

receber a Torá.

Dizem nossos sábios que, em

Pêssach, cada judeu deve considerar

como se ele mesmo tivesse sido

Quarenta e nove passos para o crescimento pessoal

libertado da escravidão do Egito.

Mitzraym (Egito, em hebraico)

significa estreito, limitado, um espaço

pequeno. Representa os caminhos

pelos quais nós, como indivíduos,

dificultamos o nosso crescimento

espiritual. Em cada palavra

e letra da Torá há uma diretriz que

nos ensina como buscar um crescimento

interior e uma transformação.

Quando a Torá nos manda “deixar

Mitzraym”, isto significa romper

com nossas limitações, convertendo

traços negativos em positivos, ir

além de nossas limitações, maximizando,

assim, o potencial espiritual

que existe em cada um de nós.

O crescimento físico chega ao

fim numa certa idade, mas o crescimento

espiritual deve continuar

para sempre. A espiritualidade é

uma escalada rumo ao infinito.

Durante os 49 dias de Sefirat

HaOmer nos é dada à oportunidade

de subir, passo a passo, a escada

do crescimento emocional e do

aprimoramento pessoal. A cada dia

concentramos nossa atenção em

uma das sete, subdivididas em sete,

pois cada uma inclui dentro de si

aspectos das demais.

As sete faculdades emocionais

de nossa alma são as Sefirot da

emoção humana:

• Chessed: Benevolência;

• Guevurá: Força, julgamento, reclusão,

pavor;

• Tiferet: Beleza, harmonia;

• Netzach: Perseverança, a vontade

de vencer, conquistar:

• Hod: Empatia, sinceridade, perseverança;

• Yessod: União;

• Malchut: Soberania, nobreza; a

realização do potencial do homem.

Cada um dos 49 dias tem sua

própria energia espiritual. Penetramos

ou canalizamos essa energia

quando os examinamos e aprimoramos

em nosso interior. Por isso,

mencionamos a cada dia uma dessas

emoções e a sua subdivisão,

por exemplo: o 1 o dia é Chessed

Shebechessed – a bondade que

existe na bondade; o 2 o dia é Guevurá

Shebechessed – a severidade

ou o rigor que existe na bondade.

Após nos purificarmos em todas

as 49 dimensões, estamos plenamente

aptos a receber a Revelação

Divina. Celebramos o recebimento

da Torá já tendo adquirido por completo

o aprimoramento de todas as

nossas faculdades emocionais.

A contagem

A contagem deve ser sempre

feita de pé, após o aparecer das

estrelas, quando segundo a tradição

judaica um novo dia começa. A contagem

do Omer tem inicio com a

recitação do Salmo 67, pois este

contém alusões aos 49 dias da sefirá.

Em seguida, diz-se a berachá:

Baruch Ata A-do-nai, E-lo-henu

Melech haolam, asher kideshanu bemitsvotav,

vetsivanú al sefirat HaOmer.

Bendito és Tu, Eterno, nosso

D-us, Rei do Universo que nos santificaste

com Teus mandamentos e

nos ordenaste a contar o Omer.

Em seguida, diz-se o número de

dias da contagem, como mostrava

o exemplo.

Se alguém esquecer em alguma

noite de contar o Omer, pode

fazê-lo no dia seguinte, sem dizer a

berachá. Se esquecer novamente,

poderá continuar a contagem nos

demais dias sempre sem a berachá.

O Omer pode ser contado em

qualquer idioma, porém o costume

é contá-lo em hebraico. A lista dos

dias e informações mais detalhadas

podem ser encontradas em qualquer

Sidur.

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Um grande trabalho do diretor húngaro István Szabó contando a dramática história de

uma família judia-húngara. Um roteiro muito bem desenvolvido que mostra três gerações

da família de Ivan Sonnenschein, (que também é o narrador) desde os tempos de 1828, até

os dias de hoje. Ralph Fiennes, que anteriormente havia feito um militante nazista em A

Lista de Schindler, interpreta vários personagens na família judia, até mesmo sofrendo os

horrores do Holocausto. O interessante desse filme é acompanhar a saga, o desenvolvimento

dos personagens diante dos acontecimentos fictícios e também históricos que se

sucedem. Confira...

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A indiferença

Osias Wurman *

É um grande perigo para uma comunidade minoritária,

a apatia política com relação aos acontecimentos internacionais

que lhe dizem respeito. Refiro-me ao momento

atual em que judeus vem sendo assassinados pelo

simples fato de serem judeus. Disse o sábio Rei Salomão,

em seu livro Eclesiastes, que “não há nada de novo

abaixo do sol” ou seja: tudo se repete.

O requinte de crueldade da matança nas Cruzadas,

na Inquisição, nos Pogroms e no Holocausto volta a acontecer

em pleno século XXI. Os métodos são diferentes, porém

o intuito é o mesmo: matar judeus impiedosamente.

Dizem os historiadores que no Holocausto, os campos

de concentração foram edificados pelo ódio, mas as

estradas que levavam à morte foram pavimentadas pela

indiferença. É este sentimento terrível de insensibilidade

que deve ser combatido em nossa comunidade, em

todos os níveis: das crianças aos mais velhos; dos letrados

aos menos cultos. Devemos reagir contra aqueles

que atacam a violência de Ariel Sharon, no governo a

apenas um ano, sem mencionar, sequer em seus comentários,

a falsidade de Yasser Arafat que vem desgraçando

o povo palestino e seus vizinhos israelenses há 37

anos. Reagir com determinação quando um artigo num

jornal é publicado contendo inverdades de forma tendenciosa,

enviando carta de protesto ao veículo contrapondo-se

à opinião do autor.

Não podemos permitir que sejam divulgadas pela imprensa,

notícias que provocam falsas expectativas, fruto

das artimanhas dos inimigos de Israel e do povo judeu.

Refiro-me ao recente plano saudita, plantado no jornal

The New York Times pelo príncipe herdeiro Abdullah. Esta

proposta pede a devolução de todos os territórios ocupados

após a guerra de l967. Isto inclui Jerusalém oriental,

as colinas de Golan e os 260 assentamentos. Nada

foi dito sobre o direito de retorno pretendido por Arafat e

das compensações financeiras. Repentinamente a Arábia

Saudita vira uma ilha de paz, num mar de sangue,

ódio e desentendimento. Na verdade, o maior financiador

dos movimentos guerrilheiros e terroristas árabes, é

o reino saudí. É de lá que partem os petrodólares para

pagar os armamentos produzidos no Irã, e que são mandados

clandestinamente para os palestinos, ao movimento

terrorista Hezbollah e para os suicidas do Hamas. Isto

foi provado com a espetacular ação dos comandos israelenses

ao aprisionarem, recentemente, o navio Karina

com 50 toneladas de sofisticadas armas.

Há poucos dias, um jornalista judeu americano de 38

anos, que deixou sua esposa grávida nos Estados Unidos

e partiu em missão profissional ao Paquistão, foi seqüestrado

por um grupo de fundamentalistas islâmicos.

O jovem Daniel Pearl permaneceu amordaçado recebendo

ameaças de seus captores que pediam resgate até

que descobriram a oportunidade maior de saciar seus

instintos vingativos: Daniel era judeu. A partir deste momento,

nenhuma importância seria mais importante do

que humilhar o inocente prisioneiro, filmado ao ser degolado,

logo após declarar: “Sou judeu e meu pai é judeu”.

Daniel despediu-se deste mundo como fizeram os

judeus em Massada, nas praças públicas das inquisidoras

Espanha e Portugal, nas ruas da Rússia czarista e

nos campos de concentração nazistas: com um brado

de fé judaica – um verdadeiro Shemá Israel!

E a nossa reação a tudo isto? Acordem irmãos!

* Osias Wurman é colaborador de opinião do jornal O Globo, Jornal

do Brasil, e mais seis publicações da comunidade judaica.


Minha visita a Israel

Em outubro de 1994 desci em

Tel-Aviv. Melhor dizendo, descemos.

Após semanas pela Grécia,

Turquia e Egito, finalmente estávamos

na Terra Santa! Eu e minha

esposa Rosimara.

Meu coração batia forte por

várias razões: rever nossos queridos

amigos Henrique (Neno) e

Dina Kuchnir, que lá residem há

quase três décadas; melhor entender

in loco um povo heróico

que sobrevive há milhares de

anos e que passei a admirar desde

criança quando lia a Bíblia (sou

de origem evangélica, mas hoje

me considero um “livre pensador”);

entender melhor um revolucionário

judeu chamado Jesus

Cristo, que lutou contra as injustiças

e propunha um Reino baseado

na amorosidade e solidariedade

entre pessoas e povos; conhecer

monumentos históricos, pois

amo a História. Aliás, se não fosse

biólogo, certamente teria me dedicado

à História como profissão.

O que destacar para vocês

nessas quase duas semanas que

lá permanecemos? Talvez alguns

aspectos hilários e alguns outros

mais sérios, sob os quais realmente

sentimos algum temor. Entre

esses últimos, recordamos um

passeio noturno que fizemos com

o casal Kuchnir numa movimentada

rua turística de Jerusalém.

Após degustarmos excelentes

vinhos numa aconchegante loja e

jantarmos num excelente restaurante,

retornamos ao hotel. No outro

dia, no mesmo local e horário,

ocorreu um atentado terrorista

causando várias mortes, nos livramos

por pouco! Sorte? Destino?

Coincidência? Não sei explicar.

Quando visitamos Eilat, o guia

nos levou para conhecer as minas

do Rei Salomão. Mais duas

confusões à vista! No trajeto para

as minas, o guia tomou um caminho

de terra que fazia divisa com

a Jordânia. Não me perguntem o

porquê, bem que poderia ter ido

pelo asfalto. Pedi que parasse a

Van para fotografar e filmar uma

plantação de melões irrigada por

finas mangueiras. Quando comecei

a fotografar surgiram repentinamente,

como saídos da terra,

dois jipes com soldados fortemente

armados. Minha esposa

permanecia no carro com o guia.

Tremi na base.

Perguntaram em inglês meu

nome e de onde vinha. Ao responder

“I am Brazilian tourist”, baixaram

as metralhadoras e começaram

a rir! Só um turista brasileiro,

gordo, de bermuda e boné com a

aba virada para trás teria a idéia

de parar ali para fotografar! Inofensivo,

portanto. Pedi que conversassem

com o guia, pois só ele

é que poderia explicar, porque es-

colheu o trajeto. Levou uma bronca

em hebraico da qual não entendi

“patavina”! Nas minas do Rei

Salomão ocorreu o que raramente

ocorre na região: uma forte chuva

que não se infiltrando nas areias

do deserto, produziu uma verdadeira

enchente.

Se agora estou recordando essas

paisagens marcantes é porque

confusões dão sabor especial

às viagens.

E outros pontos de destaque?

Foram tantos para apenas doze

dias de viagem que não tenho outra

alternativa senão resumi-los.

Descobri porque os Evangelhos

dizem que Cristo andou sobre

as águas no Mar da Galiléia.

Eu também andei! Melhor dizendo:

quase andei!

Como? Por quê? Estava com

uma forte queimadura alérgica na

virilha e no escroto, aumentado de

tanto andar durante a estada em

Israel e pelo calor sufocante.

Quando adentrei nas águas do

Mar Morto para a clássica fotografia,

não deu outra! Salmoura naquele

lugar e, queimado, é o pior

dos infernos...! Senti-me como um

personagem de desenho animado

caminhando sobre as águas...

