AMOR+DE+VERANEIO

VitorCorleoneBH

Uma história de amor envolvendo um adolescente inexperiente e uma adolescente já bastante experiente em relacionamentos no ano de 2001. O cenário é um antigo colégio em um bairro de subúrbio de Belo Horizonte, chamado Padre Matias. Os acontecimentos saem do controle e o que era apenas um caso de amor passa a ter envolvimento com crimes e drogas.

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AMOR DE VERANEIO

UMA HISTÓRIA DE VERÃO

Belo Horizonte, 2002

Vitor Corleone Moreira da Silva

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Esse foi o primeiro livro mais extenso que

criei. Certamente que algumas pessoas por

motivos óbvios entenderão melhor e mais

amplamente o romance que nessa obra se

desenvolve.

É uma obra que marca toda a minha vida,

pela importância e pela possibilidade que

encontrei de desenvolver a minha arte de maneira

simples e direta. Houve felicidade na disposição

dos elementos ao meu belprazer, em outras

palavras, eu transei a trama e como fiz? Da

maneira que eu bem entendi!

Ruan descobre por Mary o verdadeiro amor,

que não julga o que as pessoas foram, mas como

elas são na atualidade.

Jovens, descobrindo a vida de maneira tão

diferente, sentindo na pele a influência do mundo

exterior.

A jovem Mary demora porém acaba por

compreender a verdadeira essência do amor e

Ruan aprende o sofrimento, e faz dele um

ensinamento grandioso para a continuação da

vida.

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Personagens

Ruan

Mary

Giancarlo

Augusto

Vitor


Binha

Tiago

Márcia

João

Elizete

Thais

Edinalva

Luciene

Fernanda

Gisele

Frederico

Tamires

Ariel

Nelzir

Gomes

Wanderley

E outros...

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O UNIVERSO HUMANO

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AMOR DE VERANEIO

Uma história de verão

Primeira parte

Capítulo 1

Noite calma em Belo Horizonte. Três de Dezembro de 2001.

É chegada a estação mais quente do ano. A aproximação da Terra à

estrela que rege a vida dá existência a um novo ser. Subitamente, sem cor

nem forma, ele se aproxima e trás consigo a essência da estação. Possui

braços de fogo e olhos que se assemelham ao fruto do licoreiro.

Bem no pátio da Escola Padre Matias, cenário de um encontro

repleto de nervosismo.

“Uma noite calma vem descendo sobre a cidade mineira, anunciando

uma brisa enamorada que trás às nossas narinas o perfume selvagem das

fêmeas da espécie.”

O grupo de adolescentes que a percebe conversa no corredor do

segundo andar do colégio.

- E então Gú, a gente vai ou não vai lá?

- Não sei. Vou ter que arrumar dinheiro essa semana. Sabe como é, mamãe

e papai não dão mais não.

- Fiquei sabendo que esse grupo de pagode não toca é nada. Né Salame?

- Cê qui pensa mane. O pessoal sabe é muito não é Binha?

- Mas é claro! Mas o que eu mais gosto é a cerveja, mulher vai ter demais

e o pagode é só no passinho!

- Ah é Ruan, você pode ir com a gente.

- Ruan sair de casa? Rá, rá, rá...que piada heim Salame. Ruan ainda é

criancinha da mamãe.

- Rá, rá, rá...é mesmo aí Fred.

- Qual é? Estão me tirando é? Pois eu vou sim, e já aviso que ninguém vai

tomar mais golo que eu.

- Duvido rapaz, tu nem sabe beber. E como vai fazer pra sair?

- Ta tudo dominado, o pessoal lá em casa vai em um casamento, vou usar a

desculpa de ficar jogando vídeo game e quando todo mundo sair de casa eu

saio e deixo a porta do quarto trancada. Mas já aviso que ce não fica de pé

Binha.

- Vamos apostar então...

- Ta apostado.

- Olha só o professor chegando aí. Como é que é, vai rolar um truco já no

primeiro horário lá no pátio?

- Pra mim não vai dar não, ta quase no dia da prova e eu não sei nada

ainda.

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- Ah que se dane Ruan, na hora a gente arruma uma cola.

- Pode ser então, mas já que eu vou matar aula com vocês vou querer uma

dica com aquele filé que tava olhando pra mim enquanto a gente

conversava.

- Filé? Bom, se você está querendo uma coisinha fácil beleza, mas filé já é

demais aí...

- Rá, rá, rá...olha só o Ruan...vamo logo gente, vamo que eu quero é jogar.

- Olha lá ela saindo da sala, vai indo gente. Vai indo que eu vou falar com

ela.

- Pirou, aposto que vai levar uma cortada ou então o valor do aluguel.

Então Ruan seguiu o corredor até a penúltima sala onde a

adolescente havia acabado de entrar. Chegando perto da porta ela o viu, e

ele fez um sinal de que queria conversar com ela.

A moça revirava seus materiais em sua carteira e fez um sinal

positivo com a cabeça.

Retornou o jovem Ruan para o grupo que jogava baralho, sendo que

um dos jovens escondido no canto fumava um cigarro.

Os jovens esperavam ansiosos para tirar um sarro com ele. Mas

poucos segundos depois ela chegou e interrompeu com sua presença o

início da gozação.

- Você disse que queria falar comigo?

- A sós...vamos lá embaixo.

- Vamos.

Os dois desceram as escadas e foram para a parte mais escura do

pátio do colégio.

- Qual o seu nome?

- Mary.

- O meu é Ruan. Muito prazer!

- Prazer...(risos)

- Já faz um tempo que eu queria falar com você, e...

- Você está nervoso?

- Não...é que...você tem namorado? Alguém que você está ficando ou...

- Eu não.

- Ah, vamos namorar então?

- Namorar? Mas não agora não é?

- Bem...a gente dá um tempo pra se conhecer melhor...primeiro a gente

conversa, fica e...

- Tudo bem. Mas você é bem apressadinho heim menino?

- Deixa eu tocar seu corpo?

- Depende de onde...

Adolescentes...nisso os dois já estavam praticamente abraçados e

certamente que Ruan jamais havia tocado no corpo de uma mulher. A

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descoberta fascinante logo interrompida por um toque falso de requinte,

classe e educação, mas que na verdade esconde o desejo humano.

A evolução da vida! A descoberta de que é possível modificar o

universo! O fascínio pelo desconhecido e pelos prazeres que a idade revela!

Vícios, proveitos que se aproximam...

- Eu queria te dar um beijo mas vai estragar o seu batom vermelho.

- Depois a gente conversa. Nós estamos apenas nos conhecendo por

enquanto, nem sei quem é você direito.

- Na hora do recreio?

- Tudo bem. Nós podemos conversar depois.

- Vamos subir então.

De mãos dadas os dois retornam pelo mesmo caminho por onde

vieram até o pátio e, no segundo andar ainda aguardavam os colegas de

classe de Ruan, gozadores como sempre, inevitáveis.

- Então depois a gente se fala.

- Ta.

Seguiu-se de um amistoso beijo no rosto, o qual se tornou, dentro da

sala de aula, único motivo de piadas do Binha, do Gú, do Salame, Fred e do

Tiago, um aluno que faltava de aula mais que qualquer outro naquela

escola. Um que tinha síndrome de Rambo e em tudo colocava um pouco de

suspense e ação, até mesmo nas turbulentas aulas de biologia. O espírito da

juventude é como uma massa sem forma, indefinida, e quando entra no

jovem se modifica, se transforma e em cada um, de maneira diferente se

manifesta.

- Que vacilo heim Ruan! Desse jeito ela não vai querer nada com você

não. Todo cheio de carinho. Cadê a sacanagem, a pegação?

- Por que mane?

- Ah é? Ela esperando você beijar na boca e dar o famoso tapinha e você

dá aquele beijinho de amigo boiola...no rosto?

- Rá, rá, rá...ele é muito fraco de idéia.

Nisso se formou um pequeno grupo de conversa no fundo da sala e

que por alguns minutos perturbou muito a concentração dos outros alunos,

principalmente da quadrilha brega que apelidaram de “o quarteto” ou “as

quatro”, que na verdade eram cinco: Thais, Elizete, Fernanda, Luciene e

Ednalva. Podia haver um dilúvio no Padre Matias que elas permaneceriam

nos seus lugares assentadas calmamente copiando a matéria, acho que

nunca mataram uma aula, também acredito que quando perdem um ponto

em alguma prova vão ao padre confessar o pecado. Detalhe é que são as

maiores fofoqueiras do colégio e andam sempre juntas.

- Como é que é? Essa conversa aí atrás vai ou não parar pra eu continuar a

minha aula?

- Pó, dá uma moral aí pro rapaz, professor. – disse o Binha.

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- Sem cvonversa na minha sala. Na hora do recreio vocês conversam o

tempo que quiserem.

- Cê é louco meu. Sussurrou o Tiago, também apelidado por nós de “o

detetive”.

Claro que o professor ouviu e reclamou da conversa, citando que os

que tivessem interesse em sair da sala ele colocaria presente.

Saíram seis rapazes. Os mesmos de sempre, para mais uma partida

de truco no pátio da escola. Foram em meio a risadas e piadas, já era

comum isso acontecer.

O restante da aula correu normalmente, com as conversas já

programadas entre os alunos mais sadios e que gostam de estudar, até que

tocou o sinal do segundo horário.

É comum nas trocas de professor que a gente deixe a sala de aula e

fique no corredor. Supervisores falam que não é correto, que é necessário

ter ordem. Eu porém tenho a opinião de que é muito desumano ficar cinco

aulas diretas sentado naquela carteira dura e desconfortável. Somente o

quarteto ousa fazer esse sacrifício árduo, sei lá, elas devem ter feito um

pacto ou então são seguidoras de alguma seita estudantil rigorosa e

conservadora. Nem se parecem adolescentes, sempre tão sérias e caladas. É

o que eu havia dito anteriormente sobre o espírito da adolescência. Nelas

parece ter se revelado um espírito ainda sem forma, ou então na forma de

uma estátua.

- E aí Ruan, não vai lá na sua garota vestida de rosa-choque não? Isso

porque a tal Mary estava usando uma roupa rosa. Eu não comentei nada

também pra não chatear o Ruan.

- Isso é problema meu Gú, que coisa, me deixa quieto sô.

O Gú também não havia sido visto com mulher na escola, e isso era

um problema, pois pra ser popular naquele colégio o sujeito tem que ter

lábia, caso contrário será sempre um anônimo no meio da multidão. A não

ser que arrume uma briga na saída e que apareça viatura da polícia, também

isso é um portal pra fama, e fama meus caros, é tudo!

- É isso aí Ruan. Não vai na idéia desses caras não. – disse o Fred,

namorado há algum tempo da Ednalva, o quinto elemento.

- É mesmo, o Gú não arruma nada e ainda vem falar.

- Isso aí Ruan, ele não arruma nada mesmo, mas aí, o que você falou com

ela?

- Ah, só conversei e, falei pra gente ficar hoje.

- E ela.

- Ela disse que sim. No fim da aula vamos subir juntos e aí se rolar.

- É isso aí, vai fundo.

- Vai fundo não, vai alto. Viu só o tamanho dela? O Ruan deve ter mais ou

menos um e sessenta, agora ela tem uns setenta e quatro sem dúvida.

- Isso é problema?

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- Não seria se ela não estivesse de salto. Eu na verdade estava segurando

pra não falar, mas na boa Ruan. A mulher é muito mais alta que você.

Era a brecha que a sala precisava. Aula mesmo depois disso não

houve, apenas piadinhas de baixo calão até que num dado momento a

turma se calou, por inteiro, pois o professor começou a falar quanto faltava

pra cada aluno passar em sua matéria. Choro, ranger de dentes, e por vezes

alguma piadinha de algum aluno que estava liquidado e ouvia a nota de

algum que estava pior.

Por um instante compreendemos o que significava a frase de que no

final haveria choro e ranger de dentes, agora isso faz sentido.

Depois do choque, seguiram-se as outras duas aulas antes do recreio

e o céu começou a se inflamar de nuvens carregadas. Tocou o sinal forte do

recreio e todos saíram.

- Aí Ruan, traz o baralho e fecha a porta que a gente vai fumar um cigarro

escondido aqui na janela.

- Toma aí, vai jogando que a segunda rodada é minha.

O jovem seguiu de novo o corredor e chamou Mary para a prometida

conversa que iriam ter.

- É melhor a gente conversar no final da aula. É que estou um pouco

ocupada com os exercícios e se eu não tirar uma nota boa minha mãe vai

ficar brava comigo.

- Tudo bem então, depois a gente se fala. Já que não tem remédio, eu vou

ficar lá na minha sala com meus colegas até passar o horário do recreio.

Outro beijo no rosto, dessa vez a pouco não seria nos lábios da tal

Mary, o que provocou um certo alvoroço de pensamentos e suspiros nas

três colegas de classe que estavam na sala dela.

Ruan era genial nas coisas que fazia como estudante. Era bom nas

chatas aulas de português e de inglês. Também gostava muito dos jogos de

truco e por ter tamanha afinidade com o jogo, era essa a desculpa dos

colegas para o desencaminhar e matarem aula.

Era uma turma fadada a perder média: Ruan, Éder, Daniele, Salame,

Binha e Gú.

Um pouco frustrado por não ter conseguido falar com a Mary e,

tentando esconder isso foi jogar. Para apagar o clima acabou aceitando dar

um trago no cigarro que dois colegas fumavam na janela, pra que não

ficasse cheiro na sala, apesar de ser inegável o efeito dele.

Ruan já tinha fumado cigarro em na festa de final de ano mas aquele

cigarro estava com um cheiro diferente, e parecia estranhamente agradável

por não provocar tosse.

Começou a chover e a chuva era brilhante, os raios pareciam cegar

os olhos porém não provocavam dor, nem de relance um piscar de olhos.

Um frio típico de verão, que convida a um abraço e uma noite a dois, claro,

aqui a maioria jamais vivenciou isso, mas sentir é diferente de saber ao

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certo como é a sensação. Adolescente todos sabem como é. Se justifica

tudo com uma boa imaginação.

Ruan percebeu mesmo que lentamente sua paquera ir por água

abaixo levada pela chuva, jorrando pela rua da escola, levemente inclinada.

O bueiro, um gargalo de expectativas que jorram e morrem, tal qual um

buraco negro que consome estrelas no meio do universo.

***

No mesmo dia três de Dezembro, na mesma escola Padre Matias,

final da aula. Vinte e duas horas e seis minutos.

Muitos minutos atrás a chuva encerrou seu lamento sobre o bairro

Glória, o que deixou Ruan ainda confiante, mas ao sair, a sala de Mary

estava vazia.

Quê restou ao jovem fazer senão ir embora aos seus passos

silenciosos pelas ruas de nomes históricos que projetam sua casa à sua

escola?

No primeiro dia – o primeiro contato – nada deu certo para o rapaz,

que há mais de uma semana sentia-se atraído por uma vontade que não

podia definir, e que de certa forma parecia aprisionado ao sorriso daquela

adolescente.

Chegando em sua casa assistiu um pouco de televisão e depois

dormiu, ainda se sentindo leve em virtude do ilícito e perigo das amizades,

mas de fato pensativo sobre a razão de não ter dado certo o seu encontro ao

final da aula, que pretendia.

Capítulo 2

O dia nasceu bonito, com a alegria emocionante dos bem-te-vis que

voavam de galho em galho no pé de ameixa da casa da Janaina, vizinha de

Ruan. O sol radiante recostava os punhadinhos de sombra que as telhas

teciam e o pio dos canarinhos nas gaiolas lá na cozinha despertou de vez os

remanescentes do sono.

Depois de tomar café da manhã, Ruan foi arrumar seus materiais e a

roupa do colégio, uma roupa fresca por causa do calor daqueles últimos

dias.

Quando abriu o bolso menor de sua mochila havia lá dentro um

cigarro do mesmo que anteriormente havia experimentado na sala de aula,

o que o perturbou. Ele sabia que um dos amigos havia deixado aquele

cigarro pra que ele fizesse uso, mas logo de manhã? Em dúvidas, acabou

vencido pela vontade do novo experimento e subiu pra cima da laje pois

ninguém sabia que estava fumando.

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Como trem desgovernado as próximas horas passaram, agravando no

tempo as ações praticadas pelos homens naquele dia. Quem foi trabalhar

trabalhou, quem havia de matar ou roubar também o fez. Pecado ou

santidade, amor ou ódio. Mais um dia de existência na extensa sociedade

humana.

Uma brisa sem forma e fresca anuncia a chegada das dezoito horas, e

o aluno Ruan chega na escola pra mais uma noite de estudos, e outros

afazeres importantes para um adolescente. Rua Célia Costa, recanto do

velho “Padreco”.

- Aí Ruan: sua mulher veio aqui te procurando. – Disse o Alex, que

nós empre chamamos de Gú.

- Ela veio aqui?

- Saiu daqui agora. – Disse o Tiago, que nós apelidamos de Salame.

- Vou lá ver o que ela quer.

- Aí, gostou do pára casa?

- Vocês não valem nada...

Alguns passos o anunciaram, os quais a vida contou dezenove, à sala

da Mary, a tal garota que ele conversou no outro dia.

- Posso falar com você um minutinho?

- Pode sim.

- Vamos conversar no corredor.

- Ta...

- Meus colegas de classe disseram que você foi lá me procurar...

- Eu não.

- E então?

- Bom...é que ontem eu fui embora por causa da chuva, até pedi pra

uma amiga te avisar. Ela deu o recado?

- Não.

- Ficou com raiva?

- Claro que sim. Podemos conversar hoje?

- Ta. Mas no final da aula.

- Tudo bem.

Uma voz vinda do pátio do colégio assassina o discurso dos dois

jovens:

- Peguei no flagra hein Ruan?

- Me deixa em paz peste.

- Ô menina, cuidado com ele porque é tarado viu...

- Ta bem.

- To sabendo heim Ruan...

- Quem é ela?

- Aquilo ali é minha irmã Ariel.

- Nossa! Olha como fala da irmã!

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- Bom! Depois então a gente se fala. Vou arrancar sua maquiagem

toda.

- Vai é?

- Se é que pretende fugir de mim a hora é agora, porque depois você

vai ser uma frágil coelhinha nas mãos de um lobo mal.

- Nossa! Só quero saber de uma coisa: será que eu vou sobreviver?

- Claro que não.

- Ái...ái...me deixou com medinho.

- Depois então nos vemos...quando esse medinho tiver virado um

medão.

Outros passos morosos reintegram uma labareda que se acendera.

- E então Mary? Você vai ficar com aquele garoto?

- Não sei Jaque, ele parece ser legal, não acha?

- Parece um pouco novo pra você não? Você sempre preferiu ficar

com homens bem mais velhos.

- Vamos ver no que dá. Deixa eu ver a conversa dele, mesmo porque

ele tem a minha idade e minhas últimas experiências com os mais velhos

não estão me agradando não.

E em outro canto da escola outros jovens conversam.

- Eh Ruan...não ta dando mole mesmo heim? – Disse a Gisele, uma

das colegas de classe.

- Que nada. Aquela ali é só uma amiga.

- Amiga né...sei. – Disse a Carol.

A natureza adolescente é ridícula! Antes o Ruan não conversava com

nenhuma mulher e a Gisele nem a Carol notavam que ele tinha um órgão

reprodutor masculino. Ao contrário parecia um ente assexuado. Agora, ele

conversa com uma garota e as duas ao mesmo tempo iniciam um

interrogatório como se houvesse algum interesse.

Verdade é que as duas garotas são bonitas de corpo. A Gisele meses

depois engravidou de um rapaz que conheceu e a Carol foi morar junto com

um outro rapaz que tinha um filho em outro caso.

Depois desse fato começaram a conversar mais com Ruan, ao que ele

pensou inclusive que ia rolar alguma coisa com a Gisele, mas ela era

convicta de que ele ou qualquer garoto da sala não conseguiria

proporcionar a ela nada do que gostava. Isso é fato constante nas

adolescentes mais vividas ou que entraram cedo demais na vida lá de fora

da casa ou da escola.

- Ô Ruan, cadê o baralho pó, revirei sua mochila toda e não achei? –

Disse o Binha.

- Aí, demorou eu dar mais uma surra em vocês todos.

- Então cai pra mão e manda as cartas. Vai Gú e eu contra você e a

Daniele.

- Vamos lá.

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Daniele era uma garota bonita de corpo que inclusive já despertou

anteriormente interesse meu, sei que do Ruan também, e já devia ter ficado

com algum colega. Era uma garota um pouco metida mas que gostava de

matar aulas também e conversava com todo mundo. Ela era divertida. Às

vezes parecia homem de tanto ficar no meio da gente jogando baralho.

Fiquei sabendo que anos depois se casou e teve um filho com um rapaz

mais velho que morava no bairro.

Começaram a jogar lá na mesa do professor, lugar preferido por nós

para as disputas mas o professor do primeiro horário interrompeu o jogo.

- Depois a gente continua valeu Binha?

- Ta seis a quatro pra gente viu?

- Por enquanto.

- Abram os cadernos que eu vou dar visto naquela atividade de

ontem. – Disse o professor Américo.

As horas foram passando nas estressantes aulas que precederam o

encontro dos jovens. Antes de ir embora Ruan vasculhou a mochila pra ver

se algum colega teria colocado algum outro cigarro na mochila, pois caso

fosse abordado pela polícia como iria justificar aquilo?

Não chegou a perguntar a nenhum colega quem tinha sido, afinal

uma simples pergunta iria gerar algo maior, e outra que ele havia fumado o

cigarro mesmo, então achou resolvido o assunto.

***

Belo Horizonte, mesmo dia quatro de Dezembro de 2001.

- Vamos?

Vinte e uma horas e trinta e sete minutos. Último horário de aula,

todas as turmas saem cedo.

Já na rua, caminhando abraçados pela Célia Costa, os dois jovens

procuram se conhecer melhor...

- O que você gosta de fazer?

- Ah...eu não sou uma garota que gosta de sair não.

- Eu gosto de lugares mais calmos.

- Como o quê por exemplo?

- Sei lá, parque municipal, Pampulha...meu quarto amanhã à noite, o

quê você acha?

- Deixa de ser tarado menino.

- Você costuma ir à igreja?

- Sim...duas vezes: no meu batizado e na formatura da quarta série.

- Por isso que está travesso desse jeito.

Por um momento param atrás de uma banca de revistas e inicia um

clima mais íntimo, uma outra conversa, outras emoções.

- Você me deixa louco!

- Ta, mas controla onde vai essa sua mão viu?

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- Quero você toda pra mim, de corpo e alma.

- Não Ruan, aqui não...vai passar alguém e te ver se esfregando em

mim, não faz isso...

- Adoro você demais. – Diz em sussurro ao ouvido de Mary.

- Pára Ruan...vamos embora.

Lá no céu a lua cheia despejava sobre a terra o seu brilho libidinoso,

e as estrelas azuis purpurinavam o encanto límpido da brisa noturna.

As pessoas dormiam ou estavam acordadas, os casais brigavam ou se

amavam, etc, etc...e toda aquela ladainha de livro ou filmes que são

necessários citar pra enrolar até passar o tempo. Quero ir logo ao assunto

afinal não me contive de ansiedade.

- Você é louco Ruan. Eu te conheci hoje.

As árvores verdes do bairro dançavam canções de verão. Era verão

escaldante! Os grilos faziam um show de orquestra e os vagalumes

transformaram a grama em árvore de natal.

Um espírito vagava aos quatro ventos e trazia a sensação de calor.

Anjo não era por não ter santidade. Também não era um demônio por não

odiar. Era só o espírito da estação, aquecendo os corações ao amor. Vagava

e servia de calor, ressecando as bocas a se beijar.

- Sempre quis alguém como você Mary.

Aliciando os seres viventes ao mais íntimo toque e despertando

sensações que afloram pelos poros da pele.

- É melhor eu me arrumar e irmos embora.

- Não, justo agora?

- Já é tarde. Nós nem deveríamos ter vindo aqui hoje. Estamos

apenas nos conhecendo.

- Bom...se a gente pretende ficar junto pra sempre, não precisamos

seguir as regras, não importa o tempo...

- Menino travesso.

- Vai aceitar meu pedido de namoro?

- Sábado eu te dou a resposta.

- Onde a gente vai se encontrar?

- Pode ser aqui mesmo.

- Vou dormir hoje só pensando em você, no que vai dizer.

- Só que eu vou pensar muito viu? E até lá nesses três dias a gente

vai se conhecendo...

- Eu queria te falar uma coisa...você me deixa louco!

- Olha, é melhor irmos embora porque já é tarde.

Lá no céu a lua cheia despejava sobre a terra o seu brilho libidinoso,

e as estrelas azuis purpurinavam o encanto límpido da brisa noturna.

- Nós mal nos conhecemos Ruan, precisamos conversar mais.

- Tudo bem! Vamos conversar então. Qual o seu prato preferido?

- Ah sei lá.acho que lasanha. E o seu?

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- Toda mulher fala que o prato preferido é lasanha, mas eu duvido

que seja lasanha mesmo. Mas o meu é tira-gosto de buteco com muita

cerveja.

- Ruan, pára. Vamos embora agora. Você está me enrolando. Já é

tarde.

Quando a noite desaba na cidade, as horas mortas da madrugada são

a conferência da vida. É como se a brisa percorresse tudo, cada canto do

mundo, só procurando saber se alguém ficou sem amar e levantar-lhe o

santo desejo da solidão, vontade de amar sem ter amor.

Capítulo 3

Belo Horizonte, cinco de Dezembro de 2001 na pracinha onde os

dois jovens namoravam depois das aulas.

Mais uma noite quente de verão às vinte e duas e cinqüenta e seis

minutos.

- Mas por quê a gente não pode se ver amanhã Mary?

- O meu querido! Amanhã eu quero ir na igreja. Tenho que confessar

meus pecados...as burrices que eu já fiz.

- Conta uma?

- Ta bem...é que antes de eu te conhecer, eu namorei com um cara,

chamado Wanderley. E...eu gostava muito dele, só que ele, o cretino, ficou

com a minha melhor amiga...quer dizer, minha ex-melhor amiga. Eu fiquei

com tanto ódio dos dois que eu quis fazer uma burrada.

- O quê?

- Tomar um montão de remédio pra...

- Deixa...eu já entedi.

- Então, foi isso.

- Deixa eu te perguntar uma coisa?

- Deixo sim.

- Ainda gosta desse cara?

- Por que está me perguntando isso?

- Curiosidade e ciúme.

- Você é ciumento?

- Muito.

O encontro prossegue com um demorado beijo que tira o fôlego e

torna ofegante a respiração da moça.

- Nossa! Quê isso? Até parece que é a última vez que eu vou te

beijar. Está com medo de alguma coisa?

- Não, não é nada.

- Está bem Ruan...pode dizer o que foi...

- É...bom, mudando de assunto...fale um pouco sobre sua família.

Você tem irmão?

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Pois é Ruan. Nesse caso eu discordo de você. Quando você veio me contar

isso eu sou de opinião que você deveria ter falado. Senão depois você fica

cismado. Eu já te conheço a um tempão. Mas deixa pra lá...

-Tenho sim. Um irmão já casado e se chama Edílson e uma irmã

mais nova que se chama Tamires.

- E seus pais?

-Meu pai se chama Gomes e minha mãe Nelzir.

- Eu tenho duas irmãs. A Ariel, aquela do colégio e a Bianca, a mais

nova. Meus pais são João e Márcia.

- Você se dá bem com eles?

- Nunca. Se houver um dia de tranqüilidade lá em casa, pode ter

certeza: no outro dia bem cedo ta todo mundo se consultando no médico.

(Risos)

- E você? Como é sua convivência em sua casa?

- Ah, o que eu posso te dizer? Não muito bem com o meu pai, porque

ele bebe muito sabe? E o Edílson também não muito bem por causa dessa

burrada minha, que já aconteceu um tempo atrás.

- É?

- É que no lugar que eu e o outro cara nos encontrávamos o Edílson

passava todo dia quando voltava pra casa. Ele detestava o Wanderley e,

uma vez até brigaram.

