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Viscondes, mazombos e coimbrãos - Quintal dos Poetas

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<strong>Viscondes</strong>,<br />

<strong>mazombos</strong> e<br />

<strong>coimbrãos</strong><br />

José Roberto de Amorim<br />

<strong>Quintal</strong> <strong>dos</strong> <strong>Poetas</strong><br />

2011


José Roberto de Amorim<br />

<strong>Viscondes</strong>, <strong>mazombos</strong> e <strong>coimbrãos</strong><br />

(Coletânea desordenada de crônicas e ensaios<br />

sobre a Inconfidência Mineira)<br />

Trilogia<br />

“Fábula de Ribeirão do Carmo”<br />

Parte II<br />

a<br />

<strong>Quintal</strong> <strong>dos</strong> <strong>Poetas</strong><br />

Oficina Literária<br />

2


Copyright 2011 by José Roberto de Amorim<br />

Da<strong>dos</strong> de Catalogação na Publicação (CIP)<br />

A524v Amorim, José Roberto de<br />

VISCONDES, MAZOMBOS E COIMBRÃOS / José Roberto de Amorim<br />

– Lagoa Santa: <strong>Quintal</strong> <strong>dos</strong> <strong>Poetas</strong> - Oficina Literária, 2011.<br />

ISBN 978-85-911866-0-0<br />

1. História. 2. Minas Gerais. 3. Inconfidência Mineira. I. Título.<br />

CDD: 981.032<br />

Este exemplar foi produzido sob responsabilidade editorial do autor<br />

<strong>Quintal</strong> <strong>dos</strong> <strong>Poetas</strong><br />

Oficina Literária<br />

Lagoa Santa – 2011<br />

www.quintal<strong>dos</strong>poetas.com<br />

quintal<strong>dos</strong>poetas@quintal<strong>dos</strong>poetas.com<br />

3


José Roberto de Amorim<br />

<strong>Viscondes</strong>, <strong>mazombos</strong> e<br />

<strong>coimbrãos</strong><br />

4


Homenagem a<br />

Joaquim José da Silva Xavier,<br />

um provável herói<br />

Para<br />

Bernardo<br />

e<br />

Ana,<br />

meus filhos<br />

5


Sumário<br />

Introdução...............................................................................11<br />

1 - Quando os heróis das mais altas cataduras principiam a<br />

ser patrícios nossos ..............................................................20<br />

2 - Quando o visconde decide que não haverá batizado ......30<br />

3 - Quando o visconde demonstra denodo no cumprimento da<br />

sua missão ............................................................................ 36<br />

4 - A propósito da construção <strong>dos</strong> heróis ..............................44<br />

5 - Quando os poetas jogam seu jogo mais arriscado ..........53<br />

6 - Quando reis e rainhas reinam em seus reinos irreais .....61<br />

7 - A propósito de <strong>mazombos</strong> e <strong>coimbrãos</strong> ..........................67<br />

8 - Quando o padre do Tejuco muda o motivo mas tem que<br />

continuar fugindo ...................................................................75<br />

9 - A propósito de solda<strong>dos</strong> descontentes e seus planos<br />

militares .................................................................................82<br />

10 - Quando o velho poeta termina obscuro os seus dias<br />

luminosos ..............................................................................94<br />

11 – A propósito da poesia encomiástica e da confusão <strong>dos</strong><br />

sonhos ................................................................................101<br />

12 - A propósito de tipos e mo<strong>dos</strong> ......................................110<br />

13 - A propósito de certas ligações muito perigosas ..........126<br />

14 - Quando o jogo se encerra e a agonia principia ...........136<br />

15 - A propósito de um cadáver insepulto ..........................142<br />

6


16 - Quando acontece o apoteótico conventículo ..............151<br />

17 - A propósito das ardilosas peças do visconde .............157<br />

18 - A propósito de algumas glórias e frustrações de<br />

Cláudio..................................................................................169<br />

19 - Quando os horizontes ainda não se tinham turvado e<br />

eram prazerosas as manhãs ...............................................171<br />

20 - A propósito de causas, razões, motivos e emoções ...176<br />

21 - Quando Dirceu esquece suas musas e esfria sua<br />

lira ........................................................................................188<br />

22 - A propósito de uma dupla de agitadores muito<br />

indiscretos ...........................................................................193<br />

23 - A propósito de outros indícios de manobras dentro da<br />

devassa ...............................................................................200<br />

24 - Quando os poetas começam verdadeiramente a perder<br />

suas noites de sono ............................................................205<br />

25 - A propósito das devassas e seus estranhos<br />

processos ...........................................................................209<br />

26 - Quando o vigário de São José tenta sua última<br />

cartada ................................................................................217<br />

27- A propósito das casas infiéis .......................................221<br />

28 - Quando o visconde esquece a aventura e se despede <strong>dos</strong><br />

parceiros ..............................................................................227<br />

29 - A propósito de um sonho que virou crime e de um patriota<br />

que virou frade..................................................................... 236<br />

30 - Quando o vigário faz a sua festa do sagrado e do<br />

7


profano ................................................................................244<br />

31 - A propósito do doutor de Sabará que virou<br />

desembargador em Portugal e nunca mais voltou .............249<br />

32 - A propósito da conta enviada a Sua Majestade ..........255<br />

33 – Quando o delator principal se ajeita como pode .........259<br />

34 – Quando o bronco e teimoso coronel produz o mais<br />

perfeito quadro do delito ..................................................... 264<br />

35 – A propósito de certas formais palavras muito<br />

misteriosas ......................................................................... 271<br />

36 – Quando o alferes faz sua marcha derradeira .............276<br />

37 - A propósito da agenda do visconde e de seus<br />

devassantes e das perguntas que não querem calar ......... 281<br />

38 – Quando o poeta fala da grande, sábia e justa e revela os<br />

descaminhos da paixão ......................................................287<br />

39 - A propósito das tardanças da liberdade.......................294<br />

Anexo 1 - Notas biográficas finais <strong>dos</strong> réus do crime de lesa<br />

majestade de primeira cabeça, conhecido como “Inconfidência<br />

de Minas Gerais”, ocorrido nos anos de 1788 e 1789 na dita<br />

capitania ............................................................................. 299<br />

Anexo 2 – Cronologia básica .............................................312<br />

Bibliografia............................................................................334<br />

8


Alvarenga,<br />

Estamos juntos, e venha Vosmecê, já<br />

(Padre Toledo, exortando Alvarenga Peixoto a largar o baralho<br />

e ir para a revolução)<br />

Se to<strong>dos</strong> fossem do meu ânimo (...)<br />

(Tiradentes, criticando a preguiça <strong>dos</strong> companheiros)<br />

Anda se ensaiando para embaixador, mas nunca o há de<br />

ser.<br />

(Alvarenga Peixoto e Luiz Vieira, agourando planos do<br />

visconde de Barbacena)<br />

Só lhe faltam duas cabeças<br />

(Tomás Antônio Gonzaga, propondo liderar a nova ordem em<br />

dupla com Barbacena)<br />

A ocasião se perdeu<br />

(Gonzaga, lamentando o cancelamento do lançamento da<br />

derrama)<br />

Tem o primeiro lugar na sublevação<br />

(Cláudio Manuel da Costa, entregando Barbacena aos seus<br />

próprios devassantes)<br />

Hei de armar uma meada tal que, em cem anos se não há<br />

de desembaraçar<br />

(Tiradentes prevendo que seria difícil entender a Inconfidência<br />

no futuro)<br />

Melhor morrer com a espada na mão do que como<br />

carrapato na lama<br />

(Padre Toledo, ilustrando a sua disposição de resistir)<br />

Não diga levantar, é restaurar!<br />

(Tiradentes, buscando uma tímida legitimação ideológica)<br />

Daqui nem ouro quero,<br />

Quero levar somente os meus amores<br />

9


(Dirceu, no auge da frustração, às vésperas do exílio)<br />

Exmo. Senhor: eu considero este homem louco<br />

(Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis, falando de Tiradentes, em carta<br />

enviada a Barbacena)<br />

(...) Podiam as Minas ser independentes, livres da<br />

sujeição real, e uma república, porque tinham em si todas<br />

as riquezas, todas as produções e que toda a América<br />

podia ser livre; com estes discursos entrou a querer<br />

persuadir o povo e a desejar com ânsia que se pusesse<br />

em execução o seu desígnio<br />

(Desembargador José Pedro Machado Coelho Torres,<br />

resumindo a essência da culpa <strong>dos</strong> inconfidentes)<br />

10


INTRODUÇÃO<br />

Como fato histórico e como objeto de investigação<br />

historiográfica, a Inconfidência Mineira é um acontecimento incomum. 1<br />

Enquanto narrativa representa um evento inserido no fim de uma<br />

época plena de oportunidades cerceadas, cujo ambiente se preserva<br />

ainda hoje, conservando com vigor o componente emocional que tem<br />

acompanhado aquele episódio ao longo <strong>dos</strong> tempos. Como objeto de<br />

interesse investigativo se constitui no mais bem documentado fato da<br />

história brasileira do século XVIII, detalhadamente registrado nos autos<br />

de devassa abertos em Minas e no Rio de Janeiro e na ampla coletânea<br />

de correspondência correlata disponível. Mas, quando confrontamos os<br />

diversos fatos e seus registros, muita coisa passa a não fazer sentido, e<br />

aí é gerado um terceiro fascínio maior ainda, que envolve a Conjuração<br />

de Minas num clima de mistério novelesco, dando margem a<br />

especulações e asas à imaginação.<br />

Os muitos autores dedica<strong>dos</strong> a diminuir a relevância do<br />

movimento assumiram tal incumbência compeli<strong>dos</strong> pelo desconforto<br />

de não conseguir resolver uma questão incômoda: por que um episódio<br />

tão fugaz e circunscrito ocupa tanto espaço na historiografia e no<br />

imaginário nacionais? A resposta que posso dar a esta pergunta é muito<br />

pessoal e foi ela que me motivou a escrever este livro, depois de tantos<br />

1 Nos autos de devassa o termo “conjuração” é muito mais utilizado do que<br />

“inconfidência”. O título que abre o processo de formação de culpa identifica o<br />

movimento como “plano de sublevação”. Tecnicamente o crime está claramente<br />

tipificado no parágrafo quarto, do título 6 do livro V das Ordenações Filipinas, onde<br />

se lê: “Se alguém fizesse conselho e confederação contra o Rey e seu Estado ou<br />

tratasse de se levantar contra ele ou para isso desse ajuda, conselho e favor”. (estaria<br />

cometendo lesa majestade, ou seja, cometendo traição contra o rei ou seu estado).<br />

Parece-me que o enunciado contempla tanto a prática, quanto a intenção. Assim, à luz<br />

da lei, conjuração e inconfidência são a mesma coisa, punível da mesma maneira.<br />

Coligindo os fatos ao longo da devassa pode-se observar que houve um pouco das<br />

duas coisas.<br />

Mas é interessante observar que os juízes também usaram termos como<br />

“levante”, “motim” e até “revolução”. Os delatores foram mais exuberantes e<br />

chamaram o movimento de “execrando delito”, “premeditada maldade”, “horrorosa<br />

sublevação”, “temerário procedimento”, “abominável projeto”, “execranda maldade”,<br />

entre outras indignidades.<br />

11


anos fascinado pelo tema. Mas, certamente, aquela ilustre categoria de<br />

autores não aceitará minha resposta. Eles persistirão incapazes de<br />

entender o paradoxo e, assim, continuarão a contribuir, ainda mais, para<br />

a vitalidade do mesmo, agregando mais fascínio à controvérsia, pois a<br />

chama revigora todas as vezes que bulimos no braseiro.<br />

Penso que também os historiadores ortodoxos, na medida em que<br />

não conseguem encontrar modelos para explicar a relevância do<br />

movimento, também não aceitarão minhas respostas. To<strong>dos</strong> esses<br />

continuarão a não entender que a ousadia libertária mineira do século<br />

XVIII tem muito de um sonho que se sonha até hoje e que esse é o seu<br />

lado mais real. É por isso que ele continua impregnado de conotações<br />

sentimentais, especialmente para a gente de Minas. De fato, entre nós<br />

mineiros, o sentimento em relação ao projeto daqueles solda<strong>dos</strong>,<br />

magnatas, poetas e seus humildes coadjuvantes, sempre foi muito forte.<br />

No passado levou a que o delator Silvério <strong>dos</strong> Reis tivesse que ficar<br />

esperto para escapar com vida de alguns atenta<strong>dos</strong> perpetra<strong>dos</strong> contra a<br />

sua sinistra figura. 2 Hoje serve para muitos historiadores “de fora”<br />

rotularem os historiadores mineiros como intrinsecamente incapazes de<br />

tratar a inconfidência com isenção e objetividade. 3 Enfim, nesta matéria<br />

a razão e a emoção se embatem vigorosas há mais de um século, desde<br />

que o literato e historiador monarquista Joaquim Norberto de Souza e<br />

Silva, achou que Tiradentes, afinal, não era tão herói assim. 4<br />

2 É certo que o clamor da revolta do povo contra o gesto ignominioso do delator foi<br />

exagerado por ele. É que Silvério <strong>dos</strong> Reis queria sensibilizar d. João para permiti-lo<br />

voltar para Portugal com família e sogro e ainda crivá-lo de prêmios. Assim,<br />

exacerbava nas cartas que enviava ao príncipe regente contando as perseguições que<br />

sofria.<br />

3 Há quem os chame pejorativamente de “regionalistas ufanistas”. Dentre os mais<br />

entusiasma<strong>dos</strong> deles, certamente se destaca Xavier da Veiga para quem os<br />

inconfidentes seriam “Intemeratos Patriotas”.<br />

4 História da Conjuração Mineira – 1873.<br />

(To<strong>dos</strong> os autores e suas obras, cita<strong>dos</strong> neste livro, estão identifica<strong>dos</strong> em anexo.<br />

Quando pertinente, apontamos a página onde se encontram trechos ou passagens<br />

citadas que, evidentemente, se referem à edição relacionada na bibliografia. A sigla<br />

ADIM identifica os Auto de Devassa da Inconfidência Mineira. Algumas das minhas<br />

citações estão sem identificação da fonte de consulta, é que eu simplesmente não me<br />

lembro onde as encontrei).<br />

12


To<strong>dos</strong> os principais autores modernos que trataram do episódio,<br />

mineiros ou não, tentaram dar a ele um caráter criterioso de pesquisa.<br />

Para isso foram pródigos em rechear seus textos com notas indicativas<br />

do embasamento documental de suas afirmações. Muitos passaram<br />

anos pacientemente interna<strong>dos</strong> em cantos escuros de antigas bibliotecas<br />

e arquivos, examinando manuscritos carcomi<strong>dos</strong> em busca de<br />

legitimidade empírica para suas convicções. Louvável esforço mas, a<br />

meu ver, ninguém se saiu rigorosamente muito bem em tão nobre<br />

intento. Mas, justiça seja feita, não se trata de uma deficiência<br />

metodológica adstrita à matéria. É que o recurso à lógica indutiva<br />

continua sendo, como sempre foi, uma dificuldade para o<br />

conhecimento historiográfico. Isso porque a caracterização de um fato<br />

histórico sempre será um problema. Infelizmente, documentos antigos,<br />

mesmo autênticos, nunca terão suficiente lastro para corroborar as<br />

convicções históricas. 5 E o estudo da história persistirá como uma<br />

disciplina das chamadas “humanidades”, graças a Deus. Vai daí que<br />

continuamos dependentes da velha e boa lógica dedutiva, onde o<br />

racional tem a maravilhosa capacidade de dar sentido ao impossível. A<br />

busca do conhecimento histórico há de ser penosa, mas nos<br />

empenhamos nela muito mais pelo fascínio que a aventura humana<br />

exerce sobre nós do que pelo amor à fugidia verdade histórica. A rigor,<br />

tal verdade não existe, pelo menos no sentido científico, já que no<br />

processo da investigação historiográfica a dificuldade em negar favorece<br />

a facilidade em afirmar, o que nos remete a uma espécie de limbo<br />

epistemológico. Isso quer dizer que um <strong>dos</strong> axiomas básicos do método<br />

científico é incompatível com a natureza mesma da pesquisa<br />

historiográfica. Apesar de tudo isso, a História ainda é a melhor fonte<br />

5 Não esquecendo, também, que a descoberta de registros “originais” é muito<br />

traiçoeira, enfeitiça seus descobridores e muitas vezes os faz criar fantasias,<br />

exagerando a preciosidade de um documento que encontraram e o interpretando de<br />

forma submissa. Ou seja, com excesso ou escassez de bases empíricas, acabamos<br />

tendendo a chegar no mesmo lugar, inóspito e enevoado pelas brumas do tempo.<br />

Mesmo porque, ao contrário do que pensam muitos, a antiguidade ou originalidade de<br />

um documento não lhe confere confiabilidade, pois a fraude e a mentira são tão<br />

velhas quanto a própria humanidade.<br />

Vale lembrar aqui o que escreveu José Honório Rodrigues “O documento<br />

que antigamente era chamado de autoridade adquiriu uma nova expressão e passou a<br />

chamar-se fonte, uma palavra que indica apenas que ele contem uma informação, sem<br />

que isso implique na determinação do seu valor”. (Teoria da História do Brasil).<br />

13


de consulta para quem quer entender o presente ou sondar as<br />

possibilidades do homem no futuro.<br />

Em relação ao nosso particular objeto ainda há outros agravantes.<br />

Em primeiro lugar, é difícil resistir, até por impulso do inconsciente, à<br />

tentação de especular com certas passagens da história <strong>dos</strong><br />

inconfidentes, onde a confrontação entre os registros e a lógica<br />

contextual do fato deixa uma fresta de mistério que seduz nossa<br />

imaginação e a faz voar. Em segundo lugar, é tal a profusão de registros<br />

documentais, muitos <strong>dos</strong> quais conflitantes entre si, que não resta base<br />

verdadeiramente sólida, capaz de sustentar afirmações inabaláveis e<br />

serenas nesta matéria. 6 Mas como não sou historiador, nem pretendo<br />

sê-lo agora, os conflitos metodológicos subjacentes não me perturbam.<br />

Pelo contrário, me animam e foi também em cima desse ânimo que<br />

resolvi produzir este livro. Ele mistura fato e ficção sem nenhum pudor,<br />

usando o recurso de interligar contos e ensaios numa mágica que só a<br />

linguagem literária é capaz. Claro que procurei atrelar a ficção ao fato e,<br />

mais do que isso, usei a ficção para tentar entender o fato. 7 Até tive a<br />

petulância de achar o resultado compensador. Mas, certamente, haverá<br />

entre meus poucos leitores quem há de considerar esta obra<br />

historiograficamente irrelevante e literariamente pretensiosa e fora de<br />

moda. Enfim... 8<br />

6 Como bem lembrou José Pinto Furtado, trata-se de um verdadeiro manto de<br />

Penélope onde nossas convicções duramente construídas durante o dia são abaladas<br />

por dúvidas que nos assombram à noite e nos obrigam a reformular essas mesmas<br />

convicções no dia seguinte, numa tecedura interminável.<br />

Mesmo o clássico historiador da Inconfidência Mineira, Lúcio José <strong>dos</strong><br />

Santos, embora não demonstrasse ter sido torturado por dúvidas, também se sentia<br />

assombrado na calada da noite. Ou como disse por suas próprias palavras: “Possuí-me<br />

de verdadeira paixão pelo meu assunto. Quando, alta noite, interrompia a tarefa, para<br />

descansar a mão quase entorpecida por longas horas de escrita, parecia-me que<br />

desciam para povoar a minha solidão, as sombras melancólicas <strong>dos</strong> sacrifica<strong>dos</strong> de<br />

1789, revivendo comigo to<strong>dos</strong> os incidentes da tentativa, que fez o seu infortúnio e a<br />

sua glória.”<br />

7 Para ser coerente, melhor dizer “suposto fato”.<br />

8 Pesa sobre mim, sem dúvida, a deficiência de não ter podido me dedicar mais<br />

intensamente à pesquisa documental, sempre boa e profícua fonte de inspiração a<br />

conter os exageros literários. Destituído de recursos e autoridade para tal, tive que me<br />

14


De toda forma, me senti livre e até descontraído e espero que, pelo<br />

menos uma parte desses mesmos poucos leitores, não se aflija muito<br />

com as diferenças entre a realidade histórica e a ficção que medra<br />

exuberante em suas fendas. Ainda mais em se tratando da Inconfidência<br />

Mineira, cuja fonte básica de consulta é um processo jurídico<br />

colonialista, corrupto e cruel, impregnado do espírito <strong>dos</strong> Tribunais da<br />

Inquisição e do obscurantismo das Ordenações Filipinas.<br />

Ao contrário de tantos diletos pesquisadores, nunca estou muito<br />

certo de onde termina o fato e onde começa a imaginação. Isso me<br />

poupou muito do trabalho de ter que calçar minha honestidade<br />

intelectual usando expressões do tipo “provavelmente”, “fortes<br />

indícios”, “grande possibilidade” que também uso, mas com convicção<br />

de que elas não legitimam as incertezas. Foi aí que tentei soltar o poeta<br />

que também tento ser e, através do que, procuro conhecer as facetas<br />

menos evidentes da realidade e dar serventia ao irracional. Afinal, foi<br />

assim que o pensador antigo conseguiu se livrar daquelas angustiantes e<br />

insolúveis questões filosóficas sobre o absurdo do infinito e a<br />

insensatez do eterno, tratou de se encantar com o universo e passou a<br />

contemplá-lo por sobre o ombro de Deus. Paradoxalmente, foi aí que o<br />

homem se conformou com as limitações da realidade que se dispunha<br />

ao seu alcance e fez nascer o pensamento científico.<br />

Todas as liberalidades que assumi me permitiram, inclusive,<br />

desprezar a sucessão linear <strong>dos</strong> fatos aborda<strong>dos</strong>, dispondo as partes<br />

deste livro de forma desordenada, o que pode parecer meio anárquico,<br />

acostuma<strong>dos</strong> que somos a enfileirar os acontecimentos históricos<br />

atrelando-os à seqüência da sua cronologia e à lógica temporal <strong>dos</strong><br />

nossos modelos de relações lineares de causas e conseqüências. Nesse<br />

ponto me inspirei nos próprios inconfidentes que, sob a pressão do<br />

terror perverso de suas masmorras e da arrogância de seus inquiridores,<br />

desordenaram suas ideias e perderam muito da noção do tempo.<br />

Quem se deu ao trabalho de ler mais de uma vez os autos de devassa<br />

da inconfidência, muito provavelmente, como eu, deve ter se sentido<br />

desnorteado pelo redemoinho <strong>dos</strong> fatos. Usei exatamente esta<br />

particularidade como inspiração para estruturar as partes deste livro.<br />

contentar com fontes bibliográficas, sobre as quais me debrucei no espaço exíguo da<br />

minha pobre biblioteca, instalada num cantinho nobre da casa.<br />

15


Assim não me preocupei muito em determinar onde a história<br />

realmente começa. Isso porque ela começou várias vezes. Para ser<br />

exato, teve início sempre que uma de suas personagens resolvia se<br />

inserir no vendaval <strong>dos</strong> acontecimentos. E estes acontecimentos<br />

tomaram rumos diferentes quando cada um se arrependeu disso. Deriva<br />

daí a ordenação circular que, certamente, se constitui numa<br />

característica <strong>dos</strong> registros desse episódio histórico tão fartamente<br />

ilustrado e repleto de inconsistências. Não poderia ser diferente, com<br />

todo mundo querendo se livrar <strong>dos</strong> incômo<strong>dos</strong> de uma pena capital,<br />

cruel e humilhante.<br />

Mas devo confessar que, apesar da minha opção por organizar este<br />

trabalho desta forma livre, não consegui me despir de alguns vícios<br />

adquiri<strong>dos</strong> em meu singelo passado acadêmico, vivido naqueles tempos<br />

em que os bons livros tinham que ser construí<strong>dos</strong> em torno de ideias<br />

novas. Assim, existe uma tese central a amarrar as diversas partes que<br />

compõem esta obra e que – devo admitir - sequer é muito original. É a<br />

ideia de que o grupo de inconfidentes tem uma identidade dupla, com<br />

pontos convergentes e divergentes, conforme o lado que se olha.<br />

Coletivamente representa uma união, um tanto romântica e mal<br />

conformada, entre dois grupos distintos e até certo ponto distantes: os<br />

<strong>mazombos</strong> 9 e os <strong>coimbrãos</strong>. 10 Vale dizer enfim: empreendedores e<br />

aventureiros desiludi<strong>dos</strong> e inconforma<strong>dos</strong> de um lado e burocratas,<br />

magistra<strong>dos</strong> e bacharéis frustra<strong>dos</strong>, ambiciosos ou muito visionários, do<br />

outro lado. Entre esses últimos me permito alinhar o próprio visconde<br />

9 Termo pejorativo que nas Minas do século XVIII identificava os brasileiros filhos de<br />

portugueses que, pelos seus costumes e valores genuinamente locais, já tinham<br />

esquecido suas raízes portuguesas. É mencionado especialmente nos depoimentos de<br />

Domingos de Abreu Vieira registra<strong>dos</strong> nos autos de devassa da Inconfidência Mineira.<br />

A singeleza da conotação dada pelo velho e simplório inconfidente me parece muito<br />

apropriada para caracterizar o clima que contagiou e entusiasmou uma parte da elite<br />

da capitania que se encontrava mais perto <strong>dos</strong> anseios do povo em geral.<br />

10 Tomei o termo para caracterizar o grupo <strong>dos</strong> inconfidentes constituído basicamente<br />

de bacharéis forma<strong>dos</strong> em Coimbra onde se embebedaram das fontes do iluminismo e<br />

poliram os espíritos em salões nobres portugueses, declamando seus poemas,<br />

cortejando suas pastoras e argumentando com fineza e elegância. Creio que nunca<br />

conseguiram se livrar inteiramente das fortes raízes lusas da sua formação, nem do<br />

enlevo que lhes proporcionava a proximidade com a nobreza, mesmo depois que<br />

passaram a achar interessantes aquelas ideias de república.<br />

16


de Barbacena, figura muito mais comprometida com o movimento do<br />

que geralmente se imagina. Ele também é heterogêneo e resulta ser, ao<br />

mesmo tempo, o principal representante de uma certa categoria<br />

marcante do colonialismo português: a <strong>dos</strong> viscondes. Dentro do<br />

espírito deste trabalho, configurei essa categoria para tipificar aqueles<br />

seres bem nasci<strong>dos</strong> que a Coroa educava no Colégio <strong>dos</strong> Nobres e<br />

depois designava para administrar o Estado do Brasil ou outro canto<br />

qualquer do ultramar, o que faziam normalmente acrescendo generosas<br />

pitadas de obtusidade à já inteiramente obtusa política colonial de<br />

Portugal. 11 Aqui vão ministros, vice-reis, governadores e mais<br />

burocratas do reino, nobres ou apenas desejosos de o serem. Barbacena<br />

– sejamos justos em admitir - até não se ajeitava muito bem no meio<br />

deles e viveu muito conflito diante das contradições entre a fé e a razão<br />

que seu juvenil e prematuro fascínio pelo iluminismo coimbrão lhe<br />

respingava no brasão. Certamente nosso peculiar visconde deve ter<br />

ouvido muito do amado mestre de Coimbra – Domingos Vandelli –<br />

que o Brasil era um país do futuro, não pelo ouro terminal das Minas,<br />

mas pela sua magnífica flora e pela fertilidade inesgotável e abundante<br />

do seu solo. Terá ouvido também dissertações do mestre sobre a<br />

anacronia da política mercantilista de Portugal. De sorte que<br />

desembarcou no Brasil em mea<strong>dos</strong> de 1788 cheio de curiosidades e<br />

dúvidas. Mas conseguiu se conter, recuou na hora certa, foi levando e<br />

acabou a vida como conde, graças enfim, aos bons serviços presta<strong>dos</strong> a<br />

Sua Majestade. Pobres nobres do século XVIII: os mais vivazes se<br />

angustiaram muito com os estertores <strong>dos</strong> impérios mercantis e com a<br />

anacronia das monarquias. Mas insistiram enquanto deu e morreram<br />

preservando seu sangue azul, enquanto foi possível.<br />

No geral, a ideia central desta obra embute a crença de que, embora<br />

mirassem o mesmo alvo, a heterogeneidade entre <strong>mazombos</strong> e<br />

<strong>coimbrãos</strong>, torna legítimo acreditar que até pode ter havido duas<br />

inconfidências paralelas no ano de 1788/1789 em Minas Gerais. Tudo<br />

muito singular e confundindo a cabeça <strong>dos</strong> viscondes e de muitos<br />

historiadores.<br />

11 Os resulta<strong>dos</strong> são os tantos destroços históricos que a nação lusa espalhou pelo<br />

mundo, deixando como herança um rastro de pobreza que tanto sufoca ainda hoje<br />

suas antigas colônias, via de regra ricas por natureza mas ainda deitadas em seus<br />

esplêndi<strong>dos</strong> berços.<br />

17


Claro que houve um ambiente peculiar na capitania de Minas Gerais<br />

na segunda metade do século XVIII que forneceu as condições para<br />

que viscondes, <strong>mazombos</strong> e <strong>coimbrãos</strong> pudessem convergir seus<br />

interesses, pelo menos por uns tempos.<br />

Há também no peculiar episódio do projetado levante, decisões e<br />

lances tão desconcertantes e estranhos que não pude resistir a dar um<br />

tom de tragicomédia a certas passagens da história. 12<br />

Mas, tenho esperanças de que minhas experimentações não<br />

sejam mal entendidas, mesmo porque, o projeto deste livro é singelo,<br />

pleno de sentimentalismo, 13 numa clara opção pela execrada escola<br />

romântica. É, essencialmente, fruto da necessidade de externar minha<br />

grande admiração pela fugaz mas notável coragem que levou alguns<br />

espíritos inquietos do século XVIII a ousar acreditar que eles também<br />

sabiam governar e podiam fazer da América Portuguesa uma república,<br />

como tinham feito antes os rebeldes da América <strong>dos</strong> ingleses e tentaria<br />

fazer, pouco depois, a turba alucinada de Paris. 14<br />

12 É claro que as diferenças de conotação entre o significado <strong>dos</strong> fatos para seus<br />

protagonistas e a forma com que eu os vejo hoje, decorre da inevitável inadequação de<br />

olhos do século XXI para examinar fatos do século XVIII.<br />

13 Penso que este sentimentalismo pode ser facilmente notado no estilo que usei,<br />

cheio de frases eivadas de imagens românticas e adjetivos poéticos. Talvez o mesmo<br />

estilo que Lúcio José <strong>dos</strong> Santos em sua obra clássica sobre a Inconfidência, criticou<br />

na obra não menos clássica de Joaquim Norberto de Souza e Silva, citada na nota 4.<br />

Mas também nosso caro Lúcio não deixou de se enternecer, descrevendo com<br />

chorosa pena as dores <strong>dos</strong> inconfidentes em suas masmorras no Rio de Janeiro,<br />

embala<strong>dos</strong> pelo dorido marulhar eterno das ondas do mar.<br />

14 Alguns autores criticam a convicção republicana <strong>dos</strong> inconfidentes, acreditando que<br />

eles não tinham senão uma tênue noção do que isso pudesse ser. Notável e<br />

desnecessário exagero! Creio que a ideia de que os <strong>mazombos</strong> também podiam<br />

governar estava intrinsecamente ligada à crença de que, somente numa república tal<br />

coisa seria possível. E isso teve grande apelo na propaganda sediciosa. Claro que entre<br />

os <strong>coimbrãos</strong> podia restar alguma dúvida. Mas é notável a quantidade de depoimentos<br />

de réus e testemunhas, grandes e pequenas, onde o termo aparece quase sempre num<br />

contexto e conotação perfeitamente apropria<strong>dos</strong> para a época e distinto da conotação<br />

política com que a própria Coroa usava a palavra “república” para identificar as coisas<br />

de interesse público (do ponto da vista da própria Coroa, claro). Acredito que, para a<br />

maioria <strong>dos</strong> revoltosos e até para parte do povo, uma república no Brasil devia ser a<br />

forma exata de governo que se contrapunha à monarquia portuguesa, ou seja, devia<br />

18


Certamente, independentemente de todas as minhas tentativas de<br />

voo, mais ousadas ou menos originais; ao final permanecerão aquelas<br />

velhas dúvidas se a Inconfidência Mineira foi uma indolente e delirante<br />

aventura de poetas ou uma corajosa e perspicaz manobra de heróis.<br />

Pela via do fato ou pela da ficção o limite parece confuso e as dúvidas<br />

remanescem. Daí vem a paixão, matéria enfim insolúvel que, por isso<br />

mesmo, não carece de nenhum tipo de pedido de desculpa. Mesmo<br />

porque, acredito que a emoção tem triunfado: afinal é ela que tira a<br />

História <strong>dos</strong> porões e escaninhos, a faz pulsar e atravessar os séculos.<br />

Mas a Inconfidência Mineira nunca deixará de ser polêmica,<br />

escrita que foi em grande parte sobre registros que forjavam histórias<br />

cozinhando personalidades atormentadas em fornalhas que frades e<br />

magistra<strong>dos</strong> apaixona<strong>dos</strong> criaram com o direto propósito de<br />

desmoralizar o movimento e marcar o lado sacrílego do crime de lesa<br />

majestade.<br />

Não obstante, a mim parece uma história de heróis.<br />

ser o caminho para romper com o regime colonial e era isso que importava. Os<br />

americanos do norte já tinham colocado essa opção em prática e, provavelmente, as<br />

elites descontentes das colônias europeias nos quatro cantos do mundo estavam<br />

seduzidas por ela. Até é possível que os povos do ultramar, em geral, estivessem<br />

muito mais impregna<strong>dos</strong> da ideia de república do que os próprios revolucionários<br />

franceses, sempre lembra<strong>dos</strong> com exagero na gestação da ideia. Aliás, estes no<br />

princípio, estavam muito mais interessa<strong>dos</strong> em minguar os poderes de Luiz XVI do<br />

que propriamente em retirar sua coroa. Só quando perderam a confiança no rei é que<br />

tiraram a coroa com cabeça e tudo e penderam para um regime republicano. Assim<br />

mesmo por pouco e caótico tempo, sendo esse o aspecto mais frustrante da<br />

Revolução Francesa. Não foi por acaso que a França levou quase cem anos para<br />

implantar o regime republicano.<br />

A rigor, no século XVIII a ideia de república, em todo o mundo, ainda era<br />

muito embrionária. O que se tinha sobre a matéria eram experiências históricas<br />

europeias onde “república” se constituía num modo peculiar de governar timidamente<br />

democrático e não numa organização social ampla, com instituições consistentes e<br />

interdependentes ligadas por uma ética política onipresente. Vai daí que conviviam<br />

sob o mesmo epíteto esta<strong>dos</strong> muito diversos entre si como Gênova, Veneza, Berna,<br />

Genebra e até a Inglaterra de Cromwell. Somente no século seguinte é que, a partir da<br />

experiência americana, o conceito veio a amadurecer e tomar a sua face mais moderna,<br />

formando o substrato de uma ampla organização social.<br />

19


Juízos de valores concedem à Inconfidência Mineira pesos<br />

inexatos, e tem sido assim. Portanto, estou legitimado para julgar<br />

injusto que o movimento seja avaliado apenas pela sua fragilidade<br />

política, fatuidade, ou desorganização militar. Sua motivação é seu lado<br />

mais notável, incluso aí, um tempero ideológico a legitimar um projeto<br />

político, racional ainda que muito mal costurado. Não foi no<br />

Renascimento e sim no século XVIII que, tangido pela razão iluminista,<br />

o homem largou da mão de Deus e procurou o seu lugar no mundo<br />

prescindindo do rei e do papa. Foi um século de partos dolorosos pois<br />

esse passo estava eivado de dúvidas e de arrependimento. Mas, em<br />

algumas partes do mundo se ousou. Em Minas essa audácia claudicante<br />

gerou um sonho louco de independência, pontual e natimorto, mas que,<br />

certamente, faz parte das poucas florações do espírito iluminista, em<br />

todo o mundo, que tiveram lugar no próprio século em que ele nasceu.<br />

Tenros ramos de liberdade brotando aqui e ali, no prenúncio da<br />

floresta.<br />

1<br />

QUANDO OS HERÓIS DAS MAIS ALTAS CATADURAS<br />

PRINCIPIAM A SER PATRÍCIOS NOSSOS<br />

O palácio de campo da Cachoeira nasceu já glorioso. O caminho<br />

novo, mandado construir pelo governador d. Rodrigo José de Menezes,<br />

através da serra do Ouro Preto, havia eliminado de vez os<br />

inconvenientes do caminho velho. Até então se ficava à mercê das<br />

enchentes do Tripuí que interrompiam a comunicação de Vila Rica com<br />

a Cachoeira do Campo, sempre que caiam chuvas mais demoradas.<br />

Assim, estavam eliminadas as inconveniências das incertezas do acesso.<br />

O próprio palácio tinha sido recentemente levantado, a partir da<br />

estrutura decadente herdada da antiga caserna, erguida por d. Martinho<br />

de Mendonça quase cinquenta anos antes. O estabelecimento militar,<br />

agora transformado em palácio de veraneio pelo governador, havia sido<br />

desativado quando o governador precedente - d. Antônio de Noronha -<br />

resolveu construir novo quartel nas proximidades para abrigar a<br />

guarnição <strong>dos</strong> Dragões de Minas.<br />

Desta forma, já no segundo ano de seu governo, d. Rodrigo tinha<br />

conseguido implantar as condições necessárias que ideara para<br />

promover os saraus de que tanto gostava. Finalmente poderia reunir<br />

decentemente e com regularidade, a mais fina flor da capitania em<br />

20


competentes seções literárias, enriquecidas com não menos<br />

competentes chás, sucos e quitandas.<br />

Assim foi naquela tarde amena de verão. E havia duplo motivo para<br />

a celebração programada para o dia: o batizado do filho do governador<br />

e a manifestação política de apoio ao relatório que ele tão<br />

diligentemente elaborara sobre a situação da economia da capitania.<br />

Embora o relatório já tivesse sido encaminhado a Portugal há quase<br />

dois anos e continuasse sem resposta, ainda havia expectativa de que o<br />

dito pudesse sensibilizar o ministro Martinho de Melo e Castro. O<br />

documento fora gerado, enfim, como uma tentativa de se mudar<br />

substancialmente as coisas por aqui, corrigindo visões obsoletas que<br />

engendravam políticas famigeradas e vexatórias que tanto penalizaram a<br />

capitania nas últimas décadas.<br />

Mas o ministro nunca responderia ao relatório. De fato ele jamais<br />

deixaria de acreditar que os mineiros eram contrabandistas e<br />

sonegadores por motivos de ordem genética ou cultural e não porque a<br />

política fiscal da Coroa era absurda e anacrônica. Foi ter com o Criador<br />

em avançada idade, firmemente convencido disso. Mas não era só<br />

implicância do zeloso ministro da marinha e ultramar. Volta e meia ele<br />

recebia um relatório dando conta da má gestão das rendas de Sua<br />

Majestade na capitania. Alguns meses, antes lhe havia chegado às mãos<br />

uma carta do ouvidor de Vila Rica – Manoel Joaquim Pedroso –<br />

lamentando a decisão favorável à arrematação do contrato de<br />

arrecadação <strong>dos</strong> tributos de entradas de mercadorias em Minas por<br />

Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis. Dizia ele: Agora, porém, que o maior contrato desta<br />

capitania, se faz passar da mão de um mau contratador para a de outro pior, e que esse<br />

sucesso pode vir a ser de prejuízo irremediável por falta das competentes abonações, seria<br />

criminoso o meu silêncio. 15<br />

Ao contrário de seu chefe, d. Rodrigo era um homem sensível e de<br />

visão moderna, merecedor da admiração das figuras ilustres de Minas.<br />

Parecia se interessar honestamente em melhorar a situação <strong>dos</strong><br />

mineiros. Estava vivamente disposto em se empenhar junto à Coroa<br />

para buscar o redirecionamento <strong>dos</strong> quintos e provocar o repensar <strong>dos</strong><br />

veios da economia, que não teria mesmo futuro se continuasse apoiada<br />

15 ADIM – v. 9 - pág. 22.<br />

21


apenas em atividades mineradoras, dependente de minas de ouro em<br />

estado de iminente exaustão. Na visão do governador, a atividade<br />

manufatureira, especialmente do ferro, podia ser a redenção da<br />

economia da região, livrando-a da evidente decadência que se<br />

avizinhava. De fato, os estabelecimentos fabris surgiam aqui e ali,<br />

substituindo as mineradoras com surpreendente vigor.<br />

Pelo menos a elite intelectualizada da capitania estava convencida<br />

das boas intenções de d. Rodrigo e o cercava de mimos,<br />

desconsiderando sua face arbitrária e prepotente e até colaborando com<br />

ela. Aliás, foi ele quem intercedeu a favor da arrematação do contrato<br />

de entradas por Silvério <strong>dos</strong> Reis, que o ouvidor Pedroso tinha<br />

considerado uma decisão temerária aos interesses da Coroa. 16 Mas, no<br />

geral, o lúcido e perspicaz fidalgo foi despertando admiração ao longo<br />

<strong>dos</strong> anos e ainda hoje seduz muitos <strong>dos</strong> nossos historiadores.<br />

De toda forma, a maioria <strong>dos</strong> que atenderam ao convite para aquela<br />

celebração não era mesmo dada a menosprezar as conveniências da<br />

proximidade ao poder. Além disso, tinham projetos econômicos muito<br />

afina<strong>dos</strong> com as diretrizes do tal relatório. Assim, naquele instante,<br />

eventuais polêmicas sobre a estatura histórica de d. Rodrigo não tinham<br />

a menor importância. A somar-se a tudo isso a conhecida qualidade da<br />

mesa do governador e o indiscutível deleite que a prosa de pessoas tão<br />

cultas e talentosas costumava proporcionar.<br />

Motivos de sobra, pois, para que a fina flor da sociedade da<br />

capitania ali estivesse, naquela tarde de charme e beleza.<br />

No amplo salão avarandado com vista para os morros ensolara<strong>dos</strong><br />

do arraial da Cachoeira do Campo, meia légua adiante, muitos grupos se<br />

formavam. Mas dois deles se destacavam. O primeiro se aglomerava em<br />

torno de um homem de pouco mais de cinquenta anos, assentado<br />

solenemente numa cadeira de espaldar alto. Sua conversa despertava<br />

grande interesse. To<strong>dos</strong> falavam olhando para ele e to<strong>dos</strong> se calavam<br />

quando ele falava. Era o conhecido advogado, ex-titular da secretaria do<br />

governo da capitania: dr. Cláudio Manuel da Costa. 17 A conversa parecia<br />

16 D. Rodrigo continuaria a interceder a favor de Silvério <strong>dos</strong> Reis pela vida à fora,<br />

inclusive depois da inconfidência quando recomendaria a Sua Majestade que fosse<br />

concedida ao delator autorização para passar ao reino.<br />

17 Dr. Cláudio Manuel da Costa – Era o sujeito em casa de quem se tratou de algumas coisas<br />

respeitantes à sublevação, uma das quais foi a respeito da bandeira e algumas determinações do modo<br />

22


amena e, de fato, estava entrecortada de risos e gestos descontraí<strong>dos</strong>.<br />

Predominava o bom humor, muito embora naqueles tempos a vida já<br />

não corresse tão tranquila para muitos <strong>dos</strong> homens que ali se<br />

encontravam e um embrião de certa agitação já estivesse em formação.<br />

Apesar do bom humor, garantido, sobretudo, pelos comentários<br />

jocosos do dr. Cláudio, o assunto era sério. O tema central tratava<br />

exatamente <strong>dos</strong> riscos de que a Coroa pudesse prejudicar as atividades<br />

fabris a que muitos deles vinham se dedicando em suas fazendas.<br />

Muitos teares e geringonças hidráulicas tinham sido implanta<strong>dos</strong> e<br />

muitos mais ainda se pensava implantar.<br />

O outro grupo de maior destaque estava formado do lado oposto do<br />

salão. No seu centro estava o próprio governador. Ali a conversa era<br />

menos animada e mais formal, embora, volta e meia alguém<br />

cochichasse algo no ouvido do grande capitão general das Minas e<br />

geralmente o fizesse sorrir. Em todo o ambiente, de fato, predominava<br />

um clima de alegria. Espalha<strong>dos</strong> pelos cantos da sala viam-se grupos<br />

menores compostos de pessoas não menos ilustres e elegantes. Era<br />

rara a presença de mulheres. Apenas uma delas, uma jovem de vinte e<br />

um anos, fazia parte de um <strong>dos</strong> grupos principais. Não falava muito,<br />

porém, tinha uma presença marcante e os homens prestavam atenção<br />

no que ela dizia. Era Bárbara Eliodora, respeitável senhora, outrora mãe<br />

solteira mas agora já casada, em cujas veias corria bom sangue paulista,<br />

o mesmo <strong>dos</strong> bandeirantes que há noventa anos desbravaram estas<br />

plagas.<br />

Espalha<strong>dos</strong> pelo salão predominavam, enfim, figuras conhecidas das<br />

letras, da economia e do governo da capitania. Ali estava o dr.<br />

de se reger a república: o sócio Vigário da Vila de São José é quem declara nas perguntas<br />

formalmente; o mais que há fora disso são indícios e ditos de ouvido; mas este réu, tendo sido<br />

principiado a ser perguntado pelo Ouvidor de Vila Rica, quis declarar alguma coisa, dizendo que as<br />

conversações eram de que podia fazer-se, e não deliberadas de que se fizessem; e logo se enforcou na<br />

prisão, ficando as perguntas injurídicas, por falta de vista de tabelião sem juramento quanto a<br />

terceiros: quando chequei a Minas já isso tinha se sucedido e fiz que se acautelassem a respeito do<br />

mais, pondo as perguntas jurídicas e válidas.<br />

(Desembargador José Pedro Machado Coelho Torres, sobre a lista de pessoas presas –<br />

ADIM – v. 7 – pág. 41. Daqui em diante esta referência passará a ser identificada pela<br />

sigla DCT).<br />

23


Alvarenga Peixoto 18 da Comarca do Rio das Mortes e o dr. Tomás<br />

Antônio Gonzaga, 19 recém empossado ouvidor de Vila Rica. Ali<br />

também estava o procurador da Coroa, Francisco Gregório Pires<br />

Bandeira, colega de Gonzaga na Junta da Fazenda e já seu amigo apesar<br />

<strong>dos</strong> poucos dias de convivência. Também ali estava o bacharel dr.<br />

Diogo Ribeiro Pereira de Vasconcelos que nos próximos anos, teria em<br />

Bandeira e em Gonzaga, seus mais chega<strong>dos</strong> amigos.<br />

Alguns homens vestiam batinas carregadas de adornos, dignas das<br />

autoridades eclesiásticas de altas indulgências. Entre eles se podia<br />

reconhecer o cônego Luiz Vieira da Silva 20 do cabido da diocese e o<br />

bispo d. Domingos da Encarnação Pontevel que, apesar da sede do<br />

bispado ser em Mariana, preferia morar em Vila Rica e estar mais perto<br />

naquelas celebrações. Muitos também usavam fardas vistosas, como<br />

José Álvares Maciel, capitão-mor de Vila Rica e um <strong>dos</strong> seus mais<br />

respeitáveis e ricos habitantes. Ao seu lado estava seu genro, o jovem<br />

18 Inácio José de Alvarenga – Tem alguns <strong>dos</strong> sócios <strong>dos</strong> conventículos que confessam a culpa, e<br />

dizem que ele entrava e que era quem delineara o modo e inscrição da bandeira; este réu assistia aos<br />

conventículos feitos em casa do Dr. Cláudio Manuel e aos feitos em casa do tenente-coronel Francisco<br />

de Paula Freire; não tem por ora confessado em perguntas; é filho do Rio de Janeiro; tinha sido<br />

ouvidor em São João Del Rei onde casou, largou o serviço de Ministro, já tinha largado o da<br />

Universidade, e estava agora Coronel de um regimento de cavalaria auxiliar da Campanha do Rio<br />

Verde, onde tinha grandes lavras. Foi preso em Minas e remetido para esta cidade onde se acha em<br />

uma fortaleza. (DCT).<br />

19 Tomás Antônio Gonzaga - Tinha acabado de ocupar o lugar de Ouvidor de Vila Rica, e estava<br />

despachado para Desembargador da Relação da Bahia; tem várias testemunhas que dizem ser ele<br />

entrado na conjuração, e que fazia as leis; mas todas as testemunhas se referem ao sócio Vigário da<br />

Vila de São José, Carlos Correia de Toledo, e este nas perguntas que lhe foram feitas, declara que<br />

dissera ser ele entrado para assim capacitar melhor os que pretendia que abraçassem o partido por<br />

saberem to<strong>dos</strong> que ele tinha capacidade para direção das leis, e governo, mas que na realidade não<br />

sabia que ele fosse entrado (...); é oriundo do Brasil, desta cidade do Rio de Janeiro onde tem<br />

parentes, suposto que nasceu na cidade do Porto (...) (DCT).<br />

20 Cônego Luiz Vieira da Silva: é filho de Minas; tem várias presunções contra si; ser amigo <strong>dos</strong><br />

sócios Cláudio Manuel da Costa, e os seus parciais e a fama de que era entrado, e cuidava do modo<br />

de governo e leis, junto com o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga; porém só tem o denunciante<br />

Basílio de Brito Malheiro que jura não poder ele encobrir a paixão que tinha por ver a América feita<br />

uma República, e que dizia que a América não gastara a El-Rei nada na sua conquista, que a<br />

Bahia e o Rio já tinham sido resgata<strong>dos</strong> <strong>dos</strong> franceses e holandeses pelos nacionais à sua custa e que<br />

um príncipe europeu nenhum direito tinham a este país (...) (DCT).<br />

24


tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade. 21 O grupo era<br />

completado por outra das raras figuras femininas do salão: a mulher do<br />

tenente-coronel, Isabel Querubina de Oliveira Maciel, com quem se<br />

casara há poucos meses. Enfim, to<strong>dos</strong> eram figuras especiais, seja pela<br />

riqueza, seja pela posição. Não raro os dois atributos se combinavam<br />

numa só pessoa e também não raro, um terceiro atributo vinha se juntar<br />

aos dois primeiros: um grande talento literário, muitas vezes<br />

reconhecido até mesmo em Portugal.<br />

Nos grupos menores o assunto era mais doméstico: Gonzaga<br />

manifestava a Alvarenga sua preocupação quanto ao pagamento do<br />

vultoso empréstimo que teve que contrair recentemente para se instalar<br />

em Vila Rica. Freire de Andrade comentava com o sogro sua intenção<br />

de achar uma oportunidade de se ver a sós com o governador para<br />

apresentar algumas ideias inovadoras relativas às suas atribuições como<br />

comandante supremo da guarnição <strong>dos</strong> Dragões de Minas.<br />

Apesar de conversarem discretamente retira<strong>dos</strong> a um canto,<br />

Gonzaga e Alvarenga, algumas vezes, gesticulavam com um certo<br />

exagero chamando a atenção <strong>dos</strong> demais. Certamente, nesses<br />

momentos, tratavam de suas opiniões divergentes sobre o finado<br />

governo de Pombal. De fato tinham muito que divergir sobre este<br />

ponto pois, enquanto Alvarenga havia sido muito favorecido por<br />

benesses do marquês, Gonzaga só conseguiu ver sua carreira avançar<br />

depois do afastamento do polêmico ministro de d. José I, do poder.<br />

Mas, no geral, o tema dominante era a atual situação da capitania e a<br />

retidão e pertinência do relatório de d. Rodrigo e de quanto era<br />

conveniente que ele fosse levado realmente a sério pela Coroa. Muitos<br />

criticavam com certa veemência a estreiteza da visão do ministro da<br />

marinha e ultramar de Portugal que parecia tender a manter o relatório<br />

indefinidamente encerrado no escuro interior de uma prosaica gaveta.<br />

O governador não parecia nem um pouco incomodado com as<br />

críticas feitas ao seu superior, nem tampouco com os elogios vela<strong>dos</strong><br />

21 Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire – É filho do Rio de Janeiro; é quem comanda o<br />

Regimento pago da Cavalaria de Minas, porque o coronel é o Excelentíssimo Governador; este réu<br />

era sabedor e entrado na conjuração como declaram os consócios nas suas confissões às perguntas; ele<br />

era quem havia de ter a tropa disposta para não obstar ao motim; antes favorecê-lo; ele deu sua<br />

denúncia mais tarde, diminuta, e pretendendo desculpar-se, e ainda agora, nas perguntas, confessando<br />

o ajuntamento em sua casa e a conversação sediciosa que houve, se imagina livre de culpa (...)<br />

(DCT).<br />

25


feitos a Cláudio Manuel da Costa a quem muitos atribuíam a principal<br />

responsabilidade pelo conteúdo do relatório.<br />

Mas embora fosse um bom pretexto a justificar certas presenças<br />

soturnas em tão primaveril vesperal, as manifestações de apoio ao<br />

relatório não eram mesmo o motivo principal da festiva reunião.<br />

Tratava-se na verdade de uma rara cerimônia de batizado. Nada podia<br />

ser mais raro do que botar os santos óleos num brasileiro de sangue<br />

azul.<br />

Naquela tarde os papéis de maior destaque estavam reserva<strong>dos</strong> a<br />

duas personagens especiais: o pequeno nobre recém-nascido e um<br />

poeta bonachão. Agora já era o momento da primeira delas adentrar o<br />

salão e cumprir o seu inocente papel. Certamente isso teria que ser feito<br />

com toda a pompa e requinte exigi<strong>dos</strong> para alguém nascido de tão<br />

insigne ascendência. É claro que nascer em Vila Rica não era como<br />

nascer em Lisboa, mas ao pequeno José Tomás de Menezes nada foi<br />

sonegado, por cuja falta pudesse ser diminuído o esplendor do seu<br />

berço e a nobreza do seu sangue.<br />

E foi assim que o pequenino filho do grande governador das<br />

Minas Gerais entrou no salão, agora em silêncio total, emudecido que<br />

fora pelo toque de um sino que prenunciara o início da cerimônia do<br />

batismo. Desprezando o costume local que teria condicionado que o<br />

pequeno viesse no colo de uma ama preta, gorda e descalça; a criança<br />

vinha no colo da própria mãe. Nada menos do que uma Bourbon,<br />

Maria José Essa de Bourbon.<br />

A jovem mãe deslizou pelo salão em passos miú<strong>dos</strong> e cabeça<br />

erguida, contemplando to<strong>dos</strong> com um sorriso aristocrático que desde<br />

pequena a ensinaram a sorrir e que misturava arrogância com piedade,<br />

numa salada que no último quarto daquele século alguns já estavam<br />

começando a achar indigesta. A marcha era enriquecida por uma<br />

música celestial que vinha detrás de um biombo de motivos<br />

achinesa<strong>dos</strong>, posto num <strong>dos</strong> cantos da sala. O anteparo tinha a<br />

asséptica função de ocultar a mulatice <strong>dos</strong> músicos das vistas sensíveis<br />

<strong>dos</strong> ilustres convida<strong>dos</strong>. Proteção honestamente desnecessária já que<br />

muitos ali tinham em belas negras sestrosas as mães de seus queri<strong>dos</strong><br />

filhos bastar<strong>dos</strong>.<br />

Do lado oposto da porta, por onde mãe e filho entraram, havia um<br />

pequeno altar com uma cruz em resplendor e, do lado, uma pia<br />

batismal em latão luzente, trabalhado em relevos caprichosos. Apesar<br />

do passo lento, a jovem mãe não levou mais do que alguns segun<strong>dos</strong><br />

26


para cumprir seu trajeto e se postar do lado do marido que tinha se<br />

deslocado para o altar, assim que a travessia começou.<br />

A partir daí a cerimônia correu demorada plena de rezas e louvações em<br />

precioso latim que o pequeno neocristão suportou com menos<br />

inquietação do que alguns <strong>dos</strong> presentes.<br />

No meio da cerimônia um grupo circunspecto apesar de formado<br />

por jovens na flor da idade, tomou discretamente um <strong>dos</strong> cantos do<br />

salão e, após o sinal do pároco do Pilar do Ouro Preto, oficiante do<br />

batismo, passou a entoar uma peça barroca de autor local autodidata.<br />

Era o prestigiado coral <strong>dos</strong> seminaristas de Mariana que, a despeito de<br />

não poder, naquele instante, contar com o fundo melodioso do<br />

magnífico órgão da sua catedral, como de hábito; encantava os<br />

presentes e elevava ao máximo o clímax divino da celebração.<br />

Prenunciando o fim próximo da cerimônia, Alvarenga Peixoto, que<br />

estava ao lado <strong>dos</strong> padrinhos e que era exatamente a outra personagem<br />

a quem estava reservado o destaque daquele raro encontro, apalpou<br />

discretamente a algibeira da véstia. Queria ter certeza de encontrar ali<br />

um maço de papéis. Sentindo encontrar o que buscava relaxou. Lançou<br />

um olhar a Bárbara que estava a seu lado e sorriu. Foi o tempo exato<br />

que o governador levaria para se adiantar um pouco em direção à<br />

plateia e anunciar que, a partir daquele instante, ela seria brindada com a<br />

récita de um poema que o nobre poeta de São João del Rei, notório<br />

encomiasta, havia dedicado ao seu filho e que encerraria a celebração do<br />

batizado. Seguiram-se palmas educadas enquanto o pequeno<br />

homenageado ensaiava um choro discreto e que logo foi apaziguado<br />

pelo sacolejo competente da mãe.<br />

Ao compor a peça Alvarenga copiava seu colega Tomás Antônio<br />

Gonzaga que fizera o mesmo, dedicando um de seus poemas ao filho<br />

do visconde de Barbacena, em Lisboa, anos antes.<br />

A ode do ex-ouvidor do Rio das Mortes exaltava as qualidades da terra<br />

brasileira, rica e capaz de servir de berço para nobres como o filho do<br />

futuro conde de Cavaleiros, mas também capaz de gerar e abrigar gente<br />

humilde e corajosa, exortada a assumir seus destinos e os bens da sua<br />

terra. Alguns chegaram a dissuadir Alvarenga quanto a algumas<br />

passagens do poema, achando seu conteúdo um tanto impróprio para<br />

glorificar o filho de um nobre português, afinal representante da quase<br />

sempre incômoda real vontade. Mas o poeta confiava na boa<br />

receptividade do governador, entusiasta que era das potencialidades do<br />

país que, em essência, era do que o poema tratava. Acreditava, como<br />

27


seus ilustres colegas da alta casta da capitania, que com pitadas de<br />

beleza e elegância não era difícil agradar os governadores, provenientes<br />

das nobres linhagens portuguesas, quase sempre sequiosos de amenizar<br />

as agruras da vida na colônia com um pouco de arte e fineza. Além do<br />

mais, nenhuma ideia podia chocar ou ofender se fosse expressa com<br />

beleza e com amor. Essa avaliação despreocupada e leviana ainda<br />

custaria a vida ao nobre poeta e a muitos <strong>dos</strong> seus colegas. Mas, naquele<br />

instante, o dr. Alvarenga Peixoto, futuro coronel da Cavalaria <strong>dos</strong><br />

Auxiliares do Rio Verde, estava tranqüilo e confiante e declamou com<br />

entusiasmo seu poema, acentuando com voz sublinhada o que queria<br />

que a plateia guardasse como passagem de destaque da sua obra e que,<br />

indubitavelmente, no seu âmago continha um entusiasmado brado<br />

nacionalista, mas convenientemente amenizado por um certo orgulho<br />

monarquista.<br />

Ele estava exultante, mal contido nos limites do seu espírito<br />

agitado e brincalhão. Tinha especial motivo para se sentir glorioso<br />

naquele dia, inclusive porque seu poema fora escolhido para ser<br />

declamado na ocasião, suplantando um poema de Cláudio Manuel da<br />

Costa composto para a mesma celebração. Mas o encômio de<br />

Alvarenga tinha sido considerado mais vibrante, mais colorido e<br />

certamente mais polêmico. Prevaleceu sua reconhecida e inovadora<br />

competência laudatória, insuperável nesse campo tão disputado<br />

naqueles tempos.<br />

O poema de Cláudio, de fato, era um tanto rebuscado e cheio de<br />

resquícios sau<strong>dos</strong>istas <strong>dos</strong> tempos de Portugal. Falava de coisas como<br />

uma certa inveja que o rio Tejo podia ter do pequeno nobre ter nascido<br />

à beira do distante e turvo Ribeirão do Carmo. Tais como:<br />

Gênios do pátrio Rio,<br />

Eu já vos chamo, eu já vos desafio<br />

A dar mil provas de um prazer sincero.<br />

A empresa de vós fio,<br />

Nem despojar-vos dessa glória quero;<br />

Não diga o Tejo que a ventura é sua,<br />

Ou que a sorte feliz a faz comum. 22<br />

22 Ode contida nas Poesias Manuscrita (A Poesia <strong>dos</strong> Inconfidentes).<br />

28


Alvarenga conseguiu produzir coisa mais moderna e arejada e foi o<br />

preferido. 23<br />

E assim, embalado pela escolha, o poeta avançou devagar até o<br />

centro da sala, tirou calmamente o maço de papéis do bolso,<br />

desdobrou-o com preguiça, olhou em círculo e desfibrou, interrompido<br />

por palmas de quando em quando:<br />

Bárbaros filhos destas brenhas duras,<br />

Nunca mais recordeis os males vossos;<br />

(...)<br />

Que os heróis das mais altas cataduras<br />

Principiam a ser patrícios nossos;<br />

E o vosso sangue, que esta terra ensopa,<br />

Já produz frutos do melhor da Europa.<br />

(...)<br />

Que importa que José Americano<br />

Traga a honra, a virtude e a fortaleza<br />

De altos e antigos troncos portugueses<br />

Se é patrício esse ramo <strong>dos</strong> Menezes?<br />

Quando algum dia permitir o Fado<br />

Que ele o mando real moderar venha,<br />

E que o bastão do pai, com glória herdado,<br />

Do pulso invicto pendurado tenha,<br />

Qual esperais que seja o seu agrado?<br />

Vos experimentareis como se empenha<br />

Em louvar estas serras e estes ares<br />

E venerar, gostoso, os pátrios lares. 24<br />

23 Mas Cláudio Manuel da Costa não se deu por vencido ao ter o seu poema preterido<br />

e acabou produzindo uma outra peça, agora para d. Maria José, a mãe do pequeno<br />

José Tomás, onde elegantemente reduziu o pimpolho a uma certa mediocridade.<br />

