RENASCENDO DAS CINZAS(1)

VitorCorleoneBH

Baseado na imortalidade da Fênix, conta a história da morte espiritual do ser. As perseguições morais no serviço público em um ambiente semelhante a uma instituição de policia militar.
Traça um paralelo entre a participação popular e a corrupção do sistema democrático.

ENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 1


VITOR MOREIRA

Belo Horizonte - 2014

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rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 3


Copyright@2014 by Vitor Moreira

Email para contato: vitormoreira@vitormoreira.com.br

Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, sejam quais forem

os meios, sem a permissão, por escrito, do autor.

Ophicina de Arte & Prosa

Editora: Rachel Kopit Cunha

www.ophicinadearteprosa-kopitpoetta.blogspot.com

arte.prosa@gmail.com

31-9128-7441

Capa: Miriam Carla Alves - Vitor Moreira

Diagramação: Miriam Carla Alves

Revisão: Rachel Kopit Cunha

Ilustração: Petrede

Fotos da capa: Fotos das manifestações populares pelo Brasil, em 2013.

M835

Moreira, Vitor.

Renascendo da cinza / Vitor Moreira. – Belo Horizonte:

Ophicina de Arte & Prosa, 2014.

160 p. : il. ; 15 x 21 cm.

Bibliografia: 140-144

ISBN: 978-85-88750-77-7

1. Processos Mentais/ética 2. Vida 3. Confiança I.

Título. II. Petrede.

CDD – 22. ed. – 153

Catalogação-na-fonte - Segemar Oliveira Magalhães CRB/6 1975

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Universo Humano

Pintura do próprio artista Vitor Moreira, do ano de 2004, onde,

conforme relata, há a expressão de toda a sua criação artística,

baseada na unidade do universo interior de cada indivíduo.

Entende-se que cada indivíduo é bom ou ruim, tem seus mitos,

suas crenças e seu caráter, entretanto, no interior de cada um, há o

consenso, onde se nota que todos, independente de qualquer coisa,

até mesmo da disposição das suas prioridades de vida (posição

dos astros, planetas, cometas) dentro do seu universo pessoal,

idealizam um céu de estrelas, luz e mistérios e uma Terra de prazer

e realização. O Universo Humano é a base de toda criação artística

de Vitor Moreira.

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TENTE OUTRA VEZ

(Paulo Coelho/ Raul Seixas)

Veja!

Não diga que a canção está perdida

Tenha fé em Deus... tenha fé na vida

Tente outra vez!...

Beba! (Beba!)

Pois a água viva ainda tá na fonte

(Tente outra vez!)

Você tem dois pés para cruzar a ponte

Nada acabou! Não! Não! Não!...

Oh! Oh! Oh! Oh! Tente!

Levante sua mão sedenta

E recomece a andar

Não pense que a cabeça aguenta se você parar

Não! Não! Não! Não! Não! Não!...

Há uma voz que canta

Uma voz que dança

Uma voz que gira

(Gira!) Bailando no ar

Uh! Uh! Uh!...

Queira! (Queira!)

Basta ser sincero e desejar profundo

Você será capaz de sacudir o mundo

Vai! Tente outra vez! Huuum!...

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Tente! (Tente!)

E não diga que a vitória está perdida

Se é de batalhas que se vive a vida

Han! Tente outra vez!...”

RENASCENDO DA CINZA - VITOR MOREIRA


SUMÁRIO

INTERNAÇÃO ..................................................................... 09

PERSEGUIÇÃO .................................................................... 20

CAMPO MINADO ............................................................... 42

SUICÍDIO .............................................................................. 47

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO ....................................... 54

A HORTA ............................................................................. 60

A VENDINHA ..................................................................... 61

O LIXADOR DE CHAVES ................................................. 63

O REJEITADO ..................................................................... 65

O FAZENDEIRO ................................................................. 67

OS BOIS ............................................................................... 69

A VELHA............................................................................. 73

O CORREDOR .................................................................... 74

MÃOS TRÊMULAS ............................................................ 76

A RODINHA DE BRASAS ................................................. 79

OS REMÉDIOS DO DESEJO ............................................. 80

A IMAGEM DA ESTRADA ................................................ 82

O FRIO E AS NEBLINAS................................................... 86

OS EMBATES ...................................................................... 88

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DESENHOS NA PAREDE. ................................................ 90

AS TROCAS DE OBJETOS ............................................... 94

VISITAS ................................................................................ 96

A ANSIEDADE ................................................................... 99

OS AMORES PROIBIDOS................................................ 103

O TROTE ............................................................................ 106

A PEGADINHA DO BONECO ........................................ 109

O PRESENTE .................................................................... 115

LEMBRANÇAS DA ROÇA.............................................. 122

A IGREJINHA .................................................................... 126

VISITA À ALA DOS LOUCOS ........................................ 130

SEGUE A SUA ESTRADA ............................................... 134

O DESPERTAR .................................................................. 141

DESVIANDO O OLHAR .................................................. 147

A DEMOCRACIA É DO POVO ....................................... 152

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rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


INTERNAÇÃO

A partir desse momento, não admito mais falar com o senhor.

Não sou um cachorro para ser tratado dessa maneira e exijo respeito

da sua parte. Querem que eu vá à força, como se eu fosse um produto

do sistema, um androide programado para apenas cumprir ordens,

sem ter vontade própria. O que está acontecendo não é por minha

vontade. Tenho o direito de escolher o que é melhor pra mim.

– Acalme-se, senhor! – disse uma mulher que acompanhava um

enfermo no ambulatório do hospital.

– Que acalmar o quê? Manda que ele chame lá os vinte que falou

que vai chamar pra me segurar, já que ele sozinho não tem coragem.

Não sou homem de receber uma ameaça dessas e ficar calado. Que

ele volte e cumpra a ameaça que fez, estou esperando. Não aprendi

a ser medroso e vim parar aqui justamente por causa disso. Eu sei

que tenho direitos, sei disso, e mesmo que tenha de ir até as últimas

consequências para tê-los respeitados, tenham a certeza de que

farei isso sim, às custas de muito sofrimento, mas nada muda o meu

caráter.

– Eu entendo, senhor, mas é necessário – replicou a enfermeira.

– Eu vou aguardar em minha sala – disse o médico. Esse

aí é insubordinado realmente, como andam comentando lá na

repartição onde trabalha. Já veio com a fama e agora demonstra

valentia perante um profissional com curso superior.

– Está vendo, senhor? Tudo isso poderia ter sido evitado se

tivesse cooperado.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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– Não tenho medo dele. Que enfie o seu diploma e sua arrogância

onde melhor se encaixar. Aliás, hoje acordei sem medo de ninguém

porque oquehavia para me prejudicar já se esgotou. Já estou cansado

de tantas perseguições, de tantas arbitrariedades cometidas contra

a mim. Um sistema que não mede as consequências do que fazem

os seus representantes, que rasgam a cada manhã a Constituição

Federal e limpam a boca com ela ao terminar de tomar o café sujo

e apodrecido que lhes mata a fome. Hoje mesmo quero dar cabo da

minha vida.

– Então, pelo menos tome o remédio e não será necessário

tomar a injeção que o médico receitou.

– Você me garante que isso não me fará dormir? Não posso

ser internado. Em casa há os meus animais para eu cuidar. Tenho

também que acionar a justiça contra o gerente da repartição onde

trabalho. Se eu não for até a minha casa cuidar dos animais e não for

até o juiz denunciar tudo que está acontecendo comigo e com outros

funcionários, não haverá outra pessoa que possa fazê-lo por mim.

– Pode ficar tranquilo, senhor. Isso é apenas um calmante que

irá ajudá-lo a relaxar um pouco. O senhor passou por momentos de

grande abalo físico e mental e precisa de ajuda!

Tomei então o medicamento receitado, acho que era um

clonazepan, caindo no sono logo em seguida.

Deitado numa cama de hospital, tinha ao pé a mochila e

os sapatos que foram tirados pela enfermeira. A roupa estava

amassada e nos braços havia fina camada de suor, ainda brilhante.

O desodorante nos sovacos já nem era notado devido à quantidade

de suor já impregnado na camisa.

Um bom tempo depois fui acordado pelo Genaro, ex-assessor

do deputado Juarez. Ele ficou sabendo da notícia por meio de uma

ligação que fizeram do hospital para os números mais frequentes

de contato do celular. Queriam alguém próximo que pudesse

acompanhar o meu caso. Tentavam localizar algum parente para

decidir sobre a internação.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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– Ora, o que faz aqui?

– Calma! Procure se acalmar. Não precisa se levantar. .

– Que dia é hoje? Há quanto tempo estou aqui?

– Esfria! Só se passaram algumas horas desde que chegou.

– O que aconteceu?

– Procure não pensar nisso agora. Tudo está sendo resolvido da

melhor forma.

– Preciso ir embora para minha casa. Tenho que cuidar dos

meus animais. Não confio em ninguém aqui. São todos iguais!

Todos exercendo suas funções e incapazes de decidir alguma

coisa.

– Olha, é melhor você se acalmar porque já está decidida sua

internação. Não há nada que possa ser feito no momento.

– Mas eu vim aqui apenas para me consultar. Vim de livre e

espontânea vontade e pedi pra falar com o psicólogo ou psiquiatra.

Como esse povo ousa querer determinar o rumo da vida das pessoas

assim como se fossem meros objetos? Acham que não temos o

direito de escolher o que é melhor para nós? Só querem saber dos

interesses das funções e cargos que exercem.

– Olha, procure se acalmar. Sobre os seus animais, tente

encontrar alguém que possa tomar conta deles até seu retorno. É por

pouco tempo. Tente cooperar porque nós sabemos o que o sistema

faz. Testam-nos a todo instante e procuram sempre nos deixar em

situação desfavorável! Quem está no topo procura se proteger de

tudo, até mesmo da própria lei. Você terá que ficar internado, isso é

fato! Mas eu irei fazer o possível para te ajudar, tenha certeza disso.

– Onde está meu celular?

– Está com o médico. Aliás, ele relatou em súmula tudo o que

aconteceu. Como você foi capaz de ameaçá-lo?

– Foi ele quem me ameaçou. Disse que chamaria vinte

seguranças para me segurar enquanto me aplicaria uma injeção

para que eu ficasse sedado. Ele quer me internar à força e eu não

quero ficar numa clínica de loucos.

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– Não há nada disso relatado na súmula de sua internação.

Consta que você estava nervoso e foi necessário que ele se retirasse

daqui com medo de uma possível agressão. Isso pode trazer

problemas para você.

– É mentira. Havia várias pessoas perto e todas o viram dizer

que iria chamar os seguranças para me segurar.

– Escute: ele é o chefe desse pessoal. Acha mesmo que seriam

testemunhas contra o próprio chefe e depois serem perseguidas

até se verem obrigadas a sair do hospital? Vai por mim. Não se

precipite. Você está num ninho de cobras! Cuidado onde pisa! Isso

é o sistema.

Ao perceber o que Genaro falava, senti um nojo pela sociedade

brasileira por ser tão omissa, tão passiva e permitir que o que deveria

ser democracia se tornasse imperialismo colono, onde os poucos

que gerenciam os vários impérios determinam tudo conforme seu

bel-prazer, como se fossem os donos, e não executores da regra.

O médico mandou uma enfermeira trazer e aplicar o

medicamento. Estava esperando algum familiar comparecer, mas no

seu celular não havia telefone de parentes próximos. Estava repleto

de números de defensores do meio ambiente, estudantes, empresas

e órgãos, mas não havia muitos números de amigos ou familiares.

Então, após me ligarem e já imaginando a gravidade dos fatos, tive

de colaborar e vir aqui falar contigo. Sabemos que tudo está sendo

muito arbitrário, mas não perca a razão pela emoção do momento.

– Eu saio daqui preso, demitido, ou até mesmo amarrado; por

minha vontade, não haverá internação. Não podem me obrigar.

Afinal, vim aqui me tratar de livre e espontânea vontade e agora,

por causa de uma mentira desse fulano, querem me sedar e me levar

para um lugar desconhecido.

– Tente entender...

Que entender o quê? – disse aos gritos. Logo você vem falar

isso comigo, Genaro? Você acaba de ser vítima de uma mulher que

o perseguia lá no gabinete até ser exonerado. Como uma vítima

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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em potencial do sistema, você me pede para entender esse abuso

que está sendo feito contra mim? Eu não sou louco, só estou com

depressão.

– A situação não é tão simples. Você se lembra de alguma coisa?

De como chegou ao hospital e o que fez antes disso?

Lembro-me de estar conversando com uma médica. Ela me

receitou um calmante lá no pronto-atendimento e depois eu

estava aqui nesse ambulatório. Esse outro médico apareceu na

sala querendo me sedar sem ao menos perguntar o que eu estava

sentindo ou de onde vim. Nada disso. Chegou falando em sedativo

como se eu fosse objeto de uma experiência de laboratório, um

animal arredio!

– Mas, e antes disso? Tente se lembrar de alguma coisa.

– Não sei. Estou com a cabeça doendo muito! Não sei o que

aconteceu. Alguém falou alguma coisa?

– Você chegou carregado por uma pessoa aqui no hospital com

uma expressão de choque no rosto. Muito abatido, se queixando de

uma forte batida com a cabeça e, como seu plano de saúde é desse

hospital. você conseguiu um atendimento mais efetivo!

– O que está dizendo, Genaro? Não está vendo a arbitrariedade

que estão cometendo contra mim? Atendimento mais efetivo?

Ora, o que é isso? Como se já não bastasse ser tão perseguido lá

naquele lugar, ainda sou perseguido onde vim procurar ajuda?

– Conte-me o que houve por último. Talvez eu possa ajudar.

– A gota d’água foi minha avaliação de produção desse ano:

uma nota baixa que irá interferir em meu salário. A justificativa

foi que eu não fui trabalhar no dia 25 de fevereiro, sendo que

nessa data eu estava de férias e, ainda por cima, operado por causa

daquele assalto no início do ano. Não sei se você se lembra do

assalto.

– Claro que me lembro!

– Eu estava com o braço imobilizado. Ele inventou que faltei ao

serviço para me prejudicar.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 13


– Que filho da mãe! Como teve coragem de fazer isso?

– Ah, Genaro, você sabe como é isso, como tudo funciona: se

não é do time da arbitrariedade acaba virando alvo dela. Não vê

o seu caso? Você sempre foi tão eficiente em seu serviço! Sempre

tão prestativo e, pelo que eu sei, livre de qualquer mancha em

seu caráter. De repente, é exonerado durante as férias, e nem foi

pelo e sim pela chefe do gabinete. Você está mais desamparado do

que eu!

– São coisas da vida...

– A situação do assalto também me deixou muito abalado!

Esse segundo assalto de anteontem. A polícia não conseguiu

prender os dois ladrões e estou sem documento algum. No serviço,

não consegui alguns dias de licença, embora estivesse abatido

demais para trabalhar. É que o gerente do bloco intermediário

ordenou a todos os gerentes de repartição que não liberassem

os funcionários, nem, por qualquer motivo os dispensassem do

serviço. Querem retomar a produção que foi abalada pela onda

crescente de insatisfação não declarada dos funcionários.

– Tem coisas que realmente nos deixam com ódio do sistema!

Mas eu sei me controlar. Tente se lembrar do que aconteceu hoje

pela manhã, pois ninguém sabe como veio parar aqui e o que

aconteceu antes. Só você pode dizer por que havia sangue em sua

roupa.

– Eu não matei ninguém, eu...

– Calma. Não se desespere! O sangue era seu mesmo. Havia um

corte e estancaram o sangue. Você deve ter caído e batido com a

cabeça.

– Não consigo me lembrar de nada. Deve ser o efeito do remédio.

– O que aconteceu? Desse jeito, você nos mata do coração!

Acabou de sair na televisão! Uma pessoa filmou tudo. – disse um

colega de serviço ao chegar ao ambulatório, sendo rapidamente

puxado pelo braço pela enfermeira que dava recomendações.

– O que vocês dois estão fazendo aqui, Seixas?

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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– Ordens do gerente Lino. Viemos ver como você estava e

acompanhar sua viagem até a clínica onde ficará internado, em

outra cidade.

– Não vou ficar internado em nenhuma clínica. Estou um pouco

nervoso é com toda essa situação que estão criando.

– Olha: vou ter que ir embora, mas conte comigo para o que

precisar. Deixarei você com os seus conhecidos, mas lembrese

do que eu disse. Algo será feito enquanto estiver lá, não se

preocupe.

– Tudo bem, Genaro! Obrigado por ter vindo!

Um olhar que parecia revelar muitos segredos ficou obscuro no

ambiente. E assim o Genaro foi até o médico e conversaram sobre

coisas que eu não conseguia ouvir.

Talvez Genaro o estivesse pressionando para que medisse as

consequências do que ocorrera naquele ambulatório antes da sua

chegada. Ele sabia que havia exageros no relatório. Pude ver que o

médico ficou pensativo e, depois de um tempo, o Genaro foi embora

carregando a sua pasta de documentos. Levava uma expressão de

descontentamento em seu olhar e, antes de sair, olhou para trás,

fitando o médico.

O gerente Lino era o responsável pela repartição onde eu estava

trabalhando e se encontrava num congresso onde se discutiam

temas alusivos ao segmento da empresa. Era uma pessoa jovem, que

eu não conhecia muito bem, pois estava na nova repartição há menos

de dois meses, após ser viabilizada a minha troca de repartição pelo

Genaro e pela assessoria do deputado Juarez, que pressionou o

gerente do bloco intermediário a realizar a troca, ou de outro modo

seria adotada a melhor condição legal para representação dos meus

direitos trabalhistas, o que causaria um desconforto muito grande

à imagem da empresa.

Enquanto o Seixas e o Jarbas conversavam com a enfermeira,

fui sentindo um sono pesado e, enquanto digitava mensagens de

socorro no celular para que alguém chamasse a imprensa e viesse

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 15


me ajudar a me livrar das garras dessas pessoas, cada vez mais

sentia os olhos se fechando.

Houve tempo suficiente para enviar algumas mensagens

avisando sobre os animais, para que alguém viesse até aqui

pegar a chave de minha casa e ir até lá colocar ração. Uma delas

endereçada a Marluce, com quem eu estava saindo há algumas

semanas, apenas nos conhecendo até então, sem maior intimidade.

Falei que eles precisariam de alimento. Em outra, eu comentava

o que o médico havia feito e pedia para avisarem à mídia ou à

polícia.

Fui sentindo sensações estranhas! Uma palpitação no coração

e dificuldade de coordenar palavras. Uma dor forte na cabeça e

no peito, como se tivesse sido atingido por uma barra de ferro.

A lucidez foi diminuindo e então resolvi permanecer de pé para

não dormir novamente, pois ali tudo girava contra mim e o passar

das horas era tendencioso aos interesses daquelas pessoas que se

encontravam no ambulatório do hospital.

Caí no chão e o Jarbas ajudou-me a levantar. Eu estava decidido

a não aceitar o sedativo nem a ficar internado ali. . Aguardava a

chegada da imprensa, caso alguma das mensagens que enviei tivesse

surtido efeito. .

Os funcionários da clínica ficavam parados, assim como os dois

do meu serviço, todos esperando que eu apagasse, que caísse no

sono, para decidirem o meu destino. E eu resolvido a permanecer

de pé a qualquer custo.

Caminhei até o banheiro e, ao urinar, expeli um pouco de

sangue. Então, já preocupado com aquela situação, olhei pela

janela e vi que estava no segundo andar. Meu coração batia forte

e desamparado! Havia uma grade e tentei forçá-la para escapar do

hospital, mas foi em vão.

Alguma coisa estava acontecendo, mas eu não sabia o que

era. Senti que minha vida corria perigo e lutei contra o efeito do

medicamento.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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Ao olhar meu braço, vi que havia uma marca recente de agulha,

mas eu não me lembrava de ter tomado injeção. Devia ter sido

aplicada enquanto eu estava dormindo sob o efeito do comprimido

que me deram.

Percebi, então, que já tinham me dado uma dose de sedativo,

mas meu corpo lutava bravamente contra seu efeito.

Algo me dizia que eu não poderia cair no sono novamente.

Que eu precisava lutar e ser valente. Não me deixar abater pela

presunção do sistema, pela arrogância das pessoas que o controlam

ou pela maldade e inveja que seus corações carregam.

Do lado de fora, estavam aquelas pessoas paradas no ambulatório

sem a coragem de chamar os tais seguranças cuja ameaça foi o

que me fez odiar estar aqui. E embora por fora estejam todos ali

cumprindo a função que lhes foi atribuída, sei que, por dentro, ou

estão admirando minha resistência feroz, ou odiando minha pessoa

devido aos últimos fatos ocorridos ali no hospital.

Quando saí do banheiro, todos os olhares eram apreensivos,

aguardando que eu dormisse. Então caí pela segunda vez e, já

sentindo dificuldade de me levantar, eis que aplicam em meu braço

direito outra dose de medicamento que havia sido receitado pelo

médico. Foi a enfermeira que esteve conversando comigo durante

todo aquele tempo..

Ao olhar no íntimo dos seus olhos, pude ler até mesmo o que

sua alma frágil sentia. Ela torcia por mim e vi que, pelo seu modo

de me olhar, se culpava por não ter tido coragem de descumprir a

ordem que lhe foi dada, exercendo a sua função com o coração em

pedaços ante todo o sofrimento que me via passar.

Um frágil grito de dor...

Nesse momento, senti o coração disparando e as mãos

trêmulas, como se eu fosse o objeto de uma experiência.

Desespero! Despreparo emocional! Fatos passando pela minha

cabeça e algumas lágrimas rolando do rosto quente queimando

como brasas ardentes!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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18

Cenas de monstruosidade passavam diante de meu rosto e

eu pensava em várias coisas ao mesmo tempo. Ainda disposto a

ficar de pé, fui percebendo que as pessoas ao meu redor foram se

transformando em figuras espectrais e se dissolvendo... Esmaeciam

como a bruma do horizonte em dia de forte neblina!

Ainda consegui perceber que o celular caiu de minha mão.

Um dos espectros foi ficando maior em minha direção e, como

uma sombra, pegou o celular e o carregou consigo como despojo.

Eu tentava pegar o espectro, mas minhas mãos eram pequenas! Eu

trazia as mãos para perto do rosto e elas continuavam pequenas. Não

conseguia tocar o rosto com elas, pois pareciam estar queimando

constantemente como uma brasa eterna.

Sons! Muitos sons sem nexo chegavam aos meus ouvidos,

turbinados por muitos ecos! Não conseguia entendê-los, pois

estavam todos muito carregados!

Que cenas horrendas! O que estava acontecendo? Tentava falar

e nada saía de minha boca. Somente grunhidos misturados com

muita baba, que chegava a escorrer pelo rosto.

Podia ver os espectros, mas não conseguia ir até eles, pois o

chão era muito macio e, quando eu tentava caminhar, meus pés

afundavam. Eu voltava a colocar os pés onde estavam antes, numa

parte mais firme.

Novamente, tentava me comunicar com aquelas figuras

espectrais e não conseguia. Não saíam palavras de minha boca.

O que essas figuras queriam comigo? Tudo foi ficando tão

estranho! De repente, as figuras começaram a girar e se misturaram,

virando uma só coisa e girando ao meu redor com velocidade

impressionante! Eu parecia estar olhando para o céu, pois havia um

fundo azul na figura do espectro.

Depois o céu ficou todo branco e eu não pude ver a rua.

Não conseguia ver minhas mãos nem mexer os pés. Continuava

ouvindo sons com ecos. Eram dois sons apenas.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Parecia que eu estava num lugar fechado porque o eco batia nas

paredes e reverberava como se fosse metal.

Havia alguma coisa me impedindo de movimentar os braços e

as pernas. Eu podia sentir amarras, mas era difícil sentir os pés e as

mãos.

Falar também não podia, pois cada vez que tentava a língua não

se movia e meus lábios não conseguiam se firmar.

Seria uma ambulância? Pensei comigo. Mas não dava para saber.

Eu não conseguia mover o rosto. Tentava falar, mas não conseguia

produzir nenhum som, nenhum pedido de socorro, nenhum grito

de apelo ou de raiva! Nada!

Não fazia ideia do tempo em que estava ali, nem conseguia

pensar com sobriedade. Estava sedado, lutando contra o efeito

devastador de um medicamento que neutralizou todo o meu corpo.

Meu rosto não se mexia, e os olhos se abriam com dificuldade,

repletos de lágrimas, até que eu não pude mais abri-los, e tudo se

apagou.

Não mais senti o rosto queimar nem as mãos em brasas. Tudo

estava apagado e já não havia lucidez, somente o escuro de uma vida

acabada, sem luzes ou brilho capaz de produzir qualquer estímulo

que evidenciasse a existência de um ser.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 19


PERSEGUIÇÃO

Anos atrás, um novo funcionário chegou à repartição. Ele vinha

de outra, do bloco intermediário, e trazia ideais de crescimento e

maturidade intelectual que provocavam inveja!

Era baixo, de pele clara, usava sempre um par de óculos de

armação fina e tinha o semblante ora sério e compenetrado, quando

estava pensando, ora alegre e descontraído, quando conversava

com todos. Sempre carregava algum livro debaixo do braço, alguns

que, de tão grossos, desanimavam a leitura de quem observava.

Tinha sido transferido após se envolver em problemas com um

dos gerentes da antiga repartição, o Clóvis, devido ao fato de esse

o estar perseguindo moralmente por ter se negado a providenciar

documentos tendenciosos que objetivavam desconto no salário de

funcionário que se envolveu numa discussão na rua, quando estava

de folga do serviço.

Eram os apensos, documentos produzidos no âmbito do bloco

intermediário, que provocavam sanções em desfavor de quem era seu

alvo, após ser rigorosamente verificado o seu teor, numa espécie de

processo interno da repartição, com provas reais que autorizassem

a chefia direta e a intermediária a apenar o funcionário.

Esse documento era sempre elaborado por um funcionário

com status de chefia e mais tempo de serviço que aquele que seria

apenado conforme os fatos denunciados, tal como ocorre nas

repartições públicas e em empresas privadas dotadas de algum tipo

20 de regimento interno ou hierarquia. rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Contouquenãolhe parecialícitojulgar os atosdeumfuncionário

em seu horário de folga, pois qualquer coisa que fizesse fora do

bloco dizia respeito a sua vida particular e não cabia interferência

ou investigação. Dizia que todos têm direito a intimidade e vida

pessoal, independente do que fizessem.

Então o Clóvis, após esse desgosto e sentimento de que seu

poder doutrinador fora subjugado, passou a cobrar excessivamente

o funcionário quanto a detalhes do serviço, realizando constantes

averiguações, procurando sempre um motivo para provocá-lo

moralmente e obter sucesso em afastá-lo da empresa ou rebaixá-lo

de setor, pois de maneira alguma aceitava ser contrariado em seus

interesses no âmbito da antiga repartição.

Isso tudo ocorreu lá no bairro Pratos, onde fica a repartição de

onde veio.

Contou que o Silveira era um bom funcionário, e se em seu

horário de trabalho produzia o que a empresa desejava, se era

irrepreensível na função que exercia, em hipótese alguma, a empresa

poderia interferir em sua vida particular. O que acontecia fora do

ambiente de trabalho somente dizia respeito ao homem e não ao

funcionário. Ao se expressar com sabedoria, falou que as pessoas

têm o direito de serem cretinas em sua vida particular, e que

ninguém poderia interferir no sentimento alheio do ser humano,

exceto se isso trouxesse prejuízos ao ambiente de trabalho.

Rapidamente, o excêntrico novato conseguiu conquistar

espaço perante o público interno da repartição e suas ideias, seu

modo de se expressar e sua generosidade se destacavam por agradar

pela eficiência, confiança e simplicidade de execução.

Um pensador! Amante das artes, da cultura e das ciências! Lia

muitos livros, dentre eles os mais aclamados da literatura nacional.

Lembro-me da vez em que fez uma citação à obra Senhora, de José

Alencar, tendo se referido ao livro como uma busca da dignidade

vendida, e que o amor, apesar de ser um sentimento bom, possui

tanto ou até mais vingança que o próprio ódio.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 21


Ele procurava se inteirar de todos os assuntos sociais do

momento, sempre lendo jornais e revistas. Era figura presente nos

teatros, museus e em eventos culturais na cidade.

Admirava a natureza e, por isso, participava de vários

encontros com ambientalistas, a fim de discutir os meios de incutir

no poder público maior responsabilidade na proteção do meio

ambiente, com a diminuição dos casos de maus tratos a animais,

maior controle sobre os carroceiros da cidade que exploravam

demasiadamente os seus cavalos, maior agilidade para apurar

denúncias de desmatamento e outros muitos assuntos nos quais

fazia questão de se envolver ativamente, pelo interesse na causa.

Reunia-se com estudantes e intelectuais e participava de eventos

grevistas, apoiando quem estivesse realizando o evento, se

esse fosse justo.

O fato é que não aceitava injustiça nem aceitaria vender o seu

caráter ou a sua honra para satisfazer o desejo pessoal de outra

pessoa, fosse ela quem fosse. Aquele lugar, repleto de falsos elogios

às ações que apenas satisfaziam interesse da gerência, era uma

casa de marimbondos! Era necessário saber onde pisar para não

encontrar problemas com as ferroadas, e o pensador sabia disso.

Na verdade, todos sabiam, e o medo do sistema fazia com que se

escondessem em alguma sala, quando passava algum gerente pelos

corredores.

Dessa forma, o gerente da repartição não poderia aceitar um

pensador influente entre os funcionários de baixo escalão, pois

seu conhecimento e sua capacidade de liderar poderiam reduzir

o sentimento de imperialismo, quase santidade, que rondava o

círculo superior, cada vez mais em ascensão, enquanto a gama dos

mais subordinados do núcleo dos trabalhadores era, mais e mais,

submetida à afirmação de poder e escravização moral impostas.

Um sistema de blindagem protegia o escalão superior. Ali se

fazia de tudo, de assédio moral e sexual a funcionárias até a restrição

de direitos conferidos em lei aos funcionários. Tudo era arbitrário,

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

22


e nenhuma falha, crime ou abuso de poder era averiguada, pois

havia uma poderosa rede de proteção aos integrantes do círculo de

gerentes.

A repartição funcionava numa construção muito antiga, um

prédio de somente um andar contendo três corredores dispostos

de forma triangular. A sala da gerência ficava ao centro e na área

externa havia um vasto estacionamento para cerca de cem veículos.

