A cidade e as serras - a casa do espiritismo

acasadoespiritismo.com.br

A cidade e as serras - a casa do espiritismo

-Já V. Exª vê... Muita miséria! Até lhe chove lá dentro.

E, no pedaço de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha úmida

reluzia, da chuva pingada de uma telha rota. A parede, coberta de fuligem, das

longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E aquela penumbra

suja parecia atulhada, numa desordem escura, de trapos, de cacos, de restos de

coisas, onde só mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e pôr

cima, pendurado dum prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote

escarlate.

Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou abstraidamente:

-Está bem, está bem...

E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto

Silvério decerto revelava à rapariga, a presença augusta do “fidalgo”, porque a

sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:

-Ai! Nosso Senhor lhe dê muita boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!

Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos

colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos

trêmulos a torturar o bigode, e murmurava:

-É horrível, Zé Fernandes, é horrível!

Ao lado, o vozeirão do Silvério trovejou:

-Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!

Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso

pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que delas, como

de Deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto,

para quem ele mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela

miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só

soube sorrir, murmurar o seu vago: “Está bem, está bem...” Fui eu que dei ao

pequenito um tostão, para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como

ele, com o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa

magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo as

mãos, e de lhe gritar:

-Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!...

-E nós vamos almoçar – lembrei eu olhando o relógio. – O dia ainda vai

estar lindo.

Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso, e a

grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que

as levava, despejadas e rotas, para um canto escuso do céu.

Então recolhemos lentamente para casa, pôr uma vereda íngreme, que

ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e chalrando.

De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera

largamente, reluzia consolada.

Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre um

socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira:

-Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na Quinta.

115

More magazines by this user
Similar magazines