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Revista eMOBILIDADE+ Nº 5

A revista eMobilidade + Dedica-se, em exclusivo, à mobilidade de pessoas e bens, nos seus vários modos de transporte (rodoviário, ferroviário, aéreo, fluvial e marítimo), conferindo deste modo espaço aos mais proeminentes “stakeholders” do setor, sejam eles indivíduos, empresas, instituições ou entidades académicas.

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www.eurotransporte.pt/mobilidade-mais/<br />

N.º 5<br />

janeiro/fevereiro/março | 2024<br />

Trimestral | Continente<br />

Diretora: Cátia Mogo<br />

TEMA DE CAPA<br />

COMBUSTÍVEIS<br />

PARA A AVIAÇÃO<br />

COMERCIAL<br />

ASAS DE ESPERANÇA<br />

t<br />

INTERMODALIDADE<br />

Terminais europeus<br />

carecem de maior<br />

desenvolvimento<br />

GLOBAL MOBILITY CALL<br />

A III REVOLUÇÃO<br />

INDUSTRIAL JÁ<br />

ESTÁ EM CURSO<br />

DESCARBONIZAÇÃO<br />

Como a economia circular<br />

promove o retrofit<br />

elétrico nos camiões<br />

t<br />

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA<br />

A transição para veículos elétricos<br />

tem sido uma das mudanças mais<br />

significativas no cenário global, mas<br />

para a maioria da população trocar<br />

o carro por um veículo elétrico<br />

exige um esforço considerável.<br />

RECICLAR<br />

Que fazer às centenas<br />

de milhões de veículos a<br />

combustão interna quando<br />

chegarem ao fim de vida,<br />

grande parte deles ainda em<br />

boas condições de operação?<br />

LOGÍSTICA<br />

As entregas de bens e mercadorias<br />

na última milha dos centros<br />

urbanos requerem soluções<br />

imaginativas. A Renault pensou<br />

em micro-utilitários algo radicais:<br />

os elétricos Bento e Freegones.


REVISTA <strong>Nº</strong>5<br />

JANEIRO/FEVEREIRO/MARÇO 2024<br />

EDIÇÃO TRIMESTRAL<br />

FALE CONNOSCO<br />

emobilidademais@invesporte.pt<br />

+351 215 914 293<br />

CARLOS BRANCO<br />

EDITORIAL<br />

Histórica! Assim se classifica a viagem aérea entre Londres e<br />

Nova Iorque realizada em 28 de novembro com recurso a<br />

combustível 100% sustentado. Sem uma gota de carburante<br />

com origem fóssil, aquele voo deu asas à esperança por um<br />

futuro mais limpo na mobilidade de longa distância. E é bem<br />

preciso, pois se as preocupações ambientais são cada vez mais prementes, a<br />

massificação turística não para de aumentar. Se há cada vez mais voos e maior<br />

pressão sobre as companhias aéreas e as infraestruturas é preciso fazer algo<br />

para que a economia - e apenas a famigerada economia - não seja a única a<br />

levar a melhor.<br />

No tema de capa que produzimos contamos como o voo foi operado, o que já<br />

regulamentou a Comissão Europeia, que desafios enfrentam agora as companhias<br />

aéreas e os custos envolvidos para desenvolver tal sustentabilidade. É<br />

que tal combustível (SAF) ainda é produzido em quantidade escassa, e é mais<br />

caro, o que pode originar o aumento do preço a pagar pelos viajantes. É o que<br />

também nos diz Carlos Paneiro, expert em aviação comercial, em texto de<br />

opinião.<br />

Como a aviação com recurso a energia elétrica e a hidrogénio também é contemplada<br />

pelos políticos recordamos como se fez uma viagem de circum-navegação<br />

com recurso único à energia solar, a mais poderosa de todas, inesgotável<br />

e não poluente. Em outro vetor, Acácio Pires, da Associação ZERO,<br />

adverte para algo raramente falado e igualmente preocupante: que custos tem<br />

o ruído provocado pela aviação comercial para a saúde dos cidadãos.<br />

Na mobilidade terrestre, em Madrid falou-se da transição energética e de<br />

como poderemos estar a entrar na terceira Revolução Industrial. Os atores<br />

da indústria multiplicam os esforços para de adaptarem às novas exigências,<br />

como a Renault, que através da marca Dacia, tem explorado como ninguém, e<br />

com grande sucesso, o GPL, um combustível alternativo, bastante mais barato<br />

e menos nocivo para o ambiente.<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

DIRETORA<br />

Cátia Mogo<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

EDITOR<br />

Eduardo de Carvalho<br />

----------------------------------------------------------------------------------------<br />

REDAÇÃO<br />

Ana Filipe<br />

Carlos Branco<br />

Márcia Dores<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

COLABORADORES<br />

António Macedo, Filipe Carvalho<br />

e Frederico Gomes<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

DIREÇÃO DE COMUNICAÇÃO E MARKETING<br />

Nuno Francisco<br />

---------------------------------------------------------------------------------------<br />

PUBLICIDADE<br />

Margarida Nascimento<br />

Rui Garrett<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

PAGINAÇÃO<br />

Rogério Grilho<br />

---------------------------------------------------------------------------------------<br />

ASSINATURAS<br />

Fernanda Teixeira<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

Registo ERC N.º 127896<br />

---------------------------------------------------------------------------------------<br />

PROPRIEDADE<br />

Eduardo de Carvalho<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

INVESPORTE<br />

EDITORA DE PUBLICAÇÕES, LDA<br />

Contribuinte N.º 505 500 086<br />

Edição, Redação e Administração<br />

R. António Albino Machado, 35 G<br />

1600-259 Lisboa<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

Todos os direitos reservados.<br />

Interdita a reprodução total ou parcial<br />

dos artigos, fotografias, ilustrações e<br />

demais conteúdos sem a autorização por<br />

escrito do Editor. Os artigos assinados<br />

bem como as opiniões expressas são da<br />

responsabilidade exclusiva dos seus<br />

autores, não reflectindo necessariamente<br />

os pontos de vista da Direção da <strong>Revista</strong>,<br />

do Conselho Editorial ou do Editor.<br />

--------------------------------------------------------------------------------------<br />

ESTATUTO EDITORIAL:<br />

https://www.eurotransporte.pt/noticia/38/5193/<br />

estatuto-editorial-e-lei-da-transparencia/<br />

www.emobilidademais.pt<br />

www.eurotransporte.pt/mobilidade-mais/


REVISTA <strong>Nº</strong> 5<br />

JAN/FEV/MAR 2024<br />

12<br />

O SAF SERÁ O COMBUSTÍVEL DE FUTURO<br />

PARA A AVIAÇÃO COMERCIAL<br />

28<br />

OS CONTRATOS DE SERVIÇO<br />

PÚBLICO DE PASSAGEIROS –<br />

1ª GERAÇÃO<br />

28<br />

32<br />

O DESENVOLVIMENTO DE<br />

TERMINAIS INTERMODAIS<br />

NA EUROPA<br />

38<br />

GLABAL MOBILITY CALL: EM<br />

MADRID AFIRMOU-SE QUE<br />

A III REVOLUÇÃO INDUSTRIAL<br />

ESTÁ EM CURSO<br />

38<br />

42<br />

DESCARBONIZAR: CHEGOU<br />

O RETROFIT ELÉTRICO PARA<br />

CAMIÕES<br />

52<br />

CONTACTO COM OS BYD<br />

HAN E TANG<br />

56<br />

COMBUSTÍVEL ALTERNATIVO:<br />

O GPL DOS DACIA<br />

56<br />

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4 e-MOBILIDADE<br />

+


Via Rápida<br />

Empresas preferem veículos elétricos devido<br />

aos custos de utilização mais baixos<br />

Ayvens, a nova marca de mobilidade global que resulta da união<br />

da LeasePlan e da ALD Automotive, acaba de publicar a nova<br />

edição do seu Mobility Guide, uma análise abrangente para melhor<br />

compreender o mundo dos veículos elétricos e a maturidade de<br />

cada país na transição para a sua adoção. A Ayvens tem atualmente<br />

a maior frota de veículos elétricos multimarca a nível mundial e<br />

pretende com este estudo contribuir para uma transição bem<br />

sucedida para a mobilidade elétrica por parte das empresas,<br />

fornecendo elementos essenciais para que os gestores de frota<br />

possam implementar esses processos em cada país. O estudo reúne<br />

indicadores de 46 países e visa apoiar o caminho da eletrificação,<br />

numa era de grandes transformações na indústria automóvel,<br />

partilhando conhecimento e estratégias que irão moldar o futuro<br />

da mobilidade. A análise é feita sobre a percentagem das vendas<br />

que os veículos elétricos representam em cada país, a dimensão e<br />

qualidade da infraestrutura de carregamento, os incentivos fiscais<br />

existentes, os custos totais de utilização comparados com os veículos<br />

a combustão e a diversidade de modelos disponíveis. Lideram a<br />

classificação a Noruega com 81 pontos, seguida da Áustria com 69 e<br />

dos Países Baixos com 68. Portugal ocupa a 11ª posição do ranking<br />

com 57 pontos e é o líder na categoria dos países “em transição”,<br />

a escassos 3 pontos do Reino Unido que ocupa a 10ª posição com<br />

60 pontos e fecha o lote dos países “desenvolvidos”. Portugal<br />

apresenta pontuação máxima no indicador paridade dos custos totais<br />

de utilização, ou seja, os veículos 100% elétricos para empresas em<br />

Portugal apresentam custos de utilização inferiores aos veículos a<br />

combustão de segmento equivalente.<br />

SU7 é o primeiro carro<br />

elétrico da Xiaomi<br />

A Xiaomi acaba de lançar globalmente a sua tecnologia<br />

Xiaomi EV (Electric Vehicle), concebida especificamente<br />

para revolucionar o segmento dos veículos elétricos,<br />

revelando oficialmente as suas cinco componentes principais<br />

– E-Motor, Bateria, Xiaomi Die-Casting, Xiaomi<br />

Pilot Autonomous Driving e Smart Cabin. A partir do desenvolvimento<br />

de raiz de soluções fundamentais, a Xiaomi<br />

pretende assim redefinir a tecnologia da indústria<br />

automóvel. O primeiro produto da Xiaomi EV, o Xiaomi<br />

SU7, foi “pré-lançado”, com o seu design, desempenho,<br />

autonomia, segurança e outros pormenores, posicionando-se<br />

como um “sedan ecológico de alto desempenho<br />

de tamanho normal”, com o objetivo de ultrapassar os<br />

limites da performance, do ecossistema e do espaço<br />

móvel inteligente. O fundador, presidente e CEO da<br />

Xiaomi Corporation, Lei Jun, afirmou que a entrada da<br />

Xiaomi na indústria automóvel marca um salto significativo<br />

em relação à indústria dos smartphones e um passo<br />

crucial para fechar o ciclo do ecossistema inteligente<br />

“Human x Car x Home”. Lei Jun expressou ainda que a<br />

indústria automóvel centenária oferece pouca margem<br />

de manobra atualmente: “A Xiaomi decidiu investir dez<br />

vezes mais e pretende tornar-se um dos cinco principais<br />

fabricantes de automóveis a nível mundial.”<br />

MUBi e FPC renovam cooperação pelo uso diário da bicicleta<br />

A Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUBi) e a Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC)<br />

renovaram em 2022 o protocolo de colaboração que visa fortalecer as condições de cooperação entre as<br />

duas entidades, procurando benefícios para todos os utilizadores de bicicleta. O protocolo permite aos<br />

associados da MUBi - que manifestem essa intenção - serem simultaneamente filiados na FPC, beneficiando<br />

das mesmas vantagens ao nível dos seguros de acidentes pessoais e de responsabilidade civil. Nas<br />

condições explicitadas em cada uma das apólices, qualquer dos seguros cobre o uso quotidiano da bicicleta<br />

como meio de transporte ou em viagem. Existem três tipos de seguro à disposição: CPT - CICLISMO PARA<br />

TODOS - 36,00€/39,50€ (se pretender receber cartão de federado) - Seguro de acidentes pessoais e seguro<br />

de responsabilidade civil sem franquia; PEDALA! - 27,00€ - Seguro de acidentes pessoais com franquia de<br />

€60, Seguro de responsabilidade civil com franquia de €100, limite de idade de 75 anos; PEDALA! FAMÍLIA<br />

- Desde 22,00€ (valor por pessoa - mínimo de três aderentes por família), Seguro de acidentes pessoais com<br />

franquia de €60, Seguro de responsabilidade civil com franquia de €100, limite de idade de 75 anos.<br />

6 e-MOBILIDADE


Transdev investe 4,5 milhões em dez autocarros elétricos<br />

A Transdev investiu 4,5 milhões de euros para reforçar a frota de<br />

autocarros elétricos da AveiroBus, com mais dez viaturas com<br />

zero emissões poluentes que vão permitir a redução da pegada<br />

de carbono de toda a operação da AveiroBus em 383 toneladas/<br />

ano. O investimento inclui uma infraestrutura de carregamento<br />

com características inovadoras em Portugal. Com os cinco<br />

carregadores duplos foram também instaladas câmaras térmicas<br />

para detetar possíveis focos iniciais de incêndio e criadas<br />

barreiras para evitar a propagação das chamas. A capacidade<br />

das baterias destes novos autocarros vai permitir realizar o dia<br />

completo de operação e efetuar os carregamentos nas horas de<br />

vazio, minimizando custos e a carga sobre a rede elétrica. Além<br />

de mais confortáveis, de não gerarem emissões poluentes e de<br />

permitirem poupanças energéticas significativas, as novas viaturas são também mais seguras. A partir de agora, 45% da frota<br />

da AveiroBus é elétrica e 60% dos quilómetros da operação vão ser realizados por viaturas com zero emissões.<br />

Mais duas ligações Alfa Pendular entre Lisboa e Porto<br />

A CP - Comboios de Portugal aumentou a oferta nos serviços Alfa Pendular, adicionando duas<br />

novas ligações entre Lisboa e Porto. Esta inovação responde às necessidades crescentes de mobilidade<br />

entre as duas maiores cidades do país, reforçando a missão da CP em oferecer opções<br />

de viagem flexíveis, rápidas e confortáveis. O Alfa Pendular 128, partindo de Porto-Campanhã<br />

às 7h32 e chegando a Lisboa-Santa Apolónia às 10h30, oferece uma solução prática tanto para<br />

profissionais quanto para quem viaja por lazer. Com esta nova opção, a CP proporciona aos seus<br />

passageiros uma alternativa menos madrugadora e igualmente eficiente ao Alfa Pendular 130. Já<br />

o Alfa Pendular 129, com partida de Lisboa-Santa Apolónia às 20h e chegada a Porto-Campanhã<br />

às 22h58, é a solução para quem precisa viajar no final do dia. Esta adição ao serviço garante<br />

maior flexibilidade quem procura opções mais convenientes. Estas ligações reafirmam o compromisso<br />