Contornava o complexo uma pequena mata, com algumas árvores

de médio e muitas de grande porte.

Todas as manhãs, ele era visto colocando sementes para os

pardais numa vasilha grande de cor esverdeada, que ficava perto

do muro e que antes ficava sem ração e não recebia visitas dos

passarinhos.

Trazia frutas para as maritacas, as quais, após um tempo

recebendo tais guloseimas, já não faziam cerimônia e, ao vê-lo

chegando com a vasilha repleta de morangos, laranjas, bananas e

amendoins, vinham até sua mão para pegar as frutas. Por várias

vezes repousavam em seu ombro com afinidade e confiança, dez,

vinte, talvez trinta maritacas... o que enchia os olhos dos demais

funcionários ao admirarem a beleza daquela cena tão incomum!

Ele as pegava entre os dedos e coçava suas cabeças, como se, desde

filhotes, tivessem sido amansadas por seu dono.

Regava as plantas e as árvores em dias mais secos, antes de

começar o seu trabalho, e, depois de um tempo, a natureza pareceu

agradecer tal carinho fazendo brotar folhas que, de tão verdes,

ofuscavam a vista, e cuja sombra era fresca e acolhedora!

O prédio parecia ser um hospital desativado! A pintura era velha

na parte externa, evidenciando que não havia muita preocupação

com a imagem do lugar...

Na primeira vez em que se cruzaram, ele havia acabado de dar

comida aos pássaros e suas mãos estavam ainda sujas de frutas que

as maritacas descascavam, prendendo-as entre as patas e seu braço.

Sua camisa estava amassada por causa das unhas das maritacas e

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 23


24

seus cabelos despenteados, pois pousavam em sua cabeça para ter

um lugar privilegiado na atenção daquele homem.

Foi no corredor daquele lugar, e o gerente local fitou o seu

obstáculo com ódio e surpresa! Seu modo garboso e inquisitivo de

andar foi surpreendido por uma visão ameaçadora! Algo que não

era usual, pois não via nele o olhar assustado com que os outros

funcionários o olhavam.

Um ente maligno que não se sujeitaria a qualquer imposição

que não fosse justa e baseada na lei.

Uma figura ameaçadora, à visão do gerente, oriunda do próprio

inferno e esculpida no fogo do capeta, que sabia dos seis direitos

e olhava nos olhos sem abaixar a cabeça e demonstrar submissão

humana, tal qual um cão ao seu dono!

Uma aura que pairava sobre um corpo sinistro, capaz de se

opor ao sistema se a sua honra e seus princípios assim desejassem!

Envergonhando o rosto de quem é iníquo e se deliciando com o

resplandecer da constitucionalidade!

Ele viu imediatamente a necessidade de reduzir o brilho daquele

ente diferenciado que se tornaria uma ameaça à sua autoafirmação

de poder e de imposição de uma imagem de adoração santa naquele

ambiente.

Então foram cassados quinze dias de férias que ele iria tirar no

meio daquele ano para providenciar ocasamentocomsua noiva. Para

executar a tarefa, selecionou um funcionário de sua total lealdade,

o gerente de setor Alisson, que mandou suspender suas férias,

alegando diversos fatores não consolidados, como a necessidade de

aprender um serviço que o novato já dominava melhor que muitos

outros funcionários que passaram pelo setor.

Na verdade, não haviamotivo para cassar essas férias. Era apenas

a necessidade de mostrar quem tinha poder naquele ambiente, que

suas ações eram pautadas em seu interesse e que sua visão pessoal

deveria sempre prevalecer..

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


O gerente respirou aliviado, acreditando que sua arbitrariedade

iria lapidar o olhar constitucionalista daquele rapaz, e os

problemas de uma liderança popular estariam encerrados de uma

vez por todas.

O fato provocou um desagrado muito grande em sua noiva que

já vinha demonstrando descontentamento por morar muito longe

e iniciou-se um ciúme que em poucos meses iria colocar fim ao

relacionamento.

Embora triste num primeiro momento, continuou realizando

o seu trabalho, contudo sem se prestar à fidelidade cega, antes

disso, possuindo uma isenção intelectual e moral que às vezes

conflitava com o que era imposto pela gerência com arbitrariedade

e truculência.

Não aceitava irregularidades. Era uma mancha em seu caráter

encobrir a ilegalidade impositiva.

Não se sujeitava a se prostrar em terra e adorar o falso deus

que o incitava a tal ato de submissão como única forma de obter

privilégios ou até mesmo condições de trabalho dignas.

Então, meses mais tarde, o chefe de setor Alisson determinou

que ele fizesse os apensos de chegada ao serviço com atraso de

quinze minutos de um funcionário muito amigo de todos, o Paulo

Pirre, para que isso fosse imediatamente descontado em seu salário.

Mas todos sabiam que houve o atraso devido a um acidente de

trânsito, e que a polícia local tentava, a todo custo, providenciar

um guincho para retirar um caminhão tombado. Pirre ligou para

o trabalho avisando, e isso para o novato era uma justificativa

plausível e provada, afinal a notícia havia saído até no jornal da

manhã naquele dia, não sei se você se lembra desse fato.

– Claro que me lembro! No horário do almoço também passou

no jornal naquela televisão antiga que ficava no canto da cantina,

pendurada numa armação.

– Exatamente!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

25


26

Então, foram confeccionados os apensos, mas com a justificação

do atraso por escrito e assinada pelo novato, e que não haveria

motivos para a redução do salário.

A notícia se espalhou na empresa e muitos funcionários

admiraram a nobreza de espírito do colega em não prejudicar

injustamente o que se atrasou.

Paulo Pirre, que tinha família e dependia do seu salário mais

do que qualquer outro funcionário da empresa, veio agradecer

pessoalmente, dizendo que nunca havia recebido um gesto de tanto

profissionalismo naquela repartição, e soube reconhecer um grande

espírito de liderança naquele profissional.

Parece que todos estavam tão acostumados ao sistema imperial,

impositivo e arbitrário da gerência, que algo diferente que tivesse

respaldo legal era uma novidade a se comentar.

O ódio iminente do chefe Alisson se fez demonstrar mais

abertamente quando, após esse incidente, mudou o novato de setor,

colocando-o para trabalhar diretamente com o público externo da

repartição.

Masoquehaviasidoprojetadoparatrazertranstornosaonovato,

tornou-se sua maior fonte de influência! O gerente imaginou que ele

teria problemas de relacionamento com o público, por ser autista.

Idealizou que da sua dificuldade de falar resultaria um desastre

ao trabalho e haveria como retroceder à condição funcional de

novato. Ele não falava muito no interior da empresa. Chegava,

assumia a função e se preocupava muito em terminar o serviço, não

sendo visto em conversas pelo corredor.

Contudo, não sabiam de sua condição social, já inserido em

ambiente de contato frequente com artistas, escritores, filósofos,

ambientalistas e políticos, aos quais se ligava em busca da

consolidação de seus ideais e para conciliar com outros pensadores

o exercício cada vez mais frequente da cidadania, cobrando do

Poder Público a execução de obras destinadas à proteção do meio

ambiente e à melhoria da qualidade de vida da população.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Trazia propostas inovadoras com soluções inteligentes e de

fácil aplicação, as quais agradavam justamente por isso! Ele não

falava muito no serviço, aos olhos da gerência, mas era uma pessoa

de eloquência admirável!

O público passou a gostar da sua presença, cada vez mais

constante nas rodas da sociedade, onde recebia convites para festas

e eventos de grande importância, deixando cada vez mais apagado

o brilho do gerente. E este, inutilmente, tentava reduzir no novato o

desejo de trabalhar, ordenando ao Alisson que, de tempo em tempo,

fossem feitos apensos contra qualquer ato que fizesse, mesmo que

não fosse verdade, só para dar-lhe o desprazer de ter que se explicar.

Havia algo subentendido no ar sobre quem fizesse um bom

apenso em desfavor dele, e se este chegasse à punição, seria bem

visto aos olhos da chefia. Esse clima pairou entre alguns dos que

eram leais à chefia da repartição, principalmente o Alisson, mas

havia também aqueles que não tinham ânimo para prejudicar o

novato, pois viam nele uma grande liderança e alguém que estava

na repartição para executar um trabalho de qualidade cada vez

melhor! O Cris era assim. Um funcionário com muitos anos de

serviço e experiente sobre os assuntos da repartição.

Cris tinha sempre bons conselhos sobre prudência e juízo,

era quase um advogado! Mas sempre esbarrava no fato de não ser

o gerente da repartição, antes de tudo subordinado às ordens do

Wladmir.

Embora não concordasse com muitas ordens, seguia a todas,

procurando exercer sempre uma influência sobre as decisões finais

da gerência, pois havia sido funcionário na empresa durante toda

a sua vida e sabia das consequências nocivas em se desagradar o

público interno.

E foi assim que um dia um funcionário efetivo na repartição,

o James, apresentou um apenso contra o novato, alegando que

este deixou de realizar seu serviço com retidão, ao contrário, se

esquivando de produzir algumas planilhas de sua conferência,

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 27


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referentes a balanço do período de trabalho da Semana Santa, que

resultava em alteração da produção de todo o bloco intermediário.

Mais que isso, fez outro apenso contra o Paulo Pirre, alegando

que ele havia saído do seu local de trabalho sem permissão.

Na verdade, o James sabia que Paulo estava sob supervisão

do novato, e que ele havia autorizado que fosse até uma vendinha

próxima ao prédio para comprar lanche para todos os funcionários

do setor, frutas, pão, leite, amendoins que o novato adorava, e

queijo. Ao pedir auxílio ao novato, este o defendeu abertamente,

citando que estava na empresa para cumprir a rotina de trabalho,

para executar o exercício da função e que Paulo estava sob suas

ordens.

O que seria uma mera formalidade da repartição se tornou

um problema, haja vista que no dia relativo às planilhas o novato

não estava de serviço, e tendo comparecido para trabalhar no dia

seguinte já não estavam lá na saleta de reuniões os documentos

para confecção das planilhas. Dessa forma, não ficou sabendo que

deveria realizar tal labor.

Contudo, durante a apuração, o Alisson desconsiderou

qualquer prova que o novato apresentara, como a sua jornada

impressa de trabalho e o amparo constitucional de que estava sendo

desrespeitado, onde sugeria que nada fosse adotado de providência,

devido a não estar ciente do trabalho a ser realizado.

Essa foi depois de várias tentativas frustradas, a primeira

vez que em público, foram executados os apensos contra um

funcionário que conseguiu provar que o apenso era irregular,

mas a gerência queria impor sua condição de soberania de

qualquer forma, nem que para isso o Wladmir precisasse rasgar

a Constituição Federal ao meio e fazer a sua própria lei punitiva,

e foi o que fez.

Em outro embate, o novato produziu um documento ao antigo

gerente intermediário, que era uma pessoa muito aprazível e do

agrado de todos os funcionários, o senhor Alvarez, que chegou a

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


ficar na gerência da repartição na época em questão, antes de ser

promovido.

No documento, relatava inúmeras falhas na administração e

destinação de materiais que eram guardados sem nenhum cuidado

numa sala de reuniões, o que estavam provocando mofo, sujeira e o

risco do aparecimento de ratos, baratas e escorpiões no interior do

prédio.

A sala ficava no centro do prédio, entre o corredor da sala

da gerência, a saleta de reuniões e o almoxarifado. Realmente ali

havia muito material orgânico provocando sujeira, mofo, produtos

químicos e o risco a todos os funcionários do lugar.

Havia restos de comida e até materiais de fácil combustão

espalhados pelo chão. O cheiro do lugar era ruim e o chão estava

imundo! Havia teias de aranha, baratas, pão mofado, produtos de

limpeza, papéis e livros jogados sobre mesas e cadeiras.

E embora a ideia apresentada para a solução do problema tenha

sido acatada imediatamente pela simplicidade e eficácia pelo senhor

Alvarez que estava como gerente interino, o gerente da repartição,

Wladmir, não ficou contente, pois a manutenção daqueles materiais

naquela pequena sala era algo que interessava a um dos seus homens

de confiança, justamente o Alisson, pois se esquivaria assim de ter

que providenciar local adequado para a guarda e destinação dos

materiais orgânicos que eram ali depositados.

Com isso, determinou que fosse proibida a entrada do novato

naquela sala, ou que se inteirasse dos assuntos relacionados a

materiais, impedindo assim que fiscalizasse se não havia nenhuma

outra irregularidade que comprometesse a saúde e o bem estar de

todos.

Havia a iminência de uma promoção de cargos naquele ano

pelo gerente geral da empresa, devido à abertura de novas vagas.

O gerente local da repartição, Wladmir, se empenhou para que

o novato não viesse a ser promovido, chegando a externar isso a

um de seus homens de maior confiança, citando ser do interesse

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 29


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da gerência que o funcionário não fosse promovido senão exerceria

uma influência negativa à visão da gerência entre os demais

funcionários.

E de fato o excesso de confiança naquele funcionário foi um

duro golpe, pois foi justamente quem o traiu, contando a notícia

a outros funcionários e logo chegando ao conhecimento de todos.

Carlos era namorado de outra funcionária da repartição,

Valéria. Tinha um bom conhecimento de leis, e sabia que ali naquela

repartição estavam ocorrendo muitas arbitrariedades. Quando o

desejo do gerente foi externado, abandonou de si qualquer lealdade

que possuía ao chefe e se desviou do caminho de auxiliá-lo a

continuar com a execução de seus atos de excessiva nocividade em

relação aos funcionários do lugar.

E Carlos criou coragem para deixar perceber que já não era leal

ao regime autoritário que se instalou na repartição.

Wladmir determinou então que o gerente direto Alisson

fizesse contra o novato uma avaliação de eficiência ruim, mesmo

que para isso fosse necessário mentir nas informações. Isso o

colocaria num patamar mais baixo do que os demais que se

candidataram àquela promoção. O que ocorre é que o gerente geral

não conhecia pessoalmente todos os funcionários da empresa, pois

eram milhares. O que era relatado pelos gerentes, era acatado pelo

gerente geral, entendendo esse que os seus homens de confiança

seriam leais e justos em relação aos seus subordinados, assim com

era com eles em todos os aspectos.

O desejo do gerente Wladmir de prejudicar o novato já era

do conhecimento de toda a repartição, pelo que foi exposto pelo

Carlos no vestiário.

Aliás, a avaliação foi tão ruim e com teor tão tendencioso

em relação à produção profissional do novato, que provocou

comentários nos demais funcionários até das outras repartições

que compunham o bloco.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Foi se queixar ao gerente intermediário, o senhor Tarcísio, que

o aconselhou a procurar trabalhar de acordo com o que o gerente

Wladmir queria ou então teria problemas naquele lugar.

Tarcísio era um homem de idade bem avançada, conivente com

todos os atos de abusoe restrição de direitos cometidos pelos demais

gerentes de repartição na composição do bloco intermediário.

Só o que lhe interessava era produção constante, embora quem

produzisse estivesse descontente. Estava para se aposentar e já

não tinha interesse em tomar partido de nenhuma causa trazida

pelos funcionários de alguma repartição. Mas por educação sempre

recebia os funcionários que o procuravam.

No vestiário alguns colegas de trabalho o aconselhavam a

tentar mudar de repartição, conversando novamente com o senhor

Tarcísio, pois era claro que estava sendo perseguido pela gerência e

seus homens de confiança.

E foi o que fez, procurando melhorar as condições de trabalho

procurou um interessado em trocar de lugar em outra repartição,

levando os nomes pessoalmente ao gerente Tarcísio, que o atendeu

com cordialidade e disse que iria providenciar que fosse feita a

troca, porém o gerente Wladmir negou, alegando que não poderia

dispor de seu funcionário mais experiente no serviço e ceder vaga

ao que o que viria em seu lugar.

Até mesmo os homens que compunham o círculo superior

estranharam a negativa do Wladmir, contudo eram submissos

demais para perguntar. Não queriam questionar uma visão de

gerência daquele que por conveniência ou passividade admiravam

como a um deus.

Meses depois, um dos homens de confiança do gerente acusou

o novato de ter dito algumas coisas a respeito da gerência, com

caráter depreciativo à imagem do gerente Wladmir, e a acusação foi

amplamente acatada pela gerência que mandou descontar no salário

do funcionário alguns dias de pagamento, a título de punição.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 31


A incredulidade da acusação perante os demais funcionários

gerou uma sensação de insegurança dentro da repartição, que se

tornava pouco a pouco um regime ditatorial. Não havia nenhuma

prova contra o funcionário e mesmo assim os apensos foram

acatados como de ordem punitiva direta. Foi a segunda vez em

que o Wladmir rasgava a Constituição Federal a seu bel-prazer

e gozava o fato de ser uma pessoa cretina pela própria natureza,

rejeitada pela decência e moral!

Com isso, vários funcionários pediram para trocar de repartição.

Messias, Valéria, Carlos, Solto, Cheres, Kaio, Praxedes, Paulo Pirre,

Jorge Soares e muitos outros bons funcionários, mas que não eram

a imagem e semelhança da gerência, os quais presenciando de perto

o que vinha acontecendo com o novato, sentiram a necessidade de

sair daquele lugar com urgência. Sentiam que suas vidas corriam

perigo naquele lugar. Não havia respeito aos direitos humanos, e a

arbitrariedade era sempre acobertada por quem tinha o poder.

O Júnior estava para se aposentar, por isso começou a

desagradar o gerente Wladmir abertamente, expondo todas as

suas insatisfações guardadas há muito tempo naquele ambiente

autoritário, regime de servidão, porque sabia que o gerente já não

poderia mais ousar nas suas perseguições e arrogância.

O Rayner saiu da repartição após discutir com o gerente

Wladmir, chegando até a colocar o dedo no rosto dele e exigir

respeito por parte do chefe. Nesse dia houve uma grande discussão

e outros funcionários precisaram conter os ânimos dos dois.

No evento mais gritante de abuso, o funcionário Messias quase

foi demitido depois que um dos carros da frota da empresa fundiu o

motor, e houve um consenso da gerência em alegar que a causa teria

sido o descuido do funcionário com os bens materiais da repartição.

Isso ocorreu logo após o funcionário ter sido visto conversando

com o novato em caráter confidencial no vestiário pelo James que

passando pelo corredor ouviu parte da conversa.

De fato a frota de veículos era muito mal acondicionada, em

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

32


garagens a céu aberto e sem mecânicos próprios da empresa, sendo

contratados serviços terceirizados que melhor compensassem no

preço e nas formas de pagamento.

O gerente consentiu que todos os que pediam fossem trocados,

pois não lhe eram submissos. O câncer representado pelo novato

já havia lhes tirado o medo dos olhos e do coração e se tornaram

pessoas de opinião formada, ou seja, já não serviam para a gerência.

E nessa troca de peças deixou o pensador em situação difícil, pois

era o único que não conseguia sair dali, mesmo com inúmeras

tentativas frustradas.

A repartição agora tinha um déficit de funcionários muito

grande, o que provocaria maior carga de trabalho nos demais para

compensar as perdas de recursos humanos.

Enfraquecido de apoio, tendo em vista que todos os que não

eram leais ao sistema ditatorial imposto pelo gerente Wladmir

tinham ido embora, já não havia mais defesa contra os ataques

idealizados por ele.

O gerente estava cego pelo poder! Já não se preocupava com

mais nada, apenas vencer a guerra de imagem e liderança.

O gerente queria demonstrar poder usando como exemplo o

novato. Era necessário à sua autoafirmação de força e soberania que

o motivo de seus desgostos hedonistas fosse massacrado na frente

dos demais funcionários com ilegalidades cada vez mais ultrajantes

e um assédio moral que escapava a tudo que fosse previsto nas leis

trabalhistas em vigor.

Isso garantiria de vez a afirmação de poder e representatividade,

pois submeteria toda a repartição à submissão plena e cega aos

caprichos do gerente Wladmir.

Mas um incidente minou o intelecto maligno daquele homem

tão nocivo e uma organização importante mandou através de

carta registrada à repartição um convite para uma reunião seleta

com a cúpula de uma organização influente na cidade, e o convite

era justamente direcionado ao novato. Seria tratado de assuntos

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 33


envolvendo propostas ao Poder Público para a melhoria das

condições de trabalho de cavalos no município, cuja pretensão seria

o veto à tal exploração, além do plantio de uma grande quantidade

de árvores. A reunião seria presidida por um vereador do município,

muito influente em causas relacionadas ao meio ambiente e recursos

naturais.

Um desgosto como esse! Como é possível? Justo agora que

estava tudo indo tão bem para os planos pessoais cravados dentro

da repartição.

Sentindo-se impossibilitado em negar o pedido, e procurando

esconder das entidades externas tudo que estava operando na

repartição, à margem da lei e do caráter, liberou o funcionário no

dia e hora marcados para o encontro, a fim de agradar à cúpula, e já

planejando uma forma de tentar minar qualquer eventual convite

posterior.

Contudo o encontro havia sido um sucesso! O pensador

compareceu bem vestido, num terno de cor escura, gel nos

cabelos e barba bem feita! Foi muito elogiado pelas ideias que

demonstrou para a modernização do quadro produtivo de vários

seguimentos! Praticamente discursou todas as viabilidades do

novo projeto de lei acerca dos semoventes. Apresentou como

viabilidade que o plantio das árvores fosse feito junto às escolas,

como forma de conscientizar os alunos para a preservação

ambiental e garantir maior participação popular nos atos de

cidadania. E tendo apresentado inovações tão notáveis, recebeu

outros convites para representar o seu seguimento de trabalho,

deixando o gerente possesso de ódio, pois em pouco tempo

notava-se claramente que sua imagem era venerada somente

no interior da repartição, pois havia implantado seu regime

ditatorial, através da inquisição e do medo, mas que fora dali

havia todo um mundo que não lhe era submisso, e que não se

conquistava pela opressão e sim pela eficiência e liderança, pelo

34 carisma e prestatividade! rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


E o câncer que representava os ideais do pensador começou

a influenciar no modo de pensar de alguns funcionários.

Estes foram percebendo pouco a pouco que possuem direitos

profissionais, e que o gerente Wladmir não era um deus e sim

uma pessoa de carne e osso. Que a ditadura moral somente

conduziria suas vidas ao infortúnio. Que ele era um funcionário

da repartição e não o dono dela. Nada ali era dele e sim dos

acionistas que todo mês injetavam dinheiro na empresa. Que o

assédio profissional para forçá-los a execução de atitudes que

visam agradar seu bel-prazer, e o cunho pessoal de seu desejo

de autoafirmação de poder, jamais seriam concretizados se não

houvesse a participação de suas pessoas, na passividade das suas

emoções, pois de outro modo o brilho dele cada vez mais iria se

reduzir, até se apagar por completo, como estrelas que morrem

nos confins do universo, e aquele regime ultrajante de assédio

moral se extinguir.

E num acesso de fúria, o gerente acionou o gerente

intermediário, alegando que o pensador o havia caluniado, sendo

então encaminhada à decisão do bloco intermediário a demissão do

funcionário.

Como era de praxe, havia a necessidade de decisão judicial

sobre o caso, porém como não havia prova alguma o processo de

demissão nem sequer foi instaurado, sendo arquivado logo que deu

entrada na esfera judicial.

Foi aí que a greve branca começou diante do último desaforo

cometido pelo gerente Wladmir.

Em pouco tempo os resultados da produção da repartição

caíram drasticamente, não pela vontade do pensador, e sim pela

própria revolta social e moral que as ações do ditador começaram

a despertar em todos. Os números caíam consideravelmente

em comparação com os balanços apresentados pelas outras

repartições espalhadas por outros locais e que compunham o

bloco intermediário.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

35


Em poucas semanas havia mais de trezentas ordens de

serviço aguardando cumprimento sem, contudo haver qualquer

manifestação profissional mais efetiva dos funcionários ligados à

execução do serviço para cumpri-las.

Então houve a queda do Alisson, como uma resposta do

gerente Wladmir aos acionistas, que começavam a pressionar

por melhorias na qualidade do serviço, e para tentar acalmar os

ânimos dos funcionários. Foi notadamente uma prova de que o

império que se consolidou naquele lugar não era permanente,

e que a imposição do assédio moral somente aconteceria se os

próprios trabalhadores permitissem, deixando de correr atrás dos

seus direitos.

O Alisson havia caído devido à presença do novato. Isso é certo.

E todas as suas tentativas frustradas de eliminar a concorrência

do novato na liderança, acabaram por conduzi-lo ao fracasso e à

humilhação de sair da repartição pela porta dos fundos, tendo os

funcionários subalternos comemorado a saída de um funcionário

tão prejudicial à paz e à harmonia!

Ele era um homem de idade avançada, com muitos anos

de serviço na repartição, porém de índole muito prejudicial a

todos! Não procurava ser gentil ou cortês em nenhuma ocasião.

Descumpria promessas de folga ajustadas, mandava caçar férias e

não se preocupava em ser querido na empresa, antes, sentia-se feliz

por ser odiado e temido. Não possuía a mínima carga cultural que o

ajudasse a promover justiça no ambiente de trabalho, onde exercia

a chefia direta de cerca de quarenta funcionários.

Contudo, era um dinossauro que chefiava os seus funcionários!

Uma pessoa cheia de falhas moraisequese encarregara pessoalmente

de procurar prejudicar o novato de todas as formas possíveis, até

que suas tentativas frustradas foram se esgotando, pois sempre

deparava com um funcionário moderno, cheio de conhecimentos

técnicos e de disposição para lutar por seus direitos quando

36 houvesse alguma ilegalidade. rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Com a queda de seu homem de confiança, seu império

desmoronou, e o gerente já não exercia poder sobre todos os

funcionários, restando apenas alguns leais, como o Fábio, que

assumiu a vaga deixada pelo Alisson. Era um serviçal capaz de

sacrificar a vida para agradar a gerência, almejando, com isso, várias

subidas de cargo, abrindo mão inclusive de seus escrúpulos para

ser leal a qualquer preço; o James, que era um misto de boa pessoa e

capacho bajulador, estando sempre em desarmonia com sua própria

predominância de caráter; o Cris, que, embora leal, conservava um

caráter que não se subjugou, antes disso, tentando sempre debater

com o gerente por uma solução menos prejudicial a todos, sendo

sempre vencido pela imposição, o Nicolau, que era justamente

quem controlava todos os apensos. A queda do Alisson foi uma

resposta aos acionistas que começavam a pressionar melhorias na

repartição.

Os outros funcionários ficaram no anonimato, por medo da

gerência ou da ameaça em potencial ao regime de imposição que se

instalara na repartição devido à greve branca.

No fim daquele ano, houve uma festa de confraternização

entre os funcionários, sendo convidado o novo gerente do

bloco intermediário, senhor Barcelos, que assumiu a vaga após a

aposentadoria de Tarcísio. A divisão social existente na repartição

ficouevidente,aopassoquesomentecompareceramosqueaindaeram

submissos ou leais ao gerente Wladmir, ou que temiam represálias

e procuravam se socializar, sem, contudo, tomar partido pela

direita ou pela esquerda na causa que dividiu o lugar em dois polos.

As famílias dos funcionários em questão compareceram à festa

e apenas alguns dos presentes ousou comentar sobre as ausências

generalizadas, embora o clima entre os funcionários tenha sido

notável!

Eram esperados uns duzentos funcionários, os quais levariam

ainda os familiares. No entanto, pelo que foi comentado sobre o

evento, havia na festa os seguintes funcionários:

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 37


Da base aliada à gerência: Fábio, James, Nicolau, Cris, Pontes

e Juliana.

Dos funcionários de classe mais inferior: Sérgio, Vicente, Paulo

Mateus, Roberto, Sanches, Oscar, Demétrius, Solange, que era uma

fofoqueira repudiada por quase todos os funcionários, Castilho,

Queiroz e Samuel.

Contando todos os funcionários presentes e suas famílias, não

chegava a cinquenta pessoas. Com isso, uma grande quantidade de

mesas ficou vazia e o clima, pesado.

Sobrou comida e bebida. Até mesmo o que era mastigado

descia pela garganta com dificuldade, embora pudesse estar

saboroso.

O novo gerente do bloco intermediário desaprovou as ausências

e cobrou do gerente Wladmir uma mudança de postura na empresa.

Na verdade, o novo gerente era nos moldes do gerente local, uma

pessoa que ambicionava cada vez mais poder e admiração. Tinha

interesse naquela confraternização para ser o centro das atenções,

e se viu reduzido em importância, pois as cadeiras vazias chamaram

mais atenção que sua presença. O que o diferenciava do Wladmir

era a apreciação da legalidade quando esta lhe era conveniente. Isso

porque em alguns momentos, para a garantia de sua supremacia,

ousou também restringir direitos de alguns. Os funcionários que

havia chefiado costumavam chamá-lo de “o semideus”, devido

ao fato de não aceitar intervenção, chegando, muitas vezes, a

desconsiderar os acionistas e a vontade do gerente geral; trabalhava

apenas conforme sua própria vontade.

Todos saíram da confraternização com a certeza de que

era necessário tirar o pensador daquele lugar. Ele deu àquelas

pessoas o poder de pensar e questionar o sistema, e esse espírito

de cidadania, embasado na lei, na honra e no caráter, eram males a

serem combatidos a qualquer custo.

Alteração de horários de trabalho, grande quantidade de

apensos cujo teor cada vez mais ilegal já não demonstrava a

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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veracidade dos fatos e sim o desejo ardente de sangue e sofrimento,

carga de trabalho mais pesada em relação aos demais funcionários,

reduções de salário, assédio moral, abusos de poder, impedimento

de acesso ao público externo, acusações tendenciosas, calúnias,

negação de férias regulamentares, horário extra sem fundamento

para correção de trabalhos não realizados ou terminados com

imperfeições, acusações de baixa produção e até mesmo a desculpa

da gola da camisa estar amassada...

Ah! Com o passar dos anos a carga de stress foi proliferando

na cabeça do pensador, a ponto de ele começar a beber

descontroladamente! A bebida era um refúgio a todas as agruras

que aquele lugar proporcionava!

O cigarro, também companheiro inseparável dos momentos de

depressão, teve seu consumo aumentado dia após dia.

Não entendo até hoje, e juro que não, como esse funcionário

ainda encontrava forças para chegar de manhã e ainda ir lá

colocar frutas para as maritacas que vinham até ele com alegria

e barulho.

Ele estava pálido! Magro! O rosto descontente...

