NO Revista Janeiro 2019

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sumário

janeiro

2020

05

ENTREVISTA

À Mesa Com MIGUEL CASTRO OLiVEIRA

43

CRÓNICA

ANTÓNIO VENTURA

13

26

30

36

REPORTAGEM

O IMPACTO DA GUERRA DO ULTRAMAR NOS

AÇORES

ENTREVISTA

DEPUTADA BÁRBARA CHAVES

reportagem

a relação entre o espólio arqueológico

e os públicos mais jovens

CRÓNICA

jOÃO CASTRO

53

56

58

62

REPORTAGEM

GALERIA FONSECA MACEDO

crónica

leituras desalinhadas

reportagem

víctor alves - a abordagem

"pragmática" da guerra civil portuguesa

destaque

top notícias 2019

o político do ano

MURAL FÉNIX

COMISSÃO DELTA

josé contente 20 38 44

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editorial

O Ciclo

Passado o ano de 2019 e entrados

em 2020, costuma ser tempo

de fazer balanços e projetar

conjunturas.

Elencar um conjunto de destaques

positivos na Região Autónoma dos

Açores em 2019 será uma tarefa

muito difícil ou mesmo impossível.

Elencar o negativo será, também,

uma tarefa muito difícil numa

revista com 60 páginas.

Posto isto, nada melhor que

enveredar por uma análise

sintetizada daquilo que foi 2019 e

daquilo que se espera de 2020.

O ano de 2019 ficou marcado por

uma perda insubstituível na política

Regional com o falecimento do

Eurodeputado André Bradford.

Todas as palavras serão escassas

para o descrever e homenagear,

permanecendo o incomodativo

vazio que se torna evidente.

No quadro da ação política, podese

destacar o novo ciclo do PSD/A

que, em 8 anos, conhece o seu

quarto presidente. José Bolieiro

reuniu consensos e prepara-se para

começar um novo ciclo interno e

quebrar o ciclo externo, o socialista.

A inércia ou compaixão do

Governo Socialista manteve-se

igual a si mesmo, está tudo bem

e recomenda-se para o interior.

Com tantos problemas na região

e secretários regionais a mostrar

desgaste e incapacidade, Vasco

Cordeiro não mexe no Governo para

dar a entender uma cumplicidade

de união. Está órfã de razão. Em

termos desportivos, equipa que

vence não se mexe, entendimento

análogo encontrado por Vasco

Cordeiro na versão que em equipa

que perde não se mexe.

O outro episódio político que

merece destaque é a epidemia de

interesses dentro do CDS/A.

Não se percebe que um partido

como o CDS/A entre neste ciclo

conturbado, ao invés de aproveitar o

desgaste de uma direita moribunda

nos Açores e retirar dividendos

significativos. O timing para os

democratas cristãos inquietos é

como uma cenoura sedutora.

Por muito que Artur Lima seja

indesejado por fações nostálgicas

dentro do partido, na verdade

ele tem conseguido resultados

eleitorais que desmontam qualquer

armadilha ancorada em falsos ideais

e silvestres arrufos.

O Bloco de Esquerda, sem rumo

depois da saída de Zuraida Soares,

remeteu-se ao papel de presenças

e manifestações altruístas em

qualquer dobrar de esquina.

João Paulo Corvelo revela um

espírito de despedida, mantendo os

níveis de subsistência.

O PPM, resiliente, mantém o seu

rumo, tendo sido muitas vezes

a bengala do PSD/A, apesar de

apresentar mais trabalho que os

próprios. O ataque cerrado ao PS

do deputado Paulo Estêvão tem-no

mantido na agenda política.

Para 2020, ano de eleições, iremos

ter um combate na esfera da

manutenção, embora se descortine

uma maior pulverização no

hemiciclo do parlamento regional. A

democracia e o populismo são isso

mesmo.

Os socialistas temem a perda

da maioria absoluta por via da

legislação eleitoral que abriu o

círculo de compensação, o que

irá permitir aos partidos recentes

poderem eleger deputados por

esse círculo, reduzindo assim a

amplitude socialista. Por outro

lado, José Manuel Bolieiro irá

tentar, pelo círculo de São Miguel,

quebrar o ciclo dos sete deputados,

reduzindo assim a possibilidade de

uma maioria absoluta para Vasco

Cordeiro.

Com o desgaste socialista e os

problemas que a região enfrenta,

Vasco Cordeiro perdeu o timing

para a preparação da pré-campanha,

pois teria dado sinais diferentes

se a mesma tivesse começado em

setembro com a renovação do

governo. O tempo escassa e as

eleições estão a poucos meses de

distância.

RUI SIMAS

DIRETOR

Ficha Técnica:

ISSN 2183-4768

Proprietário Associação Agenda de Novidades

NIF 510570356

Sede de Redação Rua da Misericórdia, 42, 2º Andar,

9500-093 Ponta Delgada

Sede do Editor Rua da Misericórdia, 42, 2º Andar,

9500-093 Ponta Delgada

Diretor/Editor Rui Manuel Ávila de Simas CP3325A

Subdiretor João Rocha CP 2926

Redação Rui Santos TPE-288 A, Claúdia Carvalho

TPE-288 A, diogo costa TPE-298-A

Revisão ana sofia massa

Paginação leonor manaças

Captação e Edição de Imagem Rodrigo Raposo,

RAQUEL AMARAL

Departamento de Marketing e Comunicação CILA

CIMAS, Leonor Manaças

marketing digital raquel amaral

MULTIMÉDIA RODRIGO RAPOSO

informática joão botelho

Relações Públicas Cila Simas

Nº Registo ERC 126 641

Colaboradores antónio ventura, João Castro,

ricardo silva

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Estatuto Editorial:

A NO é uma revista de âmbito regional (não ficando

excluídos os países de língua portuguesa e

comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo).

A NO disponibiliza informação independente e

pluralista relacionada com a política, cultura

e sociedade num contexto regional, Nacional e

Internacional.

A NO é uma revista autónoma, sem qualquer

dependência de natureza política, ideológica

e económica, orientada por critérios de rigor,

isenção, transparência e honestidade.

A NO é produzida por uma equipa que se compromete

a respeitar os direitos e deveres previstos na

Constituição da República Portuguesa; na Lei de

Imprensa e no Código Deontológico dos Jornalistas.

A NO visa combater a iliteracia, incentivar o gosto

pela leitura e pela escrita, mas acima de tudo,

promover a cidadania e o conhecimento.

A NO rege-se pelo cumprimento rigoroso das

normas éticas e deontológicas do jornalismo e

pelos princípios de independência e pluralismo.

04 NOJAN20


entrevista

à mesa com

Miguel Castro Oliveira

director executivo - ceo da i am event production & brand consultancy

cila simas

Tenho comigo Miguel

Oliveira, o CEO da empresa

I AM Events, uma empresa

do norte de Portugal que já

chegou aos Açores, aliás, já

fez um evento nos Açores e

está de regresso à Região para

mais eventos. Miguel, quero

conhecer um bocadinho mais,

quero que me contes, que me

fales um pouco mais sobre o

que é a empresa I AM Events.

I AM Events é uma empresa

com a pronúncia do norte,

estando no mercado há cerca

de cinco anos. Nós fazemos

produção de eventos globais,

consultoria para marcas,

contratação de artistas, etc.

Eestamos de regresso aos

Açores como disse e muito

bem, passado quatro anos,

para voltar com um evento

gastronómico, neste caso

“Francesinha In Azores”,

que, ao fim de algumas

tentativas, vai conseguir marcar

presença novamente. Ficam

já convidados para no fim de

semana de 2,3,4 e 5 de abril de

2020 marcarem presença aqui,

em São Miguel, no Pavilhão da

Associação Agrícola.

Relativamente à ilha, São

Miguel tem, de há alguns

anos para cá, chamado,

digamos assim, para virmos

cá. Fizemos já consultoria a

algumas empresas cá e, agora

sim, estamos com vontade de

estar mais presentes nesta ilha

e fazer alguns eventos que

não podemos estar agora a

divulgar, mas que, com certeza,

brevemente, traremos muitas

novidades.

Miguel, será só São Miguel o

destino deste regresso ou estão

já outras ilhas no horizonte?

Quando nós optámos pelo nome

de “Francesinha in Azores” foi

exatamente a pensar nas outras

ilhas também. Portanto, São

Miguel vai ser a primeira ilha

a ter o evento, mas sim, já há

outros planos para outras ilhas

do arquipélago dos Açores.

Eu agora gostava que me

NOJAN20 05


entrevista

vídeo

ENTREVISTA disponível EM VÍDEO NA REVISTA ONLINE

"

Os Açores têm

uma beleza

própria que

por si só é

cativante,

mesmo sem

estar na moda.

As pessoas

são muito

especiais, a

pronúncia

é muito

cativante.

falasses um pouco do que é

a I AM Event, porque cinco

anos já são muitos anos no

mercado, principalmente

no mercado continental. O

que é que vocês têm feito no

continente português?

Nós temos feito um pouco de

tudo. Nós temos feito desde a

música ao teatro, à consultoria

em algumas marcas que

temos o prazer de trabalhar

e de ter ajudado a crescer

no parâmetro nacional, que

não quero estar aqui a frisar

nenhum nome em específico

porque seria injusto para

todos os outros clientes, mas

acima de tudo, nós somos

uma empresa que está pronta

para dar resposta a qualquer

desafio, de qualquer marca,

de qualquer empresa. Um

cliente que tenha um desafio

é o que nós queremos, ou

seja, estamos preparados para,

com as parcerias que temos,

estarmos presentes em todo o

tipo de eventos.

Naquilo que foi o passado

da I AM Event, existe

algum evento que te tenha

marcado, não só pelo desafio

mas também pelo gosto de o

fazer?

É muito complicada essa

questão, muito complicado

mesmo, porque eu tenho

vários eventos que me

06 NOJAN20


entrevista

marcaram. Não consigo

especificar aqui um mais

que o outro. Estava a tentar

aqui lembrar-me de um que

tivesse… Acima de tudo, tenho

o prazer de fazer o que gosto,

portanto todos os eventos

que são realizados, são-no

com prazer. Seja de grande

dimensão, ou de pequena

dimensão, é sempre um

prazer. Claro que me lembro

do primeiro evento, porque é

o primeiro e esse marca-nos

sempre de forma especial.

Foi a primeira fatura que a

empresa emitiu. Lembro-me

desse evento, mas mais uma

vez, sem estar aqui a focar

nomes de empresas ou marcas,

tenho esse “contentinho”

especial. Se virem o nosso

site em iamevents.pt,

podem reparar que temos lá

dezenas de clientes, desde

Câmaras Municipais, marcas

internacionais, e seria injusto

estar aqui a destacar uma ou

outra sem mencionar todas.

Mas sim, esse primeiro é só

pelo facto de ter sido a primeira

fatura que nós passámos e eu

lembro-me perfeitamente disso,

só por isso. De resto, todos eles

têm um lugar especial.

Vir para os Açores, o que é

que te atrai nos Açores? É só

porque está na moda?

No primeiro evento que fizemos

nos Açores, em 2016, não

existia o número de carros

alugados que se vêm agora

nas estradas, nem coisa que

se parecesse. O desafio foi

fazer um evento diferente,

portanto, não trouxemos um

único produto do continente,

trouxemos apenas a mãode-obra

e todos os produtos

foram regionais. O pão, o

queijo, os enchidos, carnes.

Foi interessante porque nós

tivemos que acabar o evento

mais cedo no outro dia, porque

terminámos com a carne na

ilha, que estava cortada. Era

fim-de-semana, os talhos

estavam encerrados. Foi muito

engraçado porque, em 2016,

sem esta moda que se vê

hoje em dia, o evento foi um

sucesso, portanto, nem quero

imaginar como vai ser agora

em 2020, no qual está na moda

os Açores. Mas não fugindo

à questão, os Açores têm uma

beleza própria que por si só é

cativante, mesmo sem estar na

moda. As pessoas são muito

especiais, a pronúncia é muito

cativante. Nós estamos em

Portugal, é como ir a Lisboa,

como ir ao Algarve fazer

um evento, sendo que, esta

barreira que existe, que é o

mar, faz-nos às vezes pensar

que vamos para outro local,

para outro país. Estamos em

Portugal, numa zona muito

bonita que eu especialmente

"i am. we are.

they are."

é o slogan da

i am, agência

de produção de

eventos globais

e de consultoria

para marcas.

NOJAN20 07


entrevista

A NO REVISTA sentouse

à mesa com Miguel

Castro Oliveira, Diretor

Executivo - CEO da I AM.

Com sede em Vila Nova

de Gaia e com grandes

projectos desde 2015, a

I AM foi criada com base

na ideia de afirmação de

uma identidade única.


entrevista

adoro. Não querendo dizer que

é só São Miguel, mas é a ilha

que melhor conheço. Já tive a

oportunidade de vir cá algumas

vezes e conheço bastante bem.

Tem uma beleza natural, as

pessoas são espetaculares,

portanto, acho que isso não se

explica, sente-se. É chegares cá

e sentires-te bem.

Miguel, este evento da

“Francesinha In Azores”,

que já começa pela alteração

do próprio nome, traz um

conceito diferente? Há

algumas alterações naquilo

que foi em 2016 o “Festival

das Francesinhas”?

Acima de tudo houve um

erro que foi chamar Festival

das Francesinhas em 2016.

Não devia ter sido chamado

Festival das Francesinhas

porque deu uma ideia errada às

pessoas do que é que seria e daí

corrigirmos para “Francesinha

In Azores”, porque isto é um

evento gastronómico e não um

festival.

Como tu disseste há

bocadinho, fizeram questão

de utilizar tudo aquilo que era

açoriano, portanto, realmente

este nome escolhido para 2020

tem mui to mais a ver com

aquilo que se vai passar do

que propriamente o “Festival

das Francesinhas”, porque

vem de fora o chef, mas

depois aquilo que é utilizado

cá é açoriano.

Certíssimo. O conceito vai

manter-se nesse aspeto. Todos

os produtos serão comprados

e selecionados cá. Lembrome

que em 2016 tivemos

uma situação com o pão,

porque o pão de cá não era

tão bom para a francesinha

porque “chupava” muito o

molho, ficava ensopado, e nós

tivemos que andar a trabalhar

para alterar. Na altura foi um

processo bastante interessante.

Nesta altura já não vai ser

preciso fazer isso, já temos

esse fornecedor com esse pão

preparado, mas sem dúvida

nenhuma, todos os produtos vão

ser de São Miguel.

Se fores fazer este evento

na ilha Terceira ou na ilha

do Faial, o conceito vai ser

o mesmo? A utilização dos

produtos açorianos como

marca dos teus eventos nos

Açores?

Sim, sem dúvida. A única coisa

que andará com a I AM serão as

pessoas e a sabedoria, o segredo

do molho e a confeção. Todos

os produtos serão sempre da

ilha onde nós estivermos a fazer

o evento.

Naquele que diz respeito

ao staff que tu trazes de

fora, que ainda não é tão

pequeno como isso, este

staff é escolhido por ti? Vai

fazer uma visita primeiro ao

espaço? Como é que isto tudo

se processa?

Esse processo passa mesmo

só por mim – a seleção. É um

processo muito próprio. Eu

identifico algumas empresas

que gostaria que fizessem e

depois, por algum motivo,

não especial, seleciono uma

e faço o convite. As pessoas,

de facto, são pessoas que nós

conhecemos há muitos anos

e que já trabalham também

no continente. Lembro-me

de um dos parceiros que será

o próximo a vir cá, mas que

para nós não é o importante,

ou seja, nós não vimos para

cá promover o restaurante

do Porto que vem cá fazer as

francesinhas. Nós estamos cá a

fazer um evento gastronómico

nos Açores e esse é o que

nós queremos promover – os

produtos regionais com a

francesinha do Porto, com

o molho especial do Porto,

mas não é importante qual é a

empresa que o vem fazer. Não é

esse o cerne da questão.

Não é importante quem o

vem fazer, mas é importante

que quem o vem fazer o saiba

fazer em condições. Como

disseste, o segredo está no

molho. Lá pelos condimentos,

pelas carnes, o chouriço,

o pão e toda esta parte da

francesinha ser regional, o

segredo está em quem vem

fazer o molho, em quem vem

preparar a francesinha.

Inclusive as compras para a

confeção do molho são feitas

pelos chefes. Nós não vamos

com eles às compras, eles não

querem. Nós só pagamos. Eles

não querem que nós vejamos

as quantidades – “não, isto é

nosso. Vocês podem fazer o

que quiserem, tirar o queijo,

pôr o queijo, pôr as carnes”,

mas o molho só há duas ou

NOJAN20 09


WWW.NOREVISTA.PT | NO

três pessoas que vão fazer as

compras e que sabem o que

estão a comprar. As marcas dos

vinhos, as marcas dos produtos,

as quantidades, tudo é segredo

deles.

Fala-nos um bocadinho

daquilo que são os cinco

anos de experiência que

a tua empresa tem feito.

Costuma-se dizer que a

barreira dos cinco anos,

quando é ultrapassada, é

sucesso (quase) garantido.