da CP em adaptar-se às exigências do mercado.<br />

Atomic Special Hotel melhorado<br />

Mantendo a sua promessa de constante inovação, a Irmãos Mota<br />

S.A. apresenta adições ao seu modelo Atomic Special Hotel. O autocarro<br />

foi encomendado pela empresa Pieter Smit (Holanda), especialista<br />

no transporte de clientes ligados ao mundo do entretenimento.<br />

O veículo pode ser personalizado para ter um ou dois pisos e é a<br />

viatura indicada para transportar os mais variados staffs ao longo dos<br />

mais longínquos percursos, prometendo-lhes conforto e bem-estar,<br />

como se estivessem realmente numa suite de hotel com dois pisos,<br />

sendo que, no piso inferior estão instaladas mesas com suporte de<br />

copos, tomadas 220V e tomadas para cabos USB. Dispõe também<br />

de kitchenette equipada com micro-ondas, máquina de café e arca<br />

frigorífica, prateleiras e armários para arrumação. Ao aceder ao piso<br />

superior, os passageiros encontram uma área que pode ser dedicada<br />

ao descanso ou ao trabalho. Aqui, os passageiros podem relaxar<br />

nos sofás, ver televisão, fazer uso de aparelhos como a PlayStation<br />

5, ou simplesmente desfrutar do wi-fi a bordo. Os sofás podem ser<br />

convertidos em cama, garantindo que a possibilidade de personalização<br />

está sempre disponível.<br />

Aveiro expande rede de carregamento<br />

de passes através da Pagaqui<br />

Os utilizadores da Busway, operadora de transportes da Comunidade<br />

Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA), podem agora<br />

utilizar os 89 pontos de venda da rede Pagaqui para carregar os<br />

seus passes de transporte, uma medida que visa melhorar o acesso<br />

à rede de transportes públicos da região. Anteriormente, os cerca<br />

de 4 mil assinantes dos passes da Busway tinham apenas um ponto<br />

de carregamento disponível por município. Com este acordo, a<br />

capacidade de carregamento de passes é estendida a todos os<br />

agentes da Pagaqui já presentes na região. A parceria implicou<br />

a abertura de novos pontos de venda na região, bem como a inclusão<br />

da funcionalidade de carregamento nos pontos já existentes.<br />

O CEO da fintech, João Bacalhau, estima que a rede da Pagaqui<br />

nos municípios da CIRA aumente em cerca de 20% durante este<br />

ano e também que a maior acessibilidade contribua para o aumento<br />

dos utilizadores dos transportes públicos da região.<br />

e-MOBILIDADE 7


8 e-MOBILIDADE


SAÚDE<br />

Quem paga os<br />

custos astronómicos<br />

do ruído produzido pelo<br />

setor dos transportes?<br />

Em Portugal não é conhecido nenhum estudo consistente que estime<br />

os custos globais dos danos provocados por este fenómeno<br />

O RUÍDO AMBIENTE TEM CUSTOS<br />

ECONÓMICOS?<br />

Recentemente a Comissão Técnica Independente,<br />

constituída pelas personalidades<br />

mais qualificadas para conduzir<br />

a mais extensa, completa e participada<br />

avaliação jamais realizada em Portugal<br />

sobre um das decisões mais complexas<br />

da história recente do país, apresentou<br />

o relatório preliminar que organiza e<br />

ordena a evidência científica disponível<br />

sobre as diferentes opções estratégicas<br />

consideradas viáveis durante a primeira<br />

fase da Avaliação Ambiental Estratégica.<br />

A propósito desta avaliação, tendo em<br />

conta que o impacto do transporte<br />

aéreo sobre a saúde de centenas de<br />

milhar de pessoas afetadas pelo ruído<br />

produzido pelas aeronaves que sobrevoam<br />

áreas densamente povoadas dos<br />

concelhos de Lisboa, Loures e Almada<br />

tem sido uma questão intensamente<br />

acompanhada pela ZERO dada a<br />

magnitude do fenómeno em causa, e<br />

considerando que está em preparação<br />

por parte da (APA) a Estratégia Nacional<br />

para o Ruído Ambiente, justifica-se<br />

que olhemos com atenção para este<br />

fenómeno de modo a reduzir os seus<br />

impactos sociais, ambientais e económicos.<br />

Os impactos económicos e na saúde<br />

humana do ruído ambiente, têm claramente<br />

sido negligenciados pela sociedade<br />

e pelos agentes políticos, sociais<br />

e económicos. O último grande estudo<br />

realizado num país da União Europeia<br />

talvez tenha sido aquele que foi conduzido,<br />

em 2021, pela Agência Francesa<br />

da Transição Ecológica (ADEME) e o<br />

Conselho Nacional do Ruído de França<br />

(CNB) e que estimou os custos deste<br />

fenómeno em cerca de 147 mil milhões<br />

de euros por ano. Em Portugal não é<br />

conhecido nenhum estudo consistente<br />

que estime os custos globais dos danos<br />

provocados por este fenómeno, o<br />

trabalho de maior dimensão realizado<br />

recentemente foi realizado pelo grupo<br />

de trabalho constituído pelo Ministério<br />

das Infraestruturas para avaliar quais<br />

as medidas mais custo-eficazes em<br />

relação à limitação dos voos noturnos<br />

ACÁCIO PIRES<br />

Policy Officer da ZERO - Associação Sistema<br />

Terrestre Sustentável<br />

e-MOBILIDADE 9


OPINIÃO<br />

Acácio Pires<br />

no Aeroporto Humberto Delgado e<br />

projetou que os custos para a saúde do<br />

ruído produzido pelos voos noturnos<br />

para a saúde e bem-estar da população<br />

podem atingir os 206 milhões num<br />

único ano, já a ZERO, usando uma<br />

metodologia mais próxima daquela<br />

que foi usada em França, estima que<br />

os custos globais do ruído produzido<br />

pelas aeronaves que aterram e descolam<br />

da Portela durante as 24 horas do<br />

dia para a saúde, a produtividade e o<br />

património das pessoas e instituições<br />

afetadas se situava em 2019 nos cerca<br />

de 1300 milhões de euros.<br />

TAXAS DE RUÍDO<br />

A aplicação de taxas de ruído decorre<br />

do princípio do poluidor-pagador presente<br />

na legislação nacional e europeia<br />

e é já uma prática, por exemplo nos<br />

aeroportos franceses. Em Portugal a<br />

sua introdução passaria, com elevada<br />

probabilidade, por uma alteração ao<br />

Regulamento Geral do Ruído que,<br />

entre outros aspectos, obrigasse os<br />

gestores de grandes infraestruturas de<br />

transporte, que neste momento são<br />

responsáveis por apresentar planos<br />

de redução e gestão de ruído, a medir<br />

anualmente o impacto económico do<br />

ruído produzido pela utilização dessas<br />

infraestruturas, que seria a base para<br />

a aplicação dessa taxa aos utilizadores<br />

em função do ruído que produzem.<br />

Voltando à análise realizada pela CTI,<br />

é interessante verificar que a diferença<br />

de custos entre as Opções Estratégicas<br />

que incluem a construção de uma pista<br />

na Base Aérea do Montijo, consideradas<br />

inviáveis por motivos económicos,<br />

ambientais e aeronáuticos, e as<br />

Opções Estratégicas que admitem que<br />

a primeira pista do futuro aeroporto<br />

único se faça em Alcochete ou Vendas<br />

Novas, se situam nos 2000 milhões<br />

de euros, e demoram entre 7 e 9 anos,<br />

é notável que a simples aplicação de<br />

taxas de ruído – proposta que tanto a<br />

ZERO como a administração executiva<br />

da ANA partilham – num valor global<br />

correspondente aos danos provocados<br />

pelos movimentos aéreos na região de<br />

Lisboa – de pelo menos 200 milhões<br />

de euros por ano – permitiria colmatar<br />

essa diferença de investimento eliminando<br />

num prazo relativamente curto<br />

uma das mais importantes fontes de<br />

ruído da região de Lisboa e ao mesmo<br />

tempo permitindo desenvolver<br />

uma das opções consideradas viáveis<br />

podendo reduzir, eventualmente, os<br />

obstáculos à negociação com a concessionária.<br />

O que fazer com as receitas das taxas?<br />

As receitas das taxas de ruído<br />

devem servir fundamentalmente três<br />

propósitos:<br />

1Eliminar ou reduzir fortemente a<br />

emissão de ruído na fonte;<br />

2Sempre que não é custo-eficaz<br />

eliminar a emissão na fonte, investir<br />

na redução do ruído com impacto junto<br />

dos recetores sensíveis;<br />

3Monitorização dos efeitos do ruído e<br />

tratamento das suas consequências<br />

junto das pessoas e instituições afetadas.<br />

Dada a enorme dimensão dos impactos<br />

económicos e sociais deste fenómeno,<br />

não é possível continuar a ignorá-lo e<br />

urge edif icar uma estratégia robusta<br />

e coerente que torne obrigatório<br />

considerá-lo transversalmente nas<br />

decisões a adotar pelos diferentes<br />

atores. Não podem continuar a ser<br />

apenas os cidadãos expostos a níveis<br />

insalubres de ruído ambiente a pagar os<br />

seus custos.<br />

Os impactos económicos<br />

e na saúde humana<br />

do ruído ambiente<br />

têm claramente sido<br />

negligenciados pela<br />

sociedade e pelos agentes<br />

políticos, sociais e<br />

económicos<br />

10 e-MOBILIDADE


a No<br />

TEMA DE CAPA<br />

De Londres<br />

12 e-MOBILIDADE


Em 28 de novembro, o voo 100 da Virgin Atlantic foi de Londres a Nova Iorque<br />

apenas com recurso a combustível 100 % sustentável (SAF), dispensando o<br />

tradicional jet-fuel, e demonstrou ser uma solução viável para substituir o carburante<br />

de aviação com origem fóssil. O problema é que ainda não é produzido em<br />

quantidade suficiente para se generalizar, e é mais caro, o que deverá fazer aumentar<br />

