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11 months ago

Revista Curinga Edição 20

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Identidade Na linha do

Identidade Na linha do tempo do universo digital encontramos os mais diversos meios de comunicação, como o ICQ, Flogão e blogs, entre os anos de 1990 e 2000. Em 2004 surgiu o Orkut: plataforma que possibilitava ao internauta encontrar conexões com interesses em comum. “O Orkut tinha um intenso fórum de discussão nas suas comunidades e também incentivava aquela vontade de observar a vida alheia”, afirma Veroni, que credita o fim da plataforma aos inúmeros casos de crimes virtuais. No Brasil, o Orkut – que até então era recordista –, com 30 milhões de cadastros, foi ultrapassado pelo Facebook em 2011 – atual líder mundial –, com mais de 1,7 bilhão de usuários ativos no mundo, sendo mais de 100 milhões brasileiros. Quantos likes mudam uma vida? “A necessidade de aprovação e aceitação social é um fenômeno que nos acompanha ao longo da vida e não acontece apenas nas redes sociais”, afirma a psicóloga Rubia Cristina Braga. Durante a vida, buscamos personalidades que sejam referências comportamentais como parte do nosso aprendizado e descobrimento pessoal. Nessa nova plataforma de relacionamentos, há explicitamente uma necessidade de autoafirmação e construção de identidade à partir do reconhecimento, como se através de likes e número de seguidores, passássemos a pertencer à um determinado grupo social – semelhante ao daqueles que seguimos. A vaidade e a luxúria rondam o universo virtual quase que em uma disputa de padrões de beleza. Essa superexposição midiática pode acontecer em forma de promoção pessoal, propositalmente ou não. Nas redes, conhecemos os influenciadores digitais – blogueiros, youtubers e snapchaters – que fazem da internet um novo mercado de trabalho. É o caso das irmãs Mariany e Nathany Martins Petrin, 13 e 14 anos, respectivamente, donas do canal do Youtube Beleza Teen. Criado há 3 anos, os vídeos de maquiagem, desafios e dia a dia das meninas despertaram o interesse do público: hoje são mais de 2 milhões de inscritos – sendo sua maioria infanto-juvenil, dois livros publicados e um horário na TV local. Mas a fama, que veio ao acaso, ainda não faz parte da vida das blogueiras. “A gente não tem muita noção do que são dois milhões de inscritos, sabe?” conta Nathany. Apesar do carinho e reconhecimento dos fãs, as rotinas das irmãs não se alteraram, e as responsabilidades continuam sendo levadas de modo descontraído, sempre tentando transmitir atitudes positivas. “Estamos curtindo bastante esse momento. Não levamos como obrigação, é algo que gostamos de fazer”, afirma Nathany. Apesar da naturalidade com que encaram o reconhecimento, a fama exigiu um maior cuidado das meninas com a imagem. “Querendo ou não vai ter uma certa exposição sua, tanto de pessoas que estão vendo, quanto de pessoas que vão te parar pra tirar foto e publicar”, explica Mariany. Mesmo jovens, elas lidam bem com as críticas e têm consciência de quão perversa a exposição virtual pode ser. “Os haters são comuns em qualquer canal. A gente sempre apaga comentários mais pesados, não vale a pena ficar respondendo”, finaliza. O baile de máscaras Segundo a psicóloga Elen Cristina Pedrosa, “toda pessoa, dentro da sociedade, apresenta-se diante das outras representando vários papéis e manipulando as impressões que possam ter dela a partir de cada situação”. Complementando essa ideia, a psicóloga Rúbia Braga analisa que, no caso das redes sociais, apesar de termos o nosso perfil, estamos isentos do “olhar do outro”. Virtualmente, ganhamos a possibilidade de definir e editar novos e vários perfis. O ambiente virtual se tornou palco destas atuações. É a partir da “parede” entre o online e

