LIVRO EMOÇÃO

VitorCorleoneBH

Escrito em 2013, o livro do artista traz casos que acontecem no cotidiano da vida das pessoas.

EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

EMOÇÃO

“CAUSOS” DO COTIDIANO

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Vitor Moreira, 2013


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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

EMOÇÃO

“CAUSOS” DO COTIDIANO

Vitor Moreira

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Emoção

“Causos” do Cotidiano

Direitos reservados para língua portuguesa:

Vitor Moreira

Revisão:

Capa: Vitor Moreira

Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, sejam quais forem

os meios empregados, sem a permissão, por escrito, do Autor

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Eis o novo trabalho do artista

Vitor Moreira! O livro Emoção –

“Causos” do cotidiano. Uma reunião de

pequenas histórias selecionadas pelo

autor para de uma forma bem-humorada

falar de assuntos que são cada vez mais

constantes no dia-a-dia do povo

brasileiro como política, segurança

pública, relacionamento interpessoal,

religião, avanço tecnológico, ética,

cidadania e amor nos tempos atuais.

Mais uma vez o autor não deixa

passar em branco a pessoalidade do que

escreve e sua personalidade ousada ao

criticar as falhas do sistema social

arraigado na Constituição, onde muitas

das vezes somente se preserva no

sentido de privilegiar alguns em

detrimento da maioria.

É certamente uma grande

emoção a forma com que mais uma vez

o cantor, compositor e escritor Vitor

Moreira presenteia o público com uma

jóia rara da literatura brasileira!

Outras obras do autor são Rei

Sitae – Onde A Coisa Se Encontra;

Frenesi – A Poesia da Vida; O Coração

Não Nega; Soneto, Convite Para Sonhar;

Quarenta Passos Até o Campo; É Que O

Amor Morreu No Belvedere; Petrúcio;

Desfragmentação – O Formigueiro de

Ilê-Ifé; O Lavrador das Lavras Vazias;

Carnaval em Raul Soares e Amor de

Veraneio – Uma História de Verão.

Completa o acervo do artista o trabalho

musical Marcas da Paixão de samba.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Universo Humano

Pintura do próprio artista Vitor Moreira, do ano de 2004,

onde conforme relata há a expressão de toda a sua criação

artística, baseada na unidade do universo interior de cada

indivíduo. Entende-se que cada indivíduo é bom ou ruim, tem

seus mitos, suas crenças e seu caráter, entretanto no interior de

cada um há o consenso, onde se nota que todos independente de

qualquer coisa, até mesmo da disposição das suas prioridades

de vida (posição dos astros, planetas, cometas) dentro do seu

universo pessoal idealizam um céu de estrelas, luz e mistérios e

uma Terra de prazer e realização. O Universo Humano é a base

de toda criação artística de Vitor Moreira.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

SUMÁRIO

O “diabo louro”......................................................10

O problema não é a bebida, é o problema...........16

Ele era de fé............................................................22

Era meu grande amigo e nem lhe conhecia.........27

O cachorro fugiu, não o marido, Jurema............34

Não te amo mais, ficarei com a televisão.............41

Bolinho de bacalhau..............................................46

Amigos também sussurram no ouvido.................48

Violão, roça e cachaça de alambique...................53

Mudar de vida.........................................................57

Perseguição.............................................................65

Quem trabalha não precisa pedir.........................74

Ou ele ou eu, aos sábados......................................79

O plano do plano de saúde....................................83

Fiquei careta, e agora?..........................................86

A pegadinha do falso cigarro................................91

Ái meu fusca!..........................................................98

“Moreno” só tem um.............................................102

O galã......................................................................106

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

O “diabo louro”

Havia uma favela muito perigosa naquele

bairro onde nenhum morador gostava da policia!

As viaturas constantemente se deslocavam para

lá com a intenção de averiguar a situação do

crime ou prender um traficante. As pessoas,

moradores daquele local perigoso jogavam

pedras, ovos, tomates podres e objetos...depois

saiam correndo gritando e se escondiam nos

becos e vielas, como se fossem eles os

responsáveis pela violência.

Todo domingo havia um samba no barzinho

do Tinoco, um velho bicheiro que promovia jogo

de baralho e purrinha. Porém agora não há mais

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

porque ele está pagando serviços comunitários

depois que seus jogos foram descobertos.

Aquele novato, acabara de ser transferido

pra sua cidade natal após um longo período

trabalhando no interior e tentativas frustradas de

voltar pra essa cidade...até que a insistência com

o tempo foi atendida muito a contragosto pelo seu

chefe de policia lá no interior do Estado.

Conhecia aquele lugar, e bem, pois há muito

tempo, muitos anos atrás nos dias de criança

aquilo ali era pacífico, tudo era movimentado!

Havia barracas de produtos contrabandeados

sendo vendidos livremente, uma quitanda de

frutas bem simples, plantadas no fundo do quintal,

um velho que sempre ficava pitando cigarro de

palha na varanda de seu barraco, algumas

meninas brincando de ciranda na pracinha e até o

campinho de terra onde as crianças jogavam bola

perto do lixão municipal enquanto que longe dali

um ou outro adulto fumava um cigarro de

maconha ao velho estilo do Bob...

Os tempos mudaram. E agora ele olha pela

janela do banco do passageiro da viatura de

policia, usando seu uniforme vermelho. O mesmo

lugar onde antes jogava bola no campinho do

lixão, tudo tão mudado, repleto de pichações e o

campinho já não existe porque a prefeitura

expandiu o lixão, a pracinha virou matagal porque

a grama não foi podada, as barracas sumiram,

assim como o barraco do velho homem que

gostava de ver o movimento da rua principal

daquele lugar enquanto pitava cigarro de palha.

Um dos policiais da viatura, velho de casa,

com um cargo alto de chefia na policia,

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EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

trabalhando nesta região há vários anos, inclusive

antes das mudanças, nos tempos da Ditadura

ainda, extremo conhecedor do serviço naquela

área tão perigosa diz sempre que tudo começou a

mudar quando o “diabo louro” trouxe a droga pra

cá após seu pai ser morto por uma bala perdida

enquanto dormia. O pai dele era uma espécie de

líder comunitário muito influente, que acreditava

em alguns ideais e sempre batia de frente com os

poderosos para garantir saúde e bem-estar aos

moradores daquela favela. Possuía uma rádio

pirata que transmitia notícias de interesse dos

moradores e tocava umas músicas que ele

comprava na mão dos camelôs no centro daquela

cidade, tudo pirateado porque não tinha dinheiro

pra comprar os CDs originais. Além disso fazia

pequenos furtos fora da favela. Dizia sempre na

rádio que aquelas pessoas mereciam um centro

de saúde, um cuidado maior da prefeitura,

empregos, respeito, dignidade, cidadania...

Então passado um tempo o “diabo louro”

estabeleceu a sua boca de fumo. Dizem que tem

escolta armada e hoje há uma rede de tráfico

muito grande, conforme relata o chefe da policia

naquela viatura. Não há quem nunca tenha ouvido

falar do “diabo louro” na policia daquela cidade.

Era um homem terrível! Desprezível! Perigoso! –

diziam.

Dizia o chefe que ninguém ali prestava, que

nada de bom jamais sairia daquele lugar, pois os

moradores acobertavam a criminalidade do “diabo

louro” em troca de remédios, mantimentos, carne,

carvão, panelas, bebida, botijões de gás, entre

outros favores. Na verdade essa é a tendência em

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EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

áreas de risco porque ninguém quer se expor,

denunciar, revelar o que há de errado e ser morto

em seguida. O Estado e o município não estarão

ali todo o tempo e ao virar as costas...uma

saravada de tiros, um golpe de faca. E quem é o

estado com toda a sua competência pra dar

dignidade a um favelado? Isso é o que

acreditavam os moradores dali, e se inclinavam

para quem mais lhes proporciona vantagens.

Sentado num banco estava o “diabo louro”

sem a sua escolta armada, tomando um copo de

cerveja calmamente. Era domingo. Os policiais ao

avistarem-no, se assustaram, tomaram um

choque e já pegaram as armas pra se defender do

perigoso bandido, que estava desprotegido no bar.

Só o novato não o conhecia. Havia acabado de

retornar para a cidade, estava em período de

adaptação e por isso ficou fazendo a segurança

dos outros. Rapidamente o abordaram e

começaram a revirá-lo procurando armas e

drogas. Com ele havia alguns trocados apenas,

um celular barato e dois cigarros. O novato ficou

atrás fazendo a segurança enquanto que os

experientes procuravam em seus bolsos, nas

imediações, apertavam as articulações daquele

homem tão cruel para que revelasse qualquer

indício de algo errado para prendê-lo e acabar

com toda aquela violência que existia na favela.

Queriam fazer aquele lugar voltar a ser o que era

antes, queriam proporcionar bem-estar para a

população do lugar e livrar todas as pessoas do

indivíduo maléfico.

Não havia nada com o “diabo louro”, porém

aquele policial mais velho e de alta patente

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EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

chamou o outro que dava buscas em um canto

para conversarem sobre o que fazer com o

perigoso bandido e devolver a paz para o lugar.

Queria de todas as formas usar sua influência para

resolver os problemas daquela gente.

O novato então se aproximou para ver a

fisionomia do “diabo louro”, pois conhecia bem

aquele lugar, que era o lugar onde sempre

passava para ir para o campinho jogar bola com

os amigos de infância e onde ficava a escola pobre

onde sempre estudou desde criança. Ali perto era

também a lojinha de muamba do seu pai e ele

sempre levava o almoço por volta das treze horas

pontualmente.

- Nossa é você? – disse o “diabo louro”.

Surpreso e um tanto nervoso por estar perto

de um homem tão perigoso, dono do morro, o

novato respondeu:

- Sinto muito, não o conheço.

- Sou eu Joaquim, o Lorim. Jogava no seu

time lá no campo, lembra? Eu era o atacante,

baixinho! Cansei de receber bola sua pra fazer gol

pro nosso time. Nossa, você jogava muito bem! Eu

era seu fã! Até hoje guardo de lembrança aquela

chuteira velha que não te servia mais e você me

deu de presente porque eu não tinha.

- Não está me confundindo com alguém?

- Não. Tenho certeza que te conheço, eu já

almocei na sua casa uma vez, lembro até hoje,

havia bife com batata frita, jogávamos no mesmo

time ali onde era o campinho. Lembro até onde

morava. Era lá perto da rua da escola. Direto eu

via você no intervalo do recreio indo até a

biblioteca pegar livro. Eu estou muito feliz em te

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EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

ver de novo depois de tantos anos! Eu sabia que

você iria estudar! Eu sabia que iria ser alguém na

vida! Parabéns meu amigo! Vou contar pra minha

mãe que eu te vi, ela nem vai acreditar que você

virou “gambé” e já está num cargo de chefe, ela

nem vai acreditar.

Então o chefe de policia olhou surpreso para

os dois, mais espantado ainda por saber que o

novato crescera naquele lugar que tanto difamou

e era quem mais conhecia o homem perigoso que

mandava e desmandava naquela favela.

- Você definitivamente está me confundindo

com alguém. Não conheço você e nem conheço

esse lugar, pois sou um homem da lei e você é um

criminoso perigoso! Afaste-se. Aliás, perigoso e

jogava muito mal! Aquele dia contra o time da vila

Formosa quase ganhamos o jogo e você foi errar o

pênalti aos quarenta e três minutos do segundo

tempo. E mande um abraço pra sua mãe, tenho

saudades dela. Diga que estou bem.

- Atenção todos: embarcar. Vamos embora.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

O problema não é a bebida, é o problema

Com Fábio Nogueira

Hoje não vou beber nenhuma dose de

bebida alcoólica para esquecer desse problema

tão grave! Problema que tem me perseguido no

âmbito pessoal e se tornou motivo dos meus

dissabores sociais e humanos! Problema este pelo

qual estou passando nos últimos tempos e que

tem perturbado tanto os meus pensamentos, dia

após dia, a ponto de deixar a vida repleta de

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

desilusões e provocar depressão em alguns

momentos, me fazendo até chorar, segurar os

cabelos derrotado ao sentar na cadeira e

desabafar em silêncio uma sensação de desgosto

por tudo que há neste mundo.

Persegue-me ao acordar e em tudo que vou

fazer. Sinto-me triste! Queria uma solução para

isso tudo, para esse problema tão devastador em

minha vida. Problema que não tem coragem de

olhar em meus olhos ou se materializar em minha

frente para eu derrotá-lo.

Desde que isso tudo começou, todos os dias

eu tenho enchido a cara nos bares da vida pra

tentar esquecer do problema. Isso está me

prejudicando financeiramente, porque a minha

conta de pendura no bar está cada vez maior,

extrapolando o planejamento financeiro que eu

sempre mantive e o pagamento vem aí. Talvez o

dinheiro nem dê para pagar tudo que estou

devendo.

No mês passado a pindura do bar foi três

vezes maior que nos meses anteriores. Tudo por

causa desse problema pelo qual estou passando e

que até agora não tem solução. O único alívio tem

sido a bebida.

Na hora que chego do trabalho, os

pensamentos sobre o problema estão pesados!

Eles ficam sufocando minhas artérias, apertam o

pescoço, deixando a fala difícil e o olhar sem

brilho. Tira minhas armas de defesa, mas eu não

vou vangloriar o problema, pois isso o faz feliz! Ou

faça a todos eles, porque já nem sei se é somente

um problema ou um círculo de problemas. De

problema oficial só sei de um.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Traiçoeiros que são me fazem querer beber

muitas doses de qualquer coisa que contenha

bastante álcool, para esquecer do problema que

estou enfrentando e poder ao menos sorrir um

pouco ou ter a curiosidade de ler uma notícia no

jornal ou pensar em mulheres.

No outro dia pela manhã vem a ressaca.

Uma sensação terrível de arrependimento! Aquela

dor de cabeça forte, principalmente na fronte.

Bebo água constantemente e o problema começa

a surgir de novo quando a sonolência se passa e

me dou conta da burrada que fiz. Queria uma

espada de prata para cortar esse mal pela raiz!

Descer da cama se torna difícil, pois o corpo

sem forças, após uma noite mal dormida e várias

idas ao banheiro no meio da madrugada para

urinar, ou com ânsia de vômito, prefere continuar

na cama a enfrentar os desafios de mais um dia

pensando no mesmo problema. O que agrava é

que o problema vem e parece dividir comigo a

cama, roubando inclusive os lençóis e me

empurrando para fora do meu próprio leito, me

deixando encolhido no frio da madrugada.

Sim! Se me levanto é pra ver se ele fica lá

na cama e termine essa perseguição implacável à

minha pessoa.

Ao almoçar a comida passa com dificuldade

pela garganta e tem gosto amargo por causa do

meu estado. O suco parece que nunca ficará doce

mesmo após várias colheres de açúcar. A diabetes

que ainda nem nasceu sorri no seu germe!

Quando a tarde chega já estou mais

recuperado apesar da fadiga, e nessa hora quando

vai escurecendo, os pensamentos sobre o

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

problema se tornam muito intensos! Difícil

encontrar uma saída para resolver isso tudo.

Vai crescendo uma sensação de vazio por

dentro, e nessa hora, vendo a noite cair, o

problema ocupa totalmente os quartos da casa, a

sala, até mesmo a visão da rua. Pessoas

conversando, até parece que falam do meu

problema.

E então eu saio para esfriar a cabeça e parar

de pensar nesse problema tão grave que me tira o

gosto pela vida em alguns momentos, quando a

depressão é mais evidente, e de tanto pensar no

problema até tropeço nas pessoas na rua quando

estou à pé, ou então quase bato o carro ao passar

por um sinal vermelho, num cruzamento nas ruas

do bairro.

E já embebido de stress eu paro no bar e

encho a cara. Ali eu vejo a solução noturna para

acabar com o meu problema que não me dá

vontade de viver.