Senão vejamos:<br />

Contenta-te <strong>dos</strong> Loiros, que roubastes,<br />

Já que a formosa Mãe na selva ideia<br />

De vencer se gloreia:<br />

Este triunfo às tuas glórias baste.<br />

Quanto infeliz tu foras se Maria<br />

Concorresse das Deusas na Porfia.<br />

(Ode in Poesias Manuscritas)<br />

29


(...)<br />

Era uma ode um tanto complexa que misturava as riquezas da terra<br />

pátria com a esperança de justiça e glória para seus rudes filhos, agora<br />

irmãos de outros filhos, nobres seres de sangue azul, fortes mas<br />

modera<strong>dos</strong>. Mas to<strong>dos</strong> pareciam entender isso muito bem. Quem sabe<br />

não teria sido mesmo a confiança nesses versos que embalaria sonhos<br />

futuros de uma república que acomodasse fidalgos de jovem casta.<br />

Um processo trágico e confuso já tinha então<br />

irremediavelmente começado. Dele estaria longe o pequeno Jose Tomás<br />

de Menezes, o nobre português nascido em Vila Rica, adormecido no<br />

colo da mãe e do brado apaixonada do poeta, nada podendo ouvir<br />

naquele instante.<br />

QUANDO O VISCONDE DECIDE QUE NÃO HAVERÁ<br />

BATIZADO<br />

O visconde de Barbacena andava muito inquieto nos últimos dias.<br />

Sua ansiedade já tinha sido notada pela viscondessa. Num comentário<br />

sutil ela já o tinha feito saber que sua inapetência e insônia saltavam aos<br />

olhos e a preocupavam. Acostumada, contudo, a ser muito discreta,<br />

raras vezes o interpelava sobre o que quer que fosse. Não poderia ser<br />

diferente sobre os motivos da sua atual temporada de noites mal<br />

dormidas e a ausência de tempo e gosto para se deixar à mesa<br />

demoradamente, saboreando as carnes exóticas, doces e frutas da<br />

região, conversando com os amigos, um <strong>dos</strong> seus hábitos mais<br />

preza<strong>dos</strong>. Afinal, na sua destacada posição, grandes responsabilidades<br />

tinham que ser assumidas a toda hora e a viscondessa já estava<br />

habituada a isso.<br />

Desde a partida de Lisboa ela tinha sido advertida do peso do fardo<br />

das coisas da administração do reino no ultramar e já havia se resignado<br />

em compartilhá-las com calma e em silêncio. Assim, apenas se<br />

conformava em vê-lo preocupado mais uma vez sem poder saber<br />

exatamente a razão. Ele próprio se empenhava em deixá-la longe de<br />

24 Canto Genetlíaco.<br />

2<br />

30


qualquer problema, poupando-a de aborrecimentos que pudessem<br />

prejudicar ainda mais sua frágil saúde.<br />

Mas desta vez era diferente. Algo incomum estava acontecendo.<br />

Tanto que ele mesmo tomou a si o encargo de comentar com ela as<br />

razões da sua agitação.<br />

O verão do encontro <strong>dos</strong> anos de 1788/89 vinha sendo<br />

especialmente chuvoso. A estação das águas se mostrava copiosa e no<br />

mês de março já se podia imaginar que não restava mais chuva para<br />

cair. Mas ela continuava abundante, fechando o resto da estação sem<br />

mostrar sinais de esgotamento. Contudo, naquela noite não chovia. Ao<br />

contrário, estava quente e abafado e, assim, Barbacena e a viscondessa<br />

estavam senta<strong>dos</strong> próximos a uma das janelas do salão, tentando pescar<br />

um pouco do frescor <strong>dos</strong> ares da noite. Sob a luz de um rico candelabro<br />

ela fingia ler e o observava sutilmente enquanto ele terminava seu chá.<br />

Não era uma ocasião comum pois, normalmente, após o jantar ele se<br />

fechava sozinho ou com algum convidado na biblioteca enquanto ela<br />

ficava na sala onde agora estavam, lendo ou fazendo algum serviço de<br />

Penélope, muito nobre e pouco útil. Os convida<strong>dos</strong> andaram raros nas<br />

últimas semanas e assim também naquela noite.<br />

O chá estava sendo sorvido devagar. Na verdade ele estava<br />

procurando um certo momento para iniciar a conversação com a<br />

mulher que, percebendo a intenção do marido de lhe dizer alguma<br />

coisa, paciente aguardava.<br />

Mas não foi preciso muito tempo mais. O governador engoliu a<br />

última porção do chá, estalou a língua grossa pelo doce da rapadura<br />

usada para adoçar o líquido, colocou a xícara rui<strong>dos</strong>amente no pires e<br />

este sobre o aparador. Levantou-se e se aproximou da viscondessa que,<br />

naquele instante, tirou os olhos do livro e o fitou.<br />

- Senhora, coisas graves estão prestes a acontecer – disse<br />

solenemente.<br />

Aquelas palavras em princípio não impressionaram a mulher pois era<br />

exatamente o que ela esperava ouvir. Assim, apenas aguardou a<br />

sequência do comunicado do marido.<br />

- Esta capitania está em vias de entrar em grande ebulição, de<br />

consequências danosas para nós se eu não agir acertadamente.<br />

31


Isso dito silenciou por uns instantes. Em passos lentos foi até a<br />

janela e olhou o pátio escuro, iluminado apenas pela luz tremulante de<br />

um archote. Manteve o silêncio e mergulhou num retrospecto das<br />

razões que o trouxeram à capitania de Minas Gerais em mea<strong>dos</strong> do ano<br />

de 1788.<br />

Ela já estava acostumada ao tom solene, levemente trágico, usado<br />

pelo marido quando, eventualmente, lhe participava algum fato político<br />

especial em que estivesse envolvido. Foi assim quando ele teve que<br />

renunciar à Secretaria da Academia de Ciências de Lisboa, o que lhe<br />

causou enorme pesar e o deixou acabrunhado por algum tempo,<br />

maldizendo velhas ideias mas sem coragem de correr risco pelas novas.<br />

Mas desta vez o tom da comunicação pareceu a ela carregado de<br />

uma pesada emoção que não era propriamente usual. Ela sabia que, no<br />

fundo, o que aquela entonação grave que ele gostava de usar visava<br />

mesmo era valorizar a natureza das suas responsabilidades perante a<br />

Coroa portuguesa. Especialmente no caso da capitania das Minas onde,<br />

como governador, aportara há alguns meses com a espinhosa<br />

incumbência de cobrar impostos incobráveis e executar poderosos<br />

devedores contumazes. Esse, de qualquer forma, era o maior desafio a<br />

que já fora chamado, a qualquer tempo, para o real serviço.<br />

Aliás, o humor do visconde se deteriorou muito desde que ele<br />

assumiu o governo. A viscondessa descobriu no marido uma rudeza e<br />

introspecção que não conhecia. Mesmo com os filhos, para os quais<br />

sempre desanuviava o semblante com certa facilidade, eram frequentes<br />

as manifestações de mau-humor e impaciência. Mas ela não se queixava.<br />

Estava certa que aquilo tudo era passageiro e de volta a Portugal, bem<br />

cumprida a missão que recebera, as recompensas seriam duradouras e<br />

benfazejas para toda a família. Exato como ele prometera. Foi para isso<br />

que havia se candidatado ao cargo e fez com que sua parentalha se<br />

empenhasse para que ele fosse aprovado pelo Ministério.<br />

O mais marcante episódio da vida de Barbacena teve princípio numa<br />

tarde fechada e muito fria em janeiro do ano anterior. O ministro Melo<br />

e Castro tinha convocado o visconde e outros nobres indica<strong>dos</strong> para<br />

assumirem o governo de algumas das principais capitanias do vice-reino<br />

do Brasil. O objetivo era passar-lhes as instruções de como conduzir as<br />

linhas mestras de suas novas administrações no ultramar. O pacote<br />

escrito com as instruções sobre o governo da capitania das Minas era o<br />

mais alentado de to<strong>dos</strong> e foi entregue por último. O ministro pretendia<br />

32


gastar com Barbacena o tempo que fosse necessário até que tudo<br />

ficasse muito bem entendido e assumido. Eram muitos os desafios.<br />

Havia pendências antigas que se acumulavam acentuando a penúria da<br />

Real Fazenda. Havia os destroços da administração de Pombal que os<br />

ministros de d. Maria I queriam ainda evidenciar e corrigir, denegrindo<br />

de vez a imagem histórica do polêmico marques, passa<strong>dos</strong> dez anos de<br />

seu afastamento do poder. Mas já era mesmo patente, desde alguns<br />

anos, que a economia de Minas Gerais e a atividade da mineração<br />

precipitavam numa decadência irreversível. O ministro Melo e Castro,<br />

contudo, sempre esteve convencido de que essa realidade independia<br />

<strong>dos</strong> desman<strong>dos</strong> de um ou outro ministro. Afinal aquelas nobres<br />

criaturas eram guindadas ao poder por Sereníssimas Majestades, do alto<br />

da luminosidade de seus tronos. Na sua cabeça tenaz de nobre<br />

português da velha escola, depositário da mais sólida confiança da<br />

rainha, não era a economia que definhava mas sim o contrabando e a<br />

sonegação que cresciam descontroladamente, provocando uma queda<br />

acentuada na arrecadação principalmente a partir de 1767. Passa<strong>dos</strong><br />

anos ele continuava convencido de que Minas era essencialmente a terra<br />

de padres contrabandistas, magistra<strong>dos</strong> interesseiros e contratadores<br />

caloteiros. Permeando tudo isso, juntas da fazenda, intendências do<br />

ouro e câmaras, cheias de homens omissos e pusilânimes que<br />

contribuíam fortemente para que a situação tivesse chegado a tal termo.<br />

O passivo acumulado de impostos sonega<strong>dos</strong> daria para encher um<br />

navio: perto de 550 arrobas de ouro, fora as dívidas monumentais <strong>dos</strong><br />

contratos de entradas e dízimos. O ministro estava obcecado com a<br />

questão e firmemente disposto a ressarcir a Fazenda Real <strong>dos</strong><br />

desman<strong>dos</strong> das administrações da mais rica capitania do Brasil. Um<br />

relatório do secretário da Junta da Fazenda de Vila Rica, enviado<br />

naquele ano ao ministro por trás das costas do governador Cunha<br />

Menezes, alertara e dera números ao estado lastimável da arrecadação e<br />

das dívidas para com o Real Tesouro. Só os dois principais<br />

contratadores inadimplentes, João Rodrigues de Macedo e Joaquim<br />

Silvério <strong>dos</strong> Reis deviam quantia equivalente às emissões monetárias de<br />

Portugal durante dois anos. Essa era a questão mais grave aos olhos do<br />

ministro, mas a oportunidade se apresentava conveniente também para<br />

as câmaras lançarem uma derrama sobre o povo para cobrar as tais 550<br />

arrobas do quinto atrasado. Melo e Castro sabia que o lançamento da<br />

derrama era jurídica e politicamente muito complicado e que Sua<br />

Majestade não queria que ela fosse enfiada goela abaixo da população.<br />

Mas via nisso tudo uma boa oportunidade para criar um fato político<br />

33


para sacudir o marasmo fiscal de Minas Gerais e moralizar a<br />

administração. Fiel ao seu estilo, o implacável ministro agregava à<br />

medida a convicção de que, mesmo com to<strong>dos</strong> os melindres presentes,<br />

a questão tinha que ser conduzida com mão forte.<br />

Barbacena fora o escolhido para a difícil missão. As instruções<br />

recebidas eram claras, sua ação deveria ser dura e implacável. Seu<br />

sucesso ou fracasso poderiam ser facilmente medi<strong>dos</strong>, não haveria<br />

espaço para enrolação nem para firulas políticas procrastinadoras, como<br />

seus antecessores tinham feito. A derrama até poderia ser<br />

eventualmente evitada, mas isso seria visto claramente como prova de<br />

fraqueza, de opção pela via mais simples, de incompetência<br />

administrativa, quase um verdadeiro crime. 25 Incomodava ao ministro<br />

lembrar que, até então, em apenas duas ocasiões tinha sido usado o<br />

expediente de arrecadação <strong>dos</strong> atrasa<strong>dos</strong> por força de uma derrama. A<br />

execução <strong>dos</strong> devedores, em especial, não admitiria qualquer desvio ou<br />

concessão. Teriam que ser executa<strong>dos</strong> ao rigor da lei e com o melhor<br />

resultado possível para a Coroa, arrastando fiadores, bens e o que mais<br />

tivessem. O mesmo com a moralização do exército, descaracterizado<br />

pelo excesso de regimentos auxiliares, eivado de fraudes e<br />

profundamente comprometido com contrabandistas e criminosos<br />

contumazes. Para o novo governador estavam claramente postas as<br />

chances de vir a ser o primeiro conde de Barbacena e não apenas o<br />

sexto visconde, título divino, mas que recebera por herança sem feitos<br />

de melhor registro. 26<br />

Enquanto olhava o pátio do palácio, o visconde relembrou cada<br />

detalhe daquela tensa reunião com o severo ministro, o conteúdo das<br />

suas instruções lidas e relidas dezenas de vezes, o receio de fracassar<br />

25 Dizia o ministro no parágrafo 79 das suas instruções de governo a Barbacena: E<br />

ainda que nesta parte não deixarão de ser fundadas as suas representações (ou seja <strong>dos</strong> habitantes de<br />

Minas reclamarem contra a dureza da derrama), V.S. se limitará a ser um exato e fiel executor das<br />

mesmas leis; que o alvará de 3 de dezembro de 1750 é a lei que estabeleceu o método atual da<br />

contribuição do quinto e o lançamento das derramas, na mesma forma que os povos de Minas o<br />

requereram e tomaram sobre si o encargo das ditas derramas, e que nesta demonstrativa certeza se<br />

constituiria V.S. um transgressor da dita lei se não tivesse o mais vigilante cuidado na inviolável<br />

observância de todas e cada uma das suas partes. ADIM - v. 8 – pág. 83.<br />

26 O título lhe seria concedido em 1816, depois de ter sido veador <strong>dos</strong> interesses da<br />

princesa Carlota Joaquina e antes de ser nomeado conselheiro de estado.<br />

34


frente a tão tremendo desafio, principalmente sabendo do afeto que o<br />

ministro nutria pela viscondessa de Barbacena, sua dileta sobrinha.<br />

Repassou to<strong>dos</strong> os acontecimentos que o envolveram num turbilhão<br />

irracional e perigoso desde que assumira o governo e, ao final daquela<br />

rápida mas crucial reflexão, sorriu discretamente. Voltou-se, caminhou<br />

sereno em direção à mulher, inclinou-se, pegou sua mão e disse<br />

enigmaticamente:<br />

- Não haverá batizado! 27<br />

A viscondessa, surpresa com o gesto e mais ainda com a frase do<br />

marido, permaneceu muda. Pareceu a ela que naquele instante, não mais<br />

do que de repente, ele tinha encontrado a solução de um grande e<br />

tormentoso problema.<br />

Na verdade tinha sido quase isso mesmo. Há algumas semanas que<br />

o governador vinha fermentando os termos de uma decisão difícil e<br />

arriscada. Mas naquele exato instante, num relance iluminado,<br />

mergulhado na mais pura e santa paz ao lado da mulher, ele finalmente<br />

se convencera do que exatamente teria que fazer naquela peculiar<br />

circunstância em que se metera. A partir daquele ponto sentiu-se pleno<br />

de coragem e serenidade para seguir em frente sem vacilações e desvios,<br />

decepando a cabeça da medusa que ganhara de presente e que vinha<br />

alimentando. Daí a razão da sua súbita mas justificável mudança de<br />

humor. Ele acabava de descobrir como reverter os riscos de um jogo<br />

em que entrara um tanto levianamente e que o envolveu rapidamente.<br />

Convenceu-se ter encontrando, enfim, a mais perfeita justificativa pelo<br />

não cumprimento de sua missão, de resto incumprível. Sentiu-se<br />

aspergido pelo mais intenso <strong>dos</strong> sentimentos que só aos grandes<br />

políticos é dado experimentar: o prazer brotado da habilidade de<br />

transformar um possível revés num grande triunfo. Tudo isso fez o seu<br />

discreto riso se abrir e virar uma nobre, educada, mas sonora gargalhada<br />

a alguns centímetros do rosto da mulher, naquele instante coberto por<br />

uma expressão claramente estupefata, indigna de uma legítima<br />

marquesa de Sabugosa. Mas ela manteve a fleuma e não demoraria a<br />

transmudar o semblante para um terno olhar de admiração. Aquele<br />

27 Como se recorda, a senha para eclosão da Inconfidência Mineira pelas ruas de Vila<br />

Rica era “Tal dia é o batizado”.<br />

35


mesmo que lhe garantiria uma longa e bem sucedida vida conjugal, ao<br />

longo da qual nossa viscondessa brindaria o marido com uma prole de<br />

onze barbaceninhas, alguns deles brasileiros legítimos de sangue azul.<br />

3<br />

QUANDO O VISCONDE DEMONSTRA DENODO NO<br />

CUMPRIMENTO DA SUA MISSÃO<br />

Luiz Antônio Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro – o<br />

visconde de Barbacena - tinha sido nomeado para o governo de Minas<br />

em 1786 em substituição ao rude, arrogante e exageradamente corrupto<br />

governador Cunha Menezes. O ministro Melo e Castro queria começar<br />

uma nova era na capitania fazendo a região das Minas - a “menina <strong>dos</strong><br />

olhos” do Ministério - retomar o antigo lugar de celeiro inesgotável do<br />

tesouro português, capaz de equilibrar indefinidamente o monumental<br />

desnível histórico <strong>dos</strong> negócios do reino com a Inglaterra e sustentar<br />

um império agonizante. 28 Passa<strong>dos</strong> quase dois anos, porém, o visconde<br />

ainda não tinha assumido o seu honroso cargo. Em parte o atraso fora<br />

devido a uma enfermidade da viscondessa que retardara a viagem ao<br />

Brasil. Mas de qualquer forma, este atraso permitiu que ele pudesse ser<br />

cuida<strong>dos</strong>amente preparado para a missão pelo ministro, que tinha por<br />

ele um especial interesse. Aliás, o visconde estava necessitando de uma<br />

reabilitação de sua imagem, muito desgastada desde o episódio da<br />

secretaria da Academia de Ciências de Lisboa, a que ele teve que<br />

renunciar devido a delicadas divergências políticas decorrentes de certas<br />

orientações ideológicas da mesma, certamente avançadas, mas, por isso<br />

mesmo, muito malvistas por alguns seguimentos poderosos do governo<br />

português. O próprio ministro tinha influenciado na decisão de<br />

Barbacena em se afastar daquela convivência excessivamente iluminada.<br />

Certamente havia feito algum tipo de barganha com ele, apostando<br />

algumas fichas do seu prestígio pessoal nesse lance. Por tudo isso, Melo<br />

e Castro muito esperava do desempenho do visconde no governo de<br />

Minas. Seria uma forma de se estabelecer um trampolim para uma<br />

28<br />

A bem da verdade, desde 1785 o balanço <strong>dos</strong> negócios luso-britânicos já estava<br />

equilibrado e em 1791 até penderia a favor de Portugal, mas aí, substancial parte do<br />

ouro brasileiro já estava nos cofres londrinos, pronto para lastrear a ampliação e<br />

modernização <strong>dos</strong> teares de Manchester.<br />

36


destacada carreira subsequente na metrópole que ele, ministro, se<br />

comprometera a patrocinar, sensibilizado por certos apelos da família.<br />

Mas mesmo com uma boa <strong>dos</strong>e de proteção assegurada, o visconde de<br />

Barbacena tinha que fazer a sua parte.<br />

Finalmente, devidamente instruído e reinstruido sobre o que fazer à<br />

frente da capitania, no dia 11 de julho de 1788 o visconde tomou posse<br />

solene na matriz de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, perante<br />

autoridades e povo. Então se cumpria um velho e caro ritual,<br />

indispensável para renovar a lealdade <strong>dos</strong> súditos de ultramar<br />

mantendo-os embeveci<strong>dos</strong> com a autoridade da Coroa. E<br />

verdadeiramente foi assim naquele dia. Tiradentes estava no Rio com<br />

interesses de turista, o padre Toledo estava em São José atordoando<br />

seus paroquianos e Álvares Maciel estava fazendo cálculos e desenhos.<br />

Portanto, não havia ainda cochichos infiéis. Mesmo porque, era tempo<br />

em que ninguém ainda tinha planos concretos de insurreição. De sorte<br />

que, não obstante os ares antigos de descontentamento que sopravam<br />

sobre Minas viessem num crescendo, a sagração da posse correu em<br />

santa paz e conforme os veneran<strong>dos</strong> costumes.<br />

Embora tivesse chegado a Minas sem a família, o governador não<br />

tinha tido tempo de se sentir só. Tão logo chegou uma das primeiras<br />

visitas que recebeu foi a do ouvidor Tomás Antônio Gonzaga que<br />

passou a ser companhia constante, ciceroneando o governador e o<br />

introduzindo nos negócios de estado. Assim, o ouvidor havia<br />

coordenado a romaria das apresentações de Barbacena à sociedade<br />

requintada de Vila Rica, uma das mais cultas de toda a colônia. Aliás, o<br />

dr. Gonzaga dispunha de todo o tempo do mundo para isso, pois não<br />

tinha mesmo muito o que fazer. Nomeado para um cargo na Relação da<br />

Bahia, o nobre desembargador permanecia em Vila Rica há alguns<br />

meses, limpando gavetas à espera do seu substituto e do casamento<br />

com Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Depois iria assumir<br />

efetivamente o seu cargo e constituir nova família sob o abençoado solo<br />

baiano onde passara boa parte da juventude. Assim então, suas<br />

ocupações principais naqueles dias amenos eram: despachar coisas mais<br />

urgentes da ouvidoria, conversar com o governador, fazer versos de<br />

amor ou de escárnio e bordar seu traje de casamento como era costume<br />

na época. Sendo ele um vai<strong>dos</strong>o afamado, punha muito empenho nesse<br />

mister costureiro e, como mais tarde diria aos juízes da devassa, até<br />

deixava de participar de certas conversas havidas em sua casa, entretido<br />

com a tarefa, recolhido no silêncio do seu quarto, androceu invertido.<br />

37


Assim as coisas corriam devagar e ele podia galgar as ladeiras de Vila<br />

Rica com toda a calma e romantismo. E ainda sobrava tempo para<br />

umas cavalgadas com o visconde nos arredores do palácio da Cachoeira<br />

do Campo. Está certo que o governador e o poeta nem chegaram a ser<br />

amigos em Portugal, mas trocaram algumas cartas e já se conheciam há<br />

algum tempo. Ademais, já tinha recebido alguns encômios do poeta.<br />

Mas, de toda forma, Gonzaga era uma das poucas pessoas de Vila Rica<br />

que já tinha tido contato anterior com o visconde. Em decorrência era<br />

quem tinha as melhores credenciais para servir de companhia ao dito<br />

cujo naquele meio estranho, ainda longe da família. Assim, bateu-lhe à<br />

porta uma oferta para ocupar um cargo de velho amigo que ele assumiu<br />

com incontido prazer, mesmo porque, a chance era imperdível.<br />

No dia da posse do governador o dr. Gonzaga tinha feito questão de<br />

garantir que ele fosse cercado pelas grandes personalidades da capitania,<br />

seus amigos, até como forma de achacar seu inimigo mortal, o<br />

governador que saia, Cunha Menezes; apertando ainda mais sobre ele o<br />

laço do isolamento próprio de fim de mandato. Nem precisava de<br />

empenho neste particular pois o ex-governador era muito antipatizado<br />

e, assim que saiu a notícia da chegada de Barbacena, ele já estava sendo<br />

esquecido mesmo pelos colaboradores mais chega<strong>dos</strong>. Até mesmo o<br />

visconde se manteve distante de seu antecessor, preservando-se da sua<br />

má-fama. Portanto, to<strong>dos</strong> responderam ao chamamento do<br />

desembargador Gonzaga e até quem não tinha sido chamado correu até<br />

a matriz para a cerimônia de posse, afinal um raro momento.<br />

Não havia colunista social naquela época e nem mesmo um jornal<br />

em todo o vice-reino do Brasil, mas se houvesse um o acontecimento<br />

teria sido o assunto dominante. Então não teriam faltado referências à<br />

presença do riquíssimo e discreto contratador João Rodrigues de<br />

Macedo, 29 hospedeiro de Alvarenga no magnífico palacete,<br />

recentemente concluído no final da sofisticada rua São José e conhecido<br />

como “Casa do Contrato”. Edificado entre o quartel da cavalaria e a<br />

29 João Rodrigues de Macedo – Suposto pela Devassa não consta coisa que o faça suspeitoso, eu não<br />

deixo de presumir que ele sabia, e talvez patrocinava o projeto; é filho do reino, e muito bem<br />

conceituado e benquisto; mas deve grandes somas à Fazenda Real, de contratos de entradas; sabendo<br />

que o Alvarenga era muito gastador e caloteiro, que nada pagava, estava-lhe assistindo com dinheiros,<br />

que já passava de quarenta mil cruza<strong>dos</strong> (DCT).<br />

38


cabeceira do ribeirão do Ouro Preto, o imponente casarão se rivalizava<br />

com o próprio palácio do governo, ali perto. Até um pequeno jardim<br />

botânico tinha sido construído ao fundo, valorizando e preservando a<br />

flora natural da serra. Para isso tinham sido requisita<strong>dos</strong> os préstimos<br />

do dr. Joaquim Veloso de Miranda, notável naturalista mineiro de fama<br />

mundial. Tudo muito digno do grande contratador. Macedo era o<br />

homem mais rico da capitania e dele to<strong>dos</strong> queriam ser amigos. Não era<br />

diferente com o governador que estava assumindo e que logo se<br />

aproximaria com pedi<strong>dos</strong> de favores. E nisso Gonzaga e Alvarenga<br />

muito puderam ajudar. A amizade entre ricos contratadores e<br />

governadores era sacramentada pelos costumes desde os tempos do<br />

marquês de Pombal, autor da famigerada ideia de terceirizar a<br />

arrecadação de impostos nas colônias portuguesas. Não obstante, essa<br />

promiscuidade era sempre prato cheio para as intrigas <strong>dos</strong> parti<strong>dos</strong><br />

inimigos. Mas tudo se acomodava e no fundo ninguém saia perdendo<br />

naquele jogo matreiro.<br />

Concluída a cerimônia da posse to<strong>dos</strong> quiseram ver e serem vistos<br />

no salão oval da nave da matriz do Pilar, especialmente nas majestosas<br />

tribunas de perfil abaulado. Era boa ocasião para pequenos reca<strong>dos</strong> e<br />

troca de gentilezas, essas coisas mineiras muito antigas. Alvarenga até se<br />

aproveitou para convidar Gonzaga para ser padrinho de seu filho cujo<br />

batizado deveria acontecer no início de outubro em São José del Rei e<br />

daria muito que falar como veremos depois. O pedido foi prontamente<br />

aceito, mesmo porque, coincidia com o encerramento <strong>dos</strong> afazeres de<br />

Gonzaga na ouvidoria e ele pretendia tirar alguns dias de folga antes de<br />

entrar nos preparativos finais para seu casamento e a mudança para a<br />

Bahia.<br />

Para cumprimentos ao governador formou-se uma longa fila. Sua<br />

Excelência se postou no vestíbulo da matriz enquanto pessoas ilustres<br />

das diversas comarcas, magistra<strong>dos</strong>, militares, senhorinhas e prela<strong>dos</strong> se<br />

perfilaram pela rua à fora, até o chafariz da Ponte Seca, dezenas de<br />

metros adiante. Gonzaga permaneceu próximo ao governador e<br />

também foi muito cumprimentado. No geral era muito bem quisto e,<br />

certamente, respeitado pelos próprios inimigos. Ademais, tinha fama de<br />

estar ligado a certos pasquins que começavam a circular pela vila, muito<br />

39


disputa<strong>dos</strong> e onde ninguém queria se ver satirizado concorrendo com o<br />

Fanfarrão Minésio. 30<br />

Assim que terminou o imperdível e disputado beija-mão, Barbacena<br />

chamou o ouvidor a um canto e o convidou a acompanhá-lo até o<br />

palácio da Cachoeira do Campo. Era lá que pretendia morar com a<br />

família. Mulher e filhos permaneceram no Rio de Janeiro e deveriam<br />

chegar por volta do mês de setembro, quando tudo estivesse<br />

devidamente acomodado. O palácio passava por uma pequena reforma<br />

para torná-lo mais doméstico. Até então vinha sendo usado<br />

escusamente por Cunha Menezes que gostava de patrocinar ali<br />

memoráveis bacanais, muito concorridas, para grandes e pequenos,<br />

brancos, negros e mulatos, irmana<strong>dos</strong> em orgias fraternais. Mas o<br />

visconde já o estava utilizando para eventuais encontros políticos mais<br />

discretos. Assim quis promover em suas dependências uma ceia<br />

reservada para alguns seletíssimos convida<strong>dos</strong>: os membros da Junta da<br />

Fazenda e seus próprios ajudantes militares, tudo muito austero e<br />

cristão.<br />

Gonzaga aceitou o convite com enorme prazer. Na verdade ele<br />

ansiava por aquele momento pois estava ensaiando uma conversa muito<br />

particular e séria com o governador, assim que ele tomasse posse. Era<br />

portador de uma mensagem de alguns de seus amigos, algo que os<br />

políticos brasileiros de hoje chamariam de “balão de ensaio”. Embora<br />

não tivesse interesses diretos envolvi<strong>dos</strong>, aceitara sem vacilar a missão<br />

de retransmitir o recado do grupo ao visconde pois reconhecia ser a<br />

pessoa mais indicada para isso, da<strong>dos</strong> seus laços antigos com o nobre<br />

português, agora virando amizade. Isso desde seus bons tempos em<br />

Lisboa e Coimbra, gozando de uma certa proximidade com a alta<br />

linhagem portuguesa por influência de seu pai, respeitado magistrado<br />

no reino, apesar de ser brasileiro. Naquele tempo gostava de mandar<br />

cartas aos nobres, não raro embutindo nelas alguma ode de louvor e<br />

admiração como era moda então.<br />

Reconhecia que a missão era delicada, mas confiava na sua<br />

habilidade em desempenhá-la bem. Não se sentia nem um pouco<br />

desconfortável, mesmo porque, pensava ser sua obrigação tentar<br />

conciliar interesses entre amigos, de resto plenamente conciliáveis.<br />

Acreditava ter nas mãos a solução de um grande problema que o<br />

30 Falo das Cartas Chilenas e do apelido do governador Cunha Menezes.<br />

40


governador deixara transparecer logo na primeira conversa entre os<br />

dois. Então ele revelara grande preocupação com o grave impacto que<br />

sua missão poderia causar na capitania. Essa missão já era conhecida da<br />

elite de Vila Rica antes mesmo de Barbacena desembarcar no Rio de<br />

Janeiro e já causava uma certa apreensão, facilmente perceptível.<br />

De fato Barbacena tinha atravessado o oceano sob grande tensão.<br />

Não conseguia se sentir tranqüilo debaixo do peso da sua incumbência.<br />

Foi uma travessia desassossegada, tanto tempo sob céu e mar sem<br />

poder comentar muito as dificuldades da sua empreitada com seus<br />

colegas governadores, nomea<strong>dos</strong> para as capitanias da Bahia e de São<br />

Paulo. Não poderia mostrar ansiedade e indecisão diante de seus pares,<br />

pois certamente eles não titubeariam em fazê-las chegar ao ministro da<br />

marinha e ultramar. Com a viscondessa não costumava mesmo<br />

comentar esse tipo de questão. Também queria poupá-la de quaisquer<br />

contrariedades dado seu adiantado estado de gravidez e aquelas<br />

complicações de saúde. Então a primeira pessoa que encontrou e com<br />

quem não sentiu receio de demonstrar eventual insegurança foi Tomas<br />

Antônio Gonzaga. Assim, logo no segundo dia em Vila Rica, o<br />

governador já crivava o ouvidor de perguntas. Queria saber que tipo de<br />

pessoas eram os principais devedores da Coroa, como eram os<br />

membros da Junta da Fazenda e das câmaras de Vila Rica, São João Del<br />

Rei, Sabará e do Serro Frio e seus respectivos ouvidores. Queria saber<br />

da situação geral das Minas e do estado de ânimo do povo. Gonzaga<br />

evitou revelar suas opiniões atiçando a ansiedade de Barbacena<br />

conforme tinha combinado com Cláudio Manuel da Costa e o dr.<br />

Diogo Ribeiro Pereira de Vasconcelos. Eles estavam curiosos de<br />

conhecer a real disposição do governador para levar sua pesada missão<br />

adiante. E mais, tinham combinado pintar-lhe um quadro tenebroso do<br />

que ocorreria se os contratadores fossem executa<strong>dos</strong> a ferro e fogo e<br />

principalmente se a derrama fosse lançada. Precisariam levá-lo a aceitar<br />

que era impossível cobrar centenas de arrobas de ouro sobre<br />

mineradores fali<strong>dos</strong>. A atribuição inicial que Gonzaga recebera era<br />

convencer o governador disso, contendo nele eventual entusiasmo<br />

exagerado com as instruções recebidas do ministério. Afinal os<br />

governadores sempre aportavam em Minas cheios de instruções e<br />

nunca chegavam a cumpri-las de fato. A ideia de influir nas disposições<br />

de Barbacena tinha sido discutida numa reunião havida na casa de<br />

Cláudio, algumas semanas antes. Desde alguns anos, uma série de<br />

ocorrências vinha incomodando as elites. Primeiro a insensibilidade de<br />

Melo e Castro com o relatório de d. Rodrigo, depois o alvará de janeiro<br />

41


de 1785 proibindo a implantação de estabelecimentos fabris, em<br />

seguida as arbitrariedades do governador Cunha Menezes e finalmente,<br />

a temerária missão do novo governador. Naquela reunião alguém<br />

lembrara que Barbacena era um letrado, uma mente aberta que tinha<br />

acesso à rainha por sua própria condição de membro de uma das casas<br />

mais nobres de Portugal. Enfim era uma pessoa esclarecida e poderosa<br />

com quem se podia e valia a pena conversar. Era a pessoa indicada para<br />

completar o que o governador d. Rodrigo de Menezes tinha começado,<br />

oito anos antes.<br />

A planejada conversação teve início logo que terminou a ceia política<br />

do governador. Gonzaga retardou sua retirada aos aposentos que lhe<br />

estavam reserva<strong>dos</strong> e Barbacena não se incomodou pois também estava<br />

desejoso de falar com ele a sós. Assim, logo que os ajudantes de ordens<br />

e os membros da Junta da Fazenda se retiraram deixando os dois como<br />

os únicos remanescentes à mesa, a palestra que até então vinha sendo<br />

muito amena, tomou um rumo mais sério. Mas quem assumiu a<br />

iniciativa foi o anfitrião. De certa forma repetiu as passagens mais<br />

marcantes da primeira conversa que tivera com o ouvidor Gonzaga,<br />

reforçando as dificuldades da sua incumbência ministerial. Embora já<br />

tivesse ouvido tudo aquilo antes, Gonzaga esperou com paciência que<br />

ele esgotasse tudo que pretendia dizer. Não teve pressa em falar e só<br />

depois de um brinde ao sucesso da administração do visconde é que<br />

entabulou a conversa que tinha ensaiado de véspera. Contou que as<br />

principais lideranças de Vila Rica o tinham incumbido de passar a ele<br />

algumas informações cruciais e que muito o ajudariam a ter sucesso à<br />

frente do governo. Desta vez foi Barbacena que ouviu com paciência.<br />

Ouviu que a execução da cobrança do quinto atrasado era impossível e<br />

temerária, que o poder <strong>dos</strong> contratadores de impostos era muito grande<br />

e que eles não estavam dispostos nem tinham condição de quitar os<br />

atrasa<strong>dos</strong> das responsabilidades de seus contratos, que as minas<br />

estavam exauridas e que a implantação de estabelecimentos fabris, o<br />

livre comércio e a dinamização da agricultura eram as verdadeiras saídas<br />

para a decadência econômica da capitania. Assim, era recomendável que<br />

ele suspendesse a derrama, negociasse a dívida <strong>dos</strong> contratadores,<br />

revisse as taxas sobre certos produtos que eram importa<strong>dos</strong> pela<br />

capitania e apresentasse um plano de recuperação das Minas Gerais,<br />

baseado na dinamização das manufaturas de ferro e na fabricação de<br />

teci<strong>dos</strong>. Lembrou que também a cultura do algodão prometia. Contou<br />

que Cláudio Manuel da Costa tinha feito um levantamento completo da<br />

42


situação econômica da capitania. Havia complementado e melhorado<br />

substancialmente o relatório que d. Rodrigo de Menezes enviara ao<br />

Ministério em 1780 acrescentando a ele um plano de ação mais realista<br />

para redenção da economia local com consequente melhoria na<br />

arrecadação de impostos que afinal era o fim último da sua missão.<br />

Recomendou que ele tratasse dessas questões diretamente com Sua<br />

Majestade, deixando de lado o ministro pois ele seria incapaz de<br />

perceber o alcance dessas medidas em vista da sua notória teimosia e<br />

visão obtusa. Finalizou dizendo que se ele concordasse em levar isso<br />

adiante teria o apoio de to<strong>dos</strong> os principais homens de Minas Gerais e<br />

poderia realizar um governo de sucesso, sem traumas e percalços.<br />

Insistiu que Melo e Castro estava redondamente equivocado com a<br />

ideia da derrama e que ela tinha um aspecto duplamente negativo, ou<br />

seja, além de não garantir a arrecadação do quinto atrasado, ainda<br />

poderia suscitar a eclosão de um motim.<br />

Barbacena ouviu tudo com muita atenção. Lembrou-se do professor<br />

Vandelli e das suas lições sobre as riquezas desprezadas da colônia. Mas<br />

se manteve calado e contido. Tinha se preparado para aquele tipo de<br />

conversa. Na verdade, em uma conversa anterior Gonzaga também já<br />

tinha antecipado a essência do que acabara de falar e ele já estava com a<br />

resposta engatilhada. Assim não levou mais do que alguns segun<strong>dos</strong><br />

para externar sua posição diante do recado. Gostaria de discutir cada<br />

ponto da proposta, mas não lhe era prudente fazê-lo. Assim se limitou a<br />

dizer que, em primeiro lugar, era inteiramente leal a Melo e Castro e<br />

tinha concordado com a missão que lhe foi confiada e em segundo, não<br />

tinha tempo para esperar que fábricas fossem implantadas e<br />

começassem a dar frutos. Afinal o mandato de um governador<br />

raramente passava de três anos. Além disso, a política econômica do<br />

reino tinha raízes muito profundas e passava por sóli<strong>dos</strong> compromissos<br />

firma<strong>dos</strong> com a Inglaterra. Acentuou que tais compromissos<br />

sustentavam a impossibilidade da existência de atividades<br />

manufatureiras nas colônias, que o alvará de 85 estava em pleno vigor e<br />

era decorrência exatamente desse tipo de ameaça. Arrematou dizendo<br />

que em três dias convocaria a Junta da Fazenda para anunciar o firme<br />

propósito de executar a cobrança das exatas 538 arrobas de ouro do<br />

quinto atrasado. Finalizou acrescentando que Gonzaga poderia se sentir<br />

inteiramente desobrigado de participar desse processo que ele,<br />

governador, entendia ser doloroso para muitos <strong>dos</strong> seus amigos.<br />

Recomendou que ele se concentrasse nos preparativos do seu<br />

43


casamento e que depois partisse para a Bahia ao lado da sua jovem<br />

esposa para dar continuidade à sua brilhante carreira de magistrado.<br />

Gonzaga nem tentou se contrapor aos argumentos do visconde.<br />

Levantou-se, despediu-se formalmente e se recolheu aos seus aposentos<br />

entre frustrado e irritado. Não conseguiu dormir mais do que alguns<br />

quartos de hora entrecorta<strong>dos</strong>. De manhã bem cedo voltou para Vila<br />

Rica sem se despedir do governador e com uma vontade danada de<br />

escrever cartas satíricas. Mas não contra Barbacena para quem ainda<br />

teria planos. Passaria os próximos três meses relativamente distante do<br />

visconde. Mas nesse período sua cabeça girou intensamente e alimentou<br />

a esperança de que ele e Barbacena ainda pudessem ficar do mesmo<br />

lado no futuro, e num projeto muito mais audacioso.<br />

4<br />

A PROPÓSITO DA CONSTRUÇÃO DOS HERÓIS<br />

Os heróis sempre nos dão muito trabalho. Nos os construímos<br />

com todo o carinho e depois eles se rebelam e teimam em ser diferentes<br />

do que planejamos. Na verdade, nós é que não somos justos, pois os<br />

construímos de forma equivocada. Juntamos uma série de atributos<br />

basea<strong>dos</strong> em condutas ideais, escoradas normalmente nos mais eleva<strong>dos</strong><br />

valores do nosso tempo e queremos que eles sejam assim. E queremos<br />

mesmo que eles tenham vivido em outros tempos e sob valores muito<br />

diferentes. A construção de heróis é um vício, não podemos viver sem<br />

eles. Eles conformam nosso ímpeto transgressor, ampliam nossas<br />

limitações, consolam nossas frustrações e agitam nosso espírito<br />

esportivo. Às vezes os criamos apenas para nos desobrigarmos de<br />

termos que ser iguais a eles. Afinal eles são heróis, divinos e distantes.<br />

Mas, às vezes fazemos o contrário, construindo-os de forma menos<br />

esmerada exatamente para que tenhamos condições de sermos iguais a<br />

eles. Mas esses heróis são muito pessoais, não têm consagração pública,<br />

são quase sub-heróis ou mesmo anti-heróis. De qualquer forma, os<br />

heróis são, sociológica e psicologicamente, muito importantes. Por isso<br />

é que eles são cria<strong>dos</strong> a torto e a direito, muitas vezes até por decreto.<br />

Mas estão sempre nos decepcionando. Na verdade eles não existem.<br />

Quando existem, apenas existem porque envidamos todo o esforço,<br />

fazendo concessões para entender e explicar certas condutas<br />

inesperadas e até inaceitáveis que praticaram contrariando o modelo<br />

que elegemos. Forçoso admitir, contudo, que esse tipo de ajuste encerra<br />

44


uma grande contradição o que nos leva, enfim, a reforçar que os heróis<br />

realmente não existem, como queríamos demonstrar.<br />

Com frequência simplesmente ocultamos as claras evidências <strong>dos</strong><br />

deslizes <strong>dos</strong> heróis. Fazemos de conta que essas coisas não foram<br />

cientificamente provadas e tratamos de manter seu heroísmo. Afinal,<br />

não existe nada mais doloroso do que a decepção com o herói.<br />

Preferimos admitir que eles são polêmicos e que os seus inúmeros<br />

inimigos é que adoram tentar mostrar que eles não eram tão heróis<br />

assim.<br />

Apesar de tudo não é difícil criá-los. Salvo alguns modelos<br />

tipicamente domésticos ou carismáticos - basea<strong>dos</strong> em características<br />

tomadas de adoradas figuras de parentes ou pessoas inexplicavelmente<br />

admiradas - seus componentes básicos são universais. Derivam, grosso<br />

modo, de preciosas e insubstituíveis heranças humanistas que, de resto,<br />

temos mesmo que preservar a todo custo. Senão vejamos: o herói tem<br />

que ser corajoso, tem que enfrentar os poderosos de igual para igual<br />

sem temer as consequências dessa desigualdade. Mas, quando em<br />

desgraça, deve ser sereno e resignado e aceitar o seu destino. Tem que<br />

ser sincero, dizer o que pensa sem peias. Até é aceitável que certas<br />

verdades sejam escamoteadas, mas desde que sejam para um fim maior.<br />

Por exemplo, preservar os amigos, pois o herói tem que ser, acima de<br />

tudo, leal e fiel. Tem que ser movido por nobres propósitos, colocando<br />

sempre o interesse público à frente da sua insignificante individualidade,<br />

apesar de ser apenas consigo mesmo que ele tem que conviver as vinte<br />

e quatro horas do dia, alegre ou com dor. Tem que ser abnegado e<br />

altruísta, compartilhando e protegendo. O herói tem que ser puro,<br />

honrar seus compromissos, preservar os bons costumes, bom filho e<br />

bom marido, educado e gentil. Tem que ser ponderado, equilibrado e<br />

perspicaz, fazendo as coisas certas, na hora certa, no lugar certo. E há<br />

ainda algumas características não indispensáveis mas muito desejáveis<br />

no herói: seria bom se ele não fosse baixo, nem feio, nem muito velho e<br />

nem gordo. Não é absolutamente indispensável que todas as<br />

características do herói estejam presentes ao mesmo tempo. Depende<br />

um pouco do tipo de herói e das circunstâncias do seu heroísmo, o que<br />

não é estático. Mas, certamente é absolutamente indispensável que as<br />

características positivas superem de longe as negativas. Caso contrário,<br />

o máximo que conseguiremos obter será um sub-herói, que também os<br />

há.<br />

Isso posto vamos sair à caça de heróis verdadeiros. Como o nosso<br />

assunto aqui tem um foco específico, vamos procurá-los entre os<br />

45


inconfidentes de Minas Gerais de 1788/89, pelo menos entre os<br />

principais. Antes, porém, preciso fazer uma advertência. Eu não dou<br />

muita bola para o herói standard. Existem heróis chatíssimos cuja<br />

biografia não me merece um níquel. Interesso-me muito mais por<br />

pessoas comuns que fizeram coisas inusitadas, muitas vezes sem sentido<br />

e transformaram seu cotidiano numa história diferente. São aquelas<br />

pessoas que atiçam nossa curiosidade e acabamos envolvi<strong>dos</strong> por uma<br />

vontade inexplicável de saber mais sobre elas. Claro que essa coisa é<br />

absolutamente subjetiva. Mas não há quem não cultive os seus tipos<br />

inesquecíveis, mesmo os maus. Devo reconhecer que essas pessoas me<br />

atraem exatamente porque eu não sou assim. Mas, como também não<br />

pretendo ser herói, sinto-me à vontade para escolher as biografias que<br />

vão povoar a minha estante onde, a bem da verdade, heróis<br />

consagra<strong>dos</strong> não são discrimina<strong>dos</strong>.<br />

A Inconfidência Mineira está cheia de personagens interessantes<br />

que, cada um a seu modo, sacudiram um momento e um lugar também<br />

interessantes. São essas pessoas que - embora tenham sido escritos<br />

muito antes da conspiração acontecer - justificaram os versos finais do<br />

poema de Cláudio Manuel da Costa:<br />

Enfim serás cantada, Vila Rica,<br />

Teu nome impresso nas memórias fica;<br />

Terás a gloria de ter dado o berço<br />

A quem te faz girar pelo universo. 31<br />

Mas e quanto a terem sido autênticos heróis? O alferes Joaquim José<br />

da Silva Xavier foi um herói? Para nossos governantes sim, pois eles até<br />

baixaram um decreto nesse sentido. Para a maioria <strong>dos</strong> historiadores<br />

mineiros também. Mas muitos há que pensam exatamente o contrário.<br />

Os debates, em geral aborreci<strong>dos</strong>, giram em torno da identificação da<br />

forma como nosso Tiradentes atendeu ou não aos requisitos<br />

fundamentais de um herói. Ele era corajoso? Certamente que sim. Não<br />

tinha receio de pregar abertamente suas ideias e nas horas mais difíceis<br />

se mostrou sereno. Mas também era falastrão e sua imprudência fez<br />

com que seus companheiros acabassem atribuindo a ele o fato do<br />

movimento ter se tornado demasiadamente público antes da hora. Por<br />

31 Poema Vila Rica, 1773 (A Poesia <strong>dos</strong> Inconfidentes)<br />

46


outro lado, se dependesse dele a luta armada teria realmente começado<br />

e ele teria tido chance de ver sua condição de herói revolucionário mais<br />

facilmente reconhecida, empunhando uma espada e correndo alucinado<br />

à frente de um batalhão. Tal qual Garibaldi ou Wallace. Foi leal aos<br />

companheiros? Assumiu a culpa num gesto altruísta, mas também não<br />

deixou de mencionar nomes a certa altura <strong>dos</strong> interrogatórios a que foi<br />

submetido como, aliás, fizeram fartamente seus demais companheiros<br />

em relação a ele próprio. Engajou-se no movimento levado por nobres<br />

motivos? Muitos pensam que sua revolta pode ter tido bases pessoais<br />

pouco nobres: era um comerciante mal sucedido com problemas<br />

financeiros, tinha sido preterido inúmeras vezes para subir de patente<br />

na cavalaria, 32 tinha perdido um comando importante no patrulhamento<br />

da serra da Mantiqueira. Comungava os mais altos valores morais?<br />

Parece que não. Há quem diga que ele foi afastado do comando da<br />

serra por não ser muito rigoroso na caça aos contrabandistas, notórios<br />

corruptores de comandantes. Seduziu e engravidou uma adolescente de<br />

apenas dezesseis anos, prostituindo-a a troco de um presente que<br />

acabou tomando de volta, quando ela mostrou que era nova mas não<br />

era tão inocente assim. Mas parece que era generoso, curando as<br />

pessoas humildes um tanto desinteressadamente e com competência.<br />

Também era meio vesgo e tinha um olhar espantado, assim meio<br />

lunático. Mas sem dúvida, era atirado, persistente e tenaz. Também<br />

tinha uma presença marcante. Imaginem ele pregando pelas estalagens<br />

de Minas inflamado e loquaz. Ou nos gabinetes do vice-rei tentando<br />

vender um projeto para abastecer o Rio de Janeiro com água encanada<br />

e melhorar as condições de armazenagem e embarque e desembarque<br />

de mercadorias no porto. Ou debatendo em igualdade com pessoas<br />

ilustradas como o cônego Luiz Vieira ou com mentes cartesianas como<br />

José Álvares Maciel, mesmo tendo uma educação pouco mais do que<br />

fundamental. Tinha uma letra escolada e era muito mais ilustrado do<br />

que o padre Rolim que, a despeito de ser padre, mal sabia ler e escrever.<br />

Era curioso e muito inteligente, tanto que era comum cumprir missões<br />

militares como perito em mineralogia. Humilhado à frente de um<br />

absurdo cortejo pelas ruas do Rio de Janeiro, morreu sereno e<br />

32 E isso até teria sido um bom motivo. No auge da carreira militar do alferes Joaquim<br />

José, o governador Cunha Menezes patrocinou um verdadeiro festival de<br />

irregularidades e injustiças decretando promoções absurdas que revoltaram os oficiais<br />

mais dedica<strong>dos</strong> da capitania, como ele.<br />

47


absolutamente lúcido, pedindo para que fosse abreviado seu sofrimento<br />

e encomendando sua alma a Deus. 33 Enfim, um cara fascinante. Não<br />

tenho dúvida que se alguém deve ser o símbolo do movimento, este<br />

alguém seja ele mesmo. O povo também pensa assim pois não deixou<br />

que sua cabeça decepada ficasse exposta num poste de Vila Rica mais<br />

do que alguns dias, abreviando-lhe a humilhação final. 34<br />

E Tomáz Antônio Gonzaga, o brilhante magistrado e competente<br />

poeta, foi herói? Era tido como o inconfidente de conduta menos<br />

repreensível, mas disputava com o governador Cunha Menezes não só<br />

questões administrativas mas também o leito de Maria Joaquina<br />

Anselma de Figueiredo, loura, quente e libertina. Pai solteiro pelos<br />

menos duas vezes, aquém e além-mar. Mas isso, na época, não<br />

constrangia ninguém e somos gratos que seus amores por louras e<br />

morenas, virtuosas ou não, tenha produzido excelente poesia. Louvava<br />

os nobres, elevava seu direito natural sobre as riquezas da terra, mas<br />

concebeu uma república no Brasil com cem anos de antecedência.<br />

Contudo, até pode ser que não apreciasse mesmo muito a plebe.<br />

Ridicularizava os desman<strong>dos</strong> do Fanfarrão Minésio, mas não deixava de<br />

usar sua autoridade para participar de conchavos políticos, protegendo<br />

os amigos e cobrando por isso. Mas não tinha riqueza e saiu de Vila<br />

Rica sem ter conseguido incorporar bens imóveis ao seu patrimônio.<br />

Manteve um ancião irregularmente na prisão por quatro anos, levandoo<br />

à ruína no fim da vida. O mais irônico é que essa injustiça acabou<br />

sendo reparada por ninguém menos do que o próprio Fanfarrão<br />

Minésio. Em Moçambique, reabilitado e fiel vassalo, voltou a prestar<br />

serviços a Sua Majestade e vivia muito bem no meio de traficantes de<br />

negros. Mas a própria Coroa não se importava com isso e só passou a<br />

reprimir o hediondo comércio depois de forte pressão britânica,<br />

pressão essa, aliás, de motivação essencialmente econômica.<br />

Que razões tinha para participar da conspiração? Eis um caso<br />

complicado em que pode haver muitas coisas do coração. Havia sido<br />

promovido. Estava bem no amor, de caso com uma adolescente<br />

33 Há polêmica sobre o perfil heroico de Tiradentes em seus momentos finais.<br />

Tratarei disso na seção vinte e oito.<br />

34 A cabeça, conservada em salmoura, deveria ficar exposta “até que o tempo a<br />

consumisse” mas foi roubada na calada da noite, depois de alguns dias.<br />

48


embora fosse baixinho, meio gordo e quarentão. Estava para se mudar<br />

para a Bahia, naquele tempo ainda sem trios elétricos e aché-music, ou<br />

seja, não tinha razões para não querer ir. Não tinha dívidas impagáveis.<br />

Era amigo de poderosos e tinha prestígio nos meios judiciários do<br />

reino. No entanto se enredou perigosamente no levante. No final até<br />

que suas amizades lhe valeram, ele teve certos privilégios e por conta<br />

disso é que acabou empregado da Coroa novamente. Enfim, porque se<br />

meteu naquela enrascada? Engajou-se pelo desejo de justiça e liberdade?<br />

Eis finalmente nosso herói? Mas ele próprio tentou negar isso na<br />

famosa Lira XXXVIII, da parte II da sua obra maior Marília de Dirceu;<br />

onde procurou diminuir o significado da Inconfidência. Foi aí que ele<br />

chamou Tiradentes de “pobre, sem respeito e louco” e questionou se<br />

ele próprio seria tão pouco esperto para se meter em coisa tão<br />

contingente e perder um bem já certo, continuando sua carreira<br />

ascendente de juiz. Mas, seguramente, estava somente tentando<br />

produzir uma peça de defesa em verve poética, o que lhe era de pleno<br />

direito. Além do mais, se sentia traído com o papel que lhe atribuíram<br />

na denúncia.<br />

E o coronel Alvarenga Peixoto? Talvez o mais surpreendente de<br />

to<strong>dos</strong> os nossos contesta<strong>dos</strong> heróis. Usou escandalosamente sua<br />

posição de ouvidor para decidir questões em proveito próprio.<br />

Arrematou a famosa fazenda do Paraopeba para si e como estava<br />

legalmente impedido de fazê-lo, tramitou tudo em nome do sogro e o<br />

que é pior, não pagou. Até usou dinheiro público para resgatar dívidas<br />

pessoais com o compadre João Rodrigues de Macedo. Pelos seus<br />

desman<strong>dos</strong> na ouvidoria do Rio das Mortes, angariou uma legião de<br />

inimigos e foi contemplado com desairosos pasquins muito antes de<br />

Gonzaga pensar em escrever as Cartas Chilenas. Reagiu às críticas com<br />

compreensivo espírito democrático? Não, mandou instalar uma<br />

devassa. Esta correu tão cheia de arbitrariedades que os ministros da<br />

Relação do Rio de Janeiro mandaram que ela fosse encerrada. Notório<br />

bonachão, galanteador incorrigível. Tido como caloteiro contumaz, de<br />

fato nunca se preocupou com o tamanho de suas dívidas e suas<br />

conseqüências. 35 Mas o leilão de seus incontáveis bens foi suficiente<br />

35 O biógrafo de Alvarenga Peixoto, Manuel Rodrigues Lapa, via nessa compulsão um<br />

traço absolutamente patológico da sua personalidade.<br />

49


para pagá-las todas, conforme havia afiançado aos seus credores.<br />

Empresário arrojado tentou mecanizar suas lavras e lavouras em pleno<br />

século XVIII. Exagerou na poesia laudatória mas foi poeta arcádio<br />

inovador e nativista apaixonado. Conseguiu a façanha de produzir um<br />

poema em homenagem ao filho do governador da capitania que foi, ao<br />

mesmo tempo, o hino da Inconfidência. Acusam-no de ter entrado na<br />

conjuração somente para ficar livre de suas dívidas. Não sei como isso<br />

seria concretizado pois elas eram contraídas basicamente com agiotas e<br />

contratadores e não diretamente com a Coroa. Era generoso e assumia<br />

dívidas para dar presentes caros aos amigos. Também as contraía para<br />

fazer investimentos em ideias produtivas inovadoras. Ou seja, muito<br />

mais do que reles sonegador ou caloteiro irresponsável, era um<br />

visionário que tinha fé na sua industrialidade. Tinha um temperamento<br />

ativo e criativo num tempo de muito ócio e indolência e, assim, preferiu<br />

correr riscos como empresário em lugar de permanecer placidamente<br />

assentado em sua cadeira de juiz usufruindo os estipêndios de seu cargo<br />

e as benesses da sua carreira. O mais interessante é que, apesar de<br />

compulsivo devedor, crédito não lhe faltava. Adorava a realeza mas<br />

embarcou no sonho da república. Talvez tenha feito isso por puro<br />

deslumbramento. De espírito aventureiro, não podia ficar de fora da<br />

barca da história, inda que singrando mares perigosos e não ser ele um<br />

bom marinheiro. Comprometeu amigos e teria delirado de pavor nas<br />

barras do tribunal. 36 Mas chorou sensível a perda desses mesmos<br />

amigos e se resignou diante do negro do seu miserável futuro. Viveu<br />

maritalmente com Bárbara Eliodora cerca de dois anos expondo-a à<br />

pecha de ser rotulada de prostituta, o que levou toda a elite de São João<br />

del Rei a se queixar ao bispo que, nesse caso, até acabou resolvendo o<br />

problema. 37 Mas morreu de amor e saudade dela e da filha, deixando<br />

36 O perfil essencialmente acovardado atribuído pelos historiadores a quase totalidade<br />

<strong>dos</strong> inconfidentes, tem por fonte o relato de frei Raimundo da Anunciação Penaforte,<br />

que seria seu testemunho pessoal da reação apavorada <strong>dos</strong> pobres condena<strong>dos</strong>, ante a<br />

leitura da sentença. Tenho dúvidas quanto à honestidade desse relato, como<br />

comentarei mais adiante.<br />

37 O bispo baixou uma portaria determinando o casamento, corrigindo o mau<br />

costume. Para facilitar as coisas simplificou a tramitação do processo, abreviando o<br />

prazo das proclamas. O mais curioso é que nesse intervalo ele proibiu o intercurso<br />

carnal, embora Alvarenga e Bárbara já dormissem juntos há muito tempo. É muito<br />

provável que nosso passional poeta tenha respeitado o prazo, disciplinado como era.<br />

50


um <strong>dos</strong> mais belos poemas de amor da literatura brasileira de to<strong>dos</strong> os<br />

tempos:<br />

Bárbara bela,<br />

Do Norte estrela,<br />

Que meu destino<br />

Sabes guiar,<br />

De ti ausente,<br />

Triste somente<br />

As horas passo<br />

A suspirar.<br />

(...)<br />

Tu, entre os braços,<br />

Ternos abraços<br />

Da filha amada<br />

Podes gozar.<br />

Priva-me a estrela<br />

De ti e dela,<br />

Busca dois mo<strong>dos</strong><br />

De me matar.<br />

Isto é castigo<br />

Que amor me dá. 38<br />

Também quase saiu de tapa com o valente capitão Antônio José<br />

Dias Coelho quando o surpreendeu seduzindo sua cunhada, não menos<br />

bela do que a bela Bárbara.<br />

Sem dúvida um tipo inesquecível que fazia tudo muito por amor.<br />

Tão fascinante que Joaquim Norberto de Souza e Silva, antes de<br />

escrever sua história desairosa sobre a participação de Tiradentes na<br />

inconfidência, tocou a garimpar a obra de Alvarenga Peixoto, ajudando<br />

a resgatar os parcos trinta e dois poemas que chegaram aos nossos dias.<br />

Foi Alvarenga o responsável pelo tom nativista que havia no<br />

movimento e certamente era quem estava mais impregnado daquele<br />

arremedo de cultura nacional que ameaçava nascer no final do século<br />

XVIII, em Minas. Também foi quem trouxe a questão do negro e do<br />

38 Obra 21 (A Poesia <strong>dos</strong> Inconfidentes). Segundo Rodrigues Lapa – usando de boa <strong>dos</strong>e<br />

de especulação - este poema não foi escrito no cárcere e sim numa viagem prolongada<br />

do ouvidor Alvarenga, pelos grotões da sua comarca.<br />

51


índio para dentro da discussão. Talvez o único coimbrão que acabou<br />

gostando verdadeiramente do cheiro do Brasil.<br />

Sem nenhuma dúvida, não era herói modelar mas um sonhador<br />

irresponsável, meio aloucado, talvez à frente do seu tempo. Hedonista<br />

exacerbado era adepto convicto da ideia de viver bem pois a vida é<br />

curta, e assim tentou. Seus biógrafos sempre tiveram grande dificuldade<br />

em assimilar sua personalidade e conviver com seu perfil complexo.<br />

Frustrado na tentativa de aceitar que ele não tivesse sido herói, Manuel<br />

Rodrigues Lapa apelou e, num delírio de empáfia moralista portuguesa,<br />

pediu pateticamente: “piedade para Alvarenga Peixoto”!<br />

E o dr. Cláudio Manuel da Costa, foi herói? Estranho republicano<br />

que gastou uma fortuna e lutou dez anos para ingressar na Ordem de<br />

Cristo, tentando enobrecer sua origem plebeia. 39 Notório carola mas<br />

que encheu de filhos uma das suas escravas. Além do mais, avarento e<br />

agiota. Mas grande benfeitor da maravilhosa igreja de São Francisco de<br />

Assis de Vila Rica e incentivador <strong>dos</strong> talentos do Aleijadinho. E amou<br />

verdadeiramente a humilde mãe cativa de seus filhos, não se privando<br />

da inspiração que exalava da sua doce Eulina, nos passeios poéticos que<br />

fazia com Gonzaga pelos verdes campos arcadianos do amplo quintal<br />

da sua casa. Rico e mundialmente conhecido, com um lugar assegurado<br />

na história, se expôs no fim da vida, colaborando e incentivando o<br />

movimento. Na vida pública e profissional um homem tido como<br />

correto e respeitável. Mas fazia conchavos e não era muito tolerante<br />

com os inimigos. Almejou to<strong>dos</strong> os bons cargos que viu a seu alcance<br />

na administração colonial e teve que amargar algumas preterições que<br />

até podem ter contribuído para sua disposição inconfidente, tal qual<br />

Tiradentes. Para muitos era, sobretudo, o vil covarde que corroído de<br />

autocompaixão, entregou os amigos e se suicidou na prisão. Além disso,<br />

conivente com os desman<strong>dos</strong> da administração colonial enquanto foi<br />

parte dela. Mas dotado de grande capacidade intelectual, acreditava nas<br />

novas ideais econômicas e, sem sombra de qualquer dúvida, estava<br />

mesmo disposto a colaborar para implantá-las na República das Minas.<br />

Indubitavelmente um timorato ser político que não soube <strong>dos</strong>ar o<br />

horizonte <strong>dos</strong> seus sonhos, nem controlar o seu poder de criação.<br />

