Revista Junho 04 final

cristiano149090

Revista mensal AMACULT

Junho 2017


A Mariana - Revista Histórica e Cultural é

uma publicação eletrônica da Associação

Memória, Arte, Comunicação e Cultural de

Mariana. O periódico tem o objetivo divulgar

artigos, entrevistas sobre a cidade de Mariana.

A revista é uma vitrine para publicação de trabalhos

de pesquisadores. Mostrar a cultura de uma

forma leve, histórias e curiosidades que marcaram

estes 321 anos da primeira cidade de Minas.

Mariana - Revista Histórica e Cultural é um

passo importante para a divulgação e pesquisa

de conteúdos sobre a cidade de Mariana.

Esperamos que os textos publicados contribuam

para a formação de uma consciência de preservação

e incentivem a pesquisa.

Os conceitos e afirmações contidos nos artigos

são de inteira responsabilidade dos autores.

Colaboradores:

Prof. Cristiano Casimiro.

Prof. Vitor Gomes.

Agradecimentos:

Arquivo Histórico da Câmara de Mariana

IPHAN - Escritório Mariana

Arquivo Fotográfico Marezza / Itafoto

Museu da Música de Mariana,

Fundarq- Órgão da Sé de Mariana

Fotografias:

Cristiano Casimiro, Marezza e Vitor Gomes

Diagramação e Artes: Cristiano Casimiro.

Capa: Detalhe do Altar-Mor da Igreja N.S.do Rosário

Foto: Cristiano Casimiro

Associação Memória Arte Comunicação e Cultura

CNPJ: 06.002.739/0001-19

Rua Senador Bawden, 122, casa 02


Capa

História

Festa do Divino Espirito Santo em Mariana

Cristiano Casimiro

Quartel de Dragões da Vila de Nossa do Carmo

Cristiano Casimiro

Nossa Música

Restauro

Uma escuta guiada do acervo do Museu da Música de Mariana

Vitor Gomes

Restauro dos elementos artísticos da Igreja do Rosário de

Mariana. Cristiano Casimiro

Causos,Contos e Prosa

O fantasma no Órgão da Sé.Cristiano Casimiro

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3


Mariana 2017

Detalhe o Estandate do Divino.

04


05

O culto do Espírito Santo, de acordo com

o historiador português Moisés do

E s p í r i t o S a n t o , t e m o r i g e m n a

Antigüidade. Entre os israelitas, a Festa

de Pentecostes era celebrada cinqüenta

dias (sete semanas) depois da Páscoa,

sendo uma das quatro festas importantes

do calendário judaico: Páscoa, Omar,

Pentecostes e Colheitas.

Ela era conhecida, ainda, com nomes

diferentes: das Ceifas, das Semanas, do

Dom da Lei, e outros, tendo sido,

primitivamente, uma festa agrária dos

cananeus .

Entre os hebreus, o termo shabüoth faz

referência à festa que começa cinqüenta

dias depois da Páscoa e marca o fim da

colheita do trigo. “A Festa do Divino é um

eco das remotas festividades das

colheitas”.

Já o culto ao Espírito Santo, sob a forma

de festividade, no sentido que iria adquirir

mais tarde, se cristaliza no início da Baixa

Idade Média, na Itália, com um

contemporâneo de São Francisco de

Assis, o abade Joachim de Fiori (morto

em 1202), que ensinava que a última fase

da história seria a do Espírito Santo.

Suas idéias chegaram a Alemanha e

espalharam-se pela Europa.

Em Portugal, no séc. XIV, a festa do

Divino já se encontrava incorporada à

Igreja, como festividade religiosa. A

responsável por essa institucionalização

da festa em solo português foi a rainha D.

Isabel, esposa do Rei D. Diniz (1.279 –

1.325), canonizada como Santa Isabel

de Portugal, que mandou construir a

Igreja do Espírito Santo, em Alenquer .

Em solo português, ela seria fortemente

marcada por influências de tradições

judaicas, muitas das quais chegaram até

nós.

Com o início da colonização, ela foi

introduzida no Brasil, provavelmente

desde o século XVII. A figura do

Imperador do Divino – criança ou adulto –

era o escolhido para presidir a festa. Aqui

ela sempre foi uma festa de caráter

popular, não figurando entre as quatro

festas oficiais celebradas por ordem da

Coroa, no período colonial. Mas seu

prestígio no início do século XIX era

tanto, que em 1822, segundo Luís da

Câmara Cascudo, o ministro José

Bonifácio escolheu para Pedro I o título

de Imperador, em vez de Rei, porque era

muito grande a popularidade do

Imperador do Divino . Em certas cidades

ou vilas do interior, o Imperador do

Divino, com sua corte solene, dava

a u d i ê n c i a n o I m p é r i o , c o m a s

reverências privativas de um soberano .

Decoração da Igreja da Arquiconfraria:

Pomba Símbolo do Divino Espirito Santo


Em Minas, como em outros estados

brasileiros, não são todos os municípios

que mantêm a tradição do Cortejo do

Império do Divino e dos folguedos como

a Guarda de Marujos ou Marujada, os

Catopés, Caboclos ou qualquer outro

folguedo que puxe o Cortejo do Império.

O período de festas é em sua maioria,

móvel, pois depende da data festiva de

Pentecostes.

Em Mariana, a festa com mais de

duzentos anos de fé, beleza e história. A

comunidade católica , através da

Confraria do Divino Espirito Santos,

celebra a Festa do Divino, cujo destaque

são missas, cortejo e outros ritos

que remontam aos tempos coloniais. Na

Igreja da Arquiconfraria de São

Francisco dos Cordões, os féis participaram

de sexta-feira 26 de maio até

sábado 03 de junho da Novena Espírito

Santo.

No dia 28/05 foi aberta a exposição

Fotográfica “ Festa do Divino espirito

santo 2016” na igreja da Confraria. No

sábado dia 03/06, foi realizado a Festa

da Bandeira do Divino – X Encontro de

Congados de Mariana. Uma festividade

cultural com a participação de 14 grupos

de congados de várias cidades mineiras

c o m o : M a r i a n a , O u r o P r e t o ,

Conselheiro Lafaiete, São João Del Rei,

Santa Barbara, Congonhas entre

outras. Na tarde, do sábado, os grupos

se apresentaram na Praça Minas

Gerais, que estava toda enfeitada com

motivos da festa, com a chegada da

noite iniciou-se a Procissão Luminosa

da Bandeira do Divino, formada pelo

Imperador do Divino, Sr Marco Mol, sua

esposa, familiares, membros da

Confraria do Divino Espirito Santos,

devidamente paramentados, os grupos

de congados e por fieis.


A Rua Dom Silvério, que liga a Praça

Minas Gerais à igreja da Confraria, foi

toda enfeitada com estandartes, bandeirolas

e com lanternas de bambú para

iluminar a passagem da procissão. As

sacadas e janelas dos casarões coloniais

foram decoradas com tolhas vermelhas

e flores. O Alferes da Bandeira,

Sebastião Fernandes e Janilson

Pitombeira, junto com outros membros

da Confraria do Divino Espírito Santos

escoltaram a Bandeira do Divino da

Praça Minas Gerais até da igreja da

Confraria (centro histórico de Mariana).