Jerusalém, o Muro das Lamentações,

o Museu do Livro e o Museu

do Holocausto estão latentes

em minha memória. Cesaréia e

as obras de Herodes também.

Golan e os deliciosos vinhos, nem

é bom falar. Visitamos também

dois Kibutzim.

Para terminar, gostaria de destacar

a competência do guia,

Hayym Hazan, que ao final da viagem,

me abraçou e chorou por ter

encontrado um casal que o bombardeou

com milhares de perguntas,

permitindo-lhe mostrar sua

erudição e também recebendo a

ternura típica de nós, brasileiros.

Afinal, foram doze dias numa

Mercedes Benz limusine, espaçosa

o suficiente para dezenas de

cervejinhas geladas, boas piadas

e muita música hebraica.

Massada, apesar do calor de

mais de 40 graus Celsius, foi um

momento difícil de descrever. Ali

se pode entender a síntese da história

de luta e sobrevivência de um

povo. Emocionei-me, chorei. Foi

algo inesquecível.

Quero voltar mais vezes. Há

muito por descobrir e aprender

num país que reúne transcendência

e imanência.

Meus votos são de amorosidade

em cada coração humano.

Só assim alcançaremos a verdadeira

Shalom

Prof. Samuel Ramos Lago

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Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

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Visão panorâmica

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

A morte de Daniel

O assassinato do jornalista Daniel Pearl, do Wall Street

Journal, por muçulmanos paquistaneses, à primeira vista só

engrossa o número de profissionais mortos em missão. No

ano passado morreram uns 300 em todo o mundo. Mas no

caso de Pearl, isso vai mais além. Ele teve sua garganta

cortada não apenas porque era um jornalista, ou por ser norte-americano.

Há um crescimento de ideologias extremistas

que se apresentam como sagradas e matam em nome da

religião em busca do poder. São o maior perigo que o mundo

enfrenta. Os dez milhões de dólares pedidos pela vida de

Daniel não pagariam por ela. Ele foi morto por ser

judeu. Seu sacrifício foi um símbolo do ódio, alimentado pela

demência da fé distorcida que prega a matança de judeus

como solução. Assim como Hitler pregava a solução final. A

mídia devia adotar um faixa negra de luto por Daniel.

Site premiado

O site do Beit Chabad do Brasil, www.chabad.org.br, acaba de

ser classificado Top 10 do Ibest de 2002, o maior prêmio da internet

brasileira, na categoria “Religião e esoterismo”. Por ser o único site

judaico a concorrer ao prêmio, possui forte chance de chegar ainda

a Top3 do Ibest, prêmio recebido em 2001. Para isto, as pessoas

devem continuar votando. É só acessar o site e clicar no logo do

Ibest que se encontra na homepage com link para voto; o resultado

final sairá no mês de maio.

Eretz del Este

Yossi Groisseoign

A cidade balneária uruguaia de Punta del Este transformou-se

num paraíso judaico durante o feriado de Natal e Ano Novo, recebendo

milhares de turistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto

Alegre e até de Buenos Aires (os que tinham a poupança debaixo

do colchão). Na cidade existem açougue e restaurante kosher, mikvah

(para banhos rituais) e quatro sinagogas. Numa das orações durante

o Cabalat Shabat, a maior das sinagogas chegou a registrar

a presença de cerca de 400 pessoas. Não era difícil ouvir

conversas em iídiche na rua principal da cidade e até no cassino

recém-inaugurado.

BBB anti-semita

Tivemos um caso de anti-semitismo propagado pela televisão,

denunciado por uma curitibana que assinou o pay-per-view da tv a

cabo Net, da Globo, para ver o programa Big Brother Brasil. No dia

5 de março, as 14h ela ligou a televisão. Umas cinco pessoas estavam

no ar, em volta da piscina e um tal de Adriano, "artista plástico",

estava soltando o verbo contra a política americana e contra Israel.

Pior: falou ele da perseguição dos judeus aos “pobres” palestinos e

perguntou a seus companheiros se a “experiência” de perseguição

aos judeus não havia servido pra nada. Destilou veneno anti-semita

durante 30 minutos. Vamos protestar junto a Globo? Vamos pedir

que nossas entidades representativas tomem alguma atitude?

O Leitor Escreve

Câmara Brasil-Israel

Aos amigos do jornal Visão Judaica,

desejamos muito sucesso nesta

nova empreitada.

Nissim Nigri - Secretário Executivo

Câmara Brasil-Israel de Comércio e

Indústria São Paulo - SP

Museu Judaico

Sem dúvida alguma o lançamento do

jornal Visão Judaica é uma notícia alvissareira.

A comunidade israelita do

Paraná está de parabéns por contar

agora com um vínculo de comunicação,

que temos certeza, aproximará os

membros do ishuv local tornando-o

mais forte e atuante. Beatzalahá.

Max Nahmias

Presidente do Museu Judaico

PLETZ.com

Olá vocês do jornal Visão Judaica: a

direção do PLETZ.com deseja-lhes amplo

sucesso neste empreendimento

que engrandece ainda mais a mídia judaica

brasileira. Contem comigo no que

precisar e coloco o Pletz à disposição

como parceiro, seja na divulgação, seja

no compartilhamento de conteúdo.

Gustavo Erlichman

Diretor do PLETZ.com - o seu site

judaico http://www.pletz.com

Sorte e vida longa

Desejo vida longa e muita, muita sorte

a mais esta excelente iniciativa de

nossa comunidade no Brasil. Fico desde

já inteira disposição, Shalom.

José Luiz Goldfarb

Diretor de Cultura Judaica de

‘A Hebraica’ - São Paulo

Nahum Sirotsky

Espero que vocês não imitem as demais

publicações judaicas que tanto

espaço dedicam à vida em sociedade.

Curitiba é orgulho do Brasil. Cuidem

dela como cuidaram Ney, Saul, Jayme

e tantos outros.

Nahum Sirotsky, de Israel

Votos de sucesso

Olá pessoal! Quero desejar muito sucesso

nesta empreitada. Um grande

abraço aos amigos Hana Kleiner, Sheilla

Figlarz e Szyja Lorber.

Marisa Blinder, Curitiba.

Apoio para o jornal

Shalom!!! Parabenizamos vocês pela

iniciativa da criação do jornal “Visão Judaica”.

Podem contar com nossa colaboração

e apoio.

Dina e Neno Kuchnir, de Israel

Mais cumprimentos

Meus cumprimentos aos idealizadores.

A logomarca e o nome do periódico ficaram

excelentes. Não tenho dúvidas quanto

ao conteúdo, que será consubstanciado

na excelência dos criadores. Parabéns.

Marco Alzamora, arquiteto - Curitiba

Desejo de êxito

Muito sucesso para vocês do jornal

Visão Judaica é o que desejo.

Marian Krieger Epelzwajg, de Curitiba

Congratulações ao VJ

A direção do jornal Visão Judaica

também recebeu congratulações por

carta e e-mail dos jornalistas

Nadyesda Almeida, Reinaldo e Cláudia

Bessa, Osias Wurman, Otávio Mesquita,

Marcelo Rabinovitch, de São Paulo, Helena

Kessel e Sandra Wahrhaftig de Curitiba, e

de Nelson Wahrhaftig, de São Paulo, Sílvia

e Aarão Perlov, de São Paulo, Ted Feder,

também de São Paulo.


Visão de um turista acidental

Salomão Figlarz *

Os nossos sábios sempre

disseram que a alma de cada

judeu esteve presente, no Monte

Sinai, quando da entrega dos

Dez Mandamentos.

Eu acredito! Particularmente

posso afirmar com 100% de segurança

que isto realmente aconteceu

comigo.

Vivíamos e trabalhávamos, se é

que isto pode ser chamado de trabalho,

em uma metrópole que atualmente

conhecemos como Cairo.

Dávamos um duro danado. Só para

facilitar as coisas e refrescar um

pouco a memória de todos que,

eventualmente não estavam lá,

digo para vocês que aquelas pequenas

pirâmides foram levantadas

com um certo esforço meu e

da minha turma. Composta de

aproximadamente um 1 milhão e

600 mil... é um exagero? Talvez eu

tenha errado na conta... deviam ser

uns 600 mil judeus.

Certo dia fomos surpreendidos

com um convite do presidente da

Kehilá (comunidade) da época, Dr.

Moisés, para fazermos uma viagem

diferente. Fiquei desconfiado que

alguém estava com pena da nossa

equipe de trabalho, porém, naqueles

dias o jornal, a televisão, e o

rádio vinham informando, com insistência,

que os egípcios sofreram os

efeitos de uma série de pragas. Todos

nós saímos ilesos destes fenômenos.

Cheguei rapidamente à conclusão

que estava bem na hora da

gente tirar umas férias.

Somente nos informaram que iríamos

conhecer umas terras que estavam

sendo oferecidas: ninguém sabia

quem estava oferecendo o dito terreno,

nem o seu tamanho, nem

onde estava localizado, nem o preço:

era somente conhecida como “a

terra que jorrava leite e mel”.

No dia combinado, embarcamos

em vários ônibus e partimos

para o desconhecido. Lembro perfeitamente

de uma coisa que me

deixou bastante irritado: a velocidade

com que o motorista dirigia o

- Capitulo I -

Uma viagem

fantástica com Josué

dito ônibus. Até parecia que estávamos

fugindo de alguém. Meu vizinho

de banco, um tal de Mel

Brooksman, não parava de dizer

que estávamos entrando numa fria.

Num dado momento, chegamos às

margens do Mar Vermelho, descemos

dos ônibus para nos refrescar

e vocês não vão acreditar o que

aconteceu: fomos abandonados ali,

a pé; a pé mesmo. Mais tarde nos

explicaram o porque da pressa dos

motoristas.

Daí para frente todos sabem o

que aconteceu. Foi tudo inacreditável,

sobrenatural, divino! Neste ponto,

faço uma interrupção: pêssach

(páscoa judaica), tem transmitido

nos últimos 3300 anos o ocorrido,

com bastante competência, através

da leitura da hagadá.

Após vagarmos, digo passearmos,

pelo deserto do Sinai durante

40 anos, comendo manah o tempo

todo, quase não nos lembrávamos

mais do sabor das outras comidas,

pois a agência de turismo

que vendeu o pacote, no Egito,

não nos orientou que não haveria

muita variação no cardápio, sem

contar que já estávamos loucos

por um bom banho.

Nestas alturas, já estava circulando

um jornal da excursão nos informando

tudo o que aconteceria

dali para frente. Breve haveria uma

série de ônibus nos esperando para

dar continuidade à viagem.

Pensei cá com meus botões: tomara

que os motoristas desta terra

chamada Canaã, nesta altura a tal

terra do leite e do mel já tinha nome,

não sejam como os do Egito, e o

mais importante: o comando da excursão

passaria para Josué.

Neste momento o tal do Mel

Brooksman, voltou a falar: não te

disse que a gente estava entrando

numa fria? Ao invés de irmos para

o Canadá, viemos para Canaã. Num

ponto eu acho que ele tinha razão:

pelo menos eu imagino que os vizinhos

Sioux, Navajos, etc. nos dariam

menos dor-de-cabeça.

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

* Salomão Figlarz é arquiteto

A Escola Israelita Brasileira Salomão

Guelmann informa que já

estão à disposição os produtos

para o sêder de pêssach, nos seguintes

horários e local: de 2 a a

6 a feira das 14h as 17h30 e domingo

das 9h as 12h, à Rua Nilo

Peçanha 664.