39 Ele teve um avô que era comerciante de azeite e isso dificultou muito a assepsia das<br />

suas raízes, que a cobiçada adesão à ordem exigia.<br />

52


Enfim, pelo modelo dominante parece que heróis não houve,<br />

embora eles tenham um ponto em comum com heróis festeja<strong>dos</strong> de<br />

todo o mundo: ousaram sonhar com a liberdade e acabaram<br />

desgraça<strong>dos</strong> por isso. Sobretudo me parece que hoje nossos diletos<br />

inconfidentes cumprem bem seu papel de incentivar o amor pátrio aos<br />

visitantes que os vão ver no Panteão do Museu de Ouro Preto.<br />

Emociona-nos a aura serena de seus túmulos, com a chama eterna da<br />

liberdade simbolicamente acesa e a majestosa bandeira que idearam ao<br />

fundo. 40 Parecem dignos: se não pelo heroísmo, pelo menos pelo<br />

sofrimento que, afinal, também redime.<br />

5<br />

QUANDO OS POETAS JOGAM SEU JOGO MAIS ARRISCADO<br />

Embora a jornada não cobrisse mais do que umas três léguas, a<br />

viagem de Vila Rica ao palácio da Cachoeira do Campo tinha sido<br />

penosa para o dr. Cláudio. Então beirando os sessenta anos, o ilustre<br />

advogado andava meio adoentado com sofrimentos musculares e<br />

aquela viagem não era muito recomendada para estes casos. A rigor, ele<br />

não queria muito ir àquela reunião pois se melindrava com o assunto a<br />

ser tratado e, a bem da verdade, não queria se envolver muito com ele.<br />

Mas não teve como resistir à insistência de Gonzaga que achava<br />

indispensável a sua presença conforme desejo do próprio governador.<br />

40 Embora os nossos historiadores não se incomodem em afirmar que a bandeira de<br />

Minas foi inspirada em uma proposta de Tiradentes, eu não consigo vincular com<br />

muita clareza essa relação. O desenho atual da bandeira nada tem a ver com os tais<br />

três triângulos entrelaça<strong>dos</strong> imagina<strong>dos</strong> pelo alferes. Restou um, central e solitário. A<br />

ideia do entrelace, quem sabe, foi parar na bandeira das olimpíadas do barão de<br />

Copertein. Mas aí não representando a trindade santíssima de suposta devoção do<br />

alferes e sim a união <strong>dos</strong> continentes.<br />

A questão da cor do triângulo da bandeira, também polemizou muito o<br />

debate de alguns <strong>dos</strong> nossos destaca<strong>dos</strong> historiadores. Augusto de Lima jr. defendia o<br />

vermelho. Waldemar de Almeida Barbosa pelejava pelo verde. Durante um certo<br />

tempo as repartições públicas mineiras chegaram a ter ao mesmo tempo, bandeiras de<br />

uma e outra cor. Idem as cores da camisa da seleção mineira de futebol.<br />

Convenhamos que essa indefinição nos dava opção de uma inusitada escolha cívicodecorativa,<br />

mas confundia um pouco o nosso fervor patriótico.<br />

53


Além do mais não quis perder a chance de rever o palácio. Para seu<br />

acompanhante, o desembargador Tomás Gonzaga de quarenta e quatro<br />

anos, ao contrário, a viagem tinha sido um passeio embora se<br />

encontrasse um tanto fora de forma e com alguns quilos acima do peso<br />

ideal. Mas ele estava muito jovial e até um tanto radiante metido na sua<br />

casaca e calção cor de bicho de couve e suas meias de seda branca,<br />

adornadas com sapatos de fivela de prata. Parecia um traje meio<br />

exagerado para uma cavalgada, mas tinha que ser assim pois Dirceu<br />

não se avistava com o governador já há algum tempo e tinha muita<br />

expectativa quanto àquele reencontro. Na verdade ele havia feito aquela<br />

jornada várias vezes. Principalmente em mea<strong>dos</strong> do ano quando o<br />

governador se preparava para assumir a capitania e ele, com perdão do<br />

trocadilho, era convidado contumaz ao palácio. Agora estava de fato<br />

um tanto distanciado do convívio mais íntimo com Sua Excelência. Mas<br />

acreditava que a freqüência anterior seria restabelecida em breve. Certo<br />

é que também o dr. Cláudio se mostrou mais animado e disposto<br />

quando apearam de suas montarias no pátio do amplo edifício cravado<br />

de janelões com molduras de cantaria e guardacorpo de ferro batido,<br />

fundido na Inglaterra. Não tiveram nenhuma pressa de se anunciarem.<br />

Naquele dia o sol não se furtara, inundando de luz e calor os bem<br />

cuida<strong>dos</strong> jardins da residência do governador. Andando devagar por<br />

entre as belas alamedas de inspiração francesa, embriaga<strong>dos</strong> de fartas<br />

fontes de temas arcadianos, lembravam sau<strong>dos</strong>os os tempos de d.<br />

Rodrigo. Então costumavam andar por ali em vesperais inesquecíveis.<br />

Os tempos agora andavam tensos e incertos. Mas se resignavam pois é<br />

assim que a história marcha e melhora os rumos da civilização.<br />

Serenos e esqueci<strong>dos</strong>, como bons poetas que eram poderiam ficar ali<br />

em devaneio por toda a tarde, contemplando belas e vaporosas pastoras<br />

imaginárias, tratando-se um ao outro pelos seus pseudônimos:<br />

Glauceste Satúrnio e Dirceu.<br />

Mas foram cruelmente acorda<strong>dos</strong> à realidade pelos chama<strong>dos</strong> do<br />

ajudante de ordens de Barbacena que, em passo apressado e poupando<br />

palavras, os conduziu à sala de despachos da aprazível habitação. Era<br />

no segundo andar, logo após uma escada de madeira com corrimão de<br />

jacarandá torneado que subiram devagar, ao ritmo do dr. Cláudio.<br />

Transposta a porta se acomodaram no sofá descontraidamente por<br />

conta da velha familiaridade com o ambiente. O governador não tardou<br />

a aparecer. Estava ansioso demais e sem ânimo de usar a sua velha<br />

tática de fazer suas visitas esperarem. Era um truque manjado a que<br />

costumava recorrer para reforçar sua autoridade com algumas pitadas<br />

54


de aflição que pensava produzir nas visitas por conta da espera forçada.<br />

Cumprimentou jovialmente os convida<strong>dos</strong> que responderam no mesmo<br />

tom. Para deleite de Gonzaga Sua Excelência começou a conversa<br />

reforçando sua admiração por ele. Lembrou das velhas cartas trocadas e<br />

da atenção recebida logo que ele chegou à capitania carente de<br />

informações. Mas também não se deteve muito tempo em amenidades<br />

e louvações e não tardou em ir ao ponto que o tinha feito convocar<br />

aquela reunião reservada. Na verdade o encontro fora provocado por<br />

Gonzaga algumas semanas atrás, mas Barbacena queria manter o<br />

controle <strong>dos</strong> rumos do assunto. Assim tomou a iniciativa de chamá-los<br />

ao palácio naquele dia.<br />

Tudo teve começo em mea<strong>dos</strong> de novembro quando os poetas se<br />

viram diante de uma oportunidade de se entrevistarem com o visconde.<br />

Foi um encontro casual em um casamento. Eram as bodas de uma irmã<br />

de Marília, celebradas pomposamente na matriz de Antônio Dias diante<br />

das maiores autoridades da vila entre as quais muitos militares da<br />

família da noiva, incluso aí um <strong>dos</strong> ajudantes de ordens do governador.<br />

Ao final da cerimônia Barbacena mandou convidar Cláudio e<br />

Gonzaga ao seu camarote. Os poetas atenderam com prazer, mesmo<br />

porque ninguém ali presente tinha tido tal privilégio e a chance<br />

significava, no mínimo, uma exibição de prestígio. Além do mais, para<br />

Gonzaga o convite significava uma reaproximação com o visconde com<br />

quem não falava há alguns meses.<br />

Então, enquanto corriam os demora<strong>dos</strong> cumprimentos aos noivos,<br />

os três puderam trocar algumas ideias muito relevantes no meio de<br />

assuntos diversos de pura sociabilidade. Um ajudante de ordens<br />

montando guarda à frente da escada de acesso às tribunas, continha<br />

eventuais tentativas de intromissão de pessoas ansiosas por saudar Sua<br />

Excelência. De sorte que a conversa pôde correr com certa reserva. O<br />

assunto dominante não era novo. Versava, mais uma vez, sobre a<br />

situação da capitania. Os poetas puderam sentir que Barbacena ainda<br />

estava muito inseguro, com receio de disparar a temerária ação de<br />

lançamento da derrama. Mas a conversa não se estendeu muito pois o<br />

lugar não permitia. Mas Gonzaga se mostrou muito animado e fez<br />

questão de estimular em Barbacena o interesse pela continuidade do<br />

assunto numa outra ocasião, em lugar mais sossegado. Foi então que<br />

fez o visconde saber que tinha mudado inteiramente de posição desde<br />

aquela conversa havida na Cachoeira do Campo, logo após a posse do<br />

visconde. Disse que passara a acreditar que o lançamento da derrama,<br />

55


ao contrário do que lhe parecia então, não era uma política equivocada.<br />

Ao contrário, daí é que poderia surgir a chance de solução de to<strong>dos</strong> os<br />

percalços de governabilidade da capitania, acumula<strong>dos</strong> desde os tempos<br />

de Antônio de Albuquerque, no começo do século. Ao ouvir aquilo o<br />

Barbacena estampou uma expressão de falsa perplexidade e olhou para<br />

Cláudio que balançou a cabeça concordando com o que Gonzaga<br />

acabara de dizer.<br />

Propositadamente muita coisa ficou no ar. Nem podia ser diferente,<br />

diante da cautela que o assunto naturalmente requeria.<br />

Alguns dias se passaram, às vezes agita<strong>dos</strong>, às vezes muito calmos;<br />

mas to<strong>dos</strong> plenos de indecisões e especulações. Dezembro já ia pelo<br />

meio e a data de lançamento da derrama ainda não tinha sido fixada.<br />

Isso causava preocupação nos dois poetas e em muitos de seus<br />

companheiros. Infelizmente, ainda não tinham conseguido vislumbrar<br />

no visconde definições sobre as medidas que ele iria escolher para tratar<br />

o delicado momento que a capitania atravessava. Temiam que o<br />

governador, afinal, acabasse optando pela via mais simplista e pelo<br />

partido mais seguro para ele próprio, vale dizer, suspender a derrama e<br />

executar os devedores da Coroa. Com o tempo passando o caminho<br />

começava a se estreitar. Mas os poetas não tinham certeza das reações<br />

de Barbacena se a questão tomasse um rumo mais audaz. Assim, tudo<br />

estava se arrastando à espera de uma definição mais clara das tendências<br />

do visconde. Mas, mesmo nesse período, José Álvares Maciel 41 tinha<br />

sido incumbido de manter uma chama acesa no ouvido do governador,<br />

tentando influenciar sua decisão. Claro que tratando o assunto de forma<br />

muito amena, animando palestras casuais, um tanto descontraídas e<br />

marotas à mesa ou no gabinete de Sua Excelência onde o jovem<br />

naturalista tinha acesso liberado. Na verdade, o enfoque, à conveniência<br />

das partes, era muito mais aberto do que a questão específica da<br />

derrama. Mais teórico e intelectualizado, às vezes provocando<br />

comparações sobre as vantagens e desvantagens <strong>dos</strong> regimes coloniais e<br />

monárquicos em relação aos regimes republicanos e livres, mas tudo<br />

41 José Álvares Maciel – Cunhado do tenente-coronel Francisco de Paula Freire, é filho de Minas,<br />

além da mais prova que há contra ele na devassa, ele confessa nas perguntas que tratara e era entrado<br />

na pretendida sublevação; tinha vindo havia pouco de Inglaterra, onde tinha ido aprender algumas<br />

curiosidades, e o presumiam capaz de fábricas, etc.; foi preso em Minas, e veio na última escolta para<br />

esta cidade, onde se acha em uma fortaleza. (DCT).<br />

56


muito judicioso. As lições do mestre Vandelli eram sempre lembradas<br />

naquelas conversas, sendo eles, dois <strong>dos</strong> seus diletos ex-alunos. O<br />

assunto da independência americana e da precária situação da<br />

monarquia francesa também era tema obrigatório. O governador não<br />

repudiava essas matérias mas também não assumia posição aberta em<br />

relação a elas, sabedor do ímpeto de Maciel, ansioso pela liberdade de<br />

poder encher a capitania de indústrias, inclusive de armas e pólvora<br />

pois abundavam o ferro e o salitre. Tudo isso fascinava o espírito<br />

ilustrado e progressista de Barbacena. Mas havia certos empecilhos<br />

muito grandes a serem supera<strong>dos</strong> que requeriam muita cautela de to<strong>dos</strong><br />

os la<strong>dos</strong>. De qualquer forma, não era segredo que o governador sabia<br />

das movimentações de Tiradentes, do padre Rolim e de Freire de<br />

Andrade. Também sabia das reuniões nas casas <strong>dos</strong> dois poetas, onde o<br />

cônego Luiz Vieira e o bacharel Diogo Ribeiro de Vasconcelos eram<br />

presenças contumazes. Desta forma, trabalhar as disposições de<br />

Barbacena já tinha passado a ser a chave da definição se certas<br />

urdiduras deviam avançar ou não. Pelo menos assim pensavam os<br />

<strong>coimbrãos</strong>, com Gonzaga e Cláudio à frente, gastando muita conversa<br />

entre si sobre como envolver o visconde num plano indizível. Mas a<br />

coisa já estava perto de um ponto sem retorno. Estava chegando o<br />

tempo de tudo ficar mais claro e o assunto precisava ser abordado de<br />

forma direta e decisiva com Barbacena. Para ambas as partes era hora<br />

de dizer o que tinha que ser dito.<br />

O próprio Barbacena também pensava assim e por isso é que os<br />

tinha convocado ao palácio naquele dia. E o governador começou<br />

falando aos poetas exatamente dessas questões. O visconde confessou<br />

severamente que ainda não estava seguro de lançar a cobrança do<br />

quinto atrasado e que tinha fortes motivos para se sentir assim.<br />

Lembrou que havia um certo clima de revolta e tensão no ar que já<br />

estava incomodando os mais leais à Coroa e que logo poderia chegar<br />

aos ouvi<strong>dos</strong> do vice-rei no Rio de Janeiro. O lançamento da derrama,<br />

seguramente, levantaria o povo de Minas e seria o estopim de uma<br />

revolta incontrolável. Isso já acontecera antes, como bem lembrou o<br />

ministro Melo e Castro nas instruções de governo que lhe tinha<br />

passado e que esperava que fossem logo postas em execução. Revelou<br />

que estava convencido de que havia disposição efetiva de se colocar<br />

planos em prática para viabilizar ideias de independência e república e<br />

talvez houvesse até a intenção de envolvê-lo. Cláudio e Gonzaga<br />

ouviram tudo muito apreensivos. Embora nunca tivessem feito<br />

nenhuma proposta a ele até então, acreditavam haver uma certa<br />

57


confiança mútua em relação àquela matéria. Os poetas pelo menos<br />

vinham apostando nisso. Pensaram em pedir maior clareza ao<br />

governador sobre suas reais disposições, mas ele não lhes deu espaço e<br />

continuou sua exposição mais alguns minutos. Mas de repente, para<br />

surpresa <strong>dos</strong> seus visitantes, passou a elogiá-los, especialmente a<br />

Cláudio Manuel da Costa. Lembrou sua grande erudição, sua<br />

experiência com as leis, seu equilíbrio, sua grande convivência com os<br />

negócios políticos como conselheiro e assistente de ilustres<br />

governadores e, especialmente, seus trata<strong>dos</strong> e estu<strong>dos</strong> pioneiros sobre<br />

a economia e a história de Minas Gerais. Disse que eles eram pessoas de<br />

grande liderança sobre as elites da capitania e que, dada essa notável<br />

posição, queria que eles fossem seus conselheiros isentos e<br />

desapaixona<strong>dos</strong> em momento tão difícil. Assumindo postura um tanto<br />

salomônica confessou que estava muito pressionado para lançar a<br />

derrama pois Melo e Castro andava muito obcecado com a ideia e<br />

poderia considerar a suspensão uma saída muito cômoda e singela. Por<br />

outro lado, tinha noção do grande risco que estaria correndo lançando a<br />

cobrança do quinto do ouro atrasado sobre to<strong>dos</strong> os habitantes da<br />

capitania, muitos <strong>dos</strong> quais nem eram mineradores. Sem dúvida haveria<br />

um levante, vale dizer uma guerra civil de desfecho imprevisível.<br />

Grande abacaxi a espinhar-lhe o travesseiro todas as noites.<br />

Gonzaga e Cláudio permaneceram imóveis, envoltos nas nuvens<br />

densas daquela situação. Ouviram o governador com a mais absoluta<br />

atenção, buscando entrelinhas e se acautelando contra as conhecidas<br />

artimanhas de Barbacena. Estaria ele pedindo uma proposta, uma oferta<br />

concreta de um acordo que lhe compensasse os riscos do lançamento<br />

da derrama? O momento era de extrema cautela e o silêncio é bom<br />

companheiro nessas horas. Assim, cala<strong>dos</strong> preferiram ficar naquele<br />

instante. Barbacena continuou, extravasando uma vez mais sua<br />

indecisão. Ao término da exposição do visconde, entre temerosos e<br />

ansiosos, Cláudio e Gonzaga olharam discretamente um para o outro.<br />

Não queriam demonstrar qualquer emoção, porém, no fundo, tentavam<br />

dominar uma grande ansiedade. Mas não poderiam sair dali passivos,<br />

deixando a questão ainda amorfa e complicada. E resolveram jogar a<br />

carta guardada, no centro da mesa de jogo. Quem falou foi Gonzaga.<br />

Usou seu estilo seguro de magistrado, vale dizer: voz grave e pausada,<br />

perpassada de autoridade. Começou colocando que o Exmo. Capitão<br />

General não devia, de fato, se preocupar tanto pois, embora a situação<br />

parecesse angustiante, havia uma outra leitura mais sutil e perspicaz.<br />

Continuou, argumentando que se ele suspendesse a derrama até poderia<br />

58


ter o aplauso do povo. Porém – e nesse ponto estavam de acordo - teria<br />

a cega ira do ministro a persegui-lo e a obstar mais esta curta carreira. 42<br />

Por outro lado, concordava também que, se a mantivesse, seguramente<br />

teria uma revolta nas mãos como temia. Aqui Gonzaga fez uma<br />

pequena pausa para dar mais peso ao que queria falar. Olhou nos olhos<br />

do visconde que respondeu erguendo arrogantemente o queixo num<br />

sinal para que ele continuasse sem mais afetação. O poeta obedeceu e<br />

entrou finalmente no campo que queria: ponderou que o motim não era<br />

o lado mais terrível da derrama. O que ele, Barbacena, tinha que fazer<br />

era tirar o melhor partido dele. O visconde fingiu não entender. Nessa<br />

altura estava criado o clima que Tomás Antônio Gonzaga queria. Então<br />

atacou o ponto nefrálgico do seu plano ardiloso. Disse que o quinto<br />

atrasado era impagável de toda forma e que só Melo e Castro não<br />

conseguia ou não queria enxergar isso. O ministro tinha uma visão<br />

personalista e obcecada da questão sem considerar seu lado objetivo,<br />

passando a ele, visconde, todas as graves consequências da sua absurda<br />

cegueira. Assim, ele devia dar o troco e observar o problema numa<br />

outra dimensão, muito mais doméstica e imediata, como algo que estava<br />

a bater-lhe à porta e a lhe tirar o sono. A derrama podia ser lançada<br />

como queria Melo e Castro. A questão que ele, governador, deveria<br />

ponderar era: como administrar o inevitável motim decorrente e<br />

direcionar vantajosamente as suas consequências? A partir daí -<br />

completou o ex-ouvidor - deveriam ser avaliadas duas possibilidades. O<br />

visconde apurou o ouvido e Gonzaga continuou. Se ele lançasse a<br />

derrama e sufocasse a revolta seria visto pelo ministro simplesmente<br />

como alguém que tinha cumprido sua obrigação pela metade,<br />

preservando a mais rica capitania do reino mas ficando com os<br />

destroços de uma guerra, em lugar das 538 arrobas de ouro que tinha<br />

sido enviado para coletar. Mas por outro lado, se a revolta vingasse, a<br />

consequência seria o rompimento definitivo com Portugal e, assim,<br />

quem permanecesse em Minas estaria a milhares de quilômetros do<br />

braço fragilizado da Coroa com sua decadente armada, carente de bons<br />

solda<strong>dos</strong> e encalhada em embarcações antiquadas. Ademais, uma nova<br />

nação americana, livre, rica e democrática sempre precisaria de pessoas<br />

como a do ilustre visconde cuja mente aberta era muito maior do que o<br />

42 Com ironia Gonzaga estava cutucando o visconde lembrando sua efêmera<br />

permanência à frente da Secretaria da Academia de Ciências de Lisboa.<br />

59


sangue nobre de um reino moribundo que trazia nas veias. 43<br />

Embaixadores que tivessem bom trânsito pelos reinos da Europa<br />

seriam de enorme valia. Arrematou lançando um desafio à<br />

autoproclamada argúcia do visconde. Disse que ele se estivesse no lugar<br />

do Exmo. Governador, não teria nenhuma dúvida do que fazer: havia<br />

de ser o primeiro na sublevação. Aliás, contraditoriamente, o que ele<br />

tinha que fazer diante da revolta era exatamente não fazer nada e deixar<br />

que seu exército o seguisse. Eis aí outro aspecto interessante da mesma<br />

questão: ele até podia fingir que não tinha nada a ver com tudo aquilo,<br />

dispondo de uma saída se algo desse errado. O ex-ouvidor arrematou<br />

lembrando que ele não poderia esquecer que a situação na França era de<br />

fato muito delicada e que dali poderia surgir um regime republicano que<br />

varresse do mapa os tronos da Europa, quem sabe começando<br />

exatamente pelos reinos da península ibérica. Se a França seguisse a<br />

América Inglesa, todo o mundo os seguiriam. Ou seja, as monarquias<br />

estavam com os dias conta<strong>dos</strong>. Era hora <strong>dos</strong> nobres buscarem outros<br />

lugares enquanto eles existissem.<br />

E nada mais disse nem foi perguntado. Ambos os la<strong>dos</strong> acharam<br />

melhor não avançar muito naquela conversa, naquele exato momento.<br />

O dr. Cláudio até tinha levado uns rascunhos sobre a conformação<br />

jurídica de uma nova república no país das minas, mas preferiu nem<br />

tocar no assunto. Gonzaga também se absteve de tentar diminuir o<br />

papel de Tiradentes e seus planos violentos que assustavam o visconde.<br />

Assim, caiu um silêncio de que se aproveitou Barbacena, levantou-se e<br />

deu a audiência por encerrada estendendo-lhes a mão sem mais nada<br />

dizer. Despediram-se formalmente sem maiores comentários e em<br />

visível estado de desadoro.<br />

Os ilustres poetas cavalgaram noite à dentro num silêncio sepulcral,<br />

buscando apressa<strong>dos</strong> as fracas luzes <strong>dos</strong> lampiões de Vila Rica. De certa<br />

forma vislumbravam que os próximos dias poderiam ser os mais tensos<br />

de suas vidas. Gonzaga até tentaria forçar o lançamento da derrama,<br />

induzindo o intendente Bandeira a requerê-la como era da sua formal<br />

obrigação. Mas não conseguiria convencer o cauteloso amigo a um<br />

gesto tão temerário sem algum respaldo do visconde. Depois nosso<br />

poeta teria que gastar muito argumento se defendendo de tal ousadia,<br />

junto aos juízes da devassa.<br />

43 Aqui Gonzaga chegou às raias da crueldade no afã de sensibilizar Barbacena.<br />

60


Enquanto Cláudio e Gonzaga cavalgavam, Barbacena insone<br />

matutava olhando o teto. Ele andava com pensamentos muito<br />

heterodoxos ultimamente. Mas também não vamos imaginar que<br />

naquele momento estivesse cogitando de lançar a derrama e trancafiarse<br />

a si mesmo, fingindo-se de vítima do motim enquanto aguardasse o<br />

desenrolar <strong>dos</strong> acontecimentos. É certo que, mais tarde, ele diria que<br />

Gonzaga tinha a intenção de matá-lo assim que a revolução vingasse.<br />

Foi só do que precisou para convencer do seu zelo ao, afinal,<br />

ternamente tolerante ministro Melo e Castro. Este também facilitou as<br />

coisas pois não queria acreditar no que não lhe convinha. Depois o<br />

visconde até pôde contar ao ministro que Gonzaga tinha tentado<br />

cooptá-lo antes de ter a ideia de matá-lo, mas contou só um <strong>dos</strong><br />

episódios da história e que tinha acontecido depois da suspensão da<br />

derrama. Este expressava uma tentativa desesperada do ex-ouvidor de<br />

Vila Rica em evitar o aborto da revolução: o que não comprometia<br />

Barbacena nem um pouco - até antes pelo contrário – mostrava que sua<br />

decisão de suspender a derrama tinha sido muito acertada, pois em<br />

lugar de motim, o que o povo quis foi erigir-lhe uma estátua.<br />

E assim, tudo acabaria bem para o visconde. Nem tanto para a<br />

audácia <strong>dos</strong> poetas.<br />

6<br />

QUANDO REIS E RAINHAS REINAM EM SEUS REINOS<br />

IRREAIS<br />

Bárbara Eliodora não perdia a mania de chamar a querida filha<br />

Maria Efigênia de princesa. Alguns mal<strong>dos</strong>os delatores chegaram a dizer<br />

aos juízes da devassa que ela a chamava de Princesa do Brasil. Outros<br />

garantiam que não havia o comprometedor adjetivo e que ela chamava<br />

a filha apenas de princesa, como muitos pais fazem carinhosamente<br />

tangi<strong>dos</strong> por puro amor. Parece que em outubro de 1788 ela e<br />

Alvarenga ainda vacilavam sobre o melhor regime para um Brasil<br />

liberto de Portugal: república ou uma monarquia de novos troncos<br />

nobres principia<strong>dos</strong> na América e com sangue destilado por umas boas<br />

misturas tropicais. Àquela altura ainda não tinham conseguido mesmo<br />

se livrar muito bem da admiração que tinham por cetros e coroas.<br />

Desta forma a celebração do batizado de seus filhos naquela tarde<br />

acabaria sendo uma confusa louvação, cheia de golpes de espada a<br />

decepar cabeças nobres para que outras, ligeiramente plebeias,<br />

61


pudessem tomar-lhes o lugar prescindindo do solene aspergir <strong>dos</strong><br />

santos óleos.<br />

O clima de sedição começava a crescer e Alvarenga e Bárbara nunca<br />

foram muito comedi<strong>dos</strong> em nada do que faziam. Assim, um pouco de<br />

festa podia ser muito interessante para animar o assunto. Aliás, na casa<br />

paterna da Bela tudo era sempre muito animado e pouco convencional.<br />

Ela e as irmãs tinham sido criadas na maior liberdade, à distância <strong>dos</strong><br />

cochichos maledicentes e não era à toa que o pai das cobiçadas meninas<br />

era conhecido como “O dr. Surdo”.<br />

Muitos diriam no futuro que nosso caro ex-ouvidor Alvarenga tinha<br />

entrado no movimento somente para se ver livre de suas dívidas, já<br />

então inteiramente fora de controle. Pura maledicência pois, ao<br />

contrário de seus colegas conspiradores inadimplentes, a maioria das<br />

suas dívidas tinham sido contraídas com particulares e não com a<br />

Coroa. 44 Seus credores eram basicamente pessoas amigas e<br />

compreensivas que adoravam sua companhia e perdoavam seus<br />

deslizes. Enfim, Alvarenga sempre fora um aventureiro atirado e não<br />

poderia ficar de fora daquela conjuração cheia de gente culta e<br />

interessante.<br />

Exageros exibicionistas sempre acompanhavam fielmente o agitado<br />

casal. Dinheiro não podia faltar para pequenos prazeres da vida. Assim<br />

não faltaria nada àquela festa inesquecível, aliás, bancada pelo padre<br />

Toledo, ele próprio um animado festeiro. Mal imaginavam que ela daria<br />

muito que falar ao longo de algumas centenas de anos, não<br />

propriamente pela alegria mas, ao contrário, pelo sofrimento terrível<br />

que causaria a muitas das gradas pessoas presentes. Mas naquele<br />

instante tudo devia proporcionar o mais puro deleite, ecoando cantos e<br />

risos da margem direita do rio das Mortes ao pé da serra de São José.<br />

Era uma manhã ensolarada de início de verão. Alvarenga acabara de<br />

chegar de Vila Rica onde tinha ido participar da concorrida posse de<br />

Barbacena e aproveitado para manter algumas conversas com o cônego<br />

Luiz Vieira sobre a independência da América Inglesa. Seu entusiasmo<br />

com a ideia de libertação do vínculo com Portugal vinha se acumulando<br />

44 Alvarenga ganhou fama de grande devedor da Coroa, mas isso parece ter sido fruto<br />

principalmente de um comentário exagerado do escrivão Manitti, no auto de<br />

sequestro de seus bens.<br />

62


e ele já estava conseguindo contagiar alguns amigos do Rio das Mortes.<br />

Assim, era inevitável que este entusiasmo transparecesse naquele dia e a<br />

celebração da prosaica cerimônia de batizado extrapolasse um pouco<br />

seus propósitos originais.<br />

A população de São José del Rei tinha sido acordada logo ao nascer<br />

do sol com os repiques festivos <strong>dos</strong> sinos da matriz de Santo Antônio.<br />

Mas a cerimônia não começaria antes de dez horas da manhã.<br />

Alvarenga e Bárbara saíram cedo de São João mas só conseguiram<br />

chegar à vila vizinha pelo meio da manhã. A entrada foi triunfal como<br />

d. Bárbara encomendara e o cortejo desceu até a matriz sob os aplausos<br />

do povo postado nas calçadas ou atrás das janelas enfeitadas com forros<br />

borda<strong>dos</strong> e vasos de flores. José Eleutério e João Damasceno 45 seriam<br />

batiza<strong>dos</strong> ao mesmo tempo embora a diferença de idade entre eles<br />

fosse de quase dois anos. Na verdade o primeiro já tinha sido batizado<br />

em fevereiro do ano anterior, mas como tudo tinha sido feito às pressas<br />

devido à frágil saúde do pequeno, em risco de morte, não tinha dado<br />

tempo de organizar uma festa. Assim, aquela era uma ocasião de reparar<br />

essa imperfeição.<br />

A matriz estava cheia, especialmente de curiosos. Certamente não<br />

havia nada melhor para se fazer na vila de São José naquela manhã<br />

especial. Cada criança estava no colo de um <strong>dos</strong> padrinhos. O pequeno<br />

Damasceno sustentado desajeitadamente por sua irmã Maria Efigênia<br />

de onze anos e Eleutério nos braços do compadre Tomás Antônio<br />

Gonzaga. O oficiante da cerimônia, padre Carlos Correia de Toledo, 46<br />

estava muito bem humorado e fez graça com o inusitado batizado<br />

duplo, comentando que essas esquisitices de festejar as coisas fora de<br />

45 Mais tarde Bárbara mudaria o nome do filho para João Evangelista pois João<br />

Damasceno era o nome do irmão do delator Silvério <strong>dos</strong> Reis, enfim o causador de<br />

tanto sofrimento à família. Imaginem se a bela e brava descendente de Amador Bueno<br />

- o quase-rei <strong>dos</strong> paulistas - ia conviver com aquela desfeita dentro de casa.<br />

46 Carlos Correia de Toledo – Vigário da Vila de São José, era um <strong>dos</strong> sócios que tinha procurado<br />

induzir algumas pessoas, o que principalmente fazia apalpando primeiro os ânimos, e mandando<br />

falar por seu irmão Luiz Vaz; além de outras provas, confessou depois de instâncias a sua culpa nas<br />

perguntas que lhe foram feitas; suposto dizia que tinha muita gente pronta, declarou que era por<br />

facilitar; é filho da Vila de Taubaté, Capitania de São Paulo. Foi preso em Minas, e remetido para<br />

esta cidade, onde se acha preso em uma fortaleza (DCT).<br />

63


hora era mesmo do agrado de d. Bárbara e dr. Alvarenga. Naturalmente<br />

estava se referindo ao fato de que a festa de batizado da filha mais velha<br />

do casal tinha acontecido antes da festa de casamento de seus pais,<br />

tempo em que a Bela Bárbara desfilou sua condição de mãe solteira sem<br />

o menor constrangimento, transbordante de beleza e coragem, coisas<br />

que nela sempre sobraram.<br />

A cerimônia não chegou a ser propriamente demorada e logo um<br />

alegre cortejo pôde descer as escadarias da matriz, embalado pelos<br />

sopros celestiais de seu magnífico órgão alemão, ricamente decorado. 47<br />

O relógio de sol do adro da igreja apontava mais-ou-menos meio dia de<br />

um dia de esplendoroso verão. O grupo tomou a rua à direita e seguiu<br />

em direção à imponente casa do padre Toledo que ficava perto. A via<br />

estava interditada e, na verdade, era ali ao ar livre que a celebração iria<br />

acontecer, espalhando livremente seus alegres sons vila abaixo,<br />

contagiando uma plateia, devidamente afastada por balaústres<br />

improvisa<strong>dos</strong>, mas conivente e feliz. Os convida<strong>dos</strong> já foram dançando<br />

e tocando tambores desde o pé da escadaria da igreja, rua à fora, até o<br />

largo em frente ao palacete do padre onde fartas mesas com flores,<br />

carnes e frutas, bolos, refrescos e vinhos estavam expostos à mercê de<br />

convivas famintos e sedentos e a salvo da plateia curiosa.<br />

Alvarenga foi o único que seguiu montado. No colo levava a filha,<br />

feliz e sorridente em sua pose de Princesa do Brasil. O garboso animal,<br />

castanho e com uma estrela branca na testa, estava enfeitado com uma<br />

profusa guirlanda de flores enfeixada no pescoço. Assim também a<br />

filha, que levava um belo e perfumado diadema natural na cabeça.<br />

Nosso poeta estava mais Eureste Fenício do que nunca naquela bela<br />

manhã. Os irmãos novos cristãos, inocentes se contentavam em seguir<br />

nos colos de suas amas, restando Bárbara livre para extravasar sua<br />

alegria o que fazia com gosto, deslizando pelas pedras com rara graça e<br />

formosura. Uma discreta gravidez de cinco meses não estorvava sua<br />

elegância e leveza. O filho caçula, Tristão, nasceria em fevereiro e, para<br />

fazer jus ao nome, nunca teria o pai por perto a vigiar-lhe os passos e a<br />

47 Está certo que naquela época a fachada da matriz ainda não tinha sido enriquecida<br />

com a portada que tem hoje e que alguns atribuem controversamente ao Aleijadinho,<br />

mas já era muito afamada pela sua beleza e riqueza.<br />

64


lhe alegrar a infância. Alvarenga seria preso quando ele nem tinha três<br />

meses de vida e daí jamais voltaria a se encontrar com a família. 48<br />

Mas naquela hora ninguém antevia nuvens carregadas no horizonte<br />

e ali estavam várias figuras destacadas da capitania das Minas a dançar e<br />

a brincar seus brinque<strong>dos</strong>, inocentes mas cerca<strong>dos</strong> de perigos.<br />

De Vila Rica, além do desembargador Gonzaga, tinha vindo o<br />

homem mais rico das Minas Gerais, o conhecido contratador João<br />

Rodrigues de Macedo, não por acaso o principal credor de Alvarenga.<br />

Não chamava a atenção, discretamente trajado e seguindo o cortejo<br />

caminhando e se divertindo com o desembaraço <strong>dos</strong> outros. Joaquim<br />

José da Silva Xavier, 49 a despeito de ser daquela região, não estava<br />

presente. Naquele tempo nem Alvarenga nem o padre Toledo sequer o<br />

conheciam. Mas o que não faltou naquele dia foi a imprudência que<br />

alguns tanto gostavam de recriminar no dito alferes. Ainda mais<br />

estimula<strong>dos</strong> pelos vapores do vinho, os discursos, brindes e saudações<br />

chegarem às raias da mais completa irresponsabilidade, o que fez o<br />

discreto Macedo sair mais cedo a pretexto de negócios em São João<br />

onde mantinha entrepostos para seu ativo comércio com o Rio de<br />

Janeiro. Mas isso não adiantou mesmo e depois ele teve que gastar<br />

muito dinheiro para que fossem apaga<strong>dos</strong> os vestígios de sua presença<br />

nesta festa. Gonzaga se poupou como era de seu estilo. Contudo,<br />

quanto a Alvarenga, o padre Toledo e seu irmão Luiz Vaz de Toledo<br />

Piza, 50 nada os pôde livrar mais tarde do peso do que disseram naquele<br />

48 Aqui há uma controvérsia: há quem diga que Tristão tenha sido o segundo filho do<br />

casal, e não o caçula.<br />

49 Joaquim José da Silva Xavier – Alferes do Regimento da Cavalaria paga de Minas Gerais é filho<br />

de Minas; tem muito grande número de testemunhas que o culpam em que proferia as sediciosas<br />

proposições que – a América podia ser independente, e livre da sujeição real, e que os filhos dela eram<br />

uns vis e fracos, que não faziam o que fizeram os americanos ingleses, que ele se achava, com ânimo<br />

de cortar a cabeça ao General – há muitas testemunhas a quem ele convidou para fazer o levante; há<br />

alguns <strong>dos</strong> consócios <strong>dos</strong> conventículos que têm confessado ser ele o mais fervoroso, e que pedia para<br />

executar a ação mais arriscada; dizem algumas testemunhas, que já no tempo em que governava<br />

Minas o Ilustríssimo e Excelentíssimo Luis da Cunha Meneses, se lhe ouviu proposição que tinha o<br />

mesmo sentido, mas que ninguém fizera caso disso. Este réu foi o primeiro que se prendeu, e foi preso<br />

nesta cidade já quando andava refugiado; foi achado com um bacamarte carregado: conserva-se preso<br />

na Fortaleza. Tem sido convencido nas perguntas, mas não confessa.(DCT).<br />

50 Luis Vaz de Toledo – Sargento-mor de Cavalaria Auxiliar da Vila de São João Del Rei, foi<br />

convidado por seu irmão Carlos Correia de Toledo, e convidou para se efetuar a conjuração a alguns<br />

sujeitos por instrução do dito seu irmão; tendo fugido quando foi preso o irmão, veio depois entregar-se<br />

65


dia. Beberam, dançaram e falaram alto o que os verdadeiros fidalgos<br />

não gostavam de ouvir. Falaram de nobres cabeças decepadas, uma<br />

nova ordem, um novo reino onde Alvarenga seria rei, Bárbara a rainha<br />

e o padre Toledo santo padre. Nosso bom vigário de São José morreria<br />

dezesseis anos depois em Lisboa, longe de casa e sem ter o céu<br />

assegurado. Alvarenga morreria na África dentro de quatro anos, de<br />

malaria e saudade, sem ter tido tempo de optar verdadeiramente se o<br />

Brasil livre de Portugal deveria ser um novo reino ou uma nova<br />

república. Pobre Bárbara, a despeito da sua imensa coragem, morreria<br />

demente, abatida por tanto sofrimento. Depois da humilhação, degredo<br />

e morte do marido, ainda teria que suportar a morte da querida filha<br />

vitima da queda fatal de um cavalo aos dezoito anos de idade e de<br />

casamento marcado. Pobre Maria Efigênia, nem por puro carinho de<br />

mãe pôde ser princesa muito tempo.<br />

Todavia, naquele dia ninguém vislumbrava tormentas nos<br />

horizontes ensolara<strong>dos</strong> do futuro. Aliás, ninguém ainda tinha botado<br />

efetivamente em prática a ideia de ser infiel à dita Senhora, rainha de<br />

Portugal. Tiradentes havia acabado de chegar cheio de planos,<br />

proveniente do Rio de Janeiro onde permanecera longos meses. Mas<br />

ainda não tinha soprado verdadeiramente esses planos nas ruas de Vila<br />

Rica. Estava bom da cabeça mas meio doente do pé, sem condições de<br />

se locomover decentemente. José Álvares Maciel estava envolvido com<br />

sua mudança para o palácio da Cachoeira onde ia morar na condição de<br />

consultor mineralogista do visconde de Barbacena e preceptor de seus<br />

filhos. Freire de Andrade ainda estava feliz em ser comandante da<br />

cavalaria da capitania, acomodado no seu posto e relaxando nos finais<br />

de semana nas propriedades do sogro. O padre Rolim estava escondido<br />

em Vila Rica e o padre Toledo vinha fazendo planos de tentar a vida<br />

em Portugal no ano seguinte. Cláudio Manuel estava matutando sobre<br />

alternativas para a economia de Minas e agiotando calmamente. Mas<br />

Gonzaga tinha aproveitado o encontro em São José e convidado a<br />

turma do Rio das Mortes para passar o natal em Vila Rica. Aí é que a<br />

história ia realmente esquentar e uma ideia um tanto mais sóbria de<br />

à prisão, tomando a resolução de declarar a verdade, na esperança de que Sua Majestade o perdoasse;<br />

depôs e confessou nas perguntas a culpa, além da prova que já havia pelo juramento do denunciante<br />

Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis. Esteve preso em Minas e veio remetido para esta cidade, onde se acha em<br />

uma fortaleza: é filho de Minas, da Vila de Taubaté (?) (DCT).<br />

66


epública tomaria rapidamente o lugar das visões borradas <strong>dos</strong> reinos<br />

irreais.<br />

7<br />

A PROPÓSITO DE MAZOMBOS E COIMBRÃOS<br />

Como antecipei de passagem na introdução deste livro, sou<br />

partidário da ideia de que a Inconfidência Mineira nasceu de duas<br />

vertentes distintas de descontentamentos que brotaram em momentos<br />

diferentes, tiveram razões e dinâmicas diferentes e que se encontraram<br />

em Vila Rica no mês de dezembro de 1788, não conseguiram se integrar<br />

muito bem e a partir daí definharam rapidamente e para sempre<br />

deixando um rastro de órfãos, viúvas e deserda<strong>dos</strong>. Foi uma trajetória<br />

fugaz mas muito marcante e trágica. Nomeamos uma dessas vertentes<br />

como a <strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong> e a outra a <strong>dos</strong> <strong>mazombos</strong>. Dissemos que na<br />

primeira se enquadrariam aqueles brasileiros filhos de famílias<br />

tradicionais e abastadas que foram graduar-se em leis ou história natural<br />

em Coimbra, frequentaram salões intelectuais nas boas casas<br />

portuguesas, eram chega<strong>dos</strong> a escrever competentes poesias<br />

encomiásticas, admiravam as ideias iluministas, estavam pluga<strong>dos</strong> no<br />

mundo e na sua época, miravam as benesses do estado mas percebiam<br />

o total anacronismo do regime colonial e do absolutismo e tinham<br />

dúvidas se um Brasil independente deveria ser uma monarquia<br />

constitucional ou uma república. Subjetivamente estavam muito mais<br />

preocupa<strong>dos</strong> com a independência do que propriamente com a<br />

república embora, objetivamente, devessem até se sentir atraí<strong>dos</strong> pela<br />

ideia da implantação de um tal regime no Brasil. Afinal gostavam de se<br />

deixar levar pelo fascínio iluminista das novas ideias políticas. E elas<br />

fervilharam abundantemente no século XVIII e deitaram as bases do<br />

mundo moderno, engendrando mudanças uterinas que arrastaram as<br />

monarquias e abriram espaço para a libertação das suas colônias.<br />

Talvez nossos caros <strong>coimbrãos</strong> até calcassem todo o seu plano<br />

político na visão de que o Brasil era grande demais para continuar<br />

dependente de Portugal e que tinha que se libertar, seja na forma de<br />

uma federação de pequenas repúblicas, seja na forma de um grande<br />

império monárquico. É possível que tivessem se ocupado de anima<strong>dos</strong><br />

debates políticos em torno disso e que Barbacena até tenha participado<br />

de alguns mais reserva<strong>dos</strong>. É possível até que, por uma questão<br />

pragmática aprendida com os <strong>mazombos</strong>, a coisa estivesse evoluindo<br />

67


para a ideia de república, mas não tiveram tempo de chegar a um<br />

consenso. 51<br />

Os <strong>mazombos</strong> eram aqueles homens de poucas letras, rudes, muito<br />

pragmáticos e um tanto aventureiros, de visão estritamente local. Eram<br />

nasci<strong>dos</strong> no Brasil ou vin<strong>dos</strong> de Portugal para tentar fortuna na colônia,<br />

cujos negócios não iam muito bem, vexa<strong>dos</strong> por uma política tributária<br />

irresponsável. Certamente desgostavam da nobreza muito mais do que<br />

seus parceiros ilustra<strong>dos</strong>. Mas gostavam muito de enobrecer um pouco<br />

suas origens buscado se aproximar <strong>dos</strong> governantes, para tal adquirindo<br />

ou conquistando patentes militares de oficiais de médio ou alto<br />

coturno, efetivas ou auxiliares. Apreciaram muito a simplória ideia de<br />

república passada por Tiradentes e ao contrário <strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong> não<br />

conseguiam secionar o conceito, entendendo que a independência era<br />

indissolúvel do regime republicano e até sua consequência natural. Pela<br />

sua própria visão regionalista estavam muito mais preocupa<strong>dos</strong> com sua<br />

existência dentro das fronteiras da capitania e lhes bastava uma<br />

república das Minas com capital em São João del Rei, universidade em<br />

Vila Rica e, quem sabe, tendo como vizinhos uma república do Rio de<br />

Janeiro e outra de São Paulo. O resto eram campos e florestas tropicais.<br />

Diferenças de poetas e solda<strong>dos</strong>, grosso modo. Mas claro que os<br />

integrantes de uma e outra turma não eram necessariamente poetas ou<br />

solda<strong>dos</strong> modelares, nem estudaram em Coimbra ou comandaram<br />

regimentos. Também havia muitas diferenças individuais entre umas e<br />

outras personagens como buscaremos demonstrar alhures ao tratarmos<br />

das tipologias de inserção individual das nossas trágicas personagens na<br />

causa que idearam. Mas as características de cada segmento como um<br />

todo têm traços bastante níti<strong>dos</strong>, justificando nossa tentativa de<br />

categorização. Com certeza essa diferenciação nos ajuda a entender<br />

certos rumos aparentemente sem sentido que o movimento tomou em<br />

determina<strong>dos</strong> momentos e que têm desnorteado muitos estudiosos da<br />

conjuração ao longo <strong>dos</strong> tempos, levando-os a ver contradições e<br />

incoerências onde há sentido e consistência.<br />

51 É verdade que nos depoimentos, tanto de <strong>mazombos</strong> quanto de <strong>coimbrãos</strong>, só há<br />

menção à ideia de república. Mas isso não tem maior significado. Primeiro porque<br />

to<strong>dos</strong> queriam jogar a culpa em Tiradentes que exatamente tinha como um de seus<br />

apeli<strong>dos</strong> “o república” tal o peso da ideia em seu discurso. Em segundo lugar, reduzir<br />

o motim à um plano de república preservava mais a figura de Barbacena que, grosso<br />

modo, não deveria ter lugar num tal regime.<br />

68


A vertente <strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong> talvez tenha nascido antes, provavelmente<br />

a partir do fascínio intelectual que o cônego Luiz Viera da Silva tinha<br />

pela independência americana. Temos notícias do cônego falando nisso<br />

já por volta de 1780. Não é difícil imaginar ele parlamentando com<br />

Cláudio Manuel da Costa sobre essa matéria, à qual certamente o<br />

advogado terá agregado ideias econômicas a propósito da liberdade <strong>dos</strong><br />

merca<strong>dos</strong> e <strong>dos</strong> meios de produção. É inevitável que nos venha à mente<br />

a imagem do ilustre poeta promovendo almoços e jantares, presentes<br />

seus amigos letra<strong>dos</strong> falando de política. Para manter-se em evidência e<br />

ser chamado a tais seletas rodas era preciso ter opiniões consistentes<br />

com os horizontes abertos de uma autêntica mente coimbrã. Sem<br />

embargo, até antes de 1780 já se falava nessas reuniões coisas que a<br />

ouvi<strong>dos</strong> monárquicos mais sensíveis deviam incomodar. Mas alguns<br />

deles até estavam presentes nesses elegantes congressos pois que se<br />

sentir iluminado estava na moda, especialmente entre nobres mais<br />

inquietos. Havia um pouco mais de tolerância nas cabeças coroadas,<br />

tanto que algumas delas até acabariam rolando sob o peso do pie<strong>dos</strong>o<br />

cutelo do dr. Joseph Guillotin, armado numa praça apinhada, apontado<br />

para o céu de uma Paris flamejante, ardendo de sangre e de paixão.<br />

Em final de 1782 temos se juntando ao grupo o desembargador<br />

Tomás Antônio Gonzaga, nomeado para a ouvidoria de Vila Rica,<br />

recém chegado de Portugal e cheio de conflitos intelectuais sobre a<br />

natureza do poder, o alcance do direito natural e a legitimidade <strong>dos</strong> reis<br />

poderem dispor das coisas de Deus mesmo infligindo sofrimentos aos<br />

homens. Com ele vem Alvarenga Peixoto, atraído a Vila Rica pela<br />

chegada do amigo e parente. Quem sabe o ouvidor Manitti, os<br />

intendentes Bandeira e Beltrão e o bacharel Diogo Ribeiro Pereira de<br />

Vasconcelos também se achegassem? Ainda restavam reflexos do<br />

governo ilustre de d. Rodrigo José de Meneses e as ideias de liberdade<br />

econômica e política podiam vicejar com certa liberalidade, pelo menos<br />

num plano intelectual. Pensava-se baixo mas se podia falar o que se<br />

pensava nos círculos mais seletos, embala<strong>dos</strong> pelo enlevo <strong>dos</strong> ditos<br />

pensamentos sem riscos ou compromissos. To<strong>dos</strong> se sentiam à<br />

vontade, especialmente Cláudio Manuel da Costa que tinha por<br />

característica pessoal ser um intelectual curioso e fértil mas um ser<br />

humano temente, inseguro e cauteloso.<br />

Foi esse ambiente que o próprio visconde de Barbacena encontrou<br />

quando chegou à capitania em mea<strong>dos</strong> de 1788. Sem nenhuma dúvida,<br />

as conversas eruditas sobre assuntos políticos refina<strong>dos</strong> não cessaram<br />

de repente só porque ele estava presente. Muito antes pelo contrário,<br />

69


deve ter havido até uma certa euforia intelectual com a chegada do<br />

visconde, um notório coimbrão, fundador da Academia de Ciências de<br />

Lisboa e professor adjunto do famoso naturalista italiano Domingos<br />

Vandelli. 52 Findava então o mandato do rude e grosseiro governador<br />

Cunha Menezes que obscurecia os nobres salões com umas boas<br />

bacanais, certamente interessantes mas muito grosseiras e condenáveis<br />

para mentes coimbrãs. 53 Barbacena vinha inclusive acompanhado de<br />

José Álvares Maciel, seu colega de Coimbra, conselheiro e amigo muito<br />

íntimo, residente no próprio palácio, ilustre e inteligente mas louco por<br />

uma revolução. Com certeza Maciel e o visconde tomaram muitos cafés<br />

da manhã juntos, onde rolaram as mesmas conversas <strong>dos</strong> cafés ilustres<br />

de Cláudio Manuel da Costa. Quem tivesse o restrito privilégio de estar<br />

presente entre as quatro paredes <strong>dos</strong> respectivos salões, teria ouvido<br />

falar que a razão é um método para transformar o real e o seu exercício<br />

é tangido pela fé que leva ao desejo de reorganização da sociedade, pois<br />

que, o fim último da razão é o progresso da humanidade. Certamente<br />

não havia coimbrão autêntico que desprezasse tais discursos, inclusive<br />

52 Domenico Agostino Vandelli nasceu em Pádua em 1732 e morreu em 1815.<br />

Exerceu grande influência sobre a formação <strong>dos</strong> naturalistas portugueses do século<br />

XVIII, entre eles nosso peculiar visconde. Era um intelectual completo, pleno das<br />

ideias novas do século das luzes. Pensador profundo, impregnado do pragmatismo<br />

político <strong>dos</strong> ilumina<strong>dos</strong> do seu tempo. Publicou obras de conteúdo diverso, entre as<br />

quais um tratado de aritmética, política, economia e finanças. Em 17 de maio de 1774<br />

lecionava sua primeira aula de química na universidade de Coimbra, contribuindo para<br />

a arrancada da nova universidade engendrada pela reforma pombalina. Em 1784<br />

fundou uma fábrica de louça e logo depois assumia a direção do Jardim Botânico Real,<br />

anexo ao palácio da Ajuda. Em 1788, ou seja no ano em que Barbacena veio para o<br />

Brasil, publicou em parceria com seu colega Anton Haen a Florae Lusitanicae et<br />

Brasiliensis Specimen, obra que, provavelmente, o visconde trouxe debaixo do braço<br />

quanto aqui veio ter. A presença marcante de uma figura como o prof. Vandelli na<br />

vida de Barbacena é fundamental para se entender porque o visconde pode ter tido<br />

um interesse muito especial pelo Brasil e algumas ideias muito pouco ortodoxas sobre<br />

as fascinantes perspectivas que a inconfidência mineira abriam defronte da sua porta.<br />

Com certeza nunca deve ter se sentido confortável com o confronto travado na<br />

estante da sua biblioteca, entre os livros e notas de aula de Vandelli e as anacrônicas<br />

cartas e instruções recebidas do Ministério.<br />

53 É certo que Cunha Menezes também andou por Coimbra, frequentando a faculdade<br />

de medicina, mas nunca teve vocação para médico. Era um militar assumido, fardado<br />

até na alma.<br />

70


alguns de sangue levemente azul como Montesquieu e porque não,<br />

nosso futuro conde de Barbacena, ambicioso, culto e pobretão.<br />

Convém observar aqui que a maioria <strong>dos</strong> iluministas não chegava a<br />

negar o rei ou mesmo Deus. Eram mais reformistas do que<br />

revolucionários. Politicamente seu foco principal era o absolutismo do<br />

estado e da igreja que embotavam as ideias e obstruíam o progresso. 54<br />

Certamente nenhum verdadeiro coimbrão tinha medo ou vergonha de<br />

expor tais ideias para nobres ou plebeus.<br />

Nos primórdios da aventura da outra vertente, por volta de 1785,<br />

vamos encontrar o eterno alferes Joaquim José da Silva Xavier falando<br />

sem peias das riquezas de Minas e do seu potencial em ser um país<br />

independente. É a pregação aberta, nas ruas, quartéis e bordéis. São os<br />

tais tempos obscuros de Cunha Menezes que não vê Tiradentes senão<br />

como um moleque, ameaçando dar-lhe com a chibata. De fato, naquele<br />

tempo seu discurso não tinha lastro nem ilustração e devia ser<br />

ininteligível e aborrecido. De sorte que até ele andava meio<br />

desacoroçoado, preferindo ficar no Rio de Janeiro de pés descalços,<br />

chafurdando-os pela areia.<br />

As duas vertentes não se conversam, nem sequer se conhecem e<br />

enquanto o alferes atua a esmo pelas ruas conforme o seu humor, o<br />

ouvidor Gonzaga atua no seu austero gabinete rascunhando sátiras<br />

chilenas contra Cunha Menezes, de malas prontas e aprontando na<br />

saída. No princípio elas só serviam para animar saraus literários restritos<br />

dando-lhes um tempero mais apaixonado e comprometido. Mais tarde<br />

ganharam as ruas.<br />

Ambas as atuações parecem ter muito de motivação<br />

estritamente pessoal de cada um. 55 Tiradentes não se conformava em<br />

54 Em Portugal as ideias iluministas tiverem características muito peculiares. Eram<br />

essencialmente reformistas e tinha na reforma do ensino seu mais poderoso<br />

instrumento de mudança. Por isso não deixava de fascinar padres e fidalgos, entre eles<br />

o futuro marquês de Pombal.<br />

55 Há controvérsias se as Cartas Chilenas começaram a ser escritas antes ou depois que<br />

Cunha Menezes deixou o governo de Minas. Acredito que parte foi escrita antes e<br />

parte foi escrita depois que o Fanfarrão foi embora. De qualquer forma não altera,<br />

pois, em ambos os casos, elas servem como exemplo das razões sentimentais que<br />

também contribuíram para levar Gonzaga a abraçar a causa da inconfidência.<br />

71


ter perdido o cobiçado comando do patrulhamento da serra da<br />

Mantiqueira e Gonzaga não se conformava com as intromissões do<br />

governador em suas decisões e sua alcova, disputando com ele o regaço<br />

sensual da fogosa Marília Loura. Mas as ideias intrínsecas têm potencial<br />

para contagiar muitos outros apaixona<strong>dos</strong>, existem razões estruturais<br />

favoráveis, de sorte que a árvore da conspiração tem tendência a<br />

crescer.<br />

Enquanto a vertente <strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong> segue seu ritmo indolente,<br />

elegante e risonho, a <strong>dos</strong> <strong>mazombos</strong>, limitada à figura única de<br />

Tiradentes, adormece e lá está ele curtindo o pacato Rio de então,<br />

sonhando com moinhos e águas encanadas e distante de seus prosaicos<br />

negócios na capitania de Minas, cada vez menos doura<strong>dos</strong>. Essa latência<br />

permanece até mea<strong>dos</strong> de 1788. Foi então que o alferes encontrou José<br />

Álvares Maciel de retorno da Europa, cheio de planos de mudança e<br />

desenhos debaixo do braço. A partir daí o grupo <strong>dos</strong> <strong>mazombos</strong><br />

começa a tomar corpo e engrossar suas fileiras onde <strong>coimbrãos</strong> como o<br />

próprio Maciel, eram muito bem vin<strong>dos</strong>. E foi assim que o movimento<br />

foi crescendo e passou a contar com Freire de Andrade, os padres<br />

Toledo e Rolim, Francisco Antônio de Oliveira Lopes e tantos outros.<br />

Os dois grandes vetores na formação desse segundo grupo são o<br />

próprio Tiradentes e o padre Toledo que, logo após ser aliciado, saiu<br />

aliciando entusiasticamente, como veremos adiante. Enquanto isso, o<br />

grupo <strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong> se reanima, principalmente se valendo do<br />

entusiasmo de colegas um tanto mais pragmáticos como Alvarenga e o<br />

cônego Luiz Vieira que também provaram da lábia de Tiradentes.<br />

Na famosa reunião de 26 de dezembro na casa do tenente-coronel<br />

Freire de Andrade, teria começado a integração efetiva <strong>dos</strong> dois grupos.<br />

Ela, porém, foi muito imperfeita. Alvarenga e Maciel se integraram com<br />

satisfação ao grupo <strong>dos</strong> agita<strong>dos</strong>. Gonzaga é mais discreto e preferiu<br />

estar de fora <strong>dos</strong> conventículos mais feéricos, embora, provavelmente<br />

tenha estado presente àquela reunião. O dr. Cláudio fez questão de<br />

permanecer distanciado dessas euforias. Não vamos encontrá-lo<br />

participando de planos militares ou reuniões mais populares. Aliás, os<br />

diversos depoimentos <strong>dos</strong> autos de devassa confirmam as limitações de<br />

seu envolvimento numa conspiração efetiva, restringindo seu ânimo a<br />

conversas superficiais sobre a matéria com seus colegas, animando seus<br />

habituais almoços em sua casa ou na de Gonzaga. Nesse ponto seu<br />

depoimento diante <strong>dos</strong> juízes parece muito hábil e verossímil e o<br />

máximo de comprometimento que lhe é possível atribuir é a tal<br />

72


discussão a propósito da bandeira da nova república. 56 Mas, certamente,<br />

a coisa foi muito mais profunda e ele exerceu grande influência no<br />

movimento como um todo e muito provavelmente, como quisemos<br />

insinuar, tratou sobre a matéria com o próprio governador, usando da<br />

delicadeza que ela requeria. Ao final ficou muito assustado com a<br />

reação tardia e nada delicada do visconde e aí principiou-se a agonia <strong>dos</strong><br />

seus dias. Sem nenhuma dúvida, não abonava o uso da força para<br />

tomada do poder e tinha sau<strong>dos</strong>ismos monarquistas e prévia melancolia<br />

de vislumbrar que os reinos estavam no fim. Com certeza, não só<br />

desaprovava a violência como também era descrente de que houvesse<br />

condições objetivas para o sucesso de um levante armado. Assim,<br />

condenava a afobação de Tiradentes e receava que ela pudesse<br />

precipitar as coisas, espantando o próprio visconde de Barbacena. E foi<br />

exatamente o que aconteceu. É provável que o dr. Cláudio tenha ficado<br />

indeciso sobre a forma ideal de se proceder à integração entre os dois<br />

grupos rebeldes e que essa indecisão tenha afastado Barbacena do<br />

grupo de <strong>coimbrãos</strong>, consolidando a ruína total do movimento. Cláudio<br />

não conseguia acreditar realmente no sucesso <strong>dos</strong> <strong>mazombos</strong> e teria<br />

dito que a independência americana foi bem sucedida porque contava<br />

com três líderes capazes, mas que em Minas só tinha Tiradentes que<br />

andava feito “corta-vento” e que estava prestes de perder a cabeça. 57<br />

Ou seja, para Cláudio faltaram líderes revolucionários autênticos.<br />

Assim, teria preferido arriscar discretamente nos trabalhos de<br />

bastidores. Mais lucidez é impossível!<br />

O cônego Luiz Vieira da Silva - outro representante expressivo da<br />

vertente <strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong>, embora nunca tivesse estudado fora do Brasil -<br />

também não esteve presente na reunião de 26 de dezembro. Porém,<br />

certamente não o fez apenas porque teve que viajar para passar o natal<br />

com a família, estando, portanto ausente de Vila Rica. Ao contrário de<br />

Cláudio Manuel da Costa, ele era declarado admirador de Tiradentes e,<br />

sem dúvida, influenciou na concepção do plano militar, assunto que o<br />

fascinava e também ocupava espaço em seu amplo horizonte de<br />

conhecimentos.<br />

56 Que no entanto já era motivo para complicá-lo tremendamente. Ele tinha<br />

consciência disso mas parece que tinha se esquecido e só voltou a se lembrar quando<br />

as prisões começaram.<br />

57 Depoimento de Brito Malheiro.<br />

73


Naquele peculiar dezembro, embalado pelo clima de otimismo<br />

característico a todo final de ano, o casamento entre as duas vertentes<br />

<strong>dos</strong> descontentes parecia encaminhado e inevitável. Mas, a partir de<br />

janeiro, tudo começou a se complicar e o enlace nem sequer se<br />

consumou. Os <strong>coimbrãos</strong> se assustaram com a própria ousadia em<br />

acreditar na adesão de Barbacena, os <strong>mazombos</strong> se assustaram com o<br />

susto <strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong> e com as indecisões de Freire de Andrade e baixou<br />

uma certa ressaca cívica, para não dizer uma letargia sepulcral. Exceções<br />

as houve, sem dúvida, mas o ânimo não era mais o mesmo. A turma do<br />

Rio das Mortes e o padre Rolim tentaram manter a chama, mas de<br />

forma desordenada e extemporânea, meio que na contramão da lógica<br />

da sucessão <strong>dos</strong> acontecimentos. Somente Tiradentes, teimoso<br />

contumaz e já inteiramente incapaz de enxergar um revés, permaneceu<br />

firme e tentou melhor sorte no Rio de Janeiro. Mas a árvore da<br />

discórdia começava a adernar, insustentável em suas frágeis raízes<br />

natimortas.<br />

Sem embargo, como conspiração propriamente dita, o papel <strong>dos</strong><br />