A batidas dos tambores e os cânticos

dos grupos de congados deram o ritmo

das procissão. A bandeira entrou na

igreja acompanhada pelos grupos de

Congados, foi reverenciada por todos

os grupos e colocada no altar. Os

grupos de congados se retiraram da

Igreja e houve o último dia da Novena.

Após a novena, no adro da Igreja da

Confraria, os Confrades do Divino,

liderados por Marcio Guadalupe

Valentim (mordomo do Mastro da

Bandeira), ergueram a bandeira com o

Mastro em frente à Igreja. “Reza a lenda

que a bandeira ira rodar no entorno do

mastro e para a direção que ela apontar

será de onde virá novo Imperador do

Divino” disse Rhelman Queiroz imperador

do divino em 1998. Após o levantamento

do Mastro da Bandeira, como a

tradição manda, houve o tradicional

leilão e retreta, neste ano, a Corporação

Musical São Vicente de Paulo de

Passagem de Mariana abrilhantou a

festa.


Os devotos do Divino vão abrir sua morada...


Pra bandeira do menino ser bem-vinda,

ser louvada, ai, ai...


10

Deus nos salve esse devoto pela esmola

em vosso nome...


Dando água a quem tem sede, dando pão

a quem tem fome, ai, ai

Cadeiral da Sé - Caetano Estrucos 11


O Domingo de Pentecoste, dia 04 de

junho, desde as primeiras horas da

manhã um grupo de Confrades do Divino

Espirito Santos, vestindo terno e com

suas opas e capas, já organizavam a

procissão do Divino Espirito Santo –

Cortejo do Imperador, na Praça Minas

Gerais. Anjos, pajens e todos os confrades

do Divino são posicionados em um

grande cortejo que foi guiado pelo

Imperador e sua corte até a Igreja da

Confraria, desta vez a Rua Dom Silvério

já está enfeitada com tapetes de serragem,

como manda a tradição.

O novo Imperador que vai ser coroado

vai à frente do cortejo sem coroa e o

antigo imperador, se posiciona no final

da Procissão levando a coroa que vai ser

usada na Missa de Pentecostes e coroação

do novo Imperador.

A procissão foi acompanhada pela

corporação musical União XV de

Novembro.

Antes do Início da missa, houve o sorteio

da corte do Divino de 2018,

Na missa solene, conduzida pelo cônego

Nedson, houve,a Benção de Pães e

Medalhas do Divino para distribuição aos

fieis, Coroação do imperador e a

Coroação do sagrado Coração de jesus

pelo novo Imperador.

Após a Missa, no adro da Igreja da

Arquiconfraria, a união XV de novembro

abrilhantou a festa com uma retreta.

A tradicional Festa do Divino Espirito

Santo, em Mariana, reúne elementos da

tradição católica, das tradições afrobrasileira,

sincretismo religioso, fé,

participação popular e devoção. A

dedicação de confrades e pessoas

comuns para que a festa se realize,

mostra que a cultura secular do povo

mineiro, ainda, encontra raízes fortes em

Mariana.

Parabéns a todos que, de uma forma ou

de outra, participaram da Festa do Divino

Coroação do Imperador 2017 - Sr Marco Mol

A festa do Divino Espírito Santo é a

única que comemora o futuro - algo que

ainda vai acontecer. Todas as demais

festas populares comemoram um fato

que já aconteceu - alguma vitória ou

momento marcante de um povo ou

nação ou o feito de alguma pessoa

(santo, herói ou líder). Mas a festa do

Divino é a única que celebra o futuro. A

Coroação de um Novo Imperador

renova a esperança.

"Podemos dizer que é uma festa

profética, que fala de um tempo em que

o mundo será governado pelo Espírito

Santo de Deus, ou seja, será o Reino de

Deus na Terra, por isso será um mundo

justo, bom, belo e verdadeiro".

Prof. Cláudia Pacheco

12


Igreja da Arquiconfraria


Capela de Nossa Senhora Rainha dos Anjos

Coube à Arquiconfraria do Cordão de

São Francisco, fundada em 1760, a

construção da primitiva capela,

provavelmente transformada em capelamor

do templo definitivo, cuja construção

se deu a partir de 1784, data em que a

A r q u i c o n f r a r i a f o i c o n s t i t u í d a

f o r m a l m e n t e . A i n e x i s t ê n c i a d e

documentação no arquivo da Igreja

relativa à sua época de construção,

impossibilita o devido esclarecimento

sobre os artistas que ali trabalharam,

bem como as etapas de evolução e

conclusão das obras.. Pode-se, todavia,

a partir de estudos comparativos,

suspeitar da participação dos artistas

Romão de Abreu, José Antônio de Brito e

Manuel da Costa Athaíde nos trabalhos

d a i g r e j a . E m 1 8 4 3 , d i a n t e d a

necessidade de reedificação do templo,

a Assembléia Legislativa Provincial

autorizou a concessão de duas loterias

para a realização das obras. Estas,

entretanto, parece que só tiveram início

em 1853, conforme indica o Livro de

Receita e Despesa da Arquiconfraria.

Pelo mesmo documento, pode-se inferir

que as obras se prolongaram até

1874/1875 e compreenderam a reforma

do frontispício, reconstrução da torre,

obras na capela-mor, no coro e nos

corredores, telhado, forro, assoalho e

grades. De acordo com o levantamento

feito pelo IPHAN, em 1949, todas as

paredes da capela-mor são de alvenaria,

com as cimalhas em pedra lavrada do

arco-cruzeiro para cima. A nave é de

adobe, até o telhado, com as cimalhas de

madeira, marcos e folha de caixotões,

com vidraças nas partes externas. A

c a p e l a , o c o r r e d o r d i r e i t o e a

d e p e n d ê n c i a d o s f u n d o s s ã o

assoalhados, enquanto a sacristia e o

corredor esquerdo são em cimento e

ladrilhos. Os marcos da sacristia são em

pedra e folha de almofada, o mesmo

ocorrendo com a capela do Santíssimo,

enquanto a capela-mor apresenta óculos

de pedra com vidros. O arco-cruzeiro é

todo de madeira. A torre, também de

adobe e com os pés direito em madeira,

é encimada por uma cruz de ferro.