- Sabe o que eu fiz na noite passada, antes de dormir?

- Não. O quê?

- Estava pensando em você.

- Bobinho!

- Escrevi umas bobeirinhas pra você hoje à tarde, antes de ir pro

colégio. Quer que eu leia?

- Não...é melhor eu ler quando eu for dormir, assim eu vou ter

sonhos maravilhosos! Vamos aproveitar essa escuridão pra fazer outras

coisas...ficarmos juntinhos...

Lá no céu a lua cheia (virando minguante) despejava sobre a terra o

seu brilho libidinoso, e as estrelas azuis purpurinavam o encanto límpido da

brisa noturna. A paisagem era escura mas havia calor como dia de sol

radiante!

Perguntas que ficam sem resposta são armadilhas da vida e

permanecem lá, no caminho, se tornando motivo de queda para quem

procura caminhar. São perguntas que possuem respostas obrigatórias, mas

as peripécias do tempo tratam de brincar com os corações humanos, pois a

queda nas armadilhas faz parte do aprendizado.

É como se todo humano precisasse primeiro cair, desaprender o amor

para depois prosseguir na vida.

É a inoculação da dor! A vacina contra o sonho! Essa é a armadilha

que fica lá no caminho, calada, só esperando o momento certo de fazer cair

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quem caminhava. Palavras que ficam esperando o que uma hora se

responde, num gemido de dor, ou no silêncio do aprendizado.

A juventude desabrocha a cada instante! O sangue que corre nas

veias possui a liberdade, e se não possui liberdade se liberta pelo cansaço.

O adolescente quer a todo custo fazer o que é proibido e viver

libertinamente, vagar por aí só pelo prazer interior de fazer o que quiser da

vida.

Não muito longe dali, na casa de Ruan.

- Vê lá se isso é hora desse menino estar na rua, com tanto assalto

acontecendo. Você conhece essa menina Ariel?

- Eu não. Só sei que é lá da escola e parece favelada.

- Ah eu já vou deitar, o pior é que ele não leva chave e eu tenho que

deixar a porta escorada.

- Se fosse eu trancava e deixava ele chamando do lado de fora pra

aprender.

- Mãe! E a minha calça de escola?

- Eu já deixei dobrada junto com a blusa Bianca, agora vai dormir

senão você vai perder a hora amanhã.

- Deixa ele, na hora que ele chegar vou ter uma conversinha séria

com ele.

Márcia, mãe de Ruan, é uma pessoa extremamente preocupada com

tudo, tanto que se tornou possessiva ao fato de Ruan evitar o seu convívio.

Talvez pela inexperiência em tratar com jovens, e Ruan estava na fase da

adolescência, e quanto mais imposições e proibições ela fizesse, mais ele

tentaria fazer as coisas. Proibir é a maneira mais dolorosa de autorizar, pois

quem proíbe tudo vive sofrendo a dor da aprovação obrigatória.

Márcia vivia numa prisão, um cárcere aberto. Uma forte mania de

perseguição e super-proteção. Pensamentos antiquados para a atual

realidade do mundo. Raciocínios tendenciosos à sua formação no interior

do Estado, fruto da educação que teve dos pais Mariana e Gilberto. Uma

pessoa que vive, mas acredita que tudo pode acontecer e que acredita que a

sanção, que a proibição de tudo é a melhor maneira de proteger. Acredita

poder proteger a todos, mas na verdade é um ser frágil e temerário.

João já é uma pessoa desleixada que assiste qualquer filmezinho

banal que esteja passando na televisão, por mais ruim que seja. Deixa – ou

faz certa força para – transparecer certos sentimentos e emoções próprios

de pessoa humilde e insatisfeita, principalmente no natal. Trabalha como

vendedor e gosta de piadas – algumas ruins – e tenta sempre fazer as cobras

que convivem com ele no bairro darem um sorriso a cada dia.

Ariel já é uma pessoa fria e calculista, que mantém sempre o

semblante tedioso e estressado. Se é que sente, ou já sentiu, amor, esconde

muito bem. Se recebesse um elogio ou uma cantada na rua não duvido que

revidaria com um insulto ao gavião. Freqüenta a igreja católica, mas como

18


a maioria dos católicos desse bairro que eu conheço, não sabe nada sobre a

essência da verdadeira religião, os mandamentos, a história bíblica. Tudo o

que sabem são as canções dominicais e o que passa nos programas de natal.

Bianca é uma pessoa interesseira e levemente gananciosa que

idolatra o próprio corpo, bem mais do que a consciência. Gosta que os

homens se encantem por ela para que ela pise neles e os humilhe.

Eu lembro que conheci essas pessoas nas vezes em que tínhamos

trabalho de escola e o Ruan convidava pra gente fazer na casa dele, então a

gente fazia tudo bem rapidinho pra depois ir jogar bola na rua da casa dele.

***

Lá no céu a lua continuava a se transformar. As horas passam, e ela

despeja sobre os dois corpos que estão fervendo mais e mais a cada

instante, o seu brilho libidinoso. As estrelas azuis purpurinando o encanto

límpido da brisa noturna...os dois jovens a se amar, no escurinho atrás da

banca de revistas da praça, entre uma e outra carícia, beijos e abraços. O

vapor que voeja daquele pedaço do mundo, encontra as luzes da cidade

acesas e viram neblina no asfalto da rua.

É alimento para o espírito da estação que por vezes passa por ali e vê

que há o calor, há a excitação da alma e do corpo, e sendo assim, sua vinda

está justificada.

- Vai dar a resposta hoje?

- É melhor sábado.

- Hoje vai...

- Calma! Me deixa pensar. Está na ponta da língua.

- Então deixa eu arrancar essa palavra dessa língua quente.

As sensações disparam numa situação corporal de impressionante

acrobacia atrás daquela construção de metal. Como pode haver tamanha

tensão corporal e hormonal entre os dois. Loucura esplêndida e arrogante

da natureza pródiga e intrépida que cultiva o encanto tresloucado que é

tesouro da vida de cada ser vivente?

- Mary, vamos pra casa.

- Tudo bem.

- Posso te acompanhar até sua casa?

Mary fica apreensiva e rapidamente nega, falando que seus pais não

podem nem sonhar, dá uma porção de detalhes e fica nisso mesmo.

E então finalmente repousa o brilho lunar que se esconde atrás da

construção da escola. Já é tarde. Os dois arrumam suas roupas que se

amassaram por causa dos abraços apertados.

Já na rua que dá acesso à casa da jovem, os dois conversam, pois

Ruan oferecera sua companhia insistentemente.

19


- É melhor eu seguir daqui sozinha. Se o meu pai ver você ele vai

criar a maior confusão.

- Mas...e quando é que eu vou na sua casa? Vamos ter que namorar

escondido?

- Por enquanto sim.

- Isso quer dizer que sua resposta ao meu pedido é sim?

- Sábado eu te falo, já disse.

- Bem, é que amanhã você não vai se encontrar comigo...poderia

adiantar não é?

- Ficou bravinho é? Mas não é que eu não queira, é que preciso

mesmo ir à igreja tchu-tchuco.

- Vou morrer de saudade!

- Mas é bom...assim não vira rotina...e, o sentimento aumenta!

- Amo você!

- Te adoro!

- Amo você!

- Te adoro!

- Te adoro!

- Te adoro!

- Quer parar com essa brincadeirinha boba?

- Ô meu tchu-tchuco...fica bravo não, eu ainda vou te responder

como você quer, algum dia.

- Quando?

- Bom, isso só quem pode dizer é o tempo.

- Tempo, tempo pra quê?

- Ora, essas coisas não são de uma hora pra outra não.

- Quero você agora.

- Até sábado tchu-tchuco.

E então a jovem caminhou um quarteirão até chegar à rua de sua

casa. Todos dormiam mas sua irmã acordou com ela trancando a porta.

Após uma refeição um pouco apressada e escovar seus dentes, foi

pro quarto ler o que Ruan havia escrito.

- Conheceu outra pessoa Mary?

- É...um cara do colégio que pediu pra namorar comigo.

- E como ele é? Mais velho, mais alto...

- Da minha idade e um pouquinho mais baixo do que eu.

- O quê? Você está brincando não é?

- Claro que não.

- E você aceitou o namoro?

- Mas como não?

- Sério?

- Ah Tamires...esse rapaz parece ser diferente daqueles outros que eu

já namorei, esse é atencioso, romântico e parece ser legal.

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- Olha, é melhor você ter cuidado viu? Senão vai sofrer tudo de

novo, você sempre apronta uma diferente. Quero só ver o que a mãe vai

falar disso tudo.

- Não precisa me lembrar disso Tami. Já é passado.

- Mas eu só estou te alertando e...que papel é esse?

- Nada, é só um rascunho de uma prova, eu estava jogando fora.

- E você gosta dele?

- Assim...gostar pra valer ainda não...mas com o tempo passando, a

gente se conhecendo melhor...talvez...

E na calmaria das ruas do bairro, Ruan caminha mas em determinado

local é parado por dois amigos.

Os dois bastante embriagados trazem cigarros e bebidas para

tomarem na casa de um deles. Como era caminho da casa de Ruan ele os

acompanha. Permanece por ali por um tempo onde tragam cigarros.

A fumaça e o odor percorrem toda a extensão da rua, assim como as

conversas altas no portão da casa.

Depois de um tempo Ruan vai embora.

É impressionante o silêncio do bairro repousando. O jovem cruza as

ruas sentindo voar na mente pensamentos descompassados que nada

significam.

Os sonhos dos moradores do bairro parecem percorrer as ruas como

um trânsito de cidade grande, tudo é muito confuso e sem importância.

Sonhos cheios de simplicidade ou ganância. São tantos sonhos que os

morcegos da noite voando a toda hora esbarram em algum deles e tentam

se desviar dos demais.

Chega a casa em silêncio. Todos dormem e não o percebem. Com

calma ele tranca o portão da rua e a porta. Então como os que sonhavam

nas casas do bairro quando ele caminhava pela calçada, Ruan dorme.

***

A aurora logo ilumina, nas folhas verdes o orvalho cristalino que

caiu na madrugada passada. Ruan acorda e, à sua espera, como sentinela

que protege o tesouro, Márcia:

- Que bonito hein? Isso é exemplo pra dar às suas irmãs?

- Me deixa em paz.

- Na certa essa menina não tem mãe. Por que pra ela ficar na rua até

de madrugada.

- Você não tem nada a ver com essa história. A vida é minha.

- Pois da próxima vez você vai dormir no quintal. Vê lá se isso é

coisa que se faça. Com tanto assalto, tanta morte.

- Cuida da sua própria vida entendeu?

- Eu quero saber quem é ela.

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- Isso é problema meu. Acabou o assunto.

Então Ruan bate a porta do banheiro e lá fora sua mãe continua a

resmungar até se cansar. Depois de um tempo ela sai pra trabalhar e o

jovem fica tomando o café.

As discussões nessa casa não são novidade. Maneiras diferentes de

pensar e agir, reunidas sob o mesmo teto, geram sempre controvérsias,

além do quê a existência humana em sociedade nunca vem com um manual

de instruções. Cada indivíduo possui o seu Universo Humano pessoal, e

embora existam semelhanças entre todos os universos humanos, em todos

eles há o elemento de conflito, que é o modo de pensar. Mesmo que os

sonhos humanos de prazer e felicidade sejam parecidos, o modo de pensar

é um bem único, não havendo dois modos de pensar absolutamente iguais

em toda a humanidade.

Ruan é um rapaz inteligente e que às vezes desconfia das pessoas.

Sua alma é cativa e desperta um certo soluço híbrido de desejo e

curiosidade no coração de qualquer mulher que tenha o mínimo de vontade

de ser amada. Sua beleza não é aquela beleza estrangeira, de olhos e pele

clara e cabelos mestiços, coloridos. Ao contrário, Ruan tem as feições do

habitante local, filho da terra, raça brasileira. É um rapaz moreno, de pele

corada, olhos tais quais o fruto do licoreiro, que dizem logo todas as coisas,

pois não são olhos de falsidade. Um rapaz moreno que carrega no sangue

as informações genéticas da origem do povo brasileiro.

Ruan se vê atraído pela jovem Mary mas, será que entre eles pode

realmente existir o amor?

Mary é uma jovem namoradeira que sempre preferiu desde os

primórdios de sua adolescência homens mais velhos. Uma certa desilusão

trouxe então à sua alma uma tristeza profunda, a ponto de ter tomado

remédios e quase entrar em coma.

Muitas vezes uma experiência pela qual passamos em vida é o

bastante para desencadear uma série de reações em nosso corpo,

modificando nossa percepção de mundo e das coisas. Ora, se o Universo

Humano é modificável pelo ser, a percepção e o modo de enxergar as

coisas são tais quais o olhar sobre um horizonte numa manhã de sol, onde

as montanhas calmamente se deixam seduzir pelos raios que cada vez mais

as cortejam. Porém basta o fator das nuvens cobrirem o céu do mundo, e as

trevas varrerem a alegria, deixando apenas a tempestade brava, as

enchentes, os raios e trovões, e dependendo das nuvens jamais será visto o

sol nesse lugar.

Será a chuva o bastante para mudar uma mentalidade assim tão

desvairada e inconseqüente? Lavar as manchas e deixar limpa a alma?

Essa jovem se vê aprisionada a todas as pessoas que convivem com

ela, por causa dos seus casos em vida, do seu passado desatinado. É uma

pessoa sem a vontade própria que Ruan está tentando resgatar para a vida,

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por estar atraído por ela. Tenta passar ao mundo a imagem de uma pessoa

calma e conformada, Mary não xinga nem faz guerra...ao contrário de

Ruan.

Na casa de Mary todos torcem pra que a jovem encontre um rumo

certo pra sua vida e não um deslize após o outro.

Gomes é um pai preocupado que ama seus filhos mais que a si

mesmo, e que viu suas duas filhas jogando fora toda a ilusão do amor, e em

parte a educação que lhes dera, devido às influências externas, à vivência

em um lugar mais carente de recursos. Esbravejava com razão a cada erro,

pois sempre Mary se envolvia com um cara pior que o outro, que apenas

queria se aproveitar da jovem. Gomes desacreditou então que elas

pudessem encontrar alguém de bem, uma pessoa cortês, bem afeiçoada,

para namorar. Hoje é com ódio que enxerga qualquer um que se aproxime

de suas filhas.

Nelzir é uma mãe que apóia suas filhas, mesmo que estejam erradas.

Foi assim em cada caso de Mary. A maneira rebelde e aventureira de Mary

desperta em Nelzir admiração excessiva. Uma mãe que não impõe limites,

apenas deixa viver.

Tamires é uma garota jovem, porém é amante de um homem já

casado. Por opção, já que existe um outro rapaz em sua rua que faria

qualquer coisa por ela. É confidente fiel de Mary e tem um gênio difícil,

onde costuma ficar constantemente aborrecida, mas são comportamentos

típicos de adolescente.

As pessoas que olham de fora tem uma visão diferente de uma

favela. Quando passa um ônibus na rua principal do morro parece que

aquelas pessoas que moram ali são parte de um cenário sem vida que os

olhos só vêem na televisão. Tudo que a televisão fala vai desenhando no

consciente das pessoas uma imagem, a rotulação daquele ambiente.

É como se as pessoas pertencessem a outro universo, a outro mundo.

***

- Onde vai mana? Vai encontrar com o seu ficante?

- Não, preciso ir na casa de uma amiga. Vamos colocar a conversa

em dia.

- Não vai sair hoje não, sei lá, ir em algum lugar?

- Não, mas devo demorar um pouco. Faz um favor pra mim, se a mãe

perguntar fala que eu fui na casa de uma amiga e que nós vamos à igreja.

- Tudo bem. E o seu ficante? Ele já tem o número daqui?

- Ainda não, mas eu avisei que eu ia sair hoje.

- Então ta. Tchau!

23


Capítulo 4

Noite de verão na pracinha do bairro, onde os jovens marcaram de se

encontrar para namorar.

É cedo e hoje não teve aula, devido ao ritmo de final de ano onde

todos aguardam impacientemente pelas desejadas férias de dezembro.

O Ruan chega perfumado e com uma roupa fresca por causa do calor

do verão e se senta no banquinho para esperar seu caso.

O tempo vai passando e nada dela aparecer...nenhum sinal de Mary.

Em seu relógio já marcam vinte horas e trinta e quatro minutos. Uma

pequena nuvem de raiva toma conta de sua face, e esconde os olhos que são

frutos do licoreiro.

Ruan caminha.

Como um frio assassino mata a alegria das ruas quando passa.

Chega em casa e pega uma garrafa de cerveja que estava na geladeira

e, enquanto toma, procura na lista telefônica o telefone de Mary.

- Alô!

- Quem fala?

- É Mary.

- O que foi que aconteceu?

- Desculpa Ruan. É que eu tive que sair pra comprar umas coisas

com a minha mãe, achei que ia dar tempo. Só que quando cheguei já era

quase oito horas.

- E não podia ter ligado?

- É que eu achei que daria tempo, e como conseguiu meu telefone?

- Deixa pra lá. Qual a sua resposta? Talvez melhore o meu humor,

que está péssimo por sua causa.

- Fica calmo sô. Esse seu jeito nervoso não resolve nada. Eu não te

disse que ia dar a resposta amanhã?

- Quero agora.

- Não sô. Olha, ta na pontinha da língua, só falta coregem pra dizer.

- Amanhã.

- Pode ser às oito?

- Pode.

- Mas se eu ficar esperando de novo você vai ver só o que eu vou

aprontar.

- Prometo que não...e me desculpa viu?

- É difícil...te amo!

- Te adoro!

- Te amo!

- Te adoro!

- Te adoro!

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- Te adoro, meu tchu-tchuco!

- Poxa! Mas que dificuldade hein?

- Espera tchu-tchuco, deixa o tempo dizer.

- É que eu amo você!

- É?

- Então amanhã às oito viu?

- Ta bem!

- Tchau!

- Tchauzinho tchu-tchuco.

Aflorou-se nesse momento de raciocínio uma sentimentalidade

mesquinha proveniente de ciúme.

Ruan terminou de virar o último gole de sua bebida e logo após fez

uma contração labial exprimindo tédio e insatisfação.

Uma desconfiança sutil tempera os olhos castanhos amendoados,

como paraíso do licor.

Por qual razão escorre a linfa?

Ruan chora no sentimento e recorda um antigo caso seu que não deu

certo.

O telefone toca.

- Alô!

- Alô, aqui é o Gú. A gente ta fazendo churrasco aqui em casa, corre

pra cá que tem coisa boa.

O que é pior: o crime ou o pecado?

Qual seria a melhor definição de pecado? Talvez aquilo que uma

pessoa faz e que prejudica uma ou mais pessoas.

Qual seria a melhor definição de crime? Talvez aquilo que uma

pessoa escreveu que é errado.

E o quê fazer quando existe a crença de que há uma maneira lícita de

pecar? Uma forma que se entende perfeita e aceitável.

O amor não é um simples contrato, onde as cláusulas começam a

vigorar a partir da aceitação. O sentimento é algo maior que um contrato.

Ou será que Mary está certa? E se assim for o amor é um simples

contrato que possui data para início e fim, e cláusulas que regem o

funcionamento entre as partes?

***

E como forte tempestade o dia desaba sobre o bairro Glória,

cicatrizando as coisas tristes que o tempo não apaga e nem faz chuviscar

nuvem que não está carregada.

Passada a tormenta Ruan sai pra pedalar com sua bicicleta cor de

sangue pela orla da lagoa da Pampulha, um exercício que adora fazer nas

manhãs de sábado.

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Mary acorda tarde e apressadamente vai cuidar de afazeres

domésticos.

Um suspiro de brisa encanta ao meio dia a ladeira Lima, onde chega

uma mulher carregando uma sacola branca de supermercado e recebe a

abordagem de uma pessoa conhecida.

- Me conhece mais não Mary?

- Oi! Tudo bem?

- Deixa eu te ajudar a levar essa sacola até lá em cima...

- Pode deixar. Não ta pesado não.

- E então...como você tem passado?

- Estou bem! Não poderia estar melhor!

- Que bom!

- E você? Como está passando? O que tem feito?

- Só enrolando...

- Que mal!

- Ta afim de sair hoje comigo?

- Olha Cleiton, não dá...é que...

- Eu insisto! Vamos dar umas voltas?

- É que eu...

É uma pena que eu não saiba o que aconteceu depois dessas falas.

Eles se distanciaram na subida da ladeira e até mesmo narrador de casos

fictícios se cansa. Às vezes dá preguiça de imaginar subir uma ladeira tão

íngreme, e por essa razão minha criação achou melhor ir descansar e evitar

o cansaço da subida.

***

Noite em Belo Horizonte, no dia oito de dezembro de 2001.

A mesma pracinha do bairro onde os dois jovens marcaram de se

encontrar.

Vinte horas e três minutos.

Um sábado de lua minguante e céu misturado de estrelas e nuvens

que projetam frio.

Ruan sentado na escadaria da escola já aguardava por Mary a uns

sete minutos.

- Demorei tchu-tchuco?

- Uma eternidade pra ser sincero.

- Desculpa! Prometo que não faço mais.

- Promete o que não vai cumprir não...

- Ri, ri...seu bobo!

- Posso te fazer uma pergunta?

- Pode.

- Qual é a sua resposta?

- Se eu dissesse que não?

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- Eu ia ficar sobriamente entristecido.

- Se eu dissesse que sim?

- Explodiria de felicidade, de uma forma radiante que desde o

primeiro dia maquiou meu coração.

- Promete que não vai me magoar?

- Tenho tanto medo de te perder que vou fazer o possível pra você

me magoar primeiro.

- Então a minha resposta é...

- Espera: se sua resposta for sim, eu vou ser o namorado mais

ciumento do mundo, isso quer dizer agir com grosseria em qualquer parada.

- O que quer dizer?

- Quem sabe...algum ex-namorado folgado ou um amigo mais

íntimo.

- Aceito.

- Demorou...

Prossegue então a cena de um beijo alegre e enamorado na noite

triste de Belo Horizonte. O luar enrubescido já não mostra sua magia

libidinosa e nem influi nas calmas poças d’água do jardim da praça.

Os olhos castanhos de Ruan, que se assemelham ao néctar do

licoreiro, e que observam tudo com frieza de felino caçador passam a

observar o semblante de Mary, tentando desvendar seus pensamentos

enquanto seus lábios se misturam na doçura de um afeto.

Será que o tempo pode modificar uma alma rebelde como a de

Mary?

Onde impera as tempestades, pode um dia voltar a ver o sol abraçar o

pico das montanhas?

E então o encontro prossegue e os dois garotos vão tentando se

conhecer melhor, mas infelizmente nenhum dos dois tem coragem de se

abrir. Ruan por não querer falar que é um viciado que não resiste à bebida e

diversos tipos de cigarro, e Mary por não querer trazer à tona o seu passado

cheio de aventuras amorosas.

Toca então um sino distante de igreja que apedreja dez badaladas no

vento da noite, que vem da direção mar...

- Tchu-tchuco, acho que é melhor a gente ir agora.

- Mas tão cedo?

- É tchu-tchuco...é que eu já estou com soninho.

- Quando te vejo?

- Segunda...é que eu não gosto de sair de casa aos domingos.

- Por que?

- É que domingo é um dia pra descansar.

- De mim...

- De tudo.

- Vamos então.

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Na rua Cais Antigo Ruan se despede de Mary, como sempre e

enquanto caminha pra casa encontra um conhecido que mora ali por perto.

- Ora Ruan! Não sabia que você estava pegando a Mary.

- O quê? Que conversa é essa?

- É aquela lá na frente não é?

- É sim, mas ela é minha namorada.

- Você está de brincadeira. Isso é roubada rapaz!

- Por que?

- Pôxa cara! Aquela ali é a maior saideira lá de cima! Um monte de

caras já ficou com ela, até cara casado.

- Ah é?

- É sim.

- Vamos parar ali no bar do Adauto pra tomar uma cervejinha...quero

saber dessa história.

- Pô, demorou...minha garganta está sequinha!

E depois de alguns minutos:

- Pois é isso que eu estou te falando cara...toma cuidado com essa

garota que ela gosta de cara mais velho, sempre foi assim. E ela é muito

rodada.

- Mas isso já aconteceu faz tempo não? Pelo que eu sei ela está mais

na dela agora.

- Sei não cara. Esse papo de que mulher conserta com o tempo pra

mim não cola. Depois que a mulher cai no mundo não tem volta, aí vira

lanchinho de todo mundo. Não conheço quem gostou da vida e depois se

regenerou. É igual a gente com a cerveja, você ficaria sem tomar? Então,

tire suas próprias conclusões.

É incrível como às vezes uma conversa modifica tudo. O que era

bom se torna ruim e o que era início se torna fim.

Na manhã de domingo Ruan, por telefone terminou o namoro com

Mary sem falar qual o motivo...verdadeiro.

É de tarde e o vento vespertino se mostra. Ruan indeciso entre sair

com os amigos pra ir no Descontrassamba e ligar pra Mary e contar tudo.

Acabou decidindo ir no Descontrassamba e deixar a história pra lá.

Porém tarde da noite quando chega liga pra ela e pede pra reatar o namoro.

Arrependido e decidido a perdoar todo o passado dela. Mary entretanto

aceita e o adverte sobre sua precipitação. Claro, ele havia inventado outro

motivo para terminar. Mary nunca soube desse conhecido de Ruan que,

assim como outras pessoas, falaram tão mal dela por causa do seu passado

tão frenético.

Agora, no alívio e na consolação do pouco de confiança que tem por

ela, Ruan se tranca em seu quarto e deita na cama enquanto tudo gira, onde

a sensação denuncia o quanto esteve bebendo nas horas passadas.

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A madrugada cai sobre a cidade repleta de prédios e nas veredas de

tranqüilidade os viventes repousam.

Mary que na verdade já estava dormindo quando Ruan ligou,

pensava que o jovem sabia de alguma coisa que havia feito recentemente e

que desaprovaria, porém não tocou no assunto. Iria esperar que ele

manifestasse o motivo real de ter terminado com ela. Apreensiva, e

sabendo que havia enganado o rapaz, onde no fundo sua consciência

acusava com veemência, entretanto quem já havia mentido tantas vezes,

seria apenas mais uma mentira.

Além do mais ele também havia saído, e quem garante que não havia

estado com outra mulher. Mary percebeu que ele estava bêbado, pelo seu

modo de falar, e isso se tornou um motivo para que tirasse o foco de sua

culpa, do seu erro, pois não havia aceitado o convite de Ruan para

namorarem por estar ainda saindo com outro homem até a última sextafeira.

Um que era casado e morava lá pelos lados da Lagoinha. Eu sei que

um tempo atrás eu já o tinha visto de carro aqui perto do colégio na hora da

saída. Lembro que uma garota loira do Primeiro ano sempre ia no carro

dele depois da aula.

Capítulo 5

Mais uma tarde de verão em Belo Horizonte, dez de dezembro de

2001.

Hoje é a feira de cultura!

Escola Padre Matias. Um alívio esplêndido que desaba sobre seus

estudantes! Hoje é o último dia de aula. Todas as turmas do terceiro turno

estão promovendo a anual feira de cultura com temas do oriente médio.

O Vitor fez uma fantasia de Bin Laden muito legal, com barba de

milho pintado e um lençol bordado. Detalhes perfeitos de maquiagem e

barba pustiços...ficou igualzinho! Perfeito!

Ele é um aluno mais na dele. Às vezes joga baralho com a gente mas

gosta mesmo é de desenhar. Também escreve muito bem e já ganhou

prêmios aqui na escola. Lembro que uma vez participou até de um

concurso de grafite que uma vereadora fez nas escolas.

- E aí Bin Laden! Ta pensando em explodir a escola?

- Que nada Ruan! Talvez só a sala dos professores.

- Aí, bem que você podia dar uma força pra gente. Nosso trabalho

está muito ruim e você conhece muito de desenho.