<strong>coimbrãos</strong> na inconfidência foi coadjuvante. Tecnicamente seus crimes<br />

teriam sido menores se não fosse a fúria punitiva da Coroa que viu na<br />

oportunidade de sentenciar duramente tão ilustres figuras, uma chance<br />

imperdível de sossegar uma veia rebelde que vinha pulsando na<br />

capitania desde o início do século. Com exceção de Alvarenga,<br />

incorrigível bonachão, to<strong>dos</strong> os demais buscaram ser cautelosos e não<br />

queriam se expor, posto conhecessem os riscos monumentais de uma<br />

acusação de crime de lesa-majestade onde meros indícios se tornam<br />

provas irrefutáveis.<br />

Não há como negar que a simples aproximação de Tiradentes<br />

causava arrepios em Gonzaga e Cláudio Manuel e que eles viviam<br />

evitando recebê-lo. Não há de se duvidar também da autenticidade <strong>dos</strong><br />

sentimentos de Dirceu de chamar o alferes de “pobre, deserdado e<br />

louco” como fez cruelmente na sua famosa lira XXXVIII. Mas<br />

Joaquim José, mesmo se declarando inimigo do ex-ouvidor, teve a<br />

decência de não usar o nome de Gonzaga. 58 Mesmo escrúpulo não teria<br />

58 Aliás o nosso caro Gonzaga sempre despertou paixões, exacerbando os bons e os<br />

maus sentimentos das pessoas para com ele. Os inconfidentes tentaram acobertá-lo,<br />

Silvério <strong>dos</strong> Reis (ou Barbacena) tentou exagerar a sua culpa; em plena meia-idade<br />

conseguiu interessar a adolescente Maria Dorotéia quando aos seus dotes de marido e<br />

no fim da vida era xodó em Moçambique.<br />

74


tido o padre Toledo, confessando mais tarde ter usado o nome do<br />

poeta de Marília apenas para dar maior peso ao discurso que fazia em<br />

seus aliciamentos sem saber exatamente qual era o seu real<br />

envolvimento na conjuração. 59 Pode ser que, de fato, não tenha passado<br />

da intenção de rascunhar leis, imaginar bandeiras e cochichar filosofia<br />

política no ouvido desconfiado de Barbacena, coisas compreensíveis às<br />

pessoas de espírito, mas mesmo assim muito perigosas. De qualquer<br />

forma, Gonzaga tinha muita autoridade naquele ambiente rebelde, sabia<br />

ocupar o seu espaço e não há como minimizar o peso da sua presença.<br />

Estou convencido de que ele planejava assumir o poder coadjuvado<br />

pelo infiel vassalo Barbacena mas ... só depois que Tiradentes tivesse<br />

tirado a espada e botado pra correr quem ainda teimasse em<br />

permanecer crente na majestade da dita Senhora.<br />

Mas no fim as disposições ou simples conjecturas de <strong>mazombos</strong> e<br />

<strong>coimbrãos</strong> viraram vil ousadia, paga com a mesma moeda e o<br />

sofrimento os uniu.<br />

8<br />

QUANDO O PADRE DO TEJUCO MUDA O MOTIVO MAS TEM<br />

QUE CONTINUAR FUGINDO<br />

Era uma manhã nublada de princípio de março do ano de 1789. Já<br />

havia seis meses que o padre José da Silva e Oliveira Rolim 60 estava em<br />

Vila Rica. Em princípio tinha ido para ver se conseguia, do novo<br />

governador, o relaxamento da sua ordem de expulsão da capitania,<br />

59 Particularmente penso que tanto Tiradentes quanto o padre Toledo tentaram<br />

minimizar a participação de Gonzaga no movimento. O primeiro desde o princípio e<br />

o segundo um tanto tardiamente. Era impossível o padre não saber das reais intenções<br />

do ex-ouvidor sobre a matéria tendo sido seu hóspede em Vila Rica, no pico da<br />

agitação. Deve ter se arrependido de entregá-lo e depois tentou corrigir a deslealdade<br />

para com o preclaro amigo.<br />

60 Padre José da Silva e Oliveira Rolim - Filho do Serro Frio; consta pela confissão <strong>dos</strong> sócios, que<br />

era um deles, e que tinha tomado a incumbência de aprontar a gente do Serro e Minas Novas; é<br />

sujeito de má conduta; tem dinheiro e alguma influência no povo, por ser filho do Caixa <strong>dos</strong><br />

Diamantes, e principalmente com os garimpeiros e gente criminosa, porque é infamado de<br />

contrabandista; andava fugido; consta extrajudicialmente que já está preso em Vila Rica (DCT).<br />

75


decretado pelo governador Cunha Menezes, há cerca de dois anos.<br />

Encontrou a capital em grande efervescência com ideias de revolução e<br />

aderiu prontamente. Mas guardava esperanças de não precisar de tanto<br />

só para se livrar de seu problema imediato que era o tal decreto de<br />

expulsão. Tinha feito uma série de articulações e contatos e as<br />

perspectivas em relação a este ponto eram excelentes. Tanto que já<br />

estava podendo transitar pelas ruas sem receio de ser detido. Há muito<br />

tempo que isso não acontecia e ele já andava meio cansado, trançando<br />

para baixo e para cima, se escondendo. Andou pelo sertão, pela Bahia e<br />

o Rio de Janeiro. Mas agora botava a cara no sol sem nenhum<br />

constrangimento. Assim, estava gostando muito daquela temporada em<br />

Vila Rica com festas, palestras e conventículos. Aqui é que era lugar<br />

para se viver e enriquecer. Os créditos andavam escassos, havia espaços<br />

para umas boas agiotagens e a vida era animada, ambas coisas do seu<br />

gosto estorvado.<br />

Mas passa<strong>dos</strong> alguns meses da sua chegada do Rio de Janeiro já<br />

estava na hora de aproveitar as liberdades e voltar para casa. Portanto, a<br />

despeito da venturosa estadia na capital, o padre Rolim estava ansioso<br />

para iniciar a viagem de regresso ao Tejuco que deveria durar uns vinte<br />

dias pois queria fazer umas visitas pelo caminho. De sorte que o padre<br />

errante pôs o pé na estrada mais uma vez.<br />

Despediu-se de seu anfitrião o coronel Domingos de Abreu Vieira 61<br />

que o acompanhou até a porta. Ajeitou o capote, cobriu a montaria<br />

com uma parte dele e deu sinal ao seu fiel escravo Alexandre para<br />

começarem a jornada. O coronel o seguiu até o chafariz de São José<br />

enquanto ele e sua trupe subiam a rua das Flores, passando calmamente<br />

em frente ao quartel da cavalaria. Mal podia imaginar que cerca de sete<br />

meses depois voltaria aquele mesmo ponto e estaria encerrado numa<br />

sala do quartel improvisado das tropas do vice-rei, na casa de João<br />

61 “Domingos de Abreu Vieira – É filho de Portugal, da Comarca de Viana do Minho; Tenente-<br />

Coronel de Cavalaria Auxiliar do Regimento de Minas Novas; em sua casa em Vila Rica se<br />

tratava o modo de fazer o levante; ele depõe, e confessa nas perguntas tudo, pretendendo desculpar-se<br />

que não concorria para nada daquilo, mas é certo que convinha inteiramente do modo que fica dito, e<br />

dava a pólvora, e suposto era tido por sujeito de probidade; as induções do Padre José da Silva de<br />

Oliveira, que era seu hóspede, junto com ser contratador <strong>dos</strong> Dízimos, seria a razão de se perverter.<br />

Foi preso em Minas e veio remetido para esta cidade onde se acha em uma fortaleza.” (DCT).<br />

76


Rodrigues de Macedo, sendo interrogado sucessivas vezes pelos<br />

devassantes de Barbacena.<br />

Ele e o anfitrião falaram-se ainda à distância, confirmando a<br />

combinação de se encontrarem daí uns tempos no caminho de Minas<br />

Novas. E seguiu a vagarosa viagem rumo norte, o seu pólo natural.<br />

Passou o arraial da Cachoeira do Campo, Congonhas do Sabará,<br />

Raposos, depois o arraial do Curral del Rei e a vila de Sabará. Ali se<br />

deteve um dia em visita ao padre Correia, aproveitando para se<br />

hospedar com ele e gozar o conforto de sua magnífica casa da rua<br />

Direita, com capela rococó e tudo o mais. 62 Dali seguiu para Santa<br />

Luzia, Fidalgo e Sete Lagoas onde se hospedou na casa de uma prima.<br />

Demorou-se alguns dias, tempo que aproveitou para batizar um filho da<br />

mesma. A cerimônia ocorreu na igreja de Jaguara, em fase final de<br />

construção sob a direção do famoso mulato de Vila Rica de nome<br />

Antônio Francisco Lisboa, já muito conhecido como O Aleijadinho.<br />

Na seqüência da jornada passou numa lavra de um tio seu, perto da<br />

Vila do Príncipe. Não teve nenhuma preocupação em se esconder pelo<br />

caminho. Mas ao entrar na Comarca do Serro Frio, achou melhor ser<br />

um pouco mais prudente. Esperou anoitecer para entrar na sede da<br />

comarca e foi visitar o ouvidor Joaquim Antônio Gonzaga e lhe<br />

entregar algumas cartas do primo Tomás Antônio Gonzaga. Ganhou<br />

pouso e foi crivado de perguntas sobre como andava a conspiração em<br />

Vila Rica. Passou notícias muito animadoras ao ouvidor que prometeu<br />

escrever prontamente ao primo se colocando à disposição, articulando<br />

alguma coisa junto ao povo da comarca. Rolim passou uma noite<br />

animada, no meio de um carteado e visitas sucessivas da boa gente do<br />

Serro.<br />

Mas no dia seguinte o padre partiu bem cedo aproveitando as<br />

brumas da madrugada, carregadas das frialdades <strong>dos</strong> ventos do Ivituruí.<br />

Dois dias depois chegou finalmente ao arraial do Tejuco, onde preferiu<br />

adentrar também à noite, sem ser visto. Mas logo todo mundo já sabia<br />

da sua marcante presença. Seu pai andou espalhando a notícia a quatro<br />

ventos, felicíssimo com o retorno do filho depois de muito tempo<br />

fugido.<br />

62 Mais tarde o vigário de Sabará chegaria a ser suspeito de ser inconfidente. Foi<br />

interrogado mas não foi pronunciado. Com certeza partilhava do ideal e outro assunto<br />

não terá sido dominante na conversa <strong>dos</strong> padres pela ocasião da hospedagem. Adiante<br />

voltaremos a falar do padre Correia.<br />

77


Alguns dias após sua chega o padre recebeu uma visita do capitão<br />

Manuel da Silva Brandão, 63 recém chegado para assumir o comando do<br />

destacamento do distrito. Haviam se conhecido em Vila Rica e eram<br />

fraternos colegas de conspiração. Mas o capitão tinha ficado muito<br />

entusiasmado com o novo comando que Barbacena lhe confiara e<br />

estava meio que distante do ânimo inicial para o levante, demonstrado<br />

em dezembro. Mas gostava do padre e mostrou interesse em protegêlo,<br />

contudo, não queria prescindir de um aval do governador. Enquanto<br />

isso, recomendava que ele se mantivesse recluso e, principalmente, se<br />

contivesse em matéria de levante, gastando mais tempo com a família. 64<br />

Ele de fato assim fez, mas não perdeu tempo e logo chamou os irmãos<br />

para aderirem ao movimento, aproveitando a mania <strong>dos</strong> conluios de<br />

família contra a dita Senhora.<br />

As manobras para obtenção do aval de Barbacena até já tinham sido<br />

muito bem encaminhadas e, naquele mesmo dia, o padre tratou de<br />

escrever uma carta a Domingos de Abreu Vieira pedindo notícias. Ele<br />

tinha contratado Cláudio Manuel da Costa que pediu ajuda ao tenentecoronel<br />

Francisco Antônio Rebelo que levou o problema a Barbacena<br />

que prometeu ajudar. De fato ajudou no princípio e foi o que fez com<br />

que o padre Rolim, quando esteve em Vila Rica, pudesse se hospedar<br />

em plena rua São José, na parte mais nobre e movimentada da capital.<br />

O próprio Vieira havia prometido falar com o visconde e o padre estava<br />

curioso de saber de tudo isso. Mas ai já era final de março, Barbacena já<br />

tinha suspendido a derrama e tomado sua crucial decisão de abandonar<br />

a aventura de ser embaixador de república e tomar o partido mais<br />

seguro, ou seja, ficar ao lado da pie<strong>dos</strong>a d. Maria I. Padre Rolim,<br />

distante de tudo isso, fazia planos de mandar buscar seu anfitrião como<br />

haviam combinado, de forma a poderem armar alguma coisa na vila de<br />

Minas Novas, engrossando o caudal das forças subversivas. No<br />

princípio o velho coronel não se animou a se por na estrada para tão<br />

longa viagem sob o peso <strong>dos</strong> seus sessenta e cinco anos. Depois não<br />

teve mais tempo. No dia 23 de maio, numa manhã de sábado de céu<br />

63 Capitão de Cavalos Manuel da Silva Brandão – Ficou para se prender, porque consta que fora<br />

para o Destacamento do Serro firmíssimo no projeto, além de mais alguns indícios; é filho de Minas<br />

(DCT).<br />

64 Mais tarde o padre devolveria a atenção e negaria reiteradas vezes, a despeito da<br />

insistência <strong>dos</strong> devassantes, que houvesse oficiais da tropa meti<strong>dos</strong> na conjuração.<br />

78


azul e frio, uma escolta o conduziu rua Direita acima até a cadeia, ainda<br />

em construção e em precárias condições. Fez o trajeto inverso ao que<br />

Cláudio Manuel da Costa faria, sendo conduzido preso para os segre<strong>dos</strong><br />

da Casa do Contrato, um mês mais tarde. Ambos trilharam os seus<br />

caminhos de calvário com dificuldade e muito desânimo. O velho poeta<br />

pôde levar a sua cama e o velho contratador pôde levar o seu fiel<br />

escravo para suas respectivas celas: arreme<strong>dos</strong> de conforto que não os<br />

confortaria nem um pouco.<br />

Longe das tragédias de Vila Rica, o padre Rolim, embora já sabedor<br />

de que a derrama tinha sido suspensa, continuava meio inocente da<br />

gravidade da situação e se movimentava como podia pelo arraial do<br />

Tejuco, porém sempre se mantendo discreto e procurando não ser<br />

visto. Tinha preferido não se expor e por falta de notícias mais precisas<br />

se sentiu tolhido a cumprir sua missão de mobilizar contingentes para<br />

marchar sobre a capital. Também precisava de apoio de Abreu Vieira<br />

para arrebanhar a gente de Minas Novas e descer com a pólvora que o<br />

ex-contratador prometeu doar à revolução. Assim, de certa forma<br />

estava dependente do velho coronel se dispor a empreender a viagem.<br />

Enquanto esperava permanecia meio quieto, agitando somente nos<br />

grupos mais chega<strong>dos</strong>. Mas, mesmo recluso, levava uma vida animada,<br />

conforme o temperamento que tinha e que o botava em agitação<br />

permanente e à beira de encrencas. Sua bela casa, em pleno centro do<br />

Tejuco, lhe proporcionava o conforto e o prazer de que já estava<br />

afastado há algum tempo e de que não queria mais se furtar tão logo.<br />

Durante o dia se entretinha em conversas sediciosas com os irmãos e<br />

compadres. Durante a noite, coisa muito melhor: o regaço e tudo mais<br />

de Quitéria Rita, amorosa mãe de seus filhos, mulher casada cujo<br />

marido o rude padre tinha botado pra correr. Filha de Chica da Silva,<br />

certamente havia herdado os dotes sedutores da mãe e o padre não<br />

queria mais ficar longe daqueles raros talentos para fazer feliz um<br />

homem. Este era o nosso padre: grato a Deus por cada sentido que nos<br />

deu e pelos prazeres irrenunciáveis que ele colocou em cada um deles.<br />

Mas uma noite em que estava fora fazendo uma visita, seu escravo<br />

Manuel lhe trouxe a notícia de que sua casa estava cercada. Assustado<br />

foi se homiziar na casa do amigo Bento Dias, onde permaneceu dois<br />

dias recluso e acabrunhado. O padre tinha muitos amigos no Tejuco,<br />

assim, naquela semana pernoitou em várias casas diferentes,<br />

dissimulando habilmente sua situação, com o que, aliás, já estava<br />

acostumado pois, a rigor, já era um foragido há anos, vagando de<br />

79


Minas à Bahia, da Bahia a Minas, de Minas ao Rio e novamente Minas,<br />

botina suja de pó e batina levantada.<br />

Ao ser informado que o cerco à sua casa havia sido suspenso foi<br />

espertamente se esconder na própria, onde permaneceu três dias,<br />

comendo frio e andando descalço no escuro.<br />

Numa madrugada foi visitado pelo comandante Brandão que o<br />

avisou de que Barbacena tinha expedido um decreto de prisão contra<br />

ele por conta da sua participação na conspiração. Contou que todo o<br />

movimento tinha sido desbaratado, que Tiradentes e os demais já<br />

estavam presos. Padre Rolim não se intimidou e propôs ao capitão que<br />

então começassem o projetado levante ali mesmo no Tejuco. Mas<br />

Brandão ponderou que já estava fora dessa, que tinha feito um acordo<br />

com Barbacena através do qual ganhara o comando do distrito <strong>dos</strong><br />

Diamantes em troca da sua retirada do movimento e que o máximo que<br />

podia fazer era corpo mole na sua detenção, o que, aliás, já vinha<br />

fazendo pois o decreto do governador já lhe tinha chegado às mãos há<br />

mais dias e ele não se empenhara nem um pouco em cumpri-lo. Mas<br />

agora o tenente Fernando Vasconcelos Parada e Souza estava ali para<br />

cumprir o dito decreto o que, inclusive, o deixava numa situação<br />

delicada. Concluiu, exortando-o a fugir imediatamente pois não poderia<br />

continuar se omitindo. Ofereceu a ele uma farda do regimento como<br />

disfarce para facilitar a fuga e recomendou que escapasse pela Bahia.<br />

Padre Rolim resolveu seguir a proposta. Retardou um pouco a fuga<br />

mas, assim que julgou oportuno, evadiu-se pelos fun<strong>dos</strong> de sua casa<br />

em direitura do Itambé onde seu pai tinha umas terras. No meio do<br />

caminho encontrou uma escolta e se sentiu perdido. Foi rapidamente<br />

envolvido por ela. Mas depois de alguma conversa pôde seguir na sua<br />

escapada sem estorvos maiores. Para sorte do padre, à frente da dita<br />

escolta estava o próprio capitão Brandão, fingindo caçá-lo,<br />

acompanhado de fieis companheiros, to<strong>dos</strong> amigos. Despediu-se do<br />

padre Rolim e lhe desejou sorte dizendo, contudo, que da próxima vez<br />

o prenderia e remeteria a Barbacena. Era uma das últimas ajudas que o<br />

cativante padre teria. Dali para frente viveu no mato, comendo raízes<br />

junto com seu escravo Alexandre, esperando o cabelo crescer e a<br />

tonsura sumir para poder fugir para São Paulo. O padre sempre foi um<br />

fugitivo de talento. Na fuga anterior ele tinha saído pela Bahia que era o<br />

caminho mais fácil, mas por isso mesmo mais óbvio. Agora pensou<br />

surpreender, rumando para São Paulo. Para isso teria que cruzar a<br />

capitania no sentido inverso, passando perto da boca do leão, numa<br />

rota certamente inesperada.<br />

80


Foi um período difícil, mas não faltou apoio de toda sorte, tanto<br />

moral como físico. Foi tanta gente envolvida, solidária ao padre, que o<br />

governador teve que abrir quase uma devassa à parte para apurar as<br />

culpas pela fuga inesperada. Mas ninguém acabou punido por este<br />

motivo particular.<br />

Todavia, Barbacena ficou profundamente irritado com os<br />

acontecimentos. Diante da incompetência das patrulhas que tinha<br />

enviado para prender o padre, mandou chamar o capitão Antonio José<br />

Dias Coelho, que já havia prendido o padre Toledo e Alvarenga Peixoto<br />

e era um notório prendedor. 65 Nomeou-o comandante do<br />

Destacamento Diamantino no lugar do próprio capitão Brandão. Este,<br />

nessa altura já se encontrava em situação muito delicada, acusado de<br />

partícipe da conjuração e de omissão na captura do padre Rolim. Seu<br />

comando, assim, não durou mais do que alguns meses. Apenas o<br />

suficiente para Barbacena cumprir o seu plano de afastá-lo de Vila Rica<br />

por uns tempos.<br />

O capitão Dias Coelho, ao contrário, era um soldado fiel e partiu<br />

resoluto para o Tejuco para dar cabo da sua missão em uma dúzia de<br />

semanas. Lá chegando esculachou a tropa toda pela incompetência,<br />

pediu empenho, prometeu prêmios e alguns meses depois obteve êxito.<br />

Conseguiu prender o padre Rolim no dia 09 de outubro e remetê-lo a<br />

Vila Rica sem maiores transtornos. Barbacena pôde então respirar<br />

aliviado pois, àquela altura, já estava muito aflito, temendo que alguma<br />

coisa pudesse arrebentar no Serro do Frio, distante e muito rebelde.<br />

Vencida a tímida resistência do padre, a Inconfidência de Minas Gerais<br />

estava total e completamente aniquilada, exatamente um ano depois do<br />

batizado <strong>dos</strong> filhos de Alvarenga Peixoto e sem que qualquer cabeça<br />

nobre tivesse sido decepada.<br />

65 Em 1787, Cunha Menezes incumbiu o tenente Coelho de sair pela capitania<br />

prendendo inadimplentes e foragi<strong>dos</strong>. Ele voltou poucos meses depois com mais de<br />

duzentos infelizes na corrente, a maioria par<strong>dos</strong> forros. (Uma cópia do recibo de<br />

entrega <strong>dos</strong> presos, está no livro de Rodrigues Lapa, arrolado na bibliografia anexa).<br />

Foi ele também o responsável pela prisão <strong>dos</strong> Resende Costa, decidida<br />

tardiamente. Também era um competente cobrador das dívidas da Coroa que,<br />

segundo as más línguas, lhe rendiam interessantes subsídios. Fato é que quando<br />

morreu deixou respeitável patrimônio, inclusive um gordo colchão recheado com<br />

10.000$000 (dez contos de reis). Parte deste dinheiro mandou ser aplicado na reza de<br />

4.000 missas em atenção a sua alma que, a se basear nessa exagerada providência,<br />

devia estar bem carregada de coisas pecaminosas.<br />

81


O capitão Antônio Dias Coelho, caçador de inconfidentes<br />

conforma<strong>dos</strong> ou fujões, seguiu sua gloriosa carreira militar. Anos depois<br />

chegaria a ser a mais alta autoridade militar de Minas Gerais, brigadeiro<br />

das forças do imperador d. Pedro I, pronto a manter em ordem aquela<br />

gente teimosa. Seu filho bastardo, nascido do fugaz mas inesquecível<br />

intercurso com Maria Ignácia Policena da Silveira, a bela irmã da<br />

Bárbara Bela, acabaria fidalgo do império. Antônio Francisco Teixeira<br />

Coelho, ajudado pelo legítimo pai, acabou barão da Ponta do Morro,<br />

nome da fazenda do seu pai de criação Francisco Antônio de Oliveira<br />

Lopes, o desditoso inconfidente do Rio das Mortes. D. Bárbara nunca<br />

chegou a ser rainha mas teria ficado feliz de ter sido tia de um barão do<br />

império construído pelo bisneto da dita Senhora.<br />

O padre Rolim deixou prole menos ilustre do que a do seu captor,<br />

mas certamente foi pai mais dedicado e amoroso, embora muito menos<br />

favorecido pela sorte. Depois de cumprir pena em Lisboa, morreu em<br />

sua terra natal, em avançada idade e sempre muito querido.<br />

9<br />

A PROPÓSITO DE SOLDADOS DESCONTENTES E SEUS<br />

PLANOS MILITARES<br />

Conhecemos com razoável grau de certeza qual era a estratégia<br />

militar concebida pelos <strong>mazombos</strong> para desencadear o levante e<br />

perpetrar a tomada do poder. Ela foi exposta nos depoimentos de<br />

vários conjura<strong>dos</strong> e coincide em to<strong>dos</strong> eles sem muitas divergências. É<br />

muito simples e por essa simplicidade chega a sugerir que houvesse<br />

certa leviandade na sua concepção. Mas o plano é bastante lógico e<br />

racional e seu ponto central é a fragilidade das guarnições da Coroa na<br />

capitania de Minas Gerais, ainda mais acentuada por adesões de alguns<br />

oficiais gradua<strong>dos</strong> da tropa paga. Talvez não tivessem tido<br />

oportunidade de detalhá-lo melhor. Não chegou a ser formado um<br />

comando revolucionário e, assim, o grande ponto fraco do plano de<br />

ação foi ele não ter sido revisado de acordo com uma logística imposta<br />

pela evolução <strong>dos</strong> acontecimentos. Está certo que a ideia era o<br />

movimento não ter líderes declara<strong>dos</strong>, mas daí a não ter uma célula<br />

militar organizada vai uma certa ingenuidade. Então o plano do levante<br />

acabou se tornando inadequado e não pôde lastrear os indecisos<br />

espíritos <strong>coimbrãos</strong> que, por conta disso, mais indecisos foram ficando.<br />

Mesmo estando o plano excessivamente amarrado à decretação da<br />

82


derrama, teria que ter havido certa movimentação preliminar, criando as<br />

condições adequadas para usufruto da imperdível oportunidade. Mas ao<br />

contrário tudo ficou parado à espera da dita derrama. 66<br />

Pode ter sido um plano que começou a ser forjado com demasiado<br />

otimismo e que terminou em excesso de pessimismo, pouco tempo<br />

depois. Enfim, fragilizou-se rapidamente por falta de uma coordenação<br />

mais forte e clara. E é aí que a desistência do tenente coronel Freire de<br />

Andrade, de assumir a tardia liderança militar do levante, toma o seu<br />

caráter mais dramático.<br />

Certas figuras potencialmente importantes para uma ação militar, só<br />

foram convidadas para o levante por iniciativa pessoal de um ou outro<br />

inconfidente e na hora derradeira, já tarde demais. Por exemplo, não se<br />

pensou com suficiente clareza no relevante papel que poderia ter sido<br />

assumido pelo mestre de campo Ignácio Correia Pamplona. Com seu<br />

pomposo título de coronel de infantaria de milícias do Regimento de<br />

Pium-í, Bambuí, Campo Grande, Picadas de Goiás e suas anexas da<br />

Comarca do Rio das Mortes, era o homem de maior experiência em<br />

combate de toda a capitania e que, por isso mesmo, foi absorvido por<br />

Barbacena como um importante colaborador, logo que ele decidiu<br />

66 Como não poderia deixar de ser, o depoimento que contem mais riqueza de<br />

detalhes sobre o plano militar é o de Tiradentes. Parece que ele tentou diminuir o<br />

caráter sedicioso do movimento buscando convencer seus inquiridores que, depois de<br />

dezembro, ficaram sossega<strong>dos</strong> à espera da derrama. Como ela não aconteceu, os<br />

planos simplesmente se desvaneceram e ficou o dito por não dito. Há um certo<br />

exagero no peso desta anemia, senão o padre Toledo e Oliveira Lopes não estariam<br />

tão ativos mesmo depois de saberem da suspensão do lançamento da cobrança do<br />

vexatório imposto. Está claro que o ânimo do pessoal do Rio das Mortes decorreu<br />

também deles ficarem meio desinforma<strong>dos</strong> da evolução <strong>dos</strong> acontecimentos na<br />

capital. Mas, com certeza, o padre não desconhecia o grau de associação da derrama<br />

com a deflagração do assalto a Vila Rica, mesmo porque, ele estava presente na<br />

reunião principal, onde o projeto acabou de ser costurado.<br />

Certos depoimentos sugerem que nem to<strong>dos</strong> concordavam que a eclosão do<br />

levante tivesse que depender do lançamento da derrama e que esta seria uma<br />

preferência especial de Freire de Andrade. De fato, por conta da teimosa dependência<br />

do lançamento da cruel cobrança que vinha tardando muito, a coragem do<br />

comandante acabou sendo colocada em dúvida. Também Tomás Antônio Gonzaga<br />

vinculou estreitamente a eclosão do movimento com o lançamento da derrama, tanto<br />

que trabalhou fortemente para que isso acontecesse e não deixou de admitir o aborto<br />

da sublevação quando a derrama foi suspensa. Também não deixou de ironizar<br />

Barbacena quando foi visitá-lo para comentar a suspensão.<br />

83


contrapor-se ao movimento. Tiradentes enxergou logo a relevância<br />

militar da sua participação, mas ele foi sondado para se integrar ao<br />

movimento somente no mês de março de 1789 quando tudo já estava<br />

se tornando complicado às pretensões <strong>dos</strong> revoltosos. O visconde foi<br />

mais perspicaz e, embora tivesse retardado o aceite da denúncia de<br />

Pamplona, acabou dando enorme importância a ela, cercando-a de<br />

todas as formalidades legais acentuando assim o compromisso dele.<br />

Aliás, a relação de Barbacena com Pamplona é eivada de certos<br />

mistérios profun<strong>dos</strong> que nem minha ficção conseguiu efetivamente<br />

alcançar. O governador impediu de todas as formas que o inconfidente<br />

arrependido fosse inquirido pelos devassantes do Rio de Janeiro,<br />

mandando-o sair de Vila Rica às vésperas da chegada <strong>dos</strong> ditos. Mesmo<br />

depois que os juízes do vice-rei foram ao seu alcance surpreendendo-o<br />

em sua fazenda, ele se recusou a atender à intimação alegando,<br />

singelamente, ter recebido ordens do visconde para agir assim, pois<br />

estava à espera de uma importante missão que lhe seria confiada. Os<br />

juízes, muito indigna<strong>dos</strong>, foram se queixar ao vice-rei, mas ficou por<br />

isso mesmo e Pamplona nunca chegou a jurar na devassa do Rio e nem<br />

perante o Tribunal da Alçada. Mas Melo e Castro não aceitou muito<br />

bem essa situação e indeferiu o pedido de Barbacena para que o mestre<br />

de campo fosse premiado pela delação que fez no final de abril, quando<br />

a notícia do levante já era coisa de jornal velho. No mínimo achou<br />

descabido premiar uma delação tão retardatária e superficial. Mas, pode<br />

ter tido motivos muito mais fortes. O governador é que, seguramente,<br />

tinha razões menos transparentes e até inconfessáveis para desejar esta<br />

premiação. 67 Fato é que o despacho do ministro, aposto ao próprio<br />

requerimento de Barbacena, foi sumário e cruel: para Pamplona nada! 68<br />

É inegável que a ação proselitista de Tiradentes deixa transparecer<br />

uma lógica militar sensata e oportuna. Basta ver o significativo número<br />

de coronéis de tropas auxiliares que foram coopta<strong>dos</strong> por ele ou por<br />

67 Kenneth Maxwell, insinua que a saída apressada de Pamplona de Vila Rica, às<br />

vésperas da chegada <strong>dos</strong> devassantes do vice-rei pode ter algo a ver com a morte de<br />

Cláudio Manuel da Costa. Eu também acho.<br />

68 Mais tarde ele iria requerer uma benesse para um <strong>dos</strong> seus filhos e Melo e Castro<br />

mais uma vez se recusou a concedê-la. Enfim, estava inteiramente queimado junto ao<br />

ministro que, certamente, sabia de alguma coisa que a história não registrou.<br />

84


sua indicação: Domingos de Abreu Vieira, Alvarenga Peixoto,<br />

Francisco Antônio de Oliveira Lopes, José Aires Gomes, além <strong>dos</strong><br />

delatores Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis e o próprio Pamplona. Os<br />

contingentes monta<strong>dos</strong>, adestra<strong>dos</strong> e arma<strong>dos</strong> por esses homens juntos<br />

poderiam superar em muito o da tropa paga de Barbacena. Por outro<br />

lado, a própria cavalaria regular estava sob o comando de Freire de<br />

Andrade e contando ainda com a firme adesão de alguns de seus<br />

capitães. Sem dúvida, era situação para entusiasmar e sacudir os mais<br />

cautelosos e desanima<strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong>. 69 Não obstante toda essa base, a<br />

logística propriamente dita do levante acaba parecendo um tanto<br />

superficial e tímida. De fato, a articulação foi feita com base em<br />

conversas informais e algumas poucas reuniões ufanistas das quais<br />

muitos homens de ação sequer participaram. Embora houvesse<br />

fermentação em toda a capitania desde o princípio da década e o<br />

assunto fosse obrigatório, tanto nas casas das autoridades quanto nas<br />

fazendas e casernas; a conspiração propriamente dita não durou mais<br />

do que três meses, ou seja, de outubro a dezembro de 1788, quando<br />

<strong>mazombos</strong> e <strong>coimbrãos</strong> resolveram tentar algum tipo de aproximação.<br />

Porém, parece que o essencial do plano militar foi configurado numa<br />

única reunião, aquela realizada na casa de Freire de Andrade no dia 26<br />

de dezembro. Ali se combinou que Tiradentes sublevaria as massas já<br />

enlouquecidas com o lançamento da derrama. Freire de Andrade<br />

aderiria com sua tropa que seria reforçada com os contingentes do<br />

padre Rolim, padre Toledo e Alvarenga Peixoto em marcha sobre a<br />

capital, partindo respectivamente do Serro, de São José e da Campanha.<br />

Simples e eficaz. Mas e as tropas <strong>dos</strong> demais coronéis, principalmente<br />

<strong>dos</strong> que aderiram depois? Simplesmente não se chegou a pensar nelas.<br />

Elas não tinham lugar no plano inicial e assim permaneceram, mesmo<br />

porque, depois não houve mais conciliábulos e como não havia um<br />

comando revolucionário, também não houve ajustes táticos posteriores.<br />

É claro que tropas de voluntários teriam que ser trabalhadas quanto<br />

à sua disposição para aderir de fato à luta armada. Além disso, elas<br />

teriam que ser adequadamente equipadas. Sobre este ponto parece não<br />

ter havido empenho e é aí que a coisa mostra conter muita<br />

69 Exceção de Cláudio Manuel da Costa que achava que em Minas não havia líderes<br />

capazes de conduzir uma revolução.<br />

85


impropriedade. 70 Alguns consideravam fundamental que houvesse<br />

sublevação no Rio e em São Paulo para conter eventuais socorros, mas<br />

isso, afinal, parece não ter sido considerado fundamental. De qualquer<br />

forma, conforme o plano básico, eventuais reforços legalistas vin<strong>dos</strong> do<br />

Rio seriam intercepta<strong>dos</strong> na serra da Mantiqueira onde José Aires<br />

Gomes 71 e Tiradentes já tinham boa experiência de ação, de combate à<br />

guerrilhas. Em linhas gerais, tudo parece muito sensato. Mas e quanto a<br />

colocar o projeto em condições efetivas de prática e de ação? Esse<br />

detalhe crucial parece não ter sido assumido seriamente ou não ter<br />

havido tempo para tal.<br />

O plano, como dito, foi formulado em final de dezembro e a<br />

derrama, que seria o estopim, estava prevista para ser lançada em<br />

fevereiro. Ou seja, havia cerca de quarenta dias para que toda a logística<br />

do levante fosse organizada e colocada em movimento. Nesse aspecto<br />

tudo parece muito irreal. Está certo que o plano estava calcado numa<br />

operação inicial muito singela, baseada na ideia que os revoltosos<br />

chegassem a Vila Rica em pequenos grupos muito discretos, se<br />

mexendo sem alarde e portando armas miúdas. De todo modo, isso<br />

pressupunha uma certa movimentação nos meses de janeiro e fevereiro<br />

de 1789, correndo contra o tempo para não perder a preciosa<br />

oportunidade da derrama. Tal não ocorreu. Muito antes pelo contrário,<br />

houve uma desmobilização geral após a reunião de dezembro. Padre<br />

Rolim se retirou para o Serro e não se tem notícia de que tivesse se<br />

envolvido efetivamente em preparativos militares, mesmo porque,<br />

como vimos há pouco, estava em situação judicial irregular e não podia<br />

circular com muita liberdade. Os muitos barris de pólvora prometi<strong>dos</strong><br />

70 Na verdade essa tarefa nem deveria ser muito difícil pois esses contingentes eram<br />

compostos <strong>dos</strong> chama<strong>dos</strong> “pés-rapa<strong>dos</strong>”, ou seja, em geral agrega<strong>dos</strong> <strong>dos</strong> coronéis<br />

fazendeiros de quem dependiam como verdadeiros vassalos feudais. Mas equipar esse<br />

pessoal naqueles tempos de penúria já era uma outra história e este pode ter sido um<br />

<strong>dos</strong> grandes complicadores. Contudo, as tropas de auxiliares deviam ter uma<br />

organização básica permanente, tanto que vamos encontrar o ajudante de ordens João<br />

Carlos Xavier da Silva Ferrão, a viajar pelo interior da capitania para cuidar da<br />

desmobilização e extinção desses regimentos, conforme determinação do ministro<br />

Melo e Castro e que Barbacena começou a colocar em Prática assim que assumiu o<br />

governo.<br />

71 Coronel José Aires – Filho de Minas; também se presume sabedor; ele depôs alguma coisa no seu<br />

juramento; não há por ora coisa que o constitua culpado.” (DCT).<br />

86


por Domingos de Abreu Viera, continuaram uma promessa. Também<br />

ninguém viu efetivamente o padre Toledo mobilizando contingentes<br />

em São José, embora tivesse dito a Freire de Andrade que já tinha cem<br />

cavalos gor<strong>dos</strong> e prontos para a marcha. Há uma versão de que quando<br />

ele foi preso, estava se dirigindo para assumir o comando desse suposto<br />

contingente, então sob o comando de seu cunhado Antônio José da<br />

Mota. Mas se assim foi, esse batalhão estava muito mal preparado pois<br />

se dispersou discreta e rapidamente, sem qualquer reação, assim que o<br />

padre foi preso. Alvarenga Peixoto sequer foi para Campanha,<br />

permanecendo na sua fazenda do Paraopeba localizada perto da Borda<br />

do Campo. Parece que ele estava mais interessado em bisbilhotar Vila<br />

Rica do que preparar seu pessoal para combate. Freire de Andrade se<br />

retirou para a fazenda <strong>dos</strong> Caldeirões pensando em largar<br />

definitivamente a tropa e ir para Portugal. O que aconteceu em<br />

janeiro/fevereiro de 1889 que jogou uma ducha de água fria nos mais<br />

exalta<strong>dos</strong>? Barbacena teria mudado alguma disposição ou compromisso<br />

que assustou os inconfidentes em geral?<br />

Como já busquei e buscarei mais demonstrar, sou francamente<br />

partidário da tese que o visconde estava muito comprometido com o<br />

movimento ou, no mínimo, ele sabia das intimidades da trama muito<br />

antes da delação de Silvério <strong>dos</strong> Reis. Mesmo porque, Brito Malheiro<br />

fez denúncias verbais ao ajudante de ordens do visconde, tenentecoronel<br />

Francisco Antônio Rebelo, já em fevereiro de 1789. Há indícios<br />

de que no mês de dezembro de 1788, o visconde podia estar informado<br />

do que se passava, ou seja, quase simultaneamente ao transcorrer <strong>dos</strong><br />

próprios acontecimentos em sua fase mais crítica. Há de se considerar,<br />

também, que seu ajudante Rebelo pudesse ser de fato um conjurado,<br />

como pensam muitos.<br />

Acredito que os <strong>coimbrãos</strong> mais chega<strong>dos</strong> ao governador<br />

tenham aberto uma fresta para que ele pudesse olhar e em seguida,<br />

decidir aderir ao movimento. Claro que tiveram sinalização positiva<br />

para toda a ousadia. Naturalmente isso não era do conhecimento <strong>dos</strong><br />

<strong>mazombos</strong> em geral e deveria existir alguma desconfiança a respeito das<br />

reais disposições de Barbacena e muita cautela de ambos os la<strong>dos</strong>. Daí o<br />

descompasso entre as ações em Vila Rica e São João del Rei, onde o<br />

padre Toledo e Oliveira Lopes começaram a se organizar<br />

verdadeiramente para um motim somente quanto na capital já<br />

campeava um desânimo de fim de festa.<br />

87


Penso que o envolvimento do visconde tenha sido efetivamente<br />

articulado por Cláudio Manuel e por Gonzaga e tenha sido apoiado por<br />

João Rodrigues de Macedo. Mas penso também que tal ideia não<br />

contava com o aval incondicional de Alvarenga e especialmente de Luiz<br />

Vieira. 72<br />

Em mea<strong>dos</strong> de março Alvarenga Peixoto foi visitar o capitão-general<br />

das Minas Gerais e parecia muito preocupado e tenso sondando o seu<br />

ânimo com conversas sobre monarquias e repúblicas. Saiu de lá mais<br />

tenso ainda. 73 Acredito deveras que Barbacena andou indeciso uns<br />

tempos sobre qual partido tomar mas teve certeza de que tinha que<br />

acabar com aquela história já em mea<strong>dos</strong> de janeiro. Provavelmente<br />

temia sua situação militar, sem poder confiar na tropa que deveria<br />

protegê-lo. Assim demorou-se um pouco em decidir o que fazer e só<br />

começou a se mover de fato em mea<strong>dos</strong> de março, suspendendo a<br />

derrama no dia 17 daquele mês.<br />

Os regimentos de auxiliares que o ministro Melo e Castro incumbiu<br />

Barbacena de desfazer eram contingentes de civis, forma<strong>dos</strong> e manti<strong>dos</strong><br />

pelos magnatas da capitania em troca da prestigiosa honra de serem<br />

seus comandantes com o pomposo título de coronel. Seu papel era o de<br />

estarem prontos, à espera de convocação para fazer frente a alguma<br />

invasão estrangeira. A preocupação do ministro era consertar a farra<br />

promovida por Cunha Menezes que encheu a capitania desses<br />

regimentos. Com esse expediente o então governador conseguia<br />

satisfazer um duplo prazer: fortalecer seu status militar e encher as<br />

burras vendendo as respectivas patentes a bom preço. O governo do<br />

Fanfarrão Minésio representou o ápice da administração militarista na<br />

capitania de Minas, em tempos de paz. Ele fez de tudo, cercou-se das<br />

fardas atrevidas tanto quanto pôde e levou o seu autoritarismo ao<br />

extremo, inclusive patrocinando promoções à revelia da Coroa. Isso<br />

sem falar na absoluta falta de critério na escolha <strong>dos</strong> promovi<strong>dos</strong> o que,<br />

inclusive, era um <strong>dos</strong> estigmas de Tiradentes, sistematicamente<br />

72 Daí terem ambos dito que Barbacena estava se ensaiando para embaixador mas<br />

nunca haveria de sê-lo.<br />

73 Isso foi antes da suspensão da derrama, ou seja, parece que em janeiro e fevereiro<br />

todo mundo já andava muito preocupado com as reações de Barbacena.<br />

88


preterido a despeito <strong>dos</strong> bons serviços que tinha prestado como militar<br />

e perito desde 1776, quando sentou praça, descrente de ser mascate.<br />

Fato é que a chegada de Barbacena trouxe certa inquietação no meio<br />

militar, não só nos regimentos de auxiliares mas também na chamada<br />

“tropa paga”, ou seja, os militares efetivamente patentea<strong>dos</strong> e<br />

verdadeiramente adestra<strong>dos</strong> para os misteres militares. Essa transição,<br />

inclusive, acabou propiciando a junção de duas correntes distintas de<br />

tensão: a <strong>dos</strong> que já estavam insatisfeitos com a política de Cunha<br />

Menezes e a <strong>dos</strong> que estavam receosos com o que poderia ser a política<br />

de Barbacena. Vai daí que Tiradentes e Freire de Andrade acabaram<br />

entendendo a mesma mensagem embora fossem solda<strong>dos</strong> radicalmente<br />

diferentes um do outro, verdadeiros antônimos.<br />

A questão militar é muito pouco abordada pelos historiadores que<br />

tratam da Inconfidência Mineira, mas creio que ela teve um peso muito<br />

relevante e o movimento abortou porque a tensão que havia na tropa<br />

não prosperou, principalmente por falta de entusiasmo do comandante<br />

Freire de Andrade. Até penso que essa situação contribuiu para fazer<br />

Barbacena desistir de aderir ao movimento e preferir correr o risco de<br />

enfrentá-lo. O governador passou muita aflição enquanto os reforços<br />

que pediu ao tio vice-rei não chegavam. No fim acabou dando tudo<br />

muito certo para ele. Mas ao longo de todo aquele período o visconde<br />

sempre temeu a disposição da sua tropa e talvez por isso é que tenha<br />

ficado tanto tempo em cima do muro olhando a conspiração com olhos<br />

tão complacentes.<br />

Muitos foram os militares suspeitos e houve uma nítida opção em<br />

deixá-los de fora do imbróglio. Isso partiu do próprio ministério e<br />

plasmou todo o processo da devassa, contendo a volúvel curiosidade<br />

<strong>dos</strong> devassantes. É sempre interessante observar o grau de<br />

comprometimento de muitos deles, se não aderindo, pelo menos se<br />

omitindo. A começar pelos próprios ajudantes de ordem que sempre<br />

que eram alerta<strong>dos</strong> do clima de conspiração reinante já tinham pronta<br />

uma justificativa, deixando transparecer que Barbacena já sabia e iria<br />

agir quando chegasse a hora, o que pode admitir várias interpretações.<br />

Um deles inclusive, nosso caro capitão João Carlos Xavier da Silva<br />

Ferrão, 74 estava presente em um jantar na casa <strong>dos</strong> Resende Costa, onde<br />

74 Como aconteceu com quase to<strong>dos</strong> os militares envolvi<strong>dos</strong>, o capitão Ferrão pôde<br />

seguir tranquilamente sua carreira e em 1817, no posto de brigadeiro e na condição de<br />

89


to<strong>dos</strong> se entusiasmaram com a ideia de que Minas deveria assumir seus<br />

próprios destinos e gerir suas próprias riquezas e se tornar um florente<br />

império. Certamente terá brindado a isso.<br />

De qualquer forma, quem examinasse os dois campos da<br />

contenda com olhos de militar, em dezembro de 1788, se sentiria muito<br />

entusiasmado em tomar parte no projetado motim. Barbacena podia<br />

muito bem estar entre eles.<br />

É bem possível que Silvério <strong>dos</strong> Reis tenha feito, de fato, sua<br />

denúncia verbal em mea<strong>dos</strong> de março 75 e isto tenha feito parte do plano<br />

do governador de sair finalmente da zona cinzenta onde permanecia e,<br />

sem mais delongas, sufocar o movimento. Com certeza, não foi aí que<br />

ele tomou conhecimento do problema pela primeira vez. Por outro<br />

lado, parece que ele só se preocupou em documentar a base da sua<br />

decisão em mea<strong>dos</strong> de abril. Provavelmente por ter percebido que<br />

precisaria de argumentos muito fortes e devidamente comprova<strong>dos</strong><br />

para justificar não ter cumprido a risca as instruções do ministro Melo e<br />

Castro para lançar a derrama a todo custo ou achar alternativa para ela,<br />

de sorte que a Coroa tivesse compensações para o quinto atrasado.<br />

Pode ser até que ele, no princípio, não desse muita importância ao<br />

movimento e tivesse ficado durante algum tempo pensando<br />

confortavelmente o que fazer com ele. Deve ter sido difícil para o<br />

nosso jovem, ambicioso e empobrecido visconde/naturalista resistir à<br />

tentação de ser um <strong>dos</strong> governantes da nova, rica e fascinante república<br />

<strong>dos</strong> minerais e ao mesmo tempo ficar livre das azucrinações do<br />

ministro. Por outro lado, é possível que ele guardasse certo<br />

ressentimentos daquelas perseguições que acabaram por levá-lo a ter<br />

que renunciar ao seu cargo de secretário da Academia de Ciência de<br />

Lisboa. Mas no final, acabou vendo no movimento principalmente uma<br />

boa chance para justificar o não lançamento da cobrança do quinto<br />

atrasado que teria sido um grande problema para ele, com ou sem<br />

conjuração. Era pouco mas, afinal, era seguro. A partir daí tentou<br />

apagar os rastros do seu envolvimento mais profundo. Assim, buscou<br />

maior autoridade militar, chegou a compor a junta que governou a capitania em lugar<br />

de d. Manuel de Portugal e Castro, ausente em viagem.<br />

75 Muito provavelmente instigado pelo próprio visconde. Aguardem mais detalhes<br />

sobre esta fascinante possibilidade, mais adiante.<br />

90


tratar o movimento de forma mais administrativa, não lançando uma<br />

devassa e até tentando atrapalhar a devassa do vice-rei. Ou seja, seria<br />

bom se não se aprofundasse muito na apuração de culpas. Sob pretexto<br />

de conter os ânimos mais rebeldes e sossegar o povo, sugeriu ao vicerei<br />

aplicar penas leves, quase simbólicas e até escamotear o real motivo<br />

das punições, alegando contrabando ou coisa assim. 76 Até seguindo o<br />

exemplo do conde de Assumar que puniu os sediciosos de 1720 sem<br />

julgamento. Só que ao contrário da benevolência intencionada pelo<br />

visconde de Barbacena, o conde exacerbou, trucidando Felipe <strong>dos</strong><br />

Santos e botando fogo nas terras de Paschoal da Silva Guimarães.<br />

Falta de tempo não deve ser considerado fator decisivo para o<br />

aborto do plano militar. Os próprios inconfidentes certamente<br />

pensaram assim, pelo menos em dezembro de 88, antes que a evolução<br />

rápida de fatores objetivos desfavoráveis acenasse para um trágico<br />

desfecho. Assim resolveram assumir os riscos diante da oportunidade<br />

do lançamento da derrama, a despeito de uma certa exiguidade do<br />

tempo para uma ação mais madura e cautelosa. De fato, se a perversa<br />

cobrança anunciada do ajuste do quinto atrasado tivesse sido<br />

efetivamente executada, o ânimo geral teria sido bem outro, lastreando<br />

boas chances de êxito para um plano que mesmo incompleto, era muito<br />

racional.<br />

A revolução liberal de 1842, por exemplo, teve efêmeros mas<br />

intensos quatro meses de vida. Eclodiu passionalmente em maio e se<br />

encerrou em agosto, no meio de um sangrento campo de batalha. Nessa<br />

curta trajetória deixou um rastro de mortes, ao longo das quais os<br />

rebeldes conseguiram subjugar muitas das principais vilas da província<br />

de Minas Gerais: Barbacena, São João del Rei, Paracatu, Sabará, Santa<br />

Bárbara, Santa Luzia, etc. O principal erro <strong>dos</strong> revoltosos foi ter<br />

retardado a marcha sobre Ouro Preto. A batalha final em Santa Luzia<br />

teve lances de epopeia cinematográfica com cinco mil figurantes, fogo<br />

de artilharia e tudo mais. 77<br />

76 Isso está claramente evidenciado num trecho da carta que mandou ao tio pedindo<br />

socorro e que transcreveremos daqui a pouco.<br />

77 No fracasso da rebelião deve ser levado em conta também a astúcia do coronel<br />

Lima e Silva (futuro duque de Caxias e sobrinho da mulher de Silvério <strong>dos</strong> Reis)<br />

comandante das forças legalistas que na batalha final, enganou os rebeldes, armando<br />

91


Enfim, havia sementes de discórdia hibernando em Minas desde<br />

princípios do século XVIII e talvez a impetuosidade da revolta de 1842<br />

até tenha sido uma válvula de suspiro do que deixou de escapar em<br />

1789.<br />

Provavelmente o movimento revolucionário liberal sucumbiu por<br />

falta de planos e excesso de entusiasmo de seus líderes, deficiências que<br />

no geral, não são características marcantes da Inconfidência de 88/89.<br />

Na verdade – e isso não é nem um pouco original - o fracasso da<br />

Conjuração Mineira deve ser debitado à conjugação caprichosa de<br />

fatores, o que de resto acontece com a grande maioria <strong>dos</strong> conflitos de<br />

repercussão histórica, pois que fatores estruturais criam oportunidade<br />

mas não garantem o sucesso das ações daqueles que resolveram investir<br />

nessas oportunidades. É claro que a avaliação judiciosa das<br />

oportunidades e a racionalidade <strong>dos</strong> planos consequentes aumentam as<br />

chances de êxito mas, enfim, os homens costumam faz com a História<br />

o que Deus não tem coragem de fazer com o universo: jogar da<strong>dos</strong>.<br />

A denúncia de Silvério <strong>dos</strong> Reis, ainda que verbal, caiu para<br />

Barbacena como a grande oportunidade para disparar a repressão e no<br />

dia 25 de março escreveu ao vice-rei relatando o que estava<br />

acontecendo. Talvez tivesse preferido esperar um pouco mais, mas<br />

então já conhecia toda a extensão do movimento e sabia que sua<br />

posição militar era muito fraca e que se o levante realmente acontecesse<br />

ele seria facilmente derrubado. Mas na sequência agiu rápido e com<br />

notável competência de estrategista, desnorteando os revoltosos mais<br />

afoitos. Seu plano de reação se assentou em três pontos básicos,<br />

executa<strong>dos</strong> rapidamente e com precisão, enquanto esperava ajuda<br />

militar do tio vice-rei: neutralizar os líderes militares suspeitos e mais<br />

perigosos para ele (Freire de Andrade, Ignácio Pamplona, Maximiano<br />

de Oliveira Leite e Manuel da Silva Brandão) e cercar-se em Vila Rica<br />

por militares de confiança (Pedro Afonso Galvão de São Martinho, José<br />

de Vasconcelos Parada e Souza, José de Souza Lobo, Antônio Dias<br />

Coelho). Os dois outros pontos do seu plano eram: suspender a<br />

derrama e afastar Tiradentes de Minas.<br />

É muito significativo que o comandante Freire de Andrade tenha se<br />

licenciado do comando <strong>dos</strong> Dragões em final de janeiro e se refugiado<br />

uma artimanha que debilitou as manobras da turma do valente mas inexperiente<br />

Teófilo Otoni.<br />

92


em sua fazenda, se afastando definitivamente da cena da rebelião no<br />

momento mais crítico. Assim tudo ficou muito distante da hora em que<br />

a senha do levante seria propagada. O brado do “tal dia é o batizado”<br />

estava vinculado ao lançamento da derrama e devia sinalizar o início do<br />

assalto de tomada do palácio e formal deposição de Barbacena. (Pelo<br />

menos como governador investido por Sua Majestade). Mas isso, como<br />

vimos, pressupunha uma mobilização prévia cujo desencadeamento<br />

parece solto no ar. O início <strong>dos</strong> preparativos militares era um momento<br />

especialmente crítico pois poderia ser descoberto antes da hora e<br />

facilitar uma ação repressora bem sucedida e por isso deveria estar nas<br />

mãos do comandante supremo Freire de Andrade. A imobilidade<br />

inesperada do comandante desnorteou os mais belicosos como o padre<br />

Toledo e Francisco Antônio de Oliveira Lopes que tentaram instigá-lo<br />

desesperadamente, aconselhando-o a dar início a ação de qualquer jeito,<br />

antes que fosse muito tarde. Enfim, alguma mobilização já tinha que ter<br />

acontecido a partir de janeiro, mas o comandante optou por se afastar.<br />

É certo que Freire de Andrade não era o responsável pela ação militar<br />

mais pesada e que estava nas mãos de Tiradentes, Alvarenga e padre<br />

Toledo mas sua retirada desarticulou o movimento.<br />

Para defender Vila Rica e seu palácio da Cachoeira do Campo,<br />

Barbacena então fez aquelas trocas estratégicas de comando, afastando<br />

seu comandante indeciso da testa do regimento da cavalaria e<br />

promovendo e afastando de Vila Rica os capitães Maximiano Leite e<br />

Silva Brandão. O primeiro no comando da serra de Santo Antônio do<br />

distrito diamantífero do Abaeté e o segundo no destacamento do<br />

Tejuco. 78 Mais tarde estes dois últimos perderiam seus novos coman<strong>dos</strong><br />

e dariam graças a Deus de não serem enreda<strong>dos</strong> na devassa.<br />

Provavelmente o governador fez um acordo com Freire de Andrade,<br />

prometendo acobertá-lo se ele se retirasse. De fato ele tentou de toda<br />

forma evitar a prisão do comandante, mas o infeliz estava por demais<br />

envolvido e acabou preso e sentenciado, morrendo no degredo com<br />

sinais evidentes de demência. A neutralização de Andrade foi o ponto<br />

de partida para o visconde iniciar a repressão. Seria loucura ele tentar<br />

78 Há uma certa confusão <strong>dos</strong> historiadores sobre o local para onde Maximiano Leite<br />

foi transferido. Uns acham que o tal destacamento era o da serra de Santo Antônio do<br />

Tejuco (Itacambira). Outros acham que a serra era para os la<strong>dos</strong> da Mantiqueira.<br />

Minha fonte de referência é o relatório do desembargador Torres nos autos que dá<br />

conta que ele estava em Paracatu em vias de ser preso, portanto próximo de Abaeté.<br />

93


qualquer coisa antes disso pois, como relatou aflito ao vice-rei, para<br />

reprimir a revolta só dispunha de setenta homens e nenhum barril de<br />

pólvora. 79<br />

Em princípio de março Tiradentes já tinha tomado a iniciativa de ir<br />

para o Rio de Janeiro, provavelmente por sentir que tudo estava muito<br />

quieto para ele e que o movimento tinha esfriado em Minas. Acreditou<br />

que talvez pudesse aquecê-lo no Rio e contagiar seus companheiros<br />

mineiros, demasiadamente desanima<strong>dos</strong> a apenas três meses do dia em<br />

que seus ânimos tinham atingido o ápice. Assim, quando o alferes pediu<br />

licença ao governador Barbacena para se ausentar de Minas a 10 de<br />

março de 1789, o visconde deve ter agradecido a Deus por ouvir as suas<br />

preces. Tiradentes foi efetivamente para o Rio de Janeiro e acossado<br />

tentou inutilmente voltar a Minas. Cinco dias depois Silvério <strong>dos</strong> Reis<br />

faria sua denúncia verbal. Barbacena sufocou o movimento com<br />

maestria e nosso bravo alferes voltou no dia 22 de maio de 1792 em<br />

pedaços e com seu sonho adiado por cem anos.<br />

10<br />

QUANDO O VELHO POETA TERMINA OBSCURO OS SEUS<br />

DIAS LUMINOSOS<br />

José de Vasconcelos Parada e Souza, comandante da cavalaria<br />

regular do distrito Diamantino, tinha sido chamado a Vila Rica em<br />

princípio de março. Barbacena havia feito com ele um acordo muito<br />

conveniente para ambos. Como todo mundo, também o governador<br />

sabia das atividades irregulares do comandante, notório protetor de<br />

contrabandistas de diamantes em troca de propina. Junto com seu<br />

colega de armas José de Souza Lobo e o coronel de auxiliares Brito<br />

Malheiro, o comandante formava uma trinca de sócios absolutamente<br />

terrível, com dúzias de casos de extorsão e morte nas costas, pelas<br />

plagas do Serro do Frio a fora. O governador acertou com ele que, em<br />

79 Barbacena não queria, contudo, encher a capitania com tropas estranhas ao seu<br />

comando e pediu apenas duas guarnições de infantaria para guardar os caminhos de<br />

Minas, mas o Vice-Rei queria ter o controle militar da situação e mandou logo uma<br />

guarnição de cavalaria da sua guarda pessoal para Vila Rica, aquartelando-a na casa de<br />

João Rodrigues de Macedo que, assim, teve sua parte térrea transformada em quartel,<br />

além de prisão.<br />

94


troca de sua lealdade e diligência em reprimir os inconfidentes, seriam<br />

esqueci<strong>dos</strong> os seus desman<strong>dos</strong> e mais, podia contar com sua<br />

complacência frente a discretas pilhagens no momento das buscas e<br />

prisões nas casas <strong>dos</strong> implica<strong>dos</strong>. Parada e Souza claro, prontamente<br />

aceitou. Mas pediu um raro privilégio, disputado por outros de seus<br />

colegas: queria ser o executor da prisão de Cláudio Manuel da Costa.<br />

Tinha duplo motivo para querer isso. Primeiro por vingança pessoal.<br />

Acreditava que o poeta era o autor das Cartas Chilenas onde ele era<br />

caracterizado na figura do personagem PADELA, retratado como<br />

tendo um padrão de vida incompatível com os sol<strong>dos</strong> de sua patente.<br />

Segundo porque dr. Cláudio era um <strong>dos</strong> homens mais ricos envolvi<strong>dos</strong><br />

na Inconfidência e uma busca em sua casa prometia ser sobejamente<br />

compensadora. Barbacena em princípio refugou. Não estava certo<br />

quanto a prisão do advogado. Pensava em fazer um acordo com ele e<br />

quem sabe até livrá-lo da culpa a troco de um certo silêncio. O nobre<br />

governador também tinha fortes motivos para tratar Cláudio Manuel de<br />

modo especial. Ele era um homem influente, sabia demais e possuía<br />

suficiente autoridade para dar plena credibilidade a tudo que dissesse.<br />

Além de tudo isso, era um hábil político e advogado astuto. Barbacena<br />

temia que algum tipo de atitude do distinto bacharel pudesse tolher a<br />

liberdade que queria ter para manobrar a cena da devassa a seu gosto,<br />

com o mínimo de intervenção do vice-rei Luiz de Vasconcelos e<br />

intervenção nenhuma do ministro Melo e Castro. Mas o próprio Parada<br />

e Souza andou complicando as coisas. Desdizendo o nome que tinha,<br />

não parava de apregoar para quem quisesse ouvir que não entendia<br />

porque, mais de um mês depois das prisões <strong>dos</strong> principais implica<strong>dos</strong>,<br />

Cláudio ainda estava solto em Vila Rica. Mas não foi propriamente isso<br />

que levou o governador a se decidir pela prisão: o vice-rei estava muito<br />

afoito. Antes mesmo da prisão de Tiradentes já tinha aberto sua devassa<br />

no Rio de Janeiro, seguindo corretamente os trâmites legais aplicáveis.<br />

Barbacena estava na iminência de perder o controle da situação e<br />

acabou obrigado a instalar outra devassa em 12 de junho, muito a<br />

contragosto. Os devassantes do tio vice-rei deveriam chegar a Vila Rica<br />

para tomar depoimentos, em princípio de julho e certamente iriam<br />

querer interrogar Cláudio Manuel da Costa. Além do mais, já tinha dois<br />

outros fortes implica<strong>dos</strong> que Barbacena queria deixar fora da confusão:<br />