Do que está para trás, o que

nos podes dizer? Quais foram

os eventos mais marcantes

ou o que é que te marcou na

história da I AM?

Marcaram-me muitos eventos

na história, mas dando aqui

alguns exemplos que me vêm já

à cabeça – lembro-me da Comic

Con Portugal, em 2018, que

foi a primeira vez que a Comic

Con foi feita ao ar livre como

nunca tinha sido em nenhum

país, o conceito era sempre em

pavilhões fechados. São quase

100 mil metros de espaço para

um evento. Lembro-me também

com a BMW, em que ganhámos

um prémio de criatividade,

em 2018. Ganhámos também,

na área desportiva, com a

apresentação do Sporting Clube

de Braga (SCB), o Braga Day,

no qual ganhámos também

o melhor evento desportivo.

Esses eventos, nomeadamente o

da BMW e do SCB, que foram

dois prémios que nos foram

atribuídos, são eventos que

têm algum peso, não porque

os outros foram melhores ou

piores, mas esse prémio e

esse reconhecimento é, um

bocadinho, um reconhecimento

de todos os eventos. Esses

são dois eventos que, tanto

um como outro, nos deixaram

muito orgulhosos de ir erguer o

troféu ao palco.

Miguel, relembrando as datas

deste evento no pavilhão da

Associação Agrícola – 2, 3, 4

e de abril – porque o nosso

OCS não está só na RAA,

está também para as nossas

comunidades, para o resto

do Mundo. Muitas mais

pessoas te irão ouvir e ter

conhecimento deste evento.

Para 2020, o que é que podes

“levantar um bocadinho mais

o véu” daquilo que a tua

empresa irá fazer?

Nós em 2020 vamos, acima

de tudo, dar um salto na

criatividade. Essa vai ser uma

das grandes diferenças para

2020 da I AM. Deixar de ser

só produção e consultoria para

ir também para a criatividade.

Daí sim, já se estão a preparar

coisas muito interessantes para

2020.

E estas coisas vão chegar

também aos Açores?

Eu espero bem que sim,

que essas “coisas” cheguem

aos Açores já no próximo

ano de 2020. Estamos em

conversações para que

alguns desses projetos sejam

realizados em São Miguel,

inclusive e noutras ilhas.

Convido toda a gente a vir a

São Miguel, seja nos eventos

que a I AM está a produzir

ou não, mas que venham cá.

Quero agradecer à Associação

Agrícola pela forma como nos

acolhe e nos dá oportunidade

de fazer um evento num local

tão emblemático, o do famoso

bife de São Miguel. Não

queria deixar de agradecer à

Associação Agrícola por este

carinho que tem com a I AM e

que nos trata tão bem.

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eportagem

o impacto da guerra

do ultramar nos açores

"Marcas que a memória não esquece e que o tempo não apaga"

diogo costa

Decorreu no passado dia 11

de dezembro, na Universidade

dos Açores (UAç), o debate

sobre “O impacto da Guerra

do Ultramar nos Açores”,

numa iniciativa levada a cabo

pelo Núcleo de Estudantes

de História e Património da

Universidade dos Açores

(NEHPUA).

Segundo Maria Borges,

Presidente do NEHPUA, “seria

interessante proporcionar

um momento de partilha de

conhecimentos, experiências e

memórias”, sob diversos pontos

de vista. Nesse sentido, foram

convidados para palestrar nestas

conferências o Doutor Mota

Amaral, para abordar o tema

de um ponto de vista político;

a Doutora Susana Serpa Silva e

o Doutor Sérgio Rezendes para

tratar a vertente histórica; o

Coronel Salgado Martins, bem

como Amaro de Matos, com

testemunhos na primeira pessoa

de quem esteve nas frentes de

batalha.

Na sessão de abertura, a

Doutora Isabel Albergaria,

Diretora do Curso de História e

Coordenadora do Departamento

de História, Filosofia e Artes, e

a Doutora Ana Gil, Presidente

da Faculdade de Ciências

Sociais e Humanas da UAç,

exaltaram e congratularam

esta iniciativa do NEHPUA,

vista como “exemplo de

cidadania” e “vitalidade para

a vida académica”, abordando

uma temática que “atravessa

a História das gerações ainda

vivas”.

O primeiro orador convidado

a palestrar foi o Doutor João

Bosco Mota Amaral, primeiro

Presidente do Governo da

Região Autónoma dos Açores

que exerce no presente funções

docentes na Faculdade de

Ciências Sociais e Humanas

da UAç. O palestrante veio

trazer um testemunho político

daquilo que foram os anos que

antecederam a Guerra, bem

como do período em que a

mesma ocorreu.

12 NOJAN20


eportagem

Mota Amaral começou por

enquadrar o conflito na

História, afirmando que a

Guerra do Ultramar “não

aconteceu por acaso, tem os

seus antecedentes”. O antigo

governante dividiu o seu

discurso, abordando primeiro

as campanhas de pacificação, e

depois, a Guerra Colonial.

Situando-se no século XIX,

com a Conferência de Berlim,

Mota Amaral menciona o

arranque do movimento

colonialista e imperialista,

altura em que “os países

europeus queriam partilhar

a África, como se África

não tivesse dono”. O orador

afirmou que “isto, obviamente,

foi bem acolhido por alguns

e mal acolhido por outros.

Houve momentos de diálogos

positivos, mas também vários

momentos de confrontos, daí as

campanhas de pacificação”, que

na sua opinião, “passava-se no

meio de grandes excessos”

Com o “rebentar” da Guerra,

em 1961, Mota Amaral

confessa que ficou com a

impressão de que “alguns

responsáveis portugueses

pensaram que isso era mais uma

campanha de pacificação, sem

se aperceberem que o quadro

político geral tinha mudado”.

O pacto colonial que outrora

consistia na exploração dos

recursos naturais das colónias,

em benefício da metrópole,

passava a ser condenado

pelas Nações Unidas. Aliás,

ainda antes da constituição

das Nações Unidas, na Carta

do Atlântico, assinada por

Roosevelt e Churchill, estava

presente o compromisso de

autorizar a independência

dos povos coloniais, tarefa

vista como fundamental para

a organização das Nações

Unidas.

"

Foi dentro deste quadro que se desenrolou a guerra em Angola,

Moçambique e na Guiné, que era de facto, para as populações

envolvidas nela, uma guerra de libertação. Uma guerra contra o

poder colonial. As nossas forças armadas deram o seu melhor. Sobre

o ponto de vista militar, a situação, supostamente, estava estabilizada

e vencida, mas o problema era um problema político. - Mota Amaral

NOJAN20 13


eportagem

Para Mota Amaral, as supostas

campanhas de pacificação

“terminaram mal”. “Felizmente, e

devido às ligações estabelecidas,

acabou por se reconstruir esta

relação com os PALOP, que

tem caminho para andar, mas há

sobressaltos, custos e sofrimentos

que se podia ter poupado se

tivesse seguido um caminho

diferente”.

Quando questionado sobre se este

conflito poderia ter sido evitado,

o antigo governante afirma que

“estava no ADN do Estado

Novo”, e que “na lógica do

Estado Novo não cabia o diálogo

e democratização”, concluindo

ao falar da importância da

reconstrução da teia de relações

“que deixou uma língua comum,

que é um grande valor”.

De seguida, foi a vez da Doutora

Susana Serpa Silva “tomar a

palavra”. A investigadora e

professora auxiliar da Faculdade

de Ciências Sociais e Humanas

da UAç levou ao Anfiteatro

VIII daquela Universidade “um

conjunto de publicações que

retratam, por um lado, factos da

Guerra Colonial associada aos

Açores, e por outro, memórias

da Guerra Colonial, sobretudo

memórias no feminino”.

Na opinião da Doutora, apesar de

já existirem vários estudos sobre

este acontecimento, “ainda há

um longo caminho a percorrer na

investigação sobre a Guerra do

Ultramar”, sobretudo, no que diz

respeito aos Açores.

Mencionando Manuel Faria,

no artigou que publicou na

Enciclopédia Açoriana, “em

relação aos Açores, a Guerra

Colonial produziu os mesmos

efeitos registados no resto do

país”.

A oradora fala da imprensa

açoriana na altura, com

diversos registos fotográficos

e artigos que “davam eco a

esta problemática”. Segundo

Susana Serpa Silva, esta era

uma imprensa “naturalmente

alinhada com o Estado Novo e,

portanto, eivada de um espírito

nacionalista, que procurava

justificar a mobilização pelos

sagrados princípios de um país

plurirracial, pluricontinental, que

tinha a nobre missão de levar

a fé católica e a civilização a

povos espalhados pelo sertão

africano”.

Por outro lado, a oposição

do Estado Novo procurava

também reunir jornalistas

para apresentar a sua posição

contrária, uma Guerra Colonial

diferente daquela que o regime

queria transparecer. A oradora

deu o exemplo de um artigo

do Açoriano Oriental, que

dava conta da prisão de Acácio

Gouveia, Gustavo Soromenho e

Mário Soares, após estes terem

apresentado uma declaração

a favor da democratização

da República, perante alguns

jornalistas.

Susana Serpa Silva apresentou

vários artigos de jornais

regionais, após o início da

Guerra Colonial, que relatavam

a partida dos soldados, as

cerimónias que se realizavam

nas partidas, nomeadamente,

missas campais no adro do

Santuário da Esperança, em

Ponta Delgada, o regresso das

comitivas que terminavam as

suas missões, distinções de

que eram alvo alguns militares,

açorianos, etc.

14 NOJAN20


eportagem

Do lado oposto, dando a

conhecer o “lado mais negro da

Guerra”, as páginas dos jornais

açorianos “enchiam-se” com

a divulgação das mortes de

militares açorianos, números

que a oradora apresentou na

seguinte tabela.

Para além destes dados, Susana

Serpa Silva apresentou mais

números relativos à influência

dos Açores na Guerra do

Ultramar. A palestrante

menciona Pires Ferreira, que

na sua dissertação de mestrado

refere que a mobilização

de açorianos para África

iniciou-se em 1961, aumentou

consideravelmente em 1967,

atingindo o seu ponto alto em

1969.

A investigadora mostra também

um gráfico, presente na referida

dissertação de Pires Ferreira,

que apresenta o esforço relativo

a cada unidade mobilizadora de

Caçadores Independentes para

os três teatros de operações, no

qual Angra de Heroísmo e Ponta

Delgada se destacam entre

as unidades que mobilizaram

mais homens para a Guerra

do Ultramar, estimando-se em

cerca de 14000, o número de

soldados que partiram para

África. Susana Serpa Silva

apresenta ainda estatísticas

relativas às freguesias açorianas

que disponibilizaram mais

homens para este conflito,

destacando-se São José, em

Ponta Delgada, e Santa Cruz, na

Praia da Vitória.

Uma vez que as marcas

provenientes de um conflito

desta dimensão não se estendem

apenas aos homens que nela

participaram, a Doutora

referiu ainda a importância da

sociedade em geral, mas das

mulheres, em concreto, ao longo

de todos os anos de guerra.

“Multiplicaram-se iniciativas

de apoio aos combatentes.

As delegações distritais

do Movimento Nacional

Feminino criaram movimentos

a favor dos expedicionários

açorianos, promovendo serões,

angariações de donativos,

compravam tabaco, produtos

de higiene, entre outros

produtos”, refere Susana Serpa

Silva.

“Em torno da Guerra Colonial,

foram-se construindo,

naturalmente, muitas

memórias. Memórias de

guerra, por quem combateu,

por quem lá esteve. Memórias

de quem ficou cá a viver a

angústia da separação e da

incerteza”.

Nesse sentido, a oradora falou

do seu trabalho na recolha de

memórias no feminino, através

de entrevistas e inquéritos

junto de mães, esposas, irmãs

e familiares de combatentes.

Apresentou ainda exemplos de

correspondência e aerogramas

trocados entre militares e

família durante os anos da

Guerra.

NOJAN20 15


eportagem

"

O que se verifica é que há vários problemas no que toca às memórias do

Ultramar. Há cortinas de silêncio que só gradualmente se vão dissipando.

Por vezes uma grande relutância em partilhar essas memórias, que se

consideram do domínio privado. Nem sempre as pessoas conseguem

exteriorizar aquilo que sentiram e que viveramm - Susana Serpa Silva

Susana Serpa Silva concluiu a

sua apresentação confessando

que o seu “grande receio é que

neste momento estão-se a perder

os protagonistas, as memórias

e estes objetos”, afirmando

que “urge de facto recolher

testemunhos orais, objetos e

documentos particulares que

nos falam de estados de alma,

do quotidiano das operações

militares” e lamentando

a “escassez de apoios” à

investigação histórica.

Seguiu-se a apresentação

do Doutor Sérgio Rezendes,

assessor científico do Museu

Militar dos Açores e professor

no Colégio do Castanheiro,

que veio enriquecer a tarde

com mais dados e documentos

históricos que ligam os

Açores à Guerra do Ultramar,

e, sobretudo, com a missão

de demonstrar aos alunos e

interessados os métodos para

recolha de dados e memórias.

O docente começa por afirmar

que “a documentação guardada

pelos ex-combatentes pode

ser extremamente valiosa.

Eles próprios não têm noção

daquilo que têm. Para eles

são memórias, vulgares

papéis, mas para nós enquanto

investigadores e historiadores,

convém que essa documentação

seja preservada”.

Sérgio Rezendes refere ainda a

importância das entrevistas com

ex-combatentes, dando o seu

testemunho da aprendizagem

que os estudantes podem ter ao

privar “com estas pessoas”.

Outro aspeto “fundamental”

para o orador é o trabalho de

campo. Percorrer as ilhas dos

Açores para perceber melhor e

conhecer as figuras envolvidas

neste conflito.

Procurar os monumentos, e

melhor que isso, as campas,

os mausoléus dos nossos excombatentes.

Esse passo é

fundamental para vocês terem

uma leitura do local de pertença

e até mesmo para fazerem um

ponto de situação de como

a sociedade atual os está a

tratar. E isto pode implicar um

momento feliz ou um momento

triste.

Sérgio Rezendes refere também

a importância de não “agarrarse

à questão do conflito em si”.

Focar-se sim na estrutura mental

que acompanha o soldado a

partir do momento em que ele

sai de casa, “perceber o quadro

mental destes homens”.

Do ponto de vista social,

“também era preciso perceber

como é que estavam os nossos

cá”. O investigador fala numa

sociedade que “sofre com a

partida dos seus filhos, mas não

pode sofrer em excesso”, pelo

facto de viverem em tempo de

ditadura. Havia uma necessidade

de mostrar o espírito patriótico,

exemplificada pelo orador

com uma fotografia de uma

montra de um estabelecimento

em Ponta Delgada, durante o

Concurso do Dia das Montras.

16 NOJAN20


eportagem

No que diz respeito à

preservação de todo o

património documental

e histórico da Guerra do

Ultramar, Sérgio Rezendes

diz ser necessário “arregaçar

as mangas” e organizar os

arquivos de documentos

históricos, recorrer às

bibliotecas como base de

sustentação de todos os dados

e estudos provenientes de

acontecimentos deste género,

etc.

Por fim, o orador menciona

ainda a importância de ver a

História dos dois lados, ou seja,

conhecer o nosso lado, mas

tentar conhecer e saber mais

como é que este conflito foi

para os povos das ex-colónias,

de modo a “posicionar e ter

uma leitura mais íntima”.

O que eu vos venho apresentar

aqui, não vou dizer que é

uma “mão cheia de nada”,

porque efetivamente é muita

informação que tenho vindo a

recolher, dentro e fora do país,

mas acima de tudo é um modus

operandi, é uma mensagem

aos alunos que me convidaram

para vir cá, para que vejam este

conflito em várias áreas, fora

da caixa, a nível internacional”.

Uma história que nos une hoje,

em tempo de paz, através de um

motivo que foi a guerra.

O segundo painel das

conferências focou-se no aspeto

mais militar, levando dois

homens que viveram a Guerra

do Ultramar a falar sobre a sua

experiência: Coronel Salgado

Martins e Amaro de Matos.

Coronel Salgado Martins

cumpriu duas comissões

de serviço no ex-Ultramar

Português, em Angola e na

Guiné.

Durante a sua intervenção,

abordou, de maneira mais

técnica e tática, os anos de

guerra. Apresentou também

dados relativos ao número de

açorianos que partiram para

África, bem como os que lá

falecerem, tal como já tinha

sido apresentado antes.

O Coronel referiu ainda a

importância da “africanização

da Guerra”, que começou a

surgir a partir de meados da

década de 60. Esta manobra

consistia em recrutar tropas

nos próprios territórios, o que

permitia envolver as populações

na Guerra, diminuindo a base

de recrutamento das guerrilhas,

completar a capacidade de

recrutamento metropolitano,

praticamente esgotado,

vantagem no conhecimento

do terreno e de adaptação ao

meio, entre outras mais-valias

para as tropas portuguesas.

Estima-se que em 1973, 42%

dos efetivos em Angola já eram

tropa recrutada localmente,

em Moçambique já era

mais de metade, e na Guiné

correspondia a 20%.