o preço das viagens.<br />

va Iorque<br />

sem uma gota de<br />

combustível fóssil<br />

Por Carlos Branco<br />

e-MOBILIDADE 13


TEMA DE CAPA<br />

Aviação Comercial Sustentável<br />

SAF é o futuro da<br />

aviação comercial?<br />

O<br />

voo 100 Londres-Nova<br />

Iorque, operado pela<br />

Virgin Atlantic com<br />

recurso a um Boeing 787<br />

equipado com motores<br />

Rolls-Royce Trent 1000, cruzou o Atlântico<br />

norte no dia 28 de novembro sem<br />

uma gota de jet-fuel a bordo, substituído<br />

por umas dezenas de toneladas de<br />

combustível de aviação sustentável, já<br />

conhecido por SAF, que mais não é que<br />

uma mistura de gorduras residuais, açucares<br />

e proteínas vegetais, óleos e fibras<br />

e querosene aromático sintético. Foi um<br />

voo e um dia históricos para a aviação<br />

comercial e para o ambiente.<br />

O SAF demonstrou que é um substituto<br />

seguro para o combustível de aviação<br />

derivado de fósseis e solução viável a<br />

médio prazo para descarbonizar a aviação<br />

de longo curso. O empreendimento<br />

foi antecedido de muita ponderação<br />

e testes, careceu de uma autorização<br />

especial e não transportou passageiros a<br />

bordo, mas apenas os tripulantes necessários<br />

e alguns convidados.<br />

Foi viabilizado após anos de colaboração<br />

radical entre as parte de um<br />

consórcio liderado pela Virgin Atlantic,<br />

incluindo a Boeing, Rolls-Royce,<br />

Imperial College London, Universidade<br />

de Sheffield, ICF e Rocky Mountain<br />

O SAF demonstrou que é<br />

um substituto seguro para<br />

o combustível de aviação<br />

derivado de fósseis e<br />

solução viável a médio<br />

prazo para descarbonizar<br />

a aviação de longo curso<br />

Institute, em parceria com o Departamento<br />

de Transportes do Reino Unido, a<br />

BP e a Virent, ambos fornecedores das 60<br />

toneladas de SAF necessários para os ensaios<br />

e o voo. O combustível alternativo<br />

foi considerado seguro e compatível com<br />

os motores, fuselagens e infraestrutura<br />

de combustível atuais, e que certamente<br />

desempenhará um papel relevante na<br />

descarbonização da aviação de longo<br />

curso e no caminho para o Net Zero<br />

2050, pois proporciona uma economia<br />

de emissões de CO 2<br />

de até 70%.<br />

ESCASSA PRODUÇÃO<br />

Enquanto outras tecnologias, como<br />

a elétrica e o hidrogénio, ou não se<br />

adequam à aviação de longo curso ou<br />

ainda não estão totalmente desenvolvidas,<br />

o SAF já é usado em mistura com o<br />

jet-fuel. De momento, representa menos<br />

de 0,2% dos volumes globais de produção<br />

de combustível de aviação e as<br />

normas internacionais permitem apenas<br />

uma mistura máxima de 50% SAF em<br />

motores de jatos comerciais. O voo 100<br />

demonstrou que o desafio de aumentar<br />

a produção cabe agora à política e ao<br />

investimento, e a indústria e os governos<br />

devem agir rapidamente para criar<br />

volumes suficientes para abastecimento,<br />

uma vez provadas as capacidades<br />

técnicas, a que se seguem as avaliações<br />

das emissões não carbónicas do voo. Tal<br />

estudo será feito com o apoio dos parceiros<br />

do consórcio ICF, o Rocky Mountain<br />

Institute (RMI), o Imperial College<br />

London e a Universidade de Sheffield.<br />

Sustenta a Virgin Atlantic que a pesquisa<br />

melhorará a compreensão científica<br />

dos efeitos do SAF quanto às emissões<br />

de partículas e ajudará a implementar<br />

previsões no processo de planeamento<br />

de futuros voos. Tais dados e pesquisas<br />

serão partilhados com a indústria em<br />

opensource.<br />

14 e-MOBILIDADE


“NÃO SE PODE FAZER?<br />

VAMOS FAZÊ-LO!”<br />

Sir Richard Branson, fundador da Virgin<br />

Atlantic, declarou no final do voo que<br />

“o mundo sempre assumirá que algo<br />

não pode ser feito, até que você o faça.<br />

O espírito de inovação é chegar lá e tentar<br />

provar que podemos fazer as coisas<br />

melhor para o benefício de todos.”<br />

“A Virgin Atlantic vem desafiando o status<br />

quo e pressionando a indústria da aviação<br />

a nunca se estabelecer e a fazer melhor<br />

desde 1984. Avançando quase 40 anos,<br />

esse espírito pioneiro continua a ser o<br />

coração da Virgin Atlantic, à medida que<br />

ultrapassa os limites das aeronaves de<br />

fibra de carbono e das atualizações da<br />

frota para combustíveis sustentáveis. Eu<br />

não poderia estar mais orgulhoso de estar<br />

a bordo do voo 100 ao lado das equipas<br />

da Virgin Atlantic e dos nossos parceiros,<br />

que têm trabalhado juntos para definir o<br />

caminho de voo para a descarbonização<br />

da aviação de longa distância”, acrescentou<br />

o empresário.<br />

Um dos que estavam a bordo, o secretário<br />

de Transportes, Mark Harper, manifestou-se<br />

otimista na possibilidade de<br />

descarbonizar o transporte agora e no<br />

futuro, reduzindo as emissões do ciclo<br />

de vida em 70% e inspirando a próxima<br />

geração de soluções, enquanto o<br />

primeiro-ministro Rishi Sunak disse que<br />

o voo foi “um marco importante para<br />

tornar as viagens aéreas mais ecológicas<br />

e descarbonizar os nossos céus”.<br />

Para Shai Weiss, presidente-executivo<br />

da Virgin Atlantic, “precisamos ir mais<br />

além, pois, simplesmente, não há SAF<br />

suficiente [o combustível usado para o<br />

voo foi importado dos EUA e da União<br />

Europeia] e está claro que, para chegar<br />

à produção em escala, precisamos ver<br />

significativamente mais investimentos.<br />

VOO 100<br />

Ficou evidente que o desafio de<br />

aumentar a produção cabe agora à<br />

política e ao investimento, e a indústria<br />

e os governos devem agir rapidamente<br />

para criar volumes suficientes para<br />

abastecimento, uma vez provadas<br />

as capacidades técnicas, a que se<br />

seguem as avaliações das emissões não<br />

carbónicas do voo<br />

Isso só acontecerá quando a segurança<br />

regulatória e os mecanismos de suporte<br />

de preços, apoiados pelos governos,<br />

estiverem em vigor. O voo 100 prova<br />

que, se você conseguir, nós voaremos.”<br />

Mark Harper disse também que o Governo<br />

“continuará a apoiar a emergente<br />

indústria SAF do Reino Unido à medida<br />

que cria empregos, cresce a economia e<br />

nos leva ao ‘jet zero’”.<br />

Para alcançar o Net Zero 2050, a inovação<br />

e o investimento necessários em todas as<br />

matérias-primas e tecnologias disponíveis<br />

devem ser aproveitados para maximizar<br />

os volumes de SAF, bem como continuar<br />

a investigação e o desenvolvimento<br />

necessários para colocar novas aeronaves<br />

com emissões zero no mercado. A Virgin<br />

Atlantic diz-se comprometida em encontrar<br />

maneiras mais sustentáveis de voar,<br />

mas será necessário criar uma indústria<br />

para cumprir a meta de 10% SAF da aviação<br />

até 2030, capitalizando os benefícios<br />

sociais e económicos significativos que<br />

trará – estima-se que na ordem de 1,8<br />

mil milhões de libras em Valor Adicionado<br />

Bruto para o Reino Unido e mais de<br />

10.000 empregos.<br />

Simon Burr, diretor do grupo de engenharia,<br />

tecnologia e segurança da Rolls-Royce<br />

manifestou-se orgulhoso pelo<br />

desempenho dos motores Trent 1000.<br />

“A Rolls-Royce concluiu recentemente<br />

testes de compatibilidade de 100% SAF<br />

em todos os tipos de motores aeronáuticos<br />

civis em produção e esta é mais uma<br />

prova de que não há barreiras tecnológicas<br />

de motor para o uso de 100% SAF.<br />

O voo representa um marco importante<br />

para toda a indústria da aviação em sua<br />

jornada rumo às emissões líquidas zero<br />

de carbono”, declarou.<br />

e-MOBILIDADE 15


Em vésperas da COP28, conferência das Nações Unidas<br />

HIST<br />

para as alterações climáticas, foi, pela primeira vez,<br />

operado por uma companhia aérea comercial, um voo<br />

transatlântico inteiramente alimentado por combustível<br />

sustentado para a aviação (SAF).<br />

VOO 16 e-MOBILIDADE


CARLOS PANEIRO<br />

SAF – Pela descarbonização<br />

da indústria da aviação<br />

ÓRICO<br />

Consultor em Aviação Comercial<br />

O<br />

voo 100 da Virgin<br />

Atlantic, operado por um<br />

Boeing 787 com motores<br />

Rolls-Royce Trent 1000,<br />

entre Londres e Nova<br />

Iorque, do passado dia 28 de Novembro,<br />

enquadra-se no âmbito de um<br />

vasto conjunto de iniciativas levadas<br />

a cabo por companhias aéreas com o<br />

intuito de acelerar o caminho que conduza<br />

ao concretizar do objetivo definido<br />

pela IATA (Associação Internacional de<br />

Transporte Aéreo) de emissões zero até<br />

2050 – Fly Net Zero.<br />

Entre outros, recorde-se que, recentemente,<br />

a 22 de Novembro, a Emirates<br />

realizou um voo de demonstração<br />

operado por um dos seus super jumbos,<br />

com um dos quatro motores do Airbus<br />

A380 a ser inteiramente alimentado<br />

por SAF. Antes, a 22 de Julho do ano<br />

passado, assinalando uma parceria entre<br />

a TAP, a GALP e a ANA, foi operado<br />

por um avião Airbus A321neo, entre<br />

Lisboa e Ponta Delgada, o primeiro voo<br />

da companhia aérea nacional abastecido<br />

com 39% de SAF, contribuindo para<br />

uma diminuição de 35% das emissões<br />

de CO 2<br />

. A Virgin Atlantic reclama que a<br />

redução de CO 2<br />

pela utilização de SAF<br />

é de até 70% quando se compara com o<br />

tradicional combustível fóssil.<br />

A atual regulamentação proíbe as<br />

companhias aéreas de realizarem<br />

voos comerciais com uma mistura de<br />

combustível que contenha mais do que<br />

50% de SAF. Por isso, quer o da Virgin<br />

Atlantic quer o da Emirates, foram voos<br />

de demonstração com o intuito de providenciarem<br />

dados técnicos concretos,<br />

e-MOBILIDADE 17


OPINIÃO<br />

Carlos Paneiro<br />

bem como para chamarem a atenção<br />

de fornecedores, clientes e reguladores<br />

para as ações que a indústria da aviação<br />

comercial, responsável por 2,5% do<br />

total das emissões de carbono (4% na<br />

Europa), está a desenvolver para mitigar<br />

o problema que mais aflige o nosso planeta,<br />

e para a necessidade de aumentar<br />

a produção de SAF a uma escala bem<br />

mais elevada.<br />

Para além do já referido objetivo de<br />

emissões zero até 2050, a indústria<br />

definiu um conjunto de objetivos<br />

intermédios, incluindo o de incorporar<br />

2% de SAF até 2025, aumentando para<br />

5% até 2030. Para se ter uma ideia em<br />

que ponto estamos neste processo, hoje,<br />

o SAF representa apenas cerca de 0,2%<br />

do total do jet fuel consumido.<br />

A CONTESTAÇÃO<br />

DOS AMBIENTALISTAS<br />

A crescente, apesar de ainda diminuta,<br />

incorporação de SAF no jet fuel<br />

aparenta ser uma auspiciosa notícia por<br />

parte de uma indústria que enfrenta um<br />

dos maiores desafios do processo de<br />

descarbonização.<br />

Apesar disso, nem todos estão de<br />

acordo. Há quem considere que estas<br />

ações não são mais do que “marketing<br />

gimmicks”, dado que o tipo de SAF<br />

presentemente utilizado no combustível<br />

para a aviação em pouco ou nada contribui<br />

para compensar a emissão de CO 2<br />

da indústria da aviação, que aumentou<br />

a uma taxa entre 4% e 5% durante a<br />

última década.<br />

As organizações ambientalistas têm defendido<br />

que SAF é um conceito umbrella<br />

que incorpora diferentes composições de<br />

combustível sustentado para a aviação.<br />

Há alguns tipos de SAF que podem, efetivamente,<br />

reduzir o impacto climático<br />

da aviação, enquanto outros podem ser<br />

curas piores do que a doença.<br />

Esse, defendem, é o caso do SAF atualmente<br />

utilizado na aviação, produzido<br />

a partir de matérias-primas, ditas<br />

sustentáveis, incluindo óleo de cozinha<br />

usado e gordura animal, e parcelas de<br />

resíduos de milho utilizados na produção<br />

de ração animal. Argumentam que a<br />

única opção verdadeiramente sustentável<br />

é produzir um combustível sintético<br />

utilizando carbono capturado<br />

combinado com hidrogénio verde.<br />

Porém, tais “e-fuels” são extremamente<br />

caros e consomem muitos recursos na<br />

sua produção, havendo a necessidade de<br />

aumentar significativamente o fornecimento<br />

de energia renovável de forma a<br />

produzir tal combustível em quantidades<br />

satisfatórias.<br />

Por isso, os ambientalistas afirmam que<br />

o mais relevante para a descarbonização<br />

não é a introdução das energias limpas,<br />

mas a diminuição drástica do consumo<br />

A 22 de Julho de 2022,<br />

assinalando uma parceria<br />

entre a TAP, a GALP e a<br />

ANA, foi operado por um<br />

avião Airbus A321neo,<br />

entre Lisboa e Ponta<br />

Delgada, o primeiro<br />

voo da companhia aérea<br />

nacional abastecido com<br />

39% de SAF<br />

do petróleo, carvão e gás natural, pois<br />

que, apesar dos aviões serem cada vez<br />

mais eficientes, há cada vez mais voos<br />

e, consequentemente, mais emissões<br />

de CO 2<br />

, com a procura de passageiros<br />

estimada para 2024, segundo as projeções<br />

da IATA, a ultrapassar os níveis<br />

pré-pandemia. No contexto atual, até<br />

que a tecnologia que permita emissões<br />

zero esteja disponível, defendem, voar<br />

menos é a única atitude que permite<br />

cortar as emissões de carbono.<br />

O FENÓMENO “FLIGHT SHAME”<br />

A Europa, em 2019, foi responsável<br />

por cerca de 22% do total das emissões<br />

globais de CO 2<br />

da indústria da aviação,<br />

numa lista encabeçada pela América<br />

do Norte com uma parcela de 27% das<br />

mesmas. Porém, é no velho continente<br />

que têm sido visíveis as ações mais<br />

firmes no sentido da descarbonização<br />

desta indústria com o intuito de o tornar<br />

“the first climate-neutral continent”.<br />

Entre essas ações, a mais significativa foi<br />

implementada no passado mês de Maio<br />

em França, onde foram banidos os voos<br />

domésticos entre cidades que estejam a<br />

menos de duas horas e meia de comboio,<br />

argumentando-se que, nesses<br />

percursos, o avião emite 77 vezes mais<br />

CO 2<br />

por passageiro do que o comboio.<br />

Ainda assim, os críticos afirmam que<br />

se trata de uma medida simbólica,<br />

18 e-MOBILIDADE


EMISSÕES<br />

A Europa, em 2019, foi responsável<br />

por cerca de 22% do total das<br />

emissões globais de CO 2<br />

da<br />

indústria da aviação.<br />

dado que os voos de ligação não foram<br />

afetados e que os voos domésticos são<br />

responsáveis por uma pequena percentagem<br />

das emissões de CO 2<br />

naquele<br />

país. Até agora, apenas três rotas foram<br />

alvo de redução de voos, contando-se<br />

cerca de 5.000 voos anuais num universo<br />

de 200.000 voos domésticos.<br />

Também na nossa vizinha Espanha<br />

o tema da eliminação dos voos<br />

domésticos entre cidades servidas<br />

a menos de duas horas e meia<br />

de comboio tem estado sob acesa<br />

discussão.<br />

A avançar, tal decisão colocará em<br />

causa a ponte aérea entre Madrid<br />

e Barcelona, que produz o dobro<br />

de CO 2<br />

por passageiro do que<br />

o mesmo percurso feito de<br />

comboio, embora, tal como<br />

em França, apenas os voos<br />

que não são de ligação<br />

sejam afetados.<br />

A companhia aérea espanhola<br />

Iberia deu a<br />

entender que tais<br />

argumentos são falaciosos, pois que,<br />

no caso de um passageiro que pretenda<br />

viajar, por exemplo, entre Valência e<br />

Nova Iorque, na falta de um voo para<br />

Madrid, poderá fazê-lo via outro hub<br />

europeu. Nessa situação, para além de<br />

se verificar um aumento da emissão de<br />

CO 2<br />

, haverá uma clara interferência no<br />

processo de concorrência no espaço<br />

aéreo europeu.<br />

Entretanto, na Dinamarca, o governo<br />

está a propor a criação de uma taxa<br />

de 100 coroas dinamarquesas (cerca<br />

de 13,41€) que ajude a financiar a<br />

transição verde da indústria da aviação<br />

permitindo que todos os voos domésticos,<br />

até 2030, usem jet fuel 100% SAF.<br />

Apesar dos incentivos à utilização<br />

cada vez menor do avião, substituindo-o<br />

pelo comboio, e do aumento da<br />

força do fenómeno “flight shame”,<br />

continuam a verificar-se recuos às<br />

intenções de implementar medidas<br />

DECISÃO UNIFICADA<br />

Parece óbvio que, enquanto não<br />

existir um plano global para limitar<br />

o transporte aéreo, qualquer<br />

medida local ou regional tornarse-á<br />

pouco eficaz<br />

que restrinjam o transporte aéreo.<br />

Foi isso o que aconteceu nos Países<br />

Baixos com o governo neerlandês a<br />

suspender o seu plano de limitar o<br />

número de movimentos no aeroporto<br />

de Amesterdão a partir do Verão do<br />

próximo ano, cedendo às pressões das<br />

autoridades dos EUA e do Canadá e ao<br />

lobby das companhias aéreas.<br />

Os críticos do plano neerlandês, que<br />

previa uma redução de 9% da capacidade<br />

atual e de 17% da prevista futura,<br />

afirmam que uma menor capacidade no<br />

aeroporto de Amesterdão iria prejudicar<br />

a economia desse país, não iria ter<br />

efeitos práticos nas emissões de CO 2<br />

,<br />

pois resultaria no redireccionamento de<br />

voos para outros hubs europeus, e no<br />

aumento das tarifas, prejudicando não<br />

só as companhias aéreas, mas também<br />

os consumidores.<br />

Parece óbvio que, enquanto não existir<br />

um plano global para limitar o transporte<br />

aéreo, qualquer medida local ou<br />

regional tornar-se-á pouco eficaz. E<br />

um plano global deverá incluir também<br />

limitações aos voos privados, que<br />

são bem mais inimigos do ambiente<br />

considerando uma base de emissões por<br />

passageiro, ao tipo de aviões comerciais,<br />

sabendo que a nova geração de aviões<br />

é cerca de 20% menos poluente, e na<br />

cobrança de taxas a reverter para o financiamento<br />

de projetos que permitam<br />

a transição verde.<br />

Em maio, em França, foram banidos os voos<br />

domésticos entre cidades que estejam a menos<br />

de duas horas e meia de comboio<br />

IMPORTÂNCIA DO CUSTO<br />

DO COMBUSTÍVEL<br />

Uma coisa parece certa, a limitação na<br />

oferta de transporte aéreo e a implementação<br />

de outras medidas que limitem<br />

a emissão de CO 2<br />

, tal como<br />

a incorporação de SAF no jet fuel,<br />

irá afetar negativamente os resultados<br />

das companhias aéreas.<br />

O jet fuel é, a par dos custos com<br />

pessoal, o principal custo das companhias<br />

aérea. Enquanto os custos com<br />

pessoal são quase inteiramente fixos, os<br />

de combustível são variáveis na parte em<br />

que não está controlada por uma política<br />

de gestão de risco (fuel hedging).<br />

Numa indústria de margens baixas,<br />

a flutuação no preço do combustível<br />

pode transformar um voo com lucro<br />

em prejuízo, dependendo do núme-<br />

e-MOBILIDADE 19


OPINIÃO<br />

Carlos Paneiro<br />

ro de passageiros a bordo e da tarifa<br />

média cobrada.<br />

O combustível sustentado para a aviação<br />

(SAF) é mais caro para as companhias<br />

aéreas. Para manterem o lucro ou<br />

margens aceitáveis, terão de aumentar<br />

os preços. Estarão os passageiros dispostos<br />

a pagarem tarifas mais elevadas?<br />

Qual será a redução da procura num<br />

cenário de aumento dos preços? Até<br />

que ponto os passageiros são sensíveis a<br />

pagar mais caro em prol de um ambiente<br />

menos poluído?<br />

Uma ideia da resposta a estas questões<br />

poderá ser dada pelo comportamento<br />

dos consumidores face aos programas<br />

de compensação de carbono (“carbon<br />

offset programs”) disponibilizados por<br />

muitas companhias aéreas. Tais programas<br />

permitem que os passageiros, voluntariamente,<br />

compensem as emissões<br />

de carbono associadas ao seu transporte<br />

para projetos ambientais que objetivam<br />

a redução de emissões de CO 2<br />

noutras<br />

áreas. Por exemplo, permitindo às<br />

companhias aéreas comprar créditos em<br />

projetos de energia renovável, reflorestação<br />

ou programas de sustentabilidade.<br />

Acontece que, conforme estimativa<br />

disponibilizada pela IATA, apenas entre<br />

1% e 3% dos passageiros contribuem<br />

para esses programas de compensação<br />

de carbono, demonstrando que também<br />

há muito trabalho a fazer no que respeita<br />

à sensibilização da população para<br />

O combustível sustentado para a aviação (SAF)<br />

é mais caro para as companhias aéreas.<br />

Para manterem o lucro ou margens aceitáveis,<br />

terão de aumentar os preços<br />

a necessidade imperiosa de reduzir ou<br />

compensar as suas emissões de carbono<br />

e que tal tarefa não se restringe apenas<br />

às companhias aéreas e aos reguladores.<br />

O FUTURO<br />

Enquanto o futuro não chega, as companhias<br />

aéreas continuam a trabalhar<br />

na sua agenda de sustentabilidade de<br />

forma a reduzir as emissões de carbono<br />

associadas à sua atividade. Para além<br />

dos seus investimentos em tecnologias<br />

sustentáveis, nomeadamente nos<br />

combustíveis alternativos, têm implementado<br />

políticas ambientais de forma<br />

a tornarem-se mais verdes tanto no ar<br />

como em terra, tais como a adoção de<br />

programas de reciclagem de resíduos,<br />

a redução do consumo de energia nos<br />

seus escritórios e edifícios e a utilização<br />

de material reciclável sempre que<br />

possível.<br />

No que respeita aos construtores de<br />

aviões, a Airbus anunciou planos para<br />

ter o primeiro avião com emissões zero,<br />

utilizando células de combustível de<br />

hidrogénio, até 2035.<br />

No que respeita a aviões elétricos e<br />

híbridos, quer a Airbus quer a Boeing<br />

continuam a desenvolver projetos<br />

que deverão entrar em operação nas<br />

próximas décadas. Trata-se de aviões<br />

que utilizam motores elétricos e baterias<br />

recarregáveis que reduzem significativamente<br />

as suas emissões.<br />

Embora seja uma opção muito atraente<br />

para a descarbonização da indústria,<br />

os aviões elétricos estarão limitados a<br />

aeronaves muito pequenas devido às<br />

limitações das tecnologias e capacidade<br />

das baterias existentes.<br />

Perante a jornada longa que ainda há<br />

a percorrer e face à urgência de salvarmos<br />

o planeta onde vivemos, resta-nos<br />

rezar para que a ciência disponibilize<br />

rapidamente as soluções inovadores que<br />

permitam um eficaz Fly Net Zero.<br />

20 e-MOBILIDADE


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O pacote<br />

“fit for 55”<br />

Uma visão geral<br />

do ReFuelEU<br />

para a aviação<br />

Os legisladores da União Europeia (UE) assinaram<br />

um regulamento para garantir condições<br />

equitativas para o transporte aéreo sustentável,<br />

também conhecido como Regulamento ReFuelEU<br />

Aviation, em 18 de outubro de 2023. Foi<br />

publicado no Jornal Oficial em 31 de outubro de 2023 e será<br />

aplicável a partir de 1 de janeiro de 2024.<br />

No Jornal Oficial da UE pode ler-se que o novo regulamento<br />

faz parte de um pacote legislativo destinado a tornar as<br />

políticas da UE em matéria de clima, energia, utilização dos<br />

solos, transportes e fiscalidade aptas a reduzir as emissões<br />

líquidas de gases com efeito de estufa em, pelo menos,<br />

55% até 2030, em comparação com os níveis<br />

de 1990 – o pacote “fit for 55”. Procura assegurar<br />

condições de concorrência equitativas<br />