Freire de Andrade e José Álvares Maciel. Que interrogassem, portanto,<br />

o pobre dr. Cláudio, mas que fosse depois dele. Assim, a 25 de junho<br />

deu sinal para que Parada e Souza prendesse o velho e alquebrado<br />

advogado, o que o famigerado Padela fez com incontido prazer.<br />

95


A pequena escolta praticamente pôs a porta do espaçoso casarão<br />

abaixo não dando tempo para que ela fosse aberta, o que seria feito à<br />

mais gentil batida, pois ninguém queria oferecer resistência. A incursão<br />

já era esperada e encontrou Cláudio Manuel da Costa acamado. Sobre<br />

ele tinha se abatido um profundo desânimo. Estava se autocondenando<br />

por ter mergulhado naquela aventura, embora nada tivesse<br />

particularmente a ganhar. Havia exposto a família a um grande risco.<br />

Sabia que seus bens iriam ser sequestra<strong>dos</strong> deixando to<strong>dos</strong> na mais<br />

miserável penúria, fora a ignomínia da infâmia até a terceira geração.<br />

Não tinha tido o direito de fazer isso. E tentava se resignar atribuindo<br />

tudo a um castigo divino. Era a punição que recebia por ter constituído<br />

família fora <strong>dos</strong> laços do matrimônio, fornicando sem parar com uma<br />

pobre escrava submissa. Além disso, andava agiotando com juros de<br />

ganância.<br />

Padela estava impaciente e nem esperou o velho poeta pegar alguns<br />

pertences pessoais. Nem era necessário, eles podiam ser recolhi<strong>dos</strong><br />

depois. Afinal a prisão ficava à poucas dezenas de metros, de subida e<br />

descida. Carregando o enorme fardo que se impôs, o dr. Cláudio<br />

cambaleando, teve que caminhar até a Casa do Contrato onde uma<br />

improvisada cela iria abrigá-lo pelos nove tenebrosos dias que ainda lhe<br />

restavam de vida. Enquanto caminhava humilhado, desfibrando seu<br />

calvário, ele imaginava o que estariam fazendo em sua casa. Adivinhava<br />

que estariam revirando tudo em busca de seus propala<strong>dos</strong> tesouros. De<br />

fato foi assim e nem tudo que era seu acabaria arrolado no auto de<br />

sequestro de seus bens. Mas não satisfeitos com o que encontraram em<br />

sua casa, os asseclas de Padela iriam até sua fazenda onde, também<br />

insatisfeitos com o que tinham encontrando, teriam torturado sua<br />

família e, segundo alguns, até trucidado to<strong>dos</strong> e enterrado no porão<br />

onde muitos anos mais tarde vários corpos teriam sido encontra<strong>dos</strong>. 80<br />

Na verdade nosso dileto poeta teve tempo de se preparar para a<br />

esperada prisão. Caso Parada e Souza não tenha lhe arrancado uma<br />

confissão à força e se apropriado <strong>dos</strong> mesmos, imaginamos que o<br />

grosso de seus tesouros nunca foram encontra<strong>dos</strong>. Subsiste uma lenda<br />

que até hoje excita certos corações aventureiros que volta e meia,<br />

80 Essa versão, espalhada por Augusto de Lima jr., é contrariada por documentos que<br />

atestam que a família de Cláudio Manuel da Costa se encontrava viva depois de sua<br />

morte, porém vivendo em situação miserável.<br />

96


anseiam vasculhar velhos porões na antiga região do Carmo e do Ouro<br />

Preto em busca de areia misturada com ouro. Esta, segundo a lenda,<br />

teria sido a artimanha por trás do segredo do tesouro.<br />

A frustração de não encontrar todo o precioso butim que esperava<br />

no ato da prisão, irritou muito Parada e Souza que, retornando do<br />

infrutífero saque, foi procurar o governador para se queixar, sentindo-se<br />

enganado. Barbacena, porém, o acalmou dizendo que teriam algum<br />

tempo para convencer o dr. Cláudio a dizer alguma coisa. Pelo menos<br />

até que os devassantes do Rio de Janeiro não chegassem. Ele que<br />

tivesse calma e esperasse. De fato Padela só pôde esperar até o dia 4 de<br />

julho de 1789, pois os devassantes do vice-rei iam chegar alguns dias<br />

depois.<br />

Barbacena instalou sua devassa tardiamente, como dito. Entregou-a<br />

a Pedro José Araújo Saldanha, ouvidor de Vila Rica e José Caetano<br />

César Manitti, ouvidor de Sabará. Os dois, correndo contra o relógio<br />

para recuperar o tempo perdido pelo visconde, trabalharam dia e noite<br />

em interrogatórios e na emissão cuida<strong>dos</strong>a <strong>dos</strong> respectivos relatórios.<br />

Cláudio Manuel da Costa foi interrogado a 02 de julho na sua cela da<br />

Casa do Contrato, vale dizer o magnífico palacete de seu cliente João<br />

Rodrigues de Macedo. Não levou muito tempo para dizer o muito que<br />

sabia. Ele não esperava aquela reação contundente do governador,<br />

reprimindo violentamente o movimento, mas também nunca confiou<br />

muito nele. Ademais, como o visconde já havia prendido quase to<strong>dos</strong><br />

seus principais colegas, já esperava por sua prisão. No seu íntimo tinha<br />

certeza de que não havia provas consistentes para sustentar uma<br />

acusação de sublevação ou motim. Não havia nada além de palavras.<br />

Mas temia pela lisura do processo, com Barbacena escolhendo<br />

subjetivamente quem queria ou não queria punir. Tinha tido a cautela<br />

de não se envolver abertamente com o projetado levante, mesmo<br />

porque, não estava disposto a grandes sacrifícios àquela altura da vida<br />

em que havia conseguido amealhar uma significativa fortuna que<br />

pretendia legar intocada à sua família. Manteve a esperança de não ser<br />

envolvido mas não conseguia esquecer a natureza cruel com que se<br />

costuma resolver os crimes de lesa majestade. De sorte que a<br />

expectativa mais tenebrosa se fez realidade e anuviou o horizonte do<br />

poeta. De qualquer forma, teria que manter a serenidade e usar da<br />

melhor forma o seu direito de defesa. Para tal lançaria mão do mais<br />

justo <strong>dos</strong> recursos, ou seja, dizer a verdade.<br />

97


Cláudio estranhou quando os devassantes entraram em sua cela<br />

sozinhos. Para que seu depoimento fosse juridicamente válido era<br />

requerida a presença de um tabelião. Assim ironizou dizendo que em<br />

sendo eles to<strong>dos</strong> tão amigos, julgava que aquilo fosse uma visita<br />

informal e assim se sentia à vontade para dizer tudo que sabia. Manitti e<br />

Saldanha nada disseram, se assentaram e escutaram. O combalido<br />

bacharel contou uma história contundente e franca. Contou das<br />

reuniões de que havia participado e as pessoas presentes. Contou de<br />

conversas de rua e da intimidade de almoços e de jantares. Estava claro<br />

que ele estava disposto a revelar to<strong>dos</strong> os detalhes do que sabia diante<br />

<strong>dos</strong> devassantes do vice-rei, prestes a chegar a Vila Rica. Disse que<br />

como eles próprios bem sabiam, o movimento era público e notório<br />

mas que tinha um caráter muito mais conjetural do que propriamente<br />

de sublevação. Tanto que o próprio governador sempre soube dele e<br />

tardara em reprimi-lo e só resolveu se mexer quando foi pressionado<br />

por denúncias insistentes que, no entanto, tinham sido feitas por<br />

pessoas inescrupulosas e indignas de credibilidade. Agora, para<br />

minimizar a omissão do visconde, o iriam pronunciar injustamente,<br />

visto que jamais poderia ser provado que ele participou ou apoiou<br />

qualquer plano de sublevação. Embora sua voz fosse baixa e cansada, o<br />

dr. Cláudio parecia indignado e os devassantes o ouviam com atenção e<br />

um pouco constrangi<strong>dos</strong> pois, no fundo, não tinham como discordar<br />

daqueles comentários. A certa altura o poeta fez uma colocação que<br />

estarreceu Saldanha e Manitti: declarou que Barbacena tinha tido<br />

interesse em tirar vantagens pessoais do movimento, que estava<br />

profundamente envolvido com o mesmo e que tinha mandado seu<br />

próprio ajudante de ordens aconselhá-lo a fugir antes que o caso se<br />

tornasse público. Encerrou seu curto discurso dizendo com todas as<br />

letras, que Barbacena é que estava entre os primeiros num plano de<br />

sublevação. E disse nada mais ter a contar e que o deixassem em paz<br />

pois estava doente e se sentia muito cansado. Tomou a iniciativa, ele<br />

mesmo, de despedir os devassantes. Quando esses se preparavam para<br />

cerrar a porta, ouviram do preso que no próximo depoimento entraria<br />

em detalhes de tudo que sabia <strong>dos</strong> bastidores do movimento, mas que<br />

trouxessem testemunhas e um tabelião, já que tudo que dissesse não<br />

teria nenhum valor legal, sem essa providência.<br />

Manitti e Saldanha estavam precavi<strong>dos</strong> para enfrentar a conhecida<br />

astúcia de Cláudio Manuel da Costa e prepara<strong>dos</strong> para direcionar o<br />

relatório do depoimento, circunstanciando-o como necessário. Por isso<br />

mesmo é que pensaram em conduzir o interrogatório um tanto<br />

98


informalmente, sem que fossem cumpri<strong>dos</strong> to<strong>dos</strong> os requisitos legais<br />

aplicáveis. Tinham tido toda a razão em querer agir assim pois o que<br />

ouviram os deixou assusta<strong>dos</strong>. Entre si tentaram resumir o que tinha<br />

acabado de acontecer. Estava claro: Cláudio Manuel se mostrava pronto<br />

para afirmar que Barbacena estivera envolvido com o movimento e que<br />

no mínimo, havia sido omisso e indeciso, tendo se agarrado a denúncias<br />

tardias de notórios boquirrotos para justificar sua decisão de suspender<br />

a derrama e reprimir a conspiração que ele há muito já conhecia. Tudo<br />

isso, com o lastro da autoridade de quem estava afirmando, poderia<br />

complicar muito a situação do visconde dando uma carregada pintura<br />

ao significado da lentidão das suas reações e do tratamento ameno que<br />

tinha querido dar ao crime até poucos dias atrás.<br />

Tocaram rápi<strong>dos</strong> rua das Flores acima, rumo ao palácio de Vila Rica<br />

onde o governador já os esperava apreensivo. Barbacena ouviu o relato<br />

de seus devassantes e deu instruções rápidas e enérgicas. Instruiu-os de<br />

como deveria ser o conteúdo do relatório do depoimento de Cláudio<br />

Manuel. Determinou que negociassem com ele sob pressão psicológica<br />

para assinar um depoimento aceitável aos seus propósitos. Estabeleceu<br />

que esse conteúdo poderia ser negociado até um certo limite, onde no<br />

máximo, qualquer citação a ele ficasse dúbia ou atribuída a terceiros<br />

dando margem a que, se questionado, pudesse se explicar sem maiores<br />

comprometimentos. Recomendou constar do depoimento um<br />

reconhecimento de Cláudio Manuel de que era um maledicente<br />

habitual, que o tinha ofendido com gracejos e que pedisse perdão por<br />

isso. Determinou ainda que ele parecesse moralmente arrasado.<br />

Esclareceu que se necessário, poderiam apelar para a tortura física, para<br />

isso recorrendo a Parada e Souza. Não havia muito tempo, os<br />

devassantes do vice-rei já estavam próximos a Vila Rica e a questão<br />

tinha que ser resolvida antes da sua chegada.<br />

Manitti e Saldanha acharam melhor não correr maiores riscos.<br />

Voltaram à Casa do Contrato e mandaram chamar Parada e Souza. Mas<br />

não o encontraram de imediato. Na verdade ele estava com o<br />

governador que logo após falar com seus devassantes, já lhe passava<br />

instruções sobre o que deveria fazer. Na seqüência mandou chamar o<br />

mestre de campo Ignácio Correia Pamplona e pediu que ele ajudasse<br />

Padela naquilo que fosse solicitado diretamente por ele. Alertou que tal<br />

solicitação, inclusive, poderia envolver uma ação muito perigosa e<br />

extremamente sigilosa. Pamplona que estava louco para se ver livre do<br />

risco do governador o envolver na conjuração, aceitou<br />

incondicionalmente o compromisso e até ficou agradecido pela chance<br />

99


de mostrar sua grande lealdade e seus préstimos para sufocar os riscos<br />

da hedionda intenção.<br />

Barbacena simplesmente não queria que Cláudio Manuel da Costa<br />

saísse vivo daquela história. Não poderia correr o risco dele ser<br />

interrogado pelos desembargadores da devassa do Rio de Janeiro.<br />

Também temia acareações do velho advogado com outros réus pois,<br />

pelo peso da sua autoridade, dificilmente alguém ousaria confrontar<br />

suas declarações. Estava aí até uma boa oportunidade também para o<br />

famigerado Padela arrancar do dr. Cláudio o mapa <strong>dos</strong> seus tesouros.<br />

Manitti e Saldanha não sabiam dessa decisão extremada e<br />

começaram de imediato sua tortura moral para obter um depoimento<br />

apropriado. Acordaram o prisioneiro no meio da noite e o mantiveram<br />

sentado enquanto redigiam depoimentos para assinar que ele, no<br />

entanto, recusava sistematicamente. Essa situação durou mais de um dia<br />

até que finalmente Cláudio Manuel da Costa, inteiramente abatido e<br />

mentalmente confuso acabou concordando, sob tímido protesto a<br />

assinar um documento. Nele constava que as referências<br />

comprometedoras a Barbacena tinham sido ouvidas de terceiros.<br />

Incluíam ainda um patético pedido de perdão e uma confissão de falta<br />

de seriedade do que quer que tenha dito de desabonador em relação ao<br />

Excelentíssimo Capitão General das Minas. O velho poeta estava muito<br />

debilitado e assinou o documento com mão indecisa. Tanto que a<br />

autenticidade da sua assinatura segue contestada até hoje. Em essência,<br />

a denúncia de que o visconde estava entre os primeiros na sublevação<br />

foi transferida para a boca de Gonzaga, a respeito de quem já corria um<br />

plano de desmoralização, pintando-o como alguém ansioso para cortar<br />

a cabeça do dito visconde, desmerecendo sua leal amizade. Desta<br />

forma, o depoimento de Cláudio perdeu muito da sua dramática<br />

consistência e passou a ser muito mais uma peça maldita, usada ao<br />

longo <strong>dos</strong> anos contra sua própria memória.<br />

Com este resultado os devassantes entenderam ter cumprido a<br />

recomendação e se deram por satisfeitos. Temiam pela saúde do velho<br />

advogado e já iam liberá-lo para voltar à sua cela e dormir um pouco<br />

quando Parada e Souza os impediu. Padela disse que tinha uma<br />

mensagem de Barbacena para o prisioneiro e que eles poderiam se<br />

retirar e procurar o governador. Em seguida chamou o mestre de<br />

campo Pamplona que entrou ávido e grato pela chance de se mostrar<br />

leal ao caro general, o primeiro no comando <strong>dos</strong> negócios da dita<br />

Senhora na capitania mais rica do estado do Brasil.<br />

100


Na manhã seguinte, o alferes da guarnição do vice-rei, responsável<br />

pela guarda do ilustre advogado e poeta Cláudio Manuel da Costa, o<br />

encontrou enforcado em sua cela. O laudo das circunstâncias da sua<br />

morte, apesar de ocupar apenas meia folha de papel, levou dez dias para<br />

ficar pronto, tempo em que Barbacena ocultou oficialmente a morte.<br />

No final produziram um laudo estranho onde constava que ele tinha se<br />

suicidado, se enforcando malabaristicamente na horizontal, usando os<br />

frágeis cordões encarna<strong>dos</strong> do calção. Fizeram questão de constar no<br />

laudo que seu corpo não apresentava hematomas. Era quatro de julho<br />

de 1789 e naquele dia a independência <strong>dos</strong> Esta<strong>dos</strong> Uni<strong>dos</strong> da América<br />

completava exatos treze anos. Dez dias depois o povo amotinado em<br />

Paris tomava a Fortaleza da Bastilha e espetava a cabeça de seu<br />

comandante De Launay num poste. Iam começar a rolar as cabeças<br />

coroadas da Europa. Mas ia faltar um parceiro na trinca das grandes<br />

repúblicas sonhadas pelo trágico poeta. Um sonho novo que ele<br />

aprendeu a sonhar nos últimos meses que lhe restavam de vida. Uma<br />

vida gloriosa mas cheia de inquietudes e de conflitos sobre as coisas da<br />

terra e do céu.<br />

11<br />

A PROPÓSITO DA POESIA ENCOMIÁSTICA E DA CONFUSÃO<br />

DOS SONHOS<br />

Quem se debruça a pesquisar a obra laudatória de Cláudio,<br />

Gonzaga e Alvarenga, sente dificuldade em acreditar que eles um dia<br />

pudessem ter se metido naquela arriscada aventura de urdir a ruptura<br />

<strong>dos</strong> laços do Brasil com Portugal e afrontar a ira <strong>dos</strong> reis e <strong>dos</strong> Deuses,<br />

parentes e dedica<strong>dos</strong> protetores <strong>dos</strong> ditos reis. Os anéis culturais que os<br />

uniam à adotiva pátria eram por demais fortes, impregna<strong>dos</strong> de uma<br />

verdadeira adoração por tudo que lusitano fosse e em especial a<br />

autoridade da Coroa. Lá a natureza era mais pródiga e, quem sabe, até<br />

fosse injusto que Portugal não tivesse ouro e nem pedras preciosas em<br />

seu abençoado solo cristão. Em sendo assim, quem sabe não fosse de<br />

todo ilegítimo que pegasse os das colônias para lastrear as glórias<br />

conquistadas e que ainda troavam do passado. Talvez não chegassem a<br />

tão desmedida adoração, mas Cláudio Manuel da Costa não se cansava<br />

de lamentar a feiura das águas barrentas do ribeirão do Carmo,<br />

comparadas à beleza das águas límpidas do Tejo e do Mondego. Amou<br />

a sua terra, mas com um certo sentimento de perda e traição, tão longe<br />

101


da real Arcádia e <strong>dos</strong> seus ventos que alcançavam Coimbra facilmente.<br />

Está certo que nunca deixou de cantar as riquezas minerais da sua terra,<br />

mas quase pedia perdão por isso e apostava num empate, lamentando a<br />

falta de copa<strong>dos</strong> olmos a refrescar as ricas mas turvas margens do rio<br />

pátrio, lacerado de cupidez e ambição. Nunca conseguiu deixar de ser<br />

um coimbrão mal ajeitado entre <strong>mazombos</strong>. 81<br />

Alvarenga sempre foi mais ligado nas coisas da sua terra, embora<br />

tivesse passado os anos básicos da sua formação em Lisboa e Coimbra.<br />

Mas coerência nunca foi mesmo o seu forte. De toda forma, parece que<br />

ele aceitava as diversidades do Brasil colonial muito mais do que os<br />

outros. Isso reforça minha convicção de que sua vista realmente<br />

enxergava horizontes mais abertos e distantes onde novos sois raiar<br />

podiam.<br />

Com certeza, durante a fermentação ideológica do<br />

comprometimento com a conjuração, nossos diletos poetas <strong>coimbrãos</strong><br />

tiveram muitos conflitos existenciais e muito provavelmente, nunca<br />

conseguiram encarar a ruptura de tão sóli<strong>dos</strong> e afetivos laços com a<br />

necessária devoção que o audaz cometimento requeria. Tanto a ideia de<br />

independência quanto a ideia de república lhes devia ser um tanto<br />

indigestas. 82 Mas devia incomodar muito mais a questão da acomodação<br />

das divindades de flui<strong>dos</strong> azuis nos gabinetes republicanos, posto tal<br />

ajeitamento não fosse de todo impossível. É provável que, à medida<br />

que a crença nessa solução foi crescendo, o envolvimento com a<br />

conspiração também o foi e o desconforto acabou sendo amolecido no<br />

calor do entusiasmo <strong>dos</strong> <strong>mazombos</strong> que chamuscava, mesmo à<br />

distância.<br />

81 Com certeza, Cláudio escrevia ambicionando ter as mais cultas elites portuguesas<br />

entre seus leitores. Talvez por isso tenha buscado, com tanta frequência, tornar mais<br />

elegantes suas imagens sobre as belezas cruas da sua terra natal. Para isso apelava para<br />

comparações ecológicas, lamentando ter que cultivar seu estro entre as incultas<br />

brenhas das minas quando seria tão mais nobre fazê-lo nos mansos verdes pra<strong>dos</strong><br />

portugueses.<br />

82 Sabe-se que Alvarenga produziu um soneto criticando os heróis da independência<br />

americana. Esta peça esteve nas mãos de Joaquim Norberto de Souza e Silva que se<br />

recusou a incluí-la na sua edição da obra do poeta por julgá-la demasiadamente<br />

ofensiva. Depois o original se perdeu e a tal deselegante crítica aos heróis da primeira<br />

república da América permanece inédita.<br />

102


Mas, até então, a pena correu solta para louvar as nobrezas e seus<br />

divinos desígnios, sempre dignos <strong>dos</strong> mais florea<strong>dos</strong> registros.<br />

Os críticos modernos, especialmente aqueles que se julgam muito<br />

embebi<strong>dos</strong> de posturas politicamente corretas, gostam de ironizar a<br />

exuberância louvaminheira <strong>dos</strong> nossos poetas inconfidentes. Sem<br />

dúvida eu próprio não consegui ficar livre deste impulso vigoroso ao<br />

deboche. Mesquinho e desnorteado estado de espírito! Para sermos<br />

justos, precisamos nos descolar das idiossincrasias culturais da nossa<br />

época e voar até o século XVIII. Naquele tempo era educado e de bom<br />

tom produzir poemas em louvor, por admiração mesmo, ou por puro<br />

interesse fisiológico. Especialmente aos bacharéis, seria impossível<br />

conseguir trilhar uma brilhante carreira de magistrado se não<br />

produzissem umas boas odes a reis, duques e marqueses. Com os<br />

padres não era diferente. Particularmente em Portugal, onde as ligações<br />

das coisas da Coroa e da Igreja sempre foram mais promíscuas e essa<br />

ruptura se fez de forma muito retardatária. Coimbra então era fonte<br />

exuberante de peças laudatórias, jorrando caudalosas e inundando<br />

mosteiros e palácios. Certamente muito mais elegante e fino do que as<br />

bajulações de hoje em dia, usualmente grosseiras. Pelos menos, a cada<br />

um segundo seus méritos poéticos. E to<strong>dos</strong> se esforçavam muito pelos<br />

mereci<strong>dos</strong> prêmios. Bons tempos em que elegância e fineza douravam<br />

as mesmas torpes e vis intenções que carregamos hoje!<br />

De qualquer forma, a Coroa e seus circundantes eram fonte<br />

inesgotável de inspiração. Seja para louvar suas divindades, seja para<br />

execrar quem ousasse não pensar assim.<br />

Cláudio, por exemplo, contumaz embevecido com a real nobreza, se<br />

horroriza à histeria, com o atentado perpetrado contra o futuro<br />

marquês de Pombal, pelo pintor genovês Pelle, que teria colocado<br />

uma bomba na carruagem do poderoso Ministro:<br />

Suspende a mão, vil monstro, considera<br />

A qual te empenhas bárbaro delito,<br />

Ouve os clamores, com que o reino aflito<br />

Menos mover-te que aterrar-te espera.<br />

Ele te diz que eternizar quisera<br />

A vida deste Herói, penso, medito:<br />

Nem digno de louvor mais esquisito<br />

A sua fama consagrar pudera.<br />

103


Eu vejo as penas que a justiça enlaça<br />

Em teu castigo; eu vejo o estrago justo<br />

A que te leva a culpa, ou a desgraça;<br />

Mas confunda-te ó ímpio, mais que o susto,<br />

No suplício que o fogo te ameaça,<br />

Das virtudes do Herói o aspecto augusto. 83<br />

Mas a indignação de Cláudio não foi nada, comparada com a ira da<br />

vítima. Sebastião Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal – com<br />

perdão do mau gosto da imagem – não mandou arrancar a pele do<br />

infeliz Pelle, mas mandou cortar as mãos e depois arrancar os membros<br />

à força de cordas atreladas a robustos cavalos.<br />

Cláudio verdadeiramente venerou a autoridade <strong>dos</strong> nobres e há uma<br />

expressiva passagem no fundamento histórico do poema Vila Rica,<br />

onde ele nos ensina:<br />

A obediência aos soberanos se deve tributar sem algum rebuço, e que nada tão<br />

sagradamente deve respeitar um fiel vassalo.<br />

Gonzaga, por sua vez, ao se congratular com o povo português no<br />

feliz dia da aclamação da Augusta, não quis louvar a soberana com<br />

falsas lisonjas:<br />

A serem os Impérios alcança<strong>dos</strong><br />

por sólidas virtudes, não herda<strong>dos</strong>,<br />

vos, monarcas, em tudo gloriosos,<br />

seríeis na verdade os mais ditosos.<br />

Não governaríeis só a lusa gente,<br />

fechada num tão breve continente:<br />

a ser pesado mando, a vós jucundo,<br />

teríeis por Império o vasto mundo.<br />

Longe, longe, ó Lusos do meu peito<br />

do vício da lisonja o vil defeito!<br />

Longe, longe de mim! A Majestade,<br />

não se honra do ludíbrio da verdade. 84<br />

83 Ao Autor da Conjuração, João Batista Pelle, in Poesias Manuscritas (To<strong>dos</strong> os trechos<br />

cita<strong>dos</strong> nessa seção estão na obra A Poesia <strong>dos</strong> Inconfidentes).<br />

104


É uma competente receita do real louvor. Nem Alvarenga teria pensado<br />

em tanto.<br />

Mais tarde, devidamente encarcerado, Dirceu apela para sua<br />

inocência na Lira XXXVIII, duvidando da infidelidade daqueles que ele<br />

mesmo teria acreditado que seriam infiéis à Sua Majestade e seriam seus<br />

furiosos parceiros, se a derrama tivesse sido lançada:<br />

Qual é o povo, qual é o povo, dize,<br />

Que comigo concorre no atentado?<br />

Americano Povo!<br />

O Povo mais fiel e mais honrado!<br />

Tira as Praças das mãos do injusto dono,<br />

Ele mesmo a submete<br />

De novo à sujeição do Luso Trono. 85<br />

E ao Barbacena reconhece os méritos, compreende o gesto, se<br />

humilha e o perdoa:<br />

Eu também inda adoro ao grande Chefe,<br />

Bem que a prisão me dá, que eu não mereço.<br />

Qual eu sou, minha bela, não me trata,<br />

Trata-me qual pareço.<br />

(...)<br />

Tu vences, Barcelona, aos mesmos Titos<br />

Nas sãs virtudes, que no peito abrigas:<br />

Não honras tão somente a quem premias,<br />

Honras a quem castigas”. 86<br />

84 Congratulações com o Povo Português na Feliz Aclamação da Muito Alta e Muito Poderosa<br />

Soberana D. Maria I, Nossa Senhora.”<br />

85 Gonzaga estava se referindo ao fato <strong>dos</strong> brasileiros terem expelido os invasores<br />

estrangeiros e restituído a colônia ao trono português. Interessante lembrar que o<br />

cônego Luiz Vieira da Silva fez uma leitura inteiramente diferente dessa história.<br />

Nosso erudito padre vivia dizendo que, como os brasileiros haviam expulsado os<br />

invasores às suas próprias custas, nada deviam a Portugal e tinham todo o direito de<br />

instalar sua república.<br />

105


O corajoso ouvidor tinha se transformado num assustado<br />

louvaminheiro, alquebrado pelas terríveis condições de uma masmorra<br />

setecentista e pior, pelas sombrias expectativas diante das<br />

consequências de um crime de lesa-majestade.<br />

Alvarenga certamente não ficaria atrás e produziu igualmente, boa<br />

poesia sobre os méritos de Barbacena em ter suspendido a derrama e<br />

esvaziado a premeditada conspiração e que tinha ele próprio como um<br />

<strong>dos</strong> premeditadores:<br />

Já sobre os densos ares<br />

Horrenda tempestade alevantada<br />

abre o seio <strong>dos</strong> mares<br />

Para tragar a nau despedaçada...<br />

Porém, destro piloto arreia o pano,<br />

Salva o perigo e remedia o dano. 87<br />

Mas o melhor sempre estaria reservado para a Augusta Soberana e<br />

sua nobre linhagem. E como Gonzaga, Alvarenga menospreza o risco<br />

que sombreou o ultramar, revelando que o índio que ele queria colocar<br />

na bandeira rompendo os grilhões, afinal não era tão feroz assim:<br />

(...)<br />

Ua mão, que o faz ver de tanta altura,<br />

Ambos os mun<strong>dos</strong> seus, ambos os mares<br />

E a fé mais santa e pura<br />

Espalhada nos bárbaros desertos,<br />

Conservada por vós firme e segura<br />

Sombra ilustre e famosa<br />

Do grande fundador do luso império,<br />

86 Lira XXIII – Parte II de Marília de Dirceu. Almir de Oliveira, no seu livro sobre<br />

Gonzaga transcreve a palavra “Barbacena” em lugar de “Barcelona”. Há quem diga<br />

que a palavra original foi trocada para não obstar a liberação do poema pelos sensores<br />

da Mesa da Consciência e Ordens de Lisboa que, mais tarde, teria o próprio<br />

Barbacena entre seus compenetra<strong>dos</strong> ministros.<br />

87 Obra 26, conforme a ordenação da obra de Alvarenga organizada por Rodrigues<br />

Lapa.<br />

106


Eterna paz eternamente goza.<br />

Num e noutro hemisfério<br />

Tu vês os teus augustos descendentes<br />

Dar as leis pela voz do Ministério;<br />

e os povos diferentes,<br />

Que é impossível quase o enumerá-los,<br />

Vêm a tributar-lhe honra, obedientes.<br />

A glória de mandá-los<br />

Pedem ao neto glorioso teu,<br />

Que adoram, rei, que servirão, vassalos.<br />

O índio o pé bateu,<br />

Tremeu a terra, ouvi trovões, vi raios,<br />

E de repente desapareceu. 88<br />

Como homens com tais crenças e tamanha devoção, puderam se<br />

interessar por uma conspiração que confrontava frontalmente tanta<br />

coisa que lhes lastreava, fundo, a alma? Ainda que condições estruturais<br />

de natureza política e econômica estivessem presentes, talvez não haja<br />

uma resposta muito racional para essa questão. Quem sabe tudo isso<br />

tenha muito a ver com voos de certas almas demasiadamente livres e<br />

apaixonadas que, da mesma forma que gostavam de sonhar sonhos<br />

impossíveis de amor, se puseram a sonhar sonhos impossíveis de<br />

honradas guerras, capazes de enobrecer as causas <strong>dos</strong> plebeus e de<br />

to<strong>dos</strong> aqueles coita<strong>dos</strong> que Alvarenga achava “dignos de atenção”. 89<br />

Sem embargo, houve um conflito atroz entre suas mentes ilustradas e<br />

seus corações apaixona<strong>dos</strong>. Na glória, reinaram as mentes; na desgraça,<br />

o coração os consolou.<br />

Ou como diria Alvarenga, num desesperado, derradeiro, confuso e<br />

muito sincero pedido de perdão:<br />

88 Obra 29.<br />

89 Canto Genetlíaco.<br />

90 Obra 29.<br />

Da América o furor<br />

Perdoai, grande Augusta; é lealdade,<br />

São dignos de perdão crimes de amor. 90<br />

107


Com certeza, haverá quem diga que os poetas não deviam se meter<br />

em revoluções.<br />

Mas as masmorras não induziram nossos trágicos amigos somente<br />

ao arrependimento e à humilhação civil que tanto vexam os caçadores<br />

de heróis quando os contemplam. Também se produziu muita boa<br />

poesia de resignação e amorosa saudade, da lira de Dirceu e de Eureste.<br />

Terna é a saudade de Dirceu:<br />

Ou na Lira XIX:<br />

Aqui, ó minha amada, nem consigo<br />

Venha outro desgraçado<br />

Sentir também comigo.<br />

Mas se esta companhia não mereço,<br />

Os Deuses me dão outra,<br />

Inda de mais apreço.<br />

Não é, não, ilusão o que te digo;<br />

Tu mesma me acompanhas;<br />

Peno, mas é contigo. 91<br />

Se queres ser pie<strong>dos</strong>o,<br />

Procura o sítio em que Marília mora,<br />

Pinta-lhe o meu estrago,<br />

E vê, Amor, se chora,<br />

Se a lágrimas verter a dor a arrasta<br />

Uma delas me traze sobre as penas,<br />

E para alívio meu só isto basta.<br />

Do outro lado da masmorra, Eureste/Alvarenga finalmente se<br />

consola e queda sereno e digno, aceitando sua desgraça, em seu último<br />

soneto:<br />

Eu não lastimo o próximo perigo,<br />

Uma escura prisão, estreita e forte;<br />

91 Lira XXXI da Segunda Parte de “Marília de Dirceu” .<br />

108


Lastimo os caros filhos, a consorte,<br />

A perda irreparável de um amigo.<br />

A prisão não lastimo, outra vez digo,<br />

Nem o ver iminente o duro corte;<br />

Que é ventura também achar a morte,<br />

Quando a vida só serve de castigo.<br />

Ah, quem já bem depressa acabar vira<br />

Este enredo, este sonho, esta quimera,<br />

Que passa por verdade e é mentira!<br />

Se filhos, se consorte não tivera,<br />

E do amigo as virtudes possuíra,<br />

Um momento de vida eu não quisera. 92<br />

Infelizmente os tempos de juventude em Coimbra e Lisboa já se iam<br />

longe. Naqueles i<strong>dos</strong> as incoerências e as indecisões não faziam mais do<br />

que inspirar doces poemas de juvenil amor, ternos e inconsequentes. E<br />

foi aí que Alvarenga produziu um <strong>dos</strong> seus mais belos poemas:<br />

92 Obra 32.<br />

93 Obra 6 .<br />

Eu vi a linda Jônia e, enamorado,<br />

Fiz logo voto eterno de querê-la;<br />

Mas vi depois a Nise, e é tão bela,<br />

Que merece igualmente o meu cuidado.<br />

A qual escolherei, se, neste estado,<br />

Eu não sei distinguir esta daquela?<br />

Se Nise agora vir, morro por ela,<br />

Se Jônia vir aqui, vivo abrasado.<br />

Mas há! Que esta me despreza, amante,<br />

Pois sabe que estou preso em outros braços,<br />

E aquela me não quer, por inconstante.<br />

Vem, cupido, solta-me destes laços:<br />

Ou faze destes dois um só semblante,<br />

Ou divide o meu peito em dois pedaços! 93<br />

109


Jônia ou Nise? Monarquia ou república? Senhores, não perturbem<br />

os devaneios de Alvarenga Peixoto com minúcias, que a vida é curta e a<br />

gloria incerta!<br />

Glauceste/Cláudio, coitado, não teve tempo de escrever poesias na<br />

prisão.<br />

12<br />

A PROPÓSITO DE TIPOS E MODOS<br />

Os estudiosos da Inconfidência mineira gostam de criar tipologias<br />

para enquadrar as modalidades de envolvimento individual 94 <strong>dos</strong><br />

inconfidentes com o notável movimento que produziram. Isso<br />

começou com Lúcio José <strong>dos</strong> Santos e alguns o seguiram.<br />

Naturalmente esta prática vem da insolúvel controvérsia secular sobre a<br />

relevância do papel e da contribuição particular de cada um <strong>dos</strong><br />

inconfidentes e que varia muito de autor para autor. No fundo a prática<br />

tenta ajudar na busca e legitimação <strong>dos</strong> verdadeiros heróis; para alguns<br />

autores, indispensáveis em qualquer episódio histórico de valor. Sou<br />

partidário da ideia, porém com o único propósito de buscar ajuda para<br />

entender melhor as motivações de cada inconfidente e criar uma<br />

referência que permita interligar fato e suposição com uma certa<br />

coerência. Assim, criei a minha tipologia que, pelo próprio enfoque<br />

adotado, não coincide com a de outros autores e muito menos ainda<br />

com o resultado da sentença do tribunal que, de certa forma, deveria<br />

traduzir a convicção <strong>dos</strong> juízes e de Sua Majestade quanto a conduta<br />

criminosa de cada cabeça.<br />

A pena de Tomás Antônio Gonzaga, mesmo sabendo da sua<br />

brilhante conduta nos interrogatórios a que foi submetido e da<br />

indiscutível solidez de seus embargos, parece muito leve em<br />

comparação com outros colegas muito menos expressivos no<br />

movimento. Sem querer desejar a desgraça de ninguém – mesmo<br />

94 Coletivamente caracterizei os inconfidentes como <strong>mazombos</strong> e <strong>coimbrãos</strong>, como<br />

vimos na Seção Sete.<br />

110


porque não a houve pouca - Freire de Andrade deveria estar ao lado de<br />

Tiradentes no alto do cadafalso. Afinal, formalmente ele foi o maior<br />

traidor da Coroa pois era a segunda maior autoridade militar na<br />

capitania e foi a base logística de todo o movimento conspiratório e o<br />

seria ainda mais se o motim tivesse eclodido. Por outro lado, alguns<br />

foram condena<strong>dos</strong> pelo singelo fato de terem ouvido falar de<br />

independência e república e terem gostado muito da ideia. 95<br />

A simples leitura <strong>dos</strong> primeiros quesitos inquisitórios da devassa já<br />

nos permite identificar os dois tipos de crimes cometi<strong>dos</strong>, quais sejam:<br />

o de conspiração propriamente dita e o de omissão. O primeiro<br />

caracteriza a vassalagem infiel <strong>dos</strong> que ousaram contestar a autoridade<br />

de Sua Majestade e obrar concretamente contra ela. O segundo diz<br />

respeito àqueles que, tomando conhecimento da conspiração, não a<br />

delataram prontamente. No primeiro grupo estão to<strong>dos</strong> os notórios<br />

líderes da inconfidência e outros mais entusiasma<strong>dos</strong>: Tiradentes, José<br />

Álvares Maciel, Alvarenga Peixoto, padres Rolim e Toledo, cônego Luiz<br />

Vieira, Freire de Andrade, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, Luiz<br />

Vaz de Toledo e o pobre Domingos de Abreu Vieira. Há um grupo<br />

intermediário representado por aqueles que se entusiasmaram com a<br />

ideia, prometeram apoio mas não chegaram a se empenhar de fato em<br />

nenhuma articulação. Alguns até, muito antes pelo contrário, passaram<br />

para o outro lado. Aqui me lembro de José Aires Gomes, Ignácio<br />

Pamplona e Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis. Dependendo da maldade <strong>dos</strong><br />

juízes podiam muito bem ser enquadra<strong>dos</strong> no grupo anterior. Mas<br />

somente o primeiro foi sentenciado e assim mesmo com a mais leve de<br />

todas as penas estipuladas pelo tribunal.<br />

Pelo crime de omissão provavelmente poderia ter sido condenado<br />

todo o restante da capitania, especialmente os militares da tropa paga,<br />

no meio da qual Tiradentes pregava descontraidamente.<br />

Com base apenas nas evidências objetivas estampadas nos autos,<br />

poderíamos afirmar que Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e o cônego<br />

Luiz Vieira estariam mais bem alinha<strong>dos</strong> no grupo <strong>dos</strong> criminosos que<br />

pecaram por omissão. 96 Mesmo porque, quando muito, apenas se<br />

95 O que no entanto, também era crime de lesa majestade, submetido aos rigores das<br />

Ordenações Filipinas.<br />

96 Refiro-me aos depoimentos das diversas testemunhas coleta<strong>dos</strong> nos autos. Pelas<br />

cartas do próprio Barbacena, porém, a culpa de Gonzaga aparece como de primeira<br />

grandeza.<br />

111


conseguiu insinuar que eles estavam fazendo leis, ideando bandeiras ou<br />

fazendo comentários políticos ilustra<strong>dos</strong> entre si, o que, como disse<br />

Cláudio Manuel da Costa, não passavam de “brincos de palavras”. Mas<br />

certamente andaram conspirando nos bastidores com certa<br />

desenvoltura. Quem sabia disso não podia dizer, mas isso não fez<br />

diferença e eles tiveram que pagar as suas duras penas da mesma forma.<br />

A rigor só houve dois delatores: Silvério <strong>dos</strong> Reis e Brito Malheiro,<br />

to<strong>dos</strong> os demais buscaram apenas correr atrás do prejuízo quando<br />

souberam que Barbacena assumira oficialmente a existência da<br />

conspiração e a caça às bruxas ia começar.<br />

Observando o juízo do Tribunal da Alçada fica difícil perceber o<br />

critério usado para qualificar os crimes de cada um. Com certeza o<br />

julgamento foi uma grande farsa, mesmo porque, as diretrizes da<br />

sentença já tinham sido previamente estabelecidas por carta régia, antes<br />

mesmo que o Tribunal da Alçada tivesse se instalado. Houve muita<br />

corrupção e perseguição, começando pelas inúmeras denúncias movidas<br />

por interesses de vingança contra desafetos pessoais. A própria<br />

denúncia de Silvério <strong>dos</strong> Reis tem a clara intenção de comprometer<br />

Tomás Antônio Gonzaga e está basicamente dirigida contra ele,<br />

exagerando a culpa e atribuindo ao ex-ouvidor a liderança do<br />

movimento e a autoria <strong>dos</strong> planos, inclusive uma proposta de execução<br />

de Barbacena, o ponto alto da suposta vingança de Silverino 97 e<br />

certamente uma deslavada mentira que complicou a vida do exouvidor.<br />

98 A denúncia de Brito Malheiro também não fica atrás.<br />

Embora na carta denúncia propriamente dita, ele tivesse comprometido<br />

basicamente somente a Tiradentes e um pouco a Alvarenga, depois, nos<br />

seus depoimentos, ele exagera o envolvimento de Cláudio Manuel da<br />

Costa e do cônego Luiz Viera e até declara ter visto Tiradentes sair da<br />

casa de Gonzaga, lugar onde o alferes certamente nunca esteve pois o<br />

ex-ouvidor não gostava dele.<br />

97 Apelido que Gonzaga deu a Silvério <strong>dos</strong> Reis deu nas Cartas Chilenas.<br />

98 Acredito que Barbacena tenha influído diretamente no conteúdo da denúncia, com<br />

a intenção expressa de mostrar que Gonzaga era seu pior inimigo. Assim fugia do<br />

risco de ser acusado de ter um conluio com ele.<br />

112


Pela sentença não se pode avaliar a participação <strong>dos</strong> réus no crime<br />

de lesa majestade de primeira cabeça. 99 Basta olhar a lista <strong>dos</strong> onze réus<br />

não-eclesiásticos inicialmente condena<strong>dos</strong> a morte. A presença nesta<br />

lista de nomes como os <strong>dos</strong> Resende Costa, Domingos Vidal de<br />

Barbosa e Salvador Carvalho do Amaral Gurgel parece inteiramente<br />

despropositada. Os Resende Costa, por exemplo, só foram presos em<br />

1791, após a instalação do Tribunal da Alçada no Rio de Janeiro cujos<br />

juízes, vin<strong>dos</strong> de Portugal, concluíam tardiamente pelo negrume de suas<br />

intenções. O cirurgião Amaral Gurgel não passou de um fugaz ouvinte<br />

da pregação revolucionária de Tiradentes e só foi condenado por<br />

implicância pessoal do escrivão titular do tribunal, Francisco Luiz<br />

Álvares da Rocha, por quem era perseguido desde antes da<br />

inconfidência, o que, inclusive, teria motivado sua mudança para Minas.<br />

Há fortes indícios de que Amaral Gurgel tenha sido vítima de uma<br />

conspiração para envolvê-lo na trama. Falo de dois depoimentos<br />

havi<strong>dos</strong> no dia vinte e dois de junho de 1789 quando as testemunhas<br />

inquiridas 100 buscaram comprometer o jovem cirurgião que, até então,<br />

nem estava sob suspeita. Eles estavam sendo inquiri<strong>dos</strong> apenas para<br />

confirmar outras referências esparsas feitas por Brito Malheiro e que<br />

em nenhum momento tinha mencionado o nome de Amaral Gurgel.<br />

No entanto essas duas testemunhas, uma após a outra, resolveram<br />

contar que Gurgel tinha tido uma conversa com Tiradentes e isso foi o<br />

bastante para que o pobre cirurgião fosse condenado à morte. Está<br />

certo que a participação vingativa do juiz Álvares da Rocha no processo<br />

só começou em 1791 quando ele foi nomeado escrivão da Alçada, mas<br />

quando da prisão de Amaral Gurgel, os juízes mineiros já deviam saber<br />

das desavenças do caro colega com o desprezível aprendiz de cirurgião.<br />

Domingos Vidal de Barbosa teria sido supliciado apenas por ter<br />

estudado em Bordéus 101 e por ter ouvido algumas coisas subversivas da<br />

99 Tecnicamente esse era o nome do crime.<br />

100 Raimundo Correia Lobo e Crispiniano da Luz Soares.<br />

101 É desta cidade francesa que supostamente deveria vir uma ajuda ao levante, através<br />

de um assalto ao porto do Rio de Janeiro, coisa que os franceses sempre gostaram<br />

muito de fazer. Essa história, porém, nunca ficou muito bem fundamentada, restando<br />

provável que tivesse sido uma tênue possibilidade que Álvares Maciel aumentou um<br />

ponto, Tiradentes aumentou um conto e Barbosa pagou o pato. Voltaremos a este<br />

assunto na próxima seção.<br />

113


oca de seu primo Francisco Antônio de Oliveira Lopes. Por outro<br />

lado, insisto quanto a minha estranheza de que Gonzaga estivesse fora<br />

desta lista de réus capitais pois parece que o ministro Martinho de Melo<br />

e Castro o considerava tão culpado quanto o próprio Tiradentes. 102 Há<br />

ainda os casos de pessoas como o ouvidor do Serro do Frio Joaquim<br />

Antônio Gonzaga e do fiscal <strong>dos</strong> diamantes Luiz Beltrão de Gouveia. O<br />

visconde de Barbacena se empenhou em implicá-los, mas eles acabaram<br />

sendo deixa<strong>dos</strong> de fora. Há também o caso do dr. Simão Pires<br />

Sardinha, ilustre mineiro que ajudou Tiradentes no Rio de Janeiro e<br />

acabou enrolando a repressão e escapando com ajuda do próprio vicerei.<br />

103<br />

Enfim, os critérios de indiciamento e de julgamento não parecem<br />

boa fonte para se criar uma referência justa sobre a natureza do papel<br />

de cada inconfidente dentro do movimento.<br />

Assim sendo, vamos à minha tipologia de participação<br />

individual <strong>dos</strong> implica<strong>dos</strong> na conjuração e que é um tanto mais<br />

empírica. Ela foi criada com base na forma de atuação de cada um,<br />

segundo os próprios testemunhos lavra<strong>dos</strong> nas devassas.<br />

Identificamos dois tipos básicos de atuação: 104 os ativistas e os<br />

urdidores. 105 Esses tipos podem perfeitamente ser combina<strong>dos</strong>,<br />

formando tipos mais complexos e perpassar, de certa forma, tanto<br />

<strong>mazombos</strong> como <strong>coimbrãos</strong>. É claro que eles são ideais e,<br />

102 Em setembro de 1790 o Ministro escreveu a Barbacena comentando a<br />

inconfidência. Ele ocupou quase um terço da mesma falando da culpa de Gonzaga.<br />

Certamente, perspicaz como era, deu muito peso a uma conversa esquisita que exouvidor<br />

teve com o visconde no dia seguinte em que a derrama foi suspensa.<br />

103 Pires Sardinha, notável naturalista filho de Chica da Silva, chegou a fugir para<br />

Portugal e lá ser interrogado, mas manteve-se insuspeito, podendo seguir sua brilhante<br />

carreira lecionando em destacadas universidades europeias. Joaquim Gonzaga, primo<br />

de Tomás Antônio Gonzaga, continuou como ouvidor do Serro e chegou a ser<br />

promovido para a Relação da Bahia, onde prestou relevantes serviços à Coroa. Vitima<br />

de grave enfermidade tentou ir para Portugal para se tratar mas morreu na travessia.<br />

104 Nos desobrigamos aqui de falar <strong>dos</strong> simples simpatizantes, mas os havia aos<br />

milhares e nos mais diversos graus. Muitos foram até condena<strong>dos</strong> e morreram no<br />

exílio.<br />

105 O conceito tem muito a ver com a ideia de conversas de bastidores, intrigas,<br />

articulações e maquiavelismos do gênero.<br />

114


naturalmente, conformam e acomodam características que no mundo<br />

real são muito mais ricas do que sonham nossas pretensiosas<br />

construções intelectuais. Isso ressalvado, vamos identificar<br />

individualmente os principais ativistas, onde predominam os<br />

<strong>mazombos</strong>. Seriam certos tipos fascinantes, agita<strong>dos</strong> e atuantes que se<br />

movimentaram até a última hora. São aqueles que se mostraram<br />

dispostos a partir para a luta armada à frente de revoltosos, tomando o<br />

palácio e até cortando a cabeça do governador general, se necessário.<br />

Estavam presentes à fatídica reunião de 26 de dezembro na casa de<br />

Freire de Andrade quando se tratou do plano militar e tinham<br />

qualificação para assumir o seu papel. Agitaram, aliciaram e cogitaram<br />

de iniciar o levante mesmo quando as condições ideais pareciam ter se<br />

perdido. Nesse grupo se encaixam vários representantes legítimos,<br />

ainda que com níveis diferentes de qualificação e disposição. O<br />

principal deles é sem dúvida Tiradentes, o alferes de quarenta e três<br />

anos, natural da fazenda do Pombal, comarca do Rio das Mortes. Além<br />

da capacidade militar que demonstrou comandando ações repressivas<br />

na serra da Mantiqueira, era o principal agitador. 106 Pregava abertamente<br />

e se expunha na busca de adesões ao movimento, coisa que ninguém<br />

fez a não ser entre amigos ou conheci<strong>dos</strong>. Deveria chefiar o levante no<br />

primeiro momento, percorrendo as ruas de Vila Rica com o sabre na<br />

mão conduzindo a massa revoltada. Ele estava entre os poucos que não<br />

se rendeu à ameaça de aborto do levante. Foi a irritação com o<br />

marasmo <strong>dos</strong> companheiros que o impeliu a largar Minas e ir para o Rio<br />

de Janeiro ver se conseguia alguma coisa mais concreta. Sem dúvida um<br />

gesto tresloucado, mas sua tenacidade era impressionante. É difícil<br />

saber exatamente porque Tiradentes topou aquela aventura. Ele próprio<br />

alegou que foi por ter sido preterido em inúmeras chances de<br />

promoção que surgiram em sua vida militar. Mas isso parece muito<br />

pouco. Certamente era muito inquieto e empreendedor e tinha tido<br />

umas boas frustrações na vida que bem podiam ser atribuídas às<br />

estruturas anacrônicas ainda vigentes no seu tempo e que sufocavam as<br />

pessoas agitadas como ele. Atirado como era, deve ter resolvido partir<br />

para mudar isso. Seja como for, não há nada de depreciativo em seus<br />

motivos, como gostam de insinuar alguns autores. Muitos atribuem sua<br />

106 Na próxima seção e na vinte e um, vamos mostrar a notável disposição do alferes<br />

para isso.<br />

115


motivação ao fato dele estar financeiramente arruinado o que não é<br />

verdade. O inventário de seus bens sequestrado pela Coroa o coloca à<br />

frente de Tomás Antônio Gonzaga, cuja “partida de pedras preciosas”<br />

inventariada entre seus bens - maliciosamente notadas por Kenneth<br />

Maxwell 107 como indicativa de que ele recebia favores por serviços<br />

escusos presta<strong>dos</strong> a contrabandistas - não eram de fato preciosas e não<br />

valiam muita coisa. Tiradentes tinha bens imóveis, coisa que nosso<br />

pobre Dirceu não conseguiu conquistar nos anos em que ocupou o<br />

cargo de maior autoridade civil de Vila Rica.<br />

Na companhia de Tiradentes temos outros que se meteram na<br />

conjuração até o pescoço, agitaram de forma relativamente aberta e<br />

estavam dispostos a pegar em armas à frente de seus batalhões de “pésrapa<strong>dos</strong>”.<br />

108 Porém, se engajaram na revolução menos por ideologia ou<br />

sentimentos nobres do que o alferes. Pelo contrário, viram nela uma<br />

excelente oportunidade de levarem vantagens pessoais e se virem livres<br />

de problemas que suas próprias atividades ilícitas criaram. Aqui temos<br />

dois belos representantes: os truculentos e valentes padres Toledo e<br />

Rolim. São dois lídimos representantes de um tipo de eclesiástico muito<br />

comum na capitania de Minas Gerais no século XVIII, onde a ausência<br />

de instituições religiosas fortes como as ordens primeiras, gerou um<br />

certo ambiente de licenciosidade onde abundavam padres seculares,<br />

grandes proprietários, devassos e violentos. Eis o perfil básico desses<br />

nossos dois padres inconfidentes. Tiradentes tinha especial admiração<br />

por eles e contrapunha sua valentia a moleza <strong>dos</strong> demais inconfidentes.<br />

Aliás, a admiração era recíproca e eles dariam uma boa trinca de<br />

mosqueteiros.<br />

O padre Carlos Toledo, cinquenta e oito anos, paulista de Taubaté.<br />

Além de vigário atuando na notável matriz de Santo Antônio de São<br />

José del Rei era grande fazendeiro e minerador, dono de grande<br />

contingente de escravos. Viu na nova ordem a oportunidade de poder<br />

comerciar livremente sem fronteiras e impostos, ampliando sua fortuna,<br />

já considerável. Era um verdadeiro caudilho, espécie de patriarca que<br />

exercia forte influência em toda a região, onde habitavam outros<br />

grandes fazendeiros quase to<strong>dos</strong> coopta<strong>dos</strong> por ele para o movimento.<br />

107 A Devassa da Devassa..<br />

108 Esta expressão está na própria carta denúncia de Silvério <strong>dos</strong> Reis.<br />

116


Brigou com os fiéis de Tamanduá 109 para tê-los sob sua jurisdição,<br />

porque a freguesia rendia boa quantia ao vigário. No entanto foi<br />

repudiado pela própria comunidade que conhecia seu caráter pouco<br />

celestial. Sua casa em São José del Rei era uma das melhores moradias<br />

da capitania. Hoje ela é um museu mantido pela Fundação Rodrigo de<br />

Melo Franco que impressiona seus visitantes pela imponência. A mim<br />

causa grande admiração e fico imaginado os inconfidentes do Rio das<br />

Mortes reuni<strong>dos</strong> numa das inúmeras salas da casa, sob um teto<br />

decorado e senta<strong>dos</strong> em torno de uma grande mesa com o padre<br />

Toledo praguejando numa das cabeceiras. Mas ele também era um<br />

homem de pensamento e sua biblioteca era uma das maiores entre as de<br />

to<strong>dos</strong> os inconfidentes. Assim sua conversa, posto que em geral muito<br />

prática e franca, não deveria ser de todo aborrecida.<br />

O padre Rolim, seu colega do Serro Frio de quarenta e dois anos,<br />

não ficava atrás em matéria de riqueza e valentia. Mas era muito mais<br />

rude. Aprendera a ler com quase trinta anos e nunca conseguiu dominar<br />

as letras com sucesso apesar de ter se ordenado padre. Seu escravo<br />

Alexandre é quem escrevia suas cartas. Há quem diga que ele só entrou<br />

para o seminário para escapar de ser punido por homicídio. Contumaz<br />

contrabandista de diamantes tinha sido condenado e expulso de Minas<br />

por este crime. Esse o motivo porque andava pela capitania como uma<br />

espécie de foragido, se escondendo da ira de Cunha Menezes. Com a<br />

vinda de Barbacena se sentiu mais à vontade. Viu na nova ordem<br />

oportunidade ainda melhor, com chance total de obter a comutação de<br />

sua pena e poder circular livremente, extraindo e vendendo ouro e<br />

diamantes sem pagar impostos. Notório agiota, era tão rico quanto o<br />

padre Toledo. Tinha menos patrimônio mas mais dinheiro vivo, a<br />

maioria nas mãos de devedores que jamais pensariam em caloteá-lo.<br />

Tinha uma cicatriz no rosto que seguramente não foi obtida em sessões<br />

de pie<strong>dos</strong>a oração. Era realmente valente e ao contrário de seu colega o<br />

padre Toledo, resistiu verdadeiramente à prisão, só sendo preso em<br />

outubro de 1789, depois de várias tentativas <strong>dos</strong> envia<strong>dos</strong> de<br />

Barbacena, como vimos. Aliás, foi o único inconfidente, além de<br />

Tiradentes, que se entregou de arma na mão. Padre Toledo ainda tentou<br />

instigar uma resistência dizendo que preferia morrer de espada em<br />

punho mas não chegou a fazê-lo, decidindo se entregar após uma fuga<br />

109 Nossa atual Itapecerica.<br />

117


mal planejada, sem ter tido chance de se postar à frente de seu<br />

contingente de cem cavaleiros, acantona<strong>dos</strong> na Ponta do Morro - perto<br />

da atual cidade de Pra<strong>dos</strong> - para iniciar a luta armada. Assim eram os<br />

nossos padres destemi<strong>dos</strong>, oportunistas mas muito valentes e dispostos,<br />

coisa rara entre nossos diletos inconfidentes.<br />

Na categoria <strong>dos</strong> ativistas se enquadram ainda dois <strong>coimbrãos</strong> e<br />

um mazombo: Alvarenga, Álvares Maciel e Freire de Andrade,<br />

respectivamente. Claro que existiam enormes diferenças entre eles.<br />

Ignácio José de Alvarenga Peixoto, com quarenta e sete anos, era poeta<br />

e magistrado mas tentou se livrar da carreira de juiz o mais rápido<br />

possível. Preferia ser fazendeiro e coronel. Era aquele aventureiro,<br />

largadão, irresponsável, meio cínico e inadimplente contumaz que já<br />

vimos. Certamente visionário e empreendedor. Não creio mesmo que<br />

tivesse entrado na conspiração apenas para se ver livre de seus credores,<br />

na sua maioria notórios agiotas. É evidente que uma mudança de<br />

regime poderia embutir um perdão geral de dívidas que poderia lhe<br />

favorecer enormemente, mas essa era uma questão politicamente muito<br />

complexa pois muitos inconfidentes eram também agiotas. Depois do<br />

movimento vitorioso, teria que haver muita briga interna para se chegar<br />

a uma anistia geral de devedores. Ele conspirou basicamente<br />

aproveitando o tempo que lhe sobrava quando não estava jogando<br />

cartas ou gamão com João Rodrigues de Macedo. Mas, seguramente,<br />

nunca teria querido ficar fora daquele episódio incomum em que se<br />

metiam seus amigos. Apesar de ter o maior patrimônio entre os<br />

inconfidentes, morreu miseravelmente, desesperado e meio demente,<br />

vencido por tanto sofrimento. Não aguentou mais do que algumas<br />

semanas no exílio. Era, antes de tudo, um poeta apaixonado, com<br />

muito mais talento para enaltecer do que ferir. E foi isso que fez até o<br />

fim.<br />

Alvarenga continua hoje o que foi em vida: um caso complexo.<br />

Assim, cabem legítimos questionamentos se ele não foi mais um<br />

urdidor pois trabalhou muito nos bastidores e também teve algumas<br />

conversas meio atravessadas com Barbacena. Sem dúvida, sabia de<br />

coisas que não eram dadas a conhecer aos <strong>mazombos</strong>. Contudo, era<br />

também um grande ativista fazendo boa figura ao lado de Tiradentes e<br />

os padres Toledo e Rolim. Empenhou-se muito em manter o<br />

comprometimento do grupo, pelo menos naquele período em que o<br />

entusiasmo dele era maior do que a prudência que o risco pedia. Quem<br />

sabe fosse melhor classificá-lo como ativista-urdidor. Esse era o<br />

bacharel-coronel Alvarenga, essencialmente complexo.<br />

118


Outro ativista, embora tivesse perdido a flama muito cedo, foi o<br />

tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade. Ele era, enfim, a<br />

maior autoridade militar da capitania, filho bastardo de um exgovernador<br />

e soldado desde pequenininho. É verdade, mas na<br />

inconfidência faltou-lhe a boa veia militar. Contudo, preservou alguns<br />

resquícios do seu lado nobre. Tinha uma das melhores bibliotecas e<br />

pinacotecas de Vila Rica e também promovia saraus literários,<br />

concorrendo como anfitrião com Cláudio Manuel e Gonzaga. Ou seja,<br />

também era chegado às coisas do espírito. A despeito da sua posição<br />

militar parece que era um tanto passivo e até meio ingênuo, deixando se<br />

levar por Tiradentes. Tinha apenas trinta e três anos na época da<br />

inconfidência. Também é um pouco complicado saber das suas razões<br />

para se engajar no movimento, correndo os riscos que correu. Mas<br />

pode ter sido por um fato isolado que seria seu envolvimento com<br />

irregularidades com a folha de pagamento da grande tropa que<br />

comandava e que tinham sido denunciadas pela Junta da Fazenda, logo<br />

após a chegada de Barbacena. Aliás, uma das missões recebidas pelo<br />

novo governador consistia na moralização na estrutura militar de Minas,<br />

acabando com a tal farra da venda de patentes <strong>dos</strong> regimentos auxiliares<br />

introduzida por Cunha Menezes. Mas, seguramente, Freire de Andrade<br />

não tinha motivos para recear perder seu importante comando, mesmo<br />

porque, Barbacena demonstrou ter muito apreço por ele. Além disso, a<br />

questão da farra das patentes dizia respeito apenas aos regimentos de<br />

auxiliares e que nada tinham a ver com o seu comando. Mas pode ter<br />

tido razões fortemente pessoais: ele era filho e sobrinho <strong>dos</strong> condes de<br />

