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7 months ago

Revista Apólice #213

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crescimento | previdência privada O segredo da poupança Quem pode fazer investimentos nos últimos anos agora vive um dilema: enfrentar a turbulência econômica e manter as reservas ou sacar o dinheiro da previdência privada Amanda Cruz Não é nenhuma novidade: o tempo é de crise. Os níveis de desemprego têm aumentado a cada dia, a onda de pessimismo parece que ainda deve demorar a se dissipar e, enfrentando esse caminho, até os brasileiros que antes poupavam agora tendem a abandonar alguns investimentos. O ano de 2015 teve saída recorde, com retiradas que superaram R$ 53,56 bilhões e rendimentos de apenas 8,15% no ano, menor que a inflação de 10,67%. Enquanto esse investimento, que é o mais seguro e responde ao conservadorismo do investidor médio brasileiro, sofreu depreciação, a previdência privada anda na contramão dessa tendência, conforme o relatório da FenaPrevi de maio de 2016. Entre os números mais importantes 20 estão os aportes em ambos os planos, VGBL e PGBL, que juntos contabilizam R$ 9,8 bilhões. Já a captação líquida, que é a diferença entre depósitos e resgates, foi positiva em R$ 5,4 bilhões. Esses resultados são excelentes e ficaram concentrados, principalmente, em planos individuais. Os contratos empresariais tiveram queda, o que, muito provavelmente, é um reflexo desse momento difícil. Ou seja, ao contrário do que seria possível deduzir, as pessoas não estão correndo para sacar suas economias, nem deixando de acreditar que poupar para o futuro é o melhor caminho para ter estabilidade financeira. Será que a mentalidade da população está realmente mudando e que a cultura do seguro, tão almejada por seguradoras, corretores e entidades do mercado, começa a fazer parte, efetivamente, da vida do brasileiro? Para Edson Franco, presidente da FenaPrevi, a estratégia do consumidor é, realmente, formar uma poupança de longo prazo para garantir a renda complementar na aposentadoria. Em tempos de crise e, consequentemente, queda de renda, as pessoas tendem a recorrer ao dinheiro mais líquido. “Os planos de previdência ficam por último e a tendência é de reduzir os saques”, explica Franco. Para ele, o bom desempenho da captação líquida é uma prova disso. Para Maristela Gorayb, diretora de Previdência e Vida Resgatável da Mapfre, vale ressaltar ainda que a cobrança de imposto de renda quando do saque de todo ou parte do capital acumulado pelo

participante de planos de previdência privada já é, por si só, um fator importante de inibição destas retiradas. “Além deste custo, ao fazer retiradas antecipadas os participantes consomem parte do capital angariado durante o período de contribuição e prejudicam o montante a ser recebido futuramente”, justifica a executiva. Seguindo essa linha, o comportamento em tempos de crise seria justamente o contrário. Ao invés de uma corrida desenfreada por saques, o consumidor se tornaria mais comedido. “Em cenários de instabilidade econômica, cresce a tendência de conservadorismo nos investimentos, o que também é refletido no cenário de previdência privada. Diante de incertezas na manutenção do emprego, muitos passam a investir em previdência com a intenção de oferecer boas condições para sua família no futuro, além de poder contar com uma reserva e renda em caso de imprevistos”, observa. Alexandre de Mattos Malho, superintendente comercial da Icatu Seguros, aposta em uma evolução histórica. O executivo enxerga uma mudança no decorrer dos anos, destacando o advento do VGBL, em 2003, que hoje representa, aproximadamente, 90% do total da captação da companhia no território nacional. “De 2003 até esse ano, as captações aumentaram muito. É importante lembrar que há 18, 20 anos, a previdência era somente complemento da aposentadoria.”, destaca. A verdade é que a previdência privada se tornou mais presente na vida dos brasileiros na última década. Os trabalhos de educação financeira começam a mostrar seus primeiros frutos com esses comportamentos mais centrados. “Além disso, há a conscientização por conta das mudanças da previdência social”, pontua a executiva da Mapfre. Outra questão importante, levantada por Malho, é o plano de sucessão. Muitos participantes estão usando esse mecanismo de previdência privada complementar para a questão de planejamento sucessório. “É por isso que não só a previdência privada cresce de forma salutar, mas para os próximos anos nós estamos vislumbrando esse crescimento ainda maior do que temos hoje.” É importante frisar que essa movimentação ocorre muito mais nos planos individuais do que nos empresariais. A previdência privada, apesar de sempre figurar no top 5 dos desejos dos funcionários, ainda não encontrou um lugar definitivo na cesta de benefícios, que fica cada vez mais básica conforme a crise se agrava. “A previdência continua sendo um benefício muito importante para atrair e manter profissionais e é natural que ela tenha adaptações, principalmente em grandes empresas, por conta de cenários adversos”, afirma Maristela. Ao invés da situação servir como desculpa, poderá ser um trunfo para quem tem condições de oferecer mais do que o concorrente na hora de conseguir o melhor profissional. Na maioria das vezes, o funcionário participa do pagamento desse plano, percebe o investimento sendo feito e essa poupança é convidativa e pode fazer até mesmo com que o funcionário fique na empresa por muito mais tempo, construindo uma carreira longínqua. Malho não vê a diferença entre captações de prêmios individuais e empresariais, que ficam em 75% e 25%, respectivamente, como uma perda na força da previdência privada como um benefício, mas concorda que o segmento tem crescido muito pouco. “Quando falamos em planos empresariais, nós falamos de uma empresa onde há inúmeras pessoas sob aquele guarda-chuva”, exemplifica o executivo da Icatu. A explicação, na visão dele, é que os planos contratados individualmente, principalmente por aqueles de alta renda, é que puxam o crescimento, principalmente no modelo VGBL. Além desses fatores, com a implementação da lei 11053/2004, as pessoas ganharam mais um benefício com a previdência privada: a tabela regressiva do imposto de renda. “Isso fez o mercado crescer, porque o público de alta renda procura muito utilizar essa tabela”, conta Malho. Possíveis desafios O que poderia fazer com que esses ventos mudassem para a previdência Foto: Carlos Della Rocca ❙❙Maristela Gorayb, da Mapfre ❙❙Edson Franco, da FenaPrevi ❙❙Alexandre M. Malho, da Icatu Seguros 21