Para além da “africanização

da Guerra”, da prática de

uma guerra de baixo custo

adequada a um conflito de baixa

intensidade, e da organização

operacional, o Coronel Salgado

Martins destaca como fatorchave

para o sucesso de

Portugal na Guerra do Ultramar,

o facto de “ter sido executada

NOJAN20 17


eportagem

por soldados corajosos,

com enorme capacidade de

improvisação, frugalidade,

robustez e adaptabilidade às

mais rudes condições de vida”.

Contudo, apontou também

às consequências inerentes a

qualquer guerra, realçando as

mais de 9000 mortes registadas e

mais de 30000 feridos.

Concluindo a sua apresentação,

o Coronel Salgado Martins cita

uma passagem da publicação

Exército na Guerra Subversiva:

“Para os militares, o interesse

do estudo dos conflitos

subversivos, reside ainda,

no facto de a solução desses

conflitos não poder nunca ser

obtida unicamente pelas forças

armadas”, ou seja, na sua

opinião, a missão das Forças

Armadas “era dar tempo ao

poder político para encontrar

uma solução que só apareceu

passados 14 anos”.

Por fim, foi a vez de Amaro de

Matos dar o seu testemunho

daquilo que vivenciou,

na primeira pessoa, em

Moçambique, entre 1972 e 1974.

O fundador da Associação para a

Defesa do Património Marítimo

dos Açores e da Associação

Cívica “Casa do Triângulo” foi

primeiro-cabo especialista em

rádio montador.

Amaro de Matos começou por

citar José Saramago, que refere

na História do Cerco de Lisboa,

que “a História foi vida real no

tempo em que ainda não era

História”, afirmando depois

que, “após 68 anos, e passados

já 45 desde a data do regresso,

tenho plena consciência que vivi

um tempo real que hoje já teve

tempo para ser efetivamente

História”.

“Entendi dar aqui, da guerra em

que participei, um testemunho

voltado para as suas implicações

sociais”, sublinha o orador.

“As certezas sucediam-se:

Primeiro as inspeções, depois as

"

incorporações, as mobilizações

e finalmente as partidas. As

incertezas vinham depois:

Quando? Para onde? Por que

meio? Quanto tempo falta?

E a maior incerteza de todas:

Voltaremos?”

Amaro de Matos fala de um país

que estava cansado de guerra e

confessa que o que se sentia na

altura, no seio militar, era que a

causa deste conflito não passava

de uma “teimosia em não

resolver em termos políticos”.

O ex-combatente recorda a

sua passagem por África com

um misto de nostalgia e de

esperança:

Nostalgia enquanto que, apesar de todas as privações e

incertezas, tenho recordações calorosas de África (…)

Tenho esperança de que África viva um dia um ciclo de

paz e prosperidade que a sua grandiosidade justifica.

Ainda espero igualmente que a falta de atenção com

que se tem olhado para os ex-combatentes seja revista

para que não se cumpra o que sabiamente nos disse

Eduardo Lourenço: “Existimos quando se começa

a notar a nossa ausência. Quase sempre tarde... em

Portugal nunca”.

Finalizando a sua intervenção,

era notória a mágoa de Amaro

de Matos para com o regime

fascista que liderava Portugal,

voltando a realçar que tudo

não passou de uma “teimosia

política”:

Ainda não sei avaliar o que teria

sido a minha vida se tivesse

sido possível omitir dela este

capítulo. O que sei é que nasci

num país doente e que o monstro

que criou e alimentou se serviu

de mim e de mais de um milhão

de camaradas meus. Sei que o

meu país hipotecou parte do seu

futuro coletivo e pagou caro essa

teimosia.

Assim, urge de facto não deixar

cair no esquecimento todos os

artefactos e todos os homens

que construíram este pedaço

da grandiosa História do nosso

país. Soldados de um regime,

soldados de uma pátria, soldados

de si mesmo, ou até mesmo

soldados de uma teimosia.

Certo é que foram estes homens

que, por uma causa nobre ou

não, partiram para África sem

grande escolha, sem futuro

certo, apenas com a certeza das

memórias que guardarão para

sempre e que necessitam de ser

preservadas como pedaço da

nossa História.

18 NOJAN20


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o político

do ano 2019

josé contente

deputado do ps/açores


destaque

Findo mais um ano civil, é tempo de balanços e escrutínio sobre a atividade política na

região. Para o efeito, a NO Revista decidiu destacar o melhor e mais notável político

regional pela forma como desempenhou, durante o último ano, a sua ação política.

22 NOJAN20


destaque

j

José António Vieira da Silva

Contente nasceu na freguesia

e vila de Velas, Ilha de São

Jorge, a 13 de junho de 1958.

É casado, tem dois filhos e

é professor universitário de

profissão, sendo licenciado

em Geologia-Biologia

pela Universidade dos

Açores (UAc) e Mestre em

Metodologia das Ciências

pela Faculdade de Ciências da

Universidade de Lisboa.

Exerceu funções docentes

no ensino secundário e na

Universidade dos Açores.

Foi neste estabelecimento

de ensino superior diretor

da Secção de Didática das

Ciências da Educação.

É assistente de carreira na

Universidade dos Açores e

está atualmente a completar

o doutoramento, cuja tese

será defendida, em 2020,

na Universidade Clássica

de Lisboa, na área STEM

(Ciência, Tecnologia e

Sociedade), e que se baseia

fundamentalmente na

integração dos micro satélites,

da robótica, dos drones e da

Inteligência Artificial, dentro

da abordagem da resolução

de problemas, destinada à

Educação Científica para o

século XXI. No seu empenho

por uma cidadania mais ativa

foi, também, fundador da

associação cívica “Fórum

Açoreano”.

NOJAN20 23


no | www.norevista.pt

É Membro da Comissão

Nacional e da Comissão

Regional do Partido Socialista.

Foi coordenador das campanhas

eleitorais do PS/Açores nas

eleições regionais de 1996,

2000 e 2004, 2008 e 2012,

tendo sido igualmente, nesses

quatro atos eleitorais, eleito

deputado regional pelo círculo

eleitoral da Ilha de São Miguel.

Exerceu as funções para que

foi reconduzido desde 9 de

novembro de 1996-2008

de Secretário Regional da

Habitação e Equipamentos e de

Secretário Regional da Ciência

Tecnologia e Equipamentos de

2008-2012. É deputado regional

desde 2012, tendo sido reeleito

em 2016-2020.

José Contente candidatou-se

pelo PS, em 2013, às eleições

autárquicas para presidente da

Câmara de Ponta Delgada, onde,

apesar de não ter conquistado

a mesma, obteve um resultado

merecedor de atenção,

deixando em aberto a almejada

alternância na presidência da

maior autarquia dos Açores.

O deputado tem sido uma figura

incontornável dentro do PS,

ocupando cargos de liderança e

mantendo-se sempre igual a si

próprio nos princípios de missão

a que se propôs.

A sua matriz ideológica regese

pelo rigor, honorabilidade e

respeito escrupuloso na ordem

da democracia.

Quer como governante, quer

como deputado, como cidadão

ativo, José Contente sempre

elevou o seu discurso, a sua

atitude e a sua forma de estar

a padrões de alta qualidade,

defendendo argumentos sem

ofender destinatários.

Um percurso imaculado na

propositura, no confronto e

nas divergências, imprimindo

sempre o superior interesse dos

Açores em primeiro lugar.

Como parlamentar, percurso

nos últimos 7 anos, não se tem

rogado a falsos pergaminhos, a

prepotências de estatuto nem a

segregações inusitadas no status

quo político-partidário.

Tem sido uma referência de

homem de bons costumes,

de princípios e com valores

exemplares na nossa sociedade.

Com um sentido de humor

inteligente consegue, em

poucas palavras, sem oprimir,

sem ofender e sem destratar a

democracia, suprimir ataques

políticos e pessoais com

a elegância e classe que o

caracterizam.

José Contente tem tido a mestria

de saber gerir o passado com o

presente na construção de um

PS mais consistente sem que a

sua presença seja ostensiva.

Na transição de Carlos César

para Vasco Cordeiro, assumiu o

seu lugar como deputado com

espírito de missão sem que em

nenhum momento resvalasse

para o revanchismo. Nessa

qualidade de deputado, tem sido

ele a intervir nas situações mais

complicadas para proteger o

legado socialista. E neste último

ano, com o desgaste do PS, tem

sido ele a figura de consensos

que no parlamento e fora dele

tem equilibrado e defendido

a causa socialista de forma

credível.

A qualidade de trabalho

apresentado como deputado

quer na substância, quer na

pertinência, quer mesmo

nas suas intervenções

parlamentares, tem dignificado

o arauto da autonomia regional.

José António Vieira da Silva

Contente, como político, como

governante, como deputado e

como cidadão tem conseguido

um percurso invejável no

tratamento e diálogo com

os seus opositores, sabendo

evitar, sempre, os incidentes

pessoais no confronto de ideias,

pensamentos e ideologias,

respeitando as divergência

políticas, as exaltações de

circunstância e, sobretudo,

a verdadeira essência da

democracia, o cidadão.

24 NOJAN20


O deputado tem sido uma

figura incontornável

dentro do PS, ocupando

cargos de liderança e

mantendo-se sempre igual

a si próprio nos princípios

de missão a que se propôs.

NOJAN20 25


entrevista

em entrevista

bárbara chaves

ps/açores na alraa

claúdia carvalho

Bárbara Pereira Torres

de Medeiros Chaves,

deputada pelo PS/Açores na

Assembleia Legislativa da

Região Autónoma dos Açores

(ALRAA), nasceu em 1976.

É Licenciada em Engenharia

do Ambiente e Mestre em

Ordenamento do Território

e Planeamento Ambiental.

Desempenha um regime de

exclusividade na ALRAA e

é Presidente da Comissão

Permanente de Economia.

Pertenceu, no passado,

à Comissão de Assuntos

Parlamentares, Ambiente e

Trabalho.

A NO Revista sabe que é

Licenciada em Engenharia

do Ambiente e Mestre em

Ordenamento do Território

e Planeamento Ambiental.

Tendo este percurso

profissional, em que momento

da sua vida é que decidiu

ingressar pela vida política?

Vejo a política como uma forma

de fazer algo por Santa Maria

e pelos Açores. Foi assim que,

em 2008, encarei o convite de

Carlos César para integrar a

lista de deputados regionais

por Santa Maria e é assim

que penso até hoje. Por isso,

em meu entender, a política

não é algo que se “ingresse”;

é sim, um compromisso que

se assume para contribuir

para o desenvolvimento das

comunidades em que estamos

inseridos. Nasci numa família

socialista, os meus pais sempre

foram socialistas, o meu pai

desempenhou funções políticas

e desde cedo me interessei pela

política e pelas questões que

preocupam a sociedade. Aos

14 anos era já da Juventude

Socialista e fui crescendo entre

os ideais socialistas. Portanto,

encaro as funções de deputada

com muita responsabilidade,

com muito sentido de missão e

determinação, sem me desviar

do meu objetivo que é o

desenvolvimento da minha terra

e aumento da qualidade de vida

dos Marienses em particular e

dos Açorianos em geral.

Antes de ser deputada do

PS/Açores na Assembleia

Legislativa da Região

Autónoma dos Açores

(ALRAA), que outro cargo ou

função desempenhava até aí?

Após terminar a licenciatura

fiz como qualquer jovem

licenciado faz hoje em

dia: ingressei num estágio

26 NOJAN20


entrevista

profissional em Santa Maria, no

Serviço de Ambiente, similar

ao atual programa Estagiar.

Depois, ingressei no quadro da

Direção Regional do Ambiente,

na Horta e após 3 anos, quando

abriu concurso para Santa

Maria, concorri e aqui fiquei,

no Serviço de Ambiente.

Sempre foi meu objetivo

regressar à minha ilha e tentar

dar o meu contributo para o

desenvolvimento da terra que

me viu nascer. Desempenhei

entre 2005 e 2008 funções

de chefia nesse Serviço, num

período muito trabalhoso, mas

extremamente desafiante ao

nível da qualidade ambiental,

conservação da natureza e

ordenamento do território.

Nesse período, fruto da política

ambiental implementada, foi

possível fazer-se crescer o

serviço, com novas valências e

áreas de atividade, com ganhos

efetivos em termos ambientais.

Enquanto deputada da

bancada socialista, ocupa

um regime de exclusividade

em relação a essa atividade?

Se não, que outras funções

desempenha para além das já

mencionadas?

Desempenho funções em

regime de exclusividade desde

o meu primeiro mandato, por

uma questão de opção.

Enquanto Presidente da

Comissão Permanente de

Economia, qual considera

ser a sua responsabilidade ao

ocupar este cargo?

A Comissão de Economia

trabalha matérias muito

importantes para o

desenvolvimento da Região,

como a agricultura e as pescas,

as acessibilidades marítimas,

aéreas e terrestres, o turismo,

a energia, as finanças, entre

outras. Encaro, por isso,

a função de Presidente da

Comissão de Economia com

grande responsabilidade e

respeito por todos os deputados

que integram a Comissão.

O objetivo das comissões

é promover o debate e o

esclarecimento das matérias

em análise e faço por gerir

os trabalhos de forma a

permitir que todos se sintam

esclarecidos. Julgo importante

realçar a importância de,

nesta Comissão, termos tido

cada vez mais iniciativas

apresentadas pela sociedade

civil, nomeadamente através

das petições públicas. Merece

também destaque o trabalho

realizado na comissão, onde

ouvimos representantes de

entidades, especialistas e o

chamado cidadão comum.

No plenário de outubro,

na discussão do Plano e

Orçamento para 2020, dizia

que “falar de sustentabilidade

é falar de futuro”. Considera

que os Açores têm dado os

passos certos no rumo à

sustentabilidade ambiental?

A sustentabilidade assenta

em 3 pilares fundamentais:

as questões sociais, as

económicas e as ambientais.

Não é possível dissociá-las;

é necessário, sim, articulálas

e geri-las, desenvolvendo

políticas que coloquem as

pessoas no centro da aplicação

de políticas - para que ninguém

fique para trás - dando aos

fatores ambientais um carácter

aglutinador onde todas as outras

atividades se desenvolvem.

E isso tem sido conseguido,

apesar de ser um trabalho

que nunca não terminará,

porque existirão sempre novos

desafios a superar. A Região foi

distinguida recentemente como

Destino Turístico Sustentável,

que é muito difícil de conquistar

atendendo aos critérios que

tem que ser respeitados para

se atingir esse objetivo; temos

merecido ao longo dos anos um

conjunto significativo de outros

galardões e distinções que, em

meu entender, permitem-nos

afirmar que estamos no rumo

certo e que é desta forma que

atingiremos os padrões de

sustentabilidade que permitirão

aos açorianos e às próximas

gerações terem uma melhor

qualidade de vida.

Durante o seu percurso e até

ao presente, qual momento

destacaria enquanto deputada

pelo PS/Açores na ALRAA?

Em termos parlamentares, o

veto do então Presidente da

República Cavaco Silva à

revisão do Estatuto Político-

Administrativo da Região

Autónoma dos Açores, que

forçou uma nova votação por

parte do Parlamento Regional, é

sem dúvida um dos momentos

mais marcantes que destaco,

pois permitiu o reforço da nossa

Autonomia face a visões mais

centralistas que ainda existem.

Inevitável, destacar, como

aspeto negativo, a perda de dois

colegas e amigos deputados,

o André Bradford e o Paulo

Parece, situação que me fez

refletir sobre a necessidade

de se viver mais o presente,

NOJAN20 27


no | www.norevista.pt

reforçando os valores da família

e da amizade.

Quais são os seus projetos no

futuro no que diz respeito ao

partido socialista?

Projetar o futuro é importante,

mas confesso que não penso

muito nisso em relação a mim!

O que me importa realmente

é que o Partido Socialista

continue a ter a capacidade de

desenvolver políticas e ações

que melhorem a qualidade

de vida dos Açorianos, que

levem os Açores sempre mais

além e que contribuam para

uma Região cada vez mais

empreendedora, dinâmica e

solidária, colocando sempre as

pessoas em primeiro lugar.

Quais considera as temáticas

mais pertinentes a serem

debatidas de momento na

nossa região?

Há temas que merecem uma

atenção constante para o Partido

Socialista dos Açores e que,

apesar dos bons resultados

que se têm alcançado, vão

continuar a ser uma prioridade,

como são os casos do emprego,

da saúde, da educação, da

mobilidade dos Açorianos,

do crescimento económico,

entre outros. Simultaneamente,

temos nos próximos tempos

novos desafios a que é precioso

responder, nomeadamente no

que diz respeito ao combate à

pobreza, ao acesso à habitação

e na proteção dos nossos

idosos e das nossas crianças.

Mas a gestão do nosso

"O QUE ME IMPORTA

REALMENTE É QUE O

PARTIDO SOCIALISTA

CONTINUE A TER

A CAPACIDADE DE

DESENVOLVER POLÍTICAS

E AÇÕES QUE MELHOREM A

QUALIDADE DE VIDA

DOS AÇORIANOS"

Mar, a melhoria dos nossos

sistemas de Transportes e a

proteção do Ambiente, são

também temáticas que estarão

certamente em destaque.