Quanto à pintura, a capela apresentava

as seguintes características à época do

levantamento: as paredes externas

amarelas, a cal e ocre; as internas da

nave e corredores brancas, a cal; a

capela-mor com pintura a óleo, imitando

mosaicos; marcos, folhas e barras a

óleo, em cores variadas; altar-mor

dourado a purpurina; altares laterais

brancos, com fundo azul claro; capela do

Santíssimo com teto branco e paredes a

óleo, já desbotadas. Segundo o

historiador Salomão de Vasconcelos,

esta capela é a única de Mariana que

obedece ao tipo especializado de

frontispício quebrado em três planos, a

exemplo de Sabará, Santa Bárbara,

Caeté, Catas Altas, Conceição do Serro

e outras cidades mineiras. Apresenta

interior simples, com altares compostos

de colunas retas, arcos, capitéis e

rendilhado acompanhando o estilo das

colunas. Verifica-se, entretanto,

distinção entre o desenho dos altares,

podendo-se supor, ou que foram

executados em épocas diversas, ou

obedeceram ao gosto particular de cada

Irmão a quem tenha sido confiada a

decoração. O altar-mor é composto por

bela talha e abriga uma imagem antiga

de Nossa Senhora dos Anjos. Nos nichos

l a t e r a i s e n c o n t r a m - s e i m a g e n s

igualmente antigas de São Francisco e

São Domingos. Na sacristia, pintura a

óleo de excelente qualidade retratando

Nossa Senhora. Cabe destacar ainda,

quadro bastante expressivo, pela

concepção e execução artística,

representando São Francisco na

meditação e no êxtase, junto ao símbolo

da Sagrada Paixão e Morte de Cristo. Ao

lado direito e esquerdo da Igreja fica o

cemitério, onde estão enterrados os

Irmãos pertencentes à Irmandade.

A Confraria do Divino Espirito Santos é

responsável por todas as festividades de

Pentecostes, no distrito sede da cidade

de Mariana, as atividades são realizadas

no interior da Igreja e ruas adjacentes .

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Detalhe Órgão da Sé

Interior da Igreja da Confraria.


Encontro de Congado em Mariana

X - Encontro de Congado em 2017


Dentro da Festa do Divino Espirito

Santo, no sábado que antecede o Dia

de Pentencoste, acontece em

Mariana o encontro de congados.

este ano ocorreu a decima edição,

c o m m a i s d e 1 4 g r u p o s d e

Congados.

A história da Congada no Brasil vem

desde os tempos do Brasil Colônia e

escravocrata e constitui-se no

intercâmbio de elementos da religião

africana com elementos portugueses

difundidos no Brasil. A Congada é

c l a s s i fi c a d a e n t r e o s d i v e r s o s

folguedos: brincadeiras, divertimentos,

danças e cantos de improvisos

existentes na cultura brasileira.

Constitui-se como um folguedo de

formação afrobrasileira e destaca-se

pelas tradições históricas e míticas do

Congo. A prática desse folguedo é

c o m p o s t a p o r v á r i o s g r u p o s

afrobrasileiros: Congos, Marinheiros,

Moçambique, Vilões e Catopés, que

comumente são chamados de ternos.

Na Congada, os grupos, por meio de

danças e cantos, representam a

coroação de um rei do Congo. Essas

manifestações são realizadas em

espaço público e nos adros das igrejas,

muitas vezes contando com a presença

do padre no ato da coroação. Luís da

Câmara Cascudo classifica a Congada

como um fenômeno genuinamente

brasileiro quando afirma: “A Congada

nunca existiu na África”.

O congado tem uma origem luso-afrobrasileira,

uma vez que o catolicismo de

Portugal forneceu os elementos

europeus da devoção à Senhora do

Rosário, a Igreja no Brasil reforçou

essa crença, enquanto os negros, de

posse desses ingredientes, deram

forma ao culto e à festa.

X - Encontro de Congado em 2017


19

Grande parte do Brasil, a devoção à N.

Sra. do Rosário, Santa Ifigênia e São

Benedito é a característica do catolicismo

das Irmandades do Rosário em

Minas Gerais, vivenciada com certos

rituais africanos como a coroação de

reis e rainhas, uso de instrumentos de

percussão e execução de danças e

embaixadas. Na realidade mineira,

tem-se transformações e adaptações

decorrentes do processo histórico das

Irmandades. As Irmandades de N.

Sra. do Rosário exerciam um papel

importante durante todo o período

colonial , pois absorvia os negros e

era suscetível a introdução de rituais

não católicos em sua atividades. Por

isto que 90% dos congados no país

são dedicado a Nos do Rosário.

Quanto a diferênças é evidente que há

: no batido dos tambores, nos cantos e

ladainhas, nas vestimentas e cores

entre outros. Há um ponto a destacar:

O congado NS Rosário da Barroca é

u m a a t i v i d a d e t r a d i c i o n a l d a

Comunidade da Barroca ( Criado em

1904 na Cidade de piranga e depois

em 1940 levado para a Barroca), já o

Congado Nossa Senhora do Rosário e

São Sebastião foi criado a três anos e

ainda esta se afirmando como um

movimento cultural em Mariana.

Em Mariana, a tradição da congada foi

mantida pelo Congado de Nossa

Senhora do Rosário do sub-distrito de

Santo Antônio da Barroca, também

conhecido por Congado da Barroca.

Segundo as tradições em que se

baseia o congado de Nossa Senhora

do Rosário transmitida pelo depoimento

do Sr. Carbonato, este congado

originou-se no atual município de

Piranga. De acordo com ele, o José da

Silva Oliveira, morador daquele local,

em uma de suas visitas à Ouro Preto

como funcionário de um fazendeiro da

região, presenciou uma apresentação

do Congado de Chico rei.

Encantado com o ritual, José da Silva

Oliveira rogou que lhe ensinassem as

danças e embaixadas, levando para

sua terra aqueles saberes e fundando,

posteriormente, o congado em

Piranga.

Dando continuidade à história do

Congado do sub-distrito de Barroca,

conforme a tradição oral, após a

formação da folgança em Piranga,

Dona Paula da Cruz, avó do Sr.

Carbonato e então residente neste

município, foi escolhida para ocupar o

cargo de rainha, em 1904, no qual

permaneceu até o ano de 1940,

quando mudou-se para o povoado de

Santo Antônio da Barroca com toda

sua família e diversos outros moradores

daquela cidade. Dona Paula da

Cruz e seu compadre Antônio Pedro

decidiram organizar o congado na

localidade. Antônio Pedro também

participava do folguedo em Piranga e

acabara de se mudar para Barroca,

tornando-se o primeiro mestre de

congado do local. O congado foi

fundado em 1942 formado por vinte e

sete componentes.

O Congado de Nossa Senhora do

Rosário se apresenta essencialmente

em festas religiosas da região de

Mariana, principalmente nos festejos

em homenagem aos santos padroeiros

das localidades vizinhas.

Eventualmente o grupo se manifesta

no dia de Nossa Senhora do Rosário.

Contudo suas apresentações concentram-se

no mês de maio e início de

junho, quando o folguedo acontece

todos os sábados e domingos, até o

final da festa de Santo Antônio (13 de

junho), padroeiro do sub-distrito de

Barroca. Portanto, as atividades do

Congado de Nossa Senhora do

Rosário estão diretamente relacionadas

à celebração do dia do santo

padroeiro do seu local de origem.

Hoje em Mariana, há outro grupo de

congado, o Congado de Nossa

Senhora do Rosário e São Sebastião

que surgiu a pouco tem, mas mantem

a tradição dos Congados de Minas.


Tambores, cantos e ritmo


Cânticos e devoção


14

Arte Quartel de Dragões NS do Carmo - Cristiano Casimiro


23

Um dragão era um tipo de soldado que

se caraterizava por se deslocar a cavalo,

mas combater a pé. Inicialmente e até

meados do século XVIII, as unidades de

dragões constituíam assim uma espécie

de infantaria montada. Contudo, posteriormente,

os dragões transformaram-se,

passando de infantaria montada a tropas

de genuína cavalaria.