Finalmente as férias de período lhe foram concedidas, o que

se deu na época de reforma da repartição, e a gerência gostaria de

contar com a participação efetiva, quase escrava de todos. Como o

pensador questionaria demais, acabaram desistindo de convocá-lo

naqueles dias.

Nesse meio tempo, o novato foi vítima de uma tentativa de

latrocínio, justamente no dia em que vendeu o carro para comprar

outro mais novo. O ladrão havia entrado em sua casa para roubar

o dinheiro e acabou ferindo o braço do pensador com uma arma.

E, fugindo logo em seguida sem levar o dinheiro que estava bem

escondido, acabou sendo preso pela polícia que passava pelo local

e foi acionada por moradores da rua onde tudo aconteceu. Mesmo

estando de férias naquela época, fez questão de comunicar o fato à

empresa.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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40

O fato foi veiculado em jornais, e o gerente Wladmir acusou o

pensador de ter prejudicado a imagem da repartição, cujo nome foi

noticiado, e, com isso, tentou mais uma vez que o funcionário fosse

demitido.

Diante desse fato, o pensador procurou o Genaro, que era

assessor de um deputado, para que usasse de sua influência junto

ao bloco intermediário para tratar do assunto dos assédios morais

que estavam ocorrendo e de todas as ilegalidades que vinham

acontecendo na empresa.

A repartição ficou na mira direta do poder público, e a

possibilidade de vir à tona a grande quantidade de abusos profissionais

ali cometidos fez acender o sinal de alerta dos gerentes.

Com isso, o gerente do bloco intermediário viu-se obrigado a

transferir o pensador para outra repartição, e esse, em sua saída,

levou consigo todo o brilho que ainda restava na seção. Mais que

isso, outros quinze funcionários pediram para mudar de lugar.

A motivação para o trabalho nos funcionários foi reduzida a

nada: pilhas de ordens de serviço, algumas urgentes, ficavam dias

sobre a mesa da saleta de reuniões, apesar de a gerência ter-se

esforçado ao máximo para incutir-lhes o desejo de trabalhar, ora

com concessões, ora com autoritarismo, não tendo obtido sucesso

em nenhum dos casos. Boa parte dos funcionários que ainda

restaram pediu a troca de repartição, alegando não ter condições de

trabalhar com a atual chefia.

Isso foi novidade! Antes, todos os que pediram transferência

alegaram inúmeros outros motivos, mas dessa vez a revolta social

era evidente! O espírito de democracia havia sido despertado nos

funcionários!

Até os passarinhos deixaram de visitar aquele local, tendo

voado para tão longe que nem nas ruas próximas, nem na copa das

árvores eram vistos. As maritacas já não agitavam as manhãs com

seus gritos alegres.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


As árvores ressecadas foram podadas por ordem da gerência e o

clima ficou mais quente e seco em todas as salas.

Na verdade, só Deus soube os motivos pelos quais o gerente

do bloco intermediário, senhor Barcelos, manteve no cargo o

gerente Wladmir, mesmo com tanta rejeição de todos, a ponto de

os funcionários se manterem em greve branca.

O tempo foi passando e, após três anos, o estado emocional do

pensador já estava bastante debilitado devido ao assédio moral e ao

abuso de poder perpetrados contra ele na antiga repartição.

Foi bem recebido no novo local de trabalho, porém as marcas

recentes ainda demorariam muito para se apagarem.

Será que em todo lugar seria assim? Será que em todas as funções

haveria perseguição, especialmente quando houvesse conflito de

pensamentos e técnicas de trabalho, ou quando alguém conseguisse

se destacar, embora não fosse mais que um mero empregado?

Solidão... vem e arranca as esperanças do coração do homem.

Depressão aguda que vira inferno ou vira céu, leva embora o

sorriso dos lábios e provoca a falta de sono e de apetite durante

quatro dias.

As decepções com a vida e com o trabalho foram só

aumentando... Não poderia sair do emprego sem conseguir outro

lugar para trabalhar. Via-se de alguma forma preso ao sistema e sem

condições de sair dele, e agora, após o cansaço dos combates por

justiça, temeroso de represálias.

Mas, em momento algum vendeu seu caráter nem sua honra,

e não se submeteu à imoralidade ou à ilegalidade que tantas vezes

lhe foram determinadas como doutrina. Essa sempre foi sua fonte

maior de energia para resistir, e sempre será, independente de onde

estiver!

A vida há de proliferar os dias dos pensadores para que

possam, com coragem e determinação, mudar os rumos do mundo e

reduzir as forças do mal sobre os mais necessitados.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 41


CAMPO MINADO

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E, no início, o homem criou o ciúme! Havia uma testa frisada

pelo juntar das sobrancelhas, e os lábios ressecados se mordiam a

cada nova conquista.

Antes tudo era pacífico, mas o surgimento de uma Supernova

abalou a paz de todo o universo. Um brilho reluzente como

sorriso alvo, cativante pairou no centro da galáxia e seu discurso

semelhante à poeira dos astros chegava aos ouvidos como cantilena

suave e agradável!

E então, houve um choque tão brusco que todo o universo ficou

em brasas...

– Senhor! Acorde!

Onde estou?...(voz descompassada) Que lugar é esse? Eu estava

sonhando com um universo... vários astros...uma explosão muito

grande onde as faíscas se espalharam e algumas estrelas ficaram

perdidas...que lugar é esse?

– A sua família está na recepção. Querem vê-lo.

– Que estou fazendo aqui...?

– O senhor está internado numa clínica psiquiátrica. Está

dormindo há dois dias em virtude de remédios e de um forte impacto

que recebeu em seu corpo.

Caminhando com dificuldade e sem conseguir um raciocínio

lógico sobre os fatos, cheguei até uma sala. Lá estavam alguns

parentes que haviam trazido objetos de uso pessoal, tais como

roupas, desodorante, pasta de dente e alguns biscoitos e doces.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


E disseram que eu estava internado naquele lugar por estar

com problemas sérios de depressão causada por perseguição no

ambiente de trabalho e por outro motivo que não quiseram revelar.

– E quem está cuidando dos meus animais?

– A prima Sara está cuidando deles. Não se preocupe que tudo

está bem. Fomos até sua casa, pegamos os animais e os levamos

para a casa dela, onde ficarão em segurança até você se recuperar

do trauma.

Sentindo dificuldade de falar devido aos fortes sedativos que

nem sei quantas vezes foram aplicados em meu corpo, preferi

permanecer em silêncio, apenas ouvindo.

Logo veio um funcionário com uma ficha de internação para

que eu assinasse. Eu procurava ler o que estava escrito, mas meus

olhos embaçavam após algumas palavras. O funcionário disse que

era apenas o consentimento de internação. Que o enfermeiro da

ambulância conveniada com o meu emprego relatou que o pedido

de internação havia sido feito por mim e por isso eu teria que assinar

o documento, consentindo com o tratamento.

Que campo minado repleto de bombas é a minha vida! Não

posso confiar em ninguém. Jamais consenti em ser internado.

Estavam me colocando naquele lugar contra a minha vontade, mas

naquele momento eu estava muito fraco para tentar alguma coisa.

Percebi que não tinha condições de me opor a nada. Era como se

somente meu corpo tivesse vida, e minha alma estivesse morta e

sem brilho.

Assinei o documento e a letra saiu forçada! Os dedos não se

mexiam com naturalidade. Sabe-se lá o que havia na injeção que foi

aplicada em meu braço direito! O que dá a essas pessoas o direito de

fazer semelhante atrocidade com alguém e não haver qualquer tipo

de punição? Produzem loucos a partir de pessoas normais abaladas

por algum problema que muitas vezes não tem nada a ver com a

loucura.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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44

Dois dias direto dormindo! O que é isso? Que tipo de veneno é

esse que foi injetado em minha veia? Para depois o médico escrever

o que quiser em minha ficha, com base apenas em seu interesse

pessoal ou profissional. Talvez seja por este mesmo motivo que

todas aquelas pessoas que estavam no ambulatório foram se

transformando em espectros, após a aplicação do veneno.

O cumprimento das ordens, mesmo que ilegais, unicamente

para que o sistema continue operando com todas as regalias da

classe que comanda, num fechamento que passa por cima até

mesmo das leis vigentes. Isso tudo é disciplina. Não a disciplina que

vem de ser íntegro, lastreada na boa educação, e sim a disciplina

de ser discípulo, de seguir fiel e prontamente o que é determinado,

conivente com a mentalidade de quem está no nível do governo.

Por isso é um campo minado. Um esquema de pirâmide, onde

poucos têm privilégios e a maioria carrega fardos mais pesados que

o próprio corpo.

Jamais segui de maneira cega qualquer ordenamento ou

sistema, pois acredito que isso se denomina fidelidade cega, e retira

do homem a sua personalidade, transformando-o num reles objeto

de uso pessoal.

Fidelidade é, antes de tudo, saber se opor ao sistema quando

há ilegalidade. Há, contudo, a forma leal e a forma desleal. Lealdade

é pautar-se na lei para agir em sociedade dentro de um conjunto.

Qualquer coisa que fuja disso, que não dê o direito de uma das

partes manifestar o pensamento ou expor opiniões, técnicas que

vão melhorar a execução do sistema, não pode ser considerado

fidelidade e sim escravidão moral. Qual é a legalidade de um

sistema baseado na inquisição e na imposição? Um assédio moral

que coíbe qualquer conduta que não vá agradar à cúpula?

Por outro lado, seoindivíduoinserido no todo sabeser discípulo,

embora perca toda uma vida de liberdade de trabalho para ser

unicamente um instrumento, não pisará nos artifícios deixados no

campo, pois são armadilhas contra os inimigos. Inimigos que não

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


impunham armas, e sim livros, não usam coletes à prova de balas,

ao contrário, levam flores nas mãos para oferecer, mas pensam, e

o mundo dos pensadores é ambiente de perseguição repleto de

mágoas e desejos. Um local de sonhos e aspirações à aceitação dos

ideais.

Os idealistas conseguem mudar o mundo, mas somente depois

de muito sofrer com prisões e perseguições. O abuso caminha lado a

lado com os idealistas. E quando os idealistas caminham um pouco

mais para a direita, a corrente de abusos que tenta prendê-los no

trajeto em linha reta se arma, repleta de instrumentos cortantes

que rasgam a carne e procuram sugar a determinação dos ideais.

Quando os idealistas então decidem ir para o lado esquerdo a

outra corrente já está armada como um cão feroz que tenta intimidar

e empunha seus instrumentos de guerra.

Desde o princípio da existência social, é dessa forma que as

mudanças são feitas. Sempre à custa de muito sangue derramado, de

muitas lágrimas, e, embora os ideais dos pensadores não se abalem

pelos chicotes do arcaísmo social em sua esfera mais representativa,

as chagas deixadas permanecerão por toda a vida.

Após conversar com os parentes, levaram-me de volta à cama e

dormi novamente. O efeito dos medicamentos era muito forte e até

os passos eram difíceis!

Mais algumas horas de sono e então despertei. Era um quarto

com seis camas de solteiro e em cada cama havia um paciente. Em

silêncio, caminhei até a porta do quarto, e havia um corredor com

vários outros quartos iguais, e pacientes em todos eles.

Estava numa clínica psiquiátrica. Aos poucos, fui recobrando a

lucidez dos pensamentos e procurando entender tudo o que estava

acontecendo.

Caminhei pelo corredor procurando pela cozinha e uma

enfermeira rapidamente trouxe algo para que eu comesse e me

ofereceu soro, devido à desidratação provocada pelo período em

que fiquei sem alimento. Lanchei um pão com manteiga, um copo

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 45


de café com leite, biscoitos trazidos pelos parentes e, em seguida,

bebi o soro.

Após um tempo, que não sei precisar quanto, sentado em um

banco, peguei uma roupa numa mochila que os parentes haviam

trazido e fui até o banheiro tomar banho. O banheiro masculino

possuía quatro boxes com privada e cinco boxes com chuveiro,

todos um ao lado do outro. Havia um grande espelho sobre a pia e

duas torneiras.

A água era muito quente, devido ao fato de ser um lugar muito

frio nessa época do ano.

A clínica ficava numa fazenda cercada de montanhas, nas

proximidades de uma rodovia.

Debaixo do chuveiro, procurava me lembrar de tudo o que havia

acontecido, porém não me recordava senão de entrar no hospital e

tudo o que me trouxe até esse lugar.

Meu corpo doía em toda a parte frontal, principalmente no

peito. A água do chuveiro ajudava a reduzir os efeitos da dor.

Meu rosto no espelho demonstrava a carência de vida. Parecia

um defunto de olhos abertos, e não havia brilho nos olhos. Tão feia

era a visão que não consegui ficar durante muito tempo olhando a

minha própria imagem e saí da frente do espelho de cabeça baixa.

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rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


SUICÍDIO

Após alguns dias, com as dores no corpo passando, algumas

recordações vagas começavam a brotar na memória. Um misto de

loucura e sensatez! Fatos esparsos, como um quebra-cabeça sendo

montado.

Diálogos, expressões de rostos, lugares, visões... tudo ainda

muito desconexo! Num instante, estava no trabalho, em outro, no

hospital, até que foram clareando os elos entre os fatos...

Lembrei-me do dia em que fui assaltado pela segunda vez,

quando saí de casa para ir ao centro da cidade. Ainda não havia

comprado o novo carro e, ao chegar ao ponto de ônibus, dois

homens armados numa motocicleta exigiram a carteira e a bolsa

que estavam em minhas mãos.

Nesse dia, foram levados todos os documentos e uma

considerável quantia em dinheiro, que seria usada para pagar o

aluguel da casa. Lembro-me de que, devido à comoção, nesse dia

não trabalhei, e de que foi no dia seguinte que tudo começou...

– Preciso de um carro pra me levar até o hospital. Não estou bem.

– Mas o que foi? Está com algum problema de saúde?

Nesse momento, arremessando objetos ao chão, o controle foi

escapando. As mãos começaram a tremular, e a cabeça se movia

com muita agilidade e nervosismo.

– Já disse que não estou bem, oras. Preciso ficar repetindo? Não

deveria nem estar trabalhando nessas condições de trabalho, no

meu atual estado mental.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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– Vou ligar para o gerente e verificar se ele pode te liberar do

trabalho hoje. Então você vai para o hospital em seu carro.

– Como quer que eu dirija nessas condições? Nem se tivesse

carro. Não está vendo o que está acontecendo? Preciso de que

alguém me leve até o hospital.

Lágrimas rolando pelo rosto delicadamente, ostentando raiva e

indignação por acontecimentos recentes que fizeram explodir uma

revolta interior e um rancor pela própria existência. Num segundo,

um soco no ar na direção do vazio.

– Olha, procure se acalmar. Vá lá em cima. Tome um banho.

– Não preciso que fiquem o tempo todo me ordenando as coisas!

Já disse que não estou bem e querem que eu vá tomar banho? Ora, vão...

Nesse momento, com um pouco de lucidez, saí da saleta de

reuniões aos prantos, subi as escadas e abri a porta do banheiro

com um chute.

Ao lavar o rosto e olhar no espelho, a morte falava comigo:

– Filho, prepare-se! Chegou o momento de me acompanhar.

Desça ao casarão sem demora...

Por um momento, observei aquela figura espectral com o rosto

semelhante ao de um homem desfigurado. Havia sangue ressecado

numa das narinas e um colar de espinhos aparecendo por baixo da

capa preta e suja de carne. A carne parecia podre e exalava almas

como fumaça saindo do corpo após um banho quente.

Passei as mãos nos olhos e, ao olhar no espelho, era minha

imagem que estava lá. Pálido! Sem vida! Sem motivos para sorrir ou

acreditar num mundo mais justo e digno.

Voltei para o lado da porta e uma voz dizia:

– Não se vá. Eu não estou lá fora. Estou dentro de você.

Loucura! Demência! Corri até meu armário e tirei rapidamente

o uniforme do serviço.

Quando desci as escadas, todos na repartição já estavam nos

seus afazeres do dia. Passei em silêncio, com o rosto e os cabelos

ainda molhados e uma grande sensação de ódio e de escuridão!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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Ao sair na rua, o motorista do primeiro carro que veio em minha

direção me acenou. Era uma figura também espectral e sem carnes

no rosto, apenas pedaços de pele podre. Passou por mim e meu

corpo bambo, agitado pelo vento, ainda titubeou até ir de encontro

ao veículo e se chocar contra o capô.

Tudo estava ficando muito estranho! O céu da manhã foi se

tingindo de um cinza cadavérico! As nuvens pareciam feitas de

muitos ossos humanos e, no alto, embora na realidade não estivessem

lá, minha loucura percebia abutres com bicos ensanguentados, cujo

sangue pingava e atingia meu corpo.

Das paredes do instituto de ofídios e estudo de animais

peçonhentos, saíam milhares de mãos tentando me puxar para

dentro e eu tentava escapar delas e dos abutres.

Escondi-me debaixo de uma árvore para que o sangue não me

atingisse, mas a árvore tinha muitos vermes em seu tronco. Eles

pareciam homens com lanças nas mãos, saindo de frestas no tronco

e tentando espetar meus dedos.

Muitos homens pequenos, usando armadura preta e tendo duas

lanças nas mãos, agitando-as contra o vento, vinham em minha

direção.

Corri sem rumo, tentando escapar das gotas de sangue e dos

vermes armados e, de repente, estava em outro lugar. Era uma

escadaria e várias pessoas passavam por mim apressadas, até

trombavam em mim, pois eu estava sentado no meio de um degrau.

As mãos estavam colocadas no rosto tentando escapar desse

momento tão difícil, de loucura.

– Levante-se! Veja que seu transporte já está vindo! Apresse-se

para tomar a condução.

Era uma voz diabólica, com ecos de sofrimento, chamando

no alto-falante que estava no teto, acima de minha cabeça. Ficava

repetindo as mesmas coisas o tempo todo.

Eu estava numa estação de metrô. Não sei em qual das

estações da cidade, mas de alguma forma fui parar lá, embora não

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 49


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me lembrasse de ter caminhado até o metrô. A última cena de que

consegui me lembrar foi de ter parado embaixo da árvore, tentando

escapar dos abutres.

Num instante depois, estava num céu negro, repleto de

estrelas negras que não brilhavam, ao contrário, tornavam

mais negros os horizontes do espaço sideral. Havia um pouco

de claridade somente onde não havia estrelas, porque elas

eram injustas! Aglomeravam-se e criavam uma constelação

impenetrável! Irredutível!

Lá no centro da constelação, vi a morte segurando um globo

com milhares de vozes. Era uma cena horrível, como se as vozes

fossem as almas aflitas cujas vidas se resumiram em desgostos e

decepções!

Ela usava um traje de gala, ostentando muitos títulos e brasões,

e, nas pontas do traje, havia mãos com unhas enormes, arranhando

o ar de forma ameaçadora!

Novamente meus olhos clarearam por um tempo...

Vinha um metrô, bem longe, encoberto por uma bruma. Só

era possível enxergar a luz branca. Cheguei até a beira da faixa

de segurança, enquanto a morte ficou do outro lado da linha me

chamando e tendo nas mãos algo semelhante a um globo, porém

de cor cinza e negro ao invés do azul do mar. Dessa vez, milhões de

vozes falavam e gritavam de dentro do globo. Era o mesmo globo

que havia visto antes, porém agora estava mais próximo. E era mais

nítido o casarão.

Ela dizia para não me demorar que logo estaria em casa.

Então, fui entrando num estado de transe eventual, que nada

mais parecia ter importância na vida. Lembrei-me da infância, dos

desejos que jamais foram realizados, das brincadeiras de roda, de

polícia e ladrão, de roubar bandeira, de pique-esconde e futebol.

Ao recordar a adolescência, vieram à mente o primeiro amor, as

aspirações sobre o futuro e o primeiro emprego que consegui numa

lojinha de sapatos lá naquele bairro onde passei a infância. Os

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


amigos que as estradas da vida levaram em busca do ouro em lavras

que talvez nenhuma riqueza vá proporcionar.

Porém, o sonho impulsiona o desejo aventureiro no coração de

cada um. E aquele que segue o seu caminho, a sua estrada, talvez

jamais volte ao lugar de onde partiu. Torna-se um errante pelo

mundo, sempre à procura de novas aventuras.

As antigas festas, as ruas do bairro, a simplicidade da vida

quando ainda não havia os problemas de relacionamento social, que

podem reduzir o próprio direito de viver e tornar a vida, de forma

sarcástica, no mero acatamento de imposições sem fundamento.

Um robô do sistema...

O mundo não é dos pensadores e sim dos escravos e de seus

respectivos senhores que os açoitam o tempo todo e não há revolta.

Quem pensa num mundo como esse e possui autonomia, torna-se

um problema a ser exterminado a qualquer custo. Um câncer no

meio do sistema regrado de autoafirmação de poder e de submissão

plena e cega.

Um jardim de flores se descortinou diante de mim na extensão

dos trilhos do metrô. Eles davam acesso a um lugar calmo, onde

borboletas voavam e pássaros cantavam. Uma brisa levava o

perfume de muitas flores que eram agradáveis e a morte havia se

transformado numa linda moça que segurava um raminho de flores.

Ela sorria vários sorrisos como que em sonho. Usava um vestido

longo tal qual donzela de romance!

Lá não havia sofrimento nem dor! Não havia motivos para

o choro nem para o desespero! Havia apenas um jardim imenso,

repleto de flores!

Embriagado de êxtase e excitação por um mundo melhor, uma

saída para os problemas que estava enfrentando, desci pelo trilho e

comecei a caminhar naquela direção agradável. Eu já não detinha o

controle sobre a minha vida.

Atrás de mim, vi um mundo negro, repleto de fantasmas

horrendos que não queriam se desgarrar do meu corpo. Parecia que

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 51


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a minha lágrima é que dava poder ao ódio estampado na face de

cada um deles.

Eles pareciam querer me puxar de volta, pois o poder estava se

esgotando em seus peitos sem coração, onde somente os pulmões

inspiravam a fumaça negra da poluição social. Era necessário que

eu fosse a fonte que alimentava o ódio, mas, sem minha presença, já

não haveria mais motivo para que esse existisse.

Olhei então para frente e novamente vi a figura daquela mulher.

Ela foi se desfigurando, caindo-lhe as peles do rosto. As flores

murcharam e seus espinhos entravam na carne dos braços, fazendo

porejar sangue negro e de cheiro ruim.

Um grito distante foi chegando aos meus ouvidos e de repente

não vi mais nada além do céu azulado, com um tom diferente, quase

roxo!

Havia um calor insuportável no chão e um gosto estranho,

como o cheiro do ácido, na boca. Uma sensação de coração batendo

forte, e as artérias e veias do corpo desesperadas, querendo jorrar

o sangue pelo corpo todo, como se a quantidade de sangue fosse

maior do que poderia passar por elas.

Até que tudo se apagou por algum tempo.

Estava na lembrança. Eu havia tentado suicídio entrando na

pista do metrô. Por isso, vim parar nesse lugar. A clareza dos fatos

era inevitável! Eu não me lembrava de nada, por causa do impacto,

mas certamente tinha sido arremessado pelo metrô. Então, tudo

fazia sentido: a dor no corpo, as pessoas, os lugares.

Finalmente minha lucidez começava a voltar e eu podia traçar

um raciocínio lógico de como tudo tinha começado.

De fato, eu não estava morto, mas meu coração e minha vontade

de viver estavam em cinzas! A vida é difícil e repleta de mágoas!

Muitas vezes, o desespero nos conduz a loucuras que podem atingir

muito mais do que a nós mesmos.

Mas eu não havia morrido. Pelo menos parecia que não.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Como o ser humano é tendencioso, seu desejo de ser importante

é mais valioso do que comer e beber!

A imposição de se destacar no seio da comunidade surge em

quem mira o poder como o líquido precioso da vida e do prazer!

Nada pode abalar o império consolidado de força e soberania,

mesmo que seja algo justo, tira-lhe o brilho de estar acima da lei e

perturba o olhar dos poderosos.

A vida é difícil E repleta de sonhos! O sistema social imposto,

entretanto, rouba até os sonhos que ainda não foram sonhados e os

sorrisos de prazer ainda não provocados! Transforma a liberdade

e até mesmo o próprio sentimento de que somos uma pessoa, com

direitos e obrigações, em um ambiente de privações e humilhação

moral. Até que o próprio desejo de viver acaba como o último gole

de uma bebida que antes era gelada, doce e gasosa, mas cujo resto

se torna amargo, morno e sem espuma.

Ao lembrar de tudo isso, fui até um canto e fiquei de cabeça

baixa, sem dizer nada, olhando para o chão até as lágrimas rolarem

e caírem na terra.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 53


CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

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– Olha o café, moçada! Olha o café!

Uma voz gritando pelo corredor, às sete horas da manhã de um

dia bastante frio e com neblina cobrindo a serra que fica atrás da

clínica, onde há uma horta.

Vi que os pacientes iam se deslocando para a área da cozinha

e uma fila se formou. Fiquei atrás na fila, e os pacientes foram

entrando. Logo também entrei.

Havia uma pessoa atrás de um balcão que, com um garfo,

pegava o pão para cada paciente e logo em seguida outra servia café

e leite. Os copos eram de plástico, iguais aos que há duas décadas

eram usados para servir leite na escola onde estudei.

A cozinha tinha três mesas grandes de madeira, uma ao lado

da outra, e os bancos eram contínuos. Os pacientes se sentaram

e tomaram o café. Do outro lado da cozinha, o mesmo aparato

separava os pacientes crônicos, e, em outra ala, ficavam as

mulheres internas. Fiquei em pé, próximo à porta, observando

tudo que acontecia.

Em seguida, logo após tomar o café, fui caminhar pelo corredor,

olhando bem a fisionomia de cada um, tentando formular uma

opinião sobre aquele local.

Num primeiro momento, imaginei-me num campo de

concentração. Estava preso àquela realidade, internado contra a

minha vontade, com base no laudo de um médico, por eu ter tentado

suicídio e sobrevivido ao choque contra um metrô.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Havia uma sala de enfermagem próxima à cozinha e, ao passar

por lá, uma enfermeira perguntou se eu havia tomado o remédio.

Não estava sabendo de nada e, por isso, perguntei. Ela esclareceu

que todos os pacientes ali internados tomavam algum tipo de

medicamento receitado pelo médico que acompanha o tratamento.

No meu caso, estavam receitados dois calmantes pela manhã e, à

noite, um calmante mais forte para ajudar no sono.

Era tudo muito regrado! O café da manhã era servido às sete

horas, os portões da área externa eram abertos às oito e meia. Então,

os pacientes tinham de ir para fora para participar da caminhada

ou de terapia ocupacional, numa área onde eram feitos desenhos,

objetos de decoração, artesanato ou exercícios físicos.

A caminhada era acompanhada por algum funcionário da

clínica em uma estrada de terra que, segundo eles, se estendia por

dois quilômetros, até uma igreja, num povoado próximo.

Nos primeiros dias, não participei de nada. Estava muito

abalado por estar ali. Quando a vendinha abria, eu comprava

cigarros e ficava olhando o movimento lá na rodovia através da

grade da clínica, tomando o sol da manhã.

O almoço era servido às onze horas. Meia hora antes, de

segunda a sexta-feira, os pacientes assistiam a palestras sobre

temas variados.

Novamente a fila para o almoço: cada um pegava o prato e

as cozinheiras colocavam a comida. Após o almoço, não havia

muito que fazer. Podia-se assistir o jornal pela televisão na sala de

palestras, fumar um cigarro ou deitar na cama. O espaço de terapia

ocupacional ficava fechado para que as terapeutas Lígia e Claudete

também fossem almoçar e pudessem ter um horário de descanso.

Na parte da tarde, o recinto funcionava somente a partir das treze e

trinta, ficando até as dezesseis e trinta.

Era proibido o uso de celular dentro da clínica e todos os

aparelhos dos pacientes ficavam guardados com a assistente

social, desligados e identificados, e somente eram devolvidos

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 55


aos familiares em dia de visita ou quando o paciente recebia

alta. Isso era justificado pela assistente social, senhora Iara, pelo

fato de que ali estavam internados alguns pacientes que tinham

vício em álcool e drogas e que usavam o celular para pedir o

que sentiam desejo de consumir. De madrugada, o ilícito era

jogado por cima do muro na direção do pátio interno, quando

todos estivessem dormindo, sendo rapidamente recolhido pelo

paciente interessado.

Às quinze horas, havia o café da tarde e às dezessete, era

servido o jantar. Após esse horário, às dezenove horas, era servido

um mingau, leite queimado ou achocolatado quente.

As roupas de cada paciente eram identificadas com o seu nome

e guardadas na rouparia, em armários individualizados, para que

nada fosse misturado.

Todas as manhãs cada paciente levava um par de roupas sujas

para a rouparia e à tarde, antes das dezessete, ia buscar um par de

roupas limpas. Isso para evitar trocas de roupas entre pacientes ou

até mesmo o sumiço de alguma peça.

O portão da área externa era fechado às dezessete e após esse

horário os pacientes não tinham mais acesso à área externa da

clínica.

As noites eram monótonas! Não havia muito que fazer também.

Os pacientes mais velhos dormiam sempre muito cedo.

Havia um paciente, o Sebastião, que costumava tocar gaita em

alguns dias da semana no pátio próximo à cozinha. Vez ou outra,

alguns se animavam a jogar baralho ou uma sinuca, que ficava na

sala de palestras.

Sebastião era um policial aposentado. Dizia que quando chegou

à clínica ainda era do serviço ativo, que tinha problemas com as

bebidas e foi internado pela família.

Então comecei a fazer amizade com os pacientes do meu quarto.

Havia o Fausto, que estava com problemas de excesso de

bebida, e, para minha surpresa, trabalhava na mesma empresa que

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

56


eu, porém numa repartição em outra cidade. Ele contou que passava

por problemas em seu casamento e também no serviço, sendo

constantemente perseguido, embora passasse por tratamento

médico há algum tempo. Contou de outros funcionários que

também sofriam perseguição e contou sobre sua vida lá na cidade

onde morava, das pessoas que tinha saudade e das festas.

Sobre o assédio moral, falou que nos anos em que trabalhou na

repartição presenciou diversas formas de abuso, cometidas sempre

com o conhecimento da gerência, mas que nada era feito para

melhorar as condições de trabalho dos mais baixos na hierarquia.

Havia o João, um paciente que estava internado há dezoito

anos na clínica, e tinha autorização para sair nos finais de semana

para ir até a cidade próxima. Dizia que estava internado por causa

de bebida e que a família, no caso seus irmãos, não o aceitavam em

casa por causa do vício.