A coletividade foi presenteada

com importante acervo cultural,

formado pela biblioteca que pertenceu

ao Sr. Bernardino Schulman

e que foi doada pelos filhos

Saul e Mauricio, num belo e nobre

gesto.

As arquitetas Fany Rotemberg,

Mariana Schulman Muniz e Patrícia

Teig, participando da Casa

Cor 2002 com ambientes ousados

e inovadores.

Flavio Frankel em grandes preparativos

para a abertura do seu

restaurante. Sucesso à vista,

considerando seus atributos

como chef de cuisine de padrão

internacional.

Sheila Rotemberg retorna a Curitiba

depois de longo período em

Israel. Aguardamos ansiosos poder

saborear suas especialidades

culinárias.

Para recordar os feitos heróicos

de Esther e Mordechai, o Beit Chabad

realizou um festivo jantar de

Purim e que contou com significativa

participação da comunidade.

Sejam bem-vindos o casal Clara

e Jaminho Grymberg e suas filhas

Joyce e Aliane e o jovem José Ariel

Schartz Urbach que vieram integrar-se

à nossa comunidade.

O jornal Visão Judaica informa aos

dirigentes das entidades da comunidade

israelita de Curitiba, que

está colocando à disposição espaço

para divulgação de seus calendários

de eventos e atividades,

assim como já fez esse mesmo

oferecimento à Kehilá.

11


Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

12

Conheça a curitibana que é conselheira na AIE

Família musical:

Regina Beiguelman

entre o marido, Noel e

o filho Sérgio

Gente Nossa

Ela e a família vivem na Áustria e têm na música uma razão de vida

Lembra da campanha institucional

Bicho do Paraná? Aquela da TV

que destacava paranaenses de expressão

no País e no exterior? Pois

é, nossa comunidade israelita também

tem os seus “bichos” e Visão

Judaica vai procurar destacá-los

nesta e nas próximas edições. A

curitibana Regina Beiguelman é a

primeira a ser enfocada. Após 12

anos sem ver sua cidade natal, ela

junto com a família — o marido

Noel Flores e o filho Sérgio, dois

“bichos” à parte, expoentes da

música na Europa — estiveram em

Curitiba no início de fevereiro para

“matar saudades”.

Residindo em Viena, a belíssi-

Foto VJ

ma capital da Áustria, toda impregnada

pelas valsas de Strauss e pela

cultura musical, os três construíram

suas vidas sobre os pilares desse

conjunto de harmonias da sonoridade

que conhecemos por música.

Exímia pianista e com um bom currículo

de concertos e prêmios, Regina

segue também a carreira diplomática,

trabalhando na embaixada

em Viena, onde é conselheira da

missão brasileira junto à Agência

Internacional de Energia (AIE). O

organismo atua com as Nações

Unidas na área do controle da produção

de energia atômica, na pesquisa

e no emprego da energia para

fins pacíficos e na assistência aos

países que pretendem ingressar no

chamado “Clube Atômico”. Além

disso, a Agência oferece cursos técnicos,

treinamento e bolsas de estudo

na área de controle desse tipo

de energia. Entre outras instituições,

no Brasil, esse treinamento é

oferecido por intermédio da Comissão

Nacional de Energia Nuclear

(CNEN). Regina é filha de Manoel

Beiguelman, um dos fundadores da

Cátedra de Odontologia da Universidade

Federal do Paraná, na década

de 30, e de Maria Rosenmann,

filha de Max Rosenmann,

um dos pioneiros da comunidade

israelita de Curitiba.

Em Curitiba, onde fez seus primeiros

estudos, a jovem Regina freqüentou

o Dror Habonim. O científico

ela cursou no Colégio Estadual

do Paraná. Estudou música com os

professores João Paeck e Guilherme

Fontainha. Formou-se na Escola

de Música e Belas Artes do Paraná

e aos 18 anos de idade, com

um grupo de colegas foi para o Rio

Janeiro para aprimorar os estudos

musicais no Conservatório de Música

e Canto Orfeônico, fundado por

Heitor Villa Lobos e que ficava na

Praia Vermelha (ficava, porque hoje

já não existe mais). Desse grupo

faziam parte, entre outros, Henrique

Morozowicz, Sara Schulman e Cláudio

Stresser, já falecido. Quem a

convidou para ir ao Rio foi seu mestre

Paeck. Ali teve como professores

o próprio Villa Lobos e Andrade

Muricy, outro conhecido nome nos

meios musicais. O curso durava três

anos e formava professores de música,

muito requisitados pelas escolas

de ensino médio de todo o Brasil

até alguns anos atrás.

Ela fez ainda o curso da Proarte,

em Petrópolis, obtendo medalha

de ouro. Participou de concursos de

música como o Schwartzmann, em

São Paulo, conquistando duas vezes

o 2º lugar. Também obteve o 2º

lugar no concurso Stepanow, em

Viena, aonde chegou a tocar na famosa

Brahmssaal. No Brasil, Regina

deu aulas de música para moças

até que conheceu o professor

Hans Graf. Ele a convidou, juntamente

com alguns brasileiros, para

estudar, sob seu magistério, na Academia

de Música de Viena.

Ela guarda boas recordações

das festas como Pêssach e Iom Kippur.

“Na lembrança, as festas são sempre

muito bonitas”, diz observando

que o filho sempre lhe perguntava

sobre o significado delas.

NOEL FLORES

Meados da década de 60. Os

Beatles “estouravam” nas paradas

de sucesso de todo o mundo com

sua pop music, hoje considerada

por muitos um clássico moderno,

inaugurando uma nova era e abrindo

as portas para um estilo que seria

seguido em massa pela juventude

de então. Em 61 Regina conheceu,

em Viena, o estudante Noel,

um indiano que falava português.

Ele nascera em Goa, antiga colônia

portuguesa encravada na Índia, cujos

habitantes até hoje falam nossa

língua. Estivera estudando Arquitetura,

mas a família e os amigos notaram

sua pendência para a música.

Ganhou então uma bolsa de

estudos em Madrid, para estudar

com a professora Julia Parody, que

foi aluna de Busoni, músico e compositor

famoso, Logo, também ganhou

seu primeiro prêmio no Concurso

Nacional de Piano da Espanha

e foi para Viena aperfeiçoar-se

nessa arte. Lá, formou-se em música,

obtendo a distinção máxima do

Ministério da Educação, hoje Ministério

da Ciência, Educação e Cultura.

Em 1969 ele e Regina se casaram.

Em Viena, Noel estudou com

Dieter Weber, de quem se tornou

mais tarde assistente.Depois de conseguir

vários prêmios em concursos

internacionais, foi nomeado professor,

em 1974, da Hochschule, e em

1978 já passava a ser catedrático da

escola que hoje é a Universidade de

Música e Artes Dramáticas, que tem

quatro mil alunos.

Na universidade, Noel forma

concertistas que vão para Viena

depois de estudarem em escolas de

música de seus países. É um nome

respeitado nos meios musicais, tendo

participado de cursos na Alemanha,

na Finlândia, Japão e na Coréia.

Tem sido membro de júris de

concursos internacionais como o de

Leeds, na Inglaterra, ou o Anton Rubinstein,

em Israel e é um dos organizadores

do Concurso Internacional

Beethoven, em Viena. Já recebeu

uma das maiores condecora-

ções do governo austríaco por mérito

e serviços prestados ao país.

Noel desenvolveu um método

próprio para ensinar música, baseado

nos princípios da yoga que ele

pratica, em suas leituras sobre medicina,

anatomia e também nas observações

de que para tocar piano

é preciso ter um certo preparo físico:

toca-se com os braços estendidos,

utilizando os dez dedos e em

grande velocidade. Tudo isso afeta

o corpo, e claro, tem conseqüências

sobre a sonoridade produzida pelo

instrumentista. O método, que ele

denomina “Body and Soul” (Corpo

e Alma), ele aplica aos seus alunos,

observando que o piano, como instrumento

de percussão, sem o uso

de uma técnica adequada não se

consegue transmitir exatamente o

que se deseja. Ele explica ainda que

existem pianistas que simplesmente

batem nas teclas e o som sai

“duro” e por isso as técnicas de relaxamento

muscular não só melhoram

a postura corporal, como faz a

yoga, mas também o próprio som

tirado do instrumento. Para Noel

Flores, as possibilidades da música

são infinitas, assim como as possibilidades

da capacidade humana

também são infinitas. Uma junção

dessas possibilidades é a essência

do método “Body and Soul”, resume

ele, acrescentando que como na

yoga, “isso é necessário para a libertação

física do indivíduo”.

Entre seus alunos, Noel tem alguns

conhecidos em todo o mundo,

como duas gêmeas da Turquia, ou

a filha de Friedrich Gulda, um renomado

musicista. Ele tem também

uma aluna coreana que começou

com 13 anos e atualmente está

com 17. Seu nome é Erika Chun.

Ele a considera um prodígio e acredita

que dentro de pouco tempo

atingirá a fama.

Regina veio de uma família judia

liberal e Noel de católicos liberais.

Para ele são válidos todos os

ensinamentos das duas religiões.

Na Áustria, a fé predominante é a

católica e embora o filho Sérgio tenha

sido batizado católico, seus

pais sempre lhe deram total liberdade.

Ele crê na existência de um

D-us único, mas não segue nenhuma

das duas religiões. Regina não

mantém a tradição judaica, mas tem

um profundo respeito pelos princípios

humanistas.

SÉRGIO

Sérgio, o filho de Regina e Noel,

não podia mesmo ser outra coisa a

não ser músico também. Desde

pequeno, praticamente respirando

música em casa e cercado por ela


de todos os lados em Viena, onde

nasceu há 25 anos atrás e fez seus

primeiros estudos, ele acabou se

apaixonando pela música. Como ele

mesmo conta, crescendo em meio

a um ambiente musical, ainda pequeno,

de brincadeira, já dirigia sinfonias

de Brahms. Quando tinha

dois ou três anos, havia uma empregada

brasileira em casa que tocava

discos de samba na vitrola.

Entre uma batida e outra, passou a

interessar-se pelos instrumentos de

percussão. E o seu primeiro foi um

bongô. O curso secundário foi completado

numa escola pública fundada

pela imperatriz Maria Tereza,

onde estudaram personalidades

como o compositor Schubert, o escritor

Hoffmannsthal e o Prêmio Nobel

de Física Schroedinger, entre outros.

Garoto juntou-se a uma banda

onde tocava bateria e aos 12 anos

ganhou do pai um teclado eletrônico

que ficou um bom tempo guardado.

A carreira de baterista foi interrompida

pelas reclamações dos vizinhos

durante os ensaios e assim o teclado

acabou saindo do armário.

Utilizando o teclado junto com o

computador, Sérgio passou a fazer

arranjos musicais. Depois de se formar,

decidiu estudar Direito, mas

sempre permaneceu fiel à música

e sua preferência era pela pop music.

Mostrou os arranjos que fez a

dois produtores na Áustria e um

deles se interessou. Gravou seus

primeiros discos, CD e vinil, que

imediatamente dispararam nas paradas

de sucesso na Inglaterra. A

partir daí as portas se abriram para

Passatempo

5 LETRAS

halel

maror

10 LETRAS

motsi matsá

ele. Fez remixes para dance music

e uma música para a cantora Gloria

Gaynor sob encomenda de uma

gravadora alemã. Os ingleses se

interessaram por vários arranjos e

ele fez ainda músicas para Tina

Turner, Donna Summer e Giorgio

Moroder, que musicou os filmes

Flashdance, Top Gun e História

Sem Fim. Moroder foi ganhador do

prêmio Emmy e de três Oscar.