Sobre a última Comissão

Permanente de Economia da

audição do novo presidente do

Conselho de Administração

da SATA, sente que todas as

questões colocadas foram

bem resolvidas? Vê em Luís

Rodrigues um profissional

do setor capaz de conseguir

diminuir os prejuízos da

companhia açoriana?

Sobre a audição realizada na

Comissão de Economia posso

garantir que todos os partidos

políticos, mesmo aqueles que

não têm assento na comissão,

tiveram oportunidade de

colocar todas as perguntas que

entenderam ser pertinentes.

Realço a importância de todos

os deputados terem tido a

possibilidade de questionar

o futuro presidente do

Conselho de Administração

da SATA cujo currículo foi,

aliás, bastante elogiado. As

respostas que obtivemos nessa

audição revelaram que o futuro

presidente da nossa companhia

aérea está preparado, e também

bastante motivado, para

enfrentar os desafios que se

colocam quer em termos de

reestruturação quer em termos

de sustentabilidade da SATA.

28 NOJAN20


as frases

"ps e psd querem um incinerador em São miguel

a toda A FORÇA"

ANTÓNIO LIMA, BLOCO DE ESQUERDA açores

"os açores não logram alcançar o sucesso que o governo regional

e o partido socialista não artificalmente proclamado"

maria joão carreiro, psd açores

"não há cura sem dor"

luís rodrigues, presidente sata

"as propostas apresentadas no orçamento de estado para 2020 registam o

esforço de transparências para a região e a continuidade de investimentos

fundamentais, de acordo com os compromissos que assumimos com os açorianos"

isabel almeida rodrigues, ps açores

NOJAN20 29


eportagem

A relação entre o espólio

arqueológico e os públicos mais jovens

Uma viagem pelos tesouros do Mar: a aventura que dá a conhecer e

sensibiliza para a preservação do património subaquático da Região

RUI SANTOS

o

O Clube de História da Fundação

Sousa Oliveira recebeu Sandra

de Sousa Bairos, Técnica de

Serviço Educativo do Museu

Carlos Machado e licenciada em

Geografia pela Universidade de

Coimbra. A convidada apresentou

o seu trabalho educativo, criado

no âmbito da sua tese de mestrado

em Património, Museologia e

Desenvolvimento na Universidade

dos Açores, intitulada “Contributo

para a Criação de um Serviço

Educativo da Fundação Sousa

de Oliveira: O Desenvolvimento

de Laços entre o Espólio

Arqueológico e os Públicos mais

jovens”, a qual deu origem ao seu

livro Uma viagem pelos tesouros

do Mar dos Açores, que visa

sensibilizar para a conservação

do património e para a questão

ambiental, contando com o apoio

da Direção Regional da Cultura.

30 NOJAN20


eportagem

O moderador do evento

foi o arqueólogo Diogo

Teixeira Dias, que na sua

introdução falou um pouco

sobre o percurso académico

e profissional da oradora,

afirmando ter sido uma tese

“elaborada com grande

dificuldade, mas uma tese

altamente meritória”, porque

“fez uma omelete onde ainda

não haviam ovos”, uma vez

que “o espólio arqueológico da

Fundação Sousa de Oliveira,

apesar de estar disponível ao

público, só teve inventário, no

mês passado”, referindo-se ao

mês de novembro.

Sandra Bairos utilizou a

Fundação para partilhar um

serviço educativo, pois achou

que “aqueles textos tinham

histórias que as pessoas

deviam conhecer”, pelo

facto de retratarem “períodos

importantes da história”.

Explicando o processo do seu

trabalho, a oradora confirma

ter vindo para a Fundação para

tentar fazer um levantamento do

que é que existia em termos de

espólio. A primeira dificuldade

com que se deparou foi a

falta de inventariação, “estava

disperso e não estava estudado”.

Sandra criou uma estratégia de

orientação que se baseava em

sete perguntas e na resposta às

mesmas, tendo em conta o seu

Target, o público jovem.

As questões foram as seguintes:

O que é uma Fundação?

Quais são os objetivos de uma

Fundação? Porque é que se

cria uma Fundação? Quem

foi Sousa de Oliveira? O que

é um arqueólogo? O que é a

Arqueologia?, e, depois, registar

alguns dos elementos que

fazem parte do espólio, saber

porque é que Sousa de Oliveira,

“pioneiro da arqueologia nos

Açores”, escolheu Vila Franca

do Campo para fazer as suas

escavações arqueológicas.

A oradora sublinhou que,

dando resposta a estas questões,

“estava a criar um serviço

educativo”, querendo “criar

ações que comunicassem essa

informação com os públicos”,

passando, assim, “por uma

nova fase. Deixaria de ser

um relatório de um trabalho

efetuado na Fundação, e tinha

de passar a ser um trabalho de

campo, um projeto”.

Pelo facto da Fundação não

ter as condições necessárias,

“pode perfeitamente cooperar

com outro sítio e desenvolver

esse serviço educativo

NOJAN20 31


eportagem

através de parcerias” não

só com outras instituições

culturais, mas também “indo

às escolas”, usufruindo

das “aulas de Cidadania” e

ainda de disciplinas como

“História, Geografia e

Cultura dos Açores”, algo

“fundamental para promover

este conhecimento sobre a

arqueologia nos Açores, porque

é uma coisa que ouve-se falar

muito pouco, mas ela existe”,

afirmou.

Este projeto seria para

implementar através de uma

parceria com o Museu de Vila

Franca do Campo, “porque

este reunia as condições,

como Técnicos de Serviço

Educativo e espaço reservado

à arqueologia, e tinha também

alguns artefactos de Sousa de

Oliveira”, ou seja, “acho que

tinha tudo para dar certo”.

Deste modo, a interveniente

desenvolveu ações que

pudessem ser executadas

naquele território, “porque isso

das parcerias entre instituições

culturais é fundamental para o

desenvolvimento. As fundações

e as instituições culturais não

devem estar fechadas sobre si

próprias”.

Uma das ações desenvolvidas

seria “um roteiro pedestre,

que partia do Museu de Vila

Franca e ia até a um sítio onde

tinha sido desenvolvida uma

campanha (arqueológica)”.

Durante o percurso “o guia

contava a história de Vila

Franca do Campo”, ponto de

partida para as escavações.

O segundo momento “era

uma dramatização, muito

inspirada numa visita que

eu fiz a Machado de Castro

(Museu) em Coimbra, em que a

dramatização é uma das ações

de serviço educativo, através de

um percurso guiado”.

A ação pressuponha “um guia

personalizado de Sousa de

Oliveira a contar a história

do que é ser arqueólogo,

como um detetive que conta

as histórias dos objetos, e

explicando-os, conta a história

de determinados modos de vida

de um determinado povo num

determinado espaço e tempo”.

Diogo Teixeira Dias disse

que explicar no terreno “é

muito fácil quando se trata da

arqueologia convencional”,

referindo-se à arqueologia

em terra, explicitando que

“quando se trata da realidade

subaquática, então muito

mais para crianças, a coisa

complica-se, porque uma

criança não pode mergulhar”,

e , “desejavelmente”, o espólio

arqueológico deve ficar no seu

contexto, “no mar, a menos que

haja risco de roubo ou esteja

32 NOJAN20


eportagem

num local muito abrasado”.

Como exemplo, o arqueólogo

referiu um barco naufragado,

colocando a questão retórica:

“como é que se levanta um

naufrágio?”. Mencionou que

os nórdicos fazem-no com os

navios vikings, porém “estamos

a falar de outros orçamentos”.

Sandra Bairos alegou ser

importante, para o público

mais jovem, “contar a história

de todo aquele património que

existe debaixo de água”. Daí a

criação do seu livro, que leva

a “considerarem que estas

histórias são tesouros, e o que é

que fazemos com os tesouros?

Nós temos que protegê-los e

salvaguardá-los”.

A viagem começa aqui:

Então, a autora criou as

personagens que vão fazer

uma viagem a vários sítios

subaquáticos dos Açores, de

interesse arqueológico, “que são

barcos naufragados, canhões ou

cemitérios de âncoras”.

A personagem principal do

livro é o Tito, “o menino do

mar”. O avô do Tito chamavase

Doraço e era pescador, mas

não trazia peixe, daí todos se

questionarem sobre o facto:

“um pescador que não traz

peixe, mas que pescador é esse?

Ele na verdade não era bem um

pescador”.

O avô Doraço, sempre que

vinha das suas viagens ao

mar, “ia para o alpendre e

começava a contar histórias,

e as pessoas que passavam

pela rua ouviam-no a contar

histórias, os amigos do Tito não

acreditavam naquelas histórias

e sentia-se muito triste por esse

facto, porque ele acreditava nas

histórias que o avô contava”.

O avô do Tito acabou por

desaparecer no mar e o Tito

ia sempre para a ponta do cais

falar com o mar “sobre aquilo

que eu vou contar que eram

histórias”.

O Doraço é uma personagem

que representa o avô “como

nós gostamos, que contam

histórias”, que eram sempre

sobre o mar, “sobre peixes

grandes que viviam em barcos

que estavam lá no fundo do

mar e que eram tesouros, que

o fundo do mar tinha muitos

tesouros, mas que os tesouros

eram para ficar lá”. O Tito “ia

para as bibliotecas para tentar

perceber essas histórias que o

avô contava”.

“Numa das suas idas à ponta

do cais, estava a falar e ouve

um barulho, era uma tartarugaboba

(chamada Tamar) e uma

criatura metálica que era um

robô, Strike era o nome do

robô. Era um robô que pertencia

a uma expedição que estudava

fontes hidrotermais. Uma das

fontes hidrotermais era a Lucky

Strike, e por isso o nome dele

era Strike”.

A autora, ao longo da obra,

tenta sempre adicionar mais

conteúdo à sua história, por

exemplo a personagem da

tartaruga-boba consciencializa

para a problemática atual

com as tartarugas que comem

plásticos e que ficam presas

em redes de pescadores, sendo

o seu nome (Tamar) inspirado

numa associação Brasileira que

protege a espécie. O facto de

contar histórias de naufrágios

implica uma história que conta

muitas outras histórias, não só

do naufrago, mas também do

barco que era, “antes de ser um

barco que transportava pessoas,

também, se calhar participou

em guerras, contando, assim,

as histórias que fazem parte do

nosso mar”.

Então, a viagem começa pelo

Tito a descobrir estas histórias.

A tartaruga e o robô convidamno

e o Tito vai mergulhar ao

mar a fim de conhecer esses

“verdadeiros tesouros que são

objetos que contam histórias.

Como se esse mar fosse um

museu, e os barcos naufragados

fossem os objetos, e as histórias

a comunicação. Os livros

são meios de comunicação

fundamentais”, sublinhou.

A oradora, durante a sua

intervenção, mostrou alguns

exemplos dos náufragos

visitados pelo Tito, e das

histórias que a personagem

ia descobrindo sobre estes

mesmos náufragos, ao longo da

sua aventura.

O Dori naufragou em 1964,

a cinco minutos do porto de

Ponta Delgada, e a menos de

20 metros de profundidade.

“Foi um cargueiro que

transportava muito aço, mas

também teve outras histórias

muito importantes, por exemplo

participou na invasão da

Normandia”.

“Existem mais do que

1000 naufrágios que estão

identificados (nos Açores), mas

apenas 30 são visitados. Uma

forma de fazermos as crianças

visitarem e reconhecerem

estes espaços, naturalmente, é

através do texto. O objetivo é

sensibilizar para este património

cultural”, afirmou a oradora.

O Canárias era um barco a

vapor espanhol que naufragou

ao largo da ilha de Santa Maria,

em 1871, e está localizado

junto à Praia Formosa. Devido

ao facto de estar “a três metros

de profundidade” é possível

ser visitado. Teve uma história

“muito interessante, não só

NOJAN20 33


eportagem

Guia do Património Cultural Subaquático dos Açores

transportou escravos, mas

também participou na guerra

dos 10 anos da independência

de Cuba, ou seja, são várias

histórias. Foi uma embarcação

muito importante na Segunda

Guerra Mundial”, sublinhou.

O cemitério de âncoras, na

Baía de Angra, formou-se,

“porque ali passavam muitas

embarcações, estava num

ponto de paragem obrigatório”.

Naquela zona, o vento, que

sopra de Sul e Sueste, ficou

conhecido localmente por

"vento carpinteiro", “porque

trazia as madeiras dos barcos

para a costa, um fenómeno

histórico daquela baía”.

O Mazzini era um cargueiro a

vapor italiano, de 128 metros,

que naufragou ao largo da ilha

Graciosa, em 1925, “e muitas

pessoas foram buscar os objetos

que hoje em dia têm em casa”.

O moderador, Diogo Teixeira

Dias, referiu, quanto a isso, que

“muitas vezes as pessoas não

fazem por mal, mas têm que

ver a realidade, porque estão

a pegar em património que é

de todos”, situação para a qual

Sandra Bairos apela no seu

livro: “a personagem do avô

Doraço já dizia que aqueles

objetos são para ficar ali, e

esta é uma forma de lutar pela

preservação e pela salvaguarda

do património”.

O Her Majesty Ship Pallas

naufragou em 1783, na Calheta,

ilha de São Jorge. “Era um

batedor, era aquele que ia à

frente nos comboios de guerra,

e fez parte da Guerra dos 7 anos

e da Guerra da Independência

Americana”.

O Caroline era um veleiro

Francês que naufragou junto

à ilha do Pico, em 1901, foi

“muito importante porque

transportava uma substância

que era o nitrato do chile, que

servia para fertilizante dos solos

europeus, mas também como

um componente de explosivos”.

O Slavónia naufragou, em

1909, no Lajedo na ilha

das Flores. Transportava

emigrantes, vinha de Nova

Iorque para Liverpool, “e os

passageiros enviaram bilhetes

ao comandante com interesse

em observar as ilhas dos

Açores, durante essa alteração

de rota embateu na ilha das

Flores e naufragou”. Antes de

se chamar Slavónia chamavase

Yamuna e pertencia ao

transporte de correspondências

do Post Office, únicas

embarcações autorizadas a

transportar correspondência

britânica na época vitoriana.

A autora decidiu optar pelas

34 NOJAN20


eportagem

crianças como público alvo,

porque, na sua opinião, “devese

sensibilizar, cada vez

mais cedo, porque, quando

crescerem, esses valores já

estão intrinsecamente inseridos,

para que no futuro a sociedade

tenha sensibilidade para estas

questões”.

O moderador arqueólogo,

Diogo Teixeira Dias,

salientou que “em termos de

boas práticas do património

subaquático os Açores estão

classificados nos cinco

primeiros pela UNESCO, a

nível mundial”.

O mesmo disse que “o chamado

achado recolhido, são achados

móveis, que se podem levantar

com alguma facilidade”, e, em

alguns casos, temos que revelálos

do mar, porque correm o

risco de serem levados para

casa por alguém que seja malintencionado”.

Em suma, o arqueólogo

clarificou, resumidamente,

o processo pelo qual passa

o achado. Afirmou que a

legislação regional nesse aspeto

“é muito boa e foi pioneira”,

sendo que “estabelece

valores mais altos para os

achados subaquáticos do

que propriamente aquilo que

acontece no continente”.

Relativamente à questão

do pagamento ao achador,

a legislação regional

“desburocratiza imenso. É claro

que são processos demorosos,

mas em termos de pagamentos

é desburocratizado. O achador

tem direito a uma parte do

valor comercial da peça”, e é

“salvaguardado” nesse sentido,

já que “caso não concorde

com esse valor, pode recorrer

e a Direção Regional nomeia

um perito, o achador nomeia

outro”, e, assim, “o valor é

desempatado”. Posteriormente,

“a peça é entregue e depois o

Governo Regional é que decide,

mediante o contexto, quem

tem condições para a receber”,

pois, devido à fragilidade de

alguns achados, é provável que

se danifiquem por não estarem

reunidas as condições para o

seu tratamento, como é o caso

do exemplo que Diogo Teixeira

testemunhou: “as peças que

saem do mundo subaquático

não podem entrar no mundo

seco repentinamente, porque

eu assisti desfazer-se um santo

que era antiquíssimo de certeza,

porque não houve o cuidado

com isso”.


crónica

JOÃO F. CASTRO

PROFESSOR MESTRADO EM GESTÃO PORTUÁRIA

Nova

energia,

no Mar

dos Açores

de Gases com Efeito de Estufa

(GEE) que, após a sua emissão,

permanecem na atmosfera

terrestre, por longos anos,

provocando alterações da sua

composição, o que, adicionado

à variabilidade natural, poderá

gerar uma situação de irreversibilidade,

na mudança do clima,

atribuída à atividade humana.

A CQNUAC tem sido desenvolvida

pelas diferentes Conferência

das Partes (COP), que

a concretizam em objetivos,

destacando-se: o Protocolo de

Quioto, em 1997, que definiu

metas quantitativas, para as

emissões de cada País; e o

Acordo de Paris, em 2015, ao

estabelecer que, o aquecimento

global, deveria ser contido

abaixo de 2 ºC, preferencialmente

em 1,5 ºC.

A União Europeia (UE), avalia

o(s) progresso(s)das principais

fontes de emissões, comunicados

pelos Países, tendo acordado

reduzir as emissões de GEE

(tendo por base o ano de 1990),

estabelecendo objetivos, de

redução em 20% até 2020, de

40% até 2030 e de 80% a 95%

até 2050.