para um transporte aéreo sustentável e obriga<br />

os fornecedores de combustíveis a distribuir<br />

combustíveis de aviação sustentáveis (SAF) e<br />

prevê uma quota crescente de SAF ao longo<br />

do tempo para aumentar a sua aceitação pelas<br />

companhias aéreas e, assim, reduzir as emissões<br />

da aviação.<br />

Também a eletricidade ou o hidrogénio são tecnologias<br />

promissoras, prevendo-se que contribuam progressivamente<br />

para a descarbonização do transporte aéreo, a<br />

começar por voos de curta distância. O presente regulamento<br />

tem potencial para acelerar ainda mais o desenvolvimento<br />

científico e a implantação dessas tecnologias, para permitir<br />

que os operadores económicos ponderem estas tecnologias<br />

quando atingirem a sua maturidade e estiverem disponíveis<br />

no mercado.<br />

A introdução gradual de combustíveis sustentáveis para avia-<br />

ALTERNATIVAS<br />

Também a eletricidade ou o<br />

hidrogénio são tecnologias<br />

promissoras, prevendo-se que<br />

contribuam progressivamente<br />

para a descarbonização do<br />

transporte aéreo<br />

ção no mercado do transporte aéreo da União<br />

representará custos adicionais com combustíveis<br />

para as companhias aéreas, pois essas tecnologias<br />

são atualmente mais dispendiosas de produzir do<br />

que os combustíveis convencionais para aviação.<br />

Embora sejam definidos incentivos e os combustíveis sustentáveis<br />

para aviação sejam considerados um pilar integrante do<br />

trabalho sobre a viabilidade de um objetivo mundial ambicioso<br />

a longo prazo para a aviação internacional de alcançar<br />

emissões líquidas nulas de carbono até 2050, não existe<br />

atualmente um sistema obrigatório sobre a utilização de combustíveis<br />

sustentáveis para aviação nos voos internacionais.<br />

22 e-MOBILIDADE


O que são<br />

combustíveis<br />

sustentáveis<br />

para a aviação?<br />

Os SAF são combustíveis líquidos de aviação com<br />

as mesmas propriedades do combustível de aviação<br />

convencional, mas com origem em recursos de<br />

energia renovável, seja bioenergia ou eletricidade<br />

renovável. A sua compatibilidade com a tecnologia<br />

de aeronaves existentes e a infraestrutura de reabastecimento<br />

torna-os chamados de “drop-in-fuels”.<br />

A vantagem de compatibilidade dos SAF com os<br />

aviões existentes significa que eles podem começar<br />

a reduzir as emissões do setor sem substituições de<br />

frota. As aeronaves têm um longo período de operação<br />

- mais de 20 anos, em média -, e os aviões que<br />

entram hoje na frota global ainda operarão em 2050,<br />

data-limite net-zero do setor (Banco Mundial, 2022).<br />

As emissões do ciclo de vida dos SAF determinam<br />

a sua pegada de carbono. Elas consistem no teor<br />

de carbono do combustível (emissões diretas) e<br />

nas emissões que ocorrem durante a produção do<br />

combustível (emissões a montante). As emissões<br />

diretas não diferem entre o combustível de aviação<br />

convencional e os vários tipos de SAF devido às<br />

suas características quase idênticas, incluindo o teor<br />

de carbono. No entanto, as emissões a montante<br />

variam entre os tipos de SAF e os combustíveis<br />

convencionais e determinam se um combustível<br />

pode obter poupanças líquidas. Os fatores que influenciam<br />

as emissões a montante são, por exemplo,<br />

emissões associadas à produção de matéria-prima e<br />

à intensidade carbónica da eletricidade utilizada nos<br />

processos produtivos.<br />

Há três grupos de tipos de SAF com propriedades<br />

drop-in:<br />

» biocombustíveis de primeira geração a partir<br />

de lípidos, incluindo querosene parafínico<br />

sintetizado a partir de ésteres hidroprocessados<br />

e ácidos gordos (HEFA)<br />

» biocombustíveis avançados de vias bioquímicas<br />

e vias termoquímicas<br />

» combustíveis power-to-liquid (PtL), ou e-querosene,<br />

que usam eletricidade verde para produzir<br />

hidrogénio por eletrólise e combiná-lo com<br />

carbono para hidrocarbonetos sintéticos.<br />

A utilização de motores mais eficientes em<br />

termos energéticos contribui para reduzir<br />

a pegada ambiental dos voos e também<br />

para uma utilização mais eficiente dos<br />

combustíveis sustentáveis para aviação em<br />

termos de recursos<br />

Esses tipos de SAF diferem não apenas na sua pegada<br />

de emissões, mas também no nível de prontidão<br />

tecnológica dos seus processos de produção e<br />

equipamentos, custos e disponibilidade de matéria-prima.<br />

O HEFA é o caminho de produção mais<br />

avançado e menos caro da atualidade e abastece<br />

quase todo o SAF do setor. O mercado de SAF ainda<br />

está em evolução e não existe um padrão global de<br />

preços. Os custos de produção do HEFA são duas<br />

vezes maiores do que os do combustível de aviação<br />

convencional, e a bioenergia avançada e o PtL são<br />

ainda menos competitivos em termos de custos.<br />

Fonte: The International Transport Forum, organização<br />

intergovernamental de 66 países membros.<br />

Atua como um think tank para as políticas de<br />

transportes e organiza anualmente uma cimeira que<br />

reúne os ministros dos Transportes.<br />

e-MOBILIDADE 23


O futuro<br />

TEMA DE CAPA<br />

é limpo<br />

Circum-navegação aérea<br />

apenas com energia solar


e-MOBILIDADE 25


TEMA DE CAPA<br />

Energias Renováveis<br />

Bertrand Piccard e André Borschberg celebraram, no dia<br />

26 de julho de 2016, uma proeza ímpar: completaram a sua<br />

volta ao mundo aos comandos do Solar Impulse 2, provando<br />

a eficiência das tecnologias sustentáveis.<br />

O<br />

regresso a Abu Dhabi<br />

(EAU), onde o Solar<br />

Impulse 2 (Si2) iniciara,<br />

em Março de 2015, a sua<br />

viagem, marca a superação<br />

de um desafio extraordinário e<br />

culmina uma aventura incrível. Mais de<br />

uma década depois de ter sido considerado<br />

um projeto impossível, o Si2<br />

acabou por percorrer 40 mil quilómetros,<br />

em 17 voos de mais de 500 horas.<br />

Em tempo efetivo de voo, foram 21 dias<br />

a sobrevoar o mar da Arábia, a Índia, a<br />

Birmânia, a China, os oceanos Pacífico<br />

e Atlântico, os EUA, o sul da Europa e o<br />

norte de África. Foi a maior viagem de<br />

sempre sem uma só gota de combustível<br />

e a primeira vez que se atravessou o<br />

Atlântico com energia renovável.<br />

O projecto pioneiro dos suíços Bertrand<br />

Piccard (médico psiquiatra) e André<br />

Borschberg (piloto de aviões) pretendeu<br />

consciencializar e convencer a respeito<br />

da necessidade e da possibilidade real<br />

de optar por soluções tecnológicas que<br />

preservem o ambiente.<br />

UM “LABORATÓRIO VOADOR”<br />

Uma vasta equipa de cientistas, engenheiros,<br />

sonhadores e inovadores<br />

juntou-se ao projeto Solar Impulse e<br />

desenvolveu novos produtos, aplicados<br />

em 6000 componentes, que tornaram o<br />

avião mais leve do que muitos automóveis.<br />

Rejeitando ideias pré-concebidas sobre<br />

materiais, os objetivos consistiram em<br />

melhorar o desempenho energético,<br />

aliviar a estrutura e reduzir o peso ao<br />

mínimo permitido pela tecnologia. O<br />

avião, construído em fibra de carbono,<br />

atingiu os 72 metros de envergadura,<br />

com apenas 2300 kg, ou seja – mais largo<br />

do que um Boeing 747 e do mesmo<br />

peso que um utilitário familiar.<br />

A volta ao mundo zero emissões inau-<br />

Bertrand Piccard<br />

26 e-MOBILIDADE


SEM EMISSÕES<br />

O sucesso do Si2 prova que os<br />

custos de arranque começam<br />

a ficar para trás, confirmandose<br />

a possibilidade concreta<br />

de generalizar as energias<br />

renováveis, com um crescimento<br />

sustentado e competitivo em<br />

relação às energias fósseis.<br />

Foi a maior viagem de sempre sem uma só gota de<br />

combustível e a primeira vez que se atravessou o<br />

Atlântico com energia renovável<br />

gurou um avião que, em teoria, pode<br />

voar ininterruptamente, apenas limitado<br />

pela resistência física do piloto.<br />

Pode voar dias, semanas ou meses sem<br />

paragem, alimentado pela energia do<br />

sol – 17 248 células solares aplicadas<br />

sobre as asas – que se acumula nas suas<br />

quatro baterias.<br />

E O FUTURO?<br />

A odisseia prova que as energias verdes<br />

são uma solução real. A inovação chegará<br />

a todos, porque os novos materiais<br />

ultraligeiros e as soluções químicas permitem<br />

avanços no campo da proteção<br />

dos painéis solares, mas também nas<br />

baterias de computador ou telemóvel,<br />

na otimização de compartimentos de<br />

bagagens em aviões ou, claro, nas soluções<br />

sustentáveis de mobilidade.<br />

Aliás, terminada a viagem do Si2,<br />

mantém-se a ambição do projecto:<br />

impulsionar o desenvolvimento de<br />

soluções energéticas eficientes à escala<br />

global, através do Comité Internacional<br />

de Energias Limpas entretanto criado.<br />

O sucesso do Si2 prova que os custos<br />

de arranque – desenvolvimento de<br />

tecnologia, experimentação – começam<br />

a ficar para trás, confirmando-se a<br />

possibilidade concreta de generalizar as<br />

energias renováveis, com um crescimento<br />

sustentado e competitivo em relação<br />

às energias fósseis.<br />

UMA QUESTÃO DE ATITUDE<br />

“O Solar Impulse traduz a forma de construir<br />

e fazer voar um avião, que há 13 anos<br />

não era possível. Primeiro, não acreditámos<br />

em quem dizia que era um projeto<br />

impossível; depois, procurámos quem nos<br />

indicasse outras maneiras de o construir,<br />

usando a imaginação e a abertura a soluções<br />

diferentes. Mais do que tecnologia,<br />

esta aventura é uma questão de ‘state of<br />

mind’, da atitude que temos e podemos<br />

desenvolver”.<br />

André Borschberg, presidente da Solar<br />

Impulse e piloto do Si2, a cujos comandos<br />

cruzou o Pacíf ico<br />

e-MOBILIDADE 27


CONFERÊNCIA<br />

Contratos de Serviço Público de Passageiros – 1ª Geração<br />

Atrair utentes<br />

para o transporte público será<br />

a melhor medida ambiental<br />

A ineficiência de alguns contratos, mas também a possibilidade de<br />

construir um modelo contratual de 2ª geração mais sustentado e<br />

sustentável e a necessidade de procurar fontes de financiamento<br />

alternativas e cadernos de encargos mais ajustados às diferentes<br />

realidades regionais foram dissecados por operadores, municípios,<br />

Comunidades Intermunicipais e reguladores envolvidos no<br />

processo do serviço público do transporte de passageiros.<br />

Sobraram alertas para as dificuldades financeiras dos operadores,<br />

e ouviu-se como a captação de mais utentes para o transporte<br />

público seria a melhor de todas as medidas ambientais.<br />

Frederico Rosa, autarca do<br />

Barreiro, município anfitrião<br />

da conferência organizada<br />

pela Autoridade da Mobilidade<br />

e dos Transportes<br />

(AMT) e pela ANTROP, sintetizou<br />

que a captação de mais utentes para<br />

a utilização dos transportes públicos<br />

resultaria na melhor medida ambiental<br />

exigível no caderno de encargos<br />

dos futuros concursos do serviço<br />

público de transporte. De pressuposta<br />

obrigatoriedade de incorporação, nas<br />

contratualizações de 2ª geração, de<br />

acordo com o que foi anunciado pela<br />

AMT, esta resulta de um conjunto de<br />

recomendações incluídas no estudo<br />

OST Verdes - Recomendações para a<br />

implementação de uma modalidade<br />

verdadeiramente sustentável” (ver<br />

outro texto).<br />

O que está a correr bem/mal nos<br />

contratos de 1ª geração de serviço<br />

público de transporte de passageiros?<br />

O resultado é misto. Se a AMT admite<br />

erros de juventude e dores de crescimento,<br />

que há necessidade de revisão<br />

de alguns contratos, e que os veículos<br />

mais eficientes e com zero emissões são<br />

mais caros, também diz que há mais<br />

passageiros transportados. A ANTROP<br />

(transportadores) adverte que o modelo<br />

seguinte deve ser sustentado e sustentável,<br />

que a AMT precisa estar mais<br />

atenta e firme e que salvaguarde os<br />

operadores e a sustentabilidade financeira<br />

dos contratos, bem assim como a<br />

auditoria dos cadernos de encargos.<br />

Mas que papel devem ter os municípios<br />

na gestão da mobilidade? João<br />

Caetano, presidente do IMT (Instituto<br />

da Mobilidade e dos Transportes),<br />

falou de um legado de mais de um<br />

século desde que surgiu o automóvel<br />

que é difícil de alterar. Trata-se de uma<br />

questão de mentalidade. Não se podem<br />

arrasar as cidades tal qual foram<br />

desenhadas, mas o ótimo planeamento<br />

urbano, se agora pudesse ser iniciado,<br />

privilegiaria, segundo uma ordem<br />

28 e-MOBILIDADE


prioritária, os seguintes elementos: os<br />

modos suaves, o transporte coletivo,<br />

o transporte partilhado e só depois o<br />

transporte individual.<br />

Foi difícil arrancar com os primeiros<br />

contratos de serviço público? Houve<br />

dificuldades: “A falta de conhecimento<br />

técnico do nosso pessoal levou-nos<br />

a contratar uma entidade externa”<br />

(Cristina Loreto, sub-diretora Regional<br />

dos Transportes Terrestres da Madeira);<br />

Inicialmente, o acesso a dados fidedignos,<br />

mas avaliámos bem os cadernos<br />

de encargos para que os concursos não<br />

ficassem desertos, e está em funcionamento<br />

e fomos bem sucedidos” (Ricardo<br />

Rio, presidente da CIM do Cávado);<br />

“Que o próximo Governo tenha a<br />

Que o próximo Governo tenha a audácia<br />

de o estender [o contrato] ao transporte<br />

ferroviário para obrigar os concessionários a<br />

interligarem-se<br />

audácia de o estender ao transporte<br />

ferroviário para obrigar os concessionários<br />

a interligarem-se” (António Pina,<br />

presidente da CIM Algarve); “Estamos<br />

prontos para o segundo, ainda que<br />

o processo tenha sido difícil, mas beneficiámos<br />

dos conhecimento da AML,<br />

da Carris, de Cascais” (Frederico Rosa,<br />

presidente da CM Barreiro).<br />

AMBIENTE E FINANCIAMENTO<br />

Ana Paula Vitorino explicou como a<br />

2ª geração de contratos ficará marcada<br />

pela OSP Verdes e de como será<br />

preciso encontrar outras formas de<br />

financiamento, para que não corramos<br />

o risco de alguém entrar em ‘pobreza<br />

de mobilidade’: “As recomendações<br />

são exequíveis, mas ao mesmo tempo<br />

que há novas exigências, teremos que<br />

pensar como encontrar novas formas<br />

de financiamento. Uma parte terão<br />

que ser os próprios operadores, outra<br />

o Estado, mas uma outra será a da<br />

própria economia que se apropria das<br />

mais-valias que proporcionam estes<br />

transportes, nomeadamente o imobiliário.<br />

O próprio IMI. Se viver no<br />

interior, onde há poucos transportes,<br />

por que razão terei que pagar o mesmo<br />

IMI que alguém que vive à boca<br />

da entrada do Metro, construída à<br />

porta da sua casa? Temos que começar<br />

a pensar nisto agora.”<br />

“Tais preocupações estarão na nossa visão<br />

para a próxima concessão. Por agora<br />

FINANCIAMENTO<br />

Uma parte terão que ser os<br />

próprios operadores, outra o<br />

Estado, mas uma outra será a da<br />

própria economia que se apropria<br />

das mais-valias que proporcionam<br />

estes transportes, nomeadamente<br />

o imobiliário<br />

focámo-nos na coesão territorial” (António<br />

Pina). “Para o Porto Santos e para o<br />

Aerobus apenas veículos elétricos, e no<br />

Funchal valorizámos veículos novos e<br />

da classe EuroVI” (Cristina Loreto).<br />

Martinho da Costa, administrador do<br />

Grupo Barraqueiro, é da opinião que<br />

os futuros contratos têm que passar de<br />

net-cost para gross-cost, pois se querem<br />

autocarros menos poluentes têm<br />

que colocar mais dinheiro no sistema.<br />

A situação atual é dramática, ninguém<br />

consegue equilibrar as contas, quanto<br />

mais ganhar dinheiro.”<br />

Sérgio Soares, administrador da Transdev,<br />

concordou com o concorrente da<br />

Barraqueiro: “Pedirem-nos autocarros<br />

elétricos com 0 km na próxima geração<br />

é acabarem com a iniciativa privada e<br />

passarem tudo para o Estado.”<br />

“O sucesso de qualquer geração de<br />

contrato depende do utilizador, se tem<br />

ou não confiança no mesmo”, disse Pedro<br />

Calado, presidente da CM Funchal.<br />

O colega de Aveiro, Ribau Esteves:<br />

“Foi-nos atirada uma competência e<br />

nada sabíamos sobre ela. Quanto aos<br />

próximos, que os Governos saibam e<br />

os contratos reflitam que isto é um investimento<br />

de todos, nacional e local.”<br />

Nuno Canta, autarca do Montijo, não<br />

esqueceu a sua formação agrícola: “Não<br />

deixemos ocupar os espaços agrícolas,<br />

pois se os ocuparmos teremos que ir<br />

mais longe procurar os alimentos e<br />

preencher ainda mais as estradas. Não<br />

podemos deixar ninguém para trás.”<br />

Pedro Bogas, administrador da Carris,<br />

acredita que o sucesso futuro é “melhorar<br />

a experiência de viagem, com boa<br />

oferta e regular. Vamos ter acessibilidade<br />

com o cartão bancário e através da<br />

Via Verde, vamos expandir a rede de<br />

elétricos rápidos a Oriente e a Ocidente,<br />

esta em colaboração com Oeiras.<br />

Precisamos de canais dedicados e precisamos<br />

de ter um plano de mobilidade<br />

sustentável, com urgência.”<br />

e-MOBILIDADE 29


CONFERÊNCIA<br />

Transportes Públicos<br />

AMT QUER OBRIGAÇÕES<br />

AMBIENTAIS<br />

A criação de portagens com base em<br />

emissões, o combate à “pobreza de<br />

mobilidade” e a procura de fontes alternativas<br />

de financiamento são algumas das<br />

recomendações que devem constar nas OSP<br />

Verdes da nova geração de contratos<br />

em contratos<br />

de transportes<br />

públicos<br />

Para apostar em políticas<br />

públicas que promovam a<br />

descarbonização e sustentabilidade<br />

neste setor, tendo<br />

em conta o Regime Jurídico<br />

do Serviço Público de Transporte de<br />

Passageiros [Lei 52/2015] – que está<br />

na base da 1.ª geração dos contratos<br />

de serviço público de transporte de<br />

passageiros, a AMT identificou as<br />

Obrigações de Serviço Público (OSP)<br />

Verdes que são de imprescindível<br />

implementação para que Portugal<br />

cumpra os objetivos e metas de desenvolvimento<br />

sustentável com as quais<br />

se comprometeu.<br />

AS SETE RECOMENDAÇÕES<br />

Implementação de indicadores<br />

comuns e rigorosos relativos a<br />

emissões de GEE<br />

A AMT constata que, apesar dos<br />

esforços da CE, ainda não existe um<br />

quadro comum para o cálculo das<br />

emissões de GEE, impedindo que empresas,<br />

clientes e passageiros possam<br />

monitorizar e comparar as diferentes<br />

opções de serviços de transportes no<br />

que respeita às suas emissões. A CE<br />

planeia implementar um quadro uniforme<br />

de medição de emissões para<br />

o setor dos Transportes e Logística,<br />

alinhado com os objetivos do Pacto<br />

Ecológico Europeu (Green Deal) e da<br />

Lei Climática, sendo que a AMT recomenda<br />

que a sua implementação seja<br />

obrigatória e abrangente.<br />

Criação de um Programa Nacional<br />

de Mobilidade Sustentável<br />

A AMT reconhece a necessidade de<br />

uma visão estratégica da mobilidade<br />

e do planeamento dos transportes,<br />

harmonizada com o ordenamento do<br />

território e os compromissos europeus.<br />

Neste sentido, recomenda a criação de<br />

um Programa Nacional de Mobilidade<br />

Sustentável, que articule todos os<br />

instrumentos de gestão e ordenamento<br />

do território e planos setoriais que<br />

incluam as áreas da habitação e todas as<br />

atividades económicas, infraestruturas<br />

OST VERDES<br />

A AMT identificou as Obrigações<br />

de Serviço Público Verdes<br />

que são de imprescindível<br />

implementação para que Portugal<br />

cumpra os objetivos e metas de<br />

desenvolvimento sustentável com<br />

as quais se comprometeu<br />

30 e-MOBILIDADE


e serviços. Este Programa deve ter um<br />

cronograma específico de implementação,<br />

fontes de financiamento e mecanismos<br />

de medição de impacto, incluindo<br />

indicadores de avaliação com planos<br />

obrigatórios de transporte sustentável<br />

para trabalho e escola, com incentivos<br />

fiscais. A AMT defende ainda que o<br />

conceito de “pobreza de mobilidade”<br />

deve ser reconhecido, considerando os<br />

baixos rendimentos, os elevados custos<br />

de combustível ou a falta de acesso a<br />

serviços essenciais, especialmente para<br />

pessoas e famílias vulneráveis.<br />

Implementação de indicadores<br />

da avaliação de investimentos<br />

e de desempenho de serviços e<br />

infraestruturas de transportes<br />

A AMT recomenda a implementação de<br />

um quadro de indicadores integrados<br />

para avaliar o valor e o desempenho dos<br />

investimentos em transportes, enfatizando<br />

a sustentabilidade e a inovação.<br />

Este quadro obrigatório deverá avaliar<br />

as contribuições dos projetos para os<br />

objetivos de transição e a qualidade<br />

e eficácia das políticas públicas e das<br />

estratégias empresariais que devem ser<br />

avaliadas. Este quadro único de indicadores<br />

deve ser vinculativo para todas as<br />

empresas, como requisito mínimo de<br />

acesso e permanência no mercado;<br />

Procedimentos de Contratação<br />

Pública<br />

Considerando que a contratação pública<br />

é vital para implementar a sustentabilidade<br />

ambiental nos serviços de mobilidade,<br />

a AMT recomenda a integração<br />

de obrigações ambientais em futuros<br />

contratos de transporte público, criando<br />

obrigações de serviço público “verdes”<br />

DESEMPENHO<br />

Este quadro único de indicadores<br />

deve ser vinculativo para todas as<br />

empresas, como requisito mínimo<br />

de acesso e permanência no<br />

mercado<br />

baseadas em avaliações minuciosas. Neste<br />

contexto, a AMT defende a existência<br />

de regras de contratação mais flexíveis,<br />

incentivos para investimentos em veículos<br />

limpos, utilização obrigatória do<br />

Manual de Compras Verdes da Comissão<br />

Europeia e avaliações de desempenho.<br />

Defende, também, o estabelecimento de<br />

uma idade máxima para os veículos e<br />

incentivar o abate dos veículos antigos.<br />

Fontes alternativas de<br />

financiamento<br />

A AMT identifica a necessidade de<br />

encontrar fontes alternativas de financiamento<br />

e recomenda uma aposta no<br />

financiamento sustentável, como a captura<br />

de mais-valias imobiliárias em áreas<br />

que beneficiam de infraestruturas de<br />

transportes públicos para reinvestimento<br />

no sistema de transportes e propondo<br />

a realocação de fundos provenientes<br />

de taxas rodoviárias sobre veículos<br />

poluentes para investir em combustíveis<br />

limpos. A integração de todos os modos<br />

de mobilidade no comércio de emissões<br />

e a conformidade com a taxonomia da<br />

EU são outras das recomendações da<br />

AMT. É ainda dado ênfase à defesa do<br />

financiamento social para a acessibilidade,<br />

à priorização de áreas de baixa<br />

densidade na distribuição das verbas<br />

do Orçamento do Estado e ao apoio a<br />

contratos de serviços ecológicos.<br />

Incentivos à utilização de transporte<br />

público e utilização de veículos<br />

limpos<br />

Impulsionar a utilização dos transportes<br />

públicos, incentivando o<br />

desenvolvimento económico e a<br />

sustentabilidade, como por exemplo<br />