- Pode ser! Nosso grupo já está pronto mesmo, arruma pra mim

algumas tintas e gliter que eu resolvo pra vocês rapidinho.

O Vitor gostava de mexer com arte! Pra ele era diversão, e nos

trabalhos de português e educação artística era sempre a referência da

29


professora. Eles discutindo arte pareciam falar em outra língua, pois

ninguém entendia nada do que estavam falando.

Nossa sala foi arrumada no segundo andar. A sala da Mary ficou no

primeiro andar.

Ruan percebeu que sua namorada o estava evitando...mas não sabia a

razão.

- Escute: por que está se escondendo de mim desse jeito Mary?

- Não meu tchu-tchuco. É que eu ainda não fui ver as outras salas.

- Mentira. Você e a sua amiga Fernanda já andaram pelo colégio

inteiro.

- Quer que eu vá na sua sala?

- Precisa não, você vai me encontrar de cara fechada mesmo, então

não faz diferença se você for ou não.

Ruan retorna pelo pátio da escola. Ao entrar na sala tem uma grata

surpresa!

- Nossa Vitor! Que desenho legal!

- Quê isso Ruan, foi só um desenho que fiz rapidinho.

- Nossa! Muito legal mesmo, vou ter que te pagar uma cerveja depois

da feira.

- Bom, só se for outra hora. Vou dar uma volta com a Aninha, aquela

garota da oitava.

- Beleza então, maior gata ela.

Vitor era o tipo de pessoa descolada. Certamente que nessa feira

cultural foi a pessoa mais focalizada, também era artista. A fantasia de

Osama Bin Laden realmente estava chamando a atenção!

Uma porção de garotas ficavam assediando ele.

***

Cada vez com mais vontade de deixar a escola e ir embora pra casa

arrumar as malas pra viajar, ou então ir pra cima da laje soltar pipa, ou pra

frente da televisão ou do vídeo game, os estudantes se apressam.

Rapidamente a sujeira provocada pela ornamentação de cada sala é

recolhida.

Muitos alunos já foram embora, inclusive Ruan. Retornarão dia

dezessete pra pegar os resultados.

Ruan, enraivecido, nesse período de uma semana não ligou pra casa

de Mary, e nem ela. Cada vez mais desacreditado nesse namoro tão

conturbado.

E as horas se desatinam e passam no tempo. Vindouros

acontecimentos, efêmeros...oh, mansuetude propensa que reina radiante no

reino das ventanias noturnas! Quando vem a saudade as artérias

industriarias trabalham dobrado dentro de cada corpo lânguido. Quem é

mais romanesco que esse vento gelado de um dia simples, um quatorze de

30


dezembro qualquer, sem importância senão pelo que se vai almoçar ou

jantar, talvez pelo programa que irá passar na televisão, ou onde o corpo

vai se embriagar na noite belo horizontina?

O sucedâneo para essa nostalgia de meu amigo Ruan, nostalgia feroz

é simplesmente uma coisa: esquecer o que não será e procurar o que pode

ser.

Eu que antes era mais confiante nesse tipo de história já começo a

desacreditar. Quando uma pessoa se acostuma com a noite, com baladas e

com relacionamentos sem sentido e certamente sem futuro, é quase

impossível de bom grado receber uma relação nova, em que prevalece o

afeto. Essa Mary deve ser o tipo de mulher tão acostumada a ser usada

pelos outros que não deve nem saber o que é ganhar um presente ou algum

tipo de agrado. Mas também, outro dia ela recebeu uma carta e nem chegou

a ler, amassando e jogando fora quando sua irmã apareceu pra conversar

com ela.

Capítulo 6

Hoje é o dia da verdade para cada um de nós estudantes. É o dia da

entrega do resultado final no colégio.

Estava descendo a rua Cais Antigo quando encontrei Ruan de

bicicleta.

- E então...será que você vai me fazer companhia na repet~encia do

ano que vem?

- Que desânimo é esse? Você ainda nem pegou o resultado.

- Intuição de atleticano.

- Ah, sei. Igual aos campeonatos que vocês disputam...já entra

sabendo que vão ficar no caminho...

- Ih, não vem com essa não. Seu Cruzeiro também não está

arrumando nada.

- Também, só contratou aqueles pipoqueiros. Time bom era aquele

de antigamente, e...

- E sua namorada Ruan? Como vai?

- Aquela cretina! Tem uma semana que eu não vejo ela.

- Por que? O que aconteceu?

- Você lembra no dia da feira, quando a gente estava arrumando a

sala e tal?

- Lembro sim, você até foi conversar com o Vitor e ele fez o desenho

pro seu grupo, mas e aí?

- Pois é, ela ficou me evitando o tempo todo. Até que eu cheguei nela

e achei ruim. Xinguei ela e fui embora.

- Pode ter sido apenas impressão sua não? Conversa com ela, vocês

vão acabar se entendendo.

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- Mas ela nem me procurou.

- Deve ter tido suas razões...

Então chegamos ao colégio, me transformo de novo em apenas um

coadjuvante do Ruan, que aparece no pátio com sua bicicleta.

Numa escola de pessoas pobres um que tem uma bicicleta certamente

é bem observado pelos demais alunos.

Nos misturamos aos outros alunos para conversar e pegamos os

resultados. Bom foi que eu consegui passar direto.

Ruan foi falar com Mary para tentar se entender com ela. Será que

meu conselho pode ajudar os dois? Ou será que cometi um grande erro?

No outro dia na rua encontrei Ruan, e perguntei como foi sua

conversa com aquela garota, que no fundo eu sabia que não era o melhor

pro meu amigo.

- Poucas pessoas estavam na sala dela. Parei então na porta e, quando

ela me viu, veio falar comigo.

- E aí?

- Suas colegas vieram seguindo, de vela. Começamos a andar

devagar pra que elas desconfiassem, o que aconteceu depressa.

- Sei, mas conta aí...

Eu demonstrava interesse no que meu amigo me contava, às vezes

sentia que aquela história toda pudesse estar acontecendo comigo, e às

vezes me colocava em sua pele.

A adolescência é uma etapa da vida repleta de descobertas, e muitas

vezes acabamos descobrindo da maneira mais difícil as coisas.

- Por que você não me procurou depois daquele dia?

- É que eu estava um pouco sem tempo tchu-tchuco...mas eu ia te

ligar.

- Não ia nada. Aposto que se eu não fosse te chamar na sua sala,

acabava.

- Mas eu também quis te procurar, ir na sua sala, mas faltou coragem.

- Você é sempre assim tão passiva?

- O que quer dizer?

- Deixa pra lá.

Descemos as escadas e, até esse momento eu não havia tocado nela

sabe? Nem nas mãos para cumprimenta-la.

- Aquela ali não é sua bicicleta?

- É sim. Não posso deixar ela um segundo em um canto que algum

engraçadinho pega pra dar uma volta.

- Estou vendo.

- Ô Paulo...já se divertiu bastante né?

- Espera aí Ruan, só mais uma volta.

32


Quando chegamos ao portão da escola, não sei se você lembra dessa

parte, a Mary estava carregando uma sacola com verduras pra preparar para

a janta. Nem sei se você percebeu.

- Claro que percebi, mas e aí?

Bom, peguei a bicicleta com o Paulo e subi conversando com a Mary

e empurrando a bicicleta. Perguntei diversas vezes e por diversas maneiras

por que ela não me procurou na semana passada, se não gostava mais de

mim.

Chegamos lá na Cais Antigo no lugar onde eu sempre me despeço

dela e então conversamos mais.

- Eu quis que nós déssemos certo, mas você não correspondeu.

- Ruan, me desculpa eu ter feito você pensar aquilo. Eu não estava te

evitando no dia da feira de cultura. Eu também não te procurei mas não foi

porque não gosto de você. Eu gosto sim e muito!

- Não parece. Você se esconde o tempo todo, não conta pra mim o

que está sentindo ou pensando, suas vontades...mas que espécie de

relacionamento é esse que não parece ter vida?

- Desculpa Ruan, mas é o meu jeito de ser. Não é fácil pra mim as

coisas sabia?

- Tem certeza que gosta de mim?

- Tenho! Gosto muito!

- Então prova.

- Provar? Como?

- Diz que me ama.

- Dizer? Aqui? No meio da rua? Agora? Mas...

- Então você não gosta de mim e está só me enrolando. Na verdade

eu devo ser só um passatempo que você usa na madrugada lá na pracinha

pra te dar algum prazer.

- Não tchu-tchuco. É que pra mim é muito difícil dizer essas coisas,

você sabe.

- Bom, então é melhor eu ir embora não é verdade? Tchau para você

e não me ligue.

- Espera Ruan.

- Não temos mais nada pra conversar e você pode ir subindo a rua da

sua casa.

- Temos muita coisa pra conversar ainda.

- Nenhuma coisa mais. Me desculpa só eu ter tentado ser o seu

namorado viu? Tchau!

- Ruan!

- O quê?

- Me dá uma chance? Vamos conversar?

- Tudo bem, fala.

- É que...eu quero ficar com você...porque eu gosto de você e...

33


- Pela última vez, tchau.

- Espera Ruan!

- O que é?

- Te amo!

- O quê?

- Você ouviu. Não me faça repetir tudo de novo.

- Não ouvi. Fala o que é senão eu vou embora. Você fala pra dentro

como se não estivesse conversando com ninguém.

- Está bem, chega mais perto então.

Finalmente toquei o corpo dela e a abracei.

- Entendo, mas continua contando aí Ruan...o que aconteceu depois?

Toquei o corpo dela, assim, meio que segurando a bicicleta com uma

das mãos...

- Te amo...

E antes que ela concluísse a frase estávamos nos beijando e nos

esfregando naquela esquina.

Beijamos tanto que nossas bocas ficaram até marcadas e senti até o

coração acelerado e as sensações de desejo aflorando. Um momento muito

especial! Sabe, eu estou mesmo gostando dessa garota, mesmo sabendo dos

casos que ela já teve, estou tentando ter um relacionamento legal com ela.

Nossa respiração estava ofegante e confirmava nossa devoção

hormonal às carícias do amor puro e verdadeiro.

- Sei, mas conta aí...o que aconteceu depois?

Hoje me encontro com ela pra entregar um poema que o Vitor

escreveu pra mim, só que eu vou falar que fui eu que escrevi, sabe, eu tinha

ido na casa dele pra pedir pra ele fazer. Eu sabia que ele não ia negar então

aproveitei.

- Deixa rolar então e vê no que vai dar não é?

- Bom, mudando de assunto...e suas férias como estão indo?

- Ótimas! Por eu ter passado de ano direto meus pais vão me mandar

pro Rio de Janeiro.

- Que beleza hein rapaz!

- Pois é, e você, pra onde vai?

- Não...eu vou ficar por aqui mesmo.

- Nossa, você é caseiro demais Ruan. Tanto lugar legal pra passear e

você não sai.

- Não curto muito viajar não.

- Bom, eu sim. Viajo hoje à noite. Quando eu voltar a gente troca

umas idéias...vou querer saber das novidades.

- Beleza! E quando você volta? Pra gente tomar aquele chopp lá na

Abílio Machado?

- Só em fevereiro.

34


- Rapaz, mas é um tempão! Não quer levar suas mudanças de uma

vez não?

- Rá, rá, rá...só você mesmo Ruan.

- Bom, então até a volta!

- Vai aprontar nada de grava não hein?

- Sei lá, mas se acontecer de você explodir, nem pensa em levar o

ferro hein...deixa guardado na sua casa.

- É claro que não né? Você acha que eu sou bobo de cometer o

mesmo erro duas vezes?

- Aquilo lá foi coisa pesada!

- Deixa pra lá, já passou mesmo. Melhor deixar essa história toda de

lado, afinal, foi merecido!

- Então ta...vai nessa então meu camarada! Até a volta!

- Até!

Então eu vou pra casa, louco de vontade de chegar a hora de me

encontrar com Mary, meu filezinho!

Capítulo 7

Saí pela cidade com uma enorme expectativa amorosa. Meu

sentimento era pacífico e encharcava de orvalho o doce e sutil despetalar de

flores que nos matinhos de beirada de calçada haviam.

Carros passavam nas ruas mais movimentadas, algumas pessoas

conhecidas me cumprimentavam.

Meu coração saltitava como torcida de um time que está ganhando

um jogo espetacular.

Meu sorriso era espontâneo e a viveza retornava ao meu olhar

enfraquecido por algumas tristezas recentes.

Cheguei na pracinha do bairro e me sentei em um dos degraus da

escadaria, fiquei esperando meu bem enquanto observava os carros

passando de um lado a outro.

Meu olhar volta e meia olhava para a esquina de onde ela surgiria, lá

na rua Cais Antigo.

Depois de um tempo ela apareceu. Seu rebolado seduzia as ondas de

vento e seu batom era como tinta fresca de um quadro de Portinari!

- Oi meu querido! Tudo bem?

- Agora está bom! Muito bom!

- Calma, vai com calma tchu-tchuco.

- Por que filé?

- É que eu estou um pouco cansada.

- Eu...

35


Sem aguardo de resposta alguma beijei seus lábios coloridos de

batom por um longo período, sentindo somente sua respiração ofegar

devido ao cansaço que apresentava.

- Diz pra mim, o que te fez cansar tanto?

- E...

Novamente sem deixar que respondesse beijei, dessa vez com mais

intensidade e demora.

A lua nova estava escondida, porém soprava sobre nós, do oriente o

seu suspiro libidinoso, e as estrelas azuis...

- Não Ruan, sem muita intimidade.

- Mas por que? O que houve?

- É que nós estamos voltando agora e precisamos nos entender mais,

e...

A explicação de Mary não me convenceu e me deixou levemente

cismado. Continuamos a namorar lá na escadaria da escola, na praça atrás

de um arvoredo.

- Você costuma ouvir conselhos?

- Sim.

- Não ouve não...conselho é ruim, faz mal.

- Por que você está dizendo isso?

- Uma coisa que uma pessoa disse pra mim.

- O quê?

- Não vou te dizer.

- Por que?

- Você não me diz nada sobre você.

- Vai amarrar mixaria?

- Vou sim.

- Mas o quê você quer saber?

- Conte mais sobre você, sobre sua casa, sobre seu passado...sei lá.

- Olha, eu já te falei do meu passado. Antes de você eu tive um

namorado, ele era um pouco mais velho que eu mas não deu certo.

- Você só namorou ele?

- É, por que está me perguntando isso? Eu já te falei uma vez.

- Por nada.

- E outra coisa, você está muito estranho! Está acontecendo alguma

coisa?

- Não, não é nada.

Nosso encontro prossegue com momentos de afeto e carinho. Uma

coisa porém eu tinha certeza: Mary não estava sendo sincera comigo sobre

o seu passado. No fundo eu até tentava entender, pois acredito que seria

difícil para ela falar que teve vários casos com pessoas mais velhas, alguns

até casados. Levando por esse lado eu compreendi, mas esperava que uma

hora ela se abrisse comigo.

36


Eu tentava enxergar nela as qualidades, procurava coisas boas

naquela garota, em detrimento das coisas ruins que me falaram. Afinal o

passado é coisa que já aconteceu. Certamente que eu não aceitaria um erro

no presente, afinal estávamos juntos, mas como eu falaria pra ela que eu

não me importava com o passado e que ela não precisava esconder nada de

mim?

O grande problema é que a sociedade rotula demais as pessoas por

causa das coisas que fazem ou deixam de fazer. Se a garota não sai de casa

e não namora, ou é doente ou sapatão, mas se sai pra baladas e fica com

homens é safada!

O grande engano de todo homem porém é acreditar que a mulher que

vai relacionar nunca foi beijada, ou nunca foi de alguém. É um grave erro,

pois o amor não é propriedade ou contrato. Ao contrário, é sentimento que

vem da alma. O corpo é apenas matéria. De certo modo, o que seria mais

importante: uma ex-prostituta que se apaixona por um homem e decide

largar a vida para se dedicar ao seu amor e somente a ele com todas as suas

forças ou uma mulher virgem que não o ama e na primeira oportunidade irá

trai-lo?

O fato é que o que vem do passado é página já virada, mas o que é

iminente isso sim é perigoso para o corpo e a alma.

Eu penso assim, e por isso estou acreditando no relacionamento.

Tudo isso eu tenho vontade de falar pra Mary mas ainda não tive a

oportunidade, e não seria legal eu simplesmente abrir o jogo. Seria melhor

se ela tomasse a iniciativa e falasse.

***

Deliciei-me com um momento extremamente erótico quando ela

deslizou suas mãos, arranhando o abdômen com a direita em movimento

descendente e ininterrupto. A carícia foi demorada e nesse instante seu

coração saltou pela boca quando eu coloquei a língua em sua orelha e

levemente acariciei entre mordidas.

A alma gelou trepidamente e meus olhos tremelicaram pelos

esfregões das unhas e o aperto dos dedos, deixando-se deslizar

continuamente.

Os beijos, ardentes...um tanto ardentes e apaixonados e que por horas

se repetiram até que se encerraram as carícias mútuas que nesse espaço de

tempo permitiram aos dedos saborear o sabor de estradas jamais

percorridas.

Era tarde, e uma brisa gelada percorria a pracinha, chegando ata atrás

do arvoredo onde nós namorávamos, onde havia um banquinho de

concreto.

Nossos lábios estavam cansados e trêmulos de cansaço.

- Meu melhor!

37


- Melhor? Por que? Existe outro por acaso?

- Ri, ri...sabia que você iria dizer isso.

- Está querendo acordar meu ciúme?

- Bobinho!

- Escrevi umas coisa pra você.

- Escreveu?

- É sim, ta aqui.

- Que bom! Vou ler quando eu for dormir.

- E por falar em dormir...

- Já é tarde né?

- Se eu demorar muito, vou dormir fora de casa.

- Então vamos.

- É.

Algum tempo depois, ao me despedir de Mary, dessa vez eu fui

acompanhando ela até perto de sua casa, na entrada de uma favela.

Alguns rapazes estavam na entrada de um beco observando. A Mary

me disse pra não ficar encarando, que eles não iriam fazer nada.

- Amanhã a gente pode se ver?

- Podemos sim tchu-tchuco.

- Às oito?

- Tudo bem!

- Então tchau.

- Tchauzinho tchu-tchuco!

- Sonha comigo.

- Isso não.

- Por que?

- Senão acordo toda suada e ofegante.

- Te amo!

- Também!

- Por que você não diz?

- Te amo! Te quero! Te adoro!

Então eu volto pelo caminho, e ao passar pela entrada do beco onde

os rapazes estavam um deles me cumprimentou e perguntou as horas,

sendo que ao responder ele agradeceu rapidamente e então continuei meu

caminho.

Fui embora pra casa. O caminho estava perfumado por dama-danoite,

muito comum no bairro e alguns jasmineiros. Eu guardava no peito

uma emoção sentimental, mesmo que incomodado com algumas coisas. Eu

deixava esquecer e pensava apenas nas coisas interessantes para o

momento.

Meus passos pareciam seguidos por suspiros distantes de Mary e

pairava em meus pensamentos esfogueados pela magia afável de suas

carícias. Rocio amoroso que meu corpo lânguido poreja.

38


Chego em casa e resolvo ligar pro Vitor pra agradecer mais uma vez

pela poesia que escreveu pra mim.

- Vitor, boa noite é o Ruan!

- Olá camarada, o que conta de novo?

- Queria te agradecer pela poesia. Eu estava com a Mary e entreguei

pra ela.

- Bacana! Aqui, eu estou saindo. Vou tomar umas aí no Carlão, não é

muito longe da sua casa. Ta afim de ir não? A gente pode bater um papo á

toa.

- Vou sim, demorou.

Depois de um tempo lá estava eu tomando uma cerveja com o Vitor,

logo chegaram umas amigas dele mas eu não quis envolver. Eles iam lá pro

centro pra uma boate. O Vitor curtia muito! Saia pra um monte de lugares,

fazia umas poesias legais, desenhava. O mais importante é que não se

prendia a mulher nenhuma, era o cara mais descolado que eu conhecia.

Capítulo 8

A vida acorda no embalo da maestria veraneia e sem vênia! O sol

espalha seus braços de fogo pelo céu, esmaecendo a escuridão cheia de

luxúria da noite passada.

O crisol que requenta a química vital molda um olhar de licor, néctar

do licoreiro.

Os pássaros voam e cantam, as árvores festejam!

A vida renasce com a aurora bonita!

Inconseqüentes corações apaixonados que se ensoberbecem pela

excitação de frenesi que encerra numa prisão de cárcere viril altamente

interessante!

A saudade mata...e a paixão ressuscita!

Ontem à noite quando estava com Ruan senti que ele estava

diferente. Eu evitei dar conselhos porque não adianta, quando um coração

pestaneja ao erro as palavras de conselho são ineficazes.

Paixão é algo perigoso! Nós deixamos muitas vezes de agir com a

razão e absurdamente agimos com a emoção.

Mas infelizmente é isso, e isso tudo vai de encontro a uma teoria

pessoal de que as pessoas em muitas coisas se parecem, principalmente na

busca pelo prazer, pois cada ser humano, embora diferente na cor, na

estatura, no modo de pensar, idealiza um universo onde existe prazer e

realização pessoal.

É exatamente essa realização que o Ruan está buscando, porém em

um relacionamento perigoso e imprevisível!

***

39


Belo Horizonte, dezenove de dezembro de 2001.

Pracinha do bairro.

Vinte horas e seis minutos.

- Demorei tchu-tchuco?

- Demais!

- Desculpa? Perdoe? Não faço mais!

- Dessa vez não aceito.

- Dá uma chance pra eu hein tchu-tchuquinho, maravilhoso?!

- Acho que não...

- Mostra a língua pra mim então e diz que ta de mal.

- Ah, é? Então eu to de mal e...

É no beijo que despejamos as nossas emoções apaixonadas que vem

do coração!

Atos de afeto são sempre interessantes e importantes para o

fortalecimento de uma união.

Ruan se deixava levar pelo seu relacionamento com a Mary, e

quando vinha aqui em casa pedir pra que eu escrevesse alguma coisa,

colocávamos a conversa em dia e ele me contava. Ele realmente estava

gostando daquela garota!

- Nossa tchu-tchuco! Que beijo gostoso!

- Estou com saudade do nosso sarro gostoso...

- A gente não pode.

- Por que?

- Eu estou com um probleminha de saúde. Sexta-feira vou ao

médico.

- Sexta-feira? Que horas?

- Na parte da tarde. Por isso acho que não vai dar pra gente se ver.

- Nossa! De novo? Parece que você faz isso de sacanagem. Não tem

uma sexta-feira que a gente se encontra. No domingo você já não sai de

casa...daqui a pouco vai arrumar uma desculpa pro sábado também.

- Calma tchu-tchuco, é que estou com um pequeno probleminha.

Preciso ir no médico pra ver o que é.

A noite prosseguiu com extrema calmaria aparente. Ruan e Mary

conversaram bastante naquele banco de praça onde sempre se encontravam.

Embora já tenham estabelecido um diálogo forte, um não sabe muito

sobre o outro, onde pelo que Ruan me contou a Mary nunca perguntava

muito sobre ele, sobre a família dele. Mary também evitava falar de si

mesma.

Era isso uma grande ameaça ao relacionamento dos dois.

- Me responde uma coisa Mary?

- Sim, o quê?

- Sempre que passa alguém pela rua, ou você tenta se esconder me

abraçando ou fica observando a pessoa que passa, por que?

40


- Não é nada tchu-tchuco.

- São conhecidos seus?

- Alguns sim...são sim.

- Estamos namorando escondidos de todo mundo?

- Não tchu-tchuco, só do meu pai.

- Então pára de se preocupar mais com o resto do mundo do que

comigo, viu?

- Mas...

- Senão a gente pára por aqui mesmo. Já faz um tempo que estou

observando esse seu comportamento bobo.

- Não tchu-tchuco...

- É sim. Se não quer que algum conhecido seu me veja, não namore

mais comigo...se tem vergonha de alguma coisa.

- Não tenho tchu-tchuco.

- É melhor irmos embora, depois nos falamos. Vou te levar até perto

da sua casa.

- Não tchu-tchuco, vamos conversar. Não vou deixar voc~e ir

embora com raiva senão é pior. Você vai querer terminar comigo de novo e

eu não quero isso.

- Por que?

- Porque eu gosto de você.

- Gostar não é amar.

- Assim tchu-tchuco...eu sinto algo muito especial por você, mas não

do jeito que você quer.

- Por que?

- É que eu já errei uma vez...e não quero errar de novo.

- É que, se eu estou feliz, quero que outra pessoa se sinta feliz

também, nesse caso você. E se eu te amo quero que me ame também, pra

que eu não viva apenas a paixão.

- Gostei da sua frase!

- Obrigado!

- Posso te pedir uma coisa Ruan?

- Pode.

- Me beija daquele jeito que você me beijou...

É no beijo que despejamos as nossas emoções apaixonadas que vem

do coração! A alma se agita e entoa as canções da sentimentalidade cada

vez mais intensamente. Como é gostoso amar! Como é bom viver

sonhando! Como é bom dar e receber uma carícia!

Ruan deixou a Mary próxima de sua casa e ao voltar encontrou os

mesmos rapazes na entrada do beco, dessa vez um deles o chamou e

ofereceu um cigarro. Ruan acabou aceitando ao que o rapaz perguntou se

estava ficando com Mary.

41


- Ela é gente boa. Sempre morou aqui na comunidade, e você faz o

quê?

- Só estudo. Ainda não trabalho não.

- isso é bom! Tem que correr atrás de estudo, senão não dá nada que

presta.

- Pois é.

- Aí, precisa ficar preocupado não. Pode entrar aí na comunidade

tranqüilo que ninguém vai mexer contigo não. Nós estamos aqui só na

contenção sabe? Ce sabe como é né? Malandro na rua tem pra todo lado.

- Aí cada um guarda o que é seu e a correria continua. Mas ninguém

vai mexer contigo não.

- Beleza!

- Aí, leva mais um. Qualquer hora cola com a gente, a gente faz um

churrasco lá em cima no morro.

- Beleza.

Duas horas da madrugada. Vários minutos atrás os dois jovens foram

para suas casas. No meio da noite Ruan desperta com um pesadelo sobre a

Mary.

Um incômodo, sensação de horror. O jovem suado e com a

respiração ofegante.

Percebendo que era apenas um sonho ele acorda e vai até a cozinha

tomar um copo d’água, depois volta a dormir.

As horas passam e o dia amanhece.

***

Mesma cidade, vinte horas e dezenove minutos de um sábado.

Depois de muito esperar, tomado pela desistência, Ruan vai embora.

Outra vez ficou esperando por Mary em vão...decidido a não perdoar de

novo mais essa falha.

- Alô?

- Quem fala?

- Tamires.

- Chama a Mary pra mim.

- Só um minutinho Ruan.

Então é ouvido um discurso longe do telefone:

- Vai lá atender. Ri, ri, ri...

- Eita...hoje ta danado!

E ainda sorrindo atende o telefone.

- Alô?

- Quem fala?

- Mary.

- Por que me deixou esperando de novo?

- É que eu estava muito ocupada tchu-tchuco...

42


- Não me chama assim nunca mais.

- Por que? O que aconteceu?

- Quem foi que ligou pra você, que a sua irmã estava falando?

- Ninguém.

- Então qual é a graça?

- É que a Tamires é boba assim mesmo, uma hora está com raiva,

outra hora está alegre demais...quem agüenta?

- Ou então estava debochando de mim...

- Não...

- Não adianta tentar explicar nada não, eu já entendi...e tem uma

coisa, cansei de insistir com você, cansei de ficar esperando. Você só pode

ter outro.

- Mas que cara criatura?

Então o telefone é desligado, e Ruan sobre pra cima da laje pra

acender o cigarro que foi dado pelos rapazes do beco.

E por que o coração aceita amar?

Tendo na angústia o olhar de Mary, a sua alma chora e as

lamentações de uma batalha perdida.

O coração entristecido se despedaça em mil partículas e a alma

murcha como se fosse um balão perfurado.

