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Revista Curinga Edição 13

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Marina Macedo alisou o

Marina Macedo alisou o cabelo durante 15 anos. Há dois anos seu cachos estão totalmente livres de qualquer química. Assumir seu cabelo, porém, não foi uma tarefa fácil. O processo, além de demorado, exigiu muita dedicação. Para sofrer menos bullying na escola sempre teve que alisar e fazer penteados com o cabelo preso que, como ela diz, “pioravam mais a situação”. Desde criança sempre escutou que o bonito é o magro, é o loiro e é o liso. A pressão foi tão grande que não existia muito espaço para pensar em deixar de fazer a chapinha, “principalmente quando a raiz crescia”, acrescenta. A mudança no visual veio por conta de um trauma chamado “escova progressiva”. “Eles passam um produto horroroso no seu cabelo, firmam ele diversas vezes com a chapinha, o salão fica todo branco com uma fumaça altamente toxica e tudo para o cabelo ficar esticado e opaco. Porque o resultado não é bonito, você realiza esse processo todo e seu cabelo fica ressecado, com pontas duplas e nem um pouco saudável”. A partir desse momento Marina decidiu que não queria mais se submeter a esses processos, que no final não a deixavam satisfeita. Ela conta que a fase de transição é a pior e que agora todos os produtos que utiliza em seu cabelo são orgânicos, na sua maioria indicados por blogs, comunidades e sites. Hoje em dia ela diz que se aceita e que gosta de se olhar no espelho e dizer “Essa sou eu, o meu cabelo é desse jeito, bonito e saudável.” Beleza e preconceito Em seu artigo “Cabelo de Preto - Resistência e afirmação da ancestralidade” , o historiador e teólogo Walter Passos fala da repressão histórica a qual as negras são submetidas. “As mulheres negras são o alvo discriminatório preferível, antes mesmo da natividade. Os estereótipos e adjetivações são diversos desde o momento que as africanas prisioneiras de guerra foram retiradas do seu continente”. Exaltando a beleza negra e transformando o preconceito em lição de vida, a educadora Raissa Rosa criou em Viçosa o projeto Pérolas Negras. Utilizando como base a Lei 10.639/03, que estabelece como obrigatório o estudo da cultura africana e afro brasileira nas escolas publicas e particulares, o projeto procura responder a um dos principais desafios que se apresenta para os afro-brasileiros: a auto-estima, uma vez que se verifica na sociedade brasileira a desvalorização da história do negro. Através de oficinas temáticas, como a confecção de turbantes, oficinas de maquiagem, culinária, rodas de conversa, ensaios fotográficos e tratamentos para o cabelo, o projeto valoriza a cultura negra. O projeto faz com que aumente a conscientização das meninas que Raissa e sua equipe ajudam, no que diz respeito a importância da mulher negra na formação do país. “Para as meninas, é de extrema importância ter mulheres negras de referência no desenvolvimento do projeto, mulheres que já sentiram na pele o preconceito racial e a ditadura da beleza, mostrando a elas o valor da resistência e da personificação da visibilidade por trás dos cabelos crespos.”

Resistência e cultura O estudante Marcelo Vini, 20 anos, se orgulha muito de seu topete. Desde que começou a fazer mudanças em seu cabelo, sua auto-estima aumentou bastante. O estilo afro espetado pra frente chama bastante atenção das pessoas que passam na rua, o que não o incomoda. Ele acha graça inclusive, principalmente por sempre se empolgar muito com os penteados, se inspirando muitas vezes em cantores de sertanejo. “Sempre tive complexo de patinho feio, esse corte indiretamente me forçou a ser mais cuidadoso comigo mesmo. Me olho muito mais no espelho e fico feliz por isso, me sinto mais jovem e atual e mais livre por poder aparentar como quero”, vibra. Marcelo diz que é muito importante que cada um assuma a personalidade que tem desejo, principalmente os homens que ficam envergonhados. ”Infelizmente as pessoas ainda tem pensamento muito conservador. Elas precisam se acostumar e aceitar melhor com a diversidade, até porque isso não é sinônimo de bagunça nem desunião, podemos ser unidos sendo diferentes.” Segundo o comediante estadunidense Chris Rock, em seu documentário Good Hair (2009), existe uma convenção social de que quanto mais “relaxado” e amansado o cabelo, mais bonito ele é. Os cremes de alisamento possuem em sua base soda cáustica e amônia. A inserção destes produtos no mercado não traz a preocupação dos efeitos colaterais que estes podem trazer a saúde daqueles que fazem seu uso, o importante é criar no individuo a necessidade do consumo e gerar lucro. No Brasil, 52% das mulheres são auto declaradas negras. E ainda assim a supremacia do cabelo liso e da pele clara está fortemente enraizada na cultura do país. A pressão colocada sobre um estereótipo ainda repreende muitas dessas mulheres dependentes da química, movimentando por ano cerca de R$7 bilhões, de acordo pesquisa da revista Exame. Certamente essas cifras seriam menores se mais pessoas fossem autênticas, valorizando a genética e lutando contra o preconceito. Para o Movimento Afro, o cabelo crespo e sua naturalidade sobressaem aos padrões de beleza ocidentais para se afirmar como instrumento de resistência e cultura. Na busca de direitos, cabelo é identidade, forma de expressão e é também um símbolo de respeito. Me olho muito mais no espelho e fico feliz por isso, me sinto mais jovem, atual e mais livre por poder aparentar como quero Marcelo Vini CURINGA | EDIÇÃO 13 31

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