No entanto o transporte marítimo

internacional não ficou

abrangido pelo acordo de Paris.

Não foram estabelecidas metas

intercalares para 2020 e 2030

para as emissões e remoções

do transporte marítimo internacional.

Se nada for feito,

estudos estimam que estas

emissões poderão aumentar

significativamente, prevendo-se

Este texto será lido no ano

2020. O Secretário Geral, da

Organização das Nações Unidas

(ONU), António Guterres, na sua

mensagem de ano novo, destacou

novamente a problemática das

Alterações Climáticas, que comprometem

o futuro do Planeta.

A ONU, hoje com 193 estados-membros,

foi criada após

a 2ª Guerra Mundial, para

desenvolver a cooperação internacional.

Em 1992, no Rio de

Janeiro, realizou a Conferência

das Nações Unidas para o Meio

Ambiente e o Desenvolvimento,

da qual resultou a Convenção

Quadro das Nações Unidas para

as alterações Climáticas (CQNU-

AC). Subscrita pela maioria

dos países do mundo, teve por

base os alertas da comunidade

científica para a necessidade de

estabilização da concentração

36 NOJAN20


crónica

que, possam mesmo ultrapassar

as emissões realizadas em

terra, sobretudo quando 90%

das trocas comerciais (75% na

Europa), são realizadas por via

marítima. Neste momento a

Organização Marítima Internacional

(IMO) tem o objectivo

de reduzir 50% das emissões

até 2050, comparando com

o ano de 2008. A Convenção

Internacional para a Prevenção

da Poluição por Navios (MAR-

POL – “Marine Pollution”), no

seu anexo VI, define regras para

as emissões gases para a atmosfera.

Delimita áreas de emissões

controladas (ECA – Emission

Controled Area), e regras, a que

os combustíveis utilizados pelos

navios, têm de obedecer, como

os teores de enxofre e de sulfuretos

utilizados. Em 2012 introduziu

novos limites (3,5%),

para a percentagem de enxofre

nos combustíveis, prevendo-se

para 1 de Janeiro de 2020 a

aplicação do limite de 0,5%.

Em Portugal estudos apontam

para que, as emissões resultantes

do transporte marítimo,

tenham impacto na qualidade

do ar, chegando às zonas costeira,

com contribuições de 10%

a 20% para as concentrações

de óxidos de nitrogénio (NOx),

acima de 20% para o dióxido de

enxofre (SO2) e inferior a 10%

no caso das partículas.

De entre as medidas apontadas,

para enfrentar o problema,

destaca-se o recurso a combustíveis

alternativos, visando

reduzir a utilização de combustíveis

tradicionais. O LNG

(Liquified Natural Gas) parece

apresentar a relação custo/

benefícios mais ajustada, com

baixos níveis de emissões e

isenção de contaminantes, proporcionando

energia de qualidade,

a um custo competitivo,

nomeadamente quando comparado

com os combustíveis

provenientes de hidrocarbonetos,

normalmente utilizados nos

navios. Mesmo sabendo que

em 2050, a utilização de LNG

de forma isolada, não permitirá

cumprir as metas de descarbonização.

Contudo permitirá

assegurar a manutenção das

rotas comerciais bem como a

operacionalidade existente.

Os Açores, com uma Zona

Económica Exclusiva (ZEE)

e fundos adjacentes, com uma

área na ordem dos 2 mil Km2,

poderão assumir um papel

de relevo neste processo, na

gestão de uma “nova” fonte de

energia, nomeadamente para a

navegação no Atlântico Norte.

Um desafio! Uma oportunidade!

para o Mar dos Açores!

Feliz Ano Novo!

NOJAN20 37


ENTREVISTA

mural fénix

lídia meneses (Presidente Lions Clube Lagoa)

"

Não devo ditar qualquer papel da mulher ou desenhar

-lhe um perfil. Preocupa-me, porém, que a ausência da mulher

na esfera pública e política coloque em risco todo o percurso

realizado pela igualdade, até agora.

" Claúdia

carvalho


ENTREVISTA

l

Lídia Meneses é a atual

presidente do Lions Clube

Lagoa. É também responsável

pelo Departamento de

Imagem e Comunicação,

no Grupo Marques e

caracteriza-se como uma

“artista de formas e linhas”.

Realizou recentemente, num

conjunto de esforços com

três associações – Associação

Umar Açores, Lions Clube

Lagoa e Alternativa –,

um mural situado em

Santa Clara, cujas formas

representam a figura da

fénix. A presidente do Lions

Lagoa diz ser “apenas um

meio” para que se transmita

o todo, a mensagem. “O meu

papel é o de transmissora ou

artista de uma ideia coletiva”,

confessa. Assim, Fénix

insurge a ideia de “relembrar

o instinto maternal/ paternal,

que tanto homens como

mulheres, podem reconhecer

no seu íntimo”.

É a primeira vez que as três

associações (Associação Umar

Açores, Lions Clube Lagoa

e Alternativa- Associação

Contra as Dependências)

unem esforços em prol de

uma causa importante?

É a primeira vez que as 3

entidades se associam em prol

de uma causa comum. No

seguimento do tema da direção

lionística 2019/20, a Igualdade,

os Lions Clube da Lagoa,

associaram-se à UMAR-Açores

nas manifestações dos 16 dias

de Ativismo Contra a Violência

Sobre a Mulher, de raiz

internacional, coordenado pelo

Center of Women´s Leadership.

Onde é que podemos visitar o

Mural Fénix? Quando e onde

foi planeado?

O mural Fénix Renascida

encontra-se na EN1-1A,

freguesia de Santa Clara, a

caminho do Arco 8. A ideia de

utilizar o símbolo da Fénix,

como mote de uma campanha

feminista, nasceu aquando de

uma homenagem realizada a

Clarisse Canha, responsável

pela implementação da UMAR,

na R.A.A, numa mostra

de cinema de Igualdade de

Género, o IMPRÓPRIA, o qual

trouxe a debate a luta contra

os preconceitos e estereótipos

sociais. Foi, portanto, uma

inspiração resultante do

momento.

Como surgiu a ideia sobre

este mural? Surgiu em

conjunto com as outras

associações ou foi uma

iniciativa pensada, em

primeiro lugar, pelo Lions

Clube Lagoa (LCL)?

A ideia do mural surgiu num

flash de memória. Na verdade,

as imagens surgem, assim,

como resultado das vivências

e trabalho com a comunidade.

A Fénix é de todos. Surgiu,

por mero acaso, porque o meu

papel é o de transmissora ou

artista de uma ideia coletiva.

Sou apenas um meio. Quando

falho nessa empatia, é para

mim uma frustração. Este foi,

portanto, um trabalho coletivo.

Porquê a figura da fénix a

representar a Campanha

Internacional e Nacional: 16

Dias de Ativismo Contra a

Violência Sobre a Mulher?

O que é que essa figura

representa em termos de

construção do papel feminino

na sociedade?

Não devo ditar qualquer papel

da mulher ou desenhar-lhe um

perfil. Preocupa-me, porém, que

a ausência da mulher, na esfera

pública e política, coloque em

risco, todo o percurso realizado

pela igualdade, até agora. E

isto, sim, esta indisponibilidade

parece-me estar relacionado

com o exagero de papéis que a

mulher acarreta, em Portugal.

As fases do feminismo

trouxeram ganhos, mas ainda

estamos longe de atingirmos

um desempenho igual, devido

a mentalidades e obstáculos.

Quando uma mulher considera

irrelevante deslocar-se a uma

mesa de voto para exercer a

sua responsabilidade enquanto

cidadã, um direito conseguido

com o sangue de muitas

companheiras, isso preocupame.

A opinião das mulheres

é crucial, neste momento

de grandes avanços. Como

disse Barack Obama: “Se as

mulheres governassem todos

os países, o mundo seria

melhor, pois haveria uma

melhoria geral, no padrão de

vida e nos resultados (...)”.

Estamos a conseguir obter

alguns resultados positivos,

até para o sexo oposto, como

a extensão da licença de

paternidade, a existência de

creches acessíveis. Falta, ainda,

a existência de uma sociedade

na qual as mulheres possam

ser mais livres, sem medo de

NOJAN20 39


serem violadas, intimidadas

sexualmente, infantilizadas

e desacreditadas. Uma

sociedade em que possam

sonhar e tornar-se naquilo que

sonharam.

No fundo, a figura da Fénix

vem relembrar o instinto

maternal/ paternal, que tanto

homens como mulheres,

podem reconhecer no seu

íntimo. Reconhecer que há

ciclos de avanço e retrocesso

e que a mulher, a mãe, a

filha, a irmã, as suas avós e

ancestrais sempre tiveram a

capacidade de se regenerarem.

Mitologicamente é uma ave

poderosa e protetora, com

a capacidade de destruir

e construir. Ela relembra

que podemos voar sobre os

obstáculos, rumo a uma esfera

superior.

Sendo presidente do Lions

Clube Lagoa, acha que esta

iniciativa vai de encontro

com os princípios do clube

de igualdade e justiça social?

De que forma é que o LCL

influenciou a dinâmica desta

iniciativa?

Foi apenas em 2017 que a

primeira mulher presidente

da Associação Internacional

dos Lions Club foi eleita,

Gudrun Björt Yngvadóttir

é atuante em diversas

organizações profissionais e

comunitárias, é responsável

por ter implementado o New

Voices, um programa que

promove a paridade de género

e a diversidade, bem como

visa aumentar o número de

mulheres, jovens adultos e

população mal representada,

dentro do Clube Lions. Em

2019, ainda como assessora

social da direção 2018/19,

"

É um desejo

global, atual

e premente, o

da igualdade

de género,

nomeadamente

o direito à

saúde, ao

salário igual

e às mesmas

condições e

oportunidades.

fui convidada para realizar o

1ºFórum Novas Vozes: pela

Igualdade de Género, na

cidade da Lagoa contanto para

isso, com o apoio da Câmara

Municipal da Lagoa e diversos

oradores de renome, entre os

quais, a atriz Mariana Monteiro

e a representante europeia do

programa, Carla Cifola, num

resultado bem sucedido, de

impacto público e objetivos

válidos, os quais foram sendo

implementados, ao longo

deste ano. Assim sendo, esta

iniciativa da Imprópria e da

UMAR Açores estão alinhadas

com os valores dos Lions

Clube Lagoa, para 2019/20,

nada a admirar, visto que este

é um desejo global, atual

e premente, o da igualdade

de género, nomeadamente

o direito à saúde, ao salário

40 NOJAN20


igual e às mesmas condições e

oportunidades.

Sabemos que os estudantes

da Escola Secundária

Antero de Quental (ESAQ)

também participaram neste

projeto. Como é que sentiu a

envolvência dos alunos num

projeto como este?

A professora Alexandra

Baptista, na qualidade de

mulher artista e professora de

Desenho, na ESAQ, foi uma

das várias pessoas convidadas

a tomar parte do evento. Os

seus alunos tiveram, assim, a

oportunidade de visualizarem

técnicas de pintura e de desenho,

nomeadamente, as dificuldades

inerentes ao desenho e

pintura, numa escala maior

e de confraternizarem com

profissionais da área do design e

do grafitti.

Sente que a sensibilização

sobre este tipo de temas ganha

maior preponderância quando

é realizada desta forma, com

o envolvimento dos mais

jovens?

O envolvimento de todos é

essencial na realização dos

objetivos a que nos propomos,

uma sociedade mais justa e

igualitária, é uma luta que não

tem idade, cor, sexo ou estatuto

social.

Tem sido ativista neste tipo

causas? Se sim, será que

nos pode indicar qual o

seu contributo sobre estes

assuntos?

Tenho sido ativista na medida

que luto por ter opiniões

formadas, um percurso laboral

independente e pela realização

pessoal dos meus sonhos e

ambições. Vejo-me, porém,

muitas vezes em situações nas

quais desejaria ser advogada

na defesa da causa feminina,

pois observo ditos, escritos e

manifestos incongruentes com

a atual evolução da mulher e

com aquela que sempre foi a

sua natureza, a de criadora, de

seres ou de obras, de ideias ou

de objetos. As mulheres são

líderes, por direito natural. Vejo

que é tempo de ocuparmos o

nosso espaço e terminarmos de

vez com observações sexistas

e redutoras do nosso perfil, o

qual, na verdade, não existe,

nem deve ser desenhado. Sou

contra estereótipos. Nessa

medida o meu ativismo está

na escolha da minha atividade

profissional enquanto designer,

professora, artista plástica, mãe

e voluntária. É nesta ânsia de

fazer e de ser que encontro as

maiores barreiras.

Se pudesse deixar algumas

palavras aos nossos leitores

sobre a violência contra a

mulher, ou até mesmo ao

tema de forma genérica, o que

diria?

Como artista de formas e

linhas, deixo as palavras

aos contempladores: "Sou

igual à Fénix... Às vezes

renasço das cinzas sem que

ninguém espere... E volto ao

campo para a nova batalha.

Renascer faz parte de mim,

vou insistir na busca, gosto

do improvável, sou movida

a desafios, acredito no poder

da transformação, não me

contento com o óbvio." –

Marlene Araújo.

NOJAN20 41


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crónica

A NTÓNIO VENTURA

DEPUTADO PELO PSD AÇORES

NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

regiões

ultraperiféricas

Considero que existe uma

lacuna no âmbito do trabalho

parlamentar das Comissões

da Assembleia da República e

que se prende com a ausência

de uma atenção política

permanente sobre as Regiões

Ultraperiféricas.

Neste sentido, e reconhecendo

que é preciso corrigir esta

situação, seria útil que a

Comissão dos Assuntos

Europeus promovesse uma

audição ao Comité das Regiões.

Importa referir que o Comité

das Regiões é um órgão

consultivo da União Europeia

(UE), representado por

autoridades locais e regionais

dos 28 Estados-Membros que

compõem a União Europeia.

É um facto que as cidades e

as regiões enfrentam vários

desafios que se mantém

atuais e cuja especificidade

dos seus territórios exige

ajustamentos e respostas locais,

tais como os impactos dos

acordos comerciais bilaterais

e multilaterais da União

Europeia, a crise migratória,

o despovoamento e o

envelhecimento populacional, a

coesão territorial, as sucessivas

crises na agricultura e nas

pescas, as alterações climáticas,

as energias renováveis, entre

outros.

Mas, se assim é, também

é um facto que a mesma

especificidade das regiões,

detém um considerável

potencial de desenvolvimento,

embora esteja, muitas vezes,

em estado latente.

Interessa, pois, aproveitar

estas potencialidades. Por

exemplo, estou convicto que as

Regiões Ultraperiféricas podem

contribuir para um futuro

melhor da EU, desde que sejam

consideradas no que concerne

à sua posição geográfica

mundial, à sua dimensão

marítima, ao seu domínio

científico e tecnológico, como

zonas de fronteira, entre

outros aspetos que têm sido

permanentemente, e nalguns

casos propositadamente,

esquecidos na decisão política

da UE.

São apontados muitos

benefícios das Regiões

Ultraperiféricas, desde logo,

podem ser um laboratório

privilegiado para a investigação

e a experimentação em

áreas como, a astrofísica, o

aeroespacial, a vulcanologia, a

sismologia e a oceanografia.

Num mundo cada vez

mais globalizado a posição

geoestratégica das Regiões

Ultraperiféricas torna-se

numa mais-valia e num trunfo

geopolítico para a União

Europeia, materializando-se

numa política onde a UE pode

fortalecer a sua ação externa.

Porém, cabe, acima de tudo,

à União Europeia valorizar

todos os seus territórios, pelo

aproveitamento das suas

vantagens em favor das suas

populações.

A audição do Comité das

Regiões irá permitir que

tenhamos um privilegiado

parceiro de conhecimento e de

reivindicação para o trabalho

do Parlamento Português.

Neste âmbito da reivindicação,

assume utilidade democrática o

Parlamento Nacional pressionar

as Instituições Europeias para

se usar de forma adequada

e eficiente o artigo 349.º do

Tratado de Funcionamento

da União Europeia (TFUE),

garantindo que as Regiões

Ultraperiféricas disponham

de um tratamento efetivo de

diferenciação ao nível das

políticas de coesão social e

económica.

Estou convicto que daqui

em diante teremos um novo

desafio em termos de trabalho

parlamentar em prol dos

Açores. Um trabalho que

acresce ao que se está a fazer

pela denominação de Região

Ultraperiférica.

NOJAN20 43


REPORTAGEM

Delta Airlines – Açores:

Um divórcio sem madrasta má

“Não pediu para vir, como também, praticamente não pediu para sair”

RUI SANTOS / DIOGO GOSTA

a

A redação da NO Revista

acompanhou a Comissão

Permanente de Economia,

realizada na delegação da

Assembleia Legislativa da

Região Autónoma dos Açores,

em Ponta Delgada, no dia 16

de dezembro, onde o Bloco

de Esquerda (BE), o CDS-PP,

o Partido Socialista (PS) e o

Partido Social Democrata (PSD)

questionaram e auscultaram

Carlos Morais, Presidente

da Associação de Turismo

dos Açores (ATA), e Marta

Guerreiro, Secretária Regional

da Energia, Ambiente e Turismo

(SREAT), de forma a obterem

44 NOJAN20


REPORTAGEM

esclarecimentos sobre o fim da

operação da Delta Airlines entre

Nova Iorque e Ponta Delgada.