Os olhos de Ruan envelhecem e se tornam saborosos para a solidão,

que se deita com ele, que namora sua face, já sem muita lucidez

observando as estrelas que parecem brilhar mais que o normal.

Cansado da vida! Tantos machucados reservados pelo destino tão

ingrato. Quê fazer agora para reconstruir o coração com as mil partes que

se desprenderam e caíram ao chão.

Alma chorando por causa do amor.

Capítulo 9

As cortinas se esmaeceram na janela, deixando o horizonte

completamente desnudo e os braços de fogo do sol de verão amando

intensamente cada metro quadrado da dimensão do mundo. Brisa

vespertina tranqüila acariciando o suor no rosto de quem está na labuta,

festejando a possibilidade social de produzir para ter o acesso ao pão.

Ao abrir os olhos, o juízo da vida se revela, e da forçosa preguiça

surge o sol do estio.

Coração adoecido de Ruan levanta do seu repouso de dor.

Tristezas, saudade e a aflição de quem inicia um projeto, de quem se

lança em direção a um obstáculo procurando supera-lo. O obstáculo era a

busca da felicidade, mas sinceramente, a adolescência é uma fase muito

conturbada! Amar nesses tempos é suicídio da alma e do coração.

43


Por ser poeta eu finjo, e até mesmo nas duas cartas que escrevi para o

Ruan não havia sentimento, apenas a transcrição do fingimento da alma. E

é provado que o coração se ludibria quando ama. A miragem envolvente do

engano seduz e machuca, explora e danifica.

Ruan passa agora pelo casarão das dúvidas. Será que foi rude demais

com Mary? Poderia ela estar falando a verdade, afinal com tanta

naturalidade estava encarando os fatos?

Ela era sempre tão passiva e conformada! Poderia alguém ser tão

fingida, mais que um poeta?

Será que o dom da mentira se espalhou a tal ponto que essa jovem

aprendeu a lição, como quem entende a arte?

- Alô?

- Quem fala?

- Tamires.

- Oi, como é que você está?

- Olá Ruan! Tudo bem! E você?

- Bem...mal! sua irmã está em casa?

- Não...ela deu uma saidinha.

- Melhor, assim nós podemos conversar sem interferências.

- Conversar? Nós dois?

- É. Sobre umas coisas, pode ser?

- Tudo bem, mas não estou entendendo...aconteceu alguma coisa?

- Sabe se a Mary gosta de outro rapaz?

- Que eu saiba não...só de você.

- Estou falando sério Tamires, ela é muito passiva, muito conformada

com tudo.

- Eu também.

- É porque naquele dia a gente brigou e...

- Ah sim...e você achou que eu estava zombando de você, não é

senhor Ruan?

- Sim.

- Mas não era isso não viu? E desculpa se eu deixei você pensar

aquilo, mas é que aquele dia eu estava um pouco feliz. Acabei fazendo uma

brincadeira com a Mary. É que meu namorado tinha acabado de me ligar...

- Namorado?

- Bom...é quase namorado, é um caso sabe?

- E por que ela não me procurou?

- É que esse é o jeito da Mary. Ela ficou com vergonha de te

procurar. Olha que eu até falei pra ela te ligar mas ela é boba demais, não

toma iniciativa nas coisas!

- Você falou? Que gentil!

- É, pra você ver. Eu acho que hoje ela ia te ligar.

- Por que você acha?

44


- É que ela anotou o número do seu telefone na mão antes de ir pra

casa da minha tia.

- Ah, sim...ela foi na casa da tia dela? Está bem, vamos ver o que

aquela cretina vai fazer. Outra coisa, é melhor ela não ficar sabendo que eu

liguei pra você não, está bem?

- Pode ficar tranqüilo que eu não comento.

- Tomara. Estou contando com você viu?

- Pode ficar sossegado que não vou falar nada.

- Bom...então até mais!

- Até mais Ruan!

Almas confusas bombardeadas pela explosão do tempo!

É verão! É adolescência! É amor!

Um amor de verão que se assemelha a um amor de carnaval, e nem

mesmo estamos nos tempos de carnaval. Nem é tempo da Mangueira

desfilar, mas os amores de carnaval nascem, vivem e morrem a cada

instante. É o universo adolescente, sem rumo nem lei, mas cheio de

vaidade!

Pode do caos inicial se cultivar uma boa semente? Semente que não

se sabe se é boa ou ruim, que não se sabe se poderá gerar bons frutos. Mary

não é exatamente o ideal de amor que um adolescente pode querer. Na

verdade não existe amor adolescente, apenas sonhos e castelos construídos

sobre a areia movediça ou sobre a praia. Vem o vento e desaba tudo, vem a

chuva e varre os destroços.

Deita-se no regozijo das horas uma ansiedade indulgente que aclama

os delíquios da razão humana. Ruan aguarda a ligação de Mary e isso se

concretiza às quatorze horas e doze minutos.

- Alô!

- Quem fala?

- Aqui é o Ércio...você quer falar com quem?

- Esse telefone não é do Ruan?

- Espera aí que eu vou chamar ele.

***

“E por alguns segundos esperei que ele viesse atender o telefone.

Não posso de maneira alguma dizer que o amo, mas até hoje foi a única

pessoa sincera que eu conheci! Gosta de mim de verdade, não quero

desaponta-lo. Sei o que é ficar magoada e sei que também posso magoar.

- Alô!

- Tudo bem?

- Tudo péssimo!

- Por que?

- É que estou pesadamente desiludido com uma certa pessoa que só

fica brincando comigo.

45


- Escuta Ruan: eu gosto é de você, quero ficar com você, e com

nenhuma outra pessoa mais.

- Como posso ter certeza disso?

- Ora...se eu estou ligando pra te pedir pra voltar comigo...

- Mentira, foi a sua irmã que falou que eu liguei.

- É, isso também.

- Então quer dizer que ela falou mesmo? E olha que eu insisti pra ela

não falar.

- Ah, Ruan...fala sério. Até parece que você não sabia que ela ia me

contar.

- É verdade!

- Sim. Mas hoje eu iria te ligar. Acredite ou não.

- Tudo bem...não acredito.

- Mas é verdade criatura!

- Diz alguma coisa bonita pra mim que eu acredito.

- Mas aqui?

- E por que não?

- É que minhas tias podem ouvir.

- Ou vai ou racha.

- Ta bem! Te amo, te adoro, te quero!

- Não convenceu.

- Ruan, I love you! Assim está melhor?

- É...de dez você tirou um seis.

- Ah, Ruan! Você não é brincadeira não!

- Eu amo você!

- Também!

- Olha...não vamos ficar mais brigando, vamos nos entender de uma

vez?

- É só você parar com essas bobagens que você fica pensando e

cismando o tempo todo, seu ciúme...

- É que você é muito quieta, isso me incomoda. Eu tenho medo de

perder você. Pra mim não importa o passado, nem o meu nem o seu. O que

vale é o presente, o que importa é o agora. Mas fico inseguro demais.

- Eu sei. Mas o que você acha que eu devo fazer pra te dar essa

segurança que você quer?

- Não sei Mary. Não posso ficar também te dizendo tudo que eu

quero senão você nunca vai despertar e ter um pouquinho mais de iniciativa

pra fazer as coisas pra mim.

Claro que, seria mais fácil gostar do Ruan se ele fosse mais velho,

mais experiente, mais alto. É esse o tipo de pessoa que desde pequena

idealizei como amor e depois de um tempo é realmente difícil!

Me sinto como uma cadela poodle envolvida com um cachorro de

outra raça depois de sempre ter me relacionado com poodles.

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Não o vejo como o ideal de parceiro que minha cabeça já se

acostumou.

Essa minha sensação de fragilidade...

Eu me sentiria mais segura com uma pessoa mais velha, a proporção

do elemento que excita...

A realização dos sentidos...

O sentimento da dominação e da passividade...

Nasci para ser uma mulher frágil e delicada, mas mesmo que eu lute

contra isso, o meu corpo e minha alma se realizam do proibido e do que

provoca sofrimento. Eu realmente me acostumei a sofrer.

- Eu queria me encontrar com você pra gente conversar mais à

vontade.

- Amanhã...pode ser?

- Pode. É que dia vinte e cinco todo mundo daqui de casa vai sair.

- Onde vão passar o Natal?

- Na casa de um tio meu, lá no bairro Veredas.

- E quando voltam?

- No mesmo dia. O meu pai não gosta muito de ficar na casa dos

outros não. Ele é muito caseiro e não gosta de visitar nem de ser visitado.

Não me arrependo da minha vida. Da minha adolescência.

Tudo o que já aconteceu comigo nesses anos não dá pra negar que

me deu prazer e realização, mesmo que o final seja sempre trágico.

Meu primeiro caso foi com doze anos de idade e ele era bem mais

vivido do que eu. Isso se tornava interessante pra mim! Me fazia sentir uma

pessoa mais madura, mais adulta!

Algumas pessoas costumam falar mal de mim por causa das minhas

aventuras. Eu ingressei na adolescência de maneira brusca e não tive tempo

direito de assimilar as coisas, apenas fui vivendo, deixando levar pelas

experiências que a vida me proporcionava.

Estou procurando recuperar parte do que eu perdi com a minha vida

corrida, os erros cometidos no passado, pois alguns dos próprios homens

com os quais um dia me relacionei são os que me difamam.

Hoje eu me sinto como uma mulher adulta, uma velha, no corpo

hostilizado de uma criança.

Às vezes até freqüento a igreja tentando justificar parte dos meus

pecados, mas meu coração não é puro, nem a minha alma possui a mesma

pureza de quando eu era criança e tinha sonhos sobre a vida.

- Você tem certeza de querer voltar por que me ama de verdade

Mary?

Estou procurando uma forma de consertar a minha vida.

- Eu tenho Ruan. Claro que sim.

- Por que demorou a dizer?

- Nada não tchu-tchuco.

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Aprisionada ao meu mundo inferior, eu sou assim. Todas as pessoas

tem milhões de motivos para me humilhar e zombar de mim. Ainda não me

curei do espírito malicioso que me faz assim. Só o que me faz recuar é o

receio.

Me sinto uma viciada em drogas, bebida ou cigarro, tentando se

livrar do vício acorrentada em uma cama quando os olhos tem a

oportunidade de ver em cima de uma mesa vários produtos e a sentada em

um dos bancos a face do desejo.

Isso me tira o merecimento à felicidade. Não sou como qualquer

mulher que sonha, a minha realidade é passiva demais para permitir o

sonho.

- Puxa! Eu tenho andado tão triste nos últimos dias!

- Eu também tchu-tchuco. Pensei que você poderia estar com outra

mulher.

- Foi isso que você pensou?

- É tchu-tchuco. É que você estava com raiva de mim, e pra se

vingar, poderia...

- Não. Eu gosto é de você!

- Ri, ri! Eu sei.

- Então por que não me procurou?

- Faltou coragem. É que eu sou uma menina muito tímida!

- Ou então não gosta de mim de verdade.

- Claro que gosto tchu-tchuco, intensamente!

- Vai ter que provar então viu?

- Como você quer que eu prove, meu bem?!

- Isso é com você.

A felicidade existe! Nós só precisamos saber encontra-la e preservar

sua grandeza e seu esplendor.

Nada se compara a um bem querer verdadeiro!

Acredito que eu vou aprender a amar como deveria. Uma hora eu sei

que vou conseguir.”

- Outra coisa também tchu-tchuco: você precisa confiar mais em

mim, assim como eu confio em você.

- Difícil...depende muito de você.

- Como assim?

- Tenho medo que você se apaixone por outra pessoa, que tenha

alguma coisa com outra pessoa, ou...

- Isso é bobeira sua! Eu quero é você!

Só o Ruan não percebe que Mary jamais mudará o seu modo de ser e

de pensar, para se transformar naquilo que ele considera o ideal de amor.

Eu até mesmo desconfio que ela está do mesmo jeito. Eu não

comento nada com ele, deixo as coisas acontecerem, mas estou até

arrependido de ter ajudado ele escrevendo aquelas duas cartas. Eu deveria é

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ter sido mais um a falar mal dela, mas agora já é tarde. Não resta nada a

fazer senão esperar pra ver no que esse amor de verão vai dar.

O saboroso defeito do pecado é algo que seduz o corpo e a alma.

- Estou me sentindo tão carente! Queria te ver agora.

- Eu também meu tchu-tchuco. Mas amanhã a gente se vê.

- Só que até lá já terei morrido de saudade.

- Mas você pode me ligar quando quiser.

- Então eu ligo.

- Aí se dermos sorte, não vai ter ninguém por perto e, nós poderemos

falar mais à vontade, de coisas mais empolgantes!

- Olha que isso dá até vontade.

- Pois é.

- Mas e aí, como foi lá no médico?

- Ah, ainda bem que você tocou nesse assunto. Estou com uma

pequena infecção.

- O que aconteceu?

- Olha, depois eu te explico pessoalmente. Falar essas coisas por

telefone é meio chato. Só que estou tomando remédios, e dia sete eu volto

no médico.

- Dia sete? Mas isso é uma eternidade!

- Pois é, mas o que eu posso fazer?

- Nossa, mas é muito tempo.

- A gente dá um jeito de continuar se vendo, só que tem que ser

diferente. Olha tchu-tchuco, vou ter que desligar. Depois a gente conversa.

- Tudo bem!

- Não vai se esquecer não hein!?

- Acha que eu sou louca? Sabendo que meu tchu-tchuco ia ficar com

raiva de mim?

- Tomara.

- Então tchauzinho tchu-tchuco.

- Amo você!

- Também!

- Tchau.

“Desligo o telefone e vou pra casa. Meu pai estava sentado no portão

e fez uma piadinha obscena sobre o tempo que eu tinha ficado conversando

no telefone com minha namorada.

***

É segunda-feira, véspera de Natal. Cidade enfeitada onde se nota nas

varandas das casas várias luzes piscando, músicas, preparativos para a ceia.

Eu estava com pouco dinheiro, apenas quinze reais. Procurava um

presente pra Mary na lojinha perto de casa. Gostei de um perfume que vi,

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tido como afrodisíaco. Era mesmo! Comprei o tal perfume, nem lembro o

nome, e fui pra casa embrulhar. Então liguei pro Vitor e pedi pra ele

escrever pra mim uma poesia, eu disse que pagaria mas ele falou que não

precisava.

Umas três horas depois ele passou lá em casa pra me entregar. Tinha

ficado muito legal. Ele colocou umas letras douradas igual daqueles

convites de casamento, na verdade parecia um próprio convite de

casamento.

***

As horas passaram...

Belo Horizonte, vinte e quatro de Dezembro de 2001.

Véspera de Natal. A cidade está iluminada!

Praça do bairro, vinte horas e dois minutos.

Pela primeira vez Mary chegou primeiro que eu. Vai chover!

- Oi meu tchu-tchuquinho!

Prosseguiu a cena de um beijo ardente que derreteu em nossas bocas

a bala de menta que eu vim chupando pelo caminho.

- Nossa que beijo!

- Te aviso uma coisa filé: se você vacilar te mando bala.

- ‘que coce vai faze co resto Genaro meu bem?’

- Aproveito não é ‘Maria Chiquinha’?

- Tira essa mão daí Ruan.

- Só quero te sentir.

- Esqueceu que estamos de castigo?

- Eu não, você.

- Você também.

- Chata!

- Hum...chata...olha o beicinho dele.

- Comprei uma lembrancinha pra você.

- Ô gente, não precisava. Muito obrigada!

- E escrevi umas coisinhas.

- Olha, eu já estava com saudades dessas suas poesias. Tomara que

essa seja mais alegre que as outras, não é?

- Você me ama?

- Sim.

- Se você estiver mentindo, vai achar triste.

- Ah então eu vou morrer de rir...porque te amo demais!

- Não acredito. Como vai me provar?

- Assim ó...

Finalmente a Mary me deu um beijo de língua verdadeiro. Meu

corpo se excitou de ponta a ponta e um libido fervente começou a tomar

conta de alguns locais. Nossas salivas se misturaram e, eu sentia a língua

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dela tentando puxar a minha língua pra dentro de sua boca e repeti o

mesmo gesto. Uma carícia maravilhosa! Minhas mãos começaram a roçar

pelo corpo dela, e as mãos dela pelo meu. Mary começou a sussurrar

baixinho e num movimento me chamou pro escurinho da banca de revistas

pra ninguém nos ver esfregando um no outro.

Pediu para acariciar sua nuca com minha língua, então a abracei por

trás para realizar seu pedido.

Mary usava uma blusinha e uma saia. Apenas isso!

Prosseguiram momentos de carinho e amor. O corpo dela começou a

ficar muito quente, eu acariciava sua nuca com a língua enquanto que

minhas mãos viajavam por sua cintura durante o namoro. Ela se deliciava

com o momento, intensamente.

Mary pela primeira vez estava gostando ao máximo que uma mulher

deve gostar de um homem em certas ocasiões.

Um momento de liberação de corpo e alma, as múltiplas sensações

do amor sem a temporalidade, onde tudo ocorre num só instante. O tempo

já não existe, só o prazer e a realização do amor.

Duas senhoras passaram pela praça cochichavam em voz baixa em

relação ao vulto de nós dois que sentiram na parte escura e pelos sons das

nossas conversas.

Nesse instante as cortinas se fecharam , anunciando o fim do

espetáculo do nosso namoro. Agora o palco está coberto e as luzes

apagadas.

Os cabelos rebelaram porém as mãos ajustam o penteado.

Levei Mary até sua casa e dessa vez me despedi no portão.

Mary me prometeu passar o reveilon comigo lá em casa. Todo

mundo vai sair e eu sou um pouco desanimado com esse tipo de coisa.

Festa boa pra mim não é aquela cheia de conversa e falsidade, pessoas

reparando nos outros, no modo de falar e de se vestir.

Festa boa mesmo é a que tem muita bebida e comida e que ninguém

está ligando pra nada senão em encher a cara.

Como esse ano não estou animado em sair o melhor seria a Mary ir

lá pra casa mesmo.

Abriu-se então um sorriso no meu rosto e me despedi.

Eu amo a Mary!

Quando eu desci as escadas do beco, vinha andando pela rua e um

dos rapazes que ficava no outro beco me cumprimentou. Ele disse que seu

colega foi baleado na semana passada. Disse que passou uma moto na rua e

que ao parar eles pensaram que era algum conhecido, então o carona deu

três tiros na direção deles mas só acertaram o outro.

Perguntei se ele havia morrido e me respondeu que não, mas estava

internado em coma.

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Depois, enquanto eu vinha caminhando pensava: como pode a Mary

morar num lugar como aquele? Cheio de violência e drogas. Muita pobreza

e coisas típicas de favela. Todo aquele cotidiano de privações e exclusão

social.

Capítulo 11

Nos outros dias nós vivenciamos a calmaria de um relacionamento

restrito, com muito diálogo. Eu me iludia com a promessa da Mary de

passar o reveilon comigo.

Passei no mercado que tem perto da escola, comprei várias comidas

gostosas pra que pudéssemos fazer uma festa legal!

Não nos arriscávamos em carícias pois Mary reclamava de dores,

tomava remédios receitados pelo médico.

Era 31 de dezembro de 2001.

Acordei bem disposto e com um belo vigor para a vida!

Fiz a barba e as unhas, arrumei o quarto, para passar o reveilon sem

sujeira no meu quarto. O resto da casa já estava limpo, só meu quarto que

era um dilema.

No toca-fitas do meu aparelho de som repousava uma fita contendo

algumas das canções mais bonitas de todos os tempos, só esperando a

virada de ano e a Mary.

Deixei uma garrafa de champanhe no congelador porque a geladeira

não está gelando bem. Essa garrafa deve assistir a tudo de camarote, em

cima do criado-mudo onde duas taças se esfregam de ansiedade.

Todos saem. Vão passar a virada de ano na casa do Luciano, um

amigo de minha irmã.

Depois de tomar um banho demorado, passo um óleo de amêndoas

que sempre gostei de passar.

Então eu saio pra encontrar com Mary.

A Mary disse que iria na igreja hoje, mas prometeu chegar à pracinha

até as vinte e uma e trinta.

O tempo vai passando e nada da Mary aparecer.

Então depois de esperar muito eu fui embora, vendo meu reveilon ir

por água abaixo.

Cheguei em casa e abri o champanhe, tento esfriar a cabeça. Resolvo

ligar pra casa dela.

- Alô!

- Quem fala?

- É Nelzir.

- Ela já foi.

- Foi onde?

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- Se encontrar com você.

- Essa não. Se ela aparecer por aí fala que é pra ela ligar pra mim ta?

- Tudo bem!

Então eu saí de novo em direção à pracinha. Ficava a uns cinco

minutos da minha casa. Com uma lata de cerveja na mão.

Cheguei na praça e fiquei esperando a Mary.

Passaram-se vários minutos, então desisti de vez.

Quando estava indo embora, passei no bar do Adalto e tomei duas

caipirinhas fortes. Fui pra casa e abri outra lata de cerveja. Quando comecei

a tomar liguei pra Mary.

- Alô.

- Quem fala?

- Mary.

- Por que fez isso comigo?

- Ô meu querido, me desculpa, foi sem querer...é que a igreja acabou

um pouco tarde então eu me atrasei.

- O que está fazendo agora?

- Ah eu to aqui em casa, desenhando um coração numa garrafa de

refrigerante.

- Que belo programa de final de ano heim?

- Pois é, não é?

- Então faz o seguinte: continua fazendo o que você está fazendo,

parece que é mais importante do que se encontrar comigo não é?

- Olha Ruan: eu já te pedi desculpas, não foi culpa minha...fica calmo

que você está muito nervoso!

- Como você quer que eu fique calmo? Não é a primeira vez que

você faz isso.

- Me perdoa.

- Não. E tem mais: vê se não liga mais pra mim, porque eu vou fazer

o mesmo.

- Ruan, espera Ruan...

Então desliguei o telefone público e fui tomar minha cerveja. Deu

uma vontade de fumar então peguei um dinheiro que estava na gaveta do

armário, nem sei de quem era mas amanhã eu arrumo um dinheiro e coloco

lá de novo.

Quando voltei fui lá pra cima do telhado e quando passava a virada

do ano eu estava apreciando as luzes brilhantes que chegavam a ofuscar os

olhos. Eram os foguetes da virada de ano. Dava pra ver daqui a queima de

fogos na Pampulha. Eu estava sentado fumando, e tinha muita bebida.

Nessa hora passava pelo céu e eu podia ver. Era um céu bordado de

estrelas e a nuvem passava silenciosa, desejando levar para longe as muitas

promessas do ano novo. O emprego melhor, a promoção, o amor ou a

vergonha na cara...tudo isso desejado pelo povo.

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Tentei fazer um desejo mas era muito difícil. Eu estava sorrindo e me

divertindo daquela barulheira, aquela gritaria toda e aquelas luzes.

Por fim desci da laje e fui pra cama. Isso foi logo depois da nuvem

desintegrar no céu.

Desabei na cama decidido a não ligar mais pra Mary.

É o adeus do ano velho e feliz ano novo...”

Capítulo 12

Pra felicidade geral, Ruan ligou pra casa da Mary. E isso foi hoje

depois que ele esteve aqui em casa.

Se encontraram de noite e conversaram bastante. Prometeram não

brigar mais.

Já não estavam mais tão ligados um ao outro, relação machucada e

ambos tentavam disfarçar isso.

O Ruan não acompanhou Mary até sua casa. Arrumou uma desculpa

e a jovem foi caminhando sozinha.

No caminho ela encontrou um antigo caso seu chamado Márcio...

- Oi Mary, como vai você?

- Estou bem! Levando a vida, e você?

- Estou bem! Ta indo pra casa?

- Estou sim, é que eu estava com o meu namorado.

- Você está namorando?

- Estou, já faz um mês que estou com ele.

- E os rolos, você...

- É melhor a gente mudar de assunto...não, na verdade eu já vou

subindo.

- Mas e se eu...

E por questões de ética – desculpem – não posso reproduzir o

restante dessa conversa, infelizmente minha amiga Paula não ouviu tudo lá

da sua varanda que fica na rua Cais Antigo.

Mas fique claro que eu não estou mentindo, e se alguma semelhança

for achada com pessoas ou acontecimentos reais, não terá sido mera

coincidência.

Afinal sou escritor, e minha arte é escrever. Mesmo quando o fato é

real.

Mas ta, voltando ao assunto. O Ruan seguia pela rua a caminho de

casa, foi quando encontrou duas amigas que voltavam da locadora da rua

Guararapes.

- Oi Ruan! Como você está?

- Estou bem! E vocês?

- Estamos ótimas!

- Nossa! Que alegria é essa?

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- É que nós alugamos esses filmes, e vamos assistir lá em casa.

- É que meus pais saíram e aí nós vamos poder ficar lá sem problema

deles ficarem controlando o que a gente assiste.

- Bom...então bom filme pra vocês. Depois vocês me contam como

foi ta?

- Você nunca viu desses?

- Não, mas vocês me falam se é bom...depois de repente eu alugo.

- Tenho uma idéia melhor!

- Vem ver com a gente...não tem ninguém lá em casa mesmo.

- E tem uma garrafa de wisky que o meu pai ia jogar fora, aí a gente

guardou pra experimentar. Ele falou que ia parar de beber. Ela ta lá no

nosso quarto guardada.

- E aí Ruan, vai ou não?

Bom, mudando de assunto...a cidade vivencia um momento de

modificação cotidiana. A festa do reveilon já se desfez e as pessoas

retornam a viver normalmente.

Tenho grandes expectativas pra esse ano de 2002! Que seja muito

melhor que o ano passado em todos os sentidos, que nossa economia

prospere, que a mortalidade diminua e que a seleção seja campeã do

mundo, afinal em 98 foi uma vergonha, perder a final daquele jeito!

***

“Oh céus! Como fui deixar que a minha relação com a Mary se

transformasse nesse caos sentimental? Eu cometi um grande erro hoje, e sei

que nesse instante ela pode estar fazendo o mesmo que eu, errando.

Por que o amor é tão difícil? O que restou da boa promessa?

É verão! Sinto dor pelo orvalho que caiu nas plantinhas da casa das

garotas. Encharcou a relva e os insetos festejavam. Eu vi pela janela essa

cena enquanto penteava o meu cabelo pra ir embora pra casa.

Depois que cheguei em casa me senti arrependido de muitas coisas.

Comecei a pensar na vida, no meu passado. Não se pode mudar as coisas,

apenas nos basearmos nelas para planejar melhor as nossas ações no

presente.

Nós dois nos distanciamos por duas semanas. Não nos vimos, apenas

trocamos ligações vez ou outra.

Decidimos nos encontrar hoje, dia dezessete, para conversarmos.

É verão mas sinto o inverno dentro de mim. Tudo é tão frio e sem

sabor.

- E então Mary? O que você queria falar comigo?

- É que...eu acho melhor a gente dar um tempo. Estou me sentindo

um pouco confusa e, preciso organizar a minha vida.

- Está gostando de outra pessoa?

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- Não...de ninguém...mas eu preciso ficar um pouco sozinha.

- A gente está terminando de vez não é?

- Não, mas se você quer terminar.

- Eu não queria, mas é o que você está tentando me dizer.

- Não...eu...

- Escrevi isso pra você.

- Que bom! Obrigado! Depois vou ler, ta?

- Sempre te amei, nesse tempo em que a gente ficou junto...só que eu

queria que você sentisse o mesmo por mim, por isso eu sempre fui tão

inseguro com relação a você.

Passaram alguns segundos em que nos observamos, a Mary começou

a chorar e depois voltou a me olhar atentamente.

- Deixa eu te dar um abraço?

- Pode.

- Que restou de nós?

- Fazer o quê né?

Ela foi embora...e eu fiquei só, com a minha solidão.

Passei alguns dias em uma tristeza dramática e angústia.

Eu me lembrava muito do nosso relacionamento, das nossas

conversas.

Não dava pra suportar, eu saía pela cidade a procurar um riso e,

quando achava que já tinha me esquecido...a lembrança voltava.