Fez também arranjos para Kylie

Minouge, atriz e cantora neozelandesa,

sucesso na Europa e na América.

Em 1999, com seu arranjo foi

relançada a música Spinning

Around que atingiu o 1º lugar nas

vendas de discos na Inglaterra, em

Portugal e na Austrália. Por ela, recebeu

um disco de platina, que

equivale a 400 mil discos vendidos

só na Inglaterra, mas não sabe

quantos vendeu no resto do mundo.

Seu trabalho atendeu ainda arranjos

para Tom Jones, o conjunto

inglês Atomic Kitten e Henrique Iglesias,

com a música Scape, além de

outros arranjos para Moroder e para

a companhia de discos Interscope.

Todo esse sucesso, entretanto, deixou-o

com a vida um pouco agitada.

No dia seguinte à entrevista

para Visão Judaica, bem cedo, ele

tinha que estar no aeroporto para

viajar a Miami aonde iria participar

de uma conferência sobre

música. Dias antes de vir para

Curitiba, estava em Cannes, em

outro evento do gênero.

Assim como o pai, que deixou a

Arquitetura pela música, ele também

trocou o Direito para dedicar-se a ela.

Preencha o diagrama com as

seguintes palavras que mostram

a ordem do sêder.

6 LETRAS

tsafun

cadêsh

nirtsá

berach

corêch

carpas

maguid

7 LETRAS

urchats

yáchats

rochtsá

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

ESPAÇO DIVERTIDO

SEÇAO ENIGMA (Gentilmente cedido pela Revista Chabad News)

PARA PRINCIPIANTES

Aqui estão os quatro filhos

para o sêder. Seus nomes são:

Shlomô, David, Ytschac e

Moshê.

Mas quem é quem?

Eis algumas pistas. Você

consegue descobrir?

PARA AVANÇADOS

Acima estão os quatro

filhos para o sêder:

Tsevi, Mordechai,

Shimon e Yaacov.

Mas quem é o filho

sábio? E quem é o

perverso? Aqui vão

algumas dicas para

ajuda-lo a descobrir,

afinal, quem é quem:

Os 4 filhos

1. Shlomô esqueceu sua Hagadá

para o sêder.

2. David está ao lado de um

menino que não veste casaco

nem gravata.

3. Moshê está ao lado de Shlomô.

4. Shlomô não tem Hagadá nem

veste seus sapatos pretos

novos.

1. Yaacov não tem vinho para o sêder

2. Shimon, que está ao lado de Tsevi,

nunca sonhou em vestir seus tênis

para o sêder.

3. Tsevi se sente mal vestindo uma

gravata.

4. Mordechai esta ao lado de um

menino que não cortou seus cabelos

conforme o pedido de sua mãe

5. Shimon e Yaacov insistiram em ficar

nas extremidades.

Avançados (da esquerda para a direita): Yaacov, Mordechai, Tsvi e Shimo

Principiantes (da esquerda para a direita): Ytschak, David, Shlomô e Moshê.

13

Você já

descobriu?

Então escreva

o nome de

cada menino

na linha

colocada em

cima de suas

cabeças.

E então, você

conseguiu?

Agora escreva o

nome de cada

menino na linha

colocada abaixo

de seus pés. Para

saber se acertou

vire a pagina de

ponta cabeça e

confira a resposta

correta.


14

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

Visão indica livros

1. Eichmann em Jerusalém – Hannah

Arendt – Companhia das Letras

Assistindo ao julgamento como correspondente da revista The New

Yorker (na qual o livro foi originalmente publicado, ao longo de 1963),

a filósofa alemã percebe que o caso Eichmann resume um grande

dilema das sociedades modernas: como enfrentar o poder da destruição

do Estado burocratizado, capaz de transformar o exercício

da violência homicida em mero cumprimento de metas e organogramas?

Que valor ainda pode ter as noções de culpa e responsabilidade

num contexto tão insólito? Para dar conta destes fenômenos,

Arendt cunha o conceito de “banalidade do mal”, reflexão filosófica

séria – garantia de seu interesse para um mundo ainda sacudido

pela violência e pelo genocídio.

2. Sombras sobre o rio Hudson – Isaac

Bashevis Singer – Companhia das Letras

Em razão do grande valor de sua vasta obra literária, em iídiche, Isaac

Bashevis Singer recebeu em 1978 o prêmio Nobel de Literatura. Este

livro trata da história de um grupo de judeus da Europa Oriental que

escapou do Holocausto e tenta recomeçar a vida em Nova York do

pós-guerra. O sobrenatural, o misticismo, a charlatanice, o apelo do

passado, a fé e a incredulidade, as ideologias políticas, todas as possíveis

vertentes das opções humanas encontram personagens que as

representam no romance. A comédia humana orbitando ao redor das

demais sérias questões morais e intelectuais, exposta numa narrativa

sem freios que identifica e funde narrador e personagens.

3. Êxodo – Introdução de David Grossman

– Editora Perspectiva Ltda

No torvelinho dos acontecimentos no inicio do livro do Êxodo – a história

da escravidão e da opressão dos filhos de Israel e da crescente

animosidade entre os israelenses e os egípcios – infiltra-se uma outra

história mais pessoal e mais pungente: um menino hebreu nasce e a

mãe, para salvá-lo da morte decretada pelo faraó a todos os filhos,

coloca-o numa arca de juncos e solta-o na margem do rio Nilo. Lá,

entre os juncos, a filha do rei do Egito o encontra. Ela imediatamente

se dá conta de que se trata de “um dos meninos hebreus”, mas mesmo

assim resolve criá-lo como filho; e é ela que lhe dá o nome de Moisés.

É fascinante o entrelaçamento dessa encantadora narrativa com o tempestuoso

épico do nascimento de uma nação. De certo modo, essa é a

estrutura do livro inteiro, uma tessitura quase ilusória dos contos de

fada com um severo código legal e religioso: a urdidura – cajados que

se transformam em serpentes, um rei cruel e maligno, uma terra arruinada

por uma praga de sapos; a trama – a transmissão da lei no Monte

Sinai, o momento no qual o povo é unido a seu destino. A leitura do

livro Êxodo é carregada de tensão: entre a condição mais infeliz e “infantil”

dos filhos de Israel, um povo física e espiritualmente escravizado,

e o exaltado papel que D-us escolheu para eles, sem levar em

consideração o ritmo de seu desenvolvimento espiritual e moral. Talvez

esta seja a jornada realmente exigente feita pelos filhos de Israel

no livro do Êxodo: do clã à nação, da escravidão à liberdade.

5. A noite – Elie Wiesel – Ediouro

Prêmio Nobel da Paz em 1986, Elie Wiesel não

passou apenas por humilhações de ordem racial.

Viu de perto o mal personificado, testemunhou a

morte de diversas pessoas, entre elas seus pais

e sua irmã e percebeu o que homens são capazes

de fazer em nome da sobrevivência diante

da fome e da desumanidade. A noite é um livro

comovente e singular. Trata do Holocausto

sob o enfoque de um sobrevivente, um personagem

que sentiu na pele (e na alma!) o horror

dos campos de concentração alemães.

Narrado em primeira pessoa, o livro permite

que o leitor tenha uma maior proximidade com

a dor dos judeus então prisioneiros e, em especial,

com a dor e o sofrimento de Elie Wiesel.


Antonio Carlos da Costa Coelho *

A mais nova proposta para um

acordo de paz no Oriente Médio

partiu de um príncipe saudita. Ainda

ontem escrevia sobre a dificuldade

de uma proposta de acordo

mais aceitável para se por fim ao

conflito israelo-palestino. É um assunto

complicado: há uma história

de meio século de conflitos; uma

arraigada mentalidade anti-judaica

entre os povos da região, os interesses

dos países ocidentais. E

pode-se acrescentar ainda, o exibicionismo

de alguns governantes

árabes visando atrair a atenção do

Ocidente. Tudo isso dificulta a elaboração

de uma nova proposta de

paz na região. Sempre que surge

uma, é apenas mais uma, mais uma

prorrogação do conflito, sem que se

chegue a um fim positivo.

Duas forças disputam a simpatia

política na região: Estados Unidos

e Europa. A primeira apoiando

Israel, a segunda, apoiando, discretamente

os palestinos. Isso fica

evidente nos noticiários. As TVs européias

reforçam o caráter beligerante

de Israel, classificando suas ações

como terroristas. A TV americana

valoriza o combate ao terrorismo e

o apoio de Bush à ação de autodefesa

de Israel. A opção de apoio aos

palestinos por parte dos países europeus

não é de hoje, vem desde o

protetorado britânico na região.

A proposta para se dar início a

uma nova rodada de conversas faz

pensar que há algo mais além do

que uma tentativa de se chegar à

paz. Tal proposta seria um novo ato

do exibicionismo maneiroso que alguns

governantes usam para atrair

a proximidade e a simpatia dos

EUA. Na atual situação em que se

encontram os governos árabes, vale

até abraçar o inimigo - o inimigo íntimo.

É preciso comover a fera e levála

pressionar Israel a um acordo.

A condição inicial para o diálogo

é a retirada das áreas ocupadas

durante a Intifada II. Israel não descartou

a idéia. Sabe que tal proposta

foi do agrado americano e que pode

haver pressão para a sua aceitação.

Caberá a Sharon, na segunda

parte da conversa, impor suas

condições. Ele sabe como jogar,

e mesmo descrente de um possível

acordo, precisa demonstrar

disposição para entrar na nova rodada

de negociações.

Por enquanto é a Tzahal que

deve sair das áreas ocupadas, e

depois? Arafat concordará em prender

o pessoal do terror? Ele terá

força para isso? Pelo visto, não. E

os tais refugiados que estão nos

países vizinhos? Qual solução se

dará para eles? Arafat sabe que não

poderá fechar acordo sem o retorno

daqueles tantos. O número de

refugiados é desconhecido: ora é

um, ora outro. É como dívida de

cartão de crédito, quanto mais se

paga, mais se deve. O caso dos refugiados

nada mais é do que um

trunfo de Arafat: ele sabe que não

há solução, joga com números, explora

os sentimentos humanitários

das organizações internacionais, e

ainda, ganha a simpatia do seu público,

pois ao insistir nesse item da

pauta de negociações, solidariza-se

com cada mãe, pai, irmão, tio, que

têm parentes num outro país.

O fato da proposta ter partido de

um príncipe da família Saud, também

deve ser considerado. Qual é

o grau de aceitação popular da família

real saudita no contexto atual?

As organizações terroristas representam

as camadas populares do

povo árabe. Elas têm a simpatia dos

religiosos e do pessoal das ruas,

dos mercados, onde a palavra forte

vem das lideranças islâmicas que,

por sua vez, pregam contra os ditadores

que um dia estiveram ou ainda

estão aliados aos governos ocidentais.

As organizações terrorista

não acataram os acordos anteriores,

opuseram-se às inúmeras propostas

de trégua, acatariam agora

uma proposta vinda da casa real

saudita que sempre manteve relações

com o Ocidente?