O Deivisson, um paciente que tinha uma televisão, um aparelho

de DVD e alguns outros pertences, era uma pessoa muito alegre e

descontraída, comunicativo que só! Após alguns dias, foi mudado

de quarto, pois concordou em cuidar de um paciente mais idoso que

dormia num quarto particular de apenas duas camas. O Deivisson

o ajudava a se vestir e tomar banho e lhe buscava o café. À noite,

sempre fazia café numa cafeteira elétrica e levava para os outros

pacientes, passando sempre em nosso quarto para conversar um

pouco.

O Osvaldo não era muito comunicativo. Sempre calado, nunca

se soube nada sobre ele. Dormia cedo e ao acordar saía do quarto e

se isolava do resto das pessoas.

O Borges reclamava o tempo inteiro de estar internado.

Não conversava conosco. Falava somente para si mesmo sobre

a infelicidade da vida, que aquele lugar não resolveria nada, que

queria ir embora e que sua família o odiava. Outras vezes, reclamava

do governo por haver tanta corrupção num país com excesso de

riquezas, mas que, devido à corrupção, não consegue crescer.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 57


Falava sobre fraudes nas loterias e jogos autorizados pelo governo,

dizendo que sempre jogava em vários jogos antes da internação e

que os resultados eram manipulados.

Citava casos famosos de corrupção e desvio de dinheiro

envolvendo a política e as obras públicas, e que, embora veiculados

pela mídia, não resultavam em nada, e, quando muito, o responsável

cumpria prisão domiciliar em mansão que havia adquirido com o

dinheiro do povo. Falava de abusos de autoridade das polícias

em seu estado. Que já apanhou de um policial que comandava o

policiamento em um evento de manifestação pública e que recebeu

um golpe de bastão porque gritava bastante e segurava uma faixa

de protesto.

Na verdade, uma onda de revoltas populares tomara conta do

país nos últimos meses. A sociedade já não aceitava a corrupção, o

abuso de poder e o assédio moral dos mais fortes impingindo aos

mais fracos todo tipo de exclusão de direitos.

Havia, em todo o país, uma onda crescente de descontentamento

com o desvio de dinheiro público e com a precariedade da segurança

pública e dos serviços públicos de saúde, devido à falta alarmante

de profissionais e de prédios para atender a população. O povo

descobriu que democracia é o governo do povo por meio de seus

representantes eleitos, e não a monarquia que vinha sendo exercida,

onde o representante não cumpria nada do que era prometido em

campanha política.

E a noite caiu com a neblina cobrindo todo o horizonte.

Olhava pela janela do quarto enquanto fumava um cigarro.

Ainda estava muito abatido por estar internado e não aceitava o

fato de estar ali contra a minha vontade.

Conversava muito com o Fausto. Ele dizia que estava internado

há dois meses e que logo receberia alta. Que o tempo de internação

fez muito bem e que agora está mais controlado emocionalmente!

Depois, fui até o posto de enfermagem tomar o remédio da

noite e veio um sono muito forte! Então dormi pela primeira vez

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

58


na clínica, após passar um dia inteiro acordado, apenas observando

tudo que ali havia e como funcionava.

Conheci pessoas que fariam parte do meu convívio diário e não

deixava de pensar na tristeza da vida e em tudo que aconteceu de

ruim para que chegasse ao ponto de ser necessária minha internação

numa clínica psiquiátrica.

A noite estava calma! Havia muitos cobertores disponíveis para

cada paciente devido ao frio intenso da época do ano. Ao adormecer,

meu corpo mergulhou profundamente no sono, derramando num

arfar toda a carga de pensamentos que permaneceram em minha

mente por todo o dia.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 59


A HORTA

60

Havia uma plantação agrícola nos fundos do lugar. Tudo muito

bem feito e cultivado na terra, semelhante à típica horta do campo!

De um lado, eram cultivadas couves, no outro, umas alfaces,

cebolinha, cenouras e outros legumes. Havia uma amoreira muito

grande, e deu vontade de provar dos seus frutos, porém, nessa época

do ano, estavam muito verdes e ainda sem o doce sabor das amoras.

Lá no final da horta, havia um espantalho voltado para a

montanha que, de tão parecido com espantalho, no fim das tardes

e cair da noite, parecia que ganhava vida e ficava dançando um balé

da noite. Um fantasma acordado pelos pensamentos e aspirações

de quem apenas via a tudo do lado de dentro da clínica.

Era uma troca de papéis, pois, a cada manhã, o espantalho

cumpria sua missão, afugentando os pássaros que costumavam

atacar as plantações ou animais de terra que fariam buracos e

estragariam tudo o que era cultivado.

Nas noites, entretanto, ao ganhar vida, impulsionado pelos

nossos sonhos, que às vezes fogem da realidade, para alimentar de

fantasia um ambiente interno que foi esvaziado pelas tristezas, por

sentimentos tolos de justiça que muitas vezes não serão vistos, por

privações da saúde, de afeto, de carinho, vem o simpático fantasma

protetor da horta a dançar lá no final daquela plantação, o que, na

verdade, não é mais que o vento forte da noite trazendo a geada e

sacudindo o boneco de pano de um lado para o outro, enquanto sua

plateia imóvel apenas observava das janelas de grades finas.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


A VENDINHA

Havia uma vendinha na saída da clínica, onde os pacientes

compravam lanches e cigarros para fumar à noite. Tudo

metodicamente controlado!

Cada paciente dispunha de uma conta para poder gastar a cada

dia, um valor módico, somente a quantidade de dinheiro disponível

para o dia, num limite que era depositado antes pelos parentes.

Isso ensinava a regrar o dinheiro. Era uma vendinha simples,

porém tinha uma diversidade de materiais muito grande! Desde

barbeador até sabonete, doces da roça, cigarros, bolos, sanduíches,

sucos e refrigerantes...

Todas as manhãs, os pacientes crônicos eram liberados mais

cedo para se deslocarem até a vendinha e comprar o que precisassem

para o dia, e, no horário das oito e meia, nós éramos liberados para

a mesma ala externa para também comprar alguma coisa antes das

atividades da manhã.

Formava-se uma fila de pacientes os quais logo escolhiam o que

queriam e depois iam para alguma atividade.

Um balcão pequeno, com vitrine de vidro, contendo doces

e biscoitos, algumas prateleiras com salgadinhos, cigarros,

doces caseiros, bolos e sabões. Duas geladeiras, uma cafeteira e,

pendurados no canto da parede, utensílios de higiene pessoal.

A vendinha continuava aberta até o horário próximo ao almoço,

e fechava por algumas horas, voltando a abrir depois das treze e

fechando antes das dezesseis.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 61


Um casal se revezava nos dias de trabalho. Uma mulher loira e

um rapaz moreno.

A vendinha abria todos os dias da semana para atender os

pacientes, e os preços eram módicos, nada aquém nem além do

justo preço para cada mercadoria.

Às vezes, na fila eu ficava ansioso por causa de algum cliente

indeciso que demorava a fazer o pedido, mas também isso era

ensinamento! Ensinava a ser paciente!

Em algumas ocasiões, à noite, depois que a vendinha fechava,

fumando um cigarro diante da janela de grades finas do quarto onde

dormia, eu me pegava olhando para a porta da vendinha e lembrava

os momentos de confusão na fila das manhãs, percebia a calmaria

que deixava no ar até mesmo ecos e risos.

Ficava pensando na diferença desse lugar, tão calmo e correto,

daquele de onde eu vim, agitado e truculento.

E a vendinha tão simples e com uma fundamentação de

existência mais definida que muitas pessoas ou empresas! Ela

cumpria sua missão de servir aos pacientes sem nenhum cunho

pessoal, ao contrário de muitas empresas e até órgãos públicos,

que se subordinam ao chefe, governo ou comando, e são obrigadas

a agir conforme desejos e aspirações pessoais de quem no papel é

um instrumento a serviço das pessoas, mas acaba por menosprezar

a própria essência do cargo que ocupa para atender a interesses

subjetivos.

Bom é ver que um universo pode ser pequeno, mas sendo bem

definidos os seus fundamentos, e na prática tudo que se executa é a

missão de atender, tudo ocorre conforme o que foi planejado lá no

início.

A vendinha é o centro de compras dos pacientes da clínica.

62

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


O LIXADOR DE CHAVES

João não era muito comunicativo até um mês atrás, segundo o

Fausto.

Estava internado há dezoito anos e gostava muito de ficar

lixando chaves que não eram próprias dos cadeados nos quais

tentava encaixá-las. Era o seu passatempo preferido!

Dizia que quando chegava paciente novo evitava puxar

conversa, pois cada um ali tinha um problema diferente lá fora, e que

justamente por não conhecer o sofrimento dos outros, esperava que

os próprios novatos se adaptassem ao lugar para depois procurar

diálogo. Entendia bem do sofrimento alheio!

Dizia que nos anos em que estava internado pôde aprender

muito sobre o mundo fora da clínica, o que o fez acreditar estar

seguro no lugar contra toda uma sociedade autoritária, interesseira

e impositiva, em que a necessidade de ser importante é motivo para

humilhar, desacatar, privar de direitos os mais fracos e humildes e

que tudo gira em torno do interesse pessoal e do dinheiro.

As pessoas não sentem fome, frio ou calor; querem é ser

importantes dentro da sociedade. Um mar de cobras onde cada

uma tenta picar as outras com mais força para tirá-las do caminho

da autoafirmação.

Os seres humanos não estão nem aí para o amor, se casam por

mera conveniência. Ou porque querem melhorar de vida, ou para

ter alguém para lavar as louças, ou porque os pais querem ostentar

um genro ou nora dignos da fidalguia, de porte, loiros, olhos claros

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 63


e, claro, endinheirados. Dizia isso baseado na experiência de ter

conhecido tantas e tantas pessoas diferentes ao longo de muitos

anos internado.

A única vez que falou em família somente se referiu aos

familiares como “aqueles que não me querem”.

Seu fumo de rolo, já picado e guardado metodicamente em

trouxinhas de plástico, até semelhantes às trouxas de maconha

que são vendidas nas grandes cidades, digo, nas grandes, pequenas,

médias, na roça, nas escolas, nos bares, no teatro, no cinema, nas

ruas e vielas, em todo lugar.

Depois de um tempo, apelidamos o João de “bumbum de

veludo”, devido ao fato de ele ficar lixando as chaves. Lustrava

cada uma como se não estivesse ainda com o brilho aveludado que

esperava.

Fizemos piadas, criamos uma musiquinha, enfim, conseguimos

adquirir mais confiança do João para conversar.

Ele era uma pessoa boa, embora guardasse em silêncio uma

mágoa muito grande, que jamais conseguimos que revelasse nos

diálogos, e isso é coisa que está guardada sob sete chaves, dentro

de seu coração.

64

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


O REJEITADO

Nenhum interno da clínica gostava de um paciente, o Lucas

Stephanini, que veio da cidade grande.

Diziam que ele era muito fofoqueiro! Que contava ao enfermeiro

chefe todas as conversas que havia entre os pacientes e que

reclamava de qualquer coisa que o incomodasse.

Diziam que se achava melhor do que os outros e que era

arrogante a ponto de dar respostas grosseiras a funcionários da

clínica, sob o pretexto da conversa ou da pergunta feita ser estúpida.

Sentia-se protegido contra todos pelo fato de seu pai ser uma

pessoa muito influente e chefe de polícia na cidade de onde viera.

Foi internado pelo próprio pai, como medida de segurança, pelo

fato de ter problemas com uso de drogas.

Era comum haver alguma confusão envolvendo o Lucas.

Ameaças do Franklin, um paciente do mesmo quarto, que sempre

discutia com ele no corredor, chegando a apontar o dedo em riste

ou dar empurrões.

Também em outra oportunidade, o Deivisson saiu de licença

para passar o dia na cidade e o Lucas comentou com o enfermeiro

chefe que ele havia comprado uma faca para cortar laranjas e entrou

com ela escondida na clínica. Quando foi dada busca no quarto, a

faca de serra estava entre as coisas do Deivisson, e ele teve de passar

a noite no R3, que é um quarto de pacientes mais problemáticos,

na ala dos pacientes crônicos. Uma espécie de castigo para quem

provocasse algum problema dentro da clínica.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 65


Depois desse dia, o Deivisson o cercou no corredor, só não

vindo a machucá-lo porque nós o seguramos.

Lucas também tinha problemas com a Adalgisa, uma garota

menor de idade que estava internada por ordem judicial por ter

se envolvido com drogas. Ele criticava demais a jovem, a ponto de

provocar bate-boca no corredor, dos quais sempre escapava calado

para o quarto após ter armado a confusão.

O rejeitado sabia da sua condição de pessoa não aceita na

clínica, mas parecia não se incomodar com isso, bloqueando os

ouvidos para toda a carga de rejeição social que o cercava.

Ouvia conversas no corredor, fazia intrigas, era sempre

criticado por suas condutas, mas não procurava se acertar para ter

uma aceitação.

Seu egocentrismo parecia falar mais alto sempre que algum

problema acontecia.

Lucas também denunciou uma tentativa desesperada de fuga de

uma paciente, a Vera. Foi num dia de visitas, quando ela aproveitou

o portão aberto e fugiu. Porém, como o Lucas denunciou-a

rapidamente, até apontando a direção em que ela havia corrido, em

pouco tempo ela estava de volta, trazida por funcionários.

Escapou de ficar de castigo no R3 porque tomava conta de um

paciente bem idoso e com problemas mentais, um fazendeiro que

foi internado pela família, pois não queriam cuidar dele em casa.

66

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


O FAZENDEIRO

Havia um senhor de idade bem avançada internado na clínica.

A família decidiu pela sua internação, pois ele já não batia bem da

cabeça.

Lá na fazenda, de que ainda era o dono, fazia artes igual criança

e, já cansado de tanto que trabalhou para erguer o império das mais

de mil cabeças de gado, dez mil galinhas, uma vasta plantação de

cana-de-açúcar, os alambiques de produção de cachaça e se envolver

nos negócios agrícolas, acabou enlouquecendo.

Aos 89 anos, era milionário e sofredor. Todos os dias, acordava

às quatro e meia da madrugada, embora não tivesse despertador

perto do leito, e os galos que cantavam na fazenda ficassem muito

longe, sendo impossível que o velho pudesse ouvi-los de seu quarto.

Mas sua pontualidade era invejável!

A Vera tinha um carinho todo especial pelo fazendeiro, a quem

tratava como um familiar!

Caminhava pelos corredores da clínica chamando os bois e

costumava arrastar os tapetes que encontrava pelo caminho falando

com eles para não se desgarrarem da boiada. Então depois de juntar

todos os tapetes em um mesmo lugar falava com eles para não se

afastarem para a direção do precipício, e depois voltava a percorrer

os corredores.

Se alguém o reprimisse, então lhe voltava um pouco de lucidez

e se lembrava de que, na verdade, aquilo era um tapete e não um boi.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 67


Costumava fazer as necessidades em algum canto do corredor,

quando não havia ninguém olhando. Se fosse surpreendido, falava

que estava no mato, que não era proibido fazer ali, e, procurando

nas paredes por folhas de bananeira ou qualquer outra coisa para

se limpar, acabava por sujá-las com marcas de fezes, ao que ele agia

com naturalidade.

Quando passava por alguma crise, tentava de todas as maneiras

fugir da clínica a fim de voltar para sua fazenda que com tanto

esforço ergueu. Subia em cadeiras e tentava escalar as paredes como

se fossem árvores.

Seus filhos e netos até costumavam aparecer, quando não

estavam ocupados usufruindo dos tantos bens..

Em seu olhar cansado, o peso de uma vida que se notava na

quantidade de rugas e nos calos que se amontoaram uns sobre os

outros nas mãos e nos pés para criar os filhos e também os primeiros

netos que já eram casados e já lhe haviam dado seis bisnetos.

Dos filhos, apenas um dos nove morava na fazenda. Todos os

outros queriam distância do lugar, refugiando-se no conforto da

cidade grande, longe da sujeira e do cheiro do gado.

E os dias se passavam com o velhinho fazendo todas as manhãs

o seu trabalho nos corredores, juntando seus bois e nunca deixando

nenhum deles espalhado.

E se guardava mágoas de sua família pelo abandono daquele

que nem viveria mais tanto tempo e lhes deixaria tudo, ninguém

sabe dizer. Seu olhar parecia implorar por um leve resquício de

dignidade em acolher na velhice quem tanto serviu.

Ninguém podia saber se possuía lucidez para se sentir

magoado, pois não se sabia diferenciar os momentos de loucura que

são muitos, dos poucos instantes de lucidez quando falava sobre a

vida na fazenda.

68

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


OS BOIS

A natureza foi transformada! Onde antes havia floresta, que de

tão densa era necessário abrir caminho entre os cipós, hoje existe

pasto.

Um imenso tapete verde que ia até a encosta da montanha,

onde, antes, cantavam pássaros, agora somente galos antes do

amanhecer, chamando os senhores para tocar o gado para o

campo.

Os bois ficam pastando no campo de futebol existente em

frente da clínica. São ao todo dezessete animais, todos de grande

porte. Já adultos e prontos para o abate. São tão submissos!

Aceitam o fato de a vida se resumir apenas em comer o capim e

seguir de um canto a outro, obedecendo a horários que nada dizem.

Seus donos aguardam que cresçam mais um pouco ainda para o

dia de servirem de alimento e serem vendidos aos frigoríficos lá

da cidade.

Cada um dos bois sabe a sua função de cada dia, de apenas comer

grama na parte da manhã e depois de determinado horário, assim

que o boi mais graduado na hierarquia sair do pasto, os demais em

fila e pisadas retas devem seguir a mesma direção.

Obedecer a horários para o pastoreio na fazenda é a única

função a ser executada a cada dia. Não há outra filosofia de vida.

Esses animais de grande porte, em eras remotas, teriam uma

sociedade selvagem semelhante aos mamutes ou aos búfalos e

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 69


seriam caçados por homens nômades que morariam em cavernas.

Mas teriam uma vida livre e sem as regras impostas pelo seu senhor.

Hoje são simples cumpridores de ordem, sem vontade própria e

sem condições de modificar o sistema regrado e sem fundamento

ao qual pertencem.

O que difere esses animais de alguns setores da sociedade é

que, durante o trajeto que fazem pela trilha da estrada de terra ao

deixar o campo todas as manhãs, um boi não pisa na merda deixada

pelos bois que conduzem a boiada, antes disso, sabem desviar do

excremento deixado pelos que vão à frente.

Nosso sistema é diferente! Muitas vezes os erros dos que

conduzem são seguidos cegamente por quem não detém tanto

poder de decisão, e apenas seguem por medida única e exclusiva

do interesse em agradar quem pode prejudicar os mais baixos,

mesmo que para isso seja necessário pisar na merda que é deixada

no caminho.

Por isso é pregado que não se deve desagradar quem está no

topo, pois poderá haver retaliação, e a vida, que já é difícil, passa a

ser mais difícil ainda, ao ponto de já não se imaginar escolha a não

ser dar cabo da própria existência!

Os bois, entretanto, não sabem se matar, mas todos sabem que

irão morrer. E dias antes do abate, um dos dezessete bois saiu pelo

campo em linha reta a caminho da rodovia.

Passos lentos, devido ao seu grande peso, porém decididos.

Não se desviou pelo caminho, nem para a direita nem para a

esquerda. Saiu pelo portão de entrada, onde os outros bois ficavam

pastando como de costume.

Em pouco tempo somente o que se podia enxergar nesse dia

tão nublado era um ponto negro chegando até a rodovia, seguindo

talvez para a sua última jornada e levando consigo um viajante

desatento.

Seria uma vingança daquele boi contra o seu dono ou contra a

70 má sorte da própria existência? rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Sua carne ofertada de graça aos urubus, aos abutres que lá

do céu acompanhavam a caminhada, voando em círculos, seria

oferenda pacífica ou, na podridão da vida sem sentido, uma forma

de afrontar o seu senhor?

E depois de um tempo coberto pela neblina não vi mais o boi.

Foi se formando uma grande fila de carros e caminhões em meio a

uma neblina muito espessa.

Nos dias que antecederam o abate, só contei os dezesseis bois

que ficaram no pasto.

Aquele que se extraviou sumiu para sempre e, embora o seu

destino tenha sido o mesmo dos demais, houve uma revolta moral, e

o boi que foi embora escolheu morrer por uma causa, a sua vontade

própria, e não apenas pela vontade do seu senhor, a dolorosos

golpes de machado na cabeça.

Ele foi embora para a rodovia e, quando o caminhão bateu, o

motorista quase não se feriu. É o que disseram os funcionários.

Outro chegou atrasado por causa do acidente e falou que o

caminhão ficou com a frente destruída, e não havia seguro. Que

houve um congestionamento muito grande por causa do acidente

e que muitos motoristas esperaram horas até que o caminhão fosse

rebocado do local.

Na verdade, as estradas são construções arquitetadas pela

própria morte para desafiar os viajantes! Suas curvas são maliciosas

e guardam o choro de muitas almas em suas histórias precocemente

finalizadas.

Os últimos segundos da vida que vai se apagar são negros!

É possível enxergar ao longe quem usa a capa preta, vindo

silenciosamente recolher o seu despojo.

O que difere essa entidade sombria do senhor no dia do abate

desses inocentes animais?

Após a perda do boi, o vaqueiro passou a vigiar os demais e

colocou dois cães para evitar que os outros escapassem para a

rodovia como fez o primeiro.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

71


Chegou o dia do abate.

Ao tomar sol pela manhã, o campo estava vazio e os bois não

vieram como de costume. Nenhum deles.

E depois disso não vi mais nenhum boi no campo de futebol ou

na estrada de terra que vai para a fazenda.

72

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


A VELHA

Uma das pacientes era uma senhora muito idosa.

Ela já não conversava, porém seu rosto demonstrava muita

raiva e tristeza.

Era difícil para ela se alimentar, e os funcionários precisavam

convencê-la da necessidade do alimento! Por vezes, era preciso que

alguém a carregasse até o refeitório, pois se negava a sair do quarto.

Estava internada havia alguns meses, segundo o João, e não aceitava

contato com ninguém.

A psicóloga Vanusa tinha dificuldades para tratá-la, mas

sempre se empenhava bastante para que a idosa tivesse um pouco

de recuperação, sem nunca ter desistido de devolver a ela um pouco

da lucidez que uma vida já cansada havia levado. A velha estava

com noventa e sete anos.

Sua mentalidade não era a de uma pessoa normal, já que estava

muito debilitada. Nas vezes em que estava mais nervosa, não

deixava ninguém chegar perto. O Franklin tentava puxar conversa,

e ela dava socos no ar na direção dele.

Eu via em suas ações o sentimento de revolta, pois era uma

pessoa já cansada de viver e não guardava senão vagas lembranças

desconexas da vida. Já não falava e somente podia se expressar por

meio de gestos e gemidos que sempre balbuciava quando alguém

a carregava para o refeitório para se alimentar de sopa, já que nem

dentes possuía mais.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 73


O CORREDOR

74

Era noite! A bruma cobriu todo o horizonte e lá do lado de

fora da clínica uma fina camada branca escondia o verde da grama,

tornando a vegetação escrava do frio intenso da estação.

Eu havia acabado de ler um livro da autora Lucília Junqueira

de Almeida Prado, chamado Antes Que o Sol Apareça, da biblioteca

da clínica.

Nele é retratada a difícil vida de uma família rural que vive

das estações do ano, trabalhando como boias-frias e utilizando

condições precárias de transporte nos antigos caminhões pau-dearara,

que levavam os trabalhadores sem as mínimas condições

de segurança, dependurados na caçamba, os quais provocavam

muitos acidentes e geravam riscos à vida de todos.

O livro é muito interessante, e a prisão à sua leitura me ajudou

a formular inúmeras reflexões sobre minha morte espiritual.

Lembro que, numa das passagens do livro, a personagem

Rosa, filha do casal principal do livro, vai morar em São Paulo e

há um acidente grave: o prédio onde ela trabalhava pegou fogo.

Depois desse acidente, e com a morte da garota, se desenvolve

um rito simples de amor à vida, na sentimentalidade do povo

humilde em sua essência mais rica! A surpresa ficou por conta

do final, quando o amor demonstra ainda mais querência em

perdoar quem comete falhas tão graves de negação ao passado

apenas pelo fato de a pessoa renascer da cinza e, embora por

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


uma tela de televisão, o coração humilde saber que ainda há

esperança!

Havia um corredor, de exatos quarenta metros, que dava

acesso aos quartos. Foi ali, naquele local, que me concentrei e

que ocorreu minha primeira reflexão sobre a vida. Lá no final do

corredor, onde havia um sofá de dois lugares. Após ler o livro,

fui pra lá meditar sobre a vida ruim de um pensador, enquanto a

cerração corria pelo lugar com ferocidade e ousadia!

Nos primeiros dias, desacostumado ao fato de estar internado

e me sentindo desamparado frente a problemas tão cruéis quanto

o assédio moral e o abuso de poder, ficava fumando cigarros, no

final das tardes, para relaxar.

E observava os pacientes da clínica, cada um com o seu modo

de viver e conviver com o problema que os trouxe a esse lugar de

tratamento. Ao mesmo tempo, sentia profunda indignação com

a impotência dos mais fracos perante o poder maquiavélico dos

sistemas social e profissional humanos.

Não há socialismo nas ações dos homens de negócios. Não há

apoio mútuo nem compaixão com os problemas alheios. O que há

é somente o desejo de ser onipotente a qualquer custo.

E ali no corredor, filosofando sobre a vida, aceitando cada vez

mais o fato de estar doente, tendo meus ideais inoculados pelo

peso maléfico dos verdadeiros doentes morais, olhava o corredor

em sua extensão e me lembrava do dia do acidente, das loucuras

que pairaram sobre minha mente naqueles momentos de terror,

lembrava os gritos das pessoas, a freada brusca do metrô e o

momento em que fui sedado no hospital.

O corredor parecia uma passagem ou uma travessia! Cada

vez que eu cruzava a sua extensão era como se houvesse algo

de muito importante a fazer do outro lado, mas nunca havia.

Eu era um morto em cinzas, porém com as funções vitais ainda

íntegras.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

75


MÃOS TRÊMULAS

76

A abstinência das drogas provoca sensações diferentes em cada

pessoa.

Percebi que vinha lá do final do corredor um senhor de idade,

recém-internado. Ele tinha vendido todos os móveis da casa para

comprar entorpecentes.

Após o período inicial de desinfecção, suas mãos ficavam

tremendo, sem coordenação.

Ao me ver fumando, veio depressa. Sentou-se do outro lado da

poltrona e, como não tinha cigarros, de maneira bem tímida, pediume

um.

Contou-me sobre a vida os motivos que o levaram a aceitar a

internação:

– Em minha cidade eu era muito conhecido! Tinha o meu

comércio na praça, fui casado por mais de dez anos. Era feliz!

– E como isso tudo começou, senhor Elias? Perguntei fitando

seu semblante resignado, de olhos rígidos e atentos!

– Foi logo após ela ter ido embora. Eu a amava muito!

– Como foi isso?

Ela descobriu que eu usava drogas, mas nunca fui de brigar

com ela. Eu fumava meu cigarrinho escondido, na casa de um

amigo, e depois ia embora, tomava meu banho, levava frutas e

verduras.

– Mas isso não é motivo...

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


– Espera, tem mais. Ela estava querendo se separar já havia

um tempo. Dizia que estava infeliz longe dos pais e queria ficar

mais tempo com eles. Começou a fazer viagens constantes que

demoravam quase o mês todo.

– Sentia que ela já não o amava? Perguntei, demonstrando

curiosidade em ouvir o que ele tinha a dizer. Reparei suas mãos

cada vez mais trêmulas segurando o cigarro, deixando até mesmo

algumas cinzas caírem sobre a roupa.

– Foi tudo muito de repente! Ela foi embora. Separou-se de mim

e levou metade de tudo. Vendi a casa e a loja, depositei o dinheiro na

conta do banco e, depois de um tempo, veio um oficial de justiça me

procurar para assinar os papéis.

– E depois disso, não se falaram mais?

– Ela sumiu no mundo. Tentei ligar algumas vezes, mas nunca

atendia minhas ligações.

– Compreendo...

– Fui morar numa estalagem em outra cidade e comecei a beber

muito, cada vez mais afundando nas drogas até que comecei a

roubar por não ter mais dinheiro. Havia perdido tudo.

– Então está internado por ordem judicial.

– Vou cumprir pena aqui. Fui julgado, e foi determinada a

internação para me tratar.

– Mas o que fez?

– Depois de um tempo a encontrei. Estava casada com outro

homem. Eu era um mendigo que ficava pedindo esmolas no centro e

a vi passando com aquele rapaz bem mais novo do que eu, sem ruga

no rosto e porte de atleta.

De repente, as mãos de Elias começaram a tremer mais ainda, e

ele começou a ficar mais agitado.

– Entendo. Essas coisas nos tiram do sério mesmo. Escute, tome

mais um cigarro e me conte o que houve, vai ajudar a descarregar

esse peso.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 77


– Eu tentei matar o homem, mas, quando dei a facada, pegou de

raspão no braço e só veio a sangrar. Várias pessoas estavam na rua

e me seguraram. Um deles até me conhecia de tanto ficar naquele

lugar, pedindo dinheiro e comida. Não deixou que me batessem.

– E depois?

– Fui preso, e algumas pessoas, que me conheciam dos tempos

da venda que eu possuía na praça da antiga cidade, procuraram me

ajudar. Eles nem sabiam de tudo o que estava acontecendo comigo.

– E vai ficar aqui por muito tempo?

– Eu quero ficar. Se eu sair daqui, não terei nem onde passar as

noites. Não me sobrou nada na vida.

Fiquei imaginando o que poderia estar passando pela cabeça

dele, mas tentar entender um problema tão sem solução acaba

fazendo com que pensemos nos nossos próprios e ficamos também

tristes e deprimidos.

Então, ao se levantar e caminhar pelo corredor, novamente as

mãos tremiam, denunciando a falta do entorpecente para o corpo e

o vazio da própria existência, difícil de preencher novamente com

qualquer tipo de plano ou sonho.

Havia uma paciente na ala feminina cujas mãos também

ficavam tremendo bastante, em determinados dias, e esse estado se

espalhava pelo corpo, provocando também movimentos na cabeça.