Bobadela, mas como filho bastardo não tinha direito ao titulo. Numa<br />

república essa frustração deixaria de existir. Vai daí ... No final, com a<br />

notável tentativa de Barbacena de protegê-lo, sua prisão foi uma das<br />

últimas a ser realizada. Mas foi condenado e degredado passando a<br />

viver de atividades humildes como escrivão, valendo-se enfim de seus<br />

dotes mais intelectuais. Pediu que sua pena fosse comutada para que<br />

pudesse retornar ao Brasil, mas morreu antes de obter resposta, com<br />

cinquenta e três anos.<br />

Outro <strong>dos</strong> componentes desse grupo foi José Álvares Maciel. Fez<br />

parte do grupo <strong>dos</strong> estudantes brasileiros que na Europa se<br />

embebedaram fartamente das ideias de liberdade e progresso que<br />

esquentavam o velho continente no último quarto do século XVIII e<br />

acreditavam na ajuda <strong>dos</strong> Esta<strong>dos</strong> Uni<strong>dos</strong> e da França caso estourasse<br />

uma revolução no Brasil. Foi quem poliu a impetuosidade de Tiradentes<br />

e deu um sentido ideológico mais consistente e um programa à sua<br />

119


evolta. Sua união com o alferes foi o que, seguramente, acendeu a<br />

chama <strong>dos</strong> intelectuais de Vila Rica e os fez encarar com um pouco<br />

mais de entusiasmo aquela velha história de liberdade e república que<br />

medrava e alimentava os saraus de Vila Rica, desde princípio da década,<br />

especialmente nas casas mais intelectualizadas da capital. Cunhado de<br />

Freire de Andrade, foi quem introduziu Tiradentes no círculo <strong>dos</strong><br />

inconfidentes, muitos <strong>dos</strong> quais tinham preconceitos contra ele. Para<br />

muitos, Álvares Maciel entrou no movimento para salvar a sua herança<br />

comprometida com fianças de seu pai, havidas para garantir<br />

contratadores de diamantes inadimplentes com a Coroa. Mas isto<br />

parece muito mesquinho diante das belas credenciais do dr. Maciel.<br />

Quando voltou da Europa tinha vinte e oito anos e carregava um<br />

enorme coração de estudante, fruto de seus muitos estu<strong>dos</strong>, viagens e<br />

contatos no velho continente e foi aí que tudo começou. Membro da<br />

Academia de Ciências de Lisboa - a mesma que o próprio Barbacena<br />

tinha sido secretário - teve seus conhecimentos admira<strong>dos</strong> pelo colega<br />

governador que assim o nomeou preceptor de seus filhos. Também<br />

protegido pelo visconde, ao lado de Freire de Andrade, foi um <strong>dos</strong><br />

últimos inconfidentes a ser preso.<br />

Completa o grupo <strong>dos</strong> ativistas uma plêiade de autênticos<br />

<strong>mazombos</strong>. Ele é constituído de homens de ação, de posses e<br />

disposição que entraram no movimento influencia<strong>dos</strong> por outros de<br />

maior destaque e liderança, que estavam dispostos a colaborar<br />

ativamente nas ações militares e tinham condições para isso. Porém,<br />

tiveram pouca influencia na estruturação e no estabelecimento <strong>dos</strong><br />

rumos do projetado levante. Em geral, sua motivação tinha natureza<br />

mais pragmática e menos ideológica. O que queriam mesmo era ter<br />

liberdade comercial ou se verem livres de dívidas impagáveis. Eram<br />

contratadores ou fiadores acossa<strong>dos</strong> pelo fisco. O primeiro de seus<br />

representantes é Domingos de Abreu Vieira. Português de nascimento,<br />

enriquecido em Minas Novas que, à época do movimento, já tinha<br />

sessenta e cinco anos, sendo o mais velho <strong>dos</strong> inconfidentes. Decidiu<br />

entrar na sublevação quando Freire de Andrade o assustou mostrando a<br />

ele quanto lhe tocaria pagar quando do lançamento da derrama. Foi<br />

uma autêntica dor de algibeira. Além disso, tinha dívidas imensas<br />

oriundas do contrato de dízimos de que era arrematante. Ou seja, estava<br />

profundamente endividado e viu no movimento uma oportunidade de<br />

escapar da sua insolúvel inadimplência. Mas era um tremendo bom<br />

caráter e Barbacena registrou ter ficado surpreso quando viu o nome<br />

dele na lista <strong>dos</strong> <strong>mazombos</strong>.<br />

120


O outro representante deste grupo é Francisco Antônio de Oliveira<br />

Lopes. Era um ex-militar de trinta e nove anos, corpulento e obtuso,<br />

rico fazendeiro da região de Pra<strong>dos</strong> e muito amigo do padre Toledo e<br />

Alvarenga Peixoto. Era um homem disposto e foi ele que mandou um<br />

recado ao comandante Andrade incitando-o a ir para o Serro e iniciar o<br />

levante de qualquer forma, quando o movimento começava a ser<br />

desmantelado. Também, incitado pelos companheiros, foi quem fez<br />

uma contradenúncia implicando Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis, porém<br />

inutilmente. Deve ter entrado no movimento pela exata razão que todo<br />

mineiro tinha para fazer o mesmo, ou seja, indignação diante da ameaça<br />

da derrama. Mas sob a influência, um tanto autoritária do padre Toledo,<br />

acabou mergulhando nela até a cabeça. Até produziu uma frase<br />

incentivadora, digna do seu talento: que se o partissem, aí já seriam<br />

dois. 110<br />

A seleta categoria <strong>dos</strong> urdidores abriga os <strong>coimbrãos</strong> mais<br />

característicos, aqueles intelectuais românticos e visionários que<br />

amavam a liberdade e namoravam a república 111 e que viam nelas uma<br />

solução política para o impasse econômico em que a capitania se<br />

encontrava e que, de certa forma, os envolvia diretamente e lhes<br />

obstava o futuro. Seu comprometimento se traduzia principalmente na<br />

participação em reuniões conspiratórias restritas onde nem chegavam a<br />

produzir planos concretos de ação, mas sim alguns esboços de leis e<br />

110 Em matéria de frases de má qualidade perdeu apenas para seu colega da<br />

Mantiqueira José Aires Gomes e seus horrorosos versinhos sobre certas qualidades<br />

<strong>dos</strong> nossos irmãos portugueses. Senão vejamos:<br />

Marotos, cães, labregos, mal cria<strong>dos</strong><br />

porcos, baixos, patifes, presumi<strong>dos</strong><br />

piratas, no furtar, enfureci<strong>dos</strong>,<br />

piolhentos, sebosos, cus brea<strong>dos</strong>.<br />

atende que do reino vens perdi<strong>dos</strong>,<br />

a chorar no Brasil, os teus peca<strong>dos</strong> (...).<br />

Pode ser uma abominável obra poética mais é, sem dúvida, uma preciosa peça<br />

sociológica que resume magnificamente os sentimentos, especialmente <strong>dos</strong><br />

<strong>mazombos</strong>, em relação aos seus dominadores.<br />

111 Como vimos, alguns até preferiam a monarquia, mas acabariam reconhecendo a<br />

inviabilidade da sua implantação, como sistema de governo no Brasil.<br />

121


desenhos de estandartes. Sua linha básica de atuação era nos bastidores,<br />

articulando, envolvendo autoridades constituídas e se preparando para<br />

serem chama<strong>dos</strong> a assumir a liderança de uma revolta popular já<br />

vitoriosa, deitando os alicerces de um novo governo sob um estado<br />

regido por novas leis. Nunca chegaram a tentar nada de efetivo para<br />

viabilizar a sublevação propriamente dita. Nesta categoria se enquadram<br />

membros muito afama<strong>dos</strong>. Começamos com Tomás Antônio Gonzaga.<br />

Era um espírito pacato, vai<strong>dos</strong>o, um tanto conservador, com livre<br />

trânsito nos palácios e que não tinha tido grandes derrotas a lamentar.<br />

É muito difícil saber quais foram suas motivações para entrar no<br />

movimento. Certamente via a inconfidência como uma aventura<br />

intelectual fascinante e, ademais, já estava injetado desde os tempos do<br />

governador Cunha Menezes. Mas por outro lado, era conhecido de<br />

Barbacena de outros tempos e poderia ter tido uma convivência<br />

harmoniosa com ele, gozando as delícias do palácio enquanto bordava<br />

as roupas das suas bodas, esquecido <strong>dos</strong> ódios da perda da Marília<br />

Loura. Depois era só casar e assumir seu cargo de ministro na Relação<br />

da Bahia. Mas preferiu se meter na enrascada. Talvez, ao contrário de<br />

Alvarenga, tivesse tempo sobrando e preferisse gastá-lo com<br />

elucubrações e urdiduras com seus colegas poetas e conspiradores,<br />

incluindo o visconde naturalista. O assunto não era poesia mas também<br />

era muito interessante e parece que ele mergulhou com afinco na tarefa<br />

de fazer as leis da nova república. Devia estar fascinado com a ideia de<br />

ser chamado para assumir o governo de uma revolução vitoriosa sendo<br />

o pai de uma nova ordem, ao lado do visconde e de Cláudio Manuel.<br />

Vai daí, acabou se esquecendo da promoção que o aguardava na Bahia e<br />

jogando o duvi<strong>dos</strong>o contra o certo. Alguns autores preferem minimizar<br />

a importância da participação de Gonzaga no movimento buscando vêlo<br />

mais como um simpatizante meio indolente. De fato, como<br />

comentamos, há depoimentos de outros inconfidentes que tentam<br />

minimizar o seu envolvimento. Mas isso só atingia o lado mazombo da<br />

conspiração onde ele de fato, evitou colocar o pé. Mas os juízes da<br />

Alçada talvez não tenham podido ver mais longe e por isso se apegaram<br />

aos autos e minimizaram sua pena. No fim ele acabou não radicalizando<br />

e aceitou trabalhar novamente para Sua Majestade no exílio. Morreu<br />

confortavelmente, esquecido daquela incrível aventura, sob os louros da<br />

fama pelo que fizera em Vila Rica e nas masmorras da rainha: muito<br />

boa poesia, retidão e por que não, lealdade.<br />

O outro membro ilustre do grupo <strong>dos</strong> urdidores é o dr. Cláudio<br />

Manuel da Costa. Dada sua natural condição de prestigiado líder,<br />

122


dedicado estudioso <strong>dos</strong> fenômenos políticos e econômicos, finalmente<br />

apegado à sua terra e sensibilizado com a decadência da capitania, era<br />

natural que ele estivesse envolvido com a conjuração. Convencido<br />

estou de que ele atuou muito nos bastidores, mais do que Gonzaga. Sua<br />

participação foi relevante dada sua própria condição intelectual e a<br />

influência que exercia sobre os círculos em que convivia. Assim<br />

também era na poderosa irmandade de São Francisco de Assis de que<br />

era membro e no próprio governo, onde exerceu cargos destaca<strong>dos</strong>. Ele<br />

sempre foi uma referência e assim era explicável que fosse procurado<br />

pelos amigos inconfidentes e quisesse exercer alguma influência sobre<br />

eles num assunto que certamente muito lhe interessava. Contudo,<br />

sempre foi muito cauteloso e discreto o que, de resto, era do seu<br />

temperamento monástico. Assumiu um papel moderador e decerto não<br />

estava disposto a grandes sacrifícios pelo movimento. Não participou<br />

das reuniões na casa de Freire de Andrade ou de Domingos de Abreu<br />

Vieira e também evitava falar com Tiradentes, mas teve contatos com<br />

os <strong>mazombos</strong> e tentava acautelá-los. Quando tratava do delicado<br />

assunto era em sua casa ou na de Gonzaga e sempre entre amigos mais<br />

chega<strong>dos</strong>. O registro de seu depoimento na devassa do visconde deve<br />

ser essencialmente verdadeiro, certamente com supressão ou distorção<br />

de alguma passagem aqui e acolá, sobretudo para mostrá-lo moralmente<br />

abatido. Não era muito difícil prever o resultado da sua inquirição. Não<br />

terá sido por isso que o visconde retardou sua prisão? Muitos<br />

consideram seu suposto depoimento vergonhoso e infame onde ele<br />

somente se preocupou em se salvar entregando os amigos. 112 Parece-me<br />

que essa visão é muito alimentada pela suspeita do seu suicídio na<br />

prisão. Isso faria dele um miserável covarde que não teve o menor<br />

escrúpulo em comprometer os amigos. Penso haver um certo exagero<br />

na classificação das suas revelações aos devassantes como algo<br />

deplorável. Não tem o caráter de denúncia que lhe querem dar. Quando<br />

ele foi preso, já havia sido produzido um vendaval de denúncias e quase<br />

to<strong>dos</strong> os principais implica<strong>dos</strong> já tinham sido presos e juravam<br />

inocência. Ele, naturalmente, estava bem informado sobre tudo isso.<br />

112 Será que no rastro desse tipo de juízo de valor não poderíamos também condenar<br />

Gonzaga que não expôs os sofredores mas beijou as mãos do seu algoz. Estou me<br />

referindo àquela Lira laudatória às virtudes de Barbacena, escritas no cárcere por um<br />

Dirceu choramingas. Pessoalmente não condeno nenhum <strong>dos</strong> bravos poetas, grande<br />

medroso que sou.<br />

123


Ou seja, o rol <strong>dos</strong> acusa<strong>dos</strong> já havia sido formado quando ele foi<br />

interrogado. Conhecia muito bem a excepcionalidade do crime de lesa<br />

majestade e sabia que as prisões já prenunciavam a sentença com<br />

bastante clareza. De resto, tinha a alternativa de negar tudo ou como<br />

fizeram muitos, dizer que na sua presença não se tratava de tão delicada<br />

matéria. Preferiu acreditar e investir no caráter não conspiratório da sua<br />

participação e buscar demonstrá-lo, por ser verdade. Assim, não negou<br />

a sua participação mas quis dar a ela a conotação de que exercia um<br />

papel de conselheiro, orientando e contendo os exalta<strong>dos</strong>. Notem que<br />

ele não teria como fazer isso se não citasse os nomes e circunstâncias<br />

que citou. Deixa transparecer o envolvimento de Barbacena e acena ter<br />

tratado com ele de assuntos delica<strong>dos</strong>. Observem ainda que suas<br />

referências à forma um tanto mais comprometida com que Alvarenga e<br />

o padre Toledo encaravam a ideia do levante serviram de ambiente para<br />

ele ilustrar o seu papel moderador, desaconselhando lances insensatos.<br />

Também tenta, como pode, preservar Gonzaga, atestando que as<br />

conversas sobre a matéria em que ele participava eram puramente<br />

teóricas ou, para usar uma expressão da época, eram de potência e não<br />

de fato. Acho que a linha de conduta adotada por Cláudio Manuel é<br />

racional e sua escolha não tem nada de vil e infame. Com Tiradentes ele<br />

evidentemente não foi muito condescendente, como de resto ninguém<br />

foi. Mas esse era um caso diferente que já tinha se condenado por si<br />

mesmo, pela conduta arrojada que desfilava, falando de liberdade e<br />

república com toda a abertura. Seguramente, Cláudio Manuel da Costa<br />

teve enorme prazer em colaborar com Gonzaga na redação das leis da<br />

sonhada república. Estou seguro que ele pagou um alto preço por saber<br />

demais e o que é pior, ser honesto para contar a verdade do que sabia e<br />

ter autoridade para dar credibilidade ao que dizia. Fez o que tinha que<br />

fazer e ao final rezou e entregou o assunto para Deus e para d. Maria I,<br />

confiando no seu título de “A Pie<strong>dos</strong>a”, fama que, no caso de Cláudio,<br />

ela nem não teve chance de fazer jus.<br />

O terceiro inconfidente urdidor foi o cônego Luiz Vieira da Silva, o<br />

eminente orador sacro e ilustre professor do Seminário de Mariana, de<br />

cinquenta e quatro anos. Embora tenha contido sua formação aos<br />

limites de seminários de Minas e São Paulo, longe de Coimbra; era um<br />

<strong>dos</strong> maiores intelectuais do Brasil na época, dono de uma das maiores<br />

bibliotecas da capitania, um autêntico coimbrão honorário. Mente<br />

brilhante, seus depoimentos na devassa são uma verdadeira aula de<br />

lucidez e erudição, chegando algumas vezes a humilhar a ignorância de<br />

seus inquiridores. Vivia maritalmente mas nem por isso gozava de<br />

124


menos respeito do que Cláudio Manuel da Costa 113 ou Tomás Antônio<br />

Gonzaga. Talvez tenha sido um <strong>dos</strong> primeiros a estimular as ideias de<br />

liberdade, república e progresso nos debates intelectuais de Vila Rica.<br />

Grande interessado pela independência americana, foi quem a tornou<br />

popular entre os inconfidentes, notadamente Tiradentes. Seguramente<br />

contribui com muito boa ideia para a elaboração <strong>dos</strong> planos da<br />

conjuração, inclusive de natureza estratégica. Diferia muito de seus<br />

colegas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Gonzaga na discrição da sua<br />

atuação. Falava com mais desenvoltura e tinha mais contato com o<br />

grupo <strong>dos</strong> ativistas. Mas sua grande arma conspiratória era sua<br />

capacidade intelectual e a erudição do seu discurso que influenciava<br />

tanto <strong>mazombos</strong> quanto <strong>coimbrãos</strong> e que acabava dando sentido a<br />

ações e urdiduras. Provavelmente tinha ascendência sobre João<br />

Rodrigues de Macedo, mesmo não aprovando certas manobras escusas<br />

que o contratador fazia e que ele, indignado e um tanto<br />

irresponsavelmente, acabava contando para os outros.<br />

Essa, amigos, seria minha singela tipologia de enquadramento<br />

individual <strong>dos</strong> principais inconfidentes. Muitos ficaram de fora e isso<br />

não deve ser tomado como um juízo de que sua participação tenha sido<br />

irrelevante. Qualquer <strong>dos</strong> condena<strong>dos</strong>, se o tivesse sido pela causa do<br />

cristianismo, seria sumariamente declarado santo.<br />

Notem que também ficou de fora uma figura sem dúvida de<br />

grande relevo e influência no movimento que foi o próprio contratador<br />

João Rodrigues de Macedo. É muito difícil qualificá-lo. Sabemos que<br />

por sua casa passavam muitos <strong>dos</strong> inconfidentes, cotidianamente e<br />

muitos ali se hospedavam com frequência. Foi claramente chantageado<br />

por Barbacena e Manitti para que tivesse seus rastros apaga<strong>dos</strong> nos<br />

autos da devassa. É uma das mais misteriosas personagens da<br />

Inconfidência Mineira ao lado <strong>dos</strong> próprios Barbacena e Manitti.<br />

Seguramente comprou sua liberdade. 114 É nítida a manipulação de<br />

113 Que, como já vimos, também vivia da mesma forma. Aliás, assim fazia muita gente<br />

boa naqueles tempos de escassez de noivas já que as moças de boa família eram<br />

induzidas a ir para o convento para livrarem os pais de ter que pagar dotes por seus<br />

casamentos.<br />

114 Em 1800, Brito Malheiro mandou uma carta malcriada ao contratador Macedo,<br />

cobrando uma dívida de 5000 cruza<strong>dos</strong>. Termina a carta dizendo: “Mande-mos logo<br />

entregar e acabam-se todas essas controvérsias; e o que um há de estar gastando com<br />

125


Manitti nos depoimentos em que Macedo é citado: embora acontecesse<br />

na sua casa, ele sempre saia da sala antes que alguém começasse a falar<br />

naquela perigosa matéria.<br />

Enfim, houve muitos outros inconfidentes, alguns descobertos<br />

julga<strong>dos</strong> e condena<strong>dos</strong>, outros que não se quis deliberadamente julgar e<br />

outros que não se soube quem eram. Bastava ser simpatizante para ser<br />

suspeito e na categoria de simpatizante estava talvez toda a população<br />

de Minas Gerais.<br />

Muitas são as fórmulas para enquadrar nosso híbrido grupo de<br />

conspiradores, mais simples ou mais complexas. Às vezes gosto de vêlos<br />

simplesmente como solda<strong>dos</strong> e poetas. Mas certamente havia<br />

solda<strong>dos</strong>-poetas, poetas-solda<strong>dos</strong>, poetas-poetas e até solda<strong>dos</strong>solda<strong>dos</strong>.<br />

To<strong>dos</strong> invariavelmente indigna<strong>dos</strong> e sonhadores.<br />

13<br />

A PROPÓSITO DE CERTAS LIGAÇÕES MUITO PERIGOSAS<br />

O alferes Joaquim José da Silva Xavier tinha enorme prazer de<br />

estar no Rio de Janeiro. Encantou-se pela cidade desde que lá esteve<br />

pela primeira vez em 1776, quando o sexto regimento da cavalaria<br />

desceu de Minas para reforçar a guarnição da cidade, diante da ameaça<br />

de invasão das tropas espanholas que se encontravam muito ativas,<br />

ameaçando romper as fronteiras do sul e estender os limites da Colônia<br />

do Sacramento. Foi então que começou a bolar obras de melhoramento<br />

para a capital do estado do Brasil e sob esse pretexto sempre arranjava<br />

um jeito de voltar. Também tinha lá uma boa clientela carente das suas<br />

habilidades de por e tirar dentes e de curar feridas teimosas com<br />

emplastos naturais. Nessa atual temporada já lá estava há mais de um<br />

ano, relativamente afastado do seu mister principal, alegando doença e<br />

pensando em dar uma chegada até Portugal. Mas nunca perdia contato<br />

com as coisas de Minas e sempre buscava relações com os naturais da<br />

sua terra, residentes ou de passagem pela sede do vice-reino. Nessa<br />

linha, encheu-se de curiosidade e entusiasmo quando ficou sabendo que<br />

os filhos de seus companheiros, a que um dá uma casa e mesa, que foram<br />

sentencia<strong>dos</strong> à forca, e um escapou dela eu bem sei pelo que”. (ADIM, volume 9, pág.<br />

340).<br />

126


José Álvares Maciel tinha acabado de chegar da Europa. Foi visitá-lo<br />

assim que pôde e logo estabeleceram uma forte amizade pois<br />

descobriram que ambos acalentavam um grande sonho em comum,<br />

próprio <strong>dos</strong> bons mineiros daquele tempo. José Álvares andava<br />

tentando assumir o seu futuro venturoso e teimava em acreditar que ele<br />

só assim seria se seu país também o fosse. Tinha um projeto<br />

martelando na cabeça e por conta dele havia passado alguns anos<br />

viajando e estudando pelo velho continente. Agora voltava graduado e<br />

cheio de ideias para estancar o passado e disparar o progresso. Foi<br />

então que contou ao alferes que a Europa fervilhava de novas ideias<br />

políticas e econômicas e que o poder das monarquias estava no fim.<br />

Revelou que havia grande interesse <strong>dos</strong> americanos do norte e da<br />

burguesia mercantil francesa pela implantação de uma república não só<br />

na França mas também na América Portuguesa. Queriam liberdade para<br />

comerciar ao longo de todo o mundo. Nesse particular contavam com a<br />

simpatia de comerciantes do próprio Rio de Janeiro que estavam<br />

patrocinando a ida de estudantes à Europa para buscar apoio à ideia de<br />

uma ação conjunta para mudar as relações de poder no cone sul e abrir<br />

os portos do Brasil. Contou que em Coimbra e Montpellier havia<br />

grande articulação <strong>dos</strong> estudantes do Rio com os de Minas e que to<strong>dos</strong><br />

viam com muito interesse a possibilidade das duas capitanias se<br />

levantarem juntas contra o jugo português pois, se isso ocorresse,<br />

certamente os comerciantes franceses se entusiasmariam em investir em<br />

mais uma invasão ao Rio de Janeiro, mania gaulesa que vinha desde o<br />

século XVI. As autoridades americanas do norte, posto que mais<br />

cautelosas, também gostavam da ideia.<br />

Sabemos que Maciel estava exagerando um pouco mas ele<br />

atingiu em cheio o seu propósito: Tiradentes maravilhou-se com todas<br />

essas noticiais e sentiu reacender uma chama que andava meio<br />

esmaecida nos últimos meses. Novos argumentos tinham aparecido<br />

para inflamar o seu discurso de levante que já andava meio gasto. Antes<br />

falava só das riquezas de Minas e agora podia falar também da<br />

iminência de um assalto ao Rio por potências estrangeiras. Vai daí, se<br />

ofereceu para tomar a frente das articulações para o levante do Rio e de<br />

Minas. Mais entusiasmado ficou ainda quando Maciel o presenteou com<br />

uma coletânea de leis das colônias americanas do norte, recém<br />

libertadas do domínio inglês. Tinha comprado dois exemplares do livro,<br />

reteve um e ficou plenamente convencido de ter entregue o outro à<br />

pessoa mais capaz para fazer bom uso dele. Tiradentes tinha certa<br />

dificuldade com a língua francesa mas não desanimou. Acabaria lendo o<br />

127


livro várias vezes, com a ajuda de um dicionário e o apoio <strong>dos</strong> amigos<br />

mais letra<strong>dos</strong>.<br />

A ideia de república passou a fasciná-lo. Eis finalmente o<br />

arcabouço para que a vontade do povo prevalecesse sobre a real<br />

vontade. Assim, o discurso do irrequieto alferes tomou mais<br />

consistência e redobrou o seu ânimo. E para arrematar Maciel ainda o<br />

levou a umas reuniões secretas disfarçadas de encontros literários onde<br />

cariocas <strong>coimbrãos</strong> muito versa<strong>dos</strong> nos mistérios maçônicos debateram<br />

mais o cativante assunto e inflamaram a cabeça de Tiradentes. De tal<br />

forma que a coisa foi dilatando suas veias , já dispostas para isso.<br />

Aquela temporada correu muito rápida e poucas semanas depois<br />

a dupla combinou subir para Minas e começar de imediato a<br />

movimentar as engrenagens. A oportunidade não podia ser melhor. De<br />

fato seus retornos até já estavam programa<strong>dos</strong> para acontecer por volta<br />

<strong>dos</strong> meses de agosto e de setembro daquele ano de 1788. O alferes<br />

voltaria escoltando o novo ouvidor de Vila Rica dr. Pedro José Araújo<br />

de Saldanha que iria finalmente ocupar a vaga do desembargador<br />

Tomás Antônio Gonzaga, de mudança marcada para a Bahia. Álvares<br />

Maciel, por sua vez, faria parte da caravana que iria acompanhar a<br />

viscondessa de Barbacena, então de mudança definitiva para Minas,<br />

depois de um retardo de alguns meses no Rio de Janeiro, após a<br />

cansativa travessia desde Portugal, tempo que o novo governador<br />

despendeu preparando o palácio da Cachoeira para moradia da nobre<br />

família.<br />

E as viagens aconteceram, conforme programado. Tiradentes, já<br />

inteiramente incontido, foi pregando pelo caminho. Seu primeiro<br />

prosélito de peso foi José Aires Gomes em cuja fazenda se hospedou<br />

no trajeto para Vila Rica, em companhia do ouvidor Saldanha. Eram<br />

velhos conheci<strong>dos</strong> desde os tempos em que Joaquim José patrulhava a<br />

serra da Mantiqueira, reprimindo contrabandistas e mantendo-a livre de<br />

salteadores. Até tinham participado de algumas ações juntos. Ele se<br />

enquadrava no perfil ideal do conjurado. Era um grande fazendeiro de<br />

cinquenta e cinco anos, com boa escravatura e cheio de dívidas, coronel<br />

da cavalaria auxiliar da Igreja Nova. Não foi difícil seduzir José Aires<br />

com aquelas conversas de ajuda estrangeira, suspensão da derrama e<br />

liberdades republicanas.<br />

Na sequência da viagem, Tiradentes foi se hospedar um pouco<br />

mais adiante, na fazenda do padre Manuel Rodrigues da Costa no<br />

128


Registro Velho, onde permaneceu por dois dias descansando e falando<br />

das delícias das repúblicas ao seu atento anfitrião. O assunto agradou<br />

sem ressalvas e, a partir daí, passou a ser obrigatório nas muitas<br />

conversas entre o padre e seus vizinhos. Não faltavam gotas de humor,<br />

com a turma recordando as imprudências do alferes desde os tempos<br />

de Cunha Menezes.<br />

Unindo-se em Vila Rica, como tinham projetado, Joaquim José<br />

e José Álvares não ficaram olhando um para o outro como uma dupla<br />

de caipiras e trataram logo de assentar as vigas mestras do projeto.<br />

Elaboraram uma lista, distribuíram os nomes e partiram para o trabalho<br />

de campo. Mazombos com o alferes, <strong>coimbrãos</strong> com o naturalista. O<br />

primeiro a ser convidado e facilmente convencido foi o padre Rolim.<br />

Ele apreciou muito a ideia, tanto que quase toda tarde se encontrava<br />

com Joaquim José para falarem daquilo e de outras coisas, comuns ao<br />

gosto de todo homem que se preze.<br />

Essa pré-temporada durou até mea<strong>dos</strong> de novembro quando o<br />

alferes voltou ao Rio das Mortes para cuidar de assuntos particulares.<br />

Havia muito tempo que ele não andava pela sua terra natal,<br />

reencontrando parentes. Assim foi, transitou pelas vilas de São João e<br />

São José alegre e juvenil, em sua vez derradeira.<br />

Em outubro tinha acontecido aquela memorável festa de<br />

batizado <strong>dos</strong> filhos de Alvarenga na casa do padre Toledo quando o<br />

assunto se misturou à alegria reinante e sustentou um clima de ópera<br />

sobre reinos imaginários, estranhos e mal sonha<strong>dos</strong>. Mas, no resto do<br />

ano, apesar de Tiradentes estar perto, o padre Toledo e seu irmão Luiz<br />

Vaz ficaram muitos quietos, meio esqueci<strong>dos</strong> das coisas que tinham<br />

dito no dia do batizado. Aliás, àquela altura, eles nem sabiam da<br />

disposição do alferes pois o padre não tinha ido ainda a Vila Rica e,<br />

portanto, nem estava contaminado com a parte mais audaz do tal sonho<br />

febril.<br />

Em mea<strong>dos</strong> de novembro, Maciel teve uma ideia muito ousada.<br />

Pensou em envolver as maiores autoridades da capitania no projeto do<br />

levante: o próprio governador e o comandante da cavalaria de Minas.<br />

Permitiu-se a ousadia dada sua rara condição: era amigo de um e<br />

cunhado do outro. Contudo, não quis ser muito afoito e nem falar<br />

dessas intimidades a Tiradentes. Decidiu começar pelo comandante e<br />

ver no que ia dar. Ali estava uma figura fundamental para o sucesso do<br />

129


plano: tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, a<br />

primeira patente militar de toda a capitania, comandante supremo da<br />

mais bem treinada guarnição do país e encarregado exatamente de<br />

garantir a autoridade da Coroa em Minas. Devidamente abordado, na<br />

varanda e depois na mesa de jantar, o comandante digeriu a ideia<br />

devagar, indeciso como era. Vacilou muito no princípio, mas não parou<br />

de matutar. Um dia estava meio doente e recebeu a gentil visita de<br />

Tiradentes que lá apareceu com um duplo propósito. De sorte que logo<br />

entrou no assunto principal. Falou que o Rio de Janeiro estava pronto<br />

para um levante e só dependia que Minas tivesse a mesma disposição. E<br />

mais: por ele – Freire de Andrade - ser carioca, os rebeldes do Rio<br />

aceitavam que ele fosse o comandante das forças unificadas das duas<br />

capitanias. Pois foi o quanto bastou, nosso comandante melou-se na<br />

juvenil vaidade da sua brilhante carreira em que já tinha alcançado o<br />

topo, no viço <strong>dos</strong> seus trinta e três anos. Tomou então sua decisão e<br />

aderiu ao partido com muito empenho e zelo. Logo se tornou, ele<br />

próprio, um agitador agitado e procurou conquistar, sempre com a<br />

ajuda da verve do alferes, seus subordina<strong>dos</strong> os capitães Maximiano de<br />

Oliveira Leite 115 e Manuel da Silva Brandão.<br />

Em seguida, cumprindo a segunda parte do seu plano, Maciel<br />

foi se acercando do visconde. Usou de uma certa sutileza, costurando<br />

conversas sobre ideias fresquinhas a respeito da legitimidade <strong>dos</strong><br />

governos e <strong>dos</strong> direitos <strong>dos</strong> povos, assunto que afinal, interessava ao<br />

governador desde os velhos tempos das aulas do prof. Vandelli e <strong>dos</strong><br />

debates da Academia de Ciência de Lisboa, cheia de bons jacobinos e<br />

maçons. O visconde, ele também um naturalista, foi pronto tomado por<br />

uma forte admiração pela capacidade do jovem cientista e foi assim que<br />

resolveu torná-lo seu conselheiro técnico e interlocutor preferido. E o<br />

que é melhor, não demonstrou nem um pouco se sentir constrangido<br />

com as conversas meio atravessadas, frente sua condição de destacado<br />

representante do poder colonial português. Mas ele tinha certos<br />

ressentimentos antigos e uma cabeça arejada e, assim, ia conversando<br />

115 Capitão de Cavalos Maximiano de Oliveira Leite – Também consta que era sócio, e que fora<br />

firmíssimo para o Destacamento do Paracatu no mau projeto; ficou para ser preso no Paracatu onde<br />

estava; é filho de Minas, segundo me informaram.” (DCT).<br />

O “Leite” do capitão Maximiano deriva da linhagem de Fernão Dias que<br />

gerou um neto homônimo que era coronel e foi um <strong>dos</strong> primeiros moradores do<br />

Ribeirão do Carmo.<br />

130


com o jovem colega com prazer e atenção. Na sequência, Maciel<br />

envolveu Gonzaga e Cláudio neste ciclo fechado de palestras eruditas.<br />

Este começo foi muito auspicioso e nele reinou a alegria. Deve ter tido<br />

muito tapinha nas costas e expressões como: “- porque não pensamos<br />

nisso há mais tempo!”<br />

Já de volta pra casa, vindo do Rio das Mortes, às vésperas do<br />

fim do ano, Tiradentes, fiel ao estilo, foi fazendo seu trabalho ao longo<br />

do caminho. Tinha por costume pernoitar na estalagem de João da<br />

Costa Rodrigues, 116 estrategicamente situada entre Carijós e Ouro<br />

Branco, na fronteira entre as comarcas do Rio das Mortes e Vila Rica.<br />

Desta vez levava como companheiro de viagem o piloto de terras<br />

Antônio de Oliveira Lopes, 117 saído de Itajubá e rumando para a capital.<br />

Tiradentes patrocinou o jantar daquela noite e não deu outra: só se<br />

falou na delicada matéria. Ao final selaram um compromisso e<br />

brindaram ao sucesso do levante. Não estava sendo difícil entusiasmar<br />

as pessoas e, assim, o ânimo de Joaquim José era total e ele estava no<br />

auge.<br />

Foi exatamente no final daquele ano incomum que muita gente<br />

ilustre tomou o rumo de Vila Rica para rever os amigos e tratar de<br />

assuntos diversos, mais sérios ou mais alegres. Entre eles Alvarenga<br />

Peixoto que já tinha combinado a ida com Gonzaga em outubro e ia<br />

aproveitar para gozar, mais uma vez, da prezada companhia da turma<br />

da capital, cheia de belos e espirituosos <strong>coimbrãos</strong>. Foi então que ele se<br />

encontrou com José Aires Gomes na casa de João Rodrigues de<br />

Macedo, onde era assíduo parceiro nos jogos de da<strong>dos</strong> e cartas. Aires<br />

figurava como um mazombo <strong>dos</strong> mais autênticos mas servia de grada<br />

companhia ao poeta, ainda mais sendo também compadre do rico<br />

contratador e igualmente muito rico. Então o rude fazendeiro da<br />

116 João da Costa Rodrigues – Estalajadeiro, filho de Minas; soube que se tratava do levante, porque<br />

em sua casa o alferes Joaquim José tinha tratado e tido uma conversação sediciosa, e queixando-se de<br />

que não havia agente; respondeu um que estava presente, que tendo onze que ele fizesse conta tinha<br />

mais um para doze; respondeu o dito João da Costa – e comigo treze -; foi preso em Minas onde está.<br />

(DCT).<br />

117 Antônio de Oliveira Lopes – Piloto, filho de Abrantes; foi quem disse ao Alferes que tendo onze,<br />

ele ajustaria a dúzia; foi preso em Minas onde está. (DCT).<br />

131


Mantiqueira chamou o fino fazendeiro do Rio das Mortes a um canto<br />

discreto e contou que tinha ouvido de Tiradentes que estava para<br />

chegar algumas naus francesas a tomar a cidade do Rio de Janeiro e<br />

patrocinar uma independência. Alvarenga se entusiasmou de pronto,<br />

retomando o assunto <strong>dos</strong> tempos do batizado e que, volta e meia,<br />

tornava a ser tratado nas rodas mais elegantes. Logo depois, tratou do<br />

mesmo assunto com Freire de Andrade e até com Tiradentes que o<br />

procurou a mando do primeiro para confirmar a história das naus. No<br />

dia seguinte o coronel Alvarenga botou o assunto nas mesas de almoço<br />

e de jantar de Gonzaga e Cláudio Manuel. Eles já vinham fazendo um<br />

discreto trabalho no mesmo sentido e se animaram em tocar a matéria,<br />

até com um pouquinho mais de empenho e prática, instiga<strong>dos</strong> pela<br />

notícia de que havia uma outra turma muito capaz e disposta,<br />

interessada no assunto. Não perderam a cautela, mas até um contato<br />

furtivo do próprio dr. Cláudio com o alferes Tiradentes foi feito,<br />

visando assuntar se podiam juntar os seus rumos num futuro muito<br />

próximo. Era indispensável avaliar como unir todas aquelas forças<br />

aparentemente dispersas e com ramificações até no palácio do<br />

governador, mais precisamente no seu gabinete e mais precisamente<br />

ainda, assentadas em sua própria cadeira. O velho advogado achou<br />

Joaquim José mais “tlapido” 118 do que nunca mas gostou das suas<br />

ideias para a bandeira da nova república de Minas. De sorte que estava<br />

caminhando para um envolvimento com o assunto um pouco além do<br />

ponto de prudência.<br />

Alvarenga naqueles dias, subiu e desceu incontáveis vezes a rua<br />

Direita, do lado de Antônio Dias e do lado do Ouro Preto. Pegou livros<br />

na biblioteca de Freire de Andrade, tomou café com Diogo de<br />

Vasconcelos, visitou o intendente Bandeira no andar superior da Junta<br />

da Fazenda, papeou com o padre Rolim e jogou cartas com Macedo e<br />

Zé Aires no palacete do contrato. No caminho ia parando nas vendas e<br />

vãos de portas, puxando de<strong>dos</strong> de prosa e falando em rios de sangue,<br />

no seu jeito exagerado. Sentia-se fascinado por achar tanto horizonte<br />

num espaço tão exíguo: pouco mais de dois quarteirões íngremes e mal<br />

calça<strong>dos</strong> e continuamente lava<strong>dos</strong> por uma enxurrada teimosa, naquele<br />

verão chuvoso.<br />

118 Termo constante da transcrição do depoimento de Alvarenga Peixoto nos autos de<br />

devassa, provavelmente com grafia imperfeita. Significava algo como “um tanto<br />

aloucado”.<br />

132


Junto com Alvarenga seguiu para Vila Rica nosso caro padre<br />

Toledo, com o propósito de chegar a Mariana e pedir ao bispo licença<br />

para largar sua paróquia e ir para Portugal, fugindo da parte que lhe<br />

tocaria na partilha da nefanda derrama. Assim como o companheiro,<br />

hospedou-se na casa de Tomás Antônio Gonzaga, atendendo àquele<br />

convite que lhe tinha sido estendido quando o desembargador esteve<br />

em São José del Rei. Estando no mesmo teto, oportunidade não faltou<br />

a Alvarenga Peixoto para contar a Toledo os detalhes do levante que<br />

estava para haver nas Minas. O padre maravilhou-se: nem precisava<br />

mais ir para Portugal e largar sua faustosa paróquia.<br />

Mais tarde procuraram Tiradentes e foram juntos à casa de<br />

Freire de Andrade tratar mais um pouco da interessante questão. Por lá<br />

também passou o padre Rolim, falando do mesmo assunto. Outro dia<br />

foi a vez de uma reunião na casa de Abreu Vieira que estava acoitando<br />

o padre do Serro. Lá estavam Tiradentes, Freire de Andrade, Rolim e o<br />

dono da casa e falaram animadamente daquele raro projeto.<br />

Por volta de fevereiro, muito contaminado ainda pelo clima de<br />

dezembro, Tiradentes andou entrando em toda porta aberta de Vila<br />

Rica e foi assim que numa tarde, procurou Vicente Vieira da Mota e o<br />

encontrou em companhia de Brito Malheiro. Como de costume, o<br />

alferes visionário falou entusiasmado das vantagens de uma Minas<br />

mudada e livre, sem governador e lacaios. Ambos ouviram cala<strong>dos</strong> e<br />

Malheiro tentou memorizar o que ouviu, de olho numa delação, assim<br />

que surgisse chance. Para Mota nada daquilo era novidade pois já tinha<br />

conversado também com seu amigo o cônego Luiz Vieira sobre aquelas<br />

mudanças um tanto o quanto radicais.<br />

Às vésperas do ano novo de 1789, tendo desistido<br />

definitivamente de ir para Portugal, o padre Toledo resolveu voltar para<br />

sua rica paróquia e retomar seu cobiçado lugar. Na saída passou na casa<br />

de Cláudio para se despedir e aproveitou para se vangloriar que da<br />

próxima vez que viesse a Vila Rica estaria feito um grande homem.<br />

Quem sabe feito o bispo que ambicionava ser, recorrendo àquela via<br />

rápida que o vinha seduzindo mais do que tudo.<br />

Ao chegar em casa o padre, laborioso como era, arregaçou a<br />

batina, meteu as botas de cano alto, mandou chamar seu irmão Luiz<br />

Vaz e o instruiu a procurar a adesão de Silvério <strong>dos</strong> Reis que por conta<br />

própria, àquela altura já estava meio exposto, elogiando o país e<br />

133


criticando o governo sem nenhuma inibição. De sorte que eles<br />

acabaram se encontrando um dia na fazenda <strong>dos</strong> Resende Costa que,<br />

por sua vez, já tinham tomado conhecimento do assunto uns dias antes,<br />

da boca do próprio padre Toledo e do mesmo Luiz Vaz. Ou seja, em<br />

poucos dias a bandeira da sublevação já tremulava frenética nas<br />

cercanias da serra de São José para quem quisesse ver. Assim, to<strong>dos</strong><br />

conversaram abertamente sobre o projetado levante e até brindaram ao<br />

sucesso do mesmo. Presente também estava o ajudante de ordens do<br />

governador, nosso capitão João Carlos Xavier da Silva Ferrão, mas<br />

depois as autoridades acharam conveniente não levar isso muito a sério<br />

e esquecer a razão. Dias depois Silvério <strong>dos</strong> Reis foi conversar com o<br />

próprio padre Toledo e ouviu tudo de novo e muito mais e até<br />

redobrou o seu entusiasmo, oferecendo dinheiro para Luiz Vaz ir<br />

recrutar gente em São Paulo, na vila de Taubaté.<br />

Mas, antes disso, logo que voltou de Vila Rica, o padre Toledo<br />

passou na fazenda do coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes 119 e<br />

o convidou a ir até São José pois tinha muito que lhe falar. Em<br />

fevereiro o coronel atendeu ao convite e o padre falou das reuniões que<br />

tinha havido na capital. Não demorou a obter a adesão entusiástica de<br />

Oliveira Lopes. Este, por sua vez, falou na matéria com seu primo dr.<br />

Domingos Vidal de Barbosa Laje que já tratava de assunto semelhante<br />

nos seus tempos de estudante de medicina em Montpellier e Bordéus,<br />

fazendo parte daquela turma de jovens brasileiros de Minas e do Rio<br />

muito ligada no objeto daquelas conversações, tal qual Maciel já vinha<br />

dando notícia.<br />

Mas o ritmo de propagação da onda conspiratória não estava<br />

em harmonia e, ao contrário do que ocorria no Rio das Mortes, em<br />

março Vila Rica já estava muito quieta. Joaquim José não conseguia ser<br />

assim. Resolveu pois voltar ao Rio. Partiu no meio do mês e foi<br />

reforçando o que tinha começado algum tempo antes, fazendo o<br />

119 Francisco Antônio de Oliveira Lopes – Coronel do regimento de Cavalaria Auxiliar de São João<br />

Del Rei; é filho de Minas; foi convidado pelo Sargento-Mor do seu regimento, Luiz Vaz de Toledo;<br />

confessa no seu depoimento e nas perguntas tudo que sabia da conjuração, desculpando-se sempre; mas<br />

é certo que a denúncia que este réu deu ao Excelentíssimo Governador de Minas foi em razão de<br />

desconfiar que Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis a tinha dado e assim mesmo a deu diminuta, e depois é que<br />

entrou a depor de plano, também na esperança de ser perdoado; foi preso em Minas e veio remetido<br />

para esta cidade onde se acha em uma fortaleza. (DCT).<br />

134


caminho inverso, repetindo a pregação e soprando em novos ouvi<strong>dos</strong>.<br />

João Dias da Mota era um deles. Encontrou o alferes e “garraram de<br />

prosa”. Logo a conversa subiu de tom e dobrou no convencimento.<br />

Depois de ouvir o sedutor discurso, o prestativo Mota acabou<br />

emprestando um jumento para o alferes seguir viagem até o Rio de<br />

Janeiro. E lá foi ele, mais para Sancho Pança do que para d. Quixote.<br />

João Mota também andava muito pela região e frequentemente<br />

se hospedava na estalagem do Sítio da Varginha, onde o estalajadeiro<br />

Costa Rodrigues também presenciava muita conversa perigosa. Outro<br />

dia, Rodrigues contou a Mota ter ouvido coisas tais do padre Manuel<br />

Rodrigues da Costa, vizinho de ambos. Este por sua vez foi conferir<br />

com José Aires Gomes também seu vizinho, se ele igualmente tinha<br />

ouvido certas conversas de Tiradentes, o que até era obvio sendo<br />

ambos velhos amigos. Aires, por seu turno, já nos mês de setembro do<br />

ano anterior, tinha contado a outro vizinho, o padre José Lopes de<br />

Oliveira, 120 que soube de Tiradentes que estava para haver mais uma<br />

invasão francesa no Rio de Janeiro, visando libertar o Brasil das peias de<br />

Portugal. O padre também soube de Silvério <strong>dos</strong> Reis, em março de 89,<br />

que estava para haver um levante. Tudo isso depois foi conferir com<br />

seu irmão Francisco Antônio de Oliveira Lopes que andava muito bem<br />

informado de toda a confusão e tinha na matéria seu assunto favorito.<br />

Assim, as conversas familiares, na fazenda da Ponta do Morro, muito<br />

mais excitantes se tornaram, mancomunando tios, primos e irmãos e a<br />

participação <strong>dos</strong> vizinhos.<br />

Em vinte e nove do mesmo mês de março, foi a vez do padre<br />

Toledo conversar com Pamplona em São José e repetir a conversa.<br />

Prometeu contar mais e convidou o mestre de campo a voltar ao tempo<br />

da Semana Santa, mas este ouviu certos rumores e ficou meio<br />

assustando. Daí preferiu não aparecer naquela ocasião. De fato, em<br />

mea<strong>dos</strong> de abril o assunto já começava a se mostrar temporão e to<strong>dos</strong><br />

desconfiavam que Silvério <strong>dos</strong> Reis já tinha feito a sua delação ao<br />

visconde e tinha ido pra capital fazer o mesmo ao vice-rei. E aí a coisa<br />

precipitou a esfriar. Pena, pois poucas semanas atrás era tema<br />

dominante nos caminhos de Minas e não saia das rodas.<br />

120 Padre José Lopes – É irmão de Francisco Antônio de Oliveira Lopes; é filho de Minas, há prova<br />

na Devassa de que sabia completamente do negócio; está preso em Minas e parece que lá tem<br />

confessado. (DCT).<br />

135


Hoje, tantos anos depois, recriando a rede das ligações perigosas<br />

é possível perceber que havia três focos da traiçoeira doença,<br />

transmitida pela fala a meia-voz, contaminando os vassalos de Sua<br />

Majestade, <strong>mazombos</strong> e <strong>coimbrãos</strong>. Um foco estava em Vila Rica, com<br />

epicentro nas cercanias da praça do palácio do governador, outro no<br />

Rio das Mortes, entre São José del Rei e o arraial da Laje e o terceiro no<br />

caminho da Mantiqueira, perto da Borda do Campo. Mas também havia<br />

alguns pontos menores ao norte e ao sul, ameaçando o Serro e o Rio de<br />

Janeiro. No pico do episódio a contaminação corria muito rápida, com<br />

seu incontido fascínio, animando as conversas em volta das mesas das<br />

fazendas e <strong>dos</strong> sobra<strong>dos</strong>. De tal forma que, até mea<strong>dos</strong> de março, a<br />

conversa do levante tinha se alastrado como fogo em mato seco, na<br />

planura do serrado, em dia de ventania. Mas tão rápido como se<br />

alastrou haveria de se apagar, a despeito da fumaça perdurar por mais<br />

uns tempos, numa duração que muitos não entenderam.<br />

Mas, no seu ocaso, a rede das ligações perigosas virou a rede das<br />

delações impie<strong>dos</strong>as e produziu uma enxurrada de cartas de denúncia:<br />

de Antônio da Fonseca Pestana contra Tiradentes, <strong>dos</strong> Resende Costa<br />

contra o padre Toledo e Luiz Vaz, de Domingos Vidal de Barbosa<br />

contra seu primo Francisco Antônio de Oliveira Lopes e Resende Costa<br />

filho, de José Aires Gomes contra Tiradentes e Alvarenga Peixoto e de<br />

Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis delatando que Tiradentes pretendia escapar<br />

do cerco do vice-rei no Rio de Janeiro e voltar para Minas para iniciar o<br />

levante. Era a pá de cal que o facinoroso delator jogava naquele sonho<br />

de verão que, exato como o calor da estação, principiou em agosto e em<br />

maio já estava morto.<br />

14<br />

QUANDO O JOGO SE ENCERRA E A AGONIA PRINCIPIA<br />

Havia mais de três meses que Gonzaga e Cláudio Manuel<br />

tinham estado no palácio da Cachoeira conversando com o visconde de<br />

Barbacena, aconselhando-o na questão do lançamento da derrama,<br />

sondando suas disposições e lhe fazendo audaciosas propostas. Desde<br />

então, não mais se falaram, cada parte se mantendo no seu canto,<br />

espreitando e aguardando o que o outro lado iria fazer. Nesse intervalo<br />

os inconfidentes de Vila Rica se mantiveram muito quietos. Apenas<br />

Gonzaga se mexeu, tentando induzir o intendente Bandeira a requerer o<br />

lançamento da derrama, forçando a criação de um fato político que<br />

136


condicionasse o fiel da indecisão do governador a pender para o lado<br />

que eles gostariam, disparando o capítulo final da história. Mas<br />

Barbacena acabou decidindo que não haveria mais batizado e tomando<br />

o caminho contrário: no dia 17 de março encaminhou um oficio a<br />

Câmara de Vila Rica comunicando sua decisão de suspender o<br />

lançamento do imposto, até que Sua Majestade d. Maria I, confirmasse<br />

ou retificasse a medida. Na verdade ele tinha preferido adiar um pouco<br />

mais essa decisão e analisar sua complexa posição com mais cuidado,<br />

mas os sinais da conspiração estavam se tornando por demais evidentes<br />

e ele receava ser acusado de omissão e incúria.<br />

Embora tivesse formalizado sua delação somente em 15 de<br />

abril, desde mea<strong>dos</strong> de fevereiro que Brito Malheiro vinha tentando<br />

falar com o visconde para relatar o clima de sedição que havia em toda<br />

a capitania e especialmente no Regimento da Cavalaria de Vila Rica. No<br />

dia 15 de março, um <strong>dos</strong> principais envolvi<strong>dos</strong>, o coronel de auxiliares e<br />

ex-contratador Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis tinha sido recebido por ele e<br />

supostamente, revelado o quadro da conspiração, delatando os<br />

principais envolvi<strong>dos</strong>, enfatizando que havia um plano para matá-lo e<br />

que o estopim para incendiar o povo era de fato o lançamento da<br />

derrama. 121 Assim, não teve mais como adiar a decisão embora se<br />

sentisse numa frágil posição, desconfiando do partido que seu exército<br />

seguiria.<br />

Quem tomou a iniciativa de procurar o visconde foi Tomás<br />

Antônio Gonzaga. Assim que a notícia da suspensão da derrama se<br />

tornou oficial, correu ao palácio da Cachoeira. A ideia da entrevista era<br />

somente dele, de Cláudio Manuel da Costa e de Alvarenga. Mesmo<br />

porque, não queriam se avistar com os <strong>mazombos</strong> desde que a notícia<br />

da suspensão da derrama ribombou por Vila Rica e atirou o povo numa<br />

esfuziante alegria. Àquela altura, Freire de Andrade já havia se retirado<br />

para a Fazenda <strong>dos</strong> Caldeirões com toda a família e se assustava sempre<br />

que um cavaleiro surgia no alto do morro. Tiradentes tinha partido para<br />

o Rio de Janeiro, há uma semana, e ainda estava a caminho. Alvarenga,<br />

ansioso com a demora de uma decisão sobre o lançamento da derrama,<br />

tinha resolvido voltar a Vila Rica e na chegada , alguns dias antes, havia<br />

estado no palácio mas não tinha conseguido arrancar do governador<br />

nenhum indício do que ele estava realmente pensando. Os poetas<br />

121 Tenho uma outra versão que será vista mais adiante.<br />

137


estavam aflitos e julgaram ser indispensável conhecer com clareza as<br />

disposições do governador. O momento era extremamente crítico, as<br />

perspectivas não eram boas e Gonzaga era a pessoa indicada para<br />

sondar Barbacena, não só pelas relações de certa proximidade como<br />

também porque tinha participado daquela conversa sobre o assunto<br />

com o visconde, em companhia de Cláudio Manuel da Costa, em<br />

mea<strong>dos</strong> de dezembro. Assim, logo no princípio da noite lá estava ele no<br />

Palácio da Cachoeira, na antessala do governador esperando para falarlhe.<br />

Barbacena não demorou em recebê-lo mas, receando os rumos de<br />

uma conversa privada, manteve seu ajudante de ordens na sala. Naquele<br />

dia estava no posto o tenente-coronel Francisco Antônio Rebelo,<br />

homem culto e capaz, depositário de plena confiança do visconde. Era<br />

simpatizante do movimento e Barbacena se aconselhava com ele<br />

frequentemente sobre este assunto. Mas, de qualquer forma, isso inibiu<br />

um pouco a conversa entre Gonzaga e o governador. Na verdade,<br />

Rebelo tinha influenciado na própria decisão de Barbacena, entendendo<br />

que a ideia da inconfidência tinha chegado a um ponto extremamente<br />

perigoso a exigir total distanciamento e a adoção de medidas imediatas,<br />

tomadas a favor do lado certo para eles.<br />

Gonzaga começou o assunto pelas beiradas. Lembrou passagens<br />

da conversa anterior. Comentou que, conforme era esperado, o povo<br />

estava de fato exultante com a suspensão da derrama e que se pudesse<br />

iria erguer uma estátua em sua homenagem. Ele deveria se sentir muito<br />

orgulhoso pois essa rara disposição vinha de sentimento que nenhum<br />

governador anterior tinha conseguido provocar nos mineiros, sempre<br />

rebeldes e desconfia<strong>dos</strong> da posição <strong>dos</strong> governantes. Barbacena<br />

percebeu a carga de ironia e se manteve calado. Tinha razão quanto ao<br />

tom do discurso de Gonzaga pois, em seguida, ele foi mais direto e<br />

contundente, sem se incomodar com a presença de Rebelo. Memorizou<br />

a conversa precedente e foi repassando seus pontos principais. Disse<br />

que o que não se podia garantir é se Melo e Castro iria concordar com a<br />

homenagem pois ele, Barbacena, afinal optara pelo caminho mais<br />

cômodo. O ministério até poderia preservar a dependência da capitania<br />

de Minas mas o que ficaria ressaltado seria a perda imediata <strong>dos</strong> quintos<br />

atrasa<strong>dos</strong>. Ou seja, ele não tinha tido competência para cobrar a conta<br />

de que fora incumbido. Por outro lado - arrematou num tom enfático –<br />

um nervo tinha sido exposto: não se poderia prever a reação <strong>dos</strong><br />

contratadores endivida<strong>dos</strong> que não seriam beneficia<strong>dos</strong> diretamente<br />

pela suspensão da derrama e continuavam poderosos e descontentes.<br />

Além do mais, finalizou, havia também muita insatisfação no exército.<br />

138


Gonzaga sabia do ponto de maior temor de Barbacena e estava<br />

tentando sensibilizá-lo por aí.<br />

Nesse instante alguém bateu à porta e o poeta interrompeu sua<br />

conversa. Era um serviçal que trazia um serviço de chá. A hora era<br />

meio imprópria pois se aproximava o horário da ceia. Mas essa<br />

interrupção tinha sido urdida pelo próprio visconde que, sabedor da<br />

vinda de Gonzaga, tentou preparar um palco onde o ex-ouvidor não<br />

tivesse liberdade de falar muito tempo e sobretudo não tivesse que ficar<br />

para cear. Pobre Gonzaga, só pisaria no palácio mais uma vez na vida e<br />

assim mesmo acorrentado a caminho da prisão. Mas naquele momento<br />

ele também achou conveniente fazer um intervalo e assim tratou de<br />

beber prazeroso o chá de congonha que o capitão-general lhe oferecia.<br />

Foi um intervalo ameno como se estivessem numa visita de cortesia<br />

numa tarde de domingo. Barbacena perguntou como estavam os<br />

preparativos do casamento e a partida para a Bahia, Gonzaga respondeu<br />

com interesse, dissimulando acanhadamente o real motivo porque se<br />

demorava em Vila Rica, dizendo que se tivesse obtido a devida<br />

autorização já teria se casado e assumido seu cargo de ministro na<br />

Relação da Bahia. Desta vez foi Barbacena que resolveu ironizar,<br />

mudando novamente o tom da conversa. Comentou que teria sido<br />

melhor mesmo pois assim ele não teria como ser acusado de ter<br />

retardado sua permanência em Vila Rica por motivos menos inocentes.<br />

Gonzaga percebeu a intenção e não respondeu dando margem para que<br />

Barbacena continuasse e, desta vez, desse à conversa um rumo direto e<br />

objetivo. O governador salientou que tinha evidência de to<strong>dos</strong> os<br />

detalhes da conjuração em curso. Tinha obtido uma confissão completa<br />

de Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis. Havia negociado com Freire de Andrade<br />

seu afastamento da testa da tropa. Já estava fazendo alguma<br />

movimentação no regimento da cavalaria, afastando os oficiais<br />

envolvi<strong>dos</strong> e trazendo militares de confiança para Vila Rica. Tiradentes<br />

por sua vez ficaria isolado no Rio de Janeiro e logo seria colocado à<br />

mercê do vice-rei. À medida que o visconde ia falando Gonzaga ia<br />

empalidecendo, mas sem nada dizer. O governador completou dizendo<br />

que, não obstante toda essa estratégica movimentação, confessava que<br />

não tinha controle sobre a ação que pudessem tentar pessoas influentes<br />

como ele e Cláudio Manuel da Costa e também sobre pessoas<br />

passionais e agitadas como Alvarenga Peixoto e os padres Toledo e<br />

Rolim. Assim, estava disposto a propor um acordo vantajoso para<br />

to<strong>dos</strong>. Gonzaga continuou ouvindo, agora com redobrada atenção.<br />

Propôs que desistissem de toda e qualquer reação e que em troca ele<br />

139


daria ao caso um alcance limitado, dissimulando o verdadeiro motivo e<br />

atenuando, sobremaneira, as consequências. Claro que algumas<br />

punições teriam que ser aplicadas mas, na maioria <strong>dos</strong> casos, elas<br />

poderiam ser resumidas a expulsões da capitania. Reforçou que<br />

Tiradentes era o único conspirador declarado e evidente e, assim, só ele<br />

precisaria ser exemplarmente punido. Nesse ponto a palidez de<br />

Gonzaga se transformou em rubor. Quis replicar mas se conteve por<br />

um momento. Disse que tinha algo muito importante a declarar mas<br />

necessitaria fazê-lo em particular. Barbacena então pediu ao seu<br />

ajudante de ordens que os deixassem a sós, no que foi prontamente<br />

atendido. O ex-ouvidor de Vila Rica então pôde responder à proposta<br />

do visconde. Ponderou enfático que uma vez abafada a conspiração as<br />

conseqüências seriam incontroláveis pois se trataria de crime de lesa<br />

majestade e assim o julgamento seria sumário e o desfecho cruel. Ele,<br />

visconde, não tinha muito como amenizar a gravidade da situação.<br />

Ponderou que a despeito de tudo isso a revolta estava em marcha e<br />

independentemente da derrama, era irreversível. Alvarenga, padre<br />

Toledo e padre Rolim já tinham mesmo seus contingentes prontos para<br />

marchar sobre Vila Rica. Dessa forma, o melhor caminho era continuar<br />

o movimento que a rigor, para ele ter sucesso bastariam só duas<br />

cabeças: a dele e a do visconde. A decisão poderia ser tomada naquele<br />

instante. O que ele tinha que fazer era simplesmente manter a derrama<br />

e recolocar Freire de Andrade à frente da tropa, o resto deixasse com<br />

ele Gonzaga. Tentou convencer o visconde que as recompensas para<br />

ele seriam enormes. Que procurasse relembrar os termos daquela última<br />

conversa que tiveram. Deveria se lembrar que ele teria um papel<br />

assegurado na nova república. Considerasse, sobretudo, a oportunidade<br />

de poder trocar seus credores em Portugal por seus devedores daqui<br />

pois em seus gratos devedores se transformariam to<strong>dos</strong> os beneficia<strong>dos</strong><br />

com a nova ordem, especialmente os ricos contratadores entre eles,<br />

particularmente, João Rodrigues de Macedo. Arrematou dizendo que<br />

estavam postas as chances de uma ruptura com Portugal e a<br />

implantação de um governo independente com total apoio popular.<br />

Para tudo isso se concretizar, reforçou o audaz poeta, só faltavam duas<br />

cabeças, dois líderes. Mas Barbacena não o deixou prosseguir.<br />

Finalmente estava convicto do que deveria fazer e não se deixou levar<br />

pelo discurso de Gonzaga. Insistiu em sua proposta e arrematou,<br />

dizendo que eles não tinham outra alternativa e que em nome do<br />

respeito e amizade que existia entre eles, queria fazer algo por to<strong>dos</strong> e<br />

que o momento era aquele. Gonzaga achou prudente não insistir mas<br />

140


também não se deu por rendido. Disse que iria consultar os<br />

companheiros e que breve lhe daria uma resposta.<br />

Desceu para Vila Rica mais preocupado do que nunca, estava<br />

convencido que a ocasião para o levante havia se perdido para sempre e<br />

que agora restava buscar diminuir-lhe as consequências pois,<br />

definitivamente, não havia provas de um motim. Mas não queria<br />

levantar pânico nos companheiros, tudo teria que ser tratado com<br />

cautela e reflexão. Ainda bem que Tiradentes estava longe pois,<br />

certamente, teria uma reação tempestuosa como era do seu jeito.<br />

Quanto a Freire de Andrade, sempre tiveram dúvidas da sua disposição<br />

e agora aí estava provado, foi o primeiro a afinar. Teria que trabalhar<br />

principalmente o padre Toledo para que ele não agisse tão<br />

passionalmente como costumava fazer. No mais, não havia mesmo<br />

muito o que cuidar. Haviam previsto a possibilidade do movimento ser<br />

revelado prematuramente e tinham combinado destruir as evidências e<br />

a tudo negar à exaustão. Assim, por enquanto, o que tinha que fazer era<br />

tocar a destruir os rascunhos da Constituição da Republica das Minas<br />

Gerais, redigida com o mesmo prazer com que eram redigidas as Cartas<br />

Chilenas, igualmente perigosas. Pena, mais um sonho se desvanecia na<br />

vida do poeta. O preço seria cobrado mais tarde.<br />

Rumou para casa muito descrente, pensando em encarregar<br />

Alvarenga de botar panos quentes nos amigos <strong>mazombos</strong> mais afoitos.<br />