a introdução de taxas dinâmicas<br />

em autoestradas, estradas urbanas e<br />

parques de estacionamento, de forma<br />

a reduzir a utilização de veículos<br />

individuais. É defendida a avaliação<br />

do potencial de transferência modal<br />

nos projetos financiados, alterações<br />

no sistema de portagens com base nas<br />

emissões, a criação de zonas de baixas<br />

emissões e incentivos para empresas<br />

que promovam o transporte público.<br />

A AMT recomenda ainda o reforço<br />

da infraestrutura de carregamento de<br />

veículos limpos, a adoção de sistemas<br />

de transporte inteligentes para uma<br />

gestão eficiente do tráfego e a avaliação<br />

do desempenho ambiental das<br />

empresas e frotas.<br />

Literacia e inovação na mobilidade<br />

sustentável<br />

Reforçar o conceito de “poluidor-pagador”<br />

através de uma implementação<br />

eficaz e de apoio público. Isto envolve<br />

uma ampla divulgação dos compromissos<br />

de descarbonização, a integração<br />

da educação sobre mobilidade<br />

sustentável e a oferta de formação<br />

para profissionais dos transportes.<br />

Recomenda-se também a divulgação<br />

transparente de externalidades em<br />

projetos de mobilidade, juntamente<br />

com o reforço das colaborações entre<br />

universidades, centros de inovação e<br />

empresas de mobilidade, de forma a<br />

acelerar a inovação no setor.<br />

e-MOBILIDADE 31


INTERMODALIDADE<br />

Desenvolvimento<br />

de terminais<br />

Intermodais na Europa<br />

A intermodalidade na Europa carece de maior desenvolvimento para poder ser<br />

uma verdadeira alternativa para as empresas.<br />

O<br />

desenvolvimento de<br />

redes de terminais hub-<br />

-and-spoke (HS) para<br />

o transporte ferroviário<br />

intermodal na Europa<br />

implica a criação de terminais hub,<br />

vantajosos relativamente aos terminais<br />

apenas gateway e satélite. Os terminais<br />

hub permitem o serviço de recolha e<br />

distribuição rodoviária no hinterland<br />

do terminal, mas também o cruzamento<br />

de cargas de diferentes comboios de<br />

longo curso, em trânsito sem saírem<br />

das plataformas (tipo cross-docking<br />

rodoviário), tal como sucede nos<br />

terminais de transhipment de navios.<br />

Mas existem vários fatores que têm<br />

contribuído para a lenta utilização dos<br />

terminais hub:<br />

1A falta de compreensão dos benefícios,<br />

pois muitos operadores ferroviários<br />

não compreendem plenamente<br />

os benefícios potenciais dos terminais<br />

hub, ou têm pouca afinidade com a<br />

complexidade das operações de HS.<br />

2Algumas empresas ferroviárias<br />

preferem investir em operações mais<br />

simples e nas suas próprias infraestruturas,<br />

em vez de complexas redes HS com<br />

terminais hub.<br />

3A construção e operação de terminais<br />

hub requer investimentos<br />

substanciais, e muitas vezes faltam<br />

VÍTOR CALDEIRINHA<br />

Assessor do Conselho de Administração da<br />

APSS, Professor, Investigador e Consultor<br />

portuário<br />

estruturas apropriadas para financiar e<br />

gerir esses projetos.<br />

Apesar dos seus benefícios teóricos e<br />

práticos, os terminais hub não têm sido<br />

amplamente adotados na Europa. Uma<br />

melhor compreensão dos benefícios,<br />

juntamente com políticas de transporte<br />

público de nível europeu e estratégias<br />

de investimento alinhadas, poderiam<br />

acelerar a adoção deste modelo. Existe<br />

um potencial significativo para redes<br />

HS com terminais hub ferroviários na<br />

Europa, mas é necessário um esforço<br />

coordenado entre diferentes stakeholders<br />

para realizar esse potencial. Vamos<br />

ver em detalhe cada questão.<br />

A FALTA DE COMPREENSÃO<br />

DOS BENEFÍCIOS<br />

Muitos operadores ferroviários e partes<br />

interessadas não estão plenamente<br />

cientes das vantagens operacionais e<br />

económicas dos terminais hub. Estes<br />

terminais oferecem maior eficiência na<br />

consolidação de cargas, otimização de<br />

rotas e redução de custos operacionais,<br />

mas tais benefícios nem sempre são<br />

claramente compreendidos ou comunicados.<br />

Os terminais hub e as redes HS são<br />

percebidos como operacionalmente<br />

complexos e isso desencoraja alguns<br />

operadores ferroviários, especialmente<br />

aqueles acostumados com operações<br />

mais simples, como serviços diretos ou<br />

redes menos integradas.<br />

A transição para um modelo baseado<br />

em terminais hub requer mudanças<br />

significativas na forma como as redes<br />

ferroviárias são operadas, incluindo a<br />

reestruturação de rotas, reorganização<br />

logística e adaptação de infraestruturas<br />

existentes. A resistência à mudança e a<br />

hesitação em adotar novas abordagens<br />

podem ser barreiras significativas.<br />

A eficácia dos terminais hub depende<br />

da colaboração entre diferentes<br />

32 e-MOBILIDADE


AVALIAÇÃO<br />

Existe uma tendência para focar<br />

nos custos e desafios de curto<br />

prazo associados à implementação<br />

de terminais hub, em vez de se<br />

reconhecerem os benefícios de longo<br />

prazo, como maior sustentabilidade,<br />

eficiência e capacidade para servir<br />

uma procura crescente<br />

no transporte<br />

e-MOBILIDADE 33


INTERMODALIDADE<br />

Vitor Caldeirinha<br />

operadores e da integração de várias<br />

partes da rede de transporte. A falta de<br />

coordenação e planeamento integrado<br />

de nível europeu limita a compreensão<br />

e, consequentemente, a implementação<br />

eficaz de tais sistemas.<br />

Existe uma tendência para focar nos<br />

custos e desafios de curto prazo associados<br />

à implementação de terminais<br />

hub, em vez de se reconhecerem os<br />

benefícios de longo prazo, como maior<br />

sustentabilidade, eficiência e capacidade<br />

para servir uma procura crescente no<br />

transporte.<br />

É necessária uma abordagem mais<br />

informativa e colaborativa, incluindo esforços<br />

de educação e consciencialização<br />

sobre os benefícios dos terminais hub,<br />

demonstrações de sucesso noutros continentes<br />

e modelos de cooperação entre<br />

operadores e stakeholders. Além disso,<br />

as políticas de transporte público e as<br />

estratégias de investimento que apoiam<br />

o desenvolvimento de redes intermodais<br />

integradas poderiam facilitar a transição<br />

para este modelo mais eficiente.<br />

ESTRATÉGIAS DE INVESTIMENTO<br />

CONCORRENTES<br />

Existe a tendência para os operadores<br />

ferroviários e outras entidades relevantes<br />

darem prioridade as investimentos<br />

em alternativas ao desenvolvimento de<br />

redes hub-and-spoke (HS) com terminais<br />

hub.<br />

Alguns operadores optam por investir<br />

em operações ferroviárias mais simples<br />

e diretas, como serviços ponto a<br />

ponto, que são percebidos como menos<br />

arriscados e mais fáceis de gerir. Esses<br />

modelos podem não oferecer as mesmas<br />

eficiências de escala que os terminais<br />

hub, mas são vistos como investimentos<br />

mais seguros e imediatos.<br />

Os operadores, especialmente os novos<br />

operadores do mercado, que surgiram<br />

desde a liberalização ferroviária,<br />

preferem manter a sua independência<br />

operacional. Investir nas suas próprias<br />

infraestruturas de terminais ou em<br />

modelos de gateway (portas de entrada<br />

regionais) permitindo-lhes manter<br />

o controlo sobre as suas operações<br />

sem depender de complexas redes<br />

colaborativas.<br />

A construção e operação de terminais<br />

hub são significativamente dispendiosas.<br />

Num contexto de restrições<br />

orçamentais, operadores e investidores<br />

preferem alocar recursos a projetos com<br />

menores requisitos de capital e retorno<br />

mais rápido sobre o investimento.<br />

Grandes projetos de infraestrutura,<br />

como a construção de terminais hub,<br />

estão frequentemente sujeitos a riscos<br />

significativos, incluindo atrasos, excesso<br />

de custos e incertezas regulatórias. Além<br />

disso, os operadores optam por concentrar<br />

investimentos na melhoria ou expansão<br />

de ativos e operações existentes,<br />

A resistência à mudança<br />

e a hesitação em adotar<br />

novas abordagens<br />

podem ser barreiras<br />

significativas<br />

em vez de investir em novas infraestruturas,<br />

que exigem uma reestruturação<br />

significativa das redes existentes.<br />

Para superar essas barreiras, seria<br />

necessário promover um maior entendimento<br />

das vantagens a longo prazo e da<br />

eficiência operacional dos terminais hub,<br />

incluindo incentivos financeiros ou regulatórios<br />

para projetos de infraestrutura<br />

que favoreçam a colaboração e integração<br />

intermodal. Além disso, poderiam<br />

ser desenvolvidas parcerias público-privadas<br />

para a partilha de riscos e benefícios<br />

de tais investimentos. Estimular uma<br />

visão mais estratégica e de longo prazo<br />

dentro do setor ferroviário também é<br />

crucial para ultrapassar a preferência por<br />

34 e-MOBILIDADE


estratégias de investimento mais conservadoras<br />

e imediatistas.<br />

QUADROS ORGANIZACIONAIS<br />

E FINANCEIROS INADEQUADOS<br />

O desenvolvimento de terminais hub<br />

requer investimentos significativos.<br />

A ausência de estruturas de financiamento<br />

adequadas no setor público e<br />

privado, impede a realização desses<br />

projetos, incluindo a dificuldade em<br />

obter capital inicial, bem como financiamento<br />

para operações contínuas e<br />

manutenção. Embora as PPPs possam<br />

ser uma solução para financiar grandes<br />

projetos de infraestrutura, a falta de<br />

modelos eficazes de PPP no setor ferroviário<br />

intermodal limita capacidade de<br />

atrair investimentos privados, partilhar<br />

riscos e garantir a sustentabilidade a<br />

longo prazo dos projetos.<br />

A gestão e operação de terminais hub<br />

envolve uma complexidade significativa,<br />

exigindo coordenação entre<br />

diferentes atores, operadores ferroviários,<br />

fornecedores de infraestrutura e<br />

autoridades reguladoras. A ausência<br />

de estruturas organizacionais eficientes<br />

que possam gerir essa complexidade é<br />

um obstáculo significativo. A eventual<br />

entrada dos armadores no panorama<br />

ferroviário, como é ocaso da MSC, pode<br />

trazer uma visão diferentes do mar.<br />

A prioridade de alocação de recursos<br />

para o desenvolvimento de terminais<br />

hub pode ser desafiadora, especialmente<br />

em contextos onde existem<br />

necessidades concorrentes ou onde<br />

a rentabilidade a curto prazo é uma<br />

preocupação primária. A falta de<br />

incentivos governamentais e europeus<br />

ou regulatórios para apoiar investimentos<br />

em infraestruturas de transporte<br />

intermodal pode desencorajar<br />

o desenvolvimento de terminais hub<br />

multiutilizadores.<br />

Seria importante, a nível europeu,<br />

realizar campanhas de informação e<br />

workshops educativos para os stakeholders,<br />

incluindo operadores ferroviários,<br />

investidores, autoridades locais<br />

e o público em geral, para destacar as<br />

vantagens dos terminais hub, como<br />

eficiência operacional, redução de<br />

custos e sustentabilidade. E apresentar<br />

estudos de caso e exemplos de sucesso<br />

de terminais hub e redes HS para<br />

ilustrar o potencial de melhoria na<br />

MULTIUTILIZADORES<br />

A gestão e operação de terminais<br />

hub envolve uma complexidade<br />

significativa, exigindo coordenação<br />

entre diferentes atores, operadores<br />

ferroviários, fornecedores de<br />

infraestrutura e autoridades<br />

reguladoras<br />

eficiência, capacidade e conectividade<br />

do transporte. Assim como incentivar a<br />

pesquisa focada nos benefícios económicos<br />

e ambientais dos terminais hub,<br />

incluindo estudos sobre o retorno do<br />

investimento e o impacto na redução<br />

das emissões.<br />

Será fundamental promover o planeamento<br />

de transporte integrado que<br />

considere todos os modos de transporte<br />

e a intermodalidade como parte essencial<br />

da infraestrutura de transporte<br />

e implementar incentivos, como subsídios<br />

ou benefícios fiscais, para projetos<br />

que promovam a intermodalidade e a<br />

criação de redes HS eficientes (intermodal<br />

Bono?), assim como desenvolver<br />

regulamentações que favoreçam o investimento<br />

em infraestruturas intermodais,<br />

incluindo terminais hub, e que<br />

facilitem a colaboração entre diferentes<br />

e-MOBILIDADE 35


INTERMODALIDADE<br />

Vitor Caldeirinha<br />

QUESTÕES RELEVANTES<br />

Qual é a localização estratégica ideal<br />

para os terminais hub and spoke na<br />

Europa, levando em consideração as<br />

rotas de transporte de carga existentes<br />

e as principais áreas de procura? Como<br />

dimensionar os terminais hub para<br />

acomodar eficientemente a transferência<br />

de carga entre modos de transporte e<br />

garantir uma operação contínua? Como<br />

integrar efetivamente os modos de<br />

transporte rodoviário e ferroviário nos<br />

terminais hub and spoke para otimizar<br />

a eficiência da rede de transporte inoperadores<br />

e stakeholders.<br />

A nível europeu, seria fundamental<br />

dar prioridade a recursos públicos e<br />

privados para projetos que promovam<br />

eficiências de rede e intermodalidade,<br />

reconhecendo os terminais hub como<br />

investimentos essenciais, investir em<br />

tecnologias inovadoras e em pesquisa<br />

e desenvolvimento para melhorar<br />

a eficiência e a colaboração entre<br />

operadores, bem como a capacidade<br />

dos terminais hub, e assim criar um<br />

ambiente mais favorável para a adoção<br />

das redes HS no transporte ferroviário<br />

intermodal europeu. Isso permitirá ter<br />

uma infraestrutura de transporte mais<br />

eficiente, sustentável e preparada para o<br />

futuro na Europa.<br />

BENEFÍCIOS DAS REDES HS<br />

A configuração de rede HS na ferrovia<br />

europeia melhora a relação custo/serviço,<br />

reduz perdas de eficiência e oferece<br />

várias vantagens para operadores de<br />

transporte. É importante uma maior<br />

aposta e análise das conexões ferroviárias<br />

para promover a intermodalidade,<br />

a avaliação do impacto na procura de<br />

transporte e na eficiência e eficácia dos<br />

nós de hub para operações de groupage/<br />

degroupage.<br />

A transição de uma configuração de<br />

rede P2P para uma rede H&S resulta<br />

numa redução significativa nas distâncias<br />

que os meios de transporte<br />

precisam de percorrer para conectar<br />

origens e destinos. Essa redução chega a<br />

É importante uma maior<br />

aposta e análise das<br />

conexões ferroviárias<br />

para promover a<br />

intermodalidade, a<br />

avaliação do impacto na<br />

procura de transporte e<br />

na eficiência e eficácia<br />

dos nós de hub para<br />

operações de groupage/<br />

degroupage<br />

65%, reduzindo os custos operacionais,<br />

o tempo de trânsito e o consumo de<br />

combustível, resultando em benefícios<br />

ambientais e económicos.<br />

Uma vantagem notável da configuração<br />

HS é a manutenção da capacidade do<br />

sistema em termos de transporte. Isso<br />

significa que, mesmo com uma configuração<br />

mais eficiente, a capacidade de<br />

transporte não é comprometida.<br />

A transição para uma rede HS reduz<br />

os custos incorridos pelo operador de<br />

transporte até 65%. Isso ocorre devido<br />

à redução das distâncias percorridas, à<br />

otimização das rotas e à necessidade de<br />

menos meios de transporte.<br />

A configuração H&S pode ser ainda<br />

mais atraente do ponto de vista do operador<br />

de transporte multimodal (MTO),<br />

pois a frequência de serviço em algumas<br />

rotas pode ser aumentada e melhorada<br />

com um aumento na frequência<br />

de serviço (+28%) e na capacidade de<br />

transporte (+28%).<br />

termodal? Como os terminais hub and<br />

spoke podem contribuir para a redução<br />

das emissões de carbono e promover a<br />

sustentabilidade ambiental na Europa?<br />

Os terminais hub and spoke melhoram<br />

a eficiência operacional ao permitir a<br />

transferência eficiente de carga entre<br />

modos de transporte, reduzindo tempos<br />

de trânsito e custos. Ao promover o<br />

transporte ferroviário, os terminais hub<br />

and spoke contribuiem para a redução<br />

do congestionamento nas estradas e melhorar<br />

a fluidez do tráfego. A integração<br />

do transporte ferroviário ajuda a reduzir<br />

as emissões de carbono e promover<br />

práticas mais sustentáveis no transporte<br />

de carga. Os terminais hub and spoke<br />

facilitam o acesso a mercados distantes<br />

na Europa e além, aumentando a competitividade<br />

das empresas.<br />

Será necessário investir em infraestrutura<br />

ferroviária e rodoviária para criar e<br />

manter os terminais hub and spoke. Um<br />

planeamento estratégico sólido será necessário<br />

para determinar as localizações<br />

ideais dos terminais e a conectividade<br />

da rede. Políticas e regulamentações<br />

adequadas devem ser estabelecidas para<br />

promover o transporte intermodal e<br />

garantir sua eficiência. A colaboração<br />

entre empresas de transporte, autoridades<br />

locais e outros stakeholders será<br />

essencial para o sucesso dos terminais<br />

hub and spoke.<br />

Fontes: https://doi.org/10.1016/j.<br />

rtbm.2016.05.003, https://doi.org/10.3390/<br />

su12030776, https://www.sciencedirect.<br />

com/science/article/pii/S1568494622009747<br />

e https://www.hindawi.com/journals/<br />

jat/2020/7570686/<br />

36 e-MOBILIDADE


GLOBAL MOBILITY CALL MADRID 2023<br />

A terceira<br />

Revolução Industrial<br />

está em curso<br />

Não contaminante, segura, acessível e sustentável, assente na eletrificação e nos combustíveis<br />

alternativos, na inovação, na multimodalidade dos transportes e em novas infraestruturas. São estes<br />

os impulsos do novo paradigma da mobilidade, uma terceira Revolução Industrial que foi exigida pela<br />

União Europeia aos 27 Estados-membros. A avaliar pela resposta da sociedade civil, pela multiplicação<br />

de fóruns de discussão e dos agentes envolvidos, tem tudo para ser próspera.<br />

Por Carlos Branco<br />

38 e-MOBILIDADE


Madrid, no final de outubro,<br />

reuniu uma boa<br />

parte dos agentes europeus<br />

interessados na<br />

mudança do paradigma<br />

da mobilidade, da transição energética,<br />

e muito mais que isso, aquela que se<br />

diz ser a terceira Revolução Industrial.<br />

A Global Mobility Call, sendo apenas<br />

um veículo de comunicação e montra<br />

do que se vai fazendo, faz-se também<br />

ouvir pela diferença de tons. E há vozes<br />

que nos cativam, que nos surpreendem<br />

(ou não). Foram os casos de Ge Jun,<br />

especialista em tecnologia, com mais<br />

de 25 anos de experiência em empresas<br />

como Apple, Intel ou NVIDIA e atual<br />

diretor executivo da Tojoy, também de<br />

Peggy Liu, da JUCCCE (Joint US China<br />

Collaboration on Clean Energy), Jeremy<br />

Rifkin, conselheiro da União Europeia,<br />

ou Bertrand Piccard, um aventureiro e<br />

o primeiro aeronauta a dar a volta ao<br />

mundo num avião solar sem combustível.<br />

Recolhemos algumas das suas<br />

alocuções impressivas.<br />

Para o ex-vice-presidente da Apple, o<br />

futuro da mobilidade está no céu. Isto é,<br />

será a inteligência artificial o principal<br />

vetor para desenvolver a mobilidade do<br />

futuro, cujo nicho de mercado está no<br />

espaço aéreo com aviões particulares<br />

e drones partilhados, para transporte<br />

de pessoas e de mercadorias, mas que<br />

para isso são necessárias plataformas<br />

baseadas em dados para conectar empreendedores<br />

e os cidadãos, o que não<br />

tem precedentes. “A mobilidade atual<br />

não é apenas sinónimo de transporte,<br />

é um conceito mais amplo que engloba<br />

diferentes aspetos e indústrias em<br />

favor de pessoas e serviços que requer a<br />

colaboração de múltiplos participantes,<br />

e a peça fundamental nesta relação é a<br />

inteligência artificial”, disse.<br />

MENOS DE CINCO DÓLARES<br />

POR DIA<br />

Jeremy Rifkin falou num tom mais<br />

grave, como que justificando o facto de<br />

“após 200 anos de Revolução Industrial<br />

baseada nos combustíveis fósseis, 54%<br />

da população ganha atualmente menos<br />

de cinco dólares por dia.” “Os ricos<br />

tiveram um desempenho muito bom<br />

durante essa civilização industrial, pois<br />

as oito pessoas mais ricas do mundo<br />

têm uma riqueza equivalente a metade<br />

da população do planeta e acumulam a<br />

mesma riqueza que metade da população<br />

dos Estados Unidos. Temos agora<br />

20 anos para mudar este estado de<br />

coisas”, sentenciou.<br />

Bertrand Piccard falou sobre as soluções<br />

existentes para enfrentar a crise ambiental<br />

em setores como a mobilidade,<br />

a energia, a agricultura, os resíduos, a<br />

água e a construção. A fundação a que<br />

preside identificou quase 1500 soluções<br />

que podem ajudar a passar do atual<br />

modelo de “economia qualitativa” para<br />

outro. E sintetizou: “O fundamental é<br />

fazer coisas muito eficientes com poucos<br />

recursos e dinheiro”.<br />

A Global Mobility<br />

Call, sendo apenas um<br />

veículo de comunicação<br />

e montra do que se vai<br />

fazendo, faz-se também<br />

ouvir pela diferença<br />

de tons e há vozes que<br />

nos cativam, que nos<br />

surpreendem (ou não)<br />

MOBILIDADE SUSTENTÁVEL PROSPERA<br />

Já Peggy Liu chocou a audiência, não por<br />

ter defendido o papel que a China pode<br />

desempenhar como parceiro fundamental<br />

em termos de infraestruturas para<br />

uma mobilidade com pegada zero. Ao<br />

abordar o papel das macrocidades chinesas,<br />

como Xangai, de onde é natural,<br />

embora resida nos EUA, disse estar a ser<br />

forjada com uma abordagem ambiental,<br />

para fazer face ao aumento da população<br />

nesses espaços, que requerem uma<br />

gestão mais eficiente da mobilidade.<br />

Peggy serviu-se de uma apresentação<br />

com vídeo, onde se ouvia a presidente da<br />

CE, Ursula von der Leyen, a questionar<br />

os processos da China, alegadamente por<br />

subsidiar as exportações de viaturas elétricas<br />

ali produzidas para a Europa, e que<br />

para tal iria iniciar uma investigação. Em<br />

dezembro, o Governo francês anunciou<br />

que os veículos elétricos não produzidos<br />

na Europa deixariam de ser elegíveis para<br />

incentivos à compra de carros elétricos.<br />

Segundo Peggy Liu “a concorrência<br />

no mercado chinês é inimaginável na<br />

Europa, pelo que os carros são vendidos<br />

a um preço inferior ao que é praticado<br />

na Europa. Os governos locais atribuem<br />

subsídios aos compradores para que<br />

adotem veículos elétricos. É essa a razão<br />

que leva os fabricantes a venderam mais<br />

caro na Europa que na China.”<br />

A eletrificação e os combustíveis alternativos, a multimodalidade dos transportes,<br />

as novas infra-estruturas e a inovação contribuirão para impulsionar um novo<br />

paradigma de mobilidade. O hidrogénio é o passo seguinte, também os biocombustíveis,<br />

e muitos expositores mostraram os seus argumentos, como os autocarros,<br />

um protótipo que vai correr as 24 Horas de Le Mans (Mission H24). E também<br />

a condução autónoma. Um protótipo da ONCE, entidade espanhola de serviço a<br />

cidadãos com deficiências visuais, esteve em grande destaque, pela capacidade de<br />