O tempo passa, e o rosto de Mary vai se desmanchando em minha

memória.

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AMOR DE VERANEIO

Uma história de verão

Segunda parte

Capítulo 1

Uma brisa suave sopra a cidade mineira! O calor do verão parece

mais intenso nesses dias. A bateria que rege a vida urbana retorna seu curso

normal no dia de hoje. O recomeço das aulas marca uma nova fase em

nossas vidas. O engarrafamento do trânsito, a correria...

Hoje é dia de rever os amigos, colegas e professores.

É também dia de retaliações entre dois seres que se desvencilharam

um mês atrás.

Na magia esplêndida de um mimo, uma borboleta me agracia os

olhos castanhos com seu vôo.

Desde que voltei do Rio ainda não conversei com os colegas. Tenho

andado ocupado em meus negócios e não sobra tempo pra nada.

Não dá pra ficar atirando no escuro, é preciso ser ligeiro.

Esse é o meu novo mundo. As amizades são um segundo plano,

talvez um momento ou outro, mas o principal é fazer a atividade render.

Sei que o Ruan terminou com aquela safada lá de cima. E isso é bom,

assim ele pode até me ajudar numas coisas. Enquanto ele estivesse com ela

não daria muito pra confiar nele, porque quando o coração está apaixonado

não sabe pensar direito.

Hoje lá na escola eu vou conversar com ele. Vou ver se ele interessa

no negócio.

***

“Não me inquieto ao saber que irei reencontrar meu desafeto Mary

no colégio Padre Matias. Como já havia planejado, passarei por ela como

se não conhecesse. Estou preparado pra qualquer malefício que o destino

possa despejar sobre minha pessoa.

Eu estava na janela tomando um pouco de Martini quando vi uma

borboleta amarela voando pela varanda. Está cada vez mais comum

aparecerem borboletas no bairro, deve estar acontecendo alguma mudança.

O dia ensolarado indubitavelmente rasga os filetes de orvalho da

relva verde e meu coração provoca soluços em minha alma apedrejada pelo

caos que foi o mês que se passou.

57


Quero voltar no tempo, ou seguir desenfreado até o próximo ano, só

pra não ter que ficar me encontrando com essa pessoa. Cada vez mais as

horas passam.

Vou colocar uma roupa preta pra ir no primeiro dia, porque estou de

luto, pela minha idiotice.”

***

“Hoje começa o nosso último ano na escola. Ainda bem, pois o

tempo na escola é improdutivo!

Estou querendo me formar logo pra poder me dedicar mais

intensamente aos meus trabalhos artísticos, minhas poesias.

O que a escola tem a proporcionar é só a grade curricular, e isso não

me interessa tanto quanto o diploma.

O caminho que eu quero seguir exige muito estudo, e lá na frente vou

ter que fazer um cursinho e aprender essas matérias de hoje tudo de novo,

então seria mais lucrativo pra todo mundo se acabasse o ano hoje mesmo,

me dessem o meu diploma e me deixassem ir atrás do meu sonho.

Como será que está o Ruan depois que terminou com aquela

putinha?

Tempão que a gente não se fala. Mas dessa vez ele deve ter

aprendido a lição, e quem sabe esse ano vai ser um bom companheiro de

farra.

Ano passado ficava naquela de pedir pra escrever poesia mas

sinceramente, eu só escrevia porque ele é meu amigo, porque aquela garota

que ele namorava não valia a pena nem a tinta que eu usava no bico de

pena. Meu pensamento é que pra uma mulher merecer uma poesia tem que

pelo menos ser distinta, digna, bonita...aquela nem era bonita nem digna.

Ah, mas que cada um cuide do seu coração. Eu gosto de poesia e

nem por isso sou obrigado a ser romântico, pelo contrário, gosto é de

balada, gosto de farra e muitas mulheres.

Esse é o universo que eu idealizei pra mim. Se lá na frente eu vou me

apaixonar já é uma outra história, por enquanto vivo e vou vivendo.”

***

Belo Horizonte, dezoito de fevereiro de 2002. Escola Padre Matias

no Glória.

Esse é o nosso último ano aqui nesse lugar.

Tiago, a Mary – a que namorava o Ruan – Gú, Fred, Binha que

namora a Ana Paola desde a sétima série, o Salame, o quarteto

fantástico,Ruan e outros.

58


Certo, e aparece o Giancarlo, um dos poucos amigos e confidente do

Ruan. Estava junto com o Augusto, um outro aluno do primeiro ano.

- E aí camarada? Como foram as férias? E a mulherada de Cabo

Frio?

- O mar estava agitado com muita sereia, mas tinha raio caindo em

cima da mesa o tempo todo. Muita bebida, muita farra.

- Rá, rá, rá...você é uma piada Augusto.

- Você também foi Augusto?

- Foi uma coincidência incrível. Eu tinha que ir no Rio visitar uns

amigos e acabei encontrando o Giancarlo.

Ruan, Augusto e Giancarlo eram conhecidos já de muito tempo.

Encaravam a vida como o grande desafio de um dia após o outro.

Uns anos atrás um crime que foi cometido por um dos três os afastou

um pouco e então cada um seguiu seu rumo.

Esse porém é o último que irão estudar juntos nesse lugar até que a

vida os espalhe como um monte de poeira por esse mundão de Deus.

- E as notícias? O que conta de novo Vitor?

- Estou numa boa agora, eu estou querendo que esse ano passe

rápido, detesto essa escola! Todo dia aqui é um tédio!

- Ah, lembrei que você está me devendo uma rodada de chopp desde

quando eu voltei da viagem ao Rio.

- Pois é, temos que combinar isso direitinho. Vocês tem notícia do

Ruan?

- Eu não o vejo a mais de um mês.

- Estou preocupado com esse sumiço dele. Ele sempre ia na minha

casa mas sumiu.

- Eu não o vi também desde que cheguei de viagem.

- Hoje depois da aula podemos fazer uma rodada de chopp lá naquele

barzinho da Abílio Machado.

- Boa! Aí a gente leva umas garotas do primeiro ano.

- De repente se o Ruan aparecer a gente leva ele.

- Aquele tarado! Vai é querer roubar nossas garotas também.

- Ih, Augusto. Ce ta desatualizado demais. Não sabe o que aconteceu

com o Ruan.

- E você Vitor, ta afim de ir não?

- Melhor deixar pra outra hora. Amanhã vou ter que acordar cedo pra

ir no centro. Tenho que ir pegar minha dispensa do Exército.

- Só.

- Mas e aí Giancarlo, conta essa história do Ruan.

- Bom gente, vou indo nessa. To meio atrasado.

- Beleza Vitor, vai na fé.

- Bom Augusto, tudo começou no ano passado quando o Ruan...

59


Uma noite calma vem descendo sobre a cidade mineira, anunciando

uma brisa enamorada que traz às nossas narinas o perfume selvagem das

fêmeas da espécie.

O mato verde das ruas faz lembrar das viagens ao campo, entre a

cantoria dos pardais, sem o uivo devastador do progresso em nossos trajes

de pano.

O Ruan apareceu na esquina do colégio exatamente às dezenove

horas, no início do segundo horário. Quando tocou o sinal deu pra ver ele

entrando, afinal meu lugar era na janela, de olho pra rua.

O colégio está parecendo um formigueiro, muitos alunos, pouco

espaço pra se locomover. Não é mesmo o lugar ideal pra mim que deseja

descanso e mansuetude. Olha, falei bonito agora!

É como eu já disse: quero que esse ano passe voando pra eu poder

me dedicar a mim mesmo.

Mas ta, voltando ao assunto...

O Ruan passou pelas pessoas sem dizer nada, com o olhar fixo no

horizonte – a escada – e o semblante obscuro como névoa de tempestade.

Devia estar se sentindo um manequim de shopping, pois algumas

pessoas observavam sua roupa, toda preta e com os sapatos tão brilhantes

que até ofuscavam a vista.

***

“Eu cheguei atrasado hoje porque nem vontade de ir na escola eu

estava, tanto que o que me animou de verdade foi tomar um copo de pinga

do garrafão que meu pai deixa escondido debaixo da cama.

Minha sala de aula esse ano será a última do corredor direito no

segundo andar. Meu surgimento não poderia ser melhor:

- Pôxa! A mesma sala do ano passado. Não mudou ninguém...já vi

que eu to de novo de récu-récu.

- Aêêê Ruan! Resolveu aparecer heim! – disse o Zé Maria, o aluno

mais velho da sala, 32 anos mas o retrato fiel da adolescência, chamado por

nós de cafetão.

- Ô Ruan, e esse sapato seu? Passou óleo de trator é? – disse o Gú,

chamando para si a graça da primeira piadinha de mal-gosto do ano.

- Tem três coisas que eu faço bem: tomar cerveja, namorar e

engraxar meu sapato.

- Isso aí não é graxa não. Ta parecendo mais é resina de bomba

nuclear. – disse o Fred.

- Rá, rá, rá!

- Ta, mas agora vamos parar com as brincadeiras que esse ano serei

um aluno sério e compenetrado.

Nesse momento não ficou um só aluno da sala sem fazer uma

gozação. O ano recomeçou.

60


Mas ta, continua contando aí Vitor, eu te atrapalhei mas é que eu

queria contar essa parte da piadinha, da hora que eu cheguei, você sabe

como é não.”

***

Certo, Ruan...

Ninguém mudou de sala, e o pior: ninguém mudou de lugar nas

carteiras. Fiquei uma boa parte do tempo fazendo brincadeiras com o

quarteto. Esse ano vai ser realmente um tédio!

Pior do que ficar na mesma sala, só mesmo o novo horário: só tem

horários duplos, todos os dias, de segunda a sexta, aulas seguidas de uma

mesma matéria. O caos maior serão as duas aulas seguidas de biologia com

a Rosália na quarta-feira, o dia da minha cerveja.

As horas vão passando. Chega o horário do recreio e, ninguém

trouxe baralho. Nos resta conversar lá no murinho do corredor, olhando o

movimento no pátio durante os vinte minutos.

Colocamos todas as notícias em dia. Quando perguntamos o Ruan

sobre a Mary ele deu uma resposta rápida e mudou de assunto.

***

“É, mas é que eu não estava querendo falar nesse assunto e vocês

ficam insistindo...

A sala dela fica embaixo da nossa, o que facilitou a primeira troca de

olhares. Mesmo eu relutando bastante, no final do recreio, uns minutos

antes de tocar o sinal.

Mas ta, aí passaram-se os dois últimos horários de aula e o sinal

tocou.

Quando saí pelo portão dei de cara com ela, esperando sua irmã

Tamires, que esse ano vai cursar o segundo ano aqui na escola.

Eu continuei andando fingindo não ter visto ela. Meu coração

disparou e comecei a suar. Subi a rua rapidinho, tentando não olhar pra trás

e rever seu rosto.

Me aliviei quando dobrei a esquina da rua e fui subindo pra encontrar

os caras no barzinho pra gente tomar umas. Antes de quebrar na rua

Guararapes, fui olhar para os lados por causa de carro e lá atrás vinha a

Mary, longe, me observando, com uma cara muito triste.

Eu apertei meu passo, com raiva e sumi no horizonte escuro.

A Noite sem lua desperta as palpitações da alma, e o coração é

dilatado pela incerteza que arde. Amanhã será o mesmo tormento.

Ta vendo só Vitor. Não é tão fácil pra mim.”

***

61


Capítulo 2

“Mas continuando...

No outro dia, era o dia dezenove de fevereiro de 2002. A mesma

escola Padre Matias, amor de veraneio.

Era dezoito horas e uns sete minutos, faltava pouco pra tocar o sinal.

Cheguei na rua Deputado Cláudio e vi alguns alunos aguardando a

escola se abrir, na rua Célia Costa. Entre eles a Mary e sua irmã Tamires.

- Olha lá na frente ‘Tami’, aquele é o Ruan.

- É ele?

- É sim.

- Hum! Até que ele é fofinho, mas pela voz dele no telefone, eu

imaginava que ele aparentasse ter mais idade, mais corpo.

- Claro, com aquele vozeirão!

- Mas como você deu bobeira heim maninha?

- Ah, eu às vezes faço as coisas sem pensar e aí já viu né?

Eu estava com uma calça preta com cadarço branco enorme, aliás

essa é a nova moda aqui no colégio: ou o cadarço ou um cinto, ou uma

corrente de lado...o importante é ter alguma coisa balançando na calça. É

por causa do funk também. Todo mundo quer aparentar ser funkeiro.

Minha blusa cinza do colégio era adornada com duas correntes.

Eu trazia minha mochila na mão esquerda e na direita uma latinha de

cerveja.

Antes de entrar na escola, esmaguei a latinha e joguei na latinha de

materiais recicláveis do outro lado da rua, aos olhares dos curiosos, e a

latinha passou exatamente pelo pequeno orifício da abertura. Claro que eu

nunca mais iria conseguir fazer aquilo de novo, mas foi um lance oportuno,

pois todo mundo ficou admirado com aquilo e eu cheguei abafando.”

- Nunca mais faz isso heim Ruam...

- Corre lá no mercado e trás mais uma pra mim que eu te mostro,

mas você paga.

- Tentei falar com você ontem mas o pessoal estava perto, e você

saiu meio que depressa de lá.

- Pois é Giancarlo, o que você queria?

- To num negócio novo aí. Ce lembra que eu tinha comentado com

você ano passado, lá no meio do ano que eu estava querendo uma coisa

mais lucrativa.

- Ô sim. Mas e aí...é que eu tive um mês meio conturbado e, me

esqueci completamente. Foi mal! E por falar nisso, como foram as suas

férias?

- Foram muito boas! Hoje depois da aula a gente pode falar sobre

isso enquanto tomamos uma cerveja perto da sua casa.

62


- Demorou.

- Ah, vou chamar o Augusto também viu?

- O Augusto? É que...

- Deixa de besteira Ruan. Você acha que o Augusto iria nos trair

nessa história toda? Já faz quanto tempo.

- Não sei não. Mas ta...chama ele também. Estou rpecisando jogar

um pouco de sinuca pra me distrair e, como você é uma negação no bilhar,

fico sem adversário.

- Mas algum dia eu aprendo, aí vocês dois vão ver.

Tentando fingir que não percebi a Mary e sua irmã logo atrás de mim

eu caminhei em direção à escada e vim pra sala de aula.

Meu olhar se incendiou enquanto eu caminhava, eu quase chorei, e

meu raciocínio ficou confuso. Não sei se vou conseguir suportar por muito

tempo essa pressão sentimental que está alojada em meu corpo entupindo

minhas artérias. Vou ter um infarto qualquer hora dessas. Vou morrer de

amor!

Meu proceder durante todo o período me surpreendeu com grande

intensidade, mas minha respiração ofegante me condena...ainda gosto dela!

- Sei, isso é complicado não? Mas e aí...o que será que o Giancarlo

está pretendendo Ruan?

Não sei Vitor. Eu já tinha parado depois que aconteceu aquele

negócio. Atualmente fico só na minha mesmo e às vezes dou uma viajada,

mas sem prejudicar ninguém. Vou ver direitinho o que está rolando, se for

coisa mais pesada eu venho e te peço um conselho. Você sempre foi uma

pessoa com a cabeça no lugar, com certeza não vai me deixar entrar em

roubada.

Ele é meu amigo, mas eu não quero voltar praquela vida a não ser

que seja uma coisa segura e que vale a pena.

***

“Estou me sentindo tão arrependida por ter acabado o namoro com

Ruan. Às vezes leio aqueles versinhos que ele costumava escrever pra mim

e fico bastante triste. De noite as horas não passam e o sono é difícil.

Eu pensei que outra pessoa poderia me fazer mais feliz do que ele

estava fazendo. Mas na verdade eu estava errada. Aliás eu já deveria saber

pois antes dele os homens só se aproveitaram de mim. Ele foi o único que

me viu como uma mulher.

Só me resta fazer uma coisa...

***

Eram umas dezenove horas. Ele estava no pátio resolvendo alguns

problemas – matando aula – quando um conhecido o chamou e começaram

63


a conversar sobre assuntos de extremo interesse social – futebol – quando

pedi pra Tatiana falar com ele...

- Oi! Você é o Ruan?

- Sou sim. Por que?

- Prazer, eu sou a Tatiana!

- Muito prazer! O que está pegando?

- Sou amiga da Mary e ela me pediu pra vir falar com você.

- Sobre o quê?

- Assim...é que ficou uma coisa muito mal-resolvida entre vocês dois

e...ela ta querendo conversar com você, pode?

- Um momento...e se isso for um pretexto seu pra que eu vá falar

com ela?

- Nossa! Que filmes você andou vendo heim?

- Infelizmente eu sou assim. Ou as pessoas me deixam assim.

- Mas você está enganado! Foi ela que me pediu pra te dar esse

recado.

- Fala então pra ela vir falar comigo depois.

- Tudo bem.

- Aceita uma bala?

- Sim, obrigado!

- Por nada. Só não me peça pra confiar em você...eu desconfio até da

minha própria sombra.

- Tudo bem então. Sim senhor!

***

Eram umas vinte horas e quarenta e três minutos.

Recreio.

Fui – receosa – falar com ele, acompanhada de minha amiga

Fernanda que, ao me ver, saiu correndo pelo corredor me deixando sem

proteção diante do meu ex-namorado.

- E então...o que você quer?

- Assim, era pra gente conversar um pouco.

- Sobre o quê?

- É que você passa perto de mim como se nem me conhecesse e...

- O que você quer que eu faça?

- Me cumprimente pelo menos.

- Por quê?

- Você age como se não tivesse acontecido nada entre nós.

- E aconteceu?

- Não do jeito que você queria, mas aconteceu.

- É isso que você tem pra me falar?

- Não...é que eu, eu quero te pedir uma chance.

- Para quê?

64


- Pra gente voltar...e ver se dá certo dessa vez.

- Por que? Você não sente e nunca sentiu por mim o que eu queria

que sentisse.

- Mas com o tempo...nós vamos nos conhecendo melhor e...

- Nada disse. Aposto que se eu fosse mais velho e mais alto você...

- Pára com essa bobeira Ruan. Eu gosto de você do jeito que você é!

- Mas você nunca demonstrou.

- Mas gosto.

- Eu to indo pra minha sala, tchau!

- A gente vai conversar depois, você não vai fugir assim. Pensa com

carinho no que eu te falei viu?

Nessa hora ele continuou andando sem me responder.

- Viu Ruan.

Eu disse aos gritos.

Dessa vez ele concordou com uma relutante contração dos lábios.

As horas passaram e eu saí correndo quando o sinal tocou pra poder

espera-lo, mas ele já havia saído. Acho que ele matou o último horário com

os colegas e foi pra algum bar. Hoje na entrada parece que eles estavam

combinando.

Bom, mas amanhã eu falo com ele. É bom que dá tempo pra ele

pensar melhor no que eu falei.

Por enquanto é melhor eu ir pra casa e descansar. Eu também estou

um pouco confusa e essa foi a primeira vez que eu tomei a iniciativa de

falar com um garoto. Antes eu nunca passei por uma situação assim.”

***

“Era dia vinte de fevereiro de 2002. Eu estava na escola.

O sinal disparou umas vinte e duas horas e vinte e quatro minutos,

como um veadinho afoito e os alunos soltam um ‘ufa’, cada um guardando

rapidamente as coisas, loucos de vontade de chegar em casa e dormir um

sono relaxante pra acabar com o stress.

- Giancarlo!

- Fala Ruan...

- Aqui, vai rolar aquele chopp hoje não...

- Eu já sei porque. Faz mal não, vai fundo.

- Fica pra outra hora então?

- Tranqüilo.

Mary me esperava no portão da escola, junto de sua irmã Tamires.

Subimos conversando e no meio do caminho a Tamires arranjou uma

desculpa pra andar mais rápido, deixando-nos a sós, minha ex-namorada e

eu.

65


Chegamos na pracinha do bairro e deixamos nossas mochilas na

escadaria.

- Bom Mary, você disse uma coisa hoje lá na escola e, me pediu pra

pensar. Eu realmente pensei bastante.

- E qual é a sua decisão?

- Bom, primeiramente, o que você sente por mim de verdade?

- Muitas coisas!

- Por que terminou então?

- É que eu estava me sentindo confusa. Você sempre desconfia de

mim, e eu nunca fazia nada de errado. Esse sempre foi o seu único

problema, aliás é um dos problemas de todo garoto da minha idade.

- Tem certeza que não fez?

- Sim.

- Mas às vezes é difícil de acreditar. Você sempre furava comigo

- Mas é verdade. E você? Acha que eu não tenho ciúmes de você

não?

- Não porque nunca demonstrou isso.

- Não sei demonstrar muitas coisas, mas eu sinto sim. Você sabe que

eu tenho um pouco de dificuldade nas coisas.

- Só vou confiar em você no dia em que você provar seu amor.

- Vou fazer o possível pra que isso aconteça o mais breve possível.

- E só por isso eu vou voltar. Eu aceito.

Então nos beijamos mas não foi como a primeira vez. Mesmo que o

corpo dela estivesse gelado e logo se esquentou devido a uma carícia,

mesmo seus seios confessando o inevitável das mulheres. Eu ainda a amava

mas depois de tanto sofrer era mais difícil pra mim.

Depois de um tempo acabei me esquecendo totalmente da

dificuldade e me entreguei àquele momento, seus carinhos, seu corpo

encostado no meu. Senti um acréscimo pela virilidade. Me senti excitado

pela Mary mas eu não conseguia ficar com ela da maneira que esperava.

Nós estávamos no escurinho atrás da banca mas embora nos

beijássemos e nos tocássemos eu não consegui realizar tudo o que

esperava.

Procurei esconder o descontentamento e amaciar nosso encontro,

conversamos sobre nós mas creio que ela percebeu o motivo. Depois fomos

embora.

Ela jogou umas indiretas e eu entendia. Mas eu não queria falar com

ela que eu falhei.

Dessa vez ela não se importou que eu a levasse até o portão de sua

casa.

Eu caminhava pelas ruas pensando no que poderia ter dado errado

comigo pra que eu não conseguisse uma excitação maior e...

66


De repente ouvi tiros na rua de baixo. Ferrou, a casa caiu...se for

briga de gangues to morto! Eu saindo da favela, os caras vão pensar que eu

sou do movimento.

E agora?

Droga, o jeito é esconder e esperar.

Merda, barulho de sirene de viatura. Nossa, foram mais de trinta

tiros, isso aqui tão perto. Já é tarde. Como que eu vou explicar eu estar aqui

perto da troca de tiro, saindo da favela. Agora ferrou tudo. O jeito é esperar

um tempo aqui no beco até a rua encher de gente pra ver o que é.

Não demorou muito, muitas viaturas, ambulância. Parece que tem

gente morta. Não resisti e desci pra ver o que era.

Nossa, minha vida passou inteira diante dos meus olhos quando vi

aquela cena. O Augusto tomou tiro demais. Os guardas comentando que ele

tentou fugir na moto roubada e trocou tiros com uma viatura, que acertou

um policial.

Caralho! Era hoje que a gente ia encontrar depois da aula pra tomar

chopp, e o Giancarlo falou que tinha um negócio novo. Nossa, será que é

isso? Ele sempre mexia só com baseado e às vezes uma receptação, mas

meter assalto já é muito arriscado.

Nossa, e pensar que podia ser eu ali naquela cena, aquele sangue

escorrendo. Onde será que está o Giancarlo? Será que pegaram ele?

Fui correndo pra casa pra ligar pra ele.

- Gian, você já soube?

- Aqui Ruan, você vai ter que fazer um favor pra mim. Vou ter que

sumir um tempo, guarda umas coisas pra mim.

- Ta, guardo sim, mas o que aconteceu?

- Eles vão me pegar, eu vou ir pro interior, já to arrumando minhas

coisas. Vou ficar um tempo na casa de uma tia avó numa cidade do interior.

Tenho que sair de cena.

- Ta bom mas...

- Vou desligar, amanhã você vai passar lá na praça e vai ter uma

caixa atrás da banca. Ta tudo lá dentro, guarda pra mim e pode ficar com

uma parte. Mas vai cedinho, põe o relógio pra despertar porque vai estar

moçado, parecendo lixo, mas se alguém ver já era.

- Ta certo, pode deixar que eu vou sim.

Cai de vez a madrugada sobre minha cidade natal. Eu não consigo

dormir pensando em tudo que aconteceu.

Voltei com a Mary no mesmo dia que o Augusto morreu. Se ela não

tivesse falado comigo hoje, se tivesse deixado pra amanhã eu não estaria

deitado aqui na minha cama agora.

A vida nos coloca à prova a todo momento. Nosso sistema é injusto e

pesado! Só os ricos tem a vida, os pobres só tem a privação.

67


Ao mesmo tempo que eu pensava na morte do Augusto pensava na

Mary. Será que ela realmente me ama? Eu sinto um grande sentimento por

ela, mas não sei se vamos ser um casal feliz? Aconteceu muita coisa ruim e

isso marca muito a vida da gente.

Capítulo 3

Acordei um pouco cabisbaixo e fui comprar pão na padaria que fica

abaixo da pracinha. Fiquei pensando no que aconteceu ou melhor, no que

não aconteceu entre a Mary e eu. Também estava triste pelo Augusto. Ele

já não era mais tão próximo, tão amigo, mas é uma pessoa que eu conhecia

a muito tempo, nós até jogávamos bola juntos quando éramos pequenos.

Quando voltei parei atrás da banca como quem vai urinar, olhei de

um lado e de outro pra ver se não havia ninguém olhando e então peguei a

bolsa que o Giancarlo deixou.

Eu nem vi o que era. Estava tão preocupado que fui direto pra casa.

Quando cheguei deixei o pão em cima da mesa da cozinha e me

tranquei no quarto. Não cheguei nem a tomar café.

Dentro da bolsa do Giancarlo havia muito dinheiro, jóias, duas armas

e um pouco de baseado. Eles realmente acertaram no assalto e o Augusto

foi corajoso demais em tirar a atenção da polícia. Tinha uma carta e nela o

Giancarlo contava tudo como foi. Eles assaltaram uma fábrica de jóias no

meio da noite e levaram tudo. Saíram numa moto que o Augusto roubou e

no caminho o Giancarlo trocou de roupa e foi embora de táxi. Na carta ele

falou que a moto ia ser abordada em alguma blitz e que o Augusto achou

que não, e embora tivesse insistido com ele pra deixar a arma o Augusto

insistiu em ir armado.

O Giancarlo saiu pra todo mundo achar que ele levou tudo, e eu vou

ter que guardar isso aqui.

***

“Me sinto aliviada em ter voltado a namorar com o Ruan. Vou passar

por cima de todos os erros que já cometi...só espero que eu não erre de

novo. Ele é um cara direito, não posso perde-lo. Sei que daqui a alguns

anos ele pode ser um perfeito companheiro, e eu poderei ir ensinando a ele

o jeito que eu gosto das coisas.

Ontem eu percebi que ele estava um pouco nervoso no nosso

encontro, mas isso acontece com todo mundo. É um pouco incomum em

rapazes, afinal são sempre tão impulsivos...

Bom, mas só quero pensar em coisas boas, muito boas com o...”

***

68


“Ruan voltou a namorar com a Mary. Será que dessa vez dá certo

esse caso? Meu amigo não deve se submeter desse jeito à essas

experiências porque ele está caminhando para a perdição amorosa...do jeito

que as coisas estão hoje em dia.

Essa Mary não serve pra ele, não é possível que só ele não enxerga

isso. Resta esperar pra ver o que acontece.

De repente o telefone tocou...

- Vitor, bom dia, aqui é o Ruan.

- E aí Ruan, como vai? E ontem com sua ex? Conta aí...

- Aqui, mataram o Augusto ontem.

- O quê? O que aconteceu com ele?

- Você não vai acreditar, ele roubou uma moto e uma viatura

perseguiu ele.

- Nossa! Que coisa, e o Giancarlo estava com ele?

- Não, só o Augusto. O Giancarlo não está envolvido em nada só

que falou que ia sair da cidade um tempo porque está com medo da polícia

ir atrás dele.

