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Revista Curinga Edição 19

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Identidade Habitar

Identidade Habitar Texto: Francielle Ramos Foto: Janaína Oliveira Arte: Paloma Demartini O dia inacabado O tempo é contável de diversas formas: em anos, semanas, meses, dias, horas, minutos, segundos. O tempo pode ser a oportunidade, a ocasião. O que foi aquele 05 de novembro de 2015? Aquele mesmo em que vidas se perderam, vidas desapareceram, vidas foram transformadas. O que é o tempo de agora em diante? Tempo em que vidas questionam, vidas nascem, vidas renascem.

Um ano. Período curto para quem teve que correr para se salvar. Período longo para quem está há um ano fora de casa. Tempo curto para quem foi embora sem se despedir. Tempo longo para quem ficou esperando por notícias dos entes queridos. O tempo em que vivemos é curto demais para conseguirmos as respostas. Um ano de mudanças e adaptações. 05 de Novembro de 2015. Rompe a barragem de Fundão. 19 mortes (17 adultos e duas crianças). 1.265 pessoas desabrigadas, 228 municípios atingidos na Bacia do Rio Doce, 3,5 milhões de pessoas afetadas. A lama arrasta uma gestante de três meses por quatro quilômetros, forçando um aborto. O tempo para e persiste na mente de muitas pessoas. O dia em que muitas vidas mudaram. O dia em que a lama tomou conta de lares, do rio, das matas, do mar, dos animais, da memória. 22 de Novembro de 2015. O rejeito chega ao mar. Polui o Rio Doce, um dos mais importantes da Região Sudeste, atinge diversas cidades e transforma a rotina de moradores, pessoas que dependem daquilo para viver… Não foi só o Rio Doce, a lama também danificou o Rio Gualaxo do Norte e o Rio do Carmo. Fontes de vida e sustento de milhares de pessoas. 23 de Fevereiro de 2016. Polícia Civil conclui o primeiro inquérito sobre o rompimento da Barragem da Samarco e pede prisão de sete pessoas. Primeira investigação daquilo que deixou marcas catastróficas, causando inúmeros danos. As acusações são pelos crimes de poluição de água potável, homicídio qualificado pelo dolo eventual (quando não há intenção, mas se assume o risco) e inundação. 09 de Março de 2016. O 18º corpo é encontrado na área da Barragem de Fundão. Tempo longo de procuras, de espera, de reconhecimento, de dúvidas. Mais uma vida que se foi, que vai deixar recordações. Continuam as buscas, ainda há uma vida perdida que não foi encontrada 07 de Maio de 2016. Futuro novo lar escolhido. Famílias decidem onde vai ser reconstruído Bento Rodrigues. Lavoura é o nome. Ainda é apenas um nome, uma terra. Solo que vai ser erguido casas, novas memórias, novas experiências. Novas vidas? É o curso que, geralmente, a vida faz. Continuar os ciclos, gerar novas lembranças. Esquecer as antigas? Jamais. 11 de Julho de 2016. Pela primeira vez, moradores de Bento Rodrigues homenageiam o padroeiro São Bento fora da Igreja centenária, que ficou soterrada no subdistrito. A missa foi celebrada na Capela de Santa Cruz, no Barro Preto, em Mariana. 28 de Julho de 2016. Suely Sobreira, 48 anos, é sepultada no cemitério da Igreja Nossa Senhora das Mercês, em Bento Rodrigues. Momento de prestar a última homenagem, da despedida, do descanso. Para cada pessoa tem um significado diferente e único e, parte da escolha pessoal como e onde será o fim desse ciclo. Suely vivia em Ouro Preto, mas Bento tinha um valor especial. É lá que a família também está enterrada. 03 de Setembro de 2016. Os moradores de Paracatu também decidiram onde será erguida a nova casa. Lucila, por 67 votos, ganha como novo terreno para se construir o futuro e reconstruir a comunidade. Novos dias, novas histórias. Recomeço, lembrança e esperança. O novo será vivido, com marcas do antigo, com marcas daquilo que levou até o novo. 24 de Setembro de 2016. Um momento de memórias e fé, moradores celebram festa de Nossa Senhora das Mercês. O que antes era um momento de alegrias e devoção, agora é de lembranças. Os moradores fizeram uma procissão pelas ruas cobertas de lama, acompanhados de uma banda. A imagem de Nossa Senhora das Mercês, retirada do local após o rompimento da barragem, foi trazida da arquidiocese para a missa. 31 de Outubro de 2016. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) inicia uma marcha, em Regência, distrito de Linhares (ES). A iniciativa enfatiza a importância da união dos atingidos em busca por seus direitos e passa por locais enxarcados pelo rejeito, até chegar à Mariana. É o caminho inverso da lama. Ela fez o percurso da destruição, o MAB faz o caminho de procuras, de entregas, da união. 02 de Novembro de 2016. Moradores de Bento Rodrigues voltam ao subdistrito para rezar pelos entes queridos que já partiram. A missa foi celebrada no cemitério da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. A vida de muitas pessoas está ligada a história de suas famílias, aos momentos já vividos e compartilhados. É o dia de recordar quem fez parte de cada história. Pessoas que contribuíram de uma forma específica com cada um daqueles que estão lá e deixaram suas marcas. 05 de Novembro de 2016. Um ano do dia em que vidas e locais foram invadidos e transformados. O coletivo “Um Minuto de Sirene” realiza um evento para rememorar o rompimento. Tempo de recordações, tempo de questionamentos, tempo de mudanças. Cada dia é um novo passo, uma nova forma para se recomeçar. O tempo daqui pra frente está em aberto. Novos segundos, minutos, dias, meses, anos. CURINGA | EDIÇÃO 17 CURINGA | EDIÇÃO 19 7

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