guiar o cidadão pelas ruas, conduzindo-o de forma autónoma, como um robô.<br />

Organizada pelo IFEMA Madrid e Smobhub, já tem edição garantida para 2024,<br />

entre 19 e 21 de novembro, e em 2023 aumentou para 8000 o número de profissionais<br />

presentes, reuniu 500 oradores – a EDP foi moderadora e patrocinou<br />

um palco de conferências, para além de ter mostrado um stand, onde evidenciou<br />

as suas capacidades de apoio à mobilidade elétrica –, realizaram-se 120 mesas<br />

redondas e conferências setoriais. Com mais de 104 organizações participantes, o<br />

número de expositores cresceu 76% em relação à edição anterior.<br />

As informações fornecidas pelos oradores e as discussões nas áreas do congresso<br />

serão compiladas no primeiro relatório de mobilidade sustentável do GMC, que os<br />

especialistas do Instituto Fraunhofer irão produzir. O objetivo deste documento é disponibilizar<br />

o conhecimento gerado durante o evento a todas as partes interessadas.<br />

e-MOBILIDADE 39


IMPULSANDO<br />

Este protótipo da ONCE ajuda os invisuais<br />

na sua mobilidade quaotidiana. Veículo<br />

autónomo, conectado, sabe onde está e<br />

para onde vai<br />

HIDROGÉNIO<br />

Os autocarros movidos a H2 já não<br />

são novidade, mas a sua proliferação<br />

é um sinal das mudanças que<br />

se operam na mobilidade<br />

GIROCOPTER<br />

Ainda com motorização térmica,<br />

mas menos poluidor que um<br />

automóvel, este girocopter é uma<br />

espécie de taxi aéreo para os<br />

novos tempos<br />

INCLUSÃO<br />

A mobilidade reduzida não foi esquecida<br />

nas conferência do GMC e os<br />

técnicos apontaram os caminhos<br />

para que não seja esquecida<br />

40 e-MOBILIDADE


MISSÃO H24<br />

Um protótipo para as corridas de Le<br />

Mans foi apresentado e captou as<br />

atenções. No próximo ano fará frente<br />

aos combustíveis fósseis<br />

e-MOBILIDADE 41


DESCARBONIZAÇÃO<br />

Chegou o<br />

retrofit elétrico<br />

Renault Trucks aposta na economia circular<br />

A construção de veículos ligeiros com recurso<br />

a materiais recicláveis já é uma realidade na<br />

Renault, da mesma forma que a série T Red é<br />

a imagem da sustentabilidade que a Renault<br />

Trucks quer levar a sério. O retrofit elétrico é o<br />

último grito da economia circular: pegar num<br />

camião com motor diesel e fazê-lo andar de novo<br />

com um motor elétrico.<br />

A<br />

Renault Trucks, pioneira na economia circular<br />

e na mobilidade elétrica, deu um passo significativo<br />

para a descarbonização ao converter um<br />

camião com motor diesel, de 12 toneladas, num<br />

camião elétrico movido a bateria. Este projeto de<br />

retrofit elétrico foi realizado em colaboração com a Novumtech,<br />

com apoio financeiro da ADEME, a Agência Francesa para<br />

a Transição Ecológica. A iniciativa é duplamente virtuosa,<br />

pois visa preservar os recursos naturais e reduzir o impacto<br />

ambiental dos veículos.<br />

A Renault Trucks não usa apenas o transporte sustentável<br />

como slogan! O fabricante francês está agora a dar mais<br />

uma prova disso, tendo acabado de concluir a conversão<br />

em oficina de um camião com motor de combustão num<br />

camião elétrico. O objetivo do projeto é avaliar a viabilidade<br />

ambiental, técnica e económica do retrofitting elétrico<br />

para veículos pesados de carga. O projeto foi viabilizado<br />

por meio da colaboração com a Novumtech, startup com<br />

expertise em design e produção de baterias, e com apoio<br />

financeiro da ADEME, a Agência Francesa para a Transição<br />

Ecológica.<br />

A circularidade é, de facto, uma das áreas estratégicas de<br />

foco da Renault Truck para descarbonizar o transporte de<br />

mercadorias. As atividades industriais do fabricante, que<br />

está empenhado em prolongar a vida útil dos veículos<br />

que produz, fazem parte de uma abordagem de economia<br />

circular assente em três pilares: regenerar, reaproveitar e<br />

reutilizar.<br />

42 e-MOBILIDADE


Sob esta abordagem, a Renault Trucks introduziu uma série<br />

de iniciativas, incluindo a duplicação da vida útil dos camiões<br />

para os transportadores, incentivando o recondicionamento<br />

em vez da renovação. Além disso, o fabricante oferece uma<br />

segunda vida aos seus camiões usados através de reaproveitamento,<br />

usando rigorosos processos industriais. Até ao<br />

momento, mais de 1.500 caminhões foram reaproveitados<br />

na Fábrica de Bourg-en-Bresse e 700 foram recondicionados<br />

no Centro de Camiões Usados<br />

em Lyon, economizando mais de<br />

5.000 toneladas de CO 2<br />

.<br />

AS ETAPAS DE CONVERSÃO<br />

A conversão elétrica do Renault<br />

Trucks D de 12 toneladas foi<br />

ECONOMIA CIRCULAR<br />

Este projeto de retrofit, alcançado graças à<br />

parceria com a Novumtech, foi realizado nas<br />

instalações do CampX by Volvo Group na<br />

unidade da Renault Trucks em Lyon<br />

conseguida modificando apenas o estritamente necessário,<br />

nomeadamente o motor, a caixa de velocidades, o depósito<br />

de combustível e o depósito de AdBlue, enquanto os<br />

componentes associados ao motor de combustão, como a<br />

bomba hidráulica para a direção hidráulica, o compressor<br />

de ar para suspensão e travagem e o compressor do ar condicionado,<br />

foram todos removidos.<br />

Esses componentes foram substituídos por um motor<br />

elétrico ligado diretamente ao<br />

eixo de transmissão, uma bateria<br />

de iões de lítio de 210 kWh, um<br />

carregador de bordo de 22 kW,<br />

um compressor de ar elétrico<br />

para suspensão e travagem, uma<br />

bomba hidráulica elétrica para<br />

direção hidráulica, um compressor<br />

de ar condicionado elétrico e um<br />

sistema de aquecimento elétrico<br />

para a cabina.<br />

O próximo marco para este projeto<br />

é a certificação do camião convertido, a<br />

fim de validar a conformidade com as<br />

regulamentações atuais. Uma vez obtida<br />

essa aprovação, a Renault Trucks iniciará<br />

uma fase de testes em condições reais<br />

de operação em parceria com o Clovis<br />

Grand Paris, na França.<br />

Este projeto de retrofit, alcançado graças<br />

à parceria com a Novumtech, foi realizado<br />

nas instalações do CampX by Volvo<br />

Group na unidade da Renault Trucks em<br />

Lyon. O objetivo do CampX é acelerar a<br />

inovação tecnológica e comercial, criando<br />

sinergias entre os funcionários da Renault<br />

Trucks (a equipe de engenharia de Lyon)<br />

e as startups.<br />

A Renault Trucks não<br />

usa apenas o transporte<br />

sustentável como slogan!<br />

O fabricante francês<br />

está agora a dar mais<br />

uma prova disso, tendo<br />

acabado de concluir a<br />

conversão em oficina de<br />

um camião com motor de<br />

combustão num camião<br />

elétrico<br />

e-MOBILIDADE 43


Reduzir, reutilizar,<br />

OPINIÃO<br />

reciclar<br />

ANTÓNIO GONÇALVES PEREIRA<br />

Presidente do Ecomood Portugal, Associação<br />

para a Promoção Solidária da Sustentabilidade<br />

na Mobilidade Humana; Embaixador<br />

do Pacto Climático Europeu<br />

Portugal está a perder uma<br />

excelente oportunidade.<br />

Mais um ano passou, mais<br />

um Orçamento de Estado,<br />

e a conversão de veículos<br />

a combustão para elétricos<br />

continua a não ser uma aposta.<br />

Nem, tão pouco, uma realidade.<br />

Isto enquanto noutros países<br />

não só há muito que esta<br />

solução é praticada, como,<br />

até, já se começa a atribuir<br />

subsídios, tal como para a<br />

aquisição de novos veículos<br />

elétricos. E em Portugal, onde<br />

quase nem produzimos veículos<br />

novos, mas temos tudo o que é<br />

necessário para as conversões,<br />

continuamos parados.<br />

Se em tudo o<br />

resto, porque<br />

não também<br />

nos veículos?<br />

Pense nas muitas centenas de milhões de veículos a<br />

combustão que existem a circular, tanto rodoviariamente,<br />

como nos céus e nos mares. Já todos sabemos<br />

que, mais cedo do que tarde, terão de ser substituídos<br />

por outros, menos poluentes. Muito menos<br />

poluentes. Mas… e porquê substituídos? Muitos deles estão<br />

ainda em perfeitas condições de operação, são bons veículos,<br />

com a excepção de se locomoverem a combustíveis fósseis. E<br />

muitos outros estão, ainda hoje e nos próximos tempos, a ser<br />

produzidos e comercializados. Porque não convertê-los? Ou<br />

seja, RECICLAR motores e peças desnecessárias, REUTILIZAR<br />

o restante veículo, montando-lhe um sistema de propulsão<br />

elétrico e as respectivas baterias e, assim, REDUZIR o abate de<br />

veículos em boas condições e a produção de novos veículos,<br />

com toda a toda a pegada daí inerente.<br />

Este será um mercado gigantesco nos próximos anos. A solução<br />

é já praticada há mais de 30 anos, com maior incidência nos<br />

últimos 15, sobretudo no que diz respeito a automóveis clássicos,<br />

em países como Holanda, Inglaterra ou Estados Unidos. Por cá,<br />

em ambiente académico, também se tem feito sistematicamente,<br />

em Institutos de ensino superior, como o ISEL ou os Politécnicos<br />

de Setúbal, Leiria ou Tomar. Não é, portanto, uma novidade,<br />

nem, tão pouco, particularmente complicado.<br />

Há mais de dez anos que existem sites na internet em que<br />

pode escolher e comprar os diversos componentes para fazer<br />

a sua própria conversão. E também vai havendo fabricantes de<br />

viaturas, como a Aston Martin, a Toyota, a Ford, a Jaguar ou a<br />

44 e-MOBILIDADE


ASTRA<br />

Renault que já anunciaram este modelo de negócio ou que até<br />

já estão mesmo a fornecer kits de conversão para modelos seus.<br />

Em Portugal, além do know-how acima mencionado, temos<br />

tudo o resto: a produção de motores elétricos e respectivos<br />

controladores, a fabricação de baterias, as suas matérias-primas<br />

e componentes. E temos uma forte indústria de empresas<br />

transformadoras de veículos. Porque não, então, apostar-se de<br />

forma clara e incisiva nesta solução de sustentabilidade para<br />

reduzir mais rápida, eficaz e democraticamente a pegada da<br />

mobilidade?<br />

DEMOCRATIZAR E ACELERAR A DESCARBONIZAÇÃO<br />

Converter um veículo implica uma redução de praticamente<br />

dois terços das emissões, se comparado com o seu abate e a<br />

produção de um novo. E este deve ser o número prioritário.<br />

Mas incluamos também a importante vertente económica,<br />

até porque esta está ligada também com a sustentabilidade<br />

social. O valor de uma conversão estará sempre dependente<br />

da autonomia que se pretender, ou seja, das dimensões das<br />

baterias. Quando se começar a aplicar a economia de escala,<br />

ou seja, quando esta for uma solução industrializada e<br />

sistematizada, os valores vão baixar muito substancialmente.<br />

Mas, mesmo nesta fase, a melhor imagem para a conversão de<br />

um automóvel é: pelo preço da compra de um citadino novo<br />

pode converter um SUV ou topo de gama. Portanto, assim<br />

se conseguirá que muitos mais cidadãos consigam passar a<br />

circular com veículos sem emissões.<br />

Mas é nos veículos profissionais que esta solução é ainda mais<br />

importante e urgente, dada a sua grande circulação e pegada.<br />

Autocarros (pelo preço de um elétrico novo pode converter-<br />

-se 3), veículos de distribuição, de logística e limpeza urbana,<br />

táxis e tvde, etc. E barcos,<br />

de turismo, de recreio ou de<br />

transporte coletivo.<br />

Opel Astra convertido<br />

em 2010 pelo Engº. José<br />

Loureiro no Politécnico<br />

de Setúbal, que é o seu<br />

veículo do dia-a-dia<br />

O QUE FALTA FAZER?<br />

Esta é também a fórmula financeiramente<br />

mais sustentável para Portugal,<br />

que produz poucos veículos. As conversões podem constituir<br />

uma indústria de referência no nosso país, uma vez que já<br />

temos tudo o necessário. Em vez de importar, convertemos.<br />

Criamos emprego e riqueza. Aumentamos receita fiscal em<br />

vez de deixar sair divisas. E, claro, baixamos drasticamente<br />

emissões.<br />

Temos, portanto, tudo. Falta vontade política, visão e<br />

aposta. Há que evoluir a legislação existente e criar regulamentação,<br />

como aconteceu com o GPL. Há que certificar<br />

empresas do sector (devendo até atribuir-se-lhes estatuto de<br />

interesse público) e homologar kits de conversão, para que,<br />

nesses casos, baste uma inspeção B para rapidamente se devolver<br />

esses veículos à circulação. E falta criar os incentivos<br />

adequados, tanto ao nível da produção, como das instituições<br />

ou do cidadão consumidor final.<br />

E o Estado, central e local, pode e deve dar o exemplo, começando<br />

a converter, a reutilizar, as suas gigantescas frotas. Se<br />

esta solução é mais sustentável do que o abate e produção de<br />

veículos novos, porque não? Portugal pode ainda entrar na<br />

linha da frente, criando uma indústria de referência nacional,<br />

com empresas de todas as dimensões, incluindo exportadoras.<br />

Sustentável, ambiental, social e financeiramente, não é deitar<br />

fora e produzir novo, é reutilizar o que temos. Nas viaturas<br />

como em tudo o resto.<br />

AUTOCARRO<br />

O Engº. Tiago Octício<br />

mostra a Elisabete Jacinto<br />

o autocarro convertido na<br />

Barraqueiro, em parceria<br />

com o ISEL<br />

e-MOBILIDADE 45


TRANSIÇÃO ENERGÉTICA<br />

O futuro realista<br />

da mobilidade<br />

A mobilidade é uma das atividades mais inerentes ao ser humano, mas a sua complexidade tem<br />

aumentado devido aos desafios ambientais e populacionais que fazem parte do século XXI.<br />