A entrega da áreas reivindicadas

pelos palestinos teria como contrapartida

o reconhecimento do Estado

de Israel. Ótimo! E a educação

dada às crianças árabes em todos

esses anos, teriam seus efeitos

anulados, ou ficariam congelados

até a próxima oportunidade? E o

efeito da insistente publicidade antijudaica

na TV seria neutralizado?

Como? As crianças árabes esqueceriam

tudo e passariam a aceitar

Israel como o bom vizinho onde elas

fariam intercâmbios estudantis?

Mas, se a proposta partiu do

lado árabe, não aceitá-la, a princípio,

seria um erro político. Seria visto

como um gesto de má vontade

por parte de Israel. Então, é preciso

valorizá-la, mesmo que a experiência

antecipe o fracasso. Mesmo

que se saiba que isto dará fôlego a

Arafat, e que ele fará as suas peregrinações

costumeiras, como sempre

faz quando as coisas se complicam.

Com ar de moço bom, irá

aos governantes europeus, ao Bush

e ao Papa, buscando apoio, mostrando-se

insatisfeito com os atos

de terror e prometendo, desta vez,

combate-los com mãos fortes.

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

A nova proposta de paz

Sharon, por sua vez, fará todo

esforço pela manutenção da integridade

do Estado. Não permitirá ser

colocado em cheque pelas ambições

políticas dos exibicionistas

árabes e não dará crédito a uma

população educada para odiar mais

do que construir. A contrapartida

oferecida pelos árabes — o reconhecimento

formal do Estado de Israel

— é animadora, mas é preciso

que seja real e permanente, sob pena

de se prorrogar o conflito para uma

nova Intifada num futuro próximo.

Todavia, não se pode perder

oportunidades de se chegar ao fim

desse doloroso conflito. Apesar da

experiência apontar para o insucesso

das negociações, mesmo que se

saiba que não haverá paz sólida, e

que será preciso que essa geração

de crianças educadas no ódio passe,

é preciso tentar. Por mais que

Estão avançadas as obras de reforma e

ampliação do Centro Israelita do Paraná

(CIP), segundo constatou a reportagem do

jornal Visão Judaica. Todo o prédio principal,

a área das piscinas, o ginásio de esportes,

as quadras de tênis e a novo acesso parecem

um enorme canteiro de obras, conforme

as fotos que mostramos com exclusividade

para os leitores. Até o final deste mês já deverá

estar concluída e entregue ao uso a rampa

de acesso pela Travessa Coronel Agostinho

de Macedo (a entrada pela Rua Mateus

Leme será fechada e a área de servidão devolvida

aos seus proprietários).

Junto com a rampa de acesso também serão

entregues a nova guarita com portaria e

os portões de segurança. Outra parte que deverá

estar concluída até o final de março, ou

antes até, é o Ginásio de Esportes que ficará

totalmente reformulado, com novo telhado, o

piso de madeira marfim, muito mais apropriada

para a quadra, mais flexível e dinâmico.

Uma novidade: toda a cancha será protegida

com tela. Além disso, já foram concretadas

as novas arquibancadas laterais, e o conjunto

ganhará novos vestiários e sanitários que

se duvide — uma justa dúvida —

ainda vale a esperança. Afinal, o Estado

de Israel foi construído para a

paz. Foi pelas mãos dos imigrantes

que, na esperança de uma vida melhor,

longe das perseguições e das

guerras, com o desejo de viver mais

intensamente o judaísmo na terra

de seus antepassados, deram o

melhor de si para ver realizado o

sonho de um estado democrático,

aberto às diferentes origens e tradições

de um só povo. E foi também,

pelo empenho de todos aqueles

que, mesmo sem ter feito aliah,

dedicaram esforços e esperanças,

para a construção de Israel. Toda e

qualquer indisponibilidade para a

paz seria naturalmente rejeitada

pela sociedade israelense e pela comunidade

judaica universal, por ser

essa, uma contradição às razões da

existência de Israel.

15

*Antônio Carlos

da Costa Coelho

é professor e

assessor do

Governo do

Paraná

Ginásio de Esportes e novo

acesso ao CIP estão quase prontos

O engenheiro Noêmio Hendler (D) superviona as obras

do novo acesso

fotos VJ

Aspecto do Ginásio de Esportes com a nova quadra

e arquibancadas já concretadas

servirão também aos usuários das quadras

de tênis. E também sala para o Departamento

esportivo do CIP, bar e depósitos para materiais

esportivos.

Como se sabe, todo empreendimento da

nova sede do CIP, envolvendo um grande

projeto arquitetônico de Júlio Pechman foi

decidido pela comunidade israelita de Curitiba,

objetivando não só renovar a sede, mas

oferecer maior conforto e equipamentos para

todos os seus associados, especialmente os

jovens. O projeto, cuja previsão preliminar

deve durar até o final do ano, integra também

um novo edifício, construído sobre a parte

do antigo estacionamento, que abrigará

uma moderna e ampla sinagoga, além de

outros departamentos da Kehilá.

As obras estão sendo tocadas pela empresa

Dória Construções, sob a fiscalização

do engenheiro Roberto Ravaglio. O engenheiro

Noêmio Hendler supervisiona os trabalhos

pela Kehilá e a coordenação das obras do

novo Centro Israelita está a cargo de Eduardo

Schulman e Jean Pierre Akiva Brami (Kive).


16

* Yossef

Dubrawsky é

rabino do

Beit Chabad

Curitiba

* Sami

Goldstein é

professor e

der espiritual

da Sinagoga

Francisco

Frischmann,

de Curitiba

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

Carta a alguém que quer ser feliz

Sami Goldstein*

Meu amigo,

Kafka conta a história sobre um

homem que chega à porta da felicidade.

Seu passo é firme e decidido.

Uma força invisível parece atraílo

até ali. Era, de fato, sua porta da

felicidade. Entretanto, enquanto se

aproxima cheio de esperança, surge

o guardião que, admirado e

olhando-o fixamente, põe-se na sua

frente. E como era amedrontador...

Nosso homem fica um pouco

perplexo, desconcentrado e sem

capacidade de reação. Depois de

vacilar por alguns instantes, sentase

no chão e fica pensativo, ensimesmado.

E assim passa um bom

tempo... Em seguida, começa a

olhar ao seu redor, curioso: a porta,

as janelas, o prédio, como se

buscasse um modo de entrar e enganar

o guardião. Nenhuma solução

parece suficiente. Nervoso,

luta com o desejo, a dúvida, a indecisão...

E vai embora.

Passam-se os anos e todos os

dias o homem caminha em direção

à porta da felicidade. Quantas maravilhas

deveriam estar aguardando

apenas pelo momento em que

Pêssach

O êxodo sempre presente

Yossef Dubrawsky *

A celebração de Pêssach é tão

importante no judaísmo, que todos os

dias somos solicitados a lembrar que

“em cada geração uma pessoa deve

considerar a si mesma como se ela

mesma tivesse saído do Egito”.

O Rebe, em suas mensagens,

nos coloca um dilema. De que tipo

de liberdade falamos quando os judeus

saíram do Egito: a libertação da

escravidão foi condicionada apenas

à obediência a D-us. Quando observamos

a Torá e as 613 mitsvot, parece-nos,

à primeira vista, um jugo pesado,

algo a nos cercar durante todos

os minutos de nossa vida.

Para o homem, liberdade física, satisfação

das necessidades materiais,

porém sem preencher as aspirações

intelectuais, seria uma privação terrível.

Mesmo assim, também a realização

intelectual não representa a

verdadeira liberdade para um judeu.

Devemos levar em consideração

que a alma de um judeu é parte de

D-us; a verdadeira liberdade de um

judeu só é conseguida quando sua

alma pode unir-se à sua fonte, D-us,

através da Torá e do cumprimento das

mitsvot. Formam um suave caminho,

porque a busca se resume a nosso

potencial interior, buscando forças

com as quais nascemos e crescemos.

Entretanto, o mais difícil, a rota,

as metas, o norte que procuramos

está na Torá, um tesouro que não

nos foi encoberto, mas sim revelado

e em cujas palavras sempre novas

luzes iluminam cada vez mais a escuridão

da galut.

A Torá e as mitsvot nos dão o livre

arbítrio para crescer sempre mais,

nos elevarmos mais, melhorar o mundo

à nossa volta, alcançando a verdadeira

liberdade, desenvolvendo

todo o nosso potencial físico e espiritual,

e esta é a vontade de D-us, que

nos quer como construtores de sua

morada no mundo físico.

Um tema chave na história de

Pêssach é a pressa: os filhos de Israel

são descritos como havendo “fugido”

do Egito; a matsá é o pão que

não fermentou porque fomos expulsos

do Egito e não podíamos nos retardar;

e o Korban Pêssach (a Oferenda

Pascal), a chave para a redenção

e o eixo ao redor do qual gira toda

a festividade de Pêssach, era comido

“com pressa”. A pressa de Pêssach

atravessasse pela soleira. Mas lá

está o guardião, imponente como

uma resistente muralha.

O tempo não perdoa e o homem,

já muito velho e doente, sente-se

esmorecido. Quem sabe esse

seu estado inspire compaixão ao

guardião e o deixe entrar... Assim,

reunindo as últimas forças, aproxima-se

da porta e pergunta com

voz moribunda:

- Se esta é a porta da minha

felicidade, por que nunca me

deixou entrar?

E o guardião, surpreso, retruca:

- Mas você nunca me pediu...

Felicidade... Poucas letras que

contém dentro de si o segredo da

existência humana. É uma palavra

que precisa ser pensada, para não

a termos como poesia separada da

realidade. Vale lembrar que o direito

à felicidade é assegurado pela

Declaração dos Direitos do Homem,

aprovada pela Organização da Nações

Unidas. Muito antes disso, já

advertia a Torá sobre como as pessoas

tristes seriam punidas, “pois

você não serviu ao Eterno com alegria

e com o coração feliz” (Deuteronômio

28:47). Portanto, embora

enfatiza que a vida, para o judeu,

nunca mais será uma experiência

imóvel e passiva que foi para a tribo

de escravos hebreus sob o cativeiro

egípcio.

A pressa com que aconteceu o

primeiro Seder no Egito se expressou

de três maneiras: cinturas cingidas,

sapatos nos pés e cajados em

suas mãos. O Rebe nos explica que

estes atos correspondem às três dimensões

do movimento através da

vida: nosso próprio desenvolvimento,

nosso efeito sobre nossa comunidade

e nosso papel no mundo.

A cintura (os quadris), que são a

base do corpo, representam o ser humano

como um todo.

Pés calçados são os meios de locomoção

de uma pessoa, com os

quais viajamos do interior de nosso

ser para influir em lugares e indivíduos

que estão mais longe de um “pé

descalço”, uma personalidade presa

ao seu espaço.

O cajado representa a convicção

própria do homem de que nada é impossível,

que sempre podemos encontrar

uma maneira de estender

nosso alcance mais além que a dis-

amemos a poesia, não se trata de

suspirar pelo impossível, como alguns

entendem ser a poesia.