- É foda, e ele bem que estava te assediando pra fazer alguma coisa.

Aquele dia na escola eu percebi.

- Pois é, ainda bem que eu não fui. E nem o Giancarlo.

- Aqui, então demorou a gente ligar pro resto da turma pra ninguém

ir na aula hoje. Vai ser uma fofocaiada na escola, e eu estou querendo sair

um pouco. É até uma boa desculpa.

- Vamos, aqui...liga pro Binha, pro Gú, pro Thiago, pra Fernanda e

pro Fred que eu ligo pro resto. Aí você manda eles avisarem os outros.

O que é a má influência na vida de uma pessoa. Eu por exemplo

sempre tive influências boas e ruins mas sempre me mantive neutro.

O Ruan já é mais vulnerável a tudo. Depois vou até parar pra

conversar com ele porque quero saber melhor essa história do Augusto ter

morrido, mas deixa isso pra uma outra hora...

- Alô? Oi princesa, aqui é o Vitor! To te ligando pra saber se vai dar

pra gente ver aquele filme que você prometeu. Claro, é que morreu um cara

lá na minha escola e o pessoal cancelou a aula...então, vamos fazer o

seguinte, a gente se encontra lá no centro lá pelas oito da noite e...”

***

Meus dedos discam no telefone o número de Mary:

- Alô?

- Quem fala?

- Sou eu, Mary!

- Estou com saudade de você!

- Eu também tchu-tchuco.

- Mentira.

69


- Verdade. Estou morrendo de saudade!

- Então vem pra cá, ficar perto de mim?

- Agora?

- É.

- Agora não dá tchu-tchuco. Estou arrumando a casa e, nem sei onde

você mora.

- Vou encontrar com você.

- Não tchu-tchuco. Uma outra hora a gente faz isso, com calma.

Com desespero a gente não consegue nada, e outra, apressado come cru.

- Mas come.

- Rá, rá, rá! Você é demais Ruan!

- Te acho gostosa!

- Pára. Você está me deixando sem jeito!

- Vem me fazer uma visita.

- Pode deixar. Qualquer hora dessas eu vou.

- Mentira.

- Vou sim, eu prometo.

- Só vou acreditar quando você vier.

- Sexta-feira.

- Amanhã?

- Não, na outra sexta.

- Amanhã.

- Seus pais vão estar em casa.

- Na parte da manhã eu fico em casa sozinho.

- Não sei...e se aparecer alguém?

- Tenho certeza que não aparece.

- Hoje à noite a gente conversa sobre isso, mas vamos ter que ficar

menos tempo porque mataram um cara aqui na rua de baixo. Ele é lá da

escola...

- Eu sei. Era conhecido meu, o Augusto.

- Mas você tinha contato com ele?

- Muito pouco. Na verdade eu só conhecia porque a gente estudou

junto na quinta série, só isso.

- Mas você sabe o que aconteceu? Estão dizendo que ele atirou em

um policial e roubou uma arma.

- Não estou sabendo de nada, só o que o povo comenta. Além do

que ontem quando fui embora da sua casa eu desci rapidinho, estava com

muito sono. Acho que mataram ele logo após eu descer a rua.

- Nossa, que coisa!

- Mas aqui, a sua resposta é sim então?

- Não, eu vou pensar primeiro.

- Chata!

- Bobinho!

70


- Pensa em mim.

- Pode deixar.

- Tchau!

- Tchauzinho tchu-tchuco!

- Amo você!

- Também.

Depois que ela desligou eu fui separar o dinheiro do Giancarlo e as

jóias. Eu não queria mexer com o baseado, então decidi que eu ia passar

pra alguém vender. O foda é que eu ia pagar a comissão e o Giancarlo não

ia gostar nada disso, mas eu não queria me expor do jeito que aconteceu

com o Augusto. Imagina eu todo furado de bala.

O foda é que meu namoro com a Mary parece que vai dar certo dessa

vez. Se ela pelo menos pensar que eu estou guardando essas coisas aqui eu

sei que ela vai terminar.

Nisso o telefone tocou, era o Giancarlo...

- Fala Ruan, como estão as coisas aí?

- Olha, daquele jeito. Muito comentário sobre o Augusto, cada um

conta uma versão...aqui, eu liguei pra turma pra ninguém ir na aula hoje pra

não ter conversa fiada...e outra que com certeza vai ter algum idiota

querendo investigar se tem mais envolvido, além do que é dinheiro rpa

caramba! Vocês acertaram a boa.

- Nós acertamos. Não esqueci de você não. Eu sei que você não

falha na missão! Sei que posso confiar em você.

- Pois é...aqui, como vão ficar as coisas?

- Sei lá velho...tô cheio de dinheiro aqui no interior. Aqui é

tranqüilidade total! Tem umas gatas e eu já cheguei azarando.

- Nossa! Legal...

- E seu namoro lá com aquela garota?

- Ta bem, a gente resolveu voltar e...

- Pega uma daquelas jóias lá e dá pra ela.

- Mas qual?

- Sei lá, pega a mais cara, fala que você comprou e faz a graça.

- Beleza!

- Olha, se precisar ligar pra mim liga nesse número, mas te

aconselho a comprar um celular. Sei lá, naquela escola sempre tem um

dedo duro. Se a polícia souber que você andava comigo podem querer

colocar uma escuta no seu telefone.

- Pode deixar, mas aqui, se cuida viu?

- Tranqüilo, fica na paz...”

***

71


Sobre o galho de um ipê que ainda não foi podado, o que está cada

vez mais raro no bairro, um bem-te-vi descansa enquanto da varanda

escrevo um verso pra um livro de poesia que estou escrevendo.

Depois de terminar resolvo ligar pro Ruan pra ver como ele está.

- Alô!

- Oi, aqui é da companhia telefônica, com quem falo?

- Deixa de brincadeira Vitor. Você é a pessoa menos indicada pra

passar um trote.

- Por que?

- Tem que transmitir seriedade ô rapaz.

- Foi mal, ré, ré, ré...

- E aí, aconteceu alguma coisa?

- Não, só liguei pra saber como está. Como foi ontem com a Mary?

- Foi péssimo cara, nem te conto...

- Ih, não me diga que você falhou, rá, rá, rá...

- Como adivinhou?

- O quê? Então é isso?

- Que azar heim cara!

- É sim, o que será que rolou?

- Sei não, e ela como reagiu?

- Tentei esconder e, acho que ela nem percebeu.

- Então não havia começado nada?

- É, a gente estava na pracinha conversando.

- Deixa eu adivinhar...atrás da banca.

- Nem chegamos a ir.

- Credo! Mas que maré de azar cara!

- Pra você ver.

- Se eu conheço você bem, você pensou em alguma coisa absurda e

idiota pra essa situação.

- Comprei umas coisas no supermercado, aliás queria saber se tem

alguma coisa boa pra isso.

- Como eu disse. E deve estar querendo algum site pra pesquisar a

respeito...

- Ah, qual é Vitor. Você não sabe nem um pouco disso e fica aí

metido a romancista.

- E por que meu fã?

- Porque eu já achei o site.

- É Run, você não toma jeito mesmo! Mas não se preocupe, isso

acontece uma vez ou outra, é normal.

- Não quero arriscar.

- É...faz bem.

- Fica só entre nós heim?

- Beleza! Pode deixar, pode ficar tranqüilo!

72


- Lá no colégio a gente troca uma idéia, conversa melhor e você

conta as novidades.

- É, mas só que hoje ninguém aparece naquele lugar heim? Por

causa do que aconteceu com o Augusto.

- Então ta...tchau!

Não há como negar um fato como esse, mesmo a gente sabendo que

é uma coisa íntima e pessoal, não é verdade?

- Alô!

- E aí Vitor, fala camarada...

- Aí Fred, ce não vai acreditar...tenho uma bomba pra te contar

rapaz. Senta senão você vai cair pra traz...

- Já to sentado, conta aí.

- Sabe o Ruan, vixi, nem te conto...mas olha, depois liga pro resto da

turma e conta viu?

- Sei, mas o que foi?

- Pois é, acontece que ontem ele foi namorar e...

No outro dia na escola eu vi a hora que o Ruan chegou e foi

cumprimentar o Binha...

- E aí Ruan? Como vai?

- Tudo bem! E você Binha?

- To bem, ré, ré, ré...

- Qual é a graça?

- O Vitor me contou tudo.

- Aquele imprestável!

- Ó, trouxe um remédio pra você. Esse é ótimo!

- Não preciso de remédio, sou sarado!

- Vamos apostar então?

- Beleza! Melhor de três no truco.

- Ótimo! Vamos lá pras mesas.

Uns dez minutos depois...

- Você ganhou, mas eu te aconselho a tomar esse remédio. Vai te

fazer bem.

- Esquece. O que vai me fazer bem é triturar o Vitor.

Então ele veio pra sala com o Binha e a aula já havia começado.

Depois das brincadeiras que não poderiam faltar e das piadas dos

alunos o Ruan finalmente pegou os cadernos. Ele na hora fica um pouco

vermelho, de raiva ou de vergonha mas sempre entra no clima da

brincadeira.

- E aí Binha, ele tomou o purgante?

- Ainda não, mas eu deixei com ele. Vamos ver se a gente dá sorte e

consegue pregar essa peça nele.

- Rá, rá, rá...só espero que ele não apele conosco.

73


- Não Gú. Vamos fazer essa brincadeira pra ele não ficar tão

cabisbaixo, aí talvez com raiva ele melhora.

- Por falar nisso aí vem a namorada dele.

- Então essa é a tal Mary?

- É sim.

- Tem jeito de ser safada!

- Não sei o que o Ruan viu nela.

- Sei não...

- Sabe não? E a Lidiane?

- Isso foi passado!

- Não é não.

- Melhor a gente mudar de assunto.

- Tudo bem! Se quer assim!

“Um sentimento sonhador nos desperta emoções novas. Eu vejo a

vida assim como um colegial. Ela se modifica, com o vento que arrasta pra

longe os brinquedos e trás pra perto as planilhas de um escritório de

advocacia.

Esse ano eu vou fazer o provão. Dependendo da nota vou direto pra

faculdade.

Giancarlo estava querendo estudar arquitetura mas agora não sei nem

se volta a estudar. O Augusto queria fazer geografia. Na verdade o que ele

queria mesmo era ser arqueólogo.

Nós sempre seremos uma tríade, não importa de que modo a vida nos

espalhe pelo mundo ou pela existência.

Se eu conseguir estudar até o fim serei um ótimo advogado! Sou

muito observador e detalhista! O ruim é que hoje em dia existem poucas

oportunidades pra se conseguir um bom emprego. Estar formado não é o

bastante.

‘Pois é Ruan. Nós todos temos sonhos, e enquanto acreditarmos que

poderemos realiza-los, viveremos felizes! Não deixarei de escrever porque

é uma coisa que me satisfaz. Quem sabe um dia eu escreva um livro que

fale da minha vida, meus amigos...dessa escola onde estudo a tantos anos,

ou um livro que fale até mesmo de você e da sua namorada, de nós...a vida

passa, as lembranças ficam.’

Nossa Vitor, já pensou que legal que seria se você escrevesse mesmo

um livro sobre a gente? Sobre essas conversas, sobre as brincadeiras...seria

muito emocionante já pensou eu velho daqui a uns quarenta anos lendo

esse livro?”

***

O tempo passou depressa e a aula acabou. Ruan desceu as escadas

pra se encontrar com a Mary.

- Oi meu querido!

74


- Oi Mary! Como você está?

- Bem, e você?

- É...

- Vamos subir?

- Ei Ruan, espera...

- O que foi Alberto?

- Aqui, eu pensei bem e vou ficar com aquele vídeo game que você

falou. Oi moça...

- Olá.

- Que vídeo game?

- Aquele que está na sua casa...do seu primo, lembra? Eu vou vender

ele pro seu primo?

- Ah ta...entendei, o vídeo game...pode deixar que eu te entrego

amanhã. Passa lá em casa.

‘Nossa! Gelei agora com o Alberto falando sobre o baseado. Sorte

que ele não falou nada perto da Mary.’

- Você está meio nervoso Ruan?

- Não, é o cansaço mesmo princesa.

Cinco minutos depois. A caminho da pracinha...

- Você tem sentido alguma coisa Ruan?

- Não, é que eu ando um pouco cansado mesmo.

- Por que?

- Nada, é uma coisa que aconteceu.

- Conta pra mim...

- Esquece. Coisa à toa!

- Então ta.

- E seu dia como foi?

- Bastante cansativo, como de costume. Tive que dar faxina naquele

salão enorme.

- Em dia de semana, quero dizer: no meio da semana?

- É. Eu tinha combinado com o meu patrãozinho de limpar hoje.

- O que a Tamires gosta?

- É, o Leandro.

- Ta com pressa de ir pra casa?

- Assim, um pouco. Mas a gente pode conversar por alguns

minutinhos.

- Ótimo! O que você decidiu?

- É melhor eu ir na sua casa sábado. Você não acha não?

- Todo mundo vai estar lá em casa.

- Assim você me apresenta pros seus pais, a gente não está

namorando sério?

- É, mas...

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- Na outra semana, eu prometo que vou um dia lá, pra gente

conversar mais à vontade. O quê você acha?

- Se você diz...mas eu queria amanhã.

- Assim...sábado, lá pelas oito da noite. Pode ser?

- Ta! A gente se encontra aqui mesmo?

- Pode.

- Então vamos aproveitar esses minutinhos.

O beijo é como a rosa, que perfuma o vergel e a mata. Um símbolo

de amor e dos instintos corporais que vivenciamos.

- Você sempre me deixa esperando.

- Por que você tem que ser tão apressado heim?

O beijo é como a lua que ilumina a noite escura. Um talismã dos

desejos carnais que provocamos uns nos outros, no decorrer de nossos dias.

‘O beijo é como a água da chuva que molha a terra pra nascer o trigo.

O beijo é a semente que se torna uma árvore bela.

Eu quero que meu relacionamento dê certo, tanto quanto esse beijo.

Pretendo me dedicar ao Ruan, não quero perde-lo de novo. Eu estou

sentindo ele mais maduro, mais adulto. Ele mudou o seu jeito de ser nesse

tempo que ficamos separados. Eu tenho medo dessa mudança mas ao

mesmo tempo me satisfaço com esse jeito misterioso que ele está agora.’

‘O beijo é como sol e a natureza, que são bonitos a cada manhã que

desperta! Poucas coisas são tão sinceras quanto um beijo apaixonado. Mas

os tempos são de mudanças, eu estou dividido. Não confio nela mas gosto

dela. No outro dia se não fosse o fato dela vir falar comigo, talvez quem

tivesse morrido seria eu.’

Após deixar Mary em casa, Ruan vai embora. No caminho entretanto

uma pessoa o pára.

- Ruan, eu sei que a parada está com você. O Giancarlo está fora,

quero saber se você vai ficar no lugar dele porque senão nós vamos

começar um negócio nosso.

- Aqui, nem sei se o Giancarlo volta. Eu vou passar pro Alberto e ele

que vai mexer. O Giancarlo só quer a parte dele, uma outra parte vai ser

minha e vou pagar o Alberto. Depois que acabar é só com ele.

- Vamos lá em casa amanhã pra gente ver isso.

- Liga pra ele. Não quero me envolver não, eu to namorando e se

minha namorada perceber ela não vai aceitar.

- Você tem que ir. O Giancarlo é considerado nosso. Se ele deixou

com você é porque te colocou à frente. Não precisa envolver não, só marcar

presença.

- Ta certo então. Lá pelas duas da tarde.

‘Cheguei em casa, meio a contragosto fui conferir a bolsa. Eu queria

me livrar de tudo aquilo depressa. Tinha muita coisa ali dentro.

Droga, o telefone. Tomara que ninguém acorde...

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- Alô...

- Sou eu Ruan...aqui, eles já me ligaram, por mim tudo bem...vamos

marcar lá amanhã.

- Aqui, não vou sair daqui à pé com isso não. Vê se você arruma um

carro.

- Quanto tem?

- Quatro do tamanho de um tijolo e setecentos e vinte papéis.

- Caramba! Pode deixar que eu arrumo o carro. Não tem nem jeito

de você chegar lá com isso na mão.

- Outra coisa, eu dirijo quando chegar aqui. Não quero arriscar não.

Ta tudo muito calado. O Augusto morreu e até agora não vi nem rastro de

polícia. Está tudo muito calmo.

Terminei a conversa com o Alberto e acabei tomando o remédio.

Droga, era laxante. Safado! Sem vergonha!

Vai ter vingança, ah se vai...

Só eu mesmo pra cair nessa pegadinha sem graça.

Mas é até bom, enquanto eu estava no banheiro comecei a pensar

umas coisas. É verdade mesmo, até agora não vi nem sinal de polícia. Eles

roubaram uma quantidade muito grande de jóia e dinheiro. Os caras

deveriam estar fuçando o bairro todo.

Eu vou ter que tirar isso daqui antes de ir lá repassar o bagulho,

imagina se aparece uma viatura pra cumpri mandado. Eu dançava com tudo

na mão.’

Capítulo 4

- Ruan, acho que tem um carro seguindo a gente.

- To vendo Alberto, vou pegar a avenida pra ver se ele vai vir atrás.

- Ta esquisito Ruan, acelera!

- Não, só tem dois dentro do carro e nós também estamos armados.

Qualquer coisa a gente passa eles. Vou furar o sinal assim que a gente

passar perto da igreja.

De repente o carro acelera e Ruan atravessa o sinal vermelho, quase

bate em outro carro e vai embora. O carro que os estava seguindo fica pra

trás.

O fato serve de resposta ao que Ruan ficou matutando na noite

anterior. Estava tudo muito calmo até agora. Ruan sabe que as coisas vão

mudar daqui pra frente.

‘Cheguei suando na casa. A gente guardou o carro rapidinho na

garagem e entrou pra dentro da casa.

O Ruan tem sangue frio demais! Se fosse eu teria desesperado e

acelerado antes da hora. Os polícia vão ficar na cola dele mas a mercadoria

ta toda aqui. Não vai dar em nada.

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Os caras estavam esperando. Tinha umas garotas na casa, uma

melhor que a outra. O Ruan não quis ficar com nenhuma...ficou falando o

tempo todo de negócios, desconversando. Acho que é por causa do namoro

dele.’

- Bom...a divisão fica assim então. Até acabar essa carga a parcela

maior será do Giancarlo. Vocês podem passar pra mim, a minha parte eu

divido com vocês e fica separada a parte do Alberto. Mas eu não vou

envolver em nada não. Hoje aquele carro foi a deixa, esses caras vão ficar

na minha cola.

- Tudo bem. Aqui a gente administra, você só tem que tomar

cuidado com a grana e as correntes que estão contigo.

- Já dei um jeito de tirar lá de casa também.

- Aí Ruan, não interessou em nenhuma amiga?

- Eu estou namorando. Não estou afim de vacilar não. E só estou

nesse negócio porque o Giancarlo deixou isso pra mim, senão eu nem

entrava não. Ele saiu fora e nem perguntou se eu queria, foi logo deixando

a carga.

- Tudo bem então. Não precisa ficar nervoso. A gente entende.

- Pois é...

O tempo passou e a tarde caiu.

Ruan estava a caminho do colégio e encontrou com o Gú.

- E então Ruan, tomou o remédio que o pessoal te receitou?

- Vocês são uns safados...isso não é brincadeira.

- Nós somos amigos, isso foi só uma pegadinha...

- Ta.

- E então...você tomou?

- É claro que não. Só peguei ontem pra ver o que vocês iriam falar

hoje. Eu sabia que tinha coisa aí...

- E o que você fez?

- Esqueci o frasco lá na pracinha.

- Que cabeça heim...e que sorte!

- Por que?

- Bom, já que você não caiu, eu vou te contar...foi idéia do Thiago

fazer essa pegadinha com você. Aquilo era um purgante fortíssimo!

- Vocês não prestam mesmo! E se eu tivesse tomado?

- É...

‘Resolvi deixar que ele pensasse que eu não tomei o remédio, até que

eu termine de maquinar a minha vingança. Essa será uma pegadinha de

verdade!

Chegamos no colégio na hora do sinal e entramos pra sala...’

‘Fico sempre vigiando o Ruan quando ele desce, da minha sala de

aula. Eu sinto algo por ele, mas não é amor. Não sei procura-lo e ele se

queixava tanto disso comigo. Se eu me dedicar a ele, assim como já fiz

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antes quando namorava o Adilsom e quando namorava o Vanderlei, talvez

eu sofra do mesmo jeito e cometa uma loucura.

Não mereço uma pessoa como o Ruan, por tudo de errado que eu já

fiz em minha vida, nesses anos que se passaram.

Às vezes quando estou no meu trabalho me dá um fogo, uma vontade

de ficar com ele na mesma hora, fazermos amor ou simplesmente ficarmos

nos beijando por horas e horas. Não consigo sentir o mesmo quando estou

perto dele, e isso o magoa.

O que sinto é uma carência de um sentimento que jamais me foi

oferecido.

Estou tentando mudar, me tornar uma mulher direita, mas não estou

conseguindo. Cada dia que passa se torna mais poluído pra mim.

Tudo que eu quero é ser feliz daqui pra frente, mas meu corpo é

como uma bomba relógio prestes a explodir a qualquer momento e cometer

algum deslize.

- Já foi lá falar um oi pro Ruan Mary?

- Ainda não, mas eu vou Jaque...

- Vê se não dá bobeira dessa vez heim.

- Pode deixar. E por falar nisso...olha só a poesia que ele escreveu

pra mim.

- Deixa eu ver.

- Assim...o Ruan sempre escreve alguma coisa pra mim, pra ler

antes de dormir, e me entrega quando eu vou embora.

- Nossa! Que paixão!

- Pois é. Ele é muito romântico pra essas coisas.

- É, mas e na hora do...

- Pára Jaque. Que fogo é esse?

- Vai falar que não rola...

- Nós estamos voltando...não deu tempo ainda. Amanhã à noite eu

vou na casa dele conhecer os pais dele e, a gente pode depois, ir a algum

lugar.

- Sei...

- Ái Jaque...a família dele vai estar lá.

- Tenho certeza de que ele vai tentar.

- Não permito...

- Rá, rá, rá...você Mary, conta outra.

- Rá, rá, rá...pára de falar besteira não é dona Jaque?

- Rá, rá...você vai ver.

O tempo passa, e o sentimento dos dois jovens dá sinais de que irá se

fortalecer, contrariando opiniões que desacreditavam esse namoro entre

uma garota que já ‘aprontou um ó’ na sua vida e um rapaz que embora

sofra influências erradas, possui apenas a rebeldia de achar que a vida é

sempre um jogo.

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No sábado aconteceu que foram pra casa do Ruan, pra que ela fosse

apresentada aos pais dele. Jaqueline, irmã mais nova dele ficou pescando

vários beijos roubados pelo seu irmão enquanto sua mãe distraía-se.

Depois de jantarem, foram lá pra fora namorar no beco onde as

roupas secavam no varal.

- Você não tem juízo mesmo Ruan, e se a sua mãe vier aqui.

- Não vem, relaxa.

- Mas não é certo a gente ficar aqui.

- Só estamos namorando...o que tem demais?

- Pára...vai aparecer alguém e pensar coisa errada de nós...

‘Nossos corpos molhados, se envolvem em prazer. Não há nada igual

a querer, não há nada! Lá no céu...lua crescente, despeja o seu brilho – ái

de nós! Somos nós, nos amando, nos gostando, e nos admirando.’

Sei, mas conta aí Ruan, me conta o que aconteceu depois que fiquei

curioso.

‘Nossas línguas se enroscaram e nossos braços se enlaçam, no vão do

corredor estreito. Ela levantou minha blusa meio sem jeito e pude sentir a

mão dela deslizar em minhas costas. Ficamos assim muito tempo...

Fui levar a Mary em casa, um pouco pensativo sobre umas coisas.

Descrente pelo fato dela não ter se sentido à vontade pra me namorar, eu

percebi isso. Comecei a me perguntar em pensamentos sobre minha idade,

pelo meu corpo. Pensei que talvez se eu fosse uma pessoa mais madura, ela

se sentisse melhor. Isso eu perguntei à ela e me garantiu que não, que não

se arrepende do que fez, me escolhendo pra namorar. Eu não me senti

confiante.

Depois fui embora pra casa, ainda sentindo o efeito do corpo

dela...adormeço.’

É Ruan, mas toma cuidado. Não vai se entregando assim tão fácil

não. Da outra vez deu no que deu.

- Eu sei Vitor, mas pra ser sincero, eu vou dar só uma chance à ela.

Se ela vacilar uma única vez comigo eu termino com ela.

Certo, mas aqui, você tem que tomar cuidado mesmo. Olha só, vou

pedir a saideira pra gente ir dormir...

- Pode deixar que eu acerto a conta.

Não quê isso, vamos rachar.

- Não, é sério, deixa que eu pago.

Tudo bem então.

Eu evitava perguntar pro Ruan sobre o que ele estava fazendo. Era só

o que ele contava mesmo e só. Eu não queria de forma alguma tomar

partido nisso tudo.

Depois nós fomos embora e no caminho eu tive a sensação de estar

sendo seguido por um carro preto. O carro passou por mim umas três vezes.

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Não sei, pode nem ser o mesmo carro também. Pode ser só

impressão minha, afinal eu tomei umas hoje...

Capítulo 5

O amor não pode ser explicado. O que une esse jovem à Mary é um

sentimento forte e protetor, não é amor, isso dá pra perceber. É mais um

sentimento fraterno, porém forte! O Ruan tem ciúmes dela e não esconde

esse sentimento. A Mary por outro lado não o ama, mas está tentando

reeducar o seu coração e o seu espírito.

O namoro deles, que parecia estável, foi abalado certo tempo depois.

Isso foi no dia cinco de Março. Um conhecido de Ruan viu a Mary

conversando com Vavá, na porta da casa dela. Esse já foi namorado dela e

mora na mesma rua.

Permaneceram brigados por um tempo e depois acabaram voltando,

após uma conversa.

Tudo que se passa conosco quando estamos carentes de uma carícia,

não precisa ser explicado e compreendido, mas superado.

Não posso dizer que o namoro desses dois já passou da conta em

enganação porque não tenho certeza disso. Mary é vista pela maioria dos

homens como uma mulher fácil, ideal para as horas de solidão. São muitos

os pretendentes que a provocam com propostas de uma noite. Quem pode

garantir que ela recusa?

Tantas vezes já me perdi em pensamentos procurando uma solução

fácil para os muitos dilemas da vida. O amor é a maior prova de resistência

a que os homens se submetem ao longo da vida, sofrimento existe à

vontade. Ninguém paga pra sofrer, sofrimento é de graça!

Nesse instante, eu escrevia uma poesia e acabei me perdendo. Olhos

humanos desvendaram uma tempestade forte que se aproximou da cidade

mineira. As roupas se agitando nos varais das casas enquanto o vento sopra

fortemente, levantando a poeira das ruas.

Relâmpagos que varrem risos racham no cerrado o solo seco,

apedrejado pelos raios de sol, as nuvens cinzentas se fecham e a tempestade

desaba sobre a cidade ao som de um pagode que toca no bar do Ércio.

Ruan ligou pra casa da Mary pra desmarcar seu encontro com ela,

por causa da chuva. Nunca haviam saído pra namorar em um local

diferente, que não fosse aquela praça e, o jovem essa noite a levaria ao

Descontrassamba.

Ruan insistia com a idéia de que não era amado, e Mary...como se

nem pensasse pra dizer, tentava mudar essa cisma.

Deixo claro que não posso dizer nada sobre essa moça, ou melhor,

sobre essa mulher, em relação à fidelidade, mas acredito que a sua postura

denuncia que seu coração ainda bate, mesmo que de leve, por algum ex

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namorado ou ficante, talvez até mesmo o tal Vanderlei, que foi o seu

primeiro namorado.