Todos os dias, cumprimentava a todos, lá do balcão da área feminina

da cozinha. Às vezes, pedia que jogássemos um cigarro e, em dias

em que estava mais aflita pela carência de entorpecente, ficava

agressiva e nem os remédios controlados, que todos os pacientes

tinham de tomar, ajudavam-na a se acalmar.

78

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


A RODINHA DE BRASAS

Por motivos de segurança, devido ao fato de haver internos

com sérios distúrbios mentais, era proibido que qualquer paciente

tivesse isqueiros ou fósforos em seu poder, mesmo que bem

guardados. Era a regra, sem exceção.

Qualquer funcionário que visse algum paciente com isqueiros

tinha ordem para tomar e guardar no posto de enfermagem.

Então, quando algum paciente conseguia acender um cigarro,

os demais que fumavam sempre pediam a brasa emprestada para

acender seus cigarros. A brasa era passada de cigarro em cigarro

e durante o dia era raro que não houvesse ao menos uma pessoa

fumando.

O paciente que passava pelo pátio procurava para ver se havia ali

alguém fumando, o que era comum, para pedir a brasa emprestada e

acender seu cigarro.

Alguns pacientes conseguiam esconder isqueiros e, à noite,

acendiam cigarros quando a rodinha de brasas já estava desfeita.

Então sempre aparecia um, como que guiado pela fumaça, pedindo

a brasa emprestada.

Era algo que fazia até mesmo o paciente que já estava deitado

sair do quarto, ao perceber que havia alguém fumando, pois a grande

maioria ali não tinha isqueiros e quem os tinha escondia bem para

evitar que fossem recolhidos pelos funcionários.

Para acender o cigarro, ia até o esconderijo, acendia rapidamente

e voltava a guardar o objeto valioso tão cobiçado!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 79


OS REMÉDIOS DO DESEJO

Desde o dia em que cheguei aqui na clínica, algumas sensações

como o desejo foram praticamente abolidas do meu corpo.

A quantidade de remédios necessários para que os pacientes

fiquem relaxados e calmos durante o tratamento também serve

para evitar determinadas condutas.

São poderosos inibidores de emoções e desejos!

Não é interessante que haja relacionamento afetivo entre

os pacientes. Na verdade, são proibidos os beijos e certos

assanhamentos entre pacientes. Tudo é muito controlado! Há no

posto de enfermagem as fichas de cada paciente onde são anotados

os medicamentos receitados pelo médico responsável.

Tudo o que o paciente faz de errado é anotado em sua ficha, e se

esquecer do remédio, os enfermeiros vão atrás dele para lembra-lo.

Antes de cada horário de tomada de medicamento, a equipe

de enfermagem faz a separação, com o nome de cada paciente

anexado ao medicamento, sendo impossível que, por algum

descuido ou falta de vontade, o paciente deixe de tomar o que lhe

foi prescrito.

Havia dias em que, na parte da manhã, eu ficava com certa

sonolência devido ao uso dos medicamentos, e o Fausto havia

falado que, nesses dias, é bom ingerir muita água para que o efeito

seja mais breve e logo o corpo possa restabelecer o funcionamento

normal.

80 rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Percebi também que as unhas não estavam crescendo como

antes. Nessa época, cheguei a ficar duas semanas sem precisar

cortar as unhas das mãos e dos pés.

Os medicamentos neutralizavam a maioria das emoções, como

amor, ódio, tensão, saudade, desgosto e vingança, deixando o corpo

num estado de tranquilidade plena e numa carência de ânimo para

qualquer ato nocivo à paz e à ordem.

Eu parecia um vegetal! Sem ações de anarquia ou pensamentos

revolucionários. Imune às emoções que sempre foram uma das

minhas grandes qualidades.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 81


A IMAGEM DA ESTRADA

82

No primeiro dia de visitas coletivas, o pensador ainda não podia

receber ninguém, pois cada paciente internado ficava quinze dias

sem receber visitas ou ter contato com os parentes e conhecidos.

Era uma norma da clínica para promover a reabilitação do paciente

e a equipe médica traçar um plano de ação para minimizar os

problemas psicológicos de cada um. Os pacientes chamavam de

quarentena do inferno.

Era sábado de manhã e não havia nada para fazer. Após tomar

café, ele foi para a área externa ler um livro, dessa vez a obra que

escolheu na biblioteca foi O Cortiço, de Aluísio de Azevedo.

Um livro interessante, que dá vida ao povo humilde dos cortiços,

em que o personagem João Romão cria, com certas picaretagens,

uma estalagem, talvez uma pequena favela ou algo parecido, e, ao

longo do livro, a vida do povo humilde ganha status de interesse, ao

passo que é conhecido o modo de ser e viver da classe mais baixa da

sociedade, demonstrando que há muita cultura nos ambientes mais

humildes e menos favorecidos.

As intrigas, os ciúmes, a velha bruxa que sonhava incendiar o

cortiço e até mesmo a briga entre o português casado e o mulato

capoeira pela posse do corpo e da essência da baiana cheirosa e

sedutora tornam o livro atraente.

Nessa guerra de ciúmes, após uma briga iniciada numa roda de

samba no cortiço, o capoeira, magrelo, astuto, melindroso e com

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


uma vasta história criminal, apunhala o português, levando-o a ficar

internado e passar por um doloroso tratamento pós-operatório.

Certo é que, ao se recuperar, o luso se vinga do mulato

cercando-o com outros comparsas na encosta da praia.

É difícil imaginar tal situação hoje em dia, na qual uma pessoa

esfaqueia a outra e não vai presa, se localizada pela polícia. O

livro conta que o capoeirista ganhou até fama no cortiço vizinho,

sendo apoiado pela malandragem, frequentando normalmente um

botequim que havia no bairro, como se nada houvesse acontecido.

Numa situação dessas, hoje em dia, o indivíduo seria preso, e,

na sua prisão, já imaginaria de mil formas o dia de sua morte, pois

é difícil imaginar, num mundo que vive de vingança e acerto de

contas, que um crime contra a vida ficasse sem punição. Isso mexe

com a honra das pessoas. Brigar por motivos banais e tentar tirar a

vida dos outros é ato de covardia que, na moderna visão vingativa

do povo, não fica sem retaliação à altura.

No livro, o capoeirista é morto com várias pauladas, o que

também é incomum hoje em dia. A modernidade usa armas e

instrumentos de tortura, capazes de fazer a pessoa implorar pela

morte rápida e sem dor, mas ao contrário sentiria desfalecer cada

partícula de vida, e nem mesmo gritar seria possível.

Após o homicídio, o corpo do capoeirista é jogado num

desfiladeiro, na encosta da praia, e foi encontrado dias depois.

E o pensador reflete sobre o livro e sobre a vida, contrastando

com um sol arredio no céu, ora desafiando o cobertor de nuvens, ora

reinando absoluto num céu limpo e claro!

O que falta ao homem é conhecer melhor a sociedade em que

vive. Talvez se os que governam ou comandam tivessem participado

da vida no seio pobre da sociedade, teriam maiores condições de

governar justamente essa massa social que, em todos os sistemas

sociais e profissionais, é a maioria.

O imperialismo surge justamente devido ao afastamento de

quem possui poder da classe que é governada ou comandada.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 83


Após terminar a leitura, e já com o sol da tarde clareando as

matas e a rodovia, o pensador foi para um quiosque localizado na

entrada da clínica e ficou admirando a estrada.

Uma grande quantidade de carros seguia seu destino! Alguns

apressados, outros na calmaria da viagem para relaxar e esquecer os

problemas. Caminhões carregados de mercadorias iam em direção

à cidade grande para abastecer o comércio. Ônibus passavam, com

várias pessoas olhando pela janela, viajando a trabalho, a passeio,

para procurar emprego e se consultar nos hospitais da cidade.

A imagem da estrada provocou muita tristeza! O pensador se

lembrava dos desgostos provocados por pessoas de espírito tão

vazio. O silêncio dos carros ao passar pela estrada, às vezes quebrado

por buzinas, despertava de súbito o desejo de chorar. Chorar pelas

lembranças da perseguição moral que nada mais significa que um

ciúme, exteriorizado em ações, de gente que nasceu com alguns

dons, porém com o intelecto maligno. E essa gente não aceita que

outra pessoa também os possua, fazendo o impossível para lhe

apagar o brilho e a vontade de viver.

Foi lá naquela estrada que passou a ambulância que o trouxe

a este lugar, e, embora estivesse desacordado, parecia se lembrar

dos momentos, como se sua alma, para protegê-lo, saísse do corpo

e ficasse sentada na ambulância, como uma sentinela fiel, olhando

pela janela para reconhecer o caminho por onde deveria voltar para

sua casa e se reerguer dos momentos de infelicidade.

As estradas provocam sensação de liberdade e paz nos homens!

Embora seja arriscado trafegar por elas pelo grande número de

acidentes e devido ao descaso do poder público em aumentar a

quantidade de placas, investir em duplicações, em sinalização e

acostamentos, em segurança, enfim.

A estrada sempre leva a um destino, mesmo que este seja a

morte em alguma de suas curvas.

Paisagens belíssimas de montanhas e rios se descortinam

às margens das estradas! Tudo isso provoca um esvaziamento

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

84


considerável da carga de stress que a vida em sociedade provoca em

cada indivíduo.

A sociedade é egoísta por natureza! Julga, sem fundamento,

os indivíduos inseridos no meio social pelo simples fato de serem

diferentes em algum aspecto. Imaginem como seria ruim se todos

fossem iguais em todos os sentidos, desde o modo de se vestir,

ao modo de pensar e viver, unicamente seguindo a filosofia de

pensamento dos mais antigos no seio social!

Não haveria a própria sociedade, com a supremacia da

democracia e sim um regime simplificado à carência de vontade

própria em cada indivíduo.

Todos usariam a mesma roupa, o mesmo corte de cabelo,

o mesmo jargão decorado, gostaria das mesmas coisas, e dessa

monotonia social resultaria a própria extinção da sociedade e

a transformação da vida numa mecanização da individualidade

humana.

Sim, seríamos todos robôs! Sem ações próprias, sem amor

próprio, sem individualidade e sem interesse.

Logo a tarde foi cedendo lugar ao frio da noite, e o pensador

foi até a lavanderia pegar uma calça de moletom, uma blusa de cor

verde, um par de meias, uma cueca e um gorro. Ao voltar, em direção

à área interna da clínica, deu a última olhada em direção à estrada,

tendo o sol já se escondido atrás da serra e a luz no lado oposto já

vinha mostrando uma cor vermelha, escondida parcialmente atrás

de uma nuvem.

A estrada já não apresentava o mesmo movimento intenso de

horas atrás. Quem tinha que ir já se foi antes que a noite caísse, e os

que voltavam já estão no aconchego de casa há muito tempo.

Só ficaram as marcas no asfalto, das frenagens de pneus, dos

animais que ali morreram, das pedras arrancadas do chão e a poeira

que deixaram, já quase extinta, somente ganhando o ar novamente

quando passa um carro, no escuro da noite, clareando as curvas da

estrada e o mato verde na extensão da sua encosta.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 85


O FRIO E AS NEBLINAS

86

– Que frio é esse Fausto? Não sei como se acostumou com o

clima daqui.

– A gente se acostuma. Lá onde eu moro, no município de São

João do Reino também é bastante frio nessa época!

– Esse ano está mais quente que os anos anteriores! Tinham

que ter visto o frio que fez quatro anos atrás, aquilo sim que foi frio

mesmo! Disse o João com propriedade.

– Lá onde eu moro não faz tanto frio assim. A coisa mais difícil

de acontecer por lá são neblinas.

– Hoje à noite não vai haver neblina porque vai chover. A

neblina vai aparecer só de manhã, quando a chuva parar.

– Como sabe, João? Também anda prevendo o tempo?

Estou há muitos anos nesse lugar e aprendi, com o passar dos

anos, a entender a natureza das coisas. O tempo sempre avisa o que

vai acontecer. Como hoje não está tão frio como deveria, a chuva não

demora a cair. Se não fosse chover, já teríamos neblina. Aconselho

que fechem as janelas antes de dormirem.

– Que interessante! São coisas que não nos acostumamos a

reparar, não.

– Quando se fica muito tempo preso a um lugar, como eu

estou, aprende-se a observar coisas que passam despercebidas no

dia-a-dia. Se aplicássemos esse aprendizado em nosso cotidiano,

evitaríamos muitos transtornos! Saberíamos mais facilmente

identificar as pessoas ruins e nos afastar delas, poderíamos prever

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


com boa antecedência o resultado dos nossos planos de vida. Coisas

ruins, como a perseguição e o assédio moral que sofremos, não

teriam acontecido se se pensasse melhor antes de trabalhar num

bom emprego que paga muito bem, mas que rouba sua felicidade e

a joga fora como lixo, num sistema que oprime a todo instante, não

dando credibilidade alguma a quem não é mais que um mero objeto

de uso numa doutrina arcaica que não procura progredir.

– Não é tão simples assim, João. Acredito ser mais fácil prever o

frio que as más intenções das pessoas.

– Mas tudo serve de aprendizado. Você escolheu um bom

emprego. Mas veja que há pedreiros felizes e empresários infelizes.

Em determinado lugar, há um padeiro muito feliz e um cliente

da padaria que vai todos os dias de terno para o serviço, com a

expressão do desgosto pela vida.

Isso está em toda parte! Parece que quem mais se diverte ou é

feliz é justamente quem menos pode e menos tem. Isso prova que a

felicidade não está em possuir um cargo elevado numa repartição,

empresa ou instituição, e sim em fazer um bom trabalho, sendo,

antes de tudo, um bom amigo, um bom profissional, um bom pai e

um bom esposo!

As horas passaram e, no meio da madrugada, acordei com

um barulho na janela. Os pingos de chuva entravam pela fresta e

chegavam ao chão do quarto. Então me levantei e vi que os outros

pacientes do quarto dormiam um sono profundo. Um vento gelado

com cheiro de terra molhada percorria o quarto. Fechei a janela

por completo, voltando a dormir em seguida, enrolado em três

cobertores.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 87


OS EMBATES

Todas as pessoas passam por problemas na vida. Na verdade,

poucas encontram a solução plena de seus problemas.

Unsaprendemmais facilmente aconvivercom tantas decepções,

que na maioria dos casos se parecem: a perseguição moral no local

de trabalho, a falta de dinheiro, a depressão, as drogas, o excesso

de bebida e até mesmo a perda repentina da lucidez e o desejo de

acabar com a vida.

Mas as pessoas são dotadas de personalidade, e na vida

em sociedade, seja ela qual for, há sempre os conflitos entre as

personalidades. É por isso que, muitas vezes, uma pessoa que

possui um status elevado no ambiente social se sente ameaçada

quando, do nada, surge um obstáculo que é justamente uma pessoa

que se destaca no ambiente. E o indivíduo dotado da condição de

soberania, na maioria das vezes, procura eliminar seu concorrente

a qualquer custo, pois vê sua importância se reduzir devido a um

dom encontrado nele, e que não possui.

Nesse contexto, por vezes os pensadores ponderam sobre onde

se encaixa o patamar revolucionário, voltado ao socialismo.

Na sociedade humana capitalista, é importante demais ser

alguém que ocupa uma posição social de destaque! Para o ser

humano, estar no topo é mais importante do que comer, beber ou

ter saúde física e mental.

Em qualquer lugar é assim. No trabalho, na família, numa festa,

confraternização, no barzinho e até mesmo na intimidade.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

88


Na clínica não é diferente. Há alguns pacientes que querem

ocupar um lugar de destaque entre os internos. É comum no

corredor se ouvir algum embate. Ou porque alguém fica fumando

perto dos quartos, ou por causa de alguma fofoca com o nome da

outra pessoa, ou o barulho do som, a mudança de canal da televisão,

um esbarrão na fila do almoço ou do lanche e até mesmo pela altura

das conversas à noite.

Há aqueles que querem ser os donos da situação e os moralistas,

que, por qualquer motivo, querem gritar e se fazer notar, e aqueles

que são eternos provocadores.

O interessante é que, embora as pessoas estejam em um

determinado momento da vida inseguras sobre a racionalidade

dos pensamentos e ações, conseguem conviver no ambiente social

mesmo tendo personalidades tão distintas e problemas de vício ou

algum transtorno mental, em alguns até permanente.

Isso nos leva a crer que o tamanho das sociedades e as

características dos indivíduos que as compõem é que darão origem

à natureza e à amplitude dos embates que formam o seu cotidiano.

Eu não entrava em tais conflitos. Na verdade, ainda estava me

sentindo ideologicamente morto. Ainda não havia encontrado uma

razão para vencer toda a situação em que estava.

Um morto que respira e come, dorme e acorda, vê o sol da

manhã e o luar reinarem no céu, que sente frio e sede, mas não tem

uma razão para ressuscitar e voltar a ser um pensador, um ideólogo,

capaz de confrontar a ilegalidade onde quer que ela esteja, não

importando o peso do fardo e as consequências da coragem e do

amor pela justiça e pela honra.

Esse ser morto dentro de mim, queimado no âmago do coração

e derrotado pelas desilusões da vida compara-se a um montinho de

cinzas após a brasa queimar tudo que encontra pelo caminho.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 89


DESENHOS NA PAREDE

90

– Bom dia! – Disse a terapeuta ocupacional Claudete.

– Olá, tudo bem?

– Fiquei sabendo que você desenha muito bem! Gostaria de

convidá-lo para fazer os novos desenhos na parede do espaço de

terapia ocupacional. Ontem, vi um desenho seu lá, numa folha

de papel, e amei! Mas, se achar melhor, pode fazer alguma outra

atividade lá na terapia, o que acha?

– Não há tintas suficientes para fazer os desenhos. Não é tanto

pelo trabalho, é o material mesmo. Não estou muito animado a fazer

nada. Eu fiz aquele desenho porque a Adalgisa me pediu para que

pudesse fazer uma estampa.

– Vamos fazer o seguinte: faça um desenho só, e eu convenço

a dona Hélida, proprietária da clínica, a comprar mais material

amanhã mesmo.

– Tudo bem! Posso fazer qualquer coisa que quiser?

– Sim. O artista aqui é você. E não percebe como essas paredes

estão feias, sem vida?!

– Está bem, então. Vamos aproveitar a manhã, não é verdade?

– Isso mesmo, garoto!

Na verdade, as artes já nascem com o artista! Estão no

gene, no sangue, no modo de andar, de olhar, de viver! Não há

como aprender a ser artista, o máximo que se pode obter com o

aprendizado é fazer arte.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Expressão artística fundamentada na essência da carne e do

espírito somente pode entender quem foi gerado no crisol divino

da criação e mergulhado no licor sagrado do dom artístico!

É o dom da arte! Algo que para o artista vale mais que cem

moedas de ouro! A sua tradução intelectual nas variadas formas de

expressão, tanto em palavras, quanto gestos e movimentos, figuras,

sons e fala. A arte surge do artista tal qual a planta no agreste

ressecado, carente de chuva: não se entende como é possível, mas se

vislumbra que é!

Corre água no interior das palmas mesmo que elas sejam o

cenário do sertão seco e carente das chuvas e rios.

Para o artista de verdade, as palavras não são apenas o talho e

o filete, ornadas conforme a caligrafia escolhida, ou a Gótica, ou a

Ronde Francesa, a Manuscrita Italiana ou Manuscrita Comercial

Inglesa.

Para o artista, a música não é apenas a execução lógica de

campos harmônicos e tons que somente se explicam num contexto

lógico. É inovar conforme a sua ousadia e se aventurar, até mesmo

numa troca de tom no meio da canção.

O artista de verdade se expressa com o corpo ao dançar, não

apenas para mostrar o que o contexto musical representa, ele

transcreve em ações aquilo que o espírito transborda.

Morto espiritualmente, eu já havia me esquecido disso. Meu

corpo apenas vivia, já não possuía nenhum ideal nem a sedução

comunista dos ideais contrários ao maquiavelismo do atual governo.

O primeiro desenho estava terminado. Um painel vistoso com

dois pássaros alimentando um filhote, muma árvore.

A gravura gerou comentários na clínica, e todos que viram

gostaram muito da figura, que se destacou no meio de tantos

rabiscos antigos que estavam no lugar, já envelhecidos pela ação

do tempo.

No dia seguinte, todas as tintas pedidas estavam no espaço

de terapia ocupacional, separadas com o meu nome. A terapeuta

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 91


havia realmente convencido a proprietária da clínica a adquirir os

materiais necessários.

Seria um modo interessante de passar o tempo, além de dar

uma nova imagem ao espaço de terapia ocupacional, que era uma

pequena casa onde eram guardados os trabalhos feitos pelos

pacientes e todos os materiais usados para a terapia, tais como

tintas, lantejoulas, barbantes, palhas, cabaça, cola, fitas adesivas,

brilhos, entre outros.

E a área externa da terapia ocupacional consistia de um quintal

com paredes delimitando o espaço das atividades. Foi justamente

nessas paredes que um lindo trabalho artístico foi elaborado!

Muitas cores, nas quais se destacavam o verde e o rosa, cores

representativas do amor e da esperança.

Na verdade, a combinação das cores verde e rosa tem um

significado espiritual muito grande! Transmitem paz e alegria

muito intensas! São as cores da Estação Primeira de Mangueira, a

tradicional escola de samba do carnaval carioca, muito querida em

todo o país!

Também foram usados vários tons de vermelho, uma cor

marcante para o ideal revolucionário. Em vários países, é a cor do

comunismo e do socialismo.

Numa das paredes, desenhou-se um painel único com a

alimentação das aves, um beija-flor tirando o néctar de uma planta

rara, um cavalo e duas aves silvestres, tudo com muita cor e magia!

No outro painel, de um canto a outro da parede, surgiu o fundo

do oceano, concentrando, em magia e sutileza, a imagem das sereias

e dos corais.

Em outro canto, revelou-se o esplendor do samba, com uma

autêntica roda de samba, alegre, festiva! As matas e um índio

caçador, um rei da mata, empunhando sua flecha, tendo ao fundo

uma cachoeira imensa, de águas azuis! Borboletas e flores! Um

contraste harmônico e alegre de cores e paisagens que se projetaram

92 até a porta do espaço. rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Foi como se a própria porta tivesse se transformado num livro

da vida, e a passagem fosse folha em branco para ser preenchida

com ações para o bem-estar de cada um.

Os trabalhos artísticos auxiliaram o processo de adaptação

àquele lugar, visando ocupar o tempo e tirar da memória tantos

momentos de depressão e cenas de retaliação aos dons que a vida

proporcionou.

As pinceladas na parede foram rasgando o coração, para

arrancar de seu interior um ranço de decepção e impotência moral

que haviam envenenado a vontade de viver.

E daí em diante, passava os horários de terapia fazendo os

desenhos na parede, retocando as cores, criando efeitos de luz e

sombra para que ficasse o mais perfeito possível! A importância do

detalhe é algo tão valioso quanto a perfeição na lapidação de um

diamante!

Ao fim de duas semanas, todas as paredes estavam cobertas de

gravuras muito coloridas! Havia uma sensação gostosa de ambiente

novo, com o cheiro de tinta ainda pairando no ambiente!

Sabendo da notícia, um jornal local procurou a clínica para

exibição de umareportagemsobreo trabalho de terapia ocupacional.

Na verdade, o que queriam era mostrar os painéis criados, pois não

foi possível gravar mais que imagens dos trabalhos artísticos, sem

a exibição de nenhum paciente da clínica, a fim de se evitarem

transtornos com familiares.

Os pacientes e funcionários gostaram muito do novo espaço e

várias vezes paravam para admirar os trabalhos. A porta virou um

livro aberto com uma mensagem agradável, e as paredes, uma tela

de um mundo mais alegre, mais festivo.

De fato, foi traduzido em imagens um desejo que há muito

tempo estava anestesiado em minha alma, que só carregava as

chagas da perseguição e as marcas da chibata que há muitos anos já

não açoitavam nem mesmo os escravos!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 93


AS TROCAS DE OBJETOS

Foi quando faltou cigarro na cantina.

Um desespero silencioso pairou durante a manhã, pois alguns

pacientes ainda tinham cigarros. Quando acabaram os da grande

maioria, houve uma revolução! As pessoas ficavam nervosas ao

saber que não iriam fumar.

Muitos pacientes procuravam quem ainda tinha cigarros para

propor a troca por um par de meias, uma blusa, bermuda e até

dinheiro.

Na verdade, eu não sabia que alguns pacientes conseguiram

esconder dinheiro na clínica entre os seus pertences. Essa notícia

me deixou surpreso!

Se o fazendeiro visse, iria dar problema, pois outro dia uma

enfermeira lhe mostrou uma moeda de dez centavos, e ele entrou

em crise falando que ela lhe havia prometido dois mil. Na verdade,

o boiadeiro tinha diversas crises. Ainda bem que não fumava.

Ele tentava pular a divisória do posto de enfermagem e entrar

lá de qualquer maneira, xingando e delirando que a enfermeira

disse que lhe daria dois mil e que estava voltando atrás em sua

palavra.

Os pacientes crônicos estavam desesperados querendocigarros!

Pegavam restos de cigarro no chão, catando as guimbas para tirar

o fumo. Reviravam a grama, tateando cada centímetro à procura de

restos dos restos jogados.

Eu ainda tinha a metade de um maço de cigarros. Como não

queria trocar nada, se algum paciente chegasse pedindo, eu tirava

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

94


um do bolso, pois o restante estava guardado para evitar que eu

também entrasse no desespero de ficar sem o doce vício, que aquieta

as emoções e tensões aqui nesse lugar.

Entretanto, as trocas de objetos logo foram descobertas, e a

direção determinou as devoluções de todos os objetos que tinham

sido trocados por cigarros.

Foi uma tarde inteira de devoluções de objetos, sendo

monitoradas pelos enfermeiros. E tudo aconteceu porque faltou

cigarro na vendinha. A situação foi tão alarmante que a direção da

clínica chamou a atenção do rapaz que estava lá no dia, cobrando

mais eficácia no serviço para não prejudicar os pacientes que

dependem do vício.

Depois desse dia, contudo, as trocas continuaram acontecendo.

Os pacientes descobriram que o interior da clínica poderia ser uma

sociedade, tal qual a que estavam acostumados no mundo lá fora,

até mesmo com uma rede de comércio, bastando para isso apenas

uma oferta e uma procura.

Houve troca de um sabonete chinês, muito cheiroso, por um

maço de cigarros. Outro paciente queria fumar um cigarro de

melhor marca e comprou com dinheiro. Um outro, conseguiu, sabese

lá como, um aparelho celular em ótimo estado de funcionamento

com bateria e carregador.

As pessoas sentiam saudade da vida social, e isso alimentou,

desde aquele dia, as constantes trocas de objetos no interior da

clínica.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 95


VISITAS

96

Depois de quinze dias internado, o pensador finalmente poderia

receber visitas e ligações, as quais eram direcionadas ao telefone da

sala da assistente social Iara e atendidas na presença dela.

Era domingo de manhã e várias pessoas ligaram. Queriam falar

com ele, ouvir sua voz e saber como estava.

Passou boa parte da manhã atendendo ligações de amigos,

familiares, pessoas importantes e comuns, e a todos dirigia palavras

de respeito e gratidão por terem se preocupado com ele. Até mesmo

um representante do partido comunista ligou, para falar que sentia

falta da sua presença nas reuniões da cidade, que sempre o viam

como um político em potencial, embora sempre acabasse desviando

do assunto.

Vieram da cidade onde morava, já na parte da tarde, sua irmã

Karolina, a amiga Riana, a prima Sirlene e seu esposo Ademar.

Trouxeram no carro um cobertor de veludo, vários salgados, duas

cartas de familiares, doces e balas de que muito gostava.

Era dia de visitas coletivas e alguns pacientes receberam seus

parentes, entre eles os parentes do fazendeiro, os quais chegaram

num carro novo. Ao caminhar pelo interior da clínica

mostrando aos que vieram as dependências, o pensador falava sobre

as experiências que estava tendo, apresentava-os aos pacientes e

contava um caso ou outro sobre algum paciente.

Com um pedido feito antes à dona da clínica, obteve autorização

para que o enfermeiro-chefe acompanhasse os parentes até o

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


espaço de terapia ocupacional, e quando a porta foi aberta todos

ficaram admirados com os mosaicos que cobriam todas as paredes

de um canto a outro, com graça, alegria e perfeição nos traços de

cada desenho. O enfermeiro chefe ainda não havia visto os murais

e chegou a tocar nas paredes, admirando-as. Os visitantes tiraram

várias fotografias do lugar, que disseram estar belíssimo!

Um ambiente tão puro e cheio de vida, repleto de cor e

esperança! Parecia que ali era um novo mundo, sem as cinzas que

infeccionam os pulmões na vida em sociedade.

Realmente foi exteriorizado em imagens outro universo,

existente na subjetividade do pensador, que não foi poluído ou

ferido pela aspereza da vida em sociedade.

Depois, foram todos para um local onde havia cadeiras e mesas.

A assistente social então chamou as mulheres para conversar à

parte, numa sala, e o pensador ficou conversando com o Ademar.

Falou dos momentos que passou e que foram decisivos para o

quadro de depressão a que estava submetido, recebendo conselhos

importantes para não deixar que as tristezas da vida abalassem uma

pessoa de futuro tão promissor, devido à grande intelectualidade

que possuía.

Ao abrir um salgadinho, do que mais apreciava, feito de farinha

de trigo cozida, uma paciente entrou na sala e pediu um pouco, ao

que ofereceu com gesto de desprendimento e alegria. A paciente

estava internada há um ano e seus parentes nunca foram visitá-la,

por morarem muito longe e não terem muitos recursos.

Após um tempo e depois de muito conversarem, as mulheres

retornaram.

O sol já estava se escondendo, deixando que os primeiros

sinais da noite aflorassem, trazendo o frio e o brilho da lua cheia no

horizonte oposto, quando os parentes se despediram.

E, ao entrarem no carro, desejaram melhoras, dizendo que iriam

ligar constantemente para ter notícias, já que agora não estaria mais

tão isolado, podendo receber notícias.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 97


Nesse intervalo, outras pessoas ligaram para a clínica a fim

de saberem notícias suas. E ao saber disso pela assistente Iara,

ficou contente de haver tantos conhecidos preocupados com sua

melhora.

Uma das pacientes, a Salomé, passou o dia inteiro dizendo

que seus dois filhos iriam visitá-la, mas a tarde passava e nada de

aparecerem.