o offline que encontramos coragem para extravasar emoções e repressões, além de expor nossas opiniões, quase como se o ambiente virtual fosse um escudo dessa intermediação. A tela se torna sinônimo de proteção e nos permite termos atitudes que, face a face, não teríamos, como é o caso dos bullyings virtuais. Em setembro de 2012, Vittoria de Andrade Perantoni foi alvo da infantilidade – como definido por ela – de quatro colegas de classe no Ensino Médio. Na época com 16 anos, a adolescente sofreu ataques anônimos em seu perfil no Ask Fm – plataforma onde as pessoas podem fazer perguntas anônimas ou identificadas em seu perfil. Os comentários de cunho gordofóbico e até sexual duraram em torno de três dias e só pararam após a intervenção da escola. O motivo? Desconhecido. “Eu não sei ao certo o que levou a isso. Quem convive com esse tipo de violência sabe que muitas vezes estes ataques ocorrem sem algum motivo específico. Não tinha rivalidade nenhuma com eles”, crava. Mas o fato de não se encaixar nos padrões estéticos, ser introvertida e ter a auto estima baixa foi o que encorajou os garotos que, na escola, já trocavam piadinhas internas e riam pelas costas da menina. “Tinha medo de sofrer algum tipo de ataque, mas de certa forma foi inevitável. A sensação que eu tenho é que eles sabiam o meu ponto fraco. Eu não me aceitava e usavam disso para me atingir”, relata Vittoria. Os ataques abalaram ainda mais a autoestima de Vittoria. “Durante uma semana só sabia chorar”. A mãe sofreu junto. A hipótese de mudar de escola surgiu, mas logo foi descartada pela adolescente. “Não era certo eu mudar, até porque não tinha feito nada. Passei a me impor, a ter voz e não aceitar ser tratada desta forma”. O tratamento psicológico foi fundamental para sua descoberta pessoal. “Depois disso comecei a me aceitar e a me amar, independente do meu corpo estar dentro dos padrões ou não. Me sinto mais confiante hoje em dia para ser quem eu sou e tomar minhas decisões.” Hoje com 20 anos e estudante de Direito, não se arrepende de não ter denunciado os ataques. “Eram menores. Eu só queria que eles pudessem tirar um aprendizado disso e se desculpassem de verdade, não que fizessem por obrigação”, finaliza. Crimes como o que aconteceu com Vittoria, categorizados como “Crimes contra a honra”, registram 16% das denúncias recebidas pela Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos de Belo Horizonte (DEICC). Em 2012, o número total de denúncias registradas foi de 1084 ocorrências. Quatro anos depois, o número é quase o dobro, atingindo a marca de 2139 ocorrências. Segundo o analista Wander, o Marco Civil da Internet trouxe a público discussões envolvendo segurança virtual, o que mostrou à sociedade que esses crimes são passíveis de punição e que a internet não é uma “terra sem lei”, justificando o aumento das denúncias. Outro ponto apontado pelo analista é o fato de existirem delegacias virtuais, espaços que possibilitam que os usuários reportem agressões, ofensas e até mesmo a prática de spam. O mundo virtual é um espelho no qual o nosso reflexo é distorcido e oscila entre a representação do real e aquilo que queremos que vejam de nós. Mas somos induzidos a pecar ou a internet é uma facilitadora para que essas ações aconteçam? Através das suas ferramentas, ganhamos a possibilidade de definir novos e vários perfis, formas de manipular os “eus” de acordo com nossos desejos. De acordo com a psicóloga Elen Cristina Pedrosa, “a expansão das redes sociais redefine, hoje, a maneira de viver em sociedade (interação, posturas, valores e formas de comunicação), modificando as noções de tempo e espaço, amplificando e pluralizando as relações”. As plataformas virtuais nada mais são que ferramentas que contribuem para novas formas de proliferação dos pecados. A escolha por não pecar segue inatingível. Já manipular os pecados, nem tanto. CURINGA | EDIÇÃO 20 17

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