A felicidade só é impossível

àqueles que temem lançar-se ao

desafio de buscá-la. Não a vejo

como um objetivo, mas como um

ideal. Não é uma situação, mas uma

decisão. Talvez não a conquistemos,

mas teremos iniciado o caminho

rumo ao seu encontro. E, principalmente,

teremos dado um sentido,

uma razão à nossa vida. É

melhor fechar-se numa concha e

desistir da felicidade pelo puro

medo do desconhecido? É verdade:

a felicidade traz consigo o sabor

do desconhecido. Passamos

inúmeras vezes durante nossa existência

por portas da felicidade. Queremos

saber o que há lá dentro; se

realmente vale a pena. Imaginamos

mil coisas e esperamos que ela se

abra para nós com todas as garantias,

pois somos merecedores. Com

isso, esquecemos do essencial:

pedir para entrar. O problema não

é quem merece ou deixa de merecer,

mas quem toma uma atitude

e corre atrás do que acredita e

quer para si! E perdemos nossa

chance, pelo mero receio de superar

B"H

tância de nosso braço natural, nosso

próprio conhecimento.

A festividade de Pêssach nos traz

a força para atingir a verdadeira liberdade.

O primeiro passo é nos livrarmos

dos “ídolos”, nos livrarmos da dependência

de “o que o mundo pensa

e no que o mundo crê”.

O povo, a entidade nascida em

Pêssach, era um “ser” que não se define

como uma sociedade nem pela

aparência intelectual, emocional ou

física, senão pela faísca de Divindade

que é a essência do homem. E esta

faísca emana da Torá e em cada uma

das mitsvot delegadas a nós judeus.

Neste ano de 5762, no dia 11 de

Nissan (24 de março), estaremos comemorando

o centenário do nascimento

do Rebe de Lubavitch, o líder

de nossa geração. Ele soube, com

ações e ensinamentos, nos ensinar

o caminho da “saída do Egito”, rumo

à verdadeira liberdade, à conexão

com a faísca Divina existente em

cada judeu. A Torá é real, é a Torá da

vida, que nos guia ainda nos dias de

hoje, para a verdadeira liberdade,

para sermos somente servos de

D-us e de ninguém mais!

nossos próprios limites. Meu amigo,

muitas outras portas poderão abrirse

para você, mas talvez aquela se

feche para sempre.

A felicidade não é um prêmio; é

uma escolha e ainda mais: um verdadeiro

atrevimento. Afonso Duarte

de Barros dizia “felizes os que sonham,

ainda que não possam realizar

os sonhos.” Às vezes precisamos

deixar o passado para sonhar

– mesmo sabendo que talvez não

tenhamos as asas necessárias para

alcançar as nuvens da felicidade –,

mas tudo nesta vida tem seu preço.

A questão é: arcamos com os custos

de nossa felicidade ou não?

Deixemos o velho de fora e abramos

espaço para o novo. Assuma

um compromisso comigo hoje e

diga a si mesmo: eu vou ser feliz!

Meu amigo, estarei aqui esperando

pelo seu sucesso. Pois mesmo

que fracasse, será um vencedor

por apenas ter tentado. Faça de

sua poesia uma história viva e repleta

de momentos felizes. Sempre

haverá um amigo a apoiá-lo, palmas

abertas a felicitá-lo e um braço estendido

a consolá-lo. Afinal, não há

quem feche a porta da amizade.

Boa sorte!


Nahum Sirotsky *

Raramente aceito escrever

para publicações comunitárias em

geral. Passei a vida empenhado

em escrever o que penso do que

observo, sem considerar ideologias

ou crenças. Não minto se

digo que sou objetivo, pois isto

não existe na observação da vida

do homem. Todos enxergamos

com os próprios olhos e ouvimos

com os próprios ouvidos. Nunca

me canso de visitar o Museu do

Prado, em Madrid, sempre que

passo pela cidade. Vou rever os

Goyas que já vi incontáveis vezes

e, a cada vez, descubro que não

vi bem. Há poetas, como Rilke,

Elliot, cuja sabedoria jamais alcanço.

E releio sempre. Nunca me

canso dos compositores barrocos

cuja mensagem procuro entender.

E de ouvir o samba de verdade.

Meu livro bíblico favorito é

Eclesiastes (Kohelet, como dizemos

em hebraico). Estudo o Velho

Testamento não só tentando

entender esta obra-prima da literatura

e a condição humana.

Estudo para tentar aprender a

escrever, a sintetizar. E saber

como foi possível ser criado pelo

homem. Sei que se entende com

o que se sabe. Quero saber

mais para entender melhor. Nunca

hesito em mudar minhas interpretações,

pois meus conhecimentos

mudam todos os dias.

Não sei o que valem meus escritos

que nunca releio, publicados

por considerar, sem falsa modéstia,

que não são poucos os leitores.

Cada um tem suas loucuras.

O “Último Segundo“ do IG me convidou

e me deu liberdade de expressão

pelo que sou muito grato.

Leão Serva Pinto, meu editor

e amigo, não gostará de saber

que deixei de abrir o IG depois

que me contratou como correspondente.

Foi assim em toda a

minha longa carreira.

Não consegui negar o pedido

de Curitiba, onde jamais vivi e tenho

alguns dos melhores amigos

que fiz na vida. Por uma posição

ética profissional procuro não me

tornar íntimo dos atores da vida

pública. Quero a liberdade de criticá-los.

Mas me juntei aos de

Curitiba como amigo e parceiro.

Ney Braga que respeitava pela

integridade e modéstia, infelizmente

não chegou à Presidência

da República onde seria sem dú-

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

Da vida, dos gostos

e o pedido de Curitiba

vida alguma, dos maiores da história

brasileira. Ele me chamava

de “meu filho”, e mesmo de Israel,

ele já aposentado, nos falávamos.

Karlos Rischbieter, Saul Raiz, Alexandre

Fontana Beltrão, Jayme

Canet, Leônidas Lopes Bório,

Maurício Schulman e há outros.

Com o Jaime Lerner, no IPPUC,

trabalhou meu filho único, Iossef,

que tanto aprendeu com a incrível

criatividade do governador. Ele

é hoje diretor de um Talmud Torá

em Israel. Como profissional e ser

humano me orgulho e me envaideço

de ser parte deste grupo. As

contribuições deles ao Estado e

ao País são incomparáveis. Eles

souberam dar de seus conhecimentos

com amor ao muito que

criaram. Gente limpa.

Começo de publicação é sempre

uma grande angústia que sofri

várias vezes. O que se imagina

não se realiza no papel. Nunca se

chega aonde se quer chegar. Jornalismo,

no entanto, é, hoje, mais

essencial à vida social do que jamais

foi. A era da Informação tornou

o mundo mais complexo e

aumentou os desentendimentos.

Poucos têm acesso intelectual ao

que se abre para eles na Net.com.

A escola se atrasa em relação aos

avanços. Num certo sentido, imagino

que acontece com o homem

confusão semelhante à provocada

pelo patriarca Abrahão. Antes,

todos tinham deuses visíveis. Um

deus para cada fenômeno. Simplificava

a relação do ser humano

com o desconhecido. É incompreensível.

Ai chega um velho de Ur,

na Caldéia, e diz que só existe

Um, invisível, incompreensível,

inatingível, o que os sábios judeus

viriam a qualificar de Einsof, sem

fim. Ele deve ter provocado fortíssima

reação negativa, de raiva

mesmo. A UNIDADE é a complexidade

abrangida e compreendida

numa combinação em que tudo se

sintetiza e as partes deixam de ser

visíveis, mas lá estão. A física viria

comprová-lo. Mas não se chegou

à fórmula matemática alguma

para a Unidade proclamada pelo

velho Abrahão. Há muito que tenho

a tese de que é duro ser judeu

por causa de Avrahaam Avinu.

Ele foi o começo do anti-semitismo.

É um tanto menos perigoso

agora. Com o Estado de Israel

o judeu conquistou sua liberdade.

Ele pode ser judeu sem ser

israelense. E, na hora da necessidade,

reclamar seu direito de

retorno e passar a israelense. Aliás,

sou de família que sempre é o que

é. E dela me orgulho também pelos

seus sucessos e comportamento.

Somos judeus assumidos.

Na verdade, em matéria de religião

sou um ignorante, o que não

muda minha qualidade essencial. É

sempre um esforço, muito grande

esquecê-lo na hora de escrever.

Sou contratado para analisar

uma situação e não para defender

posições. E a questão israelense-palestina

é extremamente

complexa. Ä distância, sem conhecer

as histórias desses povos

e da região, tende-se a vê-la como

uma disputa de terra, na qual os

pobres palestinos, econômica e

militarmente inferiorizados, merecem

e conquistam as simpatia do

mundo. Se fosse assim teria solução.

Nenhum dos lados consegue

vencer com armas. Haveria

de surgir líderes que entenderiam

o impasse e chegariam a um entendimento.

A terra é o menor dos

problemas. O conflito é étnico e

religioso, é entre o poder de mitos

profundamente enraizados. Há

inúmeros conflitos religiosos em

todos os países islâmicos o que

pouco se comenta. Em todos eles

há o choque entre os modernizadores

e tradicionalistas. Os extremistas

querem poder para impor

a lei canônica, a lei do Corão,

querem ser os presidentes ou

emires ou califas.

Todos os países islâmicos

com governos seculares sofrem

de “jihads”, guerras santas. Os extremistas

são sempre duramente

punidos. O pai do atual presidente

Assad, da Síria, Hafez, alawita,

seita minoritária que nem todos

os maometanos aceitam

como parte do Islã, ameaçado e

desafiado massacrou milhares de

xiitas em Holms. No Líbano, o conflito

entre maronitas cristãos e xiitas

é permanente. Eles já se enfrentaram,

numa guerra civil de 20

anos. Os wahabitas fundamentalistas

da Arábia Saudita, dos quais

Bin Laden foi ou é um deles, são

uma ameaça permanente. Os chechenos

na Rússia não aceitam as

leis de Moscou. A lista é longa,

mas a luta de vida ou morte contra

os não-maometanos no Islã,

seculares ou praticantes, tem o

mesmo sonho de uma grande Ará-

bia sem países não-islâmicos, interrompendo

a sua continuidade.

Arafat, o palestino, quer o domínio

dos lugares santos maometanos

e cristãos. Ele assumiu a defesa

dos lugares santos cristãos

sem a aprovação do Vaticano. Na

área coberta por Israel existem

incontáveis lugares santos cristãos,

da fronteira com o Líbano ao

Mar Vermelho. Ele praticamente

anuncia que quer a sua bandeira em

Nazaré, no mar da Galiléia, em Jerusalém

e assim por diante. É esta

a verdadeira questão relevante. E

sem que Israel desista pelo menos

das áreas conquistadas em 1967 e

todos os lugares santos maometanos

o entendimento é irrealizável.

A diferença está em que o

mundo islâmico pode esperar.

Dentro da área israelense-palestina

há a bomba demográfica, a

barriga da mulher árabe que assegura

maioria árabe dentro de

poucas décadas. Os paises árabes

ao redor progridem econômica,

científica e militarmente. Arrasar

o estado judeu está nos seus

planos. Israel tem de tentar um

entendimento com os palestinos

como possível abertura para uma

aceitação pelo mundo árabe e islâmico.

Arafat envelhece e não

pode esperar muito. Os palestinos

atravessaram 500 anos de domínio

otomano. Podem aceitar uma

solução intermediária e esperar

pela definitiva.

Israel abriu para os judeus a

possibilidade de, no prazo, serem

encarados como são os italianos

ou os libaneses: brasileiros para

todos os efeitos. Mas na minha

vivência, isto só acontecerá se

assumirem suas origens e fé com

naturalidade. Serem brasileiros e

judeus, no que não há contradição.