Hoje em dia, a designação "dragões" é

mantida como título honorífico de

algumas unidades cerimoniais.

História:

Talvez o antepassado mais remoto do

que viria a ser o dragão tenha sido o

dímaco (dimakhēs em grego) da antiga

Macedónia. O dímaco era um tipo de

soldado de cavalaria pesada que também

lutava a pé quando era necessário.

O termo "dragão" - como designação de

um tipo de soldado - teria aparecido em

meados do século XVI para se referir aos

membros do corpo de arcabuzeiros que

combatiam a pé e se deslocavam a

cavalo, criados em 1554 pelo marechal

de França Carlos 1º de Cossé, conde de

Brissac para servir no Exército do

Piemonte. A origem do termo é, contudo,

incerta, pensando-se que se pode referir

aos supostos dragões contidos nos

estandartes das tropas do conde de

Brissac ou a uma espécie arcabuz curto

ou carabina usada pelas mesmas e que

era então chamada "dragão". Também é

referida ocasionalmente a hipótese do

termo se ter originado do fato de um

soldado de infantaria a galope - com a

sua casaca solta e a mecha a arder ao

vento - se parecer com um dragão.

Quando, no início do século XVII, o Rei

Gustavo II Adolfo da Suécia introduziu os

dragões no seu Exército, dotou-os de um

conjunto multifuncional de armas que

incluía um sabre, um machado e um

arcabuz.

Estas primeiras tropas de dragões não

eram ainda consideradas parte da

cavalaria, mas sim infantaria montada.

Assim, as unidades de dragões mantinham

os atributos e características da

infantaria, por exemplo, usando tambores

em vez dos clarins e trombetas

típicos da cavalaria e sendo enquadradas

por oficiais de infantaria. Por outro

lado, a flexibilidade que os dragões

tinham como infantaria montada tornava-os

na arma ideal para servir como

uma espécie de gendarmaria em missões

de segurança interna, incluindo a

perseguição de contrabandistas, o

patrulhamento das estradas e a repressão

de desordens públicas. Sendo

providos de cavalos de qualidade inferior

e de equipamento mais básico, os

regimentos de dragões eram muito mais

fáceis de levantar e manter que as

dispendiosas unidades de cavalaria de

linha.

Contudo, os dragões estavam em desvantagem

quando enfretavam a genuína

cavalaria. Assim, procuraram sempre

obter melhores condições em termos de

equitação, armamento e estatuto social.

Na transição do século XVIII para o XIX,

na maioria dos exércitos europeus, os

dragões tinham evoluído já de tropas de

infantaria montada para verdadeiras

tropas cavalaria. Nesta altura, as antigas

missões de exploração e funções de

piquete anteriormente atribuídas aos

dragões tinham sido já assumidas pelos

hussardos, caçadores a cavalo e outras

unidades de cavalaria ligeira em exércitos

como os da Áustria, França e

Prússia. Os exércitos de Espanha e

Portugal chegam mesmo a abolir os

dragões transformando-os em regimentos

de cavalaria de linha. Inversamente,

com o objetivo de reduzir os seus gastos

militares, o Exército Britânico transforma

todos os seus regimentos de cavalaria

em unidades de dragões, que no entanto,

desempenham funções de cavalaria

de linha. Uma exceção foi o Exército da

Rússia, onde - devido à existência dos

cossacos - os dragões mantiveram as

suas missões originais.


Desenho do Quartel de Dragões da Vila de nossa Senhora do Carmo

Autor : Capitão de Dragões Joseph Ruiz de Oliveira - 15 de dezembro 1722

Arquivo Histórico Ultramarino de Portugal

A planta do forte apresentava a forma clássica das fortificações Portuguesas: um

polígono estrelado, com o ângulo reentrante . De suas torres poderiam ter uma visão

plena do Ribeirão do Carmo, das lavras de Mineração e das estradas , de um lado, para

Vila Rica e de outro para Itaverava.

24


O emprego da Cavalaria no Brasil durante

o período colonial restringiu-se,

inicialmente, à limitada atuação das

forças milicianas durante os séculos XVI

e XVII, em face da grande dificuldade

para a manutenção de unidades a cavalo

nos primórdios de nossa história. Este

quadro seria alterado no século XVIII

com a criação das unidades de Dragões

e da Cavalaria Auxiliar. No ano de 1719

Governador Pedro Miguel de Almeida - o

Conde de Assumar, recorre ao Rei de

Portugal, solicitando tropas de Dragões.

O Rei de portugal por Carta Régia de 24

de junho de 1719 cria na Vila de Nossa

Senhora do Carmo (Mariana) Minas

Gerais duas Companhias de Dragões,

estas companhias são constituídas

como tropa regular e disciplinada, encarregada

dos serviços de guarda, dos

registros, patrulhas, destacamentos e

para outros serviços diversos e, sobretudo,

para fazer respeitar as leis e a autoridade

do governo, devendo marchar em

caso de guerra, para onde este socorro

fosse preciso. Com, as revoltas a finalidade

de impedir a sonegação de impostos

e a institucionalização da violência,

bem como erradicar o clima de agitação

ora instalado na Capitania das Minas

Gerais. O Quartel da Companhia de

Dragões da Vila de Nossa Senhora do

Carmo primeiro Quartel de Dragões da

Capitania de Minas Gerais foi construído

em Mariana localizado na atual Praça

Minas Gerais para abrigar as referidas

Companhias de Cavalaria, sendo a que a

pastagem para os animais estendia até a

fazenda do Bucão. (Praça Minas Gerais

/Rua Dom Silvério e Colina do São

Pedro) O pátio de cavalhada e adestramento

de animais localizava-se na atual

praça Gomes Freire. O quartel construído

aos moldes da arquitetura militar

portuguesa tinha sua frente voltada para

o ribeirão do Carmo e torres de guarda

para o leste e oeste. Esta fortificação foi

demolida quando Villa N S.do Carmo foi

elevada a cidade de Mariana em 1745, e

o tração urbano foi alterado. As Terras

onde se localizava o Quartel dos

Dragões são adquiridas pela Câmara

Municipal de Mariana para construção

da atual Praça Minas Geral.

O batismo de fogo se deu em janeiro de

1720 em Pitangui (MG) quando ajudaram

a debelar o motim promovido pelo

revoltoso Domingos Rodrigues do Prado

(Feu de Carvalho - Ocorrências em

Pitangui).

Outras ação dos Dragões da vila de

Nossa Senhora do Carmo, que também

eram conhecidos co Dragões do Conde

de Assumar foi sufocar a Revolta de Vila

Rica, também conhecida como Revolta

de Filipe dos Santos em 1720. A revolta

contou com a participação de vários

integrantes do povo (principalmente

pessoas mais pobres e da classe média

de Vila Rica). Os revoltosos pegaram em

armas e ocuparam alguns pontos de

Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do

Ouro Preto (atual Ouro Preto, Minas

Gerais). O líder, Filipe dos Santos, foi

condenado e executado. O líder, Filipe

dos Santos, foi condenado e executado.