O álcool leva embora em questão de

minutos tudo de ruim, aquilo que persegue minha

liberdade, e nesse momento até a voz fica mais

forte, mais firme, e já não há aquela fraqueza e

tristeza que a afina como voz de criança ao

receber uma bronca dos pais.

Uma imagem suave, de iluminação calma no

interior do recinto! As pessoas lá dentro, bem

vestidas ou não são todas importantes! Artistas de

um cenário que agrada os olhos do público que

sou eu! O ar se apresenta macio e o cheiro do

cigarro tantas vezes repudiado se torna gostoso,

porque lembra calma e relaxamento. Barulho de

copos, barulho de bebida caindo dentro do

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

copo...a espuma...o gelo...o limão...o torresmo...a

solução para o problema...

Quando o problema vem de forma mais

tenebrosa, ali no bar mesmo peço uma garrafa de

refrigerante. Às vezes até bebo o líquido em seu

interior, porque na verdade o que interessa

mesmo é levar a cachaça pra casa dentro daquela

garrafinha para a eventualidade de no meio da

noite, ao sonhar com o problema, acabar

perdendo o sono e não conseguir mais dormir, e

acordar com horríveis olheiras!

Hoje estou decidido a não beber. Vou sair

pela cidade como tenho feito todas as noites

desde que esse problema começou, mas vou

evitar passar em frente ao bar. Sei que ali dentro

está o remédio para o dia de hoje, mas não irei

até lá.

Quando eu olho em seu interior, vejo uma

sensação de cura e libertação que me agradam,

me deixam aliviado! Então, já sobrecarregado pelo

problema vou até lá para abrandar as tensões do

corpo e do espírito, sorrir um pouco, contar casos

do cotidiano que não tem relação alguma com o

problema e relaxar um pouco, tirando a tensão

dos ombros e respirando fundo, sentindo voltar o

prazer pela vida! A emoção renasce!

Quero me erguer, encher o peito, olhar para

o horizonte e não enxergar o problema, sacudir a

poeira dos pés, olhar meu rosto no espelho e

ajeitar os cabelos, ajeitar a gola da blusa e a

manga, um olhar altivo, uma expressão jovial nos

lábios e no rosto, uma postura mais realizada!

Sentir-me um verdadeiro galã e ter prazer em

caminhar pela rua!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

E embora todas as noites eu tenha feito a

mesma coisa, em relação aos meus desejos de

superação, sempre frustrados após o passeio, sei

que hoje será diferente! Hoje eu estou mais

decidido que ontem, e mesmo que hoje os

pensamentos sobre o problema estejam mais

fortes que nos outros dias eu sei que vou

conseguir.

Nos dias anteriores tentei também manter

firme o meu propósito, mas o pensamento sobre o

problema foi mais forte! Acabei indo parar no bar

e bebi muito, a ponto de ter dificuldade para ir

embora.

Sei que hoje a perturbação está mais

evidente que nos outros dias, mas hoje eu vou

conseguir.

Eu preciso conseguir!

De repente hoje ao caminhar o problema

resolva ser solucionado. Quem sabe se ao pensar

nesse problema durante o passeio eu encontre

uma resposta que me fará dormir melhor hoje. Só

não quero beber hoje, e resolver esse problema o

mais rápido possível...

Fecho o portão da casa e guardo as chaves

no bolso. Então vou seguindo a rua em direção à

avenida...

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Ele era de fé

Ele era de fé! Toda quarta-feira vestia sua

roupa branca, colocava os adereços no pescoço,

sua guia. Acendia um incenso de Anakanan.

Passava uma alfazema no pescoço e ia pro

terreiro, lá do outro lado do bairro.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Deitava pro santo, batucava o tambor,

rodava, cantava.

Uns reprovavam e diziam: está aí o

macumbeiro! Lá vai prejudicar a vida dos outros.

Colocar contenda e trazer mau-olhado para as

nossas inocentes crianças. Lá vai ele.

Resmungavam: lá vai fazer barulho e o que

não é lícito. Alguém devia é chamar a polícia pra

esses arruaceiros que ficam até tarde

cantarolando e chamando espíritos.

O que é lícito? O que é o certo e o errado?

Alguém poderia dizer com elementos de

convicção?

Acreditar em algo é lícito. E aquele homem

era de fé!

Não falava mal dos outros, filho de Oxossi,

entidade representada por um nativo caçador, rei

da mata, oriunda das religiões africanas da

antiguidade. Dizia que era de fé e acreditava na

purificação do corpo e da alma através da fé.

Um outro disse que não ficaria rico com a

sua religião.

Ele então agradecia e dizia que se fosse

assim seria feliz porque a vontade do criador

estaria sendo cumprida. Que a vida é

peregrinação e sofrimento dia após dia para a

purificação e remissão dos pecados. Que a

prosperidade vinha do talento e não era dada pelo

céu de mão beijada, era o homem que deveria

buscar o progresso com o trabalho.

Ele era de fé sim! Dizia que religião é o que

escolhemos acreditar e não aquilo que é imposto

pela colonização ou pela própria sociedade em

que vivemos. Não aceitava que o proibissem a

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

crença, porém não criticava quem o criticava,

apenas sorria, como se subjugasse a ignorância

alheia com classe e cortesia!

Contava que na época da escravidão os seus

antepassados cultuavam as divindades africanas

escondido, sob o aspecto de imagens de santos da

igreja que mais se pareciam com elas. Falava dos

caboclos que protegiam as matas e mares.

Tinha um aspecto sereno e estudava muitos

livros. Queria conhecimento de muitas coisas.

Nunca pendurava conta no bar nem na

farmácia e nem na padaria. Dizia que não queria

ser motivo de discórdia porque isso desagradava o

seu orixá. Dizia que algumas pessoas não lhe

tinham bons olhos pela sua religião, e que embora

fosse um homem de fé as outras pessoas estavam

cheias de maldade.

Mas o que é certo: acreditar ou criticar? A fé

conforme ele falou é aquilo que escolhemos

acreditar. Uns poucos aí tentando minimizar o

homem, mas quem tem a fé verdadeira senão

aquele que busca a sua crença com o coração

limpo e sem menosprezo pelos outros?

Eu só sei que ele era de fé! Nunca deixava

de ir ao terreiro nas quartas-feiras. Quando

voltava e passava pela rua até mesmo o ar ficava

com cheiro de ervas e incenso, acho que guiné,

jurema e benjoim.

Vários cordões no pescoço, verde, marrom,

vermelho e branco. A roupa sem manchas e uma

expressão alegre.

Ao passar pelo bar ainda cumprimenta a

todos e toma uma dose antes de ir embora,

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

jogando é claro a parte do santo no cantinho da

parede.

Ele era de fé! Acendia o incenso dentro de

sua casa sempre no mesmo horário, não passava

um minuto sequer. Cantava suas músicas, fazia

sua reza, untava a bandeja com dendê e

preparava oferendas para seus santos.

Como pessoa ninguém tinha do que

reclamar, exceto um que morava na casa em

frente e sempre o criticava, dizendo que sua vida

não prosperava porque certamente havia uma

macumba da parte do homem. E ele pagava suas

contas em dia e até emprestava dinheiro quando

alguém estava necessitado. Dia 27 entregava

muitos doces para as crianças, sorvete, balas,

bombons. Contratava um carrinho de algodão

doce pra ficar o dia inteiro por conta das crianças.

Vinham crianças até de outros bairros e formavase

uma multidão de meninos pobres em frente ao

portão de sua casa.

Alguns diziam: vai envenenar as pobres

crianças famintas com esses doces cheios de

maldade.

Outros resmungavam: infelizes os pais que

permitem que essas crianças aceitem doce na rua

de uma pessoa tão ruim e que faz maldades

atrasando a vida dos outros.

Ele gostava de ser um homem de fé. Embora

algumas pessoas lhe fechavam os rostos, ele

sempre sorria para todos na rua e cumprimentava

a todos, sempre educado e cortês.

Então morreu ano passado de velhice aos

noventa e seis anos. Seu último desejo foi ser

cremado e suas cinzas jogadas no mar em dia de

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Iemanjá junto com muitas flores. Veio gente de

longe para o seu velório e cremação. As pessoas

então na rua não tinham mais de quem falar mal e

tudo ficou sem graça, as crianças sumiram da rua

no mês de setembro, o cheiro de incenso que até

era gostoso sumiu da rua e todo mundo sentiu

falta dele.

Aquele lá que morava em frente à casa dele

se sentiu sozinho. Quando viu que tudo estava

perfeito no que reclamou por anos em relação a

ter sido vítima de uma suposta macumba, viu que

sua vida não mudou em nada financeiramente

com a ausência daquele macumbeiro. No fundo

gostava do vizinho, admirava o seu sorriso, sua

simplicidade e principalmente a sua fé e devoção

à sua escolha religiosa. E viu que faltava a

presença dele lá do outro lado da rua, pitando seu

cachimbo todos os dias à tarde lá pelas cinco

horas, cumprimentando a todos que passavam

com um sorriso sempre tão espontâneo no rosto e

olhar sereno.

A religião não era o problema, era o motivo

para descarregar as angústias da vida, uma forma

de externar parte da raiva que existe dentro de

cada um.

E no fundo gostava dele, e hoje todo mundo

da rua sente falta daquele velhinho simpático e

bem humorado, que hoje é espírito de luz da

falange dos pretos velhos.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Com Tiago Prado, Lulu e Rose Assunção na roda de samba do Restaurante Xavier

Era meu grande amigo e nem lhe conhecia

Nos dias modernos em que estamos

vivendo, a tecnologia entra cada vez mais fácil e

rápido em nossas vidas! Tanto que quando

compramos um aparelho, achando que estamos

adquirindo algo de última geração, em poucos

dias surge um outro mais moderno e eficiente

ainda!

Lembro que no meu tempo de adolescência

possuir um celular estilo tijolo de construção

balançando na cintura, preso ao cinto era um

sinônimo indiscutível de um status econômico

diferenciado! Em outras palavras: pesava uma

tonelada e estava deixando quem usava até

corcunda, mas, “tô pagando”.

E aí veio o avanço tecnológico e com ele as

mudanças se tornam cada vez mais notáveis. Para

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

se ter um exemplo, outro dia eu passava de carro

e havia um pedinte no sinal, e aí o celular do

pedinte tocou e ele parou seus afazeres para

atender a ligação, que por sinal parecia muito

interessante porque ele foi para a calçada e

conversava aos sorrisos altos com quem quer que

seja que estava do outro lado da linha.

Eletrodomésticos, computadores, laptops,

notebooks, celulares, sons...e até amizades. Tudo

se tornou tão virtual que até a vida social deixou

as baladas animadas de sábado à noite para dar

espaço ao confinamento de um quarto vazio, luzes

apagadas, em frente ao computador, tendo ao

lado um pacotinho de salgadinhos e uma lata de

refrigerante.

Um abraço amigo é algo cada vez mais

extinto na sociedade moderna, e depoimento, já

não significa estar numa sala de interrogatório e

sim numa rede social virtual.

Eu também não fugi disso. E foi muito

inusitado! Acabei entrando em uma rede de

relacionamento onde conheci muitas pessoas! A

Cristiane de São Paulo, uma palmeirense fanática

com um corpo escultural de modelo! A Bruna, uma

carioca que eu pegava no pé sempre e o André,

um dedicado ou delicado professor de geografia

do Rio de Janeiro! Uma garota linda de

Pernambuco, o Pedro do sul do país, que era um

atleta do vôlei e também ensinava a crianças

carentes, a Ellen, uma cantora maravilhosa

também do sul do país! Páklis, que era nordestino

eu acho, Uriel, Mário (sem ser aquele do armário).

O Júlio, um colega de profissão que mora lá para

os lados de Conceição do Mato Dentro, a Rejane

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

que cheguei a conhecer pessoalmente, um

montão de gente que desfila na Estação Primeira

de Mangueira, minha escola do coração no Rio e

até dois americanos e alguns italianos, fora os

brasileiros espalhados pelo mundo afora que

sempre se comunicam com os integrantes da tribo

natal através do computador.

Então, fazendo amizades e descobrindo

novas culturas, acabei ficando muito amigo do

Rodrigo, um camarada muito gente fina, até da

mesma cidade que eu, a minha querida Belo

Horizonte, apesar da grande quantidade de sinais

que não me deixam dirigir dois quarteirões sem

ter que fazer uma parada e da pouca quantidade

de vagas de estacionamento que acabam com o

meu humor nos melhores dias da minha vida. Me

fazem xingar constantemente e explodir numa ira

incontrolável!

O cara era dos bons! Torcia para o mesmo

time que eu, tinha o mesmo estilo de música, os

mesmos gostos em relação às mulheres, também

gostava de uma cerveja geladinha acompanhada

de porção de camarão ao alho.

Mais um pouco eu iria pensar até que era

um clone meu, pela semelhança de

personalidades. Até o jeito de falar era parecido!

Um sujeito fenomenal! Acabamos

combinando de na última sexta-feira parar num

barzinho “copo sujo” no centrão da cidade para

jogar conversa fora e comer a famosa porção de

camarão ao alho que tanto gostávamos.

Eu nunca havia visto antes o meu grande

amigo Rodrigo pessoalmente, e na rede de

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

relacionamentos só havia uma foto dele de rosto,

assim como a minha também era de rosto.

Combinamos assim: trocamos o celular para

que ambos pudessem saber quem era quem na

hora de parar no buteco, sem essa frescura de “eu

vou com tal roupa”, porque isso é coisa de

camarada quando vai encontrar com a mulher e

tem medo que ela seja feia. Isso também é uma

cicatriz do mundo moderno.

E nós marcamos de lá pelas vinte horas

parar no Dourado, que é um barzinho lá no meio

do centro mesmo, aí ficaria fácil para os dois

estacionarem os carros.

Já no caminho, toda hora tinha que parar

num sinal de trânsito e parecia que o sinal ficava

mais de uma hora no vermelho. Isso tira o prazer

de qualquer um.

Quando o sinal abria, eu tentava acelerar

para passar o sinal seguinte ainda no amarelo,

mas era em vão. Parecia que havia alguém

fazendo hora comigo, brincando com os controles

do tráfego só para me deixar estressado. E estava

conseguindo. Mas nada iria me abalar, iria tomar

uns tragos com este grande camarada que

conheci na internet, muito gente fina,

parecidíssimo comigo em tudo que gosto!

Então o celular tocou, era o Rodrigo, meu

amigão. Mesmo com o carro em movimento cismei

de atender, olhando sempre pra ver se não havia

nenhum guarda me vigiando para me multar.

Outro elemento da cultura daqui.

- E aí Rodrigo, como vai parceiro?

- Estou bem! Já estou chegando ao bar.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

- Eu também. Espera aí que o sinal abriu e

tem uma vaga lá na frente. Tem um retardado do

meu lado que está de olho nela também, mas

como ele está falando ao celular acho que vou

conseguir a vaga.

- Comigo também está acontecendo o

mesmo, tem um cara estúpido me encarando o

tempo todo. Acho que é um guarda, parece estar

me medindo com os olhos pra ver se desconfio e

desligo...vou desligar aqui, assim que parar o

carro te ligo e falo onde estou.

Então o cara retardado que estava do meu

lado acelerou o carro e eu estava ainda desligando

o celular, mas acelerei também porque eu queria

aquela vaga. Joguei o celular no bolso da camisa e

parti. Está muito difícil encontrar lugar pra

estacionar aqui no centro e meu carro sem seguro,

não queria arriscar ser roubado e nem pagar

flanelinhas.

E não é que o cara queria a vaga. Só que ele

foi muito pra frente na hora de fazer a baliza,

chegando até a derrapar e eu não me fiz de

rogado, já cheguei bicando o carro de frente pra

pegar a vaga, depois era só falar que havia

pensado que ele iria passar direto e sair andando.