GUSTAVO MAGALHÃES<br />

Senior Innovation Consultant na Beta-i<br />

A<br />

realidade é que os<br />

condicionamentos<br />

exteriores que enfrentamos<br />

perturbam o que<br />

consideramos ser o nosso<br />

fluxo natural de movimentação, mas,<br />

por outro lado, são simultaneamente<br />

estes mesmos entraves que também<br />

impulsionam o próprio repensar das<br />

diferentes maneiras como nos deslocamos<br />

– resultando, frequentemente, na<br />

inovação necessária para as sociedades<br />

progredirem.<br />

Deste processo surge, inevitavelmente,<br />

a questão: o que se segue, então, em<br />

termos de mobilidade?<br />

A transição para veículos elétricos tem<br />

sido uma das mudanças mais significativas<br />

no cenário global nos últimos<br />

tempos. Não obstante, tem de existir<br />

um equilíbrio entre a introdução de<br />

novos modelos elétricos e a preservação<br />

sustentável dos veículos de combustão<br />

já existentes. Uma abordagem<br />

abrangente requer por isso a implementação<br />

de incentivos apropriados<br />

para uma mudança gradual e inclusiva.<br />

Não conseguiremos consolidar<br />

um futuro sustentável sem ponderar<br />

o impacto socioeconómico que esta<br />

transição pode ter em comunidades<br />

que dependem predominantemente de<br />

tecnologias tradicionais de combustão.<br />

Devemos ter em conta que, para<br />

a maioria da população, trocar o seu<br />

carro atual por outro modelo elétrico<br />

ou mais sustentável exige um esforço<br />

financeiro significativo, pelo que as<br />

soluções que impulsionem a adoção<br />

destes mesmos veículos deve ser fortalecida<br />

com apoios, económicos e de<br />

outra natureza, a essa transição.<br />

Adicionalmente, os conceitos de<br />

mobilidade partilhada e micromobilidade<br />

têm desempenhado um papel<br />

significativo no facilitar as deslocações<br />

urbanas, contribuindo para a redução<br />

do congestionamento urbano e para<br />

a mitigação das emissões de carbono.<br />

As deslocações devem continuar a ser<br />

pensadas de forma comunitária para<br />

organizar o fluxo das cidades, mas<br />

também oferecer oportunidades diversificadas<br />

e personalizadas às necessidades<br />

de cada indivíduo. O equilíbrio<br />

entre estas duas modalidades é desafiante,<br />

requerendo esforços significativos<br />

no fortalecimento das redes de<br />

transportes coletivos e um planeamento<br />

minucioso da intermodalidade entre<br />

46 e-MOBILIDADE


Devemos ter em conta<br />

que, para a maioria da<br />

população, trocar o seu<br />

carro atual por outro<br />

modelo elétrico ou<br />

mais sustentável exige<br />

um esforço financeiro<br />

significativo<br />

diferentes tipos de viaturas. A aposta<br />

numa mobilidade mais flexível e ramificada<br />

é, certamente, um dos caminhos a<br />

seguir para desbloquear a acessibilidade<br />

das cidades. Ao considerar o futuro da<br />

mobilidade, não podemos ignorar também<br />

a ascensão iminente dos veículos<br />

autónomos. A convergência da inteligência<br />

artificial e da automação está<br />

paulatinamente a abrir portas para um<br />

novo paradigma de deslocações, onde<br />

os veículos autónomos têm o potencial<br />

de redefinir radicalmente a forma<br />

como nos movemos. Esta revolução<br />

não se limita apenas à conveniência<br />

pessoal, proporcionando igualmente<br />

oportunidades para otimizar processos<br />

de transporte e logística, bem como do<br />

uso de infraestruturas inteligentes. Não<br />

obstante, a integração bem-sucedida<br />

desses veículos exigirá não apenas progresso<br />

tecnológico, como também uma<br />

reflexão profunda sobre as implicações<br />

éticas e sociais dessa transição.<br />

A inovação é chave para o futuro da<br />

mobilidade, pois está intrinsecamente<br />

ligada ao desenvolvimento de uma<br />

abordagem holística que busque a<br />

melhoria tanto dos veículos como das<br />

infraestruturas existentes no quotidiano.<br />

Neste caminho, é necessário saber<br />

conjugar os avanços tecnológicos com<br />

as implicações sociais, económicas e<br />

ambientais que estes possam trazer,<br />

procurando aumentar o potencial da<br />

mobilidade para que esta se adeque às<br />

vidas das pessoas – e não o contrário.<br />

e-MOBILIDADE 47


48 e-MOBILIDADE


RESPOSTA RADICAL<br />

Bento e<br />

Freegones<br />

Micro-utilitários da Renault<br />

para a última milha<br />

Chegou a vez do Bento, um micro carro, também elétrico, com<br />

uma caixa de carga de 1 m 3 para entregas urbanas da última milha.<br />

Tem a assinatura da Mobilize, empresa do universo Renault. Mas<br />

também chegou a hora do Freegones, um triciclo elétrico, que<br />

dobra aquela capacidade de carga<br />

A<br />

Renault encontrou<br />

respostas algo radicais<br />

para as entregas da<br />

última milha. Conhecidas<br />

as dificuldades de<br />

estacionamento, dos congestionamentos<br />

dos grandes centros urbanos<br />

e das restrições à circulação que as<br />

autoridades municipais irão impor, a<br />

resposta da Mobilize/Renault chegou<br />

e ela chama-se Bento. Porquê Bento?<br />

Ninguém soube responder. Também<br />

não se sabe ainda o preço. É elétrico,<br />

naturalmente. E ainda surgiu o<br />

Freegones, uma “tricicleta” elétrica,<br />

com 80 km de autonomia, com a assinatura<br />

da Kleuster/Renault, esta da<br />

responsabilidade da Renault Trucks.<br />

Vá lá saber-se porquê.<br />

O Bento tem uma imagem impressiva,<br />

pelo menos na imagem que transmite,<br />

e a que ninguém ficará indiferente. É<br />

monolugar, bem centrado na carlinga,<br />

tem duas portas, tipo elytral (vertical)<br />

e uma caixa de carga com 1 m 3 de<br />

e-MOBILIDADE 49


MICRO-UTILITÁRIOS<br />

Bento e Freegones<br />

O Bento tem uma<br />

imagem impressiva,<br />

pelo menos na<br />

imagem que<br />

transmite, e a que<br />

ninguém ficará<br />

indiferente<br />

capacidade. Para volumes pequenos,<br />

naturalmente, e para corresponder aos<br />

cada vez mais pedidos de última hora,<br />

super necessários e super urgentes.<br />

A Renault foi de extremos: em ato contínuo<br />

à apresentação da sua van de maior<br />

capacidade, a Master, na Solutrans de<br />

Lyon, bem ali ao lado o Bento dava sinal<br />

de vida, o mais pequeno dos comerciais.<br />

Aparentemente derivado do Duo,<br />

a pequena máquina que substituiria<br />

o Renault Twizy, a sua caixa de carga<br />

poderá carregar 80 kg de carga útil, mas<br />

pode ser apetrechada com ferramentas<br />

para pequenas reparações e manutenção.<br />

A Mobilize vai propor layouts para<br />

a caixa, podendo ter um visual personalizado.<br />

Dotado de airbag e ar-condicionado, o<br />

Bento foi projetado para empresas, mas<br />

o transporte particular também é viável.<br />

Possui um sistema de acesso e arranque<br />

por meio de uma chave digital acessível<br />

a partir de um smartphone. Para a<br />

gestão da frota, o veículo é conectado.<br />

Alguns dados do veículo são transmitidos<br />

em tempo real para um servidor online<br />

seguro. Pode circular até 80 km/h<br />

e dispõe de autonomia de 140 km. O<br />

cabo de carregamento, ligado ao veículo,<br />

é de tipo padrão (uso doméstico)<br />

ou tipo 2 (compatível com postos de<br />

carregamento públicos, em empresas ou<br />

parques de estacionamento). O Bento<br />

estará disponível no primeiro semestre<br />

de 2024.<br />

FREEGONES, SEM DAR<br />

AOS PEDAIS<br />

O Freegones parece um carrinho de<br />

gelados – e a verdade é que também<br />

pode ter essa configuração e capacidade<br />

frigorífica –, mas a sua caixa de<br />

carga tem capacidade para 2m 3 e 300<br />

kg de carga útil, com várias portas<br />

para acesso à mesma. Diz a marca que<br />

acolherá 16 caixas com dimensões de<br />

600x400x300mm, ou uma europalete.<br />

E se tem uma pedaleira de auxílio para<br />

os primeiros metros, ou para uma subida<br />

– pode trepar pendentes a 16% –, a<br />

sua bateria garante autonomia para 80<br />

km, ou um dia inteiro de trabalho. Está<br />

conectada à base.<br />

50 e-MOBILIDADE


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BERLINA BYD HAN E SUV BYD TANG<br />

Dois formatos<br />

para o<br />

almirantado<br />

A Europa ainda não se habituou aos carros elétricos chineses? Há<br />

quem olhe para o lado, com desdém, por desconfiança, outros que<br />

fingem não ligar importância. Mas é bom que se habituem, pois eles<br />

continuam a chegar e a ganhar posições nos rankings. Andam a par<br />

com a dianteira tecnológica, têm design moderno – também algum<br />

kitsch –, performance, qualidade de construção e de materiais e<br />

acabamento cuidado. A autonomia é ao nível dos melhores e o preço<br />

continua a surpreender. Experimentámos dois dos seus topo de<br />

gama, a berlina Han e o SUV Tang.<br />

Por Carlos Branco<br />

Tem sido fulgurante a trajetória<br />

industrial da BYD,<br />

fundada em Shenzhen, na<br />

China, em 1995, por Wang<br />

Chuanfu, engenheiro químico,<br />

a quem já chamam de Elon Musk<br />

chinês. Os pontos de ligação entre<br />

ambos: empreendedores e multimilionários.<br />

O que já os distingue: a BYD já<br />

ultrapassou a Tesla como líder mundial<br />

na venda, a nível global, de veículos<br />

elétricos, no final do ano passado.<br />

A BYD - Build Your Dreams é a fabricante<br />

número um de veículos elétricos<br />

na China, começou a sua ascensão<br />

como produtora de baterias para telemóveis<br />

e inovou na experiência energética<br />

ao desenvolver as baterias de fosfato<br />

de ferro-lítio (LFP), com o formato de<br />

lâminas, mais finas e resistentes que as<br />

convencionais.<br />

Começou por fabricar autocarros,<br />

produz as suas próprias baterias e<br />

chegou aos veículos de passageiros,<br />

tendo começado a assolar a Europa com<br />

uma vaga de produtos mais baratos e<br />

que têm cativado muitos adeptos. Já<br />

anunciou a construção de uma fábrica<br />

de automóveis elétricos na Hungria,<br />

para assim contornar as restrições de alguns<br />

países, que anunciaram o final de<br />

incentivos à compra de carros de zero<br />

emissões se estes não forem produzidos<br />

no espaço da UE.<br />

A BYD chegou a Portugal em maio<br />

último, pela mão da Salvador Caetano.<br />

Primeiro com o Atto 3, um SUV para o<br />

segmento C, e com a berlina Han, um<br />

topo de gama para o segmento E, pró-<br />

-executivo. E mais o Tang, um SUV premium<br />

de sete lugares. E agora já tem no<br />

mercado um comercial ligeiro, o ETP3,<br />

mais o Dolphin e o Seal, pontas-de-lança<br />

para os segmentos C e D. Ora, desde<br />

maio, mês de arranque da comercialização,<br />

e até ao final de dezembro, a BYD<br />

TANG<br />

É tudo digital nos<br />

quadrantes, talvez até<br />

demais, havendo já quem<br />

sinta saudades de alguns<br />

interruptores físicos<br />

52 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 53


LIGEIROS<br />

BYD Han e BYD Tang<br />

já matriculou 462 veículos em Portugal<br />

(dados da ACAP).<br />

3,9 SEGUNDOS!<br />

Vem agora ao caso o contacto com dois<br />

dos primeiros “realizadores de sonhos”.<br />

O Han e o Tang. Partilham a mesma<br />

plataforma, o preço – 72.500 euros – e<br />

a motorização, que neste caso é dupla,<br />

com um motor para cada eixo, sendo<br />

assim ambos All Wheel Drive. A soma<br />

perfaz 517 cv, com uma bateria de 85,4<br />

kWh e um elevado binário. Já se sabe<br />

quão rápida é a disponibilização de<br />

energia nos carros elétricos, e em modo<br />

de condução Sport colam-nos às costas<br />

dos assentos - bem ergonómicos, em<br />

pele vegan, aquecidos e refrigerados –<br />

mas sem sobressaltos, natural em carros<br />

com quase cinco metros de comprimento<br />

e boa distância entre eixos.<br />

O Han causou surpresa pela designação<br />

secundária afixada no painel traseiro<br />

da mala – 3,9s. Anuncia assim que é o<br />

tempo que leva a atingir os 100 km/h.<br />

O Tang faz 4,6s, pois é bem mais pesado,<br />

mas disso não faz ostentação.<br />

As linhas de ambas são fluidas, o Han,<br />

naturalmente mais baixo e esguio, com<br />

design europeu, tal como o Tang, este<br />

de “salto alto” e com a metade traseira<br />

apenas ligeiramente mais baixa que<br />

o pilar central, pois tem que acolher<br />

dois lugares suplementares. Que são<br />

de acesso difícil, quase só acessível a<br />

jovens passageiros.<br />

A vida a bordo é luxuosa (acabamentos<br />

Executive e Flagship, no Han e<br />

no Tang). Os materiais são agradáveis<br />

ao toque e não se notam desencontros<br />

nos remates. É tudo digital<br />

nos quadrantes, talvez até demais,<br />

havendo já quem sinta saudades de<br />

alguns interruptores físicos – há um<br />

head display no Han. O ecrã de info é<br />

gigante e pode ser disposto, ao gosto<br />

do condutor, em modo panorama ou<br />

retrato. As centenas de funções não<br />

são de escolha muito intuitiva.<br />

As costas do banco central traseiro<br />

rebatem e aí encontra-se outro display,<br />

onde os passageiros podem manipular<br />

várias funções, como climatização ou<br />

sistema áudio. À noite há luzes no<br />

tablier que podem bailar consoante o<br />

ritmo da música. Naturalmente, um<br />

kitsch nada a propósito em viaturas<br />

de segmento avançado.<br />

Em andamento quase nulo há um<br />

zumbido de funcionamento algo<br />

irritante, mas inaudível com o incremento<br />

da marcha. Há suavidade<br />

na disponibilização da potência – o<br />

modo Eco é mais que suficiente –, o<br />

comportamento em estrada é preciso,<br />

a travagem, com a chancela Brembo,<br />

é reconfortante.<br />

No capítulo da segurança têm tudo o<br />

que já existe no mercado, detetam e<br />

alertam para tudo e mais alguma coisa<br />

e dispõem de câmaras que nos revelam<br />

ângulos-mortos laterais. A BYD também<br />

tem os seus “navios de almirantado”.<br />

54 e-MOBILIDADE


PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS<br />

BYD Han<br />

BYD Tang<br />

Motor<br />

Elétrico Dual 180 Kw (245 cv)+200 Kw (272 cv)<br />

Transmissão<br />

Integral (AWD)<br />

Bateria<br />

85,4 KWh<br />

Binário<br />

700 Nm<br />

Vel. Max.<br />

180 km/h<br />

Ac. 0/100 km/h 3,9s 4,6s<br />

Autonomia<br />

521 km (comb.) 400 km (comb.)<br />

662 km (urbano) 528 km (urbano)<br />

Travões<br />

Discos perfurados, ventilados com pinças desportivas Brembo<br />

Suspensão<br />

McPherson (ft), eletr. ajustável<br />

McPherson (ft)<br />

Multibraços (tr.) eletr. Ajustável<br />

Multibraços (tr)<br />

Peso 2250 kg 2489 kg<br />

Dimensões (CxLxA) 4995x2134x1495 mm 4870x1950x1725 mm<br />

Já se sabe quão rápida é a<br />

disponibilização de energia nos carros<br />

elétricos, e em modo de condução Sport<br />

colam-nos às costas dos assentos<br />

e-MOBILIDADE 55


COMBUSTÍVEL<br />

Menos poluente<br />

que a gasolina<br />

e (muito) mais<br />

GPL,<br />

barato, o GPL tem<br />

feito da Dacia um<br />

sucesso comercial<br />

o ás da Dacia<br />

O propano e o butano são obtidos através do petróleo ou do gás<br />

natural e quando misturados dão origem ao GPL (gás de petróleo<br />

liquefeito), também chamado de autogás, se aplicado como<br />

combustível automóvel. Ora, para a Dacia, este consumível tem<br />

sido um ás de trunfo por toda a Europa e particularmente em<br />

Portugal, onde os automobilistas vivem deprimidos pelo elevado<br />

custo dos carburantes tradicionais. A Renault dedicou à nova<br />

marca-coqueluche um “Dacia Talks”.<br />

A<br />

Dacia, construtor automóvel<br />

romeno, chegou<br />

a Portugal há 15 anos, e<br />

em 1999 passou a orbitar<br />

na esfera empresarial da<br />

Renault. Esta tirou-lhe a rusticidade,<br />

proporcionou-lhe modernidade tecnológica,<br />

mas manteve-lhe o aspeto robusto<br />

e deu-lhe um ar confiável. E um preço<br />

baixo. Tanto assim foi que a Dacia cavalgou<br />

jornadas de sucesso desde 2017,<br />

quando passou a ser um best seller entre<br />

as viaturas particulares na Europa – o<br />

Sandero tem essa aura. Em Portugal poderia<br />

mesmo ser um caso de estudo, pois<br />

um em cada cinco veículos vendidos a<br />

particulares é um Dacia Sandero.<br />

Os números mais recentes divulgados<br />

pela ACAP dizem-nos que a Dacia foi a<br />

terceira marca mais vendida no mercado<br />

nacional nos primeiros nove meses<br />

do ano entre os ligeiros de passageiros.<br />

Lá está, o preço também ajuda. Mas<br />

não é só. Quatro dos cinco modelos da<br />

Dacia já dispõem do motor TCe 100<br />

ECO-G, lançado em 2020, um três cilindros<br />

turbo, com 100 cv de potência.<br />

Principal característica: é bi-fuel. Quer<br />

com isto dizer que tanto pode consumir<br />

gasolina como GPL, em depósitos autónomos,<br />

preparado para tal de origem<br />

56 e-MOBILIDADE


e suficientemente testado para se poder<br />

assegurar que é confiável e seguro,<br />

derrubando alguns mitos de estrada que<br />

dele diziam ser suscetível a explosões.<br />

Sendo um bi-fuel com GPL assim concebido<br />

de fábrica, também pode aceder<br />

a estacionamentos subterrâneos (tem<br />

selo de certificação).<br />

PREFERIDO POR PARTICULARES,<br />

ATRATIVO PARA EMPRESAS<br />

José Pedro Neves, diretor geral da Dacia<br />

para Portugal, fez o enquadramento da<br />

marca em Portugal: “O grande objetivo<br />

inicial sempre foi o de conquistar os<br />

clientes particulares e nessa matéria somos<br />

líderes incontestados de vendas, com 18%<br />

de quota de mercado. Os portugueses<br />

gostam de comprar um automóvel com o<br />

seu próprio dinheiro e um em cada cinco<br />

adquirem um Dacia, o que é um motivo<br />

Também é bem mais<br />

económico e mais rentável.<br />

A preços de outubro, o<br />

GPL custava -55% por litro<br />

que a gasolina<br />

de orgulho para todos nós. O Sandero é o<br />

mais vendido em Portugal a particulares,<br />

o segundo mais vendido no mercado<br />

total, o Duster é o segundo na lista dos<br />

particulares. Já o Spring é o líder de vendas<br />

dos elétricos a particulares.”<br />

Sem deixar de enfatizar a importância<br />

do GPL no mercado português, ao mesmo<br />

tempo que expunha o declínio de<br />

outros combustíveis e o crescente interesse<br />

do cliente empresarial, José Pedro<br />

Neves revelou como outros potenciais<br />

utilizadores têm despertado para este<br />

combustível alternativo: “O mix do<br />

GPL é apenas de 5% no mercado, mas<br />

o diesel está em declínio, já desceu 40<br />

pontos nos últimos cinco anos, e está a<br />

perder para o green market. O mercado<br />

do GPL está a crescer, e praticamente<br />

ele é todo preenchido pela Dacia. Ao<br />

mesmo tempo, o GPL começa também<br />

a ser uma verdadeira alternativa para as<br />

empresas, porque um carro a GPL deduz<br />

50% do IVA na aquisição e deduz<br />

outros 50% do GPL na utilização.”<br />

Mas então, e os gases com efeito de<br />

estufa? Então, a Renault, que está em<br />

sequência interminável de lançamentos<br />

de motorizações E-Tech, anda a promover<br />

a combustão interna? É verdade.<br />

Mas, assegura, que por boas razões. E,<br />

de resto é para uma motorização bi-fuel.<br />

É preciso que se diga que o GPL é<br />

um combustível alternativo com uma<br />

combustão mais limpa/menos nociva,<br />

com emissões poluentes inferiores às<br />

que resultam da combustão de gasolina<br />

e gasóleo. A sua queima produz menos<br />

monóxido de carbono, emite menos<br />

hidrocarbonetos não queimados, menos<br />

óxido de azoto e dióxido de carbono.<br />

Também é bem mais económico e mais<br />

rentável. A preços de outubro, o GPL<br />

custava -55% por litro que a gasolina. É<br />

verdade que a combustão de GPL queima<br />

mais dois litros aos 100 km que a de<br />

a gasolina. No entanto, as vantagens ao<br />

fim dos primeiros 156 mil km percorridos<br />

são significativas. Dizem os gestores<br />

da marca que os ECO-G da Dacia<br />

reduzem em 40% os custos de operação<br />

– em combustível e em manutenção.<br />

Resta dizer que todos os Dacia com motor<br />

ECO-G têm 1200 km de autonomia<br />

(quando atestados os dois depósitos de<br />

50 litros, de GPL e gasolina). Estudos<br />

da marca revelam que os utilizadores<br />

utilizam maioritariamente o GPL como<br />

combustível prioritário nas duas deslocações.<br />

A combustão a gasolina funcionará<br />

sempre que o condutor desejar,<br />

mediante a pressão de um botão.<br />

e-MOBILIDADE 57


SETRA 500<br />

Daimler Buses já entregou<br />

10 mil unidades<br />

Os primeiros modelos Setra ComfortClass e TopClass da série de modelos 300<br />

saíram da linha de produção em Neu-Ulm em 1991. A série 400 seguiu em<br />

2001 e a produção em série da série 500 foi lançada em 2012.<br />

58 e-MOBILIDADE


LANÇADO EM 2012<br />

A última geração da série<br />

500 é fabricada em Neu-Ulm<br />

desde 2022 e começou a ser<br />

produzida em 2012<br />

A<br />

operadora de autocarros<br />

Unser Roter Bus GmbH,<br />

com sede no estado federal<br />

de Mecklemburgo-Pomerânia<br />

Ocidental, na Alemanha,<br />

adquiriu um Setra S 516 HD muito<br />

especial. Trata-se da unidade 10.000<br />

de turismo da série ComfortClass/<br />

TopClass 500 produzido<br />

na fábrica em Neu-Ulm.<br />

Equipado com 48 lugares,<br />

o veículo de três eixos de<br />

13,1 m de comprimento da<br />

série de modelos facelifted<br />

tem todos os mais recentes<br />

sistemas de assistência ao<br />

motorista e de segurança a<br />

bordo que a Daimler Buses<br />

oferece atualmente.<br />

O seu novo proprietário,<br />

René Riechert, manifesta-se<br />

impressionado. “Ao fazer<br />

ajustes aparentemente pequenos<br />

em muitos detalhes,<br />

quem desenvolveu o veículo conseguiu<br />

dar um front-end completamente<br />

novo à linha de autocarros de turismo<br />

ComfortClass”, diz o empresário, que<br />

colocou outro S 516 HD e mais um S<br />

511 HD em operação, além da unidade<br />

comemorativa de aniversário.<br />

A fábrica de Neu-Ulm é o centro de<br />

competência para autocarros de turismo<br />

de todos os tipos da Daimler Buses. A<br />

empresa produz veículos de turismo e<br />

intermunicipais das marcas Mercedes-<br />

-Benz e Setra. Os primeiros modelos<br />

Setra ComfortClass e TopClass da série<br />

de modelos 300 saíram da linha de produção<br />

em Neu-Ulm em 1991. A série<br />

400 seguiu em 2001 e a produção em<br />

série da série 500 foi lançada em 2012.<br />

A última geração dos dois modelos também<br />

é produzida no local desde 2022.<br />

A fábrica conta com métodos de produção<br />

de última geração, como a produção<br />

digital de autocarros de turismo.<br />

Todos os componentes para veículos de<br />

turismo são pré-montados digitalmente<br />

na sequência de montagem e as etapas<br />

individuais do processo são analisadas<br />

no computador. Isso possibilita otimizar<br />

o processo de montagem com antecedência<br />

e minimiza a necessidade de<br />

ajustes posteriores no processo.<br />

A fábrica de Neu-Ulm também abriga o<br />

Centro de Desenvolvimento de Sistemas de<br />

Segurança e Assistência, onde os veículos<br />

são testados, bem como o Centro de Competência<br />

para peças impressas em 3D.<br />

e-MOBILIDADE 59


SEMINÁRIO MOBILIDADE MAIS<br />

O transporte público<br />

É UMA URGÊNCIA<br />

Os problemas da mobilidade há muito estão identificados e as<br />

soluções estão à vista de todos os intervenientes, governantes,<br />

autoridades, operadores e técnicos. Só o mindset ainda não<br />

atingiu os utentes, por não parecerem, por ora, predispostos para<br />

abraçarem o caminho da mudança, para serem também atores da<br />

transição e da tal sustentabilidade, mas por também não estarem<br />

satisfeitos com a oferta atual. O seminário Mobilidade Mais<br />

acrescentou contributos à discussão, que está longe de terminar,<br />

sobre a sustentabilidade que desejamos. Ainda há obstáculos ao<br />

transporte público, mas há cada vez mais uma urgência para a sua<br />

evolução, que será igualmente a da própria sociedade.<br />

Por Carlos Branco<br />

O<br />

que querem as pessoas<br />

quando se fala de mobilidade?<br />

Tomemos como<br />

exemplo os transportes<br />

públicos: querem boa<br />

acessibilidade, carreiras, horários e<br />

frequências adequados, veículos confortáveis,<br />

seguros e modernos, bilhética<br />

e formas de pagamento simplificados.<br />

E, preferencialmente, que os levem do<br />

ponto A ao B rapidamente e por um<br />

preço justo. E isso está a acontecer?<br />

Não. Mas há sinais de mudança. Foi<br />

isso que ouvimos no seminário Mobilidade<br />

Mais, realizado em 19 de outubro,<br />

em Lisboa, iniciativa da Invesporte, editora<br />

das revistas EUROTRANSPORTE<br />

e <strong>eMOBILIDADE+</strong>, com quatro painéis<br />

de discussão dedicados à mobilidade<br />

urbana e interurbana, ao transporte expresso,<br />

à alta velocidade e aos sistemas<br />

de pagamento de transportes.<br />

Ouvimos de membros do Governo o<br />

diagnóstico e a urgência da melhoria do<br />

serviço público da transporte, de muitos<br />

líderes de empresas que participam<br />

neste processo a necessidade do reforço<br />

das medidas financeiras de apoio às<br />

operações e de melhor monitorização<br />

pelas autoridades das necessidades dos<br />

utentes. Escutámos dos técnicos que<br />

as mais adequadas soluções digitais<br />

para otimizarem estes sistemas estão ao<br />

alcance, mas que as decisões, mormente<br />

as políticas, tal como a execução<br />

60 e-MOBILIDADE


Inove com a nossa empresa.<br />

Construímos um produto que se adequa às suas<br />

exigências de qualidade e design.<br />

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O Atomic 7s é mais do que um autocarro, é uma experiência de condução única.<br />