Foi decaindo, ficando com um semblante descontente e

apreensivo, até que, pouco tempo antes do horário de visitas se

encerrar, o casal de filhos chegou de carro. Uma jovem de dezenove

anos, loira e muito bem apessoada, e um jovem de treze anos,

rechonchudo e de cabelos arrepiados!

A vida é difícil! Lutamos para vencer !

Viver é procurar diamantes onde só existe areia...

Ela, maravilhada com a presença dos dois, andou com eles pelo

interior da clínica, apresentando-os aos funcionários e pacientes,

e, embora a visita tenha sido muito curta devido ao horário, sua

fisionomia estava muito melhor!

Era possível perceber um olhar entristecido nos pacientes

que não receberam visitas, pelo menos em alguns deles, outros já

estavam acostumados ao abandono dos amigos e da família e já não

prestavam culto a certos sentimentos como a saudade.

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rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


A ANSIEDADE

Era manhã! Ao chegar à janela do posto de enfermagem, havia

vários pacientes esperando os seus respectivos remédios.

A enfermeira colocou rapidamente em minha mão dois

comprimidos e recusei o copinho descartável dessa vez, dizendo

que iria tomar o medicamento no bebedouro para dar lugar aos

outros pacientes que aguardavam na fila torta que se formou.

Entretanto, ao chegar ao bebedouro, acabei guardando os

comprimidos no bolso. Estava cansado de tudo aquilo! Do estado

de dormência que ficava no corpo todas as manhãs, uma sensação

de impotência moral e espiritual que me impedia, por exemplo, de

sentir ódio ou revolta.

Os comprimidos não estavam me impedindo de viver, de sentir

os sentimentos que eu sempre senti, amar o que sempre amei e

odiar também. Mas, por outro lado, me impediam de me revoltar e

porejar do corpo como suor o idealismo intelectual que sempre foi

uma chaga perene em meu semblante, tal qual uma imagem de fênix

brotando da testa.

Isso mesmo! A fênix. O pássaro de fogo no qual sempre me

inspirei, que sempre renascia das próprias cinzas.

As horas foram passando e com a abstinência do medicamento,

a primeira sensação sentida foi uma grande ansiedade! Meu sangue

corria mais acelerado e o coração batia mais intensamente!

Acendia um cigarro atrás do outro. Consegui um isqueiro com

um paciente a troco de um maço de cigarros e, sem me

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 99


100

preocupar se alguém estava vendo, acendia os cigarros ali mesmo

no corredor, contrariando todas as regras e proibições. Com o

passar das horas, ansiedade foi só aumentando! E na hora do

almoço, pela primeira vez desde que aqui cheguei, estava com

fome.

Antes, parecia que me alimentar, em vez de necessidade, era

uma tarefa sem sentido a ser cumprida. Eu não sentia fome, medo,

coragem, sono, saudade, amor ou ódio.

Mas hoje, com a carência da droga, meu corpo foi tomado por

grande euforia! Depois de muito tempo, eu sentia os olhos ardendo,

e a imagem do ser debilitado e anestesiado, incapaz de reagir diante

das dificuldades, começou a esmaecer diante do espelho.

A ansiedade, entretanto, não tinha um motivo determinado.

O corpo se ludibriava com um desejo puro e suave, repleto de

ideais que turbinavam milhões de pensamentos a cada momento.

A vivacidade do corpo! O ato de respirar e, depois de muito tempo,

perceber a presença do ar com todos os seus cheiros.

À tarde, senti vontade de comer um doce e fui ver se havia

algum na cantina. Havia um doce cristalizado que desde a infância

não provava. Coberto de açúcar, de cor vermelha e amarela, parecia

uma bala de goma! Muito saboroso! Comprei vários doces e guardei

no bolso para comer mais tarde.

Na hora de dormir, o sono demorou a chegar. Fui até o pátio

da área interna e fiquei admirando as estrelas. Levei alguns doces

e me sentei em um dos bancos, justamente o preferido da velha

resmungona.

O suor, nesse dia, foi bem mais intenso devido à agitação do

dia, cheio de ansiedade!

O céu...

Um céu repleto de estrelas que nada dizem, não têm ações

próprias, somente cumprem sua missão de ficar ostentando brilho,

sem nada fazer pelos habitantes da terra, aqui embaixo.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Ao comer doce, lembrei-me de momentos da infância em que

olhava para o céu com tanta naturalidade, como se estar sob ele

fosse algo comum.

Pensamos de forma muito terrestre! Somos limitados a viver

as agruras sociais e o desejo hedonista com o qual apenas poucos

estudiosos estão preocupados, com a conquista do universo, com

a descoberta de novas formas de vida ou puramente o motivo de

existirmos.

Claro, por ser improvável, preferimos acreditar nas soluções e

explicações mais simples, porém, desprezar que há muito oculto a

ser descoberto é ignorância.

Acreditar numa explicação simples é arbítrio do ser humano,

mas fechar os olhos para a realidade é como olhar para o céu e

apenas enxergar pontos luminosos.

Para os esclarecidos, cada ponto é um sol igual ao que nos dá o

calor das manhãs e o direito de viver. Se o que há lá fora ainda não

foi descoberto, uma hora ainda será.

Após comer o último doce, acendi um cigarro para acalmar um

pouco a ansiedade desse dia. Deixar de tomar os remédios foi uma

atitude perigosa, visto que eu ainda estava com depressão, mas

correr risco é arbítrio do homem.

Então decidi que não iria mais tomar os comprimidos. Talvez

outro paciente sem esses medicamentos ficasse agressivo. Eu,

porém, voltei a pensar, a ter sentimentos que já havia esquecido.

Era como uma águia, após se recolher aos picos altos, com as

penas já gastas, unhas que não mais seguravam as presas e o bico,

curvo, dificultava os ataques.

Recolhida ao local escolhido ou determinado pela natureza,

a águia, num processo doloroso de renovação, arranca o bico

batendo-o constantemente contra as rochas, e, ao nascer o novo

bico, arranca todas as unhas para que novas possam surgir, e arranca

também todas as penas do corpo.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 101


Quando a águia termina esse processo, é como se um novo ser

deixasse as montanhas! Como se voltasse a viver depois de haver

morrido. Eu queria sentir essa sensação de euforia com o primeiro

voo depois de haver perdido a vontade de viver.

Deixar as sensações do corpo explodir novamente e tornar-me

um ser de atitude, mais que isso, um novo ser! Inquestionável em

coragem, determinação, ousadia e consolidação de ideais que não

se abalam por motivo algum!

Após terminar o último trago e cientificar-me, olhando

novamente para as estrelas, sobre o motivo real da ansiedade

que durante o dia causou tanta euforia em meu ser, passei pelo

corredor, parando ainda um momento no bebedouro e tomando

uma boa quantidade de água gelada! Pensei que se resfriasse minha

temperatura interna, sentiria frio e, ao encobrir todo o corpo, o

sono chegaria mais facilmente.

Há muito tempo estava dormindo, mais do que o corpo

necessitou, e houve o desejo de acordar.

102

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


OS AMORES PROIBIDOS

Deivisson está encantado pela paciente Adalgisa, uma

adolescente do município de Viscoso, que por lá se envolveu com

drogas ilícitas e, por determinação do juiz, foi internada para

tratamento.

A adolescente é morena, de estatura mediana, curvas muito

bem distribuídas, seios volumosos e firmes, rígidos como uma fruta

rosada! Longos cabelos que vão até a cintura!

Seu modo um pouco arrogante é típico de adolescentes

desaforados, porém, em certos momentos, é uma garota muito

comunicativa. Mas, por alguma contrariedade já fica com raiva e

grita aos berros!

Franklin também já gostou da paciente Sabrina, uma morena

alta, também nova, com dezenove ou vinte anos. Esbelta e de pele

morena e fisionomia brilhosa! Também de gênio forte como a

Adalgisa!

Chegaram a trocar uns beijos escondidos pelo corredor ou na

sala de palestras, quando não havia nenhum enfermeiro por perto.

Uma pegação que vem e acontece no calor do momento, assim

de repente, quando há tensão ou saudade mesmo do desejo de amar

e viver a aventura.

Qualquer tipo de envolvimento afetivo entre pacientes ou entre

funcionários, porém, é proibido na clínica, sendo conduta que gera

passagem corretiva pelo R3, o setor mais temido da clínica, ou até

demissão do funcionário que se envolver com qualquer paciente.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 103


104

Segundo o João, há uma história de um funcionário da clínica

que foi demitido por ter sido flagrado aos beijos com a Adalgisa,

tempos atrás, logo que ela chegou e foi internada na clínica, e teria

provocado no enfermeiro um desejo incontrolável!

Na verdade isso existe em todo lugar – disse o Fausto. Em

empresas ou repartições, há sempre um querendo uma vantagem

amorosa, seja ela lícita ou não.

– O que o povo quer mesmo é diversão! – disse o João.

Principalmente quem tem algum poder de chefia ou gerência. Basta

ver uma mulher bonita novata na empresa que logo quer mostrar as

asinhas, cheio de gentilezas e agrados.

– Lá onde trabalho, houve um problema assim. Uma mulher

casada foi trabalhar na empresa. Era muito bonita e atraente!

Caminhando pelos corredores, provocava sussurros e logo um dos

gerentes de setor se interessou por ela. Levava presentes e fazia

diversos elogios. Depois de um tempo, deixou mais claras as suas

intenções de tê-la a qualquer custo, oferecendo-lhe um cargo de

confiança no setor, embora houvesse funcionários que estavam no

setor há mais de dez anos sem jamais terem sido promovidos.

– Isso existe em quase todo lugar, Fausto! Sempre haverá

alguém interessado na outra pessoa. Depende de a pessoa ceder ou

não às investidas.

– Pois é, só que nesse caso, lá na repartição, deu um problemão

porque a mulher contou ao marido que estava sendo assediada, e ele

apareceu lá no dia seguinte. Era chefe de polícia e levou cinco carros

para provocar um impacto na gerência da empresa. Queria levar o

gerente de setor preso de qualquer forma ou aplicar, ali mesmo, um

corretivo nos moldes do auge da Ditadura.

– Na minha antiga repartição, houve um problema assim. Uma

funcionária muito bonita, chamada Alice foi trabalhar na empresa.

Ela não era casada, tinha uma filha com um rapaz do município de

Ouros, no sul do estado, e namorava outro rapaz. Um gerente de

setor, que era casado, ofereceu inúmeras coisas a ela, dizendo que

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


iria se separar da mulher para ficar com ela, que tinha casa, que

poderia colocá-la para coordenar o setor junto com ele.

– Mas o que houve? – perguntou o João.

– Eu não sei muito bem, só o que sei é que pouco tempo depois

ela havia sido transferida de setor. Nem ficou na empresa e decidiu

sair, talvez devido ao assédio que vinha sofrendo por parte do

gerente.

– Deve ser. Nesse caso que eu estava contando, como virou

caso de polícia, o gerente de lá se viu obrigado a dar uma solução,

conversou com todos os gerentes de setor e disse que se ficasse

sabendo de algum assédio às mulheres na repartição iria demitir

ou transferir o acusado para um lugar longe de casa como medida

punitiva.

O amor proibido é fogo que arde no corpo! Um desejo de ter

aquilo que os olhos primeiro observam e o cérebro acha agradável.

Muitas vezes, o indivíduo tem mulher e filhos, e a esposa

é até bonita e agradável, mas surge algo novo! Algo que não é da

posse e usufruto e, somente por ser inacessível, provoca o desejo

consumista no homem.

E o Deivisson começou a dar pequenos agrados à Adalgisa, tais

como chocolates, doces e até um ursinho de pelúcia, que mandou

trazer da cidade.

Nós sabíamos que até trocavam alguns beijos, às escondidas.

Em algumas vezes, até tiritando os dentes, ou de frio ou de medo

de serem descobertos, atrás de uma árvore ou na sala de palestras,

localizada no interior da clínica, junto ao pátio, próxima do

refeitório.

Contava as peripécias à noite, sempre que ia levar café. Falava

dos encontros às escondidas e da sensação de estar fazendo algo

proibido, o que provocava mais ainda o desejo.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 105


O TROTE

– Socorro, tia! Acabei de sofrer um acidente de carro, estou

muito machucado.

– Onde está? O que aconteceu?

– Não estou conseguindo falar direito. Estou muito machucado.

Vou passar para o mecânico que está aqui me ajudando.

– Alô? Quem fala?

– O que houve com meu sobrinho? Diga?

– Olha, dona, ele estava indo pra casa num carro emprestado

pela clínica devido ele ter apresentado bom comportamento, porém

houve um acidente aqui na fazenda Rosário. O carro está muito

estragado e precisarei que deposite um valor em dinheiro numa

conta que vou passar, mas é urgente, afinal tenho de atender outros

clientes.

– Espere. Vou ligar para a família dele. Precisam saber que

sofreu acidente.

– Não posso esperar mais. Há uma viatura aqui prestando apoio

e sinalizando o acidente, mas eu não posso começar o conserto do

carro sem o valor depositado.

– Tudo bem! Passe-me o número da conta que deposito já o

dinheiro.

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rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


– Naiara, aqui é sua tia. Como está seu irmão?

– Boa tarde tia! Ele continua internado na clínica.

– Não, Naiara, falei com ele há pouco. Ele estava vindo para

casa num carro emprestado pela clínica, mas o carro bateu perto de

uma fazenda. O mecânico que está arrumando o carro me pediu pra

fazer um depósito.

– Olha, isso foi um trote! Ele não teve alta médica ainda, liguei

pra lá agora e falei com ele no telefone da assistente social. Não

podia ter feito o depósito, não. Alguém conseguiu o telefone da

mercearia e se passou por ele.

Na verdade, as falsas ligações de estelionatários se fazendo

passar por parentes, amigos, filhos ou sequestradores têm evoluído

muito nos últimos anos!

Esses golpistas se aproveitam da fragilidade alheia e estudam

suas vítimas antes do golpe ser aplicado. Imitam a voz da pessoa,

falam com propriedade sobre fatos que são do conhecimento da

vítima, induzem ações ou omissões, tudo metodicamente elaborado

para garantir o sucesso do empreendimento delituoso.

Após o trote, foi feito o registro de ocorrência na polícia daquela

cidade, sendo passado o número da conta que o golpista informara,

os valores depositados e as demais informações necessárias para a

investigação do caso.

Há tantas pessoas que vivem da ilusão aos outros! Por isso, o

comércio está quebrado. Ninguém mais confia.

Quando o cliente chega para comprar um carro ou uma casa,

por exemplo, o vendedor, disfarçado em pele de cordeiro, já vai logo

pedindo sinal adiantado, sem nem mesmo saber se haverá condições

de o negócio ser concretizado.

Quando há algum problema que impossibilita o negócio, o

golpista já até usou o dinheiro pago no sinal para outros fins, e o

comprador ou recorre à justiça ou a faz por suas próprias mãos.

O certo é que dificilmente verá o dinheiro novamente, pois quem

aplica esse tipo de golpe já está cheio de processos semelhantes e

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 107


já não faz questão de andar conforme a lei, antes disso aprendendo

com o tempo várias artimanhas para ludibriar a justiça, que já é cega.

Há muitos casos em que os golpistas tiram todos os bens do nome,

passando para o de parentes ou conhecidos de confiança, para não

terem o que ser confiscado pela justiça em eventuais processos.

Enganadores estão em toda parte, sempre sobrevivendo às

custas de enganar o povo, se aproveitando da inocência e fragilidade

alheia, ou talvez do desejo consumista na realização de um sonho

material.

É um produto defeituoso que o vendedor já sabe que trará

problemas, um plano de telefonia ou de internet que é aquém do

estabelecido em contrato, o plano de saúde que se paga a vida inteira

e quando se precisa dele, não cobre o procedimento, seguros, enfim,

o comércio está aí para enganar, e foram os próprios comerciantes

que criaram esse estado deplorável de confiança da população.

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rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


A PEGADINHA DO BONECO

Sabino era cachaceiro! Chegou de repente no quarto, sedado e

ficou dormindo por três dias, sob o efeito dos remédios.

Quando acordou já foi logo pedindo cachaça, não se preocupando

em estar internado se tivesse cachaça para beber.

– Moço, o que eu vou fazer sem cachaça?

– Bom, Sabino, aqui na clínica você não vai conseguir cachaça,

não.

– E o que eu vou arrumar da vida? Acho que vou comer alguma

coisa e depois dormir de novo, então.

Ele dormia, acordava na hora do café da manhã, depois voltava

para o quarto para a soneca de antes do almoço, a qual era pesada e

nada o acordava.

Como se tivesse um relógio biológico, levantava-se pontualmente

na hora do almoço e chegava antes de todos à fila

do refeitório.

Sempre que era servido, pedia para que colocassem mais ainda,

e pegava um prato separado só para a salada.

Após o almoço, fumava um cigarro e dizia sempre que queria

uma cachaça para as enfermeiras do posto. Com as respostas

que recebia sobre a impossibilidade, exibia uma expressão de

descontente e tome outra soneca antes do lanche das quinze horas!

Sempre recebia a negativa com a mesma frase:

– Ô, lasqueira!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

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Uma acordada rápida, o deslocamento ligeiro até a cantina e

uma voltinha curta pela área externa, só pra esticar os músculos e

lá vai mais uma soneca.

Na hora do jantar, costumeiramente era um dos primeiros da

fila, e um dos últimos a sair do refeitório, sempre pedindo para

repedir o prato.

E de onde o infeliz tirava sono para dormir à noite inteira acho

que nem a ciência conseguiria explicar.

– Ele está dormindo de novo, João?

– Esse aí não tem jeito. Só come e dorme, come e dorme.

– Amanhã vou fazer uma brincadeira com ele pra ver se ele faz

alguma coisa.

– Rá! Rá! Rá! Conhecendo bem o seu jeito brincalhão, até

imagino o tipo de coisa que vai aprontar.

– Eu acho que deveríamos colocá-lo pra dormir com o bumbum

de veludo.

– E já vem com essa palhaçada de bumbum de veludo de novo.

Não tem outra coisa pra fazer, não?

– Ei, essa ideia é ótima!

– O quê? Já vai começar com as piadinhas também?

Exatamente! Amanhã vou pôr um boneco de pano para dormir

com ele!

– Rá! Rá! Rá! Rá! Você não vale nada! O que vai fazer?

Espere ele sair pra tomar café, amanhã, e verão.

– E a noite passou bem rapidinho, afinal todos queriam ver

mesmo a brincadeira do boneco.

Sabino acordou pontualmente, pedindo cachaça:

– Será que hoje vão me deixar beber uma cachaça? Já tem cinco

dias que estou aqui.

– De novo essa história, Sabino? Olha só, João, ele ainda insiste

na cachaça. Rá! Rá! Rá!

– Pede lá na cantina, de repente eles te dão.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


– Nossa! Por falar em cantina está na hora do café. Preciso

correr pra não pegar fila, acabei de acordar e já estou com sono

outra vez.

Então, todos olharam para mim e deram uma boa risada, assim,

bem estridente que ecoou pelo corredor.

Assim que Sabino foi para o refeitório aguardar o café, peguei

alguns cobertores, esparadrapo, uma faixa e um par de óculos que

Fausto emprestou.

Enrolei os cobertores e, com o esparadrapo, fui delineando

braços, pernas e dorso. O rosto foi feito com algumas roupas e com

a faixa, por fim adornado com os óculos.

Corri até o refeitório e disse:

– Sabino, chegou um paciente novo. Está operado na cabeça e

também é cego. O enfermeiro chefe falou que ele terá que ficar em

sua cama até conseguirem um leito.

– O quê? Mas como foi acontecer uma coisa dessas? Vou lá ver

isso agora. Eu tiro esse infeliz da minha cama agora mesmo.

– Não, homem! Você não pode mexer nele, afinal está sedado e

operado. O jeito vai ser você ir pra terapia ocupacional na parte da

manhã ou ficar aguardando na área externa, fazer uma caminhada,

sei lá! Dormir será impossível!

– Eu vou lá ver esse gaiato agora mesmo.

Nesse momento, não consegui segurar o riso e achei melhor

ficar no refeitório enquanto passava a crise de gargalhadas.

No corredor, vários pacientes ficaram vendo o Sabino passar

com um copo de café com leite na mão direita e metade de um pão

na esquerda. Todos já sabiam da brincadeira e não conseguiam

segurar o riso.

João falou que o Sabino entrou no quarto, xingou o boneco de

folgado e ainda deu um cutucão no boneco esperando que acordasse.

Ao voltar estava desolado, pois perderia o sono da manhã antes

do horário do almoço.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 111


– Moço e agora? Chamei o folgado lá na cama e ele nem se

mexeu. Se ele cismar de dormir muito eu não sei o que vai ser de

mim.

– Bom, por que não faz uma caminhada, então? Respira um ar

puro!

Está louco? O que eu mais queria agora é uma cachaça e depois

tirar um cochilo. Só de pensar em fazer alguma coisa me dá sono.

– E por que veio pra cá?

– Moço, nem te conto. Eu estava em casa tomando uma cachaça

muito boa! De repente, veio um pessoal do outro lado da rua

querendo que eu abaixasse o som, aí peguei meu vinte e dois e dei

três tiros para o alto. Saiu foi gente correndo!

– Mas não deu nenhum problema não?

– Que nada! Meu padrasto é fazendeiro. Ele que empresta a

casa que serve pra polícia lá na cidade. Se alguém mexer comigo,

ele cria caso. E lá é assim mesmo. Outro dia, não transferiram

um novato porque ele multou o filho da prefeita da cidade? O

moleque é um diabo! Não tinha carteira para andar de moto e

estava empinando a moto que comprou. Isso foi na praça, bem no

centro da cidade.

– Sério? E o que houve?

O policinha foi lá e apreendeu a moto, esvaziou um bloco de

multa em cima do filho da prefeita e o levou pra delegacia. Ela

foi reclamar com o chefe de polícia, e uma semana depois haviam

transferido o novato pra uma cidade que fica uns duzentos

quilômetros de lá.

– Que coisa! Hoje em dia ainda existem situações assim?

– É o que mais tem. Mas aí o meu padrasto me internou aqui

pra que eu desse um jeito nessa cachaçada em que estou.

– E o que está achando daqui?

– Nem sei, só como e durmo. Aliás, eu não vou fazer caminhada

coisa nenhuma. Vou lá dormir...

112 rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


– Rá, rá, rá, rá, rá, rá... – Não foi possível me conter, cheguei a

babar do tanto que ri quando ele falou.

– O que foi?

– Nada, desculpe interromper, mas eu não aguentei. Diga-me:

vai dormir onde?

Na minha cama, ora. Ele chegou depois. Os incomodados que

se retirem.

E o Sabino foi andando pelo corredor. Olhei para o João e para

o Fausto e nenhum dos três conseguiu conter o riso. Logo a clínica

inteira estava sabendo, e fomos todos para a porta do quarto ver se

ele perceberia que era um boneco.

Empurrou o boneco para o canto da parede e deitou na beirada.

Puxou o cobertor e ainda falou que o boneco era muito folgado e

espaçoso.

Fomos todos para a área externa e uma hora depois chega o

Sabino.

– Então, Sabino, não quis dormir?

– Moço, não dá pra dormir perto daquele homem não.

– Por quê? O que houve?

– Bom, ele solta gases e ronca. Até aí tudo bem, mas fica

batendo na gente e isso não dá pra aceitar não. Cheguei a falar com

ele que estava me incomodando, pra ele sair do quarto e procurar a

enfermagem pra conseguirem outra cama.

– E o que ele fez?

– Fingiu que não estava me ouvindo e continuou dormindo

feito uma pedra.

Sabino não havia percebido que era um boneco, e não sei se por

delírio ou exagero imaginou coisas. Passara tanto tempo sem sua

cachaça que já estava tendo problemas de abstinência.

Se fosse um maconheiro eu diria que a que ele usou era da boa,

mas o desejo dele era somente sono, comida farta e cachaça.

Então eu me pergunto: precisa dizer mais alguma coisa?

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 113


Ele deu uma volta na área externa da clínica, fumou alguns

cigarros, visitou a terapia ocupacional e depois foi até a horta para

pegar algumas couves, comendo tudo ali mesmo como um furão

invasor de plantação.

Depois acabamos contando que era um boneco, e ele sorriu com

a brincadeira. Acabou percebendo que estava dormindo demais e

começou a dar uma voltinha pela área externa após cada refeição,

antes do seu cochilo.

114

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


O PRESENTE

– Monsenhor! Desculpe desviar, nessa reunião tão importante,

o foco do nosso propósito para esse encontro, mas tenho que levar

ao conhecimento dos senhores irmãos alguns fatos que entre nós

será mantido no mais absoluto segredo, mas será necessária uma

intervenção no sentido de solucionar algumas particularidades que

fogem à luz da legalidade e da igualdade.

– Tem a palavra aberta. Traga o que o aflige para que possamos,

com sabedoria, compreender e auxiliar da melhor forma, se os

demais presentes estiverem de acordo.

– O que vou relatar, porém, é algo que precisará ser

metodicamente avaliado pelos senhores irmãos devido ao fato de

que a influência que temos será um fator de decisão para a melhor

solução de tudo o que está acontecendo.

– Continue! Tem a palavra...

– Senhor Lino! Obrigada por me atender!

– Boa tarde, senhora!

– Sei que vim em momento inoportuno, mas o assunto de que

vim tratar é urgente! Não poderia esperar mais essa entrevista para

debatermos sobre o caso.

– Não há de quê, senhora Flávia! A que devo a honra de sua

visita? Pode falar abertamente! Estou à sua inteira disposição!

Vim tratar de assunto relacionado a um de seus funcionários.

Na verdade, um funcionário diferenciado, cujo trabalho temos

acompanhando com o passar dos anos. Vários fatos chegaram ao

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 115


116

nosso conhecimento e queremos saber, da parte de sua repartição,

o que tem sido feito para ajudá-lo.

– Já sei até do que se trata. Ele ainda está internado em outra

cidade, mas estamos oferecendo todo o suporte necessário. O

problema é que ele passou por muitas situações inadequadas

na repartição onde trabalhava, e isso vinha abalando seu estado

emocional há vários meses. Quando chegou aqui, há mais ou

menos um mês, já não estava bem. No dia em que tudo aconteceu,

eu estava fora, participando de um congresso. Fui saber do

incidente no metrô por meio dos jornais. Ao ligar para o setor

onde trabalhava, disseram que ele até chegou a vir para o serviço

no dia, mas que seu estado emocional não era outro senão o de

mais profunda depressão!

– Ele é uma pessoa muito querida entre nós! No meu caso,

como sabe, estou representando mais do que uma grande equipe

de militantes, grandes amigos que ele angariou ao longo dos anos.

Todos estão muito apreensivos e até descrentes quanto à empresa

pelos fatos que o levaram a tentar suicídio e pela ineficácia de

algumas das repartições em atender à demanda de ordens de serviço.

Há muita coisa fora dos padrões de aceitação e a responsabilidade

sobre isso não pode cair senão nas costas dos gerentes.

– Entendo que há muito para ser melhorado sim! Pelo pouco

que o vi trabalhando percebi que é uma pessoa de valorosos

princípios! Um profissional extremamente eficaz na elaboração de

seus projetos! Pode ter certeza que, da minha parte, estou sempre

apoiando suas pesquisas profissionais e seus trabalhos, que são de

fato muito interessantes!

– Trouxe aqui alguns panfletos sobre um novo trabalho que

estamos elaborando, que espero ser do seu agrado. Irei também

comunicar aos outros membros o que foi aqui discutido, mas é bom

saber que, da parte dessa gerência, há um novo posicionamento em

relação a ele. Chegamos a nos manifestar diretamente ao gerente

Barcelos sobre a nossa insatisfação com determinadas condutas

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


que, além de desaprovadas pelos acionistas, são rejeitadas por todos

aqueles que estão ligados aos serviços aqui prestados.

– Não tenha dúvidas de que estamos nos empenhando para

promover muitas melhorias internas. Algumas questões fogem

à minha alçada, mas o que posso fazer para melhorar as coisas

para os meus funcionários e para o público, isso tenho feito

constantemente. Não podemos oferecer um produto de qualidade

se não nos preocuparmos com quem está na linha de produção.

– Obrigada pela atenção, senhor Lino! Muito bom saber que

podemos contar com pessoas como o senhor!

– Tenha um ótimo dia, senhora Flávia! E muito obrigado pela

sua visita!

– Senhor Bretas! Que bom vê-lo novamente em meu gabinete!

Sua presença é sempre muito agradável!

– Deputado Freitas, boa tarde! O assunto que me traz até aqui

é algo que requer a sua atenção para uma intervenção decisiva e

imediata. Trata-se de um incidente que vem se arrastando há vários

anos, e não há momento mais oportuno para cobrar seu apoio e

deliberação junto à Casa Legislativa do que agora.

– Conte-me o que está acontecendo, se estiver ao meu alcance

solucionar.

– Um instante. Deixe-me mostrar os documentos que trouxe

comigo na pasta, pois comprovam todo o teor do assunto que vim

relatar, para o qual solicito sua intervenção.

– Sim, isso é interessante! Vou chamar minha assessora, Rosina,

para acompanhar o que tem a relatar e providenciar um despacho,

se for o caso.

– Isso é o desejo de todos aqueles que me indicaram para trazerlhe

essa demanda, que necessita de intervenção urgente e decisiva

por parte de Vossa Excelência, tendo em vista a gravidade dos fatos

e todas as consequências que podem surgir de um caso como esse.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 117


– Já ouvi algo a respeito, mas até o momento procurei não

interferir porque achei que o caso já estava sendo solucionado pelo

Deputado Juarez. Além do mais, eu não queria entrar em conflito

com os comunistas, pois poderiam interpretar mal as minhas

intenções.

– Ele não fez muito para solucionar essa situação. Antes disso,

se esquivou. E agora, antes que o rapaz termine a internação, quero

viabilizar uma forma de trazê-lo para esta cidade, ou então, em

último recurso, providenciar sua alta imediata, tendo em vista que a

internação foi arbitrária e compulsória, não dando a ele o direito de

escolher o melhor tratamento. Segundo o Genaro, o rapaz chegou a

reclamar várias vezes de que a internação traria prejuízos, inclusive

não tendo dado a ele a oportunidade de ao menos buscar roupas em

sua casa.

– Sem dúvida, uma situação lamentável de falta de respeito ao

ser humano!

– Com licença, senhores! Posso entrar?

– Pois bem, vamos então começar a reunião.

– Sim! Pedi para que a Ester trouxesse bolachas e um cafezinho.