Só que o estúpido não me viu e deu ré,

batendo na dianteira do meu carro. Já desci do

carro xingando. Onde já se viu isso, na porta do

bar? E ele também já saiu invocado de dentro do

carro dele gritando.

Mal conversamos e já saímos no tapa. Quis

nem saber quem era e já dei uma gingada de

corpo e um coice. O pessoal que estava no bar

tentou separar, mas a confusão já estava armada.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Sopapo de um lado, sopapo de outro e logo

vieram duas viaturas para separar a confusão.

Fiquei com um olho roxo e ele trincou um

dente.

Então a polícia começou a ameaçar de

deixar os dois presos pela confusão então quase

que instantaneamente e até mesmo em palavras

parecidas convencemos os policiais a não tomar

nenhuma providência, afinal os prejuízos foram

somente materiais, que um amassadinho no carro

era fácil de resolver.

E terminada a confusão, cada um entrou em

seu carro e saímos de lá rapidinho. Eu não queria

que meu amigão Rodrigo chegasse e me visse

com o olho roxo. O celular havia caído no chão na

confusão, foi pisoteado e não queria ligar. Já em

casa eu resolvi acessar a internet pra dar uma

desculpa pro meu grande amigão Rodrigo sobre o

motivo de eu não ter ido pro bar e para minha

surpresa ele já estava on-line e já havia um

recado.

“Boa noite meu amigão, desculpa não ter

chegado ao bar. Espero que não fique zangado

comigo. Parei pra comprar um cigarro, tropecei

numa casca de banana e caí no chão. Até trinquei

um dente. Aí tive que voltar pra trás. Foi mal.”

E eu respondi:

Não se preocupa. Também não fui pro bar.

Estava no meio do caminho, quase chegando, e ao

parar numa farmácia pra comprar um “Engov” a

atendente falou que eu estava com conjuntivite.

Voltei pra casa correndo pra não passar isso pra

ninguém.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

“Realmente hoje deu tudo errado não é

verdade? Mas podemos marcar pra semana que

vem pra gente tomar aquela cerveja geladinha.”

Claro, podemos sim, mas acho melhor ir de

ônibus, afinal beber e dirigir não dá muito certo...

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Com o cachorrinho de minha amiga Josiane

O cachorro fugiu, não o marido, Jurema

Formou-se o escarcéu no morro do Bananal!

Muita gente discutindo na rua, em frente à casa

de Maria.

Havia uma desmaiada recebendo cuidados

de uma vizinha que lhe dava água com açúcar,

um enorme copo de água com açúcar, dois

discutindo alto, uma mulher dando entrevista,

crianças correndo de um lado a outro envolvidas

com todo aquele furdunço.

Como não havia nada melhor pra fazer e eu

aguardava o boteco abrir, fui aproximando

daquela algazarra toda só pra me inteirar do que

estava acontecendo, não que eu goste de fofoca é

claro. Lá ao longe se via um cachorrinho magrelo

latindo preso à corrente e o marido de Maria com

a cabeça enfaixada, só de bermuda e todo

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

molhado, sentado no canto do muro, numa

calçada repleta de tomates e cascas de banana.

Então um tiozinho veio me contar que tudo

foi mais ou menos assim...

Pela manhã, bem cedinho mesmo, umas

cinco horas, Antenor, o marido de Maria, após

ajudar sua esposa a preparar o café, foi até a rua

colocar o lixo pra fora e nesse momento o

cachorro de estimação do casal fugiu pelo portão

que estava aberto.

- Volta aqui cachorro! Volta aqui seu

cachorro sem vergonha! Gritou Maria de dentro da

casa e como os gritos de Maria eram bem

estridentes por causa do timbre da sua voz o som

foi intenso, ecoando no morro!

Nisso Antenor saiu correndo pela rua atrás

do cachorrinho. Estava só de bermuda, dessas de

ficar em casa mesmo e até perdeu os chinelos na

empreitada.

Acontece que os vizinhos ouviram os gritos

altos da Maria e logo em seguida ao olharem pelas

janelas viram o Antenor correndo pela rua só de

bermuda e sem chinelos. Viram Maria com a

correia do cachorro na mão gritando

continuamente para o cachorro voltar.

Como a fama de Antenor na vizinhança não

era das boas, talvez por ele ser bem forte e

delineado, moreno escuro, alto, de dentes bem

brancos, cabelo bem cortado, voz grossa e o peito

bem peludo, entregava e até trocava gás na

vizinhança enquanto os maridos estavam no

serviço, esperaram só a Maria fechar o portão

para formar um grupinho de fofoca nas

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

imediações. Os homens dali tinham inveja porque

as mulheres se derretiam por ele.

Uns diziam que ela havia descoberto os

galhos que Antenor colocava nela escondido e

outros que ele chegou em casa aquela hora após

gastar todo o dinheiro do casal num jogo de

purrinha na véspera e estar com várias mulheres.

E o Antenor não estava traindo a Maria, é um

homem fiel e sério, apesar das insistentes

cantadas das mulheres do morro, principalmente

as casadas. Era tudo intriga da vizinhança mesmo,

que adorava uma fofoca, principalmente dos

homens que tinham ciúme das suas esposas até

cumprimentarem o Antenor, que trabalhava de sol

a sol num depósito de gás e quando o fogo das

vizinhas apagava ele tratava de ir lá rapidinho pra

colocar mais lenha na fogueira, ou melhor, mais

gás no fogão.

E nada do Antenor voltar. Uma das vizinhas

foi até a casa de Maria para consolar a amiga. Já

chegou dizendo que o Antenor uma hora seria

descoberto, que ele era mesmo um cachorro e

que Maria estava certa de chamá-lo assim.

A Maria foi dizer que era um engano, mas

logo chegaram mais duas tagarelas. Uma delas

trazia um copinho de água com açúcar para

acalmar Maria, nem bem ofereceu e já foi

empurrando o copo d’água goela adentro da

Maria.

Nisso entrou o João que era chefe do

Antenor no depósito para dar o seu apoio à pobre

da Maria, a qual pensou estar desolada.

Não deixavam Maria falar que o cachorro

havia fugido de casa.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Então a mãe da Maria chegou lá pelas sete

da manhã, após saber do estado da filha, e com

dificuldade entrou na casa que já estava cheia,

todos falando ao mesmo tempo. Com muito custo

perguntou à Maria o que estava havendo e ela

baixinho falou que não sabia, que o cachorro fugiu

e de repente todo mundo apareceu.

Então um gritou assim:

- Exatamente! Um cachorro, um exemplo de

canalha!

Em menos de cinco minutos a mãe de Maria,

sogra de Antenor já estava gritando mais que todo

mundo ali naquela sala, rodando a bahiana, dando

golpes no ar e então de tanta falta de ar Maria

desmaiou.

Um abanava um pano, pois na casa não

possuíam ventilador, um outro dava mais um copo

de água com açúcar, e foi aí que chegou a Jurema,

a fofoqueira da rua.

Já chegou contando que Antenor estava de

caso com a filha do meio do Tadeu, um catador de

latas de alumínio e papelão e que já chegou a ver

os dois no maior amasso atrás da sacristia, citou a

vez em que saiu correndo do Antenor quando este

num dia “30 de fevereiro” teria feito gestos para

ela na rua indicando que queria “coisas”, falou até

mesmo da cabritinha do Chico, um criador de

cabras e bodes que adoeceu de repente...só pode

ter sido o Antenor, disse a Jurema fofoqueira.

E Jurema foi à luta, ligou para um conhecido

da rádio que logo mandou um repórter pra casa

da Maria. Ela estava acamada então Jurema tratou

de falar com a reportagem.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Logo a história estava espalhada pela cidade

inteira ao vivo e Antenor sem saber de nada

perseguindo o cachorro pelas ruas, a esta altura

Antenor já exausto de tanto correr atrás do

animado cachorro que seguia pela cidade

cheirando postes e deixando marcas de urina nos

lugares escolhidos.

Mas o cachorro também se cansou, e

Antenor conseguiu pegar o arisco com ajuda de

alguns pedreiros que vendo o desespero e o

cansaço do Antenor, cercaram o cão e ajudaram a

colocar a coleira. No mesmo instante ligou pro

Manoel que tinha um boteco perto de sua casa, já

que não possuía telefone ainda, e este ainda não

havia saído na rua então não sabia do que estava

ocorrendo na casa do Antenor.

Então Antenor pediu que dissesse à sua

querida esposa que já pegou o cachorro com a

ajuda de uns pedreiros e estava voltando pra

casa. Como Manoel estava ocupado fazendo

deliciosos quibes para vender em poucos minutos

no seu boteco, pediu que seu garoto fosse dar o

recado à Maria.

Acredito que o que a Maria queria era ter

notícias do seu esposo Antenor já que toda aquela

gente ali estava julgando seu esposo de coisas

que ele não fez.

O guri chegou ao portão e como não

conseguia entrar gritou que um grupo de

pedreiros já pegaram o cachorro do Antenor e que

estava voltando com ele pra casa amarrado com

uma corda.

Então Maria, desmaiou novamente e vieram

mais dois copos d’água com açúcar, um maior que

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

o outro. A essa hora Maria não sabia se entrava

em desespero por não poder falar que o cão da

família é que havia fugido ou pela quantidade de

água com açúcar que já havia forçosamente

ingerido.

E ao apontar na esquina, Jurema avistou

Antenor de longe, com sua bermuda de dormir e

trazendo na coleira o cachorro da família. Ela

ainda falava com o repórter quando interrompeu

repentinamente sua fala...

“Pega!” Gritou Jurema a fofoqueira. Então

vários correram em direção ao Antenor com as

panelas, os tomates, bananas, um alface e um

côco verde que estavam na fruteira do casal.

Limparam a fruteira e Antenor sem saber de nada

tomou a chuva de panelas, tomates, bananas,

alface e não é que a Jurema acertou o côco verde

bem na cachola.

Antenor foi ao chão na hora e antes de Maria

desmaiar de novo a vizinha já lhe empurrou mais

um copo de água doce.

Preocupados em terem exagerado,

carregaram o Antenor até perto do portão e deram

nele um banho de mangueira para ver se

acordava e também para limpar a sujeira que

provocaram.

Um outro correu e guardou o cachorro

dentro da casa, pois o cão não parava de latir ao

ver o que ocorrera com seu dono.

E aí eu cheguei aqui, mas como não gosto

muito de confusão, vou sair de fininho porque os

famosos quibes do Manoel já estão cheirando e o

bar está aberto lá na esquina da rua.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Quero nem ver o resultado disso tudo

quando a viatura chegar em frente à casa do

Antenor.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Aos 8 anos ao lado de uma televisão antiga

Não te amo mais, ficarei com a televisão

Amor!? Eu amo cerveja com bolinho de

bacalhau ou com camarão ao alho, numa quartafeira

à noite quando joga o meu Cruzeiro e o jogo

passa no telão do bar! Também amo gemada com

canela, caldo de mocotó, frango recheado e

acarajé bem apimentado da Bahia!

João ama jogar futebol com seus amigos que

conhece desde a infância, e depois de uma boa

partida na quadra, todos confraternizam com

churrasco. Adoram falar de futebol! Vivem futebol

o tempo todo e se consideram verdadeiros

craques desse esporte tão admirado em todo o

mundo!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

A Jane está amando o seu novo celular! Ela

fica mais tempo falando do que trabalhando,

estudando ou dormindo.

O Juarez, contador, adora os números! Conta

tudo que pode. Sabe o valor exato de todas as

taxas de juros e até adivinha antes do aumento

dos preços quais serão os reajustes. Uma

verdadeira calculadora humana! Faz cálculos

complexos de cabeça, sem nem mesmo contar

com a ajuda dos dedos.

Ricardo adora mulheres...casadas!

E Tina adora mulheres!

Mas aquele cara se apaixonou pela

televisão. Tela plana, sessenta polegadas, com

sinal digital, alta definição, internet direta e

controle remoto interativo...agora ele pode jogar

seu videogame em alta resolução on-line com

jogadores do mundo inteiro, e isso passou a

incomodar sua mulher, que por sinal é muito

ciumenta!

Antes ela tinha ciúme porque o marido

chegava altas horas com cheiro diferente na

camisa ou até batom, outras vezes o celular

tocava misteriosamente e ele se trancava no

banheiro pra conversar, numa outra ocasião ele

não dormiu em casa, o dia da vizinha sem roupa

então...

Fatos como esses sempre a levaram a

desconfiar que seu marido traísse.

E mesmo com essa cisma, nunca chegou a

falar nada porque não possuía provas suficientes

que levassem a desconfiar do marido.

Só que de uns tempos pra cá ele anda

apresentando um comportamento muito suspeito

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

para ela! Não sai mais de casa à noite com a

desculpa de ir comprar um remédio na farmácia e

demora mais de duas horas, já não recebe

ligações no celular e sái correndo para atender.

Pelo contrário, atende ali na frente da televisão

mesmo e ainda pede pra pessoa ser breve que o

jogo está pausado. As roupas agora só chegam

com odor de suor, sem perfume de mulher.

Essas situações começaram a provocar

muita desconfiança em sua esposa e as brigas

começaram. Antes não brigavam, embora ela até

pensasse que ele poderia supostamente estar

traindo, mas depois que ele começou com essas

atitudes suspeitas as brigas começaram.

E com tantas discussões ela começou a

fazer pirraça, querendo que seu esposo voltasse a

ser o que sempre foi.

Ela parou de lavar as roupas dele e ele

contratou uma lavadeira. Ela parou de fazer a

janta dele e ele contratou uma cozinheira. Ela

parou de arrumar a casa e ele contratou uma

doméstica. Tudo foi só para provocar o marido. Ela

queria seu amado esposo de volta e não esse

novo.

Mas aí veio o pior: ela ofendeu a televisão e

ele olhou feio para ela. Colocou a culpa nesse

objeto tão útil à humanidade nos dias atuais e ele

não agüentou tal provocação.

Virou para ela e disse que queria se separar,

que não a ama mais. A discussão durou a noite

toda e ele estava irredutível, queria a separação.

Decidiu sair de casa.

Disse que iria pra casa de um amigo, que ela

podia ficar com a casa e ela falou que ele é que

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

deveria ficar com a casa que ela queria ir pra casa

da mãe.

Depois de muita discussão sem chegar a um

acordo resolveram dar um tempo, ficar uns dias

separados para ver se pensavam melhor a

relação. Ela ficou na casa e ele foi pra casa de um

amigo que também gostava de videogame.

Foram dias difíceis! A televisão do amigo era

preto-e-branco, pequena e isso prejudicava o jogo.

Difícil imaginar uma tela de duas cores

funcionando até hoje.

Ele não entendia como isso era ainda

possível.

Passados alguns dias a casa do amigo

estava um fuzuê! Latas de cerveja espalhadas por

todo lado, embalagens de salgadinho e de

macarrão instantâneo, roupa suja na mesa, um

cheiro de mofo e cigarro impregnando o ar.

Mas a saudade foi falando mais forte! Ele

não poderia ficar sem ela então resolveu procurála.

Foi uma conversa bem rápida, ele realmente

já não amava sua esposa e queria mesmo se

separar. Não quis nada, só levou a televisão, disso

ele não abria mão.

Amor!

Tem gente que perdoa uma traição.

Tem gente que gosta de ser traído e aceita

tudo numa tranquilidade muito serena! E até

troque casais, tudo muito moderno e sem

preconceito algum...o que vale é o prazer!

Tem gente que está só porque não

encontrou ainda o verdadeiro amor ou porque se

chama Ricardo.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

A mulher pode até ter ciúme de um perfume

diferente na blusa do seu macho, de uma ligação,

de uma amante que o procura. Mas jamais tenha

ciúme de uma televisão de sessenta polegadas,

toda automática, com acesso à internet, em alta

resolução do sinal digital e tela plana. Não tenha,

porque é uma guerra que já se entra com a

derrota certa.