As águas rolam como a saudade que desfia a alma. Enquanto as

horas do fim de tarde vão adormecendo, e eu tomando um Martini, Ruan

escreve alguns versos para o seu amor, uma namorada que não demonstra

de todo amá-lo, de maneira sincera...alma aventureira que já tentou suicídio

outrora.

Não posso dizer que essa Mary é fiel ao Ruan, mas vi outro dia a

caminho de sua casa ela conversando com um outro rapaz, aparentando ter

uns vinte e cinco anos.

Sete horas após a tempestade, as árvores soluçam e as gotas de água

mergulham das copas. Num galho canta o bem-te-vi.

Nove horas da manhã e o dia está nublado...

- Se não chover hoje, a gente pode se ver?

- Claro tchu-tchuco! Ah, e adorei o passeio ontem, e adorei o anel

que você me deu. Muito lindo mesmo!

- Quê isso, foi só um presente...

- Mas deve ter sido muito caro...

- Não esquenta, eu já estava juntando mesmo o dinheiro rpa te

comprar um presente.

O ar da cidade umedecido chama pra orgia o vírus da gripe, e o

bacanal acontece...

- Sua voz está diferente.

- É que eu estou um pouco gripada.

E cái a noite na cidade bela, com uma nova tempestade forasteira que

demora a passar.

- Gú, é o Thiago. Cê não vai acreditar. Três caras estavam em um

carro preto e me pararam na rua. Eles queriam saber do Giancarlo. Me

fizeram um montão de perguntas...

- Você também? O Fred me ligou e falou a mesma coisa.

- Eu estou preocupado. Esses caras estavam armados.

- Será que o Ruan sabe de alguma coisa?

- Não sei. Eles estão procurando o Giancarlo. Deve ter alguma coisa

a ver com a morte do Augusto...

Capítulo 6

Belo Horizonte, vinte e oito de Março de 2002.

Rua Galba, bairro Álvaro Camargos.

É noite, Mary e Ruan namoram.

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O rapaz, repleto de preocupações não consegue se concentrar no

namoro. A rua é deserta e escura, o que mesmo favorecendo os instintos

não o comove.

A lua cheia lá no céu colore de luz o horizonte e despeja sobre Ruan

a vontade do amor, mas o nervosismo e a preocupação roubam-lhe a

condição.

Ruan não pára de pensar no tal carro preto, e teme que aconteça

alguma coisa.

Confuso, tenta esconder o fato mas cada vez mais se sente

comprimido...

- O que foi Ruan? Não consegue se concentrar?

- Como pode isso acontecer comigo?

- Calma Ruan, a gente namora outro dia, com calma...não precisa ter

pressa.

- Não era pra isso acontecer.

- Não se preocupa com isso não tchu-tchuco...a gente marca outro

dia.

- Não sei se estou num clima bom depois de hoje.

- Por que?

- Se acontecer de novo eu...

- Você está preocupado com alguma coisa que eu não saiba?

- Não, só estou um pouco cansado.

- Isso acontece.

- Não deveria ser assim, eu só tenho dezessete anos. Não estou na

idade de ter preocupações e de estar cansado...

- Mas é que...

Subitamente um veículo passa pelos dois em velocidade baixa. Ruan

gela por dentro e sente a morte dentro do carro. Seu coração dispara e suas

mãos suando frio seguram as mãos de Mary.

É um carro preto com os vidros escuros. Em seu interior há mistério

e maldade. Há a procura e ambição, misturada a um instinto de vingança.

- Mary, vamos embora que eu acho que esse carro vai voltar.

- Calma Ruan, devagar.

- Anda logo, vem!

Os dois correm pela rua em direção à rua de baixo que é mais

movimentada. Ruan está aflito, pensa que ambos irão morrer naquele lugar.

Chegando na rua param no primeiro bar que encontram. Ruan vê o

carro preto passar na rua e encara o carro sem piscar os olhos. Sua

respiração ofegante e os batimentos cardíacos acelerados.

Mary está atemorizada! Não entende a razão daquele carro estar

seguindo os dois. Seriam assaltantes, talvez não – ela pensa – afinal não

tem nada de valor.

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Ruan vê o carro dobrar a esquina e aguarda um tempo no interior do

bar, depois eles saem e param um táxi. Ruan leva Mary até sua casa e

depois vai embora no mesmo táxi.

Um milhão de pensamentos o atormentam...chegando em casa, ao

abrir uma lata de cerveja o telefone toca...

- Alô!

- Você sabe o que procuramos. Diga onde ele está...

- Quem está falando? Eu não sei de nada...

- Não dificulte as coisas, ou nós também iremos mostrar do que

somos capazes. Você sabe onde está o ladrão.

- Eu não sei...ele foi embora, ninguém da escola tem contato com

ele, por favor me deixa em paz...

Nisso a pessoa misteriosa desliga o telefone, deixando Ruan

aterrorizado. O desespero toma conta do jovem e ele se sente indefeso.

Vai até o quarto e começa a chorar incessantemente. Tem medo do

que aqueles homens possam fazer. Eles estão atrás do Giancarlo, e parecem

dispostos a fazer qualquer coisa para encontra-lo.

Novamente o telefone toca e Ruan corre pra atender.

- Oi tchutchuco! Fiquei preocupada, com medo que tivesse

acontecido alguma coisa com você.

- Eu estou bem, mas estou com medo dessa situação toda. Esse carro

deve ter seguido a gente por causa do Giancarlo e do Augusto.

- Mas você está bem?

- Estou sim! O táxi me trouxe rápido! Eu vim olhando pelo caminho

e não vi nem rastro do carro preto.

- Que bom amor, eu estava muito preocupada com você. Você não

imagina o quanto eu te amo, o quanto eu te quero...

***

Logo pela manhã Ruan foi até a casa de Mary, estava com um

revolver escondido debaixo da blusa. Tinha medo da situação mas era

valente demais pra ficar acovardado feito uma presa. Estava disposto a

revidar.

- Bom dia amor! Que surpresa!

- Mary eu vim aqui pra te ver e te trazer o seu presente de páscoa.

- Obrigado amor, eu...

- Olha Mary, eu estou muito preocupado com você e por isso tomei

uma decisão.

- O que foi amor?

- Como amanhã você vai à igreja e nós não vamos nos encontrar, e

sábado é véspera de páscoa...quero que você nesses dias procure não pensar

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em mim. Tente se esquecer de mim e começar uma vida nova, sei lá,

conhecer outra pessoa que não seja tão ruim quanto eu.

- Não. Não é isso que eu quero.

- Mas como a gente pode ficar junto? Eu estou com medo e

preocupado com você. Lembra de ontem, eu achei que nós dois iríamos

morrer.

- Você fez alguma coisa de errado Ruan?

- Não, mas não quero te trazer problemas.

- Calma Ruan. Quando você chegar em casa relaxa, dorme um

pouco...você está dizendo isso da boca pra fora.

- É minha decisão, e nada me faz voltar atrás. Auto- estima,

preocupação, tristeza...é como grão de areia que cai das mãos.

Já na rua do cais antigo, ele vai embora pelo caminho de sua casa.

Totalmente cabisbaixo o jovem se sente atormentado por tudo de

ruim que está acontecendo. Em alguns momentos sonha encontrar com o

carro preto na esquina e atirar contra ele até descarregar o revolver, em

outros fica com medo de estar sendo seguido pelo carro e olha pra traz.

Algum tempo depois de chegar em casa, Mary liga pra agradecer o

presente e os dois conversam.

- Queria te agradecer pelo colar amor. É muito bonito, mas deve ter

sido caro...

- Não esquenta. Eu tinha juntado dinheiro pra te comprar, e não foi

tão caro assim não.

- Oh, tchutchuco, brigadinha...mas é que eu não pude comprar nada

pra você.

- Preocupa não.

- Você como está?

- Normal e você?

- Agora estou um pouquinho melhor!

- Por estar falando comigo?

- É sim!

- Ta bom...

- Tem certeza disso que está fazendo?

- O quê?

- Terminar assim, por um motivo tão bobo.

- O quê eu posso fazer?

- Te dou um tempo pra pensar.

- Minha auto-estima está baixa, e isso é como pássaro que voa da

gaiola: não volta mais.

- O que eu vou fazer da vida Ruan? Você é a única razão da minha

felicidade!

- Não sou a pessoa certa pra você.

- É claro que é. Por favor, não faz isso não. Pensa direitinho.

85


- Tchau.

- Promete que você vai pensar?

- Não.

- Lembre-se que eu quero ficar com você. Se não for você não serve

outro.

Os dois desligam. Seus pensamentos o despedaçam e gemem de dor

pela sala, deixando rastro.

A lua no céu, no meio-dia esmaga com sua brancura o coração que

faz então todo o corpo turvar-se arrepiado.

A alma do Ruan lamenta inconsolada e, rente á brisa uma lágrima

gelada rola dos olhos castanhos, paraíso do licoreiro.

A brisa consome num segundo à lágrima e reflete a tristeza do jovem

na copa das árvores que se agitam.

Tanta tristeza aflora no íntimo dos pensamentos que desabam a

chorar pelo terreiro.

Cai a noite e as estrelas no céu são como olhos que enxergam a

tristeza que se espalha pelo ar da noite nesse bairro belorizontino.

Uma alabarda rasga os sonhos do Ruan deixando uma jaça na íris dos

seus olhos. É como se cantasse o jaó enquanto cada um de seus

pensamentos ajoelha-se e chora em cada canto da casa.

Sua majestade, a esperança, faz varrer o mel da flor...em nosso suor

espelha-se!

Vai Ruan...reencontre o prazer pela vida. Quando alguma coisa dá

errado, nossa vitória é bem maior após a falha superada!

- Não posso Vitor. Bem que eu queria fazer as coisas ficarem mais

fáceis mas não posso.

Medo, cada um de nós em algum dado momento da vida sentimos.

Porém quando fraquejamos perante ele tudo fica mais difícil. O verdadeiro

ganhador, não é aquele que sempre se encoraja diante de tudo, e sim aquele

que sentiu medo, e na sua fraqueza superou o medo.

- É tudo tão difícil. Você fala como se fosse tão fácil, queria ver se

isso tudo estivesse acontecendo com você. Se você teria a mesma

facilidade pra se encorajar. Às vezes sinto que você não se preocupa nem

consigo mesmo, que não tem coração, que é apenas um observador, uma

figura num cenário. Eu estou falando do medo no meu coração, pelas

pessoas que eu amo e pela garota que eu estou gostando...

Gostando? Não ama?

- Não adianta, você nunca vai entender...

Capítulo 7

86


Em sua casa Ruan aprecia a noite e tenta inutilmente se desfazer das

tristezas amargas de sua vida. Qual seria o remédio pra acabar com a

solidão que o aflige?

Uma falta de esperança imensa se aloja nos seus olhos castanhos.

Ruan tenta se esquecer dos problemas bebendo cerveja e vinho num total

descontrole.

É tarde...sua mãe e suas irmãs voltam da casa da Marcília, parente

próxima, tão próxima que mora no mesmo bairro.

Foram visita-la e ao voltar, desculpa citar que foram fofocar sobre a

vida alheia...não perceberam a embriagues de Ruan que já estava no quarto

após chegarem.

Às vezes um problema causa uma emoção contrária àquela esperada.

Foi o que aconteceu com Ruan.

Enquanto que outro jovem pudesse talvez não temer tanto essa

situação toda, esse rapaz se viu invadido por um sentimento de culpa, que

não era seu, muito menos de sua namorada. Nesses momentos é que nós

conseguimos enxergar verdadeiramente o que se passa no íntimo das

pessoas. Ruan acredita que pra sua namorada é como se fosse um troféu a

segurança que ele poderia oferecer, seria sua virilidade infalível. E como

Ruan não pode proporcionar tudo, ele pensa que não tem mais tanta

importância pra ela como namorado.

E o Ruan se culpa a todo instante até seu prazer pela vida acabar,

consumido pela tortura.

***

“Entendo bem dessas coisas! Acho que: se a minha irmã fosse mais

apaixonada pelo Ruan, e demonstrasse isso...ele ficaria mais próximo dela,

tanto que nem uma tempestade o faria recuar no relacionamento.

O problema é a minha irmã. Entendo o Ruan, não é fácil se sentir

seguro com uma pessoa como ela. Se eu fosse homem acho que aconteceria

comigo também. Talvez se ela demonstrasse gostar dele, do jeito que todo

homem espera, esse amor dos dois iria além, muito além.

O problema é que ela aprendeu a amar de uma forma muito errada.

Na verdade acho que o Ruan é o primeiro garoto da idade dela que teve

alguma intimidade com ela.

Ela me conta tudo, ela já falou até que intimamente sempre preferiu

o Wanderley do que qualquer namorado que já teve. Ela me conta tudo e

isso é um problema, porque ela gosta do Ruan com uma afeição

especial...mas só afeição não basta, isso a gente sente por um amigo ou

parente. Um rapaz tão legal como o Ruan merecia mais dedicação. Ela não

vai encontrar uma pessoa como ele se o perder de vez...mas ainda há uma

chance para os dois, a saudade ainda vai falar mais alto.”

87


“Às vezes me dá vontade de trancar a porta do meu quarto e não

abrir nunca mais. A gente só se arrepende de uma coisa depois que

acontece. Me sinto culpada por tudo que acontece de ruim ao meu redor.

Toda a minha vida está pesando em minhas costas, meus olhos estão

carregados de nuvens cinzentas, prestes a chuviscarem lágrimas de tirsteza.

Olho no espelho e vejo minha faze desfigurada. Tento esconder meu

desconsolo debaixo da maquiagem colorida pra enganar a quem convive

comigo.

Sinto como se uma agulha fincasse meu coração a cada batida, e que

cada minuto forasteiro rouba um pedaço de vida dos meus lábios.”

***

É, a vida é difícil! Se o Ruan tivesse mais prudência pra conviver

com os instintos, não sofreria. Como pode haver uma pessoa tão insensível

como essa? Não há como um homem se motivar com quem não demonstra

vontade, interesse...paixão! Ruan acha que o problema é ele por causa dos

últimos acontecimentos, e isso eu sei que dificilmente será contornado.

Acho que vou visita-lo e tentar dar um ânimo, uma palavra amiga.

O Ruan não pode ir se apaixonando pela primeira pessoa que aparece

em sua frente, mas acontece que meu amigo é uma pessoa muito solitária.

Entre o Giancarlo, Augusto e Ruan, era o mais amante, o mais sentimental,

e talvez o único que tivesse solução. Augusto morreu, o Giancarlo sumiu e

o Ruan está indeciso. Ruan valoriza demais o amor, talvez seja essa a única

salvação!

Ele já foi rei da noite...nós brincávamos com as madrugadas, outrora.

Depois de um tempo ele parou de sair, ficou mais caseiro. Isso foi depois

de se envolver com Giancarlo e Augusto. Eu não sei o que aconteceu

porque isso ele nunca me contou, só sei que foi alguma coisa muito grave!

Ele – apaixonado – está passando por uma fase muito maldosa da

vida! Não tem auto-estima e está preocupado, mas isso você já sabe...o que

não sabe, e que deve ficar somente entre nós, por tudo que há de mais

sagrado, é que no outro dia quando ele me contou que havia ficado nervoso

na hora de namorarem...bem, isso já aconteceu comigo também...

Eu me lembro bem, foi na primeira vez que eu fiquei com uma

garota. Eu era muito inexperiente, e ela bem mais velha que eu. O

nervosismo tomou conta de mim e o meu corpo inteiro ficou gelado. Eu

não conseguia me concentrar em toca-la, em aproveitar momentos bons

com ela. Porém ela era uma pessoa mais vivida, e soube me deixar mais à

vontade...percebendo meu nervosismo, soube usar da sua experiência.

A vida é o palco das atitudes! Somos sempre tão preocupados com

tudo e nos esquecemos das coisas mais simples, a ponto de não

percebermos o ar que a todo instante entra em nossas narinas.

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A brisa passa, nos refrescando o suor no rosto e nós não damos o

devido valor a um bem tão valioso que é a brisa, a simples brisa, porém

valiosa pois nos faz bem. O ar nos dá a vida. E nós nunca damos valor a

nada.

Não é fácil viver. A juventude é tímida e nervosa, impulsiva!

No caso do Ruan falta mesmo é experiência.

A Mary não demonstra tanto desejo e solidez no relacionamento, e

isso ele guarda consigo, e se culpa por não ser humanamente atraente para

ela. Se não sentisse nada por ela seria fácil deixar o relacionamento correr,

mesmo que para o suicídio e término. Mas o que ele está sentindo agora é

amor, pelo menos é o que fala e demonstra. E olha que quando voltaram ele

estava mais frio com ela, mas com o tempo foi amolecendo de novo. É

puro, ardente, verdadeiro, prazeroso a quem se destina, é amor que até

acaba, sob o céu da lua cheia, mas ambos sentirão se acabar. Igual não se

vê nessa escola.

Até invejo meu amigo por ele pensar dessa maneira tão romântica e

apaixonada. Não sou melhor poeta do que ele é amante. Escrevo versos que

vêm da inspiração e ele, rabisca ações singelas no livro da vida, e usa

sangue do seu próprio coração para manchar essas páginas.

Uma luz desaba sobre as brechas da cidade escurecida no dia da

páscoa. São os primeiros raios de sol que anunciam a aurora. Uma mecha

de esperança do tamanho de um átomo mancha a íris límpida de uma

pessoa que andou sofrendo.

Ruan acordou e após tomar café escreveu uma poesia pra Mary. Um

bem-te-vi anotou cada verso em sua memória e depois veio me contar,

porém Ruan acabou me ligando e pedindo pra eu ver se ficou bom. Ele

escreveu assim:

“ Meu coração que num dilúvio andou morrendo

Ao ver dos olhos muitas lágrimas rolando

Ao ver da carne minha vida se afastando

Decidiu lutar pra não me ver morrer

Felicidade, o bem que estava me faltando

Onde tristeza, só tristeza fui vivendo

Me fez querer, voltar...pros seus braços correndo

Pois só você me dá vontade de viver

Então meus olhos chuviscaram de saudade

Recordando o seu amor que descobri

No íntimo da sentimentalidade

E só você que faz meu coração sorrir

Só você me dá vontade de existir

Eu vou amar você por toda a eternidade”

89


Na verdade eu acabei dando a ele a idéia de trocar o verso anterior

que era “No íntimo da sinceridade” pelo verso atual. Ele até gostou da idéia

e ficou por isso mesmo.

Ele me contou sobre muitas coisas que estavam acontecendo e eu

procurei dar os melhores conselhos. Até chamei ele pra tomar uma cerveja

mas ele disse que não ia sair de casa por causa do carro preto. Ele está

realmente preocupado!

Capítulo 8

Belo Horizonte, num Primeiro de Abril de dois mil e dois.

Lá na Escola Padre Matias, o amor é eterno?

Eram dezoito horas e treze minutos.

Como se fosse planejado, Ruan encontra Mary logo após sair do

banheiro masculino...

- Posso falar com você um minutinho?

- Pode sim.

- Lá do outro lado, no banco perto das árvores.

- Tudo bem!

- E então...como é que você está?

- Assim...levando a vida. O que a gente pode fazer né?

- Não sei.

- E você como está?

- Péssimo! E um pouquinho mais!

- Você pensou direitinho?

- De que adianta pensar? E se tentássemos de novo e...

Ela não deixou ele terminar e o beijou. Eu até fiquei surpreso quando

ele contou. Talvez tenha sido a primeira e única iniciativa dela nesse

relacionamento...

- Pára de pensar em coisas ruins. Não vai acontecer nada.

- Mas o que vai ser da gente se acontecer alguma coisa? Um alguém

que uma vez...

- Nem precisa continuar. Olha, eu compreendo você, e acho que

tudo foi apenas um mal-entendido. Olha, eu prometo me dedicar mais a

você e tentar demonstrar o que eu sinto por você.

- O que você sente por mim.

- Muitas coisas.

- Raiva, rancor, pena e ódio são muitas coisas.

- Mas não são essas coisas ruins que eu sinto não.

- Cuidado! Hoje é dia da mentira.

- Eu sei...mas o que eu estou falando é verdade.

- Você está namorando outra pessoa?

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- Não. Se eu estivesse não teria te beijado, e se eu gosto de você,

como eu ia namorar outro cara?

- Talvez você gostasse mais se fosse um outro, mais velho e...

- De novo essa história? Eu já disse que eu não quero ficar com uma

pessoa mais velha, só com você.

- Não recuperei minha auto-estima.

- Vamos tentar juntos.

- Melhor sermos apenas amigos não? Não quero te decepcionar nem

me decepcionar de novo.

- Mesmo sabendo que eu gosto de você?!

- Sim...porque eu também gosto de você!

- Mas então...

- Sendo seu amigo não vou sofrer tanto quando você se apaixonar

por outro.

- Não vou.

- Um alguém de quem você goste e desperte seus desejos, o que eu

tento inutilmente...

- Você que pensa.

- Você nunca demonstra nada.

- É o meu jeito de ser. Eu sou um pouco tonta mesmo.

- Não precisa se culpar por nada. Se você não me ama do jeito que

eu espero, talvez a culpa seja mesmo minha.

- Mas eu sinto!

- Tudo bem, pode dizer. Afinal hoje é o dia da mentira.

- Amanhã eu vou repetir a mesma coisa, até você acreditar.

Então uma voz patética vinda lá do corredor do segundo andar

assassina o diálogo:

- Eh, Mary...mal terminou comigo e já está com outro né?

- Deixa de ser chato sô!

- Quem é ele?

- Só um amigo meu, lá do meu bairro.

- Vou descobrir.

- Calma Ruan, volta aqui!

Como animal enfurecido Ruan subiu a escada e deparou com o

rapaz...

- Ei você aí...você tem alguma coisa com a Mary?

- Não. Nós somos apenas amigos e...

Era tarde, agora já tinha sido. Ruan acertou um soco no rapaz, nem

deu pra eu ver daqui da sala...acho que a Mary também não viu, mas

espere, o quê...só um instante, o Ruan está armado e mostrou a arma pro

rapaz.

Ruan, pára com isso, guarda esse revolver!

- Vitor, me deixa. Esse cara falou merda e eu to resolvendo.

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Pode parar com isso, anda logo ou eu mesmo tomo isso de você.

Imagina se a Mary ver isso, ela termina com você na hora. É isso que você

quer?

- Não anda fazendo muita diferença mesmo.

A supervisora ta subindo a escada, guarda logo. Aqui ô moleque, é o

seguinte. Você não viu nada entendeu?

- Tudo bem, pode deixar que eu não falo nada.

Some daqui.

- É o seguinte, eu acabo de terminar com a Mary, e isso é ruim

porque eu gosto dela.

- Não cara. Não faz isso não. Eu conheço a Mary, ela é uma pessoa

boa. Se acalma e conversa com ela depois...e eu só estava brincando,

desculpa mesmo...

-Não enche.

Aqui, vai embora logo senão eu mesmo tiro esse revolver de novo.

O rapaz foi correndo pelo corredor e eu peguei a mochila do Ruan.

Eu não imaginava que essa história iria tão longe! Ele está transtornado

com essa história do carro preto misterioso. Agora deu pra andar armado.

Pior é que agora não dá pra arriscar sair da escola com isso senão

aquele moleque vai abrir o bico. E eu não vou deixar isso na mão do Ruan

de jeito nenhum, melhor eu guardar e convencer ele a se livrar dessa coisa.

Mas então o animal enfurecido caminha pelo corredor em direção ao

banheiro para lavar as mãos. Tornando cinzento o clima da escola, que

parece sofrer com cada briga desse casal.

- Licença!

- E aí Ruan...já deu um amasso já no primeiro horário heim? – disse

o Gú.

Ruan ficou calado, frio, mantendo no rosto um semblante de ódio e

confusão, contagiando o nosso colega de classe e o fazendo perder a graça

da brincadeira.

No mesmo instante, quase no mesmo lugar do planeta, na sala da

Mary:

- Que cara é essa Mary? – disse a Jaque.

- É que o Ruan ficou com raiva de mim por ciúmes.

- Mas vocês não haviam terminado?

- Sim, mas ele estava prestes a pedir pra voltar.

- Ah, parte pra outra sô. – disse a Fernanda.

- Não dá.

- Ei, que telefone é esse?

- Ah, é de um ex caso meu.

- Ta saindo com ele? – disse a Tati.

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- Não. Esse telefone já está aí a muito tempo, é que essa folha é do

meu fichário do ano passado. Coloquei aqui por causa do desenho desse

coração.

- Rá, fala sério Mary...se eu não te conhecesse.

- Estou falando sério Tati.

- Se eu fosse você desmanchava então, se não quer que o Ruan veja.

- Não, ele nunca mexe no meu fichário.

- Nossa, eu achei lindo o colar que ele te deu!

- Bonito né? Ele não quis me falar o valor mas eu sei que foi caro!

- Olha essa conversa aí no canto...está atrapalhando a minha aula.

- Tudo bem prof...já paramos ó...Ri, ri, ri...

- Ri, ri, ri...

Então Mary se esquece de rabiscar o telefone escrito a lápis na folha

do fichário. E isso infelizmente revela que ela não é mesmo o que se

esperava em relação a mudanças.

Quando a aula termina, Mary espera por Ruan. Então – com ele mais

calmo – sobem conversando como se fossem amigos e ao chegarem na rua

do cais antigo, ela vai embora.

Eu subi com o revolver do Ruan. Não queria deixar a arma nas mãos

dele. Mas também não quero me envolver nas coisas erradas que ele faz.

Depois vou ligar pra ele e resolver isso. Imagina se eu tomo uma geral aqui

na rua...

Se bem que com uma arma a gente fica mais homem, sei lá...também

não estou gostando dessa história do carro preto, mas se ele aparece na

minha frente numa hora dessas – vixi – eu simplesmente abria fogo.

Droga! É melhor eu esquecer essa história. Daqui a pouco vou

acabar me envolvendo.

***

“A caminho de casa, na rua do Cais Antigo, me encontrei com o

Wanderley. Subimos conversando até certo ponto e ele me contando sobre

sua vida...que estava desempregado, tinha engravidado a mulher com quem

estava se relacionando...

Wanderley é um canalha! Seria o homem ideal para qualquer mulher

se tivesse o coração, os ideais do Ruan. Ainda gosto, mesmo que só um

pouquinho, lá no fundinho dele...e não consigo mudar isso. E só por essa

razão que dei atenção a tudo que ele me falava.

Já era tarde, então por medo de estar na rua, acabei subindo com ele

até o portão da minha casa mas não abri, com medo dos meus pais o virem.

Eu sentia desejo de estar nos braços dele, mas eu não cedi ao pedido

que me fez. Pela primeira vez desde que eu conheci o Ruan eu não cedi ao

desejo do meu corpo e dei mais valor a minha existência como mulher.

93


Meu Deus! O Ruan me transformou numa mulher de verdade. Estou

frente a frente com o Wanderley e meu corpo pedindo o pecado, mas meu

coração e os resquícios de integridade que restaram em mim selaram o meu

corpo.

Que sentimento tão bom que eu estou sentindo! Uma coisa como que

uma vitória. Pela primeira vez em minha vida eu me sinto uma mulher

honrada, embora pelos erros que eu já cometi anteriormente digam de mim

a qualquer lugar onde eu vá. Que paz! Que sentimento de vitória!

Despedi do Wanderley deixando em seu olhar um ar de derrota, de

incapacidade de usar meu corpo para aliviar os seus próprios problemas.

Ao fechar o portão olhei para o céu, fiquei observando as estrelas,

olhei para o meu corpo, por alguns momentos passei as mãos em meu busto

e senti a brisa da noite refrescando o ar.

Logo termina o calor dos primeiros meses, logo virá a estação do

frio. Meu coração somente deseja que eu esteja bem, que minha vida siga o

rumo certo...que eu seja feliz!

***

“A vida está sempre nos colocando à prova de resistência. O quê é

que eu vou fazer? Ou fico cismado com a Maria, ou fico triste longe dela.

Essa conversa que tivemos depois que a aula terminou, me deixou

confiante! Senti um acréscimo pela auto-estima e uma valorização do meu

interior. Minha esperança explodiu de repente e tomou a íris dos meus

olhos.