Já na edição digital de novembro

da NO Revista, após a decisão

de abandonar a rota por parte

da companhia aérea norteamericana,

foi elaborado um

artigo que levantava questões,

algumas delas esclarecidas

nesta Comissão relativamente

ao futuro da Região sem esta

operação.

A primeira ronda de audições

desta Comissão começou com

Carlos Morais, Presidente da

ATA, que, perante todos os

representantes dos partidos

presentes, providenciou

esclarecimentos relativos à

posição da Associação de

Turismo dos Açores, durante

todo o processo, desde a vinda da

Delta Airlines para os Açores até

ao abandono da rota.

Carlos Morais fez questão de

começar a sua intervenção a

frisar o facto de, quando esta

direção da ATA tomou posse, a

20 de maio de 2019, a operação

da Delta já estava em curso, no

seu segundo ano de operação.

O interveniente sublinhou ainda

que, da parte da ATA, tendo

em conta aquilo que estava

contratualizado para o ano de

2019, “tudo foi feito para que

esta operação tivesse sucesso e

tivesse a sua continuidade”.

“Em 2018, quando veio para os

Açores, neste caso para Ponta

Delgada, não pediu para vir,

como também, praticamente,

não pediu para sair”, afirmou

Carlos Morais relativamente

à companhia aérea norteamericana,

que, segundo o

mesmo, “é a segunda maior

companhia aérea do mundo”.

Prosseguindo no seu

esclarecimento às perguntas

colocadas por Carlos Silva,

deputado do PS/Açores, o

Presidente da ATA acrescenta

que já em 2015 houve um

interesse da Delta Airlines em

conhecer melhor o mercado

Açores, através da Vinci,

do Governo Regional e da

Associação de Turismo dos

Açores:

Já nesse sentido, tudo foi feito

na altura para que levasse,

em 2018, para além de slots,

passasse a uma questão mais

concreta, e passasse a voar para

PDL, numa primeira fase com

5 voos, numa segunda fase, no

Dando uso ao seu direito de

réplica, Carlos Silva afirmou

que, em relação às dormidas,

pelas informações que

tentou apurar, e após fazer

alguns cálculos, as dormidas

provenientes da operação

da Delta rondavam os 3%

e não os 10% mencionados

anteriormente, algo que “de

qualquer forma é um número

relevante”. Porém, sem centrarse

nesta questão, o deputado

socialista procurou saber se

Carlos Morais achou justas

as críticas de Mário Fortuna,

Presidente da Câmara de

segundo ano, com 7 voos, por

uma questão operacional, pura e

simplesmente operacional, e que

tinha uma expressão que nós

consideramos que andará à volta

dos 10% de dormidas.

Quando questionado sobre

possíveis falhas na promoção do

destino Açores, Carlos Morais

afirmou que “tudo foi feito”,

realçando que, desde que tomou

posse, os contratos feitos para

2019 com a Delta Vacations,

entidade promotora dos destinos

para onde a Delta Airlines voa,

“foram cumpridos”.

Comércio e Indústria de Ponta

Delgada, após o abondando da

rota por parte da companhia

norte-americana, que, na altura,

afirmou que a “promoção

do destino Açores falhou”,

acusando Governo Regional

e ATA de “não terem sabido

aproveitar uma oportunidade

única para a Região”, falando

numa quebra de 4% nas

dormidas e num prejuízo

anual de 20 milhões de euros,

acusações que o Presidente da

ATA considera injustas.

De seguida, foi a vez de António

Vasco Viveiros, deputado do

NOJAN20 45


REPORTAGEM

PSD/Açores, colocar questões

mais direcionadas para saber

que compromissos foram feitos

em termos de promoção, se

foram cumpridos nos timings

certos, e que montantes

envolviam.

De seguida, na tentativa de

melhor elucidar António

Vasco Viveiros, deputado do

PSD/Açores, Carlos Morais,

relativamente à natureza dos

compromissos feitos com a

Delta Vacations, afirmou que

se tratavam de uma série de

campanhas de marketing que

em 2018 foram totalmente

pagos numa verba a rondar

os 156 mil dólares. No ano

seguinte, foi feito também um

contrato de marketing orçado

em 220 mil dólares, do qual

parte da verba foi assumida

pelo Turismo de Portugal (TP),

e a restante pela Associação

de Turismo dos Açores,

frisando que “em nenhum

momento a Delta disse que,

quer TP, quer ATA estavam

em incumprimento com a

companhia”.

Outra questão colocada pelo

deputado social-democrata

prendia-se com uma eventual

falta de condições do aeroporto

de Ponta Delgada que poderiam

explicar, de certa forma, a

decisão da Delta, algo que o

Presidente da ATA realçou que

“nunca foi referenciado”.

Foi sim referenciada uma outra

questão que o senhor deputado

levantou, relacionada com o

tipo de cliente que frequentava

aquelas rotas. Um avião tem

vários tipos de tarifa e uma

tarifa que eles não conseguiam

vender era a Classe Executiva,

portanto, o padrão de turista

que estava a frequentar aquela

rota era um padrão de turista de

classe média.

Nesse sentido, Carlos Morais

afirmou que “há um caminho

muito grande que a Região

tem que fazer para aumentar

a sua notoriedade”, visando o

mercado “luxury” como algo

a consolidar no arquipélago,

de modo a aumentar a sua

notoriedade e atratividade.

Relativamente aos contactos

feitos com a Delta, o Presidente

da ATA sublinhou que houve

uma fase em que estes eram

da responsabilidade do

Turismo de Portugal, devido

à situação de instabilidade

que se vivia na Associação

de Turismo dos Açores, e

que, mais tarde, passaram

para a sua responsabilidade,

mas confessou que ambas as

entidades tiveram dificuldades

em contactar com a empresa

norte-americana, afirmando que

“as respostas quando tardaram,

tardaram sempre da parte da

Delta”.

Chegou a vez de serem

levantadas questões pelo Bloco

de Esquerda Açores, através do

seu representante, o deputado

Paulo Mendes, que procurou

saber que dados e perspetivas

levaram a ATA a convencer

a companhia aérea norteamericana

a voar para a Região,

se alguma vez foi colocada

a possibilidade de criação

de rotas para outras ilhas e

se foi alguma vez solicitada

pela Delta ou oferecida pelas

entidades regionais, algum tipo

de contrapartida, para além das

mencionadas na audição.

No que diz respeito àquilo que

“convenceu” a Delta a voar

para os Açores, Carlos Morais

fala em “motivações notórias”,

dando ênfase à crescente

notoriedade do nosso mercado

e ao mercado de proximidade

com os Estados Unidos da

América.

De seguida, o Presidente da

ATA afirma que, em 2019,

ainda com a anterior direção

do organismo, foram feitos

contactos com a Delta no

sentido de aumentar o número

de frequências e foi abordada

também a hipótese de fazer uma

rota com mais um voo para a

ilha Terceira, algo que não foi

contemplado pela companhia

aérea, que procedeu sim ao

aumento das frequências em

Ponta Delgada.

Abordando as possíveis

contrapartidas existentes, à

data do pagamento dos 200 mil

dólares pela ATA e pelo TP,

foi também oferecido, caso a

Delta assim o entendesse, um

reforço da verba através de um

concurso público internacional,

no sentido de dar continuidade

à rota.

Seguiu-se o deputado Alonso

Miguel, do CDS-PP, que

questionou diretamente Carlos

Morais, relativamente à razão

para este “cancelamento

súbito”, a que o Presidente da

ATA respondeu de imediato que

se tratava de uma questão de

rentabilidade: “Entre o ‘dever’

e o ‘haver’, a empresa tem que

rentabilizar o ativo que tem, que

neste caso é o avião”, voltando

de novo à questão das tarifas de

Classe Executiva e da aposta no

mercado “luxury” que tem que

ser feita na Região.

Carlos Morais deu ainda o

seguinte exemplo para clarificar

o seu ponto de vista: “Posso ter

uma taxa de ocupação de 80%,

como era o caso, a preço de

1€ cada passageiro que está a

bordo e posso ter uma taxa de

80% a 1000€ cada bilhete e aí é

que está a diferença”.

Na segunda ronda de questões,

o Presidente da ATA foi de

46 NOJAN20


REPORTAGEM

novo questionado por alguns

dos deputados. Primeiramente,

Carlos Silva, da bancada

socialista, mencionou a recémestabelecida

ligação da TAP

entre Ponta Delgada e Boston

e perguntou a Carlos Morais se

esta ligação seria importante

para colmatar a saída da Delta,

algo que o Presidente da ATA

não desenvolveu muito, por não

ser o tema da Comissão, mas

na opinião do mesmo, “é um

mercado importante”, tratandose

de “uma operação anual que

faz toda a diferença”.

Já o deputado Paulo Mendes,

do BE/Açores, voltou a

questionar Carlos Morais sobre

que “dados e perspetivas foram

dadas à Delta Vacations”, que

levaram na altura a companhia

norte-americana a investir

no mercado Açores e, nesse

sentido, “o que foi feito em

setembro deste ano para que a

Delta mudasse de ideias”.

Em relação a esta questão, o

Presidente da ATA afirmou que

“não há rato escondido com o

rabo de fora”. Carlos Morais

frisou o facto de os “aeroportos

serem um negócio”, ou seja,

“também têm interesse nesse

sentido”, e afirmou:

Não houve nenhuma

contrapartida. Os meios de

financiamento são os meios

normais que existem na Região.

O programa VIP, que é do

Turismo de Portugal, onde

existe um diploma que apoia

a captação de novas rotas,

há um próprio programa da

Vinci, em relação à captação de

novas rotas para determinados

aeroporto, e tem depois a verba

que a Região entenda, conforme

prioridade, em fazer promoção

num determinado destino

turístico.

De seguida, Luís Rendeiro,

deputado do PSD/Açores,

questionou o Presidente da

Associação de Turismo dos

Açores no sentido de perceber

se existiu algum tipo de ligação

entre a vinda da Delta Air Lines

para a Região e o acordo da

Base das Lajes com os Estados

Unidos da América. Depois,

mencionou também o incidente

que aconteceu no aeroporto

de Ponta Delgada, em agosto

deste ano, quando um Boeing

757 da Delta Air Lines efetuou

um hard landing, deixando a

aeronave inoperacional durante

quase dois meses e quis saber

se esse incidente teria “pesado”

na decisão da companhia aérea

norte-americana.

Relativamente ao incidente

em agosto, Carlos Morais

assegurou que, na reunião

realizada em setembro, essa

questão não foi mencionada

como sendo uma causa da

NOJAN20 47


REPORTAGEM

decisão da Delta. No que diz

respeito à possível ligação com

o acordo da Base das Lajes,

o inquirido afirmou que “não

teve conhecimento, que em

momento algum, a Delta tenha

voado para Ponta Delgada ao

abrigo do acordo da Base das

Lajes”.

Por fim, foram colocadas outras

questões, ainda por parte da

bancada social-democrata,

nomeadamente pelo deputado

António Vasco Viveiros, com

o intuito de entender se a

instabilidade que se viveu na

ATA, antes da tomada de posse

da atual direção, poderá ter

afetado o relacionamento com

a Delta. De seguida, o deputado

voltou a abordar as dificuldades

no contacto entre Turismo de

Portugal e ATA com a Delta Air

Lines, achando “estranho” que a

Região não tivesse um nível de

abordagem e contactos diferente

daqueles que tinham. António

Vasco Viveiros procurou ainda

saber por que razão a empresa

norte-americana aumentou

a sua frequência semanal de

cinco para sete voos, como já

foi referido, mesmo sem ter

conseguido alcançar os números

pretendidos relativamente à sua

tarifa mais elevada.

Abordando a instabilidade

na anterior direção da ATA,

Carlos Morais afirmou não ter

conhecimento nesse sentido.

Relativamente aos contactos

com a companhia aérea, ou

falta deles, o Presidente da ATA

referiu o seguinte:

Se o senhor deputado fosse meu

cliente e de repente eu queria

marcar uma reunião consigo, e

o senhor não respondesse aos

emails, eu ficaria preocupado, e

no fundo foi isso que aconteceu.

Se nós estamos a tentar fazer

um contacto com a Delta e

não há feedback do lado de

lá, as campainhas vermelhas

tocam no sentido de tentarmos

perceber o porquê deste

silêncio. Infelizmente o silêncio

veio-se a traduzir numa decisão

irreversível por parte da Delta.

Relativamente ao aumento

do número de voos semanais,

Carlos Morais afirmou que

esta era uma questão de

operacionalidade, relacionada

com o número de horas da

tripulação, número de horas dos

comandantes, “com uma série

de questões que eles entendem

que na operação fazia mais

sentido ser sete voos em vez de

cinco”.

Após os esclarecimentos

prestados pelo Presidente da

ATA, foi a vez da Secretária

Regional da Energia, Ambiente

e Turismo prestar declarações

sobre a situação, apresentando

alguns dados importantes na

contextualização do acontecido.

Marta Guerreiro começou por

dizer que foram desembarcados

pela Delta nos Açores 16152

passageiros durante o verão

de 2019. De acordo com

um inquérito da ANA aos

passageiros desembarcados

por esta companhia, 20%

dos mesmos eram residentes

em Portugal ou visitavam

familiares, restando 80% que

representam 12900 hóspedes

de nacionalidade, “à partida”,

americana. Tendo em conta a

estadia média de 3 noites, do

mercado norte americano na

ilha de São Miguel, durante o

verão, estamos a falar de cerca

de 39550 dormidas, ou seja,

20,8% das dormidas totais

do mercado norte americano.

Deste modo é possível verificar

que grande percentagem do

mercado norte americano é

promovido também pela Azores

Airlines ou pela TAP, por

via de Portugal Continental.

Assim, a SREAT admite que a

ausência da Delta “não deixa de

ser um impacto significativo”,

no entanto, “estamos a falar

de 20% do total do mercado

norte americano, os 80% têm

origem noutras companhias” e

perspetiva-se fechar 2019 “de

acordo com a tendência que

verificamos ao longo destes

meses, com 190600 dormidas

do mercado norte americano em

São Miguel”.

Colocando a situação numa

“escala mais geral” e “se

tivermos a intenção que se

estima fechar o ano (2019)

em São Miguel com cerca

de 2 milhões de dormidas,

estamos a falar de um impacto

(da ausência da Delta), nessas

dormidas, de 1,9%”, constatou

a Secretária Regional.

Relembrando que a operação da

Delta era uma operação sazonal,

do final de maio ao início de

setembro, Marta Guerreiro

referiu que essa operação “não

justifica os bons crescimentos

que tivemos no mercado norte

americano no final do ano”.

Também de janeiro a maio,

período em que a Região

não tinha a Delta, e face ao

mesmo período de 2018,

“conseguimos ter crescimentos

bastante significativos, em

concreto 57%”. Relativamente à

notoriedade que os Açores têm

vindo a adquirir no mercado

norte americano, a SREAT disse

que “esta também é uma boa

resposta à critica, infundada, de

eventual falta de promoção”.

“Como a própria companhia

(Delta) indicou, de forma

muito clara, não se tratou de

um problema de ausência

de promoção”, acrescentou,

mencionando que as ações

48 NOJAN20


REPORTAGEM

“COMO A PRÓPRIA

COMPANHIA (DELTA)

INDICOU, DE FORMA

MUITO CLARA,

NÃO SE TRATOU

DE UM PROBLEMA

DE AUSÊNCIA DE

PROMOÇÃO”

de marketing foram feitas,

nomeadamente planos de

marketing entre a ATA e a

Delta Vacations; promoções

e iniciativas com outros

operadores de marketing

locais; contactos com canais

televisivos através da produção

de filmes; marketing digital

para potenciar segmentos

que se identificam com o

posicionamento do destino

Açores de turismo certificado

ela natureza e, também,

no âmbito de certificação

do destino como turísticosustentável.

Segundo Marta Guerreiro, as

ações e iniciativas que foram

desenvolvidas durante 2019

nos Estados Unidos da América

(EUA), não só permitiram

crescimentos na operação da

Delta, “como aconteceu de

2018 para 2019”, mas também

nas outras companhias que

servem de porta para que

os turistas cheguem até aos

Açores, demonstrando assim

que a promoção não tivesse

sido em vão.

De acordo com a interveniente,

a Delta deu nota de que estava

a contar com uma distribuição

de classes, dentro do avião,

que permitisse uma taxa tarifa

média superior, alegando que

tiveram muito mais tarifas

económicas do que executivas,

“o que nos parece normal no

destino turístico”. A Delta

também deu nota de uma

alteração de estratégia, da qual

os Açores não foram a única

rota descontinuada, o mesmo

aconteceu com a Islândia e

Málaga, “num desinvestimento

em rotas turísticas, em

contrapartida de rotas para

grandes cidades, o que está

relacionado com o cenário de

alguma recessão económica que

se pode antever”.