É como querer tirar da mulher o prazer da

fofoca nos dias de fazer a unha no salão. O

homem assina ali o divórcio.

Proteja seu casamento, aprenda a jogar os

jogos de videogame preferidos do marido e ainda

o desafie numa quinta-feira à noite para um duelo

no futebol, e de quebra deixe ele ficar com o

Barcelona senão há um sério risco de haver

confusão. Também é bom não fazer o primeiro gol,

mesmo se sua intenção for mesmo ganhar do

esposo, espere ele comemorar o primeiro gol.

A noite vai acabar em muito amor! Beijos,

carícias picantes, um vinho gelado, janela semiaberta

deixando entrar a brisa da noite...

Mas tente tirar a televisão dele e ficará

chupando o dedo.

A dica é de graça, mas vale ouro!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Bolinho de bacalhau

Selma e seu fantástico bolinho de bacalhau

Gostoso! Maravilhoso! De casquinha

crocante! Desfiadinho por dentro! Douradinho por

fora! Quentinho! Provocante! Um gostinho

peculiar de maravilha! Uma iguaria sem dúvidas!

Um aperitivo superior!

Bolinho de bacalhau! Oh, quem criou essa

delícia? Passado com azeite de oliva e molhado de

limão. Portugueses, seus bonzinhos! Vieram aqui

no passado e levaram o pau-brasil, a liberdade e a

terra dos índios, o ouro das Minas Gerais, o café, a

cana-de-açúcar, a borracha das seringueiras da

Amazônia, obrigaram os índios a rezar e ignorar

Tupã, obrigaram os escravos a se batizar e

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

abandonar o batuque às entidades...mas em

compensação trouxeram o bolinho de bacalhau!

Acho que até compensa termos passado um

período de guerras internas e participado da

grande guerra da humanidade, se hoje temos

bolinho de bacalhau à vontade para experimentar

e degustar nos estados brasileiros.

Até compensa sermos enganados a cada

quatro anos em apenas alguns meses e depois

usar nariz de palhaço por mais quatro anos.

Só o preço anda um tanto salgado! Isso me

incomoda. E sem contar que antes vinham vinte e

um bolinhos na porção e agora só estou contando

quinze em todo lugar que vou.

Quero meus bolinhos de bacalhau! Não

toquem nos meus bolinhos de bacalhau!

O tamanho também andou diminuindo, será

que a presidência está aplicando mais impostos

na tarifa de importação do bacalhau? Ou será que

descobriram que eu sou um viciado e pensam que

aumentando o preço irão me curar?

Pode aumentar a gasolina, a luz, aumentem

aí também o imposto de produtos industrializados,

o IPTU, IPVA, IOF, IPI, aumentem a conta de água,

e nem ligo se aumentarem os impostos sobre os

remédios, mas querer aumentar o imposto sobre o

bacalhau é desumano! Bacalhau é uma conquista

do povo brasileiro! Aumentar o preço dos meus

bolinhos é maldade! Isso prejudica minhas

condições de comer bolinho de bacalhau com

frequência, oras. E todos sabem que o país vai

bem se eu puder ter sempre à mesa bolinhos de

bacalhau, pois adoro bolinhos de bacalhau!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Com a amiga Rejane Alves no Restaurante Dourado

Amigos também sussurram no ouvido

Encontro de amigos na praia. Um veio do sul

do país, uma de São Paulo, quatro de Belo

Horizonte, dois do interior de Minas Gerais, e o

restante do estado do Rio de Janeiro.

O que houve no encontro? Eram todos

conhecidos virtuais e a bebida foi no exagero...

Tanta conversa afora, a exploração das

novidades, a lua baixando sobre a Guanabara.

Negar o clima para uns beijos é como negar

a própria essência humana. Tantas conversas! E

logo a areia da praia se torna um piquenique ao

luar! Um com o violão, uma fogueira acesa,

espetinhos de queijo tipo Minas, pedaços de pãode-alho,

picanha passada no sal grosso, um

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

gostinho de bebida e sal na saliva, sorrisos,

sussurros, mais bebidas...

Amigos também sussurram no ouvido! Os

tempos amadureceram, e já é coisa de outro

mundo que amigos não possam trocar umas

carícias de vez em quando. Que mal há nisso? Se

nos aventuramos com pessoas desconhecidas ao

encontrar um novo parceiro de intimidade, porque

não sermos íntimos dos nossos amigos?

Antigamente um amigo sussurrar no ouvido

da amiga era motivo de escândalo social, notícia

de primeira página, agora, veja bem, pode parecer

estranho e uma muralha de negações veementes

pode se erguer...mas que atire a primeira pedra

quem já não deu um selinho naquela sua amiga

especial. Aquela pessoa legal e atenciosa que nem

é para ser sua namorada e jamais será sua

esposa, apenas amiga, mas numa festinha, num

churrasco, naquele dia em que você está

magoado com a vida e a pessoa vem te confortar?

Quem de vocês mulheres já não se

arrependeu e encheu a cabeça de tabus ao ter

beijado o seu amigo na noite anterior? Mas

acordem arrependidas, sem se arrepender de não

ter concretizado, não é verdade?

Sexta-feira às dezoito horas. Naquela

repartição, o chefe havia preparado uma

confraternização para os funcionários devido às

excelentes marcas alcançadas pela empresa de

produtos e serviços.

Champanhe, bolinho de bacalhau (oh céus

quem inventou essa maravilha?), camarão ao

alho, muitas frutas, pão de queijo, e ela, a

cachaça!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Entre conversas, piadas, sorrisos, eis que

veio um sussurro no ouvido. Foi baixinho, mas

parece que toda a cidade ouviu e parou pra ver.

Nada demais os dois amigos de trabalho pararem

um pouco na sacada do décimo quinto andar da

cidade, olhando a esplendida vista da Avenida

Afonso Pena quando os carros e ônibus buzinam

querendo os seus condutores chegar logo em

casa.

Amigos também sussurram no ouvido! E

mesmo que essa noite termine num lugar com

hidromassagem, bebida, música e luzes

ambientes, na segunda-feira haverá um bom dia,

os trabalhos,e talvez no máximo um sorrisinho de

canto do rosto ou até mesmo só um pensamento

sobre a performance do amigo.

O que há de mais em amigos sussurrarem

no ouvido? O carinho está arcaico? Ora, se até

mesmo o sexo já foi banalizado a ponto de virar

estilo musical, se já nem é crime o adultério, se há

um consenso cada vez mais crescente em

descobrir novos prazeres, coisas que tempos atrás

seria motivo para escândalos na sociedade, hoje

se tornam elementos até necessários à saúde de

um relacionamento ou da pessoa, considerando a

característica de seus personagens.

Que mal há num sussurro? Eu sussurro!

Minha amiga sussurra! A prima do irmão do

cunhado do meu chefe sussurra. A amizade não é

uma sociedade como o casamento. Espera aí! O

que eu disse? Existe casamento ainda? Nossa,

acho que me perdi no tempo, mas está bem,

voltando ao assunto, a amizade não possui regras,

vai mudando conforme o contexto das eras. Quem

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

permite ou proíbe as coisas são os amigos, e o

consenso prevalece até mesmo nas mais

libertinas emoções como compartilhar um cigarro

de maconha, noite, praça do centro, luzes,

veículos, mais luzes ainda, brilhantes, ela com o

cabelo grená...

Amigos sussurram no ouvido na faculdade,

no hospital, na padaria, no escritório, na escola,

no supermercado e até mesmo no velório. Pior é o

amigo que tenta consolar a viúva bonita e

herdeira da fortuna.

Ora, por que negar? Amigos sussurram no

ouvido, e sussurram nos lugares mais

inesperados...

Mineirão, domingo à tarde. O casal de

amigos decidiu ir ver o jogo após terminarem o

trabalho de escola que estavam fazendo em

grupo, enquanto os outros amigos foram pra casa.

Jogo quente, torcida agitando as suas

bandeiras...o estádio dividido em duas cores

rivais, gritos, palavrões, a polícia tentando

identificar de onde vem o cheiro de maconha que

exala no ar...e de repente um gol! Ah que

felicidade! Muito bom! Aos quarenta do segundo

tempo quando a partida estava tensa. A torcida do

Cruzeiro agitando as bandeiras e o estádio

tremendo!

Esse beijo veio sem sussurro mesmo, afinal

no meio da torcida, não dava nem pra ouvir o

sussurro. E logo após como se nada tivesse

acontecido, já nem se lembram do beijo e voltam

as atenções novamente para o gramado que a

torcida do Atlético começou a cantar porque a

bola foi parar no pé daquele jogador perigoso,

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

ocorreu a falta na entrada da área e pode ser a

última chance de empatar.

Na alegria ou no consolo, um beijo é sempre

uma forma de carinho que nossos amigos e

amigas merecem, ainda mais quando vem

precedido de um intenso sussurro.

Às vezes para incentivar, em segredo, um

sussurro que só quem fala ou só quem ouve sabe

o seu conteúdo...

Olhares tensos. Então chega a hora de fazer

a cobrança de falta, o colega chega e sussurra

algo no ouvido do jogador, que dá uma risada

sacana, balança a cabeça e se prepara para fazer

a cobrança da falta perigosa...

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Tio avô Mário em Raul Soares/ MG

Violão, roça e cachaça de alambique

Cheguei ao interior! Após horas viajando de

trem pelas ferrovias do estado. Período de férias

anuais! Tempo de renovação, de esquecer os

problemas do cotidiano, o trânsito caótico do

centro da cidade e a rotina daquela repartição, os

desafios do marketing, etc...

Alto lá! Que maravilha uai!

Agora sim: cheguei na roça sô! Tirei as

botina do pé e botei logo o chinelão. Corri pra

abraçar os tio que há um tempão não via! O tio

táva lá na varanda pitando seu cigarro de palha e

a sua viola táva ali do ladinho, só esperando ele

terminar de pitar.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Veio logo me levando lá pra dentro da casa

pra me mostrar as novas pinga que comprou. Eu

via aquele mundão de cachaça espalhada pela

estante da sala e até me deu uma água na boca.

Tava era bão com pão de queijo e lingüiça

defumada de tira-gosto, tudo preparado ali pela

tia no forno e no fogão de lenha! Hum, que

tempero!

Os boi, as vaca, as cabrita...tudo lá no pasto

entretito com a grama verde aqui da roça.

O trator táva quebrado então não deu pra

ver ele funcionando outra vez e o tio falou que só

mês que vem agora pra arrumar a lata véia.

Ao sentar na rede, na varanda o tio começou

a cantar suas moda de viola lá na sua caderinha

predileta e eu aqui tomando uma cachaça muito

gostosa e amarelinha que só! Comendo pãozinho

de queijo e linguiça picadinha.

Aí os cumpadre vem chegando pra saber

das modas da cidade grande, do que anda

acontecendo por lá e a varanda fica cheia de um

tantão de gente. Logo alguém acende a brasa e o

churrasco começa.

A viola dedilhada cantando os sons e as

coisa da roça, de todas as roça, do interior da

terra e do interior de cada gente. Uma pratada de

comida que a tia fez, uma calmaria muito da boa e

isso qui é bão dimais da conta uai!

Até as risada quando alguém conta um

causo mais interessante e engraçado, aí vem logo

o jogo de baralho na varanda e todo mundo senta

ali no chão mesmo. Só vai ter que limpar os pé pra

entrar em casa depois.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

As mocinha da roça, tudo meio tímida.

Passam com um sorriso no rosto e muito vermeia

de vergonha com seus vestidinhos de flor. Depois

lá na frente olham pra trás de novo pra ver o galã

da cidade que acabou de chegar na roça.

Das cachaça do tio eu preferia as mais

amarelinhas, de alambique, não gostava muito

das brancas não. E as modas de viola são muito

boas! Um trenzão muito apaixonante ouvir violão

de noite vendo as brisas da roça e a noite cheia de

estrela lá no céu afora, tomando cachaça de

alambique!

A lua do sertão alumiando a relva lá na serra

e as coruja suindaras avoando na noite com as

suas penas brancas.

De manhã eu ia até o galinheiro pegar ovo

pra tia fazer no café, umas gemadas maravilhosas

com canela por cima, tinha até ovo de codorna lá

também, ajudava o tio a pegar leite na vaca e

depois do café ia andar pela roça pra verificar as

prantação e os gado pra ver se não tinha onça

atacando nas redondeza. Outro dia o cumpadre

Manuel falou que viu onça de noite quando

voltava do alambique pra buscar cachaça pra

vender na cidade.

Então ao final do mês, após um proveitoso

período de férias que proporcionou relaxamento e

descanso do corpo e da alma, rejuvenescido em

energias, novamente embarco no trem em direção

à cidade. Ao me despedir dos meus tios saúdo

também aos amigos e conhecidos desse lugar tão

pacífico e de tão belas paisagens! Levo comigo as

lembranças e um litro de aguardente com o qual

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

me presenteou o senhor Manoel, que é

comerciante do produto na cidade.

Espero ano que vem poder voltar a esse

lugar esplendoroso onde moram os meus parentes

e muitos amigos, os quais cultivo nas viagens de

férias a essa cidade de interior.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Mudar de vida

Ontem foi domingo. Meu dia de descanso e

eventual ressaca após a última bebedeira no meu

barzinho preferido. Havia uma hóspede em minha

casa, vinda do interior. Wanda.

Veio a Belo Horizonte para fazer a prova do

concurso público oferecido pelo estado para

preenchimento de cargos na área de segurança. O

cargo era o inicial da carreira.

Acordamos cedo, o que me chateou por

dentro por causa do barulho do despertador,

alvoroçando o íntimo dos meus tímpanos, mas

disfarçando bem me levantei da cama, tomei um

banho quente para despertar e preparei o café

para a visita. Domingo de manhã.

Tomamos café e rapidamente fomos para o

lugar onde seria a prova que apesar de próximo,

teria um grande engarrafamento devido ao grande

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

número de candidatos que iriam de carro fazer a

prova.

Muita correria, candidatos perdidos dentro

daquele campus enorme e cheio de matas, sem

muita informação sobre o lugar onde fariam a

prova do concurso, perdidos no tempo e no

espaço correndo de um lado a outro.

Estavam todos atrasados, inclusive esta

minha amiga muito simples do interior que

tentava a prova para mudar de vida, ganhar

estabilidade e prosperidade financeira, se sentir

mais realizada e poder projetar planos para o

futuro.

Ela entrou no prédio onde estava

relacionada e então resolvi esperar a prova

terminar lendo um jornal num banco dentro do

campus. Acendi um cigarro e passei a folhear as

notícias. Embora meu interesse era a parte de

esportes pra ver as últimas do meu time e do meu

jogador preferido.

Na segunda página uma matéria de um

pedreiro que havia encontrado uma maleta com

dez mil dólares e devolveu ao dono, vindo este a

se alegrar grandemente e recompensar o humilde

pedreiro com um carro novo.

Eu lia a reportagem quando passei a prestar

atenção aos candidatos à prova. Corriam

desesperados em direção ao lugar de realização

da prova, uma cena, entretanto, me chamou a

atenção: uma mulher grávida, isso mesmo,

grávida e com a barriga enorme, correndo com

notável dificuldade e uma expressão de dor no

rosto já suado e vermelho pelo esforço. Precisava

chegar até o prédio onde faria a prova. O

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

problema é que o prédio era longe, talvez um

quilômetro de onde ela estava naquele momento.

Sentindo um pouco de tristeza eu sabia que não

daria tempo, mas torcia pela coitada, como se

talvez a conhecesse e soubesse de toda a sua

história.