Isso teria que ser feito com muita discrição. Não seria difícil induzi-lo a<br />

assumir esta missão pois o ex-ouvidor do Rio das Mortes estava<br />

visivelmente assustado com o rumo das coisas e já vinha rascunhando<br />

odes de arrependimento. Mas, com maior ou menor atraso, to<strong>dos</strong><br />

ficaram mais ou menos perplexos e muito pouca coisa pôde ser feita<br />

para reverter o quadro ou atenuar o crime.<br />

Enquanto isso Barbacena se encerrava no seu gabinete para<br />

rascunhar algumas cartas. Caso Gonzaga aceitasse sua proposta,<br />

denunciaria a conspiração diretamente ao ministro Melo e Castro. Diria<br />

triunfante ter descoberto e esmagado a sedição com seus próprios<br />

meios, estando portanto plenamente qualificado a assumir o processo<br />

de julgamento e punição <strong>dos</strong> envolvi<strong>dos</strong>. Caso sua proposta não fosse<br />

aceita por Gonzaga, aí forçosamente teria que recorrer ao seu tio vicerei<br />

no Rio de Janeiro, pedindo reforço militar. Nesse caso, infelizmente<br />

não poderia controlar a situação como gostaria e ficaria mais exposto.<br />

Ambos os rascunhos estavam plenos de meias verdades. Estaria<br />

141


disposto a esperar a resposta de Gonzaga por uma semana e o faria até<br />

o dia 25 de março, quando enviaria a carta do vice-rei e esperaria sua<br />

resposta debaixo de forte tensão. Escolheu a segunda opção e teve<br />

muito trabalho com ela. Mas foi a mais segura, naquele denso clima de<br />

traição.<br />

15<br />

A PROPÓSITO DE UM CADÁVER INSEPULTO<br />

Decorri<strong>dos</strong> mais de duzentos anos da morte de Cláudio<br />

Manuel da Costa, seu cadáver continua insepulto. Uma vida cheia de<br />

glória terminou tristemente e de forma obscura numa cela da Casa do<br />

Contrato na madrugada de 04 de julho de 1789. Ainda hoje pairam<br />

dúvidas se o poeta foi assassinado ou se suicidou-se.<br />

A questão se torna relevante na medida em que contamina,<br />

significativamente, o julgamento histórico do nosso infeliz<br />

inconfidente. 122 Os partidários de uma ou outra tese são inúmeros e<br />

entre eles estão ilustres e criteriosos pesquisadores. Em geral, aqueles<br />

que acreditam no suicídio, execram esse gesto e do alto da serena<br />

tranqüilidade de seus gabinetes de leitura condenam o poeta à eterna<br />

iniqüidade.<br />

Indícios e bons argumentos há contra e a favor das duas<br />

alternativas e, provavelmente, jamais será possível corroborar uma<br />

delas. Assim, é livre a qualquer pessoa tomar um ou outro partido. Mas<br />

é essencial que fiquem claras as bases da opção pois Cláudio Manuel da<br />

Costa merece de nós uma tal honestidade intelectual. Pessoalmente<br />

estou convencido de que o poeta foi assassinado, como tenho tentado<br />

demonstrar. Convence-me disso dois fatores principais, extremamente<br />

simples mas cruciais, capazes de tornar to<strong>dos</strong> os demais menos<br />

relevantes. O primeiro e mais importante deles é o laudo descritivo das<br />

condições da morte: parece-me terrivelmente inverossímil. Lúcio José<br />

<strong>dos</strong> Santos no seu clássico livro sobre a Inconfidência Mineira, registra<br />

sua crença de que exatamente por parecer irreal é que ele deve ser<br />

autêntico. Argumenta que se tivesse que se inventar um cenário de<br />

122 Não obstante essa relevância, a maioria <strong>dos</strong> autores que se interessam pelo levante<br />

mineiro, tratam essa questão fazendo opções relativamente levianas e carregadas de<br />

paixão.<br />

142


suicídio ter-se-ia procurado criar um quadro menos estranho. Porém,<br />

não é bem assim, pois essas condições verdadeiramente não existiam e<br />

acabou sendo produzido o que de mais verossímil era possível. Mas o<br />

resultado, convenhamos, foi esdrúxulo. Na sala onde Cláudio Manuel<br />

da Costa estava isolado, na prisão improvisada da Casa do Contrato,<br />

não havia uma trave suspensa e nem ele podia dispor de uma corda<br />

resistente onde pudesse se dependurar, se matando inexoravelmente<br />

por enforcamento, contando para isso com a indispensável força da<br />

gravidade. É certo que o corpo do suicida enforcado não precisa ficar<br />

inteiramente suspenso no ar para que ele possa consumar o seu intento,<br />

como bem lembra Lúcio <strong>dos</strong> Santos. Mas também é certo que o corpo,<br />

mesmo tocando o chão, tem que contar com peso suficiente para gerar<br />

força para obstruir a garganta e forçar os danos na coluna cervical que a<br />

pressão da corda irá provocar e acabar causando a morte. Em resumo, é<br />

preciso que o corpo tenha sido dependurado de alguma forma. A<br />

morte, na verdade, é provocada por dois fatores principais, quais sejam,<br />

a asfixia e a compressão e lesão <strong>dos</strong> nervos da coluna que produz a<br />

interrupção da circulação cerebral, seguida de convulsões e morte. Vale<br />

lembrar aqui que, no enforcamento de Tiradentes o carrasco,<br />

competente profissional da matéria, depois de tirar o apoio <strong>dos</strong> pés e<br />

deixar o corpo no ar ainda pulou sobre ele para aumentar o peso contra<br />

a corda, abreviando a agonia que pode levar até dez minutos. No caso<br />

de Cláudio Manuel, não existindo as condições básicas para um<br />

enforcamento clássico, teve que ser criado um cenário absurdo em que<br />

ele teve que se enforcar usando os frágeis cordões do calção,<br />

amarrando-os na tábua de uma prateleira e fazendo força no sentido<br />

horizontal, usando um braço e um joelho. Não tenho capacidade para<br />

imaginar como alguém pode conseguir se enforcar em tais<br />

circunstancias. Não seria possível obter a força suficiente para provocar<br />

a asfixia e lesionar a coluna, mesmo porque os cordões do calção por<br />

mais resistentes que fossem, se romperiam antes. Com um recurso<br />

desses o mais indicado teria sido um estrangulamento. Até pode ter<br />

sido, mas o suicídio por estrangulamento é quase impossível e, por isso<br />

mesmo, raríssimo. Mas é muito aplicado em assassinatos. Nesse caso,<br />

pode-se usar um cordão relativamente frágil e mais um pequeno pedaço<br />

de pau, formando um competente torniquete. Mas não vamos insinuar<br />

que o dr. Cláudio tenha sido estrangulado. Seria muita especulação,<br />

mesmo porque, haveria muitas outras formas de assassiná-lo. Mas a<br />

versão do laudo foi o que de melhor se conseguiu produzir numa<br />

situação em que não havia corda, nem onde pendurá-la com decência.<br />

143


Assim, os legistas gastaram dez dias para produzir o dito laudo que, na<br />

verdade, não ocupa nem meia lauda. Há quem acredite que o relatório<br />

seja autêntico não só porque envolveu o testemunho de várias<br />

autoridades juramentadas, como também porque um <strong>dos</strong> signatários era<br />

amigo íntimo de Cláudio Manuel da Costa e, portanto, não iria mentir<br />

contra ele. Tenazes e contraditórios são os inimigos de Cláudio: por um<br />

lado a presença de testemunhas garante a autenticidade do atestado do<br />

suicídio, por outro lado sua ausência não invalida a autenticidade do seu<br />

depoimento, anotado pelos devassantes como registro fiel do que ele<br />

disse e, portanto, prova inconteste do que teria sido sua deplorável<br />

covardia.<br />

Penso que a assinatura de testemunhas no laudo <strong>dos</strong> legistas<br />

não atua nem a favor nem contra a tese de suicídio. Em primeiro lugar<br />

porque é perfeitamente possível que os signatários do laudo não<br />

tenham realmente visto o cenário do delito e sim que ele lhes tenha sido<br />

descrito por, por exemplo, um carcereiro que pedisse sinceras desculpas<br />

por ter desmontado inadvertidamente a cena que encontrou e ter jurado<br />

estar dizendo a verdade, para tranquilidade moral <strong>dos</strong> legistas, escrivães<br />

e devassantes. Concordo que isto seja uma especulação mas também o<br />

é a crença na lisura da conduta <strong>dos</strong> testemunhos daqueles que<br />

assinaram o laudo. Também apelar para razões de amizade de um <strong>dos</strong><br />

escrivães não vale pois naquela altura em que os acusa<strong>dos</strong> ainda<br />

estavam sendo caça<strong>dos</strong> ele, exatamente por ser amigo de Cláudio<br />

Manuel, não teria coragem suficiente para se recusar a aceitar os<br />

argumentos de Barbacena ou Manitti. Talvez até titubeasse e isso seja a<br />

causa da demora da emissão do laudo. 123 Considerando o festival de<br />

fraudes que envolve os registros da devassa da Inconfidência Mineira,<br />

um laudozinho falsificado é coisinha inocente.<br />

É relevante observar ainda que, pela descrição do laudo, nosso<br />

caro advogado estava morto de frente para a prateleira já que contra ela<br />

pressionava o joelho e o braço. Assim, ele teria se enforcado fazendo<br />

pressão na nuca e não na garganta. Naquele tempo se acreditava que a<br />

morte por enforcamento era devida exclusivamente ao sufocamento<br />

advindo da pressão sobre a garganta que impediria a passagem do ar.<br />

123 Aliás, o amigo de que estamos falando é o dr. Francisco José Veríssimo que<br />

também produziu um outro testemunho muito suspeito de que trataremos mais tarde,<br />

relativo ao episódio do “Embuçado”. Enfim, amizades não costumam valer muito em<br />

situações de terror.<br />

144


Hoje se sabe que ela ocorre principalmente por lesão na coluna cervical.<br />

Desta forma, seria muito estranho que Cláudio Manuel da Costa, um<br />

homem inteligente e bem informado, tivesse tentado se suicidar de<br />

outra maneira a não ser tentando esganar a própria garganta. Caso<br />

contrário ele teria que ser também um gênio da medicina com<br />

conhecimentos médicos à frente do seu tempo. Só assim teria sentido<br />

ele se atacar pelas costas e tentar lesionar a coluna, como o laudo<br />

pretende convencer. 124<br />

Muitos ilustres partidários do suicídio têm uma explicação para<br />

essa inverossímil posição em que o cadáver foi encontrado: eles<br />

sugerem que no auge do estertor, o corpo girou cento e oitenta graus e<br />

ficou de frente para a prateleira. 125 Ora, isso é muita especulação para<br />

ser levada em conta. Mesmo porque, não explica as posições do braço e<br />

do joelho pressionando a prateleira. O fato concreto é que ele teria sido<br />

encontrado de frente para o ponto em que o cadarço do enforcamento<br />

estava fixado e - vamos repetir - pressionando no sentido da nuca. Essa<br />

posição é absurda e como tal trabalha muito mais a favor da tese de que<br />

o cenário da morte foi inventado do que o contrário.<br />

O segundo fato que nos faz crentes de que houve assassinato, já<br />

venho trabalhando em algumas das seções anteriores deste livro.<br />

Fundamenta-se na ideia de que havia boas razões para que o velho<br />

advogado fosse silenciado para sempre. Mas, antes de entrarmos nessa<br />

questão fundamental, vamos examinar outro argumento a favor da tese<br />

do suicídio. A prisão improvisada da Casa do Contrato estava guardada<br />

por militares da guarnição do vice-rei que não estavam submeti<strong>dos</strong><br />

diretamente à autoridade do visconde de Barbacena. Assim, ele não<br />

teria como introduzir o assassino na prisão para liquidar o dr. Cláudio.<br />

Concordo que isso pode ter sido uma dificuldade mas não creio que<br />

fosse um problema insolúvel, mesmo porque, àquela altura os<br />

devassantes do vice-rei ainda não tinham chegado à Vila Rica. Portanto,<br />

os presos ainda estavam à disposição <strong>dos</strong> devassantes de Barbacena<br />

que, desta forma, ainda preservava o controle sobre o acesso aos<br />

124 E aqui não posso deixar de lembrar daquela versão meio debochada, mas altamente<br />

sugestiva de que o presidente comunista chileno Salvador Allende se suicidou com<br />

uma rajada de metralhadora nas costas.<br />

125 Essa é a criativa explicação de Tarquínio José Barbosa de Oliveira, partidário da<br />

tese de suicídio.<br />

145


mesmos. Além do mais, quem disse que para matar Cláudio Manuel o<br />

assassino teria que entrar na sua sela?<br />

Como temos visto e ainda mais veremos, está patente que<br />

Barbacena queria manipular o grau de amplitude e profundidade do que<br />

iria ser revelado na devassa, tanto que criou sua própria devassa,<br />

contrapondo-a à do vice-rei e foi muito resistente em encerrá-la, só o<br />

fazendo depois de muita confrontação e teimosia.<br />

Barbacena mandou matar o dr. Cláudio simplesmente porque<br />

temia que ele revelasse as intimidades da inconfidência e deixasse<br />

patente o quanto ele governador, tinha sido omisso e pusilânime e até<br />

que estivesse diretamente envolvido no levante. Além disso, estava<br />

caracterizado que seus depoimentos podiam dar ao movimento um<br />

rumo que o visconde não queria. Na verdade, ele abriu a sua devassa<br />

para contrapor algum direcionamento que lhe fosse desfavorável na<br />

devassa do vice-rei. Teria preferido que não houvesse devassa em Minas<br />

Gerais. Tanto que tentou fazer crer que o movimento tinha afetado<br />

muito mais o Rio de Janeiro do que Minas. Para isso inclusive, mandou<br />

produzir um documento 126 tentando demonstrar que Tiradentes tinha<br />

agitado mais no Rio do que em Minas.<br />

Barbacena preferia que a questão de abrir e conduzir uma<br />

devassa fosse do vice-rei e não dele, mas como tinha receio do<br />

julgamento da sua conduta no episódio, abriu uma devassa<br />

autodefensiva que, da mesma forma que teimou em abrir, também<br />

teimou em concluir, reabrindo-a sucessivas vezes, sempre que julgava<br />

necessário acrescentar algum retoque. A necessidade de se defender foi<br />

tão crítica que ele mandou duas cópias da sua devassa ao ministro Melo<br />

e Castro em Portugal por intermédio de dois portadores diferentes, por<br />

caminhos diferentes e só depois de fazer isso foi que entregou uma<br />

cópia ao vice-rei Luis de Vasconcelos para proceder à integração <strong>dos</strong><br />

dois processos.<br />

É importante observar que Barbacena começou a agir<br />

prendendo os líderes claramente evidencia<strong>dos</strong> na denúncia de Silvério<br />

<strong>dos</strong> Reis e os encaminhando direto ao Rio de Janeiro para se juntarem a<br />

Tiradentes que lá já estava preso e onde uma devassa já havia sido<br />

126 ADIM – v. 1 - pág. 292.<br />

146


aberta. 127 Manteve preso em Vila Rica réus menores que começou a<br />

interrogar como testemunhas. Levou mais um mês para decidir<br />

prender os ilustres inconfidentes cônego Luiz Vieira e Cláudio Manuel<br />

e só o fez quando seus próprios colaboradores já estavam estranhando<br />

porque isso ainda não tinha acontecido. Na verdade, ele só fez isso<br />

quando soube que os devassantes do vice-rei estavam vindo para Minas,<br />

xeretar no seu quintal.<br />

Logo no primeiro interrogatório a que foi submetido, Cláudio<br />

Manuel da Costa, ao contrário <strong>dos</strong> demais líderes inconfidentes até<br />

então interroga<strong>dos</strong>, deixou patente que não resistiria a dizer toda a<br />

verdade que conhecia. 128 Porque essa preocupação especial com o<br />

depoimento do velho advogado? Ora, qualquer pessoa que quisesse se<br />

contrapor a ele tinha bons motivos para se sentir preocupado e não<br />

devia ser diferente mesmo para o governador, aliás em posição delicada.<br />

Ele era indubitavelmente a maior autoridade moral e intelectual da<br />

capitania, tinha sido protegido do governador Gomes Freire de<br />

Andrade e secretário de outro governador. Seus dotes literários eram<br />

admira<strong>dos</strong> em Portugal onde tinha livros publica<strong>dos</strong>, o que se constituía<br />

um privilégio raro para qualquer brasileiro do século XVIII. Além disso<br />

era Cavaleiro da Ordem de Cristo, a mais alta honraria a que um plebeu<br />

podia alcançar naqueles tempos. Enfim, o que ele dissesse teria lastro. E<br />

ele disse, com todas as letras, ter ouvido de Gonzaga que Barbacena<br />

estava entre os primeiros na conjuração. Vale dizer, o governador,<br />

capitão general da capitania de Sua Majestade d. Maria I – A Pie<strong>dos</strong>a,<br />

seria um <strong>dos</strong> líderes da conspiração. Se isso não é motivo suficiente<br />

para um homicídio não sei o que pode ser. Na história da capitania se<br />

matou por muito menos. Só Barbacena sabia o quanto realmente lhe<br />

custaria tamanha traição contra sua soberana. Tratava-se de uma grave<br />

acusação que foi eliminada na raiz. Tanto que ninguém se preocupou<br />

em perguntar a Gonzaga que história era aquela que Cláudio tinha<br />

contado ter ouvido dele. Guardou-se silêncio perpétuo: Gonzaga não<br />

127 Alegou que estava agindo assim por falta de condições adequadas para mantê-los<br />

presos em Minas.<br />

128 Cláudio manteve raríssimos contatos com os <strong>mazombos</strong>, assim, provavelmente<br />

nem sabia da combinação que fizeram de negar tudo, caso viessem a ser presos.<br />

147


disse o que não lhe foi perguntado e Cláudio, que disse achando dispor<br />

de um grande trunfo, foi estrangulado por tê-lo feito. 129<br />

Existem vários outros argumentos contra e a favor das teses de<br />

assassinato e de suicídio. Uma das mais fortes argumentações a favor da<br />

crença no suicídio é a do estado de ânimo do dr. Cláudio. Comenta-se<br />

que ele estava doente e deprimido e que era um homem sensível e<br />

frágil. Esse perfil tem sólido fundamento e está evidenciado pelo seu<br />

estado de espírito na prisão, conforme denunciado pelo tom do seu<br />

depoimento aos devassantes. Também há supostos depoimentos do<br />

cônego Luiz Vieira que teria sido seu confessor na reclusão e teria<br />

notado o profundo estado de abatimento do infortunado colega. 130 Mas<br />

aqui, o que eu vejo é, ao contrário, um argumento mais favorável à tese<br />

do assassinato. Em seu interrogatório, Cláudio Manuel extravasa um<br />

enorme sentimento de culpa em que ele atribui seu sofrimento a um<br />

castigo divino pelos seus peca<strong>dos</strong>. Sabemos que ele era muito religioso<br />

e, naquela hora de extrema agonia, ele entendia que tinha sido posto na<br />

situação de prestar contas a Deus pelos seus desvios. Ora, tendo ele<br />

forte formação religiosa, naquela situação não deveria mostrar<br />

exatamente resignação e aceitar o sofrimento que iria purificá-lo na vida<br />

eterna? Não é exatamente na fé em Deus que os fracos buscam forças?<br />

É estranho que ele, com toda a cultura religiosa que tinha, entendendo<br />

inequivocamente que Deus estava irado com ele, preferisse o inferno<br />

atiçando ainda mais esta ira com o suicídio, este ato ignominioso tão<br />

condenado por todas as religiões? Claro que existem supostos<br />

especialistas em alma humana que podem pensar diferente, ou seja, que<br />

129 Além do mais, como veremos adiante, Cláudio provavelmente sabia a identidade<br />

da misteriosa figura do “Embuçado” e poderia ligá-lo a Barbacena, complicando de<br />

vez a situação do visconde.<br />

130 A base de referência é a nota atribuída a frei Raimundo da Anunciação Penaforte<br />

(ADIM – v.9 – pág. 162), testemunhado o estado de espírito <strong>dos</strong> inconfidentes na<br />

prisão e especialmente no momento da leitura da sentença. Os historiadores têm dado<br />

muita importância a esse registro, mas para mim ele parece uma peça suspeitíssima. O<br />

autor evidencia ter tido como única preocupação demonstrar o triunfo <strong>dos</strong><br />

ensinamentos da Santa Madre Igreja sobre o pecado da infidelidade cometido contra a<br />

soberana e revelar o sucesso <strong>dos</strong> confessores em obter o arrependimento ou<br />

conversão <strong>dos</strong> inconfidentes pelo seu hediondo crime. Vide mais detalhes sobre essa<br />

suspeita na seção vinte e oito, mais adiante.<br />

148


quando o desespero se instala pra valer não tem religião que dê jeito.<br />

Não sei se essa colocação seria muito válida no século XVIII, época em<br />

que Deus ainda governava o comportamento humano com mão de<br />

ferro.<br />

Quanto à hipótese de que o registro do depoimento de Cláudio<br />

Manuel da Costa tenha sido fraudado, nem vou considerá-la pois, como<br />

está, ele já é muito comprometedor para o visconde. Mesmo que o<br />

depoente tenha sido obrigado a assinar um documento que não fosse<br />

exatamente o que gostaria, ainda restou uma referência muito direta de<br />

que Barbacena era um <strong>dos</strong> principais envolvi<strong>dos</strong> na conspiração. 131<br />

Não posso deixar de mencionar aqui, embora considere um<br />

fator também menos relevante, a tese de Augusto de Lima Jr. de que<br />

Cláudio Manuel da Costa possa ter sido assassinado para que ficasse<br />

sepultado eventual protesto contra o saque que teria sido feito sobre<br />

seus bens, quando da sua prisão. É muito estranho o valor inventariado<br />

no auto de sequestro de seus bens: ou ele não era tão rico assim ou<br />

alguma coisa sumiu no meio do caminho.<br />

Não posso também resistir aqui à tentação de fazer um paralelo<br />

entre os casos de Cláudio Manuel e seu colega mais jovem o dr. Diogo<br />

Ribeiro Pereira de Vasconcelos, outro brilhante advogado de Vila Rica<br />

e que viria a escrever algumas memórias sobre Minas Gerais de grande<br />

valor geo-histórico. Ele era amigo <strong>dos</strong> principais inconfidentes e sua<br />

casa foi uma das que, em 17 de maio de 1789, bateu o embuçado<br />

encarregado de avisar alguns <strong>dos</strong> inconfidentes de que a repressão ia<br />

começar. Foi estranhamente poupado pela devassa. Creio que seu papel<br />

no movimento tenha sido semelhante ao de Cláudio Manuel e que<br />

talvez, eles até tenham trabalhado juntos e tivessem as mesmas<br />

informações. Parece que depois (ou antes?) da trágica morte do dr.<br />

Cláudio, o visconde de Barbacena se assustou com alguma coisa e<br />

preferiu fazer algum tipo de acordo com o dr. Diogo. 132 É provável que<br />

131 Acredito muito mais na fraudação do laudo <strong>dos</strong> legistas do que na do depoimento.<br />

Não se deve esquecer, contudo, que o desembargador Coelho Torres – devassante do<br />

vice-rei, considerou o depoimento de Cláudio inválido, por falta de cumprimento <strong>dos</strong><br />

ritos processuais. Barbacena é que insistiu em usá-lo. O tribunal de Alçada, mais tarde<br />

até achou o depoimento muito conveniente e o legitimou por decreto.<br />

132 Mais tarde, em sua Descrição Geográfica, Física e Política da Capitania de Minas Gerais,<br />

diria Diogo Ribeiro Pereira de Vasconcelos a respeito de Barbacena: “Amante da<br />

149


este acordo tenha alguma coisa a ver com o episódio do embuçado.<br />

Barbacena quis diminuir a importância do fato, inclusive forjando<br />

testemunhos para fazer crer que ele tinha acontecido depois das prisões<br />

de Tomás Antônio Gonzaga e Diogo de Vasconcelos e não antes. E<br />

aqui até nos é permitido vislumbrar traços de uma possível estratégia<br />

que Barbacena traçou para tratar cada grupo de inconfidentes, logo que<br />

resolveu reprimir o movimento. Os mais afoitos remeteu ao tio no Rio<br />

de Janeiro para alimentar a devassa do vice-rei: Tiradentes, Gonzaga,<br />

Alvarenga, padre Toledo e talvez o padre Rolim se o tivesse conseguido<br />

pegar. Aos mais queri<strong>dos</strong> tentou dar proteção, mantendo-os soltos em<br />

Vila Rica: Freire de Andrade e Álvares Maciel. Com os demais<br />

conseguiu fazer acor<strong>dos</strong>: João Rodrigues de Macedo, Ignácio<br />

Pamplona, Silvério <strong>dos</strong> Reis e Diogo de Vasconcelos. O resto era o<br />

resto e que a sorte cuidasse deles. E com Cláudio Manuel da Costa?<br />

Teria tentado um acordo, sem sucesso? O fato é que o dr. Diogo<br />

Ribeiro Pereira de Vasconcelos acabou ficando com a bela casa do dr.<br />

Cláudio, difamando a memória de Tiradentes num discurso<br />

inflamado 133 e gerando uma bela e brilhante prole de políticos. Seu<br />

velho colega de Mariana deixou algumas obras notáveis, alguns filhos<br />

bastar<strong>dos</strong> mergulha<strong>dos</strong> na miséria e uma memória infame.<br />

Indispensável lembrar que, num discurso feito no parlamento<br />

brasileiro em 18 de junho de 1827, o filho do dr. Diogo, o ilustre<br />

deputado mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos, afirmou<br />

veementemente que Cláudio Manuel da Costa tinha sido assassinado.<br />

Terá ouvido isso do pai numa ocasião em que este tivesse lhe revelando<br />

os segre<strong>dos</strong> da política do seu tempo?<br />

Podemos encontrar muitos argumentos mais a favor da tese de<br />

assassinato mas que não passam de lenda. Por exemplo, que o corpo de<br />

Cláudio foi roubado e sepultado na nave da matriz do Pilar o que não<br />

seria permitido a um suicida; que a parteira tia Mônica viu um corpo<br />

religião, do soberano e <strong>dos</strong> povos, desinteressado, liberal e magnífico, o visconde de<br />

Barbacena foi um completo governador”. E ainda foi pouco em se tratando de quem<br />

lhe havia, benfasejamente, livrado de uma horrorosa prisão.<br />

133 O item 8 do discurso do dr. Diogo tem por título Das Delícias da Subserviência.<br />

(ADIM , vol. 9 , pág. 141)<br />

150


sendo arrastado nas imediações da Casa do Contrato no dia da sua<br />

morte; que a guarda do prisioneiro foi irregularmente substituída nesse<br />

dia e que um <strong>dos</strong> legistas foi obrigado a alterar o seu laudo em que<br />

constava a conclusão do assassinato. Não passam de lendas mas, como<br />

tal, foram criadas pelo povo o que demonstra que quem vivia na época<br />

<strong>dos</strong> acontecimentos e estava muito próximo deles não engoliu muito a<br />

história do suicídio. 134<br />

Por mim fico com a hipótese do assassinato e declaro sepultado<br />

o corpo do trágico poeta, com toda dignidade que sua gloriosa memória<br />

merece.<br />

16<br />

QUANDO ACONTECE O APOTEÓTICO CONVENTÍCULO<br />

Vila Rica, como já tivemos auspiciosa notícia, fervilhava no<br />

final do ano de 1788, apesar da chuva que caía sem parar, dificultando<br />

caminhar sobre o calçamento irregular das íngremes ladeiras <strong>dos</strong> dois<br />

la<strong>dos</strong> do morro de Santa Quitéria. Ao se aproximar o tempo do natal,<br />

todo mundo procurava estar em suas respectivas vilas e arraiais;<br />

próximos às suas paróquias para acompanhar as comemorações do<br />

nascimento de Jesus. Naquele tempo, tal como hoje, tais festejos eram<br />

espera<strong>dos</strong> ansiosamente ao longo de todo o ano. Mas era uma<br />

comemoração mais solene do que alegre e em matéria de contrição só<br />

perdia para a Semana Santa, quando era mandatório reunir a família em<br />

torno das dores de Cristo. Todavia, esse estava sendo um ano diferente<br />

e muita gente se encontrava longe de casa em pleno final de dezembro.<br />

A popular hospedaria do Alto das Cabeças em tempo algum esteve tão<br />

cheia, especialmente de gente do Serro do Frio que tinha ali seu local<br />

preferido para estar na capital. As casas particulares também estavam<br />

cheias de hóspedes e nunca Vila Rica concentrou tanta gente ilustre ao<br />

134 O livro clássico de Lúcio José <strong>dos</strong> Santos sobre a Inconfidência Mineira, contém<br />

uma das mais notáveis defesas da tese do suicídio. Mas sua argumentação, posto que<br />

muito criteriosa, embute uma tendenciosidade que ignora sutilmente que a mesma<br />

base lógica de interpretação <strong>dos</strong> fatos a favor da tese do suicídio, também pode ser<br />

usada a favor da tese do assassinato. Isso certamente acontece com minha própria<br />

argumentação. É por isso que o assunto é tão controverso e, em consequência, tão<br />

fascinante.<br />

151


mesmo tempo. Com exceção do visconde de Barbacena que preferia<br />

ficar no palácio da Cachoeira, as maiores lideranças da capitania ali<br />

estavam.<br />

João Rodrigues de Macedo recebia o compadre José Aires<br />

Gomes, mais uma vez. Em frente, na casa de Domingos de Abreu<br />

Vieira, estava hospedado o padre Rolim, então já circulando livremente,<br />

embora ainda vigorasse o decreto de sua expulsão da capitania. O padre<br />

Toledo tinha largado sua paróquia na vila de São José del Rei desde<br />

outubro e, em pleno Natal, manteve seu irmão Bento à testa <strong>dos</strong><br />

festejos da matriz de Santo Antônio, preferindo ficar também por Vila<br />

Rica com chegadas casuais a Mariana. Era hóspede do desembargador<br />

Gonzaga, assim como o coronel Alvarenga Peixoto. Este, no entanto,<br />

praticamente só ia lá para dormir, preferindo passar a maior parte do<br />

seu tempo na casa de Macedo. O padre José Correia da Silva, de Sabará<br />

era hóspede do bispo Pontevel na rua Nova. O rico guarda-mor dr.<br />

Francisco Pais de Oliveira Leite, tinha vindo de Mariana e era hóspede<br />

de seu cunhado José Álvares Maciel, o pai. O ouvidor da comarca de<br />

Sabará, José Caetano César Manitti, também estava na capital, visitando<br />

os amigos. Volta e meia acontecia um jantar na casa de Cláudio Manuel<br />

da Costa, mas lá só iam as pessoas mais chegadas. Mas animação<br />

mesmo era na casa do comandante Freire de Andrade que, àquela<br />

altura, estava muito entusiasmado com a inconfidência, patrocinando<br />

sucessivos encontros para tratar da conspiração. Ele poderia estar<br />

promovendo tais encontros no sítio de seu sogro que ficava muito<br />

próximo e era muito mais discreto. Mas não estava muito preocupado<br />

em esconder o que estava acontecendo, realizando os encontros mesmo<br />

na sua casa da rua Direita, no meio da agitação, a poucos metros do<br />

palácio. Está certo que normalmente o governador não estava lá, mas<br />

isso também não fazia a menor diferença pois ninguém lhe fazia mesmo<br />

segredo e seu ajudante de ordens, Francisco Antônio Rebelo<br />

acompanhava tudo de local muito privilegiado, ou seja: de dentro. Era a<br />

maior concentração de conspiradores por metro quadrado do país em<br />

to<strong>dos</strong> os tempos. Talvez só encontrasse rival em Paris, mais ou menos à<br />

mesma época. Mas lá o pessoal tinha que andar pelos esgotos e aqui<br />

tudo era muito natural.<br />

O ápice da articulação conspiratória aconteceu mesmo foi<br />

naquele memorável dia 26 de dezembro, quando ia ser fechado o plano<br />

militar do levante. O descuidado anfitrião marcou o início da reunião<br />

para as dezenove horas. Mas marcou um encontro preliminar às dezoito<br />

horas com presença apenas <strong>dos</strong> militares simpatizantes de alta patente.<br />

152


No geral, naquele dia tudo correu de forma um pouco desorganizada,<br />

com gente saindo e entrando até pelo menos as vinte e uma horas. Na<br />

verdade, aquele talvez não fosse o dia mais indicado pois todo mundo<br />

tinha compromissos diversos com amigos e parentes. Mas era uma data<br />

significativa para alguns deles, inicia<strong>dos</strong> nos negócios da maçonaria.<br />

Assim, embora a contragosto de alguns, a data foi mantida. A reunião<br />

transcorreu como foi possível, mas no final o compromisso de to<strong>dos</strong><br />

foi selado com selos de liberdade, igualdade e fraternidade e alguma<br />

poesia.<br />

Na hora marcada para as preliminares, pontualmente lá estavam<br />

os principais oficiais da tropa paga inicia<strong>dos</strong> no movimento: os capitães<br />

Maximiano de Oliveira Leite e Manuel da Silva Brandão. O anfitrião ia<br />

iniciar a reunião falando da tática do levante. Informou que tinha<br />

discutido detalhes do mesmo com Tiradentes e aí havia uma certa<br />

dificuldade que queria colocar agora e obter a opinião <strong>dos</strong> demais<br />

oficiais. Recebendo pronta aprovação para expor a ideia, Freire de<br />

Andrade continuou. Disse que Tiradentes se propunha a assumir a ação<br />

de maior risco. Que previa ir ao palácio da Cachoeira à frente de<br />

revoltosos vin<strong>dos</strong> do Rio das Mortes e do Serro. Lá chegando renderia<br />

a guarda e desafiaria o ajudante de ordem Antônio Xavier Resende - o<br />

Cabeça de Escova - para um embate em que cortaria sua cabeça, com<br />

escova e tudo. Em seguida prenderiam o visconde e seria lida uma<br />

proclamação declarando a capitania liberta de Portugal e a instalação de<br />

um governo provisório. Na sequência desceriam à Vila Rica, onde ele,<br />

Freire de Andrade, aderiria aos revoltosos fazendo uma declaração de<br />

apoio, conclamando a tropa a fazer o mesmo com ajuda <strong>dos</strong> demais<br />

oficiais do seu partido. Para atemorizá-los, Tiradentes poderia mostrar a<br />

cabeça do tenente-coronel Resende. Em seguida prenderiam os<br />

eventuais oficiais ainda não simpatizantes e demais autoridades civis<br />

leais à Coroa Portuguesa. O último passo seria uma reunião no Senado<br />

da Câmara de Vila Rica onde Gonzaga assumiria a cabeça de uma junta<br />

governativa provisória. A única preocupação que teriam que ter era<br />

conter o ímpeto de Tiradentes na hora certa e neutralizar os militares<br />

que, àquela altura, ainda não tivessem tomado o partido da sedição.<br />

Com relação ao destino de Barbacena havia uma dúvida: alguns eram<br />

partidários da sua execução imediata, outros propunham sua expulsão,<br />

Paraibuna à baixo. Freire de Andrade contou ainda que Gonzaga e<br />

Cláudio Manuel até tinham outra alternativa diferente para o visconde,<br />

mas que não quiseram revelar ainda qual era. Esse particular detalhe<br />

153


teria que ser melhor aprofundado em conversas subsequentes, muito<br />

reservadas. Outra dúvida que existia era em relação ao momento de<br />

deflagração da revolta: ele era inteiramente favorável a vinculá-la ao<br />

lançamento da derrama, outras acreditavam que isso não era necessário.<br />

Terminada a exposição surgiram alguns pedi<strong>dos</strong> de<br />

esclarecimento de um ou outro ponto. Também preocupava a questão<br />

da formação do contingente de revoltosos que acompanharia<br />

Tiradentes à Cachoeira. O anfitrião esclareceu que eles seriam forma<strong>dos</strong><br />

por tropas arregimentadas por Alvarenga Peixoto, padre Toledo e padre<br />

Rolim, em suas fazendas respectivamente na Campanha do Rio Verde,<br />

em São José del Rei e no Serro do Frio. Também foram feitas<br />

perguntas sobre a organização da nova república. O comandante<br />

Andrade esclareceu que esses assuntos seriam trata<strong>dos</strong> em reuniões<br />

paralelas por Gonzaga, dr. Cláudio, Alvarenga, o cônego Luiz Vieira e<br />

outros. Por último foi questionado como Tiradentes seria contido no<br />

seu habitual entusiasmo, caso não concordasse com uma solução mais<br />

amena para o destino do visconde e outros vassalos leais, como o<br />

intendente Bandeira e o escrivão Carlos José da Silva. O anfitrião<br />

explicou que esta questão estaria a cargo de Gonzaga por quem o<br />

alferes tinha grande respeito. Ao final to<strong>dos</strong> acharam o plano militar<br />

simples e muito racional e satisfatoriamente seguro. Tirando alguma<br />

inesperada reação de Tiradentes, o seu ponto nefrálgico era mesmo a<br />

adesão da tropa em Vila Rica, mas disso ninguém duvidava. Até porque<br />

eles que ali estavam naquele instante faziam parte do grupo <strong>dos</strong><br />

principais líderes militares da capitania. Além disso, os contingentes <strong>dos</strong><br />

revoltosos seriam três vezes superiores à tropa e isso sem dúvida,<br />

desanimaria os mais afoitos. A considerar ainda que não havia um só<br />

barril de pólvora nos armazéns reais de Vila Rica e seria loucura<br />

enfrentar a sabre uma tropa em relação de três por um. Enfim, não<br />

havia restrição quanto ao plano militar. No final até acabaram se<br />

surpreendendo com a fragilidade de sustentação do poder da Coroa<br />

Portuguesa, justamente em sua capitania mais rica e mais rebelde. E<br />

encerraram a reunião preliminar de forma muito descontraída e<br />

confiante. Ficou pendente apenas a fixação da data do início do levante.<br />

Tal questão seria vista com a turma esperada para o segundo turno do<br />

encontro, onde a questão da vinculação com a derrama seria melhor<br />

debatida. Freire de Andrade acompanhou os capitães até o topo da<br />

escada, a se despedir deles. No meio da descida deram com Joaquim<br />

José da Silva Xavier que chegava adiantado para a segunda parte da<br />

reunião. Cumprimentou-os com uma saudação um tanto debochada e<br />

154


subiu encontrando o anfitrião que o esperava com um sinal positivo de<br />

que seu plano tinha sido aprovado. Enquanto esperavam os demais<br />

conspiradores, o alferes e o tenente-coronel conversaram<br />

animadamente como velhos parceiros que eram desde que cumpriram<br />

juntos uma missão no Rio de Janeiro, anos antes. Tiradentes contou<br />

que tinha agitado muito ultimamente e conseguido vários aliciamentos<br />

em São João del Rei, São José e em Vila Rica. Insistiu que do Rio das<br />

Mortes deveria partir o grosso das forças rebeldes pois contavam com a<br />

vantagem de praticamente não haver tropas do governo ao longo do<br />

caminho e que, assim, poderiam subir direto para o palácio da<br />

Cachoeira do Campo, concentrando os rebeldes na Fazenda <strong>dos</strong><br />

Caldeirões antes do assalto final à guarnição do palácio. Outra parte <strong>dos</strong><br />

rebeldes iria diretamente para Vila Rica em pequenos grupos para<br />

induzir o apoio do povo e forçar a adesão da tropa. Contou que estava<br />

trabalhando a própria guarda do palácio. Também falaram um pouco<br />

sobre a adesão do Rio de Janeiro num movimento mais amplo. Havia<br />

certas divergências entre eles em relação a este ponto, mas acabaram<br />

concordando que a coisa deveria começar em Minas e que depois se<br />

pensaria em como fazê-lo passar a outras capitanias, mas certamente o<br />

alferes deveria estar à frente desta propagação.<br />

Embora não tivesse gostado da ideia de ter rebeldes<br />

acantona<strong>dos</strong> em sua fazenda, Freire de Andrade, como de hábito,<br />

mostrou grande entusiasmo com a disposição de Tiradentes. Contudo,<br />

deu uma de comandante e evitou entrar em detalhes quanto ao lado<br />

ardiloso do plano, ou seja, o destino de Barbacena e as articulações<br />

reservadas de Maciel, Gonzaga e dr. Cláudio.<br />

Quando os demais conspiradores começaram a chegar, foi com<br />

esse entusiasmo que o anfitrião recebeu, um a um, para o animado<br />

conventículo que misturava planos militares, rituais maçônicos, récitas<br />

literárias e celebrações natalinas. Mas não podia ser diferente com gente<br />

tão heterogênea numa capital tão cosmopolita. Tiradentes era o que<br />

mais falava e ninguém saia sem uma manifestação de<br />

comprometimento que ele fazia questão de cobrar de cada um dizendo<br />

que, se to<strong>dos</strong> fossem do ânimo dele, nada haveria que pudesse dar<br />

errado, com ou sem derrama e qualquer que você a reação de<br />

Barbacena. O anfitrião o estimulava e pedia a cada um que escutasse o<br />

alferes com atenção. Assim foi com os padres Toledo e Rolim, José<br />

Álvares Maciel, “um doutor pequeno das partes do Sabará”, um doutor<br />

155


de Minas Novas e outros que lá estiveram, muitos <strong>dos</strong> quais, autênticos<br />

<strong>coimbrãos</strong> muito reserva<strong>dos</strong>.<br />

O ápice da concentração ocorreu por volta de vinte horas. Foi<br />

então que notaram a ausência de Alvarenga Peixoto que tinha ido para a<br />

casa de João Rodrigues de Macedo mas prometera que não se atrasaria<br />

para a reunião. O padre Toledo resolveu mandar-lhe um bilhete<br />

dizendo que o estavam esperando. Era perto e o mensageiro só teve<br />

que descer a rua Direita, entrar na de São José e bater na casa do<br />

contratador. Encontrou Alvarenga no meio de uma animada partida de<br />

cartas em que ele, como de costume, estava perdendo, engrossando sua<br />

dívida com seus parceiros sempre tolerantes. Mas to<strong>dos</strong> gostavam<br />

muito da companhia do caro poeta. Chovia muito e ele respondeu que<br />

assim que a chuva diminuísse iria ao encontro da turma, o que de fato<br />

fez, inebriado com a ideia do levante. Mas isso só ocorreu cerca de uma<br />

hora depois, quando quase todo mundo já tinha ido embora.<br />

Encontrou uma plateia minguada mas ainda animada. Tiradentes lá<br />

ainda estava e incansável declinou o plano mais uma vez. Ouviu de<br />

Alvarenga o compromisso de que podia contar com a ação <strong>dos</strong> cem pés<br />

rapa<strong>dos</strong> que tinha na fazenda da Campanha do Rio Verde e que logo<br />

estariam prontos para a ação. Ele até ficaria em Vila Riva um pouco<br />

mais para trabalhar nas leis do novo estado com Gonzaga e Cláudio<br />

Manuel. Em seguida, discutiram um pouco alguns assuntos adicionais<br />

como a localização da capital, as características da bandeira da nova<br />

república e a estratégia para se obter a adesão de outras capitanias. O<br />

último item da pauta previa a discussão sobre a data do início do<br />

motim, mas todo mundo já estava meio cansado e o assunto não<br />

chegou a ser muito debatido. De qualquer forma, prevaleceu a tese de<br />

Freire de Andrade e ficou confirmado que ele só ocorreria apos o<br />

lançamento da derrama. Na sequência, o coronel Alvarenga não perdeu<br />

a oportunidade de recitar seu Canto Genetlíaco. Daí pra frente o<br />

conventículo tomou jeito de um animado sarau, inclusive abrilhantado<br />

pela presença de Gonzaga que chegou inesperadamente no final. Ele<br />

não tinha tido a intenção de participar daquela reunião, mas estava<br />

voltando de um jantar na casa do intendente Bandeira e resolveu subir<br />

um pouco. E assim se encerrou o memorável encontro, com uma<br />

apoteose ufanista e romântica. Brindou-se ao ano novo que se<br />

aproximava e aos novos tempos de liberdade na capitania das Minas do<br />

ouro e do diamante. Foi um grande acontecimento, mas certamente<br />

muitos teriam preferido faltar a ele se soubessem que tinham perdido a<br />

chance de gastar to<strong>dos</strong> os momentos do último final de ano de suas<br />

156


vidas em liberdade, junto de suas famílias. Nos anos seguintes a maioria<br />

delas seria transformada em trágicos aglomera<strong>dos</strong> de órfãos e<br />

deserda<strong>dos</strong>.<br />

17<br />

A PROPÓSITO DAS ARDILOSAS PEÇAS DO VISCONDE<br />

As relações que Barbacena estabeleceu entre as primeiras<br />

denúncias da inconfidência e sua decisão de suspender o lançamento da<br />

derrama, são extremamente confusas e é aí que fica mais evidente que<br />

ele tinha algo a esconder e que foi protagonista de um jogo obscuro,<br />

manuseando fatos e documentos. Aliás, ele era contumaz manipulador<br />

de datas, buscando fazer crer que certas decisões suas foram causadas<br />

por fatores que, muitas vezes, na realidade tinham ocorrido depois da<br />

decisão e não antes. Vários autores interpretam como simples vaidade<br />

as suas disputas e desentendimentos com o vice-rei Luiz de<br />

Vasconcelos a respeito da apuração e punição do crime de lesa<br />

majestade. Está certo que ele realmente era vai<strong>dos</strong>o e sua mania de se<br />

autoelogiar continuamente parece pueril. Mas sua disputa com o tio tem<br />

outro motivo mais direto: ele simplesmente tinha medo de que o vicerei<br />

pudesse apurar aquelas coisas comprometedoras em que estava<br />

metido e o entregar de bandeja a Melo e Castro. Particularmente parece<br />

que o visconde guardava verdadeiramente, enorme receio da reação do<br />

Ministério da Marinha e Ultramar de Portugal caso suspendesse a<br />

derrama sem um motivo muito forte. E tinha razão pois seu teimoso<br />

titular, embora tivesse se assustado com a inconfidência e tivesse<br />

elogiado a reação de Barbacena posto que taxando-a de retardada, não<br />

deixou de ironizar a falta de argumentos mais detalha<strong>dos</strong> e consistentes<br />

para justificar sua decisão de suspensão da cobrança das quase oito<br />

toneladas de ouro do quinto atrasado. Afinal, isso representou uma<br />

perda irreparável e a voracidade arrecadatória da Coroa nunca mais teve<br />

o mesmo vigor. Essa perda, sem dúvida, fez parte das grandes<br />

frustrações que Melo e Castro levou para o túmulo. Podemos perceber<br />

isso no ofício que enviou a Barbacena comentando aqueles<br />

extraordinários acontecimentos. Ele era extremamente detalhista e<br />

perspicaz e isso está amplamente demonstrado na carta. Nela ele avalia<br />

as decisões do visconde e as associa, minuciosamente, aos fatos da<br />

inconfidência e aos parágrafos da sua carta de 1788, contendo as<br />

instruções de governo. Formalmente o conteúdo da carta não faz uma<br />

157


oa avaliação do desempenho do visconde mas, na verdade, até que<br />

houve muita tolerância do ministro para com seu parente indireto.<br />

Lendo a carta que Barbacena enviou a Martinho de Melo e<br />

Castro com seu detalhado relatório sobre a conspiração, verificamos<br />

outro jogo duplo do visconde. Na carta ele tenta demonstrar ao seu<br />

temido chefe que, ao receber a denúncia de Silvério <strong>dos</strong> Reis, não teve<br />

outra alternativa senão suspender imediatamente a derrama, diante da<br />

terrível ameaça que pairava sobre os interesses de Sua Majestade.<br />

Paralelamente, tenta se justificar por ter tomado a decisão, confessando<br />

candidamente que, se a denúncia fosse infundada, de qualquer forma<br />

Sua Majestade poderia reverter a decisão. 135 Do outro lado, à Câmara de<br />

Vila Rica tenta convencer que a questão tinha sido debatida com a Junta<br />

da Fazenda e que ele chamou exclusivamente a si a responsabilidade<br />

pela suspensão da derrama, sensibilizado pela inexequibilidade da<br />

medida e contrariando expediente do procurador da Coroa que a teria<br />

requerido à Junta, como era sua obrigação. To<strong>dos</strong> os méritos mais uma<br />

vez para o visconde. Em nenhum momento, enfim, ele quis que o povo<br />

associasse a suspensão com a inconfidência, temendo que a plebe se<br />

sentisse manipulada e não acreditasse nas suas boas intenções e, o que<br />

seria bem pior, pegasse em armas achando interessante liquidar logo a<br />

questão com um pouquinho de sangue azul português.<br />

Vejamos aqui o jogo de datas da suspensão da derrama. No dia<br />

17 de março a Câmara de Vila Rica protocolou a carta do governador a<br />

ela endereçada, comunicando sua decisão da suspensão e essa é a única<br />

data autêntica com que podemos contar. Ele datou a carta de 14 de<br />

março mas nada pode comprovar que ela tenha sido efetivamente<br />

escrita nesse dia. A distância entre o seu gabinete e a sede da Câmara de<br />

Vila Rica podia ser percorrida em poucos minutos e, em sendo assim, a<br />

carta, não obstante sua enorme relevância, teria dormido em sua gaveta<br />

por dois longos dias. 136 Nesse intervalo, muito convenientemente,<br />

135 Na verdade ele sabia, como ninguém, que ela não era infundada, mas disso não<br />

podia dar o menor indício pois, convenhamos, suas informações tinham sido obtidas<br />

de forma nada ortodoxa.<br />

136 Está certo que o dia 14 de março de 1789 caiu num sábado, mas isso não pode<br />

explicar o retardo. Antes pelo contrário, era um dia normal de trabalho (os ingleses<br />

ainda não tinham inventado a semana inglesa) e ele até estava em Vila Rica pois era<br />

um <strong>dos</strong> poucos dias que ele ali dava expediente.<br />

158


Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis caiu do céu delatando a inconfidência.<br />

Porque Barbacena datou a carta de 14 de março? Por um único e bom<br />

motivo. Sendo este o dia em que a Junta se reuniu para tratar do<br />

assunto, ele quis convencer que sua decisão tinha se baseado no<br />

conteúdo daquela reunião ainda que, oficialmente, nada tivesse ficado<br />

decidido. Com o agravamento do quadro geral pela suposta denúncia<br />

ocorrida do dia 15 de março, para o ministro ele teria tomado a decisão<br />

certa na hora certa, ou seja, assim que recebeu a denúncia. Para o povo<br />

teria tomado a decisão antes da denúncia, portanto não tinha nada a ver<br />

uma coisa com a outra. 137 Penso até que ele não deve ter tolerado a<br />

mais leve insinuação de que pudesse haver uma relação entre o<br />

projetado levante e o aborto da derrama. Somente para Melo e Castro<br />

ele fez tal vinculação, e torceu para que ele não discordasse.<br />

É difícil saber se a delação de Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis foi<br />

efetivamente feita na data anunciada pois ela só foi formalizada no dia<br />

19 de abril. Mas como fonte de novidade que provocou a crucial<br />

decisão isso é irrelevante já que, nosso indeciso governador sabia da<br />

conspiração muito antes. De qualquer forma, podemos entender com<br />

confortável grau de certeza, que em mea<strong>dos</strong> de março Barbacena sentiu<br />

que não dava mais para sustentar aquela situação delicada. Assim, jogou<br />

com os da<strong>dos</strong> que estavam à sua frente no que era indiscutivelmente<br />

hábil, embora não conseguisse enganar muito bem nem o ministro<br />

Melo e Castro nem o vice-rei Luiz de Vasconcelos que, às vezes, o<br />

achavam imaturo e petulante. Mas como eram caros parentes, havia<br />

uma margem de risco que o visconde sabia que podia correr.<br />

É provável que Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis tenha efetivamente<br />

visitado Sua Excelência em 15 de março (com ou sem intenção expressa<br />

de fazer a denúncia) e que Barbacena tenha visto nessa visita a<br />

oportunidade de ouro que buscava para justificar a suspensão da<br />

derrama e iniciar a repressão, definindo de vez o seu claudicante<br />

partido. 138 Silverino era um excelente ator para o papel: era iniciado no<br />

137 Claro que ele não enganou nem um nem outro: o ministro nunca deixou de julgálo<br />

um tanto lerdo e o povo não estava dando a mínima bola para o motivo da<br />

suspensão da derrama, o que não queria mesmo era passar pelo vexame de ter que<br />

pagar o maldito imposto. O visconde só conseguiu enganar mesmo foi a alguns<br />

historiadores mais distraí<strong>dos</strong>.<br />

138 Detalhe a ser lembrado: esse dia foi um domingo e me parece pouco provável que<br />

Sua Excelência se dispusesse a receber Silverino no seu dia de descanso, à sombra das<br />

159


premeditado levante, estava em desespero, era notório mau-caráter e<br />

toparia qualquer negócio. Melhor oportunidade para um acordo escuso<br />

era impossível. Então ele já teria duas denúncias e ambas verbais pois,<br />

àquela altura, ele não queria mesmo aceitar denúncias escritas para ficar<br />

mais à vontade sobre o que fazer com elas, aguardando um pouco mais<br />

o desenrolar <strong>dos</strong> acontecimentos. A de Brito Malheiro, posto que<br />

antecedente à de Silvério <strong>dos</strong> Reis, o visconde certamente não quis usar<br />

pois ele era um notório marginal com vários crimes pesa<strong>dos</strong> nas costas<br />

inclusive homicídio. Além do mais, estava meio por fora do assunto.<br />

Joaquim Silvério não representava nenhuma flor de conduta mas, era<br />

um pouco menos sujo e mais crível, dada sua posição dentro do<br />

próprio movimento. A denúncia de Malheiro não tinha muito lastro<br />

pois se baseava em muito disse-que-disse, oriundo de conversas por ele<br />

ouvidas nas ruas de Vila Rica. De qualquer forma, aquilo era tudo de<br />

que Barbacena dispunha naquele momento quando a avalanche de<br />

delações com que ele foi contemplado ainda não tinha se produzido.<br />

Assim, teve que fabricar uma denúncia mais apropriada e para melhor<br />

lastreá-la, nosso dissimulado visconde teve, mais uma vez, que<br />

manipular as datas, quando os dois primeiros denunciantes as<br />

formalizaram por escrito. Assim garantiu uma posição antecedente de<br />

Silvério <strong>dos</strong> Reis nos autos, muito embora a data de emissão da sua<br />

carta-denúncia tenha sido posterior a de Brito Malheiro. Ele fez isso<br />

simplesmente permitindo que Silvério <strong>dos</strong> Reis datasse sua carta de 11<br />

de abril embora a tivesse efetivamente escrito e entregue no dia 19<br />

daquele mês. A de Brito Malheiro está datada de 15 de abril. 139 Com<br />

certeza, ele deve ter querido retardar o recebimento da carta de<br />

Malheiro mas deve ter achado arriscado pois este, há tempos vinha<br />

batendo na porta do palácio com sua denúncia na mão. Aí entrou com<br />

o manjado jogo de datas pois a delação de Silvério <strong>dos</strong> Reis seria a peça<br />

chave de caracterização do delito, conforme o próprio governador<br />

idealizou. Foi nela que nosso nobre visconde se baseou para decretar as<br />

primeiras prisões e remeter os prisioneiros ao tio, sem que se tivesse<br />

fron<strong>dos</strong>as árvores do quintal do palácio da Cachoeira. A menos que o delator tenha<br />

sido chamado ou pelo menos tenha sua visita considerada uma grata surpresa.<br />

139 O próprio visconde deve ter acabado concluindo que esse jogo era meio infantil,<br />

tanto que mais tarde preferiu valorizar mais a denúncia verbal, produzindo um<br />

atestado que garantia que a delação de Silvério <strong>dos</strong> Reis tinha mesmo sido a primeira.<br />

160


instaurado qualquer processo judicial em Minas. Ele visou<br />

especialmente a Tomás Antônio Gonzaga e consoante o quadro<br />

pintado na delação de Silverino o prendeu primeiro, logo na madrugada<br />

do dia 23 de maio.<br />

A denúncia de Brito Malheiro, ao contrário da de Reis, é esparsa<br />

e na sua quase totalidade se limita a nomear um elenco de pessoas que<br />

ouviram ou falaram casualmente do movimento. Pouca gente citada<br />

pelo famigerado tenente-coronel <strong>dos</strong> Auxiliares do Paracatu foi<br />

efetivamente punida. Mas, como reportagem de interesse sociológico,<br />

seu testemunho prestado no dia 16 de junho de 89 na casa do<br />

desembargador Saldanha, ratificando termos da carta denúncia; até que<br />

é muito interessante. Ilustra como o assunto do levante era público e<br />

notório. Parece que Brito Malheiro realmente tinha notável vocação<br />

para espião. Gostava de ficar ali nas imediações da Ponte <strong>dos</strong> Contos<br />

escutando as conversas. Na parte de baixo do palacete de Macedo<br />

funcionava uma sortida loja onde sempre rolava um bom papo a<br />

qualquer hora, mesmo porque, naquele tempo o pessoal não tinha<br />

mesmo muito do que se ocupar e ficava proseando grande parte do dia.<br />

Entre vários casos sobre o tema, o delator contou que por lá andou<br />

Tiradentes mostrando um recenseamento demográfico de Minas e<br />

dizendo que na capitania havia quatrocentos mil habitantes, to<strong>dos</strong><br />

açoita<strong>dos</strong> por um só homem e chorando como negros. 140 Ou seja,<br />

nosso alferes não deixava passar uma chance de ilustrar sua indignação.<br />

Isso deve ter sido por volta de janeiro ou fevereiro de 89, quando dá<br />

para perceber que seu ânimo estava se exacerbando e ele vinha se<br />

tornando um pouco mais radical e irritado com o marasmo geral.<br />

Num outro dia - conta Malheiro - viu Luiz Viera apeando de<br />

um cavalo e se dirigindo à entrada da casa de Macedo. Interceptou-o e<br />

perguntou pelas novidades, no seu jeito enxerido. O cônego também<br />

não perdeu a chance de soprar a sua brasa e foi logo contando uma<br />

história desairosa sobre o governador que ouvira no caminho de<br />

Soledad. Revelou que por lá tinha passado um mensageiro de<br />

Barbacena em direção do Rio de Janeiro portando quarenta mil<br />

cruza<strong>dos</strong> que o governador havia subtraído ao erário e estava<br />

140 Expressão que nas Minas Gerais do século XVIII não chegava a ser politicamente<br />

incorreta.<br />

161


mandando para Portugal. 141 O delator certamente arregalou os olhos,<br />

riu um rizinho de prazer e anotou a indiscrição num papelzinho de<br />

embrulho que pediu a Antônio Ferreira da Silva, o dono da tal loja do<br />

lado da entrada do palacete.<br />

Mas vamos ao outro dedicado delator. Imaginemos uma cena<br />

muito verossímil: No dia 15 de março, Silvério <strong>dos</strong> Reis, desesperado,<br />

vai ao palácio pedir a ajuda de Barbacena para enfrentar a intimação que<br />

tinha recebido da Junta da Fazenda, a propósito da sua monumental<br />

dívida do contrato de arrecadação <strong>dos</strong> impostos de entradas. Àquela<br />

altura o governador já tinha finalmente decidido tomar partido,<br />

fortificando sua claudicante lealdade para com a Coroa e ia suspender a<br />

derrama, inviabilizando o sonho <strong>dos</strong> amigos. Mas não tinha bases muito<br />

sólidas para justificar medida tão extremada, com o semblante<br />

carregado do ministro Melo e Castro à assombrá-lo. Paralelamente, o<br />

intendente Gregório Pires Bandeira vacilava em requerer o lançamento<br />

do imposto, deixando o governador imobilizado, impossibilitado de<br />

suspender o que de direito nem existia. Isso teria sido feito finalmente<br />

no dia 14 de março e quando, no dia seguinte, Barbacena viu Silvério<br />

<strong>dos</strong> Reis naquela desesperada situação, sentiu que ali tinha o resto do<br />

que precisava. Revelou a um perplexo Silverino que já sabia de tudo,<br />

deixando o contumaz inadimplente inteiramente prostrado a seus pés, à<br />

beira de um ataque de nervos. Terá proposto um contrato de risco que<br />

o potencial delator prontamente aceitou. O governador suspenderia a<br />

derrama, apontaria Joaquim Silvério como o primeiro denunciante e<br />

pediria prêmios para ele, implícito o perdão da sua angustiante e<br />

impagável dívida. Silverino não teve a menor opção diante da sua<br />

terrível condição e aliás nem se preocupou com isso: a proposta era<br />

irrecusável. Num primeiro momento a denúncia seria guardada como<br />

verbal, sem nenhum risco quanto ao seu conteúdo pois era preciso<br />

aguardar a evolução <strong>dos</strong> fatos. Quando fosse necessário ela seria<br />

formalizada com o conteúdo que Barbacena julgasse conveniente. Em<br />

seguida o delator-mor, devidamente instruído, seria enviado ao Rio de<br />

141 Dizem que João Rodrigues de Macedo participou dessa operação, ou cedendo o<br />

dinheiro ou ajudando na discreta remessa. Estava altamente credenciado para qualquer<br />

uma das duas hipóteses, já que, além <strong>dos</strong> vultosos negócios que mantinha em Minas,<br />

ele dispunha de ativos canais de comércio com o Rio e a metrópole onde tinha irmãos<br />

agiotas. Como o cônego era muito amigo do contratador, pode haver algum fundo de<br />

verdade na história.<br />

162


Janeiro para, pessoalmente, pôr o vice-rei à par <strong>dos</strong> inacreditáveis<br />

acontecimentos. E foi exatamente o que aconteceu. A única coisa com<br />

que não contavam é com o detalhe de que o vice-rei achou Silvério <strong>dos</strong><br />