A Câmara Municipal de Mariana, no mês

de junho, homenageia a membros da

policia Militar de Minas Gerais, com a

Comenda Quartel de Dragões da Vila de

Nossa Senhora do Carmo. Este o evento

ocorrerá no dia 22 de Junho no Cine

teatro Municipal (teatro - Sesi) , às 18:30.

Desenho do Quartel de Dragões de NS do Carmo

25


A Escrita da Música e da Memória

Uma escuta guiada do acervo do

Museu da Música de Mariana


As discussões sobre o entendimento de

patrimônio e memória tem se tornado

cada vez mais abrangentes, sendo

incluídas as práticas musicais.

Podemos vê-las como manifestação

artística, religiosa, de entretenimento,

dentre outras presentes no cotidiano.

Como prática representativa das condições

humanas, pode trazer à tona

aspectos de interesse central sobre a

nossa cultura.

Na contemporaneidade o fator ‘diversidade’

tem nos exigido cada vez mais

atenção à visão das identidades. Diante

disso, uma das maneiras de se desenvolver

uma auto percepção é, certamente,

a capacidade de reconhecer a

nossa própria história. A maneira como

consumimos a música pode contribuir

em muito para criar e recriar representações

sociais. Não há um som que, ao ser

registrado, não tenha sido revestido por

alguma intenção. De alguma maneira,

provavelmente, faremos seu uso no

convívio interpessoal.

O encontro com a História da Música de

qualquer lugar, incluindo a brasileira,

pode propiciar, de muitas maneiras, que

se cruzem as histórias das pessoas.

Para se cumprir esta condição são

necessárias fontes, seja pelo acesso

multimídia, através da transferência de

dados, utilizando redes, ou MP3, CDs,

k7, Vinis, seja pela música escrita no

papel, enfim, mais do que as fontes, é

necessário que se desenvolvam métodos

consistentes para o seu trato e

entendimento. Há aí a condição de

acesso à uma preciosa prática cultural –

aprender sobre como outras pessoas,

com o passar do tempo, fizeram usos

distintos para as notas e durações

musicais, como foram feitas as combinações

para simbolizar os sentimentos,

os conflitos, e as sensibilidades pertinentes

ao seu tempo.

O Museu da Música de Mariana é uma

instituição na qual se realizam trabalhos

além da guarda da documentação. Visa

propiciar a mediação do seu acervo por

meio de estratégias dinâmicas, o que

faz com que se ultrapasse a finalidade

tradicional dos museus criados no

século passado, que se limitavam a

exibir, sem práticas de comunicação

eficientes, os objetos de seu acervo. Em

função da criação destas estratégias

para abordagens didáticas, visando o

público não especialista, a instituição

tem sido visitada como um espaço onde

as práticas da guarda, manutenção e

difusão da memória são realizadas de

maneira interessante e acessível. Ao

receber visitantes de diversas faixas

etárias, têm se desenvolvido metodologia

para despertar o seu potencial

afetivo/cognitivo. É proposta que os

ouvintes percebam as obras além da

função social atribuída pelo autor, que

sejam instigados a construírem suas

próprias representações, seu próprio

sentido e escuta da música em exposição.

Visita guia ao Museu

27


No caso da apropriação do Museu da

Música como laboratório, a materialidade

do fazer musical, ao ser explanada,

é capturada pelo sentido da audição na

apreciação musical. As exposições

garantem uma chance maior de termos

presentes ouvintes atentos, curiosos

pelas finalidades e usos das fontes

documentais, potencializando a transmissão

do conhecimento. Fala-se de

antigas formas de se tocar a música

que soam como absoluta novidade.

Nessas incursões pelo tempo, que

usam a música como fio condutor,

incluem-se grupos de visitantes de

quaisquer faixas etárias que busquem

compreender o que se desenvolve em

termos de prática de pesquisa no

cotidiano da instituição. Seguem,

assim, um roteiro de práticas musicológicas

para demonstrar outros “pontos

de escuta”.

A ideia das exposições como laboratórios

se deu em decorrência da própria

demanda pelo conhecimento vinda dos

consulentes, por meio da concepção

museal que norteia o trabalho desenvolvido

no MMM. Trata-se de laboratórios

visitáveis, uma concepção museográfica

vista pelo prisma educativo,

concebido pelo caráter informacional e

comunicacional da visitação.

Alana Lopes - aluna da E.E. Gomes Freire de Mariana

28


O conceito de informação é abordado

como um processo de produção de

sentido, que envolve intencionalidade,

comunicação, contexto e concepção de

mundo. Neste caso, um determinado

emissor tem a intenção de transmitir uma

mensagem que reflete seu sistema de

valores e códigos com o objetivo de

produzir um efeito multiplicador no

sistema do receptor. (ROCHA, 1999. P.

12)

Os visitantes podem acompanhar o

processo de planificação e higienização

dos documentos feitos por um profissional

da instituição. Vista de perto, é

demonstrada a importância das técnicas

de higienização para estabilizar os

documentos. Esta fase é considerada

essencial para remoção das sujidades,

pois há partículas que, quando depositadas

na superfície dos papéis, favorecem

várias formas de deterioração do suporte.

O agravo da situação pode ir desde o

aumento da umidade, ao desenvolvimento

de microorganismos, contaminações

atmosféricas, surgimento de oxidações

e acidificação.

Há uma série de problemas que podem

ser evitados com o processo de remover

o material que, de maneira geral, se

acumula como pó na superfície do

documento.

Em outro momento é apresentado aos

visitantes os principais tipos de deterioração,

tomando como exemplo, as fontes

do próprio acervo, ressaltando-se a

poeira, gorduras, manchas, ferrugem,

cola, deformações, rupturas, auréolas,

amarelecimento, biodeterioração, dentre

outras. Todos os processos exibidos são

precedidos pela demonstração das

reações físico/químicas que se desenrolam

em cada situação prejudicial ao

documento o que nos coloca diante de

uma abordagem multidisciplinar, tornando

possível o diálogo entre o conteúdo

abordado na exposição museográfica e

às discussões realizadas no tratamento

das fontes em laboratório.

Outro aspecto importante desta etapa –

por ser o primeiro contato do pesquisador

com o documento – é quando se tem

noção das condições em que se encontravam

antes de chegar à instituição. É

onde se tem início as questões em volta

das origens e finalidades do documento,

tomando por base serem fontes manuscritas.

Eis a primeira centelha para

alcançar as suas dimensões históricas,

tendo em vista que toda fonte primária

tem o seu trajeto temporal pregresso.

Instância indissociável da sua própria

existência.

Nem toda partitura é partitura!!!

Partitura é a unidade documental que

contém, superpostas, todas as vozes e

instrumentos de uma determinada

composição, enquanto parte cavada é a

unidade documental que contém a

música de uma determinada voz, instrumento

ou naipe.