A SREAT salientou que a lógica

de negócio anglo-saxónica da

companhia aérea dos EUA é

bastante diferente da lógica

das empresas europeias, pois

são “pouco premiáveis nas

suas decisões aos incentivos

e campanhas de marketing”,

analisam a rentabilidade das

rotas “de uma forma muito

fria”. Marta Guerreiro avançou

que, apesar do acontecido, a

Delta “ficou com a nota de

poder retomar o destino em

futuros planeamentos da sua

atividade”, pois acompanha

“o desenvolvimento que se

continua a verificar na Região,

em especial no crescimento do

mercado norte americano, quer

nos Estados Unidos quer no

Canadá”, sublinhando, como já

NOJAN20 49


REPORTAGEM

o tinha dito Carlos Morais, ter

sido “uma decisão puramente

comercial que não é premiável

nem influenciável, infelizmente,

pela nossa vontade”, assegurou.

Questionada sobre os contactos

que estabeleceu com a

companhia, a SREAT lembrou

que a Delta decidiu vir para a

Região em 2018, num anúncio

que foi publicado e que resultou

da sua própria iniciativa,

esclarecendo que, para tal

acontecer:

Houve muito trabalho,

como existe com várias

companhias, nas várias feiras

da especialidade, em várias

reuniões paralelas, onde se tenta

dar nota do desempenho que

o destino está a ter e mostrar

que mesmo depois de várias

reuniões e de encontros, a Delta

decidiu iniciar os voos para

os Açores, da mesma forma

como também decidiu, pelas

suas razões comerciais, sem

pedir, quer no início quer no

fim, qualquer apoio em termos

de campanhas de marketing,

descontinuar esta rota.

Marta Guerreiro relembrou que

mesmo sem a rota da Delta,

os Açores já se promovem

nos EUA há muitos anos, e o

pretendido foi intensificar essa

presença através de “contactos

quer com a administração da

própria Delta, quer com a Delta

Vacations, onde foi delegada

a produção que se pretendia

desenvolvida, desde 2018 e

inclusivamente em 2019”.

Em 2019, a ATA teve uma

alteração na presidência com

Carlos Morais a assumir o

cargo, “mas a mesma não

teve influência nenhuma na

promoção que foi feita, que

continuou a ser feita, quer

de forma direta com a Delta,

quer com a ATA”. A SREAT

disse que os contactos foram

“vários e contínuos, como

acontece com qualquer outro

mercado”, salientando que da

parte do Governo Regional

dos Açores, “naturalmente que

esta rota mereceu uma atenção

especial”, devido ao facto de

se tratar de uma companhia

"que tem associado a si um

elevado grau de notoriedade”.

Marta Guerreiro mencionou

que ela própria falou com

administradores da empresa

e com responsáveis pela

gestão de rotas e pelas áreas

comerciais, no entanto, (para a

Delta) “as rotas têm na sua ótica

de valer por si”.

A SREAT frisou que tem

indicação das taxas de ocupação

dos voos, mas não da parte da

rentabilidade, porque “essa

Delta não partilhou connosco

apesar dos vários contactos

que fomos mantendo durante o

início do verão”.

Quanto à dificuldade,

mencionada pelo Presidente

da ATA, em contactar a

Delta, a Secretária Regional

disse desconhecer tal facto,

afirmando que, da sua parte,

“nós mantivemos sempre esse

contacto”.

Sobre a questão da rentabilidade

da operação versus ocupação

e do facto de em 2018 para

2019 ter havido um aumento da

frequência semanal nos voos da

companhia norte americana de

cinco para sete, “a justificação

que a Delta deu para isso teve

haver com razões puramente

operacionais. Com este aumento

de frequência, de acordo com

o que nos disseram na altura,

torna-se mais fácil a gestão

para eles”. Mesmo assim, com

este aumento de 2 frequências

semanais, “conseguimos manter

uma taxa de ocupação acima

dos 80%”, vincou.

A interveniente referiu que a

Delta não ficou a esperar para

saber se tinha apoio ou não

antes de anunciar a rota. A

mesma salientou que o Governo

dos Açores trabalha em parceria

com a ATA: “fazemos muitas

iniciativas em conjunto, muitos

contactos em conjunto, nas

feiras, em reuniões, e o primeiro

contacto, depois da Delta ter

anunciado a sua vinda para a

Região, começou por ser nosso,

desde logo”. Foi anunciado

“nós vamos voar e vamos voar

cinco vezes por semana e não

pediram nada, nós é que fomos

lá e perguntamos como é que

podíamos apoiar para que os

voos pudessem ter o sucesso

que todos queríamos que

tivesse”.

Os contactos foram quase todos

por vídeo conferência de Skype,

também com trocas de e-mails,

trocas de informações assíduas.

Menos disponíveis da parte da

Delta para reuniões presenciais,

sim é verdade, tem também a

ver com a lógica deles.

Marta Guerreiro garantiu a

continuação de investimento

“de forma mais acentuada”

no mercado norte americano

“pois o turismo nos Açores

assim o justifica”, dando como

sinal disso o início de operação

por parte da TAP, a partir do

final da próxima primavera,

de ligações dos Açores para

os EUA e dos EUA para os

Açores, nomeadamente de

Ponta Delgada para Boston e

vice-versa. Uma ligação que

“vem aproveitar esse espaço

vazio que a Delta deixa”.

Para além desta nova rota

da TAP, a SREAT anunciou,

50 NOJAN20


REPORTAGEM

mencionando ainda ser cedo

para dizer nomes que “várias

outras companhias nos têm

contactado com interesse em

voar para a Região”, pois “estão

atentas à evolução daquilo

que tem sido os números dos

Açores”.

À margem da Comissão

Permanente de Economia,

a NO Revista questionou a

Secretária Regional da Energia,

Ambiente e Turismo sobre se

a TAP teve alguma cooperação

com o Governo Regional ou

vai iniciar a ligação com os

EUA por iniciativa própria.

Marta Guerreiro respondeu

que: A TAP deu nota dessa

intenção, de iniciativa própria,

e que nós vemos como um

interesse de uma companhia

um mercado para os Açores que

tem uma notoriedade bastante

interessante.

Em relação à ligação da TAP

colmatar a ausência da DELTA,

a SREAT disse que:

Estamos a comparar coisas

que não são propriamente

comparáveis. A TAP iniciou

uma rota anual, enquanto que

a Delta estava a voar apenas

de final de maio a início de

setembro, e, portanto, em

termos de disponibilização

de lugares, teremos mais

lugares do que tínhamos este

ano, e acreditamos que com

a continuidade da promoção

neste mercado conseguiremos

aumentar o número de turistas

norte americanos nos Açores.

O acompanhamento integral

desta Comissão e os

esclarecimentos prestados pelos

intervenientes permitiram à

nossa redação concluir que

este “divórcio” entre a Delta

Air Lines e os Açores, por

muita “mágoa” que deixe, por

aquilo que a companhia aérea

representaria para a Região,

deveu-se sobretudo a questões

comerciais. Não houve uma

“madrasta má” no meio deste

processo. Pode ter havido

falhas, ao nível da comunicação

entre as partes, ao nível da

segmentação e targeting, mas

não existiu, que se saiba,

nenhum sinal de incompetência

ou incumprimento, de nenhuma

das partes, que levasse a este

desfecho. Existe sim, por

parte das entidades regionais,

a convicção que a promoção

dos Açores no mercado norteamericano

tem potencial para

crescer e a certeza de que irá

existir outro “casamento” com

outras companhias.

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REPORTAGEM

GALERIA FONSECA MACEDO

“No Feminino” – nove artistas femininas numa exposição coletiva

Claúdia carvalho

n

“No Feminino” – nove artistas

femininas numa exposição

coletiva

“No Feminino” é a exposição

que reúne nove trabalhos, nove

nomes, nove artistas femininas.

É, de facto, a exposição coletiva

que inaugura e dá a conhecer

as novas instalações da Galeria

Fonseca Macedo. A NO Revista

esteve presente, no dia 14 de

dezembro, na inauguração

desse espaço, que também ficou

marcado pela performance de

Maria João Gouveia, com o

costume design de Sara França

– “opções muito bem pensadas”

que dão oportunidade à figura

feminina de mostrar o seu pé

de igualdade perante o sexo

oposto.

A diretora da galeria, a Doutora

Fátima Mota, explicou à NO

Revista que este projeto reúne

“um grupo bastante interessante

de jovens artistas” com ligações

aos Açores, a São Miguel – seja

por terem nascido nessa ilha,

por terem família nos Açores

ou mesmo por terem uma boa

relação de amizade com a

galeria.

NOJAN20 53


REPORTAGEM

"

este é um tema que ocupa muitas pessoas e também me ocupa a mim como diretora de uma

galeria – esta noção de que, durante muitos anos, talvez demasiados anos, as mulheres e as artistas

mulheres não tiveram a mesma projeção e as mesmas oportunidades que os homens tiveram. Hoje em

dia, as coisas estão a modificar-se, de tal maneira que se consegue fazer, numa pequena ilha dos

Açores, uma exposição só com trabalhos de artistas femininas - fátima mota

Considera que ainda se

verifica, especialmente no

mundo das Artes, que às vezes

ela mandou um bocadinho

de certa forma injusto e

fechado, que as mulheres já

conseguiram estabelecer o seu

espaço ou que o Mundo das

Artes ainda é muito ligado à

figura masculina?

Eu penso que hoje em dia, pelo

menos nos países Ocidentais,

que o lugar está a ser bastante

bem conquistado pelas

mulheres e há mulheres que

são espetaculares em termos da

sua produção e isto está a ser

revertido, não tenho dúvidas

nenhumas disso. No Mundo

Ocidental, acho que as coisas

estão a encaminhar-se para que

a mulher tenha o seu espaço tal

qual como o homem tem o seu

espaço. Isso aí não é problema,

só que o Mundo Ocidental é,

de alguma maneira, também

um lugar que pode espalhar

também a sua influência junto

de outras civilizações, nas quais

a mulher ainda não tem essa

capacidade de ocupar um lugar

ao mesmo nível do homem e

nós temos a obrigação de falar

sobre esses assuntos porque,

dessa forma, ao falarmos, ao

provocarmos a discussão,

estamos também ajudar a estas

mesmas sociedades.

Qual é que tem sido, até

agora, o feedback das pessoas

que têm vindo visitar aqui

esta exposição?

Eu acho que as pessoas têm

gostado imenso do espaço,

primeiro porque é um

espaço bastante amplo, tem

um pé direito de bastante

generoso e permite, de facto,

fazer exposições com obras

grandes, inclusivamente uma

exposição coletiva que implica

a convivência de vários tipos

de expressões, que às vezes

podem ser conflituosos. No

caso presente, não é o caso,

mas isso, de facto, acontece.

Porque temos espaço suficiente

entre as peças, porque temos

recuo suficiente para podermos

ter uma boa perspetiva para

cada peça, acho que o facto

de ter sido a escolha de

uma exposição de grupo foi

adequado ao espaço que nós

temos.

Como é que foi a

organização? Falava que são

nove artistas. Como é que foi?

Primeiro, como é que surgiu,

no fundo, como é que surgiu a

ideia, de onde é que se partiu

e disse que nove pessoas iam

reunir aqui as suas peças?

Como eu sou a Diretora da

Galeria, cabe-me a mim fazer

as decisões nesse âmbito,

54 NOJAN20


REPORTAGEM

portanto fui eu que decidi que

esta seria uma exposição só

com mulheres porque eu, de

facto, represento na minha

galeria, muitas mulheres e fazia

todo o sentido que assim fosse.

Para além da exposição, houve

também uma performance,

realizada pela Maria João

Gouveia, bailarina do balé

clássico, que se apresentou

com o costume design de

outra designer de moda, a

Sara França. Também estas

duas opções foram muito bem

pensadas, primeiro porque

havia espaço para que uma

performer pudesse estar aqui à

vontade na sala e juntamente

com os visitantes e, por outro

lado, de ser uma performer

feminina porque se enquadra

exatamente na mesma discussão

de dar oportunidade às

mulheres, neste caso bailarinas,

designers e coreógrafas para

desenvolverem um projeto.

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NOJAN20 45


crónica

POR RICARDO SILVA

“Tóquio” -

Diário, 1946,

de Franco

Nogueira

É um livro que me chamou a

atenção pelo título e pelo autor e

neste sentido surpreendeu a vários

níveis. Assumido em forma de

Diário o valor deste livro reside

no testemunho direto da dura

e difícil realidade nipónica nos

meses subsequentes à rendição

na Segunda Guerra Mundial.

Como é do conhecimento geral, a

utilização da bomba atómica em

1945, no Japão, marcou o início da

Era Nuclear e estruturou e ainda

estrutura o relacionamento entre

nações. Arma de paz para uns, pelo

efeito dissuasor, cumprindo o adágio

romano “Sivis pace para bellum” –

“Se queres a paz prepara a guerra”;

é arma de guerra para outros pelo

efeito destruidor que pode ter num

país (e na Terra) relativamente ao

seu delicado ecossistema. O que é

certo é que os Homens e o Planeta

a partir da experiência nuclear

aplicada ao Japão demarcaram uma

56 NOJAN20


crónica

linha de perigo em que o Nuclear

faz pensar duas vezes antes da

sua utilização. E foi isso que

Franco Nogueira teve o condão,

enquanto jovem de apenas 25

anos, vivenciar. Se ao lermos este

Diário sentimos a agonia de um

povo, não a resignação, ficanos

a ideia de que foi a palavra

Dedicação como valor e ideal

supremo de um país, neste caso do

Japão, que levou ao lançamento

das bombas pelos americanos.

Terminada a guerra na Europa,

com a derrota dos nazis, os

combates continuaram no Pacífico

com o denodo e o fanatismo típico

das forças armadas imperiais

japonesas, caraterizado no verso

do hino da Academia Naval

Japonesa “morrerei apenas

pelo meu imperador”. Assim,

Washington decidiu acelerar o

fim das hostilidades tendo em

conta os custos de uma conquista

no terreno face à ferocidade dos

soldados nipónicos. A 6 de agosto

de 1945 o bombardeiro Enola Gay

largou a “Little Boy” por cima de

Hiroshima, fazendo imediatamente

66 mil mortos e várias dezenas

de milhar nos dias seguintes. A 9

de agosto, uma segunda bomba,

“Fat Man”, caiu sobre Nagasaki

e matou 40 mil pessoas. Ou seja,

em apenas três dias desapareceram

mais de 100 mil pessoas e outras

tantas dezenas de milhar nas

sequelas dos meses seguintes. O

imperador Hiroito visitou as ruínas

da cidade e proclamou a rendição

do Japão a 14 de agosto.

Ora, é o retrato deste cenário de

destruição, inclusive de Tóquio,

que Franco Nogueira, relata.

Um país exangue, prostrado, um

destroço, ocupado pelas potências

aliadas, designadamente pelos

Americanos que também tiveram

o sentido diplomático de se

apresentarem como libertadores

e não como vencedores,

colaboradores numa reconstrução

de um país e não meramente como

ocupantes sem fins claros. Esta

posição e situação faz-nos recordar

a recente invasão ao Iraque com

resultados completamente opostos

aqueles que se conseguiram no

Japão.

Numa escrita realista de

grande pormenor não é difícil

imaginarmos o que terá sido

aquela tragédia histórica do povo

japonês que, por outro lado,

aproveitou o momento difícil para

fazer uma viragem fundamental na

sua trajetória política e económica

na região e no mundo.

De uma febre de poder, militarista,

expansionista que começou

décadas antes da segunda guerra

mundial, sempre marcada por

ofensivas militares brutais, o

Japão, assente numa cultura de

2 mil anos, encetou um caminho

de paz, modernização da sua

economia de tipo ocidental,

baseada no valor já aqui falado

da Dedicação. O povo japonês

fez do trabalho e da empresa

novos focos de abordagem ao

mundo e os resultados chegamnos,

impressionantes, até hoje.

Foram proféticas as palavras do

imperador Hiroito na sua rendição:

“Desejo que todos concordem

comigo”, como ensejo para se

baixar armas e carregar com

grande luta, é certo, a energia para

uma nova vida do país conhecido

também como Sol Nascente. Um

novo futuro estava a caminho.

O diário do futuro Ministro

dos Negócios Estrangeiros de

Salazar mostra já um homem

de grande formação intelectual,

muito curioso, critico e atento

à realidade que o rodeava. É

curioso que no percurso do livro

já se sente a Reconstrução, firme

e decidida após o colapso. Não

posso deixar de referir a recente

escolha do Papa Francisco para

denunciar “o fruto da guerra”. A

fotografia tirada por Joseph Roger

O’Donnell, fotógrafo da marinha

norte-americana, a uma criança

que transporta consigo, às costas, o

seu irmão morto, e aguarda,

descalço, pela sua vez de entregar

o corpo do mesmo num dos

crematórios de Nagasaki é de um

simbolismo fortíssimo. A imagem

é impressionante pelo seu poder

de comoção e alerta para os males

da guerra. O Papa fê-la distribuir

em postal como motivo de reflexão

nesta época natalícia e, inclusive,

citou-a na sua mensagem “Urbi

et Orbi” – à cidade (de Roma) e

ao mundo – como apelo à Paz e

Respeito pelas crianças. Em tudo

o que se possa ler desta poderosa

fotografia, não posso deixar de

referir o que disse o fotógrafo

acerca da mesma para caracterizar

o caráter coletivo do povo japonês.