Mudar de vida! Será isso? Empenhar-se por

um sonho que muitas vezes pode ser apenas uma

lavra vazia, sem ouro nem riquezas? Uma

decepção da qual não há retorno...

O que é a riqueza? A prosperidade? Talvez

se encantar com uma proposta de salário alto no

anúncio de um concurso? Muitas vezes não se

sabe o que encontrará do outro lado. Talvez a

privação de todos os seus direitos, um amontoado

de desgostos e humilhações, perseguições e a

carência de reconhecimento. Uma lavra vazia sem

riquezas!

Neste mundo a prosperidade quem constrói

somos nós mesmos. Existem pedreiros que são

felizes, e pela qualidade do trabalho são

requisitados por grandes empresas e até

dispensam contratos de trabalho, se dão a esse

luxo. E por outro lado existem advogados,

médicos, engenheiros e empresários que vivem

dias de tristeza, de desgosto pela vida.

Muitas vezes o valor do dinheiro não paga a

felicidade e a realização. O que é prosperidade

senão estarmos felizes? Contas a pagar sempre

existirão, e não é poder comprar um carro que irá

injetar amor e alegria em nossos corações.

Mudar de vida é muito mais que correr para

uma sala de realização de prova. É despertar no

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

interior da alma o desejo de aperfeiçoar o seu

método de trabalho, de inovar, de se destacar.

Há na sociedade marceneiros que pela

perfeição do trabalho são procurados todo o

tempo por pessoas importantes e ganham muito

bem para isso, a ponto de comprar um carro.

Um vidraceiro que criou uma nova forma de

corte perfeito como fio de navalha! E aquele

padeiro então? Que trabalha há vinte anos

naquele mesmo lugar, seus doces e broas fazem

pessoas de outros bairros irem até lá para

comprar esses quitutes fantásticos que ele

produz!

Outro dia ele estava contando que um

empresário sisudo veio até a padaria para

conhecer seu trabalho e lhe ofereceu o dobro do

salário que ganhava para ele produzir suas obrasprimas

na rede de padarias da qual é dono.

O padeiro, porém recusou, pois já tinha carro

e não tinha nenhuma conta pra pagar, estava se

sentindo próspero em ter sua casa, seu carro e

mulher, os amigos de vinte anos trabalhando no

mesmo bairro, o seu lugar naquele grupo social.

Tirar isso dele seria tirar a própria identidade.

Então me pergunto se aquele homem de

negócios que o procurou era uma pessoa feliz.

Talvez sim, talvez não, mas o certo é quem sabe.

Então os candidatos que não chegaram a

tempo nos prédios onde seus nomes estavam

relacionados foram voltando pra trás após muitos

minutos. Fiquei imaginando o tanto que correram,

em vão...buscavam mudar de vida.

Até aquela mulher grávida com sua imensa

barriga, saliente embaixo da blusa de linho branca

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

com flores nas laterais, voltou andando com

dificuldade e na saída do campus um carro cinza a

esperava. Uma expressão de desgosto e cansaço

no rosto, segurando a barriga enorme, indo em

direção à saída do campus, se lamentando pela

oportunidade perdida de se mudar de vida e

passar naquela prova de concurso público que lhe

daria condições de ter um salário melhor para

cuidar do seu filho. Entrou no carro e foram

embora pela avenida.

Após isso fui ler o jornal e depois de tantas

notícias de destaque sobre violência, guerras,

homicídios, latrocínio, estupro, tráfico de drogas,

assalto, explosão de caixas eletrônicos, fuga de

presos, condenações de políticos, condenação de

um preso famoso, incêndios em ônibus coletivos,

furto de veículos, violência doméstica e familiar,

morte por bala perdida, morte por acerto de

contas entre traficantes, mortes na estrada mais

perigosa do estado, suicídio do décimo sexto

andar de um prédio, um pai que matou a mulher e

o filho desconfiando de traição da esposa,

espancamento de um cachorro, afogamento na

lagoa durante o fim de semana, infestação de

escorpiões num bairro da capital, surto de dengue

matando pessoas, violência contra homossexuais,

envenenamento de mendigos no viaduto,

atropelamentos, enforcamento e até mesmo uma

pessoa que quebrou o dente numa briga, enfim

veio a parte do esporte...

Eis o campo de atuação dessas pessoas que

estão fazendo a prova: tentar mudar um mundo,

ou enxugar gelo.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

E no esporte as notícias do meu time. Será

que esse jogador famoso é feliz? Nunca o vi no

barzinho lá do centro que vende camarão ao alho

toda sexta-feira, também nunca o vi naquela casa

de show fantástica que todos gostam de ir. Sei

que ele tem um carro importado que custou

trezentos mil, mas nunca o vi andando pela

cidade. Mas sim, ele deve ser feliz sim! Isso

porque está fazendo o que gosta e não o que

achou que iria fazê-lo feliz por causa do salário.

Ele está ganhando muito porque é bom naquilo

que faz! Todos os dias nos treinos procura fazer o

melhor e admira o sorriso das pessoas nas

arquibancadas quando consegue fazer o que

esperam dele! Procura agradá-las fazendo seus

gols, suas jogadas mirabolantes, e entende que

somente se procurar ser o melhor naquilo que faz

será feliz.

Um bom pai! Um bom amigo! Um bom

profissional! Um bom vizinho! Um bom ouvinte!

Um bom conselheiro!

Mudar de vida! Por que não agora? Ler um

livro, fazer um curso naquela área que sempre

tivemos interesse em trabalhar. Pizzaiolo, barman,

músico, cabeleireira...

Só quem procura fazer o melhor encontra o

caminho do sucesso e da prosperidade. Isso

porque há dois tipos de pessoas: as medíocres que

se consideram as melhores entre os piores e os

piores entre os melhores, medianos, acomodados,

esperam tudo cair do céu. E há os vencedores,

altivos, líderes, que procuram sempre o melhor, e

dessa forma, algum tipo de prosperidade irão

encontrar na vida, isso é inevitável!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

O bom salário é um convite às enganações

da vida. Muitos desses candidatos não pensam

nas dificuldades das profissões. Pra começar você

é o mais baixo no escalão, e até que chegue um

mais baixo, tudo de ruim é você quem terá que

fazer: a pior jornada de trabalho, os piores labores,

o pior local de trabalho, as culpas serão suas e

embora concorra para o sucesso não será nem

lembrado na hora do champanhe. Você não tem

vontade própria e muitas vezes nem respeito. Ao

mínimo erro será crucificado, mas em um grande

acerto lhe roubarão a autoria disto.

E os candidatos vão saindo das salas. Alguns

com uma expressão de derrota no rosto, outros

empolgados com a prova que realizaram. Passam

comentando com outros candidatos sobre a

questão treze que possuía duas respostas certas,

ou sobre a dificuldade da questão vinte e sete.

Outros vangloriando a redação maravilhosa que

acabaram de fazer e que irá impressionar os

avaliadores. Alguns dizendo que a prova estava

muito fácil e já se considerando dentro do

sistema, planejam fazer o curso e comprar um

carro logo.

Então minha amiga após várias horas

aparece na entrada do prédio de filosofia e

ciências humanas. Seu rosto cansado, sua

expressão apreensiva, indecisa sobre o futuro.

Falava nas dificuldades de se mudar de vida.

Não disse nada. Não sei se ajudaria ou iria

atrapalhar. Apenas desejei sorte. Melhor deixar

que a mudança de vida ocorra com o tempo.

Não é o quanto se ganha, é o quanto se é

feliz. E até mesmo eu que já fui carregador de

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

botijão de gás, lá em Contagem, no bairro Laguna,

chegava o fim do mês e havia uns trocados no

bolso que me permitiam o luxo de tomar uma

cerveja no barzinho da rua, hoje que sou um

executivo, chega dia vinte e já estou sem dinheiro.

O trabalho era pesado? Bom, entregar e instalar

gás na casa da divorciada não, nem a cantoria

quando as crianças da favela pulavam em cima da

caminhonete pra ir de carona até perto de casa,

sempre me chamando de tio. Hoje nem sorrir no

trabalho eu posso, preciso manter a pose. Ou

talvez a falta de sorrisos se deve ao amontoado de

contas que estão vencidas pois o pagamento não

deu pra cobrir todos os gastos. Além disso a

facada do imposto de renda foi terrível!

Mudar de vida! Não aconselho a parar de

tentar concurso público não. Só acho válido que se

procure saber se isso é realmente um sonho ou só

um ludíbrio por um salário melhor e a esperança

de comprar um carro, uma casa e pagar umas

dívidas, achando que o salário não está revestido

de tensões, stress, exaustão, fadiga, desgosto,

tristeza e dor. Se for isso, há uma loteria muito pé

quente lá na avenida principal que solucionará

todos os seus problemas.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Perseguição

Nobre deputado em quem muito confio! A

quem já conheço há muitos anos, desde antes da

candidatura, lá naquele nosso outro emprego, não

sei se ainda se lembra.

Gostaria de relatar coisas que vêm

ocorrendo em meu lugar de trabalho atual. Nesta

empresa de gelo seco e cubos de gelo. Sei que

mais conhece das leis trabalhistas do que eu e por

isso venho pedir ao menos uma orientação sobre

esse caso que está acontecendo com um grande

amigo meu e de todos aqui nesse lugar.

O coitado não tem casa própria, não tem

curso superior, está atolado em dívidas,

principalmente a do cartão de crédito, o que

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

ganha mal dá para pagar as contas e seu

pagamento fica quase todo empenhado pra pagar

o aluguel, conta de água, luz, os atrasados da

padaria...e não é que o chefe da empresa está

perseguindo o pobre coitado. Aqui dentro desse

lugar. Sim! Sem se dar ao luxo de esconder sua ira

e a grande quantidade de inveja que tem dessa

pessoa.

Ora, o indivíduo tem casa própria num dos

melhores bairros da cidade aqui onde moramos,

tem um carro importado muito caro e elegante,

ganha exageradamente bem, não tem contas

atrasadas em lugar algum, além disso tem mais

de um curso superior e viaja para o exterior todo

ano com a desculpa de desenferrujar o inglês que

fala com fluência.

O problema senhor deputado e colega do

ramo de gelo seco desde os tempos da antiga, é

que o ser humano não pode comprar a admiração

e o carinho das pessoas, muito menos a simpatia,

e isso está incomodando o coisa ruim do chefe,

aquele carrancudo! Esse meu amigo, muito fiel

companheiro, tem a admiração até mesmo dos

executivos da empresa onde trabalhamos! Direto

eles levam presentes para ele, roupas, bebidas,

carnes caras e até charutos. Adoram se assentar

ao lado dele no refeitório e ouvir suas piadas

durante o almoço. A secretária mais bonita da

empresa já saiu com ele algumas vezes e o cobre

de elogios sempre que pode, sobre detalhes que

nem quero comentar, e ao que tudo indica, o

chefe tentou cortejá-la, mas nada conseguiu. Veja

bem, o indivíduo é baixinho, fora de forma, o

cabelo pixaim é herança dos caboclos e fala mal o

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

português, mas conseguiu conquistar toda a

empresa e até mesmo os melhores clientes que

esta empresa tão antiga e conceituada de

fabricação de gelo seco possui em todo o estado.

Muitos clientes engravatados que chegam à

empresa, representantes de redes de bebidas,

bares, restaurantes e hotéis, que precisam muito

do gelo seco que produzimos, querem sempre ser

atendidos por este meu amigo, o que causa furor

no chefe. Ele só não proibiu ainda que meu amigo

atenda clientes, pois isso faria a empresa perder

uma grande quantidade de clientes importantes.

Então o chefe passou a perseguí-lo

abertamente dentro da empresa, de uma forma

que todos os funcionários estão sensibilizados,

mas temos medo de represálias desse chefe tão

ruim, tão perverso e sem nenhum caráter! Por isso

deputado, vim pedir esse conselho sobre o que

fazer nessa situação, se é caso de chamar a

imprensa e denunciar tudo isso aos jornais.

Nós aqui trabalhamos com gelo, já falei, mas

a situação está quente, fervendo, borbulhando na

empresa! Não há gelo que esfrie o clima ruim! Se

isso continuar o gelo vai derreter e teremos que

enxugar o chão, mas por enquanto é só gelo o que

andamos enxugando, na tentativa de melhorar as

coisas.

Veja bem, onde já se viu tudo que esse

excelente funcionário faz, sempre se vira contra

ele aqui neste lugar.

Ele está recebendo muitas advertências da

chefia por coisas que nem estão ocorrendo, e isso

vira descontos no pagamento. Onde já se viu um

fulano que é só sorriso e simpatia foi acusado pelo

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

chefe de ter ofendido os maiorais da empresa

dizendo que não tinha medo deles. Não havia

prova alguma, testemunha alguma disso e o

comentário partiu lá de cima, e não de onde há

trabalho braçal. Pior foi quando o chefe o acusou

de deixar de montar uma planilha, reduzindo um

dia do seu salário, sendo que isso era função dos

auxiliares administrativos e não de um mero pião

que mal sabe escrever. Entretanto como é

esforçado, se tivesse mesmo recebido esta ordem,

teria feito muito esforço para fazer o serviço.

Tantas outras coisas deputado, este chefe

tão maldoso e sem vergonha tem feito na frente

de todos! Sem vergonha sim! Pois onde já se viu

condenar alguém por ser tão querido por todos?

Se não fosse chefe já teria sido escorraçado da

empresa pela porta dos fundos, pois nem

competência tem para se relacionar. O grande

problema é que o maior acionista da empresa, é

amigo pessoal do chefe e não o tira da gerência

pois confia no seu modo de gerenciar. Além disso

tantas reclamações contra ele não chegam aos

ouvidos do acionista.

Até o horário de trabalho desse sujeito tão

bom que nós conhecemos foi mudado para

prejudicá-lo. O horário de almoço dele é menor

que os demais e há mais de um ano ele espera

umas férias que tem direito, mas o chefe tem

negado.

Veja bem deputado, o homem tem sido

apedrejado somente por ser melhor que o chefe

em ser líder sendo que isso o chefe jamais

conseguirá na vida. Liderança é algo que vem com

o nascimento, é como uma estrela natural que

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

brilha na fronte de um verdadeiro líder e não

naqueles que usam um terno brilhante, tendo na

lapela um broche de ouro e no bolso uma caneta

cara, melindrosamente ostensiva para mostrar

poder, mas por dentro há uma pessoa vazia de

eficácia em conquistar as pessoas e fazê-las

motivar, sorrir e seguir ao líder como as ovelhas

seguem fiéis ao seu pastor.

Sim deputado, venho para contar ao senhor

sobre um líder nato! Um que se veste mal, ao

contrário de todos na empresa compra roupa em

bazar, e às vezes quando fica um aroma de

sovaco no ar, é porque o seu desodorante, que é

do mais barato, já passou o efeito. Mas todo

mundo aqui o admira e o respeita, e sente mais

prazer no odor de suor que fica, quando ele passa

carregando um amontoado de caixas e cubos de

gelo, cantando suas músicas, do que no perfume

caro que fica no ar quando passa o chefe para

inspecionar o serviço dos outros ou simplesmente

ser notado, dar o ar da sua graça em cada sala da

empresa. Parece até um gavião vigiando as presas

para ver qual delas irá perseguir!

Antipático! Antiético! Vulgar! Menospreza o

ser humano como se fosse um deus, um ser

superior aos outros que o rodeiam. Não se

preocupa com a vida alheia, com a segurança,

com as metas da empresa, só se preocupa em ser

o centro das atenções e mostrar poder a todo

tempo.