Buscamos sempre analisar obras cujas

representações estejam nos registros do

nosso acervo, demonstrado o limite, por

vezes sensível, entre o documento e a

representação, ou manifestação de uma

obra. No caso, as partes cavadas de um

hino para a procissão do Corpus Christi,

pelo qual é possível inferirmos vários

aspectos relacionados à prática musical

referente a esta celebração católica

29


Em 1264 teria havido um fato considerado

milagre na cidade de Bolsena, no

qual a hóstia sagrada teria derramado

sangue no corporal (pano litúrgico que

apóia o cálice e a patena durante a

Missa). A partir do ocorrido Milagre de

Bolsena, passados poucos meses foi

instituída a festa de Corpus Christi pelo

papa Urbano IV. Como a hóstia simboliza

o Corpo de Cristo, a festa tomou esse

nome, tornando-se uma das mais

populares do calendário litúrgico, incluindo-se,

no Brasil, a cidade de Mariana,

onde se instituiu a primeira diocese

mineira.

Desde seu surgimento a música cristã é

uma oração cantada, que buscaria ser

realizada de forma pura e imaterial, com

devoção. O texto seria a razão de ser do

canto gregoriano, baseado no princípio

de Santo Agostinho de que “quem canta,

ora duas vezes”. O tom solene da celebração

do Corpus Christi baseou-se,

como de praxe, nessa forma musical. No

esteio da tradição, os textos tornaramse

também a razão da criação musical

dos compositores mineiros, que compunham

música sacra nos séculos XVIII e

XIX.

A imagem abaixo demonstra uma

página contendo a notação de um trecho

da música dessa cerimônia, na maneira

como se apresentava em livros impressos

ou manuscritos daquele período,

cujo objetivo seria organizar, sistematizar

e guiar as celebrações católicas.

Uma das práticas de aprendizagem

musical mais importantes desse contexto

foi, sem dúvida, o uso da cópia

manuscrita. Há vários manuscritos

musicais no acervo do Museu da Música

em que constam textos associados a

esses livros litúrgicos sendo eles principalmente

o “Gradual” (livro que reúne os

itens musicais da missa, diferenciandose

do “Missal” por excluir os trechos

cantados) e, em especial o “Teatro

Eclesiástico”, da pena de Frei

Domingos do Rosário, um dos livros de

Cantochão mais difundidos no Reino

Português entre 1743 e 1883.

Dentre vários documentos manuscritos

do acervo do Museu, feitos por copistas

que que se utilizaram dos textos destes

livros, encontra-se, em especial uma

cópia, possivelmente feita na segunda

metade do século XIX em Mariana. O

documento escrito em papel pentagramado

industrial possui 17,0 x 27,0 cm.

Há pequenas manchas de tinta e,

embora sejam visíveis marcas do uso, o

documento apresenta excelentes

condições de conservação.

Esta cópia não possui ainda a atribuição

nenhum um autor,em lugar ao título há

apenas indicação de um 1ª, deixandonos

deduzir que trata-se de uma primeira

voz, e que houve outras, embora a

cópia não esteja presente no mesmo

conjunto documental. A escrita,

demonstra domínio da pena, pulso firme

e caligrafia clara para o texto

30


31

Estrofe 1:

Sacris solemnis juncta sint gaudia,

Et ex praecordiis sonent praeconia:

Recedant vetera, nova sint omnia,

corda, voces et opera

Estrofe 4:

Dedit fragilibus corporis ferculum,

Dedit et tristibus sanguinis poculum...

O restante desta estrofe não consta

no manuscrito musical:

Dicens: accipite quod trado vasculum,

Omnes ex eo bibite.

Estrofe 1:

A esta sagrada solenidade unamonos

pela alegria

E da nossa alma irrompe o pregão da

vitória.

Morram os velhos hábitos, tudo seja

novo:

Corações, vozes e obras.

Estrofe 4:

A nossa fraqueza com a Sua própria

Carne, quis fortalecer

E suavizar a tristeza com a bebida do

Seu Sangue,

Restante da estrofe que não consta

no manuscrito musical:

“dizendo: tomai este cálice que Vos

deixo

E bebei todo dele.”


32

A celebração solene, da qual este texto musicado faz parte, ainda acontece

frente à igreja da Sé de Mariana e mantém o forte apelo popular, como

podemos ver na foto abaixo, com a presença do Arcebispo Dom Geraldo Lyrio

Rocha. Esta peça, provavelmente não soa mais nas comemorações, mas dá

mostra da riqueza da sonoridade de outros tempos, onde a música seria

sustentada em composições polifônicas para coro e orquestra, com

envolvimento da comunidade, demonstrando outros sentidos para sua função

artística e religiosa, nas práticas devocionais e sociais desse povo.


Museu da Musica de Mariana

Rua Cônego Amando,161- Bairro São José

www.mmmariana.com.br

31 3557 2778

33


Restauro dos Elementos Artísticos da Igreja do Rosário de Mariana

Teto da Igreja do Rosário - Obra do Mestre Athaíde


Iinicialmente uma devoção dominicana,

a partir do século XVI, o Rosário passa a

ser um dos principais meios de conquista

e conversão para com os chamados gentios.

Esse destaque que a devoção do

Rosário toma dentro das ordens missionárias

pode explicar, em um primeiro

momento, o sucesso alcançado por esta

invocação entre os convertidos. Mais

tarde os africanos colonizados e descendentes

parecem ter encontrado nas

irmandades dedicadas à Nossa Senhora

do Rosário um espaço próprio, reservado

a seu povo. As irmandades foram um

fenômeno típico do século XVIII e tiveram

especial abrangência no território

mineiro, tendo em vista a proibição das

Ordens Religiosas no território. Instituídas

nas matrizes, com seus santos

padroeiros entronizados nos altares laterais

das naves, as irmandades foram aos

poucos alcançando autonomia financeira

para construção de igreja própria. Curiosamente,

as irmandades de Nossa

Senhora do Rosário, são sempre as primeiras

a sair das matrizes e suas capelas

são construídas em locais afastados,

revelando a polarização inicial das populações

entre os brancos proprietários, ou

comerciantes, e os negros escravos. As

igrejas de Nossa Senhora do Rosário e

São Pedro dos Clérigos são exemplos de

igrejas mais recentes ocupando novas

áreas de expansão urbana no topo dos

morros.

Localizada na Praça do Rosário, a Igreja

Nossa Senhora dos Pretos de Mariana

foi construída entre 1752 e 1758 por iniciativa

das irmandades de São Benedito,

de Santa Ifigênia e do Rosário. Erguida

em alvenaria, ela pertence à terceira fase

do barroco mineiro, o estilo rococó. O

templo foi construído em alvenaria de

pedra. Os destaques internos vão para

as obras do pintor Ataíde e do escultor e

entalhador Servas.

Durante as obras de restauro da Igreja

que se iniciaram em 4 de janeiro de 2016,

contratadas pelo Instituto do Patrimônio

Histórico e Artístico Nacional, com recursos

do Programa de Aceleração do Crescimento

(PAC) das Cidades Históricas,

um anjo segurando uma guirlanda de

flores foi revelado. A tinta, que cobriu a

arte por anos, foi cuidadosamente removida

pela equipe de restauradores. A pintura

do século XIX foi localizada no retábulo

esquerdo, no fundo do camarim do

altar, e é atribuída, inicialmente, a Francisco

de Assis Pacífico da Conceição,

filho do Mestre Ataíde.