Vou esperar o momento certo pra pedir outra chance. Até sexta-feira

vou dificultar as coisas, depois vou ver como fica.

Fico feliz por saber que ela não deixou de gostar de mim por aquilo

que aconteceu semana passada! Agora tudo vai dar certo, tem que dar!

Nada vai me tirar de novo essa alegria pela vida, nada.”

Capítulo 9

No dia três de dezembro do ano passado, Ruan começou a namorar a

Mary, sem fazerem muita cerimônia...disse logo o que queria, mesmo que

desajeitado.

A princípio o modo recatado com que a jovem se apresenta cativou

intensamente os olhos dele, um jovem amigo que nasceu para amar.

Ele desde então vem acreditando que encontrou sua alma gêmea ou

melhor, sua cara-metade. Mas não...Mary é uma mulher passiva demais,

refém demais da vida e das pessoas. Não sabe se impor, dizer o que pensa

ou o que deseja, por medo e receio também, por timidez. Mesmo que as

coisas não sejam do seu agrado, permanece calada. É como se meu amigo

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namorasse uma boneca, uma estátua...até bonita por fora, mas vazia por

dentro.

Ruan desperta seu temperamento explosivo com relação à paixão.

Tenta ser para ela o homem mais sedutor e dedicado do mundo, por várias

vezes escreve poesias, até parou de me pedir pra fazer isso e agora escreve

as suas próprias. Abusa de carícias e palavras ardentes enquanto namoram

e o mais importante: deixa claro à ela que a ama mais que muitas coisas.

Muitas intrigas surgiram no decorrer dessa relação. Quando se

separaram, lá no dia dezessete de Janeiro, aposto que a Mary estava saindo

com um outro cara, quem sabe até alguém mais velho, que tinha até carro

ou moto. Não desacredito nisso não, não coloco também a mão no fogo por

ela, aliás por ninguém.

Passaram um mês sem se ver. Nesse espaço de tempo , poucos

sabem o quanto ele sofreu e eu sou um desses poucos.

Quando voltaram a namorar, a Mary insistiu com a história que

gostava dele. Só que ele acreditava nisso, mas é questionável, afinal ela

nem o procurou quando se separaram, e só voltaram a se ver por estudarem

aqui no Padre Matias.

Poucas coisas marcam tanto quanto um encontro amoroso,

principalmente se for criminoso e culpado quanto o que ele me contou,

quando foram namorar atrás da banca de jornais lá na pracinha do

Kooyman, o mesmo colégio em que nós estudamos quando éramos

crianças.

Disso o Ruan sentiu falta por várias vezes quando saiamos pra beber

e ele ficava contando. Aventura tem sabor de sorvete com vinho, ele dizia...

O coração mesmo agindo errado fala mais alto que a razão por

muitas vezes quando existe saudade. Está para nascer quem goste de

solidão.

***

“Morro de sono ao ficar debruçado na janela, vendo a noite, lá no

meu casebre pobre, minha maloca, que não é no campo nem no alto da

montanha ou da serra. Imaginando coisas, procurando no espaço uma

estrela que nunca vi brilhando, mas tenho vontade de avistar e possuir com

os olhos. É esse o vazio que tento preencher, que me falta, o meu

presente...de meu sonho de criança que a vida não deu. Meu sentimento é

como criança vendo o rio roubar para a distância um barco de papel.

Morro de sono mas tenho medo de cochilar, porque quando eu

acordar, posso viver novamente a angústia que mata de desgosto, lá no meu

casebre, e se chama solidão.

Eu tenho vontade de olhar um dia a vida, e enxergar um mundo bom,

sem guerras e sem fome...mas não quiseram os cardeais das horas que eu

95


visse, antes me deram para olhar a maldade, pra que respirasse sofrimento,

meu coração vermelho.

Tudo aquilo que tem um início, provoca desejo pela repetição, mas

quando falta alguma coisa, sobra fácil um sofrer.

Estou andando preocupado. Meus amigos estão correndo perigo por

causa do Giancarlo e do Augusto, e agora por minha causa. Estou

envolvido demais nisso tudo, guardando o dinheiro das drogas que o

pessoal vendeu, as armas e as jóias que eles roubaram.

Nem sei se ele vai aparecer de novo, se está morto.

Eu queria poder me livrar disso tudo. Talvez se ele ligasse, se viesse

buscar isso.

Eu estou muito confuso com tudo! Problemas de um lado, minha

vida amorosa de outro, o carro preto...”

***

Ruan andava iludido e derramando de paixão por Mary. Aguardava o

momento certo de voltar, e como cisne que canta, prestes a morrer, fazer

com que ela enxergasse sua beleza interior, não confiante em todo o resto, a

parte que se pode tocar e ver. Queria antes que ela o amasse por inteiro,

mas começa a se contentar com menos que isso.

Na quarta-feira, me contou que pediu à ela para escrever alguma

coisa na primeira folha de seu caderno, e no primeiro horário lhe entregou.

Quando a turma de Mary saiu, Ruan já aguardava a uns cinqüenta

minutos, porque sua turma foi liberada no quarto horário.

Como se estivesse fugindo, Mary saiu pelo outro portão e Ruan não

a viu. Algumas amigas dela que passaram por ele deram uns olhares de

lado sem que ele percebesse, como se soubessem de alguma coisa.

Cansado de esperar Ruan foi embora, e ao chegar em casa ligou pra

casa dela...

- Alô!

- Quem fala?

- Sou eu Ruan, quer falar com minha irmã?

- Quero sim...

- Olha, ela já está dormindo.

Ele desligou o telefone sem falar mais nada, foi na geladeira e não

tinha nenhuma bebida. Pelo menos cigarros ainda tinha. Foi lá para o

portão e ficou sentado fumando, deixou o revólver atrás do portão, sem

perceber que na esquina da casa o carro preto misterioso com as luzes

apagadas permaneceu.

De repente o carro liga e sai em disparada.

Ruan assustado tenta correr pra dentro mas suas pernas paralizadas

simplesmente esperam.

Pensou em pegar o revólver mas não deu tempo.

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Quando o carro parou o vidro se abriu. Era como se a morte estivesse

dentro do carro. Não dava pra ver nada além de vultos.

Uma voz, como que sinistra se revela:

- O Giancarlo está morto. Nós conseguimos achar onde ele estava

no interior e fomos até lá cobrar o que não era dele.

Ruan suspira ofegante, surpreso e com raiva, com mais medo que

raiva...

- Você está disposto a colocar a vida de todos em perigo? Nós não

nos preocupamos, pode ser do modo difícil, você é quem escolhe.

Difícil pensar. O momento exige muito de um simples garoto, mas

de repente algo foge ao controle...

- Você está disposto a colocar em risco até a sua namoradinha?

Aquela safadinha...

- Não fala assim da Mary, e eu não tenho nada que é seu.

- Mary, então esse é o nome dela. Deveria cuidar melhor da

namorada então, parece que um tal Wanderley está tentando tomar ela de

você.

- Do que você está falando...

- Que tal fazermos negócio? Você nos dá o que nós queremos e nós

dizemos o que sabemos.

- Não tem nada comigo. Não sei o que vocês estão querendo. Deixa

meus amigos em paz senão...

- Senão o quê rapaz, como é mesmo seu nome, ah, é Ruan...foi esse

o nome que o ladrãozinho disse antes de darmos o último tiro nele. Já

sabemos que você está com as jóias. Vamos fazer o seguinte, você escolhe

alguma pra você e nos dá o resto.

De repente um silêncio toma conta do lugar. Ruan pensa em

aproveitar e pegar o revólver mas não pode arriscar. Eles também estão

armados.

O vidro do carro começa a se fechar de novo...

- Você tem até o final de semana pra pensar rapaz, depois nós vamos

fazer do nosso jeito.

Quem seriam aqueles homens? Policiais? Talvez, mas se não

fossem...quem seriam?

Eles demonstram uma obsessão doentia por aquelas jóias. Se o Ruan

tivesse me contado isso no início eu já teria o convencido a entregar à

polícia, mas agora é tarde. Tudo já está envolvido demais.

Só que quando o carro vira a esquina, Ruan nem deu tanta

importância para o carro. Aqueles homens falaram de coisa, falaram no

Wanderley. Revelaram que o Wanderley esteve com Mary.

O mundo de Ruan desabou! Ficou um tempo parado ali, imóvel,

desligado da realidade...pensando.

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Depois que entrou dormiu completamente, como se estivesse

embriagado. O seu corpo foi desligado por causa do que os homens no

carro preto falaram.

Ruan tinha muitos problemas porém num acaso do destino todos os

problemas se juntaram em um só e foram ter com ele praticamente no

mesmo dia: primeiro uma tentativa de reconciliar com Mary, até deixou o

caderno com ela, mas no fim da aula ela foi embora pelo portão de trás da

escola; Ruan ligou na casa dela e um ar de mentira ficou no ar quando sua

irmã Tamires disse que a Mary já estava dormindo; então quando chega em

casa o carro preto misterioso aparece e Ruan não teve tempo nem de pegar

o revólver; por fim quando menos se espera, em vez dos homens

misteriosos chegarem aterrorizando, simplesmente dão golpe maior que um

tiro e revelam que a Mary estava com o Wanderley, ou que pelo menos foi

vista com ele.

A noite passa, e logo pela manhã Ruan liga de novo pra casa de

Mary.

- Alô?

- Quem fala?

- Sou eu tchu-tchuco.

- Por que fez isso?

- Isso o quê?

- Me deixou lá no colégio te esperando.

- Você ficou lá? Mas sua sala não saiu cedo?

- Como é que você sabe?

- É que eu saí pelo portão de baixo, rapidinho, com uma amiga e não

vi ninguém lá na sua sala quando a gente estava subindo a rua.

- Mentira! Você passou por lá pra me evitar.

- Não tchu-tchuco.

- Ta com meu caderno?

- Sim. Eu ia escrever nele agora, tinha até desenhado um coração.

- Precisa escrever nada não. To indo aí pegar de volta.

- Ruan, espera.

Então ele desliga o telefone e saiu na rua com sua bicicleta, cortando

a brisa da manhã e despejando sobre as casas.

Pelo asfalto deserto atingiu uma boa velocidade e em poucos

minutos já estava na rua da casa dela, lá na Limeira.

Mary lhe devolveu o caderno e ele não falou nada, apenas pegou o

caderno e foi embora com raiva.

Ruan acredita que Mary possa ter se encontrado com o Wanderley

ontem e que por esse motivo saiu pelo outro portão, talvez para depois

inventar algum tipo de desculpa que saiu mais cedo...bom, são muitas as

suposições que rondam a cabeça de Ruan.

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“Vitor, dá licença, deixa que eu conto essa parte...afinal eu tenho

acompanhado mais de perto o que aconteceu.

O Ruan tem dezessete anos, é um jovem em fase de crescimento.

Para muitos, a aparência física não conta muito. O desejo de uma mulher, o

fator coração...para ele não é uma simples bobagem...é honra!

Eu despejava o calor sobre a cidade, os meus braços eram como de

fogo! Eu era cheio de luz!

Nossas vidas poéticas são como o passar das estações, onde todo ano

eu morro e há tristeza e renovação da vida!

Todo homem é assim, uma página em branco que a cada fato inicia

uma poesia, porém morrem as rimas e os versos quando acaba o amor

iniciado. Viver e morrer, sempre porém renascendo para novas páginas,

novas poesias, novos amores.

Sabe, no início eu até me divertia...só de propósito fazia a lua

derramar sobre a cidade um brilho libidinoso, só por prazer tornava as

estrelas mais brilhantes e a brisa mais convidativa ao amor. Mas com o

passar do tempo até eu mesmo amadureci. Cresci com os acontecimentos e

agora me sinto mais velho, mais responsável.

Havia uma brisa corrente, o Ruan voltava pra casa. Acabou

encontrando um conhecido e se sentaram na mesa de um bar para

conversarem, lá na rua Gibraltar.

- Olha Ruan, acho melhor você sair dessa porque a Mary não presta.

Eu já vi ela conversando com esse cara que você falou aí também.

- Mas isso foi esses dias?

- Não, já tem mais tempo.

- É?

- É sim. Se eu fosse você deixava isso de lado. Você arruma coisa

melhor, você até é boa pinta, sabe conversar com mulher...e é quase bonito,

só é feio.

- Quê é? Ta me tirando?

- Rá, rá, rá! To falando sério. Vai por mim, esquece essa mulher

porque ela vai trair você.

Juntaram-se a essas palavras amargas, opiniões sobre Mary, de

alguns amigos desse rapaz, que conhecem a garota...mas a indecisão de

Ruan era notável. Tinha por ela um sentimento de carinho embora tudo

levasse a crer que não haveria um final feliz na história. Um tanto cego de

amor e torcendo por melhoras, tinha as artérias entupidas por um

sentimento arriscado que turvava seu sangue...paixão.

Sentia falta do calor do verão assim como eu, porém há o tempo de

nascer e o tempo de envelhecer. Eu estou velho e já não possuo o mesmo

calor.

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Narrando esses fatos, encerro por entregar os últimos momentos de

minha vida, e tal qual um barco ligeiro que some no horizonte, ao pôr-dosol

não serei mais visto.

Cada segundo de vida é precioso demais! É como líquido que poreja

da terra nas nascentes dos rios, mais que isso, é o sabor do alimento que

mata a fome, ou até mesmo o momento mais elevado do prazer.

A vida está aí, e cada um deve viver. O tempo é agora! Embora não

possamos saber quem somos e de onde viemos, talvez o que havia antes da

explosão que gerou o universo. Mesmo que existam outros universos com

os quais não possamos nos comunicar, devemos viver o que podemos e da

maneira que podemos. É aqui a vida! O momento é propício!

E apaixonado o jovem Ruan acordou naquele dia.

Tinha nos olhos um brilho irresistível que se assemelhava ao mel,

sob a luz do sol. Seu coração dizia para não acreditar naqueles homens

porque eram maus, eram coisa ruim.

Ligou pra casa da mulher que amava e pediu para conversar com ela

depois da aula, Mary chorou ao telefone e concordou. Ruan percebeu o

choro mas evitou falar a respeito, pois queria conversar pessoalmente com

Mary.

Demonstrava uma certa alegria aparente com a ligação. Mary do

outro lado, sentindo seu mundo desmoronar de vez ao perceber o tom de

voz esperançoso de Ruan.

Uma pena, senti meu coração parar de bater na viração do vento.

Nesse momento a Terra se distanciou de tal forma que o calor fugiu de

minha existência.

Sei que esse é o momento da partida e eu estou indo embora.

Meus olhos estão se fechando e já não posso mais lançar sobre a

cidade o meu brilho libidinoso, é o fim.

Ruan se encheu de ansiedade...mas o que reserva para os dois o

destino? É uma pena eu não poder esperar pra ver.

Eu já devia ter ido embora uns dezesseis dias atrás, mas atrasei o

meu repouso para ver o final dessa história.

Adeus amigos que durante esse tempo acompanharam comigo, não

somente um caso de amor, mas viveram comigo o meu ciclo de vida.

Eu vou embora e levo a luz do sol do estio. Vem chegando o vento

frio, para outras emoções reinarem.

Desculpem-me não ter me apresentado antes, pois cheguei

timidamente...era eu o espírito que ficava vagando pela cidade, sem

forma...era eu que recolhia as sensações dos jovens quando namoravam...e

pra quem não sabe quem sou eu, eu sou o verão!

Ano que vem quero que me contem todas as novidades. Vamos

novamente invadir o carnaval com o verde e rosa da Mangueira, colorir as

100


praias de mulatas, negras, loiras. Que esse ano de 2002 seja bem melhor

que o passado!

Elevo os braços para o horizonte e entrego a minha existência. Nesse

momento uma brisa fria corre por toda a cidade.

Capítulo 10

Belo Horizonte, 6 de Abril de 2002.

Lá na Escola Padre Matias, dos fatos que vi ou que fiquei sabendo.

Eram vinte e duas horas e vinte e três minutos.

A madrugada serena vem descendo sobre a cidade mineira,

anunciando uma brisa enamorada que trás às nossas narinas o perfume

selvagem das fêmeas de nossa espécie.

Todos nós guardamos sonhos em nossos corações, a decepção é

inevitável!

O amor verdadeiro é eterno!

Ruan passou por nós com muita pressa pra se encontrar com Mary lá

no portão do colégio. Eles praticamente sumiram na distância das ruas...

Nós subíamos a rua e de repente um carro parou perto de nós.

- Giancarlo? É você?

- Entra aí gente, eu to na área de novo.

- Mas você não estava morto?

- Claro que não, preciso falar com o Ruan, cadê ele?

- Subiu com a Mary, devem estar na Guararapes.

- Vamos lá ver se alcançamos ele.

Eu não ia entrar, mas acabei não resistindo. O Gú e o Tiago foram

também.

Perto da Eugênia Néri encontramos os dois. Giancarlo parou o carro

e chamou Ruan. Ele rapidamente pediu pra Mary esperar, não queria que

ela ouvisse nada do que fosse falar.

- E aí parceiro, que cara é essa? Parece que viu um fantasma.

- Eu pensei que você estivesse morto.

- Eu já sei da história toda. Esse pessoal do carro deixa que eu

resolvo. Não quero te envolver mais nisso, vou passar na sua casa amanhã

pra pegar minhas coisas.

- Ótimo! Eu estou preocupado com essa situação, isso está mexendo

com muita gente...

- Fica tranqüilo. Aqui, nós vamos tomar umas lá no barzinho.

Depois que conversar com sua namorada encontra com a gente lá.

Ruan fez um gesto com a cabeça e voltou pra perto de Mary. O

carro subiu a rua e Ruan sentiu um alívio imenso.

101


Se os homens do carro preto mentiram sobre ele estar morto, pode

ser que tivessem mentido sobre o fato de ter visto a Mary com o

Wanderley.

Notei que Mary estava com uma impressão indisfarçável de tristeza.

O vidro do carro era escuro e eu estava no banco de trás. Isso me

possibilitou olhar nitidamente e constatar sem sombra de dúvidas a tristeza

e o peso que sua alma carregavam.

Fiquei assustado com o que vi! Nenhum dos desenhos que fiz até

hoje tinham tanta falta, tanta carência de vida. Como pode haver expressão

tão sem vida?

Instintivamente percebi o que estava para acontecer. É como se a

vida fosse um livro já escrito e que os deuses estão lendo nesse exato

momento.

Quando o carro subiu eu pensei em como seria essa conversa dos

dois. Ruan é uma pessoa que todos gostamos muito, mas infelizmente tem

que aprender com os seus próprios erros. Errar é um direito de todo ser

humano.

***

- Mary...o que você acha que precisa mudar em mim pra que você

goste de mim do jeito que eu preciso que goste?

Nessa hora ela começou a chorar de uma maneira tímida. Eu só

percebi a lágrima rolando, sem contudo ela modificar sua expressão.

- Eu sempre quis que você fosse mais confiante Ruan. Isso teria

ajudado mais pra que eu pudesse gostar de você.

- Você sente que me ama?

- Por favor Ruan, não me pergunta isso.

- Por que? O que aconteceu.

- Eu não mereço uma pessoa como você Ruan. Sempre demonstrou

que queria ficar comigo e me valorizou, mesmo eu tendo errado tantas

vezes.

- O que está acontecendo com você?

- É que, assim...eu não posso me entregar pra uma pessoa e fazer

essa pessoa sofrer, mas na verdade eu já nem ligo mais para o meu

sofrimento. Não quero te fazer sofrer, essa é a melhor forma de te amar.

- Você acha que eu não me entreguei a você ao revelar meu amor

não?

Dessa vez as lágrimas caem com mais intensidade e Mary não

consegue controlar.

- Eu sei Ruan...eu sei.

- Quando amamos, vira paixão se é algo escondido, que não se vive.

Na vida temos que arriscar pra tentar ser feliz, me dá esse crédito poxa!

102


- Pára Ruan.

- Não Mary. Se é que você me deseja, me ama como dizia...coloca

tudo isso pra fora. Deixa eu perceber que é verdade. É bom demais a gente

se sentir amado.

O fichário de Mary cai no chão e nenhum de nós deu muita

importância. O momento era agora, estávamos finalmente conversando

abertamente, eu não poderia desperdiçar.

- Nada na vida é fácil Ruan. Você não entende.

- Então não me peça para ter confiança viu?

- Você é uma pessoa maravilhosa Ruan. Me desculpe por tudo. Isso

a gente deveria ter mudado com o tempo. Eu aprendi muito com você. E

prometo pra mim mesma que vou mudar o meu modo de agir.

- Quero voltar a ser seu namorado.

Mary chora mais ainda, nesse momento eu enxuguei as lágrimas

dela. Sei que pode ser besteira eu estar comentando isso, mas eu senti o

sofrimento dela e quis ajudar de alguma forma.

- Você sempre se preocupa comigo. Eu nunca tive isso em minha

vida. Nunca ninguém se preocupou comigo.

- E você?

- Também me preocupo. Quero que você seja muito feliz. Você...

- É que eu tenho muito medo que você fique com outra pessoa.

A Mary saiu de perto de mim e sentou no banco da praça, colocou a

mão no rosto e chorou amargamente. Eu fiquei parado por um tempo, por

fim acabei pegando o fichário dela no chão.

Eu ia escrever alguma coisa bonita pra ela então abri o fichário.

Eu estava no degrau da escadaria e abri a capa.

Meus olhos se depararam com uma imagem pavorosa que me fez

entrar em choque. Era o nome e o telefone de um cara, contornado por um

coração, escrito a lápis, no cantinho da folha.

- O quê é isso Mary?

- O quê Ruan?

- Esse nome dentro de um coração com telefone.

- Isso é antigo...eu até ia desmanchar lá na sala mas o professor.

- O que é isso que você está fazendo comigo?

- Calma Ruan.

- Vai embora. Pega seu fichário e vai embora daqui, me deixa ficar

sozinho.

- Ruan!

- Se você sente alguma coisa por mim, mesmo que seja pena...por

favor, vá embora.

- Não faz isso Ruan.

- Some daqui logo Mary, eu estou perdendo a paciência.

103


Desapontada, Mary simplesmente concordou e ficou em silêncio.

Nesse momento eu pude ver sua alma. Era passiva, não tinha ações. Um

espectro sem brilho sobre sua cabeça, como se estivesse enforcado e com

os braços amarrados.

Na verdade parece que ela sentiu um alívio enorme quando eu disse

para ela ir embora. Sim, pelo fato de eu não querer saber o motivo dela

estar chorando. Isso embora eu imagine, jamais vou querer saber.

Então eu vejo o vulto de Mary pela última vez dessa praça,

desapareceu na distância escurecida da rua do Cais Antigo.

Meu coração se despedaça em mil partes e minha alma gela toda

num arrepio solitário.

Os meus pensamentos se deitam no gramado do jardim da praça pra

chorar sob a luz da lua minguante. Deixo uma lágrima rolar do meu olho

esquerdo e a brisa consumi-la.

Um dia essa mulher maldosa sentirá saudade do meu amor. Será

tarde demais pra ela, porque desde agora, meu amor por ela falece e eu o

enterro aqui nessa mesma praça onde tudo começou.

Eu devia ter percebido desde o começo de tudo. É como se a Mary

não tivesse nascido pra ser amada, apenas usada por quem procura uma

aventura fora de um casamento rotineiro.

Uma hora eu acabo encontrando alguém que mereça o sentimento

que trago em meu peito e que descrevi nos versos que fiz pra ela.

A solidão já invadiu os meus olhos nessa hora em que permaneci

refletindo aqui na praça, na escadaria da escola, atrás do jardim. Hoje esse

lugar se transforma no cemitério de minha paixão, da minha primeira

paixão, e que ela seja para sempre esquecida nessa praça.

Lá ao longe nessa hora apareceu o Giancarlo de carro. Foi aí que ele

me perguntou se eu estava fazendo alguma coisa importante e me disse que

você tinha falado pra ele ir lá me buscar. Você sempre foi muito

observador, parece que estava adivinhando o que iria acontecer.

- Bom Ruan, nós somos amigos. Você sempre me contou muito

sobre essa relação de vocês, eu já imaginava que uma hora iria acabar de

vez.

- Sabe Ruan...às vezes uma boa amizade vale mais que mil amores.

– Disse o Giancarlo.

A rodinha de samba estava animada. Quando eu vim jogar sinuca

com o Giancarlo o Vitor foi lá tocar com o pessoal.

Eu to tentando esconder minha tristeza enquanto jogo, mas é

inevitável. A concentração não vem e perco uma partida fácil para o

Giancarlo.

Eu acabei parando de jogar e ouvi uma música que o pessoal cantou.

O Vitor parece ter escrito pensando no que ia acontecer.

104


Nos versos que seguem, cantaram um pagode que por anos soou em

minha lembrança. Ecoava na alma entristecida por causa da desilusão do

amor...

“Você perdeu alguém legal

Você perdeu o meu amor

E agora vive na incerteza

De uma insegurança

Não pode viver o amor

Igual aos tempos de criança

Aquele amor bonito que dava gosto de ver

Você e eu descobrimos sem jeito

Com detalhes, defeitos

O que é o prazer

Você perdeu aquela alegria de

Um sentimento puro que

Plantava o verde pra depois colher maduro

Você cresceu, se aventurou

Você perdeu o meu amor

Desculpe-me por isso que agora vou falar

Você é mulher de malandro que só gosta de apanhar

Esse cara que hoje

Te dá beijos e abraços

A qualquer momento deixa o coração em pedaços

Você perdeu

Alguém que com certeza eternamente a amaria

E vai se arrepender desses meus versos algum dia

Se estarei casado, ou por aí

Vivo em seu passado

Como seu único e verdadeiro amor

Que você perdeu

Que você perdeu

Que você perdeu

***

O bairro está em silêncio e somente o som da minha voz e dos

instrumentos ecoa.

Se a batucada corta o ar distantemente, se é que a Mary ouviu esse

som...talvez esteja chorando.

105


Quando sentir saudade do carinho do meu amigo Ruan será algo

muito difícil. Como ele pôde amar uma pessoa assim? Seu coração merece

perdão.

Na vida passamos por vários momentos porém, e hoje o Ruan

aprendeu o sofrimento, a desilusão. É necessário que cada pessoa passe por

isso. Não é bom nem justo, mas é necessário!

- Ei cara, tem como escrever essa música pra gente? Muito legal!

Abro a mochila e pego o caderno. Giancarlo jogava sinuca com um

coroa. Olhei pro lado e vi o Ruan caminhando, já na esquina.

Eu simplesmente deixei ele ir embora. E embora ele tenha saído sem

se despedir, eu não o culpei. Deve estar sentindo uma dor, um misto de

angústia, algo terrível!

- Ei Vitor, vamos começar uma partida de dupla, vem jogar também.

Então eu olho nosso amigo caminhar pela rua...

Ruan ficou arrasado com o fim do relacionamento com Mary.

Pensamentos rebeldes o atordoavam a todo momento. Não podia

imaginar a Mary, a sua Mary...com outra pessoa.

Ele não a fez mulher nos seus braços mas se dedicou a amá-la com

grandiosa intensidade. Renegou a tudo, até mesmo às opiniões dos amigos.

E os dois seguem a vida. Cada um vai para o seu lado, guardando no

peito a angústia, a incerteza pelos dias que virão pela frente.

Que pena! Foi uma história amorosa tão promissora no início,

naquelas noites enluaradas do mês de Dezembro. Quem poderia imaginar

que terminaria dessa maneira: dois corações, dispersos?

Sabemos que ambos irão se entristecer ao recordar os bons

momentos que viveram, mesmo que estejam se relacionando com outras

pessoas.

Ao meu amigo, ou melhor, aos meus amigos, eis aqui o que eu havia

dito. Eu coloquei no papel, eu registrei o que aconteceu ali como eu disse

que faria.

Fica então uma pergunta vagando no ar, onde agora reina a brisa do

frio: pra onde foi o amor? Isso ninguém jamais saberá.”

Fim!

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