Acredito que persegue tanto esse meu

amigo justamente por ter visto nele as coisas, as

qualidades que nunca conseguiu ter na vida, nem

terá. Meu amigo é nobre de espírito e não se

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

importa em dividir o pão. Outro dia ele ganhou um

litro de cachaça de um empresário parceiro da

empresa, a garrafa era envelhecida dez anos e

tipo exportação. Se ele fosse vender ganharia o

dobro do salário que ganha, ou até mais, mas ao

contrário, depois do expediente nos chamou e

abriu aquela iguaria lá no refeitório. O cheiro

exalou no ar melhor que perfume! Todos

brindaram e isso chegou aos ouvidos do chefe,

mas antes o cheiro chegou até a sala dele, e

mandou chamá-lo, dando mais uma advertência.

Não pelo fato de ter brindado, disse que ele

estava pervertendo os funcionários a não

trabalharem direito. Confesso deputado, que se

esse fulano desse ordem de greve na empresa, a

empresa parava imediatamente, mas ele ao

contrário, muito honesto com o trabalho

aconselha a todos a fazerem o melhor e trabalhar

sempre mais, pois o sucesso na vida vem

justamente de tentarmos o melhor mesmo e abrir

mão das vaidades pessoais em prol da melhoria

do mundo.

Veja bem, o modo de pensar desse simples

pião! De onde vem tanta cultura e conhecimento

se mal sabe usar um computador e até o

português é repleto de erros de ortografia? Isso é

um dom dado pelo criador, não é algo que o

dinheiro do chefe pode comprar aqui na Terra.

Ameaça mandar este meu amigo embora a

todo tempo, mas não tem coragem porque o

espírito maligno que está em seu coração no

fundo tem medo do meu grande amigo por causa

da sua grande virtude. Nem lhe olha nos olhos

com medo que caia por terra e comece a se

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

debater derrotado e humilhado. Ele tenta espetálo

a todo tempo tentando tirar-lhe a fé e o amor

pela vida e por seus semelhantes, mas a cada

espinho o sorriso no rosto desse meu amigo

resplandece mais forte, brilha mais até que as três

estrelas que formam o cinturão de Órion e estão lá

no céu pra todo mundo ver! Não há castigo que

seja capaz de tirar o brio desse meu amigo.

Teve uma vez que o chefe foi avaliar os

melhores funcionários da empresa para conceder

aumento. Todos ficaram espantados ao ver que

justamente um dos piores funcionários da

empresa, mas que é bem visto pelo chefe por ser

um bajulador foi o que melhor foi avaliado, em

compensação este meu amigo que é só trabalho e

empenho teve a pior nota de produção em toda a

empresa.

O chato mesmo foi quando o chefe o proibiu

de frequentar a sala de reuniões da empresa,

alegando que somente os funcionários ligados à

gerência que podiam opinar sobre os rumos da

empresa, excluindo assim os funcionários que

trabalham na execução de obras.

O engraçado foi que um dos gerentes ligou

escondido do celular pra esse meu amigo durante

a reunião, pedindo um conselho sobre o que dizer

ao chefe. O assunto era sobre formas de estocar

gelo seco para reduzir os espaços no estoque sem

reduzir a produção. Eu ouvi tudo, ele estava do

meu lado, e ao discursar o chefe elogiou muito as

propostas do gerente, dizendo que sua opinião era

digna de um grande empreendedor! Em seguida o

parabenizou pela colocação apresentada, citando

que seria levada aos altos investidores. Depois da

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

reunião não resisti e fui falar com meu amigo,

dizendo o que aconteceu.

Ele sorrindo disse que coração vazio não

sabe plantar, mas um coração que tem fé faz

brotar água no meio da areia do deserto. Que sua

intenção na empresa era trabalhar, apesar dos

pesares, pois só tinha ali para trabalhar, se fosse

mandado embora teria que catar latinhas na rua

para sobreviver.

Fiquei impressionado com as palavras de

meu amigo, e por isso estou pedindo a sua ajuda.

Será que isso tudo que vem acontecendo é caso

de entrar na justiça contra o patrão? Será que ele

deve seguir seu caminho e procurar um outro

lugar para trabalhar? O que fazer?

Esse meu amigo, deputado, muito honesto,

vive apenas do trabalho, não tem muitos recursos.

Aí vem um outro que todos os dias toma

champanhe e começa a dificultar ainda mais as

coisas para essa pessoa tão querida na empresa!

Não vejo justiça alguma nisso e venho para pedir

uma opinião sua sobre tudo isso que vem

acontecendo, pois lembro que antes de ser

deputado também trabalhava numa empresa de

gelo seco e vendia gelo seco para várias pessoas.

Sabe bem das dificuldades de se trabalhar com

gelo devido à exigência da clientela. Ora, se já é

tão difícil agradar quem está do lado de fora,

como sobreviver tendo maiores problemas com

quem está aqui do lado de dentro? Os clientes

querem sempre o melhor produto e o gelo tem

que estar sequinho, e dá muito trabalho para

deixá-lo sempre assim sequinho para agradar os

olhos dos clientes.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

E estou escrevendo essa carta escondido,

aproveitando que meu amigo hoje não veio

trabalhar. Fraturou o braço ao ser designado pra

empilhar umas caixas de gelo no freezer e um dos

corrimãos de sustentação estava solto. Então ele

caiu sobre o braço e teve uma fratura. Acho que

volta a trabalhar amanhã mesmo. Disse que iria

trabalhar com um braço só porque está com o

aluguel pra vencer e se ficar muitos dias afastado

corre o risco de perder o emprego e passar fome.

E isso é tudo deputado.

Estamos todos muito preocupados com isso

tudo e por isso resolvi incomodar o senhor pra me

dar uma luz sobre o que fazer para ajudar essa

pessoa tão querida e tão sofrida que todos

gostamos muito e queremos ver sempre bem!

Até breve! Desejo um ótimo trabalho a

todos!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Quem trabalha não precisa pedir

Avenida Afonso Pena, Belo Horizonte

Não, a vida não é difícil! Somos nós que

sempre buscamos tudo muito fácil e reclamamos

de ter que trabalhar. Sempre reclamamos do

trabalho, do cansaço do dia-a-dia, do chefe, do

salário, mas a grande maioria de nós embora de

humor indeciso pega a sua cruz e carrega, vai

todos os dias para o trabalho, faz os afazeres e ao

fim do dia entra num vagão lotado de pessoas

suadas, cansadas e vai pra casa.

O motivo disso é único: dignidade! Sim,

trabalhamos para termos o dinheiro ao início do

mês para comprar uma roupa bonita, pagar as

contas de luz, de água, de telefone, de internet, a

prestação do carro ou da moto, ou então poder

parar num barzinho para sentar na cadeira e

tranquilamente tomar um bom gole de cerveja e

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

pedir aquele aperitivo gostoso de bacalhau ou

camarão ao alho.

Então logo eles aparecem. Sujos, fedidos na

porta do bar. Não falam nem “bom dia” e com

olhar de intimidação misturado com sofrimento já

vão logo pedindo qualquer coisa. Às vezes pedem

dinheiro, outras vezes já vão pedindo um copo de

cachaça, um cigarro, um pouco da cerveja, o

camarão, qualquer coisa...parece que o que

querem é levar algo.

Não posso acender um cigarro na porta do

bar que logo vem um pedir. Falo que é o último

querem dar um trago. E se falo que não ainda

insistem para eu deixar a guimba.

No trânsito ao parar no sinal vermelho

chegam as mãos sujas dentro do carro e até

tocam minha blusa branca de linho, sujando a

gola. Encostam nos bolsos para ver se não há

moedas, como se eu fosse obrigado a dar alguma

coisa.

Ao comprar um salgado na pastelaria já vem

outro com suas mãos sujas, quase roubando das

minhas mãos ou já tirando um pedaço como se eu

tivesse obrigação de ter pena de algum deles. E

não, não tenho pena alguma!

E vou ter pena por quê? Estamos nos

tempos modernos. Está sobrando emprego por aí.

Basta querer trabalhar e procurar dignidade. Sei

que alguém vai me acusar de desumanidade,

então sejam humanos! Vão até lá embaixo do

viaduto e adotem um desses vagabundos noiados

que não querem trabalhar e ficam mendigando

para comprar pedras de crack. Levem pra dentro

de suas casas e sejam humanos.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Não querem trabalhar, e já comprovei isso.

Reclamam da vida e da exclusão social, mas não

querem trabalhar, a verdade é essa. Perceberam

que a maioria da sociedade tem pena dos seus

olhinhos fingidos pedindo esmola e vivem nessa

mordomia sem limite. É fácil pedir, difícil é

carregar tijolos!

Mordomia sim! Eu e meus amigos

trabalhamos o mês todo pra poder parar no

barzinho no dia do nosso encontro mensal pra

jogar conversa fora, e vem um que não carregou

uma caixa lá na empresa onde trabalhamos, só

chega, pede e leva. É fácil demais ser mendigo!

Uma vida sem impostos!

Em todo lugar onde ando vejo uma placa do

tipo: “precisa-se de pedreiro e ajudante de

pedreiro urgente, com ou sem experiência”, ou

então aquelas do tipo “precisa-se de faxineiro”,

“precisa-se de auxiliar de serviços gerais”,

“precisa-se de carregador”, “precisa-se de

ajudante”.

Aí alguém vai virar e dizer que o mercado

exige preparação, mas se observarem bem ao

andar pela cidade, haverá uma placa assim:

“curso grátis de garçom”, “curso de pedreiro”,

“curso de pizzaiolo”, “curso de tricô e crochê”,

“computação”. Não fica longe de onde eles

dormem não, ali no centro mesmo no serviço

social. Até eu já fiz um curso de digitação lá para

melhorar a mim mesmo, era de graça mesmo.

Então outro partidário da causa vai dizer que

eles não encontram apoio. Não? Então não

conhecem os abrigos municipais, onde os pedintes

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

podem chegar, tomar banho e dormir? E quem

disse que eles querem? Querem não.

Não querem e sabe o motivo? Lá dentro não

existe a pedra de crack, que na maioria das vezes

é o motivo real de estarem pedindo dinheiro nas

ruas embora tenham casa.

Não é fome porque tem sempre alguém que

leva sopa, frutas, verduras e outros lanches para

eles. A necessidade deles é a droga, e

absolutamente decididos não querem trabalhar. E

falo com propriedade, pois já conversei com

muitos que chegam me pedindo e falam

abertamente sobre o assunto, culpando a

sociedade pelo estado em que se encontram, mas

basta falar em trabalho que mudam o olhar.

Realmente a culpa é da sociedade sim,

porque alimenta o vício dos pedintes. No

momento em que esse recurso financeiro fácil se

esgotar, uns roubarão e serão presos ou mortos,

outros criarão vergonha na cara e catarão latinha

para sustentar o vício, e uma parte menor irá

fazer um curso de pedreiro no serviço social e ser

laçado, fisgado, seqüestrado por alguma das

centenas de empreiteiras que estão construindo a

torto e a direito por toda a região metropolitana.

Duvidam? Passem perto de alguma obra grande

na cidade e comente que você tem um amigo

pedreiro ou ajudante de pedreiro que está

procurando emprego. Depois digam se eu não

tenho razão. A construção civil está contratando, a

rede hoteleira está contratando, restaurantes,

bares. O problema é que as pessoas querem uma

solução do céu, querem “Maná”.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Não é nem Deus nem o Diabo. Nós que

temos que fazer, correr atrás do que queremos, se

bem que a maioria dessas pessoas quer mesmo é

pedir. É mais fácil e prático!

Pra pedir não é necessário acordar cedo com

o despertador, nem tampouco entrar no vagão

lotado do metrô, suportar as teimosias do chefe,

ter horários pra tudo, ter que suportar aquele

colega de serviço que implica conosco, após o

almoço ir trabalhar com aquele sono, ao fim do dia

entrar no mesmo vagão lotado, dessa vez com o

odor de suor tomando conta do lugar, e no fim do

mês as contas chegando.

E não! Eu não vou dar nada. Olhando pro

meu rosto já saibam que não vou dar nada! No

outro dia foi um de vocês que tentou me assaltar

e quase morri. No outro dia no jornal havia a

notícia de uma mulher que foi violentada próximo

à trincheira por um de vocês. Também foi um de

vocês que estava usando crack ontem quando

passei de carro e jogou uma pedra. E acredito

também que um de vocês deixou a calçada suja

de merda e acabei pisando hoje cedo.

Quem trabalha não precisa pedir e meu

dinheiro que demorei um mês pra receber foi

suado! Trabalhei para ter o direito de estar aqui

agora apreciando meu bolinho de bacalhau e meu

camarão. Tive um mês de trabalho para estar aqui

agora tendo um pouco de lazer e satisfação. Não

dou!

Vocês é que deveriam me dar alguma coisa

afinal levam uma vida muito boa, sem precisar

trabalhar. A minha é sofrida, e isso me dá o direito

de não gostar de vocês.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Ou ele ou eu, aos sábados

Minha querida! Eu sei que anda muito

ocupada ultimamente conversando todas as

noites com o Ricardão pelo telefone, logo após nos

encontrarmos e algumas das vezes ele nem

espera eu sair para já começarem a conversa. Não

estou nem preocupado mais com isso não, o

Ricardão virou cultura do povo! O problema é

outro e está me incomodando bastante nos

últimos meses: O horário em que conversam.

Hoje a nossa sociedade já não se

escandaliza com um relacionamento extra, muitos

casais são inclusive adeptos dessa técnica ultra

moderna de amor e descarrego de libido. Embora

eu não aceite, o que posso fazer se não há como

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

ficar te vigiando todo o tempo? E além disso tenho

um monte de outras coisas pra me preocupar,

como de costume, naquele escritório repleto de

metas a cumprir.

Mas convenhamos meu querubim, ele

deveria ter um pouco de desconfiômetro! Ficar te

ligando aos sábados à noite, justo na minha hora

de ficar com você? Acho que você deveria falar

com ele sobre, sabe, uma conversa sincera e

esclarecedora, de mulher para Ricardão. Isso pra

não abalar a confiança que tenho em você meu

docinho de côco.

Sei que irá compreender o meu

posicionamento pudinzinho. Veja bem: se estamos

no cinema ele te liga, se estamos num barzinho,

numa boate e até mesmo aquele sábado em que

ele estava escondido debaixo da sua cama

quando fui dormir aí em sua casa ele ficou

trocando mensagens contigo a noite inteira.

Como eu posso ter segurança no nosso

relacionamento assim meu pão de mel? Fico cheio

de desconfianças em relação ao não cumprimento

de horários por parte dele.

Lembra também daquela vez que viajamos

de trem e ele estava no mesmo vagão? Ficou te

encarando entre sorrisos e mensagens de celular

e eu só tinha sossego pra namorarmos um pouco

quando o sinal caía, ao passar por um túnel ou

região mais montanhosa. Peço que me entenda

minha flor!

E aquela vez então no clube? Você se

distraiu e o celular caiu na água quando falava

com ele. Ele ligou no meu celular pedindo pra falar

com você, e ainda por cima a cobrar.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

E aos sábados, sempre aos sábados que ele

fica importunando e atrapalhando nossos

encontros. Ora, sábado é o meu dia de lazer, de

esquecer os compromissos do dia-a-dia e respirar

ar puro num passeio pelo parque ou tomar um

bom drink num lugar aconchegante! Preciso de

privacidade, ao menos um pouco de privacidade

pra poder me divertir um pouco minha princesa.

Acho que você deveria ter uma conversa

séria com ele, pois afinal neste próximo sábado

estou querendo te levar ao teatro e será muito

ruim você perder a peça respondendo às

mensagens dele. Sem contar que as outras

pessoas podem se sentir incomodadas com a

conversa entre vocês dois.

Vamos combinar assim pitelzinho: vou

anotar todos os nossos horários numa planilha,

fazer uma programação semanal dos nossos

encontros. Aí você passa pra ele, assim tudo se

resolve e eu poderei estar com você aos sábados

tranquilamente. Ele saberá exatamente os

horários em que não estará ocupada comigo e

todos ficarão contentes!