A criança manteve-se durante mais

de 10 minutos imóvel, hirta, nunca

chorando, embora emocionada

pelo morder dos lábios que

sangravam! Entregou o seu

irmão, que parecia a dormir pela

serenidade aparente, virou costas e

sempre sem chorar, avançou para

um futuro que queria novo.

Esta imagem foi a caminhada

que Franco Nogueira intuiu na

sua estadia em Tóquio, que teve

o cuidado de registar em Diário,

e que desembocaria num milagre

económico que a Oriente, e no

século XX, seria o primeiro, a

predestinar outros que surgirão

neste século XXI.

A leitura vale a pena!

NOJAN20 47


REPORTAGEM

Víctor Alves – a abordagem

“pragmática” da Guerra Civil Portuguesa

lançamento do livro "GUERRA CIVIL PORTUGUESA (1828-1834)

Claúdia carvalho

v

Víctor Alves, jornalista da

RTP/Açores, nascido na ilha

Terceira, lançou no passado

mês de dezembro Guerra

Civil Portuguesa (1828-1834),

um livro que aborda, de uma

forma diferente, a Guerra Civil

Portuguesa, que decorreu nesse

período em Portugal. O evento

decorreu no dia 14 de dezembro

na livraria Letras Lavadas e a

NO Revista teve oportunidade

de entrevistar o autor terceirense

para perceber não só os motivos

que o levaram a publicar uma

obra deste teor, bem como sobre

aquilo que ela (re)trata.

Apesar de confessar que

58 NOJAN20


REPORTAGEM

já existiam outras obras,

notícias e estudos que

retratassem e falassem sobre

ela, o jornalista terceirense

considerou que seria urgente

trazer ao público uma nova

abordagem sobre a batalha,

sobre os acontecimentos, numa

linguagem simplista, clara e

sintética.

Por ser um tema que sempre

“impressionou” o autor, Victor

Alves decidiu que, depois

de ter recolhido informação

proveniente das grandes

capitais europeias sobre a

guerra, tornava-se necessário

reuni-la, compilando-a no livro

que agora publica. Apesar de

saber e estar consciente que

“a batalha está documentada”

"

Uma linguagem

mais “terra a

terra”, mais

acessível,

mais popular,

mais perto das

pessoas, mais

jornalística

– no fundo,

aquilo que nós

fazemos todos

os dias e que se

transformou,

de facto, numa

fonte histórica

impressionante.

pelos históricos e académicos

que assim o fizeram, Victor

Alves confessa, na sua

pesquisa, ter-se deparado com

uma visão diferente daquela

que os historiadores tinham.

Na sua pesquisa, Victor Alves

confessou que, ao aprofundar

os seus conhecimentos sobre o

tema, descobriu que existiam

cerca de 4000 refugiados

liberais na ilha Terceira que

pertenciam à elite intelectual

portuguesa daquele tempo.

Falamos em Almeida Garrett

e Alexandre Herculano, por

exemplo.

Estes intelectuais faziam,

assim, passar informação sobre

o ambiente na Terceira e nos

Açores. Sendo correspondentes

NOJAN20 59


REPORTAGEM

anónimos, entregavam-na aos

capitães das embarcações do

comércio da laranja e eram,

precisamente, essas pessoas que

levavam a informação às principais

capitais europeias – Londres,

Paris, Alemanha. É assim que

é construída essa visão “terra a

terra”, mais pragmática, mais

próxima das pessoas, mais curta

e mais concisa – confessa o autor,

tendo sido por aí que enveredou

quando decidiu escrever e publicar

Guerra Civil Portuguesa (1828-

1834).

Quando questionado se a sua

profissão tinha influenciado

a sua forma de contar este

acontecimento de forma diferente,

o autor respondeu que sim e ainda

acrescentou que “o jornalismo é

uma fonte de História”, embora

muitas pessoas achem que o jornal

sirva “para embrulhar sabão”, não

atribuindo a real importância ao

jornalismo e à sua capacidade de

distribuir e difundir informação.

Para Victor Alves, “o jornalismo

que se faz todos os dias é um

registo, é uma ata daquilo que se

passa nas comunidades”.

“Bem ou mal, os jornais relatam

todos os dias aquilo que foi o

acontecimento das comunidades”.

Nas capitais europeias, era isso

que acontecia. Várias gazetas

informavam e contavam aquilo

que se passou naqueles anos em

Portugal. Em Lisboa, o cenário era

diferente, controlado pelo poder. O

jornal era “a voz do dono”, era o

jornal do rei D. Miguel. A Gazeta

de Lisboa retratava, na verdade,

os eventos da realeza, onde o rei

“deixou claro que a imprensa era

para calar, e calou”. Victor Alves

60 NOJAN20


REPORTAGEM

adianta que esta gazeta produzia

decretos reais e passeios do

rei e da sua família por Lisboa

e arredores. A perspetiva

da imprensa internacional,

contrariamente àquilo que se

verificava em Lisboa, era uma

imprensa “séria, honesta, de

debate desapaixonado sobre o

evento”, sobre aquilo que se

estava a passar em Portugal e na

Terceira, concretamente.

Para o autor, era essa visão que

o interessava e que, “já tendo

a visão do outro lado”, poderse-ia

fazer uma comparação e

ter uma história real, baseada

não só num lado, numa versão

da história, mas completando-a

com diferentes fontes, diferentes

imprensas, diferentes capitais

"

Eu não uso

notas de rodapé,

as referências

de não sei

quantas páginas

à frente. Eu uso

uma linguagem

que nós usamos

no jornalismo.

Isso ajuda

as pessoas a

fazerem uma

leitura correta

sobre as coisas

e a perceberem

à primeira.

europeias que relatavam e

retratavam esse evento.

Segundo Victor Alves, a

receção das pessoas a esta

forma diferente e pragmática

de contar a história tem sido

muito boa. Para ele, o que tem

surpreendido as pessoas tem

sido, de facto, a linguagem

pragmática característica do

jornalismo.

Apesar de poder ser um livro

“maior com 300 ou 400

páginas”, o autor achou por

bem contar a história de forma

breve, introduzir o assunto de

forma sintetizada, deixando

“no ar a vontade de as pessoas

fazerem alguma pesquisa e

aprofundarem mais um pouco

sobre o tema”, confessa.

NOJAN20 61


top notícias 2019

janeiro

Exploração de aquacultura micaelense é “bom

exemplo de aplicação dos apoios europeus”

(1374 visualizações)

O eurodeputado socialista Ricardo Serrão Santos

elogiou a exploração de aquacultura da Aquazor,

em Ponta Delgada, por esta ser “um bom exemplo

de aplicação dos apoios europeus”, promovendo

“a ligação entre a área científica, por via da

investigação, desenvolvimento e inovação, e o

capital e conhecimento de mercado”.

fevereiro

André Bradford “nunca deixará Bruxelas

esquecer que os Açores são Europa” (3052

visualizações)

André Bradford, candidato socialista às eleições

europeias do próximo dia 26 de maio, assumiu

que a “prioridade das prioridades” é “defender os

interesses estruturais dos Açores em Bruxelas”.

Falando à saída da Convenção Somos Europa,

que reuniu cerca de mil socialistas de todas as

regiões do país, André Bradford defendeu ser

“fundamental manter e reforçar as políticas de

coesão, agrícola e de pescas a nível europeu” para

“reduzir as assimetrias e combater as desigualdades

entre territórios, ao mesmo tempo se valorizam as

nossas maiores vocações produtivas”.

março

Sofia Ribeiro congratula aprovação de diretiva

que protege agricultores (1263 visualizações)

“É um grande dia para a agricultura europeia”,

afirmou Sofia Ribeiro, “porque finalmente os

agricultores têm uma diretiva que os protege de

práticas comerciais desleais, o que permitirá

uma maior estabilidade e segurança dos seus

rendimentos”.

A eurodeputada social-democrata falava após o

debate sobre a diretiva que irá garantir justiça ao

longo da cadeia de abastecimento agroalimentar,

esta passada segunda-feira, na sessão plenária em

Estrasburgo.

62 NOJAN20


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abril

Parlamento Europeu aumenta verbas para

pescas e economia do mar nos Açores e Madeira

(2033 visualizações)

O Parlamento Europeu (PE) aprovou a sua posição

sobre o Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e

das Pescas (FEAMP) para 2021-2027, aumentando

a dotação para 7.739 mil milhões de euros a preços

correntes, contra os 6.140 mil milhões propostos

pela Comissão Europeia.

Os eurodeputados também incluíram disposições

para que seja tida em conta a situação específica

das Regiões Ultraperiféricas (RUP), para apoiar

a pesca de pequena escala e contribuir para uma

gestão sustentável.

maio

Novo single da jovem cantautora açoriana Sara

Cruz chega a número um em Portugal (6052

visualizações)

“Out With Grace”, o novo single da jovem cantora

e compositora açoriana, Sara Cruz, foi lançado no

passado dia 24 de maio e já está no primeiro lugar

do Top 100 Singer Songwriters (cantautores) em

Portugal, uma listagem iTunes.

junho

“A mudança necessária para com os Açores

ficou, na sua essência, por concretizar” diz

António Lima (2342 visualizações)

Os trabalhos parlamentares de junho, na

Assembleia Legislativa Regional, arrancaram,

esta manhã, com um de três debates de urgência

agendados para esta sessão plenária, neste caso

sobre o “incumprimento dos compromissos

do Governo da República para com a Região

Autónoma dos Açores”, apresentado pelo BE/

Açores.

julho

HORTA WIFI já está em funcionamento (1564

visualizações)

O Município da Horta dotou vários pontos de

interesse turístico da cidade da Horta, com

pontos de acesso à internet sem fios, com a rede

denominada de HORTA WIFI, projeto ao qual José

Leonardo Silva, presidente da Câmara Municipal

da Horta, refere-se como “um abrir da cidade ao

mundo”.

NOJAN20 63


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agosto

Banda UHF nas Festas de Santa Bárbara (1023

visualizações)

A banda musical UHF é a cabeça de cartaz das

Festas de Santa Bárbara, que decorrem entre 24 e

31 de agosto em honra de Santo António.

As festas desta freguesia do concelho de Angra

do Heroísmo são palco do concerto dos UHF, que

apresenta temas emblemáticos como “Menina

Estás à Janela”; “Cavalo de Corrida” ou “Rua do

Carmo”, no dia 29 de agosto, pelas 22H30.

setembro

“Incumprimento” no radar meteorológico na

Serra de Santa Bárbara (2369 visualizações)

O candidato do PSD/Açores às eleições

legislativas nacionais, António Ventura, acusou

hoje os governos dos Açores e da República “de

não cumprirem a promessa da instalação de um

radar meteorológico na Ilha Terceira”, sendo que

“durante quatro anos nada se fez a esse respeito”.

outubro

Ribeira Grande Kickboxing Challenge (3652

visualizações)

No sábado, dia 2 de novembro, a partir das 20h00,

o Pavilhão Multiusos da Associação Agrícola

de São Miguel vai ser palco do Ribeira Grande

Kickboxing Challenge, promovido pelo Arrifes

Kickboxing Clube (AKC). Este evento irá contar

com 10 combates, entre os quais irá ser disputado

o título de Campeão Nacional de Profissionais

em Low Kick, categoria de -62,5 kg, bem como

o título nacional de Full Contact defendido pelo

atleta AKC Renato Costa.

novembro

A crise sísmica do Faial explicada pelo Centro

de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos

Açores (40892 visualizações)

A crise sísmica ao largo da ilha do Faial prolongase

por alguns dias, passando já os “1000 eventos

registados”. Para obter mais informação sobre o

fenómeno, a NO Revista contactou Rui Marques,

presidente do Centro de Informação e Vigilância

Sismovulcânica dos Açores (CIVISA).

64 NOJAN20


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dezembro

Aeroporto João Paulo II atingiu

recorde de dois milhões de

passageiros em 2019 (9448

visualizações)

O voo do Porto, com chegada a

Ponta Delgada, pelas 14:40 de hoje,

assinalou o recorde de dois milhões

de passageiros desembarcados no

Aeroporto João Paulo II num único

ano, o qual ainda está por terminar.

A NO Revista esteve presente no

evento, onde obteve declarações

do passageiro dois milhões, Inês

Capela, e do Diretor dos Aeroportos

dos Açores (DAA), José Luís Alves.

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facebook.com/iroaazores

A IMPORTÂNCIA DO REGIME DE

INCENTIVOS À COMPRA DE TERRAS

AGRÍCOLAS (RICTA) NO DESENVOLVIMENTO

DO SETOR AGRÍCOLA

Dr. Ricardo Silva

Presidente do Conselho de

Administração da IROA, S.A.

O Regime de Incentivos à

Compra de Terras Agrícolas,

abreviadamente designado

por RICTA, aprovado pelo

Decreto Legislativo Regional

n.º 23/2008/A, de 24 de julho,

e regulamentado pelo DRR n.º

1/2009/A, de 23 de fevereiro,

constitui um importante

instrumento de política agrícola

da Região Autónoma dos

Açores (RAA).

De facto, em cumprimento dos

comandos constitucionais, que

estabelecem como objetivos da

política agrícola a promoção

do acesso à propriedade

da terra e a sua exploração

direta, e das competências

legislativas próprias da Região,

em termos de emparcelamento

rural e de estrutura

fundiária das explorações

agrícolas, estabelecidas no

respetivo Estatuto Político

Administrativo, a medida

RICTA, criada nos Açores e

inovadora em termos nacionais,

tem como finalidade principal a

aquisição de terrenos por parte

dos respetivos arrendatários

rurais, bem como dos

terrenos destinados a ações de

emparcelamento, norteando-se,

essencialmente, por objetivos

de redimensionamento das

explorações agrícolas.

Com a consciência de que a

propriedade da terra é, senão

o principal, pelo menos um

dos mais importantes fatores

de estabilidade económica

e social das explorações

agrícolas, o Governo Regional

dos Açores tem erigido como

opção política fundamental no

âmbito agrícola a aquisição de

terra por parte dos agricultores,

potenciando a obtenção

de melhores desempenhos

da atividade agrícola. Na

verdade, se a aquisição do

direito de propriedade da terra

por parte de quem a explora,

contribui decisivamente para

a modernização e melhoria

das condições de exploração,

designadamente quanto à

segurança do aproveitamento

das benfeitorias introduzidas,

é também verdade que a

esta matéria é essencial

uma orientação guiada por

objetivos de reestruturação

fundiária dirigidos para o

emparcelamento agrícola e

para o rejuvenescimento dos

empresários agrícolas.

O facto de este regime ser

único a nível nacional e

exclusivamente suportado

por verbas regionais, é bem

revelador da preocupação

do Governo Regional no

sentido de contribuir para uma

maior competitividade das

explorações, pugnando pelo

aumento da sua dimensão

e redução da dispersão das

parcelas.

O RICTA (regime de incentivo

à compra de terras agrícolas)

representa um instrumento

essencial de reestruturação

fundiária, possibilitando o

acesso ao crédito, em condições

mais favoráveis, por parte dos

agricultores a título principal

que pretendam adquirir terrenos

na qualidade de arrendatários,

comproprietários e proprietários

de prédios encravados ou

confinantes.

De facto, nos casos em que

o empréstimo não exceda

€ 100.000, a taxa de juro é

52 NOJAN20


no | www.norevista.pt

suportada exclusivamente pela

RAA, através da IROA, S.A. e,

na parte em que o empréstimo

for superior àquele valor (até €

250.000 para pessoas singulares

e € 500.000 para as pessoas

coletivas), os beneficiários

suportam apenas uma taxa

de juro de 2%, cabendo o

pagamento do remanescente à

IROA, S.A..

Para além da bonificação da

taxa de juro dos empréstimos

contraídos para o efeito, é

atribuída aos beneficiários,

nas ações de emparcelamento,

uma comparticipação a fundo

perdido, até um máximo de

15% sobre o valor da avaliação

corretiva, nos seguintes termos:

a) Emparcelamento com área

superior a 5 ha – 5%;

b) Jovem agricultor – 5%;

c) Aquisição de terrenos nas

ilhas de Santa Maria, Graciosa,

São Jorge, Flores ou Corvo –

5%.

Para a operacionalização do

programa RICTA encontram-se

outorgados protocolos com as

instituições de crédito que se

mostraram interessadas, onde se

definiram as condições gerais

de recurso ao crédito no âmbito

deste regime de incentivos,

com fundamento em razões de

economia, de transparência e de

uniformização de critérios nas

relações a estabelecer entre a

IROA, S.A. e as instituições de

crédito.

Considerando que o setor

agrícola continua a ser o

principal pilar da economia

açoriana, numa perspetiva

de estabilidade e equilíbrio

social de parte significativa

da população do arquipélago,

entendemos que há que

continuar a apostar numa

melhor eficácia económica

do setor e na sua contribuição

para o desenvolvimento da

Região, objetivos para os quais

em muito tem contribuído o

RICTA.

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NOAGO19

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