Como brasileiros, assumirem

plenamente suas responsabilidades

sociais do que o Jaime Lerner

é um exemplo. E serem judeus assumidos,

cônscios de sua cultura

e passado histórico. Aquele que se

envergonha do que é se desmoraliza

equivale muito de perto ao delator

que se usa e se despreza.

O jornal de vocês pode ser

uma abertura para os judeus do

Paraná e, eventualmente, do Brasil.

Em poucos anos Curitiba se

transformou num centro cultural

exemplar. Na sua cidade se faz

muito bem o que se decide fazer.

Kadima. Pra frente.

17

* Nahum Sirotsky é

jornalista,

correspondente da

RBS em Israel e

colunista do Último

Segundo/IG.


Divulgação

18

A montagem definitiva de Lost

Zweig, décimo longa-metragem de

Sylvio Back está quase pronta. O

filme, baseado em fatos reais, narra

a “vida brasileira” do escritor

judeu austríaco Stefan Zweig, autor

do famoso livro “Brasil, País do

Futuro”, e de sua mulher, Lotte,

que, na semana seguinte ao Carnaval

de 1942, ao qual haviam

assistido, se suicidam em Petrópolis

num gesto que ainda hoje é

considerado insondável e desconcertante.

No dia 23 de fevereiro

foram relembrados em todo o mundo

os 60 anos da morte de Zweig.

A produção já está inscrita e

vai competir, em maio, no Festival

de Cannes. Mas o lançamento

comercial, que deverá acontecer

simultaneamente no Brasil, nos

Estados Unidos e na Europa, está

previsto para setembro. Como ele,

a mulher e amigos eram todos estrangeiros

e sempre conversavam

em uma segunda língua, além do

alemão, o francês, o inglês e até

o iídiche, Back decidiu que o filme

seria inteiramente falado em inglês,

incluindo o elenco nacional.

INTERESSE POR ZWEIG

Sylvio Back diz que Stefan

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

Novo filme de Sylvio Back

analisa “vida brasileira” de Zweig

Rüdiger Vogler e Ruth Rieser, interpretam Stefan Zweig e sua mulher Lotte

Zweig entrou em sua vida e ele

nele pelo cinema. “Quase na contramão

de sua prosa límpida, encantatória

e psicologizante (era

amigo de Freud, trocavam correspondência,

chegou a escrever biografia

dele e fez o elogio á beira

do seu túmulo em Londres). Tudo

parece ter começado ao assistir,

em épocas diferentes, aos filmes

“Carta de uma Desconhecida”

(1948), do mestre franco-alemão,

Max Olphüls, um canto à sensibilidade

feminina, e “Até o Último

Obstáculo” (1960), de Gerd Oswald,

este baseado no livro “Uma partida

de Xadrez” (“Schachnovelle”literalmente,

novela do xadrez),

uma brilhante metáfora do totalitarismo,

que Zweig terminou horas

antes de se suicidar em Petrópolis

com a mulher, Lotte.”

Back prossegue: “em 1981,

entrevistando o ex-ministro e escritor

Afonso Arinos para um documentário

sobre a renúncia de Jânio

Quadros, que orgulhoso me

mostrou um livro autografado que

Stefan Zweig lhe deixara entre os

seus “presentes” pós-suicídio, vim

a saber que o jornalista Alberto

Dines preparava livro sobre ele.

Até então biografias publicadas no

exterior davam pouca importância

à “vida brasileira” de Zweig, aos

angustiantes seis meses que passou

no Brasil entre agosto de 41 à

semana seguinte ao Carnaval carioca

quando se matou, aos sessenta

anos, com a jovem esposa

de apenas trinta e três. Os biógrafos

se limitam mais ao aspecto

policial do suicídio, sem contudo

dar-lhe a envergadura de síntese

e até de apogeu de uma vida de

luta contra toda e qualquer opressão

e limitações à liberdade de

pensar e de ir e vir. Sem falar

português, eles visitam a casa e

o túmulo de Zweig em Petrópolis,

torcem fatos, dão informações

históricas errôneas.

Para o diretor, Dines invertia a

mão, dedicando-se a esmiuçar e

a “entrelaçar com rara habilidade

de repórter esses meses cruciais,

toda a sua existência européia e

o próprio ato terminal.” Ele observa

que chegou a ler trechos de

“Morte no paraíso” ainda nas provas.

Mais tarde comprou os direitos

de filmagem, base do atual

roteiro de “Lost Zweig”, cujos primeiros

tratamentos escreveu sozinho.

Antes, em 95, fez um documentário

para a televisão alemã,

“Zweig: A Morte em Cena”.

Entrevistas com amigos sobreviventes,

hoje, todos mortos (entre

eles, o editor, o advogado e o tradutor),

abriram-lhe o conhecimento

privado em torno do escritor e

de sua mulher, desde o polêmico

visto de permanência concedido

pela ditadura Vargas, ostensivamente

anti-semita, às aventuras

eróticas e à bissexualidade dele,

sempre omitida ou não intuída,

aliás, “chave para a compreensão

de inúmeros de seus personagens”,

de acordo com, Sylvio Back.

ELENCO INTERNACIONAL

Encabeçado por um elenco internacional,

Lost Zweig traz o ator

preferido do diretor Wim Wenders,

Rüdiger Vogler, e a atriz austríaca

Ruth Rieser, como Zweig e Lotte,

mais os brasileiros Renato Borghi

(no papel de Getúlio Vargas),

Daniel Dantas, Ney Piacentini,

Claudia Neto, Juan Alba, Ana Carbatti,

Odilon Wagner, Kiko Mascarenhas,

Katia Bronstein, Denise

Weinberg, Michael Berkovich, Felipe

Wagner, Carina Cooper, Silvia

Chamecki, Thelmo Fernandes

(no papel de Orson Welles), Isaac

Bernat, Alexandre Ackerman e Garcia

Júnior. As filmagens aconteceram

no Rio de Janeiro e em Petrópolis,

onde o casal viveu e morreu.

O argumento original é do próprio

Sylvio Back e o roteiro escrito com

o irlandês Nicholas O’Neill, foi baseado

no livro “Morte no Paraíso”,

de Alberto Dines. Lost Zweig exigiu

uma rigorosa reconstituição histórica

tanto de ambientes e seleção

de locações como dos figurinos,

penteados e maquiagem.

A reconstituição da época,

aliás, foi revivida nos seus menores

detalhes, desde o modo de

falar o inglês e a postura cotidiana

das pessoas até o resgate de

inúmeras músicas do Carnaval de

42 e do cancioneiro internacional,

destacando-se a música cantada

em inglês por Marlene Dietrich e

no filme reinterpretada por Katia

Bronstein. A composição da trilha

sonora original está a cargo do

pianista Guilherme Vergueiro e de

Raul de Souza,

Co-produzido e distribuído pela

Riofilme, Lost Zweig foi filmado

em 35mm e a cores por um dos

maiores diretores de fotografia do

país, Antônio Luiz Mendes, a

quem Back chama de “mestre” e

com quem filmou seu recente Cruz

e Sousa - O Poeta do Desterro

(1999). Seu custo é estimado em

seis milhões de reais, sendo a

Labo Cine do Brasil um dos coprodutores

do filme. Do Paraná, a

produtora Usina de Kyno conta

com patrocínio da Copel e da Sanepar.

Também tem parceria Calla

Productions, de Los Angeles, BR

Distribuidora, BNDES, BANESPA,

BCN, TV Cultura de São Paulo,

FINEP, Quanta e apoio logístico

da Prefeitura Municipal de Petrópolis,

Fundação Cultural de Petrópolis,

Petrotur e da Fundação Parque

de Alta Tecnologia de Petrópolis

– Funpat.

Sylvio Back classifica seu filme

como “desconcertante”. Stefan

Zweig foi um intelectual de uma

modernidade à toda prova. Daí a

sobrevida de sua obra e de seu

pensamento, observa o diretor,

para quem o suicídio está envolto

em mistério intrigante. Morando

no Rio de Janeiro, mas entrevistado

por Visão Judaica esclarece:

o filme é uma homenagem a um

homem que já nos anos 30 previa


Divulgação

uma Europa sem passaportes,

com moeda única, vivendo sem

guerras, cada país respeitando a

cultura do outro, etc. Segundo ele,

as biografias que se sucederam

desde então, principalmente na

Europa, excetuando-se a do jornalista

brasileiro Alberto Dines,

todas remetem à vida e obra do

escritor em Viena, Paris, Londres

e Nova York, e nenhuma se detém

em esmiuçar os seus dias terminais

no Brasil.

Sobre o escritor há alguns programas

de televisão europeus e o

documentário Zweig: A Morte em

Cena (43 min. cor/PB), do próprio

Back, produzido pelo Instituto Goethe

do Rio de Janeiro em 1995,

para a TV alemã por assinatura

3Sat. Lost Zweig é o primeiro filme

de longa-metragem, com exibição

e distribuição internacionais

— cujo roteiro, retratando o

cotidiano e as falas baseados na

obra e correspondência do escritor

e do testemunho de contemporâneos

—, a ficcionar a tragédia

dos Zweig no Brasil. Para o diretor,

sua originalidade reside, exatamente,

no resgate ficcional da

“vida brasileira” de Zweig, uma

espécie de elo perdido da sua biografia:

a tensão entre as recordações

da “dourada era da segurança”

européia pré-Hitler e a

nostálgica ilusão de reencontrála

no Brasil da ditadura Vargas.

O filme registra ainda o inusitado

encontro de Zweig com o

Orson Welles filmando o seu inconcluso

documentário “It’s All

True”. Tudo permeado pela tortuosa

relação com a ex-mulher Friderike

e a atual, Lotte, e pelo obsedante

projeto de salvar refugiados

judeus da perseguição nazista,

enquanto se deixa levar pela

idéia da morte como o supremo

sacrifício de um humanista ante a

decadência moral do mundo. Sobrecarregado

pelas evidências da

guerra (Pearl Harbour, a queda de

Cingapura), imbricado a uma crescente

crise pessoal, Zweig prepara-se —

quase cientificamente — para o fim.

Autor de mais de cinqüenta

novelas, romances, poesia e inú-

meras biografias, Stefan Zweig

acreditava na inevitável vitória da

barbárie nacional-socialista, de

que a Europa toda cairia definitivamente

sob o jugo de Hitler. Esses

presságios o enlouquecem

nos últimos meses de vida.”Zweig

- diz Back - era um pacifista, antibelicista

e humanista, militante

solitário de suas idéias e convicções.

Um homem à frente de seu

tempo. E de todos os tempos.”

Apaixonado pelo Brasil desde

a primeira visita em 1936 — “... se

algures na Terra existe o Paraíso,

não pode estar longe daqui” (fazia

suas as palavras de seu biografado

Américo Vespúcio) —,

Zweig veio mais duas vezes, e na

segunda em 1941, para ficar, fugindo

do nazismo que queimara

os livros em praça pública. Na carta-testamento

que deixou, e que

é uma declaração de amor ao Brasil,

confessa: “Eu, demasiadamente

impaciente, vou-me antes”.

Quando navios mercantes brasileiros

foram torpedeados por submarinos

nazistas na costa do

Atlântico, Zweig teria dito ao ouvir

a notícia no “Repórter Esso”:

“A guerra chegou ao paraíso!”