118

– Grande companheiro Genaro! É sempre um prazer recebê-lo

em minha sala! Ainda mais para um assunto de tamanho interesse

como esse! Fiquei muito satisfeito ao receber sua ligação, e certo de

que poderei ser muito útil!

– O prazer é todo meu, Excelência!

– Ontem, quando me adiantou tudo por telefone, vou confessar

quefiqueichocadocom tudo isso! Algome despertou umsentimento

íntimo de revolta e insatisfação que me fez perder o apetite.

– Pois é! Eu acompanhei todos os passos e quero uma avaliação

de todo o material que tenho em mãos para que possamos viabilizar

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


este assunto o mais rápido possível, e digo isso independente da

vontade do homem! Estou disposto a passar por cima da arrogância

dele e levar o fato até o Congresso, se for o caso.

– Claro! Isso também é do meu extremo interesse! Mas, e o

rapaz? Já está melhor?

– Eu o conheço bem! É um militante! Um pensador! Teve o

seu brio ferido, é apenas uma questão de tempo para renascer das

próprias cinzas, da sua desilusão, e se tornar uma arma poderosa

contra o assédio moral!

– Já ouvi falar muito dele! É realmente um idealista!

– Como sabe, agora estou aliado a antigos representantes

políticos. Abandonei de vez a assessoria jurídica do Deputado

e estou com novos projetos em mente, voltados para a ética e

cidadania, e para confrontar situações como essa. Na verdade,

estou com uma atuação mais ampla do que antes, e isso tem me

proporcionado mais condições de aplicar medidas mais enérgicas

contra os abusos cometidos contra o ser humano em seu local de

trabalho.

– Essas fotografias são recentes?

Sim! Todas são. Condizem com a verdade dos fatos e, nos

documentos, também há todo um conjunto de provas.

– Isso, entretanto, é uma faca de dois gumes. E quero deixar

claro que o posicionamento que eu adotar não será reversível.

– É o que também espero e, antes de tudo, quero deixar claro

que a Frente do movimento também atuará no mesmo sentido e

com toda a influência que temos para erradicar de vez esse tipo

de situação. O país está estremecendo de cima a baixo com a

revolta popular e as manifestações públicas. Se nós, que somos

organizados, não pactuarmos da mesma filosofia de mudanças na

forma de conduzir este país, ficaremos para trás.

Exatamente! O povo já não aceita a corrupção que se instalou

em todo lugar, o abuso de poder ou de autoridade, a imposição e a

restrição dos seus direitos. As pessoas querem pão e cachaça, leite

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 119


e saúde, dinheiro e dignidade! É como se um gigante acordasse

para pisotear os salteadores. E nós, mesmo que sejamos pessoas

importantes e influentes, não podemos ficar alheios a tudo isso.

Precisamos participar do processo de mudanças desde já.

– Que coisa mais triste aconteceu, não é Edmara?

– Todos gostam muito dele! Deveríamos fazer alguma coisa

para que ele pudesse voltar.

– Talvez se mandássemos uma carta a alguma autoridade,

essa situação pudesse ser amenizada. Os membros da sociedade

têm poder para cobrar das autoridades! Precisamos usar isso para

ajudar quem é parceiro dos nossos trabalhos e sempre nos ajudou.

– Ele sempre nos ajudou muito! É verdade! Sempre alegre e

prestativo! Perdi a conta das vezes que nos atendia até mesmo nos

dias em que estava de folga. Vamos, sim, fazer alguma coisa. Vamos

reunir todo mundo hoje após o expediente e debater a respeito, o

que acha?

– Gostei da sua sugestão! Podemos marcar para as dezoito

horas.

– Tenho certeza de que todos irão se sensibilizar com o caso,

afinal não podemos permitir que coisas assim aconteçam, nem com

ele nem com qualquer outra pessoa.

– As pessoas não respeitama lei. Sóquandocaem em um processo

é que passam a dar valor. Temos que combater essas atitudes com

pesos e medidas iguais, se não esses absurdos envolvendo chefes e

empregados continuarão indefinidamente.

120

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


– E isso é tudo, Monsenhor. Após muito pensar, essa foi a

solução que encontrei para o assunto e quero propô-la para votação

dos demais.

– Que os fatos verdadeiros que são trazidos a essa Irmandade,

na data de hoje, não escapem de uma solução, a menos que algum

dos senhores tenha opinião em contrário.

– Seja feito conforme proposto, Monsenhor!

– Não há aqui nenhum dos irmãos que deseja o contrário!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 121


LEMBRANÇAS DA ROÇA

Sentado num banco, tendo no ambiente o cheiro maravilhoso

da dama-da-noite, estava apreciando a leitura de O Tronco do Ipê, de

José de Alencar.

Um romance bem simples e de fácil compreensão! Confesso

que não gostei muito quando o personagem Mário tira de uma

árvore um ninho de anus, encantado com a beleza dos ovos azuis,

para mostrar à sua amiga de infância, e mais que isso, uma pessoa

que estaria ligada a ele por toda a vida em momentos fantásticos de

predileção do destino!

O personagem Benedito, um preto velho, tido por muitos como

um ente cuja ligação com o outro mundo se torna notória até hoje

em alguns cultos da umbanda, aparece na obra com simplicidade e

sabedoria, demonstrando a decência do povo escravo.

As matas, a natureza, os detalhes da paisagem como um elo

com a essência humana mais uma vez se mostram presentes na obra

tão bem escrita por José de Alencar!

Então se aproximou o fazendeiro. Foi chegando tímido e se

sentou no outro banco. Dei uma respirada mais forte para perceber

se não estava cagado. Continuei lendo o livro e, por algum tempo,

não dei importância à sua presença até que ele puxou assunto.

– Hoje, lembrei-me do primeiro dia em que fizemos o parto de

uma vaquinha lá na fazenda do Tião Ozório, há muitos anos.

Estranhei que ele falou com muita sobriedade! E, ao interromper

122 a leitura do livro, olhei para ele e apenas disse: rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


– Sério? E quem é Tião Ozório?

Na verdade, eu não esperava resposta; afinal ele tinha tantas

alucinações.

– Tião Ozório foi um dos grandes amigos que tive na vida!

Passamos a infância juntos na fazenda. Ele era pobre e morava

numa casinha com os pais.

– É mesmo?

– Sim! Isso foi há muitos anos! Um tempão atrás! Tu nem era

nascido e ainda nem podia foliá as folhas de um livreto. Quando era

hora de ir pra escola, meu pai passava pela estradinha, e ele tava lá

indo a pé. Magrinho que só! A mochila veia nas costas fui eu que

dei de presente quando tinha seis anos só, na festa de aniversário.

Então, o pai velho parava e dava carona pro meu amigo de infância.

Nós gritava, pulava no carro, e o pai sempre fazia festa! Derrapava o

carro nas poças de água, brincávamos e a cantoria se estendia pelo

caminho.

– Que interessante, senhor Bento!

Depois de um tempo a famía dele comprou umas terrinha lá

pros lados do riachão.

Fiquei ouvindo o que dizia o velho Bento, enquanto seus olhos

pareciam querer penetrar no tempo e voltar aos anos que já viveu.

Talvez essa seja a sua vontade de fugir, de voltar a ter uma vida que

a idade e a loucura lhe tiraram.

– Depois que a gente cresceu e formou famía me chamou mais

minha muié pra padrinho. Ele que já era meu cumpadre, quase um

irmão sempre foi muito boa pessoa que com muito custo conseguiu

as coisas! Era um tempo tão bonito! Eu, todas as manhãs, acordava

cedo, dava um beijo na minha veia antes mesmo dela se levantar

pra me preparar o café. Eu ia pra minha roça cuidar dos bois que

não paravam de parir. E o Tião, meu grande amigo, admirava de

todo as suas prantação de milho e café. Não tinha experiência com

gado.

– E como foi o parto?

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

123


Ah, foi uma doidura! Tião chegou correndo em casa, gritando

pra eu ir ajudar a sua vaca a parir. Corremos pra lá num galope! A

vaca dele tava deitada no estábulo prestes a parir. O bicho sentia as

dor do parto, e eu já tava muito bem acostumado. O Tião que num

tava muito tranquilo com tudo aquilo, mas deu tudo muito certo.

– E depois? O que houve?

Ah, um bezerrinho muito formoso! Gordo que só! Que tempo

aquele, eu fui muito feliz!

Eu prestando atenção no velho, quando, de repente, ele se

levantou e saiu pelo corredor para juntar seus bois, arrastando os

tapetes que encontrava pelo caminho.

A vida até parece um abismo! Cada pessoa, independente do

que viveu, é um livro repleto de histórias! O que torna o destino de

alguns mais cruel do que o de outros?

Há tantas pessoas que aplicam golpes nos outros, que enganam

justamente quem está em busca da realização de um sonho e

acreditam que a justiça jamais virá bater em sua porta e levar mais

do que se possa pagar naquele momento.

E ela vem furtiva, num dia em que não se espera receber visitas.

Um dia em que se acha que o expediente será tranquilo, e de repente

a imposição do momento não dá o direito de escolha, e nem mesmo

os gritos ou as palpitações do coração podem salvar do destino já

ajuizado.

Fiquei impressionado com as lembranças do velho fazendeiro

num dos seus raros momentos de lucidez que pude perceber nesse

tempo de internação.

Depois, voltei a ler o livro, folheando páginas repletas de

cultura!

O boqueirão realmente era onde Iara seduzia com o olhar e o

sorriso, convidando os desavisados para morrer nos encantos de

uma enganação de sereia.

Na verdade a vida é assim mesmo! As seduções convidam os

124 desavisados a errar. rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


As pessoas enganam com muitas falsas propostas, tiram o

dinheiro dos outros e, já experientes na arte de enganar, não temem

a ira que se esconde lá adiante.

E há pessoas que sempre foram fiéis e acabam num abismo de

loucura e desgosto, como o velho fazendeiro, milionário e infeliz,

lembrando da vida com lucidez e saudade, e vivendo dias de

loucura, sendo talvez esse o remédio encontrado por seu coração

para minimizar a dor dos últimos dias que antecedem o descanso

já tardio.

A vida é difícil! Lutamos até vencer.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 125


A IGREJINHA

126

Já estava decidido que eu sairia da clínica no sábado. Houve

pressão muito grande das pessoas que sempre confiaram em meu

trabalho, e um acordo impositivo foi feito para que eu pudesse fazer

o tratamento fora do ambiente de internação.

Na realidade, ainda não sabia que a Irmandade se envolveria no

assunto, uma vez que não sou membro, mas já esperava que o bloco

comunista entrasse no mérito. São muitos amigos que conquistei

ao longo dos anos! Pensadores, ambientalistas, políticos e, embora

eu não tenha muita coisa, senão um salário ridículo para o tanto que

trabalho e umas contas a pagar, possuo um reconhecimento pessoal

muito satisfatório.

É muito gratificante ser querido pelas pessoas! Ser uma imagem

positiva de liderança e confiabilidade! Saber que há sempre quem

nos apoiará nos momentos das dificuldades!

Mais umavez deixei de tomar o medicamento. Queria participar

da caminhada, pois, desde que havia chegado, a única atividade que

fazia era terapia ocupacional.

Contudo, já não havia mais espaço para novos desenhos

nas paredes e não havia vontade de produzir nenhuma peça de

artesanato. Simplesmente cansado de trabalhar a mente e o espírito,

ansiava para que o corpo pudesse de novo saborear a sensação de

produzir suor e odor.

Quando a área externa foi aberta, comprei um refrigerante para

refrescar o calor que fazia naquela manhã.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


A terapeuta ocupacional passou chamando os pacientes para

que fossem para aárea de terapia e eu fiqueiaindaum tempo próximo

à cantina, aguardando o coordenador da caminhada chegar.

Lembro que éramos nove pessoas participando da caminhada:

a Zuleide, uma paciente que tinha problemas com uso de drogas e

fazia tratamento na clínica há mais de um ano. Ela sentia tremores

nas mãos o tempo todo, como é comum nos pacientes com o seu

quadro. Era ela a garota que eu vi logo nos primeiros dias com

as mãos bem trêmulas devido à abstinência; o Fabrício, que na

verdade nunca falou soube o motivo de estar na clínica; o Chico,

que também não falava muito sobre os motivos que levaram à sua

internação. Ele não se desgrudava do seu aparelho de som, sempre

ouvindo músicas de periferia. Os outros participantes eram a

Silviane, uma mulher mais velha; o senhor Pascoal; Baltazar; Rosa e

o coordenador Sérgio.

O caminho era de terra! Uma estradinha curta de chão batido

que dava acesso a um pequeno povoado.

Passamos por um local onde havia muito gado pastando numa

grande área verde.

Mais a frente havia uma vistosa plantação de milho. Um lençol

verde e amarelo, cores do Brasil! Gralhas lá no meio da plantação,

saboreando algumas espigas, lembraram-me do tempo em que eu

levava frutas para as maritacas, e estas vinham buscar em minhas

mãos a oferenda saborosa.

As casas dos moradores contrastavam com a paisagem das

montanhas repletas de eucaliptos.

Chegamos a uma igreja pequena, onde havia uma mina d’água

nos fundos.

Devido ao calor intenso, fomos todos até lá saciar a sede. A água

era fria e pura, muito boa! Até o barulho dela, tocando nas rochas,

significava pureza e frescor!

O dia estava quente, e por isso molhei os cabelos e os braços

naquela água tão refrescante e límpida!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 127


Enchi as mãos de água, e, num gesto de libertação, jogava a

água para o ar na direção da grama do descampado, com a intenção

de molhar o ambiente ao meu redor, inclusive a mim.

Depois, enquanto todos descansavam, fui até a porta da

igrejinha para ver o seu interior, mas as portas estavam trancadas.

Sérgio falou que naquela igreja não havia padre. Que, de

tempo em tempo, vinha um padre do município vizinho para

rezar a missa.

Na porta lateral, havia uma fresta e, ao olhar o interior da igreja,

vi enfileirados vinte bancos de madeira, todos muito empoeirados.

O ar que exalava de dentro era de casa fechada há muito tempo!

Senti como se os cantos dominicais ecoassem no interior daquela

construção, evidenciando o passado.

O altar da igrejinha era simples, muito simples! Havia uma

mesinha com um lenço branco por cima. Duas cortinas de cor bege

estampavam as paredes do altar e em tudo havia bastante poeira!

Depois ao olhar em volta, notei que havia, do outro lado da

igreja, outro descampado repleto de grama.

Chico falou que quando era pequeno, no bairro onde morava,

costumava descer um descampado como esse com pranchas feitas

de papelão. Que ele e seus amigos não possuíam brinquedos e, por

isso, as diversões preferidas eram a descida do descampado, as

pipas e o jogo de futebol.

Foi só isso. Não falou mais nada. Ele, por algum motivo, se

sentia mal ao falar de seu passado.

E chegou o momento de voltarmos à clínica pelo mesmo

caminho.

O sol estava muito forte, provocando até marcas da blusa nos

braços, o que me fez tirar a blusa para queimar igualmente todo o

dorso e não apenas os braços.

Passando pelo coqueiral, Fabrício começou a gritar, admirando

o eco de sua voz voltar das matas que cobriam a montanha bem

128 distante, após os imensos coqueiros. rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Chegamos a fazer piadas sobre uma resposta diferente daquela

que esperava, provocada por alguém que estivesse nas matas.

Gargalhadas! Suor pela caminhada! Contato com a natureza!

Chegamos à clínica no horário da palestra, e eu estava um

pouco cansado pelo exercício! Muito suado, após a palestra achei

melhor tomar um bom banho.

Foi a primeira vez que cheguei atrasado para almoçar,

contrariando o horário; entretanto, não havia filas, e não precisei

ficar esperando que ninguém fosse servido.

Havia gostado do passeio! Foi bom conhecer um lugar diferente!

Exercitar um pouco o corpo. Isso ajuda a mente a aliviar o stress

deixado pelos problemas do cotidiano e proporciona mais saúde.

Ainda mais com o soninho bom que tirei depois do almoço, só

vindo a acordar quando um enfermeiro foi até o quarto dizendo

que havia uma ligação para mim de uma das mulheres que ligavam

para a clínica se identificando como parente, pedindo notícias

minhas.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 129


VISITA À ALA DOS LOUCOS

130

Era o penúltimo dia na clínica.

Haveria um culto evangélico no salão principal, e a terapeuta

Claudete pediu que eu fosse com ela fazer a arrumação do salão.

Fiquei interessado em ir, pois passaria por dentro de outra ala

da clínica onde ficavam os pacientes crônicos, aqueles que possuíam

um grau muito mais elevado de distúrbios mentais.

Uma porta verde separava o ambiente da administração da ala

dos crônicos.

Ao passar pela porta, um cheiro forte de mofo e cigarros

impregnava o corredor que dava acesso às escadas.

Nas paredes havia marcas de mãos, fezes ressecadas, pichações

e tocos de cigarros enfiados em buracos.

O chão, embora estivesse limpo e ainda molhado, devido à

limpeza das faxineiras, já exibia algumas cinzas de cigarro nos

cantos.

Um paciente passou correndo, segurando uma boneca bem

velha e até esbarrou na Claudete, e logo em seguida vieram outros

pacientes dizendo que iam pegar o ladrão e que eram da polícia, que

iriam prender o ladrão e proteger a todos.

Outro paciente olhava fixo para a parede, como se fosse uma

estátua, e, de repente, deu um grito eufórico e começou a chorar

deitado ao chão, contorcendo-se.

Claudete falou que esses comportamentos eram normais

no dia a dia daquela ala, onde os pacientes precisavam ter certa

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


autonomia para se desprender do stress da internação e viver

um mundo onde a realidade não importa tanto quanto ter um

pouquinho de felicidade e prazer.

Nas paredes de um dos quartos, deparei com a pintura mais

surreal que meus olhos já puderam ver! Havia, de uma extremidade

a outra, inúmeros rostos com expressões que iam do ódio ao desejo

de perdão e ao amor mais puro do mundo!

Claudete contou que o artista que pintou a imagem

com

todos aqueles rostos se matou logo após terminá-la, e que nenhum

paciente até então havia tocado naquela parede, pois acreditavam

que quem nela tocasse também morreria. Por isso, ela estava tão

limpa e conservada, diferente das demais.

Subindo as escadas, uma paciente, chamando-me de pai, se

apegou em minhas mãos e foi abraçada comigo até a entrada do

salão, enquanto outra ficava perto, apenas observando.

As cadeiras estavam fora do lugar, alguns bancos virados, as

janelas sujas de batom e papéis rasgados espalhados pelo chão.

Em pouco tempo, enquanto Claudete varria o chão, tirei as

cadeiras e bancos do caminho e, em seguida, fui colocando tudo no

lugar, de forma organizada.

Arrumei as cortinas do altar e forrei de novo o lençol da mesa.

Separei o lugar para os músicos e limpei a janela próxima da porta,

enquanto Claudete ficou por conta da outra janela.

Claudete foi falando sobre sua vida, que era casada e tinha uma

filha. Que sentia solidão pelo fato de seu marido ser doente, e que o

tratamento era muito doloroso para a família.

Ao contar sobre os anos em que trabalha na clínica, falou de

pacientes que chegaram e que cativaram a todos com seu jeito

alegre, outros, com as manias ou loucuras inerentes à doença

e, com muito carinho, falou da filha e dos brinquedos de que

gostava.

Tinha uma expressão alegre e saudosista! Falava com voz

um pouco triste, melancólica, porém cercada do liquor da vida, e

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 131


132

dizia estar vivendo por um motivo muito especial! Dedicava-se às

pessoas.

Após terminarmos, ela ainda me ofereceu um pedaço de doce

que trazia na bolsa. Sentamo-nos num dos bancos e continuamos a

conversar por alguns minutos.

Uma paciente chegou à porta, mas, ao nos ver, foi logo embora.

O tempo foi passando e deixamos tudo arrumado antes de sair.

Fechamos a porta do salão para que nenhum paciente entrasse e

revirasse tudo novamente.

Havia uma paciente jogando roupas pela janela e dessa vez

Claudete a impediu. A paciente, então, começou a gritar, falando

vários palavrões e saindo em seguida, a passos fortes no chão.

Claudete contou que aquela paciente jogava as próprias

roupas fora, queimava ou rasgava, deixando tudo espalhado pelos

corredores. Que não tinha problemas mentais, mas era viciada em

drogas de maneira compulsiva! Que sua família a internou com

medo de que traficantes do lugar onde mora continuassem a abusar

dela devido ao vício, e ela aparecesse grávida em casa, após oferecer

o corpo em troca de entorpecentes.

Ao passar pela parede com a pintura, novamente olhei para

aqueles rostos. Pareciam sair da parede, retratando não só uma

inspiração artística surreal, mas também um infortúnio muito

grande! O paciente, ao se expressar, deixou sair todos aqueles

espíritos de sua alma, e os rostos desses espíritos estavam cheios

de sonhos inacabados, de tristezas com a vida, de lágrimas roladas

devido a um sofrimento de vida que passa pelo profissional, pelo

pessoal e familiar. Crianças estampadas na parede com rostos de

fome e frio, e adultos com a expressão do desgosto. Os que sorriam

eram poucos, com traços mais distantes, mais frágeis! O artista se

empenhou em deixar esse testamento de sua alma! É como se ele

quisesse mostrar que a alegria até existiu em sua vida, mas estava

muito distante dos últimos momentos.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Antes que pudesse sair pela porta, veio um último paciente até

mim e, esbarrando em meu braço, falava algo que não dava para

entender. Ainda insisti em perguntar-lhe o que era, mas ele saiu

correndo pelo corredor aos gritos e batendo com as mãos na cabeça.

Depois de algumas horas, fui tomar o café da tarde.

Da mureta da cozinha, fiquei olhando aqueles pacientes que

todos os dias eu via tomando o café nos bancos da ala dos crônicos.,

Mas não imaginava que a ala onde ficavam era um lugar tão cheio

de problemas! E mais ainda, que em meio a tantos problemas, eles

simplesmente não têm preocupações e vivem uma vida de desapego

e anarquia. Quem poderia imaginar que essas pessoas tão quietas e

anestesiadas moralmente na mesa de café possuíssem a sua própria

anarquia social, sem regras e sem exceções!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 133


SEGUE A SUA ESTRADA

134

Quando saí, os pacientes que estavam na área externa vieram se

despedir. Abraços, beijos e desejos de um bom retorno, de felicidade

e de sorte.

Na verdade, nunca fui de confiar muito na sorte, mas agradeci

pelo carinho de tantas pessoas. Penso que o que conduz alguém às

vitórias é a preparação e não a fé ou a sorte.

O mundo lá fora sempre será uma torrente de desgostos e

desilusões, tanto para mim quanto para todos que resolvem lutar

por um mundo melhor, ou que já nascem com essa chaga em seu

rosto, de ser um ente defensor da cidadania e da legalidade.

Ou eu decidia renascer das próprias cinzas em que minha vida

se transformou e novamente fazer das brasas da minha justiça o

delineador das arbitrariedades e do assédio moral, ou ficaria aqui

para sempre, apagado e em cinzas.

Antes de sair, deixei o seguinte recado fixado na parede em

frente ao posto de enfermagem:

Caros amigos!

Desejo toda a felicidade do mundo a vocês! Todos vocês são uma parte da

minha história e estarão eternizados para sempre no livro da minha vida!

Obrigado a todos os funcionários que souberam me respeitar e ajudar no

que estava ao alcance, nos dias em que aqui fiquei.

Desejo muita luz a todos e espero que todos fiquem em paz!

Obrigado por tudo!

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Caminhei pela estradinha de terra até passar pela ponte que

atravessa o riachinho, e, ao chegar à rodovia, fiquei no acostamento

esperando por um ônibus.

Um ônibus do município não demorou muito a parar, como se

já soubesse que eu o aguardava. Rotina de pessoas do interior, já

acostumadas a se cumprimentarem pelos nomes a cada manhã, a

caminho da cidade.

Enfim, conheci o município de Balancena, lugar onde fiquei

internado de forma compulsória, chegando aqui sedado e morto

de espírito, numa ambulância, somente tendo sido viabilizada

minha liberação depois que várias pressões externas e o bom

relacionamento que adquiri junto à equipe médica se tornassem

fatores decisivos para minha alta. O tratamento condicional externo

foi aceito, tendo em vista que eu precisava voltar, pois ainda havia

muita coisa para ser resolvida.

Balancena manifestou aos meus olhos como uma cidade em

crescimento, com bom acesso à rodovia e ruas ligando os bairros

ao comércio de maneira fácil e rápida, indicando ser uma cidade de

serviços e com grande mobilidade urbana!

Chegando à rodoviária desse município de cerca de noventa mil

pessoas, como foi dito pelo cobrador do coletivo, conferi se a cópia

do boletim de ocorrência do assalto e o sumário de alta estavam na

bolsa, pois eram os únicos documentos que eu levava comigo.

Parei numa lanchonete da rodoviária, comprei refrigerante,

coxinha e pastel de queijo. Estava com fome, pois já era meio-dia e

o café que tomei na clínica foi às sete horas da manhã, como todos

os dias.

Comprei a passagem e fui aguardar na plataforma pelo ônibus,

que só iria sair de Balancena às treze horas.

Quando o ônibus chegou apresentei a passagem e entrei para

aguardar o horário de saída na cadeira reclinável de número vinte e

sete. Estava um pouco cansado do trajeto de vinte quilômetros que

fiz de ônibus, em pé, até a rodoviária.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 135


Na volta pra casa, antes de sair da rodoviária, o motorista do

ônibus avisou que seria necessário mudar o percurso pelo município

de Pedras Negras, devido à manifestação popular em Congados,

em retaliação contra as autoridades pelo pedido de construção de

uma passarela na rodovia, onde muitos eram atropelados, e contra

a corrupção que assolou o país.

A participação popular no processo democrático tem crescido

muito! As pessoas já não aceitam simplesmente ser alvo de todo tipo

de abuso e se lamentar em silêncio, ostentando medo e ignorância

no rosto.

Ao contrário, as classes mais humildes estão buscando cada

vez mais informação e lutando pelos seus direitos. O acesso à

informação aumenta a cada dia. A imposição cultural e a influência

tendenciosa dos homens que usam terno está esmaecendo cada vez

mais, e até mesmo aqueles que trabalham na informalidade já têm

uma conta de acesso às redes sociais.

As cidades e rodovias estão em chamas! Populares ateiam fogo

em pneus e trancam a rua, impedindo o fluxo de veículos em ambos

os sentidos.

A democracia é do povo! Pertence ao povo, mas os integrantes

de poder público tomaram o país por muitos anos como sua posse,

seu despojo. As manifestações se mostram como a revolta dos

verdadeiros donos do poder.

As pessoas querem ser ouvidas! Querem respostas do poder

público às necessidades básicas como segurança pública de

qualidade, construção de novos centros de saúde, melhorias

urgentes na educação, construção de passarelas para evitar os

constantes atropelamentos em rodovias, distribuição de verbas,

punição à corrupção e melhor qualidade de vida.

Nas cidades, organizam-se marchas com centenas de milhares

de pessoas carregando faixas, pintando o rosto, provocando barulho

136 e parando o trânsito. rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


As pessoas querem ser vistas pelos políticos! Não são mais

os meros fantoches que a cada quatro anos são lembrados e

depois esquecidos por mais quatro. Querem que seus direitos

constitucionais sejam respeitados!

As pessoas querem cidadania e já não aceitam a truculência

do poder público, pois são os cidadãos que o sustentam, desde a

educação, saneamento básico, segurança pública, saúde e todas

as regalias que por anos foram usufruídas pelos representantes da

população, e que agora enfrentam um gigante irredutível que não

tem liderança formada. É o desejo democrático em sua manifestação

plena!

No caminho de volta, avistei na rodovia um caminhão de lixo

recolhendo pedaços de pneus, partes de carros, e até mesmo um

sofá, que foi jogado à beira do asfalto. Pensamentos enleados, mas

havia algo de humanitário na ação dos catadores! Não sei se estavam

fazendo aquilo por mera obrigação ou pela consciência de terem

uma rodovia mais limpa e sem o risco de acidentes provocados pelo

lixo que é abandonado no trecho da cidade de Balancena.

Mais à frente, havia uma ferrovia à direita da rodovia e um trem

enorme passava por ela!

Olhando da janela aquela locomotiva com mais de sessenta

vagõescarregados, foi bom ter uma lição prática do desenvolvimento

humano, transformando o mundo, escoando a produção pelos

trilhos cujas imagens ilustravam os livros de história nos tempos

de escola.

Conselheiro Leopardo, que cidade agradável com feitios de

cidade grande e o modo característico do povo quietinho da terra

desse estado tão carismático! Povo que adormece e deixa a cidade

sob a suave brisa e cheiro das flores!

Lembro-me que o ônibus passou por uma avenida repleta

de comércios, porém, no modo de vestir das lindas mulheres que

andavam pelas calçadas, uma tradição tão apaixonante quanto o

próprio ar que se respirava pela janela ao colocar a cabeça para o

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 137


lado de fora do ônibus para apreciar, mais de perto, tanta formosura!

Município de Pedras Brancas! Que paz! Quantas flores ao longo

da passagem! A maioria de cor roxa.

O ônibus passava por ruasrepletas de ipêsque, de tão carregados

de flores roxas, formavam nas calçadas um lençol de flores jogadas,

tal qual nas cenas de cinema!

Muitas pessoas tiravam fotografias para levar de lembrança.

Chegaram até a pedir ao motorista para passar mais devagar por

uma rua onde, nos dois lados, os ipês-roxos disputavam olhares

admirados e cheios de uma ternura que há muito tempo não se via.

Coisa de olhar de criança, desses que, depois que chega a idade

adulta e as mazelas sociais e sentimentais roubam os sorrisos

e o prazer, já não se revelam mais, manchados de desgosto pelos

pecados alheios, surrados de lágrimas!

Os ipês perfilados, enquanto o ônibus passava revistando com

muitos olhares uma perfeição que somente a natureza sabe oferecer!

Em compensação, na Praça Sagrada Cruz, no centro da cidade,

o ônibus demorou a passar, pois havia dezenove carros estacionados

em local proibido. Não havia sequer um dos motoristas que pudesse

comparecer ao local para tirar o veículo. Foram necessárias várias

manobras para que a viagem pudesse continuar, formando um

congestionamento com vários veículos.