Com uma estrutura e um design que garante estabilidade, versatilidade e<br />

eficiência, o Atomic 7s adapta-se a qualquer tipo de viagem, seja citadina ou<br />

longo curso. O Atomic 7s permite-lhe escolher os opcionais que correspondam<br />

às suas preferências e necessidades. Transforme o Atomic 7s no seu autocarro<br />

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e-MOBILIDADE 61


EVENTO<br />

Seminário Mobilidade Mais<br />

Foram quatro painéis de discussão dedicados à<br />

mobilidade urbana e interurbana, ao transporte<br />

expresso, à alta velocidade e aos sistemas de<br />

pagamento de transportes<br />

das mesmas, devem ser tomadas mais<br />

rapidamente. “Temas desafiantes”,<br />

chamou-lhes Eduardo Carvalho, administrador<br />

da Invesporte, promotora<br />

do evento, na alocução de boas-vindas,<br />

para quem “minimizar os impactos no<br />

meio ambiente e na qualidade de vida<br />

dos cidadãos” constituem desafios que<br />

importa continuar a discutir.<br />

Aqui deixamos uma súmula dos debates,<br />

sem prejuízo de tudo o que foi<br />

dito na íntegra, com recurso à gravação<br />

vídeo, que pode ser acedida no Youtube<br />

(clicar nas imagens).<br />

PEDRO BOGAS<br />

A Carris, com a procura atual,<br />

retira diariamente entre 120 a<br />

130 mil carros da cidade<br />

MAIS MOBILIDADE NO<br />

TRANSPORTE URBANO<br />

E INTERURBANO<br />

Em mesa redonda composta por Sónia<br />

Ferreira (Rodoviária do Tejo), Sérgio<br />

Soares (Transdev), Pedro Bogas (CAR-<br />

RIS) e António Torres (CIM Lezíria do<br />

Tejo), moderada por Susana Castelo<br />

(TIS), Luís Cabaço Martins (ANTROP)<br />

introduziu o tema e explicou como está<br />

tudo a mudar com a chegada dos reguladores<br />

da atividade, que ainda cometem<br />

erros por estarem a aprender, mas<br />

que têm as competências legais para<br />

intervir e devem ser proativos na análise<br />

dos contratos de serviço público.<br />

Com os contratos de serviço público,<br />

quais têm sido as conquistas dos<br />

passageiros?, lançou a moderadora.<br />

“Fora das áreas metropolitanas não há<br />

transporte. Apenas o transporte escolar<br />

e é ineficiente. E ao fim-de-semana também<br />

não há transporte”, criticou Sérgio<br />

Soares, questionando por que razão os<br />

outros territórios têm menos acesso ao<br />

transporte público que as áreas metropolitanas.<br />

Para Sónia Ferreira, a sustentabilidade é<br />

a chave: “Como podemos ter operadores<br />

que a integrem bem nas suas operações<br />

diárias, com qualidade, com bom serviço,<br />

com melhor frota, como boa tipologia<br />

de títulos, se essa atividade não for<br />

economicamente sustentável? Por que<br />

não fasear esta transição energética, sem<br />

ser do 8 ao 80? Através de combustíveis<br />

menos poluentes e não apenas com<br />

elétricos ou a hidrogénio, que frequentemente<br />

dizem-nos não existir, ou essas<br />

unidades são sujeitas a rateio”.<br />

Pedro Bogas disse quem é o adversário:<br />

o transporte individual. A Carris,<br />

com a procura atual, retira diariamente<br />

entre 120 a 130 mil carros diariamente<br />

da cidade. Com as metas definidas,<br />

crê que esse número poderá aumentar<br />

para 150/170 mil. “Acreditamos poder<br />

chegar a meados de 2024 com praticamente<br />

metade da frota sustentável, e<br />

com 80% até 2026”.<br />

“Como se explica a uma pessoa de<br />

Samora Correia, que fica mais perto<br />

de Lisboa que Mafra ou Setúbal, que<br />

o seu passe seja mais caro. São arestas<br />

que deveriam ser limadas e o Governo<br />

tem que ter a noção que há transportes<br />

62 e-MOBILIDADE


públicos para além das áreas metropolitanas”,<br />

sublinhou António Torres, para<br />

quem transferir dinheiro para onde já<br />

existem transportes e não transferir para<br />

onde eles não existem, não deixará de<br />

fazer aumentar as assimetrias.<br />

SISTEMAS INTEGRADOS<br />

DE PAGAMENTO DE TRANSPORTES<br />

Nesta conversa, moderada por Nuno<br />

Soares Ribeiro (VTM), participaram<br />

Vítor Santos (Metro Lisboa), Eduardo<br />

Ramos (Via Verde), Miguel Gaspar<br />

(SIBS) e Rui Martins (IMT). E coube a<br />

este apresentar o projeto 1Bilhete.pt,<br />

que tem por objetivo promover a interoperacionalidade<br />

técnica dos sistemas<br />

de bilhética. Não se trata de um bilhete<br />

para utilizar em todo o território, mas<br />

para ser lido em qualquer sistema regional<br />

de transportes. “É o momento para<br />

os operadores e para as autoridades<br />

trazerem ideias novas para o sistema”,<br />

disse.<br />

Vítor Santos disse entender esta evolução<br />

tecnológica nos sistema de pagamento<br />

como mais um motivo de atração<br />

para a utilização do transporte público,<br />

mas...: “Ainda há muita gente que<br />

passa horas para renovar cartões-passe.<br />

Há atrofias, como todos os estudantes<br />

terem que apresentar documento em<br />

como são estudantes, quando o ensino<br />

é obrigatório. Isto não é fomentar o<br />

transporte.”<br />

Eduardo Ramos: “Na Via Verde queremos<br />

proporcionar uma visão universal nos<br />

transportes coletivos, como um acrescento<br />

à nossa oferta, como já fazemos fora de<br />

Portugal, onde tudo é mais lento do que<br />

gostaríamos, pois pensamos em novos<br />

NUNO SOARES RIBEIRO<br />

É o momento para os<br />

operadores e para as<br />

autoridades trazerem ideias<br />

novas para o sistema<br />

modelos, em inovar, mas o problema,<br />

depois é a capacidade de executar.”<br />

Miguel Gaspar acrescentou-lhe algo:<br />

“Uma grande inovação aconteceu em<br />

2004, quando passou a ser possível<br />

carregar os passes no Multibanco.<br />

Desde então, as pessoas querem uma<br />

via verde nos transportes, que ainda não<br />

existe. Só em 2015 se voltou a falar na<br />

bilhética, mas o Metro só a conseguiu<br />

inaugurar no ano passado [pagar título<br />

de ingresso com o cartão bancário].”<br />

MAIS MOBILIDADE<br />

NO TRANSPORTE EXPRESSO<br />

Com o advogado José Luís Esquível<br />

no papel de key speaker e João Sousa<br />

(Figueira de Sousa) como moderador,<br />

a mesa foi composta por Tiago Alves<br />

(Flixbus), Juan Piña (ALSA), Nuno Oliveira<br />

(Gipsyy) e Martinho Costa (Rede<br />

Expressos).<br />

José Luís Esquível historiou o processo<br />

de liberalização do serviço expresso,<br />

que já tem 40 anos, e a abertura, em<br />

2015, ao regime da concorrência, mas<br />

só regulamentado a partir de 2019.<br />

Lançada a discussão, João Sousa pediu<br />

uma primeira reflexão sobre o impacto<br />

da liberalização que trouxe novo<br />

operadores ao setor. Martinho Costa:<br />

“A história é cíclica e agora começamos<br />

a ter alguma proteção aos caminho<br />

de ferro com a eliminação de alguns<br />

viagens aéreas de curta distância e antes<br />

de 1983 tínhamos um protecionismo à<br />

CP feito pelo próprio Estado. Mas nós<br />

sempre defendemos que o mercado deveria<br />

ser aberto, mas essa liberalização<br />

deixou-nos felizes.”<br />

Para um desses operadores, a ALSA,<br />

com vasta experiência em Espanha,<br />

onde ele não está liberalizado, ainda<br />

que haja concorrência, quem desenha a<br />

rede é a própria autoridade, que leva o<br />

transporte onde ele não existe.<br />

Nuno Oliveira está há pouco no mercado,<br />

a trabalhar em segmentos diferente,<br />

dito como de nicho. A sua visão:<br />

“Comecei com a área urbana, e como no<br />

retalho, de onde derivo, este mercado<br />

todos os dias é diferente, daí os preços<br />

diferentes, todos os dias. Fomos os primeiro,<br />

em 2019, a lançar algo diferente<br />

- Cascais-Sintra-Porto. Começámos com<br />

cinco autocarros e o preço dinâmico<br />

atraiu as pessoas. A nível ambiental somos<br />

a solução, o inimigo é o transporte<br />

e-MOBILIDADE 63


EVENTO<br />

Seminário Mobilidade Mais<br />

privado, que coloca 50 mil veículos na<br />

A1 entre Lisboa e o Porto.”<br />

Cavaco Alves, pela Flixbus, da qualidade<br />

do serviço prestado, o preço e a sua<br />

satisfação e pela diferenciação de rotas,<br />

“o grande vencedor tem sido o passageiro,<br />

pelo que o mercado é saudável, com<br />

procura crescente, e grande parte tem<br />

origem no transporte individual.”<br />

PEDRO MOREIRA<br />

O presidente da CP acha<br />

que esta terá um papel muito<br />

relevante na mobilidade em alta<br />

velocidade. “Mas este tem que<br />

ter preço competitivo face aos<br />

outros modos e uma redução<br />

efetiva do tempo de viagem<br />

MAIS MOBILIDADE NA ALTA<br />

VELOCIDADE FERROVIÁRIA<br />

Moderado por Alexandre Portugal<br />

(COBA), a mesa foi ocupada por Alberto<br />

Ribeiro (B-Rail), Acúrcio Santos<br />

(ADFERSIT), David Torres (Alstom),<br />

Miguel Cruz (IP), Paulo Duarte (PFP) e<br />

Pedro Moreira (CP).<br />

O Plano Ferroviário Nacional está aprovado,<br />

há consenso público no investimento<br />

na ferrovia, pelo que as bases estão<br />

lançadas. Face ao novo paradigma,<br />

na necessidade de descarbonização, o<br />

que deve ser feito? A primeiro resposta<br />

foi de Miguel Cruz: “É uma mudança<br />

do nosso sistema de mobilidade e sem<br />

este investimento dificilmente Portugal<br />

alcançará os objetivos da descarbonização<br />

a que se comprometeu.”<br />

“A alta velocidade é um movimento transformador<br />

de um país, estruturante, não<br />

só da economia, mas também para a sociedade.<br />

O avião tem um custo em emissões<br />

de CO 2<br />

dez vezes superior. Quanto<br />

à sustentabilidade, não há comparação.<br />

Mas a alta velocidade tem que ter redes<br />

conectadas até às redes de Metro.”<br />

O presidente da CP acha que esta terá<br />

um papel muito relevante na mobilidade<br />

em alta velocidade. “Mas este<br />

tem que ter preço competitivo face aos<br />

outros modos e uma redução efetiva do<br />

tempo de viagem”, sublinhou.<br />

A Castanho Ribeiro, como operador<br />

privado, foi questionado se teremos<br />

comboios privados a operar em Portugal:<br />

“O cliente é o objetivo final, é preciso<br />

dizê-lo. Mas não temos um plano<br />

de mobilidade em Portugal. O cliente<br />

quer mais que um preço competitivo,<br />

mas como privado ainda não nos deram<br />

direito de acesso. Espanha está mais<br />

à frente, mas em Portugal o Governo<br />

obstaculiza os privados.”<br />

Acúrcio Santos acha que o desafio que<br />

temos pela frente, ter até 2030, um serviço<br />

Lisboa-Porto em 1h15m é, de facto,<br />

estruturante: “Mas é preciso que esse<br />

tempo seja visível. Nos anos 80 pediram-me<br />

para estudar um serviço direto<br />

Lisboa-Porto em 3h e concluímos que<br />

era possível. Foi uma lição. As pessoas<br />

acorreram, mas depois disseram que era<br />

muito tempo. Pediram-nos novo desafio<br />

- 2h15m - e modernização da linha.<br />

Comprámos os Alfa Pendular. Por variadas<br />

razões e inúmeros problemas, sinalização,<br />

passagens de nível, as 300 curvas<br />

do percurso, os pedidos das autarquias.<br />

Chegámos a 2023 e a modernização da<br />

linha não está concluída, nem o Alfa<br />

Pendular realiza o percurso em 2h15m.<br />

Finalmente, este é o desafio. Mas não nos<br />

deixemos envevenar com sub-objetivos.”<br />

Paulo Duarte sintetizou o desejo de<br />

todos os que o antecederam: “É preciso<br />

fazer. Estamos a viver uma janela de<br />

oportunidade absolutamente única.”<br />

64 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 65


EVENTO<br />

Seminário Mobilidade Mais<br />

Transporte público<br />

é a espinha dorsal<br />

têm um valor económico enorme, que<br />

desperdiçamos. Perdemos demasiado<br />

tempo para realizar um pequeno trajeto.<br />

Tudo isto tem custos, pelo que, no seu<br />

todo, é insustentável. Também socialmente<br />

é insustentável. Não nos podemos<br />

orgulhar da forma como ocupamos<br />

o espaço urbano, e de como os cidadãos<br />

vivem aprisionados dentro dos seus<br />

carros. Aprisionados é mesmo o termo,<br />

isolados como numa cela. Temos de<br />

construir a liberdade de chegar a horas<br />

e rapidamente onde quer que necessitemos<br />

ir.”<br />

Frederico Francisco manifestou-se<br />

muito animado pelo desenvolvimento<br />

futuro da ferrovia, “pois o domínio do<br />

transporte individual esmaga todos os<br />

outros modos de mobilidade. Foi o<br />

que consentimos nos últimos 50 anos<br />

e Portugal está muito atrasado nesse<br />

caminho.”<br />

Admitiu as culpas do Estado na degradação<br />

do serviço público ferroviário e<br />

destacou dois casos notórios: “Sendo<br />

essencial em todas as escalas metropolitanas,<br />

falta ainda uma boa integração<br />

entre os modos pesado e ligeiro. E<br />

faltam as linhas interiores, ou a linha do<br />

Oeste, que não tenho pejo em dizer que<br />

é um serviço vergonhoso. Estamos a<br />

fazer um investimento grande para podermos<br />

dizer que é um serviço decenda<br />

mobilidade<br />

orge Delgado e Frederico Francisco,<br />

respetivamente secretários<br />

de Estado da Mobilidade Urbana<br />

e das Infraestruturas, abriram e<br />

fecharam o seminário, manifestando-se<br />

ambos férreos adeptos<br />

do modelo de transformação da sociedade<br />

assente nos critérios da sustentabilidade<br />

e da transição energética.<br />

Jorge Delgado escusou-se a enumerar<br />

os factos e os números que impõem<br />

tal mudança, optando por frisar que<br />

“fazemos excessivos movimentos, são<br />

demasiados os veículos individuais e,<br />

destes, é excessivo o número dos que<br />

se fazem mover por fontes poluentes.<br />

Temos, portanto, de agir, e de transformar.”<br />

Em outra passagem da sua<br />

alocução explicou os custos associados<br />

ao atual panorama: “Não só ambientalmente,<br />

como do ponto de vista<br />

económico, pois o tempo perdido nas<br />

deslocações, nos congestionamentos,<br />

Não nos podemos<br />

orgulhar da forma<br />

como ocupamos o<br />

espaço urbano, e de<br />

como os cidadãos<br />

vivem aprisionados<br />

dentro dos seus carros<br />

te.” A terminar, disse à assistência que<br />

“a alta velocidade é incontornável, que<br />

permita fazer aumentar a capacidade e<br />

que contrarie o fraco desempenho que<br />

a ferrovia tem face às linhas aéreas entre<br />

Lisboa e o Porto. Há consenso para investir<br />

na ferrovia e a ordem de grandeza<br />

para tal investimento estimar-se-á em<br />

mil milhões de euros por ano.”<br />

Jorge Delgado acredita que “teremos<br />

melhor mobilidade quando se conseguir<br />

atrair cada vez mais pessoas para<br />

o transporte público. É essa a espinha<br />

dorsal da mobilidade, uma alteração<br />

que não se faz por decreto, obrigando<br />

as pessoas a fazê-lo como nós queremos.<br />

Faz-se através de uma boa oferta,<br />

com boas infraestruturas, com transportes<br />

regulares, pontuais, de qualidade,<br />

com segurança e conforto e com preços<br />

acessíveis.”<br />

Há consenso para investir<br />

na ferrovia e a ordem<br />

de grandeza para tal<br />

investimento estimar-se-á<br />

em mil milhões de euros<br />

por ano<br />

66 e-MOBILIDADE


Preparados para um futuro<br />

multitecnológico e sustentável<br />

FOR A<br />

BETTER<br />

LIFE<br />

Descubra<br />

o mundo<br />

e-MOBILIDADE 67<br />

da Irizar

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