A obra foi executada pela Prefeitura de

Mariana, com recursos de R$ 1,6 milhão

do governo federal, valoriza os elementos

artíticos no interior da igreja, os altares

esculpidos pelo português Francisco

Vieira Servas (1720-1811) e o forro da

capela-mor de autoria de Manuel da

Costa Ataíde (1762-1830), o Mestre Ataíde.

‟Quando da minha participação nos trabalhos

pastorais na Igreja do Rosário, percebi

que alguns desenhos coloridos na parte

interna do altar de São Benedito, mas

nunca poderia imaginar que seriam estas

pinturas maravilhosa.”

Sérgio Clarindo Teixeira :

Membro da Equipe de Liturgia. (foto)

35


22

Altar de Santa Ifigênia


Altar de São Benedito

Altar de São Benedito23


Causos, Contos e Prosa

Nesta edição um ‟causos” da nossa terra. Este conto é

dedicado ao público infantil, mas muito adulto vai gostar.

38


O fantasma no Órgão da Sé

* Cristiano Casimiro

Esta história se passou na Catedral da

Se de Mariana, numa época que a

cidade que dormia cedo, junto com as

primeiras estrelas, ou logo depois da

missa da noite e o sino da corrida.

Tudo começou quando o Rei de Portugal

Dom João VI deu de presente a Catedral

da Sé um Órgão. Este Órgão construído

n a A l e m a n h a , f o i d e s m o n t a d o ,

encaixotado e mandado para o Rio de

Janeiro, de navio, e depois em lombo de

burro até Mariana. A chegada do

instrumento foi de grande alegria,

curiosidade e festejo na cidade.

O Órgão depois de montado, coisa que

deu muito trabalho, foi uma grande

atração nas missas e festejos religiosos

na Catedral da Se. O som do Órgão ficou

famoso em todas as Minas Gerais.

Com o passar dos anos o Órgão

estragou, e não tinha nenhuma pessoa,

em Minas Gerais e no Brasil, que

pudesse concertar o instrumento...

Sendo assim o órgão, parou de tocar nas

missas e festejos religiosos não tiveram

a participação do órgão. Então

instrumento passou a ser uma peça de

decoração na Catedral da Sé.

Numa noite, de muita chuva, após a

Missa. João Sacristão estava limpando e

arrumando os bancos da igreja quando

escutou um barulho que vinha lá do alto,

de perto do órgão, o barulho era mais ou

menos assim: PRUMM PRUMM

PRUMM PRUMMMMM.

João Sacristão olhou para cima, meio

desconfiado, e disse:

- Quem tá ai ?

Ninguém respondeu.

João perguntou novamente, com a voz

trêmula:

- Quem tá aí em cima ?

A Igreja ficou em um grande silêncio, e

dava para escutar até um mosquito

voando.

João voltou a sua tarefa de limpeza e

quando ele estava limpado o último

banco o barulho voltou com um som forte

que parecia sair do tubo mais grosso do

órgão...um barulho grave mais o menos

assim PRUUUMMMM PRUUUMMMM

PRUUUMMM.

João já tremendo de medo, se benzeu

duas vezes, pediu aos santos proteção e

gritou:

- Quem está tocando o órgão ? É Anjo?

O som do tubo do órgão ficou ainda mais

forte e toucou mais uma vez:

PRUUUM PRUUMM.

João não pensou duas vezes, mesmo

com suas pernas tremendo como vara

verde em noite de ventania, saiu

correndo pela porta principal da igreja

gritando: FANTASNMA ! FANTASMA!

João entrou pela rua direita , passou a

ponte de areia , sem olhar para trás ,sem

respirara direito, a única coisa que ele

fazia a l é m d e c o r r e r e r a g r i tar

FANTASMA ! FANTASMA NO ÓRGÃO

DA SÉ !

Subiu o morro do São Gonçalo, onde

morava o Padre Divino, o pároco da Sé,

como se fosse um cavalo a galope.

Bateu na porta da casa do padre e

relatou os fatos ao pároco, aos gritos e

bastante assuntado. O padre achou

muito estranho aquilo tudo...

Cristiano Casimiro

39


40

Órgão Arp Schnitger - Sé de Mariana - Marezza


O Padre vestiu a batina e desceu com a

João até a Igreja da Sé. Chegando na Sé

os dois entraram bem devagar, pela

nave da igreja, o padre na frente com o

crucifixo na mão e João Sacristão

agarrado na batina do Padre Divino.

Quando eles chegaram no meio da

Igreja o padre deu uma boa olhada em

tudo, virou a cabeça em direção a órgão

e gritou:

- Quem está ai ? (Não houve resposta)

O Padre levantou o crucifixo que levava

na mão e gritou com voz firme:

-Em nome do Cristo Crucificado, quem

está ai em cima?

Não houve resposta e nem barulho

nenhum no órgão.

O padre virou para João Sacristão e

disse com uma voz muito áspera:

- Senhor João, isto é algum tipo de

brincadeira de mau gosto? O senhor

está querendo brincar comigo?

João com a cabeça baixa e os olhos

cheios de lágrimas disse :

Não Sô Padre...O órgão tocou sim. Juro

por todos os Santos e pela alma da

minha falecida mãe.

O padre já nervoso com o ocorrido,

disse:

- Jurar em falso vai lhe levar para

profundezas do inferno seu infeliz.

Vamos embora que já está tarde.

Quando os dois já se preparavam para

sair da Igreja, o Órgão fez um barulho

assim:

PRUMMM PRUUMMM PRUMMM.

João Sacristão já saiu correndo e nem

olhou para trás. O padre arrepiou todos

os cabelos do corpo e começou a tremer

e, também, saiu correndo para fora da

Igreja.

Os dois só param no final da rua direita.

O Padre branco como uma cera e com

os olhos arregalados e João Sacristão

quase sem fala e com os cabelos em pé.

Passado o susto, João virou para o

padre e disse:

- É mentira? É mentira? O senhor não

ouviu com seus próprios ouvidos? Tem

ou não tem um fantasma que toca o

órgão?

- É João você tem razão (disse o Padre)

tem alguma coisa muito estranha

naquele órgão e o eu acho que não é

deste mundo. Vou contar tudo para o

Bispo amanhã bem cedo. Agora vamos

dormir pois já está tarde.

João perguntou ao padre:

- Sô Padre, A Igreja vai ficar aberta?

O padre respondeu:

- Vai, pois a esta hora da noite ninguém

vai querer ir lá, e se for vai ter uma bela

surpresa!

No outro dia pela manhã, João sacristão

já tinha contado para todo mundo sobre

o fantasma, e o assunto se espalhou por

toda cidade.

O padre relatou o ocorrido ao Bispo e

aos outros padres.

O Bispo mandou fazer uma vigília de

sete dias na Igreja da Sé e a cada duas

horas fosse rezada uma missa para as

almas dos mortos.

E assim foi feito durante uma semana.