Nem é necessário comentar a beleza que é o município de

Pedras Negras, pois todos já sabem! É um lugar maravilhoso! Lindas

construções do Barroco e ladeiras de pedras! As montanhas parecem

pepitas de ouro bem escuro, talvez preto! Sim, várias pepitas de

ouro preto jogadas do céu, formando uma cortina de montanhas

que a visão chega a ficar ofuscada de tamanha admiração!

Um cheiro agradável de café invadiu uma das ruas onde

passamos! Um sentimento de doce saudade e de simplicidade!

Na varanda de uma casa, uma senhora de idade já avançada

jogava muitas sementes para os pombos que tomavam conta da

138 calçada. rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


O ônibus deixou a cidade e o mato esverdeado foi se revelando

nos dois lados da rodovia.

Depois de uma cortina de palácios naturais onde a mão do

homem não pôde bulir, a visão da metrópole! Com um céu cinzento

de tanta poluição e uma infinidade de prédios de cores escuras!

Nem mesmo o sol da estação penetra em suas frestas onde raio

algum tem espaço.

Não há luz natural, de fogo que queima tal qual o sol e oferece

calor, somente as luminárias que iluminam a escrivaninha do

escritório e os postes da rua onde os carros se enfileiram e as pessoas

passam umas por cima das outras.

Não há ventos e nem mesmo a chuva consegue passar pela

cortina de poluição que o amor não pode abrandar.

As cinzas queimando, deixando no ar a fumaça negra, tornando

o lugar seco e sem vida. Ali nem mesmo os cactos querem crescer,

pois o ar é pesado!

Nesse momento, meus olhos se acenderam como fogo e pude

sentir o calor com que queimaram. Essa era a resposta natural do

renascer das cinzas. Percebi que eu estava vivo e pronto para a

guerra contra qualquer um que ousasse, em qualquer momento, se

armar de maldade contra os ideais puros, fortes, valentes e dignos

que sempre levei em meu coração, e os transformei em ações.

Ao entrar nos domínios da metrópole, o ar, que era puro,

tornou-se ruim e pesado! Senti pena das pessoas nos pontos de

ônibus lotados. Todas tão humildes! Trabalhadores que alimentam

o sistema social.

No rosto, a expressão de cansaço, depois de um dia inteiro

trabalhando.

Devido ao horário de grande fluxo de veículos, o ônibus

demorou a chegar à rodoviária. Ao passar por um bar, tomei um

trago de Salinas e acendi um cigarro, esperando minha prima trazer

as chaves de casa, pois quando fui internado ela as guardou até o dia

de meu retorno.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

139


Ela contou que tomou conta dos animais enquanto fiquei

internado, e que, como era noite e eu estava cansado, seria melhor

ir para casa descansar que no outro dia levaria embora os pequenos.

Foi bom saber que tudo estava bem! Sempre gostei muito dos

animais, das plantas, da natureza e do meio ambiente! Trato os

meus animais de estimação como se fossem filhos e não aceito que

qualquer animal seja maltratado em minha presença.

Ao chegar a minha casa, tudo estava muito organizado! A prima

falou que veio aqui fazer faxina para que, quando eu chegasse, não

tivesse com o que me preocupar.

Dentro do armário havia vários pacotes do meu salgadinho

preferido e na geladeira, sucos e leite.

A Célia, que tem um bar na rua, chamou-me para comer

bolinhos que estava preparando. Tomei um banho, passei gel nos

cabelos, fiz a barba que já estava grande, passei meu perfume, que

ficou para trás naquele dia em que fui trabalhar, e fui lá um pouco.

Muitas pessoas disseram que ficaram preocupadas ao ver as

notícias no jornal.

Todos os que me viam no bar paravam para saber das novidades.

Fiquei um pouco no bar, tomei duas cervejas e depois dormi

um sono muito pesado, provocado pelo cansaço da viagem.

140

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


O DESPERTAR

Havia um comunicado para eu comparecer ao serviço

imediatamente após ser liberado da clínica de tratamento

psiquiátrico no município de Balancena. Recebi a correspondência

em casa, entregue por um agente dos Correios, com aviso de

recebimento que eu havia de assinar.

Estava assinada pelo gerente Lino e não tratava de nenhum

assunto específico, apenas pedia meu comparecimento.

Após o banho, vesti uma roupa social e fui até o ponto de ônibus

aguardar o coletivo.

O trânsito estava intenso naquela manhã, com muitas buzinas

e pessoas apressadas para chegar ao trabalho.

Tudo devido à iminência nunca avisada de manifestações

populares que interrompiam o fluxo de veículos.

Quando cheguei à repartição, fui diretamente até a recepção, a

fim de evitar ser notado pelos demais funcionários. Sei que muitos

deles parariam os afazeres para vir fazer perguntas, e eu queria

apenas saber do que se tratava a convocação e ir embora. Afinal,

estava licenciado de qualquer atividade laboral.

Não é fácil ser um renascido! As pessoas olham como se

estivessem diante de um ente ou do céu ou do inferno, olham com

surpresa, medo ou curiosidade.

Ao ser encaminhado pela recepcionista até a presença dele,

notei um olhar de pessimismo em seu rosto.

– Sente-se! Precisamos conversar.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 141


– Sim, e o que deseja, senhor Lino?

– Antes de mais nada, saber como está.

– Estou em recuperação devido a todos os transtornos que o

serviço me causou.

– E o assalto? Está mais tranquilo agora?

– Se eu falasse que sim, estaria mentindo. Não se esquece

simplesmente das coisas ruins que acontecem conosco assim tão

facilmente.

– E em relação à antiga repartição? Você guarda alguma mágoa?

– Senhor Lino, não estou entendendo aonde o senhor quer

chegar com essa conversa.

– Só estou querendo te dar bons conselhos. Você sabe que o

sistema é assim, em todos os lugares: nos hospitais, numa grande

montadora de automóveis, na polícia, nos governos. Tudo gira em

torno de um interesse comum e, por isso, alguém vez ou outra se

sentirá restringido em seus direitos. Mas é prudente ao homem

avaliar as consequências dos seus atos!

– Senhor Lino, o senhor está querendo defender alguém com

seus conselhos? Ou será que estou entendendo errado?

– Sim! Estou. Pelo bem da empresa, pela imagem e pela sua

própria segurança. Você é o elo mais fraco, e, justamente por

acreditar no seu potencial como profissional, estou querendo

oferecer-lhe uma segunda chance. Uma oportunidade única para

esquecer tudo o que se passou e começar do zero.

– Desculpe-me, mas acho que o senhor ainda não entendeu

muito bem, ou talvez não tenha assimilado as coisas que

aconteceram comigo ao longo dos últimos três anos, por isso vamos

desconsiderar que me disse essas palavras.

– Você tem certeza disso?

– Quando se provoca o brio de uma pessoa como eu, os efeitos

podem ser devastadores! Não que eu não tenha vontade de me

vingar de todo o sistema, eu tenho, mas tenho também a minha

ideologia bem arraigada! Eu não escolhi ser um intelectual a lutar

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

142


pela ética e pela constitucionalidade, isso está em mim como parte

perene do meu ser!

– Eu sei, e admiro sua ideologia! Só estou querendo minimizar...

– Desculpe-me interrompê-lo, senhor Lino, mas creio que

nossa conversa não chegará a lugar nenhum. Meu último esforço

para evitar a adoção de medidas mais drásticas já se esgotou. Se eu

pudesse descrever o que tenho sentido nesses últimos dias, relataria

ao senhor o despertar de um vulcão repleto de ânimo para alcançar,

de qualquer forma, os objetivos a que me propus. Deverei carregar

a minha cruz e o peso dela será lutar pela dignidade e pela honra do

meu caráter, dia após dia. Em todos esses lugares que o senhor citou,

também existem pessoas que, como eu, não aceitam a injustiça e o

assédio moral. Sei que assim como eu despertei, outros haverão de

despertar e, em todo lugar onde houver qualquer ilegalidade contra

o homem, ali haverá revolta e mudança! É isso que toda nação está

descobrindo com todas essas manifestações que estão parando o

país. Ninguém aceita mais a ilegalidade e o abuso.

Percebi que o gerente fitou os olhos em mim e observava tudo

que eu dizia, surpreso ou com ódio, naquela situação difícil em que

era obrigado a atuar, supostamente orientado ou ordenado pelo

gerente do bloco intermediário, senhor Barcelos.

– Na verdade, senhor Lino, a gota d’água foi quando o gerente

Wladmir interferiu em minha segurança pessoal e nas minhas

condições de trabalho. Ele não está acima da lei e em hipótese

alguma irei permitir que se faça de juiz sem ter justiça em seu

espírito. Só lhe peço uma coisa, senhor Lino, e agora falo como

funcionário da sua repartição: que não interfira, que sua repartição

não interfira, pois a minha ira não é contra essa repartição, e o que

quer que ocorra, será resolvido unicamente entre mim e a outra

repartição, a justiça trabalhista, a mídia e o governo. Não pretendo

trazer nenhum transtorno para essa repartição, mas já não me

pertencem os limites das minhas ações, pois tudo já está em nível

global! Não sou eu como pessoa que estou iniciando uma guerra, é

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 143


a própria cidadania se manifestando em mim, e digo que ela não irá

refrear o seu desejo.

– Está bem! Eu tentei ajudar.

– Está cumprindo sua função, senhor Lino. Não o culpo

por isso. É um profissional exemplar! Como o senhor disse,

em todos os lugares existe o sistema, contudo, se olharmos no

que se transformou o bloco intermediário, veremos que há uma

blindagem aos gerentes e chefes de setor, enquanto os demais

funcionários recebem diariamente todo tipo de represálias e

punições. Há um surto de assédio moral que mancha qualquer

relação social ou trabalhista, que deveria ser pautada na ética,

na honra, no caráter, no profissionalismo e na Constituição

Federal, pois foi devido a muita luta e sangue derramado que ela

se consolidou, após a Ditadura Militar. Os gerentes e chefes de

setor não estão acima da lei nem são infalíveis. Ao contrário, têm

cometido erros injustificáveis na presença de todos, expondo a

carência de limites aos seus atos de abuso de poder, ao passo

que não existem punições ou castigos a quem está na linha de

comando. Isso, senhor Lino, denuncia a fragilidade de direitos

a que os funcionários de escalão mais baixo estão submetidos,

e se isso, conforme relatou, existe em todas as organizações de

trabalho, é um câncer a ser combatido constantemente e com

todas as forças necessárias até que a cura se manifeste e seja

aplicada com rigor. Costumo dizer que a gameleira é uma árvore

que não cura nenhuma doença, por isso esperar uma solução

vinda da gameleira é ilusão eterna.

Ao me despedir do senhor Lino e deixar sua sala, por intuição,

sabia que ele iria ligar para o gerente do bloco intermediário para

cientificá-lo do teor da conversa.

Eu estava decidido a fazer frente ao problema. O assédio

moral precisa acabar, e uma pessoa que nasceu com o espírito

revolucionário jamais se calaria perante a opressão moral e o abuso

144 de poder. rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Contudo, havia outras coisas para resolver naquele momento.

Durante a internação, a conta de um parcelamento bancário ficou

em atraso, e o banco, além de encaminhar meu nome para o serviço

de proteção ao crédito, bloqueou o pagamento do mês a título de

recuperação de crédito em atraso.

Fui falar com o advogado Wagner, que é conhecido há algum

tempo, a fim de lhe pedir orientações sobre o caso. Queria aproveitar

que estava no centro da cidade para resolver tudo que estivesse

pendente.

Após falar com ele, fui até a unidade da polícia que possui

circunscrição sobre o endereço da agência e solicitei o registro

dos fatos com todo o amparo legal, tendo em vista que o banco, ao

realizar o bloqueio do pagamento, que já é uma miséria, impediu

que alguns medicamentos fossem comprados e que fossem pagas as

contas de água e de energia.

Saindo de lá, fui até o juizado de relações de consumo para

abrir a ação contra o banco. Levei as cópias dos documentos e a

síntese dos fatos, constantes no embasamento legal fornecido pelo

advogado.

Na verdade, o Wagner é um profissional confiável, sempre

muito solícito e profundo conhecedor da lei, notadamente sobre a

proteção dos interesses individuais e difusos.

Após entrar com a ação, parei num restaurante popular para

almoçar, tendo em vista que havia passado a manhã toda em

reunião com o senhor Lino, depois fui visitar o advogado e de lá

fui direto ao juizado dar entrada na ação indenizatória contra o

banco.

Minha ideologia estava renovada! Por muito tempo estive

envenenado por víboras, e não havia esperanças de receber remédio

da gameleira. E deixando de esperar pela cura contra o veneno, de

uma árvore tão passiva como a gameleira, foi necessário morrer

espiritualmente para que, no renascimento, um ser mais forte e

valente surgisse.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

145


Despertado de ânimo, corpo, alma e ideais, naquela manhã fiz

uma importante ligação para o Genaro, para que me acompanhasse

na reunião já marcada com um representante parlamentar, o

Deputado Freitas.

Meu novo estado espiritual era decidido! Forte, valente e digno!

Eu já havia passado por inúmeras privações de direitos, muitas

tentações ao corpo e ao caráter. Já não havia sentimento, senão uma

revolta moral contra o sistema em sua manifestação mais singular

e objetiva.

Heureca! Eu sou um pensador com ideais revolucionários!

Invendível! Irredutível! Endêmico!

146

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


DESVIANDO O OLHAR

Já havia se passado muito tempo desde a última vez que vi a luz

da justiça clarear meus olhos já incrédulos na sociedade humana,

tendenciosa e materialista.

Nesse tempo, vivi um período de arbitrariedades das quais não

tem noção o mais injustiçado dos homens de boa fé e dignidade de

caráter.

Hoje pela manhã, recebi uma ligação do serviço, avisando que

o funcionário Fábio, da antiga repartição, exigia a minha presença

naquele local, a fim de responder a um apenso produzido pelo

gerente Wladmir.

Embora o antigo gerente já não fosse mais meu chefe, e eu

estivesse disposto a levar para a esfera judicial qualquer coisa que

ousasse fazer contra mim, compareci à repartição para saber do que

se tratava. A ilegalidade do apenso era evidente, mas eu não poderia

esperar outro comportamento, pois com o tempo aprendi que ali os

homens, quando desejam poder, ousam passar por cima da lei para

alcançar seus objetivos, sendo necessário o amparo da própria lei

para frear-lhes o impulso hedonista.

A reunião foi inquisitiva por parte do Fábio, havendo duas

testemunhas presentes no local, uma saleta de reuniões e despacho

de documentos da repartição.

– Estou aqui a mando do senhor gerente de repartição Wladmir,

com o objetivo de produzir um apenso em seu desfavor, pelo fato

de, quando foi assaltado, ter usado indevidamente o nome desta

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 147


epartição, causando-lhe prejuízo de imagem. Quero saber o que

tem a relatar.

– Ora, Fábio, não tenho nada a declarar para o senhor, ou

melhor, para você. E, como já deveria saber, digo que nem deveria

ter vindo aqui participar de tudo isso. Um verdadeiro teatro em que

nós somos os fantoches e aquele gerente ordinário, o público.

– Como assim? Está depreciando o gerente?

O espanto foi geral no interior da sala, onde se esperava uma

postura amedrontada, e de repente houve uma resposta seca e fria,

que ecoou como som desagradável.

– Diga ao seu chefe que eu não tenho nada a declarar para ele,

pois ele é o seu chefe, e não meu. Não estou trabalhando para ele

e, sendo assim, somente presto contas sobre o serviço à repartição

onde trabalho e ao público. Ainda mais, sobre sua inquisição, na

condição de cidadão, acho conveniente somente prestar contas à

autoridade competente.

Nesse momento, desviando os olhos e olhando fixo e com

expressão confusa para o computador, fitei os olhos nele esperando

dele o mesmo. Contudo, minha expressão era irredutível! Eu

já estava no limite da aceitação. Já havia se esgotado qualquer

fragilidade do corpo. Olhos de fogo queimam os que olham para ele.

– Tem certeza de que não quer expor os seus motivos? Esses

apensos podem provocar sua demissão.

– Eu insisto que não tenho nada a declarar ao seu chefe de

repartição. E, além disso, caso queira anotar o que estou dizendo,

eu o acuso de estar agindo em retaliação à minha condição de

profissional, criando um documento sem validade jurídica–

unicamente para me trazer o transtorno de sair da minha casa...

Uma tosse forçada de um dos presentes interrompeu o que

eu dizia, mas nem mesmo essa pausa abrandou minha ira naquele

instante...

– E como eu estava dizendo, estou acusando-o de agir em

retaliação à minha condição profissional, criando um documento

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

148


sem validade jurídica unicamente para me trazer o transtorno de

sair da minha casa e vir até aqui, pois ele já estava sob investigação

judicial quando elaborou esses apensos, e, mais que isso, já se

encontrava sob suspeição da casa legislativa por causa dos assédios

profissionais que há muito tempo vem exercendo. Eu não tenho

nada a declarar para vocês dois.

– Bem, mas em relação ao assalto que sofreu? Isso foi veiculado

na mídia. O que tem a dizer?

– Eu não tenho nada a declarar, Fábio, já disse. O processo que

está sendo movido contra ele irá adiante, independente de quantas

pessoas estejam envolvidas. Sempre pactuei que a lealdade de

um profissional para com a chefia não deve, em hipótese alguma,

significar fidelidade cega e plena aos desejos e aspirações do chefe.

Mais uma longa tosse interrompeu o que eu dizia...

E continuando:

– Antes disso, o funcionário deve ser dotado de idoneidade

moral, deve ter o direito de pensar e agir conforme a lei. A imposição

jamais conduzirá esse país a melhores condições de existência e

nossa sociedade, recém-acordada com as manifestações populares,

está se tornando irredutível! Pouco a pouco as formigas estão

percebendo que, se estiverem juntas, nem mesmo o maior dos

animais poderá enfrentá-las. Um gigante que acorda! Assim é o

desejo do povo, e quem não partilhar dele, em algum momento será

esmagado juridicamente, ou agora, ou daqui a um mês, um ano ou

mais. O tempo do abuso de poder já acabou! A sociedade brasileira

já se cansou de ser limitada e um novo tempo de mudanças já

começou.

Com dificuldade, ele digitava tudo e, no interior do seu ser, havia

concordância com o que eu dizia, mas a fidelidade cega o impedia

de demonstrá-la, fosse em palavras ou simplesmente em olhar nos

olhos do seu adversário. Suava frio e denotava nervosismo.

Ele não conseguia acordar e contrariar o sistema. Sentiase

orgulhoso de ser fiel a qualquer preço, pois achava que esse

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 149


comportamento lhe traria uma carreira de sucesso. Eu até o

entendo. Muitas pessoas têm medo da pobreza. Têm medo de ter

que economizar o pão por carência de recursos. Numa sociedade

interesseira. somente quem tem dinheiro fala com coragem e aquele

que depende dela abaixa a cabeça para responder e não olha nos

olhos.

– Sobre o emprego, senhor Fábio, nessa vida somente não

alcança o sucesso quem não se empenha para chegar até ele. Não

devemos temer o futuro, e sim nos prepararmos dia após dia para

tempos em que haja escassez de recursos. Não podemos avaliar

nossa situação profissional pelo medo de perdermos o emprego,

pois isso é justamente o que move toda uma trama de influência e

torna o homem escravo do sistema. Quem está agindo conforme a

lei deve aguardar o amparo dela e isso é justamente o que eu sempre

fiz, pois, de outro modo, o gerente Wladmir já teria concretizado

todos os seus planos contra mim. Não foi em vão eu ter-me rebelado

socialmente contra ele e seus homens de confiança, porque isso

destruiu o espírito de divindade que foi criado naquele lugar. Eles

são homens, você é homem. Devemos respeitá-los como chefes do

serviço e não nos curvarmos como se fossem dotados de poderes

sobre-humanos.

– Está bem! Creio que não há mais nada para eu fazer aqui.

Espero que melhore e que fique bem! Sua insubordinação ainda vai

conduzi-lo ao fracasso.

– Desejo o mesmo ao senhor! Que melhore... e, antes de mais

nada, tenham a bondade de ir para o quinto dos infernos!

Saí da saleta de reuniões, bati a porta com força e, no interior da

sala, como se não houvesse ninguém lá dentro, reinava um silêncio

absoluto!

Antes de ir embora, fui falar sobre o ocorrido com o Donato,

gerente de setor.

Na verdade, eu deixava claro que estava na repartição para

executar o meu trabalho, porém já havia se esgotado a situação de

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA

150


harmonia entre a antiga repartição e eu, e no que estivesse ao meu

alcance, não traria problemas para a nova repartição, mas também

não poderia deixar de ir atrás dos meus direitos.

Quando provam o poder, as pessoas costumam ficar cegas a

ponto de mudar o modo de pensar e agir, a colocação das palavras

e os círculos de amizades, se é que as pessoas poderosas possuem

amigos.

Isso é uma coisa que não me importa muito descobrir. Sei que

possuo amigos e o poder não me agrada, afinal, gosto de sorrir e

receber sorrisos verdadeiros em retribuição. Se eu tivesse poder,

perderia esse bem precioso e somente receberia sorrisos falsos e

bajuladores.

E depois, fui embora. Fui para casa descansar, afinal, estando

em tratamento médico, não é bom que uma pessoa fique exposta ao

stress profissional de maneira tão brusca como ocorreu hoje.

Às vezes, mandar alguém ir para o quinto dos infernos produz

automaticamente um inimigo a mais, ou até dois, afinal, até o

tinhoso anda reclamando das mercadorias que lhe são oferecidas,

só que o grande ensinamento que se tira disso tudo é que eu não

estou nem aí !

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA 151


A DEMOCRACIA É DO POVO

Era linda a manhã do dia da Independência do Brasil! Um sol

forte, no céu sem nuvens, clareava o dia.

Tomava meu café da manhã com bolos, biscoitos, gemada com

canela, que adoro, uma banana amassada com aveia e pão integral.

Tudo parte da dieta que comecei a fazer para entrar em forma.

No jornal da manhã, o repórter alertava os motoristas sobre o

trânsito, devido à concentração da maior manifestação popular já

vista em todo o mundo!

Pessoas do país inteiro se reuniram com um único ideal

democrático: manifestar a indignação contra a corrupção política,

o abuso de autoridade dos órgãos públicos, a falta de médicos e de

unidades de saúde em todo o país. E exigir melhorias na educação,

melhores condições de saneamento, mais saúde, melhores condições

de vida, efetividade na prestação de serviços públicos, creches,

escolas, dignidade e cidadania.

Em todas as cidades, em cada estado, milhões de pessoas nas

ruas, de rostos pintados, apitando, soltando foguetes, levando

cartazes, faixas e bandeiras. A repressão policial, em seu nível mais

elevado, atuava para conter as depredações, de um lado repudiada

pela massa popular, e de outro, como último escudo dos políticos

do país.

É o despertar de uma nação que já não suporta ver o dinheiro

público sendo gasto pelos políticos e desviado de obras que nunca

terminam, sendo sempre superfaturadas.

152 rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Um gigante que saiu do seu leito, e não há quem o faça parar.

Despertou e agora tem fome e sede.

Os governos convocam as forças policiais para reprimir o povo,

masaté por eles está lutando a população, exigindo uma equiparação

de salários em nível nacional, aumento de efetivo e melhores cursos

de preparação dos servidores.

Claro, sempre existem vândalos infiltrados nas manifestações,

porém são uma minoria que se aproveita desses momentos para

saquear lojas, furtar objetos e fazer arrastões.

Pouco a pouco, a rua fica cheia! Todos os meus amigos estão

indo para a manifestação.

Apósalimentar os animais de estimação, quesãoaminhamelhor

companhia, e subir no telhado para jogar sementes e migalhas dos

restos do café para os pássaros, fui até lá conversar com eles, e me

chamaram para subir no caminhão junto com todos.

O rosto pintado, borrado de tinta até os cabelos, a blusa já

rasgada numa das golas, aos gritos até mesmo as gotas de saliva

quaram o ar.

Sob foguetes e gritos de ordem, o caminhão deixa a rua de casa

com cerca de cinquenta pessoas na caçamba, segurando faixas e

gritando sons de revolução.

No trânsito, os motoristas buzinando, participam daquele

movimento novo de revolta social. Pessoas dispostas a eliminar

o câncer do maquiavelismo humano, que se instalou em todos

os setores públicos, objetivando subjugar a justiça, o caráter e

a honra para poder agir visando exclusivamente aos interesses

pessoais.

Pouco tempo depois, já não havia condições de o caminhão

transitar. Havia uma multidão de milhares de pessoas bloqueando

a passagem até a Avenida Antônio Charles, que dá acesso ao centro

da cidade.

Eram muitas pessoas! A avenida, mesmo larga, não comportava

aquela imensidão de gente.

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Descemos do caminhão e continuamos andando a pé entre os

carros até chegar à avenida.

Muitas faixas, canções, gritos ensaiados, rostos pintados e

barulho. Pessoas soltavam foguetes, outras, enchendo balões de gás

da varanda de casa, soltavam balões com frases contra a corrupção

do governo, a precariedade do setor de saúde, a defasagem da

segurança pública, os impostos elevados e a falta de transparência

dos órgãos governamentais. Em pouco tempo, o céu estava repleto

de balões com faixas de protesto.

Havia um aparato considerável de policiais garantindo a

segurança nos locais por onde aquela imensa massa de pessoas

passava, mas como atuar contra o povo? A polícia, a guarda, os

agentes de trânsito ou até mesmo os seguranças particulares. A

população sempre se manifestou de forma desorganizada, fazendo

quebradeiras, ateandofogoempneusemateriaisdiversos, entrando

em conflito com os órgãos de defesa social. O poder público, nos

últimos meses, deparou com algo inesperado: a manifestação

pacífica e sem liderança definida. As pessoas simplesmente

lotam as ruas e, sem quebrar um só galho de árvore ao longo do

percurso, exprimem o desejo democrático de tomar para si o que

foi subtraído pelos governantes e representantes políticos. Não há

um arruaceiro, uma liderança definida para ser pressionada pelas

autoridades a cessar a manifestação. Os manifestantes relatam

que é o desejo único de todos pelas reformas cobradas.

Se não há dano algum ao patrimônio, se não há violência ou

ilegalidades cometidas pelos populares, o governo não tem como

proibir que o povo vá para as ruas e demonstre todo o furor do seu

descontentamento.

Fazia um tempo que não me sentia assim tão vivo! Pelo suor

de minha pele, muitas mágoas sem solução eram eliminadas e

queimadas pelo vento. A tristeza porejava e esmaecia, e a felicidade,

como ar puro, penetrava nos pulmões que se inflavam.

rENASCENDO DA CINZA - vITOR MOREIRA


Pessoas ao longo da minha vida tentaram reduzir o brilho que

sempre ardeu em meus olhos. Cheguei a morrer sentimentalmente,

mas hoje posso dizer que renasci das minhas próprias cinzas, tal

qual um pássaro de fogo que, ao se apagar, volta mais forte, valente e

digno do seu calor vital, temível e irredutível ao se fazer proprietário

do céu em que voa.

A manifestação chegava ao centro da cidade e havia muita

correria, de pessoas e de carros. Uns queriam fugir do imenso

tumulto, que, anunciado pelas autoridades, chegava a quatrocentos

e cinquenta mil pessoas.

Um imenso telão, colocado por um comerciante na fachada

de seu comércio, na Rua dos Gabirus, bem na esquina com a Rua

Coritiba, num prédio verde, mostrava os atos de manifestação em

todo o país, transmitidos ao vivo por uma rede de televisão. Aquilo

inspirava as pessoas! Demonstrava que a luta por dignidade e

respeito havia tomado conta de todo o país.

Subi num dos palanques da manifestação e lá de cima

cantávamos e gritávamos, incentivando as pessoas a fazer barulho.

A cada hora, um se revezava ao microfone, quando a voz, já rouca,

impedia de continuar a falar.

Lá de cima não era possível ver o final da manifestação, que

se estendia por todos os quarteirões da Avenida dos Paraíbas até a

Praça Raul Sóbis.

A Avenida Principal estava tomada! A grande quantidade de

manifestantes roubou o brilho do desfile da Independência. As

câmeras de televisão foram posicionadas para o possível ponto de

confronto entre o aparato de segurança e a frente da manifestação

popular.

Nos prédios, pessoas agitando bandeiras, soltando balões e

gritando.

– A vida é bonita! Nós temos de lutar!

– A vida é bonita! A gente luta até vencer!

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– Somos todos guerreiros trazendo flores nas mãos e ideais

consolidados.

A população já não aceita ver a Constituição Federal ser

devorada por quem está no poder, nos seus diversos níveis, como se

ela fosse um pão açucarado e macio que satisfaz somente a fome de

quem pode usufruí-la.

Uma voz calada jamais verá justiça. Se não houver luta, mesmo

que a custa de muitas feridas, a ilegalidade sempre existirá. Da

vitória, porém, não gozam os que dormem e se calam.

Eu decidi que, se perdesse minha identidade, jamais poderia

lutar pelos meus sonhos.

Eu renasci das cinzas para fazer história! A minha história!

Ideologia que marca os batimentos do meu coração.

Eu não abri mão dos ideais nem mesmo quando a opressão

roubou lágrimas dos meus olhos e até mesmo quando houve a

desistência da vida.

Eu sou a imagem dessa grande quantidade de vozes que está

nas ruas, e agora eu sei que tudo que fiz foi por amor! Sim, amor!

Amor à justiça e à igualdade! Um sentimento puro que não se

mancha pela pressão, pela opressão ou pelo assédio. .

Estava renovado de forças e sentia uma felicidade imensa

no coração por estar no meio do povo, unindo os ideais para

verdadeiramente promover a Independência do Brasil.

Eis que, enquanto eu gritava, um me passou o microfone do

palanque, já cansado e rouco, e me disse:

– Fala alguma coisa aí que já não aguento mais gritar.

Voz! O povo tem voz, mas para ser ouvido deve falar com

propriedade! Sem medo ou receio. Eu sempre acreditei na justiça!

Segurei o microfone, voltei para a multidão o meu olhar

queimando e o corpo retinto, brilhante de suor, e comecei a falar.

E o que eu disse...

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Bem, isso é segredo do povo, de todos aqueles que estiveram

comigo na manifestação. Uma grande nação que, acima de qualquer

dificuldade da vida, luta até obter a vitória! Também o sabem as

autoridades presentes, mas amanhã já não será segredo. Sairá em

todos os jornais, de todos os Estados do país.

Decidi ser feliz, e isso ninguém poderá me tirar!

Fim!

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