Sei que ele irá entender afinal é uma pessoa

compreensiva e não se importará em eu

estabelecer horários para poder sair com você

minha musa, afinal nós já namoramos há bastante

tempo e pelo que sei essas ligações intensas

começaram acerca de um ano atrás, se não me

engano. Ele já entrou nessa história sabendo que

eu adoro sair aos sábados à noite e não posso

abrir mão disso.

Então ficamos combinados assim, querida!

Adoro você! Mande também um abraço pra ele

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

quando ele ligar logo após eu virar as costas e ir

embora.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

O plano do plano de saúde

Hospital! Lugar que ninguém gosta de

visitar, ainda mais quando a pessoa não possui

plano de saúde, pois afinal um plano de saúde

sempre foi referência de qualidade de

atendimento! Você chega e logo é atendido pelos

melhores profissionais! Leitos, apartamentos,

comida de qualidade, ar condicionado e todo um

preparo de toda a equipe, uma enfermeira

bonitona, essas coisas.

Errado. Pagar o plano de saúde não quer

dizer que você terá o atendimento que a

propaganda fala.

As filas estão cada vez maiores, até parece o

Sistema Único de Saúde!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Outro dia eu caí doente e precisei utilizar o

meu plano de saúde caro. E para minha surpresa

eu estava no SUS. A única diferença é que eu

paguei anos desse plano para ter o direito de ficar

horas e horas na fila esperando atendimento

médico juntamente com outros enganados, todos

pessoas bem sucedidas, que enfim podem agora

sentir na pele o que é a espera pelo atendimento.

Aquela ilusão de um hospital maravilhoso e

tecnológico é, bom, já ouviu falar de cenário de

novela? Algo assim!

Mas há uma grande lição nessa demora aqui

neste hospital: enquanto houver alguém lucrando,

haverá alguém afundando na lama.

Ora, se eu pago pelo serviço, onde foi parar

o dinheiro para investir nos materiais e na

capacitação dos profissionais? Só o que me deram

foi um soro. Onde estão as camas automáticas?

Onde está a equipe de pelo menos seis médicos e

enfermeiros me bajulando e fazendo sala pra mim

até eu ficar bom? Onde está minha linda

enfermeira? Onde está a adrenalina da equipe e

um monte de equipamentos ligados ao meu corpo

monitorando tudo que se passa comigo?

Só o que vi até agora foi um soro, uma

agulhada no braço e uma recepcionista com cara

de poucos amigos e voz enjoativa fazendo várias

fichas de atendimento e empilhando sobre a mesa

para o caso de algum médico vir até o hospital e

ainda assim, se interessar em pegar as fichas.

Enquanto isso ficamos todos a ver navios.

Pagamos e na hora de usufruir nos dão um nariz

de palhaço. Então o nosso último estado fica pior

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

do que o primeiro, pois além de doentes, o humor

vai embora rápido.

O jeito é esperar até o soro acabar agora e

depois acho que vou embora porque aqui está

cheio de pessoas doentes e machucadas. Isso não

é bom para minha saúde. Não vou esperar meu

plano de saúde perceber isso não, melhor me virar

eu mesmo, ir pra casa e fazer um chazinho

caseiro.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Aos 5 anos com a professora Júlia na Escola Padre João Maria Kooyman em 1989

Fiquei careta, e agora?

Fotografia velha, por que tu és tão rigorosa

com nosso coração? Qual o motivo de jogar

antigas poeiras em nossos olhos fazendo cair

lágrimas ao limpar?

Por quê? Diga-me o motivo de estar tão

melindrosa, tão culpada, escondida entre antigos

papéis que eu iria jogar fora nessa tarde ao dar

uma faxina no porão tão cheio de poeira de minha

humilde casa?

Fotografia velha que remete a toda a nossa

história. Aquela infância sofrida ou repleta de

sorrisos de cada um, as brincadeiras, bom...as

brincadeiras...

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

No meu tempo ainda havia as brincadeiras

de “roubar bandeira”, o pique-esconde, futebol

jogado no asfalto onde fazíamos o gol com

chinelos, bolinha-de-gude, caí no poço, passa anel,

telefone-sem-fio, carrinho de rolimã e guerra de

balão com água.

Fugia das minhas lembranças o meu

passado, minha origem e uma fotografia

despertou tudo isso novamente. Então, parar de

fazer a limpeza e procurar por outras fotografias.

E encontramos antigas provas da escola, os

antigos boletins com as notas e até mesmo jornais

da época.

A nostalgia, uma emoção tão profunda exala

no ar o cheiro de papéis velhos! Fantasmas do

cotidiano saindo dos túmulos trazendo nas mãos

os calendários de décadas atrás, num tempo que

já cinzento na lembrança instiga os olhos a chorar

enquanto os lábios sorriem e o coração bater de

uma forma diferente do habitual! Eles soltam no

ar a sua risada maliciosa e passam o tempo todo

diante dos nossos olhos feito moscas e mesmo

tentando afastá-los são todos insistentes e não

param de perturbar mostrando as folhinhas já

amareladas pelo tempo, batendo com elas em

nosso rosto.

Ah, a vida! Tão passageira e repleta de

encantos que até mesmo as decepções são bem

lembradas, quando vários anos mais tarde uma

simples faísca acende uma tarde inteira de

reflexões, retrospectiva e análise da existência!

Que belas são as nossas lembranças! Nosso

passado é tão cheio de cultura! Cada pessoa tem

dentro de si um universo tão repleto de conteúdo!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

É como se cada dia fosse uma estrela de um

grande universo! Nesse contexto, jamais haverá

um universo pessoal igual ao outro, pois cada

pessoa possui um coração que bate! A vida de

cada pessoa é única em amor e desilusão, sonhos,

virtudes, defeitos, sorrisos e mágoas! Os desejos e

até mesmo os medos e todo o resto! Mas em cada

um desses universos existe a história que cada

pessoa viveu, repleta de assuntos que enchem as

páginas de um livro! Emoção! Emoção! Emoção!

Eis a nossa história!

As canções da época então se sussurram

nos lábios, baixinho enquanto as lágrimas vão

caindo, até mesmo os programas que passavam

na televisão, que ainda era em preto e branco.

Naquela época era comum que em muitas casas

tivessem uma máquina de costurar, o que era

inclusive artigo de luxo. Havia propagandas de

cigarro sem citar os males provocados. Ainda

lembro dos antigos slogans marcantes,

principalmente do meu achocolatado preferido

que já nem me lembro mais o sabor pois hoje já

não gosto de achocolatado, só de cerveja e das

noites de luzes, boates, barzinhos...

O primeiro vídeo game, com aquele joguinho

de naves. Bem simples! Gráficos que hoje

qualquer criança consegue criar melhores no

computador. Mas era a minha época! Minha

história! Minha cultura de vida e por isso é tão

especial!

Eu presenciei a luta contra a ditadura.

Caminhões cheios de homens de farda passando

pela rua, estudantes correndo, a banca de frutas

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

caindo na calçada, o caminhão jogando água nas

pessoas, muitos rostos pintados.

Futebol! As pessoas reunidas em frente à

garagem de quem tinha televisão e a colocava

numa mesa, reunindo os amigos e logo a frente da

garagem repleta de pessoas enquanto o dono da

casa procurava o melhor lugar para colocar a

antena, tendo inclusive que enrolar um pedaço de

Bombril na ponta da antena para melhorar o sinal

da televisão.

Eleições! As pessoas que votavam se

sentindo importantes, colocando uma roupa mais

vistosa que possuíam e indo para o seu colégio

eleitoral. Encontrando antigos amigos, exercitando

uma democracia que na maioria das vezes só se

vislumbra quando é época de campanha, pois é

quando alguém lembra ao cidadão que ele existe.

Pessoas correndo pela rua com as mãos

cheias de “santinhos”, de faixas, de camisetas de

algum candidato, e logo em seguida uma viatura

cinza passava.

Dias antigos! Os planos de vida que naquela

época eu tracei, que na sua maioria foram

substituídos pela realidade da vida e pelas

oportunidades que realmente surgem num mundo

tão competitivo.

Amei! Com as forças que meu corpo tinha

para amar!

Os sonhos que meus olhos tinham pra

sonhar!

As desilusões? Meias verdades coloridas!

Deixo o porão, trazendo algumas fotografias

nas mãos e nova expressão no rosto.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Tiro então as fotografias da minha banda

predileta da sala e coloco no lugar as antigas que

encontrei no porão.

Ao sair, passo pelo supermercado e compro

um achocolatado. Tomando ali mesmo no caixa

enquanto pago, a atendente até estranha, pois

habitualmente eu faço isso somente com cerveja.

Ao entrar no carro, coloco o cinto de

segurança, lembrando das vezes em que brincava

de carrinho de rolimã e fingia que estava usando o

cinto antes de cada disputa com os amigos nas

ruas do bairro Glória. E no meio do caminho eu

lembro que não estou brincando de carrinho de

rolimã e tiro o cinto.

Voltando pra casa coloquei no canal do

desenho animado e fiquei horas assistindo.

Olhando as novas fotos na parede, me

pergunto onde foram parar os amigos do tempo

de escola? Que rumo suas vidas devem ter

tomado?

Saudade marca e nos torna tão

ultrapassados, tão antiquados se formos olhar os

dias de hoje! Mas um dia todo mundo fica assim.

Pra não chegar a esse momento, ou se deixa o

porão sujo e jamais entra lá, ou então é mais fácil

viver uma vida sem sabor, pois onde há um

mínimo de prazer e realização, ali estará um

motivo para que o passado venha bater em nossa

porta.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

A pegadinha do falso cigarro

E lá estava eu no Dourado, tomando uma

branquinha antes do almoço, segunda-feira,

pensando no quê eu iria degustar após uma

branquinha, talvez um frango, hoje não estou

querendo comer camarão. Todo dia camarão às

vezes enjoa! Olhando as pessoas passando na rua

ficava entretido com as culturas de cada um, seus

modos de vestir, de andar. Eu admirava as

pessoas e a sua necessidade de sempre chegar a

algum lugar! Correr atrás das coisas. Cheguei a

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

pensar que somente eu estivesse vagabundeando

em toda a cidade.

Foi quando Xuxinha, uma simpática

funcionária de lá me mostrou um maço de cigarros

idêntico ao original, e até me ofereceu um. Eu

estranhei, pois nunca havia visto ela com cigarros,

mas aceitei. Afinal era de graça mesmo!

Foi quando aos risos ela não conseguiu

terminar a pegadinha e começou a rir antes da

hora. Então ao pegar o cigarro percebi que era

realmente um maço de cigarros, porém em seu

interior haviam cigarros feitos somente com o

filtro, para servirem de enfeite das vitrines. Não

havia o fumo, era somente filtro em toda a sua

extensão.

A principio eu achei interessante! Foi quando

ela me mostrou uma caixa com dezenas de maços

iguais, dizendo em seguida que era ordem do

representante que os maços fossem substituídos

por outros mais novos, mais bonitos!

Então a mente vazia funcionou

instantaneamente e eu tive a idéia de fazer uma

pegadinha com as pessoas que passavam pela

rua. Ela não concordou a princípio, mas o “espírito

convencedor de palhaçadas e outros afins” deu

um jeito de convencê-la através de uma risada

maldosa que eu liberei e já pegando o primeiro

maço.

Deixei perto da árvore na calçada e fiquei

observando.

Um casal discutindo. De repente os dois

passam pelo maço e o homem diz para ela que

havia um maço de cigarros novinho jogado no

chão. Andam mais alguns passos e ela pergunta

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

se ele quer o cigarro. Então num gesto de

companheirismo a mulher volta e pega

rapidamente do chão e leva para seu amado, o

qual com maestria coloca no bolso dando uma

olhadinha pra trás por segurança e seguem

abraçados pela rua talvez nem lembrando que

brigavam.

Fiquei comovido com o gesto! Apesar de ser

uma pegadinha de gosto duvidoso, pude notar

que as pessoas passam por problemas cotidianos,

mas por dentro são companheiras e ninguém vive

sozinho! Por mais que as brigas num

relacionamento existam há sempre um desejo

mútuo de fazer o outro feliz e sermos também

felizes! Emocionei!

Então tomei mais um golinho da minha

branquinha e rapidamente deixei o segundo maço

no mesmo local. Mal entrei de novo no recinto e

um vendedor de sacolé tratou de pegar o maço do

chão rapidamente, com habilidade de goleiro.

Andou um pouco e parou para saborear um dos

cigarros.

Ao ver que eram somente filtros, jogou o

maço no chão e xingou alguma coisa que não

pude ouvir da porta.

Ele andou um pouco, mas voltou e pegou o

maço de cigarros. Estava com o mesmo sorriso do

“espírito convencedor de palhaçadas e outros

afins”.

Que bom! As pessoas apesar das

dificuldades têm senso de humor! Sei que foi

passar a pegadinha em alguém.

Ali pude ver que não é necessário dinheiro

para que existam sorrisos no rosto das pessoas.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Basta um motivo, mesmo que insignificante que

desperte o desejo de gargalhar.

Novamente outro maço. Dessa vez demorou,

mas valeu a pena!

O sujeito estava bem vestido, vindo pela

direita. Um ar “posudo”! O outro um rapaz bem

parecido com um malandro, desses que se vestem

mal e têm hábitos musicais estranhos! Não é nem

pelo gosto musical, mas pela altura que ouvem,

principalmente em coletivos lotados.

Os dois empataram! Chegaram na mesma

hora para pegar o maço de cigarros do chão.

Então o que estava bem vestido perguntou

se o maço era do rapaz e ele respondeu

automaticamente que sim, citando até que havia

doze cigarros dentro do maço.

O outro então pediu desculpas e seguiu,

admirado pelo rapaz com propriedade demonstrar

mesmo sem abrir o maço a quantidade de cigarros

existente lá dentro.

Nesse momento eu não pude conter o riso e

quase caí da cadeira! Cheguei a liberar lágrimas e

dessa vez nem pude chegar até a porta para ver

se o rapaz chegaria a abrir o maço de cigarros

porque não conseguia parar de rir.

E sim, as pessoas são aguerridas em buscar

sempre vantagens sobre as outras, mesmo que

tenham que fingir!

E não sei se o rapaz era bom moço, mas

tentar vender o maço para algum bêbado no fim

da noite seria uma sacanagem maior que a que eu

havia acabado de fazer!

O problema é que pensando nisso me dava

mais vontade de rir imaginando o bêbado

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

acendendo o cigarro de filtro. Mais ainda, ele

dando alguns tragos até perceber que não

acendeu o cigarro do lado errado e que o mundo

não estava conspirando contra seu cigarro, após

ter virado o lado, revirado e retirado o pedaço

queimado de filtro em ambos os lados. E então

depois de um bom tempo perceber que o cigarro é

somente um filtro, sem fumo.

E pior seria se ele pensasse que este cigarro

veio com defeito e tentar acender outro do mesmo

maço.

Percebendo que eu já começava a

incomodar os clientes tentei me conter, e

confesso que foi difícil!

Eu já estava pensando em desistir da

brincadeira quando vi que só havia mais dois

maços comigo, pois a Xuxinha havia guardado os

outros em seu armário porque o Zezé não estava

gostando da brincadeira em seu comércio.

Coloquei outro maço lá perto da árvore e

fiquei olhando. Passou uma garota vendendo balas

e ao ver o maço se abaixou para pegar. Fiquei

preocupado achando que ela iria pegar aquilo e

sair contente achando que era de verdade.

Para minha surpresa ela pegou o maço e

entrou no Dourado, jogando o maço no lixo.