Reis muito pouco digno de confiança e o meteu na cadeia. Lá ele<br />

permaneceu até janeiro do ano seguinte, deixando o visconde em<br />

permanente tensão e em conflito com o tio desconfiado. No princípio,<br />

como vimos, Barbacena quis minimizar a relevância do fato. Afinal ele<br />

apenas queria se servir dele para reforçar, junto a Melo e Castro, a<br />

pertinência da sua decisão de suspender a derrama e, se possível,<br />

encerrar o assunto por ai, obstando o rastreamento do próprio rabo.<br />

Assim, não quis formalizar as denúncias antes de mea<strong>dos</strong> de abril. Mas<br />

não deixou de alertar Silvério <strong>dos</strong> Reis de que ficasse de prontidão pois<br />

se precisasse formalizar a delação, mandaria chamá-lo. Creio que, como<br />

razão imediata, o fez porque ficou receoso do vice-rei não acreditar<br />

muito na sua informação e não mandar os reforços militares que ele,<br />

àquela altura, necessitava desesperadamente. Este até socorreu o<br />

sobrinho, mas permaneceu com um pouco de dúvida, tanto que<br />

retardou a prisão de Tiradentes. Mas, sem embargo, ficou algumas<br />

semanas um tanto descrente, demorando em responder as cartas do<br />

governador e instigando sua insônia. Somente no dia 20 de maio é que<br />

Barbacena recebeu a primeira carta do vice-rei manifestando<br />

oficialmente seu conhecimento do caso. Aí ele já sabia das prisões<br />

efetuadas no Rio e já tinha decidido começar a agir pra valer.<br />

É extremamente sugestiva uma passagem da carta que<br />

Barbacena mandou ao tio vice-rei, dando conta da conspiração. É nela<br />

que ele busca minimizar a repercussão do fato, tentando, com toda a<br />

candura do mundo, dar um tratamento meramente administrativo a um<br />

grave crime de lesa-majestade. Para ele seria bom que tudo aquilo fosse<br />

visto apenas como um justificado motivo para ele não lançar a derrama<br />

e, assim, não ter que aguentar a barra consequente. Paralelamente, uma<br />

ajudazinha militar seria bem vinda, para tranquilidade geral hoje e no<br />

futuro. Vamos à passagem:<br />

Nesses termos, acho conveniente dar logo parte, a ser para ocorrer<br />

com as providências necessárias e ordenar o que for servida,<br />

remediando-nos entretanto e acudindo com os meios interinos que<br />

estiverem na nossa mão. E tirar daqui e do Brasil os cabeças do<br />

motim que se puderem descobrir, sem maior aparato, dando a<br />

entender causa ou culpa diversa ou não dizendo o porque. E<br />

163


sobretudo, isto te asseguro: que se as ditas providências não forem<br />

eficazes será infalível a desordem mais anos menos anos, pela<br />

liberdade e má criação em que está este povo, e pela implicância que<br />

têm os negócios públicos e particulares com a sua vaidade. 142<br />

Ou seja, as preocupações do visconde, pela ordem eram:<br />

• obter socorro imediato para as ameaças do presente,<br />

• expulsar os agitadores da capitania,<br />

• obter recursos para prevenir os riscos do futuro.<br />

Nada a ver com severas punições para o gravíssimo delito.<br />

A tese de que Silvério <strong>dos</strong> Reis tivesse sido induzido a fazer sua<br />

delação, também me parece bem fundamentada. Nesse sentido há uma<br />

interessante passagem no depoimento do padre José Lopes de Oliveira,<br />

prestado em 30 de junho de 1789, pouco notada pelos historiadores e<br />

que reforça a suspeita de que o delator principal pode ter procurado o<br />

visconde em mea<strong>dos</strong> de março, por outros motivos que não o de fazer<br />

sua delação. Diz o padre que o traidor passou pela sua fazenda em<br />

março de 1789, na ida e no retorno da Cachoeira do Campo onde tinha<br />

ido para falar com o visconde de Barbacena. E Conversaram sobre o<br />

reservado assunto em que eram inicia<strong>dos</strong>. Diz ele:<br />

E quanto a estas Minas, ouviu ele, testemunha, nos princípios do mês<br />

de março do ano presente, ao coronel Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis, que<br />

estava para nelas se haver um levante, entrando muitas pessoas nele; e<br />

que posto ele, dito coronel, fosse de Portugal, estava pronto a seguir,<br />

porquanto bem podia ser essa terra um Império pelas riquezas que<br />

tinha (...) vindo aquele Joaquim Silvério logo à Cachoeira, onde se<br />

achava o Excelentíssimo Senhor General, voltou assegurando a ele,<br />

testemunha, que já não havia derrama, pois que tinha contado a Sua<br />

Excelência umas tantas coisas que ele entupira, mandando escrever às<br />

câmaras e suspendendo tudo. 143<br />

142 ADIM - v. 8 - pág. 158.<br />

143 ADIM – v. 1 - pág. 203.<br />

164


Isso indicia que quando Joaquim Silvério foi falar com o<br />

visconde ele ainda estava fiel ao movimento e deitando o seu conhecido<br />

discurso subversivo sobre as belezas e potências do Brasil. Porém,<br />

poucos dias depois, voltou mudado dizendo que tinha denunciado o<br />

movimento. Sem dúvida aconteceu alguma coisa inesperada naquele<br />

encontro que o fez mudar repentinamente de posição.<br />

Associada a esta questão está também um trecho do<br />

depoimento de Domingos de Abreu Vieira, feito aos devassantes de<br />

Barbacena no dia 27 de junho. Conta ele que Silvério <strong>dos</strong> Reis esteve<br />

em sua casa no mesmo mês de março para tratar de uma dívida havida<br />

entre eles. O delator chama-o a uma varanda e falou amplamente sobre<br />

o levante, sondando com interesse como estavam rolando os<br />

preparativos, ali em Vila Rica. Vale dizer, nos dias em que ele esteve na<br />

capital para falar com o visconde parecia totalmente dedicado a<br />

conspiração. Poucos dias depois voltou à casa do velho contratador e<br />

não tocou mais no assunto se limitando a acertar a tal dívida que tinham<br />

e ir embora. Ou seja, mudou claramente de conduta de um dia para o<br />

outro ao tempo daquela fatídica conversa com Barbacena. Aos<br />

devassantes do Rio de Janeiro o esperto delator disse que tinha ido<br />

espionar o velho contratador a pedido de Barbacena. Assim, tentou<br />

justificar não só a primeira visita como também a animação que<br />

mostrou ao reticente comparsa. Da segunda visita ele não falou.<br />

A versão da denúncia que Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis entregou<br />

ao vice-rei no Rio de Janeiro é uma notável peça de ficção, sucinta e<br />

objetiva capaz de invejar ao melhor inquérito policial possível de ser<br />

criado ao estilo de hoje em dia. Ali está o dedo do visconde com toda a<br />

nitidez e nos faz crer que tudo o que o delator maior escreveu foi<br />

realmente criado pelo governador. Dois pontos da denúncia são<br />

primorosos. Em primeiro lugar a ameaça de Barbacena ter a cabeça<br />

cortada pelos revolucionários que denota sua intenção de mostrar que<br />

tomou suas decisões sob terrível ameaça para si e sua família. Em<br />

segundo lugar a implicação capital de Gonzaga como autor dessa ideia,<br />

o que expressa uma intenção de desqualificar preventivamente a<br />

credibilidade do que ele pudesse falar, especialmente relevando o<br />

conteúdo daquela sua conversa esquisita com o visconde logo no dia<br />

seguinte ao da suspensão da derrama e que tomamos conhecimento na<br />

seção quatorze desta nossa coletânea.<br />

A denúncia, no geral, é uma peça endereçada substancialmente a<br />

apresentar Gonzaga como um feroz conspirador, coisa decididamente<br />

165


não confirmada no desenrolar <strong>dos</strong> autos, tanto que o ex-ouvidor<br />

acabou levando uma pena relativamente leve. 144 No entanto, o delator<br />

disse que ele era o indutor de Tiradentes, planejou a morte do visconde,<br />

era o aliciador do padre Toledo, estava fazendo as leis da república e era<br />

o autor do discurso a ser feito após a morte do visconde. Nem Danton,<br />

Marat e Robespierre juntos, fizeram tanto. 145<br />

É interessante notar que no seu depoimento aos devassantes do<br />

Rio de Janeiro, Joaquim Silvério introduz ingenuamente por sua conta,<br />

elementos que complicam a vida do visconde. Por exemplo, diz ele que<br />

o governador, após receber sua denúncia verbal, procurou fazer<br />

averiguações por conta própria e acabou achando indícios de que ela<br />

era fundada pois em várias vezes, entrou no quarto de José Álvares<br />

Maciel, surpreendendo-o a ler o famoso livro proibido sobre a<br />

independência americana. Preso no Rio, Silverino mal sabia que àquela<br />

altura Álvares Maciel ainda estava sob o teto de Barbacena e que nos<br />

meses seguintes, ele ainda tentaria protegê-lo e livrá-lo de envolvimento<br />

na conspiração. Esta passagem, dita no depoimento, não existe na<br />

denúncia escrita, apresentada ao vice-rei. Certamente não passaria pelo<br />

crivo prévio do governador.<br />

O visconde também fez jogo de datas com a carta denúncia do<br />

terceiro denunciante Ignácio Correia Pamplona. Ele assinou sua delação<br />

em 20 de abril e a encaminhou ao visconde por intermédio de seu<br />

compadre Carlos José da Silva, escrivão da Junta da Fazenda, que<br />

declarou a ter recebido no dia 02 de maio e entregue ao destinatário no<br />

mesmo dia. Mas Barbacena não a quis receber de imediato só a<br />

protocolando em 05 de maio, após exigir que Pamplona a viesse<br />

entregar pessoalmente e antes fizesse uma denúncia verbal antecipando<br />

o conteúdo da carta. A denúncia é restrita e, praticamente, só<br />

compromete o padre Toledo. Nesse tempo, Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis<br />

144 Não estamos querendo dizer com isso que ele não estivesse envolvido até o<br />

pescoço. Mas as provas de seu envolvimento não podiam aparecer pois o ligariam<br />

fortemente ao visconde, daí parecer leve a sua culpa com base apenas no conteúdo<br />

<strong>dos</strong> autos.<br />

145 Nos poemas escritos no cárcere em que fala da conspiração, Gonzaga parece se<br />

dirigir a Barbacena tentando convencer que Silverino o estava intrigando. A mim<br />

sugerem que o governador pode ter mostrado a denúncia de Silvério <strong>dos</strong> Reis ao<br />

poeta e dito que ela era uma prova cabal que ele tinha a intenção de traí-lo e que, desta<br />

forma, a parceria estava desfeita.<br />

166


já tinha chegado ao Rio de Janeiro e apresentando sua denúncia<br />

diretamente a Luiz de Vasconcelos. Com isso o Visconde, tendo a<br />

derrama confortavelmente suspensa, começava a por em prática seu<br />

plano de passar o pepino da conspiração para o vice-rei.<br />

Na sequência, várias foram as denúncias que o visconde aceitou,<br />

mesmo sem intenção de abrir uma devassa em Minas. A leitura dessas<br />

várias denúncias e <strong>dos</strong> depoimentos de muitas testemunhas nos<br />

demonstram que, por volta do mês de março do ano de 1789, quando<br />

Barbacena suspendeu efetivamente a derrama, a inconfidência era<br />

mesmo o assunto da moda pela capitania à fora. Então nem ele mesmo<br />

podia mais fingir que não sabia. Há fortes indícios de que o governador<br />

sabia da conspiração já por volta do mês de novembro de 1788. Pelo<br />

menos é o que insinua José Aires Gomes em um de seus depoimentos.<br />

Parece que ele contou ao padre Manuel Rodrigues da Costa que, num<br />

encontro com o visconde, pensou em comentar o assunto com o dito<br />

mas foi dissuadido pelo fiscal <strong>dos</strong> diamantes Luiz Beltrão de Gouveia,<br />

também presente, dizendo que Barbacena já sabia do fato e que iria<br />

tomar as providências(?) na hora certa. 146 Essa história sugere que<br />

também Beltrão pudesse tratar desse assunto na intimidade com o<br />

visconde. Claro que isso é mera hipótese, mas dá um certo sentido à<br />

tentativa de Barbacena de incriminar o fiscal na conspiração, quem<br />

sabe para se ver livre dele e do que ele sabia, assim como fez com<br />

Gonzaga e mais tragicamente com Cláudio Manuel da Costa. To<strong>dos</strong><br />

três eram homens de grande prestígio e credibilidade. Beltrão só não foi<br />

efetivamente envolvido por intervenção do vice-rei que, ao contrário,<br />

deve ter achado interessante mantê-lo por perto para usá-lo contra<br />

Barbacena, se necessário. Luiz Beltrão acabou seguindo brilhantemente<br />

sua carreira de fiel servidor de sua Majestade e em 1799 vamos<br />

encontrá-lo no alto cargo de chanceler da Relação do Rio de Janeiro.<br />

Afinal qual foi o real envolvimento do visconde com a<br />

conjuração mineira? Os historiadores são unânimes em achar sua<br />

conduta muito confusa, cheia de subterfúgios e simulações, que os<br />

casos que acabamos de apresentar, são exemplos. Muitos o consideram<br />

apenas omisso, outros juram que ele de nada sabia antes da delação de<br />

146 Também o padre José Lopes de Oliveira contou aos devassantes que, já em<br />

setembro, tinha ouvido da boca de Aires que estava para haver um levante em Minas e<br />

que o visconde sabia de tudo.<br />

167


Joaquim Silvério <strong>dos</strong> Reis. 147 O ministro Melo e Castro, se oficialmente<br />

não chegou a julgá-lo omisso, pelo menos o considerou distraído, por<br />

levar tanto tempo em perceber um movimento que sacudia às claras<br />

toda a capitania. Mas, como já era esperado, foi condescendente e<br />

apenas ralhou com ele e o mandou mudar-se para Vila Rica em lugar de<br />

ficar no palácio de campo da Cachoeira, curtindo um eterno verão.<br />

Tentando não ser ainda mais radical, acho impossível que o visconde<br />

não soubesse da conspiração, pelo menos desde mea<strong>dos</strong> de janeiro de<br />

1789 pois toda a elite de Vila Rica e muitos <strong>dos</strong> seus oficiais estavam<br />

envolvi<strong>dos</strong> e o caso era aberto e notório, com Tiradentes pregando à<br />

vontade e todo mundo mais ou menos relaxado. Acredito que ele,<br />

durante algum tempo, andou meio em cima do muro, observando,<br />

especulando e pensando em aderir ao movimento, depois acabou não<br />

tendo coragem e reagiu contra o dito, como era seu leal dever. Por fim,<br />

acabou decidindo que o movimento era “um temerário e abominável<br />

projeto de sublevação”. 148 É evidente que ele quis ocultar fatos e aí não<br />

tenho dúvidas de que o propósito era apagar os traços de sua própria<br />

presença na cena do crime.<br />

Porque pessoas como Gonzaga, Cláudio Manuel e Freire de<br />

Andrade se meteram nesta coisa perigosa, arriscando suas confortáveis<br />

situações? Certamente não foi porque ignoravam os castigos terríveis<br />

para um crime de lesa majestade. Parece que eles não tinham muita<br />

147 Em sua carta denúncia datada de 15 de abril, Brito Malheiro declara que: haverá dois<br />

meses pouco mais ou menos (ou seja, mea<strong>dos</strong> de fevereiro), esperei o mesmo ajudante de ordens<br />

Francisco Antônio quando vinha da Cachoeira a esta Vila e, na mesma estalagem das cabeças, falei<br />

com ele dizendo-lhe que era preciso Sua Excelência fazer uma exata averiguação do que se andava<br />

fulminando nas Minas e que averiguasse Sua Excelência bem; que saberia quem era uns e outros; e<br />

vendo eu que o dito ajudante de ordens me divertia a conversa, talvez por saber o mesmo que eu lhe<br />

queria dizer, instei dizendo-lhe que eu julgava que o caso estava mais adiantado; ele então me disse:<br />

tenha você fidelidade, e deixa que o Sr. Visconde não se descuida (...) e foi andando dizendo-me:<br />

deixa que nos falaremos. (ADIM, vol. 1 – pág. 100).<br />

É provável que Barbacena tenha tentado fugir de Malheiro como o diabo da<br />

cruz. Ele tinha fama de meio-louco e isso parece muito bem fundamentado. Quando<br />

o visconde mandou a carta do incômodo delator ao vice-rei, teve que justificar a<br />

passagem acima - o que fez porcamente - esclarecendo que Rebelo lhe tinha contado<br />

que Malheiro não havia sido muito claro quanto ao que tentava lhe dizer.<br />

148 Passagem da portaria do visconde de 12 de junho de 1789, mandando devassar o<br />

também, nas suas palavras, “gravíssimo delito”.<br />

168


coisa a ganhar, no entanto se envolveram claramente. Cláudio um<br />

pouco menos, mas os outros dois estavam envolvi<strong>dos</strong> até o pescoço.<br />

Talvez o tenham feito por julgar tudo aquilo uma aventura fascinante,<br />

com riscos controla<strong>dos</strong> que valiam pelo notável papel que assumiriam<br />

perante a história. Não será porque sabiam que o próprio visconde de<br />

Barbacena também estava achando a mesma coisa?<br />

18<br />

A PROPÓSITO DE ALGUMAS GLÓRIAS E FRUSTRAÇÕES DE<br />

CLÁUDIO<br />

Cláudio, brilhante Cláudio. Exerceu os mais altos cargos do<br />

serviço de Sua Majestade, como era a sua santa e justa ambição. Pela<br />

escolha agradecida <strong>dos</strong> conde de Bobadela – José Antônio à frente -<br />

assumiu a ilustre função de secretário de governo em 11 de agosto de<br />

1762. 149 Era a mais importante função política da capitania, exercida na<br />

antessala do gabinete do governador. Talvez Cláudio e seus condes<br />

bem-feitores planejassem que ele ficasse mais tempo. Mas Gomes<br />

Freire de Andrade morreria em 1º de janeiro de 1763, passaria o título<br />

de conde de Bobadela a seu irmão José Antônio Freire de Andrade mas<br />

não passaria seu grande prestígio. Parece que a Coroa queria menos<br />

conluio nos recônditos <strong>dos</strong> palácios de Vila Rica, mas não teve coragem<br />

de dizer isso a Freire de Andrade. Morto ele, feneceram os melindres.<br />

De sorte que o rei resolveu tirar <strong>dos</strong> próximos governadores a<br />

prerrogativa de nomear seu secretário e Cláudio teve que deixar o<br />

prestigioso cargo em 23 de setembro de 1765, cedendo o lugar ao dr.<br />

José Luiz Sayão, mandado diretamente de Portugal para ser secretário<br />

vitalício <strong>dos</strong> governadores mineiros, daí em diante. Mas o poeta serviu<br />

muito bem a dois governadores, entregando o cargo no meio do<br />

mandato de Luiz Diogo Lobo da Silva. 150 Secretário dedicado, viajou<br />

quatrocentas léguas pelo país do Jacuí à própria custa para regularizar<br />

ofícios e cartas de sesmaria ajudando a por ordem naquelas bandas<br />

149 Então era governador Gomes Freire de Andrade, mas como ele permanecia mais<br />

tempo no Rio de Janeiro, as coisas de Minas eram tocadas pelo irmão José Antônio.<br />

150 Foi governador de dezembro de 1763 a julho de 1768, quando assumiu o conde de<br />

Valadares.<br />

169


distantes e em desordem. Quando foi lançada a derrama de 1764, ele foi<br />

um <strong>dos</strong> primeiros a comparecer à Junta da Fazenda para quitar os<br />

40$000 que supostamente lhe cabiam. Sempre justo e sempre reto, e,<br />

pelo menos até então, sossegado com os excessos tributários da Coroa.<br />

Muito tempo depois que essas coisas todas aconteceram, muitos<br />

quiseram crer que Cláudio tivesse sido reconduzido ao cargo de<br />

secretário pela mão do conde de Valadares, em julho de 1768. Mera<br />

inferência leviana derivada do fato dele ter assinado o ato de posse do<br />

novo governador como testemunha, o que cabia usualmente ao<br />

secretário de governo. Contudo, como dito, Sayão já era secretário<br />

vitalício de governo da capitania de Minas Gerais e, de fato,<br />

permaneceria no cargo até sua morte em 1784. Não podia, pois,<br />

Cláudio ocupar o que já estava ocupado.<br />

A secretaria de governo era uma bela posição, porém, como já<br />

estava ocupada em caráter imutável, Cláudio resolveu perseguir o cargo<br />

de procurador da Junta da Fazenda, assim que ele vagou, em fevereiro<br />

de 1767. Ele já era procurador substituto desde 1760 mas, claro, queria<br />

melhorias. Suplicou mercê a Sua Majestade para nomeá-lo em caráter<br />

não só afetivo mas também vitalício. E mais, pediu um ordenado anual<br />

de 800$000, pois a remuneração proveniente apenas da cobrança de<br />

emolumentos nem cobria as despesas. Na verdade, com a sua petição<br />

Cláudio estava recorrendo de uma decisão do governador Luiz Lobo, o<br />

mesmo a quem já tinha servido e que, em lugar de efetivá-lo, como era<br />

esperado, nomeou o dr. José Dias Roza Maciel para a vaga de<br />

procurador efetivo. Parece estranho que o futuro inconfidente não<br />

tivesse obtido apoio do governador ao seu pleito. Razões foram<br />

levantadas mas há lacunas na historiografia e nada ficou muito claro.<br />

Será que Cláudio não era assim tão “afável e fagueiro” 151 a ponto de ter<br />

um desafeto no governador a quem servira por quase dois anos? Mas<br />

não se aquietou com aquela oposição: esfolou os cotovelos, gastou o<br />

solado <strong>dos</strong> sapatos em busca da ajuda de amigos influentes. Resultou,<br />

contudo, frustrada a sua súplica. O processo seguiu para Portugal e<br />

mais de dois anos depois, quando o rei pediu o parecer do governador<br />

– que então já era o conde de Valadares – Cláudio não recebeu nenhum<br />

151 Termos emprega<strong>dos</strong> por Rodrigues Lapa para descrever as características da<br />

personalidade de Cláudio Manuel que o mestre português gosta de pintar como um<br />

tanto ingênua e pie<strong>dos</strong>a.<br />

170


apoio consistente embora to<strong>dos</strong> elogiassem as suas letras, a sua<br />

probidade e a sua dedicação ao real serviço. Guardaria ele essa mágoa<br />

conservada para temperar as antissúplicas de vinte anos depois?<br />

19<br />

QUANDO OS HORIZONTES AINDA NÃO SE TINHAM<br />

TURVADO E ERAM PRAZEROSAS AS MANHÃS<br />

Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, apesar<br />

da diferença de idade, se identificavam muito bem. Glauceste sempre<br />

foi um dileto confidente e conselheiro de Dirceu, polindo a técnica<br />

arcadiana do poeta de Marília, mas não estorvando que ele extravasasse<br />

o espaço métrico do mestre, o que o discípulo fazia exuberante. Mas<br />

também gostavam muito de falar de política e economia em volta de<br />

suas mesas fartas e alegres. Acompanhar e palpitar na criação das Cartas<br />

Chilenas, que Gonzaga retomara com afinco naquele final de ano um<br />

tanto ocioso, era um deleite para o velho Cláudio. Assim que<br />

promoviam, um e outro, encontros quase diários para cultivar aquela<br />

prosa gostosa quando muitos outros amigos de conversa afiada,<br />

também eram convida<strong>dos</strong>. Amizades setecentistas de um tempo<br />

elegante de serenos <strong>coimbrãos</strong>.<br />

Naquela manhã, não muito cedo, de um dezembro chuvoso,<br />

vamos encontrar o dr. Cláudio na porta da sua casa, saindo para tomar<br />

café em companhia de Gonzaga e seus hóspedes falastrões da Comarca<br />

do Rio das Mortes. Parou na soleira, estendeu a mão para fora e depois<br />

de um segundo concluiu que a chuva estava muito forte para ele sair<br />

sem proteção, ainda mais que, ultimamente, vinha padecendo com<br />

aquelas velhas dores reumáticas que, volta e meia, o retinham na cama,<br />

especialmente nos dias chuvosos. Não tinha dispensando o capote ao se<br />

preparar para sair mas não era suficiente. Gritou pelo seu mulato que<br />

logo apareceu com uma espécie de guarda-chuva de tecido encerado<br />

que lhe segurou sobre a cabeça. Ele ainda apertou a gola do capote em<br />

torno do pescoço para garantir mais proteção. Subiram a pequena<br />

ladeira em frente a igreja de São Francisco de Assis, entraram na<br />

movimentada praça do pelourinho e no fundo eis já a casa de Gonzaga.<br />

Minutos depois adentraram o vestíbulo de piso de pedras, onde o<br />

171


anfitrião já estava a esperá-lo, enquanto Alvarenga e padre Toledo, seus<br />

hóspedes, ainda dormiam.<br />

Na verdade a casa nem era do poeta de Marília que, a bem <strong>dos</strong><br />

fatos, não tinha nenhum imóvel. Nem era hora de adquirir pois já<br />

estava de partida para a Bahia com Marília pela mão, docemente<br />

inebria<strong>dos</strong>. A casa era do estado, destinada ao ouvidor de Vila Rica mas<br />

ele, apesar de ter deixado a ouvidoria desde setembro, ali permanecia<br />

enquanto o novo ouvidor, desembargador Pedro de Araújo Saldanha,<br />

se arranjava de outro modo. Mas logo em seguida iria se mudar e já<br />

enchia baús com seus trastes particulares.<br />

Glauceste e Dirceu subiram as escadas estalando o tabuado com<br />

seus sapatos pretos luzentes de fivelas de pechisbeque. O anfitrião,<br />

como sempre, estava muito bem vestido, até exagerando um pouco<br />

para um simples café da manhã. Mas assim era ele e naquela ocasião<br />

não se concedeu usar nada menos do que o seu conjunto de véstia,<br />

casaca e calção cor de flor-de-pessegueiro, enriquecido por um<br />

pescocinho de cambraia com gravata de seda preta e camisa de punhos<br />

borda<strong>dos</strong>.<br />

Vencida a curta escadaria, os amigos adentraram a espaçosa sala<br />

localizada acima do vestíbulo, vazada por fartos janelões se abrindo<br />

para a praça. No centro havia uma comprida mesa de forro alvo de<br />

algodão com barras azuis, caindo generoso pelas bordas e com<br />

guardanapos no mesmo desenho, num combinado caprichoso. Estava<br />

repleta de utensílios de prata, fartos de queijos, geleias, pães, broas e<br />

mais farturas das fazendas de Cláudio e da cozinha de Gonzaga. Os<br />

dois poetas não se sentaram imediatamente, mesmo porque os outros<br />

convida<strong>dos</strong> não estavam presentes. Foram até a janela observar o<br />

movimento da praça e falar amenidades, guardando para daí a pouco os<br />

assuntos mais sérios. Havia muito alarido lá fora pois estava sendo<br />

montado um palco para um auto de natal. Mas não se detiveram muito<br />

tempo. Logo ouviram ruí<strong>dos</strong> de passos percutindo as tábuas do<br />

assoalho do corredor. Voltaram-se e se depararam com a figura alegre<br />

do padre Toledo, abrindo os braços em direção ao dr. Cláudio. Tinha<br />

chegado de Mariana na tarde do dia anterior e estava muito animado,<br />

falando mais do que o normal, o que não era pouco. Eles nem sequer se<br />

conheciam mas se trataram como se fossem velhos amigos. O padre<br />

elogiou os talentos do velho advogado que não tendo muito como<br />

retribuir perguntou pela família do seu interlocutor, por sinal numerosa<br />

e vivendo sob a batina do dito. Ele não se restringiu nem um pouco e<br />

172


espondeu prazeroso, falando de um por um, cheio de graça e afeto. E<br />

como eram muitos, a conversa se estendeu. Toledo também falou de<br />

sua desistência de ir para a Europa, animado que estava com aqueles<br />

planos de levante e mudança que ouvia por todo lado, becos e casas<br />

ilustres. Já ia pelos vinte minutos de falação quando Gonzaga resolveu<br />

apartear. Lembrou do café e convidou-os a se assentarem à mesa, antes<br />

que as quitandas esfriassem. Cláudio Manuel perguntou se não deviam<br />

esperar um pouco mais até que Alvarenga aparecesse, completando a<br />

mesa. O anfitrião desaconselhou a espera. Explicou que Alvarenga<br />

tinha chegado muito tarde da casa de João Rodrigues de Macedo.<br />

Assim, apesar da manhã já estar pelo meio, o descansado poeta do Rio<br />

das Mortes devia estar em sono profundo. Resolveram então começar a<br />

solene comilança. E assim fizeram, degustando gorduras e farináceos<br />

sem nenhum remorso e conversando anima<strong>dos</strong> e distantes de horários<br />

e compromissos. Minutos depois ouviram sonoras palmas à porta.<br />

Gonzaga se pôs alerta, levantou-se em seguida e fez um gesto com a<br />

mão como pedindo que interrompessem a conversa, no que foi<br />

prontamente atendido. Chegou discretamente à janela, olhou para baixo<br />

e divisou que quem batia era um oficial da cavalaria, mas não o pôde<br />

identificar da posição em que estava. Voltou-se, se assentou e aguardou,<br />

enquanto os outros sustentavam o silêncio, aproveitando para ocupar a<br />

boca com as delícias de um café colonial, autêntico em cada detalhe.<br />

Poucos minutos depois, a fiel criada apareceu avisando que o alferes<br />

Joaquim José lhe desejava falar. Gonzaga imediatamente fez um sinal<br />

negativo, meneando a cabeça com um ar aborrecido. A criada,<br />

previamente instruída de como proceder naquelas ocasiões se retirou, a<br />

cuidar de dispensar o alferes mais uma vez. Cláudio Manuel aprovou<br />

inteiramente a negação do dono da casa. Aliás, ele próprio vinha<br />

recomendando esta cautela, desde que tinha aceitado receber o oficial<br />

em sua casa e após uma curta conversa, tinha se convencido que ele<br />

andava meio que alucinado. Mas resolveu confessar que Tiradentes lhe<br />

havia passado algumas ideias para criação de uma bandeira que eram<br />

muito originais e até interessantes. Ia avançar no assunto mas se deteve.<br />

Eis que irrompe na sala o coronel Alvarenga, surpreendendo a to<strong>dos</strong><br />

pois não o esperavam tão cedo. O poeta ouviu o dr. Cláudio falar sobre<br />

o assunto da bandeira e não perdeu a oportunidade de antecipar que<br />

estava guardando uma frasezinha de Virgílio, muito apropriada para ser<br />

estampada no novo pendão. Mas não deu continuidade ao assunto.<br />

Apertou a mão de Cláudio, assentou-se na cabeceira, no lado oposto ao<br />

do anfitrião e justificou a quase intromissão. Explicou, bem humorado,<br />

173


que tinha levantado mais cedo pois não estava conseguindo se manter<br />

na cama. Sentia-se muito agitado. Tinha ouvido as vozes na sala de<br />

jantar e resolveu se vestir e dar as caras. Cláudio perguntou o motivo da<br />

dita agitação. Mas foi o padre Toledo quem resolveu responder.<br />

Confessou que também andava assim. É que dali a dois dias ia haver<br />

uma reunião na casa de Freire de Andrade, onde seriam trata<strong>dos</strong> novos<br />

detalhes daquela importante matéria de que vinham se ocupando. A<br />

essa revelação o dr. Cláudio sentiu um certo desconforto e olhou para<br />

Gonzaga com um pouco de aflição. Este devolveu um olhar<br />

condescendente mas nada comentou. O padre percebeu a troca de<br />

olhares e se calou, discreto e respeitoso. O velho advogado então se<br />

levantou foi até a janela, se debruçou um minuto e olhou novamente a<br />

praça. Depois se voltou para a sala e, sentindo que havia obtido e clima<br />

que queria, comentou em tom de gravidade que toda aquela<br />

movimentação era muito perigosa. Era preciso cautela, evitar<br />

ajuntamentos. Falou de Tiradentes. Lembrou que ele tinha chegado do<br />

Rio das Mortes e já andava feito corta-vento, parando todo mundo<br />

pelas ruas para passar o seu discurso com ideias de levante. Também<br />

lhe parecia que Freire de Andrade estava ficando muito atiçado, se<br />

expondo em demasia.<br />

Então foi a vez de Alvarenga falar. Contou que deveria se<br />

encontrar com o alferes naquela noite e que Cláudio e Gonzaga<br />

também deviam falar com ele e orientá-lo no que julgassem prudente.<br />

As coisas andavam mesmo agitadas e não se falava em outra<br />

coisa na casa de João Rodrigues de Macedo. Não dava mais para<br />

segurar, o lançamento da derrama se avizinhava e a hora era agora.<br />

Também na casa do coronel Abreu Vieira se vinha conversando sobre a<br />

questão, onde o padre Rolim na condição de hóspede do velho<br />

contratador, recebia Tiradentes e Freire de Andrade para tratarem do<br />

projeto do levante. Tudo tinha tomado um vulto que não havia mais<br />

retorno.<br />

Falaram um pouco mais na matéria com Cláudio tentando<br />

conter o entusiasmo <strong>dos</strong> outros dois, enquanto Gonzaga permanecia<br />

mudo e nem um pouco tranquilo. Depois de um certo tempo de<br />

debates de entusiasmo e de moderação, o padre Toledo fez menção de<br />

se levantar e deixar a mesa pois tinha uns encontros a respeito daquele<br />

mesmo tema apaixonante. Cláudio Manuel também se levantou. Mas<br />

sua intenção não era sair, pelo contrário queria é que Alvarenga não<br />

acompanhasse o padre. Tinha intenção de continuar aquele assunto,<br />

porém sem que Toledo estivesse presente. Assim se aproximou e posou<br />

174


a mão no ombro do poeta, coronel e fazendeiro de São João del Rei<br />

que prontamente entendeu a intenção do seu colega coimbrão. Os três<br />

poetas então remanesceram, ciscando ainda preguiçosamente a mesa do<br />

café, esperando padre Toledo deixar a casa o que aconteceu dali alguns<br />

minutos. Então foi a vez de Gonzaga falar pela primeira vez. Dirigin<strong>dos</strong>e<br />

a Alvarenga explicou que ele e Cláudio Manuel tinham um plano<br />

diferente mais sutil e de menor risco. Sobre tal questão vinham<br />

conversando também com o dr. Diogo de Vasconcelos. Revelou que<br />

pretendiam envolver o próprio Barbacena na aventura da libertação <strong>dos</strong><br />

vínculos de Portugal e que até já tinham conseguido uma abertura para<br />

isto. O visconde era pessoa de mente aberta, ambicioso, tinha algumas<br />

fortes frustrações pessoais e sabia que o regime colonial português<br />

precipitava em grande decadência. Era plenamente capaz de enxergar<br />

objetivamente as vantagens da questão. Informou ao atento Alvarenga<br />

que tiveram um encontro recentemente com o visconde, pedido por<br />

ele. Desde então, ele e Cláudio intensificaram um mister de rascunhar<br />

leis e planos econômicos para uma nova ordem que pretendiam<br />

apresentar a Barbacena, trazendo-o para dentro do projeto. Revelou,<br />

também, que o governador gostava muito de conversar com Álvares<br />

Maciel e que frequentemente nessas conversas tocavam naquela<br />

questão. O dr. Cláudio reforçou as palavras de Gonzaga. Acrescentou<br />

que eles estavam pensando em forçar um outro encontro com<br />

Barbacena para voltar ao assunto, nas próximas semanas. Além de<br />

Maciel, o ajudante de ordens Francisco Antônio Rebelo, francamente<br />

simpático à ideia, também vinha servindo de elo de ligação. Mas temiam<br />

que aquela movimentação descuidada de Tiradentes e Freire de<br />

Andrade pusesse tudo a perder, espantando o visconde. Alvarenga<br />

Peixoto ouviu tudo com muito interesse e ao final ficou muito feliz.<br />

Quem sabe, a partir do visconde se poderia acomodar uma linha de<br />

governantes nobres no estado republicano do Brasil. Esta ideia muito<br />

agradava ao poeta sonhador. No mais ela não era nem um pouco<br />

incompatível com os planos de levante da turma de Tiradentes pela qual<br />

ele tinha crescente simpatia e estava firmíssimo em comparecer ao<br />

encontro marcado para aquela semana na casa de Freire de Andrade.<br />

Assim que Gonzaga terminou, Alvarenga entrou a defender<br />

uma maior aproximação de <strong>mazombos</strong> e <strong>coimbrãos</strong>, sugerindo que um<br />

pouco de pressão podia estimular Barbacena, ainda mais sentido que<br />

não ia poder contar com o apoio da tropa, que devia ficar com o seu<br />

comandante rebelde. Sugeriu que fossem to<strong>dos</strong> à tal reunião na casa do<br />

próprio, inclusive para constatar que o discurso de Tiradentes estava<br />

175


muito mais claro e consistente, apesar dele continuar com aquele olhar<br />

espantado, assustando um pouco os seus interlocutores. Cláudio<br />

Manuel da Costa pediu cautela uma vez mais e repudiou prontamente a<br />

ideia de ir ao encontro. Mas se incumbiu de conversar com Álvares<br />

Maciel para acertarem uma forma de conduta que pudesse conciliar as<br />

duas linhas de ação, sem assustar Barbacena. Tomás Antônio Gonzaga<br />

prometeu pensar em comparecer ao conventículo do comandante<br />

Freire de Andrade. Tinha recebido um convite para jantar na casa do<br />

intendente Bandeira no mesmo dia da reunião, mas talvez na volta<br />

desse uma passada por lá. Ignácio José de Alvarenga Peixoto confirmou<br />

que não faltaria ao encontro por nada deste mundo e até já tinha<br />

marcado o início do jogo de cartas com Macedo um pouco mais cedo<br />

para não se atrasar. Despediram-se com um convite do velho poeta<br />

para que daí a três dias fossem tomar o café da manhã em sua casa.<br />

Talvez até aproveitassem a ocasião para trocar algumas ideias sobre a<br />

bandeira proposta por Tiradentes. Saíram juntos e na rua tomaram dois<br />

rumos opostos. Gonzaga desceu na direção da casa de Marília e<br />

Cláudio o acompanhou até a esquina da sua casa. Alvarenga Peixoto<br />

tomou o lado contrário e subiu a rua em direção à praça. Pensava em<br />

passar na casa de Freire de Andrade para devolver um livro que tinha<br />

tomado emprestado e conversar um pouco sobre a palpitante matéria,<br />

assunto dominante naquele inesquecível verão. O céu estava um tanto<br />

escuro prometendo tornar complicado um dia que havia começado<br />

com um lauto café da manhã, como ainda era costume naquele final de<br />

ano, de expectativas e horizontes ainda cheios de esperanças.<br />

20<br />

A PROPÓSITO DE CAUSAS, RAZÕES, MOTIVOS E EMOÇÕES<br />

A Inconfidência Mineira, evidentemente, não foi um<br />

movimento solto no tempo e no espaço, fruto de simples devaneios e<br />

delírios. Ao contrário, certas particularidades do universo político,<br />

econômico e cultural da época e do lugar justificam to<strong>dos</strong> aqueles<br />

acontecimentos. Olhando pelo lado econômico há de se notar que a<br />

economia mineira então já ensaiava romper com a decadência do ciclo<br />

do ouro e buscava construir um modelo agrícola-manufatureiro voltado<br />

para o próprio mercado interno da capitania. A visão de uma economia<br />

176


mineira autossuficiente, com certeza teve muito a ver com a motivação<br />

da libertação colonial que impulsionou o movimento.<br />

Há de se notar também que, ao contrário <strong>dos</strong> patriarcas<br />

monoculturistas e exportadores do litoral, a economia da capitania das<br />

minas estava na mão de magnatas dedica<strong>dos</strong> a negócios varia<strong>dos</strong>, que<br />

residiam nas vilas e não raro tinham se graduado em Portugal.<br />

Possuíam, portanto, uma formação urbana e moderna que as amarras<br />

de um regime colonial decadente não poderiam mais conter. Eis aí dois<br />

importantes pilares das causas estruturais da Inconfidência Mineira. Mas<br />

confesso que não estou muito empenhado em tratar aqui das condições<br />

estritamente econômicas. Mesmo porque, creio que seria um<br />

desperdício enfatizar aspectos estruturais que possam ter dado lugar a<br />

um acontecimento histórico marcante, quando temos tantas intimidades<br />

setecentistas expostas diante <strong>dos</strong> olhos, tal qual nos revelam os autos do<br />

crime. Seria como ter a chance de ver a rotina da própria História<br />

acontecendo e não aproveitar. Assim, prefiro abordar meu objeto pelo<br />

lado do cotidiano, pelo prisma do detalhe, pelo exame das biografias,<br />

pelas conversas informais havidas em dias pouco usuais, típicos de um<br />

século que tinha pressa com o parto do futuro. Esta opção até deve<br />

incomodar aqueles que consideram que um episódio histórico, para ser<br />

relevante, tem que cumprir certo estágio de maturação temporal e<br />

responder a certos quesitos de ordem contextual. É na falta de resposta<br />

positiva a alguns desses quesitos que muitos autores concluem que a<br />

Inconfidência Mineira foi um episódio menor. 152 Evidentemente,<br />

olhando também pelo lado político e cultural, como dito, a<br />

inconfidência não foi um acidente isolado, fortuito, casual; como de<br />

fato não o poderia ser um acontecimento de inserção histórica de tanta<br />

repercussão, ainda que para alguns injustificada. 153 Claro que estão<br />

152 A grande maioria das teses destinadas a provar que o movimento não foi tão<br />

relevante, se baseiam nos seguintes pontos: a) a independência americana não era um<br />

modelo de organização política para os inconfidentes, mas apenas mero exemplo<br />

romântico de uma libertação colonial bem sucedida (?); b) Não havia nenhuma ligação<br />

entre um eventual interesse de Tomas Jefferson por um movimento de independência<br />

no Brasil e o episódio mineiro (?), c) A ideia de república não era uma opção muito<br />

clara, (?) d) o movimento era circunscrito a Minas Gerais sem proposta visível para o<br />

resto do Brasil (?), e ... a preferida: faltavam verdadeiros heróis.<br />

153 Muitos consideram pífias as consequências da Inconfidência Mineira. Mas sem<br />

dúvida, como bem mostrou Kenneth Maxwell , o movimento contribuiu para apressar<br />

o fim do modelo de administração colonial no Brasil, para o que também<br />

177


presentes as clássicas variáveis estruturais associadas a toda tentativa de<br />

ruptura política mais radical no século XVIII, aliás um período<br />

especialmente pródigo nesse tipo de coisa. Entre essas variáveis, no<br />

nosso caso específico, não podemos esquecer, de passagem, a completa<br />

exaustão da autoridade do estado português e sua total incapacidade em<br />

prover necessidades básicas e alimentar esperanças às aspirações <strong>dos</strong><br />

seus vassalos ultramarinos. Enfim, a condição de metrópole colonial<br />

tinha se tornado insustentável para o pequeno grande reino da<br />

península ibérica após a morte de d. João V. No caso ainda mais<br />

específico da capitania de Minas Gerais isso tudo se agravava por conta<br />

de uma política fiscal destinada a sustentar com ouro e diamantes um<br />

modelo colonialista, econômica e politicamente anacrônico, decadente<br />

desde mea<strong>dos</strong> do século XVII que ganhou uma sobrevida com o ciclo<br />

do ouro mas que ruía lentamente, corroído por suas próprias<br />

contradições. Àquela altura da agonia, o quadro já era irreversível e,<br />

quanto mais riquezas Portugal extraísse das suas colônias, mais<br />

espetacular seria sua inexorável decadência, pois não há boa vela que<br />

salve um mau defunto, por mais Conventos de Mafra que se<br />

construa. 154 Tudo isso fica ainda mais evidente se lembrarmos que,<br />

pouco mais de trinta anos após a Inconfidência Mineira, deu-se<br />

melancolicamente o fim do domínio colonial português no Brasil e o<br />

que é mais surpreendente: protagonizado por um <strong>dos</strong> seus próprios<br />

príncipes, o nosso imperador d. Pedro I. E da morte de d. João V à<br />

independência do Brasil o que assistimos foi uma decadência<br />

vertiginosa da nação portuguesa, em to<strong>dos</strong> os seus aspectos.<br />

De toda forma, repito, não pretendo tratar aqui das causas<br />

fundamentais ou estruturais da conspiração de Minas. Pela própria<br />

natureza novelesca deste livro, preferi uma abordagem tipicamente<br />

existencial onde o que mais atrai é a dimensão trágica <strong>dos</strong><br />

acontecimentos e as opções pessoais que levaram a ela. Assim,<br />

interessa mais o conjunto das motivações estritamente individuais que<br />

contribuíram a morte de Melo e Castro, poucos anos depois e principalmente o<br />

esgotamento do anacronismo da política que ele teimava em sustentar.<br />

154 Estou me referindo ao convento palácio que d. João V mandou construir em<br />

Lisboa, tangido pelo entusiasmo das suas incontroláveis tendências freiráticas. Ali<br />

enfiou boa parte do ouro do Brasil.<br />

178


em tão pouco tempo empurraram tantos homens poderosos a uma<br />

fronteira perigosa e de forma tão descontraída.<br />

Evitando mergulhar muito na dimensão infinita <strong>dos</strong> motivos<br />

pessoais, penso ser possível identificar uma vertente motivacional<br />

comum a impulsionar os descontentamentos da época e a alimentar<br />

fortes desejos de mudança. Falo da questão representada pela opressão<br />

do estado absolutista sobre o indivíduo. Este traço perverso da<br />

organização sociopolítica e econômica da dominação colonial tinha<br />

chegado ao seu limite nas Minas Gerais do final do setecentos. Por<br />

outro lado, as pessoas começavam a ouvir falar que a felicidade podia<br />

ser um bem universal e não apenas uma dádiva que Deus reservou aos<br />

reis e baronetes e que eles, via de regra, não gostavam de compartilhar<br />

com os mau-nasci<strong>dos</strong>. Assim diziam os ilumina<strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong>, assim<br />

ouviam os <strong>mazombos</strong>.<br />

Muitos autores, especialmente aqueles que gostam de diminuir a<br />

estatura <strong>dos</strong> inconfidentes, gostam de tratá-la como uma revolução de<br />

endivida<strong>dos</strong>. Até pode ter sido, como pode ter sido uma revolução de<br />

poetas, intelectuais ou reles oportunistas. Por este caminho, ela também<br />

pode ser vista como um levante de contratadores de impostos que,<br />

independentemente da pressão sobre suas dívidas para com a Coroa,<br />

tinham se deixado seduzir pela ideia de que a riqueza que passava pelas<br />

suas mãos bem que podia mudar de dono. 155 Mas to<strong>dos</strong> esses rótulos<br />

são muito limitadores e não trazem muita luz ao objeto.<br />

Pelo ângulo das motivações pessoais, por to<strong>dos</strong> os la<strong>dos</strong> que se<br />

olha, o perfil <strong>dos</strong> inconfidentes se mostra heterogêneo, exceto por um<br />

lado. Mazombos e <strong>coimbrãos</strong> tinham em comum algo muito<br />

epidérmico e evidente. E aqui não podemos resistir a tratar do ambiente<br />

psicossocial que envolvia o cidadão mineiro do terceiro quarto do<br />

século XVIII, compelido a ser temente a Deus e fiel vassalo de Sua<br />

Majestade. Basicamente, ou ele era um completo miserável, faminto e<br />

imbecil ou era um coitado (pobre ou rico) indignado, achacado por uma<br />

avalanche de impostos, taxas e emolumentos e que acabava tendo a<br />

Coroa e a Igreja como dois sócios majoritários, vorazes e cruéis. Na<br />

155 A ideia de abrir o real serviço à certa parcela da plebe partiu do marquês de<br />

Pombal. Em parte ele tinha razão pois Portugal vinha carecendo de gente capaz<br />

dentro <strong>dos</strong> seus quadros nobiliárquicos. Mas isso acomodou confortavelmente os<br />

conflitos de interesse o que, para muitos, teria sido a principal causa da fantástica<br />

corrupção que tomou conta do estado português na segunda metade do século XVIII.<br />

179


verdade, quase todo mundo era devedor contumaz da Coroa ou entre si<br />

mesmos. Pela escassez de moeda, vender e comprar fiado era uma<br />

característica da economia mineira e era suficientemente usual para<br />

chamar a atenção de viajantes como Sait-Hilaire e Richard Burton ainda<br />

no século XIX. Mas isso estava placidamente acomodado na cultura da<br />

época e não fazia ninguém perder noites de sono. O problema não era<br />

dever, era não vislumbrar como produzir, receber, pagar e prosperar.<br />

Estado e Igreja travavam uma luta desigual contra o cidadão no<br />

palco iluminado com as luzes negras do absolutismo ao gosto lusitano,<br />

certamente meio atrasado e perverso.<br />

Há milênios que os reina<strong>dos</strong> vinham se sustentando sobre o<br />

sangue <strong>dos</strong> seus fiéis vassalos. Mas aos poucos as pessoas foram se<br />

dando conta dessa miserável condição. E isso foi crescendo. De tal<br />

forma que no século XVIII a opressão do estado sobre o indivíduo<br />

tinha chegado ao seu limite e a razão iluminista já tinha posto o rei<br />

pelado e começava a rir dele. Na América Portuguesa, então, os<br />

tentáculos do rei plasmavam todo o aparelho da administração e o<br />

impregnava com um caráter extremamente personalista. Mandavam<br />

barões e baronetes. Estes, eram nobres ou plebeus desejosos de o ser. E<br />

o infortúnio de não ter nascido no berço certo podia ser precariamente<br />

remediado através da compra do Hábito de Cristo, titulo vendido pela<br />

Coroa para fazer os ricos se sentirem grandes. Autoritários e arrogantes<br />

eram não só os governadores como também os ouvidores, intendentes,<br />

comandantes, bispos, camaristas e os seus tantos aprendizes.<br />

Grassavam poderosas e amplas redes de influência e contrainfluência e<br />

de intrigas. A farta correspondência queixosa de servidores coloniais<br />

aos ministros e Sua Majestade são sobeja prova desse estado sufocante<br />

de disputas e maledicências. E assim viviam os vassalos, à margem<br />

dessas redes, permanentemente deserda<strong>dos</strong>; ou viviam dentro dela,<br />

correndo risco contínuo de represálias. Duros tempos de amplos<br />

deveres e parcos direitos.<br />

Mas acredito que, na capitania de Minas, no final daquele século<br />

complicado, uma espécie de protoconceito de cidadania já estivesse de<br />

fato colocado, embora não chegasse a alimentar o discurso<br />

revolucionário de forma tão explícita e abrangente quanto fazia na<br />

França na mesma época, plena de competentes propagandistas. É a<br />

comunhão, até inconsciente, deste conceito imperfeito, que acabava<br />

identificando os diversos inconfidentes, dando sentido à diversidade de<br />

seus perfis. Neste aspecto não parece apropriado pensar que a<br />

Conjuração Mineira fosse tipicamente um movimento das elites ricas e<br />

180


pensantes da capitania, autoconfiantes e isoladas no círculo das suas<br />

competências. Havia desembargadores, bacharéis e coronéis desejosos<br />

de mudanças, mas também havia alfaiates, estalajadeiros e fazendeiros<br />

rudes e ignorantes, mas plenamente dispostos a ouvir e entender o que<br />

esta elite dizia. To<strong>dos</strong> também tinham plena consciência do que faziam<br />

e estavam tão certos da legitimidade de fazê-lo que nem chegarem a<br />

avaliar com cautela os riscos que corriam.<br />

Em tendo que sintetizar o que, em essência, foi a Inconfidência<br />

Mineira, eu diria apenas que foi um movimento tempestivo mas um<br />

tanto circunstancial que resultou ser o fruto da combinação espontânea<br />

de fatores deflagradores relativamente desarticula<strong>dos</strong>, cuja vertente<br />

principal foi uma precoce consciência de cidadania a incomodar as<br />

elites da capitania de Minas Gerais em pleno século XVIII. 156<br />

Certamente já tinha se instalado um senso de nacionalidade que estava<br />

impulsionando esta raiz causal. Mas tudo isso já vinha ebulindo desde o<br />

princípio do século. Não sei que relevância esta constatação pode ter,<br />

mas talvez acabe servindo para demonstrar o quanto a ojeriza à<br />

opressão e à injustiça têm a ver com o avanço da humanidade. Trata-se<br />

do bom e velho sentimento de indignação. Essa é a matéria básica que<br />

permanece latente ou explode em função das ideias vigentes, do ânimo<br />

de seus propagandistas e até de alguns fatores puramente fortuitos.<br />

Não consigo enxergar um amálgama verdadeiramente<br />

ideológico a ligar os atores da Inconfidência Mineira, mesmo porque,<br />

como temos visto, eles formavam dois grupos distintos e distantes.<br />

Penso que identidade ideológica efetivamente não havia e, nesse<br />

aspecto, predominou o lado pragmático do discurso de Tiradentes e a<br />

disposição revolucionária acabou sendo sustentada basicamente na<br />

admiração pelo exemplo da independência americana da qual o cônego<br />

Luiz Vieira, do lado <strong>dos</strong> <strong>coimbrãos</strong>, era um grande entusiasta. Dado o<br />

significativo peso intelectual do cônego entre os inconfidentes, esta<br />

admiração vicejou sem percalços e agregou mais substância ao discurso<br />

do levante. Mas na essência, a linha que separava <strong>mazombos</strong> e<br />

<strong>coimbrãos</strong> continuou sempre existindo.<br />

Quanto à questão da república não creio que houvesse especial<br />

predileção por esta forma de governo, de resto não muito bem<br />

156 Está claro que as bases desta consciência diferiam muito de <strong>mazombos</strong> para<br />

<strong>coimbrãos</strong>.<br />

181


entendida naquele tempo. Claro que havia uma razoável intenção de<br />

ampliar os canais de participação popular mas a ideia básica era romper<br />

com Portugal e desmontar sua administração colonial obsoleta que<br />

tolhia a produção e o livre comércio. A melhor alternativa, ou talvez a<br />

única, era a tal de república. Mesmo porque os americanos ingleses já<br />

tinham demonstrado sua viabilidade como forma de organização<br />

imediata, após a ruptura do regime colonial.<br />

No mais, John Jay não estava dando a mínima para a<br />

independência do Brasil, a despeito da simpatia de Tomas Jefferson que<br />

acreditava que seus compatriotas pudessem ter compensações<br />

interessantes para prestar alguma ajuda, no mínimo, nos vendendo o<br />

bacalhau americano que, certamente, devia ser bem pior do que o do<br />

Porto. 157<br />

Mas há também motivações profundamente intimistas como as<br />

de Gonzaga, as quais Tarquínio José Barbosa Oliveira 158 atribui razões<br />

singelas do coração 159 ou de Cláudio, paradoxalmente interessado em<br />

experimentações políticas e econômicas de base puramente intelectual.<br />

Com certeza, a indignação diante da hera de corrupção que<br />

medrava pelas paredes da administração colonial, teve forte parcela de<br />

157 Aliás, Jefferson deve ter sido um <strong>dos</strong> responsáveis pelo notável pragmatismo<br />

comercial americano, como bom “pai da pátria” que era. Dizem as más línguas que ele<br />

emprenhava suas negras cativas e depois vendia os filhos como escravos. Mais<br />

pragmatismo comercial do que isso é impossível. Mas ele se interessou mesmo pela<br />

nossa causa e externou a Jay que achava mais interessante ajudar a independência do<br />

Brasil do que a do México pois, ao contrário de nós, aquele povo era muito atrasado.<br />

158 As Cartas Chilenas: Fontes Textuais.<br />

159 Segundo o arguto autor, Critilo teria se metido na conspiração, como consequência<br />

retardada da sua indignação pelo fato do governador Cunha Menezes ter afastado de<br />

Vila Rica, por ciúmes, o grande amor da vida do poeta: Maria Joaquina Anselma de<br />

Figueiredo: a Nise, a Laura, a Marília Loura. Pode ser um exagero, mas faz sentido<br />

para explicar porque Gonzaga se lançou a escrever mais freneticamente as Cartas<br />

Chilenas somente depois que Cunha Menezes foi embora e Barbacena assumiu o<br />

governo. Alguém tinha que pagar pelo coração partido de um poeta audaz. No final<br />

de 1788, seis meses sem sua amada, o ódio à pessoa que tirou Marília Loura <strong>dos</strong> seus<br />

braços, tinha virado ódio à instituição que gerou poderes para tal.<br />

Rodrigues Lapa tem uma visão bem mais ingênua sobre a Marília Loura,<br />

explicando que Gonzaga se imaginou casando com ela apenas para despistar a<br />

identidade de Critilo. Por essa visão, podemos deduzir que as grandes paixões do exouvidor<br />

seriam, pela ordem: as Liras de Marília, as Cartas Chilenas e por último, a<br />

Inconfidência. Coloco dúvidas nessa ordenação.<br />

182


contribuição na motivação <strong>dos</strong> inconfidentes, especialmente entre os<br />

<strong>coimbrãos</strong>. O sistema era intrinsecamente corruptivo e Tomás Antônio<br />

Gonzaga bem o mostra nos seus pasquins. Isso acontecia especialmente<br />

no governo da capitania de Minas Gerais, mergulhado numa burocracia<br />

altamente controlada e repressiva, com altíssimo custo administrativo.<br />

Também havia sempre a expectativa <strong>dos</strong> administradores de Sua<br />

Majestade pelo enriquecimento rápido e fácil, herança da cultura do<br />

ouro <strong>dos</strong> primeiros tempos quando bastava uma bateia e um córrego<br />

raso com cascalho rico para um aventureiro se enriquecer da noite para<br />

o dia. A própria nomeação <strong>dos</strong> governadores já era viciada e muita<br />

propina tinha que ser paga para o candidato ir a bom termo. Parece que<br />

o cargo atraia muito as nobres casas portuguesas à beira da falência.<br />

Assim teria sido com os Cunha Menezes e com os Furtado de<br />

Mendonça. De sorte que quando um novo governador chegava, sua<br />

primeira preocupação era saldar as vultosas dívidas que havia contraído<br />

nos gabinetes <strong>dos</strong> ministérios de Lisboa para ganhar o cargo. Quando o<br />

conde de Valadares terminou o seu mandato de governador de Minas e<br />

voltou a Portugal, passou a ostentar tamanha riqueza que acabou sendo<br />

advertido pelo futuro marquês de Pombal. Mas apenas teve que<br />

devolver uma pequena quantia à Coroa e tudo ficou por isso mesmo.<br />

Parece que Tiradentes tinha absoluta razão ao dizer que os<br />

governadores e seus lacaios chegavam, se enriqueciam em três anos e se<br />

iam. Por isso era tão bem e tão rapidamente compreendido.<br />

Indispensável nos referirmos aqui às causas da inconfidência<br />

pela ótica de Melo e Castro. Ele externou seu entendimento naquela<br />

carta que enviou a Barbacena em 1790, analisando, minuciosamente, a<br />

conduta do visconde e no geral, como vimos, ridicularizando-o.<br />

Obcecado pela questão da evasão de impostos ele entendia que a<br />

inconfidência tinha por único e casuístico propósito suspender o<br />

lançamento da vexatória cobrança da diferença <strong>dos</strong> impostos ajusta<strong>dos</strong>,<br />

através da derrama. Por isso a conspiração havia sido urdida de forma<br />

tão evidente. Tratava-se apenas de criar uma pressão virtual para<br />

obrigar o visconde a suspender a cobrança. Por esse aspecto o<br />

movimento tinha sido muito bem sucedido pois foi o que efetivamente<br />

aconteceu. O ministro, contudo, teve que reconhecer que Barbacena<br />

não dispunha de outra alternativa. Mas sem dúvida, achou que ele<br />

adotou essa alternativa com alguma precipitação e talvez até com certo<br />

entusiasmo. Em consequência, desafiou o governador a descobrir<br />

alternativas para recompor as perdas acumuladas pela Coroa desde<br />

183


1750. Ele não descobriu, Melo e Castro morreu um pouco antes que<br />

suas ideias para gestão <strong>dos</strong> negócios coloniais precipitassem em total<br />

inocuidade e nosso prezado visconde continuou à frente da capitania de<br />

Minas mais alguns anos, sem maiores percalços. Em parte deveu isso ao<br />

próprio Melo e Castro que deve ter desconfiado de muita coisa estranha<br />

que ele fez mas fingiu que não viu. O único castigo que impingiu ao<br />

visconde, como dito, foi obrigá-lo a se mudar para Vila Rica e prestar<br />

mais atenção ao que ia à sua volta.<br />

A avaliação de Melo e Castro parece lógica à luz <strong>dos</strong> seus olhos<br />

teimosos e cansa<strong>dos</strong>, mas não explica a participação de alguns <strong>dos</strong><br />

maiores líderes da conjuração que foram Tiradentes, e o cônego Luiz<br />

Vieira: tinham muito pouco a ganhar com a simples suspensão da<br />

derrama, assim o tal sonho de república, o que quer que fosse isso,<br />

devia realmente seduzi-los. Das motivações íntimas de Gonzaga e<br />

Cláudio já falamos.<br />

Sem embargo, a questão <strong>dos</strong> impostos e o custo <strong>dos</strong> serviços<br />

públicos terrenos e divinos teve grande peso na motivação geral. Senão<br />

vejamos. A primeira parte das instruções do ministro Melo e Castro a<br />

Barbacena, trata da questão das taxas cobradas pelos padres para prestar<br />

seus sacrossantos serviços aos seus paroquianos. Ao lê-las ficamos<br />

abisma<strong>dos</strong> com a farra perpetrada contra o pie<strong>dos</strong>o mineiro do século<br />

XVIII. Cobrava-se pela confissão, pela comunhão, pela extrema unção,<br />

pela missa, pelo batizado e tudo o mais. E sempre valores absur<strong>dos</strong>. O<br />

ministro tinha ficado preocupado com a questão e pediu que Barbacena<br />

moralizasse certos costumes nesta área. Essas questões tinham sido<br />

levadas várias vezes aos bispos mas eles, geralmente, não só mantinham<br />

as cobranças existentes como ainda criavam mais taxas. Mas Melo e<br />

Castro não estava preocupado com o povo, queria mesmo era se valer<br />

dessa situação para reduzir o valor da côngrua que o estado pagava aos<br />

padres. Já que eles estavam ganhando muito bem cobrando direto pelos<br />

seus serviços, o ministro pensava em reduzir o valor do salário anual<br />

<strong>dos</strong> padres de 200$000 para 50$000, ou seja, reduzir seu valor em 3/4.<br />

Nosso tenaz ministro da marinha e ultramar fazia juízo não<br />

menos desairoso em relação aos magistra<strong>dos</strong>, alertando Barbacena para<br />

a necessidade de agilizar e simplificar o andamento da justiça, evitando<br />

com isso a excessiva cobrança de taxas e emolumentos em processos<br />

artificialmente demora<strong>dos</strong> e tortuosos, exatamente para se tornarem<br />

mais ren<strong>dos</strong>os aos magistra<strong>dos</strong> e serventuários. Ou seja, não era só o<br />

quinto que vexava o cidadão mineiro setecentista. Pelo outro lado, ele<br />

184


tinha poucas oportunidades de ganhar a vida. O ouro estava no fim, as<br />

atividades manufatureiras eram proibidas e a entrada e saída de bens era<br />

ferreamente controlada e taxada nas passagens <strong>dos</strong> registros. Os<br />

impostos eram caros, os bens de produção idem, o crédito escasso, as<br />

oportunidades de renda também e assim ia-se vivendo como Deus é<br />

servido e a real vontade comovida. Mais opressão era impossível. 160<br />

Foi nesse ambiente quase de desespero que a ideia da<br />

inconfidência brotou e se espalhou rapidamente.<br />

Qual era particularmente a situação financeira <strong>dos</strong> principais<br />

inconfidentes? Quase to<strong>dos</strong> eles estavam basicamente dentro do quadro<br />

geral de penúria e medo. Não eram particularmente ambiciosos, vis ou<br />

caloteiros; eram simplesmente oprimi<strong>dos</strong>. Essa é a mola mestra que<br />

individualmente compele as pessoas a se engajarem em movimentos de<br />

ruptura política radical desde que o homem se organizou em tribos e<br />

alguns andaram mandando mais do que a comunidade precisava.<br />

Olhando por esse lado, a Inconfidência Mineira não tem a menor<br />

o