Mas não adiantou muita coisa, pois

todas as noites o barulho grave do tubo

principal do órgão era escutados:

PRUUMMM PRUUMMM PRUUMM

PRUUMMM

Quando acabou a vigília de sete dias o

Bispo reuniu -se com todos os padres,

pois o órgão ainda continuava tocando e

muitas histórias estavam sendo

contadas sobre as causas do órgão

tocar toda noite. O Bispo perguntou aos

padres qual seria o motivo do órgão

estar tocando.

Uns disseram que era uma maldição de

um padre que morreu na Sé, outros

falaram que era o espírito do Arp

Schnigter que veio buscar o órgão e

ainda havia uma grande parte dos

padres que afirmava que o fantasma

estava ali , pois o órgão tinha pinturas

que não eram da religião católica,

pinturas chinesas, e que estas pinturas

vermelhas e douradas , eram coisa do

capeta e atraiam maus espíritos.

Bem depois de muita conversa o bispo

decidiu que as missas iriam continuar a

celebradas de duas vezes ao dia para

tentar livrar a Igreja do fantasma e que o

órgão deveria ser pintado de branco

para espantar os maus espíritos.

41


O Padre Divino e João Sacristão foram

incumbidos da missão de pintar o órgão

de branco, e assim o fizeram: montaram

um andaime dentro da Igreja, misturam a

cal com água para fazer a tinta... Nesta

mistura João Sacristão pôs um pouco de

água benta para que a tinta tivesse mais

poder.

Em três dias o órgão recebeu duas

demão de tinta e tudo ficou branquinho

como nuvem , nenhuma pintura chinesa

podia ser vista, foi tudo coberto por tinta

branca.

Depois da pintura, o órgão ficou sem

fazer barulho, não ouvia o PRUUMM

PRUUM mais. Todos pesaram que o

fantasma tinha indo embora e que tudo

estava em paz.

Já se passavam quatro dias sem barulho

no órgão , João Sacristão e Padre Divino

arrumavam o andor de Nossa Senhora

depois da missa,quando o Órgão fez

dois barulhos um forte com sempre

PRUUMMM PRUUMM PRUUMM e

outro fino PRIIIMM PRIIMMM PRIIMMM.

Um olhou para o outro, gritaram e

saíram correndo derrubando tudo que

tinha pela frente e só pararam de correr

no final da rua direita.Os dois brancos

como cera, não conseguiam nem falar.

Sentaram na ponte de areia até tomar

fôlego...

O Padre divino murmurou :

- Agora não é um fantasma são dois.

- E acho que e pai e filho, pois o barulho

de um é forte e o outro é fraquinho (disse

João sacristão)

Passando pela ponte de areia com suas

mulas de cargas estava Tião Tropeiro se

espantou com o padre e sacristão àquela

hora da noite sentados na ponte e com

cara de quem havia visto capeta. Tião

perguntou aos dois:

- O que é que vocês estão fazendo aqui

a esta hora e com cara que viram “ O

coisa Ruim”?

O Padre contou todo ocorrido para Tião.

Tião propôs ao Padre e João voltar à

Igreja e procurar o fantasma .

A princípio o padre relutou em voltar,

João não queria voltar de maneira

nenhuma.

Tião Tropeiro, homem muito valente e,

conhecedor de muitas simpatias contar

maus espíritos, disse:

- Eu vou lá ver este tal de fantasma. E

vocês?

O padre disse com uma voz firme:

-Nós também vamos (E segurou o braço

de João Sacristão, que tentava fugir).

Somos homens de FÉ e quem está com

DEUS não pode ter medo de nada.

João Sacristão murmurou:

- Um é valentão o outro é homem de

Deus... Esta confusão vai sobrar para

mim.

Quando os três chegaram à Igreja

parecia que havia um concerto lá dentro.

E r a P R R R U M M M P R R U U M M

P R R R U U M M p r a c á , P R R IIIMM

PRRRIIIMMM pra lá.

Tião Tropeiro disse:

- Para este órgão parar de tocar e só tirar

os tubos... E aí eu quero ver como este

fantasma vai tocar sem som. Vamos lá

em cima tirar os tubos!!???

O padre que já estava rezando desde

quando entrou na Igreja disse:

- Pelo Cristo Crucificado vamos.

João Sacristão respondeu:

- Posso ficar lá fora esperando par ver se

chega alguém ?

Fotografia do Órgão pintado de branco

42


Tião deu um puxão em João Sacristão e

os três subiram as escadas em caracol

até o côro, Tião na frente com um candelabro

na mão , o padre com um crucifixo e

água benta e João atrás com uma vela.

Quando chegaram no coro da Igreja o

b a r u l h o e r a e n s u r d e c e d o r :

P R R R U U M M M P R R R I I M M M

PRRUUUUUUUUUUUUUUUMMMMM

PRRRIIIIIMMMMM PRRUUUMMMM

RRIIIIIIMMMMMM.

O Padre divino começou a rezar o terço e

jogar água benta no órgão, João Sacristão

começou a rezar junto com o padre,

Tião Tropeiro pulou a grade de madeira,

que cercava o órgão, e começou a arrancar

os tubos.

Quanto mais força o Tião fazia para

arrancar os tubos mais o som ficava alto :

P R R U U U U M M M P R R R U U M M M

P R R R R I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I M M M

P R R U U U U U U M M M M M M

PRRRIIIIIMMMMM PRRUUUMMMM

RRIIIIIIMMMMMM.

Até que ele conseguiu arrancar o tubo

mais alto do órgão. Neste momento o

som parou e todos olharam no buraco

deixado pelo grande tubo ... Lá dentro

dois grandes olhos vermelhos apareceram...Os

três se afastaram e um grande

vulto preto começou a sair pelo buraco

deixado pelo tubo. Todos se abaixaram e

esconderam no coro....o medo na cara

de cada um era muito grande, parecia

que os três estavam vendo o “coisa

ruim”.

A Igreja ficou em um silêncio profundo...

De dentro do órgão um par de asas cinzas

saiu voando e deu a volta por toda

igreja ... logo depois outro par de asas

,menor, saiu do mesmo lugar e também

voou pela Igreja... Os dois bichos saíram

pela porta principal que João Sacristão

deixou aberta.

Tião Tropeiro virou e disse:

- Vocês viram o tamanho dela ? E do

filhote?

O padre meio sem graça disse:

- Não, eu estava com olho fechado

-João Sacristão pergunta Dela o que?

Da Coruja com seu filhote, era uma coruja

criada, das bitelas, devia estar aqui a

muito tempo, pois, até ninho fez e criou

filhote.

Depois de verificar todo órgão e de pôr o

tubo no lugar o mistério do fantasma do

órgão foi solucionado. Era apenas uma

coruja que fez o ninho dentro do órgão e

criou seu filhote. O barulho era, simplesmente

,o som produzido pela coruja, que

passava nos tubos do órgão. Assim na

Igreja acabou os barulhos no órgão da

Sé.

Mas dizem que em noite de lua cheia,

no período de quaresmas se ouve vários

acordes no órgão ... PRUMM

PRUMM PRUMM...

Cristiano Casimiro

43

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