O DIRETOR

O ator principal é um dos preferidos do diretor Wim Wenders

Sylvio Back, 64 anos, é cineasta,

poeta e escritor. Filho de imigrantes

húngaro e alemã, é natural

de Blumenau (SC). Ex-jornalista

e crítico de cinema, autodidata

iniciou-se na direção cinematográfica

em 1962, tendo realizado

e produzido até hoje 36 filmes

- entre curtas, médias e dez longas-metragens:

“Lance Maior”

(1968), “A Guerra dos Pelados”

(1971), “Aleluia,Gretchen” (1976),

“Revolução de 30” (1980), “República

Guarani” (1982), “Guerra do

Brasil” (1987), “Rádio Auriverde

(1991), “Yndio do Brasil” (1995),

“Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro”

(1999) e “Lost Zweig” (2002).

Tem editados dezessete livros

- entre poesia, ensaios e os argumentos/roteiros

dos filmes “Lance

Maior”, “Aleluia, Gretchen”, “República

Guarani”, “Sete Quedas”,

“Vida e Sangue de Polaco”, “O

Auto-Retrato de Bakun”,

“Guerra do Brasil”,

“Rádio Auriverde”,

“Yndio do Brasil”,

“Zweig: A Morte

em Cena” e “Cruz e

Sousa — O Poeta do

Desterro” (tetralíngüe).

Com 62 prêmios

nacionais e internacionais,

Sylvio

Back é um dos mais

festejados cineastas

do Brasil.

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

O bom humor

perde Sale

Wolokita

19

No dia 15 de fevereiro a notícia da morte de Sale Wolokita

entristeceu não só a comunidade israelita de Curitiba,

mas também o vasto círculo de amizades que ele cul- Sale Wolokita: vida dedicada

tivou entre os profissionais e espectadores das artes cê- ao teatro e à comunicação

nicas, jornalistas e comunicadores do Paraná ao longo

de sua vida. E o bom humor perdeu um dos seus mais legítimos representantes.

Sale tinha 68 anos, foi ator, diretor de teatro, comunicador, apresentador

e administrador.

Sale Wolokita nasceu no bairro do Portão, em Curitiba, e em 1942, antes dos

10 anos de idade já estreava como ator num grupo amador do Centro Israelita

Paraná. No começo dos anos 50 trabalhou com Lala Schneider no Teatro do Sesi

e participou de Helena de Tróia, uma das montagens que inauguraram o Auditório

Salvador de Ferrante, o popular Guairinha. “Éramos centuriões, ficamos um ato

inteiro um de cada lado do palco, paralisados como estátuas”, lembra o ator e

amigo Sinval Martins. Na platéia estavam o presidente Café Filho e o governador

Bento Munhoz da Rocha.

Em 1974, quando o Guairão foi inaugurado, Sale Wolokita era superintendente

da Fundação Teatro Guairá. Ele foi o fundador da Escola de Arte Dramática do

teatro. Os jornalistas recordam aqueles bons tempos em que ganhavam convites

para as principais apresentações. Como ator, Sale atuou em clássicos como por

exemplo Schweyk na Segunda Guerra Mundial, de Bertolt Brecht, montagem de

1985 do Teatro de Comédia do Paraná, com direção de Cláudio Corrêa e Castro.

Atuou também na Rádio Atalaia e foi diretor da Rádio Estadual. Entretanto, foi

na televisão que ele deixou sua marca indelével. Em 1969 foi convidado para

apresentar um programa jornalístico de utilidade pública na TV Iguaçu. Era o

Jornal da Cidade, que ia ao ar diariamente as 19h. Foi no Jornal da Cidade, hoje

uma referência histórica na TV do Paraná, que o apresentador criou seu célebre

bordão “Vai prá Tribuna!”, proferido ao final de cada denúncia,

na redação do jornal Tribuna do Paraná. Algo parecido com o

“Isto é uma vergonha”, do Boris Casoy, só que com maior impacto

e repercussão. Na época, virou moda entre os paranaenses

dizer “Vai pra Tribuna!” para qualquer coisa errada.“Ele

não foi contratado para comandar um jornal da emissora, o

programa foi feito especialmente para ele”, observa o jornalista

e ex-apresentador Jamur Júnior, outro colega a lamentar a

perda do Sale.

Nos anos 70 o programa atingiu grandes níveis de audiência,

e recebia de 20 e 30 cartas por dia. “As pessoas normalmente

reclamam de rua esburacada, falta de iluminação pública,

falta de água e esgoto, brigas de vizinhos, ônibus superlotados

e até correio sentimental”, contava Wolokita numa entrevista

quando o programa completou um ano. A Prefeitura

na época chegou a instalar um aparelho de televisão no setor

de fiscalização, só para acompanhar as reclamações no pro-

Em “Aleluia, Gretchen” ingrama

do Sale, e no dia seguinte providenciar os consertos, terpretou um oficial alemão

tapar o buraco ou arrumar a rua.

O sucesso do programa transformou Sale no diretor artístico

da emissora, e mais tarde em coordenador de ação cultural da Secretaria da

Cultura do Paraná. Ele também fez cinema, interpretando personagens nos filmes

do diretor Sylvio Back como “A Guerra dos Pelados”, de 1971, em foi um

fazendeiro de posses ou em “Aleluia, Gretchen”, de 1976, no qual fez o papel de

um oficial nazista. Sendo judeu, só mesmo um grande ator poderia fazê-lo.

A partir do final dos anos 70, Sale Wolokita tentou a vida política: foi candidato

a vereador pela Arena, coordenador estadual do Mobral, foi candidato a vicegovernador

em 1994 pelo PL e arriscou novamente a Câmara em 2000. Ultimamente

continuava trabalhando como diretor de teatro. Suas peças mais recentes

foram Meno Male e Uma família quase perfeita, e apresentava um programa de

leilões numa TV por assinatura.

Sale Wolokita também exerceu atividades comunidade israelita de Curitiba,

entre elas, foi diretor da entidade mantenedora da Escola Israelita Salomão Guelmann.

No Centro Israelita do Paraná elaborou projeto para a criação da Casa do

Teatro, que mexeu com a comunidade na época, especialmente quando ele dirigiu

a peça O Diário de Anne Frank.

Na Câmara Municipal de Curitiba, o vereador Mário Celso Cunha (PFL), com

apoio de colegas, pretende homenagear Sale Wolokita dando seu nome a um dos

logradouros públicos de Curitiba.

Álbum de família

Arquivo de “O Estado do Paraná”


20

Existe um jornal de bairro em

Curitiba que vem sistematicamente

atacando os judeus e Israel

em suas páginas, promovendo

abertamente o anti-semitismo,

crime enquadrado na legislação

brasileira como preconceito

racial. A publicação,

cujo nome é “Folha do Batel”,

parece ser mais um instrumento

de disseminação de ódio contra

judeus, dissimulada em jornal

de prestação de serviços à

comunidade, tal é a insistência

com a qual vem agredindo os judeus.

O que surpreende, no

caso, é que a tal “folha” vem

agindo livremente sem que as

autoridades tomem providências

contra essa afronta à Constituição

do País.

Visão Judaica - março de 2002 Nissan/Iyar 5762

Folha promove anti-semitismo

publicando textos neonazistas

Tudo serve para cumprir os

objetivos escusos desse preconceito,

inclusive mentir para os

leitores, como o texto de uma

pretensa “carta aberta ao presidente

Bush” que teria sido escrita

por um indivíduo de nome

David Duke, e apresentado na

edição de novembro pelo jornal

como sendo “ex-candidato a

Presidente dos Estados Unidos”.

Duke, que nunca chegou a

concorrer à Presidência dos

EUA, é, na verdade um notório

neonazista norte-americano e líder

da Ku Klux Klan, centrou os

escritos de sua “carta” nos rescaldos

de 11 de setembro para

aproveitar o choque da opinião

pública com os atentados aos

edifícios do World Trade Centrer

e do Pentágono, e as milhares

de mortes, em conseqüências

deles, para culpar ninguém menos

que os judeus pelo ocorrido,

vinculando o fato ao apoio do

governo norte-americano a Israel.

Escrita num estilo totalmente

distorcido e repleta de ódio e

de referências típicas anti-semitas

— como a velha e surrada

balela que ainda encontra eco

entre os menos esclarecidos, de

que o judaísmo controla a imprensa

— a tal “carta” não foi

publicada em nenhum veículo da

mídia norte-americana. Ela só

encontrou eco em uma série de

websites nazistas que infestam

a Internet. E foi dela que responsável

pela Folha do Batel retirou

toda essa patuscada. Além

disso, constatou-se que anos

atrás essa mesma pessoa esteve

envolvida com um núcleo

neonazista que atuava em Curitiba

distribuindo publicações racistas

principalmente entre estudantes

universitários. O fato foi

denunciado na época pelo jornal

Correio de Notícias, hoje extinto.

No ano passado, a Agência

Estado, ligada ao jornal “O Estado

de S. Paulo”, distribuiu uma

notícia que iniciava assim: “Moscou

— Um ex-chefe da organização

racista americana Ku Klux

Klan está promovendo em Moscou

um livro que expõe teses

anti-semitas, de acordo com informações

da televisão privada

NTV. Fundador da Organização

Nacional pró-Direitos dos Americanos

Europeus, David Duke,

defende o livro “A supremacia

final: um exame da questão judia”.

Na página de sua organização

na internet, David Duke

elogia a Rússia como “reduto da

raça branca”. Ele afirma que

quer fazer nesse país o primeiro

elo de uma corrente de “tomada

de consciência racial” através do

mundo. “O povo russo também

tem um grande conhecimento da

potência do sionismo internacional

e do papel dominante dos

judeus na orquestração da imigração

e o multiculturalismo que

minam o Ocidente”, declarou.

A propósito disso, algumas

pessoas da comunidade israelita

de Curitiba resolveram denunciar

à imprensa o anti-semitismo

praticado pelo jornal de bairro.

“Com o mais recente desses crimes,

que afrontam a Constituição

brasileira e envergonham a

Lei nº 5.250 (Lei de Imprensa),

o responsável pela edição nº 26,

relativa ao mês de novembro do

corrente, daquele panfletário,

que, a propósito, não indica,

como manda a legislação, seu

respectivo registro profissional,

zomba da justiça e de toda a sociedade

brasileira, que sempre

têm rechaçado qualquer espécie

de racismo em nosso País — observa

a carta-denúncia enviada à

redação dos jornais da Capital.

Mais além, a carta observa:

Além de disseminar anti-semitismo,

uma das faces do racismo,

a publicação mente acintosamente

para o leitor ao apresentar

o texto, de página inteira, recheado

de ódio e preconceito

contra os judeus e Israel, como

sendo de um “ex-candidato a presidente

do Estados Unidos da

América”, um certo David Duke,

que, em realidade, é um notório

neonazista norte-americano e líder

da tristemente famosa Ku Klux

Klan. Esse fanfarrão nunca concorreu

a uma eleição presidencial

nos Estados Unidos. Em 1996, ele

foi candidato a candidato, mas

evidentemente rejeitado antes

mesmo das primárias. O que é

bem diferente de ser candidato.

Pois bem, para alcançar seu

intento criminoso, o (ir)responsável

pela tal “Folha” omitiu

para os leitores do Batel esses

fatos reveladores, escondendo

o racista sob a aura da

seriedade de “um candidato a

presidente dos EUA”. Tudo

para destilar o veneno de seu

ódio racial. Esperamos que o

Ministério Público e a Polícia

Federal investiguem e tomem

providências, e que o comércio

e os moradores do Batel,

recusem, daqui para frente,

anúncios e exemplares dessa

nefasta publicação.

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