Fui até ela rapidamente e perguntei se ela

estava jogando cigarros fora e ela respondeu que

sim, que seu pai morreu de câncer por fumar

demais e por isso hoje ela ajuda a mãe vendendo

balas enquanto a mãe olha uma senhora lá para

os lados do bairro Serra. Falou que não gosta de

ver as pessoas fumando porque isso lembra do

sofrimento da família.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

A pegadinha dessa vez não foi engraçada,

mas me encheu de orgulho ao ver que aquela

garotinha tão nova, aparentando dez anos, tinha

uma consciência tão bem desenvolvida. Então

sorri emocionado e a parabenizei!

Aí ela virou, com uma rápida mudança de

fisionomia, de criança para comerciante

experiente e perguntou quantas balas eu iria

levar, já até tirando algumas da caixinha.

Mas é justo! Está certo! Comprei algumas,

afinal eu que fui até a garotinha puxar assunto.

Acabou que o último maço eu mesmo abri, e

fiquei vendo aqueles cigarros somente de filtro.

Desmanchei um para ver e deixei o maço em cima

da mesa aberto.

Comecei a filosofar em silêncio sobre a vida,

olhando o filtro de cigarro, sobre o interior de cada

ser humano, as vontades, o desejo de realização

que se parece em cada um, e o quanto cada um

se esforça para pelo menos ter o que comer,

sendo que na maioria das vezes as gotas de

felicidade que sobram se resumem a poder pagar

as contas no final de um mês de trabalho duro e

não passar fome, mesmo que a carne tenha que

ser baratinha e não dê para comemorar um jogo

de futebol com churrasco no quintal.

Foi aí que me levantei para escolher algo

para comer e ao voltar não é que haviam levado o

maço de cigarros falsos!

Então eu não sabia se ficava preocupado

com a safadeza alheia ou se caminhando pela rua

o safado me visse e pensasse que eu sou doido

varrido ou fumo cigarro de filtro sem fumo pra não

ter o perigo de pegar câncer ou poluir o mundo.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Pior é se o larápio fumar o cigarro de filtro

pensando que se eu, que estava bem aparentado

fumo essa marca, deve ser algo chique, da última

moda!

Eu mereço?

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Ái meu fusca!

Claro que arrumo seu Fusca minha amiga

Alessandra! Nunca fiz manutenção em carro, nem

tenho curso de mecânico, mas não há um

brasileiro que não entenda de Fusca.

Vamos ver:

A porta está fechando bem! O motor

funciona bem apesar de ser muito barulhento! As

marchas estão um pouco duras, mas esse carro é

bem antigo, deve ser por isso.

Os pneus estão um pouco gastos e a pintura

original está bem conservada, apesar de um

amassado na lataria!

O volante está duro e vira com dificuldade,

mas vira!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Os pedais são duros também, mas estão

funcionando perfeitamente! Também quando

sento no banco as molas vibram bastante, como

todo carro Fusca que se preze, caso contrário nem

adianta querer dizer que é um Fusca.

Um monte de badulaques, fitas, um terço,

dentadura e chaveiros pendurados no retrovisor

interno...

O motor é atrás e o porta-besteira tem de

tudo, desde colcha até um sanduíche velho já

mofado, aranhas viajantes, ferramentas, uma

barata morta, um pente de cabelo, um espelho e

uma toalha toda impregnada de mofo verde.

Depois de vistoriar o carro conclui:

realmente o paciente parece ser um Fusca! Faltam

alguns detalhes para que eu possa comprovar

cientificamente que é um Fusca.

E com o olhar de um perito, após dar meu

parecer, minha amiga vira e fala que o problema é

que o vidro do lado direito não estava fechando

embora ela girasse a maçaneta.

Olhei pra ela e fiz uma cara de desgosto e

desaprovação. Pôxa! Eu estava fazendo a autópsia

da vítima Eu iria constatar em breve que o vidro

não estava fechando.

Mas continuei meu trabalho importante!

Agora eu precisava desvendar as causas do

trauma gravíssimo na porta direita que impedia

que o vidro fosse fechado.

Um olhar sério sobre os fatos. Com calma

pego várias ferramentas numa caixa. Procurei um

bisturi, como não havia, tive que me contentar

com uma chave de fendas e um alicate.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Eu estava prestes a iniciar os trabalhos de

uma operação de risco quando novamente minha

amiga vira, com um olhar de preocupação ao ver

que o veículo seria aberto e fala que o vidro não

fechava porque a maçaneta perdeu os dentes por

estar muito velha.

Olhei para ela de novo, fazendo transparecer

que ela estava interferindo na operação cirúrgica.

O sol estava quente e eu já começava a suar

bastante, pelo calor e pela tensão naquela

operação delicada.

Após um longo período de comprovações

científicas percebi que a maçaneta estava muito

gasta e as secções já não conseguiam erguer o

vidro do veículo, que parece ser um Fusca

realmente, embora eu ainda tivesse algumas

dúvidas.

Então após o término do trabalho virei pra

minha amiga e disse que ela precisaria trocar a

maçaneta, que era baratinho! Eu segurava a

maçaneta removida nas mãos e ainda mostrei que

estava totalmente gasta.

Mas ela disse não poder trocar a peça

porque era muito caro e não poderia gastar mais

com o carro. Quase se desesperando em ter que

gastar algumas moedas para comprar outra

maçaneta.

Eu olhei para ela e ao mesmo tempo para a

caixa de ferramentas, fazendo uma cara de lerdo.

Olhei para o paciente, seus faróis me

olharam com tristeza, conformados diante dos

fatos, parecia me demonstrar no silêncio de seu

labor as dificuldades de ser um Fusca.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Pensei que se ela não estava nem aí para a

troca de uma peça que evitaria que o carro fosse

roubado ou que fosse assaltada no trânsito, a

minha cerveja de prêmio também não iria

acontecer em hipótese alguma.

Estava ali na caixa uma fita de vedar rosca

de cano d’água e um pedacinho de arame. Peguei

o rolo, passei em volta da parte da porta da

maçaneta e voltei a colocar o parafuso na

maçaneta e apertar. Em seguida passei o arame

em volta com a ajuda do alicate.

O vidro então fechou normalmente e ganhei

um abraço e um “muito obrigado” feliz da minha

amiga.

Voltei para o barzinho onde estava antes

dela aparecer com o seu veículo desesperada para

que eu o salvasse da morte trágica, provocada por

um vidro que não se fechava.

Sim! É um Fusca! Não tenho dúvidas agora!

Com certeza é um Fusca! É um Fusca certamente!

Com um remendo na porta, todos os outros itens

de série já citados e uma dona mão-de-vaca! É um

Fusca completo! Legítimo!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

“Moreno” só tem um

A sociedade molda demais as pessoas,

tirando muitas vezes a espontaneidade de ações e

idéias. Pessoas capazes, que têm dentro de si uma

identidade, um juízo de valor sobre cada coisa,

muitas vezes são sufocadas pelas pressões sociais

em busca de um padrão de aceitação até mesmo

contrário à própria individualidade humana.

A sociedade molda os modos de vestir, o

corte de cabelo, os gostos culturais, a escolha

religiosa, os lugares que cada um frequenta e até

mesmo o que está degustando no prato e quer

saber até mesmo quantas doses de bebida já

foram ingeridas.

Nós estamos numa sociedade tendenciosa,

aliás, sempre foi assim! Só o que muda é a época

em que vivemos.

Outro dia eu estava comendo uma porção de

bolinho de bacalhau sossegado no barzinho,

quando percebi que um casal me encarava pelo

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

fato de eu estar comendo os bolinhos com as

mãos, sem usar um guardanapo ou um palitinho.

Comentavam baixinho e depois voltavam a me

observar.

Ora, se vou pagar pelos bolinhos, não posso

comer da maneira que mais achar conveniente?

Como com a mão mesmo e adoro fazer isso! Ainda

lambo os dedos em seguida pra aproveitar a

gordurinha do azeite e o gostinho do limão.

Gostar ou não gostar de mim? Aceitar ou

não? Na verdade não fará muito a diferença. O

que importa é que para o meu orgulho, só eu sou

eu, e sempre serei eu. A sociedade não vai me

mudar, me tornando um robô da aceitação

coletiva. A ovelha negra recebeu a cor negra para

ser diferente do rebanho das ovelhas e se

destacar por isso.

Identidade, que ninguém vai tirar! Eis a

identidade de um sambista, que não perde seu

valor! Toca viola, no domingo joga bola, na

segunda vai pro emprego, acende vela pro santo e

não dispensa a boa hora do jantar!

Isso é nossa personalidade! Sejamos

exemplos sociais ou sem vergonhas, mas que

tenhamos a nossa identidade!

É tão bom acordar e olhar no espelho! Nosso

modo de olhar é único, com ou sem remela nos

olhos! Eu sei que em nenhum lugar do mundo

alguém tem um olhar igual ao meu, nem está

pensando o mesmo que eu ao me olhar no

espelho, a menos que seja tão egocêntrico.

Sei que existem muitas pessoas com o meu

nome, ou com o mesmo tom moreno da pele, o

mesmo corte de cabelo, as mesmas pendências

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

de contas atrasadas. Mas por dentro da pele não

há outro de mim, isso me deixa muito feliz!

As pessoas costumam criticar as roupas que

vestimos, costumam criticar a combinação das

cores das roupas. Ora, em eras remotas as roupas

eram usadas para proteger do frio e esconder as

“vergonhas”. Agora são usadas para servirem de

objeto de análise das outras pessoas. Ainda mais

que hoje em dia ninguém se preocupa em

esconder nada e sim mostrar.

Isso é muito bom! Em um mundo tão

diversificado é importante termos pensamentos

diferentes. Mas não vou trocar de roupa não.

Gosto de ser espontâneo! Bom, pra falar a

verdade quando vou sair pego a roupa que estiver

menos amassada e dependendo da roupa, se eu

gostar, dou um cheirinho pra ver se está com odor

de suor, mesmo se já estiver no cesto. Aposto que

todo mundo já fez isso um dia.

Meu estilo musical, os lugares que gosto de

ir, meu time de futebol do coração, tudo isso são

escolhas de vida que me realizam e proporcionam

prazer!

Gosto de possuir a minha subjetividade e me

orgulho que ninguém consiga tirá-la! Eu sou único

na sociedade, não há um outro indivíduo

totalmente igual a mim.

Eu gosto de cantar minhas músicas, de

escrever de vez em quando, de paquerar, comer

bolinho de bacalhau e camarão ao alho como

acompanhamento de uma boa cerveja!

Gosto do carnaval do Rio de Janeiro e minha

escola do coração é a Estação Primeira de

Mangueira!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Eu gosto das paisagens mineiras, das

ferrovias, do típico ambiente das cidades do

interior, cada uma tão tradicional e com um astral

diferente, um clima diferente!

Há pessoas que não gostam de viajar, que

não gostam de sair, que não gostam de sorrir e

nem de amar, que não se emocionam com

nada...ao contrário de mim...

E se não gosto de você, ou se não gosta de

mim, ou se não gostamos daquela outra pessoa.

Bom, não dá pra resertar a vida e voltarmos em

épocas diferentes. Tampouco o mundo será

sempre uma maravilha, a ponto de não nos

desgostarmos por alguma coisa.

Vamos viver então! Aproveitar da vida o

melhor e buscarmos sempre a felicidade!

Enquanto procurarmos a nossa felicidade, menos

tempo teremos para nos aborrecer com as

diferenças alheias.

Tenho palitos na mesa, quer pegar um

bolinho?

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

O galã

Quem nunca gostou de estar bonito? Andar

pela rua sentindo que as pessoas admiram a sua

elegância? Se sentir um astro do cinema, alguém

importante? Galã em todos os aspectos da

supremacia masculina?

Isso ocorre quando o homem comum veste

um terno! Mas não essas pessoas que estão

acostumadas a usar no dia-a-dia para ir ao

trabalho. Falo das pessoas humildes do cotidiano

que na maioria das vezes usam mesmo é o

bermudão e uma camiseta, chinelo de dedo e um

penteado comum, sem gel, e para o trabalho a

calça jeans e uma blusa de botão.

Numa ocasião especial, uma formatura, um

casamento ou uma festa mais requintada, vai lá o

indivíduo comum, o que passa por nós na rua

invisível todos os dias, como se fosse parte de um

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

cenário cinza. Ele veste um terno bem passado e

ocorre uma transformação completa no momento

em que coloca a gravata no pescoço e percebe no

espelho que está usando um terno. Um novo

mundo se abre diante dos seus olhos e ele

percebe que está irresistível! Comestível! Sedutor!

Quando está de terno se torna um galã!

Saindo da frente do espelho após passar o gel nos

cabelos, nem espera o espelho dizer que não há

ninguém mais belo que ele.

Caminha pela rua com graça e beleza! Se

sentindo uma nova pessoa, um artista de

televisão! Bonitão e boa pinta! O bom da boca!

Nessa hora é necessário manter a classe

afinal todos os holofotes estão lhe vendo,

mulheres admiradas e homens invejando a sua

condição de galã.

Ajeita a lapela ao passar pelas mulheres, ou

então finge arrumar os cabelos, passando os

dedos só nas arestas para não atrapalhar o gel.

Ou então franzindo a testa finge se preocupar com

algo importante, talvez o início de uma grande

guerra ou um compromisso com os altos

investidores em ações.

O homem se sentir bonito e perceber que as

pessoas o notam é mais importante que se

alimentar ou ter saúde! A condição privilegiada de

galã no ambiente social em que está inserido é

mais prazerosa que estar com uma mulher na

intimidade no momento do clímax! O

reconhecimento é o máximo da realização do

homem!

Notar um olhar de admiração do público

provoca um êxtase interior que dá até calafrios ou

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

uma náusea, um desejo até de não ser tão notado

naquele momento que logo vira uma timidez.

Chegar de carro num lugar e ser notado

imediatamente devido à condição de galã, ao sair

os olhares o seguindo...por dentro uma realização

que não dá para descrever em palavras.

Eu sei que existem homens que não sabem

o que uma mulher diz pra um galã de verdade,

para um conquistador nato, usando um terno

alinhado e caminhando pela rua como se até

mesmo o sol brilhasse só em si, tal qual a luz de

um palco a destacar o ator. Eu sei!

Mas quando se tira o terno, parece que um

peso enorme saiu do corpo! Uma responsabilidade

imensa de ter que se comportar estilisticamente

correto e não poder fazer o que usualmente

fazemos no dia-a-dia como enfiar o dedo no nariz,

coçar o saco ou soltar um pum ou um arroto.

Galã não! Galã deve ser um homem garboso

e sem vício! Uma imagem sincera da jovialidade e

virilidade masculina aliada a uma inteligência

sagaz, um sorriso sem motivo apenas por ser galã

e um olhar que faz declinar as mulheres. O galã

deve ser uma pessoa decisiva, imediata!

Solucionador da solidão ou do tédio do cotidiano

de alguma mulher entretida em seus afazeres, e

que logo se declina à imagem ostensiva do

garanhão.

Isso tudo por causa da necessidade de

realização de cada homem no seio da sociedade.

O ego interior, o desejo de ser importante, de

chegar a algum local e ser notado com olhares de

desejo, mesmo que isso tenha um custo alto de

não poder fazer qualquer movimento brusco ou

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

inconveniente que será contestado pelo público

eleitor da condição de galã perfeito.

Mas é sempre bom estar galã!

Ah o galã! Tão bem notado e tão sem noção!

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Este livro foi impresso pela Gráfica e Editora o

Lutador

O texto foi composto na fonte Gill Sans MT e os

títulos na fonte Times New Roman, em corpo 12.

A impressão foi realizada em papel pólen rustic

85g.

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Vitor Moreira, 2013


EMOÇÃO – “Causos” do cotidiano

Escrever a obra Emoção – “Causos” do Cotidiano me

surpreendeu porque nela eu deixei de lado muitas formalidades

com as quais sempre convivi ao criar e escrevi livremente,

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Vitor Moreira, 2013

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